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Vozes Insurgentes: Panorama da Literatura Afro-brasileira1

Franciane Conceição Silva2

Sou uma pesquisadora que escolheu estudar a produção literária de escritoras negras e
escritores negros na Literatura Brasileira não como um mero exercício de análise, uma mera
pesquisa acadêmica, mas como um compromisso ético e político. Ressalto esse aspecto para
afirmar que sou uma estudiosa diretamente envolvida com os sujeitos e objetos de minha
pesquisa. Por isso, considero um exercício prazeroso e, ao mesmo tempo desafiador, atender a
proposta de fazer um panorama da literatura produzida por escritoras negras e escritores
negros no Brasil. No critério de seleção das autoras e autores que serão inseridos nesse
texto, considerei a relevância destes/as no processo de formação e consolidação da Literatura
Afro-brasileira.1

Escrevo na primeira pessoa do singular porque o meu texto está carregado de uma
subjetividade intrínseca a todo ser humano e não acredito em imparcialidade no discurso
crítico literário ou de qualquer outra área de conhecimento. A opção em redigir esse texto na
primeira pessoa é, assim, um reflexo do meu posicionamento como uma intelectual negra,
ativista de movimentos sociais, especialmente, o Movimento Negro. Uma pesquisadora que
busca romper com algumas imposições da academia, produzindo uma pesquisa que se
apresenta como um ato de protesto, uma manifestação política, tanto na forma como em seu
conteúdo.

1
Artigo publicado em Dezembro de 2018, no site Words without Borders: The Online Magazine for
International Literature. Link de acesso ao artigo na versão em inglês:
https://www.wordswithoutborders.org/article/december-2019-afro-brazilian-panorama-of-afro-
brazilian-literature-francy
2
Franciane Conceição Silva is a Brazilian literary critic and researcher. She earned her PhD in
Portuguese-language literatures from the Pontifical Catholic University of Minas Gerais (PUC Minas)
and a master’s in literary studies from the Federal University of Viçosa (UFV). In 2017, she was a
visiting researcher at the University of Lisbon. She is a member of the study group “Diasporic
Aesthetics” at PUC Minas and the Nucelus of Afro-Brazilian studies at UFV. Silva was recognized in
the Roll-Call of Black Intellectuals published at the Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). In
2016, she organized the anthology Literaturas Africanas: narrativas, identidades, diásporas (African
Literatures: narrative, identity,and diaspora). She is a member of the Latin American Studies
Association and the Brazilian Association of Black Researchers.
No Brasil, país que tem mais de 50% da população formada por pessoas negras2, a
literatura estudada dentro das escolas e universidades tem cor, sexo e classe social. É uma
literatura produzida, maioritariamente, por homens brancos, pertencentes a certa elite
econômica e intelectual3. O ensino de literatura no Brasil também é branco e embranquecido,
ou seja, um corpo docente formado em grande parte por professores/as brancos/as, na maioria
das vezes, pesquisa e ensina uma literatura produzida por escritores/as do mesmo perfil dos
pesquisadores/as. Os nomes que apresentarei ao longo desse texto são desconhecidos por
grande parte dos/das leitores/as e também dos/das pesquisadores/as brasileiros/as, que
costumeiramente supervalorizam os textos canônicos, em detrimento daqueles que
consideram marginais e/ou marginalizados. Este ensaio busca, portanto, contribuir para o
ecoar de vozes por muito tempo silenciadas. Vozes de corpos invisibilizados e subjugados por
força do racismo - tão presente nessa terra tropical - e que muitos/as, sobretudo os racistas,
ainda insistem em chamar de democracia racial. A reflexão de Débora Almeida, escritora,
atriz, professora e pesquisadora, nos ajuda a pensar sobre as discussões levantadas no decorrer
deste ensaio:

Será que queremos, simplesmente, ocupar os espaços ou queremos afirmar


uma identidade negra? Há um modo de falar negro, um modo negro de
combinar as palavras? Será que os conflitos de um personagem negro são os
mesmos de um personagem branco, índio ou japonês? Isso tudo tem a ver
com a questão sobre a identidade que queremos afirmar e o espaço político
que queremos ocupar. [...] Fazer literatura negra em um país como o Brasil é
fazer política. Por isso, quando escrevemos nossos textos e personagens,
temos que pensar em que tipo de espaço eu, negra e negro brasileiro,
reivindico com a minha fala, que espaço quero ocupar nessa sociedade
branca, racista, machista e elitista, dentro desse sistema capitalista?
(ALMEIDA, 2016, 133).

O caso Machado de Assis é um exemplo interessante para compreendermos, ao mesmo


tempo, um pouco da história da Literatura afro-brasileira e o funcionamento das relações
raciais no Brasil. Machado de Assis é considerado o maior escritor da Literatura Brasileira.
Assis nasceu no ano de 1839, no Morro do Livramento, estado do Rio de Janeiro. Autor de
poemas, contos, romances, peças de teatro, crônicas, críticas literárias, dentre outros, escreveu
as suas primeiras obras no período do Romantismo brasileiro, mas destacou-se no Realismo.
Machado de Assis é considerado o precursor do Movimento Realista no Brasil, através da
publicação do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Nesta narrativa original,
Assis nos apresenta um personagem-narrador já falecido, rememorando alguns
acontecimentos que marcaram a sua vida. A linguagem marcada por uma dose de sarcasmo e
ironia e a crítica ferrenha à sociedade em que vivia são marcas dos textos machadianos. Após
a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis lançou muitas outras
obras ficcionais, dentre elas, os romances Quincas Borbas, Esaú e Jacó, Memorial de Aires e
Dom Casmurro, certamente, um dos livros mais polêmicos do autor. Machado de Assim é
ainda o fundador da Academia Brasileira de Letras. Além de suas produções literárias já
canonizadas, destacamos dois aspectos relevantes ao falarmos da vida e obra de Machado de
Assis. Primeiro é que durante muito tempo negou-se o fato de Machado ser um homem negro.
As imagens dos livros didáticos representavam o autor como uma pessoa branca ou
embranquecida. Em 2011, a Caixa Econômica Federal, um dos maiores bancos brasileiros,
levou ao ar uma propaganda televisiva que apresentava ao telespectador um ator branco4,
interpretando Machado de Assis. Integrantes do Movimento Negro fizeram duras críticas ao
banco que, depois da polêmica, retratou-se publicamente, tirou a propaganda do ar e, após
alguns dias, exibiu uma nova propaganda em que Machado de Assis era representado por um
ator que tinha uma cor igual a do escritor, ou seja, um ator negro. O “equívoco” da Caixa
Econômica nos revela um dos tentáculos que sustentam o racismo: a incapacidade de enxergar
que as pessoas negras são capazes de produzir um trabalho intelectual. A incapacidade de nos
enxergar como agentes produtores de conhecimento. O país da tão famigerada democracia
racial tem dificuldades de aceitar que um dos seus maiores escritores era um homem negro5.
As relações raciais no Brasil, tema abordado por Machado de Assis em muitos de seus textos
ficcionais, será um tema recorrente na produção literária afro-brasileira, mesmo antes do
surgimento do autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Nesse contexto, a Literatura Afro-brasileira, desde a sua origem, assume o


compromisso de romper com o “processo de alienação racista,"6 processo muitas vezes
reforçado pelos textos literários produzidos por escritoras e escritores brancos, que em suas
obras reproduziam estereótipos negativos a respeito dos negros, representando-os, quase
sempre, como personagens desprovidos de inteligência. Esses personagens eram colocados
em posição de subalternidade em relação aos brancos, tendo como principal característica
uma sexualidade excessiva que beirava o animalesco, sobretudo, quando se tratava de
personagens femininas.

No ensaio “Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade” (2009), Conceição


Evaristo - importante escritora, poeta e intelectual afro-brasileira - reflete sobre o modo
negativo como as personagens negras foram (e ainda são representadas) em grande parte dos
textos produzidos por escritores/as brancos\as no Brasil. De acordo com a estudiosa:
A ficção [brasileira] ainda se ancora nas imagens de um passado escravo, em
que a mulher negra era considerada só como um corpo que cumpria as
funções de força de trabalho, de um corpo-procriação de novos corpos para
serem escravizados e/ou de um corpo-objeto de prazer do macho senhor. [...]
Percebe-se que a personagem feminina negra não aparece como musa,
heroína romântica ou mãe. Mata-se no discurso literário a prole da mulher
negra, não lhe conferindo nenhum papel no qual ela se afirme como centro
de uma descendência. (EVARISTO, 2009, p.23-24).

A literatura produzida por escritoras e escritores afro-brasileiros vai romper, como


afirma Cuti, com o processo de alienação racista, operado na maioria dos textos canonizados
que representam negativamente os sujeitos negros, especialmente as mulheres negras, como
ressaltado por Conceição Evaristo. O eco produzido nos textos dos autores/as negros/as, eco
que arrebenta a máscara do silêncio, ressoará de maneira potente nos textos de Maria Firmina
dos Reis e Luiz Gama. Considerados os precursores da Literatura afro-brasileira, Firmina e
Gama vão produzir textos nos quais deixam transparecer um posicionamento diferenciado
pela construção de um sujeito étnico-negro. No interior do texto, portanto, “percebe-se que o
ponto de emanação do discurso reivindica para si a identidade com os discriminados e não
com os discriminadores” (CUTI, 2010, p. 63).

No contexto de produção de sua época, Maria Firmina dos Reis surgiu como uma voz
potente. Em 1859, vinte e nove anos antes da assinatura da Lei Áurea, lei que supostamente
aboliu a escravatura do Brasil, Firmina dos Reis publicou o romance Úrsula. Esta obra é
considerada transgressora não apenas por ser escrita por uma mulher negra, ainda no período
escravocrata, no estado do Maranhão, Nordeste do Brasil. A transgressão da obra de Maria
Firmina dos Reis se dá, sobretudo, pelo audacioso enredo. Em Úrsula, a escritora constrói
personagens negros que mesmo não sendo protagonistas da história ganham destaque, pois a
subjetividade destes é delineada com profundez, “permitindo ao leitor não apenas ser levado
pela comiseração, mas também confrontar-se com o tolhimento da humanidade dos
escravizados” (CUTI, 2010, p. 80). No romance de Maria Firmina dos Reis, dentre os
personagens destacados, nos chama a atenção a velha Suzana. Durante a narrativa, Suzana
reflete sobre o martírio vivido pelos negros africanos, brutalmente arrancados de sua terra
para serem escravizados no Brasil:

Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava – pátria, esposo,


mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só
vós o pudeste avaliar!...

Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro


no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta
absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que
abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos
amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como
animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da
Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e
ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar,
de alimento e de água (REIS, 2017, p. 103).

No mesmo ano em que Maria Firmina dos Reis lançou o romance Úrsula, 1859, Luiz
Gama publicou Primeiras trovas burlescas de Getulino. Nesta obra poética, escrita no período
do Romantismo, fica demarcado o discurso crítico do poeta e jornalista à escravidão vigente.
Nos seus poemas, Luiz Gama “traça um lugar diferenciado de emanação do discurso e
demarca um ponto de subjetividade não apenas individual, mas coletivo” (CUTI, 2010, p. 66-
67). O autor foi um dos mais importantes abolicionistas de sua época, sendo um dos primeiros
negros brasileiros a lutar contra a ideologia do branqueamento da sociedade brasileira. Trago
o excerto de uma da carta escrita por Luiz Gama, endereçada a Lúcio de Mendonça, datada de
25 de Julho de 1880, que revela a força do discurso antirracista do escritor:

Em nós, até a cor é um defeito.


Um imperdoável mal de nascença,
o estigma de um crime.

Mas nossos críticos se esquecem


que essa cor, é a origem da riqueza
de milhares de ladrões que nos
insultam; que essa cor convencional
da escravidão tão semelhante
à da terra, abriga sob sua superfície
escura, vulcões, onde arde
o fogo sagrado da liberdade.

(GAMA, 1880).

A denúncia das agruras vivenciadas pelos negros no Brasil, inscrita nas linhas
insurgentes de Maria Firmina dos Reis e Luiz Gama, também se apresentará com
expressividade, ainda no século XIX, nos poemas de Cruz e Sousa. Considerado o poeta mais
importante do Simbolismo no Brasil, Cruz e Sousa chamou a atenção dos leitores e críticos
com a publicação da prosa-poética “Emparedado”, último texto do seu livro Evocações
(1898). No poema em questão, o eu-lírico “antevê que o progresso da população negra e sua
maior participação nas atividades até então destinadas apenas aos não negros (brancos e
mestiços) enfrentarão as “paredes” que se elevam para barrar-lhe a caminhada” (CUTI, 2010,
p. 69). Na concepção de muitos críticos literários, “Emparedado” é uma espécie de testamento
do escritor, um grito de dor e desespero contra o sistema de opressão racista que o
aprisionava. Destaco um trecho desta prosa-poética de Sousa que considero bem
representativo de sua produção:

Ah! Esta minúscula humanidade, torcida, enroscada, assaltando as almas


com a ferocidade de animais bravios, de garras aguçadas e dentes rijos de
carnívoro, é que não pode compreender-me.

[...]

O que tu podes, só, é agarrar com frenesi ou com ódio a minha Obra
dolorosa e solitária e lê-la e detestá-la e revirar-lhe as folhas, truncar-lhe as
páginas, enodoar-lhe a castidade branca dos períodos, profanar-lhe o
tabernáculo da linguagem, riscar, traçar, assinalar, cortar com dísticos
estigmatizantes, com labéus obscenos, com golpes fundos de blasfêmia as
violências da intensidade, dilacerar, enfim, toda a Obra, num ímpeto covarde
de impotência ou de angústia. (CRUZ E SOUSA, 1995, p. 669-670).

A denúncia do racismo, tema frequente nos textos críticos e literários dos autores afro-
brasileiros do século XIX, será uma temática recorrente na literatura produzida pelo escritor
Lima Barreto, no início do Século XX. Autor de textos ficcionais como romances e contos,
Lima Barreto também escreveu artigos e crônicas. Além do racismo, os textos publicados por
Barreto abordavam outros temas polêmicos, tais como: “corrupção na política, militares e a
violência contra civis, violência contra a mulher, ostentação social, parcialidade da imprensa,
literatos esnobes e hermetismo, feminismo, futebol e violência, depressão e loucura” (CUTI,
2011, p. 11). Dos temas apontados, o sofrimento provocado pelo racismo será constantemente
abordado na literatura produzida por Lima Barreto. Essa temática já anunciada em seu
primeiro romance Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), será apresentada com
maior vigor em sua obra mais famosa, o romance Clara dos Anjos7. Em estudo sobre a
literatura produzida por escritores negros brasileiros, nos séculos XIX e início do Século XX,
Cuti, escritor, poeta e pesquisador, concluiu que:

Para Luiz Gama e Cruz e Sousa e também Lima Barreto não interessava o
silêncio, o acobertamento completo de sua psique, porque o silêncio abafa e
impede a realização de uma das funções básicas da literatura: a catarse, e no
caso, a catarse do povo negro, que encontra também na literatura um
caminho aberto para reconhecer a si mesmo, por meio da purgação da
histórica humilhação sofrida e do expurgo de seus fantasmas criados pela
discriminação racial. (CUTI, 2010, p. 74-75).

Se no começo do Século XX, temos a voz ácida e contumaz de Lima Barreto, tocando
através dos seus textos literários ou jornalísticos na ferida aberta do racismo à brasileira, em
meados do Século XX, nos deparamos com a voz afiada da escritora Carolina Maria de Jesus,
voz fundamental para a divulgação das letras pretas fora do Brasil. Leitora voraz e escritora
compulsiva, Carolina tornou-se conhecida na década de 1960, com a publicação do seu livro
mais famoso Quarto de desejo: diário de uma favelada. Nesta obra, a autora que morava em
um barraco na Favela do Canindé, localizada na cidade de São Paulo- e que criava sozinha os
três filhos, trabalhando como catadora de papel - relata o cotidiano dos moradores da
Favela, denunciando a miséria, violência, vícios e doenças que acometiam a população do
local. No período em que foi publicado, Quarto de Despejo alcançou um estrondoso sucesso
no mercado editorial, sendo vendido mais de dez mil exemplares do livro, em uma semana,
apenas na cidade de São Paulo. Na ocasião, a obra foi traduzida em mais de vinte idiomas,
alcançando uma média de quarente países, da América Latina, Ásia e Europa. As reflexões da
autora são profundas, revelando a sua consciência social e política e sua faceta de intelectual,
inconformada com a desigualdade que separava os habitantes esquálidos do Canindé
dos moradores abastados que habitavam os bairros luxuosos da cidade de São Paulo. Em uma
das passagens do seu Diário, Carolina de Jesus explica porque considera a favela um “Quarto
de Despejo”:

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com
seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando
estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de
estar em um quarto de despejo. [...] Sou rebotalho. Estou no quarto de
despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo8.
(JESUS, 1995, p. 33).

Dentre os vários temas espinhosos abordados na obra de Carolina Maria de Jesus,


alguns aqui já apontados, a fome aparece de maneira insistente, como se fosse mais uma
personagem do livro. O excerto de Quarto de Despejo, em realce abaixo, aponta para a crítica
ácida feita pela autora para o grave problema social que atingia a sua família e a muitos outros
moradores da Favela:

13 de maio de 1958

Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da


Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos. [...] Eu tenho
tanta dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:

- Viva a mamãe!

A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos


depois eles querem mais comida [...]. Choveu, esfriou. É o inverno que
chega. E no inverno a gente come mais. A vera começou a pedir comida. E
eu não tinha. Era a reprise do espetáculo [...]. Era 9 horas da noite quando
comemos. E assim, no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura
atual – a fome! (JESUS, 1995, p. 27).

O diário de Carolina Maria de Jesus é um manifesto político contra as inúmeras formas


de opressões a que o povo favelado era submetido. A escritora tinha plena compreensão do
poder da palavra e dos seus escritos: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta
enfrenta a morte quando vê seu povo oprimido” (JESUS, 1995, p. 35). A escrita insatisfeita
Carolina de Jesus é feroz, mas cheia de poeticidade9. O fragmento destacado a seguir é um
exemplo do lirismo que brota mesmo na ferocidade dos escritos da autora: “A noite está
tépida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço
do céu para fazer um vestido (JESUS, 1995, p. 28).

Carolina Maria de Jesus escreveu e publicou outras obras além de Quarto de


Despejo10. Ela transitou habilmente entre a produção em verso e prosa, transitou entre os
mais diversos gêneros literários. A autora faleceu no ano de 1977, esquecida em uma
chácara, no interior de São Paulo. A sua trajetória é um percurso que se assemelha a de tantas
outras mulheres negras brasileiras, escritoras ou não. A história de Carolina Maria de Jesus11,
de certo modo, é uma síntese das desigualdades de gênero, raça e classe tão presentes na
sociedade brasileira.

A publicação da série Cadernos Negros, no ano de 1978, pode ser considerado como
um relevante marco para o processo de consolidação e divulgação da Literatura Afro-
brasileira.

Os Cadernos Negros surgiram em 1978, em meio a um clima social


efervescente, dentro do qual pontificavam greves e protestos estudantis. A
criação do MNUCDR (Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação
Racial, depois somente MNU) dava-se do lado do campo de batalha dos
setores progressistas, os quais contestavam o governo militar e exigiam
liberdades democráticas. Com a criação do MNU, a luta contra o preconceito
racial iria ser reequacionada. (RIBEIRO; BARBOSA, 2008, p. 11).

A proposta de publicação dos Cadernos Negros partiu dos escritores e militantes Cuti
(Luiz Silva) e Hugo Ferreira, responsável por sugerir o nome da coletânea. O primeiro
volume da obra reuniu textos poéticos de oito autores que dividiram os custos da publicação.
Em novembro de 1978, a primeira edição dos Cadernos foi apresentada ao público, numa
tiragem de mil exemplares. No ano de 1979 foi lançado o segundo volume dos Cadernos
Negros, mas em vez de poemas, a antologia reuniu contos de 12 autores (CUTI, 2010). Desde
então, os Cadernos Negros são publicados ininterruptamente, sempre revezando entre
coletâneas de contos e poemas. Em dezembro de 2017 foi lançado o quadragésimo volume da
coletânea.

Símbolo de resistência das letras pretas na Literatura Brasileira, os Cadernos Negros


foram agregando cada vez mais escritoras e escritores, revelando muitos talentos que tiveram
um primeiro contato com o público-leitor através dos textos publicados na Coletânea, até
conseguirem publicar suas obras individuais. A escritora Conceição Evaristo é, certamente,
um dos nomes de maior referência revelado pelos Cadernos. A autora nascida na cidade de
Belo Horizonte, estado de Minas Gerais, no ano de 1946, publicou os seus primeiros textos
nos Cadernos Negros aos 44 anos. De acordo com Cuti, idealizador da coletânea:

A série Cadernos Negros, iniciada em 1978, ganhou um novo sopro


identitário e um brilho especial de coragem e tratamento estético quando ela
[Conceição Evaristo] chegou, em 1990. No volume 13 da coletânea,
Conceição Evaristo fez desfilar em seis poemas os traços que seriam
indeléveis em sua produção posterior: o apelo à terra natal, a identidade
feminina, a ancestralidade, a esperança nas novas gerações, a memória como
reserva de resistência e o amor que se esmera no querer (CUTI, 2017).

Depois de publicar contos e poemas nos Cadernos Negros12, Conceição Evaristo


lançou os romances Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (2006). Em 2008,
lançou Poemas da recordação e outros movimentos, seu único livro de poesia publicado até
agora. Além dessas obras, Evaristo publicou três coletâneas de contos: Insubmissas lágrimas
de mulheres (2011), Olhos D´água (2015), Histórias de leves enganos e parecenças (2016).
Reconhecida pelos seus pares e conquistando um número cada vez maior de leitores,
Conceição Evaristo é, certamente, a autora negra mais celebrada (e estuada) no Brasil atual13.
De acordo com a pesquisadora Heloísa Toller Gomes, os textos literários de Evaristo:

Equilibram-se entre a afirmação e a negação, entre a denúncia e a celebração


da vida, entre o nascimento e a morte [...] Sem quaisquer idealizações, são
recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela
comunidade afro-brasileira (GOMES, 2016, p.236).

Além de escritora e poeta, Conceição Evaristo se destaca como ensaísta e


pesquisadora, tendo obtido o título de Doutora em Literatura Comparada pela Universidade
Federal Fluminense – UFF (2011). As suas obras vem sendo traduzidas em vários idiomas e
ganharam edições em países, tais como, Alemanha, Estados Unidos e França. Nos últimos
anos, Evaristo tem sido contemplada com inúmeras homenagens e premiações. Em 2015, com
a publicação do livro de contos Olhos D’água, Evaristo foi finalista do Prêmio Jabuti, o mais
importante da Literatura Brasileira. A voz branda e imponente de Conceição Evaristo tem
ecoado cada vez mais forte, ultrapassando paredes e muros, incomodando “os senhores da
casa-grande em seus sonhos injustos14”. Essa voz pode ser ouvida com potência em “Vozes-
Mulheres”, o poema mais celebrado de Conceição Evaristo. Este texto é considerado uma
espécie de “manifesto-síntese” da poética da autora mineira:

Vozes-Mulheres

A voz de minha bisavó


ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó


ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe


ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda


ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha


recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha


recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
(EVARISTO, 2008).

Evaristo nomeia os seus textos literários de Escrevivências. Este conceito relaciona-se


com o compromisso assumido por escritoras negras e escritores negros brasileiros de
escreverem os seus textos poéticos ou ficcionais, a partir das suas vivências e das experiências
da população negra em diáspora. O trecho de uma das entrevistas de Conceição Evaristo, que
segue abaixo, contribui para uma melhor compreensão do conceito Escrevivência:

Eu quero marcar o lugar da diferença na concepção dos meus textos. [...] Eu


concebo os meus textos a partir de minha condição de mulher negra. [...] A
minha ficcionalização nasce a partir do espaço onde os meus pés estão
fincados. E os meus pés estão fincados no lugar de mulher negra na
sociedade brasileira, no lugar de mulher pobre na sociedade brasileira.
(EVARISTO, 2017)15.

Essa necessidade de escrever sobre as vivências é uma maneira das autoras e dos
autores negros, marcadas por múltiplas violências, especialmente a racial, se fazerem ver e
ouvir. Pensar no conceito de escrevivência é pensar também na escrita como uma forma de
ativismo. A escrita politicamente comprometida de Conceição Evaristo é também
característica de todas/os as/os escritoras/es que vêm publicando nos Cadernos Negros, ao
longo dos últimos quarenta anos. Esse comprometimento foi assumido, em maior ou menor
grau, por todos os autores e autores da Literatura Afro-brasileira a que nos referimos no
decorrer deste ensaio, desde os seus precursores.

Destacamos a relevância dos Cadernos Negros para a divulgação inicial dos textos de
grande parte dos escritores afro-brasileiros contemporâneos, a coletânea é, certamente, a mais
importante, mas não é a única a revelar talentos na/da Literatura Negro-brasileira. Tem
surgido um número cada vez maior de pequenas editoras – Nandyala, Mazza, Pallas, Malê,
dentre outras-, dedicadas a publicação de escritoras negras e escritores negros, em obras
individuais ou coletivas, abrindo espaço para outras vozes também silenciadas como, por
exemplo, a de autores/as indígenas.

Como dito, nem todo/a autor/ negro/a brasileiro/a contemporâneo iniciou a carreira
publicando nos Cadernos Negros. Do mesmo modo, temos episódios (ainda isolados) é
importante ressaltar, de escritores/as afro-brasileiros/as que foram publicados em grandes
editoras brasileiras. É o caso de Ana Maria Gonçalves, autora do romance histórico Um
defeito de cor (2006), lançado pela Editora Record, uma das maiores do Brasil. A obra foi
vencedora do prestigioso prêmio Casa de las Américas (2007). O livro grandioso pela
quantidade de páginas: 952, resultado de uma minuciosa pesquisa de Gonçalves, é também
grandioso pelo conteúdo, pela narrativa pungente, que conta a história de Kehinde, uma velha
africana, numa saga de quase oitenta décadas, em busca do filho perdido. Fatos que marcaram
a história do Brasil se misturam com a história de Kehinde, ou melhor, a história de Kehinde
se mistura com a história do Brasil: escravidão, rebeliões, violências indizíveis, são
ingrediente narrados de maneira original por Ana Maria Gonçalves16.

Além dos textos literários que, na seleção aqui feita, destacam-se como obras de
grande relevância da Literatura Afro-brasileira, não posso deixar de mencionar o trabalho de
fôlego Literatura e Afro descendência no Brasil: antologia crítica (2011), organizado pelos
pesquisadores Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, e Maria
Nazareth Soares Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. A antologia
reúne quatro volumes espessos, construídos com a colaboração de 61 pesquisadores, de 21
universidades estrangeiras e 06 brasileiras, refletindo sobre a produção de 100 autores afro-
brasileiros, que publicaram em diferentes contextos e espaços, do século XVIII ao século
XXI.

A discussão sobre a Literatura Afro-brasileira nos leva a uma polêmica sempre em


voga entre as estudiosas e os estudiosos desta produção literária. Alguns críticos defendem
que só pode ser considerada Literatura Afro-brasileira aquela produzida por pessoas negras;
outros defendem que a cor da pele do autor não é fator determinante para definir se o texto
produzido é afro-brasileiro ou não, devendo-se considerar o conteúdo, a linguagem, a
perspectiva, dentre outros aspectos. Nesse contexto, muitos defendem que se um autor branco
mostrar empatia pelas pessoas negras e produzir um texto em que os personagens negros
passem pelos dilemas já abordados neste ensaio, poderíamos considerar esse texto como
pertencente à Literatura afro-brasileira. Nessa polêmica do que pode ou não ser considerada
Literatura Afro-brasileira, concordo com o posicionamento de Cuti, quando ele afirma,
categoricamente, que a Literatura Afro-brasileira, ou como ele prefere, a Literatura Negro-
brasileira tem que ser necessariamente produzida por pessoas negras. Na concepção de Cuti:

Uma das formas que o autor negro-brasileiro emprega em seus textos para
romper com o preconceito existente na produção textual de autores brancos é
fazer do próprio preconceito e da discriminação racial temas de suas obras,
apontando-lhes as contradições e as consequências. Ao realizar tal tarefa,
demarca o ponto diferenciado de emanação do discurso, o “lugar” de onde
fala. (CUTI, 2010, p. 25).

O pesquisador ainda ressalta:

O ponto nevrálgico é o racismo e seus significados no tocante à


manifestação das subjetividades negra, mestiça e branca. Quais as
experiências vividas, que sentimentos nutrem as pessoas, que fantasias, que
vivências, que reações enfim são experimentadas por elas diante das
consequências da discriminação racial e da presença psíquica, o preconceito?
Esse é o ponto! (CUTI, 2010, p. 39).

A perspectiva, os temas, a linguagem, a construção dos cenários onde estão inseridos


os personagens, dentre muitos outros aspectos, vão dizer desta dicção diferenciada dos/das
autores/as afro-brasileiros/as ao abordarem temáticas, muitas vezes, já trabalhadas pela
literatura canônica17. Quando escritores/as afro-brasileiros/as contam, por exemplo, a história
de uma personagem negra violentada pelo racismo, eles/as estão falando de um tema que lhes
é muito familiar. Mesmo que não tenham sido vítimas da violência que encenam, estes são
marcados/as pelas memórias do racismo, devido ao contexto no qual foram socializados/as.
De tal modo, quando os autores afro-brasileiros encenam em seus textos o sofrimento causado
pela violência racista, mesmo quando a dor parece individual, ela é compartilhada por um
coletivo que sofre com a mesma ferida. Ao falar sobre essa encenação da realidade a partir de
“proximidades vivencias”, a escritora Miriam Alves18 assim se manifesta:

Eu acho que o tratamento literário que dou às minhas protagonistas [...] é


existencialista, não como um diálogo interno fechado, e sim como um
diálogo com a realidade existencial. Quase sempre, o drama da narrativa
procura esclarecer como as personagens negras resolvem uma ação na trama
e enfatizar que, para solucionar os problemas, são forçadas a refletir sobre a
existência cotidiana e básica. Elas têm que tomar uma atitude, escolher uma
direção qualquer. Todas elas são negras porque estou falando de uma
proximidade vivencial; mesmo se eu escolher ambientar a história como
ficção científica que se passe em Marte, estarei, com certeza, construindo
essa ficção a partir das proximidades vivenciais e informativas. (ALVES,
2016, 178).

Ao falarmos da produção literária dessas escritoras e escritores afro-brasileiros,


estamos nos referindo, inevitavelmente, a uma autoria negra. Cuti, Conceição Evaristo,
Miriam Alves, Cristiane Sobral e grande parte dos escritores e das escritoras que publicaram e
publicam nos Cadernos Negros reivindicam este lugar de fala, reafirmando a importância de
se autodenominarem como escritores/as negras/os brasileiros/as, assumindo essa postura
como um ato político. Esses/as escritores/as reivindicam também o lugar de intelectuais,
questionando o espaço de subordinação historicamente pré-estabelecido para as pessoas
negras no Brasil. Dessa forma, pensar numa autoria negra em solo brasileiro é refletir também
sobre as estratégias que os/as escritores/as utilizam para inscreverem a sua produção dentro de
um espaço de enunciação diferenciada:
O surgimento da personagem, do autor e do leitor negros trouxe para a
literatura brasileira questões atinentes à sua própria formação, como a
incorporação dos elementos culturais de origem africana no que diz respeito
a temas e formas, traços de uma subjetividade coletiva fundamentados no
sujeito étnico do discurso, mudanças de paradigmas crítico-literário, noções
classificatórias e conceituação das obras de poesia e ficção. (CUTI, 2010, p.
11).

No decorrer deste ensaio, busquei traçar um breve percurso de algumas obras e alguns
autores e autoras que constroem a Literatura Negro-brasileira, para alguns, Literatura Afro-
brasileira, para outros19. Acredito que é importante discutir as terminologias porque elas são
criadas para atender aos interesses e objetivos específicos de determinado grupo, mas, neste
ensaio, prefiro evitar a discussão polêmica em torno desses conceitos. Por uma escolha
pessoal, utilizo os termos Literatura Negro-brasileira e Literatura Afro-brasileira como
sinônimos, plenamente consciente de que não existem sinônimos perfeitos.

A Literatura Negro-brasileira e/ou Literatura Afro-brasileira compõe o grande mosaico


que é a Literatura Brasileira. É a parte de um todo. Uma parte que, ainda hoje, é
invisibilizada, marginalizada, subjugada. A produção literária de escritoras negras e escritores
negros no Brasil, a despeito de todos os obstáculos impostos, brota resistente em meio ao
concreto-asfáltico. A Literatura Afro-brasileira ocupa cada vez mais espaço, destruindo
silêncios ensurdecedores, escurecendo as páginas brancas de uma história anêmica. A
Literatura Negro-brasileira apresenta as perspectivas daquelas e daqueles, outrora silenciados
(as), mas que já não se conformam com a versão de uma história única.

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1. Certamente, a seleção feita não agradará a todos/as, que considerarão injusto a inclusão de alguns
nomes bem como a ausência de outros.↩

2. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 24


novembro de 2017, 54% dos brasileiros se autodeclaram negros.↩

3. O livro Literatura Brasileira Contemporânea: um território contestado (2012), da pesquisadora


Regina Dalscatagnè, revela dados impactantes sobre a literatura brasileira publicada nas grandes
editoras. Depois de analisar 258 romances, publicados entre os anos de 1990 e 2004, pelas principais
editoras do Brasil, Regina Dalcastagnè concluiu que quase três quartos dos romances estudados
(72,7%) foram escritos por homens; 93,9% são brancos. O protagonismo das narrativas é também
assumido, quase sempre, por um homem branco, representado como artista ou jornalista, os poucos
personagens negros que surgem (quando surgem) são apresentado, quase sempre, como bandidos.↩
4. https://exame.abril.com.br/marketing/caixa-suspende-comercial-com-machado-de-assis-
branco. https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/machado-de-assis-negro-na-propaganda-da-
caixa-finalmente.html.↩

5. A antologia Machado de Assis Afrodescendente: escritos de caramujo (2007), organizada pelo


professor Eduardo de Assis Duarte, apresenta posicionamentos de Machado de Assis sobre a
escravidão e as relações raciais do Brasil do século XIX.↩

6. Expressão utilizada por Cuti no seu livro Literatura negro-brasileira(2010).↩

7. O romance Clara dos Anjos foi concluído por Lima Barreto em 1922, ano do falecimento do
escritor, sendo publicado postumamente em 1948.↩

8. O texto foi publicado respeitando a grafia original dos diários de Carolina Maria de Jesus. O que
alguns consideram erro ortográfico, entendemos como estilística da autora.↩

9. Em minha tese de doutorado Corpos dilacerados: a violência em contos de escritoras africanas e


afro-brasileiras (2018), criei o conceito Ferocidade Poética. Um conceito que se aplica ao modo
singular como algumas escritoras afro-brasileiras encenam a violência em suas narrativas.↩

10. Além de Quarto de despejo, Carolina publicou as seguintes obras: Casa de Alvenaria, Pedaços de
Fome, Provérbios, livros que tiveram pouca ou nenhuma visibilidade. Depois da sua morte,
pesquisadores encontraram uma infinidade de textos inéditos escritos por Carolina. É uma média de
cinco mil páginas, com textos literários dos mais diferentes gêneros, reunidas em 58 cadernos. Das
obras póstumas da autora, destacamos os seguintes títulos: Diário de Bitita (1986), Meu Estranho
Diário (1996), Onde estaes felicidade?(2014), Meu sonho é escrever(2018).↩

11. A publicação mais recente e, podemos dizer, a mais completa sobre a vida e obra de Carolina
Maria de Jesus, foi lançada em março de 2018, pelo jornalista Tom Farias, intitulado Carolina: uma
biografia.↩

12. Ao longo de sua trajetória nos Cadernos Negros, Conceição Evaristo publicou 28 poemas e 11
contos, saídos em 13 volumes da antologia, no período de 1990 a 2011.↩

13. Em entrevista recente, Conceição Evaristo falou sobre as engrenagens do racismo à brasileira e
disse da necessidade de questionar as regras que a fizeram ser reconhecida somente aos 71 anos de
idade. A entrevista completa pode ser encontrada neste link: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-
43324948.↩

14. “Da grafia-desenho de minha mãe um dos lugares de nascimento de minha escrita”, texto
ensaístico de Conceição Evaristo que pode ser acessado neste
link: http://nossaescrevivencia.blogspot.com/2012/08/da-grafia-desenho-de-minha-mae-um-
dos.html.↩

15. Entrevista: O ponto de partida da escrita – Ocupação Conceição Evaristo 2017. Itaú Cultural.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3CWDQvX7rno. Acesso em 10 fev. 2018.↩

16. Depois de mais de dez anos do lançamento de Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves lançará
brevemente o livro Quem é Josenildo? Uma mistura de romance policial e ficção científica.↩

17. O pensamento da estudiosa Luísa Lobo apresenta-se em conformidade com o ponto de vista de
Cuti: “Poderíamos definir literatura afro-brasileira como a produção literária de afrodescendentes que
se assumem ideologicamente como tal, utilizando um sujeito de enunciação próprio. Portanto, ela se
distinguiria, de imediato, da produção literária de autores brancos a respeito do negro, seja enquanto
objeto, seja enquanto tema ou personagem estereotipado (folclore, exotismo, regionalismo)” (Luísa
Lobo 2007, p. 315).↩

18. Miriam Alves nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1952. Publica nos Cadernos Negros desde
o ano de 1982, sendo uma das primeiras mulheres a ter os seus textos inseridos na série. É autora dos
livros: Momentos de Busca (1983) e Estrelas nos Dedos (1985), coletâneas de poemas. Mulher
Matr(i)z (2011), coletânea de contos, além do romance Bará na trilha do vento (2015).↩

19. A pesquisadora Maria Nazareth Soares Fonseca busca amenizar a polêmica a respeito do que seria
Literatura Negra ou Literatura Afro-brasileira, trazendo a seguinte definição: Literatura Negra:
resignificação do termo negro, que historicamente em nossa sociedade se configurou como termo
negativo; Literatura Afro-brasileira: fortalece a ideia da criação literária dos negros com a matriz
africana; Literatura afrodescendente: duplo movimento – constituição de uma visão vinculada às
matrizes africanas e busca por traduzir as mutações inevitáveis que essas heranças sofreram na
diáspora (FONSECA, 2006, P.24).

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