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Luís Augusto Lé

TEMPO DE

NAMORAR

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dedicatória:

A Adrieli, apesar de sua personalidade forte, pela revolução


que ela causou em minha vida.

ÍNDICE:

I - SOBRE O TEMPO ................................................. 05


- Passado, Presente e Futuro ................................... 07
- Idéias de Gênio ........................................................ 08
- Perda de Tempo ...................................................... 10
- Olha o Tempo! .......................................................... 12
II -PROVA DE MATEMÁTICA ..................................... 16
- A Prova ..................................................................... 18
- Guilherme em Apuros ................................................ 21
- Matemática Canção .................................................. 24
III - AMOR À PRIMEIRA VISTA .................................. 27
- O Bichinho do Amor ................................................. 29
- Namoro no Escuro .................................................... 32
IV - EM BUSCA DE TRABALHO ................................ 38
- Tempos Modernos .................................................... 40
- Meu Primeiro Emprego ............................................. 41
- Meu Primeiro Dia de Trabalho .................................. 43
- Minha Primeira Entrega ............................................ 44
- Vida Diferente ........................................................... 47
V - MILAGRE ÀS AVESSAS ....................................... 50
- Procissão .................................................................. 50
- Benção dos Pães ...................................................... 54
- O Milagre ................................................................... 56
- Babaca ou ingênuo? ............................................... 61
- Cadê os pães? ......................................................... 63
VI - O TERÇO ............................................................. 66
- Primeiro Mistério ....................................................... 67
- À Procura de Daniela ................................................ 70
- Não Beba Quentão ................................................... 74
- Canção ..................................................................... 76
- É Agora ou Nunca .................................................... 78
VII - FÉRIAS DE JULHO ............................................. 82
- Gumercindo .............................................................. 82
- Cheque Especial ...................................................... 85
- Proposta Irrecusável ................................................. 87
- Gente de Canção ..................................................... 89
VIII - SONHOS E INCERTEZAS ................................. 91
- Sonhos ..................................................................... 93
- Será Carla? ............................................................. 95
- Será Bruna? ........................................................... 100
IX - CORES QUE MEXEM ........................................ 104
- Presente de Aniversário .......................................... 104
X - ADMIRADORA SECRETA .................................. 111
- Apressada ............................................................... 112
- Eu Te Amo .............................................................. 114
XI - MISSA DO GALO ............................................... 118
- É Natal .................................................................... 120
- Presente de Natal .................................................... 124
- Um Esmero! ........................................................... 125
- Devendo Explicações .............................................. 126
- A Vilã dos Meus Sonhos ......................................... 127
- Revelações de Daniela ........................................... 131
- Acena Alegria ...........................................................132

CAPÍTULO l :
SOBRE O TEMPO
O tempo é mesmo revoltado. Quando não é sol quente, é
tempestade ardente. Que tempo desconcertante! Talvez eu
compre um desconfiômetro para dar de presente ao tempo.
Por falar em tempo, que horas são? Dez minutos para meia-
noite. Eis outro tempo confuso. Como não bastasse o tempo
(estados atmosféricos), olha o tempo (medição da duração dos
fenômenos) a controlar a minha vida com seus ligeiros segundos!
Este tempo também precisava de um desconfiômetro. É tão
chato que acelera seu rítmo só para nos contrariar. Quer a
prova?

“Era sábado. Eu estava diante da única boate da cidade. Por


ser o único ponto de encontro das noites Brodowskianas, várias
pessoas transitavam pela calçada, zanzando de um lado para
outro, gastando o tempo, enquanto aguardavam a boate abrir.
Eu esperava pela minha amiga Graziela. Tínhamos combinado ir
ao baile naquela noite. Porém ela ainda não havia aparecido. De
repente, esbarrou-se em meu ombro esquerdo um gracejo de
menina, usando um conjunto preto de bermuda coton, uma mine
blusa azul marinho e um batom de enlouquecer. Fascinante! Era
noite de baile. Certamente seria a melhor noite da minha vida: de
encontro marcado, perfume importado do Paraguai e camiseta
nova. Que frio! Que fria! Quem poderia esperar que chovesse
naquela noite de um céu repleto de estrelas? Começou a
chuviscar. Foi aumentando, aumentando ... Desabou uma
tempestade. Que tempo imprevisível! Tinha de chover naquele
instante? Falta de sorte, seria o consolo a ser aceito por alguém
que não tinha sorte mesmo. Foram quarenta e cinco minutos de
sofrimento na expectativa de a chuva parar. O semblante voltou
a brilhar; agora, fortalecido de esperança. A chuva se acalmou,
restando apenas os reflexos das luzes noturnas e algumas
gotículas a ondular nas poças d’água. Que horas seriam? Olhei
para o relógio: o visor digital marcava meia-noite e meia. Por que
a preocupação com o tempo? O baile havia apenas começado.
Na verdade, para mim, o baile já tinha terminado. A minha amiga
não apareceu. Exatamente às duas horas da madrugada fui
embora, triste por ela não ter cumprido o seu compromisso.
‘Desculpe-me, Léo. O tempo foi o único culpado. Choveu pra
caramba ...’, assim, desculpou-se minha amiga, no dia seguinte”.

* * *
Gostou? E como vai você? Todo começo parece chato. Com o
tempo a gente se acostuma e acaba se identificando com certas
situações.
Gostaria de me intrometer em sua leitura. Há séculos que
alguns poucos autores se permitem a travarem um colóquio com
seus amigos leitores. Estou com alguns problemas e você é a
pessoa que poderá me ajudar a galgar todas as barreiras
narradas por esse autor chato -- que me criou só para ser sua
cobaia. Um revoltado!
Você nem imagina o tanto de gente enxerida que existe no
mundo. Talvez você também seja uma delas e ainda nem
percebeu isto.
Prosseguindo com o nosso cordial diálogo (não é sempre que
um personagem fictício consegue romper a barreira do mundo
imaginário para dialogar com alguém real), mais uma vez imploro
pela sua ajuda. Continue lendo, torcendo por mim, ajudando-me
a superar os obstáculos dessa minha adolescência, sendo
aquele ombro amigo sempre presente nos momentos mais
difíceis.
Nesse instante, você deve estar meio confuso, talvez não
entendendo a minha súplica. Peço que continue lendo, mesmo
que você esteja achando esse começo de narrativa bem xarope.
Prometo que será uma emocionante viagem pelo vale da
imaginação. Em se tratando de um personagem tímido, como eu,
é bom ir preparando um pacote de lenços descartáveis. Evidente
que vou sofrer muito nas mãos desse escritor.
Ah! mais uma coisa: se você conseguir chegar até o final da
história, prometo-lhe dar uma bala de caramelo. Promessa de
gente fictícia. Combinado?

Passado, Presente e Futuro

Nossa vida é movida paralelamente ao tempo cronológico. É


ele quem controla nossos compromissos, quem nos coloca
diante dessa cilada de passado, presente e futuro. O tempo é
intransponível, imprevisível e pode ser comparado com o vento.
Há momentos em que ele sopra a favor, recobrindo-nos de
felicidade, sorte; refrescando nosso corpo do calor infernal de
dias calorentos. Outras vezes, o vento sopra contra, recobrindo-
nos de infelicidade, azar; gelando nosso corpo nas manhãs de
invernos rigorosos.
É óbvio afirmar que o passado constitui o tempo anterior que
vivemos até pouco antes desse exato momento. É tudo aquilo
que já ocorreu. Não importa o seu grau, o passado é imutável,
invariável pelo presente ou futuro. Portanto, é uma cicatriz
incurável, incorrigível.
Alguma vez você já apostou corrida com sua sombra em
noites de intenso luar? Quando você corre de costas para a lua,
a projeção no chão de sua sombra dispara na sua frente, sendo
impossível alcançá-la (futuro). Quando você corre em direção à
lua, a sua sombra estará correndo atrás de você (passado).
Quando a lua encontra-se posicionada verticalmente ao seu
corpo, ninguém será o vencedor, porque ambos chegarão no
mesmo destino ao mesmo tempo (presente).
O presente é anterior ao futuro; é o estado em que vivemos a
todo instante. O presente é o átimo de nossa vida e nos
acompanha desde o princípio de nossa existência. No presente
vivemos nossos atos cotidianos.
O futuro é uma incógnita em sua essência; porém, é a
matéria-prima transformada em presente. O tempo segue em
direção ao futuro, colecionando memórias no passado,
construindo histórias no presente. O futuro desperta no ser
humano a esperança de um mundo melhor, a expectativa dos
sonhos que levamos conosco se transformarem em realidade. O
futuro é uma nova chance que a vida nos dá para mudarmos
muitos detalhes em nossas vidas.
Um exemplo prático: se alguém que amávamos
profundamente, após algum tempo de união vividos com
momentos mágicos e inesquecíveis; de súbito, vem a nos
abandonar ao léu; isto não é motivo para nos atirarmos numa
sepultura e assinar nossa própria certidão de óbito. Tudo o que
passou tem seu preço, seu valor. Há muito mais para ser vivido e
degustado no momento presente que antecede o futuro. Lembre-
se disso: o futuro será sempre uma reserva de renovação para
nosso momento presente.

Idéias de Gênio

Que perda de tempo! -- muitos se queixavam ao saírem pela


porta do clube.
Pudera! O que existia de bom lá dentro? Quase nada.
Da rua ouvia-se os ruídos do som vindo do interior da boate
do clube. Um som tão estridente, a centenas de watts, que além
de prejudicar qualquer diálogo, futuramente causaria algum mal à
audição.
Cigarro? Era praticamente impossível respirar dentro da
boate. Uma fumaceira miserável de embaçar os olhos, entupir as
narinas e um fedor horrível que catingava até mesmo a cueca.
Bebida? Tinha de tudo quanto era espécie e sabores. Os
bruxos da idade média ficariam boquiabertos e invejariam as
inúmeras fórmulas, criadas através das misturas alcoólicas, que
essa moçada da geração do século XXI adorava provar.
Saiba que beber é bem diferente de se envenenar. É
importante para o fortalecimento de nossa personalidade não
exagerarmos na bebida. Os covardes nunca assumem os seus
próprios erros; imaginem suas fraquezas! Muitos bebem para
perder a timidez; outros para esquecer suas briguinhas
amorosas. É uma fórmula barata, mas perigosa, de resolver os
problemas individuais.
Na boate, de saudável, só restava dançar. Isto faz bem para o
corpo e a mente. Infelizmente não havia espaço nem mesmo
para respirar no meio daquele amontoado de gente, imagine
então para dançar.
Todavia, ficar do lado de fora, na rua, driblando o vento e o
sereno, era mais interessante que permanecer por muito tempo
no interior da boate, adoecendo-se aos poucos.
Às vezes, eu encontrava algum colega inspirado para um
diálogo, normalmente usufruindo-se de assuntos cômicos e sem
o compromisso com a verdade. Meras balelas para passar o
tempo.
Somados às sátiras, críticas e muitas gargalhadas, a noite se
tornava mais divertida, menos melancólica. O que valia mesmo
era a amizade, a descontração, o companheirismo.
Numa dessas noites de sábado, apareceu meu amigo e
vizinho Júnior, sempre trazendo novas e inusitadas idéias. A
princípio falava como Einsten, mas exagerava em sua ciência
com um pé no presente e outro no futuro.
__ Saudações, amigo Júnior?
__ Felicitado por suas saudações, o mesmo retribuo ao gentil
colega. Aliás, quanto tempo que não nos vemos, hein, Léo?
__ Tempo? Essa história de tempo é um assunto muito sério.
__ Sério, quanto eu -- acrescentou Júnior.
__ Talvez. E como vai indo aquele nosso ambicioso projeto?
__ Ah! sobre o codificador de freqüências audíveis?
__ Exatamente, Júnior. Com esse aparelho podemos captar e
distinguir as vozes de cada pessoa em qualquer tipo de
ambiente.
Júnior, sorrindo, ajeitou os óculos e corrigiu:
__ Não. Esse projeto já foi para o museu, Léo. A grande
novidade é o chip “pensamento-digital”.
__ O quê é isso?
__ É um pequeno aparelho que capta os pensamentos
alheios, separando-os numa freqüência distinta, individual --
revelou Júnior, sem temer ouvidos alheios.
__ Como funciona essa nova engenhoca?
Indiferente à verdade, mas talvez prevendo o futuro, o meu
amigo metido à cientista, explanou:
__ Esse chip é instalado em seu cérebro. Todo o controle é
realizado automaticamente ao pensar nas palavras chaves.
Simples, não é mesmo?
__ Fabuloso! -- exclamei, estupefato.
__ E tem muito mais. Basta olhar para a pessoa que você
deseja “ouvir os pensamentos” que o sistema é automaticamente
ativado. O segredo está no desejar, no controle mental de seu
psico. Basta o anseio para a sintonia vir a canal aberto. Não é
realmente fantástico?
Fiquei boquiaberto. Perplexo com o futuro (era óbvio que o
assunto não revelava seriedade). Imagine o que seriam dos
meus pensamentos às avessas? Eu teria de tomar um pouco
mais de cuidado ao pensar em algo sigiloso. Parabenizei meu
amigo Júnior pela sua genialidade.
__ Quando essa engenhoca entra no mercado?
__ Isso é segredo, Léo. Aliás, já está na hora de eu ir para
Sagada, porque lá sou amigo do Rei. Tenho de acordar amanhã
bem cedo para não perder a missa das sete horas na capela São
José -- disse Júnior, despedindo-se, apressado.
__ Até breve, caro amigo cientista.

Perda de Tempo

O silêncio interior voltou a ser a minha única companhia.


Adentrei na cobertura próxima à portaria da boate, escorei-me na
parede, mantendo o pé esquerdo sobre o degrau inferior e o pé
direito sobre o degrau superior. Olhei para o relógio: já tinha
passado da uma hora da madrugada.
O movimento de boêmios no interior da boate havia chegado
ao auge. A tendência era diminuir gradativamente, como se
fizéssemos um pequeno furo na base de um copo cheio d’água.
Fixei o olhar em direção ao interior da boate, com a esperança
de flertar algum olhar distraído, algum olhar imaculado.
Distraído? Todos os olhares femininos estavam distraídos.
Nenhum se voltava para mim.
Pela porta de entrada, à esquerda, eu tinha uma visão clara
do fundo do salão. A garota que mais desejava não aparecia no
meu ângulo visual. Certamente, ela se encontrava no segundo
ambiente da boate, no andar superior.
De súbito, uma garota dirigiu o seu atraente sorriso em minha
direção. Levando em conta aquela lei da Física que diz que um
raio de luz se propaga em linha reta, desde que não seja
desviado por algum obstáculo, tive a certeza de que ela
realmente olhava para mim. Afinal, obstáculos não existiam.
Ninguém transitava pela porta de entrada e o porteiro
permanecia sentado em sua banqueta. A princípio pensei que
fosse alguma miragem e olhei novamente. Outro sorriso, idêntico
ao anterior, veio acompanhado de um olhar fumegante, refletido
no gelo seco.
Um olhar persistente indicava algum interesse. Mas o medo
prevalecia ao desejo. Sempre me ocultava em meu canto, na
expectativa de algum milagre ocorrer.
Assim permaneci por alguns minutos, apenas apreciando de
longe, inerte. Talvez, desejando que ela tomasse a iniciativa e
concretizasse aquele sorriso com algum tipo de recado. Como,
por exemplo, uma bala ou um recado de alguma amiga dela,
marcando um eventual encontro na praça da igreja Matriz.
Tolice!
Se eu fosse extrovertido, não seria o mesmo café com leite de
todas as manhãs. Os tímidos temem a repressão psicológica ...
Essa desculpa esfarrapada de que “se eu fosse ...” é tão inútil
quanto ficar sentado num banco de praça, contando as estrelas
até o amanhecer. Nunca chegaremos a lugar algum. Tomar a
iniciativa, agir, é preciso.
Não demorou muito e a garota que me olhava, virou-se de
costas para mim, desaparecendo-se de meu campo visual.
A verdade era árdua. Quanto mais sonhava, menos o tempo
se importava comigo e corria veloz com seus segundos: já era
mais de uma e meia. Nem tudo estava perdido. A garota que eu
procurava, por um instante, passou rente a minha face, bem
diante de meus olhos e foi embora, sozinha, embalada pelo seu
orgulho. Ou seria mera objeção de meu pensamento covarde?
Desencorajado, e apenas com o olhar, segui os seus passos
de princesa, sonhando com o acalento daquele andar sedutor.
Permaneci estático, como uma estátua de bronze abandonada
ao relento. A timidez era algo de se admirar - ou de se lamentar.
Será que nunca mudaria minha maneira de agir, de ser? O medo
de revelar os meus sentimentos mais sinceros, sobrepujaria
eternamente meus desejos? Se é que podemos afirmar que em
sentimentos há mais sinceridade que interesse.
Mais uma vez, como de costume, havia passado o tempo em
branco, imóvel, escravizado pelo medo de amar. Perdi tempo?
Quem sabe estaria perdendo tempo com aquela história de
tempo. Desde que me conhecia por gente, praticamente em tudo
já tinha ocorrido uma certa mudança; como na gramática, na
consciência, na tecnologia, nos costumes, na economia ... Enfim,
tudo se modificara, exceto eu que permanecia o mesmo cabeça
dura de outrora.
A cada nova geração acrescentamos, abstraímos e alteramos
a estrutura geral do mundo. Por exemplo, a juventude brasileira
atualmente tem a liberdade que os jovens dos anos rebeldes
lutaram para conquistá-la. Infelizmente, poucas pessoas
aproveitam essa liberdade para evoluir seus pensamentos de
uma forma crítica e construtiva.
A verdadeira liberdade proporciona o aprendizado mútuo, o
respeito pelos limites alheios e a troca contínua de experiências.
É preciso que a juventude atual aprenda a desfrutar de sua
liberdade de uma forma mais racional e saudável. Porque tudo
tem limites: a vida, a razão, a paciência, as cidades, nossos
esforços, e até mesmo a própria liberdade.

Olha o Tempo!

Seja o tempo a medida de duração dos fenômenos, época ou


um estado atmosférico; em verdade, o tempo merece ser
homenageado numa poesia. Todo tímido tem esse lado poeta.
Veja como a poesia é estupenda, é adolescente, é mágica.
Adolescente é um poeta nato.

Olha o tempo!
Tempo de chuva.
Sabor de uva.

Tempo sem tempo.


Com o tempo atrasado.
Vegetando no passado.

Na loucura do tempo.
Em busca do futuro ...
Que tempo burro!

Tempo de vento.
Agita o orvalho.
Balança o galho.

De tempo em tempo.
Olha a brisa!
Algo reprisa.

Tempo de aventura ...


De busca de ideal ...
Tudo fica mais legal!

No ritmo do tempo.
Na carona da lua cheia.
Coração pego por uma sereia.

Tempo de sorrir ...


Viver irisado.
Não ficar calado.

Acariciar o tempo.
Dizer a verdade.
Recheá-lo de amizade.
Tempo de veracidade.
Sair do mundo dos sonhos ...
Acordar para a realidade!

É uma poesia que enche os olhos de lágrimas e os lábios de


felicidade. Também não precisa exagerar, né, escritor?
Imagine se não existisse o tempo. O mundo ficaria pausado,
sem movimento, sem memórias para serem recordadas e
cultuadas. Viveríamos os mesmos dias, os mesmos momentos,
igualmente, infinitas vezes. Que tédio!
O homem descobriu e inventou instrumentos capazes de
registrar qualquer acontecimento num determinado átimo do
tempo para que num futuro próximo, ou longínquo, fossem
novamente vistos e apreciados pelos nossos sentidos visual e
auditivo: uma janela, uma memória, uma cópia do passado.
Apesar de toda tecnologia, trata-se de uma cópia morta do
passado; porque diante desta, nada podemos fazer a não ser
ver, ouvir e recordar calados. São registros abstratos que não
nos permite senti-los com o tato, nem interagir em qualquer uma
de suas peças.
Assim se fortaleceu o registro da história, através do desenho,
da escrita, da fotografia, da gravação de áudio e de imagens em
movimento.
Sabemos que a escrita é o meio mais popular de prolongar
um fragmento do passado. Por exemplo, quando lemos uma
carta escrita há vinte anos atrás, lemos as mesmas palavras,
respeitamos as mesmas pontuações e até podemos fazer várias
cópias sem quebrarmos a estrutura original de seu conteúdo.
Experimente escrever uma carta para você mesmo,
descrevendo tudo aquilo que achar de mais importante que
esteja vivendo nesse momento. Guarde essa carta em algum
lugar bem seguro. Passado alguns anos, releia. Você verá que
muita coisa mudou em sua vida. A todo instante, há tempo para
mudar a nossa maneira de agir e viver ...

Assim era a rotina do meu final de semana. Sempre com uma


poesia na cabeça, sempre no mundo da lua.
Faltava apenas dez minutos para as três horas da manhã. A
portaria da boate já tinha sido liberada. Era só entrar e se divertir.
Divertir? O tédio já tinha tomado conta de mim. Mas a
esperança de ter a minha amada em meus braços ainda se
mantinha fiel.
Amanhã seria um novo dia ...

* * *
E aí? Gostou do primeiro capítulo? Tenho plena certeza de
que você não entendeu nada da minha história. Não desanime.
Tudo tem seu tempo, e o começo é sempre assim: estranho,
enfadonho, incompreensível.
Quando você se aprofundar no âmago da história -- cobaia da
imaginação desse intolerante escritor -- verá como a gente perde
tempo na vida, deixando as oportunidades e os bons momentos
escaparem pelas entranhas dos dedos.
Pelo conteúdo que você leu, já dá para ter uma idéia de como
sou: acanhado, desanimado, às vezes brincalhão e bobamente
apaixonado por alguém. Aguarde mais um pouco e você saberá
quem é esse alguém. Por que esse maldito escritor não me criou
como sendo um personagem corajoso, desses playboys que
vivem cercados de belas loiras de olhos azuis, um carro
conversível turbinado e uma carteira cheia da grana?
É preciso que você continue lendo. Se eu carecer de um
ombro amigo, onde o encontrarei? Na poeira silenciosa,
acumulada numa pilha de livros sobre uma prateleira qualquer de
alguma biblioteca?
É importante que você conheça a minha história e participe
dela, amparando-me da narrativa melancólica e despeitada
desse escritor desajustado. Vai ser uma parada dificílima que, se
não unirmos nossas forças, não faço idéia aonde esse barco
furado poderá se atracar.

CAPÍTULO II
PROVA DE MATEMÁTICA
Após um domingo daqueles de enfastiar qualquer cristão, juro
que estava morrendo de saudades da segunda-feira. A semana
havia apenas começando. Tratei logo de pular da cama. Dei uma
rápida ida ao banheiro e corri até a cozinha para preparar e
saborear aquele apetitoso café da manhã.
Olhei no relógio. Ainda faltavam dez minutos para às sete
horas. Terminei rapidamente de escovar os dentes. Peguei
minha bolsa escolar e saí ligeiro, pedalando a Escavática - minha
bicicleta azul - seguindo rumo à escola.
Ao entrar no pátio externo da escola, observei um certo
nervosismo estampado no semblante de alguns colegas de
classe. Logo descobri a razão de todo aquele temor: a prova de
matemática com o professor Petrusco. Março era um mês muito
corrido, farto de provas mensais e inúmeros trabalhos escolares.
Não tinha medo de provas; apesar de ter sido reprovado duas
vezes: na terceira e quinta série. Curiosamente, essas duas
séries eram de números ímpares e primos.
Ainda bem que nunca fui uma pessoa supersticiosa, senão
estaria preocupado em reprovar novamente, porque estudava na
sétima série: um número ímpar e primo. Isola!
Próximo ao estúdio de som, Mariana conferia os últimos
exercícios de matemática com as suas amigas Fernanda,
Tatiana e Alessandra.
Na extensa mesa verde-escura, onde os alunos tomavam a
sopa no recreio, Guilherme implorava “pelo amor de Deus” para
Eduardo lhe explicar alguns exercícios de matemática, quando
apareceu a dupla de espertalhões.
Fernando, juntamente com Pedro, formavam a dupla de
espertalhões da minha classe e aprontavam de tudo um pouco.
Sempre saíam ilesos de suas artimanhas.
__ Você sabia que o Guilherme faltou da escola na semana
passada para ir fazer as unhas em Ribeirão Preto? Perdeu a
aula de matemática; agora, fica aí, nesse desespero todo --
caçoou Fernando, sentando-se ao lado do pobre rapaz.
__ Cuidado hein, Guilherme? Se você repetir, o seu pai já
prometeu que vai tirá-lo da escola e colocá-lo para trabalhar na
oficina mecânica do Calão -- avisou Pedro, tapeando-lhe de leve
as costas.
Guilherme sorriu, levando na esportiva, e foi conciso com a
dupla:
__ Tudo bem, galera. Já sei o que pretendem com esse
elogio. No recreio prometo repartir o lanche com vocês.
__ É assim que se fala, Guilherme. Na prova pode contar
comigo e com Pedro. E pare com essa bobagem de estudar.
Pode ficar tranqüilo que vamos passar para você aquela cola de
números -- garantiu Fernando.
Pedro confirmou a promessa, balançando a cabeça para cima
e para baixo. Guilherme com um olhar confiante agradeceu-lhes
pela permuta, apertando as mãos da dupla:
__ Combinado, gente boa.
Fernando e Pedro pegaram as suas bugigangas – não havia
melhor adjetivo para caracterizar o estado lastimável em que se
encontrava o material escolar da dupla - e, saltitantes, foram
procurar outra vítima. Não havia mais tempo para matutar nada.
Beeem ...
Soou o primeiro sinal de entrada para a sala de aula. Não
perdi tempo e corri para a fila. Não pela pressa de realizar a
prova. Havia algo muito especial e mais interessante para ser
apreciado: uma princesa!

A prova

Exatamente às sete horas e dez minutos, o professor


Petrusco entrou na sala de aula com aquele humor de sempre:
tom de voz grave, árida e militar. Deixou seus livros sobre a
mesa e passou a observar atentamente os quatro cantos da sala.
Enquanto a classe não se silenciou por completo, o professor
não abriu a boca para dizer sequer uma palavra. Dizer o quê?
Aquela careta feia, mal humorada, já dizia tudo.
__ Bom-dia, classe.
__ Bom-dia, professor.
__ Eu disse: bom-dia, classe.
__ Bom-dia, professor -- berraram os alunos em coro,
satisfazendo a surdez do professor Petrusco.
__ Muito bem. Continuem em silêncio. Só quero saber de lápis
e borracha sobre a mesa, porque vamos iniciar a prova.
Enquanto distribuía as provas mimeografadas, o professor
Petrusco proferia seus eternos lembretes ao pé do ouvido de
seus alunos: “se eu pegar alguém colando, eu retiro a prova e
dou nota ZERO“; “Não há motivos para preocupações, a prova é
muito fácil, vai cair tudo aquilo que já ensinei em sala de aula ...
“. Enfim, aqueles velhos e eternos sermões que todos os
professores adoram discursar, antes, durante e após as provas.
Eu sentava na última carteira da fileira do meio. Porém, a
minha amiga Vânia havia faltado; tomei o lugar dela, na terceira
carteira da segunda fileira, próxima à porta.
Olhei para o lado esquerdo e avistei Mariana. Ela fazia alguma
prece, juntando-se as mãos e movimentando lentamente os
lábios. À minha direita, encostado na parede, Roberto consultava
os seus lembretes, escondidos debaixo da carteira. Ah! Se o
professor Petrusco o pegasse em flagrante?
Dotado de ouvidos bem apurados -- exceto para ouvir o nosso
“bom-dia, professor” --, Petrusco era um grande rastreador de
cochichos. Sua sensibilidade, de reconhecer a voz de cada
aluno, o tornava muito eficiente. As bolinhas de papéis que se
cuidem! Ele rasteava a sala de aula com os olhos voltados para
uma direção, mas com a atenção apontada no extremo oposto.
O professor Petrusco conhecia o semblante de cada aluno.
“Dá pra ver no rosto, quem está colando”, avisava com o mesmo
tom militar de sempre. Semblante flácido, olhar cabisbaixo, ligeiro
e suor intenso, significava que algo de errado estava ocorrendo;
denotava a cola escolar em plena ação.
Identificar o aluno que estava colando era bem simples;
porém, o difícil era pegá-lo em flagrante. No ano passado, dois
alunos de minha ex-classe foram retidos pelo professor Petrusco.
Fernando foi um deles. Restava apenas meio ponto para o
garoto alcançar a média final, e foi reprovado pelo Conselho
Escolar. Resultado: o espertalhão ainda não aprendeu a lição. O
outro repetente, chamava-se Alessandro, mas este só vinha uma
vez por semana na escola. Só Deus sabe o rumo que ele tomou
na vida.
A prova até que estava muito fácil. O primeiro exercício foi
uma canja. O segundo ...
__ Ei, Léo? Você fez o segundo?
Estava demorando ... Seria Bruna? Diga-se de passagem,
esse negócio de colar não fazia o meu tipo. Contudo, o desejo
de uma bela amizade floria a vontade de ajudá-la.
Ajudá-la? Na verdade, era Roberto quem não sabia a
segunda questão. A voz dele parecia com a melíflua voz de
Bruna. Juro que parecia! Talvez meu pensamento estivesse
mesmo, como dizia minha amiga Elaine, “viajando na maionese”.
__ A segunda questão, ainda não resolvi -- proferi,
gesticulando com os lábios.
__ Então faz, droga! -- resmungou Roberto, atirando um
pedaço de papel em branco sobre minha carteira.
Folgado o sujeito, não? Se ao menos devesse algum favor a
ele. Se fosse a Bruna, ajudaria com o maior prazer e ficaria muito
feliz. A fragrância e o perfume, vindo da direção dela, fazia eu
prender o fôlego só para sentir aquela perfume de mulher.
Procurei pelo professor Petrusco na sala de aula. Ele escrevia
um recado no canto superior da lousa. De súbito, bateu no
coração um desejo ardente de olhar o rosto de Bruna. Precisava
ser rápido quanto um beija-flor e lento quanto um bicho-preguiça
para fita-lhe seus meigos olhos esverdeados e o brilho vermelho
do batom suave que tonificavam seus lábios de mel.
A coragem veio como um raio. Virei-me para trás e Bruna
encontrava-se de cabeça baixa, concentrada na prova. Ela
percebeu o meu olhar curioso e, instintivamente, tapou sua prova
com as mãos. Depois, fez cara feia e resmungou:
__ Vou contar para o professor Petrusco que você está
colando de mim.
__ Eu? Colando de você? -- indaguei repentino, hipnotizado
por aqueles olhos verdes.
__ Vire-se para frente, Léo -- aconselhou-me Bruna.
Tarde demais. O professor Petrusco, de ouvidos apurados,
ouviu o tom maior de minha voz e caminhou até minha carteira:
__ O senhor não conhece as regras, garoto? -- inquiriu-me
professor Petrusco, severamente.
Se ele compreendesse meus sentimentos, não seria tão cruel.
Com a mão direita, retirou do bolso da sua tradicional camiseta
xadrez de gola a temida caneta vermelha. Sorridente, fez
questão de sublinhar:
__ Esse brilhante ponto no cabeçalho de sua prova significa
um ponto a menos na sua média bimestral. Entendeu, garoto?
No fundo da sala ouviam-se nitidamente as risadas dos
espertalhões. Cabisbaixo, concentrei-me na prova. Apesar do
exagero, em parte, o professor Petrusco tomava a atitude
correta. Havia aluno que, em vez de prestar atenção e se
esforçar para aprender alguma coisa, perturbava quem se
interessava pela matéria dada em sala de aula.
Existe um velho ditado que muitos alunos seguem à risca:
“quem não cola, não sai da escola”. Cada um tem o direito e é
livre para escolher o seu caminho; desde que respeite o limite
alheio. Cabe ao mundo, à vida, a missão de selecionar os
melhores, os mais esforçados, os mais responsáveis.
O efeito mais negativo da cola é o momento em que o
professor anuncia as notas. Se aquele aluno mais dedicado, vier
com nota menor que os “espertalhões”; com certeza, ficará
desmotivado. Poderá perder a confiança no sistema, rendendo-
se à sedução da cola escolar.
O professor deveria valorizar a participação do aluno em sala
de aula; sendo sensível, a ponto de perceber o rendimento da
classe. Talvez, os alunos não estão conseguindo acompanhar o
ritmo do professor. Um bom diálogo ajudaria muito. Afinal, a
escola não é um mero parque de diversão e muito menos uma
casa de detenção. É um ambiente democrático que deveria
proporcionar a satisfação pessoal e coletiva, não o desprazer e a
obrigação desmedida.

Guilherme em apuros

Beeem ...
Soou a campainha da escola, avisando o término da primeira
aula. Alessandra foi a primeira a terminar a prova e sair da sala
de aula. Quem não aprovou aquela atitude foi Mariana que,
sentava atrás da Alessandra, tirava xerox da prova da amiga com
os olhos bem esguelados.
Aproveitando a iniciativa da Alessandra, também entregaram
a prova: Eduardo, Henrique, Tânia ... No meio da segunda aula,
restavam apenas seis alunos: eu, Guilherme, Mariana, Fernando,
Pedro e Tatiana.
Tatiana sentava atrás de Mariana; Guilherme, a três carteiras
atrás de mim, e tinha ao seu lado direito Pedro e Fernando. O
professor Petrusco continuava sentado, olhando em direção ao
fundo da sala.
A quinta questão da prova parecia um desses quebra-
cabeças. Havia dois problemas de inequação do primeiro grau a
serem resolvidos. Li e reli o enunciado do problema várias vezes.
Demorou um pouco para cair a ficha. Com certa dificuldade,
consegui transformar o enunciado numa estrutura matemática
numérica compreensível.
__ Guilhermeee ...
Que susto! Gritou o professor Petrusco, soltando o seu berro
amedrontador.
__ Entregue-me já esse papel -- ordenou o professor
Petrusco, flagrando Guilherme com a cola na mão.
Fernando, sentindo-se ameaçado, cutucou Pedro e
cochichou:
__ Sujô, mano. É melhor a gente cair fora daqui.
Levantaram-se ligeiros, deixando o barco afundar com
imperícia de Guilherme. Fernando e Pedro deixaram a prova
sobre a mesa do professor e saíram de mansinho da classe.
O pobre do Guilherme emudeceu e ficou com o semblante
rubro. O professor Petrusco prosseguiu com sua corriqueira
ladainha:
__ Já disse que quero o papel, Guilherme. Está esperando o
quê?
__ Não sei de papel algum, professor. O senhor deve ter se
enganado -- defendeu-se Guilherme, usando de artimanhas
aprendidas com os espertalhões.
__ Não sou cego, garoto. Vi muito bem você copiando alguma
coisa de um pedaço de papel que estava sobre a sua carteira --
objetou o professor, batendo forte com a mão esquerda sobre a
mesa de Guilherme.
__ O senhor está enganado, professor?
__ Olha aqui, meu rapaz. É melhor você me entregar essa
cola, senão seremos obrigados a fazer uma visita ao diretor da
escola. Será que fui claro?
Guilherme demostrava um grande jogo de cintura para
resolver problemas, com exceção dos problemas de matemática.
Seria difícil o professor Petrusco encontrar alguma prova
concreta contra o garoto espertalhão. Calmo e mais tranqüilo,
levantou-se da cadeira e retirou do bolso dianteiro direito um
pedaço de papel, e exclamou eufórico:
__ Olha aqui o papel que o senhor está procurando! Veja se
isso se parece com alguma cola!
O professor Petrusco, desconfiado da autenticidade, pegou o
papel em mãos e leu em voz alta:
__ “Alessandra, sétima série A: ser apenas amigo não basta,
o amor que sinto por você é eterno e infinito. Seu admirador”.
Não tente me enganar, Guilherme. Quero o papel que estava
sobre sua carteira -- insistiu o professor Petrusco, insatisfeito
com aquele bilhetinho arranjado de última hora.
Enquanto a discussão prosseguia no fundo da sala, Tatiana
passou a quarta e a quinta questões para Mariana. Através de
gestos estranhos, Tatiana perguntou se eu queria a resolução de
alguma das questões. Com o dedo indicador, dispensei a ajuda.
No fundo da sala, professor Petrusco insistia em pedir o tal do
papel ao Guilherme. Aquela intriga já estava virando uma novela:
__ Como pode um papel sobre a mesa aparecer no bolso de
sua calça em fração de segundos? Nem mágico seria capaz de
tal proeza -- admitiu o professor, completamente baratinado e
incrédulo.
Guilherme mantinha os olhos esbugalhados, com ar de
espanto. Parecia estar perdendo o controle da situação,
demonstrando-se um certo nervosismo ao tropeçar em algumas
sílabas quando tentava se defender:
__ É mu-muito simples, professor. Peguei o papel e o coloquei
no bolso dianteiro da minha calça.
Professor Petrusco, impaciente, coçou a cabeça. Toda vez
que ele fazia aquele gesto, sempre tomava alguma atitude
amarga, incisiva.
__ Pode até ser que o senhor esteja dizendo a verdade,
rapaz. Mesmo assim, é melhor prevenir do que remediar. O
senhor acaba de ganhar um ponto a menos em sua média
bimestral. E caso encerrado -- finalizou o professor Petrusco,
dando o veredicto final.
__ Isso é injusto! -- queixou-se Guilherme.
O garoto estava cutucando onça com vara curta. Ah! se o
professor Petrusco estivesse naqueles dias de tempestades
torrenciais. No mínimo levaria uma suspensão da escola por uma
semana.
Indiferente ao protesto de Guilherme, o professor Petrusco
sentou-se em sua cadeira e dirigiu o olhar atento em direção a
Tatiana, a qual entregou-lhe a prova e deixou a sala de aula.
Guilherme foi o próximo a se retirar da sala, e saiu rezingando:
__ Isso é injusto! Injustíssimo!
Eu também já havia terminado de fazer a prova. Inspirado
pela sensualidade de Bruna, aproveitei o silêncio para concluir a
composição de mais um poema. Mariana foi a penúltima a sair
da sala de aula.
O professor Petrusco, estranhando minha demora, voltou-se
para mim e perguntou-me:
__ Você está com dificuldade em alguma questão, Léo?
__ Não, professor. Já estou terminando o último exercício.

Matemática Canção
Beeem ...
Soou a campainha da escola, avisando o término da segunda
aula.
__ A aula terminou, Léo -- avisou-me o professor Petrusco,
olhando para o seu arcaico relógio de bolso.
Anexei uma cópia do poema e entreguei a prova. Será que o
professor Petrusco iria gostar?
Seja qual for a obra de um autor, a inerente ansiedade de
saber a opinião alheia é esmiuçada a pó, quando sobrevem a
uma crítica destrutiva e injuriosa. Somente com a opinião de um
público, o autor poderá fortificar a sua auto-avaliação e
enriquecer seu trabalho com melhor qualidade.
Um poema, um conto ou qualquer obra de arte que expresse
sentimentos, não é uma mera pedra imóvel esquecida numa
gruta escura qualquer. É o sangue que corre nas veias do
coração e alimenta o corpo de energia e vitalidade.
Esta poesia revela todo o meu sentimento em relação à
matemática. A matemática que encanta o mundo com a sua
razão:
Olha a aula de matemática,
na adição!
Olha a fração!
Olha o professor Petrusco,
na subtração!
Olha a expressão!

Olha a tarefa de matemática:


uma canção!

Olha a prova de matemática


na ponta do lápis em ação;
desenha à grafite
o quociente da divisão!
Olha a matemática!

Olha a matemática,
que multiplica
a nossa emoção!
A matemática da vida,
do coração.

Não teríamos a terceira aula, porque a professora de língua


portuguesa havia faltado. Descemos para a quadra da escola e
fomos brincar de passa-anel, mês, namoro-no-escuro ...

* * *
Atualmente, ninguém quer mais saber dessas brincadeiras
infantis. A moda é o video-game, a internet. Talvez, seja por isso
que as crianças de hoje são tão obesas. Além de ficar o tempo
todo estacionadas diante da telinha da tevê, também são meras
comilonas, num vício compulsivo e voraz.
Na contramão, as mulheres perfeitas -- vitrinas da moda --
chegam ao extremo da magreza, sujeitando-se a cumprir dietas
absurdas, trancando a boca e o estômago para as maravilhas do
mundo: chocolates, sorvetes, doces e mais chocolates.
Você acabou de ler o segundo capítulo. Foi legal, não foi? Eu
sabia que esse escritor melhoraria a sua narrativa. Bem que ele
poderia ter aliviado aquele ponto a menos na minha nota
bimestral. Eu só estava apreciando a beleza singular de Bruna.
Também, quem mandou ela resmungar? -- só podia ser a
imaginação desse escritor.
Se você encontrá-lo a esmo em algum lugar de nosso querido
planetinha azul, diga-lhe que o Léo anda muito aborrecido com
ele. Se, por acaso, o escritor perguntar quem é o Léo, mande-o
catar coquinhos e ir para o raio que o parta!

CAPÍTULO III:
AMOR A PRIMEIRA VISTA
O motivo que me levava correr para fila, quando soava o sinal
de entrada, era uma história muito longa para ser contada; daria
um bom romance. Para ser sucinto, evitando entrar em detalhes,
só posso adiantar que se tratava de uma paixão ardente, dessas
que nascem de um amor à primeira vista e depois vai se
transformando num martírio; pois se apaixona perdidamente pela
garota e fica sem saber o que fazer para conquistar a atenção e
o amor dela. Ainda mais sendo tímido, como eu!
O nome da garota que eu gostava era ...
É cedo para revelar a identidade dela. Ainda há muitos
capítulos pela frente. Se a coragem permitir, comprometo-me a
dizer o nome dela antes de terminar este capítulo. Vamos partir
do princípio: do momento em que se originou essa paixão.
O ano passado ela estudava na sétima série. Foi na segunda
quinzena de setembro daquele ano, que o cupido flechou meu
coração, florescendo essa paixão doentia. Era a final de vôlei
feminino do intercalasse promovido pelos professores de
educação física da minha escola. A final tinha sido realizada
entre a sexta série B do período da tarde e a temível sétima série
A do período da manhã. Uma batalha de arrepiar os cabelos!
Imagine a existência do nada. Nada além de uma imagem
incolor, desprovida de atenção e afeto. É idêntico afirmar que o
amor é cego, e essa cegueira é proporcional à indiferença.
Simplesmente, nunca havia sentido nada de peculiar por aquela
garota. Quando a via caminhando pelo pátio da escola, meus
olhos desprezavam aquele rosto tão belo, voltando-se para outra
direção.
Tinha um amigo que a venerava como uma deusa; vivia o
tempo todo falando nela. Todavia, aquela ilusão nunca havia
passado pela minha cabeça. Meu amigo desistiu dela e arrumou
uma namorada, dando um pouco de sossego para meus
ouvidos.
Às vezes, o destino é cruel, e nos envolvem em cada cilada!
Como diz aquele velho ditado: “quem cospe para cima acaba
caindo em sua própria cara“. Foi justamente por essa garota que
acabei me apaixonando.
Tudo começou no jogo entre a minha classe e a dela. De
repente, sem qualquer explicação, desprendeu em meu peito um
sentimento noviço: um amor imaturo. Certas pessoas acreditam
no amor à primeira vista; outras, porém, acham isso um absurdo.
Acredito no amor à primeira vista a ponto de ter sido alvo dele.
A mágica da paixão me encantou e invadiu o meu coração,
construindo nele o seu casulo. Aquele amor à primeira vista não
era efêmero, mas perene, sublime. Novamente a inspiração
invadiu meus pensamentos com um poema notável:

Amor a primeira
vista,
você olha:
pisca-pisca.

Não é fácil,
muito menos difícil.
Pisca-pisca,
e lá está o amor
a primeira vista.

Amor a primeira vista,


não me faz sofrer.
Sobre um pisca-pisca,
faz você querer.

Pisca-pisca,
alguém vê.
Risca-rabisca,
na tela da TV

Um charme,
ao saber piscar.
Muitos ensaios,
para não errar.

Olhe no espelho
e comece a ensaiar.
Pois, no baile
de hoje à noite,
você vai ter que só:
piscar, piscar ...
O Bichinho do Amor

Blasfêmia! Acho que paguei muitos de meus pecados durante


todo esse tempo sofrendo às espreitas por esse amor não
correspondido. Se antes eu era um cético; agora, passei a
acreditar no “bichinho do amor”. Sabe? É aquele comichão que
tem início no pescoço, atravessa pelo peito, até passar pelo
umbigo. Após um delirante suspiro, o “bichinho” sobe e atinge o
coração em cheio. Pronto! Lá está a ardente paixão. Lá está o
“bichinho”, dominando totalmente a sua mente e suas emoções.
O jogo havia começado. A primeira etapa encerrou-se com a
vitória do time da classe da tal garota. Obviamente, encontrava-
me muito chateado, pois torcia pelas meninas da minha classe. A
segunda etapa da partida foi bem diferente. Quem fez a
diferença foi a Tereza: uma loira de um metro e oita; a nossa
arma secreta. Os passes e as cortadas foram perfeitas.
Ganhamos o segundo set com o placar de 15 a 2 pontos. Um
verdadeiro massacre!
As torcidas de ambas as séries foram ao delírio e se
confrontaram no grito, trocando vaias e assobios. Adrenalina
pura! O início da última etapa me deixou com frio na barriga. Foi
uma disputa acirrada, ponto a ponto.
Nas mãos salientes de Tereza encontrava-se a bola do jogo: o
ponto que liqüidaria a partida. Ela sacou forte. A bola atravessou
a rede e foi bloqueada com muita dificuldade na diagonal inferior,
à esquerda. Em seguida, magicamente levantada para o potente
golpe da cortadora Leonice, do time adversário, a qual não
percebeu o super bloqueio, armado pela Tereza e Fabiana. A
bola rebateu no bloqueio, atingindo fortemente o rosto de
Daniela. Havíamos ganhado o jogo. Porém o sorriso deu lugar ao
espanto. Não havia muito a que comemorar. Fiquei preocupado
com a súbita queda daquela princesa. Parecia que a garota
havia desmaiado. Só não compreendia o porquê de minha
preocupação. Seria amor? Mera tolice. Imagine! Imagine? Claro
que era amor à primeira vista.
Corri até o centro da quadra. Ao redor de Daniela havia se
formado um círculo de alunos curiosos. A professora de
Educação Física pediu para alguém buscar álcool. Enquanto
esperava, manteve a cabeça de Daniela erguida. Foram os
minutos mais tensos e apreensivos de minha vida.
O meu coração disparou sem rumo, sem motivos. Roía as
unhas bastante preocupado: “ela não acorda!“ -- cogitava,
apreensivo.
Já havia perdido a esperança. Daniela continuava deitada no
chão com a cabeça apoiada sobre as pernas da professora
Hortênsia. Inerte, torcia para que ela voltasse a si. Se pelo
menos tivesse a coragem de dar um beijo na boca dela? Talvez
minha princesa acordaria como nos contos de fadas.
Quando Mariana chegou, trazendo o álcool, a professora
Hortênsia clamou:
__ Por favor, gente! Afastem-se um pouco. Não sufoque a
menina. Ela precisa de respirar.
Parecia mágica. Os alunos se afastaram alguns metros de
Daniela, aumentando o diâmetro do semicírculo formado ao seu
redor. O ar puro da manhã, aromatizado pelas árvores que
ladeavam a quadra, despertou Daniela de seu sono profundo.
Não precisou nem de usar o álcool.
Daniela reclamou que estava meio zonza. Aos poucos foi se
recuperando do susto. Inspirei fundo e aliviado pela minha
princesa ter retomado a lucidez.
A partir daquele momento meus ideais, sonhos e sentimentos,
tomaram novos rumos. Minha vida mudou. Daniela passou a ser
o oxigênio que não podia faltar em minha vida. Apesar, de ela
não saber que a amo, ainda tenho a esperança de romper essa
barreira, esse medo. Algum dia, direi isto a ela.
Precisava acordar do amor à primeira-vista. Mas tinha medo
de arriscar e de encarar a realidade.
Medo de não corresponder às expectativas de Daniela. Medo
de ser maltratado e humilhado pelos meus amigos e pessoas
alheias. Medo de não conseguir sustentar o namoro por um
tempo razoável. Medo de fracassar. Medo de não conseguir
vencer a rotina.
Quem ama em silêncio é um bobo alegre, ou triste, que
idealiza diversas situações e vive vagando na solidão de seus
pensamentos. É uma fantasia incurável, que oculta o medo de
enfrentar de peito aberto os desafios da vida. Covarde! É isto
que sou.

* * *
Prezado ombro amigo, a vida é assim mesmo: cheia de
esperanças e sonhos. Esse negócio de ser adolescente é um
tanto complicado. Há pouco tempo, eu era um garotinho
triquetraz, daqueles habituados a incendiar a vizinhança com
travessuras e outros molecagens infantis. Uma alegria infinita.
Não pensava noutra coisa na vida, a não ser brincar.
Agora, na flor da juventude, já havia perdido grande parte de
minha alegria em razão dessa timidez maluca, sem sentido.
Talvez, você seja alguém muito extrovertido, e esteja pensando
nesse momento: “que cara mais idiota é esse Léo! Chega logo
nessa tal de Daniela e pronto. Diga que quer ficar com ela ...
quer namorar ... casar ... sei lá, o quê mais! Resolva essa
questão de uma vez por todas. Se der certo, deu. Se levar o
fora ... bem, o mundo está cheio de novas garotas”.
Que bom se esse escritor pensasse assim. Não estaria aqui
nesse instante conclamando, suplicando, a sua ajuda.
Esse escritor bem que poderia facilitar a minha vida, sendo
mais objetivo, acabando de uma vez por todas com esse clima
de suspense e incerteza. Quando afirmo que o todo poderoso
está me usando como cobaia, parece que você não acredita em
mim.
Continue lendo. Só assim me sentirei mais seguro para seguir
nessa minha via-crúcis. Quem sabe, juntos conseguiremos
vencer meus medos, minha timidez e convencer o escritor a ser
mais bondoso comigo.

Namoro No Escuro

Há alguns dias atrás, ocorreu uma situação muito


desagradável em minha vida. Como não poderia deixar de ser,
tudo por culpa desse escritor.
Era aula de Educação Física. O sol, às onze horas da manhã,
agitava calorosamente as moléculas de meu corpo. O suor
escorria pelo meu semblante e ardiam meus olhos. Assim que
acabou o treino de vôlei, corri até o banheiro para lavar o rosto.
Quando retornava para a quadra, encontrei alguns amigos da
oitava série, zanzando pelo pátio. Eles me convidaram para
brincar de namoro-no-escuro. A princípio recusei o convite,
porque eu estava em aula de Educação Física. Quando avistei
Daniela, meu coração acelerou. Não pensei duas vezes e aceitei
o convite.
__ A sua classe está de aula vaga, Fabrício?
__ Tá. Graças ao professor Petrusco que não quis dar aula
para minha turma, Léo.
__ Será que anda acontecendo algum milagre nessa escola?
Acabei de vê-lo, agora pouco, subindo as escadas.
__ Deixe-me explicar, Léo: a professora de história faltou e o
chato do professor Petrusco não quis subir aula. Foi isso que
aconteceu -- lamentou-se Fabrício, com a vontade de ir embora
mais cedo para casa, estampado em seu semblante repleto de
espinhas.
A turma se reuniu debaixo de um arvoredo, no gramado da
escola, e iniciaram a brincadeira. Pedro e Mariana também
participavam do namoro no escuro. O primeiro a escolher foi
Pedro. Fernanda, a mais sapeca da oitava série, tapou os olhos
de Pedro com uma das mãos; com a outra, apontava em direção
de alguém, inquirindo-lhe:
__ É essa?
__ Não - respondeu Pedro.
__ É esse?
__ Não.
__ É essa? ... É essa? ... Escolha logo, Pedro -- insistiu
Fernanda, sôfrega.
__ Não.
Adivinha quem era a próxima pessoa? Fernanda estendeu o
braço, com o dedo indicador da mão direita, apontado na direção
de Daniela.
__ É esse?
__ É -- confirmou Pedro, convicto.
Juro que deu um arrepio na espinha. Uma vontade louca de
estar no lugar dele. Puro ciúme. Fernanda prosseguiu:
__ O que você deseja, Pedro? Chuchu, jaca, manga ou
maçã?
Chuchu, tudo bem: era dar uma volta ao redor da quadra sem
dar as mãos.
Jaca? Também não fazia diferença alguma. Tratava-se de dar
uma volta de mãos dadas.
Manga? Já despertava um pouco mais de ciúme: três ligeiros
beijos no rosto.
A maior tortura seria maçã, que significava um inócuo beijo na
boca. Fiquei mordendo a língua, tenso, receoso, torcendo contra.
Fernanda, impaciente, ordenou:
__ Vá, Pedro. Escolha rápido, seu cérebro de lentilha.
__ Quero ... manga.
Daniela, num instinto cruel, abriu um sorriso melindroso e
olhou bem em meus olhos. Devolvi o sorriso superficial e
acanhadamente; sobretudo, purificado de amor e desejos de
beijar aqueles lábios de mel. Virei-me para não testemunhar
aquela tortura psicológica. Não havia sido pior, por sorte. Tapei
até os ouvidos para não escutar os estalidos dos três beijinhos
no rosto dela.
Fernanda encobriu com a mão esquerda os olhos de Daniela
e prosseguiu:
__ É esse?
__ Não.
__ É esse?
__ Não.
O meu coração voltou a bater forte, acelerado. O braço de
Fernanda estava posicionado em minha direção. Será que
Daniela iria dizer “sim”? Se isso realmente acontecesse, eu seria
capaz de dar um beijo no escritor. Acho que ...
__ Não -- confirmou Daniela, rompendo com minha
expectativa.
Aquele “não” correspondia a enfiar uma espátula em meu
peito. Haveria outras oportunidades.
__ É esse? -- prosseguiu Fernanda.
__ É. Pode ser esse mesmo -- confirmou Daniela, com um
certo ar de dúvida.
A escolhida foi Mariana. Fiquei contente, pois ela tinha
prometido que daria um jeito de me escolher. Tudo porque havia
auxiliado Mariana num trabalho de Geografia; trabalho que honra
o próprio nome, de arrancar estrelas do céu.
__ O que você escolhe Daniela? -- indagou Fernanda.
__ Pêra -- lembrou-se Daniela, acrescentando uma opção a
mais na brincadeira.
Pêra era um abraço ofegante, desses de quebrar as costelas;
conotativamente, é claro! Mariana levantou-se, tocou em meu
ombro esquerdo e cochichou em meu ouvido: “agora é a sua
vez, Léo”. Agradeci com um sorriso maroto desenhado no
semblante, rubro de vergonha.
Daniela abraçou fortemente Mariana e sentou-se no lugar
dela. Fernanda sorriu desconfiada, quando Mariana lhe disse
algo bem ao pé do ouvido. Depois, tapou os olhos de Mariana
com a mão esquerda, estendeu o braço direito e, com aquele
sorrindo perspicaz de sempre, continuou:
__ É essa?
__ Não.
__ É esse?
__ Não.
Novamente o braço de Fernanda apontava em minha direção.
Fechei os olhos e cogitei: “Chegou a minha vez”. Fernanda,
discretamente, alterou o tom de voz, soando um “ram-ram”. Abriu
um sorriso malicioso e inquiriu:
__ É essa?
__ É -- confirmou Mariana, irrefutavelmente.
Olhei para Daniela. Ela parecia meio enciumada. Encontrava-
me nas mãos de Mariana. Se minha querida amiga escolhesse
chuchu, não teria graça alguma. Tinha de ser algo mais quente.
__ Então, Mariana? O quê você escolhe? -- perguntou
Fernanda.
__ Escolho manga.
Manga? Que maravilha! A princípio fiquei perplexo. Daniela
fixou-me um olhar de espanto e ciúmes. Dessa vez foi ela quem
virou o semblante, negando presenciar os três estridentes beijos
que Mariana deu em meu rosto. Como diz aquele velho, e velho
mesmo, ditado: quem com ferro fere, com ferro será ferido.
Fabrício, furioso por ninguém tê-lo escolhido, pediu para
Fernanda deixá-lo ser o indicador da brincadeira. Tudo
caminhava da melhor forma possível. Não poderia deixar
escapar aquela oportunidade única.
Discretamente, implorei para Fabrício dar um aperto em meu
rosto quando chegasse na vez de Daniela.
__ É essa? -- iniciou, Fabrício.
__ Não.
__ É essa?
__ Não.
__ É esse? -- prosseguiu Fabrício. Como combinado, apertou
levemente minha testa com o dedo indicador.
__ Deixe-me ver ... -- enrolei, ansioso, prevalecendo-se da
ajuda de Fabrício.
Só queria ter visto a cara dela. Daniela estaria torcendo por
um heróico “sim”, ou rezando para que eu proferisse um salvador
“não”? Permaneci pensativo, inteiramente absorto, com os olhos
vidrados em direção ao jardim interno da escola. Pelas entranhas
dos dedos de Fabrício, aquela rosa vermelha, a mais esbelta do
jardim, tonificava as suas pétalas com o brilho irradiante da
estrela Sol. Logo, imaginei aqueles lábios suculentos, floridos de
pétalas vermelhas, tocando a minha boca e exaurindo o perfume
do amor. Eu era o retrato vivo de um patético apaixonado,
arrastando-se aos pés de sua princesa -- ou bruxa.
__ Vamos Léo, escolha? -- insistiu Fabrício, impaciente.
O suor escorria pelo meu corpo: o mais puro medo. Medo de
quê? Respirei fundo. Fechei os olhos. Aspirei coragem.
Confirmei, suspirando:
__ Sim.
Qual teria sido a reação de Daniela? Queria ter dois olhos na
nuca, só para ver a reação dela. E agora? Escolher maçã,
manga ...? Talvez, havia visualizado o futuro naquela rosa
vermelha; nela refletia o meu sonho: um beijo perfeito nos lábios
da felicidade. A ansiedade e o nervosismo alteravam o ritmo de
meu coração frenético.
Daniela vestia-se com muito encanto: morena de cabelos
longos, tez vibrante, corpo sedutor, camisa lilás suave, calça
jeans aderida às curvas dos mais belos sonhos, tênis branco,
dois brincos de pérolas, travessa azul arqueada sobre a cabeça
e dois anéis na mão direita.
__ O que você escolhe, Léo: chuchu, jaca, pêra, manga ou
maçã? -- indagou-me Fabrício, rindo baixinho, colado ao meu
ouvido.
__ Maçã -- respondi, com o coração quase saltando pela
boca.
Virei, ligeiro. Daniela encontrava-se em pé: sem sorriso, sem
encanto. O seu rosto não refletia amor; resplandecia indiferença.
O que mais temia, fui obrigado a ouvir:
__ Quem mandou me escolher? Não estava mais participando
da brincadeira -- replicou Daniela escabrosamente, recusando
beijar-me na boca.
Fabrício, surpreendido com a reação de Daniela, tentou
contornar a situação da melhor forma possível:
__ O que é isso, Daniela? Um simples beijo na boca. É
apenas uma brincadeira. Algumas bacteriazinhas a mais ou a
menos não vai matar ninguém, não -- brincou.
__ Brincadeira, uma ova! -- interrompeu Daniela. __ Por que
não beija você, Fabrício?
Infelizmente, aconteceu o óbvio. Já aguardava por uma
resposta similar de Daniela, apesar de ter sonhado o inverso.
Sentia na alma a dor da indiferença. A dor de um ser ignóbil,
traído pelo medo de ser feliz.
Mesmo com a insistência de toda a turma, Daniela não abriu
mão de sua decisão. Cruzou os braços e confirmou:
__ Já falei que tinha parado de brincar -- frisou
arrogantemente.
Apesar da indiferença de Daniela, ainda continuava a amá-la
profundamente.
Era devido à existência desse amor incomum, que todos os
dias letivos, eu corria ligeiro para a fila. Meus olhos permaneciam
direcionados em direção a Daniela. Seguindo todos os seus
passos, gestos, movimentos. Quando ela percebia o meu olhar
impulsivo, eu disfarçava; ora olhando para o teto, ora para o
chão.
Beeem ...
Soou o sinal do recreio. Corri para a fila. Teríamos aula de
Educação Artística. Você já sabe por que corri para a fila.
CAPÍTULO IV :
EM BUSCA DE TRABALHO

Abril passou como um relâmpago. Tirei oito naquela avaliação


de matemática e continuava tirando zero na prova do amor. O
mês de maio escapou pelas bordas de meus dedos sem
qualquer novidade: imutável e invariável. A mesma ladainha de
sempre. Todavia, em junho, a história foi bem diferente. Salve
Santo Antônio! São João! São Pedro! Viva o mês de junho!
Foi justamente no início desse mês que tomei uma ousada
decisão em minha vida: “chega de ficar na frente da televisão o
dia todo assistindo desenhos animados”.
Tomei a decisão de arrumar um emprego. Emprego de quê?
Office-boy? Será que isso fazia o meu tipo? De uma coisa tinha
plena certeza: esse negócio de arrrumar trabalho dava um
trabalhão danado.
A minha cidade era uma autêntica panela de pressão: bem
compacta e efusiva em relação à língua solta das comadres -- as
fofoqueiras de esquina e fundo de quintal. Apesar de pacata,
bastava alguém escorregar na banana aqui no norte, que o
pessoal do sul ficava sabendo do ocorrido na velocidade da luz.
Quem ainda não sabe, a velocidade da luz é de 300.000
Km/s. Guarde bem essa informação em seu cérebro; isto poderá
lhe servir no futuro. Que exagero! Exclamaria um sábio filósofo. É
assim que funciona o noticiário nas pequenas cidades do interior:
nos olhares atentos e dos lábios sarnentos das fofoqueiras de
fundo de quintal, a notícia ultrapassava a barreira da luz em
tempo real.
Imagine as dificuldades para se encontrar trabalho numa
cidade como essa. O jeito era trabalhar na lavoura. Infelizmente
a lavoura era coisa do passado por essas bandas de canaviais,
de maquinário substituindo o trabalho do homem do campo ...
__ Dar trabalho é fácil -- resmungava o jardineiro da praça da
igreja Matriz de Brodowski todo final de semana.
Normalmente aos sábados e domingos, antes, durante e
depois da missa, a molecada irrequieta, além de esparramarem
saquinhos de pipocas pelos canteiros da praça, tinham o
atrevimento de pisotearem os canteiros de margaridas numa tal
brincadeira de pique-esconde. Por falar em pipocas ... até que
não era uma má idéia trabalhar de pipoqueiro. Pensando bem,
não seria uma boa idéia. Não daria muito certo. Do jeito que
gosto de pipoca, não sobraria nenhum grãozinho para vender:
comeria todos.
O quê fazer da vida? Quem sabe ser escritor? Não. Poderia
demorar muito até conseguir publicar o meu primeiro livro. O jeito
era procurar uma outra forma de ganhar dinheiro para satisfazer
meus desejos materiais. Em Brodowski existiam escritórios de
contabilidade, bancos, bares, fábrica de aquecedor solar,
pequenas lojas, fábrica de botina, fábricas de costura, curtume,
fábrica de ancorotes, marcenarias, fábrica de cosméticos, várias
oficinas de mecânica, fábrica de tintas, oficinas de eletrônica
(Deus-me-livre!), vários varejões. Ah! Como poderia me esquecer
dos supermercados ?
Já havia tomado uma decisão: após o almoço, começaria
pelos escritórios.
Se estivesse empregado, poderia contar com meu próprio
dinheiro para passear, comprar roupas, ir a lanchonetes ... Isso
mesmo, ainda existiam duas locadoras, três sorveterias e
diversos carrinhos de lanches. Não conseguia pensar noutra
coisa a não ser em arrumar um emprego.
Pensando bem, o café da manhã saciou a minha fome e
alimentou minha alma de entusiasmo. Besteira perder mais
tempo e ficar esperando a hora do almoço.
Fui ...

Tempos Modernos

Minhas pernas tremiam. Era minha primeira tentativa. Apoiei o


pedal da Escavática na sarjeta. Ajeitei os cabelos. Apertei o cinto
e parti para o desafio. Na entrada do escritório Mallar
Despachante havia um papel fixado na parede com a seguinte
mensagem em letras garrafais:
“PRECISAMOS DE DUAS GAROTAS ACIMA DE 14 ANOS,
COM BOM CURSO DE INFORMÁTICA E DIGITAÇÃO”.
Será que não poderia ser um garoto inteligente como eu? Não
custava perguntar.
Subitamente, passando pela cortina de tiras plásticas, que
encobria a porta ao fundo do escritório, uma mulher morena clara
de cabelos longos e atraentes dirigiu-se até o balcão, inquirindo-
me com muita vitalidade.
__ O garoto deseja alguma coisa?
Comecei a suar estupidamente. Meus lábios tremiam, não de
frio; mas de medo. Vida de acanhado é um marasmo, um
sofrimento tão tolo e imbecil que não há explicação cabível para
a existência desse acanhamento destrutivo. Precisava de umas
boas palmadas nas nádegas, e acordar para a vida.
A justificativa daquele tremelique repentino encontrava-se no
receio de que a mulher proferisse um incisivo “não”. Ninguém é
obrigado a empregar ninguém. Emprega se quiser, se houver
necessidade e interesse da empresa, do empregador.
Não havia outra saída. O jeito foi encarar a realidade e
arriscar. Criei coragem e desatinei:
__ Estou a procura de emprego. O aviso no cartaz se refere
apenas a duas garotas com curso de datilografia. Será que não
daria para a senhora quebrar o meu galho e deixar uma vaga
para mim?
A mulher sorriu. Concisa explicou que as duas vagas eram
apenas para garotas e que não tinha previsão para abrir vagas
para garotos. Depois, num gesto de cordialidade, indicou-me um
outro escritório. Que falta de sorte!
Saí do escritório emudecido, meio aborrecido, com um sorriso
medíocre e enfadonho. Porém algo dentro de mim rogava
esperançosamente:
__ Não desanime. Se hoje não deu certo, amanhã será um
novo dia. Quem sabe você arruma um emprego melhor.
Para quem nunca trabalhou, qualquer coisa seria sempre um
sacrilégio. Apesar do excesso de positivismo, percorri todos os
escritórios de Brodowski e em todos existiam vagas somente para
as garotas.
Por que essa perseguição contra os garotos? Sem encarar
isso como preconceito, concordo plenamente que as mulheres
devem ser valorizadas pelo seu trabalho. Da maneira pela qual as
coisas estão se encaminhando, quem vai parar na cozinha tão
breve, serão os homens. Que inversão de valores, hein?
Já que o novo destino do homem se direciona para a cozinha,
então, depois do almoço, que tal procurar emprego onde tenha
cozinha no cardápio. Quem sabe, terei mais sorte.

Meu primeiro Emprego

Após o almoço, retornei para a rua em busca de um emprego.


Iniciei pelas sorveterias. Infelizmente não havia nenhuma vaga
disponível em nenhuma delas. Prometeram me contatar na
eventualidade de surgir alguma vaga.
Passei a tarde toda percorrendo os carrinhos de lanches. O
último que visitei, tive mais sorte. O carrinho ficava localizado num
terreno baldio, à direita da rodoviária. Ao redor do carrinho de
lanches, havia sete mesas feitas de cimento, acompanhadas
cada uma de quatros bancos circulares, também de cimento.
Gordo era o apelido do dono do carrinho de lanches. Ele era
uma pessoa sensacional. Sabia tratar os seus clientes com muita
simpatia e cordialidade. Nos finais de semana, eu costumava
freqüentar o carrinho de lanches do Gordo, acompanhado de
meus amigos. Havia até uma televisão colorida de vinte
polegadas para descontrair o ambiente e entreter o freguês
enquanto aguardavam pelo lanche.Tempo suficiente para bater
um bom papo, tomar um refrigerante e ficar com água na boca ao
sentir o aroma de bacon.
Da mesma maneira que havia feito pela manhã e a tarde toda,
encostei a Escavática na sarjeta. Meio cansado de tanto pedalar
cumprimentei o Gordo:
__ Boa-tarde. Como anda a freguesia, Gordo?
__ A freguesia anda com uma fome de leão, meu jovem. É por
isso, que ela nunca esquece do carrinho de lanches do Gordo.
Não é verdade? -- disse Gordo sorridente, preparando uma
porção de bacon.
Cansado e com fome, fui direto ao assunto:
__ Estou com as pernas entrelaçadas de tanto percorrer os
recantos da cidade a procura de emprego. Será que ...
__ Você disse emprego? -- interrompeu Gordo, animadamente.
__ Sim, emprego. Estou procurando um lugar para trabalhar.
__ Ora, meu jovem. Se estiver a fim de ganhar um salário
mínimo por mês como entregador de lanches, considere-se já
empregado agora.
Alegre pela oferta, sem meio termo, indaguei-lhe:
__ Quando começo a trabalhar?
__ Espere um pouco, garoto. Tenho o direito de pelo menos
saber o nome de meus empregados.
__ Imaginei que o senhor soubesse ...
__ O senhor está no céu -- acrescentou Gordo, com seu
humor apraz.
__ Desculpa-me. Pensei que soubesse o meu nome ...
__ Não sei. Se soubesse não teria perguntado, garoto?
__ Meu nome é Léo.
__ Léo? Léo me fez lembrar de Gabriel. Você conhece aquela
piada do anjo Gabriel, que ...
Gordo, dotado de um refinado e apurado humor, adorava
contar piadas. A piada do anjo Gabriel que ele contou era muito
pesada e indecente para ser registrada num meio público
respeitável, como por exemplo, num livro. Tenho vergonha só de
lembrá-la. Esquece ... O mais importante havia conseguido: meu
primeiro emprego.

Primeiro Dia de Trabalho

Cheguei em casa contente, esparramando a novidade para a


minha família. Meu irmão caçula, Lucas, entusiasmado com a
idéia de ter um irmão trabalhando num carrinho de lanches, veio
logo dizendo:
__ Léo, posso ajudá-lo? Ajudá-lo a passar o cat-chup no vidro
dos carros.
Que imaginação infantil! Se o Gordo me pegasse fazendo uma
molecagem daquela, com certeza me mandaria embora sem
pensar duas vezes. E com toda razão.
Naquela noite, sonhei com a minha primeira entrega de
lanche. Chovia muito. Mesmo assim, de guarda-chuva, enfrentei o
mal tempo e realizei aquela entrega. Ganhei até gorjeta. Numa
outra passagem, sonhei que fui perseguido e atacado por três
cães famintos.
Sonhei a noite toda. Com meu primeiro salário reformei toda a
Escavática. Ela ganhou uma nova cor, novos adesivos e bons
freios. Por que será que a gente fica com a mente processando
tantas asneiras quando conseguimos algo que há muito tempo
almejávamos?
Pela manhã, o sol já exibia todo o seu peculiar brio,
prometendo um calor infernal para tarde. Após saborear o
desjejum, liguei a televisão e revivi meu tempo de criança,
quando era obcecado pelos desenhos infantis. Após o almoço,
corri para o banheiro, escovei os dentes, refletindo no espelho um
sorriso maroto de estréia.
Era um momento muito importante em minha vida. Havia
conquistado meu primeiro emprego. Era preciso apostar na sorte.
Levei no bolso da calça jeans uma folha de trevo-de-quatro-
folhas.
Cheguei ao carrinho de lanches faltando um minuto para as
treze horas. A maioria dos relógios marca as horas de uma
maneira distinta. Assim se torna difícil saber quais deles destão
adiantados ou atrasados?
Deixei a Escavática estacionada na sarjeta. Sem rodeios,
Gordo salientou:
__ Parece que a coisa não anda muito boa para o seu lado.
Acho que vou adiantar o seu salário para você dar uma reforma
geral na sua bicicleta.
__ Isto não é uma má idéia, Gordo. Há tempos que a
Escavática está necessitando de uma reforma.
__ Escava ... o quê? -- inquiriu-me Gordo, rindo.
__ Escavática. É o nome que dei a bicicleta.
__ Isso só pode ser piada, meu jovem!
Gordo era mesmo uma pessoa muito fina. Logicamente,
menosprezando as gordurinhas em excesso. Também era um
patrão sensacional, distinto, notável, que merecia muito respeito e
estima.
Entre bate-papos, piadas e televisão, lá estávamos, à sombra
do telefone, na espera da ligação de mais um cliente. Já se
passava das três horas da tarde. Permanecia ansioso,
imaginando a minha primeira entrega. Que demora!
De repente ...
Drim! - tocou o telefone.
__ Enfim, um freguês! -- cogitei.
__ Carrinho de lanches do Gordo, boa-tarde – atendeu o
Gordo, cordialmente, com aquele seu vozeirão de locutor de
rádio.
Uma pausa.
Comecei a roer as unhas. A expectativa aumentava a cada
“sim“ confirmado pelo Gordo ao telefone. Pelos gestos, parecia
ser mais um interrogatório policial do que um simples pedido de
lanche. A vida nos revela grandes surpresas. Absolutamente, a
vida nos remete à experiência.
Minha Primeira Entrega

Gordo retornou o gancho no telefone e explicou a razão


daquele excesso de “ sim ” :
__ Léo, prepare-se porque o seu primeiro freguês reservou um
caprichoso cardápio. Aqui está o endereço. Se preferir pode
consultar o mapa, enquanto preparo a encomenda -- ironizou o
Gordo, soltando aquele sorriso cômico inato.
O meu coração começou a pulsar fortemente. Ansioso em
saber o nome do freguês, peguei o papel com o endereço. Foi
grande a surpresa. Minha primeira entrega seria no escritório
Mallar Despachante.
Com a encomenda no interior da caixa, fixada na garupeira da
Escavática, parti para minha primeira entrega do dia. No primeiro
quarteirão vivenciei as primeiras dificuldades do trabalho. Meio
desajeitado, quase deixando a caixa cair no chão, desviando-se
de carros, sob o sol queimante, percorri aquele pequeno trajeto
até o local da entrega.
__ Ufa, que calor! -- suspirei, encostando a Escavática na
sarjeta.
Entrei no escritório. Olhei para a parede e o cartaz, que ontem
se encontrava fixado, havia desaparecido. Será que as vagas
para as duas moças tinham sido preenchidas?
__ Pois, não? Deseja alguma coisa?
Que susto! Virei-me em direção ao balcão e dei de cara com
uma garota linda. Não me lembrava de ter visto aquela garota no
escritório. Certamente ela havia conseguido uma das vagas.
__ A dona está? -- inquiri, encantado com seus olhos verdes,
colocando a encomenda sobre o balcão.
__ Dona Laura?
__ É -- respondi, absorto.
__ Aguarde um momento que vou chamá-la.
Será que aquela beldade de garota estudava em outra escola?
Imagine trabalhando no escritório Mallar, sem enfrentar o sol
ardente, ao lado dela! Certamente, Daniela morreria de ciúmes.
A mulher, que conversei ontem, atravessou a cortina feita de
tiras plásticas trazendo um sorriso perspicaz no semblante. Será
que havia sobrado alguma vaga para mim?
Infelizmente, não. Dona Laura estava afoita para saborear o
super baleia-tudo: o lanche mais apreciado pela exigente
freguesia do Gordo.
Acompanhada da garota, dona Laura lembrou-se de mim:
__ Você não é aquele garoto que esteve aqui ontem a procura
de emprego?
__ Exatamente.
__ Que maravilha que você arrumou um emprego. Estou muito
feliz com isso. Prova que você é um garoto perseverante. É assim
que se deve agir: com muita fé, sem desanimar.
__ Não foi fácil conseguir um emprego, dona Laura. Tenho
muito de agradecer ao Gordo.
__ Você demostrou ser um rapaz bem versátil. Quando
aparecer uma vaga para garoto aqui no escritório, prometo que o
contrato.
__ Agradeço pela confiança, dona Laura. Seria muito bom
trabalhar aqui. O Gordo é um excelente patrão, mas ...
__ Esses “mas” são um problema sério -- interrompeu-me dona
Laura. __ Por que será que todo empregado nunca está satisfeito
com seu patrão?
__ Ou patroa -- acrescentou a garota.
Aproveitei a oportunidade para descobrir o nome daquela
garota. Insinuei:
__ Nem todos os empregados agem dessa forma, dona Laura.
A senhora está de parabéns pela atenção e dedicação de sua
funcionária.
__ Como é bom ouvir um elogio a seu respeito, Carla --
alegrou-se dona Laura, voltando-se para a garota. __ Você tem
toda razão, Léo. Hoje é o primeiro dia de trabalho da Carla no
escritório. Lembra-se das duas vagas?
__ Perfeitamente – confirmei
__ Carla foi escolhida para ficar com uma das vagas --
prosseguiu dona Laura, alisando com as mãos os cabelos
castanhos da garota.
Satisfeito em alcançar mais um objetivo naquela tarde
calorenta, entreguei a encomenda para dona Laura. Ela
preencheu, assinou rapidamente o cheque e frisou:
__ Diga ao Gordo que este cheque é referente às encomendas
da semana passada. Não vai esquecer, hein?
__ Voltarei sempre aqui? -- inquiri surpreso.
__ Por que essa cara de espanto, Léo? Não gostou do
escritório?
__ Adorei, dona Laura. É um escritório muito aconchegante.
Que venturosa notícia! Todos os dias, úteis, é claro, voltaria a
rever novamente a Carla. Quem sabe o destino nos uniria num só
caminho, numa só vida, como namorados. Alguns calhordas têm
o atrevimento de afirmar que não existe amor à primeira vista.
Olhei para o relógio. O papo no escritório se prolongou por
mais de meia hora. Com medo de levar uma bronca do Gordo,
regressei imediatamente ao carrinho de lanches, entregando-lhe
o cheque de dona Laura.
__ Pegue de volta o cheque, Léo. Tome mais esses três. Vá
direto ao banco para depositá-los em minha conta corrente --
pediu-me o Gordo num tom áspero, olhando o relógio.
__ E o número da conta, Gordo?
__ O número está atrás do cheque. Não se preocupe com
isso, o pessoal do banco me conhece perfeitamente. Só não
esqueça de trazer o recibo.

Vida Diferente
Corri para o banco.
Corri para a casa.
Corri contra a semana.
Havia chegado meu primeiro final de semana,
demasiadamente ocupado. No sábado à noite, realizei várias
entregas pela cidade. Ainda deu tempo de servir o aglomerado de
fregueses que ocupavam todas as mesas de cimento.
A minha vida mudou completamente. Não tinha muito tempo
disponível para ficar à toa. O pouco tempo que tinha de folga,
usava para fazer as tarefas da escola ou algum poema bem
peculiar.

De repente,
muda a vida
da gente.

A gente não percebe.


Muda o ambiente,
tudo fica diferente.

No rosto um sorriso ...


Mostra dente,
todo sorridente.

Muda a vida
da gente.
Vida diferente!

Que coisa, hein?

A filosofia do trabalho tinha me transformado num outro


homem e havia amadurecido o meu pensamento infantil. Aos
poucos fui dando valor ao dinheiro que ganhava. Tudo o que
possuía, não havia caído repentinamente do céu: o caderno que
usava na escola era fruto de meu trabalho, de muito empenho e
responsabilidade.
Antes de trabalhar, quando precisava de uma folha para
rascunhar meus rabiscos, arrancava uma novíssima, sem dó ou
piedade. Depois de usá-la, cruelmente, amassava e brincava de
fazer guerra de papel na sala de aula. Que desperdício! Quantas
árvores poderiam deixar de ser sacrificadas se os alunos
tomassem consciência desse fato relevante e valorizassem cada
linha em branco de uma folha de caderno?
Sobretudo, o que mais havia me entristecia, era não poder
partilhar da alegria de meus colegas que desfrutavam dos
encantos da noite com todo requinte e prazer. Confesso que no
primeiro final de semana de trabalho, sentia saudades do lugar
defronte à boate, reservado especialmente para abrigar o meu
corpo sedento de desejos pela Daniela.
Contudo, pelo fato do local de trabalho ser muito freqüentado,
tinha a vantagem de me comunicar com pessoas diferentes,
conquistando novas amizades e eventuais admiradoras. Imagine
se permanecesse como antes: parado e vegetando, apenas
apreciando o ambiente com um enfadonho olhar já sem
esperanças!
No carrinho de lanches, vivia uma outra realidade: quando me
dirigia até a mesa para atender algum cliente, levava o cardápio,
orientava com algumas sugestões no cardápio. Às vezes contava
uma piada. Havia aprendido sabe com quem? Adivinha?

* * *
Estimado ombro amigo. Um dos momentos mais importantes
da adolescência é a escolha da profissão. Ficar sem trabalhar por
muito tempo acaba tornando-se insuportável viver no mundo
moderno. A não ser que você possua um gênio da lâmpada de
Aladim para bancar os seus anseios materialistas. Tenho de
agradecer ao escritor por ele ter arranjado um emprego para mim,
apesar do sufoco e da canseira ...
Agradecer uma ova: esse escritor é um sujeito ingrato. Poderia
muito bem ter criado outro cartaz. Feminista duma figa! Por quê
duas meninas ao invés de um menino e uma menina? Seria justo
ter divido o “pão nosso de cada dia”. Desconfio que ele está a fim
de fazer moral com as meninas.
Desculpe-me pelo clima tempestuoso. Também não sou de
ferro. Apesar de pacífico, não levo desaforos para casa. É preciso
que você continue vigiando os passos do escritor. Agora que
somos amigos, podemos somar forças e conduzir o meu destino
de uma maneira mais justa.
.
CAPÍTULO V :
MILAGRE ÀS AVESSAS

No dia treze de junho, às dezenove horas, fui à capela de


Santo Antônio para benzer os pães, levando em meu coração
um peculiar pedido ao afamado santo casamenteiro. Quem sabe
ele poderia realizar um milagre! Já ouvi dizer que Santo Antônio
só realiza os pedidos das mulheres.
O momento mais emocionante da missa era a procissão ao
redor da praça. Os fiéis cantavam e rezavam, emocionados,
pagando ou fazendo alguma promessa.
Eu também havia feito um voto, repousando minha alma e
corpo num absoluto silêncio interior. Pedi a Santo Antônio muita
saúde, paz, felicidade e, obviamente, uma namorada. Havia
momentos em minha vida que imaginava ter o coração amarrado
por algum feitiço; porque nada parecia dar certo. Mero pretexto.
Um álibi para justificar meus fracassos. Medo puro, fluindo no
abismo da covardia ...

A Procissão

No interior da capela encontrei alguns colegas de classe:


Mariana, Alessandra e Bruna. Também avistei Fernanda e
Fabrício. Eles estudavam na classe de Daniela.
Durante a procissão, apertei o passo e alcancei Fabrício.
Tivemos aquela troca de idéias:
__ Veja Léo, como está a Bruna!
__ Deixe as garotas de minha classe em paz -- repliquei,
tomado pelo ciúme.
Fabrício sorriu e retrucou:
__ E você, Léo, que não tira os olhos da Fernanda?
__ Você venceu, Fabrício. Vamos fazer uma troca – sugeri,
brincando, de olho na minissaia de Fernanda.
__ Negócio fechado, brother.
Fabrício não somente apertou a minha mão, também a
esmagou como se fosse uma prensa a vácuo. Quase lancei um
imenso grito de dor em plena procissão. Ainda bem que consegui
controlar meus ímpetos, trancando a boca.
Bruna estava envolvente com aquele traje atraente. Viu só?
Até rimou. Tudo em Bruna rimava: o batom hilariante, com
aquele brinco irradiante; até mesmo os seus longos cabelos
castanhos, rimavam com suas pulseiras de vários tamanhos.
Toda vez que a avistava na rua, ou na escola, por algum
momento, da Daniela, esquecia.
Bruna era pura e sublime poesia.
Fabrício dizia que gostava de Bruna. Ele me contou que ela
era gamada no Henrique, o qual gostava de outra menina. Com
certeza, alguém também gostava de mim. O amor é um
explorador de sentimentos alheios e nos impelem a situações
complexas, embaraçosas, difíceis de serem solucionadas. Coisas
da vida. Parecia muito com aquele poema de Dummond:
Quadrilha.
Fernanda e Alessandra pareciam chicletes: uma não
desgrudava da outra. Até mesmo acompanhando a procissão,
elas não perdiam o hábito de cochichar e rir baixinho, reparando
nas pessoas que caminhavam ao redor. Vê se procissão é lugar
de ficar falando mal dos outros!
De uma forma bem diferente de suas amigas, Bruna,
acompanhada de sua mãe, segurava um terço na mão direita e,
com os lábios, rezava, expressando a sua fé ao santo
casamenteiro.
Fabrício, indiscreto, passou dos limites ao tentar chamar a
atenção de Bruna:
__ Psiu!
Bruna fingiu não ouvir os “psius” do Fabrício e não olhou para
trás. Todavia, uma senhora bem idosa, que levava nas mãos
uma imagem de Santo Antônio, cutucou o garoto pelas costas e
o advertiu amargamente:
__ Mocinho, não esqueça que você está numa procissão.
Tenha mais respeito com o santo.
__ O quê? -- inquiriu Fabrício com desdém.
A velhinha ameaçou dizer alguma coisa a ele. Chegou até a
abrir a boca. Mas acabou se calando, recolhendo-se em oração.
Talvez não valesse a pena dar conselhos a um garoto tão
malcriado quanto Fabrício.
Ele se encontrava tão concentrado, aguardando por um
resultado positivo de seus “psius”, que acabou não entendendo a
razão da bronca da velhinha e indagou-me:
__ Léo, o que aquela velha queria comigo?
__ Idiota! Fale baixo. Ela disse para você parar com o “psiu”.
Será que você é surdo? -- esbravejei, perdendo a paciência,
morto de vergonha.
__ Parar? Por quê? Ela não gosta?
Fingi que não ouvi aquelas perguntas tolas e concentrei-me
na procissão. Fabrício parou com os “psius” e também resolveu
rezar um pouco.
A procissão ocupava menos da metade do quarteirão.
Adentramos o calçadão da praça, seguindo em direção à capela.
Os fiéis começaram a apertar o passo, andando cada vez mais
rápido. Fabrício também acelerou suas passadas, entrando no
ritmo da multidão. Segui atrás. Caminhando em passos largos.
Ziguezagueando entre os espaços vazios da tumultuada
procissão. Toda aquela pressa tinha uma razão muito simples:
todos queriam assistir ao restante da missa, sentados; não em
pé.
Entramos na pequena capela. Ligeiros, sentamos no terceiro
banco à direita do altar. A capela era muito pequena e tinha ao
fundo a imagem de Santo Antônio pintada pelo modernista
Cândido Portinari. Os bancos envernizados foram distribuídos
em dois grupos, à direita e à esquerda do altar, contendo em
cada grupo, seis fileiras; sendo um banco por fileira.
Vários fiéis tiveram de ficar em pé pela falta de bancos
disponíveis; inclusive, alguns idosos. Como eu era jovem, cheio
de vida e energia para dar e vender, cutuquei Fabrício e
salientei:
__ Você há de concordar comigo: é cansativo ficar em pé ...
__ Não foi à toa que aceleramos nossa passada. Não é
mesmo, Léo? -- interrompeu-me Fabrício, com a resposta na
ponta da língua.
__ Mas isso não é justo. Olhe à sua esquerda, Fabrício.
__ O quê? A mãe de Mariana?
__ Não.
__ O que então? -- resmungou Fabrício, impaciente.
__ Você está vendo aquelas duas velhinhas escoradas
naquele pilar próximo à imagem de São Benedito?
__ Qual? Aquela velhinha rabugenta que me deu a bronca na
procissão?
__ Exatamente, Fabrício. A velhinha não é rabugenta. Ela
apenas lhe chamou a atenção. Vamos ceder nossos lugares
para que elas possam sentar.
__ Você pirou, Léo? Daqui só saio quando terminar a missa.
__ Se fosse você, mostraria à velhinha que é um bom rapaz,
uma pessoa íntegra -- aconselhei.
Fabrício pensou, pensou, fez cara feia e tomou a decisão
certa:
__ Se for para limpar a minha imagem, faço esse sacrifício,
Léo.
Fabrício tomou a iniciativa de se levantar e, educadamente,
postou-se à frente anunciando a boa notícia à velhinha:
__ Por favor, qual é o nome da senhora?
__ Maria Augusta -- respondeu a velhinha com o terço nas
mãos.
__ A senhora pode sentar-se no meu lugar. É cordialidade da
casa -- exagerou Fabrício, com o coração partido ao meio.
__ É muita gentileza de sua parte meu bom menino. Vou rezar
para você arrumar uma linda namorada -- prometeu a velhinha,
com um sorriso nos lábios.
Segurei para não rir. Fabrício escorou-se no pilar da capela e
ficou a minha espera com o sermão na ponta da língua. A outra
velhinha, sentou-se em meu lugar. Foi difícil para chegar até o
local onde se encontrava Fabrício. Num percurso de três metros,
fui abrindo espaço entre o amontoado de fiéis, pisoteando
sapatos, tênis, sandálias ...
Fazendo uma careta horrível, Fabrício reclamou como uma
criança birrenta:
__ Adiantou alguma coisa a gente apertar o passo para
conseguir um lugar vago?
Eu sabia o porquê de Fabrício resmungar daquele jeito. Do
local que estávamos sentados, tínhamos uma excelente visão de
Bruna. Ela permanecia em pé, do lado direito da capela, próximo
à imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Na tentativa de amenizar os efeitos colaterais daquele
imprevisto, proferi sabiamente:
__ Pelo menos a dona Maria Augusta reconheceu que você é
um bom rapaz.
Às vezes Fabrício agia como aqueles garotinhos birrentos: por
pouca coisa ficava de cara feia e emudecia. Eu odiava quando
alguém se comportava daquela forma tão infantil. Na tentativa de
levantar o seu astral, profetizei por brincadeira:
__ Fabrício, coma do pão abençoado e a sua vida mudará. A
coragem conduzirá o seu coração e um brilho peculiar será
admirado em seus olhos ...
__ Pare com essa idiotice, Léo! -- irritou-se Fabrício,
quebrando a greve de silêncio.
__ Tá legal, Fabrício, eu paro. Após a missa, prometo que
continuo ...

Bênção dos Pães

O momento mais importante era a bênção dos pães, realizado


no final da missa. Os fiéis, confiantes nos milagres de Santo
Antônio, levavam os pães até a capela para serem abençoados.
Quando chegavam em casa, repartiam com toda a família.
Segundo a tradição quem comesse daquele pão bento, gozaria
de boa saúde e muita fartura.
Tinha levado um pacote com cinco pães e deixado sobre a
mureta de mármore do altar. Para não ocorrer nenhuma
confusão na hora de pegar os pães, cada pessoa escrevia seu
nome numa fita crepe, fixando em sua respectiva embalagem.
Após a procissão, depois que todos se acomodaram na
espremida capela, o padre Eduardo entrou segurando a imagem
de Santo Antônio. Veio acompanhado de dois coroinhas que
abriram passagem pelo corredor central, agitando o incenso de
um lado para outro. Uma fumaceira!
O padre Eduardo dirigiu-se ao altar e colocou a imagem de
Santo Antônio entremeio a um belo arranjo de flores. Em
seguida, auxiliado pelo coroinha de estatura maior, percorreu
todo o corredor central borrifando gotas d’água benta sobre as
cabeças dos fiéis.
Diante do altar, o padre novamente aspergiu, com água benta,
os pães que se encontravam sobre a mureta. Em seguida,
proferiu algumas palavras de fé e deu a bênção final. Foi aquele
alvoroço: um corre-corre à procura do pacote certo.
Fabrício, que não havia trazido nenhum filão, disse com um ar
impaciente:
__ Vamos lá fora, Léo. Depois voltaremos para pegar seu
pacote.
Fabrício tinha toda razão. Ninguém levaria meus pães, porque
estava escrito meu nome no pacote. Quando retornasse à capela
para buscá-lo, o tumultuo já teria se dissipado.
Ao sairmos da capela, fomos surpreendidos por uma mulher
alta, loira, que segurava um saco cheio de pães. Certamente, ela
deveria estar cumprindo alguma promessa. Estendendo a mão
direita, a mulher deu um pão para Fabrício e disse:
__ Coma desse pão, faça um pedido e receba a graça de
Santo Antônio: saúde, fartura e felicidade.
“E a namorada?“, lia-se nitidamente aquela indagação,
reluzindo-se nos olhos céticos e ingratos de Fabrício. Ligeiro, e
de fininha, passei pela tangente, evitando pegar um filão.
Fabrício olhou para trás e não me localizou. Já havia descido os
quatro degraus da escadaria de pedra da capela e encontrava-
me encostado num coqueiro.
Como de costume, fez aquela careta horrível. Partiu o pão no
meio e profetizou debochadamente com uma voz aguda:
__ Coma deste pão e terá uma linda namorada. Rhá, rhá ...
Sem hesitar, por mera crendice, tomei a metade do pão e o
abocanhei como se estivesse morto de fome. A minha fome não
era orgânica; mas sim, uma fome de amor, de um calor etéreo e
sufocante que só as mulheres possuíam. Um calor colossal que
sufocava o coração com um aroma de vida, de felicidade, de
desejos.
Fabrício caiu na gargalhada:
__ Que seca, brother! Rhá, rhá, rhá ...
Se não estivesse com a boca cheia, Fabrício não escaparia
de umas boas verdades. Dessas que serve para deixar o sujeito
mais ligado ao mundo que o rodeia: um sermão da montanha.
Apesar da intenção da bronca, Fabrício estava sendo realista.
Indubitavelmente, eu levava uma vida muito monótona, em plena
queda-livre, sem pára-quedas, sem nenhuma esperança de viver
um grande amor.
A minha vida era como uma tediosa partida de futebol em
que o placar a todo instante anunciava o zero-a-zero. O locutor
narrava: “o tempo passa”. Sem qualquer perspectiva ou
esperança de ocorrer algum gol, nem mesmo a favor do
adversário. Uma partida sem brio, uma vida sem sentido.
Enquanto o juiz não apitar o final da partida, significa que o jogo
ainda não terminou e ainda existe a possibilidade de alguém
marcar um gol: a esperança de dias melhores.

O Milagre

Ao léu, de braços cruzados, olhando um para a cara do outro,


sem assunto, aquilo já estava me entediando. Chamei Fabrício
para sentarmos no banco da praça, próximo à porta do lado
esquerdo da capela. Ele sentou-se no encosto, repousando os
pés no assento. Aquele gesto desrespeitoso me tirou do sério:
__ Fabrício, aí não é lugar de gente civilizada sentar-se.
__ De gente esperta, você quer dizer. Veja como isto está
imundo!
Fabrício arrastou o dedo no assento; e ficou imundo, repleto
de sujeira. Acatei ao gesto dele, apesar de recriminar tal atitude.
__ Se for para o bem de minha mãe, sento no encosto.
Fabrício começou a cantarolar apaixonadamente:
__ ... te amar é tão bom, tão bom. Eu sinto falta de você, mas
não perdi a esperança ...
__ Essa música da Adriana é bem antiga, hein? Mas ainda
deixa qualquer coração derretido de saudades -- comentei,
lembrando-me que tinha ouvido aquela canção quando ainda era
um pirralho.
Existe música para todos os gostos e idades. Quem não
adora ouvir aquela canção que inflama o coração de romantismo,
ou incendeia a alma com o ritmo frenético das músicas? Há
quem adora um sertanejo bem raiz, e abominam um pagode.
De repente, uma melíflua voz feminina entrou em cena e nos
contagiou:
__ Os gatinhos estão “aloviados”?
Que susto! Emudecemos, boquiabertos. Era Alessandra, toda
manhosa, falando doce quanto o mel vermelho do batom de seus
lábios. Ela percebeu a nossa inquietação e salientou
atrevidamente:
__ Sou eu, gente, Alessandra. Estão pálidos!
__ Pálidos pode ser que realmente estamos. Mas que ráios é
esse de aloviados? -- perguntei
__ Aloviado é aloviado. No inglês, love não significa amor?
Então, aloviado na nossa gíria significa apaixonado. Entenderam
agora?
__ Não -- respondeu Fabrício secamente.
__ Vocês são idiotas mesmo! Não estou aqui para discutir
essas bobagens. Tenho um recado para os dois.
Nunca tinha visto Alessandra tão à vontade, desde a roupa
que usava até aquele jeito romântico e espontâneo de falar.
Pensando bem, até que ela não era de se jogar fora; apesar de
ser chata, convencida e orgulhosa.
Alessandra merecia uma chance. Não me importaria se ela
quisesse namorar comigo. Seria uma graça. Um milagre!
Aquela história de recado estava mal contada. Não fazia seu
tipo de menina virtuosa, tímida e comportadinha. Era quase
certeza de que havia o dedo intrometido da Fernanda às
espreitas.
__ Qual é o recado, Alesandra? -- quis saber Fabrício,
apressado.
__ A Fernanda tem algo muito importante para dizer a vocês.
Ela está ali na esquina, atrás da capela, esperando pelos dois.
Fabrício, impaciente, precipitou-se:
__ Diga para Fernanda que é a mesma distância. Se ela
quiser falar comigo e com o Léo, que venha onde estamos. “Se a
montanha não vai até Maomé; então, Maomé vai até a
montanha“. Entendeu, gracinha?
__ Seu estúpido! Se você não quer ir, o Léo quer. Não é
mesmo, Léo? -- perguntou-me Alessanda, atarraxando em meu
braço esquerdo.
__ Ah! Claro que sim -- ressaltei, sem saber o que dizer.
Alessandra, segurando-se em meu braço esquerdo, arrastou-
me até a sua amiga Fernanda. Fabrício, feito um cão vira-lata,
não quis ficar sozinho contando as estrelas. Veio atrás, seguindo
nosso rastro com um sorriso insensato e medíocre.
Fernanda estava um esmero. Na procissão, não havia
percebido o decote que envolvia aqueles pares de coxas
aveludadas. Hipocrisia! Que falta de respeito! Como podia
participar de uma celebração religiosa, trajando-se daquele modo
tão atrevido? Não há cristão que resista!
O que será que Fernanda tinha de importante para nos
contar? Talvez seria mais um milagre de Santo Antônio.
Imbecilmente, imaginei juntos, eu e Fernanda em inúmeras
situações, num lugar escuro, ou talvez numa praça debaixo de
um arvoredo. Enfim, imaginava tudo o que poderia ocorrer
naquela noite que prometia ser inesquecível.
Prometia. Fernanda foi concisa e revelou o que tinha para nos
dizer:
__ Queridinhos, vou direto ao assunto. Tenho duas primas
querendo conhecê-los. Elas são umas gatinhas ...
Caí de queixo no chão, derramando o leite no fogão e
apagando o sonho que acabara de ser aceso. Assim é a vida,
cheia de surpresas e imprevistos, como um bolo coberto de
brigadeiro e recheado de pimenta malagueta. Desculpe-me, acho
que exagerei.
Pensei que Fernanda fosse se ajoelhar aos meus pés, e
implorar com aquela voz chata e prepotente:
__ Léo, quero sair com você, meu doce de coco, casquinha
de caju ...
Que decepção! Ela veio com aquela história de apresentar
suas amigas. Com certeza, deveriam ser duas grandes vadias;
ou seja, usando termos coloquiais: “galinhas”, “siruanas”,
“quengas” ...
Fabrício emudeceu. Cruzou braços, pernas e fez uma careta
horrível. Talvez ele também havia pensado que Fernanda queria
alguma coisa com ele. Mera ilusão.
__ Nada mal, Fabrício. Com essa expressão de songamonga,
você vai espantar as minhas queridas primas -- advertiu
Fernanda, ironicamente.
__ Quem disse que estou interessado em suas priminhas? --
replicou Fabrício.
__ Tudo bem, seu mal-humorado. Se você não quer, pelo
menos o Léo quer.
__ Quero nada -- repliquei meio afônico, ao mesmo tempo em
que avistava duas esbeltas garotas vindo em nossa direção.
Deslumbrado de encanto por aquela beleza singular, matutei:
“devem ser as primas de Fernanda”. Confusamente, retifiquei
aquela resposta incisiva:
__ Quero dizer ... claro que quero.
Discretamente, cutuquei Fabrício pelas costas e cochichei ao
pé do ouvido dele:
__ Deixe de ser idiota, otário. Veja quem são as primas da
Fernanda!
__ Que mulherão! -- admirou-se Fabrício, elevando o tom de
voz, de olho vidrado na loira.
Fernanda não compreendeu a frase superlativa pronunciada
pelo Fabrício e indagou-lhe:
__ O que você disse, Fabrício?
Sabiamente, ele mudou de opinião:
__ Acho injusto você proteger o Léo, Fernanda. Como você
pode afirmar que não quero nada, sem ao menos me perguntar?
É isso aí -- desabafou o garoto, cruzando os braços.
__ Foi você mesmo quem disse ...
__ Elas chegaram Fernanda -- interrompeu Alessandra.
Fernanda deveria estar pagando alguma promessa. Nunca ela
seria tão generosa, a ponto de arrumar duas meninas para
ficarem comigo e com Fabrício. Aquele gesto seria mais do que
uma simples ajuda. Seria uma pura e imaculada caridade.
Milagre de Santo Antônio. Tinha medo de fracassar; mas
contando com a ajuda de santo e de Fernanda, nada poderia dar
errado naquela noite enluarada e peculiar.
Apesar do temor, das intenções maliciosas, da fé, eu era um
ser humano com instintos guiados pelo meu inconsciente, pelos
meus hormônios. Tudo o que sentia ocorria de forma bem
natural. A natureza é perfeita. Portanto, somos estímulos de vida,
criado pela natureza criada por uma identidade suprema.
Quantas besteiras passavam pela minha cabeça!
Quando Fernanda nos apresentou suas primas, foi um tal de
três beijinhos para cá e três beijinhos para lá, que parecia não ter
mais fim. As duas garotas eram lindíssimas.
Fiquei com a morena Melissa, cor de vida e de magia; Fabrício
com Melina, uma loira bronzeada de parar o trânsito. Elas
moravam em Goiânia, capital do Estado de Goiás, e tinham vindo
passear na casa de sua tia Vera, a mãe de Fernanda.
__ Acho que eu e a Alessandra vamos retornar para a capela
-- avisou Fernanda, deixando suas primas em nossa companhia.

Babaca ou Ingênuo?

Fabrício, com aquela cara de santo, arrastou a loira


bronzeada para um canto mais escuro da praça. E o Léo? Eu
mesmo! O que fazer com aquela formosura a petiscar o seu olhar
abrasivo de paixão?
Irrefragavelmente, meu coração pertencia a Daniela. Já sei:
faz de conta que Melissa era Daniela.
Fiquei matutando por alguns longos minutos. Melissa
percebeu meu olhar pensativo e, tomando a iniciativa, sugeriu-
me:
__ Que tal uma volta na praça ...?
__ Léo -- completei.
__ Léo? É um nome que me faz lembrar de um grande
momento de minha vida -- declarou Melissa, puxando conversa.
Meu Deus! O que estava fazendo ali com os olhos
arregalados, ouvindo aquelas palavras de sedução, sem ao
menos abrir a boca para dizer um “a”? Inspirei fundo. O ar, que já
não era mais tão puro quanto antigamente, fortaleceu meus
pulmões, lançando para a atmosfera os meus preconceitos de
inferioridade.
__ Que tal a gente dar uma volta na praça. Primeiro vamos
dar uma volta de aquecimento, com as mãos dadas. Sabe? É
para aquecer o coração -- delirei com o pensamento totalmente
desordenado, imbecilizado, hipnotizado por aquela fragrância de
mulher.
Caminhando pela calçada de pedra da praça, de mãos dadas
e coração disparado, tivemos a oportunidade de nos
conhecermos melhor. Fizemos um resumo colorido de nossas
vidas.
Melissa contou-me sobre as suas aventuras mais divertidas e
perigosas vividas em sua terra natal. Foram inúmeras. Cada
absurdidade! Ela me disse que teve vários namorados e que
agora estava pensando num namoro mais sério, mais duradouro.
E o Léo? Eu mesmo. Logicamente, recorri aos meus
neurônios e me transformei num escritor para idealizar e inventar
situações embaraçosas, cômicas, de perigo e de emoções
vibrantes que prendesse a atenção daquela princesa goianense.
Tudo mentira; e das mais sonsas.
Será que as histórias narradas pela Melissa eram autênticas?
Isso não importava. Na verdade, buscava uma auto-afirmação,
experiência e conhecimento do universo feminino. Viver é seguir
em busca de informações, de novas aventuras; é ter os pés no
chão e o coração na alma.
Apesar de distante e distinta a realidade de Melissa, sempre é
relevante conhecermos novas expectativas de vida para
buscarmos o equilíbrio. Quem vive um grande amor relâmpago,
sente na alma a essência do ser humano, aproveitando a vida de
uma maneira natural, sem egoísmo.
__ Vamos sentar naquele banco, Léo -- indicou-me Melissa,
com uma voz apática.
__ É uma boa idéia. Já cansei de ficar dando volta na praça,
feito uma barata tonta -- suspirei, ingenuamente.
__ Então é assim, Léo?
__ Assim como?
Melissa não tinha o mesmo brilho nos olhos. Sua voz era mais
amarga e seu semblante mais rígido.
__ Já que você está insinuando que sou chata, fique com
suas histórias idiotas para você, porque não sou nenhuma otária.
Estou indo embora. Até nunca mais, palhaço -- resmungou
Melissa, caminhando em direção à capela, num gesto
incompreensível.
Corri e consegui alcançá-la. Suspirando, proferi de queixo
caído:
__ Desculpe-me, Melissa. Não queria magoá-la. Ouça-me,
Melissa ... estou cansado de ficar caminhando, e não de ficar ao
seu lado. Pelo contrário, você é minha inspiração desta noite tão
linda, tão enluarada.
Parece que Melissa havia encontrado um pretexto para dar o
fora. Nem mesmo as minhas desculpas e lamúria foram ouvidas
por ela. Furiosa, abaixou o nível em alto calão:
__ Você é o rapaz mais babaca que conheci em toda a minha
vida.
__ Babaca? Eu?
__ Você não vira nada, seu viadinho. É isso aí! -- desabafou-
se Melissa.
__ Como?
__ Adeus, babaca! -- despediu-se Melissa, com um tom
irônico e inescrupuloso.
Permaneci anestesiado, inerte, presenciando Melissa
distanciando-se de mim, partindo de meus sonhos, de meus
desejos, de minha vida. Foram duas horas de bate-papo para ao
luar, sem um beijo na boca, sem um abraço ofegante. O que
havia feito de errado? Não havia nada de errado comigo. Tudo
corria muito bem ...
Pensei, pensei, pensei e cogitei:
__ O que será que aconteceu? Juro que fiz tudo certo:
certíssimo! Fabrício falou-me que as mulheres gostam de ouvir
histórias de aventura, muita ação e, principalmente, romantismo.
Duas horas de papo para o ar não é qualquer indivíduo que
possui essa imaginação tão fértil. Deve ser azar: só pode ser!
A minha mente processava imagens remotas associando o
fracasso com Melissa ao que poderia ocorrer se declarasse
minha paixão para Daniela. Ela faria o mesmo. Mesmo? Daniela
seria mais cruel. Esparramaria para a cidade inteira que sou um
otário, um molengão ...

Cadê os Pães?

Sentado no banco da desilusão, busquei acalento nesta


canção:
Hoje estou triste:
descobri que sou otário ...
Preciso de um rosário!

Pra ter mais fé.


Esquecer o sofrimento ...
A fé é o alimento!

Pra sonhar em viver.


Esquecer as fantasias ...
Entregar-se às cortesias!

Sorrir para o vento.


Sentir o suor do orvalho ...
Dormir sobre o galho!

Acordar para a vida.


Existe um grão de areia ...
Vida navegando pela veia!

Discernir o erro do saber.


Voltar a sorrir ...
Ver a primavera florir!

Esquecer o milagres às avessas.


Ouvir o inconsciente ...
pra viver sorridente!

Um átimo para o silêncio.


Bocejos ...
Acordei mais sereno!
Por falar em milagre às avessas, acabei lembrando que tinha
esquecido alguma coisa. Meu Deus! Os pães sobre a mureta
próximo ao altar da capela. Eram dez horas. A capela estava
fechada. Só me faltava essa!
Quando chegasse em casa ... como explicaria o que ocorreu
com os pães? Que fui ver as estrelas e esqueci que a capela não
era nenhum desses bares que permaneciam abertos até altas
horas da noite?
O que de pior poderia ocorrer?
Um assalto ao banco numa tarde de sexta-feira, dia 14. Foi
uma loucura total. Brodowski nunca ficou tão agitada e de
prontidão quanto naquele dia. Isto é uma outra história. Bem
mais engraçada do que esta.

CAPÍTULO VI :
O TERÇO

Uma semana após as bênçãos dos pães e do assalto à


agência bancária Ipê Azul, novamente fui à procura de minha
outra metade. Aliás, metade de minha mesada foi cortada a
pedido de minha querida mãe. Ela não acreditou na história que
contei sobre o paradeiro dos pães.
Disse a ela que fui atacado por cães famintos e, na fuga,
havia deixado cair o saco de pães no chão. Não seria tolo de
parar de correr e retornar para pegar os pães. Obvio que não!
Custava minha mãe acreditar em mim? Infelizmente, custou
metade da minha mesada. Era pouco, mas engrossava meus
proventos mensais, somado ao salário que recebia do Gordo.
Enquanto existir um fulgente grão de confiança em minha
alma, manterei meus pés no chão, com um sorriso nos lábios,
cheio de esperança de algum dia encontrar a verdadeira
felicidade. Esse pequeno grão será sempre a semente de um
novo amanhecer.
Iluminado pelos fracos raios do crepúsculo, faltava apenas um
quarteirão para chegar na residência do Fabrício. O meu coração
começou pulsar forte. Meu pensamento matutava repetidamente:
“Daniela, hoje você não escapa, minha deusa!”.
A mãe de Daniela organizava os eventos religiosos do bairro.
O Terço seria rezado na residência do Fabrício. Cheguei
atrasado. Abri o estreito portão de grade e adentrei o corredor.
Com muito zelo e carinho, encostei a Escavática na parede da
varanda.
Ouvi gargalhadas vindo da sala. Com certeza, o Terço ainda
não havia começado. A cada passo a expectativa e a adrenalina
aumentava gradativamente: será que Daniela participaria do
Terço?
Entrei pela porta da cozinha. Dona Tereza, mãe de Fabrício,
preparava o quentão e a pipoca com a ajuda de duas mulheres.
Uma delas usava um corte de cabelo super-radical. Parecia
muito com um ouriço. Juro que deu vontade de rir. Dona Tereza,
provida de um sorriso inconfundível, cumprimentou-me:
__ Como vai, Léo? Se você estiver procurando o Fabrício, ele
está na sala.
__ Ah, na sala! -- exclamei absorto, com o olhar fixo naquele
exuberante corte de cabelo.
As duas mulheres fitavam-me da cabeça aos pés. Ora
cochichavam, ora não tiravam os olhos de mim. Dona Tereza,
ciente da curiosidade de suas amigas, esclareceu:
__ Léo é um amor de menino. Ele é filho do Francisco que
trabalha no caixa da Agência Bancária Ipê Azul, aquele banco
que foi assaltado sexta-feira passada.
A mulher de cabelo exorbitante admirou-se:
__ É mesmo? Como ele cresceu, hein!
Aquela mulher deveria conhecer o meu pai. Nem tive a
curiosidade de perguntar isto a ela, pois estava muito ansioso
para ver Daniela. Ciente de que fofoca de mulher na cozinha
normalmente atravessa a noite, pedi licença, caminhei pelo
corredor interno, passando rente aos quartos, pelo banheiro,
seguindo em direção à sala.
Primeiro Mistério

A menos de cinco passos para chegar na sala, parei


abruptamente, dando meia volta. Acelerei o passo e entrei
correndo no banheiro. Que súbita dor de barriga! Paixão em
excesso também pode causar certas complicações em nosso
organismo tão sensível a fortes emoções.
Aconchegado no vaso sanitário, no silêncio do banheiro, ouvi
alguns passos femininos caminhando pelo corredor. De repente,
alguém mexeu na maçaneta da porta. Levantei-me ligeiro. Lavei
as mãos com um sabonete de aromas do campo, e as enxuguei
com a toalha pendurada num cabide. Ainda deu tempo de
pentear o cabelo e fazer uma careta para o espelho: quem sabe
espantaria os maus fluidos!
Respirei fundo. Girei a chave. Abri a porta do banheiro. Por
muito pouco que não caí de costas. O meu coração quase saiu
palpitando pela boca. Era Daniela em carne e osso, vida e alma,
a poucos milímetros de meus olhos.
Ela estava sublime, linda, esbelta, um sonho de mulher. Vestia
uma mine-saia estampada, uma camisa marrom de tecido bem
fino – quase transparente - e sandálias pretas com um laço
prateado. Nos lábios, um batom irresistível, assim como a
maquiagem nos supercílios cobertos de delicados e discretos fios
de cabelos. Apesar de todo encantamento, não tinha coragem de
dizer a ela o quanto a amava.
Daniela, num tom de princesa, surpreendeu-me:
__ O que você está fazendo aqui, Léo?
__ Eu? É que o Fabrício me convidou para o Terço ...
__ Então, corra para a sala que já vai começar.
Será que Daniela estava me mandando embora? A vontade
dela era sempre uma ordem. Quando fechou a porta do
banheiro, segui para a sala.
O Terço havia começado “em louvor a São João”, assim
proferiu a mãe de Daniela, dona Elaine, iniciando o primeiro
mistério.
Procurei Fabrício em todos os recantos da sala com o olhar
atento. Nem sinal do garoto. Os vizinhos levavam a fé muito a
sério, e participavam de todos os Terços realizados naquela
comunidade. O melhor sempre vinha depois: uma grande festa
com direito a quentão, pipocas, salgadinhos e refrigerantes para
a criançada irrequieta.
A sala tinha uns quinze metros quadrados, aproximadamente.
Havia uma estante com um aparelho de som de boa marca, um
belo televisor de vinte polegadas, um dvd moderníssimo, um
computador de última geração e vários vasos cerâmicos. A
estampa do sofá chamava a atenção com desenhos de flores em
alto relevo. A extensa janela de vidro encontrava-se entreaberta,
apesar do vento frio que incomodava um pouco.
Após alguns discretos empurrões, consegui me aproximar de
Fabrício. Ele permanecia encostado na parede, no fundo da sala.
Foi preciso gastar muita saliva para pedir desculpas pelos pisões
nos pés das pessoas que dificultavam minha passagem. Tinha
gente que fazia cara feia; outros, apenas lançava um sorriso
cordial.
Fabrício, com os olhos fechados, concentrado na oração,
tinha ao seu lado direito uma menina que parecia não ser
estranha: aquele penteado solto, aquele par de brincos ...
Parei ao lado dele, à espera de seu retorno ao nosso mundo
real. Enquanto isso, com o olhar atento, realizei uma ronda em
toda sala. Observei semblante por semblante. Ao final da
inspeção, reconheci algumas pessoas. Dentre elas, Fernanda,
que lançou em minha direção um sorriso mentecapto.
O que será que Fernanda estaria aprontando dessa vez?
Graças a uma luz provinda de meu inconsciente, deduzi aquele
mistério. A menina que permanecia de costas para mim, só
poderia ser a prima da Fernanda.
Olhei com mais atenção. Quando ela se virou para meu lado,
confirmei minhas suspeitas: era mesmo Melina. E Melissa? Será
que aquela ingrata também teria vindo ao Terço? Só me faltava
essa!
Liguei novamente o radar em busca de Melissa. Nem sinal
daquela burguesinha nojenta. Graças a Deus! Decerto, Melissa
sabia de minha presente no Terço; por isso, preferiu ficar em
casa, talvez assistindo à novela.
Será que Melissa viajaria de Goiânia para Brodowski só para
assistir novela? Duvido. Com certeza estaria às espreitas,
divertindo-se em algum canto aventureiro da cidade em ótima e
ardente companhia.
Terminou o terceiro mistério. Fabrício continuava de olhos
fechados. Nunca imaginei que ele tivesse tanta fé, assim! E
Daniela? Por que será que ela estava demorando tanto naquele
maldito banheiro?
A preocupação com Daniela foi mais forte que minha fé.
Deixei a sala e segui pelo corredor. Aquela tortura: pisotear,
empurrar e pedir desculpas.

À Procura de Daniela

A porta do banheiro encontrava-se entreaberta e a luz


apagada. Talvez Daniela estivesse na cozinha. Não encontrei
ninguém; a não ser uma enorme bacia de pipocas sobre a mesa
e o quentão borbulhando no caldeirão ao fogo brando.
Não resisti às pipocas. Enchi as mãos e saí apressadamente
pela porta da cozinha, rumo ao portão de entrada. Minha
bicicleta permanecia no mesmo lugar. O portão estava
entreaberto. Segui em frente. Apontei no portão. Quando pisei na
calçada, desvendei todo o mistério.
O amor que sentia pela Daniela era pura obsessão. Precisava
reavaliar meus atos, renovar minhas forças; ser mais realista.
Necessitava de despertar para a vida em vez de ficar sonhando
acordado com princesas e coisas do gênero.
Que infância inacabável! Infindável! Será que isso tinha cura?
Existia remédio para acabar com uma infância prolongada? Se
existia alguma solução, infelizmente, não via nada que pudesse
me ajudar a mudar esse pensamento doentio.
O que será de minha adolescência sem ao menos adolescer?
Qual a razão daquele medo de chegar em Daniela e proferir uma
frase que todos dizem quando ama alguém? Será que estaria
cometendo algum crime? Será que ela respeitaria os meus
sentimentos? O meu maior problema ainda continuava sendo o
mesmo: pensava muito e agia pouco.
Lá estava Daniela ao lado de dona Tereza que conversava
com suas amigas. A mulher do cabelo radical, ao volante de um
carro importado, azul metálico, entregou uma sacola pela janela.
Dona Tereza pegou a sacola e despediu-se de suas amigas.
__ Obrigada pelos salgados, Vanda. Você tem certeza de que
não quer ficar mais um pouco?
__ Temos de ir embora, Tereza -- acrescentou a mulher que
sentava no banco de passageiros.
A mulher de cabelo radical deu partida no carro, disse:
__ Negócios são negócios, Tereza? Não podemos perder
esse cliente por nada. Deixe para próxima vez. Prometo que
domingo de manhã voltaremos para contar as novidades.
Dona Tereza, carismática e excelente cozinheira, prometeu:
__ Pode deixar comigo, Bete. Domingo vou preparar uma
surpresa.
__ Lazanha?
__ Não. Só domingo ficarão sabendo.
__ Então, até domingo, Tereza -- despediu-se Bete, a mulher
do cabelo radical, acelerando o carro.
__ Façam uma boa viagem -- acenou dona Tereza com a mão
direita, seguindo com o olhar até perder o automóvel de vista.
No chão, duas sacolas volumosas despertaram-me a
curiosidade. O que será que havia dentro delas? Dona Tereza,
quando sentiu minha presença no ar, abriu um vasto sorriso e
pediu para ajudá-la:
__ Você chegou na hora certa, Léo. Ajude a Dani levar
aquelas sacolas até a cozinha.
Daniela parecia surpresa com minha súbita presença.
Comecei a suar, a tremer, só de imaginar em tocar nas mãos
dela. Claro que daria um jeito para isto! Quando fui pegar na alça
de uma das sacolas ... que surpresa!
Daniela, com aqueles olhos brilhantes e voz meiga,
esbravejou:
__ Que raio de cavalheiro é você, Léo? Pegue na alça e
ajude-me a levar as sacolas.
Um pedido de Daniela era sempre uma ordem. Quase
gaguejando, toquei na mão dela. Senti alguns arrepios pela
espinha dorsal. Senti a pele macia de minha amada perfumar o
meu corpo. Como podia um simples toque provocar tantas
sensações estranhas?
Daniela, purificada de doçura, alertou-me:
__ O que anda acontecendo com você, meu garoto? Pegue
na outra alça da sacola. Deixe que levo essa outra sozinha.
O que será que ela queria dizer com “meu garoto”? Nunca
tinha visto Daniela tão romântica, afável, florida de bondade e
ternura. Será que era o dia do milagre? O dia em que o mundo,
repleto de fraternidade, derramaria sobre minha vida a felicidade,
presenteando-me com a tão cobiçada namorada?
Seria meio vulgar tecer qualquer tipo elogio naquele instante:
a noite só estava começando. Abrindo um sorriso, respondi a
duvida de Daniela, poeticamente:
__ Minha doce alma, meu coração busca um sentimento
perdido. O meu coração busca ... -- pausei, com o desejo de
dizer que a amava, preso na garganta.
__ Busca o quê, Léo? -- inquiriu-me Daniela, curiosa, olhando
fundo em meus olhos, com os lábios umedecidos e reluzentes.
Juro que aquelas palavras não haviam saído de minha boca.
Nunca teria a audácia, a coragem de dizer algo semelhante.
Apenas em pensamento, costumava dizer aquelas coisas. Será
que eu estava amadurecendo? Não poderia perder a chance
daquele momento. Empolgado, proferi as primeiras palavras que
vieram em minha mente, olhando bem fundo nos lábios dela:
__ Busco o valor da vida, a felicidade nos lábios que sonho.
Um desejo sedento de amor e indiferente à paixão. Amor, puro
amor!
Daniela abriu um sorriso diferente, de mulher. Parecia
anunciar uma dádiva; talvez o amor habitava o coração dela.
Aquele brio do batom vermelho refletia o desejo de tocar em
meus lábios. Sentia que o momento estava próximo: o instante
tão esperado, tão aspirado.
Daniela, tensa e insegura de meus versos enigmáticos,
lamentou-se:
__ É uma pena, Léo. Se pelo menos você dissesse que
sentimento perdido é esse. Talvez pudesse encontrá-lo para
você.
Respirei fundo, com uma vontade tremenda de dizer a
verdade. Mas, porém, todavia, entretanto, contudo, no entanto as
palavras opuseram um complô contra mim e se ausentaram de
minha fala. Acovardado, apenas salientei:
__ Quem sabe algum dia eu diga que sentimento perdido é
esse. Né, Dani?
Retornamos ao silêncio profundo daquela noite de lua cheia.
Na cozinha, dona Tereza disse para deixarmos as sacolas rentes
ao armário da pia. Nas sacolas havia vários utensílios
domésticos, tais como panelas de alumínio, formas de bolo,
talheres, abridores de garrafas ...
Aparentemente aqueles objetos tinham sido usados em
alguma festança. Nem precisei perguntar e Dona Tereza saciou
minha curiosidade:
__ A semana passada a Bete me pediu emprestado essas
parafernálias para a festa de casamento do filho dela.
__ Bete é aquela que usa o cabelo radical -- disse Daniela,
ajudando dona Tereza a guardar os talheres.
__ Exatamente, Daniela. Ela é prima de meu marido. A mulher
que a acompanhava, chama Vanda; vizinha da Bete.
Daniela parecia inquieta. Agitava com as mãos os seus longos
cabelos e olhava a todo instante em direção ao corredor. Quando
acabou de guardar os talheres, levantou-se apressadamente,
deu uma olhadela em mim e voltou-se para dona Tereza.
__ Mais alguma coisa, dona Tereza? O Terço já deve estar
terminando e a senhora conhece a minha mãe, não é mesmo?
No semblante de dona Tereza surgiu um sorriso alargado de
conhecimento:
__ Sei como é, minha filha. Conheço muito bem o gênero de
sua mãe. Agradeço pela ajuda.
Daniela ia partindo, quando dona Tereza segurou-me pelo
braço e avisou:
__ Diga para o pessoal que após o Terço teremos quentão,
pipoca e salgadinhos. E para molecada, suco de laranja e
groselha. Léo vai ficar me ajudando na cozinha. Não é mesmo,
Léo?
__ Pode contar comigo, dona Tereza -- assegurou Daniela.
Depois, sorrindo, olhou profundamente em meus olhos e partiu
rumo à sala.
Como não havia outra saída, apenas salientei a mãe de
Fabrício:
__ Só não lavo talheres. O resto pode deixar comigo, dona
Tereza.
Não Bebo Quentão

Meia hora depois, o Terço terminou. O primeiro a chegar na


cozinha foi Fabrício. Surpreso, perguntou-me:
__ O que você está fazendo aqui, Léo? Por que não apareceu
na sala?
Dona Tereza, com os olhos vibrantes e atentos para a
frigideira, mas com os ouvidos rastreando o ambiente, respondeu
por mim:
__ O Léo foi até a sala sim, senhor. Se você não o viu, é por
que você deveria estar no mundo da lua.
__ Ah, mãe. Não enche o saco, não.
__ Que bicho o mordeu, filho? Garoto mal educado ...
Fabrício, indiferente, pegou em meu braço e levou-me
rapidamente para a varanda. Numa euforia incomum, desabafou:
__ Léo, o milagre do pão abençoado deu certo. Hoje estou
pagando a promessa, brother! Aquela noite deu tudo certo.
Ficamos juntos a semana toda. Está sendo o maior barato.
Mas ...
__ Lá vem você com esse “mas” -- interrompi.
__ Mas Melina vai embora nesse final de semana. Só
retornará à casa de Fernanda no Natal. Será que resistirei à
saudade?
__ Só sei de uma coisa, Fabrício. Não quero ouvir falar em
Melissa ou Melina nos próximos cinqüenta anos -- queixei-me,
traumatizado pelo fracasso daquela noite fria na praça Santo
Antônio.
__ Posso entendê-lo, Léo. O seu negócio é a Daniela. Não
esquente a cabeça. Fique tranqüilo que de hoje você não passa.
Siga-me.
O que será que Fabrício estaria tramando? Retornamos para
a cozinha completamente deserta sem ninguém para perturbar
nossos segredos.
Fabrício encheu um copo plástico com quentão e insistiu para
que eu tomasse a bebida numa golada só. Veja só o absurdo! O
próprio nome já diz: quentão. Isso não faz lembrar alguma coisa
quente? Se virasse de uma vez só, com certeza, teria sérias
queimaduras na mucosa bucal.
De súbito, Fernanda apareceu na cozinha aos gritos,
escandalosamente:
__ Seu safado, você está aqui? Ajude-me a levar essa bacia
de pipoca para o pessoal da sala. Vamos! Mexa-se, futuro
priminho.
__ Agora não posso, Fernanda. Diga para Melina esperar um
pouco. Estou com sérios problemas para resolver com meu
amigo Léo. Coisas de homens -- justificou-se Fabrício.
__ Coisas de homens? Tudo bem. Vou fazer de conta que
acreditei, tá priminho.
Fernanda, sem perder mais tempo, partiu com a bacia cheia
de pipoca e a tortura reiniciou:
__ Beba o quentão, Léo. Assim vai ficar mais fácil de chegar
na Daniela e dizer tudo o que está engasgado em sua garganta,
reprimido em seu coração.
Até parecia que Fabrício era especialista em paqueras e
fletes. Se não fosse a armação de Fernanda, o que seria dele? É
covardia buscar na bebida a coragem. Somente os fracos de
alma, assim o fazem: bebem para viverem num mundo de pura
ilusão. Pura filosofia!
Fabrício continuava a insistir, teimando como naquele antigo
provérbio: “em pedra dura quanto mais bate, mais se fura”. Com
a paciência esgotada, realizei a vontade dele e tomei o tal de
quentão. Diga-se de passagem, uma delícia. Particularmente,
gostava de beber no limite certo, sem aquela velha desculpa de
beber para ficar cara-de-pau e enfrentar qualquer parada.
Satisfeito com minha decisão de tomar a queimante bebida
feita de pinga e gengibre, Fabrício deu três simpáticos e árduos
tapas em meu ombro esquerdo e justificou-se:
__ É para dar sorte, Léo. Agora, que você já está pronto para
chegar em Daniela, vou levar este quentão para acender a
lareira de minha amada. Boa sorte, brother!
Lá se foi Fabrício, ligeiro para a sala, feliz com as carícias de
Melina. Infelizmente, na noite da procissão não tive a mesma
sorte que ele. Precisava mudar meu comportamento social,
preocupar-me menos com o passado e viver minha vida no
presente com os pés no chão, sem muitos sonhos. Arriscando e
pondo a cara para bater.
Aproveitei que não havia ninguém por perto e virei outro copo
numa golada infernal. Daniela permanecia na sala. Desiludido
com minhas tolices, saí da cozinha e caminhei até a calçada.
Quem sabe as estrelas renovariam minhas forças interiores,
fortalecendo-me de coragem e desenvoltura. Assim, acabaria de
uma vez por todas com aquela angústia, aquele medo de chegar
em Daniela.

Canção

A lua estava exorbitante. Toda cheia refletia a luz do sol com


primazia e vivacidade. Sentei debaixo do poste e lembrei-me de
um poema; desses que os adolescentes criam para explicar os
seus sentimentos. O poeta e a poetisa são perenes adolescentes
em plena plenitude, gozando ora de felicidade, ora das
amarguras da vida, ora da própria insanidade.
Para convivermos em harmonia com a natureza humana, com
nossos sentimentos, temos de eliminar a tristeza, sempre
presente na solidão, para lugares ermos, ilusórios e fictícios.
Que poema poderia trazer forças para espantar a solidão?
Somente um poema que tivesse canção:

Cante na rua.
Na contramão!
Cante a canção!

Cante sua amiga.


Na escuridão!
Cante com razão!

Cante por educação.


Que emoção!

Cante com estilo,


use o coração:
poemas e flores
despertam paixão!
Cante a canção!
Cante por amor.
que fortalece,
a sua canção!

A canção que espanta a solidão!

Quem canta, seus males espantam. Quem garante isso é o


ditado popular, designado provérbio. A nossa cultura é rica em
provérbios. É relevante conhecê-los e respeitá-los como sendo
fruto de nossa cultura, de nosso folclore, de cada povo e região
de nosso imenso país.
Chego até a me emocionar só de lembrar desse poema. A
inspiração é um mistério da sabedoria humana. Às vezes,
tropeço e cambaleio no mundo formal da gramática. Entretanto,
para sanar essas dificuldades existem os dicionários, os livros
didáticos, os professores e o esforço individual de cada um no
desejo de aprender.
Incomparavelmente, a inspiração é algo nobre, que não se
aprende em lugar algum. Ela é a essência de toda sabedoria
humana. É primordial desenvolvermos em nosso interior a
capacidade preceptiva e dedutiva, provendo-se do máximo de
sua magnitude. Aprender matemática é tão importante quanto
aprender a fazer um cafezinho.
Apesar de singular, a inspiração deve ser trabalhada e
desenvolvida conjuntamente com as demais fontes de
conhecimentos. Devemos ler bastantes livros; aprofundar-se no
estudo de nossa língua; redigir textos a partir de temas que lhe
agrade; e permanecer sintonizado na freqüência de sua
inspiração. Um bom caminho é usar a imaginação e compor
poemas criativos. Consulte bons autores do gênero e os copiem.
Aos poucos, com perseverança e sensibilidade, você
desenvolverá o seu próprio estilo, sua própria imagem.
Às vezes me empolgo de uma maneira tal que acabo
atrapalhalhando sua leitura. Grato, pela sua compreensão, peço-
lhe sinceras desculpas. Vamos retornar ao romance ...

É Agora ou Nunca
Permaneci sentado, aproximadamente, meia hora. De
repente:
__ Aaaaaa ...
Que susto! Era Fábio, primo de Fabrício. O garotinho tinha
dez anos. Muito espertalhão e sapeca. Não parava um minuto
sequer quieto. Uma destemperamento que subia e descia dos
pés à cabeça.
Paulatinamente, a rua foi enchendo de crianças. Fizeram uma
algazarra para escolherem a brincadeira. Alguns propuseram
brincar de “polícia e ladrão”; outros queriam brincar de “estátua”.
Os avançadinhos no tempo insistiam no “namoro no escuro”.
Que idade para começar a pensar nisso! No final decidiram
brincar de “mês” e “passa-anel”.
Sempre que vinha na residência do Fabrício, varávamos a
noite de prosa para o ar. Ar em movimento foi o que senti
tocando em meu ombro direito. Olhei de lado e Daniela passou
rente a mim como se houvesse proferido: “venha Léo, siga-me”.
Apesar de o coração disparar em cavalgada pelo abismo da
paixão, pressentia que o momento certo estava muito próximo.
Não poderia sucumbir o destino, deixá-lo às avessas, sem o
respaldo real de meus sentimentos, permanecendo acanhado e
acorrentado pelo medo de amar alguém. Era preciso fazer algo e
agir rapidamente.
Lá se foi Daniela, contornando a curva da esquina,
atravessando a rua toda resenhada e rabiscada pelos pedaços
de tijolos massetados no chão. Sentado na sarjeta, apoiando as
costas no poste, acabei perdendo o campo visual da bela
imagem de Daniela.
Levantei-me apressadamente e, tomado de uma coragem
repentina, caminhei até a esquina. Daniela havia acabado de
sentar-se no banco de madeira ao lado do portão de sua
residência.
Olhei ao meu redor e inspirei-me naquelas crianças que
brincavam iluminadas pelo brilho da lua cheia. A coragem veio de
passagem e guiou-me até a calçada da residência de Daniela.
Não acreditava no que estava ocorrendo. Imaginei que fosse um
sonho. Não podia ser um sonho qualquer. Era um sonho real.
Aproximei-me de Daniela com o coração na ponta da língua.
Ali estava ela: sentada no tronco de madeira, no escuro.
Emudecida, olhava bem fundo em meus olhos. E agora? O que
fazer? Eram poucos centímetros separando nossos corpos. O
que dizer?
Subitamente, a coragem foi levada pela brisa passageira. A
minha mente começou a recriar os fantasmas e os monstros do
passado. Lembrei-me do episódio que ocorrera na brincadeira
“namoro no escuro”. Da humilhação diante de meus amigos.
Porém, naquele momento, não havia ninguém para testemunhar
meu fracasso. Não era hora de pensar em fracasso.
Havia chegado o grande momento de minha vida. A espera foi
longa, árdua e cansativa. Não podia desperdiçar aquela rara
oportunidade. Tinha a obrigação de revelar meus sentimentos a
Daniela. Amar não é nenhum crime. Não compreendia a razão
daquele medo adolescente. Bastava respirar fundo para liberar
meus sentimentos na magia das palavras e dizer uma frase tão
curta, tão sublime: eu a amo.
Permaneci estático e emudecido. Não movimentei a boca nem
para um sorriso. O medo foi consumindo os últimos segundos de
meu sonho, de minha provável felicidade. Daniela aguardava
ansiosamente pela minha iniciativa. Foram pouco mais de dois
minutos, anestesiado, parado, uma estátua de cimento,
cabisbaixo, olhar reprimido e desencorajado.
Daniela se cansou de esperar. Levantou-se do banco de
madeira, emburrada. Olhou bem fundo em meus olhos e
bocejou:
__ Com licença, Léo. Preciso entrar.
Bem feito ... Quem mandou ficar baratinado, escravo do
medo? Um medo de arriscar meus sentimentos, de infringir
normas e conceitos. Meus amigos eram pretensiosos; não se
importavam com nada; nem mesmo com a própria saúde:
fumavam, bebiam e sempre demonstravam estar numa boa com
o mundo e com a vida. Mas será que não existia um caminho
mais racional, mais saudável, mais puro? Creio ser escravo de
um meio cultural cuja cultura é burocrática, modista, desumana e
irracional. É puro pretexto!
Daniela entrou em sua residência e fechou o portão em minha
cara. Naquele instante, surgiu em minha mente um alarde:
__ Contemplo o novo dia com esplendor. Ostento-o
veemente, escorrendo o aljofre em seu seio de amor. Afoito, fixo
em seu olhar afável o estandarte de meus anseios. A volúpia
aprisiona meus sentimentos em seu corpo febril de paixão. Sou
louco pelo seu perfume, pelo seu calor sufocante ...
Tarde demais.
Uma revolta invadiu minha alma, deixando-me eletrizado.
Caminhando no meio da rua, próxima à esquina da residência de
Fabrício, avistei uma conhecida da escola em que eu estudava.
Gritei por ela, calorosamente:
__ Mércia ... Mércia ... espere por mim!
Gritei num ato de desespero para que Daniela soubesse que
ela não era a única pessoa de minha vida. Foi a válvula de
escape, atirando para o exterior de meu ego o sofrimento
pertinaz e toda minha ingenuidade.
Mércia acenou de longe e virou a esquina. Valeu a intenção.
Retornei à residência de Fabrício, cabisbaixo, de mal a pior. Sem
se despedir de ninguém, peguei a Escavática e fui embora. A
noite estrelada havia perdido sua alegria. Na lua cheia, via o
breu, o medo, o fracasso, a infelicidade ...

***
Caríssimo. Depois desse fora, vou migrar de história. Não
suporto mais a irresponsabilidade desse escritor insano. Pelo
menos, na outra existe um escritor bem mais humano e que não
fica fazendo da gente uma bolinha de pingue-pongue.
Esse escritor é tão devagar, que já reescreveu minha história
mais de sete vezes, contando com essa. Não queria ser
fofoqueiro, mas ele mudou até mesmo o meu nome. Alterou
também o nome de outros personagens e o do próprio livro.
Tudo porque ele andava apaixonado por uma garota. Dobro a
promessa da bala de caramelo se você descobrir quem é ela.
Coitado desse escritor. Ele está na pior e ainda tem
esperança de que algum milagre aconteça.
Coitado é de mim que tenho de reverenciar as mágoas e
desilusões dele. Se não fosse em respeito pela nossa amizade e
pela sua insistência em prosseguir com a leitura, meu caro leitor,
juro que já teria abandonado esta história.
CAPÍTULO VII:
FÉRIAS DE JULHO

Que maravilha as férias escolares no mês de julho! Um


merecido descanso após cinco meses debruçado sobre uma
carteira, ouvindo a voz rouca do professor Petrusco, sentido o
perfume ébrio da professora Matilde. O que se poderia fazer de
bom num mês tão frio? Jogar video-game numa Lan-House,
futebol num campo de terreno baldio, soltar pipa sem cerol, ou
dormir o dia todo?
Não. Nada disso. Uma longa e cansativa férias de julho me
aguardava de braços abertos. O serviço no carrinho de lanches
quadruplicou com a chegada das férias. Sem aula, a rapaziada
da cidade não perdia tempo com a programação da televisão e
abandonavam a toca, aglomerando-se sabe onde? Adivinha?
Exatamente na praça central da cidade, de frente ao carrinho de
lanches do Gordo. E ali passavam o dia, conversando, jogando
figurinhas, andando de patins, fazendo pipas, comendo
porcariadas ...
Apesar da freguesia superar as expectativas do Gordo, a única
coisa que ainda não havia aumentado era meu salário. Coisas de
patrão!

Gumercindo

Numa dessas noites de quinta-feira, Gumercindo, primo do


Gordo e gago de nascença, apareceu no carrinho de lanches e
foi logo pedindo um baleia-tudo. Chato igual a ele, ainda estava
para nascer um. Qual fosse o assunto, Gumercindo intervinha
onde não era chamado. Um autêntico sabe-tudo; que não sabia
nada. Seu prazer no carrinho de lanches era esse: meter o bico
na conversa alheia.
Ademais, também era um grande bisbilhoteiro. Mexia e
remexia em tudo: abria a geladeira, pegava pequenos cubos de
gelo e começava a chupá-los, atendia ao telefone, fazia xixi nas
margaridas do Gordo e esgotava a paciência de todos os
fregueses com suas brincadeiras estúpidas.
Naquele dia, porém, Gordo acabou perdendo a paciência com
seu primo. Eu atendia a um freguês, quando o telefone tocou.
Drim! Drim! Olhei para o relógio e faltavam dez minutos para
meia-noite: horário de fim de meu expediente.
Naquela noite, encontrava-me muito cansado para fazer mais
uma entrega. Gordo preparava um baleia-tudo e dois hot-dogs
com bacon. Acabou sobrando para Gumercindo a incumbência
de atender ao telefone:
__ A-alô! Que-quem fa-fala?
De súbito, Gumercindo alterou a cor de seu semblante,
contraiu os supercílios e, num ar de fúria, enervou-se,
aumentando o tom de voz:
__ Que-quem está fa-falando? Di-diga se fo-for ho-homem!
O que será que perturbava o pobre rapaz? Aliás, rapaz de
trinta e cinco anos, gago e solteiro. Será que Gumercindo ainda
não havia arrumado nenhuma namorada por que era gago? Você
sabia que a gagueira pode se originar de problemas
psicológicos? Li isto numa resista semanal.
Gordo, preocupado, terminou rapidamente de fazer os lanches
e especulou seu primo:
__ O que você está aprontando com esse telefone dessa vez,
Gumercindo?
Ele tapou o fone com a mão direita e explicou - ou pelo menos
tentou explicar:
__ Te-tem um ca-cara ca-caçoando com a mi-minha ca-cara
no te-telefone.
__ Caçoando o quê?
__ E-ele está me re-remedando.
Quem poderia estar fazendo aquela crueldade com o pobre
rapaz? Provavelmente algum conhecido. Um parente que sabia
da presença do Gumercindo no carrinho de lanches do Gordo.
Quem sabe ele havia inventando toda aquela história para
chamar nossa atenção.
Às vezes, o telefone nem tocava e Gumercindo atendia.
Pronunciava algumas palavras oriundas do além de sua
imaginação e desligava, mencionando que era engano.
Psicologicamente, Gumercindo era muito carente e gostava de
despertar a atenção de outras pessoas como se estivesse
carente de amabilidade: “Olhem para mim, eu existo, também sou
um ser humano; preciso de um sorriso, de quem me ouça ...“
Gordo, impaciente, avisou seu primo:
__ Gumercindo, se essa palhaçada toda for mais uma de suas
brincadeiras, é melhor não esperar que eu a paciência. Ponha já
esse telefone no gancho.
__ Es-espere um po-pouco, que re-resolvo e-essa pa-parada.
O que será que ele quis dizer com aquilo? Por que fui
perguntar? Gumercindo perdeu as estribeiras e desnorteou-se em
baixo calão, berrando ao telefone:
__ Se-seu fi-filho ... vá pro-procurar sua tu-turma. Mi-miserável!
Será que Gumercindo pirou de uma vez por todas? Quem era
o indivíduo que ele dialogava no telefone? Se é que podemos
chamar aqueles berros de diálogo!
Gordo, esbravecido, avisou-o pela última vez:
__ Pára com esse teatrinho ridículo, Gumercindo. Senão vou
partir para a ignorância. Entendeu?
__ E-eu que vo-vou pa-partir para i-ignorância com esse su-
sujeito que es-está no te-telefone.
O mar não estava para peixes. A situação era crítica e
desoladora. Será que havia alguém do outro lado da linha
telefônica? O que essa pessoa teria falado para Gumercindo que
o deixou tão exasperado?
Gordo, não suportando tamanha confusão, agiu
resolutamente:
__ Me dá esse telefone, seu louco! Alô! Pode falar ... Ah!, sim.
Foi um mal entendido ... Ele pensou que o senhor fosse ... Sim,
tudo bem. Sou eu quem peço desculpas. O que o senhor vai
querer? ... um X-Salada Bacon com batata ... tudo bem, daqui
meia hora o Léo levará para o senhor ... obrigado pela
preferência ... estamos sempre a disposição ... boa-noite.
Gordo nem bem colocou o fone no gancho e descambou a
gargalhar, como se alguém lhe houvesse contado uma piada.
Que confusão! Qual seria o motivo da gargalhada? Permanecia
ansioso, segurando para não roer as unhas e louco para
desvendar aquele mistério.
__ É por causa disso que você está tão irritado, primo? --
sublinhou Gordo, não contendo as gargalhadas.
__ E-esse ca-cara estava me re-remedando -- admitiu
Gumercindo, lacônico.
Será que havia outro gago do outro lado da linha telefônica?
Só me faltava essa! Gordo, espetando uma salsicha com o garfo,
confirmou minha suspeita:
__ Era um freguês, Gumercindo. Ele também é gago igual a
você. Saiba primeiro ouvir, antes de tomar atitudes impensadas
como essa.
__ Pe-pensei que e-ele e-estava zo-zombando de mim --
justificou-se Gumercindo, constrangido pelo ato incisivo que o
levou a cometer aquele erro.
O nosso amigo Gumercindo achou que alguém o imitava no
telefone? Que admirável auto-estima! Se pelo menos ele fosse o
único gago na face da Terra, até que teria razão.
Uma simples expressão no rosto era um motivo de
gargalhadas. A lembrança do fato ocorrido despontava risos e
galhofas. Era como se a piada tivesse adquirido vida real.
Naquela noite não consegui manter a seriedade, nem mesmo na
hora de rezar uma “ave-maria” e um “pai-nosso”, antes de dormir.
Cheque Especial

Restavam três dias para o mês de agosto despontar com força


total, trazendo consigo o reinício das aulas. Na última sexta-feira
do mês, acordei com um pressentimento de que algo de bom
aconteceria comigo.
Eu tinha um emprego modesto, com um salário razoável; e me
divertia muito trabalhando na companhia do Gordo. Havia
semana que ganhava até vinte reais, só de gorjeta. Todo final de
semana, Gordo fazia o acerto. Usei parte do dinheiro para pintar
a Escavática, dando a ela o merecido respeito, o mesmo azul de
fabricação e alguns decalques coloridos.
O que mais de agradável poderia ocorrer em minha vida
naquele momento? Talvez Carla, a garota do escritório,
entregaria alguma carta confessando o amor que, eventualmente,
ela sentia por mim? Quem sabe! Meu coração pulsava mais forte
e minha intuição não costumava mentir.
Após o almoço, corri para o serviço. Passei primeiro no Ipê
Azul para pagar algumas duplicatas. Foi tão rápido que dispensei
o cafezinho de dona Valéria: mão santa para fazer café.
Aquele dia o Gordo estava com a corda bamba no pescoço: o
seu cheque especial havia estourado mais uma vez. Eu não
gostava de deixar ninguém de mau humor. Gordo sempre ficava
de mau humor quando recebia o aviso do banco, avisando-lhe
sobre o arrombo do limite de seu cheque especial. Ele sempre
resmungava: “esse banco anda cobrando muitas taxas e juros
altíssimos”. Ninguém manda ter cheque especial com direito a
cartão de crédito e outras regalias afins. A modernidade custa
caro.
Quando cheguei no carrinho de lanches, Gordo foi logo
proferindo:
__ Nem precisa dizer, Léo. Já sei que meu cheque especial
passou dos limites outra vez. É a quinta vez no mês que isso
ocorreu. Engraçado, mês passado não tive problemas com
cheque especial ...
Será que o Gordo estaria insinuando que eu era o responsável
pelo estouro do limite do cheque especial dele? Preferia acreditar
que não. Meu salário era pouco em comparação ao que ele
andava ganhado nessas últimas semanas. Graças às férias
escolares e o excelente atendimento, o movimento no carrinho de
lanches havia ultrapassado suas expectativas.
Na semana passada, flagrei o Gordo consultando
atentamente os classificados de um jornal. No dia seguinte, lá
pela uma hora da tarde, apareceu um sujeito de gravata, terno e
sapatos bem lustrados, adentrando o carinho de lanches com
uma pasta preta na mão.
Gordo avisou-me que estava indo para casa com o tal sujeito
para tratar de negócios e não tinha hora para retornar.
Certamente, ele deveria estar comprando algum imóvel. Talvez
um terreno, ou até mesmo um apartamento em Ribeirão Preto.
Por que será que todo patrão é assim? Vive escondendo o leite
derramado.
Passei a tarde toda tentando decifrar o enigma dos
classificados do jornal e nem percebi o tempo passar. Enquanto
regava o jardim do Gordo, buscava uma justificativa para explicar
o estouro do limite de crédito de sua conta bancária. Que tolice!
Gordo, de supetão, retornando de sua residência, apareceu no
jardim, atrás do carrinho de lanches, e ironizou com aquele seu
jeito alegre e cômico de ser:
__ Léo, dessa maneira você vai afogar as minhas margaridas.
Deixe que cuido disso. Leve a encomenda para dona Laura e
corra para o banco fazer um depósito urgente.

Proposta Irrecusável

Havia esquecido de minha intuição. Nem bem fechei a torneira


e saí em disparada. O coração, acelerado pelo medo, apertava a
boca do estômago, gesticulando um anseio veemente, corroendo
a amargura e revestindo-se de felicidade. Será que encontraria a
felicidade?
Não era meu dia de sorte. Quando cheguei no Despachante
Mallar, dona Laura disse-me que Carla foi ao Ipê Azul pagar
algumas duplicatas e fazer depósitos. Pena que não passei
primeiro no banco; dessa vez minha intuição falhou.
__ Você deve gostar muito da Carla, Léo. Como bons amigos,
relacionam-se muito bem -- observou dona Laura, com um sorriso
nos lábios.
Meu semblante ficou vermelho como uma maça reluzente
confessei com uma voz acanhada:
__ Eu a admiro muito, dona Laura.
__ Que bom! Agora tenho certeza daquilo que estou
pretendendo. Gostaria de fazer uma proposta a você, Léo.
__ Proposta? -- indaguei surpreso.
__ Suas férias escolares já estão terminando. Você estuda no
período da manhã e trabalha no período da tarde e noite ...
__ No final de semana passa da meia-noite -- interrompi,
atento.
__ Deve ser muito cansativo, Léo. Mas vamos ao que
interessa ...
O que será que dona Laura tinha para me dizer de tão
importante? Pegou a encomenda e colocou sobre a mesa da
Carla. Deu um longo sorriso e disse afavelmente:
__ Tenho uma vaga para você, Léo ...
__ Verdade? -- indaguei, boquiaberto e interessado.
__ Você receberá dois salários mínimos para trabalhar apenas
no período da tarde.
__ Dois salários mínimos! -- exclamei, perplexo.
__ O quê você achou da minha proposta?
__ Uma proposta como dessa, dona Laura, é irrecusável. E o
Gordo? Será que ele não vai ficar magoado?
__ Confesso que ele ficará magoadíssimo. Perder um
empregado dedicado, alegre e honesto como você, é
inadmissível -- confessou dona Laura, deixando-me mais rubro de
vergonha e orgulhoso pelos elogios.
Que presente divino! Era a dádiva colhida pelas minhas boas
ações. Esperar nem sempre é relevante; ter paciência e fé é
fundamental. Foi preciso provar minha dignidade para que dona
Laura confiasse em meu trabalho e me consedesse uma
oportunidade como aquela.
Quem acredita sempre alcança. Não podemos ficar isolados,
alimentando-se da poeira do porão de nossa vida. É
indispensável um pouco de luz na vida; o brilho que reluz o arco-
íris, deixando os sentimentos irisados, revestidos de magia e
felicidade.
Óbvio que aceitaria o convite de dona Laura. Ela também
havia prometido assinar minha carteira de trabalho. Aliás, como
se faz para tirar essa tal de carteira de trabalho?

Gente de Canção

A minha vida é sempre uma poesia. Os sentimentos vibram as


emoções a cada verso, carente de um anseio, de um sorriso
perene, de uma gota de amor. O poema é vida vibrante, é alma
irradiante. Sobretudo é o trabalho dessa gente de canção:

Nasce uma estrela no infinito.


A Terra adormece piamente ...
Feito o trabalho bonito,
realizado por essa gente ...

Gente de canção.
Canta pelas alamedas ...
Trabalha seu João!
Florido pelas veredas ...

Veredas guiadas pelo destino.


Na luta do novo dia ...
Despindo o semblante de cretino !
No coração pulsa a alegria ...

Alegria de ter um emprego.


Sem rumo, sem direção ...
Vida feito um pêssego!
Gente sem canção ...

Canção alimenta a alma.


Purifica os sentimentos ...
Trabalho acalma!
Alivia os sofrimentos ...

Nasce uma esperança eterna.


Adormece pelo cansaço ...
Primata de uma perna!
Padece pelo fracasso ...

Nasce a realidade.
A dignidade do trabalho ...
Floresce a fraternidade!
Reluzindo no orvalho ...

Renasce da solidão:
a lembrança,
o sorriso,
a esperança.

Gente de canção!

Aprendi muita coisa com o Gordo. Ele me fez sorrir e ergueu


as mãos no momento em que mais precisava. Por outro lado,
dona Laura abriu as portas de um novo mundo. O meu destino
adquiriu um peculiar brilho, um novo horizonte. Com aquele novo
salário, com certeza, poderia realizar o sonho de cursar uma
Faculdade.
***
Você viu como funciona esse mundo? Foi só falar mal do
escritor que ele já melhorou a minha história: aumentou o meu
salário, e colocou mais uma nova flor em meu caminho.
A gente tem de abrir a boca, dizer algumas boas verdades.
Existe aquele ditado que diz assim: “quem não chora não mama”.
A insistência, portanto, é um dos segredos do sucesso.
Temos de fazer o máximo de pressão para que o escritor
arrume uma namorada para mim. Conto com sua ajuda.
Obrigado. Juntos venceremos a teimosia desse chato escritor.
CAPÍTULO VIII:
SONHOS E INCERTEZAS

Agosto foi um mês ligeiro. Passou tão veloz quanto a


velocidade da luz. Voltei a sorrir bobamente; feliz com o escritor,
porque ele ouviu e atendeu parte de minhas súplicas. Com
emprego garantido no Despachante Mallar, meu id liberou parte
de um “eu” oculto que residia dentro de mim. Apesar de toda
aquela empolgação, continuava sendo o mesmo Léo de sempre:
tímido e apaixonado pela Daniela; mesmo tendo em mente a
beleza e a sensualidade de Carla.
Bruna, que tinha um olhar cativante e meigo, após retornar das
férias de julho, ficou mais extrovertida. Nossa amizade se
consolidou na primeira semana de aula. Todos os dias, na
entrada, no recreio ou na saída da escola, Bruna me procurava
para conversar e contava sempre alguma novidade. Até mesmo o
trabalho de matemática fizemos juntos no mesmo grupo. Depois
que comecei a trabalhar, minha vida mudou completamente da
água para o vinho.
Meu salário era muito pouco para pensar em independência
econômica; muito menos em casamento. Três tapinhas na boca!
Deus me livre e guarde! Um frangote como eu não poderia
pensar em casamento: um compromisso de tamanha seriedade e
responsabilidade.
Naquele momento pensava em arrumar uma namorada.
Alguém que pudesse conversar, beijar, amar ... Seria uma leal
amiga, sempre me acompanhando nos momentos tristes e
alegres de minha vida. Essa garota tão peculiar seria Daniela?
Carla? Bruna? Nenhuma das três? Elas só tinham um defeito em
comum: todas corinthianas; eu são-paulino.
Daniela era uma paixão ardente e fisgava meu coração a todo
momento. Quando pensava nela minha mente dedicava-se a criar
inúmeras fantasias. Sempre apareciamos juntos, grudados um ao
outro, abraçados, trocando afagos e desfrutando daquele
momento etéreo, de amor e amizade, envolvidos numa só alma,
numa só inspiração. Era como se existisse um forte elo unindo
aquele grande amor.
Todo momento pensava em Daniela. Se ela arrumasse um
namorado, certamente morreria de tristeza e seria o homem mais
infeliz do mundo. A melancolia seria motivo para cair em
depressão. A vida perderia seu valor e o mundo todo desabaria
sobre minha cabeça.
Será que terei vontade de viver? Será que a vida perderá o
sentido e o desejo irrefutável da morte recairá sobre minha mente
em dor? Em prantos, desabafarei num idílio; utilizando-se do
sangue da injustiça para compor essa canção.
Isso é amor ou uma neurose adolescente?
O melhor caminho é crer na razão; porque as fantasias são
elos perdidos que nos conduzem ao isolamento, distorcendo toda
pureza e essência da vida. Amor é diferente de paixão. Paixão é
doença que pode levar à loucura. Amor é compreensão, é
paciência. Para que ele sobreviva, é fundamental um ajuste
constante de nossas emoções; só assim conseguiremos nos
adaptar às mudanças do cotidiano.
Mas se a vida perder o sentido de sua existência, estarei
sendo medíocre e incoerente. A vida é para ser vivida, não
mortificada e sucumbida pelas nossas fantasias. As imagens que
formulamos em nossa mente, os conceitos relacionados aos
nossos sentimentos, nada significa sem a existência da vida.
Viver é crescer a cada átimo, buscando a felicidade por
caminhos largos ou estreitos, lugares próximos ou ermos. Enfim,
é dar o melhor de si. É avaliar a si próprio a cada nova situação
real. É erguer a cabeça e levantar a cada tombo, não deixando se
abater pelo fracasso. Tudo o que ocorrer em vida, seja a vitória,
seja a derrota, nada será mais forte que a inteligência humana;
porque ela busca respostas para as incoerências e obstáculos
que defrontamos. Procure sempre extrair da derrota algo de bom
e aproveitável. Não desista! Não desanime! Respire o dom da
vida.

Sonhos ...

Desde aquele primeiro momento do Amor à Primeira Vista, a


poesia era uma forma segura de expressar meus sentimentos,
meus sonhos.

Vou sonhar com você.


Um anseio interior:
do seu sabor,
por seu amor!

Fecho os olhos,
ouço o ruído do silêncio:
entra pelo ouvido,
fico comovido!

Logo adormeço,
como uma página em branco:
de tudo eu esqueço,
menos do seu canto!

Surge a primeira imagem ...


No sonho tudo pode:
acontecer,
renascer!
No vale da imaginação ...
Ora no beco do prazer:
vejo-a sorrir,
colorir,
o céu do amanhecer!

O canto do orvalho,
escorre de sua pele:
cai pelo prado,
rola como neve!

Na imensidão do meu ego,


no horizonte o seu sorriso:
crédulo,
amável,
bandido!

Abro os olhos para a realidade ...


Acordei sem você:
cadê seu calor?
cadê seu amor?

Cai a manhã; abre o meio-dia.


Quando finda a tarde,
reluz um nova alegria:
esperança!
sonhos ...

Sem a vida não existiria a morte. Sem a alma não haveria a fé.
O amor anunciava a chegada da Estação Felicidade, trazendo a
fragrância do jasmim ao longe no prado que atraia os insetos e os
enamorados. Era tempo de namorar!
O Homem, fruto da natureza, busca todo instante desvendar
os mistérios de sua mãe mor. Invade a essência da vida,
pesquisando, coletando informações e desequilibrando todo o
sistema da biodiversidade natural. Ele adquiriu razão consciente
aprimorando seu desenvolvimento evolutivo a cada nova
geração. Uma evolução material e tecnológica; não espiritual,
nem humana.
É natural que exista esse amor invasor de privacidade alheia.
É inerente à concepção humana revelarmos nossos sentimentos,
apreensões, sempre buscando a harmonia e o prazer; quando
extrapolados, denominamos de felicidade.
Ninguém é o centro do Universo, temos qualidades e defeitos
irreparáveis, intocáveis. A “arte de sorrir” e se alegrar “cada vez
que o mundo diz não”, é ter os pés no chão, a cabeça no lugar e
a vida alimentada pelo coração. Daniela morava em meu
pensamento, sugava minha aura como se fôssemos uma só vida,
um só corpo.
Será que eu poderia afirmar com convicção que Daniela me
amava? Na verdade, era uma perda de tempo permitir que o
medo guiasse meus passos. Nunca fui dono de mim mesmo; era
um escravo do medo. Só restava uma saída: sorver a coragem
para o interior de meu ego e encarar os obstáculos com
inteligência e criatividade.

Será Carla ?

Carla, além de mais bonita que Daniela, também era mais


atenciosa e olhava profundamente em meus olhos quando
conversávamos.
Vivemos num mundo cheio de mistérios, alagado de
coincidências e recheado de descobertas. A cada resposta
surgem duas novas perguntas. A todo instante aprendemos algo
novo, sobressaindo à monotonia, diversificando o nosso
conhecimento intrínseco.
Carla era a mais nova sensação de minha vida, apesar de tê-la
conhecido apenas há dois meses. A primeira vez que a vi,
quando fui em busca de emprego no Despachante Mallar, senti
uma grande atração por aquela alma gêmea. Carla era a irmã
que nunca tive, a namorada que desejava ter. A maneira delicada
que Carla proferia meu nome fazia de mim um patético,
derretendo-se de encanto pela voz dela.
Durante o mês de agosto, conversamos muito a respeito de
namoros, namorados e namoradas. Carla deixou bem claro que
tinha o coração derretido por alguém. Mas não disse quem era o
felizardo. Apenas comentou que essa pessoa havia surgido em
sua vida há pouco tempo; logo que ela começou a trabalhar.
Eu não sabia distinguir uma cantada de uma simples
brincadeira de amigos. Quando Carla me olhava profundamente
em meus olhos e fazia certas insinuações, eu ficava na dúvida e
não levava muito a sério. Será que existe amizade pura, sem
malícias, entre adolescentes de sexos diferentes?
Permanecia em estado de vigia. Totalmente alerta. Se Carla
partisse para algo mais sério, como um namoro, daria todo o
apoio e embarcaria juntamente com ela. Porém, se ela não sentia
nenhuma atração por mim, a não ser amizade, também aprovava
aquela opção, respeitando com todo fervor, com toda querença.
Assim como a poesia fazia parte da minha vida, a poesia
também era vida para Carla. Ela gostava de receber poemas e
admirava os trabalhos dos grandes poetas e poetisas de nossa
literatura.
Sua especialidade era fazer versos. Versos que tocavam o
coração de qualquer pessoa. O amor era o seu tema preferido.
Ela abusava dos sinônimos, acrescentando vida em cada verso,
aflorando seus sentimentos com magia e movimento. Mostrei
para Carla algumas de minhas poesias. Ela adorou todas.
Há quinze dias atrás, Carla com aquele semblante de santa,
disse que havia sonhado comigo. Perguntei como foi o sonho.
Sem revelar nada, mudou de assunto e me entregou esses
versos:

Choras de saudades!
saudades que lhe proporciona apenas a solidão.
Choras de paixão!
pois quem te ama tem a chave do seu coração.
Choras de tolice!
por isso pagarás o teu orgulho com o sofrimento
inerente a ti.
Choras para sorrir!
no calor do meu peito a magia do amor é etéreo
Choras para sonhar!
na busca da felicidade seremos corpo e alma, unidos
pelo afeto.
Choras em melodia!
enxugue suas lágrimas e acorde do sofrimento, sinta
o silêncio, rompido pela minha alegria.
Choras de felicidade!
o destino foi palco de nosso encontro, o amor curou a
cegueira da paixão, tornando-nos num único coração.

Toda vez que leia esses versos, sintia uma profunda paz em
minha alma. Todas as palavras pareciam comigo, como se eu
fosse o próprio poema. Estava na cara que aqueles versos
resumia o sentimento que Carla sentia por mim. Um sentimento
entregue aos meus olhos, expressando uma lúcida declaração de
amor. Tolo!
O certo seria abrir o jogo e pedi-la em namoro. Esse desejo
via-se claramente estampado no rosto de Carla. Mais uma vez,
perdi a batalha para o medo covarde que habitava minha alma.
Era uma querença: pedi-la em namoro! Há muito tempo
aguardava por uma oportunidade como aquela. E quantas
oportunidades já havia perdido!
Uma dessas oportunidades ocorreu bem antes de vir trabalhar
junto dela no escritório Mallar. Quando trabalhava no Gordo era
sempre a Carla quem me atendia e pegava a encomenda de
dona Laura. Numa daquelas tardes, cheguei no escritório com a
encomenda nas mãos. Carla estava fazendo alguns exercícios de
matemática e consultava um livro didático da oitava série.
A dúvida dela era sobre uma tal de equação do segundo grau.
Carla não conseguia achar o delta, para em seguida, achar os
valores das raízes da equação (x’ e x”) . Aquele assunto cairia na
prova e a professora não permitia em hipótese alguma o uso da
calculadora. Sem calculadora Carla não sabia extrair raiz
quadrada.
__ É muito fácil, Carla. Extrair raiz quadrada é mais gostoso
que extrair um dente -- brinquei, aproximando-se dela.
__ Prefiro mil vezes extrair um dente, em vez de fazer essa
droga de raiz quadrada -- objetou-se Carla com uma expressão
séria e apreensiva.
Peguei uma folha de sulfite que havia sobre a mesa, escolhi
um lápis bem afinado e me ofereci a ensiná-la. Sem rodeios,
Carla puxou uma cadeira ao lado dela e, gentilmente, convidou-
me para sentar. Sentei com toda expressão e pinta de galã.
Posicionei a ponta no lápis na folha branca e insinuei:
__ Veja como é fácil, senhorita!
__ Que gentil o cavalheiro! Não tenho tempo para frescuras,
Léo. É vida ou morte. Preciso aprender esse negócio na marra.
Certo?
__ Por onde mesmo que começa essa joça?
__ Se for para complicar, pode parar com isso.
É lógico que sabia extrair raiz quadrada. Havia aprendido na
sexta-série. Estava apenas tornando a aula particular mais
agradável e descontraída.
__ Carla, escolha qualquer número.
__ Esse quarto exercício, aqui -- apontou Carla
__ 6.480. É um bom número para extrair a raiz quadrada.
Primeiramente o colocamos dentro da raiz ...
A explicação poderia ter sido mais sucinta e demorou quase
uma hora e meia. Fizemos vários exercícios para treinar. Carla
era uma menina muito inteligente e não teve muita dificuldade
para aprender a extrair a raiz quadrada de um número qualquer.
Em suma, ela era um amor de menina.
Dona Laura havia ido ao banco e apareceu de supetão. Ela
tinha o semblante cansado e chegou reclamando:
__ Hoje o banco estava um inferno. Mais de duas horas na fila
de três agências bancárias só para pagar algumas duplicatas e
realizar algumas aplicações ...
E, num ar atônito, dona Laura me viu sentado ao lado da Carla
e indagou:
__ O que o casalzinho está fazendo aí, sentados agrudadinhos
na maior folga?
Carla ficou com o rosto vermelho de vergonha, como um
pimentão. Mas recuperou a cor do semblante ao explicar toda
aquela confusão:
__ O Léo estava me ensinando a extrair raiz quadrada ...
__ Use a calculadora. É mais prático! -- atalhou dona Laura,
com um olhar sério e cansado.
__ Bem que gostaria, mas a minha professora (ainda apronto
uma com aquela mulher!), não deixa ninguém usar a calculadora.
Amanhã tenho prova com ela ...
__ E o Léo é o seu professor particular? Bom amigo é o Léo.
Lembre-se bem disso Carla: quem encontra um amigo
verdadeiro, encontra um tesouro -- avisou dona Laura, deixando
alguns recibos sobre a mesa de Carla.
__ Amigo? -- inquiri, meio trêmulo e acanhado.
__ Ah, desculpas Léo! Não sabia que a Carla era sua
namorada -- disse dona Laura, com um renovado sorriso no
semblante.
Carla também sorriu, olhou bem fundo em meus olhos e
brincou:
__ Namorado? Léo é o amor da minha vida.
Será que Carla estaria falando sério? Ela agarrou-me
fortemente como se fôssemos namorados. Faltou só o beijo.
Dona Laura colocou a mão na cintura e jogou mais lenha na
fogueira:
__ Por acaso meu escritório virou banco de praça pública?
__ A senhora vai ser uma das madrinhas do casamento --
prometeu Carla, surpreendendo-me.
__ Deixe-me trabalhar que tenho mais o que fazer -- disse
dona Laura, seguindo em direção ao seu recanto.
Olhei sério para Carla, que estampada por um sorriso sereno,
proferiu suavemente:
__ Quem sabe um dia, não é mesmo, Léo?
__ Ah, sim! -- confirmei, hipnotizado pela sua beleza feminina.
Por que o mundo é tão complexo? Sou um garoto e Carla é
uma garota. Sou o macho, ela é a fêmea. O quê há de anormal
nisso tudo? Por que colocamos obstáculos em nossas vidas, em
vez de torná-la mais simples, mais natural, mais transparente? Na
verdade, costumamos fantasiar esses relacionamentos; por isso,
eles acabam se tornando tão complexos e enigmáticos.
A dúvida continua pairando ar: Será Carla? Será Daniela? Ou
será Bruna? Sinto que o momento está próximo. Os sinais estão
em toda parte. Vejo o mundo com bons olhos. Aprecio com
entusiasmo a natureza: fauna e flora.
É bom viver alimentado pelos sentimentos, desvendando a
cada novo despertar uma nova cor no horizonte: cristalina quanto
às emoções; pura quando a água de uma nascente. Renasce a
esperança, espantando a solidão para o infinito, sobre flocos de
felicidade; de carona com o sopro da vida, reconstruindo meu
pensamento de sabedoria e luz.
Nesse alto astral floresce uma angústia promissora e futurista.
O tempo é o senhor do movimento, é o motor dos acontecimentos
e cabe somente a ele o controle absoluto do universo. Se eu
tivesse a chave do tempo, poderia reconstruir minha vida,
consertar meu passado, usufruir melhor meu presente e rechear
meu futuro de bons acontecimentos. O quê é que há? Sonhar faz
parte da vida humana.

Será Bruna?

Bruna era uma menina muito complexa. Necessitava de muita


psicologia para compreendê-la. Imagine que ela zangou-se
comigo quando lhe dei três beijinhos no rosto ao cumprimentá-la
pelo aniversário de quatorze anos. Será que era timidez ou ...
Na sala de aula Bruna sentava atrás de mim. Sempre dava um
jeito de conversar com ela. Quando não estávamos falando mal
do professor Petrusco, o assunto era filme de terror. A postura de
Bruna às vezes me surpreendia. Como podia uma princesa,
meiga e delicada gostar de filmes de terror? Dava medo só de
imaginar!
Foi justamente numa dessas sessões arrepiantes que algo de
muito misterioso ocorreu. Lá pelo final do mês de junho, a
professora de Inglês havia pegado um resfriado muito forte e a
direção escolar não conseguiu arrumar nenhum professor
eventual para substituí-la. Resultado: fomos até a locadora
próxima à escola com a missão de buscar um filme. Bruna brigou
com a classe toda para assistir ao filme “Jogos Mortais“. Foi uma
verdadeira batalha de palavreado com inúmeras justificativas e
preferências. Naquele dia, Bruna saiu vitoriosa e locamos o tal
filme de terror.
No escuro da sala de vídeo, olhares atentos para o telão na
expectativa do início do filme. Algumas “dondoquinhas”, assim
como apelidou Bruna, saíram da sala antes mesmo de começar o
filme.
__ Filme como esse é bom assistir sozinha, dentro do
cemitério -- ironizou Bruna.
O aparelho de som, acoplado ao vídeo cassete, propiciava
uma maior emoção ao filme. Aqueles ruídos estranhos entravam
pelos ouvidos, indo além de nossa imaginação. Dava medo só de
recordar daquele dia e do filme.
Moral da história: terminou o filme; somente eu e Bruna
permanecemos até o final. Juro que permaneci todo aquele
tempo não pelo filme, mas me sentia atraído pelo perfume de
mulher de Bruna, pela vibração de seus olhos saltitando a cada
cena de terror e seus gritinhos que eram um terror.
Parecia mentira, mas no íntimo ela era uma garota corajosa,
extrovertida e totalmente diferente daquela Bruna quieta,
estudiosa e calada que existia na sala de aula.
Aquele dia Bruna estava irradiante e surpreendente. Virou-se
para mim e queixou-se:
__ Esse pessoal de nossa sala é tão medroso. As meninas
parecem dondoquinhas; e os meninos, um bando de mariquinhas.
Rapidamente protestei em minha defesa, pigarreando:
__ Rhã-rhã.
Ela me olhou com aqueles olhos castanhos, meigos, fulgentes
e retificou:
__ Perdoe-me, Léo? Menos você que não é mariquinha. Mas
que os outros são frouxos e covardes, disso não abro mão.
Aproveitei a oportunidade para interrogá-la:
__ Afinal de contas, quem você pensa que é? Na classe é uma
santa, não abre a boca nem para reclamar da dona Rose, a
professora de Português. De repente, acaba caindo em
contradição, comportando-se de uma maneira totalmente oposta?
Delicadeza não combina com terror, sabia?
__ Léo, se eu fosse transparente você se surpreenderia
comigo.
__ Surpreenderia?
__ Bem. Esqueça o que eu disse. Falei demais. A vida tem um
roteiro para ser cumprido.
__ Que roteiro?
__ Acho melhor rebobinar a fita. Faltam apenas dois minutos
para bater o sinal. Você já conhece o professor Petrusco -- avisou
Bruna, esquivando-se do assunto.
Permaneci pensativo: por que será que Bruna mudou de
assunto repentinamente? Será que ela tinha algo de especial
para dizer a mim? Andava mesmo delirando, sem rumo certo,
seguindo o expoente da imaginação, perdido no labirinto da
incerteza.
Algo interior profetizava:
__ “Um ano se passará. No último instante a luz da esperança
se apagará. Da semente do amor o fruto de seu sonho semeará
uma nova fase em sua vida”.
Resumindo: é tempo de namorar! Tempo de arrumar uma
namorada. E quem será? Daniela? Carla? Bruna?

***
Talvez você possa me ajudar a sair dessa enrascada. A
indecisão causa a angústia. Reafirmo para quem duvidar: esse
escritor pegou no meu pé e está de marcação cerrada comigo.
São tantas as dúvidas pairando no ar. Ele pensa que sou
algum tipo de detetive, ou algo similar. Esta história está
aparentando um caça ao tesouro. Seria melhor mudar o título
para “O Caçador da Namorada Perdida”. Ou talvez, “Procura-se
Uma Namorada Desesperadamente”. Acredito que esse escritor
tenha pouquíssima imaginação.
Não há quem agüente mais essa agonia. Num momento como
esse você já deve estar bem cansado. Se você me abandonar,
quem poderá me socorrer e proteger da imaginação pretensiosa
do escritor?
CAPÍTULO IX:
CORES QUE MEXEM

Sem grandes novidades em setembro, sobreveio a rotina:


estudava de manhã e trabalhava à tarde no Despachante Mallar.
Na escola, andava muito bem, obrigado! Que fique claro: bem em
todas as disciplinas; porém, azarado no amor. Vida de poeta
acanhado é uma via-crúcis
A poesia era o marco de minha vida. Quando menos esperava,
surgia uma nova fonte de inspiração, um novo motivo para criar e
compor mais um novo poema. Um suspiro que aliviava as dores
da realidade, que eternizava os momentos de alegria, que
registrava na forma de símbolos a essência e a magnanimidade
da alma.

Presente de Aniversário
Na última quinta-feira do mês de setembro, após o expediente
no Despachante Mallar, apareci na casa de minha tia Beatriz para
levar o presente de aniversário, -- com uma semana de atraso --
que a minha mãe havia comprado para meu primo aniversariante,
Leandro.
Segui pelas ruas de Brodowski, levando o pacote na garupeira
da Escavática. Meu primo morava no mesmo bairro de Bruna.
Aproveitei o itinerário e passei de frente à fachada da casa dela.
Infelizmente, não a vi nem no alpendre nem na rua.
Na próxima esquina, virei à direita, depois à esquerda. Subi na
calçada, desviando-se de uma lata de lixo e de um monte de
areia. Saltei uma pequena rampa formada pelo declive da
calçada e brequei bruscamente, rabeando em frente ao portão da
residência de meu primo.
Apertei a campainha, que se encontrava meio escondida entre
as trepadeiras unha-de-gato, alastradas em toda extensão do
muro. Primeiro apareceu o Toquinho, um cachorrinho vira-lata,
manso e sossegado. Ele veio abanando o rabo e ficou
arranhando o portão.
Meu primo apareceu logo em seguida, com um pincel preso na
dobra da orelha e cumprimentou-me:
__ Como vai, primo?
__ Graças a Deus, vai indo tudo bem.
__ Entre -- convidou-me Leandro, abrindo o portão de grade.
Toquinho saiu em disparada para a rua. Parou no primeiro
poste que encontrou pela frente. Cheirou ao redor e ergueu suas
patas traseiras, regando o poste.
Aquela cena me fez lembrar de uma, das inúmeras piadas e
adivinhas que o Gordo sempre contava. A adivinha foi a seguinte:
o que o poste disse para o cachorro? Fácil, não. Essa é mais
velha do que minha tataravó. E disse o poste para o cachorro:
não adianta regar, que não cresço mais.
No entanto, engraçado mesmo era meu primo, usando aquele
pincel atrás da orelha esquerda. Leandro era bem mais velho que
eu. Cursava Artes Plásticas na cidade de Franca, a capital do
calçado.
Desde criança ele era um arteiro artista. O ano passado, em
plena flor da juventude, com seus 20 anos, Leandro ganhou o
primeiro lugar num concurso nacional promovido pelo Masp, em
São Paulo, concorrendo com influenciada pelo Surrealismo. Uma
obra de difícil descrição, devido à complexidade de seus traços,
cores e formas.
Apoiei a Escavática na parede da garagem e adentramos pela
porta da sala. Leandro, cordialmente, solicitou:
__ Sente-se no sofá, Léo. Vou até a cozinha buscar algo para
a gente beber.
__ Não precisa se preocupar, Leandro. Estou com pressa, só
vim entregar o ...
__ Que pressa? Sente-se no sofá, primo. Volto já.
O jeito foi sentar e se delirar com as obras fixadas na parede
por toda a extensão da sala. Não me contentei apenas olhar.
Deixei o pacote sobre o sofá e fui tatear aquelas pinturas
magníficas. Um festival de formas, tons e matizes. Fiquei
boquiaberto, estupefato, encantado. A última vez que o tinha
visitado -- e isso fazia muito tempo -- lembrava-me de ter visto
apenas um quadro na parede, que já não se encontrava junto aos
demais.
__ Com esse quadro, na semana passada, ganhei o segundo
lugar na Mostra Nacional da Arte Contemporânea, promovida
pelo Museu Belas Artes, no Rio de Janeiro -- exprimiu Leandro,
aparecendo na sala de supetão, segurando em suas mãos uma
bandeja com um jarro, dois copos e um pacote de bolachas
salgadas.
__ Belíssimos quadros, primo.
__ Procuro fazer o melhor possível. Uso e abuso da
imaginação. Assim como você faz com suas poesias, Léo.
__ Poesias? Ah! Sim, minhas poesias. Nem se compara com
as suas pinturas. Poema qualquer um faz. Quero ver quem faz
pinturas como essas.
__ Não é bem assim, Léo. Poesia também não é qualquer
pessoa que consegue escrever. Toda e qualquer arte requer
muita perseverança, estudo e o desenvolvimento de técnicas. O
mais importante você já tem: o talento, a inspiração. É só você
perseverar e se aprofundar no assunto que o resto você tira de
letra.
Ouvindo aquelas palavras de incentivo, aos poucos me
inspirava num novo poema. A poesia era algo mágico. A
inspiração sempre aparecia como uma brisa: suave, amena,
fresca. Paulatinamente vinha surgindo as primeiras palavras, as
primeiras rimas, os primeiros versos, as primeiras estrofes, os
primeiros rabiscos ... enfim, a poesia.
Como eu era muito leigo em se tratando de pintura, aproveitei
a oportunidade para inteirar-me sobre assunto:
__ Que tipo de tinta você usa, Leandro? Essa pintura você fez
diretamente na parede? -- inquiri, apontando para um pássaro
que sobrevoava uma campina.
O meu primo sorriu, aproximou-se da obra e explicou:
__ Esta obra, feita diretamente na parede, trata-se de algo
inédito. Estou desenvolvendo uma nova técnica de pintura mural.
__ Como é esse negócio de técnica?
__ É todo um processo a ser seguido até a finalização da obra.
Para ser mais prático, vejamos esta pintura na parede: primeiro a
parede deve ter o reboco bem liso. Depois de pintada,
preferivelmente de branco, prepara-se a dimensão do quadro a
ser trabalhado.
__ Essa tinta que você usa parece plástico e brilha bastante --
interrompi, passando levemente o dedo sobre aquela pintura.
__ A partir de agora que entra o meu projeto, ou seja, a minha
invenção -- patenteou Leandro, com um brilho nos olhos. __ A
tinta é a mesma usada para pintar tecido. Quando ela secar,
basta passar uma camada de verniz, e o trabalho estará
concluído.
A princípio não acreditei que tinta de tecido, acrescida de
verniz, atingiria resultados tão surpreendentes. Boquiaberto,
observei outra obra sobre a parede feita com a mesma técnica.
Caminhei alguns passos à esquerda e, próximo à estante,
deparei-me com um quadro ainda mais deslumbrante. Imaginei
que fosse aquarela. Imaginei. Porque era mais uma criação
extraordinária de meu primo.
__ Nesta paisagem, estou desenvolvendo algumas novas
técnicas de manejo com a anilina. Especificamente nesse caso,
baseei-me nas técnicas usadas em aquarela. Dependendo do
papel utilizado e do correto manuseio da tinta, dá para
alcançarmos resultados surpreendentes, com matizes mais vivas,
mais vibrantes, mais fortes.
Meus olhos não se cansavam de olhar para todos aqueles
quadros irisados e reluzentes. Naquele momento veio uma
passagem pela minha cabeça: “o artista é a altivez da arte”. Via-
se o brio do sorriso estampado nos lábios do meu primo Leandro.
Sentados no sofá, aceitei o suco de tamarindo e petisquei uma
bolacha salgada. Peguei o presente em minhas mãos, comi mais
uma bolacha e, entregando-lhe o, proferi:
__ Primo, minha mãe pediu-lhe desculpas pelo presente
atrasado. Acho que você vai adorar.
__ Flei para a sua mãe não se preocupar com isso -- disse
Leandro, pegando o pacote.__ Mesmo assim, muito obrigado.
__ Abre logo, primo. Estou morrendo de curiosidade. Minha
não me falou o que ela comprou. Mas ela me garantiu que você
vai adorar.
Leandro retirou o papel de presente e, valendo-se da tradição,
atirou-o debaixo do sofá. Em seguida, abriu a caixa de papelão.
__ Que lindo, primo! Um jogo de pincéis finos.
__ Nossa! São lindos mesmo -- admirei, tocando nos pincéis
que brilhavam douradamente.
__ Diga a sua mãe que adorei o presente. Prometo que será
dela o primeiro quadro que pintarei com eles -- assegurou
Leandro, colocando sobre a estante a caixa de pincéis.
Aquele passeio na casa de meu primo não poderia passar em
branco, sem ao menos responder à altura. Toda arte é mãe de
uma nova arte: é fonte de inspiração garbosa; basta inspirar sua
essência e criar uma nova obra-prima.
Inspirado nas pinturas de meu primo, não conseguia dormir
naquela noite. Fiquei a visualizar as cores, as luzes ... buscando
inspiração. O remédio para sanar aquela insônia foi papel e lápis
nas mãos: eis que dei à luz a mais um poema:

Viva as cores!
Elas são cintilantes:
verdes,
amarelas,
brilhantes!

Cores que mexem!

O sol adentra uma gotícula d’água!


Reluz as 7 cores no orvalho:
na relva
nas folhas,
no galho!

Cores que alegram o arco-íris!

Leal amiga dos grandes pintores!


Cores que purificam as emoções:
de encanto,
de magia,
de sensações!

Cores que mexem!


Alegram nossa vida ...
Toda colorida!

Em cada tom,
um segredo da vida:
uma palavra,
uma estrofe,
um verso.

Cores que mexem!


Espalham ternura,
amor e canção ...

Lá estão elas sorrindo,


no perfume das flores,
fazendo o que mais gostam:
espalhando cores!

Cores que mexem!

***
Caríssimo leitor, você já deve estar embebido de poemas. Eles
são etéreos e refletem a nossa imagem, nossos sentimentos,
nossas emoções.
Saiba também, que a pintura é uma forma de linguagem.
Queira Deus que esse autor nunca se atreva a pegar num pincel.
Tenho pena dos seres e medo das cenas que ele poderia criar.
Às vezes, admiro como um sujeito desse tipo vende tantos
livros a custa do sofrimento alheio. Vou reclamar meus direitos
com o tal do editor. Será que vale a pena? É tempo perdido ...
Mesmo que existo só na imaginação desse escritor, bem que,
haveria de existir um sindicato para proteger os direitos dos
personagens fictícios. Ora, também estamos vivos: respiramos,
amamos, sofremos, sorrimos, cantamos, choramos, plantamos
bananeiras, falamos besteiras ... Somos manipulados e usados.
A ansiedade é constante. Ainda mais quando o escritor cria
aquele clima de suspense, almejando atingir o clímax da história.
Veja a minha situação: não sei quem gosta de mim; se é Carla,
Bruna ou Daniela. Tenho apenas suposições. O escritor poderia
amenizar meu sofrimento, ajeitando logo essa namorada que
tanto desejo.
É melhor parar com a prosa. Quando fico muito exaltado,
acabo falando asneira. Às vezes é bom seguir aquele velho
ditado: em boca fechada não entra mosquito.
CAPÍTULO X:
ADMIRADORA SECRETA

A primeira quinzena de outubro também foi pura rotina; salvo


o dia das crianças. Um verdadeiro corre-corre para organizar os
eventos promovidos pela minha escola: teatro infantil, festa
cultural e gincana.
Na última semana de outubro, ocorreu um episódio engraçado
com uma aluna de minha classe. Outra pessoa não poderia ser
capaz de tal peripécia. Só poderia ter sido Mariana, que vivia no
mundo da lua.
A mancada foi a seguinte: ela tinha esquecido de fazer o
trabalho que a professora de Educação Artística havia pedido
para trazer pronto de casa. Segundo a professora, o desenho
seria avaliado e valeria como prova mensal.
Para não ficar sem nota mensal, Mariana ausentou-se da aula
de Educação Física e permaneceu na sala de aula terminando
seu trabalho. Era preciso se apressar, porque a próxima aula
seria de Educação Artística.
Lá permaneceu Mariana, saltitando com as cores e a
imaginação sobre a superfície branca da folha de sulfite.
Restavam alguns pequenos retoques para terminar o desenho
quando bateu o sinal.
Entrei na sala de aula e encontrei Mariana naquele desespero,
com o rosto todo molhado de suor. Apesar do esforço, toda
aquela correria tinha sido em vão. Aproximei-me dela e noticiei:
__ Mariana, pode parar com esse seu desenho. A inspetora
acabou de nos avisar que a professora faltou.
Mariana estava tão inspirada em seu desenho que nem se
importou comigo. Permaneceu saboreando sua obra-prima.

Apressada

Achei extraordinária aquela dedicação a um simples desenho.


Juro que fui obrigado a responder à altura, criando mais um
poema:

Certo dia,
olhei para você.
Você sorria,
você pulava,
dançava e suspeitava.

Tinha algo para lhe falar,


mas você não deu bola.
Correu para a classe ...
Pegou rapidinho a cola.

__ Vamos desenhar?
__ Desenhar ou colar?
__ Veio uma idéia, sabe?
de desenhar,
cantando.
de colar,
dançando.

Minha amiga,
estava adoidada:
ligeiramente desenhava,
cortava,
pintava,
colava.

Na folha sulfite,
a cola secava.
O branco não se via,
no retoque pintava.

Inspirada pela música,


dançava sobre a pintura:
colava figuras,
fazia travessuras,
dizia loucuras.

Não cabia mais nada,


nem mesmo um ponto.
Desenhou a passarada,
o trabalho estava pronto:
lindo
deslumbrante,
límpido
brilhante.

__ Que tal?
__ Maravilhoso, mas ...
__ Invejoso!

Mal sabia o que esperava.


Abri a boca e sorri:
Tola! ... a professora cansada,
desistiu do trabalho corrigir.

__ Não tem mais nota,


não vale mais nada.
__ Não importa!

E calou-se ...
A primeira quinzena de novembro repetiu a monotonia dos
meses anteriores. Esse era um dos meus medos: arrumar uma
namorada e cair na monotonia. Seria chato demais ficar contando
as estrelas ou meditando diante da companhia agradabilíssima
da lua cheia, sem ter mais nada que dizer para a mulher amada.
Tudo na vida é necessário uma pitada de criatividade. Toda
magia do mundo é alimentada pela criatividade; ela é a essência
da natureza humana. Sem criatividade teremos a companhia da
rotina atormentando o nosso cotidiano. Para ser criativo,
recorremos a nossa inteligência, através da assídua observação,
como radares a observar tudo o que ocorre em nossa volta.
Copiar idéias é preciso; aprimorá-las é primazia!
Ultimamente, andava muito aborrecido com aquela história de
“quem será?”. O desânimo era tanto que já não corria para a fila
com o intuito de apreciar a beleza feminina e encantadora de
Daniela. No escritório, procurava ficar em meu recanto e pouco
conversava com Carla. Com Bruna, evitava fazer trabalhos em
grupos.
A desilusão tinha invadido meu coração, tirando a altivez do
amor, apagando a chama da paixão. O fracasso havia se
transformado no vilão de minha vida; deixando-me atirado às
amarguras, jogado à sarjeta, abandonado num recanto qualquer
da cidade.
Dezembro encontrava-se muito próximo. O momento era
favorável a grandes realizações. Por que será que eu pensava
em fracasso? Simplesmente, porque já havia fracassado no
passado. Quem vive de passado é museu. O que passou,
passou. O mais importante é o momento de agora, o hoje, o
presente.
Estava sendo o melhor ano de minha vida. A procura foi árdua,
e já tinha um emprego digno. Não dependia mais da mesada de
minha mãe. Já possuía o meu próprio salário: fruto de meu
trabalho. Acima de tudo, acreditava ter atingido parte de minha
maturidade. Faltava complementá-la de coragem. Coragem de
dar vida real à voz de meu coração, de libertar meus sentimentos
do cárcere de meu ego.

Eu Te Amo
Na última semana de aula, na primeira quinzena de dezembro,
chegando em casa para o almoço, no instante que entrava pelo
portão, ouvi um grito vindo da rua:
__ Ei, garoto! -- chamou-me o carteiro, dirigindo-se em minha
direção com a sua bicicleta amarela, da cor do seu uniforme.
Trazia na garupeira várias correspondências, além de revistas
e alguns enormes envelopes pardos. O carteiro entregou-me
quatro extratos de banco e duas cartas. Agradeci a gentileza do
carteiro e entrei no alpendre. A primeira carta era de minha tia de
Ribeirão Preto. A segunda carta ... Não havia remetente na
segunda carta.
Já que a carta era anônima, decidi abri-la. O que será que
havia nela? A princípio encontrei uma folha de agenda toda
perfumada. Não conheci a marca do perfume. Desdobrei o papel
com muito zelo. Que susto! No cabeçalho vi meu nome
contornado com um círculo verde. A carta era para mim. Comecei
a ler, ansiosamente:

Léo,

Deus quando criou o universo lançou sobre a Terra uma magia


perene: o amor! Deus criou dois corações distintos. Criou um
coração feminino e deu a ele a energia radiante dos sentimentos,
criou um coração masculino e deu a ele a energia reluzente das
emoções. Deus almejava criar um único coração. Ele desejava
unir os sentimentos com as emoções para que a felicidade
acordasse do sono eterno.
A única maneira verossímil de uni-los era criar um elo anelo,
uma mágica sublime, usando unicamente a proporcionalidade do
amor. Deus pegou a mais bela flor de maracujá que havia sobre
a face terrestre e nela lançou os ingredientes da mágica: para
representar o primeiro coração, com a mão esquerda, Deus
despejou o olhar; para representar o segundo coração, com a
mão direita, Deus despejou o carinho, para uni-los prontamente,
com os lábios, Deus despejou o beijo. Um eco errante surgiu
entre a terra, o céu e as estrelas: EU TE AMO.

P.S. : Estarei esperando por você na saída da missa do Galo.


Não esqueça, paixão!
Aquela carta apareceu no momento certo. O Natal era o dia
escolhido para o amor confirmar sua vivacidade. A esperança
voltou a trilhar em meu caminho sombrio, reacendendo um ponto
de luz no infinito de minha esperança. Rumo ao futuro, de
contagem regressiva, aquele ponto luminoso aumentava de
intensidade e tamanho a cada nova manhã, a cada novo dia.
Passei a contar os dias, riscando o calendário que havia atrás da
porta de meu quarto.
A partir daquele momento, fiquei em perene vigia: na escola e
no trabalho. Intensifiquei a atenção em todos os movimentos de
Daniela, de Carla e de Bruna. Se fosse analisar pela lógica, Carla
era a única das três, que sabia e gostava de escrever versos e
poesias.
As férias de dezembro dificultaram minha investigação. Mas o
Natal estava próximo. Não demorou chegar o grande dia de
minha vida. Permanecia confuso, apreensivo e ansioso. Na
verdade, continuava perdido ao léu, sem rumo, sem direção. O
coração indicava Daniela, a lógica denotava Carla e a surpresa
apostava na Bruna. E se não fosse nenhuma das três?

* **
Finalmente acendeu uma luz no fundo do túnel. Parece que o
tal do Augusto resolveu dar um final feliz para minha história.
Essa carta anônima -- tinha de ser anônima! -- reavivou meus
ânimos.
Porém, o mérito é todo seu, estimado ombro amigo. Se você
não estivesse ao meu lado, não sei se resistiria aos empecilhos
do enredo criado pela imaginação desse escritor de quinta
categoria.
Ninguém é bom por acaso. Normalmente as pessoas esperam
uma pelas outras, aguardando o sinal de partida para iniciar um
possível relacionamento amigável e recíproco. Pegamos como
exemplo Daniela: nunca tive coragem de dizer para ela o quanto
a amo.
Será que Daniela também não tenha o mesmo medo? Seja
você o primeiro a agir; mesmo que nuvens negras ameaçam
desabar uma tempestade.
Lavo minhas mãos. Por isso, não se assuste caso eu tenha um
final dramático nesta amarga e melancólica narrativa.
Cuidado!
Se você é uma pessoa muito emocional, se comove
facilmente, sugiro que não prossiga. Não confio nesse escritor. Já
ouvi dizer que ele tem cérebro de minhoca. Na imaginação
imprevisível dele, tudo pode acontecer.
CAPÍTULO XI:
MISSA DO GALO

24 de dezembro, véspera de Natal, a noite era de muita festa.


As famílias preparavam a ceia, unidas pelo espírito natalino. As
redes de televisão preparavam programas especiais, inspirados
na divindade e espiritualidade do Natal. O mundo, por algum
momento, esquecia da fome, esquecia da miséria, esquecia das
guerras e do ódio e festejavam de madrugada a passagem do
nascimento do menino Jesus. Os presépios, todos adornados,
eram os cartões de visita: simples ou complexos, vivos e
reluzentes.
Às onze horas da noite, dialogava comigo mesmo diante do
espelho do banheiro:
__ É isso aí, Léo. Hoje é seu dia. Quero dizer, noite! A missa
do Galo será à meia-noite. Quando você sair da igreja Matriz,
será um novo dia; um dia especial para o mundo e para você:
será Natal e tempo de namorar!
Do espelho do banheiro, retornei ao quarto e peguei minha
carteira, meu minúsculo piano de dez teclas, contrabandeado do
Paraguai, e saí em disparada, rumo à Igreja Matriz. Girei a chave
na fechadura, trancando o portão. Olhei para o céu. A lua estava
mudando da fase quarto crescente para a cheia. Fiquei absorto
por um átimo, inspirando aquela energia luminosa, cogitei:
__ Nessa noite natalina, o espírito, a felicidade e a vida
acenam alegria!
Uma paz de espírito envolveu meu coração. Minha aura irisada
tornou-se suave e etérea como as nuvens brancas dançando
sobre o céu azul.
A igreja ficava há um quarteirão de minha residência. Da
calçada avistava a torre da Matriz. Olhei para o relógio. Faltavam
vinte minutos para a meia-noite.
Atravessei a rua, apertando o passo para chegar mais cedo e
conseguir um lugar vago no primeiro banco. Primeiro banco?
Como saberia se Daniela, Carla e Bruna estariam presentes na
missa? Seria muito deselegante ficar olhando para trás o tempo
todo.
E se ficasse no meio? Não. E no fundo? Também, não. A
melhor solução seria ficar em pé, encostado na parede. Só assim,
ganharia mais mobilidade e ampliaria meu campo visual.
Lá estava a Matriz, com sua fachada coroada com várias
lâmpadas, piscando no ritmo de canções natalinas. Logo na
escadaria da igreja, avistei Carla acompanhada de seus pais,
entrando apressadamente. Apertei o passo e subi a escadaria em
largas passadas.
O interior da Matriz, em meia-luz, criava um ambiente
romântico, de reflexão e muita paz. Apenas algumas velas
acesas iluminavam o interior da igreja. O altar, todo ornamentado
com flores campestres e folhas de palmeiras, parecia uma
manjedoura. Um delírio de encanto!
Peguei o folheto da missa, mergulhei os dedos na água benta
e entrei pelo lado direito da maciça porta interna da Matriz,
parando próximo à imagem de Santo Antônio. A igreja, que se
encontrava ocupada pela metade, aos poucos foi enchendo,
enchendo ... e não parava de chegar mais gente. Permaneci
encostado na parede, no fundo da igreja, aguardando o momento
certo para me dirigir próximo ao altar. Lá teria uma visão mais
ampla de todos os fiéis.
A cada minuto os bancos vagos ficavam cada vez mais cheios
e apertados: um emaranhado humano. O fluxo de pessoas
transitando pelos estreitos corredores aumentava
gradativamente.
Havia chegado o momento de garantir um lugar próximo ao
altar. Seguindo pela lateral direita, após pisotear três pares de
sandálias, cinco pares de tênis e dois de sapatos, cheguei ao
lugar almejado. Escorei-me na parede e liguei o meu radar
biológico, rastreando todo e qualquer movimento no interior da
Igreja Matriz.
Não demorou muito e o radar captou a presença de uma das
três garotas suspeitas de ter enviado a carta anônima. Era Carla,
já sintonizada em meu ângulo focal: uma paisagem encantadora,
com aquele cabelo solto enlaçado por uma travessa preta. Ela
usava um vestido longo, todo florido e uma sandália preta que
combinava com a travessa. O batom era apaixonante, da cor do
amor: vermelho maravilha. E Daniela? E Bruna? Será que elas
não viriam à missa do Galo?
Por falar em Bruna, lá estava ela sentada na lateral esquerda
abraçada com sua mãe. Ela era minha inspiração em sala de
aula. Coitadinha! Bruna odiava poesias e dizia ser incapaz de
sequer escrever um verso. Será? Ultimamente ela andava me
adulando muito com suas brincadeiras infantis.
Todavia, se fosse mesmo Bruna a autora da carta anônima,
ficaria muito feliz de tê-la como minha namorada. Ela adorava
filmes de terror. Eu conhecia um baú de histórias
fantasmagóricas, dessas de arrepiar até o último fio de cabelo.
Com certeza, Bruna se deliciaria de prazer, ouvindo minhas
histórias de terror, e imploraria por bis.
De repente, Bruna ajoelhou-se, juntou as mãos em oração e
começou a rezar, enquanto aguardava o início da missa. Vai
saber o que se passava naquela cabecinha. Que Deus atendesse
ao pedido dela.

É Natal ...

Trommm ... Soou estridentemente por doze vezes o sino da


igreja Matriz.
__ É Natal, mamãe! -- exclamou um menino de seis anos,
sentado no colo de sua mãe.
O sacristão, Aluísio, iniciou a missa desejando um feliz Natal a
todos. Leu a consideração inicial no folheto, enfatizando o
verdadeiro sentido do Natal na vida humana. Em seguida, o
grupo de jovens Nova Semente prosseguiu com o Canto de
Entrada. Onde estaria Daniela? Procurei novamente, apreensivo,
mas nem sinal dela.
Perfilados em par, primeiramente, entraram os Ministros da
Eucaristia. Espere um momento! A mãe de Daniela era Ministra
da Eucaristia. Dito e feito, lá vinha dona Elaine trazendo um botão
de cravo. Cada Ministro trazia em suas mãos um presente
distinto: alguns levavam frutas; outros, objetos de artesanato.
Os Ministros Eucarísticos paravam diante do altar, ajoelhavam-
se em respeito à imagem do menino Jesus e dirigiam-se à direita,
onde havia um enorme presépio. Cada Ministro entregava o seu
presente para uma criança vestida de anjo-da-guarda,
simbolizando o nascimento do menino Jesus.
Duas freiras entraram pelo corredor central com a Bíblia aberta
no Envangelho de São Marcos. Os Diáconos vieram atrás
segurando velas e as deixaram junto à imagem do menino Jesus,
deitado em seu leito, na manjedoura instalada diante do altar. O
padre veio em seguida, aspergindo água benta nas cabeças dos
fiéis.
Naquele momento, surgiu uma idéia genial. Se acompanhasse
os passos de dona Elaine, talvez encontraria Daniela. Mas dona
Elaine, que ocupava o cargo de Ministra Eucarística, sentou-se
ao redor do padre, juntamente com os demais Ministros.
Apesar da preocupação de encontrar Daniela, ora roubava um
olhar de Bruna, ora de Carla. Foram raras as vezes que Bruna se
aventurou olhar em minha direção. Do contrário, Carla parecia ser
minha alma gêmea. A cada três minutos olhava e sorria para
mim. Com toda nitidez, ela demonstrava ser a pessoa a quem
tanto procurava.
Que susto!
Eu estava tão desligado da missa, tão no meio da lua, que
levei um susto quando abri os olhos. Adivinha quem estava lendo
a segunda leitura no oratório? Daniela.
Parecia ser uma miragem. Que nada! Era Daniela em carne e
osso; aliás, mais carne que osso. Mais bem acompanhada que
sozinha. Aquela cena foi um grande balde de água fria em meu
coração consumido pelas chamas daquele amor.
Após realizar a leitura, Daniela saiu de mãos dadas com um
burguesinho, filho-de-papai. Eles sentaram-se numa das fileiras
de bancos, localizados na lateral esquerda do altar. Quem diria,
ela havia arranjado um namorado! E, agora, o que fazer?
Era o fim de um sonho, porque imaginava que tivesse sido
Daniela quem enviou aquela carta anônima. Toda essa certeza,
provinha do âmago de meu coração; a busca da realização de um
sonho, de uma ilusão, alimentado por aquele amor solitário e
acanhado.
Desde o primeiro átimo, ao plantar a semente da felicidade, ao
ser fortalecido e regado pelo amor à primeira vista, o meu único
objetivo era encontrar minha outra metade. Essa outra metade se
chamava Daniela.
A inquietação invadiu minha alma. Aproveitei o momento da
Homília para conversar com Deus. O padre Eduardo proferia:
__ O tempo é de renovação. É Natal. É o momento em que as
esperanças se renovam, um pouco de luz retorna a iluminar os
caminhos de cada filho de Deus. É o momento de intensa
reflexão. É o momento que voltamos nossa atenção aos nossos
irmãos menos favorecidos. Sobretudo, é o momento de
abandonarmos o egoísmo e a ganância para dedicar-se de corpo
e alma à caridade. Nesse instante de contemplação e adoração,
vamos unir nosso pensamento e invocar o Espírito Santo, que ele
interceda no coração de cada um de nós, alimentando nossa
alma com a essência divina, com o espírito natalino ...
No interior da igreja Matriz, ouvia-se apenas a voz afável do
padre Eduardo. A maioria dos fiéis permanecia, ajoelhado,
descansava as pálpebras, entregando a alma às graças e glórias
do Espírito Santo. Mesmo aborrecido, fiz meu pedido a Deus:
__ Senhor, meu pai. Olhe para minha vida com sua benigna
bondade; trilhe meus caminhos com sua infinita misericórdia. Se é
de seu agrado o meu pensamento, contemplo-lhe de
agradecimentos. Senhor, vou a busca de meus sonhos. Aconteça
o que acontecer, sempre serei grato sempre. Apenas ficarei
entristecido se a vida for cruel com meus ideais. Creio no senhor
e sua coragem é o alimento de minha alma. Lutarei e conseguirei,
perante a força da inteligência que me concedeste, contornar os
obstáculos da vida e seguir meu caminho com clemência e
vivacidade. Os sonhos existem para serem realizados Quanto
maior a dificuldade de realizá-los, maior será seu valor e prazer
ao saciá-los plenamente.
Naquele momento de fé, senti um calafrio percorrendo todo
meu corpo. Era um sinal divino, o passaporte para a felicidade.
Se não era Daniela, ainda restavam outras duas opções: Carla e
Bruna.
Quando nos referimos ao amor, tudo pode acontecer. A vida
nos reserva grandes surpresas. Se não houvesse as surpresas, a
vida seria algo vago, tedioso e monótono. O ideal é crer nos
sonhos e arriscar para petiscar; porque a sorte faz parte da vida.
Devemos permanecer atentos aos pequenos gestos que nos
cercam.
Através de idéias simples e objetivas, desvendaremos a
complexidade do universo. O amor é complexo, inexplicável, por
isso, temos de fragmentá-lo para compreendermos os segmentos
de sua essência. É preciso acreditar nos sonhos como sendo
virtude humana; como sendo um elo entre o imaginário e a
realidade.
Quando retornei de minhas preces, a missa prosseguia no
momento das Oferendas. Retirei de meu bolso uma nota de um
Real. Aguardei a vinda de um dos coletores de oferendas e
depositei o dinheiro na cesta de bambu.
Discretamente, olhei em direção a Bruna. Ela estava com o
olhar fixo no folheto e cantava com fé, acompanhando o grupo de
oração Nova Semente. E a Carla?
Carla continuava a olhar em minha direção. Às vezes,
desprendia em seu semblante um sorriso maroto de menina
moleque.
A missa encaminhava para o momento mais importante: a
comunhão. Após rezarmos de mãos dadas a oração do Padre-
nosso, os fiéis passaram a dar um aperto de mão nas pessoas ao
seu redor:
__ A paz de Cristo -- todos proferiam ao dar um aperto de mão
ou algo mais íntimo, como um abraço ou um beijo no rosto.
Com a igreja cheia, foi necessário esperar alguns minutos para
tomar a comunhão. A espera também fazia parte da preparação
eucarística: um desafio à paciência e à humildade. A hóstia
consagrada e molhada no vinho era elevada à boca dos fiéis pelo
padre e Ministros Eucarísticos.
Somente, quando soou uma hora da madrugada, o padre
Eduardo deu a Bênção Final:
__ ... em nome do pai, do filho e do Espírito Santo, Amém. Vão
todos em paz, e que o senhor nos acompanhe. Um feliz Natal a
todos.
Presente de Natal

Na escadaria da igreja, encontrei o professor Petrusco,


Mariana, Alessandra, Fernanda e Fabrício. Aproveitei para
desejar um feliz Natal a eles.
Fabrício, acompanhado de uma nova namorada, pediu licença
para sua amada e cochichou em meu ouvido:
__ E aí, Léo? Já descobriu a dona do poema?
__ Estou por um fio para descobrir. Na carta, ela ressaltou que
me procuraria após a Missa do Galo. Será que vale a pena
acreditar nessa carta, Fabrício? -- obtemperei, desejando ir
embora.
__ Que desânimo, Léo! Agora que chegou o momento, você
quer pular fora? -- irritou-se Fabrício com toda razão.
__ Benzinho, vamos até a lanchonete do Gordo? --
interrompeu a linda e manhosa namorada de Fabrício.
__ Léo, esta é Sabrina. Sabrina, este é o Léo -- apresentou-
me Fabrício para sua namorada.
A muito custo, vencendo a timidez, dei três discretos beijinhos
no rosto de Sabrina. Quem sabe os três beijinhos me transmitisse
coragem e sorte.
__ Até mais, Léo. Estou torcendo por você -- disse Fabrício,
cruzando os dedos e partiu de mãos dadas com sua nova
namorada.
Subitamente, senti um frio na barriga. O coração começou a
pulsar forte. Juro que senti alguns arrepios envolvendo todo meu
corpo. Minhas pernas bambearam-se. Fui obrigado a procurar um
banco para me sentar.

Um Esmero!

Encontrei um lugar bem arejado e tranqüilo, bem ao meu estilo


poético e acanhado, próximo à porta lateral esquerda da Matriz. À
minha frente, um canteiro de petúnias de várias cores e tons,
proporcionava um colorido diferente naquela noite tão especial.
A brisa da madrugada refrescava meu corpo sedento de
desejos, de um calor feminino.
De repente, minhas vistas se escureceram. Alguém havia
tapado meus olhos usando as mãos e inquiriu-me:
__ Adivinha quem é?
__ Sei lá! Não faço a mínima idéia.
__ Adivinha quem é? -- repetiu aquela voz feminina
irreconhecível.
Só poderia ser a tal admiradora secreta. Não titubeei e fui
direto ao assunto:
__ Você é uma poetisa?
__ Não -- respondeu, abruptamente, a estranha.
__ Pelo menos me dê uma dica para facilitar.
__ Deixa-me ver ... Ah! Adoro filmes de terror.
__ Então, só pode ser Bruna! -- exclamei confiante.
__ Acertou.
Olhei para trás e lá estava Bruna, sorridente, com aquele rosto
meigo, colorindo meu Natal de felicidade. Quem em menos
imaginava! Talvez estaria me precipitando. Precisava manter a
calma e procurar descobrir a verdade.
__ Como vai o Natal, Bruna?
__ Muito especial, Léo. A missa do Galo estava um esmero --
disse Bruna, retomando seu verdadeiro tom de voz.
__ Esmero é uma palavra muito romântica. Não sabia que
você gostava de versos -- insinuei, jogando verde para colher
maduro.
__ Versos? Isso é coisa de babaca. Odeio quando a
professora de Português pede para a gente fazer uma análise
profunda de algum poema, no intuito de sentir e visualizar os
sentimentos do autor, presente em cada palavra, verso e estrofe.
Isso tudo é tolice.
__ A poesia é tão peculiar para a vida humana.
__ Mais que a realização de nossos sonhos, garanto que não
-- admitiu Bruna, piamente.
__ A poesia é feita de sonhos. Nela podemos exprimir com
segurança os nossos sentimentos mais profundos.
__ Chega, Léo. Você me deixa irritada quando fala dessa
maneira. Tudo para você se resume em poesia, versos ... Que
chatice! Depois a gente conversa, tá -- despediu-se Bruna, numa
atitude infantil e incompreensível.
Ela foi embora e fiquei completamente só, absorto, recolhido
em meus pensamentos às avessas.
Devendo Explicações

__ O que o garoto está matutando? -- soou uma voz


conhecidíssima despertando-me.
__ Caramba! Quase morri de susto -- exclamei, aliviado.
__ Susto? -- admirou-se Carla.
__ Foi bom encontrá-la. Sente-se aqui ao meu lado. Você está
me devendo algumas explicações.
Sem rodeios, Carla sentou-se no banco, passou a mão em
meu rosto e proferiu maliciosamente:
__ Hoje você está lindinho, Léo. O quê o poeta está fazendo
aqui, sentado na companhia da noite e com os olhos pulsantes
direcionados para a lua cheia? Não venha com aquela história
medíocre de que está compondo mais um poema; pois, não sou
nenhuma idiota.
Aproveitei o embalo e, empolgado pelo elogio, desabafei:
__ Sou eu quem escreve carta anônima em tom e forma de
poesia?
__ Como? -- gelou-se Carla.
__ Confesse. Desde o primeiro momento sempre acreditei que
você sentia algo de diferente por mim. Agora tenho plena certeza
disso. Não adianta negar.
__ Léo, você ficou maluco? -- indagou-me Carla, saltando do
banco.
__ Ainda não. Mas vou acabar ficando.
__ Olhe pra mim. Adoro você. É uma pessoa imaculada.
Amigo melhor não existe em lugar algum. Também sempre
acreditei que a amizade não era seu único ideal. É difícil de
ressaltar, mas entre amigos verdadeiros deve existir apenas a
amizade. Nada além do limite da amizade.
__ Quer dizer, então, que você não me ama? -- insinuei,
entristecido.
__ Deixa de tolice, Léo. O amor que sinto por você é
verdadeiro. Você faz parte de minha vida, assim como também
faço parte da sua. Acredito que uma amizade sublime como a
nossa, não seja digna de namoro. Isso só poderia atrapalhar
nosso relacionamento. Entende?
__ Ouça, Carla. Não existe apenas amizade entre indivíduos
de sexos diferentes. É natural que haja uma atração física
difundida entre nós. Formamos pares: homem e mulher, macho e
fêmea.
__ Já que você acredita piamente nessa tese, Léo. Não queria
fazer isso, mas sou obrigada a lhe desejar um feliz Natal. Amanhã
a gente se fala no escritório, tá legal? -- finalizou Carla e foi-se
embora irritada.
Que noite! Por que será que todo mundo andava nervoso?
Onde estaria o espírito natalino que deixava as pessoas com o
coração derretendo-se de amor, paz e benevolência? Em vez das
coisas melhorarem, a cada minuto pioravam demasiadamente.

A Vilã de Meus Sonhos

Aquela ansiedade de encontrar a autora da carta tinha se


transformado numa atrocidade. Meu pensamento vagava no
abismo das trevas. Depois de tanto dar a face para bater,
renunciei ao espírito natalino e tomei uma decisão incoerente aos
meus sonhos.
Levantei-me entristecido do banco da praça e caminhei em
direção ao fundo da igreja. Nos bancos, escurecidos pelas
enormes copas das árvores, encadeava em suspiros, o âmago da
paixão. A inveja invadiu meu coração amargurado.
Era o fim do sonho de encontrar um grande amor naquele local
tão romântico e acolhedor. O pesadelo passou a ser o principal
personagem de meu sonho, a solidão consumia os últimos
fragmentos de esperança. Algo dentro de mim, arfante, vociferava
incansavelmente:
__ Não se deixe levar pela tristeza, Léo. Abra um sorriso que o
destino de sua vida está em suas mãos.
Contornei a igreja Matriz. À minha frente deparei-me com a
rua: era só atravessá-la e seguir em direção a minha residência.
Minha confortável cama aguardava ansiosamente pelo meu calor.
Parei.
Cabisbaixo, peguei meu pequeno piano de dez teclas e,
caminhando lenemente, compus uma melodia: dó, mi, sol, si, sol,
mi, dó / dó, ré, fá, lá, si, lá, fá, ré / dó, mi, sol, si, sol, mi, dó / dó,
ré, fá, lá, si, lá, fá, ré / dó, fá, ré, sol, mi, lá, fá / dó, fá, ré, sol, mi,
lá, fá ...
__ Achei!
Pela terceira vez naquela noite, por muito pouco não havia
morrido de susto. Suspirei fundo, retomando novamente o fôlego.
Uma nova porta se abriu no horizonte de meus sonhos e a
esperança renasceu triunfante. À minha frente, de uma forma
inexplicável, encontrava-se a vilã de meus sonhos: Daniela.
O que ela estaria fazendo ali, toda eufórica para me encontrar.
Sempre havia sonhado com aquele momento. Sentia na pele o
beliscar do amor.
Daniela, mais serena, não quis saber de conversa fiada, e
confessou:
__ Léo, desde o momento que o conheci, meu coração tirou o
sossego de minha alma. Esperei pela sua vinda esse tempo todo.
Da mesma forma que você vem sofrendo, também sofri. Apesar
da desconfiança, precisava de uma certeza e você nunca revelou
o amor que sentia por mim ...
__ Como, por exemplo, naquele dia da brincadeira de namoro
no escuro que você se recusou de me dar um beijo - atalhei,
lembrando-se daquele infeliz dia.
Subitamente, uma tímida lágrima escorreu dos olhos de
Daniela.
__ Peço perdão por tê-lo mal tratado, Léo. Sem se importar
com seus sentimentos. Mas o tempo foi passando, e a espera me
conduziu para outros horizontes. Caí na rede de outro amor e fui
presa por um novo coração. Dizem que o mundo é dos
espertos ...
__ Meus parabéns, Daniela. Agora que você arrumou um
namorado, vem com essa história medíocre. Pelo jeito, você tem
o prazer de ferir os sentimentos alheios. Gosta de saborear até a
última gota. Não é mesmo? -- repliquei com o coração partido ao
meio.
__ Pelo contrário, Léo. O que sinto por você é perene. Aprendi
muito amando alguém em pensamento, de longe, no olhar. Você
conquistou meus sentimentos, mas o destino achou melhor dessa
forma.
__ Destino? Deixe de ser medíocre, Daniela. O destino somos
nós mesmos quem o fazemos. Se você realmente me amasse,
nesse momento estaríamos juntos, colorindo o Natal de brio e
felicidade.
__ Pelo menos uma vez na vida, ouça-me Léo. Tenho você
dentro de meu coração como meu melhor amigo. Por favor,
acredite em mim. Menti para meu namorado, dizendo a ele que
estava com cólicas, só para poder vir aqui ajudá-lo. Nunca
arriscaria meu namoro a troco de vingança.
__ Não me faça rir, Daniela.
__ Léo, aprendi algo de bom com você, o qual levarei comigo
por toda minha vida: a humildade -- revelou Daniela, desandando
a chorar.
Aquela choradeira estava me irritando. Nervoso, olhei para a
lua cheia e acabei indagando em voz alta a mim mesmo:
__ Se não foi Bruna, nem Carla e muito menos Daniela. Então,
quem me enviou a carta anônima?
Daniela ouviu meu desabafo. Enxugou suas lágrimas, sorriu,
segurou carinhosamente em minhas mãos e revelou:
__ Léo, olhe bem em meus olhos. Veja como a vida é pura
magia. Eu sei quem enviou a carta anônima. Esse é o principal
motivo por que estou aqui.
Fiquei perplexo. Como ela sabia da existência daquela carta
anônima que eu recebera no final de novembro?

***
Parabéns por ter sobrevivido a essa louca e maluca história de
amor. Espero que tenha gostado e que eu possa ter lhe ajudado
de alguma forma a compreender parte desse maluco mundo
adolescente.
Antes, porém, que minha história termine - e espero que
termine com um final feliz. Quero agradecer a você que esteve
comigo todo esse tempo. Obrigado por ter reservado um pequeno
intervalo de sua vida para seguir meus passos. Pena, que não
posso cumprir a promessa da bala de caramelo. Toda vez que
você chupar uma bala de caramelo lembre-se de seu amigo Léo.
Gostei de sua companhia. Agora, tenho certeza de que ainda
existem pessoas sinceras, leais, amigas, companheiras, nas
quais podemos confiar e dialogar. Não somos apenas um
amontoado de letrinhas, somos seres humanos. É isto que estou
sentindo nesse momento: estou vivo e, apesar de fictício,
considero-me um ser humano.
Releia minhas poesias. Elas foram feitas carinhosamente para
você.
Obrigado por tudo. Gostaria de lhe pedir um último favor, se
possível. Peça ao escritor desta história para me desculpar das
injúrias, balelas e rancores dirigidos em desrespeito à pessoa
dele. Apesar de todo sofrimento, de toda angústia que passei, ele
é um bom camarada.

Revelações de Daniela

Mais tranqüilo e confiante nas palavras proferidas por Daniela,


criei coragem e inquiri:
__ Se não foi você quem enviou a carta, como você sabe da
existência dela?
__ Mulher sabe tudo, Léo. Cuidado com o faro atento das
mulheres!
Os meus olhos brilhavam de encanto. Com um sorriso no
rosto, admiti:
__ Você está perdoada, Daniela. É noite natalina e não há
pessoa melhor no mundo para me revelar esse cobiçado
presente de Natal.
__ Primeiramente, obrigada pelo perdão. Sinto-me mais leve.
A partir de agora, seremos grandes amigos. Promete, Léo?
__ Prometo -- confirmei, apertando fortemente a mão macia de
Daniela.
__ Na verdade, quem escreveu o contexto da carta, foi sua
amiga Carla. Estava mais do que na cara!
__ Eu tinha certeza de que o poema era de Carla. Tinha tudo a
ver com o estilo original dela -- interrompi, sorridente.
__ Calma, Léo. O melhor ainda está por vir. Prepare seu
coração, segure-o e não o deixe saltar pela boca.
__ Não precisa exagerar, né Daniela? Sou muito
compreensível.
__ Talvez, seja melhor não dizer o nome de sua admiradora
secreta, Léo. Nesse exato momento a sua outra metade
encontra-se em prantos, abandonada pela sorte, traída pela
timidez. Vi a pobrezinha naquela situação lastimável e não pensei
duas vezes.
__ Daniela, explique. Não complique -- implorei, roendo o que
sobrou de minhas unhas.
__ Tudo bem, Léo. É que às vezes me empolgo.
__ Ah!, sim. Entendo. Pode prosseguir, Dani.
__ Quero que você veja com seus próprios olhos. A pessoa de
seus sonhos está amuada, curtindo a solidão, encostada no
canto direito da escadaria da Matriz. Se fosse você, não perderia
mais tempo e correria agora, para libertá-la daquela tristeza toda.
Quando me preparava para partir, Daniela, gritou-me:
__ Léo, espere!
Permaneci estacado, sem movimento. Dos olhos de Daniela
reluzia o âmago do amor. Em seu semblante de pele macia
escorriam luzentes lágrimas. Como último suspiro, com o coração
apertado, desejou-me boa sorte:
__ Nunca se esqueça de mim, Léo. Isso que estou fazendo, é
por você.
Magicamente nossos lábios se tocaram, atraídos pela altivez
de nossos sentimentos. Foi o beijo do destino: a promessa
reportada para o futuro. Apesar de sermos cômpar, corpo e alma,
nossos caminhos eram diferentes, incompatíveis à vida real.
Daniela permaneceu em pé, sem sair do local do beijo; curtindo o
sonho por algum instante.

Acena Alegria

Segui meu destino, caminhando em direção à escadaria da


igreja Matriz. Se não era Daniela e muito menos Carla, só poderia
ser Bruna. Mas por que ela não havia revelado desde o primeiro
encontro? Talvez, pelo fato de ela ser mais tímida que eu.
Contornei a escadaria da Matriz. Bruna estava a sós,
debruçada sobre os degraus, de cabeça baixa, em prantos, da
forma que Daniela contou-me. Pisando nas pontas dos dedos
agachei-me por detrás dela e acariciei seus longos cabelos. Meu
coração queria saltar pela boca e palpitava a mil por hora.
Dosando carinho, com o corpo todo arrepiado, pronunciei
lenemente:
__ Eu ... a ... amo!
Bruna virou-se assustada. Quando ela visualizou meu rosto,
parecia não acreditar no que estava acontecendo. Em seu
semblante apareceu um imaculado sorriso, puro e cristalizado de
felicidade. Soluçante, Bruna desabafou:
__ Desculpe-me, Léo, por tudo. Apesar de ser um pouco
atrevida, por dentro sou acanhada. Também o amo. Mas como
você descobriu?
__ Isto é uma outra história, amorzinho! -- justifiquei-me,
abraçando-a como nunca.
Com os dedos, enxuguei as lágrimas de Bruna. Ela estava
felicíssima. Abracei Bruna como sempre sonhei fazer. Nossas
auras se fundiram, formando um só corpo, um só sentimento.
Era inexplicável como tudo aconteceu tão rapidamente. Os
sonhos haviam deixado o mundo da fantasia para adquirir vida no
mundo real. Ainda existem algumas pessoas que não acreditam
no amor. Só não crêem porque nunca tiveram a oportunidade de
provar do verdadeiro amor.
A noite natalina adquiriu novamente sua transparência, com
total fidelidade. Permanecemos agarradinhos, num só corpo, e
fomos nos sentar num dos bancos atrás da Matriz. O primeiro
beijo foi o início de um coquetel que atravessou a noite.
Cantamos a noite inteira, contamos piadas, histórias de terror ...
Embriagados de amor, houve um momento que Bruna
reformulou sua opinião a respeito do valor da poesia na vida
humana:
__ Léo, aquilo que falei sobre a poesia; confesso que foi da
boca para fora. A nossa vida é uma perene poesia. Ora
representada pela tristeza, ora recheada de alegria. Estava
pensando com os meus botões. Já que você é um poeta, poderia
muito bem ensinar a sua namorada a compor poemas.
Dei um sublime beijo na Bruna e proferi, sabiamente:
__ Isto é poesia? É só transformá-lo em palavras semeadas de
sentimentos e seu poema germinará como um lírio,
transbordando toda beleza e encanto.
__ O que você achou dessa estrofe? -- indagou Bruna,
pagando-me com a mesma moeda.
__ Acho que ela acena alegria!
__ Não diga que é mais um daqueles seus poemas
românticos?
Encostei a cabeça de Bruna em meu colo, acariciei seus
longos cabelos e consolidei:
__ Em prova do nosso amor, vou recitar o referido poema. Mas
é preciso que você permaneça com os olhos fechados. Preste
muita atenção
No momento que recitei o poema a Bruna, vi uma estrela
cadente caindo distante de meus olhos atentos, acenando
alegria, como se ela própria fosse personagem desta melodia:

O espírito acena alegria.


A alma vibra de esperança ...
A aurora é toda energia!

A pureza da vida ...


Da existência:
divina!

O amor move a Felicidade.


A Felicidade acena alegria ...
A alegria de nossa amizade!

A semente de luz ...


que conduz,
um novo amanhecer!

Em seus olhos reluz a magia.


O brilho sublime da vida ...
A vida acena alegria!

Alegria de viver ...


de ser,
de existir!

O espírito de aventura,
reencontra a Felicidade ...
É a vida num elo de ternura:
acena alegria, acena prosperidade!
Fim

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