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XVII Congresso Nacional de Linguística e Filologia 139

GRAMÁTICA HISTÓRICA E MUDANÇA LINGUÍSTICA


NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

José Pereira da Silva (UERJ)


pereira@filologia.org.br

1. Apresentação e síntese do minicurso

Nesta oficina, pretende-se demonstrar que a gramática histórica não é coisa distante
no tempo nem no espaço, mas contínua e persistente, tanto geográfica quando cronologi-
camente.

Relembrados de que a história não parou e que a língua só existe enquanto, quando
e onde houver uma comunidade de usuários que se comuniquem por ela, os brasileiros es-
tão sendo conscientizados de que o português brasileiro existe e tem evolução própria, as-
sim como a língua de qualquer comunidade (país, nação, categoria profissional ou nível
sociocultural), com as peculiaridades que lhe são próprias.

Neste momento, em que a diacronia linguística está mais valorizada e se toma


consciência de sua importância, outras especialidades pertinentes, como a crítica textual
(preparando textos fidedignos para documentação de fases anteriores da língua) e a socio-
linguística (orientando a política linguística e pedagógica), desenvolvem novas reflexões
e atividades.

Essa contribuição múltipla está sendo utilizada no preparo de manuais didáticos pa-
ra auxiliar os professores já formados quando essa realidade linguístico-pedagógica co-
meçou a tomar corpo entre nós. Rosa Virgínia, Ataliba de Castilho e Marcos Bagno, as-
sim como Rosa Borges e Rita Queiroz, além de muitos outros dedicados pesquisadores,
vêm mudando a realidade do ensino e dos estudos linguísticos e filológicos no Brasil,
mostrando com reflexões e com documentos, o quanto e como a língua muda com o tem-
po.

O grupo da geolinguística, com líderes regionais em diversos pontos do país, em


torno do projeto do Atlas Linguístico do Brasil (com Suzana Alice Marcelino e Jacyra
Andrade Mota), vem mostrando a variação linguística com eficiência exemplar, apesar
das dificuldades atinentes ao método, completando este quadro dos estudos da diacronia
da língua portuguesa nessas localidades.

A evolução da língua continua, aqui e agora, como existiu no passado e continuará


no futuro.

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2. História interna (ou gramática histórica) e história externa

Na tradução de Mário Eduardo Viaro do livro O Português Brasileiro: Formação e


Contrastes, Volker Noll atribui a Saussure a distinção que hoje se faz entre “os elementos
internos e os elementos externos da língua, o que reflete também o fato de os idiomas
possuírem uma história interna e uma história externa”, lembrando que é a história interna
que “afeta o sistema e as mudanças desse sistema”, enquanto a história externa trata dos
“eventos históricos e sociológicos suscetíveis de influírem na evolução da língua”.
(NOLL, 2008, p. 261).

3. O dialeto brasileiro

Além de haver grande parte de fatos linguísticos conservadores no português brasi-


leiro que já se modificaram no português europeu, vale destacar aqui (porque estamos tra-
tando de evolução e mudança) o que nos apontou em seu artigo “Mudança fônica no por-
tuguês brasileiro: Introdução”, o professor Dermeval da Hora (2010, p. 39):

São [aspectos] inovadores a realização exclusiva de vogais médias fechadas /e/ e /o/ antes de
nasal, quando tônicas (vênia, Antônio); a elevação e até mesmo redução do /e/ em clíticos (me, te,
se, de), a vocalização da lateral em final de sílaba (anel, filtro), a ditongação em sequências v/S/
(mesmo, luz, atrás, três, pés), a epêntese em certos grupos consonantais (rit[i]mo, ab[i]sorver), a
palatalização das oclusivas alveolares antes de /i/ (sentir, pedir), a posteriorização ou até mesmo
apagamento da vibrante pós-vocálica (fazer, pegar, doutor). [Volker] Noll (2008, [p. 75-76])
acrescenta a esse quadro a vocalização da lateral palatal (folha > foia, mulher > muier) e a assi-
milação total do /d/ após /N/ (fazendo > fazeno), traços populares do português brasileiro. 19

No livro Ensaios de Sócio-História do Português Brasileiro, Rosa Virgínia Mattos


e Silva (2004a, p. 44) lembra que é por motivação interna que se desenvolvem atualmente
os estudos histórico-diacrônicos no Brasil, a questão do “português brasileiro, língua ofi-
cial majoritária de nosso país”.

Fazem-se, nos tempos que correm no Brasil, estudos histórico-diacrônicos com várias orien-
tações: na direção da sócio-história ou história social; da criolística; da sociolinguística no cha-
mado tempo real; da sintaxe diacrônica gerativista; das fonologias não-lineares; do descritivismo
interpretativo, necessário como organizador de dados do passado e essencial para análises teóricas
subsequentes, e continua a fazer-se crítica textual de documentos do passado, base também neces-
sária como fonte para a recolha de dados confiáveis para estudos histórico-diacrônicos. (Idem,
ibidem)

Nos seus Fundamentos Histórico-Linguísticos do Português do Brasil, livro con-


cluído nos seus últimos dias de vida e publicado postumamente, Sílvio Elia deixou regis-

19Para iniciar o estudo gramatical sistemático do português brasileiro atual, sugerimos a leitura dos livros de Mário Al-
berto Perini (Gramático do português brasileiro), Ataliba Teixeira de Castilho (Nova gramática do português brasileiro) e
Ataliba Teixeira de Castilho e Vanda Maria Elias (Pequena gramática do português brasileiro).
Do ponto de vista contrastivo, algumas obras devem ser vistas para maior aprofundamento do estudo da língua portu-
guesa, entre as quais apontam-se as seguintes: de Volker Noll, traduzido por Mário Eduardo Viaro (O português brasilei-
ro: formação e contrastes), de Clóvis Monteiro (Português da Europa e português da América: aspectos da evolução do
nosso idioma), de José Jorge Paranhos da Silva (O idioma do hodierno Portugal comparado com o do Brasil) e o de
Cândido Jucá filho (Língua nacional: As diferenciações entre o português de Portugal e o do Brasil autorizam a existên-
cia de um ramo dialetal do português peninsular?) entre outros.

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trado que, apesar de não terem produzido os resultados esperados, as reivindicações de


um estudo aprofundado do português brasileiro não são recentes:

A língua, produto coletivo, teria, pois, suas raízes na alma popular ou nacional. José de Alen-
car chegou a perguntar retoricamente: “O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuti-
caba pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a
pera, o damasco e a nêspera?” (no prefácio a Sonhos d’Ouro, 1872). E em 1888 escrevia Macedo
Soares no prólogo do seu então incompleto Dicionário Brasileiro: “Já é tempo dos brasileiros es-
creverem como se fala no Brasil e não como se escreve em Portugal”. (ELIA, 2003, p. 14)

E é importante levarmos em conta as palavras encorajadoras de Ataliba Teixeira de


Castilho, em sua Nova Gramática do Português Brasileiro, lembrando-nos de que

A crescente importância do Brasil no cenário internacional mostra claramente que chegou a


hora e a vez do português brasileiro. Chegou a hora, também, para que se trace uma vigorosa polí-
tica linguística para o português brasileiro, ancorada em sua continuada documentação e análise,
no estudo de sua história, na melhoria de seu ensino como língua materna e numa grande cruzada
em favor da difusão do português brasileiro como língua estrangeira, em que Portugal tem reinado
soberano com seu Instituto Camões. A hora é esta. Vamos ajudar os portugueses a difundir a lín-
gua. (CASTILHO, 2010, p. 194)

4. A romanização da Península Ibérica

Falando da variação como força centrífuga na evolução linguística, Marcos Bagno,


em sua Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, lembra que

O poder nivelador da escolarização provoca em muitas pessoas a substituição de usos linguís-


ticos mais estigmatizados por outros que não sofrem discriminação por parte das camadas mais
letradas da população. Com isso, as pessoas que receberam educação formal e têm origem em
camadas sociais desfavorecidas apresentam modos de falar diferentes dos de seus pais e demais
familiares analfabetos ou semianalfabetos. Embora exista, da parte de muitos linguistas e educa-
dores, a persistente declaração de que a escola não deve ‘substituir’ um modo de falar por outro,
essa substituição decorre naturalmente da vontade do indivíduo que, ao se ver discriminado (junto
com sua comunidade) por seu modo de falar, procura fugir dessa ameaça sociocultural se apropri-
ando das variantes linguísticas de prestígio. (BAGNO, 2011, p. 129)

Essas e outras causas fizeram tão rápida difusão da fala e da civilização romanas na
Península Ibérica que, já no século I da nossa era, segundo o testemunho de Estrabão,
geógrafo grego que viajou a bacia do Mediterrâneo, “os turdetanos [povo do interior da
Península Ibérica ] e os ribeirinhos do Bétis [rio que hoje se denomina Guadalquivir] ado-
taram de todo os costumes romanos e até já nem se lembram de sua própria língua.” (ES-
TRABÃO, apud SILVA, 2010, p. 20-21)

Na Gramática Pedagógica de Bagno, podemos ler que

A mudança linguística é um fenômeno complexo que sempre tem desafiado os estudiosos. A


primeira reação foi a que comparava a mudança a “ruína” e a “corrupção” da língua. Essa atitude
permanece muito enraizada até hoje na maioria das sociedades. Mas já faz um bom tempo que a
pesquisa científica acerca da mudança linguística abandonou essas concepções e tem oferecido
respostas mais racionais e interessantes para a pergunta sobre como e por que as línguas mudam.
(BAGNO, 2011, 123)

Com o que já sabemos até o momento, é possível dizer que a mudança linguística é um pro-
cesso social e cognitivo. Isto significa que dela participam fatores socioculturais, decorrentes das
dinâmicas de interação dos indivíduos e das populações de uma dada comunidade, e fatores soci-

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ocognitivos, derivados do funcionamento do nosso cérebro quando processamos a língua que fa-
lamos (e fazemos isso a cada segundo), processamento que implica não só o indivíduo, como
também os demais com quem ele interage. (BAGNO, 2011, 123-124)

Era apenas uma única língua latina, mas havia o latim literário, escrito, cheio de
variações estilísticas; e o latim vulgar, falado, com vida própria, livre dos princípios rígi-
dos de fonética, morfologia e sintaxe. É essa língua falada que foi se tornando cada vez
mais rica e complexa, com as influências recebidas das novas conquistas do Império.

Se uma comunidade é constrangida a falar outra língua diferente da sua, o contato


dessas duas línguas provocará mudanças principalmente na segunda língua, devidas à ex-
posição mais ou menos intensa a ela, implicando em uma aprendizagem com maior ou
menor grau de proficiência. “O tipo de constrangimento que leva uma população a tentar
se apoderar de uma língua diferente também incide nos processos de mudança”. (BAG-
NO, 2011, p. 123)

Vale a pena acrescentar aqui uma lição de José Carlos de Azeredo em sua Gramá-
tica Houaiss da Língua Portuguesa, quando ensina que

... no papel de meios correntes de expressão e de comunicação, todas as variedades de uma língua
são dotadas de estrutura complexa em qualquer fase de sua existência histórica, funcionalmente
adequadas aos objetivos interacionais de seus usuários, e permanentemente adaptáveis às novas
necessidades de expressão da comunidade.

A mudança na língua é causada por fatores diversos, mas é certo que nenhum deles opera in-
dependentemente e que, para que atuem e produzam seus efeitos, é indispensável uma condição:
que a língua esteja em uso e integrada no cotidiano dos que a falam. Uma língua não muda ‘de
vez em quando’, mas continuamente. Algumas mudanças podem ser notadas em curtos períodos,
como o surgimento de certas palavras e o desuso de outras; mas mudanças coletivas de pronúncia
e de construções gramaticais são bem mais lentas e praticamente imperceptíveis ao longo da vida
de uma pessoa. (AZEREDO, 2008, p. 61)

5. O galego-português e a fixação do português moderno

A língua usada em Portugal no período arcaico ainda não é o português propria-


mente dito, mas o galego-português, cujo domínio se estendeu da Galiza ao Algarve. Pos-
teriormente, as diferenças dialetais foram-se acentuando e as duas línguas ganharam for-
mas próprias, até que no começo do século XVI, com a publicação das duas primeiras
gramáticas e com a publicação de Os Lusíadas, o português adquiriu as linhas definitivas.
(SILVA, 2010, p. 32)

No tópico sobre diacronia na sincronia, Marcos Bagno lembra que a língua evolui
diferentemente em cada comunidade e que essas diferenças dependem da história de cada
uma delas. Por isto é previsível que em certas comunidades “as pessoas falem de um mo-
do que se distancia grandemente das variedades urbanas e que empreguem palavras e ex-
pressões antigas que já não são empregadas pelos falantes urbanos, além de também usa-
rem formas novas, desconhecidas das demais comunidades”. (BAGNO, 2011, p. 121)

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6. Fontes de estudo da língua falada em passado remoto

Até mesmo de passado relativamente recente, é impossível o acesso a documenta-


ção sonora de uma língua, porque os processos de registro sonoros surgiram no final do
século XIX. Por isto, os diálogos do teatro romano, por exemplo, constituem fonte ines-
timável para o estudo das tendências do latim falado. Imitando a fala do povo, assim co-
mo ocorria no passado, certos autores procuram reproduzir a língua falada de sertanejos,
imigrantes e de pessoas incultas, em revistas, comédias ou em farsas.

As mudanças linguísticas ocorrem, naturalmente, entre as gerações de falantes, mas


também se processa através da variação entre as classes sociais. Normalmente, uma for-
ma inovadora emerge na fala dos indivíduos das classes mais baixas da sociedade e vai
subindo na escala social até ser incorporada pelos falantes das camadas mais altas.

Essas mudanças linguísticas só se completam quando se instalam nas camadas mais


altas da comunidade, momento em que a inovação passa a ser a forma de prestígio e a
forma antiga é que começa a ser desprestigiada.

É muito comum que a forma inovadora, quando ainda está restrita aos falantes de menor pres-
tígio social, sofra uma avaliação negativa por parte dos grupos socioeconômicos dominantes.
Quando essa avaliação deixa de ser negativa, é porque parou de ser condenada como “erro” e se
tornou plenamente aceita (BAGNO, 2011, p. 132)

7. Tendência para o uso das formas perifrásticas

A tendência para o uso das formas perifrásticas correspondia ao desejo de expres-


sar de modo claro as relações que a língua clássica exprimia muito concisamente por
meio de sínteses gramaticais. (SILVA, 2010, p. 44)

Isto continua na língua portuguesa, como em outras línguas românicas e não româ-
nicas, como o francês e o inglês. Por isto é que as formas sintéticas, marcadas pela flexão,
começam a ser substituídas pelas formas analíticas, em que as categorias de número e
pessoa passam a ser marcadas pelos pronomes pessoais. Exemplos: falavam > eles falava,
falamos > nós fala ou a gente fala.

8. Alterações fonéticas ou metaplasmos

Seja qual for o metaplasmo, sempre se deve ter em conta que a transformação que
se verifica em um fonema é:

a) inconsciente e, portanto, não é efetuada deliberadamente. Por exemplo, quando al-


guém, entre nós, diz ocê, em lugar de você, não deliberou suprimir o fonema inicial do
pronome e nem perceberá que o faz.

b) gradual, resultando de uma série de transformações sucessivas e, às vezes, muito len-


tas. Por exemplo, esse referido pronome você resulta da transformação de vossa mercê >
vossemecê > vosmecê > vossê e, finalmente, você, que já está se modificando para ocê e
cê, na língua oral e oralizada.

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8.1. Apócope

Apócope é o desaparecimento de fonema no final da palavra. Note-se que algumas


apócopes são encontradas apenas em expressões estereotipadas.

No Brasil, o tratamento dado ao [r] de final de palavra se faz preferentemente por


apócope, isto é, por queda da consoante: [kã’ta], [be’be], [su’bi], [profe’so] etc. Uma vez
que a alternância da sílaba tônica (junto, em alguns casos, com a alternância de vogal alta
e vogal baixa) já permite distinguir o infinitivo do verbo conjugado, o [r] pode ser dispen-
sado para a identificação do infinitivo. Compare: presente [‘abri] – infinitivo [a’bri], pre-
sente [‘fala] – infinitivo [fa’la], presente [‘kãta] – infinitivo [kã’ta], presente [‘ovi] – infi-
nitivo [o’vi], presente [‘sabi] – infinitivo [sa’be], presente [‘vivi] – infinitivo [vi’ve]”.
(Cf. BAGNO, 2011, p. 148-149, transcrito com adaptação).

Mário Alberto Perini, tratando da apócope do /R/ final também lembra que quando
ele é “parte de uma forma verbal, é normalmente omitido, de maneira que partir e parti
se pronunciam da mesma maneira”, acrescentando que

Essa omissão não é característica da fala “inculta”, mas é universal no Brasil, em todas as re-
giões e todas as classes sociais. O r final só é pronunciado em falas muito formais (como em um
discurso em público), ou quando citando diretamente a palavra, como em o verbo amar.

Quando não pertence a uma forma verbal, o r final no Sul e Sudeste é pronunciado, mas no
Nordeste é geralmente omitido; assim, amor tem r final no Sul, mas termina em vogal no Nordes-
te. (PERINI, 2010, p. 344)

8.2. Epêntese

Epêntese é o desenvolvimento de fonema no interior da palavra.

A epêntese possui uma modalidade que é o suarabácti – intercalação de uma vogal


para desfazer um grupo de consoantes: planu > prão > porão, blata > brata > barata,
advogado > adevogado, obter > obiter, optar > opitar.

Segundo Bagno (2011, p. 153), “A epêntese é muito frequente no português brasi-


leiro para a eliminação de hiatos em muitas variedades: boa [‘boa], coroa [co’roa], à
toa {a’toa] etc. [...]”.

É frequentíssima a epêntese do [i] no português brasileiro entre uma vogal e um [s] em final
de palavra, pronúncia que não sofre estigmatização; ao contrário, é tão corrente que os falantes
das variedades que não a fazem são logo reconhecidos como provenientes de determinadas regi-
ões (Minas Gerais, Rio Grande do Sul, por exemplo): arroz [a’hois], dez [dis], fiz [fiis], mas
[mais], nós [nis], pôs [pois], voz [vis]. (Idem, ibidem)

Como hiperurbanismo também ocorre o acréscimo de uma semivogal ao numeral


doze, por exemplo, pronunciado como douze por algumas pessoas, no Rio de Janeiro.

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8.3. Paragoge

Paragoge é o desenvolvimento de fonema no final da palavra. Em algumas varie-


dades menos difundidas, principalmente em Minas Gerais, ocorre este acréscimo de vogal
à consoante final, como em [sli] para sol; [pa’peli] para papel; [mali] para mal etc. (Cf.
BAGNO, 2011, p. 148).

8.4. Vocalização

Vocalização é a passagem de uma consoante a semivogal.

Mesmo sendo reduzido o número de consoantes que podem ocorrer em final de palavra –
apenas três: [l], [r], [s] [...] –, elas sofrem forte pressão para não ocupar esse lugar ou, então, para
se transformar em vogais. O [l] na grande maioria das variedades do português brasileiro já se vo-
calizou completamente em []: mal [ma], mel [m], mil [mi], gol [go], sul [su]. (BAG-
NO, 2011, p. 148).

No interior de Minas Gerais ainda ocorre a vocalização do -r pós-vocálico em pala-


vras como porco > poico, corpo > coipo, apesar de ser bastante restrita e discriminada. É
provável que se trate de uma evolução do r retroflexo do dialeto caipira.

8.5. Crase

Quando a crase se dá pela junção da vogal final de uma palavra com a vogal inicial
de outra. Na formação de expressões compostas, recebe o nome especial de sinalefa: ou-
tra + hora > outrora, de + este > deste etc.

Veja neste causo mineiro: galinhassada < galinha assada, prassá < para assar.

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8.6. Nasalização

Nasalização é a transformação de um fonema oral em nasal. Pode ocorrer em virtu-


de da influência de uma consoante nasal próxima (m, n), ou por analogia.

Em sua Gramática Pedagógica, Marcos Bagno diz que

A pronúncia [‘lua], com seu u nasal, representa a conservação de uma pronúncia medieval,
atestada até por escrito, com til sobre u e tudo, em textos provenientes dos séculos anteriores à
chegada dos portugueses ao Brasil. Na formação do galego, o n intervocálico de palavras como
lana, luna, leona, corona, arena sofreu sincope, isto é, ‘caiu’, mas antes de desaparecer transferiu
seu traço nasal para a vogal anterior a ele; assim, encontramos em textos medievais as formas lãa,
lua, leõa, corõa, area. Mais tarde, os hiatos resultantes da queda do n vão ser eliminados, como
no caso de lã e areia, ou vão permanecer, perdendo no entanto, a nasalidade: lua, leoa, coroa.
Como é fácil perceber, os falantes que dizem [‘lua] conservam uma pronúncia que sem dúvida es-
tava presente na fala dos primeiros colonizadores portugueses. Embora a pronúncia [‘lua] esteja
hoje restrita a comunidades rurais do interior do Nordeste [principalmente], nessa mesma região,
nas zonas urbanas e na fala de cidadãos mais letrados, é comum ocorrer pronúncias como [‘ua]
(uma), [‘vea] (venha), [‘tea] (tenha), como hiato, e que conservam a pronúncia anterior ao surgi-
mento da consoante [], o que pode levar a crer que essa era a pronúncia vigente entre os primei-
ros portugueses que chegaram por aqui. (BAGNO, 2011, p. 119-120):

Podemos dizer, neste caso, que essa realização nasalizada não corresponde a uma
alteração fonética, mas a manutenção de um estágio anterior, que resistiu na forma do
português medieval ou galego-português.

8.7. Desnasalização

Desnasalização é o desaparecimento da nasalidade de um fonema. Por exemplo, na


formação do português, é frequente, em certa época, a queda do n intervocálico, que
transmite a nasalidade à vogal anterior; nasalidade esta que pode desaparecer depois.

Veja em Bagno (2011, p. 155), No tópico que trata de economia linguística, mais
especificamente, da desnasalização das vogais e ditongos nasais postônicos e monotonga-
ção desses ditongos, Marcos Bagno lembra que, assim como caiu a consoante nasal que
marcava o acusativo singular no latim, a pronúncia de uma nasalidade depois da sílaba
tônica seguiu essa tendência da economia linguística, de modo que é muito comum o de-
saparecimento dessa nasalidade, como acontece na pronúncia de palavras como cantaram
[kã’tarãu] > [kã’taru]; falaram [fa’larãu] > [fa’laru]; fizeram [fi’zerãu] > [fi’zeru]; homem
[‘õmi] > [‘õmi]; ontem [‘õti] > “õnti]; bobagem [bo’bai] > [bo’bai] etc.

8.8. Palatalização

No caso da palatalização, os mesmos falantes que pronunciam [‘lua] apresentam


uma inovação, que é “a pronúncia [i] para o que escrevemos com lh, como trabalho que
esses falantes pronunciam [tra’baiu]” (MAGNO, 2011, p. 120), na mesma direção que
tomou o espanhol andaluz e peruano, e o francês.

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Essa e outras transformações ocorridas em outras línguas mostram que há razões de


ordem articulatória para a evolução da consoante palatal []. Por isto, pode-se concluir
que “A pesada carga de discriminação que incide no Brasil sobre os falantes que pronun-
ciam [tra’baiu], [‘paia]. [a’beia] etc. é de ordem estritamente social e nada tem a ver com
alguma suposta incapacidade dessas pessoas de falar direito”. (Idem, ibidem)

8.9. Monotongação ou redução

É a simplificação de um ditongo em uma vogal, como em lucta > luita (arc.) > luta,
auricula > orelha, graixa > graxa, cuitelo > cutelo, luito > luto e pluvia > chuvia > chuva.

No caso da variação linguística que ocorre atualmente em palavras como ameixa >
amexa, beijo > bejo, queijo > quejo, cabeleireiro > cabelerero, cheirei > cherei e beirada >
berada, onde os ditongos são monotongados, pode-se concluir que é a presença de uma
consoante palatal ( e ) ou de uma vibrante simples (r) que a favorece, visto que “Diante
de outras consoantes ou em final absoluto de palavra, o ditongo [ei] conserva sua semivo-
gal”. (BAGNO, 2011, p. 130)

8.10. Rotacismo

O rotacismo consiste na substituição da consoante lateral [l] pela vibrante [r], nos
encontros consonantais bl, cl, gl, pl, como se pode ver em blata > brata > barata, clavu
> cravo, gluten > grude, plaga > praia, platta > prata, plica > prega etc.

Esta variação é das mais estigmatizadas no português brasileiro, apesar de estar


presente nos melhores clássicos de nossa literatura. Assim, “Na obra de Camões (século
XVI), encontramos frauta, frecha, ingrês, pranta, pruma etc.” (BAGNO, 2011, p. 156),
assim como em muitos outros autores.

9. A ortografia e a fonética histórica

No livro Português Brasileiro?, Marcos Bagno nos alerta para o fato de que erro de
ortografia não é erro linguístico, mas erro de escrita, porque orografia, rigorosamente, não
faz parte da gramática, já que a língua se realiza na forma oral. A escrita é mera tentativa
de representar a língua, inclusive, com regras que não representam a sua oralização.

A ortografia foi um artifício inventado pelos seres humanos para poder registrar por mais
tempo as coisas que eram ditas. A ortografia oficial, em todos os países, é uma decisão política, é
uma lei, um decreto assinado pelos que tomam as decisões em nível nacional. Por isso, ela pode
ser modificada ao longo do tempo, segundo critérios racionais e mais ou menos científicos, ou se-
gundo critérios sentimentais, políticos e religiosos. (BAGNO, 2002, p. 28)

Agora, com o novo acordo ortográfico da língua portuguesa que está sendo imple-
mentado, algumas simplificações foram importantes, como a eliminação do trema, do
acento nos hiatos finais oo(s), eem e alguns outros que não se justificavam.

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Vale apena lembrar, no entanto, que também pode acontecer de a ortografia ser
causa de alguma evolução fonética, apesar de serem raríssimos os casos em que isto ocor-
re. Os dois casos mais comuns que costumam ser apontados são a reconstituição fonética
do grupo [gn], que já se havia evoluído para [n] ao final da Idade Média, como se pode
ver nas principais obras do início do século XVI (digno > dino, benigno > benino, signo >
sino etc.) e o desenvolvimento de uma consoante /m/ na formação do feminino de pala-
vras terminadas em [u], de modo que

... a pronúncia da consoante m na palavra uma é decorrência exclusiva de sua forma escrita: sendo
o masculino um [u], o feminino natural é [‘ua], como é a pronúncia corrente entre falantes de al-
gumas variedades regionais (e também em galego), mas por caprichos da ortografia, o feminino
se formou com o acréscimo de um -a à forma do masculino, em que o m é só um índice de nasali-
dade da vogal e não uma consoante. Disso resultou a pronúncia [‘uma], calcada na ortografia.
Como se pode ver, a fixação da escrita, mesmo agindo como força centrípeta contra as mudanças,
acaba provocando mudanças imprevistas. (BAGNO, 2011, p. 126-127)

10. Diferenças sociais nas formas divergentes

As diferenças sociais resultaram do interesse que as classes cultas sempre mostra-


ram por um vocabulário mais rico e mais próximo das origens da língua. Era bastante na-
tural que um letrado, um jurista, fosse buscar no latim o vocábulo legítimo (de legitimus)
para indicar aquilo que está de acordo com a lei, uma vez que a evolução dessa palavra,
quando da sua primeira entrada na Península, resultou em lindo, palavra que não têm,
nem de longe, o sentido de legítimo. O mesmo aconteceu com centenas de outras palavras
e só assim se explica que ao lado de formações populares como olho, agosto, lealdade,
logro, caldo e solda, e tantas outras, existam as formas eruditas de óculo, augusto, legali-
dade, lucro, cálido e sólida. (Cf. SILVA, 2010, p. 110)

No português brasileiro, por exemplo,

Os aspectos linguísticos mais estigmatizados pelos falantes urbanos cultos ocorre nos modos
de falar de negros, índios, mestiços e brancos pobres: a restrição das regras de concordância no-
minal, simplificação do paradigma verbal, a rotacização de [l] em encontros consonantais (pranta,
crima, ingrês) ou em travamento silábico (fi[r]me, fa[r]ta, cu[r]pa), a lambdacização, velarização
ou vocalização de [r] em travamento de sílaba (gafo, te[]ça, ce[]veja), a deslateralização da
consoante [], que se vocaliza (traba[i]o, pa[i]a, abe[i]a) etc. (BAGNO, 2011, p. 146)

11. Vestígios do gênero neutro em português nas formas de pronomes demonstrativos

Comentando o quadro em que Claudia Roncarati (2003, p. 143) registrou o uso do


demonstrativo em 1980 e em 2000 na fala do Rio de Janeiro, Bagno destaca que

... o antigo sistema ternário do português clássico – este/esse/aquele – virtualmente desapareceu


na variedade estudada, tendo sido substituído por um sistema binário – esse/aquele – que com-
pensa a perda do este/isto combinando os demonstrativos com advérbios de lugar: esse aqui, esse
aí / isso aqui, isso aí, combinação que também se faz com aquele: aquele ali – lá / aquilo ali – lá.
O que vale para a variedade carioca falada também vale para todo o português brasileiro falado no
Brasil e já tem ampla repercussão nos gêneros escritos monitorados, de modo que é certo dizer
que ocorreu uma mudança, já plenamente instalada, no sistema demonstrativo da nossa língua.
(BAGNO, 2011, p. 123)

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Em relação a este fato, José Carlos Azeredo (2008, p. 248) também tratou em sua
Gramática, de forma semelhante às reflexões de Roncarati e de Bagno.

12. Sistema verbal latino

Na formação da língua portuguesa, é importante considerar o que diz Bagno (2011,


p. 164) em sua Gramática Pedagógica:

A eliminação da redundância no caso da concordância verbal é bastante clara: em vez de indi-


car a pessoa duas vezes, com o índice pessoal e com a flexão, o princípio da economia linguística
se aplica, restringindo a indicação morfológica somente a um dos elementos do sintagma. É im-
portante notar que, na comparação entre diversas línguas, a perda das marcas de flexão com o cor-
respondente uso do índice pessoal-sujeito de maneira obrigatória parece ser predominante. Para
muitos linguistas, o processo é clítico, já que as marcas de pessoa e número podem ser resultantes
da aglutinação de pronomes muito antigos que, pelo processo de gramaticalização, perderam sua
autonomia lexical e se tornaram morfemas. (BAGNO, 2011, p. 164)

Note-se ainda que houve mudança de conjugação dentro da própria língua portu-
guesa. Ex.: cadĕre > cadēre > caer (arcaico) > cair; corrigĕre > corrigēre > correger (ar-
caico) > corrigir.

Veja também, no português brasileiro de diversas regiões, a formação de um verbo


de primeira conjugação a partir do verbo “pôr”, que passa à primeira conjugação, na for-
ma ponhar, em que a analogia com sonhar é bem clara: “a regra aqui, portanto é: sonho
está para ponho, assim como sonhar está para ponhar. Com isso, o verbo pôr, com seu in-
finitivo peculiar, altamente irregular, se torna regular”. (BAGNO, 2011, p. 189).

13. Desaparecimento de tempos

O latim vulgar impôs transformações profundas à conjugação latina, levando ao


desaparecimento de inúmeros tempos, tanto no infectum como no perfectum.

Trazido para terras brasileiras, esse paradigma passou por várias mudanças. Uma das mais
importantes, segundo os pesquisadores, foi a generalização do uso do pronome você. Outras mu-
danças foram o desaparecimento total das formas correspondentes a vós, a introdução do pronome
a gente, o emprego das formas o senhor/a senhora como marcas de tratamento respeitoso. Com
isso, uma forma verbal como falava poderia corresponder a eu, você, ele, ela, a gente, o senhor, a
senhora. Assim, do mesmo modo que ocorreu em francês e inglês, o português brasileiro come-
çou a se tornar uma língua em que o sujeito do verbo tem que ser enunciado, na forma de um no-
me ou de um índice pessoal. Essa tendência se generalizou ainda mais, de modo que, mesmo entre
os brasileiros que usam o pronome tu, a forma verbal mais frequente é a que corresponde à não
pessoa: tu canta, tu cantou, tu cantava etc., como se verifica no Rio Grande do Sul, por exemplo.
Nas variedades em que ao tu correspondem as formas do português clássico (como no Maranhão
e no Pará), existe uma acirrada concorrência entre tu cantas e tu canta. Nas variedades que tive-
ram sua origem histórica nas situações de contato entre línguas africanas e o português, o para-
digma da conjugação passou por mudança ainda mais radical, já que as flexões, no presente do
indicativo, se reduziram a duas: uma para eu e outra para não eu: EU falo, (tu, você, o senhor, a
senhora, ele, ela, a gente, nós, vocês, eles, elas = NÃO EU) fala. (BAGNO, 2011, p. 162-163).

Nas línguas românicas predominam essas locuções verbais, notando-se que na fase
final do latim vulgar o verbo auxiliar é proposto ao infinitivo, cantare habeo, daí em por-

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tuguês cantarei. Analogicamente é formado o futuro do pretérito. Do mesmo modo que se
dizia habeo dicere tenho a intenção de dizer, assim também se podia expressar habebam
dicere tinha a intenção de dizer, donde em português: cantare habebam > cantaria.

Na língua falada, o futuro do pretérito também é quase totalmente eliminado, sendo


amplamente substituído pelo imperfeito do indicativo, principalmente em expressão de
hipóteses:

“Se eu tivesse condições, comprava um carro novo”, em lugar de compraria. A forma gostaria
sobrevive como item cristalizado, estereotipado. Como o uso da mesma forma verbal se distribui
por contextos semântico-pragmáticos bem delimitados, não há risco de ambiguidade na interpre-
tação dos enunciados: “Você podia me ajudar a limpar a sala?” / “Naquela época você não podia
imaginar que ele era tão mesquinho”. Cabe também observar que a expressão do futuro do preté-
rito se faz com muita frequência por meio de uma forma composta com o emprego do auxiliar ir:
“Se você experimentasse, tenho certeza que ia gostar de bacalhau”. (BAGNO, 2011, p. 167)

14. Fatos devidos à analogia

Estudando a analogia, o Professor Sousa da Silveira (1983, p. 295) define-a como


sendo “uma força que atua, ou transformando uma coisa para a pôr de acordo com outra
com a qual tem relação real ou suposta, ou criando uma forma nova de conformidade com
um tipo ou paradigma”.

Não por acaso, as formas irregulares que sobrevivem por mais tempo são precisamente aque-
las mais usadas e usadas com maior frequência e que, justamente por isso, resistem aos processos
de regularização paradigmática. É o caso, por exemplo, dos verbos mais empregados em portu-
guês brasileiro (e em todas as línguas): ser, ter, dar, ir, ver etc. O próprio fato de serem palavras
curtas demonstra sua alta frequência de uso, pois quanto mais uma palavra é usada (sobretudo
quando passa pelo processo de gramaticalização) mais tendência ela apresenta de, ao longo do
tempo, se contrair (confira Vossa Mercê > vossemecê > vosmecê > você > ocê > cê). (BAGNO,
2011, p. 188)

15. Deslocamento da acentuação em formas verbais

A acentuação tônica na 1ª e na 2ª pessoas do plural, do imperfeito e do mais-que-


perfeito do indicativo, bem como do imperfeito do subjuntivo, em português, recuo da
penúltima sílaba para a antepenúltima, ocorre por analogia com a tonicidade das três pes-
soas do singular dos mesmos tempos.

Neste ponto, é importante lembrar que

A economia de recursos também incide sobre o domínio dos tempos verbais. Diante da exis-
tência de dois pretéritos mais-que-perfeitos, um simples e um composto, os falantes abrem mão
do simples e empregam, na interação oral, exclusivamente o tempo composto, de modo que for-
mas como fizera, faláramos, conhecêramos, perdoara etc. nunca ocorrem na fala espontânea, a
não ser com objetivo humorístico. Além disso, diante da possibilidade de uso de dois verbos auxi-
liares para a formação do mais-que-perfeito composto, os falantes dão preferência a ter, de uso
mais amplo do que haver, reservando haver para gêneros escritos mais monitorados ou para even-
tos de fala formais ou “hipercorretos”. (BAGNO, 2011, p. 167)

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16. Femininos analógicos

A partir do século XV, fez-se sentir a ação da analogia em adjetivos uniformes,


passando a formar o feminino com o acréscimo da desinência a: pastor, pastora; senhor,
senhora; espanhol, espanhola; português, portuguesa.

É esta mesma regra que leva os brasileiros a atribuir o gênero feminino à palavra
grama, aplicando-se a mesma regra que já foi aplicada aos adjetivos.

No caso de grama (unidade de medida), que no português brasileiro é exclusivamente do gê-


nero feminino, a analogia se deu com todas as incontáveis palavras terminadas em -a que são do
gênero feminino. Por ser uma palavra usada com altíssima frequência, foi conduzida pelos falan-
tes à lista das palavras femininas do léxico da língua. Observe que outras palavras de origem gre-
ga terminadas em -ama, mas de uso bem mais restrito, não sofreram o processo analógico: o pro-
grama, o telegrama, o panorama, o anagrama etc. (BAGNO, 2011, p. 190)

Até gramáticos e linguistas são levados a agir analogicamente em casos que não se
justificam, como é o que trata da expressão de gênero dos substantivos, que não é uma
flexão, já que flexão é a alteração que sofrem as palavras para concordarem com outras.
Como o substantivo é a base com a qual os seus determinantes concordam, o gênero já é
imanente nele, independentemente de sua terminação.

Raciocinando assim, fica claro que gato é uma palavra e gata é outra, assim como
homem é uma palavra e mulher é outra, pois significam coisas diferentes e não se trata de
flexão sofrida para concordar com outra.

17. Diferenças fonéticas

Limitamo-nos a apreciar as principais diferenças fonéticas, uma vez que o presente


trabalho, de orientação didática, não comporta o estudo profundo de minúcias.

Citando Serafim da Silva Neto (1963, p. 165), Silvio Elia ensina que:

... a pronúncia brasileira, em geral, repousa sobre um sistema fonético muito antigo e de aspecto
urbano (o que vale dizer, sem regionalismos), pois, como se viu, ela não apresenta, por exemplo,
nem as antigas africadas, nem as apicais, que muito provavelmente já não existiam ou estavam em
franca desagregação nas principais cidades portuguesas nos séculos XVI e XVII. (SILVA NETO,
Apud ELIA, 2003, p. 53)

Citando Gonçalves Viana, no entanto, esclarece o mesmo Silvio Elia:

Ora, os falares brasileiros, ao contrário do que poderia supor-se e já se tem dito, não represen-
tam, em grande maioria de casos, na sua pronúncia, um português arcaico do continente, que aí
persista em estado de boa conservação; mas esse português, modificado na boca de estrangeiros
no sentido de menor complexidade da sílaba e da sua mais clara enunciação e delimitação, adqui-
ridas essas qualidades à custa da rapidez e da fluência da loquela, tão peculiares, hoje pelo menos,
do português falado na Europa. (VIANA, apud ELIA, 2003, p. 53).

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18. Diferenças sintáticas

Na linguagem brasileira, há diferenças sintáticas que não costumam ser referidas


porque só existem no falar do povo sem cultura, assim como a simplificação da concor-
dância nominal.

Quanto ao [s] final, que ocorre sobretudo na sua forma de morfema de plural, sua supressão é
muito frequente nos sintagmas nominais, em que a marca de plural se fixa no determinante, de
modo que o [s] se torna de fato uma consoante de final de sílaba numa dupla de palavras que
constituem uma só: as casa {as’kaza], as outra [a’zotra], os prato [us’pratu], os home [u’zõmi]
etc. Essa economia articulatória corresponde também a uma economia de recursos morfológicos:
a eliminação das marcas redundantes [...]. Convém lembrar que a regra de concordância “marque
o plural somente no determinante” ocorre na fala de todos os brasileiros, independente de sua ori-
gem rural ou urbana, mais ou menos escolarizados etc. O que distingue o uso de mais ou menos
marcas de concordância é a frequência de sua realização: os falantes urbanos mais letrados ten-
dem a fazer mais concordância e em situações comunicativas mais monitoradas; mesmo assim,
essa concordância nunca chega a 100% dos casos. Outro caso de supressão do [s] é na flexão ver-
bal de 1ª pessoa do plural: mesmo os falantes urbanos letrados, em situações de interação mais
distensas, tendem a suprimir o [s] da terminação -mos, de modo que pronunciam [vi’z~emu],
[kã’tãmu], [ka’imu], para o que se escreve fizemos, cantamos, caímos. Muito comum também é a
forma [‘vãmu], vamos, para a formação do imperativo na 1ª pessoa do plural no português brasi-
leiro. Por fim, vamos lembrar as variedades rurais e urbanas em que o [s], mesmo que não sendo
marca de plural, desaparece após a inserção de uma semivogal [i]: luz [lui], mês [mei], vez [vei]
etc. [BAGNO, 2011, p. 149]

É o caso, entre outros, do emprego do pronome de terceira pessoa, ele(s), ela(s),


como objeto direto: Vi ele, Encontramos ela etc.

Veja em Bagno, tratando das visões científicas da mudança:

Em todas as variedades do português brasileiro, incluindo as dos falantes urbanos altamente


letrados, as construções com verbos acusativos e sensitivos se realizam de um modo inovador,
que diferencia o português brasileiro de todas as outras línguas da família românica. No lugar dos
pronomes oblíquos (me e o principalmente), empregamos os pronomes do caso reto: deixa eu fa-
lar, vi ele entrar, espera ela chegar, o diretor mandou eu refazer o relatório etc.20

Por outro lado, o português brasileiro, incluindo as variedades urbanas cultas, também apre-
senta traços conservadores que diferenciam ele, por exemplo, do português europeu, como o uso
de ele na função de objeto direto [...]. Esses mesmos usos ocorrem no português angolano e mo-
çambicano, o que indica que também ocorriam no português europeu antigo. O abandono de ele
como objeto direto [...] representa uma inovação que se deu no português europeu e só lá. Textos
medievais comprovam que nessa língua esses usos também já foram comuns. Como, infelizmen-
te, a norma-padrão até hoje se inspira nos usos dos portugueses – o que é um rematado absurdo
sob todos os pontos de vista –, existe o patrulhamento e a repressão injustificada contra tais usos.
(BAGNO, 2011, p. 121)

Outras variações, porém, são comuns mesmo entre pessoas de boa situação socio-
cultural.

20 Atente-se para o fato de que a classificação dos pronomes pessoais “do caso reto” ou “do caso oblíquo” é feita em re-
lação a sua função sintática e não em relação a sua forma. Ou seja: o pronome pessoal do caso reto é o que funciona
como sujeito e o pronome pessoal do caso oblíquo é exatamente o que não funciona como sujeito. Portanto, o pronome
“ele” e suas flexões (eles, ela, elas) pode funcionar como sujeito ou não, assim como os demais, exceto “eu”.

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18.1. Colocação dos pronomes oblíquos átonos

Colocação do pronome oblíquo no começo da oração: Me traga um jornal. Me em-


presta o livro. Tal uso jamais se encontra no falar português, mesmo entre os indivíduos
de menor cultura. Para essa tendência concorre, sem dúvida alguma, o fato de ser o pro-
nome totalmente átono para os portugueses (m’, t’, s’, lh’) e tônico para os brasileiros (mi,
ti, si, lhi), de modo que entre nós pode formar uma sílaba por vezes mais forte do que o
verbo (mi vende, mi traz), enquanto que em Portugal ele vive na dependência da tonicida-
de verbal (venda-m’, traga-m’).

Sobre a colocação dos pronomes oblíquos no português brasileiro, além de registra-


rem que “No português brasileiro, a regra geral é a próclise” e que “o clítico aparece junto
ao verbo temático”, Charlotte Galves e Maria Bernadete Marques Abaure lembram que

O português brasileiro distingue-se, também, das outras línguas românicas, em particular do


português europeu, por um outro aspecto, o quase desaparecimento do clítico o/a, também visível
na total ausência das sequencias lha(s)/lho(s). O paradigma dos clíticos é, assim, praticamente re-
duzido às formas ambíguas quanto à função e ao caso que lhes é associado (me, te, se, lhe): essas
formas podem ser objeto direto (acusativo) ou indireto (dativo). Tal ambiguidade, que aparece
também nas outras línguas românicas na primeira e segunda pessoas, estende-se no português
brasileiro à terceira, onde lhe, em certos dialetos, pode ser interpretado como um objeto direto:
“Eu lhe vi”. O que tende a desaparecer no português brasileiro é, portanto, o clítico puramente
acusativo (o/a), que é também aquele menos tônico. (GALVES & ABAURE, 2002, p. 289)

As professoras Charlotte Galves e Maria Bernadete Marques Abaure concluem que

Sem perder de vista a importância de uma investigação diacrônica, que integre considerações
de ordem sintático-fonológica, na busca de uma explicação para a mudança da posição dos clíti-
cos em português brasileiro e para a predominância das construções proclíticas no estágio atual da
língua, deve-se ter presente que, do ponto de vista sincrônico, condicionamentos de ordem sintáti-
ca, de ordem rítmica e de ordem sociolinguística e estilística interagem dinâmica e continuamen-
te, determinando a opção por estruturas específicas. (Idem, ibidem, p. 304)

João Ribeiro encontrava para isso também uma razão sentimental: Traga-me, ven-
da-me, dizia ele, é uma ordem, soa com arrogância; me traz, me vende, é um pedido, tra-
duz ternura.

18.2. Uso do gerúndio pelo infinitivo regido pela preposição a

6) O português usa o infinitivo regido de a nas construções em que o brasileiro pre-


fere o gerúndio: O navio está a chegar, dirá um português; O navio está chegando! ex-
clamará um brasileiro21.

21 “No português brasileiro falado mais espontâneo, inclusive por pessoas altamente letradas de determinadas regiões
(Minas Geais, por exemplo), a terminação -ndo, característica do gerúndio, se reduziu a -no: falano, correno, comeno,
dormino etc. Ocorreu aqui a assimilação do [d] pelo [n] subsequente. São duas consoantes dentais, de articulação muito
próxima, facilmente assimiláveis. O -ndo deve ter passado por um primeiro estágio –nno, logo simplificado em -no. [...]
Essa mesma explicação serve para pronúncias comuns como com tamém por também: assim como [n] e [d] têm articu-
lação próxima, [m] e [b] são bilabiais, muito predispostas à assimilação.”. (BAGNO, 2011, p. 152)

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