Você está na página 1de 2

Gil Vicente veio à escola

Biografia

O meu nome é Gil Vicente e vivi em Portugal nos séculos XV – XVI, nasci em
meados do século XV e faleci no século seguinte em 1540. Aqueles que mais tarde
viriam a ocupar-se da minha vida – os meus biógrafos – viram-se em sérios embaraços
para sabê-lo, visto que não conseguiram obter documentos seguros a meu respeito.
De qualquer modo, vou, para que a minha apresentação seja mais completa,
dizer-vos que nasci em Portugal por volta de 1465, mas ninguém tem a certeza da data,
nem do local onde nasci, possivelmente em Guimarães, nem tão-pouco da minha
actividade antes de me tornar dramaturgo da corte, talvez ourives ou sapateiro. Mas, não
são estes os aspectos mais importantes da minha vida, por isso, não sou eu quem vos
dirá se é verdade ou mentira tudo quanto se escreveu sobre a data e o local do meu
nascimento, nem sobre a minha actividade profissional.
Afinal, se hoje sou conhecido, tal se deve à minha obra - o teatro - e não à minha
vida como pessoa.
Desde sempre o teatro esteve presente na vida do ser humano. Se pensarem no
vosso dia-a-dia, verão que representam muitas vezes, por exemplo quando imitam
alguém, quando fingem alguma coisa, quando querem agradar a alguém… Representar
faz parte da natureza humana.
O teatro terá surgido ligado a danças na Pré-História. Esta forma foi evoluindo
até que começaram a aparecer, por exemplo, na civilização greco-latina, textos
dramáticos já muito elaborados. Querem saber uma coisa interessante? Uma curiosidade
ligada ao teatro da época greco-latina diz respeito ao facto de os actores representarem
com máscaras. Esses actores, imaginem, eram os Hipócritas, ou seja, aqueles que
punham e tiravam a máscara. Esta palavra evoluiu semanticamente e, hoje, uma pessoa
hipócrita, como sabem, não é já um actor de teatro que usa uma máscara, mas alguém
que adopta na sua vida um princípio de falsidade, que usa muitas “máscaras”, no
sentido figurado da palavra.
Na Idade Média há também registo de vários textos dramáticos, mas todos
ligados a representações litúrgicas e religiosas. Essas composições eram feitas
sobretudo para celebrar momentos importantes, como o Natal e a Páscoa.
Em Portugal, o teatro teve um grande desenvolvimento, no século XVI, segundo
dizem, graças a mim.
É frequente designarem-me como sendo o “pai do teatro português”. Será
verdade? Terei sido, eu, o primeiro dramaturgo em Portugal?
Garcia de Resende, um escritor que viveu depois de mim, faz referência numa
das suas obras ao facto de eu ter sido a primeira pessoa a representar peças de teatro em
Portugal. Mas isto não significa que seja eu realmente o fundador do teatro português,
não acham? Provavelmente, e apesar de não haver documentos comprovativos, terão
existido manifestações teatrais anteriores, às quais eu fui certamente colher inspiração.
Muitos estudiosos consideram-me um grande dramaturgo, ou melhor um poeta-
dramaturgo. Dramaturgo por ser criador de teatro; e poeta porque a minha obra é escrita
em verso. E afirmam que, com as minhas obras, o teatro em Portugal ganhou uma nova
forma, um novo impulso.
A primeira peça que escrevi e encenei, em 1502, foi o Auto da Visitação, mais
conhecida por Monólogo do Vaqueiro. Esta peça foi feita para celebrar o nascimento do
príncipe D. João III e agradou muito à rainha D. Leonor, que se tornou minha
protectora.
Eu alcancei um grande prestígio dentro da corte, o que foi muito importante para
poder fazer as minhas sátiras à sociedade em que vivia sem ser castigado. Tornei-me
organizador das festas, preparando peças de teatro, sempre que havia algo de importante
a festejar. A minha última peça foi representada em 1536 e chamava-se Floresta de
Enganos: Como podem ver, estive ao serviço da corte cerca de trinta e cinco anos.
Muito tempo, hem?
Nas minhas obras critico a sociedade do meu tempo, pondo a descoberto muitos
dos vícios e hábitos das várias classes sociais. Por isso, muitos consideram a minha obra
como um espelho, porque reflecte fielmente a sociedade do século XVI.
Uma das características das minhas obras é o recurso a personagens-tipo. Não
façam essa cara, eu vou já explicar! As minhas personagens não são individuais, mas
representam sempre um grupo, uma classe social, uma profissão, e são uma síntese (um
resumo, estão a ver?) dos defeitos e virtudes desses grupos. Desta forma, eu satirizava
(criticava) a sociedade sem atacar directamente qualquer pessoa em particular. A
expressão latina “ridendo castigat mores”, que significa “é a rir que se castigam os
costumes”, foi o princípio que eu apliquei à minha sátira – através do cómico,
provocando o riso no público, eu denunciava os erros de cada classe social.
Agora vou despedir-me, gostei muito de conversar convosco, espero que leiam
algumas das minhas obras e que se divirtam tanto como eu me diverti a escrevê-las e a
representá-las. Ah! … Peçam aos vossos professores que vos levem ao teatro. Que tal o
Auto da Barca do Inferno! … Aposto que vão gostar! …

Prof. Maria Filomena Ruivo Ferreira Santos

Interesses relacionados