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ISSN 1516-0688

Proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por qualquer meio e sistema
bem como o compartilhamento do mesmo com outras pessoas por tratar-se
de obra particular, com direitos autorais reservado à Editora e aos autores.
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direitos autorais: lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

Organização

José Henrique Volpi


Sandra Mara Volpi

1
Psicologia Corporal
Copyright  2005 by Centro Reichiano

Foto da capa: Matisse (1869-1954) - Dance, 1910


Revisão técnica: José Henrique Volpi e Sandra Mara Volpi
Tradução: Karin Sylvia Graeml

Proibida a reprodução total ou parcial


deste livro, por qualquer meio e sistema,
sem o prévio consentimento da editora.

Psicologia corporal / Organização José Henrique Volpi e


Sandra Mara Volpi . - Curitiba: Centro Reichiano, 2005.
(Revista Psicologia Corporal, vol. 6)

Vários colaboradores

ISSN 1516-0688

1. Orgonomia. 2. Bioenergética. 3. Psicoterapia. I.


Centro Reichiano de Psicoterapia Corporal. II. Título

Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e


não expressam necessariamente a opinião da Revista. As normas para
publicação de artigos encontram-se em nosso site.

Revista Indexada:
Biblioteca Central da PUC/PR
Index Psi

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Curitiba/PR - Telefax: (41) 263-4895
Homepage: www.centroreichiano.com.br
E.mail: centroreichiano@centroreichiano.com.br
2
SUMÁRIO

EDITORIAL ........................................................................................05

Sexualidade: desde Reich até hoje / Sexuality: from Reich until today /
Alexander Lowen ................................................................................07

Psicoecologia / Psicho ecology / José Henrique Volpi ...........................13

A correspondência Malinowski-Reich / Matching Malinowski to Reich /


Carlos Liendro ...................................................................................25

A construção para o amor / The construction for love / Flavio Roberto de


Carvalho Santos .................................................................................32

O estado da arte do amor / Love’s state of the art / Angélica Góis Morales
e Maria da Salete Sachweh .................................................................42

Auto-regulação: um conceito para a educação da criança na família e na


escola / Self-regulation: a concept for the education of children within the
family and at school / Leonardo José Jeber............................................53

Da superfície à essência: o caminho da verdadeira revolução / From surface


to the essence: the path to the true revolution / Rafael Pozzobon
Campagnolo ......................................................................................58

É chegada a luz / The birth’s arrival / Eliane Biancolini ....................... 65

A ética, a moral, os valores e o uso exagerado da internet / Ethic, moral,


values and the exaggerated use of the internet / Karin Sylvia Graeml e
José Henrique Volpi ........................................................................ 70

3
Contribuições de Reich para a educação / Reich’s contributions to
education / Carla Stefan ................................................................. 80

A modernidade e os conflitos sócio-psico-ambientais / Modernity and the


social-psycho-environmental conflicts / José Henrique Volpi ............ 86

Reflexões sobre o conceito de auto-estima a partir da perspectiva de


Wilhelm Reich / Reflections on the concept of self-esteem from reich’s
perspective / Heloisa Lescano Guerra .............................................. 93

A influência do canto no autodesenvolvimento / The influence of singing


in one’s self-development / Luciana Elisa Hoerner .......................... 100

Respiração, práticas corporais e equilíbrio psicofísico / Breath, corporal


practices and psychophysical balance / Maria Zélia Nicolodi ........... 106

A prática da vegetoterapia caracteroanalítica / Characteranalytics


vegetotherapy practices /
José Henrique Volpi e Maria Beatriz de Paula / ....................................112

Sexualidade do adolescente em 2004 / Teenagers’ sexuality 2004 /


José Henrique Volpi, Sandra Volpi e Marlize Spagolla Bernardelli ...........118

Profissionais e Instituições de Terapia e Psicoterapia Corporal - Ano de


Referência 2004 ............................................................................ 124

4
EDITORIAL

É na passagem de 2004 para 2005 que o Centro Reichiano prepara


mais um volume da revista Psicologia Corporal.
E é também nesta virada que os olhos do mundo se voltam, mais
uma vez, para uma triste notícia. Desta vez, sem a influência de nenhum
grupo terrorista conhecido, sem nenhuma guerra declarada entre inimigos
políticos, o horror teve sua gênese na própria natureza: ondas gigantes
provocadas por um maremoto na costa asiática apenas um dia depois do
Natal, dizimaram a população de ilhas, vilas e cidades inteiras. Mortes e
sofrimento em proporções também gigantescas, de cidadãos de todo o
mundo, disparam em imagens a todo o momento, em nossa era da
informação quase imediata. Mal o Novo Ano, em geral tão comemorado,
se inicia, e os sobreviventes desta tragédia lutam contra doenças e falta
de alimentos e remédios. Além da dor da perda de parentes e do choque
em ver suas casas destruídas, mais de um milhão de pessoas precisam
agora, mais do que em qualquer outra época, da solidariedade de um
mundo inteiro.
Belo desafio para um novo ano, não?
Solidariedade... tão falada e tão pouco praticada...
Tornar-se solidário talvez seja uma tarefa muito mais árdua para
a raça humana do que reconstruir cidades inteiras, uma vez que a vida, o
amor e o prazer têm sido reprimidos há séculos.
Sentir compaixão – e não “pena” –, tornando-nos capazes de nos
colocar inteiramente no lugar do outro, com suas semelhanças e diferenças
em relação a nós próprios, e “amá-lo como a nós mesmos” é a empreitada
que nos foi proposta desde o nosso passado e que agora, mais uma vez,
impõe-se em nosso futuro.
Reich acreditou, durante toda a sua vida, e deixou isso claro em
todos os seus escritos, numa mudança do ser humano que cresceria em
proporções geométricas, criando a consciência do vivo, em nós e em
tudo que nos cerca.
Tal consciência, sem dúvida, pode nos levar a ultrapassar fronteiras

5
que há milhares de anos têm criado preconceitos de todos os tipos,
reprimindo no humano o que há de mais precioso: a própria humanidade.
A humanidade de que falamos não se reduz a fornecer provisões e dinheiro
quando uma tragédia como o maremoto ocorrido há dias atrás atinge
parte da população mundial, mas está nos mínimos gestos do dia a dia,
na gentileza sincera e verdadeira entre pessoas, na possibilidade de ouvir
além de falar, de dar além de receber, de respeitar a natureza...
E é por acreditar também nessa possibilidade, que o empenho
de terapeutas, educadores, psicoterapeutas, que traduzem suas idéias,
práticas e contribuições em palavras, que se transformam em belos textos,
estão reunidos nesta revista, em mais uma edição organizada pelo Centro
Reichiano.
A todos os nossos leitores e colaboradores, desejamos um ano
novo de paz, solidariedade e crescimento.
Que em 2005, nas palavras de Drummond, possamos
compreender que “Para ganhar um ano novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem que merecê-lo, tem que fazê-lo novo; eu sei que não
é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano
Novo cochila e espera desde sempre.”
Boa leitura!

Verão de 2005

Sandra Mara Volpi e José Henrique Volpi

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SEXUALIDADE:
DESDE REICH ATÉ HOJE
SEXUALITY:
FROM REICH UNTIL TODAY
Alexander Lowen

Resumo
Nesse artigo Alexander Lowen nos fala de seu primeiro encontro e do
ceticismo que a princípio teve ao discurso de Reich sobre a base sexual
de todas as neuroses e do tempo que precisou para se convencer que
Reich estava certo em enfocar a questão sexual alegando que se uma
pessoa fosse capaz de total satisfação sexual, não poderia ser neurótica.
Tomando por base sua própria terapia com Reich, Lowen passou a
questionar que o reflexo orgástico na situação de terapia não é garantia
de que a pessoa será orgasticamente potente no ato sexual. Potência
orgástica no sentido do termo reichiano permanece um critério válido de
saúde emocional, mas quase ninguém é orgasticamente potente na nossa
cultura, porque esta cultura não promove saúde e sim doença. Um indivíduo
pode experimentar uma resposta orgástica plena, mas isto poderá ser
um fenômeno isolado e não ter efeito sobre a sua saúde ou personalidade.
Portanto, nós não podemos tornar a potência orgástica ou a experiência
orgástica plena, o objetivo da terapia.
Palavras chave: Lowen, Potência orgástica, Reich, Sexualidade

Abstract
In This paper Alexander Lowen explains his first contact with Reich’s
ideas and the skepticism about Reich’s argumentation about the sexual
grounds for all the neuroses. He also mentions the time that he needed
to be convinced that Reich was right about focusing on the sexual matter,
arguing that if someone was able to have thorough sexual satisfaction,
such person could not be neurotic. Based on his own therapy session
with Reich, Lowen started to wonder about the orgasmic reflection in the
therapy situation, questioning if it represented a guarantee that the per-
son would be orgasmic potent in the sexual intercourse. Orgasmic power,
according to Reich’s view, is a valid criterion to evaluate emotional health.
However, almost nobody is orgasmic potent in our culture, because it
does not promote health, but sickness. A person may experience a thor-
ough orgasmic response, but that may be an isolated phenomenon, hav-
ing no effect over his/her health or personality. Therefore, we should not
consider the achievement of orgasmic power or a thorough orgasmic ex-
perience as the objective of the therapy.
Keywords: Lowen, Orgasmic power, Reich, Sexuality

7
A Análise Bioenergética é uma extensão do trabalho de Wilhelm
Reich, que foi meu professor e terapeuta. Eu conheci Reich em 1940,
quando freqüentei um curso que ele deu na New School for Social Research
em New York City, sobre “Análise do Caráter”, a relação corpo-mente. Eu
estava muito interessado naquele tópico e tinha começado eu mesmo a
escrever sobre isto num livro de exercícios.
Na primeira sessão fiquei impressionado com a discussão de
Reich sobre histeria. Ele assinalou que enquanto Freud mostrou que o
sintoma histérico era resultado da repressão de um trauma sexual que
havia ocorrido na infância, deixou de explicar porque o sintoma poderia
aparecer quinze ou vinte anos após o incidente traumático. Que fatores,
perguntou Reich, determinavam quando o sintoma se mostraria? Eu fiquei
impressionado com esta observação, a qual, até onde eu soubesse,
ninguém havia feito. Entretanto, eu permaneci cético em relação à ênfase
de Reich sobre a base sexual de todas as neuroses. Mais tarde no curso,
aquele ceticismo desapareceu e convenci-me de que Reich estava certo
em enfocar a questão sexual. Sua tese era que se uma pessoa fosse
capaz de total satisfação sexual, não poderia ser neurótica. Ele
argumentava que desde que o orgasmo sexual operava para descarregar
o excesso de energia do organismo, não poderia haver energia alguma
disponível para manter os sintomas neuróticos. Por esta lógica, qualquer
paciente que desenvolvesse potência orgástica se tornaria livre de sintomas
ou traços neuróticos. Essas idéias e seu embasamento foram primeiro
publicadas na Alemanha sob o título “Das Function der Orgasmus”. Uma
edição deste livro apareceu em inglês em 1942, sob o título “The Function
of the Orgasm”.
Estas idéias não foram aceitas pelos psicanalistas. Eles
contestavam que muitos dos seus pacientes neuróticos tinham orgasmos.
Reich refutava este argumento dizendo que uma ejaculação ou descarga
não era um orgasmo no sentido que ele próprio atribuía à palavra. Ele
considerava a maioria dos assim chamados orgasmos, como sendo
respostas incompletas ou parciais.
Em abril de 1942 eu entrei em terapia com Reich. Sua terapia era
chamada vegetoterapia caratero-analítica. O foco principal era entregar-
se ao processo vegetativo do corpo, especialmente a respiração. Se a
respiração de alguém pudesse ocorrer livre de restrição consciente ou
inconsciente, uma onda poderia passar através do corpo movendo a pélvis
para frente e para trás. Este movimento involuntário também ocorria no
clímax sexual e constituía um orgasmo verdadeiro. Quando o mesmo
movimento pélvico espontâneo ocorria durante a sessão de terapia, Reich
o denominava um reflexo orgástico. Isto poderia então indicar que o
paciente estava livre da sua estrutura de caráter neurótica. A análise do

8
caráter enfocava a atitude ou comportamento neurótico do paciente, como
ele era manifestado no ou durante o processo terapêutico. Reich descreveu
esta abordagem no livro Análise do Caráter, que foi muito aplaudido pelos
psicanalistas quando apareceu pela primeira vez na Alemanha, em 1927.
Estive em terapia com Reich de 1942 a 1945, com um ano de
intervalo de julho de 1944 a setembro de 1945. As sessões ocorriam três
vezes por semana, exceto de setembro a dezembro de 1945, quando fui
somente uma vez por semana. Minha terapia se encerrou em 1945 quando
o reflexo orgástico se desenvolveu regularmente durante minhas sessões.
Aquele desenvolvimento aparentemente significava que eu não era mais
um indivíduo neurótico.
Em 1945 eu comecei a atender pacientes como um terapeuta
reichiano. Duas das pessoas que eu acompanhei em 1946 contaram-me
uma estória incomum. Eles tinham estado em terapia com Reich e em
poucos meses tinham alcançado o ponto onde o reflexo orgástico emergiu
em suas terapias. Reich então os liberou como curados. Infelizmente isto
não se fixou e quando seus velhos problemas retornaram, eles me
consultaram. Nesta época eu já tinha percebido que eu não estava
absolutamente curado. Eu ainda tinha muitos problemas, incluindo muitos
problemas sexuais. Estava claro que Reich tinha alcançado seus
resultados muito em função do poder da sua personalidade. Quando
retornei da Suíça com minha graduação em Medicina, eu sabia que tinha
que trabalhar mais comigo mesmo, tanto física quanto psicologicamente.
A terapia com Reich me ajudou muito, mas eu não tinha ido fundo o
bastante. Reich não tinha feito análise o suficiente – na verdade, muito
pouca – e não tinha feito trabalho corporal o suficiente. Eu desenvolvi a
análise bioenergética para tornar a terapia reichiana mais efetiva. Isto
forçou algumas mudanças nas conceitualizações de Reich acerca da
sexualidade.
O reflexo orgástico na situação de terapia não é garantia de que
a pessoa será orgasticamente potente no ato sexual. As duas situações
diferem enormemente. A intensidade emocional ou carga sexual no
relacionamento sexual é muito maior do que quando alguém está com
um terapeuta que é uma figura que dá suporte. Portanto, alguém pode se
entregar a seu corpo na situação terapêutica, mas ficar assustado quando
está na situação altamente carregada de um relacionamento sexual.
Potência orgástica no sentido do termo reichiano permanece um critério
válido de saúde emocional, mas quase ninguém é orgasticamente potente
na nossa cultura, porque esta cultura não promove saúde e sim doença.
Um indivíduo pode experimentar uma resposta orgástica plena, mas isto
poderá ser um fenômeno isolado e não ter efeito sobre a sua saúde ou
personalidade. Portanto, nós não podemos tornar a potência orgástica ou

9
a experiência orgástica plena, o objetivo da terapia. Um escalador de
montanha que mantém seus olhos fixos no pico cairá numa fenda mortal.
O objetivo da terapia deve ser o desenvolvimento de uma
personalidade madura, saudável. A questão, então, torna-se: O que é
uma personalidade saudável, madura e como esta se conecta com a
sexualidade? Reich estabeleceu uma distinção entre impulso sexual
primário e secundário, os quais também estavam relacionados à
personalidade. O impulso sexual primário era uma expressão de amor; o
impulso sexual secundário usava o parceiro sexual e era uma expressão
da neurose. Personalidades saudáveis são indivíduos amorosos, enquanto
o indivíduo neurótico é egoísta e insensível ou hostil. Esta distinção foi
descrita na edição inglesa da Função do Orgasmo.
Na prática eu tenho encontrado dificuldades para classificar
indivíduos como saudáveis ou neuróticos. Desde que ninguém é
completamente saudável, ninguém é também completamente neurótico.
Saúde e doença são fatores quantitativos. Isto significa que realisticamente
o objetivo da terapia é ajudar uma pessoa a se tornar mais saudável ou
menos neurótica. Isto não pode ser feito focalizando a potência sexual
isoladamente. Sexo é somente uma das vias pela qual o indivíduo se
expressa. Cada ação que alguém realiza, cada movimento que faz e cada
som que emite, expressa o self do indivíduo. Quando o indivíduo é
completamente livre na sua auto-expressão, ele é igualmente livre na
expressão do seu sentimento sexual e poderá, portanto, ser
orgasticamente potente. Como vocês todos devem saber, a capacidade
de expressar totalmente o próprio self é o objetivo da análise bioenergética.
Naturalmente, aquela capacidade depende do grau de contato consigo
mesmo. Mas isto também depende de possuir a si mesmo, principalmente
da capacidade para controlar conscientemente a expressão do sentimento.
Auto-expressão e autocontrole são simplesmente lados opostos do
funcionamento saudável.
Na análise bioenergética, em oposição à terapia reichiana, o
principal critério de saúde é a plenitude da auto-expressão. A pessoa
saudável poderia ser caracterizada pelo livre fluxo de excitação através
do corpo. O livre e pleno fluxo de excitação é manifesto na maneira como
um indivíduo se equilibra, move e fala, e isto também é expresso na
presença do reflexo do orgasmo quando deitado na cama, uma vez que o
reflexo depende da ausência de tensão muscular crônica no corpo, o que
é raro na nossa cultura. No meu trabalho atual eu focalizo fortemente as
tensões do corpo, ajudando o paciente a senti-las e compreendê-las e a
liberar o impulso bloqueado através de uma atividade física apropriada.
No entanto, tensões crônicas são hábitos profundamente enraizados e a
expressão do impulso bloqueado tem que ser repetida muitas e muitas

10
vezes para reduzir a tensão. Ela nunca pode ser eliminada cem por cento.
A pessoa tem que desenvolver o novo hábito de plena auto-expressão até
que se torne sua forma preponderante de ser. Afinal, é um projeto para
toda a vida.
Tendo mudado o foco da sexualidade para o funcionamento do
ego, que é auto-expressão, eu gostaria de definir o relacionamento
adequado entre eles. As duas forças, ego e sexualidade, representando
os instintos de autopreservação e preservação das espécies, são polares
e antitéticos. Um não pode ser mais forte do que o outro, e ambos se
desenvolvem ao mesmo tempo. Portanto, tanto o ego quanto a sexualidade
se tornam forças conscientes durante o período edipiano, ou seja, dos
três aos seis anos. Qualquer distúrbio no desenvolvimento sexual da criança
afetará adversamente seu ego ou senso de self. Em torno da idade de
sete anos seu ego estará razoavelmente bem estabelecido. Traumas
sexuais posteriores na vida afetarão a personalidade, mas num grau muito
menor. Por isto, tornar extremamente importante compreender a
experiência sexual da criança neste período.
Porque a sexualidade da criança está brotando nesta época, ela
evoca sentimentos poderosos nos pais. Eles podem ficar sexualmente
excitados, invejosos, hostis e depreciadores, dependendo das próprias
experiências sexuais enquanto crianças. Eles freqüentemente atuam sobre
a criança o que fizeram com eles. Esta situação geralmente força a criança
a cortar os seus sentimentos sexuais para evitar a vergonha, humilhação
e abuso. Isto também a levará a reprimir a memória destes traumas, para
manter algum grau de sanidade. Mas o efeito da supressão é estruturado
no corpo como distorções e pode ser lido por um terapeuta astuto. Eu
estou certo que vocês estão familiarizados com eles: a cisão entre a
parte de cima e a de baixo, a ausência do pleno desenvolvimento da
pélvis, o peso excessivo da parte de baixo do corpo, etc. Estas distorções
devem ser interpretadas no nível sexual, porque é ali que o paciente sente
hoje, como adulto. Traços orais podem ser percebidos e discutidos, mas
eles não podem ser resolvidos até que se ultrapassem as questões
sexuais. Eu acredito que isto não é totalmente compreendido no nosso
trabalho terapêutico.
Pode parecer que eu estou revertendo minha posição prévia, que
propunha diminuir o foco na sexualidade em favor de olhar mais de perto
o caráter. A estrutura de caráter e os temas de auto-expressão e posse
de si mesmo ainda são meus focos principais, não a potência orgástica.
Eu acredito, entretanto, que as questões de caráter devem ser entendidas
em termos sexuais. O foco, portanto, está nas questões sexuais, não na
potência sexual. Isto será o resultado de um trabalho bem sucedido através
dos temas sexuais. Medo, por exemplo, deve ser relacionado ao problema

11
sexual. Os pesadelos infantis ocorrem principalmente no período edipiano
e refletem a sensibilidade da criança às poderosas forças sexuais que a
cercam na família. Sem reparar neste ponto ninguém pode chegar a uma
verdadeira compreensão da irracionalidade das dinâmicas familiares.
Reich previu a revolução sexual décadas antes dela ocorrer. Ele
também predisse que isto poderia criar uma condição caótica na cultura.
Nós somos testemunhas daquela revolução e vimos o caos que produziu,
como conseqüência da quebra dos limites. A filosofia do “estou para o
que der e vier” é desastrosa. Na minha opinião, esta filosofia negou o valor
da modéstia, restrição e moralidade. Quebrou barreiras entre gerações e
fomentou abuso sexual. Eu acredito que nós, terapeutas, necessitamos
reconhecer a importância da contenção, no que se refere ao impulso
sexual. Atuações sexuais são um processo autodestruidor.
Relacionamento sexual onde não há profundo sentimento pelo parceiro
não é nutritivo. Nós todos sabemos que somente quando a atividade sexual
é uma ação integrada combinando cabeça, coração e genitais na resposta,
é uma experiência preenchedora. Aprender a conter os impulsos promove
o processo de integração. Contenção é um aspecto importante da posse
de si mesmo.
A terapia visa aumentar o sentimento sexual não somente nos
genitais, mas por todo o corpo. Isto se traduz num senso de humanidade
enquanto homem ou mulher. Isto se reflete na forma que o indivíduo se
retrai e se move. Conter-se com dignidade é a marca da virilidade, assim
como mover-se com graça é sinal de sexualidade. Estes, com certeza,
são ideais aos que pode não se alcançar completamente, mas aos quais
nos dedicamos. Isto é especialmente verdadeiro para terapeutas
bioenergéticos.

Alexander Lowen é médico, residente nos Estados Unidos, criador da


Análise Bioenergética.

Artigo traduzido do Journal of The International Institute for Bioenergetic


Analyses, volume 5, numero 2, 1993.
Tradução: Luiza Revoredo de Oliveira Reghin
Revisão: Lucilia Moreira Lima Cerri.

12
PSICOECOLOGIA
PSYCHO ECOLOGY

José Henrique Volpi

Resumo
Durante o processo de evolução, o homem foi se tornando um ser sociável
e solidário. Porém, com a chegada da modernidade, percebemos que foi
perdendo essa capacidade e ficando mais cada vez mais individualista,
egoísta e corrupto. Afastou-se do seu contato consigo mesmo, com os
outros e com a natureza. Agride, denigre, destrói, faz mau uso dos
recursos naturais e têm um comportamento predatório único, que o
diferencia dos demais seres vivos. Partindo das contribuições de
clássicos, teóricos e estudiosos da Psicologia e da Ecologia, a proposta
desse artigo é contextualizar a possível ligação dessas duas grandes
áreas de conhecimento demonstrando o quanto é possível estabelecermos
uma relação dialógica, de associação entre ambas as ciências,
construindo assim, novos saberes, numa proposta chamada
Psicoecologia.
Palavras-chave: Ecologia; Ecopsicologia, Psicoecologia, Psicologia,
Reich.

Abstract
During the process of evolution of mankind, the human being turned into
a social and sympathetic animal. However, modernity has made men
more individualistic, selfish and corrupt. The human being started losing
its social behavior, reducing the contact with himself, the others and na-
ture. Men attack and destroy the environment, making poor usage of
natural resources and behaving in a unique predatory way that distin-
guishes mankind from the others animals. This paper intends to discuss
such human behavior under the light of two different fields of studies:
psychology and ecology, in an attempt to develop a framework for the
possible link of these two broad fields of knowledge, establishing a dia-
lectic relationship between those sciences and building new knowledge
in what we call Psycho ecology.
Keywords: Ecology, Ecopsychology, Psycho ecology, Psychology, Reich.

13
Sempre houve uma complexa rede de intercâmbios entre os seres
humanos e a natureza. O conhecimento empírico das interações entre os
organismos e o meio já dominava o ser humano desde a pré-história,
levando-o a praticar o conceito de desenvolvimento sustentável dos
recursos naturais, com toda a consciência. O homem caçava para se
alimentar e delimitava seu território como forma de se proteger de seus
predadores, vivendo em harmonia com a natureza, tal como os outros
animais.
Na seqüência de sua evolução, conforme foi fazendo uso de seu
mais novo cérebro, o neocórtex, que lhe confere a capacidade de lógica e
raciocínio, o homem foi se aprimorando na caça e nos recursos utilizados
para tal fim de forma que suas armas tornaram-se mais potentes, dando-
lhe um maior poder sobre os animais e sobre o próprio homem, fato esse
que o levou a dar início a uma série de conflitos com sua espécie e com
a natureza.

Já dizia Freud (1976, p. 246):

É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os


homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa
em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se
excluir. (...) era a superioridade da força muscular que decidia quem
tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A
força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de
instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas
ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do
momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade
intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o
objetivo final da luta permanecia o mesmo.

Portanto, podemos pensar que desde a antiguidade o homem


vem lutando, encontrando novas formas de conquistas, organizando-se
social e economicamente. Superou a Idade do Bronze (4.000 a 3.000
aC), mas trouxe consigo uma cultura que aflorou na época, estendendo
seus laços de amizade entre as mais diversas civilizações. Passou pela
Idade das Trevas (1.100 aC), onde aprendeu a se organizar política e
socialmente, voltando seus interesses aos esportes que assumiam cada
vez mais um papel proeminente na sociabilização. Um substancial aumento
da população, em 750 aC, obrigou muitos cidadãos a deixaram suas
cidades de origem e fundarem as chamadas apoikias (lares distantes),
expandindo dessa forma o modo de vida para além dos mares, fazendo
com que o comércio experimentasse um estrondoso desenvolvimento. O
dinheiro passou a ser importante porque comprava terra, que por sua vez
comprava “escravos”, que por conseqüência trazia o poder. Não demorou
muito para que tivesse início as guerras, que mostravam que o homem

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podia ser o senhor do mundo e conquistar todos os espaços à volta dele.
Quanto mais evoluía em sua inteligência, em sua cultura, em sua
sociedade, mais se afastava da natureza e mais se aproximava de sua
ganância, egoísmo, arrogância, enfim, até faltariam adjetivos para
denominá-lo. Na tentativa de compreender esse tipo de homem, ainda no
século IV aC. apareceu a filosofia. Foi o século de Sócrates, cuja filosofia
exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo; de Platão (428-348
aC.) que tinha como uma de suas preocupações, distinguir a verdadeira
ciência e o verdadeiro conhecimento da mera opinião ou crença; de
Aristóteles (384-322 a.C.), com sua filosofia essencialmente teorética,
buscando decifrar o enigma do universo. E assim, vários outros filósofos
surgiram brindando-nos com seus conhecimentos.
Um outro grande marco na história da humanidade deu-se ainda
na idade média com o surgimento de uma nova religião baseada em Jesus
Cristo. Tratava-se de uma doutrina que se apoiava na idéia de que o mundo
foi criado por um Deus único, onipotente, onisciente, livre e infinitamente
bom, tendo criado o homem à sua imagem e semelhança. Assim sendo,
tanto os seres humanos como a natureza eram resultado e manifestação
do poder, da sabedoria, da vontade e da bondade de Deus. O nosso
destino estava nas mãos de Deus da mesma forma que o conhecimento
científico não podia negar os dogmas religiosos e deveria até fundamentá-
los. Então, ciência e filosofia ficam submetidas à religião. A investigação
livre deixa de ser possível e compreender a natureza passa a ser, no
fundo, interpretar a vontade de Deus. Portanto, deveríamos obedecer a
esse Deus, sem questioná-lo.
Aproveitando-se dessa crença, como forma de defesa, a Igreja
Católica baniu os costumes pagãos e a adoração dos Deuses da religião
antiga, substituiu os antigos festivais pelos novos feriados religiosos,
transformou os antigos Deuses da Natureza e da Fertilidade em terríveis
e maléficos demônios e diabos e baniu definitivamente as Deusas femininas
como objeto de adoração. Surgiu a era da Inquisição e, a pedido do Papa
João XXIII, em 1320, declarou-se oficialmente que a bruxaria e a antiga
religião dos pagãos constituíam um movimento e uma “ameaça hostil” ao
Cristianismo e, portanto, em nome de Deus todos deveriam ser queimados.
Com a descoberta da América em 1492, ocorreu uma
transformação da natureza das relações entre as populações humanas e
os ecossistemas locais, quando houve uma unificação agrícola do mundo,
que por sua vez, gerou uma unificação microbiana, espalhando por todos
os cantos vírus e germes contra os quais a humanidade ainda não possuía
qualquer imunidade. “Muitas doenças do Velho Mundo eram na verdade o
fruto envenenado de modos de vida agrícolas e sedentários, transmitidas
à nossa espécie por animais domesticados ou não, mas em todo caso,

15
difundidos nos novos habitats” (BOCCHI & CERUTI, 1999, p. 145).
Somado a isso, o filósofo francês René Descartes (1596-1656),
lançou as bases para uma nova concepção da natureza que iria ser
largamente aceita e desenvolvida durante muitos anos: o mecanicismo.
Contrariamente ao organicismo anteriormente reinante que concebia o
mundo como um organismo vivo orientado para um fim, o mecanicismo,
via a natureza como um mecanismo cujo funcionamento era regido por
leis precisas e rigorosas, mas submissas ao poder do homem.
Tempos depois aparece Kant (1724-1804), cujo pensamento é
dominado pelas ciências da vida, contrapondo-se ao surgimento da
revolução industrial em 1760, cujo início se deu na Inglaterra, caracterizada
pela produção industrial em grande escala voltada para o mercado mundial,
com uso intensivo de máquinas.
Riqueza, poder, avareza, etc, faziam parte do menu psíquico dos
grandes líderes da época. Tal era o desejo de posse que em 1914, guerras,
cruzadas, pragas e revoltas campesinas assolam toda a Europa que,
com exceção da Itália, mobilizaram todas as potências a entrarem em
conflito, dando início à Primeira Guerra Mundial, que durou até 1918.
Após um tempo de calmaria, com muitos ainda estarrecidos pela
capacidade do homem matar seu próprio semelhante, não durou muito
para que em 1933, na Alemanha, Hitler expulsasse todos os que não
eram alemães puros, eliminando os traços de judaísmo da cultura,
instituições e economia do novo estado. Judeus foram tirados de seus
guetos e levados para campos de concentração onde eram mortos em
câmaras de gás ou por envenenamento por monóxido de carbono. Depois
de mortos, as obturações em ouro eram retiradas dos cadáveres e os
cabelos cortados para uso industrial. Tempos depois, vários países não
apenas se defenderam como também instigaram seus homens para a
luta e conquista de novos territórios. Começa, então, a II Guerra Mundial
que durou de 1939 a 1945.
O ataque surpresa do Japão contra a base norte-americana de
Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941 abriu novas portas para o furor.
Os Estados Unidos passaram a se esforçar ainda mais em desenvolver
a indústria de guerra e reuniram uma produção bélica 50% mais poderosa
que as da Alemanha e Japão juntos. Nos anos de 1943 e 1944, enquanto
os americanos fabricavam um navio por dia, a cada cinco minutos, um
avião japonês carregado de explosivos e dirigido por um piloto suicida
atirava-se sobre o alvo de qualquer um que fosse tido por inimigo
(Kamikazes).
Com isso, o maior exemplo de inteligência, aliada à ignorância
humana, foi posto a prova, tanto para a humanidade quanto para o meio
ambiente, no dia 6 de agosto de 1945, quando às 8h15m17s um avião

16
americano que escapou dos radares japoneses lançou sobre Hiroshima
uma bomba que explodiu a 617 metros do solo, sobre o centro da cidade.
A temperatura chegou a 5,5 milhões de graus centígrados e tudo o que
se encontrava a 500 metros do epicentro da bomba foi incinerado. Quase
ninguém sobreviveu num raio de 800 metros e em menos de uma hora,
mais de 70 mil pessoas haviam morrido. Três dias depois, em 9 de agosto,
a operação se repetiu em Nagasaki, matando mais de 40 mil habitantes.
Vários outros acontecimentos e desastres foram se descortinando
à frente da humanidade. Não bastasse a tragédia de Hiroshima e
Nagasaki, ocasionada pelas próprias mãos do homem, quarenta anos
depois, um outro grande fato marcou a história, quando na noite de 26 de
abril de 1986, houve a explosão de um dos reatores da usina nuclear
Chernobil, localizada na Ucrânia, provocando um dos maiores acidentes
da história nuclear. O incêndio, que durou nove dias, liberou toneladas
de material altamente radioativo, uma quantidade 200 vezes maior que
as bombas de Hiroshima e Nagasaki, ocasionando a morte de 8.000
pessoas e adoecendo outros 120.000. Até hoje, uma área de 160.000
Km² (o tamanho da Holanda) permanece contaminada e inabitada.
E a cada dia aumenta a lista dos fatos marcantes, dos desastres,
das atrocidades causadas pelo homem. Recentemente, todos puderam
presenciar o ataque terrorista sobre os Estados Unidos no dia 11 de
setembro de 2001 quando as torres do World Trade Center, literalmente
viraram pó, deixando não apenas uma nação, mas o mundo todo atônito
pela capacidade do homem, um certo tipo de homem, fabricar o seu
próprio aniquilamento. Feridos em seu orgulho e irados pela sede de
vingança contra o terrorista saudita Osama bin Laden, líderes americanos
e da Grã-Bretanha, mesmo sob protestos no mundo todo e desaprovação
da ONU (Organização das Nações Unidas), declaram guerra ao Iraque,
sob alegação do atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush,
que o regime de Saddam Hussein desenvolvia armas de destruição em
massa, o que até hoje não foi provado, demonstrando esta ser mais uma
das chamadas guerra narcísica, onde a fama e o poder se sobrepõem a
qualquer valor ou vida humana.
E assim, caminha a humanidade, sendo regida durante toda a
sua existência pelo desejo de conquista, de guerra, de poder, de violência,
perturbando a frágil relação existente entre o homem e a natureza e
alongando consideravelmente a lista dos desastres ecológicos provocados
nos últimos tempos.
Mas, então, que homem é esse que vive em busca de novas
conquistas, construindo e ao mesmo tempo destruindo tudo e todos,
que em nome de Deus faz a guerra e que coloca em risco toda a sua
existência? O que leva esse homem a ser tido como o maior depredador

17
da natureza? Que efeitos isso tudo causa na ecologia e na vida emocional
das pessoas?
É inegável os efeitos destrutivos da espécie humana sobre o próprio
homem, sobre as demais espécies animais e vegetais e sobre a biosfera
como um todo. O homem tem em suas mãos a vida como mercadoria;
joga como eterno ganhador, usa e abusa com a mais alta
irresponsabilidade. Comete certas atrocidades com seu semelhante, com
animais, com a natureza, sem levar em conta qualquer valor ético, moral,
religioso, emocional... O homem foi quem se separou da natureza e não
a natureza do homem. Mas, qual a gênese dessa separação? Talvez
possamos dizer que o homem é um ser pensante e, portanto, superior a
todos os animais. Esse é o pensamento cartesiano que faz com que o
homem encare a natureza como seu objeto de uso (OST, 1995). Mas
devemos considerar o homem como sujeito de direito só porque tem a
faculdade de pensar?
Morin (1992), vê o homem como um ser complexo em seus
pensamentos e atos e diz que é preciso compreendermos essa
complexidade humana. Afirma que o homem é produto da dialógica entre
a sapiência e a demência e que “e necessário abandonar o humanismo
que faz do homem o único sujeito num universo de objetos e que tem
como ideal a conquista do mundo” (p. 208). Mas para o dono do mundo,
não há limites. Na década de 90, Coréia do Sul e Taiwan foram tidos pelo
Banco Mundial como países modelo a serem seguidos pelos demais do
terceiro mundo. Porém, os danos ambientais por eles cometidos não
foram considerados. “Em Taiwan, por exemplo, os venenos usados na
agricultura e na indústria poluíram gravemente quase todos os grandes
rios. Em alguns lugares, a água, além de não ter peixes e não servir para
beber, chega a pegar fogo” (CAPRA, 2002, p. 157).
Esse surto industrial, de modernização principalmente da
agricultura, e de pseudo-cultura, também foi um marco na história do
Brasil nos anos 60 e 70, colocando em evidência problemas ecológicos
e emocionais até então não notados. Vejamos alguns exemplos.
O uso exagerado de fertilizantes, agrotóxicos e maquinários
agrícola contribuíram para uma desertificação do solo tão grave que durante
a conferência Mundial de desertificação, promovido pela ONU em 1977,
em Nairobi, falou-se a respeito da formação do terceiro maior deserto do
planeta, localizado no Brasil, que apenas é inferior aos desertos do Saara
e da Arábia. No Nordeste, essa área atinge por volta de 50 mil quilômetros
quadrados, tamanho dos estados do Alagoas e Sergipe juntos (AGUIAR,
1994). Em julho de 2000 cientistas encontraram no Pólo Norte um trecho
de mar aberto, com aproximadamente um quilômetro e meio de largura,
devido ao descongelamento das geleiras em decorrência do

18
superaquecimento (CAPRA, 2002). A doença da moda, chamada estresse,
que quase nunca aparecia a não ser por traumas significativos, hoje assola
a humanidade a todo instante, sem escolher cor, raça ou idade. Em 2003
foi divulgada a Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de
Extinção cuja lista anterior, divulgada há 13 anos, apontava 218 animais.
Na edição revisada, foram registrados 395 animais ameaçados de
extinção, dos quais oito estão seguramente extintos, estando entre eles
a Arara-azul pequena, o Maçarico-esquimó e o Minhocoçu
(BIODIVERSITAS, 2003).
Constantemente somos bombardeados com péssimas notícias
de desmatamento descontrolado, derramamento de petróleo, guerras,
armamentos e explosões nucleares, acidentes, poluição da terra, água e
ar, etc, etc, etc.
Se por um lado o rápido avanço da tecnologia veio proporcionar
ao homem uma melhor qualidade de vida, por outro, está destruindo tanto
o planeta em que vivemos, quanto nossa saúde física e emocional.
Como podemos mudar nosso comportamento frente a isso tudo?
Estamos equivocados em esperar uma consciência ecológica mundial?
Talvez sejamos a ultima geração de humanos que tenha ainda
possibilidades de fazer algo para reverter essa situação (SEED, 1993).
Nós somos a natureza e da natureza. Portanto, devemos tomar como
desafio constituir um saber da natureza, no qual os homens se reconheçam
como parte integrante e não instância de dominação, estrangeira e hostil
(DÉLEAGE, 1991).
Não precisamos nos munir de rótulos, nem de títulos de
especialistas, mestres ou doutores para explicarmos esses
acontecimentos, muito menos para agirmos em combate a isso. Mais do
que isso: precisamos nos unir, juntarmos nossos saberes não apenas
para construímos algo novo mas, principalmente, para impedir que tudo o
que já existe seja destruído. Precisamos da inter, multi, pluri,
transdisciplinaridade, entre as mais diversas áreas do conhecimento, entre
os mais diversos cientistas, pesquisadores, pessoas comuns.
Nessa proposta, de um lado, encontramos a ecologia acadêmica,
preocupada com a conservação das espécies animais. De outro, a ecologia
humana, que considera as relações dos indivíduos e de comunidades
humanas com o seu ambiente particular, a nível fisiográfico, ecológico e
social.
Durante muito tempo, a ecologia subestimou ou ignorou os seres
humanos como objeto de estudo, esquecendo-se que o ambiente é
também a casa deles.
A ecologia é uma ciência natural que teve uma de suas origens a
partir da história natural, ou seja, da história da vida dos organismos e

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dos ambientes em que vivem. Ecologia é uma palavra originada do grego
oekologie, que literalmente significa “estudo da casa”. Foi introduzida
pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel em 1866 como proposta de
substituição ao termo biologia, que na época tinha um sentido
indevidamente restrito. É definida como sendo “a ciência da totalidade
das relações do organismo com o ambiente, compreendendo, em sentido
lato, todas as condições de existência” (HAECKEL apud DELÉAGE, 1993,
p. 13). Mas ainda não há uma definição consensual da ecologia como
ciência. Segundo Odum (1988) ecologia é o estudo de sistemas biológicos
em níveis organizacionais acima da espécie. Krebs (2001), definiu ecologia
como sendo o estudo científico das interações que determinam a
distribuição e abundância dos organismos. Ricklefs (2003) falou de uma
economia da natureza ou a ciência através da qual estudamos como os
organismos interagem dentro e no mundo natural.
A primeira sociedade de ecologia, denominada British Ecological
Society, foi fundada em 12 de abril de 1913 por naturalistas britânicos,
mesma ocasião em que apareceu a publicação do primeiro boletim de
ecologia, o Journal of Ecology (DELÈAGE, 1993). É uma ciência moderna,
porém, com uma história antiga que interage com diversas outras áreas
do saber. Teve um desenvolvimento acelerado nos países anglo-saxões e
germânicos no início do século XX, com a criação de sociedades científicas
denominadas ecológicas e com o surgimento do movimento ambientalista.
Como já dissemos, sempre houve uma relação de intimidade entre
os seres humanos e a natureza, pois é dela tiram seu sustento. No entanto,
o aumento do capitalismo trouxe sérios impactos para a ecologia, para a
natureza, para o homem e para o planeta como um todo. A ganância pelo
dinheiro e poder, levou o homem a ficar cego frente aos conflitos que ele
mesmo provocou no meio ambiente e o princípio da solidariedade homem/
universo foi substituído pelo da dominação da natureza pelo homem
(DELEAGE, 1993, p. 218), tornando-o cada vez mais violento e agressivo.
A fisiopatologia da agressão e violência é um vasto campo por
onde desfilam infindáveis hipóteses e pesquisas. Freud (1976) dizia que
“existe um desejo de agressão e de destruição, denominado instinto de
morte, que está em atividade em toda criatura viva e procura levá-a ao
aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada”
(p. 254). E completa: “O instinto de morte torna-se instinto destrutivo
quando, com o auxilio de órgão especial, (aparelho muscular) é dirigido
para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim
dizer, destruindo uma vida alheia” (p. 254).
MacLean, com sua teoria da evolução do cérebro, que o divide
em 3 unidades, aponta o reptiliano como sendo o responsável por esse
comportamento agressivo, de autopreservação.

20
a) Cérebro primitivo, reptiliano, responsável pela autopreservação e
agressão;
b) Cérebro intermediário, límbico, que responde pelas emoções;
c) Neocórtex ou cérebro racional, que nos capacita a pensar.

Portanto, a agressão e seu subproduto perverso, a destrutividade,


requer o compromisso das estruturas cerebrais primitivas. Sem elas não
haveria a verdadeira agressão. No entanto, quem freia essa agressão é o
cérebro límbico e o neocortex. Mas determinadas pessoas não
conseguem ter esse controle e ultrapassam todos os limites deixando-
se levar única e exclusivamente pelos instintos, pelo reptiliano e são
classificadas pela psiquiatria clássica como portadoras de um transtorno
da personalidade anti-social (DSM IV, 2004), cuja característica essencial
é um padrão invasor de desrespeito e violação dos direitos dos outros,
que inicia na infância ou começo da adolescência e continua na idade
adulta. Este padrão é também conhecido como psicopatia, sociopatia
ou transtorno da personalidade dissocial.
Reich (1975), também foi um dos precursores dos movimentos
ecológicos em sua época e o primeiro psicólogo a estudar o comportamento
do homem e da natureza, tanto no micro quanto no macrocosmos,
buscando sempre compreender o modo como o homem está enraizado
na natureza e sua relação com a mesma. Essa forma de pensar fez com
que ele se tornasse um sério crítico do pensamento cartesiano e postulasse
uma forma de pensar que fosse funcional, onde o homem, com seu
comportamento, inteligência e emoção, fosse considerado parte da
natureza e, portanto, não poderia ser estudado fora dela, da mesma forma
que a natureza não deveria ser pensada sem a presença do homem. Um,
interfere no movimento energético do outro. Nas palavras de Reich (1975,
p. 23), “o homem é uma parte da natureza e brotou a partir de funções
naturais. (...) com suas emoções, evoluiu a partir da natureza como um
dos produtos de seu desenvolvimento”.
Reich indica em todo seu pensamento que é preciso uma mudança
radical nas relações humanas, já que o próprio ser humano se autodestrói
e o meio influi nesse processo. Sempre teve uma visão otimista do ser
humano, acreditando que todos tinham possibilidade de livrar-se de suas
couraças, portanto, de suas neuroses, condição essencial para se ter
uma sociedade mais saudável onde os valores humanos pudessem ser
respeitados. No entanto, há sempre aqueles que tentam impedir o
crescimento da humanidade e que não se importam com a preservação
nem da espécie humana, muito menos, da natureza. A esses, Reich
(1995) atribui o termo peste emocional, para representar os indivíduos
que apresentam uma contração biopática do organismo, semeada na

21
criança desde os primeiros anos de vida. Segundo Reich, a manifestação
da peste emocional se dá especialmente na vida social e suas explosões
se mostram por violento sadismo que pode até mesmo chegar ao crime.
O indivíduo acometido pela peste emocional não se contenta com uma
atitude passiva, mas tem uma atividade social mais ou menos destruidora
da vida. Seu pensamento é perturbado e governado por emoções irracionais.
Sua ação é compulsiva e insensível. Não dá conta de aceitar a alegria,
felicidade e sucesso do outro. A pessoa acometida pela peste “é produto
de uma educação compulsiva e autoritária” (p. 319) e sua incapacidade
de amar leva-o a uma raiva sádica destrutiva. Assim, diz Reich que a cura
para esse tipo de biopatia está no estabelecimento da capacidade natural
de amar.
Podemos seguramente afirmar que há uma crise ecológica, social
e psicológica assolando nosso planeta e a inabilidade de nossa cultura
para lidar com isso, faz com que grandes estudiosos busquem respostas
para questões como: o que fazer para termos um planeta saudável? É a
partir desses questionamentos que Theodore Roszak (2001) aponta a
necessidade da criação de uma nova psicologia, cosmologia, e ecologia.
Sugeriu, então, o nome de ecopsicologia, uma disciplina que integra
ecologia, psicologia e outras ciências.
Ecologia e psicologia são duas ciências que buscam respostas
para uma mesma questão – de que forma o homem pode estar inserido
na natureza? De que forma a natureza se insere no homem? Como
homem e natureza de relacionam? Portanto, a psicoecologia, como prefiro
chamar, tem como proposta estudar o comportamento do homem e a
forma com que este se relaciona com a natureza e tudo o que está à sua
volta e o influencia. É uma ciência nova que pretende responder às
necessidades atuais. Como diz Marcela Danon (2004a), é uma filosofia
do homem e do ambiente que pretende reconciliar diversas polaridades:
mente, corpo, emoção, alma, natureza, cultura, teoria e prática. Tem um
percurso de crescimento pessoal em busca de soluções eficazes da
gestão da vida cotidiana, dos recursos do planeta, em sintonia com os
valores mais belos e mais autênticos dos seres humanos. Laurie Tarkan
(1997) dá uma definição específica como sendo o estudo da relação
entre “psique humana e o ambiente natural” (p. 33).
A Psicoecologia une a sensibilidade do psicólogo, a consciência
do ecologista, a experiência e a ética do ambientalista, para uma política
ecológica mais efetiva e com bases filosóficas sólidas, para um tipo de
planejamento educacional mais efetivo e para uma aproximação
terapêutica que seja capaz de redefinir o conceito de saúde em um
contexto também ambiental, examinando a psique como parte integral
da natureza (DANON, 2004).

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Não podemos nos sentir confortáveis se não restabelecermos a
saúde do nosso planeta. Há um jargão que diz existir apenas dois tipos
de empresas: as que estarão no catálogo telefônico do ano seguinte e as
que não estarão no catálogo telefônico do ano seguinte. A questão, no
entanto, é saber se nós, simples e humildes seres vivos iremos querer
estar vivos para trabalhar nessas empresas sobreviventes. (ROSZAK et
al, 1995). Portanto, o mundo pede mudança, um novo comportamento.
Esse é o objetivo da psicoecologia, provocar esse novo comportamento.
O homem tenta se lapidar em seu conhecimento, mas se
embrutece em suas emoções. Não basta termos apenas uma sociedade
ecologicamente equilibrada, mas emocionalmente e socialmente neurótica.
Reich já dizia: “O destino da raça humana dependerá das estruturas de
caráter das `crianças do futuro´. Em suas mãos e em seus corações
repousarão as grandes decisões” (1987, p. 17).
Gostaria de finalizar com as palavras de Capra, tomadas do filme
“O ponto de mutação” (2000): “Quando percebermos que nós e o planeta
somos, na verdade, um só, uma realidade, uma só consciência, teremos
chegado ao ponto de descobrir que a nossa transformação não foi apenas
uma atitude, mas uma mutação”.
Conclui-se, portanto, alertando os profissionais da psicologia,
ecologia e outras áreas do conhecimento, para a necessidade de um
trabalho conjunto, onde possamos, todos juntos, construir novos saberes.

Referencias
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mesma problemática. In: BURSZTYN, M. (Org). Para pensar o
desenvolvimento sustentável. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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Morin e o caráter inacabado do processo de humanização. In VEJA-
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CAPRA, F. As conexões ocultas. Ciência para uma vida sustentável.
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<www.ecopsicologia.it>. Acesso: 04/02/2004
DÉLEAGE, J. P. Histoire de l’écologie. Une science de l’homme et
23
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DUPUY, J. P. Pour um catastrophisme éclairé. Quand li impossible
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Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. 22, 1976
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MORIN, E. Le grand dessein. Paris: Seuil, 1992
ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988
OST, F. La nature hors la loi. L´écologie à l´épreuve du droit. Paris:
La Découverte, 1995
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SEED, J. Ecopsychology. Symposium at the Australian
Psychological Society’s. 28th Annual Conference. Gold Coast: 2/10/93
- updated 2001. Disponível em: <http://www.rainforestinfo.org.au/deep-
eco/seed2.htm> Acesso: 28/02/2004
TARKAN, L. Nurtured by Nature. Paris: Shape, 1997

José Henrique Volpi é Psicólogo, Orgonoterapeuta Mestre em Psicologia


da Saúde/UMESP e Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento/
UFPR. Diretor do Centro Reichiano de Psicoterapia Corporal, Curitiba/
PR.
E-mail: volpi@centroreichiano.com.br

24
A CORRESPONDENCIA
MALINOWSKI-REICH
MATCHING MALINOWSKI TO REICH

Carlos Liendro

Resumo
No livro “Reich fala de Freud”, cinco cartas que foram trocadas entre o
antropólogo Bronislaw Malinowski e o psiquiatra Wilhelm Reich, datadas
entre 1938 e 1942, ano em que falece Malinowski, autor de “Sexo e
repressão na sociedade primitiva”, chamam a atenção do autor. Dessa
correspondência três aspectos podem ser ressaltados: a situação que
ambos os investigadores atravessavam em seus distintos campos de
atuação; o funcionalismo orgonômico como teoria central para seus
trabalhos; as conseqüências e repercussões das pesquisas de Reich na
comunidade científica.
Palavras-chave: Funcionalismo, Malinowski, Reich.

Abstract: In the book “Reich speaks of Freud”, five letters that were ex-
changed from 1938 until 1942 by the anthropologist Bronislaw Malinowski
- the author of “Sex and repression in savage society” - with the psychia-
trist Wilhelm Reich, called the author’s attention. Three issues can be
highlighted, from the content of such correspondence: the situation both
researchers were going through in their fields; the orgonomic functional-
ism as a central theory for their work; and the consequences and reper-
cussions of Reich’s research in the scientific community.
Keywords: Functionalism, Malinowski, Reich.

25
Bronislaw Malinowski nasceu na Cracóvia, capital da Galitzia
austríaca, em 1884 (atual Polônia). Seu pai era um eslavista especializado
no dialeto polaco na região de Silesia. O jovem Bronislaw começou a
estudar filosofia em 1903, obtendo um doutorado em 1908. Continuou
seus estudos em Leipzig (Alemanha). Sua paixão pela antropologia nasceu
ao ler ‘O ramo dourado’, de Frazer. Em 1910 instalou-se na Inglaterra
para estudar antropologia na London School of Economics. Publicou em
1913: ‘A família entre os aborígines australianos’. A Primeira Guerra
Mundial o encontrou na Nova Guiné, Melanésia, vivendo entre os naturais
de Mailu. Em seguida mudou-se para o arquipélago das ilhas Trobriand
onde começou um trabalho de campo convivendo e aprendendo a língua
dos nativos e investigando todos os aspectos de sua cultura. Em 1916
retornou a Londres e concluiu seu doutorado em antropologia. No ano
seguinte, voltou a Trobriand. Começou a escrever “Os argonautas do
pacífico ocidental”, que é editado no ano de 1922. Visitou pela primeira
vez os Estados Unidos editou “O mito na psicologia primitiva” e “Crime e
costume na sociedade selvagem”. Em 1927 foi promovido a professor
titular de antropologia na Universidade de Londres. Escreveu: “O pai da
psicologia primitiva” e “Sexo e repressão na sociedade selvagem”. Durante
este último período, Malinowski começou a se confrontar com a
psicanálise. Apareceu o artigo “Psychoanalysis and Anthropology”
(Psyche, Londres 1924), tendo como contra-resposta o artigo de Ernest
Jones (psicanalista e biógrafo de Freud) “Mother and sexual ignorance of
savage” (International Journal of psychoanalysis, 1925).
Wilhelm Reich nasceu em Dobrzcynica, parte da Galícia que
pertencia ao império austríaco. Em 1922 diplomou-se em medicina pela
Universidade de Viena. Continuou sua formação em psiquiatria por mais
dois anos com Wagner-Jauregg (premio Nobel de Medicina) e Paul
Schilder. Desde 1920, já pertencia ao círculo psicanalítico de Viena. Reich
conheceu Sigmund Freud em 1919, quando o convidou a participar de um
Seminário de Sexologia organizado pelos alunos da Faculdade de
Medicina. Desde 1923 trabalhou na Policlínica Psicanalítica de Viena,
depois coordenou o Seminário Teórico e começou a escrever artigos para
revistas de psicanálise. Em 1925 apareceu seu primeiro livro “O caráter
compulsivo” e em 1927 a primeira versão de “A função do orgasmo”,
dedicada a Freud.
As investigações de Malinowski aportavam sobre a base dos
trabalhos no solo, tão vital hoje para os antropólogos, fazendo pensar que
os “primitivos ou selvagens” como os chamavam, não viviam na
promiscuidade e libertinagem como se supunha. Em seus livros delineava
a idéia que a vida desses homens se emoldura em uma delicada trama
de direitos e obrigações. “Os argonauras do pacífico ocidental” apresenta

26
não só um caráter ordenado como pretende:

1) Valorizar as culturas primitivas. A visão eurocentrista e positivista da


época arrastavam concepções sobre a superioridade do homem ocidental.

2) Mostrar que em uma economia primitiva como a Trobriandesa intervém


fatores mágicos e de prestígio, não diretamente ligados ao valor útil da
mercadoria. Permitia entender a complexidade das culturas melanesianas
que participavam do comércio Kula. Refutava a idéia de que a existência
dos povos primitivos se caracteriza tão somente pelo esforço de sobreviver.

3) Pela primeira vez na investigação antropológica, uma cultura foi estudada


sistematicamente. Isso demonstra que a cultura é um todo funcional. O
funcionalismo de Malinowki tinha antecedentes em Franz Boas (quem
assinalava a necessidade de interpretar os fatores sociais em sua
conexão). Também influenciou a escola de sociologia francesa através de
Marcel Mauss, Emil Durkheim, e a escola inglesa a partir de Herbert
Spencer.

A cultura é um todo orgânico. Por isso, para Malinowski não é


possível o estudo do sistema de parentesco de uma cultura, se ao mesmo
tempo não o relaciona com as bases econômicas dessa cultura, com
sua organização política, com suas instituições sociais, com o trame
jurídico que o sustenta, com a religião que o une. Todas estas novas
concepções iriam influenciar Wilhelm Reich em seu período psicanalítico.
Mas desde os sucessos de Schattendorf (Áustria) onde houve uma violenta
repressão contra manifestantes e ocasionando muitas mortes, Reich
começou a militar no partido comunista austríaco contra o avanço do
fascismo. Em 1930, foi trabalhar na Alemanha abandonando-a em 1933
devido à tomada do poder pelos nazistas. “A irrupção da moral sexual”
(primeira versão em 1932) estaria baseada sobre as obras de Malinowski.
Traçou seus escritos sobre a origem da repressão sexual, a economia
sexual na sociedade matriarcal, contradições econômicas e sexuais nos
Trobriandeses, o comunismo primitivo-matriarcado, propriedade privada-
patriarcado, um estudo sobre as teorias de Morgan e Engels.
Malinowski e Reich se conheceram em 1933, em Londres. O
antropólogo havia reconhecido que ‘Der Einbrusch der sexualmoral’ (A
irrupção da moral sexual) era uma obra que compreendia e utilizava
corretamente suas teorias sobre os trobriandeses.
Em 12 de março de 1938, do Departamento de Antropologìa em
The London School of Economics and Political Sciencie (Universidade de
Londres) Malinowski escreveu: “Conheço o Dr. Wilhelm Reich há cinco

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anos, período em que pude ler suas obras, tendo também muitas
oportunidades de conversar e discutir com ele em Londres e Oslo”. Nessa
época Reich vivia na Noruega onde começava a despontar uma forte
campanha contra seus trabalhos e investigações. “Considero sua obra
sociológica como uma clara e valiosa contribuição à ciência. Em minha
opinião, seria uma perda lamentável que o Dr. Reich fosse impedido de
alguma forma a desfrutar das maiores facilidades para por em prática
suas idéias e descobertas científicas”. Malinowski brindava um claro apoio
à situação que Reich estava atravessando nesse momento. Seguia a
carta dizendo:

Gostaria de acrescentar que meu depoimento pode adquirir alguma


força adicional, vindo como vem de alguém que não compartilha das
avançadas idéias do Dr. Reich, tnem mesmo das suas simpatias
pela filosofia marxista – gosto de descrever-me a mim próprio como
liberal antiquado, quase conservador (HIGGINS & RAPHAEL, 1970,
p. 195).

Reich no dia 29 de abril agradeceu sua solidariedade comentando


o efeito que produziam suas descobertas, e agregou algo que havia visto
nas ruas de Berlin e em toda Alemanha: “Não sou um otimista insensível,
mas graças a meu trabalho pude precaver-me de sobra não apenas dos
impulsos satânicos do homem, como também de seu lado humano. Seu
livro “Psicologia de massas do fascismo” (de 1933) havia sido traduzido
para vários idiomas. Hitler já tinha formado os campos de concentração
na Alemanha e Freud, graças ao pedido de embaixadores, cientistas e
até de Mussolini, estava a ponto de sair da Áustria - logo que sua filha
Anna foi detida pela Gestapo.
Wilhelm Reich havia sido expulso da Associação Psicanalítica
Internacional e do partido comunista em 1934. Para os primeiros, por ser
demasiado marxista e para os segundos, pela “edição de um livro contra-
revolucionário”. Nesse livro Reich utilizava categorias psicanalíticas e suas
novas teorias da Estrutura Caracterial (Análise do Caráter) para explicar
como indivíduos criados desde a infância em famílias dominadas pelo
pai, eram submissos, preparados para serem rebanhos, e porque a
necessidade de um Fuhrer ou um Duce. No capítulo: A submissão
automática aos costumes e o verdadeiro problema (crime e costume na
sociedade selvagem), também se vê uma clara influência das idéias
antropológicas sobre Reich.
Em 1939 Malinowski se encontrava nos EUA. Estava realizando
alguns tramites que pudessem permitir Reich ser admitido em alguma
Universidade de New York. Escreveu a Reich dizendo: “Outro inconveniente
se dá pelo fato de que muitos psicanalistas não querem saber de nada

28
contigo. Eles sabem por quem se inclinam minhas simpatias, de forma
que não preciso lhe contar o quão indignado me sinto quando me deparo
com essa atitude. Isso não seria tão ruim se os psicanalistas americanos
não estivessem tão dominados por pessoas de Viena ou Berlim. Mas em
qualquer sociedade psicanalista que for, irá encontrar oposições de Otto
Rank, H. Sachs ou Alexander. Junto ao Dr. Theodore Wolfe (que foi estudar
com Reich na Noruega) conseguiram colocá-lo em contato com Alvin
Johnson da New School of Social Research, onde Reich passou a ser
docente, viajando aos EUA em setembro de 1939. Nesse mesmo mês,
os nazistas invadiram a Polônia (onde hoje estão os territórios do
nascimento de Reich e Malinowski).
Em 1940 já aflorada a Segunda Guerra Mundial, Bronislaw
Malinowski trabalhou como professor de Antropologìa na Universidade de
Yale. Casou-se com a pintora Valetta Swann. Em 1941, junto com sua
mulher mudou-se para o México de forma a centrar-se no estudo das
culturas índio-mexicanas e a troca social. Em 31 de janeiro de 1942, em
New Haven, Connecticut, escreveu: “Todo este assunto é, sem dúvida,
ridículo pois ninguém que esteja em seu perfeito juízo podia suspeitar
que você apresentava tendências ou simpatìas pro-nazista. Apesar de
tudo, estas coisas são sempre extraordinariamente penosas”. Na
introdução de “A função do orgasmo” (segunda versão de 1942 - The
dicovery of the Orgone) Theodore Wolfe esclarecia: “as duas da madrugada
de 12 de dezembro de 1941, Reich foi tirado da cama por agentes do FBI
(Federal Bureau of Investigation) e levado para a prisão federal de Ellis
Island. Tanto da parte de Reich como das investigações efetuadas antes
e depois de sua detenção, era evidente que nada permitia colocá-lo sob
suspeitas e pretextos da Enemy Alien Act. Até o dia 5 de janeiro de
1942, não foi possível nem mesmo a sua liberdade condicional. Mesmo
que tenha sido utilizado contra a obra de Reich o procedimento de
denúncias na polícia, mesmo na Europa, até então nunca havia sido
detido”.
A perseguição contra as obras e trabalhos de Reich na Dinamarca
(Copenhague), Suécia (Malmoe), Noruega (Oslo) entre 1934 e 1938, não
iam diminuir nos Estados Unidos. Em uma carta sem data, Reich
respondeu: “Haviam investigado meu caso durante mais de um ano, sem
encontrar nada, sem nenhuma acusação e mesmo assim, passei três
semanas e meia atrás das grades. Todo esse assunto foi algo
completamente ilógico, devido à denúncia de algum covarde que não se
atreve a me enfrentar em uma discussão pública”. E com seu incrível
otimismo frente à adversidade Reich continua: “você se recorda dos
problemas que tive na Dinamarca e Suécia em 1934, quando os psiquiatras
chamaram a polícia? Bem, pois aqui aconteceu o mesmo. As

29
inconveniências que enfrentam nosso trabalho são enormes, mas também
são os nossos triunfos. Logo irá aparecer em inglês o meu livro “The
discovery of the orgone”, no qual resumo vinte anos de investigação biofísica
e de análise do caráter, assim como de uma revista publicada pelo nosso
Instituto. Quero agradecer a sua declaração juramentada que foi enviada
na ocasião de minha prisão. Espero revê-lo em breve. Desejo que esteja
bem e não fique excessivamente angustiado por esse desastre
internacional. Creio que os psiquiatras que compreendem o emaranhado
desenvolvimento biológico dos seres humanos, haverão de realizar tarefas
difíceis quando isso acabar”.
Malinowski faleceu em 16 de maio de 1942 de um ataque do
coração. Sua viúva editou: “Uma teoria científica da cultura”. Aqui, distingue
sete necessidades biológicas, cuja satisfação é imprescindível para
sobreviver: o metabolismo, a reprodução, o bem-estar corporal, a
segurança, o movimento, o crescimento e a saúde. A cultura é um todo
funcional que está a serviço das necessidades humanas. Malinowski definia
“necessidade” como o sistema de condições que se manifestam no
organismo humano, no marco cultural e na relação de ambos com o
ambiente físico e que é suficiente e necessário para a sobrevivência do
grupo e do organismo.
Pelas últimas investigações que Wilhelm Reich realizou jamais
deixou de passar tranqüilo os próximos anos. Editou “A revolução sexual”
e uma nova versão (com adição de novos capítulos) de “Psicologia de
massas do fascismo”. Prosseguiu suas investigações e continuou editando
livros: “A biopatia do câncer”, “Éter, Deus e o diabo”, “Superposição
cósmica”, “Contato com o espaço”. Escreveu sobre a biogênese, oncologia,
formação de desertos, de furacões, força da gravidade, cujo ponto em
comum sempre foi a ENERGIA. Em 1941 encontrou-se com Albert
Einstein.
Reich também desenvolveu uma teoria funcionalista, uma síntese
superadora que chamou de Orgonomia. No livro “The bion experiments,
on the origin of life’ (versão inglesa de ‘Die bione’ lançado em 1938) mostrou
a passagem do materialismo dialético ao funcionalismo energético. A
partir da publicação de “Beyond psychology / letters and journals 1934-
1939” e “ American odyssey / letters and journals 1940-1947”, hoje temos
novos documentos para entender o que se passou com a obra e a
metodologia de investigação como também novos campos
epistemológicos. Em uma anotação de 26 de novembro de 1946, escreveu:
“Malinowski comentava sobre a sexualidade das crianças trobriandesas,
mas não das crianças européias” (American Odyssey). Uma crítica
interessante para seu amigo.
Reich continuou sendo perseguido e morreu nos EUA em 3 de

30
novembro de 1957, na prisão. Dez anos depois de sua morte foi editado o
livro “Reich fala de Freud”, que contém uma série de entrevistas realizadas
em 18 e 19 de outubro de 1952, no Maine, para os Arquivos de Sigmund
Freud; continua um anexo documental de cartas e artigos, que permitiram
clarear muitos aspectos dessa época que impediam ver o valor científico
da obra de Reich e entender porque houve uma conspiração de silêncio
durante tanto tempo.

Referências
MALINOWSKI, B. Magia, ciencia y religiòn. Espana: Planeta-Agostini,
1985.
MALINOWSKI, B. Sexo y represiòn en la sociedad primitiva.
Argentina: Nueva Visiòn, 1974.
MALINOWSKI, B. Crimen y costumbre en la sociedad salvaje.
Espana: Planeta-Agostini, 1985.
MALINOWSKI, B. Una terorìa cientìfica de la cultura. Espana: Sarpe,
1984.
HIGGINS, M; RAPHAEL C. Reich habla de Freud. Barcelona:
Anagrama, 1970.
REICH, W. Psicologìa de masas del fascismo. Espana: Bruguera, 1988.
REICH, W. La funciòn del orgasmo. Mèxico; Paidos, 1984.
REICH, W. People in trouble. New York: Farrar, Straus and Giroux,
1976.
REICH, W. American Odyssey. New York: Farrar, Straus and Giroux,
1999.
REICH, W. Beyond Psychology. New York: Farrar, Straus and Giroux,
1994.
REICH, W. The Bion experiment - on the origen of life. New York: Farrar,
Straus and Giroux, 1979.
ROHEIM, G. Psicoanalisis y antropologia. Argentina: Sudamericana,
1973.
ROHEIM, G. Magia y esquizofrenia. Argentina: Paidos, 1959.
SHARAF, M. Fury on earth. New York: Da Capo Press,1994.
Carlos Liendro é Psicólogo, docente e pesquisador universitário;
Coordenador do CEWR (Centro de Estudos Wilhelm Reich) Buenos Aires/
Argentina.
E-mail: carlosliendro@yahoo.com.ar
Tradução: José Henrique Volpi

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A CONSTRUÇÃO PARA O AMOR
THE CONSTRUCTION FOR LOVE

Flávio Roberto de Carvalho Santos

Resumo
Partindo do mito de Eros e Psiquê, este artigo aborda a construção psico-
afetiva que resulta na forma expressiva do amor na vida segundo a teoria
caracterológica de Wilhelm Reich (1897/1957). A referida construção é
vista a partir de uma unidade funcional, onde o corpo participa e demarca
a forma de reação desde um tempo primitivo do desenvolvimento até a
vida adulta. Algumas formas de caráter são descritas em seus aspectos
principais que, em relação a sua construção neuropsicológica, se
apresentam como patológicas ou saudáveis.
Palavras-chave: Amor, Construção, Desenvolvimento, Unidade Funcional.

Abstract
Having the myth of Eros and the Psyche as its grounds, this paper dis-
cusses the psycho-affective construction that results in an expressive
form of love, according to Reich’s characterologic theory, proposed by
Reich. This construction is seen from a functional unit where the body
participates and determines the form of reaction from the early days until
adult’s life. Some character forms are described in their major aspects
that are either pathological or healthy, with respect to their neuropsycho-
logical construction.
Keywords: Love, Construction, Development, Function Unit.

32
Todos falam do amor, porém, alguns não o vivem realmente.
Parece estranho tal condição, mas na realidade para exercer este
sentimento há a necessidade de vários aspectos da maturidade bio-psico-
social.
Para se entender o amor voltaremos, de forma resumida, às
questões da mitologia sobre Eros e Psiquê. Segundo Brandão (1994), o
mito nos dá a tentativa de organizar a vida, de explicar o que não era e
passou a ser. Eros é uma palavra que deriva do grego Erw e se refere ao
desejo irreprimível dos sentidos. Assim, também Cupido (romano), do
verbo latino cupere, se refere a desejar ardentemente ou ter desejos
instintivos ou sensuais. Psiquê, palavra do grego Yuch, significa sopro
ou princípio vital. Em uma analogia podemos acoplar dois pontos
extremamente importantes como o concreto e o sutil, o somático e o
psíquico ou o corpo e o afeto. Estes são condições construídas no ser.
No aspecto mitológico Eros/Cupido aparece como filho de
Afrodite/Vênus, onde a mãe, por uma relação de vingança desenrola
toda a trama de amor. A história de Eros e Psiquê nos remete a pensar
no amor iniciado por uma manipulação materna que toca a imaturidade
individual dos personagens e que, posteriormente, passa a representar
um amor maduro entre eles, inclusive no amor de Afrodite. A prova da
imaturidade afetiva de Psiquê estaria na negação de suas sensações
íntimas, se perdendo de si mesma e buscando fora a referência de seu
afeto. Da mesma forma, Eros restringe o seu contato por um acordo
incoerente.
Segundo Bulfinch (2001), a história nos conta que Psiquê era a
filha mais nova de um rei. Sua beleza indiscutível fez com que o povo a
cultuasse como sendo a encarnação de Afrodite. A deusa Afrodite se
sentiu ameaçada em ver esvaziar o seu templo e o ódio tomou conta de
seus pensamentos. Arquitetou um plano onde manipularia o seu próprio
filho para derrotar Psiquê. Induziu-o a acertar a bela princesa com uma
de suas flechas para fazê-la apaixonar-se pelo ser mais horroroso da
terra. Porém, no caminho da missão, Eros feriu-se com a própria seta e
contaminou-se com o ‘vírus’ da paixão.
O deus do amor mandou conduzir a princesa ao seu palácio.
Quando anoiteceu, Eros apareceu e tornou a linda princesa sua mulher.
Na possibilidade do sol nascer, desapareceu nos céus, porém, antes a
faz prometer que nunca procuraria ver seu rosto. Assim viveram por algum
tempo e Psiquê começou a sentir saudades da família. Pediu ao seu
misterioso marido para ver as irmãs. Atendida pelo amante, estas
morreram de inveja ao ver a suntuosidade e felicidade dela. Insinuaram
para que ela buscasse saber quem era o marido, pois poderia estar
casada com uma terrível serpente. Confusa, Psiquê aceitou as idéias

33
das irmãs invejosas. Em uma noite, logo após entregar-se ao marido,
esperou que ele adormecesse. De punhal e lampião nas mãos aproximou-
se e teve a mais bela visão que nunca havia contemplado e, vendo as
flechas, logo entendeu que estava casada com o deus do amor.
Assustada, feriu-se e derramou o óleo do lampião no ombro de Eros que
acordou. Decepcionado pela quebra da promessa, sumiu pelos céus e
tudo em sua volta desapareceu.
Grávida, apaixonada e abandonada, percebeu que era feliz. Psiquê
não valorizou suas sensações, perdeu-se de si mesma e foi presa fácil
para as manipulações das irmãs. Seu desespero foi tão grande que atirou-
se num rio, sendo devolvida à terra. Saiu, então, à procura do amado.
Tais fatos chegaram ao conhecimento de Afrodite que possuída
de ódio foi repreender o filho queimado. Psiquê resolveu pedir a ajuda da
sogra, onde esta vendo o desamparo da princesa impôs quatro severas
missões.
A primeira foi separar por espécie uma grande quantidade de
grãos misturados em uma única noite. Desolada, foi ajudada por formigas
que fizeram todo o serviço e no dia seguinte tudo estava pronto para o
desgosto de Afrodite.
A segunda missão foi trazer alguns flocos de lã de carneiros
violentos e carnívoros cuja mordida continha um poderoso veneno letal.
À beira do rio, muito desiludida e desanimada, a bela princesa ouviu os
caniços da margem que lhe diziam para que voltasse à tarde, logo depois
que os animais tivessem saciado a sede, pois os flocos de lã ficavam
presos na vegetação. Prontamente assim fez para desespero da sogra.
A terceira missão era mais perigosa. Seria preciso encher um
recipiente de cristal com as águas escuras da fonte que alimentava os
rios Cócito e Estige, que era guardado por terríveis dragões. Chorosa
pelo seu triste fim, comoveu o austero rei do Olimpo, Zeus, que enviou
sua águia com a jarra no bico para dar um mergulho no leito e enchê-la.
O sucesso de Psiquê fulminava Afrodite.
A quarta missão tinha o peso do ódio mortal da deusa do amor.
Ela deveria descer ao Hades (mundo dos mortos) e pedir à Perséfone
(rainha das trevas) um pouco do creme da beleza imortal e colocá-lo em
uma caixinha. Psiquê percebeu que sua hora final havia chegado e decidiu
se atirar do alto de uma torre. Ao chegar ao topo, surpresa, a torre lhe
indicou a forma de obter o que queria. Deveria ter dois óbolos (pequena
moeda grega) na boca e um pão de mel em cada mão. Os óbolos
pagariam a viagem de ida e de volta na barca de Caronte e os pães de
mel para distrair Cérbero, o cão de três cabeças que guardava o Hades,
na entrada e na saída. Não deveria aceitar nada oferecido no banquete
da rainha, a não ser o pão preto e não deveria abrir a caixinha.

34
Ao retornar, sua curiosidade foi imensa que abriu a caixa contendo
o creme que tornava as deusas eternamente belas. Foi envolvida num
sono profundo e eterno. Eros, já recuperado, saiu a procura da amada
com a permissão de Zeus. Ao encontrá-la, conduziu-a à mansão dos
deuses onde Psiquê se tornou imortal, uniram-se e foram abençoados
por todos os presentes, inclusive Afrodite, que foi convencida pelo rei do
Olimpo. Tempos depois nasceu a filha do casal chamada Volúpia, nome
que significa prazer e bem-aventurança.
Desta pequena visão do amor grego, podemos entender porque
Freud deu o nome de zona erógena aos segmentos do corpo que estão
ligados às fases de desenvolvimento psicossexuais. Na realidade, estas
áreas são assim denominadas porque são possíveis de se carregar de
energia para buscar uma descarga, proporcionando o prazer. De um lado
temos a descarga somática das áreas (Eros) e de outro a sensação de
gratificação afetiva (Psiquê) num processo de unidade funcional.
Assim, a maturidade para o amor refere uma igualdade dos
aspectos corporal e psicológico, isto é, para além do sexual. Nesta visão
o “processo sexual é um processo biológico produtivo per se’ na
procriação, no trabalho, no prazer de viver, na produtividade intelectual,
etc.” (REICH, s/d, p. 19)
Fazendo um paralelo da potência orgástica (capacidade do
organismo para a entrega na vibração do prazer) com o amor, onde ambos
referem uma forma para a vida, destacamos Gibier (2000, p. 60):

Sobre a questão da apreensão da potência orgástica, sabemos


que tal potência atravessa o sujeito nos diferentes campos vitais,
tais como sexual, afetivo, intelectual, criativo, político, histórico, etc.,
não sendo portanto uma vivência exclusiva dos genitais.

Reich (1989), ao ressaltar o indivíduo saudável, o caráter genital


ou o indivíduo que é capaz de amar, descreve-o em várias áreas da vida
onde a naturalidade se faz presente com expressividade afetiva de prazer
no que se refere a si próprio, ao outro e ao meio ambiente.
Fazendo uma rápida leitura de algumas formas caracteriais
proposta por Reich (Op. Cit.), ressaltamos como cada um constrói o seu
modo de amar e como desenvolve seu desejo de ser amado incluindo a
condição somática e afetiva. O caráter é a forma especifica de uma pessoa
reagir, havendo uma correlação entre os traços comportamentais,
pensamentos e sentimentos do adulto com os impulsos reprimidos na
infância. Portanto, essa atitude de reação provém das experiências da
infância.
A maneira de agir – o caráter – se formou como uma proteção do
Ego, onde este utiliza a neuromuscularidade, para conter as necessidades

35
internas instintivas e imediatistas do Id e, também, em relação ao mundo
externo em sua realidade coercitiva. Isto resultará em uma forma
estabelecida ou endurecida de ser. A flexibilidade para a expressão do
afeto para viver, nesta formação, é reduzida. As reações de contração
são automatizadas e impedem o livre fluir da corrente energética do corpo
e da sensação afetiva. Para amar é necessário um organismo que pulse
e suporte a expansão do prazer nas diversas situações de vida.
Ao falarmos da construção da forma individual de amar, queremos
nos referir aos tipos de personalidade que se estruturou a partir da infância.
A característica histérica é aquela que desenvolveu uma forma sexual
incoerente, pois a agilidade comportamental é pautada pela sensualidade
sedutora artificial, onde esta manifestação aparece muito cedo na vida
infantil. Na vida adulta, a excitação não acompanha a satisfação, o que
se manifesta como ansiedade. A instabilidade de reações e idéias
aparecem freqüentemente e a forma de amar terá um cunho fantasioso e
exagerado. De modo geral, desejará do mundo um amor imenso ou a
desilusão será grandioso demais. Este tipo está fixado na fase genital
com vinculações incestuosas da fase anterior do desenvolvimento. Ou
seja, seu amor original relativo aos pais não se deslocou para fora do
círculo familiar. As fases anteriores foram vividas relativamente de forma
adequada, porém ao chegar na genitalidade ocorreram repressões fortes
que deformaram o amor natural com cunho sensual em algo perigoso. O
amor incestuoso ficou reprimido e a manifestação energética se mantém
livre no organismo de modo que “genitaliza” tudo com um cunho pré-
genital (infantil). Mesmo que encontre um ‘grande’ amor, este não terá a
possibilidade de prazer em função da base de angústia pelo vínculo afetivo
incestuoso. A atitude sexual exagerada nada mais é que a defesa à
entrega na sexualidade e no amor. A busca constante do amor sempre
perfeito é uma das formas mais presentes deste tipo.
A característica fálico-narcisita apresenta-se com uma
autoconfiança acentuada. Proporciona uma impressão constante de um
peito de aço e que pode resolver tudo, às vezes passar por cima de
todos. O exibicionismo e o desdenho agressivo é freqüente em sua
conduta, onde este se opõe à gentileza. Seu componente narcísico é
demasiado e muito maior para valorizar o outro em uma relação afetiva, o
que o leva a uma atitude sádica ou dissimulada. O “amor” é apenas uma
forma de demonstrar como é bom no que faz e para se sentir orgulhoso
de si, pois tudo se resume no ato sexual como forma de desempenho
exibido.
A coragem agressiva e combativa é um marcante em suas
decisões e sua defesa é exatamente do medo de entregar-se, pois sugere
passividade e fraqueza. A potência eretiva é o marco em sua

36
personalidade, contudo o prazer está comprometido, onde o pênis serve
como instrumento agressivo e não como expressão de afetividade
amorosa pelo encontro. As formas de amor são sempre acompanhadas
de menosprezo pelo outro, embora sejam tipos bem desejados pela sua
aparência atlética. No seu desenvolvimento, o Ego se identifica com a
característica fálica (maior autonomia) porque a erotização anal (menor
autonomia) acabou de ser abandonada. Esta fixação no orgulho e na
autoconfiança do representante de poder-prazer (falo) é uma defesa em
função de não ter atingido uma genitalidade adequada. Então, a
manutenção das energias nesta fase fálica com componente narcísico
se acentua como uma defesa contra o retorno à fase anteriormente
deixada: a característica afetiva da passividade (fase anal). Por isso há
sempre o sentimento do medo de ser atacado que é reprimido, o que
pode apresentar um ar superficial de vergonha ou reserva.
Na infância há sempre uma frustração aos empenhos
heterossexuais no auge do impulso no momento da conquista do outro
pela exibição fálica. Uma mãe rigorosa que não acolhe adequadamente
estes investimentos do filho e os reprime veementemente e, do mesmo
modo, no caso do pai, em relação à filha. Haverá uma identificação com
a principal pessoa frustradora, onde o outro será sempre desejado, mas
nunca conquistado, restando apenas um sentimento narcisista em função
do medo do amor ao outro, mas também se protegendo da passividade
controladora da fase anterior.
A característica compulsiva é aquela que mais precisamente
consegue conter os impulsos como proteção do Ego. O traço repetitivo
de controle é maciço. A ordem exagerada está presente em todos os
seus comportamentos e a liberdade para amar é algo que o incomoda
muito. Há uma falta de expressividade, porém é compensado pela
minuciosidade desnecessária ou generalizada para as tarefas sem
importância. Seu comportamento geral é artificial ou formal. Há também
um bloqueio afetivo, onde o controle do que pensa e sente está sempre
presente como forma de manter quieto as idéias que estão reprimidas.
Em geral é sempre mal intencionado, seus pensamentos de vingança
são mordazes e representam uma necessidade de manter-se escondido.
Por isso, sua aparência de autodomínio está presente sobre qualquer
coisa, mostrando-se sereno ou indiferente quanto às suas manifestações
de amor. Uma forma de compensação é dar atenção a todos os fatos
indiscriminadamente com um ar de crítica em função da severa repressão
vivida na aprendizagem do controle (fase anal). O erotismo anal, período
de construção do Ego por volta do segundo ou terceiro ano de vida, é
vivenciado com uma rigidez de controle realizado, em especial, pela mãe.
O amor (prazer) por aprender a dominar e controlar suas produções

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corporais (fezes e urina), que deveria ser acolhido maternalmente,é levado
ao exagero da severidade externa, ou seja, a vontade do outro sobre o
seu corpo. Mais tarde, na puberdade, não haverá carga suficiente para a
sexualidade genital, onde retornará ao processo anterior de conter todos
os seus sentimentos com um corpo já encouraçado, no qual a forma é a
indiferença. O sadismo dirigido contra a figura feminina é reprimido e
levará ao comportamento narcisista valorizando a estética e condutas
éticas ou moralistas acentuadas. Os afetos são separados do
pensamento. Aqui, não há amor a dar nem a receber, pois as atuais
possibilidades de expressividade e movimento corporal fazem reviver as
excitações que teve que controlar forçosamente e que acarretou angústia
pelo medo da punição. O amor não pode acontecer porque a ordem de
controle plantada pelo mundo externo sobre o Ego, inicialmente em
formação, ainda é obedecida. Assim, a ambivalência é um traço
constante, pois o amor e o ódio estão sempre presentes em relação ao
outro de forma também a ser controlado.
A característica masoquista é aquela que se apresenta com um
sentimento subjetivo constante de sofrimento, de forma a se queixar
somado ao ato de aplicar pena, dor e humilhação a si mesmo, além de
uma grande tendência para atormentar os outros. Seu comportamento
não tem muito movimento, sendo desajeitado nas relações com as
pessoas. Este caráter deseja o prazer, mas antecipa o seu sofrimento
com medo de um dano maior, ou seja, o medo de uma punição grave é
substituída por uma menor. As provocações no comportamento servem
para enfurecer o outro que lhe responde com um ataque e, desta forma,
esconde o que realmente sente. Isso pode ser traduzido: “Você é mau,
me trata muito mal, não gosta de mim, não me ama... por isso te odeio,
sou infeliz!”. Isso reduz o ódio interno e é “justificado” pelo comportamento
do outro. Ele tende a provocar os objetos ‘amados’ para esconder seu
desapontamento.
Durante o desenvolvimento afetivo houve muito amor, porém não
foi satisfeito suficientemente. Um grande desejo de ser amado acompanha
uma grande decepção. Na verdade ele testa para saber se é ou pode ser
amado. O que realmente quer é ser amado, mas pelo medo, aparece a
necessidade de castigo. Isto resulta em: “Olhe como eu sofro... Você
precisa me amar...” Tenta obter amor inadequadamente pela provocação
e desafios para minimizar a angústia. É o medo de ser abandonado que
foi vivenciado na tenra infância. Tende a captar atenções com sofrimentos
alheios e de sua própria dor, onde se sente ‘acolhido no amor’.
O sentido tátil deste tipo é marcante. O erotismo da pele é
especial. Beliscões, chicotadas e ser amarrado oferecem uma forma de
proximidade cutânea e que não tem o sentido de provocar a dor, mas de

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sentir o ardor. A pele aquecida pela vasodilatação periférica descarrega
a energia aliviando a angústia. Não ser amado é ficar desamparado e
sentir frio, ou seja, um sofrimento maior que ser atacado. O proteja-me é
substituído pelo bata-me. Não suporta os elogios em função de uma
grande inibição e a falta do componente narcísico no Ego, sendo
autodepreciativo. Os elogios o levam a uma grande excitação fálica
impossível de ser tolerada por sua estrutura mais passiva que, ao gerar
angústia, tende ao sofrimento. A satisfação tão desejada é decodificada
como ameaçadora de sua integridade e, pelo medo da punição severa e
oposto à satisfação, o desprazer aparece como resultado de seu grande
desejo. Então: “Bata-me para que eu não me sinta culpado por desejar,
excitar e amar!”
Em resumo, Reich (1989, p. 233) destaca que:

O caráter histérico desenvolve angústia em lugar de uma prova


franca de amor; o caráter compulsivo manifesta ódio e sentimentos
de culpa; o caráter masoquista demonstra e exige amor de maneira
sinuosa, através da queixa, provocação ou mostrando infelicidade.
Todas essas variadas formas estão totalmente de acordo com as
respectivas gêneses desses tipos: o caráter histérico desenvolveu
sua genitalidade por completo, mas ela está misturada com o medo;
o caráter compulsivo substitui sua genitalidade pelo sadismo fálico;
o caráter masoquista chegou à genitalidade pelo exibicionismo,
depois reprimiu-o e agora persiste na manifestação distorcida de
amor.

Em todas estas formas caracterológicas descritas pelo autor


(Op. Cit.), podemos pensar numa mãe (Afrodite) que não permitiu ao
outro vivenciar o amor em função de seu próprio amor comprometido.
Dessa forma, o amor não acontece e resulta em circunstâncias em que
o homem parece cada vez mais perder a humanidade, a simplicidade e a
afetividade, aspectos marcantes da vida adulta e que expressam o
exercício do amor.
O caráter genital ou maduro é aquele que exercita o amor
saudável (do latim sallutis, refere ‘estado são’ ou ‘salvação’) por ter passado
pelo processo de desenvolvimento neuro-afetivo adequadamente, isto é,
com boas resoluções nas fases de maturação/construção de seu ser,
eliminando angústias, conflitos e as repressões ocorridas, atingindo uma
genitalidade (de estrutura afetiva e não somente de órgão genital) natural
que propiciará uma vida de qualidade em todos os aspectos onde o amor
possa se expressar.
Essa possibilidade de maturidade ocorre pela vivência da
afetividade sustentada pela maturação neural na direção céfalo-caudal.
O desenvolvimento programado pelo biológico mantém sua trajetória
natural, desde que adequadamente atendido, e o psicológico depende

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das condições coerentes e saudáveis da pessoa que cuida da criança
neste período de relação simbiótica (psicológica) até maturar o ser.
“Na construção para o amor”, é preciso valorizar a vida e o afeto
desde a concepção, onde o planejar e o desejar a criança gera um meio
acolhedor no útero em que ela reage (não pensa) a tal condição. O parto
deve ser encarado como um momento de grande prazer para dar ao
neonato o registro corporal de aceitação no meio externo. A amamentação
como um momento de total doação e deve ser realizado com o prazer de
nutrir o outro de alimento e afeto, onde o lactente recebe com igual prazer.
O desmame, momento de se desligar do outro, é necessário que aconteça
com segurança para que o bebê possa conhecer novas possibilidades.
A individualização, pelo reconhecimento de seus desejos centrados no
EU em construção, deve ocorrer com o auxílio da tranqüilidade materna
e paterna. A socialização, pela diferenciação do outro, deve permitir lidar
com o outro que pensa e sente além de si. A sexualidade, em vários
momentos desta fase, deve ser vivida como um processo de descoberta
de seu corpo e sensações agradáveis pertinente ao humano, onde a
mãe num primeiro momento, torna o objeto direcionado dessa construção
até o momento do deslocamento para fora da família em relação ao que
foi construído. O estudo é vivido como algo que contribui para sua formação
e lhe possibilita o conhecimento da vida e de sua vida. O pensamento
sobre o que lhe cerca é sempre orientado para a objetividade e a
coerência, não tentando nunca impor suas idéias. A ação está em
harmonia com o pensamento e a construção de melhorias de si, do outro
e do social. As questões de amor à natureza e a ecologia são sempre
valorizadas e vistas como o homem pode ser preventivo em suas pequenas
atitudes. A religiosidade é vivida sempre com um sentido de religar suas
sensações à essência da natureza numa construção de identidade, não
sendo, portanto, místico ou mecanicista, mas sim coerente. A morte
não lhe causa medo, pois sabe ter prazer na vida. Uma vida saudável é
capaz de amar, pois é “uma vida econômico-sexual satisfatória de trabalho
e amor”. (REICH, 1989 p. 245)
Assim, o mesmo autor (Op. Cit., 2003), ressaltando as
características construídas longe do “phatos” (sofrimento) para o amor
na vida, comenta que o ser humano saudável percebe a si mesmo e ao
mundo que o circula, e nisto, há um colorido em suas sensações que o
leva a uma ação coerente conduzindo a uma vitalidade do funcionalismo
somatopsíquico. Ele se torna vivo, brilhante e capaz de lidar com os
problemas e com o prazer. Progenitores com esta construção vêem os
filhos como crianças alegres, as educam com harmonia e planejamentos
de futuro, valorizando suas questões ‘simples’ da infância. O educador a
vê como um ser em movimento e em desenvolvimento a ser direcionado

40
sem repressão. O prazer e o amor são vividos sem ansiedade ou culpa
porque há um fluir de sensações e percepções no corpo e para além
dele. É o encontro e a entrega com o outro porque há o mesmo consigo
próprio. Isso foi possibilitado por uma construção saudável desde a vida
intra-uterina até a afirmatividade/assertividade na descoberta do mundo
fora do lar. Este saberá amar, odiar, perdoar e ter medo do que realmente
justificar o seu sentimento. Portanto, podemos dizer que este ser participa
da essência da vida que é funcionar: tensão – carga – descarga –
relaxamento = amor. Assim deveremos construir os nossos filhos!

A cada dia que vivo,


mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que
não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
Carlos Drumond de Andrade

Referências
ANDRADE, C. D. Amar se aprende amando. 6ª ed. Rio de Janeiro:
Record, 1986.
BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia – histórias de Deuses e
Heróis. 13º ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
BRANDÃO, J. S. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, Vol. I, 1994.
GIBIER, L. Epistemologia e o campo das psicoterapias corporais. In:
MALUF Jr., Reich: o corpo e a clínica. São Paulo: Summus, 2000.
REICH, W. A biopatia do câncer. Curitiba: Edição especial do Centro
Reichiano, Vol. I, (s/d)
REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
REICH, W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Flávio Roberto de Carvalho Santos é Psicólogo e Mestre em Sexologia


Clínica pela Universidade Gama Filho/RJ, trabalha com a abordagem
corporal e é professor de psicologia nos cursos de graduação em
Psicologia e Educação Física das Faculdades Integradas Maria Thereza
(Famath) e Pós-graduação em Educação do Centro Universitário Plínio
Leite – UNIPLI – Niterói/RJ/Brasil.
E-mail: psiflavio@hotmail.com

41
O ESTADO DA ARTE DO AMOR
LOVE’S STATE OF THE ART

Angélica Góis Morales


Maria da Salete Sachweh

Resumo
O presente artigo traz a essência do amor no contexto do estado da arte,
com algumas reflexões sobre o ato de amar diante do que nos cerca.
Buscou-se inicialmente traçar algumas visões e formas do amor,
recorrendo aos gregos e hindus e a autores como Boff, Heemann,
Maturana, Conche, Schüller, Fromm, Max Scheler entre outros, como o
próprio Reich, fomentando um olhar múltiplo sobre a temática do AMOR,
e sua relação com o meio.
Palavras-chave: amor, relação de afeto.

Abstract
This paper discusses the essence of love in a state of the art context,
providing reflections about the act of loving, considering our environment.
The authors contrast some views and forms of love referring to the Greeks
and Hindus and to authors such as Boff, Heemann, Maturana, Conche,
Schüller, Fromm, Max Scheler and Reich in an attempt to provide a
multiangle perspective of love and its relationship with the environment.
Keywords: love, fondness’ relationship.

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Quem nada conhece, nada ama. Quem nada pode fazer, nada
compreende. Quem nada compreende, nada vale. Mas quem
compreende também ama, observa, vê... Quanto mais conhecimento
houver inerente numa coisa, tanto maior o amor... aquele que imagina
que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas (PARACELSO)

A essência deste trabalho – o amor, será tratado como aquele


que estimula a vitalidade; orienta e organiza o desenvolvimento dos seres
humanos e “amorifica” os laços com o ambiente natural; já que as
discussões apresentadas no desenrolar deste artigo, permeiam a
problematização: de que forma o amor pode contribuir no encantamento
com o meio?
Por natureza inesgotável, cada geração de seres, cada época
histórica define estilos e formas de amar. Do amor na antigüidade greco-
romana ao amor romântico e amor nos dias atuais, modernos/pós-
modernos, o mistério continua: intacto, instigante e enigma mágico da
existência. O amor permite tantas interpretações quanto é o número
daqueles que já passaram pelo planeta, identificados pelas condições
humana, suas dores, alegrias e pela constatação de que a vida vem
desprovida de manuais de orientação (MADALENA, 2004).
Podemos dizer que desde a origem de sua existência, o ser
humano se viu como um ser assustado, estranho, um ser diferente dos
outros animais na imensa vastidão do universo. Percebendo a grandeza
do universo e a pequenez dos seres humanos, viu-se como um ser diferente
dos demais, um ser único, solitário e temeroso, amedrontado com tudo
que via e com sua capacidade de criar, desenvolver e alargar espaços.
Motivos pelos quais se viu forçado pela própria Natureza a romper com as
determinações biológicas do puro instinto, permitindo que a vida tomasse
consciência de si mesma por meio da possibilidade de desenvolvimento
da razão.
Razão esta, que permitiu e permite ao ser humano, ter ciência
das “coisas” e das ações, de modo que sua consciência imaginativa o
torne capaz de entender a possibilidade de transcender o instante presente,
ao mesmo tempo em que tem consciência de que em determinado
momento sua vida chega ao final, pois, involuntariamente descobriu a
morte. Assim, a razão, uma vez deduzindo a finitude humana, viu-se presa
à dicotomia irresolúvel entre vida e morte. E pressentindo jamais haver
tempo suficiente para concretizar todas as suas ambições de vida,
experimentou então, a sensação fatídica da impotência e tentou entender
que a morte pode ser o fim da vida, mas não do relacionamento, pois
mesmo que a morte chegue, o amor persiste, de modo que quem se vai,
deixa entre os outros o amor em forma de saudade (GOYA, 1999).

43
No entanto, isto nos causa medo, medo do medo, medo da morte,
o medo de viver só durante a vida, agora é sabido como finito. É este
medo que impulsiona o indivíduo a encontrar no seu semelhante o conforto
de não agir instintivamente, mas de agir e reconhecer-se humano, como
um animal político e social. Por isso, sempre estamos “dançando em
torno do fio que liga a vida e morte”, pois, “num dia estamos vivos, no
outro podemos estar mortos” como cita Volpi (2002, p. 88), e ainda
acrescenta que para Reich, “vida sempre foi sinal de expansão e a morte,
de contração”.
Pelo medo de suas próprias ações e contradições o ser humano,
se une a diferentes grupos e ali cumpre as exigências determinadas pelos
grupos a que pertence, fazendo de tudo para evitar a sua exclusão ou
isolamento social. Assim é possível entender “consciência da separação
humana, sem a reunião pelo amor, [torna-se] a fonte da vergonha. É ao
mesmo tempo, a fonte de culpa e ansiedade” (FROMM, 1988, p.18-19).
Isto ocorre porque o ser humano não é apenas um membro de determinada
sociedade, mas também um membro da humanidade e quanto mais ele
se torna humanista, mais ele se solidariza de maneira racional e
emocionalmente com seu próximo e sua indiossicracia, tornando sua
existência forte e autônoma o bastante para superar o ostracismo social
de sua época.
Como argumenta Heemann a evolução supriu o ser humano “com
um vasto repertório de condutas para relacionar-se com o mundo e consigo
mesmo” (2001 b, p.12). E diante as diversas esferas de relacionamento,
houve a necessidade de um “plano normativo”, no qual nós, parte desta
sociedade, tornamos-nos mais antropocêntricos, insinceros, e muitas
vezes hipócritas, já que nossas atitudes se manifestam por meio de um
trato social, direito, moral entre outras.
Tratando-se de ações, Goya (1999, p. 1) complementa que “a
capacidade de agir de acordo com a própria consciência depende do grau
em que o homem transcendeu os limites de sua sociedade e tornou-se
cidadão do mundo”.
É a partir desses limites e contradições que desencadeiam os
“dramas de consciência” (expressão utilizada por Heemann) no qual “é
na raiz desse modo de agir [do ser humano] que residem os grandes
dilemas, em especial, quando a conduta humana é submetida ao crivo de
uma concepção ética que entra em conflito com os sentimentos”
(HEEMANN, 2001b, p. 22).
Porém, ao se deparar com esses dilemas, o ser humano, ao
transformar-se cidadão do mundo, não perde sua essência, pois,

(...) a raça humana, em sua infância, sente-se ainda unida à natureza.


O solo, os animais, as plantas ainda são o mundo do homem. Ele

44
se identifica com os animais e isto se expressa pelo uso de
máscaras de animais, pela adoração de um totem animal ou de
deuses animais. Quanto mais, porém, a raça humana emerge
desses laços primários, tanto mais se separa do mundo natural,
tanto mais intensa se torna à necessidade de encontrar meios
novos de fugir à separação (FROMM, 1988, p. 20)

Percebe-se que o ser humano está intrinsecamente ligado à


natureza, ou ainda, não só está inserido nessa natureza, como recorre a
ela na busca de indicativos finalísticos para a sua conduta (HEEMANN,
2001a).
Para Platão, a filosofia se relaciona com a sabedoria de modo a
servir como instrumento que propicia ao ser humano, elementos para a
recordação de sua verdadeira natureza, a qual entre os gregos foi
identificada como fundamento da natureza humana em busca do prazer.
“Nesse sentido, nada melhor do que o amor (...) Na influência do amor,
quem ama percebe a vida e a si mesmo de uma maneira diferente e
saborosamente mais completa. Contempla a beleza, no fruir de uma
sensação de unidade e na percepção viva de um equilíbrio entre a finitude
e o atemporal” (MADALENA, 2004).
Entendendo o amor como uma das grandes motivações presentes
na vida do ser humano, nota-se que a emoção, o sentimento e o afeto
podem ocupar antes o primeiro plano de seu cotidiano, possibilitando a
sua realização em nível intra e transpessoal num convívio mais satisfatório
com a racionalidade emergente, pois o verdadeiro amor não é puramente
sentimental. Ele não deixa de fora a razão e a vontade. Empenha todas
as forças do ser humano, mas deixando-o livre, soberano de si, não
governado por seu amor, mas governando seu amor. O verdadeiro amor é
filosófico, porque dele fazem parte a meditação, a reflexão sobre a vida: é
vivido, de fato, com a consciência da sua significação e da sua importância,
como o que conta mais que todas as outras coisas que a vida pode
proporcionar, e todas as atividades são orientadas para o sucesso no
mundo (CONCHE, 1998, p. 9).
Entretanto, há uma dificuldade em estabelecer o amor, mantê-lo
e alimentá-lo ao longo do tempo, isto porque na sociedade contemporânea,
o amor está passando por um período de decadência, porém, este é um
pensamento ocidental, já que o “homem moderno é alienado de si mesmo,
de seus semelhantes e da natureza” (FROMM, 1988, p.104), em que o
EU sobrepõe o EU, a existência de um nós.
Desta forma, o ser humano se individualiza e se ama, a si próprio.
Tal comportamento tem muitas razões enraizadas no desenvolvimento da
sociedade moderna, de modo que, para as últimas gerações, o conceito
do amor romântico tornou-se quase universal no mundo do Ocidente, e o

45
novo conceito de liberdade no amor está associado no apetite da compra,
na idéia de uma troca mutuamente favorável e lucrativa.
Por isso, o amor está entre uma das palavras mais desgastadas
de nossa linguagem, porém, uma palavra muito utilizada por aqueles que
estão apaixonados. No entanto, este termo nos remete para uma
pluralidade de sentimentos que diferem entre si tanto pela sua
aplicabilidade, significado, quanto pelo seu objeto ou ainda pela sua função
(finalidade).
Portanto, há uma necessidade essa pluralidade do amor de
recordar alguns mitos criados por nossa cultura que enfatizam o amor e
suas esferas da descoberta prática da arte de saber amar. Diante isto,
traçaremos o estado da arte do amor, abordando as escalas e os níveis
de amor, bem como nas visões grega e hindu entre outros.

Estado da Arte: escalas, visões e níveis de amor

O estado nascente do amor fomentou no ser humano a


descoberta de diferentes níveis da consciência que há em si e diferentes
níveis da escala do amor. Estes níveis nos permitiram uma maior
perspectiva de aprofundamento da nossa própria característica amorosa,
para conosco, com os outros e com aquilo e aqueles que nos rodeiam,
companheiros e companheiras com quem vivenciamos de maneira mais
contundente as diferentes escalas dos níveis do amor (LELOUP, 1998).
Ao nascermos e morrermos, precisamos dos outros, mas
precisamos destes outros muito mais, no meio do que há entre o nascer
e o morrer. E é neste meio, que encontramos o amor, próprio da natureza
humana que se apresenta durante a vida em diferente movimento
ascendente: a libido, a paixão, a compaixão. São formas que ascendem
e nos atravessam por toda a vida.
As variadas formas de amor, muitas vezes podem causar conflitos
pelo modo de misturá-las, como os problemas sexuais. Por exemplo, o
incesto é uma mistura deste amor muito pessoal e muito belo de um pai
ou de uma mãe por seu filho, com o amor erótico de um homem ou uma
mulher para com sua bem-amada ou seu amante. Assim, percebe-se
que as diferentes relações entre os seres humanos geram conflitos,
trazendo à tona problemas de relacionamentos diante de suas esferas.
Para tanto, será apresentado os diferentes nomes e níveis de
amor, bem como as suas especificações para uma melhor compreensão
das diversas formas de amor.
De acordo com Leloup (1998), a escala dos níveis de amor de
origem grega, podem ser apresentados da seguinte maneira:

46
1. Amor Pornéia (porneia): na primeira etapa da vida humana encontramos
Pornéia. Amor voraz, devorador, é o amor do bebê por sua mãe, é o amor
de consumo. Por se amar demais o outro - come-o. É interessante observá-
lo em bebês, porém, agressivo quando visto em diferentes etapas da vida
adulta. “A Pornéia é uma forma de amor que precisa ser respeitada e que
ocorre em um momento de nossa evolução. Para crescer, temos
necessidade de nos nutrirmos do outro” (LELOUP, 1998).

2. Amor Pathé e Manía (Pate, Mania): Conjunto de palavras nascidas na


Grécia Antiga Pathé (Pate) palavra que ao ser traduzida tem seu significado
na palavra paixão, mas, etimologicamente seu significado vai ter maior
representação nas ciências biológicas, pois é o significado puro da
patologia, enquanto que Manía tem até hoje o mesmo significado para
nós = Mania. Este conjunto de palavras foi descrito pela primeira vez por
Ovídio em “A arte de amar” que é a arte, porém é uma arte de desviar, de
evitar gostar, de evitar querer, de tornar-se amoroso. Tanto para os antigos
gregos quanto para os romanos estar em estado amoroso é estar
contagiado por uma doença conhecida por aqueles povos como -
possessão. Portanto, o homem deve passar sua vida evitando cair neste
perigoso nível do amor, pois estas formas de amor são formas de
possessão. Possessão esta, que é a paixão e que na tradição grega
pode levar o indivíduo ao auge da doença, quando visto como um maníaco-
depressivo. Diferentemente do primeiro, este amor não é de consumo,
não é um amor devorador, mas é um amor de posse, de dependência e
também, uma necessidade. Aqui, o amor não é um dom, é uma
necessidade, uma solicitação.

3. Amor Éros (Eros): Éros significa Deus, Deus jovem, amor jovem, forma
evoluída de amor que caracteriza a sexualidade adulta e apresenta-se
pelo desejo de um para com o outro. Designa daí, duas sub-
denominações entre aqueles que se amam: erastes que traduzido significa
amante, “(...) se no uso corrente amante não conotasse contato físico,
quebra dos compromissos conjugais, acepções insuficientes à palavra
grega” (SCHÜLLER, 1992, p. 7). A segunda palavra é eromenos, que para
Schüller (1992, p.7), é o “(...) substantivo simetricamente oposto a erastes
e normalmente traduzido por amado. Amor e amado vêm, entretanto, tão
impregnados da sentimentabilidade do lirismo ocidental que nos conduzem
a noções completamente alheias ao texto platônico.

4. Amor Philia (Filia): tem a palavra e o significado bastante interessante,


pois representa amor sábio (filosofia), ao mesmo tempo amor aos seres
humanos (Filantropia). Nota-se que na Grécia antiga havia diferentes

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formas de Philia e além destas categorias o amor philia divide-se em:
- Amor Philia Physiqué: o carinho, o afeto, o amor que se tem pelos
parentes. É também, o amor da mãe, do pai, dos filhos pelos pais, dos
irmãos pelos irmãos, enfim está presente em todo ramo de parentesco.
Dificilmente compreendido, pois por vezes desperta entre aqueles que se
amam a inveja e por sua vez acende entre familiares o ódio que a tudo
destrói. Ao se referir a este amor Rousseau (citado por LELOUP, 1998),
dizia que: “um irmão é um amigo que a natureza nos dá”.
- Philia Zeiniqué: é o amor que representa o respeito pelo outro, é uma
arte de receber e de se dar aos que recebe e por eles é recebido no
centro da família, no lar. Diferentemente do amor entre parentes, tem
também um relacionamento profundo, de relações verdadeiras entre as
pessoas que se querem bem.
- Philia Etairiqué: amor que em muito se assemelha ao Plilia Zeiniqué por
ser considerado o verdadeiro amor-amizade entre dois Egos, duas pessoas.
É o amor que tem prazer de dar e de receber numa relação de extrema
confiança.
- Philia Erotiqué: representa também a amizade, o respeito. É um amor
que respeita a liberdade do outro, amizade profunda entre duas pessoas
que se querem bem. Madalena (2004) cita Aristóteles ao dizer que: “Um
Homem e uma Mulher podem se unir ao sentirem qualquer tipo de amor,
mas só permanecerão unidos se a Philia Erotiqué for o sentimento mais
profundo que um tem pelo outro”.
Ainda, segundo Leloup (1998) há outras palavras para designar o
amor em sua origem grega:
Amor Énnoia: dom, doação e, às vezes, devotamento. É uma
qualidade de amor que manifesta uma grande generosidade do coração.
É a libido, a energia vital que se manifesta ao nível do coração.
Amor Kháris: gratidão. Ter gratidão pela existência do outro.
Agradecer ao outro porque ele existe e maravilhar-se pela sua existência.
Amor Ágape: graça ou gratuidade, em que se ama por nada, por
causa de nada. Amar não a partir de sua carência, mas amar a partir de
sua plenitude. Amar não somente a partir de sua sede, mas amar a partir
de sua fonte, de sua fonte que corre.
Amor Storgué: ternura e harmonia. É uma maneira de Harmonizar
o seu ser com o ser do outro. Esta harmonia entre as pessoas tem como
conseqüência uma cura da terra. Os antigos chineses diziam que, da
harmonia entre o homem e a mulher, depende a harmonia do universo.
Não estamos mais ao nível da necessidade, da paixão, nem mesmo do
desejo. Estamos no mundo da harmonia e, pouco a pouco, nos
aproximamos da compaixão.

48
Visões do amor: um olhar múltiplo
As diversas formas de amor, descritas anteriormente, apresentam
diferentes escalas e níveis de amor, que de acordo com suas
especificidades recebem diferentes expressões no mundo grego, porém,
outras visões, também, foram estudadas e serviram como foco de
discussões e reflexões para o tema proposto, pois conforme o olhar
fecundo de Maturana, o amor é contemplado como um fenômeno biológico,
no qual acontece dentro do dinamismo da vida, desde as suas realizações
mais primárias, até as mais complexas no nível humano.

Na natureza se verificam dois tipos de acoplamento dos seres com


seu meio, um necessário e outro espontâneo. O primeiro, o
necessário, faz com que todos os seres estejam interconectados
uns aos outros e acoplados aos respectivos ecossistemas como
garantia para a sobrevivência. Mas há um outro acoplamento que se
realiza espontaneamente. Os seres interagem sem razões de
sobrevivência, por puro prazer, no fluir de seu viver. Trata-se de
encaixes dinâmicos e recíprocos entre os seres vivos e os sistemas
orgânicos. Não há justificativas para eles. Acontecem porque
acontecem. É um evento original da vida em sua pura gratuidade
(citado por BOFF, 1999, 110).

E Maturana ainda complementa que “quando um acolhe o outro


assim, se realiza a co-existência, e surge o amor como fenômeno
biológico. Ele tende a expandir-se e a ganhar formas mais complexas.
Uma destas formas é a humana” e nesse procedimento surge o amor
ampliado que é a socialização. É neste sentido que Maturana, ao se
referir ao amor ampliado, o faz como sendo este, a própria socialização,
e é interessante ressaltar que em sua concepção, sempre chegamos a
uma experiência nova e somos motivados para tal, pelo encontro com o
outro, “pela aceitação do outro ao nosso lado na convivência” (MATURANA,
1995, p. 263). O amor é o fundamento do fenômeno social. Assim, como
seres humanos e, portanto, sociais, o amor floresce na maneira particular
do viver e do com-viver com o outro, no estar junto por meio da linguagem,
das ações e das atitudes, de forma que o sentimento de benquerença e
de pertença coexistam em um mesmo contexto e nas caminhadas que
se tornam históricas.
Boff complementa que para que o amor possa conservar e se
expandir é necessário o cuidado essencial, pois “sem o cuidado não há
atmosfera que propicie o florescimento daquilo que verdadeiramente
humaniza: o sentimento profundo, a vontade de partilha e a busca do
amor” (1999, p. 111). Para este mesmo autor, cuidar é mais que um ato;
é uma atitude, no qual o ser humano está desafiado nos dias de hoje a
desenvolver as dimensões da sensibilidade, da cordialidade, da paixão,
da solidariedade, de envolvimento afetivo, entre outros (BOFF, 1999).

49
Corroborando com esta visão, Fromm (1988, p. 60) diz que o
amor também é uma “atitude”, uma orientação de caráter, que “determina
a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com
um objeto”, ressaltando que o amor é uma preocupação ativa pela vida. E
para este autor, o cuidado e preocupação implica outro aspecto do amor:
responsabilidade. “(...) A responsabilidade, porém, em seu verdadeiro
sentido é ato inteiramente voluntário; é a resposta que damos às
necessidades, expressas ou não, de outro ser humano”, no qual “ser
responsável significa ter de responder, estar pronto para isso” (1988, p.
39).
Portanto, para Erick Fromm, o amor é uma força ativa que une
aos outros, implicando certos elementos interdependentes, comuns a
todas formas de amor que são doação, cuidado, responsabilidade, respeito
e conhecimento.
Diante deste olhar,

respeito (respirece - olhar para) é a capacidade de ver uma pessoa


tal como é, ter conhecimento de sua individualidade singular. (...)
Respeitar uma pessoa não é possível sem conhecê-la; cuidado e
responsabilidade seriam cegos se não guiados pelo conhecimento.
O conhecimento seria vazio se não fosse motivado pela preocupação.
Há muitas camadas de conhecimento; o conhecimento que é um
aspecto de amor é aquele que não fica na periferia, mas penetra até
o âmago (FROMM, 1988, p. 40-41).

Conseqüentemente, o amor fraterno é tratado por Fromm, como


a mais fundamental condição do afeto, que alicerça todos os outros tipos
de amor, englobando por este, os sentimentos de responsabilidade, de
cuidado, de respeito e de conhecimento, buscando aprimorar a vida.
Como Erick Fromm, aborda o conhecimento como um aspecto
do amor, vale fomentar a discussão de Max Scheler, sobre a relação
entre amor e conhecimento nas visões grega, hindu e cristã.
Max Scheler aponta semelhanças e diferenças ao analisar o amor
entre os povos do ocidente e do oriente, mas diz que tanto para os gregos
quanto para os hindus, ”o amor é uma função que depende do
conhecimento” (1960, p. 12), no entanto, sendo os hindus, povos do oriente
(com um outro olhar sobre a morte), há neles outra visão do amor que vai
além da visão ocidental, pois para eles o amor é “a desrealização do
objeto que o eleva a um puro estado de imagem; para os gregos, ao
contrário, é o máximo grau de ser” (1960, p. 12-13).
Para os hindus, o amor é impulso do conhecimento feito pelo ser
humano, sendo ele, um processo, um ato progressivo, do desconhecido
para o conhecido; e o mandamento do amor será tanto para o meio natural
(plantas e animais) quanto para o ser humano, sendo um “ser-no-outro”,

50
um “não-eu”. Enquanto que para os povos da Grécia, o amor possibilita o
ser humano atingir a plenitude do ser; sendo visto como continuação
perceptível de um impulso de uma ânsia positiva de criação. E na visão
dos povos cristãos, o amor é um ato próprio do espírito divino e humano,
sendo mais beatificante do que a razão.
De acordo com Meister ao analisar Max Scheler, os conceitos
amor, conhecimento e ser humano surgem como uma forma de iluminar
os caminhos da sociedade contemporânea, pois “somente um pensamento
claro sobre as coisas, que se apresentam aos sentidos e que, depois
trabalhadas pela razão, pode dar uma saída para os problemas humanos”
(SCHELER citado por MEISTER, 1994, p. 39).
E levando em consideração ainda os estudos e trabalhos de Reich
e Lowen, em que evidenciam a Análise Bionergética como uma experiência
muito rica em que o ser humano constrói o seu “ser-essência”, no qual o
“fazer e o ter só têm sentido se estiverem conectados à formação de um
ser humano justo , ético, livre, libertário, cooperativo e capaz de perceber
e sentir que seu corpo é sua vida, que está integrado em sentir-pensar-
agir.” (REICH citado por JEBER, 2003, p. 15). Dessa forma, os seres
humanos têm suas atitudes fundadas no amor, no respeito, na cooperação,
na responsabilidade com o seu meio.
De acordo com o exposto, sabe-se que só o estado nascente do
amor nos permite criar um mundo em comum, possibilitando o encontro,
a descoberta e a magia do compartilhar com o outro. A relação de afeto
por sua vez, torna-se indispensável nessa relação, o AMOR, que vai
encontrando outros aspectos centrais como: cuidado e preocupação,
responsabilidade, respeito e o saber, tornando-os mutuamente
interdependentes.
A partir da trajetória traçada sobre o Amor, evidenciamos que é
necessário e crucial que o AMOR esteja permeando todas nossas ações
conosco mesmos, assim como ao entorno, o ambiente. E, como uma
recomendação das discussões e estado da arte do amor desenvolvidas
neste artigo, que a Educação Sócio-Ambiental deva ser um componente
nodal na orientação e organização do desenvolvimento dos seres humanos
com o ambiente natural, contribuindo na formação de pessoas mais
amorosas, sensíveis e concomitantemente, mais críticas, responsáveis
e justas.

Referências
BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra.
Petrópolis: Vozes, 1999.
CONCHE, M. A analise do amor. São Paulo, Martins Fontes, 1998
FROMM, Erich. A arte de amar. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1988
51
GOYA, W. O conceito de homem no pensamento ético de Erich
Fromm. Fragm. Cult. Goiânia. v. 9. n. 3. p. 653-671. maio/jun. 1999.
HEEMANN, A. Natureza e ética. Curitiba: UFPR, 2001a.
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Curitiba: Centro Reichiano, v. 1, 2002, p. 86-89.

Angélica Góis Morales é Graduada em Ciências Biológicas pela UNESP/


SP. Mestrado em Educação Ambiental pela FURG/ RS e Doutoranda em
Meio Ambiente e Desenvolvimento da UFPR/ PR. Professora do Centro
Reichiano, Curitiba/PR.
E-mail: angelbio@bol.com.br

Maria da Salete Sachweh é Graduada em História, pela Fafi/União da


Vitória/PR. Mestre em História da Educação pela Pontifícia Universidade
Católica do Paraná e Doutoranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento
da UFPR/ PR.Coordenadora da Pós-graduação da Universidade do
Contestado, Canoinhas/SC.
E-mail: ssalete@unc.cni.com.br

52
AUTO-REGULAÇÃO:
UM CONCEITO PARA A EDUCAÇÃO DA
CRIANÇA NA FAMÍLIA E NA ESCOLA
SELF-REGULATION: A CONCEPT FOR THE EDUCATION
OF CHILDREN WITHIN THE FAMILY AND AT SCHOOL

Leonardo José Jeber

Resumo
O texto apresenta o conceito de auto-regulação, sua relação com a função
do orgasmo e com o processo de encouraçamento, mostrando a gênese
do conceito nos estudos de Wilhelm Reich e as possibilidades de aplicação
do mesmo na educação da criança na família e na escola, considerando
as dimensões de frustração e satisfação pulsionais que se apresentam
como manifestações emocionais na expressão da criança diante da
realidade onde vive. O texto é um incentivo para que o conceito de auto-
regulação seja apreendido e incorporado pelos educadores como princípio
e fundamento essencial na formação e educação da criança em qualquer
situação social.
Palavras-chave: Auto-regulação, Couraça, Educação, Pulsão, Orgasmo.

Abstract
This paper presents the self-regulation concept, its relationship with the
orgasm function and with the armoring process, showing the origin of the
concept in Wilhelm Reich’s studies and the possibilities of its application
to the education of children within the family and at school. This will take
into consideration the dimensions of pulse frustrations and satisfaction
that appear as emotional manifestations of the child’s expression with
respect to the environment. The paper stimulates the understanding and
use of the self-regulation concept by educators, as an essential principle
and the grounds for a child’s education in any social situation.
Keywords: Self-regulation, Armor, Education, Pulse, Orgasm.

53
Porque motivo não pode existir uma escola que deixe a criança
aprender aquilo que quer, quando quer e, ao mesmo tempo, procure
ensiná-la a respeitar os direitos das outras? (Orson Bean)

Segundo Ademar Ferreira dos Santos, citado por Alves (2000),


uma educação auto-regulada está embasada

no sentido de que as normas e as regras que orientam as relações


societárias não são injunções impostas ou importadas
simplesmente do exterior, mas normas e regras próprias que
decorrem da necessidade sentida por todos de agir e interagir de
uma certa maneira, de acordo com uma idéia coletivamente
apropriada e partilhada do que deve ser o viver e o conviver numa
escola que se pretenda constituir como um ambiente amigável e
solidário de aprendizagem (2000, p.15).

Auto-regulação, segundo Orson Bean (1973), em seu livro “o


milagre da orgonoterapia” significa que um organismo saudável é um
sistema regulado em si mesmo no estado de coordenação harmônica
entre processos pulsantes em todas as células e órgãos até os
movimentos respiratórios e os movimentos pulsantes no reflexo do
orgasmo. Esse é um conceito reichiano. Para Reich, biologicamente
falando, o orgasmo é uma função auto-reguladora do organismo vivo. Ao
estudar a função do orgasmo Wilhelm Reich (1995) descobriu a fórmula
da vida que se expressa em Tensão-Carga-Descarga-Relaxamento. É
uma fórmula que se manifesta no organismo vivo e que mostra a capacidade
do organismo de se auto-regular.
Orson Bean (1973), contribui para que expliquemos sinteticamente
a função do orgasmo: os seres humanos, da mesma forma que todas as
coisas vivas, a partir da ameba, possuem uma energia interna até hoje
não revelada. Wilhelm Reich (1995), a descobriu e deu-lhe o nome de
energia orgônica – do radical da palavra organismo. Essa energia é, de
fato, a força vital, fisicamente falando. Energia produzida pela ingestão de
alimentos, fluidos e ar e diretamente absorvida pela epiderme. Bean
destaca que Reich pesquisou e descobriu que a energia orgônica flui em
ritmo constante através de todo o corpo, do alto da cabeça à planta dos
pés, num movimento de ida e volta e, nas pessoas naturais e de perfeita
saúde, pode ser sentida como uma agradável e quente sensação de saúde
e bem estar. Sua eliminação se processa pela atividade, excreção,
expressão emocional, pelo processo do pensamento e ao ser transformada
em calor corporal que é irradiado para o meio ambiente. Além disso, atua
sobre o crescimento. Em casos normais, essa energia é produzida em
proporção superior à que é eliminada. Esse excesso de energia é
armazenado para atender a situações de emergência como, por exemplo,

54
a luta ou o trabalho excessivo. Mas, quando não se registra qualquer
emergência, a energia continua aumentando para que o organismo se
desenvolva continuamente ou venha a perecer eventualmente, a menos
que exista um mecanismo qualquer que se encarregue de libertar o excesso
da energia acumulada que tenha atingido a determinado nível. Nos
indivíduos saudáveis, esse nível se manifesta pela excitação sexual. A
produção de energia cria um estado de tensão, e o método criado pela
natureza para aliviá-la e regular a sua produção é o orgasmo sexual. A
profunda sensação de calma que se segue ao clímax sexual realmente
satisfatório é a prova da eliminação dessa tensão. Entretanto, a tensão é
liberada e a energia regulada somente quando o indivíduo é capaz de
conseguir uma satisfação sexual completa, saudável e amorosa. É inútil
a experiência sexual obrigatória ou incompleta. O orgasmo deve ser
absolutamente agradável e espontaneamente acompanhado pelo
relaxamento total da energia orgônica não eliminada. Essa falta de
eliminação faz-se sentir sob a forma de tensão ou desassossego. Num
indivíduo saudável, a necessidade de satisfação sexual e eliminação estão
inteiramente baseadas nesse fluxo da energia orgônica.
Com base em Reich (1995) podemos afirmar que o organismo
humano vive, pulsa. Ele funciona por si. Tem vida própria e tem mecanismos
de auto-regulação que lhe preservam a vida e a homeostase. Com base
nesses princípios é preciso verificar se os alunos e alunas são capazes
de agir com base em suas motivações e gratificações internas sendo
capazes de se autodirigirem. Verificar se são capazes de expressar
interesses genuínos e espontâneos em prol da própria vida e da vida dos
seus semelhantes e de tudo o que é vivo, sem pressões internas ou
externas. Ou, ao contrário, verificar se agem em prol da vida apenas quando
submetidos por pressões externas hetero-reguladoras. A auto-regulação
é possibilitada por um entorno acolhedor na organização da aula e no
jeito do educador se posicionar diante dos alunos. O que significa também
colocar limites, mas nunca com violência. É uma forma de trabalhar que
acredita que na vida há também uma razão instintiva que leva os alunos e
as alunas a fazerem escolhas embasadas por um saber orgânico e
funcional. A idéia aqui é a de que as pessoas sabem regular suas funções
vitais e o fazem de forma satisfatória se não forem bloqueadas, o que é o
mais comum de acontecer, desde o momento do nascimento, onde inicia-
se o processo de encouraçamento do ser humano.
Couraça ou encouraçamento é um conceito criado por Wilhelm
Reich (1995). Couraças ou bloqueios musculares: o movimento
ondulatório do fluxo energético, que se movimenta pelo eixo longitudinal
do corpo, de cima para baixo e de baixo para cima, é interrompido por
grupos de músculos que se ordenam ao longo desse eixo longitudinal,

55
como os anéis de uma armadura. Daí a denominação couraças
musculares. Os anéis de músculos são unidades de função vegetativa,
que servem para bloquear emoções específicas. Segundo Orson Bean
(1973), há muitos séculos, o homem, único ente todos os animais a
assim proceder, vem interferindo no processamento de suas funções
naturais ao evitar o fluxo, a produção e a liberação de sua energia orgônica.
E o fez ao tornar-se incapaz de conseguir satisfação sexual completa,
natural e saudável, através de um processo que Wilhelm Reich chama
de couraça.
Portanto, auto-regulação é uma condição biológica da espécie
humana. É a capacidade que temos de autodeterminar nossa vida,
direcionar nossa vida segundo padrões próprios, desejos e pulsões que
sentimos e determinamos como sendo mais ou menos satisfatórios para
nós. A auto-regulação é a expressão espontânea de um ser
desencouraçado que se expressa espontaneamente, sempre no sentido
da busca do prazer, que é sentido organicamente. Educar pelo principio
da auto-regulação é conduzir o modo de educar as crianças dando a elas
a oportunidade de satisfazer seus impulsos primários segundo seus
desejos, evitando que se transformem em impulsos secundários
pervertidos. Impulsos primários na criança são: a fome, o sono, as
necessidades fisiológicas, a expressão livre e espontânea de emoções e
sentimentos como tristeza, raiva, medo, alegria e amor, por exemplo.
Quando os impulsos primários não podem ser satisfeitos pelo menos em
parte, a criança busca outros caminhos e canais para satisfazer-se, mas
é nesse percurso que surgem as defesas, as “indisciplinas”, os sintomas
e as psicopatologias, como por exemplo, o refúgio na comida, na mentira,
no roubo, as tensões corporais crônicas, os vários tipos de comportamento
violento, individualista, egocêntrico. Inicia-se então o processo de fixação
das couraças que determinarão cada tipo de caráter (esquizóide, oral,
anal, psicopata, masoquista e rígido).
Segundo Albertini (1994), para Wilhelm Reich, em toda a educação
da criança existe uma relação entre frustração e satisfação pulsional.
Para ele a mais adequada maneira de educar uma criança é aquela onde
ocorrem frustração e satisfação pulsional parciais. O que a caracteriza é
a presença da ação educacional frustrante sem uma conseqüente inibição
pulsional completa. Para Wilhelm Reich, auto-regulação quer dizer que a
vida orgânica do ser humano é sábia e sabe criar melhor do que ninguém
as suas necessárias formas de existência e é o desconhecimento do ser
humano a esse respeito que criam todas as dificuldades e
encouraçamentos que indicam que o ser humano não aprendeu a ver o
que está diante de seus próprios olhos: a sábia natureza da vida expressa
no próprio corpo do ser humano, indicando-lhe como a vida funciona e
como deveria ser conduzida.
56
Finalizando este pequeno escrito, apresento uma poesia de
Ademar Ferreira dos Santos (2000, p. 7) que de modo sensível e poético
nos mostra os sentidos de uma educação auto-regulada.

Não cobiço nem disputo os teus olhos


não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos nem sei
tampouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho deixa-me
simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado pela mais cintilante das
estrelas que espreitam as noites e os dias mesmo que tu me percas e eu te
perca algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
deixa-me arriscar o molde talvez incerto
deixa-me arriscar o barro talvez impróprio
na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o
futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei nem queiras que
eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silencio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida.

Referências
ALBERTINI, P. Reich: história das idéias e formulações para a educação.
São Paulo: Ágora, 1994.
ALVES, R. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que
pudesse existir. Campinas: Papirus, 2000.
BEAN, O. O milagre da Orgonoterapia. Rio de Janeiro: Artenova, 1973.
REICH, W. A função do orgasmo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
SANTOS, Ademar Ferreira dos. In: ALVES, R. A escola com que
sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Campinas: Papirus,
2000.

Leonardo José Jeber é professor de Educação Física da Escola


Fundamental do Centro Pedagógico/UFMG; Mestre em Educação/UFMG;
Assessor pedagógico do Instituto Educacional Rouxinol/Colégio Neusa
Rocha e CBT/Psicoterapeuta em Análise Bioenergética, pela Associação
Brasileira de Análise Bioenergética de Belo Horizonte.
E-mail: leojeber@terra.com.br

57
DA SUPERFÍCIE À ESSÊNCIA:
O CAMINHO DA VERDADEIRA
REVOLUÇÃO
FROM SURFACE TO THE ESSENCE:
THE PATH TO THE TRUE REVOLUTION

Rafael Pozzobon Campagnolo

Resumo
Uma das mensagens essenciais de W. Reich foi o chamado para o
despertar interno do homem como o caminho da verdadeira revolução. O
ser humano anseia por mudanças, porém tem buscado as soluções de
forma equivocada. Busca fora, quando está dentro. A partir das relações
entre Eu (self) e mundo externo o organismo cria uma couraça
caracterológica de defesa que separa a realidade interna da externa. A
couraça impede a intensidade da vida que o homem anseia, e é a
responsável por toda a dor e incongruência que o homem vive no seu dia
a dia. Ela o afasta de sua energia vital. Numa proposta reichiana a
verdadeira revolução acontecerá quando o homem resolver olhar para
dentro e se disponibilizar verdadeiramente a enfrentar seu próprio inferno
emocional para chegar a plenitude se seu Ser. Quando a humanidade se
despertar internamente não haverá mais tanta necessidade de soluções
simbólicas e infrutíferas.
Palavras-chave: Essência, Couraça, Emoções, Revolução.

Abstract
One of the essential messages from W. Reich is the call for man’s inter-
nal awakening, as the path to the true revolution. The human being
struggles for changes, however mankind has been looking for solutions
in a wrong way. It looks for solutions in the outside world when they
should actually be looked for within oneself. Based on the relationships
of the self (me) and the outside world, the body creates a defense char-
acterologic armor that separates the internal and the external worlds.
The armor prevents one from experiencing the intensity of life the way
one wishes. It is responsible for all men’s pains and the incongruity in
daily life. The armor separates man from his vital energy. In a Reich based
approach, the true revolution will happen when man decides to look in-
side and really face his own emotional hell, in order to reach the pleni-
tude of its being. When mankind wakes up internally, there won’t be the
need for symbolic and fruitless solutions, anymore.
Keywords: Essence, Armor, Emotions, Revolution.

58
Com suas leis, dentro das condições que lhe são impostas, a
vida funciona! Esse é um fato que Reich (2003) ao longo de seu trabalho
evidenciou. Seu pensamento foi visto como ameaça em sua época. Hoje
se faz urgente a conscientização do funcionamento da força vital. Talvez
a couraça do homem atual permita-lhe encarar a verdade sobre o
desespero humano. Talvez a insustentabilidade do progresso capitalista
obrigue o homem a enfrentar sua couraça e adentrar em sua essência. A
couraça de resistências que separa a vida interior da vida que o rodeia
deve ser revelada à luz da consciência humana. Esse é o caminho para
liberar a dor e os medos que adormecem e impedem a felicidade humana.
Nosso bom funcionamento depende do resgate de nossas
emoções primárias. Reich (2003) cita o prazer, o anseio, a ansiedade, a
raiva e a tristeza como as emoções básicas e racionais da vida.
Um organismo livre e funcional é capaz de se expressar de forma
racional com suas emoções integradas. A racionalidade reside num elo
de relação atual entre o EU e o mundo externo. Na capacidade do
organismo vivo de responder com congruência emocional diante dos
acontecimentos internos e externos a ele inter-relacionados.
A força da vida de um organismo necessita se expressar no
mundo externo para se satisfazer. O movimento de contração e expansão
é a forma mais simples e natural de expressão. E de acordo com Reich
(1998) esse é um desejo de descarregar as tensões internas causadas
ou pela fome ou pela sexualidade. As principais fontes de frustração e
gratificação na vida são, por conseguinte, a base das patologias da
humanidade. Os bloqueios que impedem a livre carga e descarga
energética estão na base de todas as antíteses que vão gerar a couraça
de caráter. A qualidade da relação, entre ego (eu, self, organismo) e
mundo externo, necessária para satisfazer a libido e a fome, organizará
uma estrutura de caráter com suas respectivas ambivalências, formas
de se comportar e atitudes. Com essas informações torna-se fácil
começar a compreender a origem da problemática humana. Numa
sociedade que vive na ambivalência entre prazer – punição, fome – fartura,
só poderá ser inadequada para o desenvolvimento natural das crianças.
No momento que o processo de domesticação da libido inicia, o pulso
original se dissocia. Diz Reich (1995, p. 291):
Uma parte volta-se contra ela própria (força reativa); a outra parte
continua, como antes, em direção ao mundo externo. Mas, quando
isso acontece, mudam as relações dinâmicas. No ponto em que a
corrente voltada para o mundo externo e a corrente voltada para o
próprio ego se dividem, surge uma situação de paralisia ou rigidez

Esse é o ponto em que a couraça começa a se formar e se


cristalizar. A vida passa a ser retida por meio de uma barreira de energia

59
densa. Aqui vive a dor do ser humano. “A dor acontece quando o fluxo da
energia é bloqueado dentro do organismo, e muitas vezes ocorre quando
a pessoa corta a conexão entre Eu e realidade externa” (Pierrakos, 2000,
p.134). O corte é não querer estar em contato com esse outro que fere a
minha auto expressão. É a vida se defendendo de algo que é antivida.
Porém, a própria defesa, resultado desse conflito, torna-se antivida. Porque
as defesas (resistências) são blocos de dor cristalizados que não
permitem o fluxo natural da força vital.
A couraça que se forma para solucionar um problema passa a
ser reforçadora desse problema, se torna o próprio problema no futuro.
Pelo pensamento funcional pode-se deduzir que o problema está na
solução adotada para resolver o problema original. Ambos tem a mesma
origem. Mudar a estratégia de solução pode ser o passo inicial para a
mudança. A dificuldade de se obter essa percepção reside no fato desse
organismo passar a se identificar com o modo encouraçado de agir. Assim,
com a formação da couraça caracterológica, toda a expressão que vem
a tona é mascarada, disfarçada, secundária. E também pode carregar
um elemento pestilento. Assim, aquele que esta biopaticamente
encouraçado terá sempre a sensação de esbarrar em uma muralha rígida
que o impede na sua livre expressão. Sentir-se-á separado de sua natureza
interna ou da externa. Sempre em busca dessa conexão. Incapaz de
amar, trabalhar e Ser de forma satisfatória. Seus anseios continuarão a
existir e a lutar para serem atendidos. Ocorre que, quando, seus impulsos
buscam atingir a satisfação real, eles estarão impedidos pela rigidez da
couraça. Nesse ponto de batalha interna, onde o impulso original esbarra
na couraça, gera-se uma dissociação. Mesmo que o impulso original
seja o amor, a expressão frustrada se torna raiva destrutiva, porque a
capacidade de amar do organismo esta obstruída. Essa corrente
emocional será expressa na superfície de alguma outra forma. Diz Reich
(2003) que a “pessoa encouraçada adquire uma característica que só
pode ser descrita como dureza ou desarmonia” (p. 69).
Basta observar os adolescestes (mais em termos emocionais
que cronológicos) em uma boate ou bar. Onde os garotos anseiam o
amor das meninas e investem sua libido para conquistá-las. Contudo,
como ambos estão impedidos socialmente de viverem sua sexualidade,
geralmente as investidas são frustradas, incompletas ou neuróticas. A
excitação da libido só pode ser apaziguada pelo excesso de álcool ou
descarregada nas típicas brigas de final de noite, onde as pessoas
frustradas tentam se afirmar sexualmente, A complexidade emocional
da sexualidade, transforma facilmente a simplicidade dos impulsos
amorosos em ataques de fúria irracional e autodestruição.
O homem encouraçado viverá em ambivalência e essa revelará a
dinâmica de sua resistência e de sua dor. A resistência (ambivalência
60
que sempre impede a capacidade de entrega) será sempre uma antítese
entre: amor e ódio; em quero, mas tenho medo; isso me dá prazer, mas
posso ser punido. Na vida diária é o desejo pela amante contraposto ao
casamento que já não funciona. É o conflito entre chocolate e dieta. É
se manter em um trabalho desprazeroso por medo de não conseguir se
sustentar na vida. É tratar bem o psicoterapeuta, quando o despreza e
duvida de seu trabalho.
A ambivalência revela a origem das queixas humanas; dos “tenho
quês”; dos “deverias” e “ não deverias”; dos “possos” e “ não possos”.
Caracteriza-se por uma incapacidade de se funcionar com aquilo que se
tem no presente (viver no inferno) e uma incapacidade de se buscar aquilo
que se deseja (fantasia de um provável paraíso). São as dimensões de
céu e inferno que habitam cada ser humano. A armadilha esta feita! Não
posso desfrutar do presente da minha vida, então vivo no inferno, mas
também não posso ir em busca do meu paraíso, porque estou imobilizado.
Já não posso fazer sexo com minha mulher (o casamento é um
inferno); minha vizinha é meu sonho de luxúria (paraíso). Meu chefe é um
carrasco (o próprio capeta); um dia eu vou mostrar a ele meu valor (ser
reconhecido por Deus). Tenho que fazer dieta (meu corpo não é bom);
fico sonhando com o dia que poderei comer algumas barras de chocolate
sem culpa (serotonina, felicidade, doce – afeto). Não posso viver minha
sexualidade livremente, então vou para um mosteiro evoluir espiritualmente
(Deus deve saber como resolver esses problemas de anseio sexual –
mundanos). Assim vive-se o caráter nosso do dia-a-dia. Essa é uma luta
diária e infindável de grande parte das pessoas. Luta-se contra si e o
mundo. Uma guerra para manter seus anseios amortecidos e uma luta
compulsiva para manter uma boa imagem ao mundo. A primeira serve
para impedir a expressão da vida interna e a segunda é a “casca” de
caráter – máscara – que se usa de acordo com o que as “pessoas”
esperam de uma pessoa bem ajustada. Isso vai formar atitudes crônicas
musculares que não podem ser quebradas, nem disfarçadas, apenas
pela vontade. A mascara tenta encobrir uma atitude cristalizada que não
deve ser mostrada. Por mais que um sorriso de disfarce diga: “tudo bem!”
A mandíbula cerrada revela a fúria. A atitude muscular revela o que o ego
tenta esconder, revela os objetivos secretos.
A forma com a qual os afetos estão dispostos em sua postura
definem como esse individuo vai entrar em contato e ser influenciado
pelo mundo. A organização muscular e as atitudes corporais representam
a interação do centro dinâmico do individuo e o campo de forças (mundo)
que atua sobre ele. Mudar as atitudes secretas – oriundas da camada
intermediária - exige compreensão e uma nova organização psico-
muscular. Possível, pois não é inata. A expressão desses afetos precisa
ocorrer em ambiente terapêutico e seguro. Desfazendo o recalque, a
61
energia se torna disponível para uma nova organização, mais honesta,
natural e consciente. O organismo torna-se mais próximo de sua
expressão verdadeira.
No processo de construção de uma nova organização, as
resistências se ativam e revelam a estrutura de nosso caráter, de nosso
psicossoma. Das limitações que o ego impõem. “Nosso caráter é a soma
total funcional de todas as experiências passadas” (Reich, 1995, p.129).
É nossa história que se solidifica e se manifesta em nossos modos
típicos de sentir, pensar, reagir e de entrar em contato com o mundo.
Quanto mais crônica a couraça, menor o contato com o pulso vital, com
as sensações de órgão citadas por Reich (2003). O Ser é perdido pela
super identificação com o ego-couraça. Freqüentemente ouvimos alguém
dizer: “é assim que eu sou”, e não pode se comportar de outra maneira.
Isso significa que seu “caráter teve que se tornar o que é é, e não outro
qualquer, por motivos muito específicos. Fundamentalmente. Portanto,
ele é passível de análise, exatamente como o sintoma (REICH, 1998, p.
55).
Essa pessoa se verá como uma pessoa normal e em geral negará
seus problemas, afinal ela sempre foi assim. Isso apenas evidencia sua
infantilidade emocional perante a vida. O próprio caráter maduro sabe
que a vida é composta de problemas e se envolve com eles para poder
aprender e crescer. Não os nega, foge, ou evita por eles revelarem sua
incapacidade de funcionar com maturidade. Ele está consciente de sua
couraça. “A pessoa economico-sexualmente regulada é capaz de fechar-
se em uma situação e abrir-se em outra. Tem o controle de sua couraça
porque não precisa coibir impulsos proibidos” (Reich, 1995, p. 160).
O proibido é tudo aquilo que nos gera medo de ser punido. As
primeiras experiências de punição começam a erguer as defesas do Ser.
Essas experiências darão origem aos comportamentos ambivalentes e
contraditórios do ser humano que passará a lutar para esconder dos
outros o que se passa em suas profundezas. Vale mencionar o efeito
devastador que a repressão sexual gera no organismo que esta se
formando. As experiências de punição da expressão sexual são
perniciosas e dá origem a irracionalidade dos comportamentos individuais
e sociais. Afirma Reich (2001, p. 28):
A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última
etapa é o grave dano da sexualidade genital da criança, torna a
criança medrosa, tímida, submissa, obediente, “boa” e “dócil”, no
sentido autoritário das palavras. Ela tem o efeito de paralisação
sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso
vital é associado ao medo, e como sexo é um assunto proibido, há
uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em
resumo, o objetivo da moralidade é a criação do individuo submisso
que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e
humilhação
62
Os impulsos vitais passam a ser encobertos por uma complexa
formação de ambivalências e incongruências psico-emocionais. Assim
a passividade excessiva encobre a raiva destrutiva e odiosa. A raiva
exposta esconde a inferioridade e a impotência. A seriedade
caracterológica esconde o medo da espontaneidade – o medo da
inadequação. A alegria maníaca esconde a tristeza melancólica, a raiva
do abandono. O isolamento esconde a renúncia ao anseio profundo e
proibido, o desejo sexual racionalizado em objetivos intelectos-espirituais
ou de cunho sobrenatural. A lentidão de raciocínio, a confusão, esconde
a verdade proibida. O ansioso esconde sua falta de confiança, sua falta
de afirmação sexual. Esses mecanismos levam as pessoas a fazer coisas
de forma irracional, sem sentido ou objetivo. Como ficar vagabundeando
de um lado para o outro ou se destruir com o abuso das drogas. São
inúmeras as relações de ambivalência que podem se cristalizar na
formação do caráter para impedir a livre expressão das qualidades que
habitam a essência humana.
Para criar uma imagem fácil desse processo: no centro temos a
força vital (self, eu individual); essa é frustrada e domesticada durante o
desenvolvimento da criança. Essa criança cristaliza sua raiva e ódio em
blocos de tensão e dor. Esses blocos criam uma camada de resistência
entre o Eu e o mundo que não sou eu (em torno). É nessa camada que
se localiza o caráter. Ela contém todas as formações reativas que darão
origem a destrutividade odiosa, aos comportamentos adaptativos e à
incoerência humana. Ou seja, todo o lixo (moral compulsiva) que essa
criança foi obrigada a introjetar. Como essa criança não pode
simplesmente devolver isso para o mundo, pois essa negatividade não é
bem vista, então ela cria uma outra camada de boa imagem por cima -
máscara. Cria um simulacro de boa pessoa de acordo com o que os
outros querem que ela seja: dócil e bem adaptada.
Como a grande massa da sociedade está mais identificada com
a camada de superfície e ignora seus sentimentos profundos, vivemos
na cultura da boa imagem. Muitas pessoas tornam-se ricas vendendo
produtos que ajudarão as pessoas a apresentarem um pacote mais bonito
para os outros. Produtos que disfarçam por algum tempo a miséria
emocional da humanidade. Porém, se um carro, um tênis, ou roupa nova,
fossem realmente capazes de aumentar a felicidade humana, não haveria
necessidade de tanto consumismo, existiria satisfação. Tenta-se resolver
os problemas da humanidade pela superfície, ao invés de se investir no
mergulho em si mesmo. Muita informação é produzida para distrair a
mente, mas pouca sabedoria é vivida para aquecer o coração.
Há muito movimento externo para disfarçar o caos interno. Esta
evidente que os movimentos externos (guerras, terrorismo, greves,
programas políticos, crime organizado etc) não contribuíram em nada
63
para trazer a felicidade humana. Esse é apenas um reflexo da
incongruência e confusão que habita a vida interna dos homens. A guerra
é um reflexo da frustração interna do homem. “Todos os movimentos
sociais foram de ordem política, quer dizer, artificiais, impostos pelo
exterior, e não produtos de dentro do homem. Para que o homem seja
capaz de um movimento de sua própria decisão, ele deverá primeiro
despertar internamente, sem ser levado por estímulos exteriores”. (Reich,
1999, p. 79).
A consciência de responsabilidade e compromisso social cresce
naturalmente naqueles que enveredam pelo caminho interno de
transformação e compreensão dos processos profundos de si mesmo.
Os verdadeiros agentes de transformação social estão ocupados em
ações práticas e aplicáveis no dia-a-dia. Não com formações ideológicas
políticas, místicas, econômicas, de guerra ou de qualquer fuga ilusória.
Mas sim, com o trabalho consistente de importância vital, com a
construção de saberes que contribuam para o bem estar e com o exercício
diário do amor para com qualquer ser que pertença à natureza da qual
somos apenas parte – começando por si.
A verdadeira revolução é de dentro para fora. Para isso, há de
que se estar disposto a olhar para dentro. Despir as máscaras e atravessar
as camadas de ódio, dor, confusão e frustração. Penetrar nas camadas
profundas da essência requer trabalho e compromisso. A verdade sobre
si mesmo é o caminho, nem sempre fácil, que dá acesso às sensações
oceânicas de amor e plenitude disponível para a humanidade. “A
incapacidade de liberdade por parte das massas humanas não é inata.
Os homens não foram desde sempre incapazes de liberdade, portanto,
fundamentalmente, poderão tornar-se capazes de liberdade”.(Reich, 2001,
p.206). Os homens e mulheres de coração desperto têm uma grande e
inadiável responsabilidade pela frente: orientar e educar para o resgate
do amor e liberdade que já reside em nós.

Referencias
PIERRAKOS, J. A energética da essência. SP: Pensamento, 2000.
REICH, W. A função do orgasmo. 19ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1996.
REICH, W. Análise do Caráter. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
REICH, W. O assassinato de Cristo. 5ª ed. SP: Martins Fontes, 1999.
REICH, W. Psicologia de massas do Fascismo. SP: Martins Fontes, 2001.
REICH, W. Deus, éter e o diabo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Rafael Pozzobon Campagnolo é Psicólogo e cursa especialização em


Psicologia Corporal Reichiana pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR.
E-mail: rpconsulte@ig.com.br
64
É CHEGADA A LUZ
THE BIRTH’S ARRIVAL

Eliane Biancolini

Resumo
O nascimento de um bebê é um momento em que ele está em transição
entre dois mundos distintos, e essa passagem pode determinar algumas
características em sua personalidade que irão depender da preparação
da mãe para receber essa criança e das condições favoráveis do ambiente.
O parto proposto por Leboyer ameniza esse impacto entre o mundo intra
e extra - uterino, possibilitando um parto suave tanto para o bebê quanto
para a mãe. Há partos que geram trauma ao recém–nascido em que Eva
Reich propõem a massagem borboleta como uma forma de suavizar esse
impacto.
Palavras-chave: Criança, Massagem, Parto.

Abstract
The birth is a moment of transition between two different worlds, for the
baby. The change can determine some characteristics of the baby’s per-
sonality, which will depend on the mother’s preparation to give birth to the
child and on the environment. The delivery method proposed by Leboyer
sweetens the impact of the change from the intra to the extra-uterine
world, allowing for a gentle transition for the child and for the mother. There
are childbirths that cause trauma to the newborn for which Eva Reich
proposed a butterfly massage, as a way of reducing the impact.
Keywords: Child, Massage, Childbirth.

65
Como é preciso respeitar esse momento frágil, o instante do
nascimento! A criança está entre dois mundos, em uma fronteira.
Deixemos que a criança aja de acordo com seus movimentos. Dê-lhe
tempo, deixe-a chegar ao seu novo mundo no seu momento, respeitando
essa passagem que requer muitos cuidados. (LEBOYER, 1999).
O nascimento de um bebê é a transição entre dois mundos; o
amniótico que é um mundo onde o bebê está protegido por uma esfera de
água e o terrestre, um mundo sólido e sem um contato permanente. De
acordo com Boadella (1992), há pelo menos quatro fases de transição
entre o mundo amniótico e o mundo terrestre, a transição sensorial; a
circulatória; gravitacional e alimentar, as quais cada uma pode ser vivenciada
como um momento agradável ou como um “grande choque catastrófico”.
A transição sensorial é o momento onde o bebê passa por uma
mudança brusca de sensações. Sai de um mundo escuro e entra em um
outro, cheio de luzes e claridade em seus olhos; sai de uma placenta
onde os sons eram amortecidos pela água e entra num ambiente de sons
desarmoniosos. Leboyer (1999) enfatiza a importância de luzes difusas e
sons abafados para humanizar e sensibilizar as condições nas quais o
recém- nascido será recebido, e complementa afirmando que uma sala
de parto é o pior lugar para receber um recém-nascido, que é
completamente ignorado em suas necessidades.
Janov citado por Boadella (1992), refere-se à pele como o maior
órgão de experiência sensorial do bebê e diz que:

Através das primeiras experiências de contato da pele, a criança


perceberá o tipo de mundo para o qual entrou: um mundo que acaricia
e aquece, ou um mundo que lhe dá calafrios(...) Cita o autor que a
sensibilidade à temperatura na vida futura pode depender dessas
primeiras experiências, assim sendo um parto difícil, aliado à queda
de temperatura no nascimento, pode danificar o funcionamento
adequado dos mecanismos de controle da temperatura, de forma
que a pessoa fique ou muito quente ou muito fria (p. 54).

A segunda fase é a transição circulatória e o nascimento da


respiração. Após o nascimento os pulmões começam a assumir suas
funções de respiração e troca de oxigênio e gás carbônico, portanto o
cordão umbilical continua a pulsar por alguns minutos auxiliando os
pulmões em sua função. Assim o sangue terá tempo suficiente para
abandonar sua antiga rota (que levava sangue à placenta) e
progressivamente dar inicio ao sistema circulatório pulmonar. Porém se o
cordão for cortado antes de parar de pulsar, a criança terá um choque
porque os pulmões serão forçados a inspirar uma maior quantidade de
oxigênio, criando uma sensação de queimadura. Além do que, perde uma
certa quantidade de sangue que para ela é muito importante nesses

66
primeiros dias de vida (NAVARRO, 1995).
Ainda de acordo com Boadella (1992), a terceira transição é a
gravitacional, onde o bebê experiencia as condições de sustentação e
como este sente esse contato. Para alguns, é uma sensação de extremo
abandono e sentimento de ameaça pelo enorme espaço que há ao seu
redor. Essa é a base da agorafobia – medo de lugares abertos. A sensação
da gravidade está relacionada à queda, ao medo de cair que leva o
organismo à contração, imobilidade e perda do equilíbrio. Essa sensação
decorre da maneira como essa criança é segurada e sustentada.
A quarta transição ocorre quando a criança é alimentada, assim
seu sistema digestivo aprende progressivamente sua função. A
amamentação é a primeira experiência do bebê. Navarro (1996)
complementa que a amamentação satisfatória é aquela em que o bebê
recebe contato, calor e amor e a falta ou inadequação dessa amamentação
ocasionará na criança um estado deprimido ao qual Navarro denominou
borderline.
Para Boadella (1992), no momento do parto a mãe deve estar
preparada para receber esta criança. A mãe que está relaxada e não
sofre tensão (sob influência do sistema nervoso parassimpático),
possibilitará contrações que não são dolorosas ao bebê, e o bebê deve
sentir essas contrações como um abraço cada vez mais apertado, uma
massagem cada vez mais firme, mas nunca esmagadora. Durante esse
período, as contrações do útero proporcionam uma intensa estimulação
da pele do feto. Por outro lado, a mãe que está tensa, estressada e com
medo de sentir dor (sob influência do sistema nervoso simpático), os
músculos do colo do útero irão se contrair, pressionando os vasos
sanguíneos que também afetam as pontas dos nervos causando a dor.
Dessa forma, o útero tenta fazer duas coisas antagônicas: abrir-se sobre
a influência da ocitocina, hormônio que contrai o útero e prepara o caminho
para que o bebê possa nascer, mas também tenta manter-se fechado
sob a influência dos nervos simpáticos. Dessa forma o bebê sente essa
massagem que deveria ser prazerosa como um esmagamento, uma
enorme pressão na cabeça e no corpo.
Barbara Yunker (1975) in Boadella (1992), desenvolveu um estudo
sobre a ação da força da gravidade no momento do parto:
A posição natural para o parto é a mãe agachar-se, ou sentar-se
num banco próprio para o parto, com as costas apoiadas. Hoje, a
posição costumeira, que teve início no séc XVIII, quando os médicos
começaram a fazer o parto das mulheres da classe alta, é colocar a
mulher deitada de costas com as pernas elevadas. Infelizmente nessa
posição, a gravidade atua contra a mãe.O peso do útero pressiona a
veia principal da parte inferior do corpo, o que diminui a pressão
sanguínea da mãe e pode tornar mais lento o coração do bebê e a
artéria que traz oxigênio para o bebê também é comprimida (p, 48).
67
O momento de transição para o mundo pode determinar algumas
características da nossa personalidade, se o parto será ou não um trauma
irá depender das condições do momento e da atitude dos participantes.
(BOADELLA, 1992). De acordo com Maldonado (1985), o parto preparado
ou o parto sem dor utiliza o método psicoprofilático que permite que a
mãe participe com lucidez e cooperação no nascimento do filho, o que
implica em menor ou nenhuma analgesia no momento do parto, visto que
no parto sob anestesia, a mãe não participa ativamente nas contrações.
O pesquisador Brazelton (1961) demonstrou que sob o efeito dessas
drogas, a maioria dos recém- nascidos apresentavam um certo grau de
sedação nos primeiros quatro dias, seus movimentos de sucção ficam
mais lentos diminuindo o consumo de leite. Ainda de acordo com
Maldonado (1985), o parto cesáreo é um parto mecanizado onde a mãe
não tem nenhuma participação, transformando dessa forma um processo
biológico de grande significado emocional numa operação cirúrgica. A
cesárea apresenta várias desvantagens para os bebês. Segundo Navarro
(1996), parto por cesariana e por fórceps deveriam ser excepcionais, para
evitar a instauração de um traço de caráter por ele denominado de núcleo
psicótico. É preciso que a mãe satisfaça as necessidades simbióticas
do filho e não as dela.
O parto proposto por Leboyer (1999) em suas observações na
Índia, dá prioridade em suavizar o impacto da diferença entre o mundo
intra e extra-uterino. Salienta o autor que na sala de parto deveria haver
luz difusa, silêncio, música suave e contato corporal imediato entre mãe
e bebê. Da mesma forma, o cordão umbilical deveria ser cortado somente
alguns minutos depois do nascimento, quando parasse de pulsar.
Leboyer questiona o fato de ser saudável o bebê gritar após o
nascimento, e enfatiza argumentando que o nascimento é uma vasta
experiência sensorial para o bebê, onde este é o menos favorecido. Nesse
momento a criança é colocada de cabeça pra baixo, suspensa no ar, em
um ambiente repleto de fatores estressores e assim sendo o bebê fecha
rapidamente os olhos, e volta suas pequenas mãos para os ouvidos,
tentando fechá-los se encolhendo para aliviar o imenso sofrimento. Para
que o bebê pare de gritar é muito simples afirma Leboyer, “é preciso ter
paciência”. O ar ao penetrar nos pulmões, provoca uma certa queimadura,
causando terror e pânico à criança, porem essa passagem pode ser
revertida, respeitando o tempo do bebê e permitir que ele seja oxigenado
duas vezes: pelos pulmões e pelo cordão umbilical. Duplamente
oxigenado, o cérebro do bebê não sente falta de oxigênio, assim não se
sente agredido e não entrará em pânico.
Eva Reich (1998), em seu trabalho como médica, começou a
observar bebês prematuros e recém- nascidos que permaneciam em
incubadoras e percebeu que os bebês ficavam deitados como autistas,
68
muito fracos e não reagiam aos estímulos. Com isso Eva começou a
tocar levemente os bebês, um toque suave como o de uma borboleta.
Dessa forma percebeu que os bebês movimentavam e reagiam aos seus
toques. Com essas observações Eva Reich desenvolveu uma técnica de
massagem para bebês que é aplicada como uma forma de bioenergética
suave. A massagem é feita sempre de cima para baixo (da cabeça aos
pés) e age tanto na superfície da pele como nas camadas musculares.
Essa técnica é realizada em um quarto aquecido uma vez por dia. A
melhor hora para fazer a massagem é após o banho, sem que o bebê
esteja com fome, é uma massagem curta, se o bebê estiver se sentindo
bem pode prolongar-se por 20 minutos, se acaso comece a chorar deve-
se interrompê-la (REICH, 1998).
De acordo com Eva Reich (1998), todos os movimentos vão de
cima para abaixo e do meio para o lado. Nessa massagem de borboleta
há três movimentos essenciais: 1) deslizar a mão sobre a pele do bebê
de forma suave e rápida; 2)sacudir os músculos de forma suave e rápida;
3) com a ponta dos dedos fazer movimentos circulares leves sobre a pele
do bebê. Eva Reich desenvolveu essa técnica, para receber os recém-
nascidos de uma maneira mais suave, pois o parto que se torna traumático
para o bebê, causará encouraçamentos, bloqueando desde o nascimento
a energia vital.
Para que possamos modificar esse trauma do nascimento é
preciso que o recém-nascido não sinta medo no momento do parto, é
necessário revelar-lhe o mundo lentamente, de forma progressiva, de modo
a não oferecer mais sensações novas do que ele possa suportar e assimilar,
e o mais importante é oferecer muito amor ao bebê (LEBOYER, 1999).
Pensando em contribuir para uma sociedade menos patológica,
devemos repensar na maneira em que estamos recebendo nossos bebês,
pois estão neles a esperança de um futuro melhor.

Referências
BOADELLA, D. Correntes da vida. São Paulo: Summus, 1992
LEBOYER, F. Nascer sorrindo. São Paulo: Brasiliense, 1999
MALDONADO, M. T. Psicologia da Gravidez. RJ: Vozes, 1985
NAVARRO, F. Somatopsicopatologia. São Paulo: Summus, 1996
REICH, E. Energia vital pela bioenergética suave. SP: Summus, 1998
Eliane Biancolini é Psicóloga pela UTP, Especialista em Psicologia
Corporal pelo Centro Reichiano e atualmente cursa residência em
Orgonomia Clínica no Centro Reichiano, Curitiba/PR.
E-mail: e.biancolini@bol.com.br

69
A ÉTICA, A MORAL, OS VALORES
E O USO EXAGERADO DA INTERNET
ETHIC, MORAL, VALUES AND THE
EXAGGERATED USE OF THE INTERNET

Karin Sylvia Graeml


José Henrique Volpi

Resumo
Muitas são as facilidades proporcionadas ao homem pela Internet. A
redução dos limites entre tempo e espaço fez com que a velocidade das
informações trouxesse grandes benefícios tanto para o comércio quanto
para a vida pessoal das pessoas. Compras, pagamentos, informações,
novas amizades e até mesmo encontros amorosos têm como ponto de
partida o computador No entanto, algumas pessoas perdem a noção dos
limites e colocam por terra valores que foram construídos durante toda
uma vida, aventurando-se exageradamente em busca da satisfação de
eventuais frustrações, por meio da Internet. A proposta desse artigo é
analisar esse distúrbio, que tem como sintoma mais pronunciado o uso
exagerado da Web para a interação com desconhecidos e para escapar
da realidade.
Palavras-chave: Internet, Personalidade, Valores

Abstract
The Internet has made life easier for many people. The speed of informa-
tion flow and the interconnectivity provided by the Internet has benefited
businesses but also people’s daily lives. Purchases, payments, informa-
tion sharing and even new friendships and romances have the computer
as their starting points. However, some people loose the notion of limits
and throw away values that they nurtured along their whole lives, changing
their behavior and using the Web to attempt to solve eventual frustrations.
The purpose of this paper is to analyze the situation in which people forget
about their regular life and start making exaggerate use of the Internet to
establish new relationships or to escape reality.
Keywords: Internet, Personality, Values

70
Existe uma ética e uma moral internalizada no ser humano, que
começa a se formar desde o momento em que o mesmo se encontra no
útero materno. No entanto, ambas vão sendo construídas a partir dos
nossos valores que mostram se algo é bom ou mal (correto e incorreto)
em um ato humano. Este ato atinge uma maior relevância quando afeta a
um terceiro. A moralidade, por sua vez, “pode ser vista como uma das
dimensões sociais que precede e sucede o indivíduo” (HEEMANN, 2001a).
Ética e moral caminham juntas e são internalizadas de acordo
com as experiências, somadas ao caráter de cada indivíduo. Caráter é a
expressão, o modo de agir e reagir frente a todas as situações da vida
(REICH, 1995). Segundo Boff (BOFF, 2003) os costumes (moral) formam
o caráter (ética) das pessoas.
O ser humano é um ser que valora, (HEEMANN, 2001b). Portanto,
ética, moral e caráter são formados pelos valores atribuídos e incorporados
no decorrer da vida, durante as etapas do desenvolvimento psicoafetivo
pelas quais passa uma pessoa desde o momento da gestação até a vida
adulta.
O ser humano é um ser que depende do outro para viver e
sobreviver. A partir da conhecida frase de Thomas Morus, “Nenhum homem
é uma ilha”, é possível uma compreensão de que a vida humana é
estabelecida por convívio com outras pessoas. E é nesta convivência, em
sociedade, que o ser humano se descobre e se realiza enquanto um ser
moral e ético e coloca em prática a dinâmica do seu caráter, ou seja, o
seu modo de funcionar, de agir e reagir na vida.
Da mesma forma que o caráter é peculiar a cada pessoa, podemos
dizer, que o conceito de valor também é pessoal e está diretamente
relacionado a um contexto ético-moral. Assim sendo, o que é de valor
para um, pode não ser para outro.
Uma vez que faz parte da natureza humana se relacionar
socialmente, diante desse cenário não é raro encontramos pessoas que
saem à procura de outros com as quais possam compartilhar interesses
em comum. Nos últimos tempos, tal prática parece ter sido intensificada
com a presença das redes mundiais de computadores, que aproximam
cada vez mais os indivíduos e possibilitam o surgimento de novas formas
de relações sociais, estando em destaque as relações virtuais.
Essa nova realidade da era da informação possibilita a interação
de indivíduos de diferentes culturas, idade, sexo, onde as barreiras
geográficas, o tempo e os limites estão totalmente abolidos. É o que
Levy (1996) considera como sendo o desprendimento do aqui e do agora,
ou seja, a desterritorialização, onde os limites de espaço deixam de existir.
As pessoas podem estar em qualquer lugar sem que existam limites
entre espaço e tempo. É uma rede de relações que oferece a oportunidade
de uma dialogação de todos com todos e em todos os níveis. Permite
71
uma troca e com isso um enriquecimento coletivo como jamais antes na
história da humanidade (BOFF, 2004).
A Internet dentro desta nova realidade, da chamada sociedade
em rede (CASTELLS, 1999) exerce um papel fundamental para a
“formação desta nova sociedade”. O computador que era destinado
inicialmente a fazer cálculos utilizados por engenheiros, bancários, etc,
passou, com a expansão das redes interligadas e das técnicas, a ter
uma missão mais ampla, mais social do que técnica.
Para Castells (2003), a Internet vai além de uma simples
tecnologia; é o meio de comunicação que constitui estrutura para a atual
sociedade em rede.
A Internet é o coração de um novo paradigma sociotécnico, que
constitui na realidade a base material de nossas vidas e de nossas
formas de relação, de trabalho e de comunicação. O que a Internet
faz é processar a virtualidade e transformá-la em nossa realidade,
constituindo a sociedade em rede, que é a sociedade em que
vivemos (p. 287).

Os diferentes usos que podemos fazer da Internet refletem a


complexidade psíquica, afetiva, social, ética, cultural, econômica e
político-ideológica do mundo contemporâneo ou sociedade em rede
(MORAES, 2000); (CASTELLS, 1999) . Diante das telas dos monitores,
descortina-se o comércio eletrônico, a guerra entre os fabricantes de
softwares, os hackers, os vírus, a pornografia, projetos militares, seitas
místicas e muitas outras variedades, ao mesmo tempo que nos oferece
a possibilidade de informações, cultura e divertimento, programas
educacionais e científicos, bases públicas e privadas, trocas entre
indivíduos, grupos e instituições, além de modalidades promissoras de
intervenção política, cultural e social.
Na vida diária e atualmente nesta nova maneira de se relacionar
através da Internet, encontramos situações que nos colocam alguns
problemas éticos, morais e da dinâmica do caráter. São os problemas
reais da vida cotidiana, que dizem respeito às nossas decisões, escolhas,
ações e comportamentos - os quais exigem uma avaliação, um julgamento,
um juízo de valor entre o que socialmente é considerado bom ou mau,
justo ou injusto, certo ou errado, pela moral vigente. Uma das principais
características da sociedade da informação é a virtualização das relações
sociais a dupla realidade, a real e a virtual, bem como as conseqüências
sociais, culturais e individual, dessa dualidade.
Ninguém usa exageradamente a Internet para fazer pesquisas,
estudar, comprar ou ler. Até agora, pesquisas comprovam que o uso
exagerado se dá nas salas de bate-papos onde a grande maioria entra
em busca de novas amizades, aventuras sexuais ou até mesmo namoro
72
e casamento. Essa compulsão pelo uso exagerado é vista como um
distúrbio de comportamento onde a pessoa perde a noção do tempo e até
mesmo de sua ética, de sua moral, deixando de lado seus valores e
saindo em busca de puro prazer. Não somos acostumados a refletir sobre
as nossas escolhas, nossos comportamento e valores nas relações da
vida em sociedade. Muitas vezes agimos por força do hábito de acordo
com nossos traços neuróticos de caráter, seguindo as exigências de
uma realidade social, política, econômica e cultural em que estamos
vivendo, mas nunca de acordo com nossa vontade. Agimos para tentar
fugir da realidade, ser alguém diferente, mas sempre caímos no mesmo
problema: a frustração. Em suma, não costumamos fazer ética e moral,
pois não fazemos a crítica, nem buscamos compreender e explicitar a
nossa realidade moral. Muitas vezes é mais cômodo simplesmente
ignorarmos a realidade com base nos princípios éticos e morais do que
encarar nossos problemas de frente, nossas frustrações, nossas
dificuldades.
Para algumas pessoas a realidade diária poder ser muito difícil
de suportar. Neste caso, podemos nos refugiar em fantasias, jogos de faz
de conta e várias outras atividades que não só temporariamente nos
ajudam, como podem gradaditavamente nos preparar para o mundo real.
Mas o problema passa a ser visto com o grave quando o mundo virtual
substitui o mundo real. Os perigos destes mergulhos virtuais não são
apenas psicológicos, mas antes de tudo, éticos. O que pode se esperar
de um ego desintegrado em múltiplas personalidades? É possível que
quando alguém está conversando com outro na Internet haja um
esquecimento de sua função social, substituída por trocas de idéias e
sensações virtuais, que podem ser representadas, fingidas ou sinceras,
dependendo da proposição do indivíduo naquele momento.
Segundo Rousseau (apud HEEMANN, 2001b), o homem nasce
livre, mas encontra-se aprisionado em todas as partes. Não pode expressar
seus desejos, suas fantasias, suas angústias, seus medos. É tolhido,
moldado, podado, encouraçado. E a ele só resta duas alternativas: ou
encontra uma forma de extravasar isso tudo, ou adoece física e
emocionalmente. E é também nesse momento que muitos preferem se
aventurar nas telinhas do computador em busca da descarga de suas
angústias dando cada vez mais margem às fantasias, fugindo de todas
as regras, de toda a ética e moral impostas pela sociedade.
Da mesma forma que muitas outras tecnologias, a Internet
também possui funções que podem ser usadas para o bem, ou para mau.
Segundo Hemmann (2001), há uma relação intrínseca peculiar do objeto
com a sua função específica que determina a qualificação axiológica do
bem e do valor que deve ser atribuído ao objeto, nesse caso, o computador.

73
Assim, é possível falar da função útil do computador quando o usamos
para trabalhar. Trata-se do bem em sentido geral e não no sentido moral.
Mas também podemos usar o computador para criar vírus que destroem
outros computadores, trabalhos, sistemas. Mesmo assim, o computador
continua sendo útil no sentido instrumental ou da qualificação funcional.
Porém, a qualificação moral recairá sobre o ato de destruir, que dependendo
das circunstancias poderá ser julgado imoral.
Muitos também fazem uso do computador para encontrar outras
pessoas que, sem jamais terem se visto, conversam, trocam experiências,
informam-se, fazem amizades, namoram, ou simplesmente passam o
tempo. Surgem parcerias, ajudas mútuas e laços de solidariedade -
inclusive no sofrimento. Famílias de crianças com Síndrome de Down,
que apresentam um transtorno do Déficit de Atenção, pais de jovens
viciados em drogas, repartem com outros, esperanças e aflições.
Portadores do vírus HIV e aidéticos, por exemplo, discutem seus problemas
e trocam informações sobre os melhores tratamentos (MORAES, 2000).
Para Levy (1996).

Uma comunidade virtual constrói-se sobre afinidades de interesses


ou de conhecimentos, sobre a comunhão de projetos, num processo
de cooperação e de troca e isto independentemente das
proximidades geográficas. (...) Uma comunidade virtual não é irreal
ou ilusória: trata-se unicamente de uma coletividade que se organiza
por intermédio do novo correio eletrônico mundial (p.75).

Podemos pensar que um outro aspecto positivo do uso da Internet


é a possibilidade de ampliar a socialização das pessoas. Considerando
estas vantagens que a tecnologia nos trouxe, também poderíamos
considerar que a evolução destas tecnologias de informação e da
comunicação está possibilitando uma nova definição do espaço de trabalho
já que, atualmente, é bem mais rápido e cômodo enviar um e-mail do que
uma carta por correio. Podemos perceber que em alguns países,
principalmente na Europa, as tecnologias estão possibilitando que o
trabalhador não precise se deslocar em busca do trabalho, mas cada vez
mais, é o trabalho que chega até ele. Trabalhar em sua própria casa
parece ser cada vez mais a hipótese acertada numa altura em que a
flexibilidade se tornou um dos assuntos da ordem do dia. Surge, dessa
maneira, o chamado teletrabalho como resposta às novas necessidades
do homem, considerado um reflexo do crescimento da era da informação.
Porém o teletrabalho também pode contribuir para o aumento der vários
problemas emocionais já que tais trabalhadores estariam cada vez mais
isolados, distantes dos contatos pessoais e num ambiente informal que
não o obriga a ter uma vestimenta adequada, limite de horários, etc. Nesse
caso, o convívio social estaria praticamente nulo. Este tipo de atitude
74
pode aumentar o risco de o teletrabalhador estar sempre sob pressão
profissional de realizar determinada tarefa ou trabalho, o que o conduz a
continuar/prolongar o tempo de trabalho diário. Dessa forma, o trabalho
em excesso como qualquer outro vício comportamental, poderá originar
doenças relacionadas com stress, depressão e ainda gerar conflitos
familiares. Temos aqui nada mais, nada menos, que uma mistura entre a
vida pessoal e a vida profissional que se o trabalhador não souber discernir,
colocar limites em si próprio, será um forte candidato ao stress ou à
depressão.
O homem, por natureza, deseja saber e sua história filogenética.
Está ligado às condições materiais obrigando-se a lutar pela sobrevivência
com o trabalho. Mas também, o homem é um ser que se ilude, enganando
seus sentidos, seus desejos, sua mente (HEEMANN, 2001a). E assim,
poderíamos montar uma infinita lista de experiências boas e facilidades
que a Internet veio nos propiciar nos últimos tempos. Por outro lado,
também nos deparamos com experiências desagradáveis, principalmente
pelo uso excessivo do computador, que deixa de ser um simples
divertimento para se tornar um distúrbio de comportamento. Para Sardilli
e Cantafio (1998), a realidade virtual é um produto recente cujas
potencialidades trará à humanidade, grandes benefícios. Porém, não se
pode esquecer de tomar consciência para o fato de que uma utilização
sem critérios pode transformar o progresso em regresso.
A comunicação via Internet em momento algum substitui o contato
real que é muito importante para o crescimento emocional e formação do
caráter. Diz Kimberly Young (MORAIS, 2000b), que a Internet pode ser
uma ameaça à saúde, já que 5 a 10% dos usuários da rede se enquadram
na categoria dos dependentes. Estes usuários compulsivos não
conseguem controlar a quantidade de tempo que ficam na frente do
computador navegando na web e acabam se isolando do contato com
amigos, familiares e até do trabalho. O resultado são depoimentos de
pessoas relatando as suas experiências, muitas vezes catastróficas,
como o exemplo de um estudante universitário de 23 anos que no início
do ano passado entrou pela primeira vez numa sala de bate-papo na
Internet e sua vida nunca mais foi a mesma. Fascinado pelas conversas
on-line e pelo namoro virtual, o rapaz deixou de lado festas, amigos e
família, além de ter perdido um semestre na faculdade porque já não
conseguia mais estudar (MORAIS, 2000a).
Se os usuários da Internet buscam o mundo virtual para substituir
a vida real, ao invés de integrar esta nova forma de comunicação na vida
cotidiana, “o mundo emocional assume conotações nem sempre favoráveis
aos desenvolvimento psico-afetivo e relacional, já que toda fuga da realidade
tem efeitos alienantes” (SARDILLI & CANTAFIO, 1998, p. 137).

75
Em se tratando do uso e abuso da Internet para a busca de sexo,
Guarini (1998), diz que existem dois tipos de utilização para esse fim. O
primeiro é o das pornografias interativas onde os consumidores buscam
material pornoinformático, ou seja, buscam sites que mostram através de
fotos e vídeos pessoas nuas ou mantendo relações sexuais das mais
variadas formas. O segundo tipo, o mais preocupante, é dos amantes
telemáticos que estão empenhados em encontrar parceiros para se
relacionar sexualmente.
Esse uso exagerado também fez com que muitos casamentos
ficassem abalados ou até mesmo se rompessem. Frente a qualquer crise,
um dos cônjuges corria para as salas de bate-papo a procura de alguém
para conversar, se distrair ou até mesmo para satisfazer seus impulsos
sexuais. Houve também um aumento da promiscuidade, devido à maior
facilidade de se encontrar parceiros para aventuras sexuais.
Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de estudos
em sexualidade Humana demonstrou que 16% dos internautas brasileiros
passam em média 14 horas por semana navegando pela web em busca
de sexo. Neste período a maioria, 65%, procura as salas de bate-papo,
dentre os quais 63% fazem sexo on line, praticando a masturbação
enquanto trocam frases eróticas. Do total de praticantes do sexo on line,
80% são homens, incluindo os homossexuais, que se acham tímidos e
menos de 5% destes fazem sexo real com parceiros que conheceram na
web (MORAIS, 2000c). Através da Internet, as fantasias sexuais das
pessoas podem ser exercitadas bem mais facilmente. Ao navegar pela
web, pode-se encontrar salas de chats que são criadas para encorajar os
usuários a se engajarem explicitamente num chat erótico. Estas salas
são segmentadas, para poderem agradar a todos, com os mais diversos
títulos: “MarriedM4Affair”, “The Gay Parade” “Family Time”, “SubM4F”,
“Swingers” (GRAEML, VOLPI & GRAEML, 2004). Através da Internet, o
usuário pode assumir a personalidade que desejar, encontrando para cada
faceta de sua personalidade,um interlocutor conveniente. A identidade do
indivíduo é preservada, se fragmenta e se adapta à cada nova realidade
criada.
Nos Estados Unidos onde o tempo de navegação em busca de
sexo chega a 30 horas por semana, quando perguntados sobre a razão
que os levava a utilizar os chats, 86% dos internautas comentaram sobre
o anonimato, 63% mencionaram a acessibilidade, 58% a segurança e
37% o uso fácil dessa ferramenta (GRAEML, VOLPI & GRAEML, 2004).
Para Moraes (2000), a inexistência de protocolos éticos rígidos e o uso
de pseudônimos geram atitudes deletérias. Nas salas sobre sexo, namoro
e erotismo, são freqüentes insultos, pornografias e intromissões
descabidas, claro indício do clima de ausência de limites e repressão,

76
que acaba, às vezes, por se confundindo com catarses e liberação de
instintos difusos.
Uma outra pesquisa americana, da Universidade de Stanford,
aponta que cerca de 200 000 americanos perderam o controle sobre o
uso da Internet e atualmente sofrem de um mal identificado pela Associação
Americana de Psicologia como PIU (Pathological Internet Use) como Uso
Doentio da Internet. Esta doença tem por sintoma básico a utilização
preferencial ou exclusiva da Internet sobre as demais atividades do dia-a-
dia.
O uso indiscriminado da Internet por seus usuários está criando
uma geração de pessoas solitárias que estão buscando no computador
uma forma de se refugiar e desprezar as atividades e obrigações do mundo
real (MORAIS, 2000b; a).
Mas porque uns tornam-se fanáticos compulsivos e viciados ao
uso da Internet ao passo que outros não ligam para isso? Do ponto de
vista psicológico, é uma questão de caráter. Cada pessoa tem diversos
traços de caráter que se formam e vão sendo incorporados pelo indivíduo
durante as etapas do desenvolvimento, em decorrência das experiências
traumáticas vividas. “Já antes do nascimento sinais vindos do mundo
exterior invadem o nosso corpo, nele trafegam e deixam verdadeiras marcas
físicas, os correlatos das manifestações psíquicas” (HEEMANN, 2001b,
p. 38-39). E são essas marcas que irão formar nossos traços de caráter
que funcionam como defesa do ego contra experiências dolorosas e
desagradáveis que possam nos atacar novamente na vida adulta. Aí, frente
a cada situação, agimos e reagimos de acordo com nossos traços caráter.
Se essas marcas foram estabelecidas durante a gestação ou primeiro
ano de vida, em decorrência do sentimento de abandono da mãe ou
qualquer outro fator tido por estressante pela criança, irá desenvolver nessa
criança um traço de caráter denominado esquizóide (REICH, 1995), cujo
comportamento básico quando adulto será a tendência ao de isolamento,
dificuldade de estabelecer vínculos e contatos sociais, facilidade para
fantasiar e fugir da realidade, e sempre privilegiando a razão à emoção.
Se essas marcas forem estabelecidas durante a etapa do desenvolvimento
denominada produção (VOLPI & VOLPI, 2003), em decorrência de uma
figura materna autoritária, severa rígida e moralista, a criança irá desenvolver
um traço de caráter compulsivo, cujo comportamento básico quando adulto
será a compulsão que se manifesta de várias formas como a de ser
colecionador, mesquinho, moralista, autoritário, rígido e severo para os
outros, mas não para si próprio, etc. Portanto, a soma desses dois traços
de caráter contribui para a formação de uma neurose de esquiva e
compulsiva, que como compensação, leva algumas pessoas a passarem
inúmeras horas na frente de um computador fantasiando, criando suas

77
próprias regras, deixando de lado toda a repressão, ética, moral e valores
que mesmo neuróticos são importantes para o convívio social.
Face ao que foi exposto nesse artigo, podemos pensar que o
avanço da tecnologia nos trouxe inúmeros benefícios. Porém, não saber
fazer uso desses benefícios permite com que entremos em um mundo
sem saída onde nossos conflitos emocionais tendem a emergir, trazendo
à tona questões que talvez sempre permearam nossa vida emocional,
mas que até então, encontravam-se latentes. Isso significa que cada pessoa
se relaciona com o computador de acordo com sua dinâmica de caráter.
Portanto, aqueles que tiverem uma dinâmica de caráter esquizóide, terão
prazer no uso do computador a contatos pessoais, uma vez que essa é
uma de suas grandes dificuldades. Por meio do computador esta
dificuldade pode ser transposta, já que na Internet as pessoas não
precisam manter um contato físico, suas emoções podem ser distorcidas
tornando-as quem elas desejarem, sem necessariamente precisar de uma
postura ética e moral, baseada nos valores impostos pela sociedade.
Sentem-se com liberdade de expressão tanto mental, quanto emocional.
Já, uma pessoa de traço obsessivo-compulsivo irá sentar na frente
da telinha e não sairá até que se esgote tanto física quanto
emocionalmente. Sua compulsão fará com que fique inúmeras horas em
salas de bate-papos à procura de novas amizades, namoros,
relacionamentos sexuais, etc, de forma a descarregar sua tensão interna.
Mas a questão nesse caso parece não ser apenas a de encontrar alguém
e sim, de encontrar muitos, milhares, milhões, numa roda viva de
insatisfação emocional, como um colecionador, que nunca está satisfeito
com o que já conseguiu obter. Aí, esse uso exagerado, torna-se uma
doença.
Novas maneiras de se relacionar socialmente através da rede
são possíveis, mas não podem substituir o contacto face a face. Da mesma
forma, o uso exagerado de qualquer coisa, leva à instauração e
manifestação de comportamentos neuróticos. Portanto, devemos sempre
estar atentos aos nossos exageros e falta de limites. Isso pode nos levar
para um poço sem fundo.

Referências
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Acesso em: 10 Julho/2004.
BOFF, L. Crise das identidades nacionais, 2004. Disponível em:
www.leonardoboff.com. Acesso em: 10 de Julho/2004.
CASTELLS, M. A sociedade em rede - A era da informação: Economia,
Sociedade e Cultura. São Paulo: Ed. Paz e Terra, V.1. 1999.

78
CASTELLS, M. A sociedade em rede. In: MORAES, D. (Org). Por uma
outra comunicação. Mídia, Mundialização Cultural e Poder. Rio de
Janeiro: Record: 2003.
GRAEML, K. S., VOLPI, J. H.; GRAEML, A. R. O impacto do uso
(excessivo) da internet no comportamento social das pessoas. In: VOLPI,
J. H.; VOLPI, S. M. (Orgs). Psicologia Corporal. Curitiba: Centro
Reichiano, V. 5, 2004. 126 p.
GUARINI, E. Virtualidade do Sexo Virtual. In: PELUSO, A. (Org).
Informática e afetividade. Bauru: Edusc, 1998. 189 p.
HEEMANN, A. Natureza e Ética: Dilemas e perspectivas educacionais.
Curitiba: UFPR. 2001a.
HEEMANN, A. O corpo que pensa: ensaio sobre o nascimento e a
legitimação dos valores. Joinville: Ed. Uniliville, 2001b.
LEVY, P. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.
MORAES, D. A ética comunicacional na internet, 2000. Disponível
em: http://bocc.ubi.pt/pag/moraes-denis-etica-internet.html. Acesso em:
22 Jun/2004.
MORAIS, J. Armadilha digital, 2000a. Disponível em:
www.planetajota.jor.br/digital.htm. Acesso em: 20 Jun/2004.
MORAIS, J. Eu tenho a cura! 2000b. Disponível em: /
www.planetajota.jor.br/digital3.htm. Acesso Em: 20 Junho/2004.
MORAIS, J. Orgasmos virtuais. 2000c. Disponível em:
www.planetajota.jor.br/digital2.htm. Acesso em: 20 Jun/2004.
REICH, W. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
SARDILLI, S. E Cantafio, L. Do golem aos autômatos modernos. In:
PELUSO, A. (Org). Informática e afetividade. Bauru: Edusc, 1998.
VOLPI, J. H. ; VOLPI, S. M. Crescer é uma aventura! Desenvolvimento
emocional segundo a psicologia corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.

Karin Sylvia Greml é Geógrafa, Mestre em Engenharia da Produção


pela UFSC e doutoranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela
UFPR.
E-mail: karin.graeml@netpar.com.br

José Henrique Volpi é Psicólogo, Orgonoterapeuta Mestre em Psicologia


da Saúde/UMESP e Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento/
UFPR. Diretor do Centro Reichiano de Psicoterapia Corporal, Curitiba/
PR.
E-mail: volpi@centroreichiano.com.br

79
CONTRIBUIÇÕES DE REICH
PARA A EDUCAÇÃO
REICH’S CONTRIBUTIONS TO EDUCATION

Carla Stefan

Resumo
Neste artigo foi elaborado um estudo sobre a educação, que é um tema
muito debatido é corriqueiro e faz parte do cotidiano dos pais e educadores.
Porém, a maioria deles não sabe quando acerta ou erra na educação das
crianças. Pretende-se refletir sobre as contribuições de Wilhelm Reich
para o campo da educação ressaltando os aspectos da qualidade
emocional de quem educa e as influências prejudiciais ao desenvolvimento
emocional da criança. Busca-se identificar a importância da prevenção
da couraça nos primeiros anos de vida, pesquisando na teoria de Reich a
proposta de uma saúde educacional e bem-estar das crianças.
Palavras-chave: Couraça, Criança, Educação, Prevenção.

Abstract
This paper presents the results of a study about education, which is a
common subject and part of the daily life of parents and educators. How-
ever, most of them don’t know when they are right and when they are
mistaken in children’s education. We intend to reflect about all Wilhelm
Reich’s contributions to education, emphasizing the issues related to
emotional qualities of those who bring up the kids, as well as the bad
influences to the children’s emotional development. The author intends to
identify the importance of preventing the formation of an armor during the
first years of life, looking for a proposal for an educational health and the
children’s comfort, according to Reich’s theory.
Keywords: Armor, Children, Education, Prevention.

80
Educação é um termo difícil de se conceituar. Conforme Doron e
Parot (1998, p. 264) “Educação é uma dessas palavras que todo mundo
acha que conhece bem, contanto que não tenha que defini-las”. E se é
um assunto que já é complicado na sua definição, quem diria na sua
execução. Sendo assim, o fracasso é um resultado constante.
Os pais são os principais responsáveis pela educação dos filhos
e isso gera uma enorme carga de responsabilidade, pois só poderão ser
bons para seus filhos se tiveram bons pais e se sua saúde psíquica for
suficiente para transmitir segurança aos novos descendentes. E essa
relação com os pais é que irá definir toda a conduta da criança na sua
vida.
Segundo Doron e Parot (1998) a educação antes de ser uma
noção, designa uma experiência, um desafio, uma aposta. Seu uso
corrente revela sua falta de firmeza, exigindo assim, numerosos
qualificativos ou complementos de determinação. Com eles forma tantas
locuções, que entraram na linguagem pela força do hábito, especificando-
se pelo campo: educação escolar, educação familiar, educação especial,
etc; pelo objeto: educação sexual, educação da vontade, educação dos
esfíncteres, etc; pelas idades da vida: primeira educação, educação dos
adolescentes, educação dos adultos, etc. Esta plasticidade do termo se
evidencia na noção de educação permanente e na decepção com que
deve contar quem queira defini-lo com um grau de generalidade.
Se nos perguntássemos em que momento inicia-se a educação
de uma criança, a resposta poderia ser: desde antes da sua concepção!
Essa resposta tem fundamento se pensarmos que a qualidade emocional
dos pais, questão fundamental para a educação dos filhos, já está em
formação há muito tempo e que desde o momento em que concebem a
criança, esses pais já estão proporcionando à criança um útero acolhedor
ou não, um parto tranqüilo ou não, iniciando assim a sua formação
(VOLPI, 2004).
Apesar do homem saber de forma inata como procriar e educar
seus filhos, nem sempre o fazem de maneira saudável.

Se o próprio organismo da mãe é livre e emocionalmente expressivo,


ela compreenderá o bebê. Mas se ela é caracteriológicamente
encouraçada e rígida, tímida ou inibida, falhará na compreensão da
linguagem do bebê e, por esta razão, o desenvolvimento emocional
da criança estará exposto a várias influências prejudiciais (REICH,
1987, p. 92)

Desde o momento da concepção a criança vai se desenvolvendo


e registrando as suas experiências boas ou ruins e ao completar o seu
desenvolvimento, seu caráter estará estabelecido, a maneira de se portar
perante a vida também (VOLPI, 2004).
81
O desenvolvimento da criança obedece, segundo Baker (1980)
etapas que compreendem a formação da sua estrutura emocional. Essas
etapas seriam: estágio ocular, estágio oral, estágio anal, estágio fálico e
estágio genital. O estágio ocular ocorre no primeiro ano de vida e
desenvolve o contato e a integração com o meio ambiente de forma hostil
ou acolhedora. No mesmo período, do primeiro ano de vida, também
ocorre o estágio oral onde a amamentação está em evidência sendo de
grande importância a satisfação ou não do bebê neste momento. O estágio
anal acontece entre o segundo e o terceiro ano de vida e diz respeito ao
controle dos esfíncteres, sendo de grande importância nesta fase a
ansiedade dos pais no momento em que a criança evacua. O estágio
fálico ocorre aos quatro anos de idade e marca a descoberta do órgão
genital. A identificação com o mesmo sexo ocorre no estágio genital,
onde o órgão genital adquire uma função masculina ou feminina.
O que é de suma importância, é que toda criança tem seu próprio
funcionamento, seu próprio ritmo de desenvolvimento e isso deve ser
observado e respeitado para que a criança não seja agredida nas suas
necessidades. Pais saudáveis serão mais sensíveis em reconhecer as
reais necessidades da criança e se surgir algum problema terão também
uma maior capacidade em resolvê-lo sem se sentirem desamparados.
Se todas essas etapas do desenvolvimento psico-afetivo forem
vivenciadas de forma tranqüila, com pais tranqüilos, a criança terá um
desenvolvimento saudável e seu desempenho perante a vida ocorrerá de
maneira satisfatória.
De acordo com as idéias de Reich (1987), a grande dificuldade
em permitir que os recém nascidos desenvolvam sua moralidade natural,
está em que o encouraçamento aparece muito cedo na vida, isto é,
imediatamente após o nascimento. Com a primeira couraça o poder auto-
regulador do bebê começa a escassear. Eles se tornam muito mais
frágeis, enquanto o encouraçamento se espalha por todo o organismo, e
eles devem ser condicionados por princípios morais compulsivos para
que a criança sobreviva em seu meio ambiente. Deste modo, a regulação
compulsiva das crianças não é resultado de más intenções ou de malícia
por parte dos educadores. É uma terrível necessidade, uma medida de
emergência.
Mas não podemos pensar que a criança deve ser privada de
qualquer tipo de frustração, mesmo porque isso seria impossível devido
ao meio agressor em que vivemos. Segundo Reich (1987, p. 26) “Não é
verdade que o ego das crianças é incapaz, por natureza, de enfrentar
emoções e excitações bioenergéticas. Numa criança saudável, o ego é
desenvolvido com as emoções e não contra elas.”
A idéia de uma criança “saudável” é por vezes distorcida e temos
a noção de que uma criança sem problemas seria uma criança “perfeita”
82
e sem nenhum tipo de reação.
Não é verdade que as crianças saudáveis não tenham ansiedade.
Elas sentem-se às vezes, como todas as criaturas vivas. A visão de
que a saúde é algo totalmente “perfeito”, que a criança “saudável”
não deve ter “isso ou aquilo” não tem nada a ver com a realidade
nem com a razão. A idéia do perfeito e do absoluto é uma clara
fantasia mística redentora das estruturas neuróticas (REICH, 1987,
p. 26).

A criança “saudável” ao enfrentar situações problemáticas não


tem suporte para o desenvolvimento de um sintoma, enquanto que a
criança doente fica fixada na situação criando uma estrutura sintomática.
Ao passar pelo momento conturbado, a criança “saudável” pode até
apresentar alguma ansiedade ou agressividade passageiras, mas retorna
à sua normalidade.
O que conta não é o ataque sintomático agudo isolado, mas a
estrutura de caráter subjacente. Sem uma distorção básica da
estrutura bioenergética da criança, que pode ocorrer desde a
concepção, os ataques de ansiedade aguda ou raiva irracional não
terão onde fincar raízes, e em conseqüência, não se tornarão traços
de caráteres crônicos biopáticos (...) Se não há estase, as emoções
e idéias mais perigosas tornam-se inofensivas (...) Portanto, o que
conta é o suporte das funções psíquicas, e não o conteúdo psíquico
em si (REICH, 1987, p. 27).

Reich (1987) fala também da importância da prevenção da


couraça nos primeiros anos de vida, ressaltando que a couraça pode ser
identificada e removida pêlos próprios pais da criança. Ao reconhecer os
motivos da couraça ter se instalado, os pais podem estar mobilizando
uma mudança de atitude em relação à criança para que esta não necessite
mais de tal tipo de defesa e também estar ajudando a criança através de
massagem a desbloquear o local contido. Mas isso dependeria muito da
rapidez com que a ajuda apareceria e do desenvolvimento e da aplicação
dos primeiros socorros. Se os pais estiverem suficientemente saudáveis
e energéticamente em contato com a criança, esta tem grandes
possibilidades de ter uma estrutura saudável. Também sempre
demonstrou seu interesse por questões sociais desde o seu ingresso na
psicanálise e sempre lutou contra a educação coibidora e autoritária,
visto que sua teoria do orgasmo defende uma sexualidade livre de
preconceitos e obrigações.
Ao olhar para a área educacional Reich diz que a boa educação
deveria conseguir colocar limites sem inibir completamente a vida pulsional
da criança e sugere alguns procedimentos que possam ser utilizados
por qualquer pessoa envolvida na educação de crianças. Segundo Reich
apud Pacífico (2004), as quatro possíveis maneiras de educação infantil
a partir da relação entre frustração e satisfação pulsional seriam:
83
1º) Devem ocorrer frustração e satisfação pulsional parciais. De acordo com
o pensamento de Reich deve-se ocorrer uma educação que permita aos
instintos alcançar certo grau de desenvolvimento, para em seguida – sempre
num ambiente de boas relações com a criança – introduzir paulatinamente
as frustrações. E mais: As frustrações necessárias se distinguem das
desnecessárias por servirem não só aos interesses da sociedade, como
também aos interesses da própria criança. Se a criança continuasse a ser
tal qual como nasceu, ou seja, primitiva, egoísta, só preocupada com a
obtenção do prazer, mais tarde sucumbiria na luta pela vida. A criança tem
que aprender que não está só no mundo.

2º) Frustração excessiva. Uma criança muito frustrada, provavelmente será


um adulto contido.

3º) Atitude permissiva extremada. “Esta forma de educação infantil é


caracterizada por um grau mínimo de frustração e grande satisfação pulsional
e, consequentemente, geraria indivíduos sem capacidade de adiar
satisfação, ou seja, com pouca capacidade de autocontenção” (p. 2).

4º) Atitude permissiva seguida por frustração intensa e traumática. Conforme


Pacífico (2004), é importante achar a medida exata de uma boa educação,
podendo harmonizar frustração e satisfação pulsional.

A educação é algo cujo êxito é sem dúvida inimaginável, mas


que, de facto, muitas vezes fracassa. Toca-se também um alerta a
respeito das latentes perversidades da intenção de educar em nome dos
imperativos da sociedade (DORON & PAROT, 1998).
O educar deve ocorrer na medida certa, sem grandes restrições
nem grandes excessos; e por isso Reich procurou descrever a psicologia
do educador e a conseqüência de seus atos na educação de uma criança.
Procurou também os motivos que levavam os educadores a terem
determinados tipos de atitude e com isso chegou às seguintes
afirmações, conforme Albertini (1993, p. 63):
(...) os pais, diante de qualquer manifestação instintiva da criança,
“recordam” os seus próprios desejos infantis reprimidos, e as
instâncias instintivas das crianças representam um perigo para as
subsistências das próprias expressões. Ora, esse perigo é
impedido à custa de proibições educativas que exigem claramente
os traços característicos da compulsão pára educar.

Reich apud Albertini (1993) coloca como um outro fator da


compulsão para educar a “ambição insatisfeita” onde o educador se julga
obrigado a fazer alguma coisa, a educar, ainda que nada haja a educar, e
que sente como uma ofensa pessoal, como um testemunho negativo da
sua arte educativa, que sua vítima não se comporte de modo “adulto”.
Isso se presencia muito em consultórios médicos com expressões do
tipo: “não suje a mão”, “não seja mal educado na frente do médico”, “dá
bom dia”... Pode também ocorrer como fonte geradora da compulsão
para educar de o educador remeter-se à sua própria infância e com uma
84
dinâmica reparatória. E de acordo com Reich apud Albertini (1993) o
desejo de corrigir a própria infância é provavelmente um dos motivos
típicos da vontade de educar. Mas para a mentalidade primitiva,
inconsciente, corrigir a própria meninice só pode significar vingar-se, de
modo que a vontade educativa comporta em si uma compulsão sádica
para educar fundamentada no inconsciente.
Reich coloca que em alguns momentos da educação a repressão
se faz mais do que necessária e que são inevitáveis, mas isso deve ser
feito de maneira consciente e saudável sem que ocorram frustrações
demasiadas. As crianças eram denominadas por Reich de “protoplasmas
não afetados” e este colocava que elas é que valiam a pena em termos
terapêuticos, pois através delas poderíamos ter a esperança de adultos
saudáveis enquanto que a terapia dos adultos poderiam ajudá-los “aqui e
ali” mas não o tornariam totalmente saudáveis.
De acordo com as idéias de Reich apud Albertini (1993) para
facilitar o desenvolvimento infantil há a necessidade de coerência no
processo educativo. Isto é, a contenção externa, em vez de oscilar entre
ausência e presença massiva, deve ser progressiva, contínua e
consistente. Reich (1987) diz que temos uma história inteira de fracasso
na educação e que estamos inseridos em uma sociedade cuja educação
vem no sentido do ajustamento a interesses globais impedindo com que
as crianças possam se desenvolver de acordo com a lei da natureza. O
que ele pretendia através de uma educação saudável e da prevenção da
couraça sempre foi fazer com que as crianças pudessem desembaraçar-
se das situações biopáticas. No entanto, faz-se necessários trabalhos
preventivos e profiláticos com os pais, que carregam o peso da educação
equivocada que receberam e continuam perpetuando em seus filhos a
completa ignorância sobre a educação que receberam na infância.

Referências
ALBERTINI, P. Reich: história das idéias e formulações para a educação.
DORON, R.; PAROT, F. Dicionário de psicologia. SP: Ática, 1998.
PACÍFICO, J. M. Um olhar de Reich para a educação. Disponível em:
www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp. Acesso em 26/08/2004
REICH, W. Bambini del futuro. Milano: SugarCo Edizioni, 1987.
VOLPI, J. H. Campos Energéticos. Anotações de aula do curso de
Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2004.

Carla Stefan é Psicóloga e cursa Especialização em Psicologia Corporal


no Centro Reichiano, Curitiba/PR
E-mail: cstefan@ig.com.br
85
A MODERNIDADE E OS CONFLITOS
SÓCIO-PSICO-AMBIENTAIS
MODERNITY AND THE SOCIAL-PSYCHO-
ENVIRONMENTAL CONFLICTS

José Henrique Volpi

Resumo
Nosso mundo e nossas emoções vêm sendo moldados pelas exigências
e conflitos de uma nova globalização. A evolução da ciência e a
reestruturação do capitalismo trouxeram uma nova forma de organização
social, de valores éticos e morais, que dentro de sua globalidade,
penetraram todos os níveis da sociedade e foram difundidos em todo o
mundo, abalando instituições, transformando culturas, incitando a
competição, a ganância, e por sua vez, criando riqueza e induzindo a
pobreza. Admirável ou não, trata-se na verdade de um mundo novo, um
mundo moderno, que precisa ser entendido e tratado de forma
interdisciplinar.
Palavras-chave: Conflitos, Interdisciplinaridade, Modernidade.

Abstract
Our world and emotions are being molded by the requirements and con-
flicts from a new globalization. The evolution of science and the restructur-
ing of capitalism brought a new form of social organization, as well as new
moral and ethic values that penetrate all levels of our society and spread
around the globe, shake traditional institutions, transform cultures, stimu-
lating competition and greediness, generating wealth and poverty. This is
the new reality, a modern world that needs to be understood and treated in
an interdisciplinary way.
Keywords: Conflicts, Interdisciplinarity, Modernity.

86
O que é moderno? É o que faz parte do nosso século atual ou o
que no decorrer de todos os anos da existência do ser humano, foi sendo
aprimorado? Alain Torraine (1994) diz que essa nova modernidade é
caracterizada pelo desenvolvimento produzido pelo progresso técnico. Se
por um lado traz facilidades, por outro, instiga o homem a desejos
capitalistas que o coloca frente ao trabalho intenso e ao estresse deixando-
o mais horas em função do trabalho do que no convívio do lar. Isso faz
com que rompa com os laços sociais, familiares, religiosos, emocionais
e até mesmo com a natureza da qual sempre fez parte.
O trabalho escravo, a descoberta de que a Terra gira em torno de
seu próprio eixo, de que a Europa não era o centro do mundo e muitas
outras descobertas, deixaram o homem bem mais ciente de suas
limitações, inclusive de sua própria morte e o lançou em busca do poder,
do dinheiro, do elixir da juventude e da vida eterna. Na antiguidade, cada
vez mais países como a França, Alemanha, Inglaterra e Rússia iam tendo
um maior domínio técnico, científico e militar absoluto em relação ao
resto do mundo que por sua vez, via-se ameaçado. Impérios eram
construídos e destruídos, terras invadidas e guerras aumentavam. Campos
eram povoados e poluídos, pobres tornavam-se escravos dos ricos e o
capitalismo ultrapassou os limites da Europa Ocidental, implantando-se
nas mais diferentes regiões do mundo. E assim, durante muito tempo o
ocidente acreditou que a modernidade era o triunfo da razão (TOURAINE,
1994). Esse, era portanto, o resultado do avanço da humanidade em direção
à modernidade.
Os mais diversos tipos de tecnologias propagaram a ilusão de
que a espécie humana havia se libertado definitivamente da natureza
(BOCCHI & CERUTI, 1999). Assim, problemas sociais, psicológicos e
ambientais derivados de um progresso da vida urbana e industrial surgiam
a cada momento e eram sempre colocados de lado nas agendas de
discussões políticas ambientais.
Essa era da modernidade foi demarcada por Edgar Morin (2003)
como sendo a era planetária, da idade do ferro, que começou a partir de
1492 com a descoberta da América, quando as nações ainda jovens e
pequenas se lançaram para a conquista do planeta através da aventura,
da guerra e da morte. Houve uma ruptura das barreiras entre as populações
humanas e o ecossistema e a natureza passou a ter uma transformação
incomum. Isso trouxe o início de um desarranjo geral nas relações sociais,
que jogou a irreversibilidade da vida nos porões de um progresso
comandado pelas tecnologias da informação e da comunicação, e fez o
ser humano esquecer que a Terra não era apenas um lugar onde se
espraiava a globalização, mas era em si, uma totalidade complexa, um
ecossistema. Portanto, essa era planetária se abriu e se desenvolveu
“em” e “pela” violência, destruição, escravatura, exploração feroz da
87
América e da África. É a idade de ferro planetária, na qual ainda nos
encontramos” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p. 69).
Com o avanço da ciência, da tecnologia, da modernidade, o
homem se viu frente a frente com novos desafios. Encontrou a cura para
inúmeras doenças, deslocou-se de um lugar para outro numa velocidade
incomum, aumentou seus ganhos financeiros e vislumbrou um mundo
sem limites e sem fim. Mas isso tudo também fez com que o ambiente,
a sociedade e o homem entrassem em crise, decorrente de uma
modernidade desenfreada que o levou competir, invadir, depredar o ambiente
em que vive, se estressar e ter conflitos psicológicos dos mais diversos
possíveis. Estamos mergulhados numa busca sistemática dos valores
humanos e enfronhados numa crise social que atinge tanto os países
desenvolvidos como os países em desenvolvimento. É uma crise que
envolve a moralidade, a violência, a criminalidade, o desemprego, a fome
e muito mais.
A Terra já não é mais a mesma e esse discurso também é válido
para o homem. Ambos, com o passar dos anos, foram se modificando
em suas estruturas como reflexo do avanço de uma tecnologia que, se
por um lado trouxe grandes contribuições, por outro, trouxe catástrofes
em amplos sentidos. A crise ambiental atingiu um limite da modernidade
que nada mais é do que um limite da própria racionalidade. Essa crise é
expressa em forma de produção e aplicação de conhecimentos gerando
uma racionalidade econômica, que por sua vez, promove de maneira
intensiva a produção de conhecimentos científicos que se articulam por
meio da tecnologia, numa produção acelerada. Isso tudo é o que leva o
planeta a uma crise ambiental (LEFF, 2001).
E dessa forma, o homem foi se aventurando, usando e abusando
daquilo que conquistava. Desmatou, poluiu, contaminou, sem nunca levar
em conta que os recursos naturais do planeta em que vive, um dia,
poderiam sentir as conseqüências desses atos. E talvez, podemos dizer
que não só o capitalismo como também a avareza e ganância do homem
é que o levou a provocar esse caos mundial.
No âmbito psicológico, o homem também sofreu. A expansão do
capitalismo em suas diferentes etapas foi multiplicando e acentuando
cada vez mais as desigualdades sociais, culturais, etc. Aumentou o
desemprego, a fome, o estresse, a violência. Nos tempos antigos a palavra
estresse não tinha significado algum. Como fruto dessa modernidade,
passou a fazer parte dos dicionários de todas as línguas. A necessidade
financeira fez com que muitos pais e filhos abandonassem seus lares em
busca de novos empregos aventurando-se em grandes centros urbanos,
se estressando e sofrendo as conseqüências da vida moderna. Isso gerou
medo, trouxe conflitos psíquicos e provocou doenças na mente e no corpo.
Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (2004) o estresse
88
foi a doença que mais matou pessoas em todo o mundo no ano de 1999,
número esse que cresce a cada dia. Então, o estresse tornou-se uma
epidemia global, fruto da desadaptação da espécie humana às pressões
cotidianas que são impostas por um estilo de vida altamente competitivo.
Também como fruto desse estresse, causado por uma variada
fonte de estressores, surgiras as fobias. Dados da Organização Mundial
de Saúde (2004), também informam que no ano 2000 aproximadamente
14% da população mundial estava sofrendo de algum tipo de fobia. A
depressão também foi apontada como resultado da crise econômica
causada pela modernidade. Junto a isso, encontramos as alergias, a
hipertensão, os infartos e várias outras doenças de fundo emocional, que
são indicadores significativos da crescente desadaptação humana às novas
condições ambientais precipitadas pela modernidade.
O homem evoluiu em sua inteligência, em sua tecnologia, mas
não evoluiu em suas emoções. Se antes buscava viver em sociedades,
hoje prefere o isolamento; se antes, fazia parte da natureza, hoje, está
completamente desconectado dela e de suas próprias emoções; se antes
acreditava em Deus, hoje busca explicar pela ciência a criação do Universo,
condicionando o homem apenas ao discurso científico (TORRAINE, 1994).
O mito do desenvolvimento determinou a crença de que era preciso
sacrificar tudo por ele. Permitiu justificar impiedosas ditaduras, sejam
as do modelo “socialista” (partido único) ou as do modelo pró-
ocidental (ditadura militar). As crueldades das revoluções do
desenvolvimento agravaram as tragédias dos subdesenvolvidos
(MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p. 83).

O indivíduo deixou de ser concebido como trabalhador, consumidor


e cidadão. Deixou de ser um ente social e se tornou um ser de desejo,
um ser individual, um ser privado, egoísta, ganancioso. Sua relação com
o passado foi sendo cada vez mais substituída pelo desejo de aquisição
e avanço para o futuro, com uma fé descomunal para o progresso e
desenvolvimento moderno que se expandiu por toda a Terra. A corrida
pelo capitalismo e modernização trouxe uma crise nos casamentos, nas
famílias, nos aspectos sociais e emocionais dos indivíduos e diminuiu
sua qualidade de vida. “O desenvolvimento suscitou e favoreceu a formação
de enormes estruturas tecnoburocráticas que, por um lado, dominam e
depreciam todos os problemas individuais, singulares e concretos, e, por
outro, produzem a irresponsabilidade, o desapego” (MORIN; CIURANA;
MOTTA, 2003, p. 84).
O desenvolvimento das forças econômicas e da tecnologia sempre
ofereceram ao homem uma posição de maior poder. Mas isso também
fez com que a modernidade exigisse uma educação mais moralista, com
regras (GIDDENS, 1989) e por conseqüência, como reflexo, trouxe um
comportamento consumista compulsivo, interferindo diretamente sobre o
89
caráter da pessoa.
O processo de socialização começa com o nascimento e termina
com a morte do indivíduo. Ele faz do ser humano uma entidade que
fala, tem uma identidade social, um estado social, é habitado e
determinado por regras, valores, finais e possui mecanismos de
motivação que são sempre mais ou menos adequados à
manutenção da sociedade existente (CASTORIADIS, 1999).

O ser humano é produto de um processo evolutivo que desemboca


na constituição de um grande cérebro sapiencial: o neocórtex. E é esse
cérebro que o afastou da universalidade dos instintos, diferenciando-o
das demais espécies e lhe conferindo a capacidade de raciocínio lógico e
o ideal de conquistar do mundo. Dessa forma, cada vez mais o homem
teve seus papeis definidos pelas organizações sociais e não por seus
próprios desejos. É trabalhador, pai, mãe, vizinho, militante, jogador. Mas
tanto a evolução do homem quanto o crescimento urbano tirou-o de seu
contato com a natureza e o colocou em crise existencial. Desde que
ingressou no mundo da cultura, suas relações com a natureza e consigo
mesmo tornaram-se mediatizadas, misturadas com o “ruído” ideológico
(MORIN, 1993).
Assim, ao mesmo tempo que a modernidade trouxe uma queda
de barreiras entre as populações e ecossistemas e permitiu uma unificação
dos povos, também provocou uma unificação microbiana do mundo e
uma crise da biodiversidade onde todos os anos milhares de espécies
animais desaparecem da face da terra. “Embora possa ser robusta, nossa
Terra apresenta condições que se aproximam do ponto no qual a própria
vida não esteja longe de seu fim” (MATURANA, p. 90).
O ecossistema encontra-se em um processo constante de
encolhimento e logo, poderá chegar ao colapso. O homem, também sente
os efeitos desse encolhimento. O estresse lhe derruba em forma de
doenças psíquicas e físicas até entrar em colapso que traz como
conseqüência a loucura emocional e a doença física que lhe tiram a vida.
O homem é quem se separou da natureza e não a natureza do
homem (DESCOLA, 2001). A natureza é viva e todo vivo está articulado
ao processo de evolução natural. Se de um lado encontramos a teoria de
que a vida não é mais que um processo de organização de elementos
materiais, por outro, nos deparamos com a explicação de que a vida
provém de seres espirituais criados antes de qualquer elemento material,
por um Deus vivo. Esses questionamentos foram, e continuam sendo,
alvo de muitos cientistas que procuram incessantemente explicar a origem
da vida. Mas, enquanto alguns se degladiam nesse desafio, nosso planeta
está em crise e junto com ele, o homem. E pensar que foi somente a
partir da década de 60 que temas relacionados à questão ambiental
passaram a serem tratados pelas sociedades modernas, e que somente
90
hoje, quarenta anos depois é que a ciência está colocando em evidência
a necessidade da junção de diversos saberes e áreas do conhecimento
(CASTELLS, 1999). É a era da inter, multi, trans, pluridisciplinaridade. E
o que vem depois disso? De que adianta tantos nomes? Será que somos
capazes de colocar isso em prática? A modernidade prega uma educação
ambiental, ecológica, mas será que isso é feito com base em consciência
e sentimento verdadeiro ou apenas porque está na moda e portanto, é
moderno?
Acreditamos que hoje se faz necessário não apenas uma
Educação Ambiental intelectualizada como principalmente, uma Educação
Ambiental sentimentalizada. É preciso sentir, incorporar esse sentimento
para depois pensar. Da mesma forma, é preciso trabalharmos em prol de
uma recuperação daquilo que foi perdido, que foi deixado para trás. Talvez
não consigamos reverter nem diminuir o buraco na camada de ozônio,
mas com certeza, ainda é possível despoluirmos rios, cidades, mares,
fazermos novos reflorestamentos, separarmos o lixo que não é lixo,
economizarmos água, luz, alimento, combatermos a fome e muito mais.
E não basta acreditarmos. Temos que fazer, partir de algum lugar.
Infelizmente ainda somos movidos a seguirmos um líder. Então, talvez
precisemos de líderes para nos mostrar o início do caminho. Muitos tem
boa vontade, querem, mas não sabem onde, como, o que fazer. Partindo
do pressuposto de que “é preciso compreender a vida como conseqüência
da história da Terra e a humanidade como conseqüência da história da
vida na terra (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p. 63) é que devemos
fazer. Não precisamos, nem devemos esperar dias, meses e anos para
que novas idéias surjam. Então, devemos e podemos começar já. “Pensar
a natureza, pensar a sociedade e o papel da humanidade como nexos ou
como uma relação constitutivamente integradora não é uma tarefa fácil,
simples e imediata, quando observamos que a história da ciência dos
últimos 200 amos operou com esquemas de disjunção, de controle e de
fragmentação sobre a natureza, a sociedade e o ser humano” (FLORIANI,
2003, p. 134).
Vivemos uma crise ambiental, psicológica e social planetária que
nos faz repensar nos caminhos que queremos dar ao nosso planeta e às
nossas vidas. Sofremos os impactos dos processos de urbanização
acelerada, do efeito estufa, da diminuição da camada de ozônio, do
problema do lixo, da poluição, do crescimento e desigual distribuição
demográfica, sentimos cada vez mais a escassez da água, o
desflorestamento; a falta de energia, o aumento da pobreza, a miséria, a
fome. Essas são questões que dizem respeito à luta de todo e qualquer
cidadão pela preservação da vida do homem e do planeta. E é a
multiplicação desses problemas sócio-psico-ambientais que têm
contribuído para despertar no ser humano uma nova consciência.
91
Entretanto, apesar de sua importância, percebe-se que ainda não se refletiu
em mudanças significativas nos rumos das políticas governamentais nem
nos estilos de vida das pessoas.
O homem continua destruindo! Mas, o que o leva a fazer isso? O
que podemos fazer para mudar esse comportamento? Talvez não
encontremos respostas se pensarmos de forma cartesiana e individual.
Precisamos fazer a interdisciplinaridade entre os diversos saberes onde
todos possam oferecer sua contribuição. Precisamos “fortalecer as
condições de possibilidade da emergência de uma sociedade-mundo
composta por cidadãos protagonistas, conscientes e criticamente
comprometidos com a construção de uma civilização planetária” (MORIN;
CIURANA; MOTTA, 2003, p. 98).

Referências
BOCCHI, G.; CERUTI, M. A complexidade do devir humano. In: PENA-VEJA, A;
NASCIMENTO, E. P. (Orgs) O pensar complexo. RJ: Garamond, 1999
CASTELLS, M. Introdução: nosso mundo, nossa vida. In: A era da informação:
economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, vol. 2, 1999
CASTORIADIS, C. Para si e a subjetividade. In: PENA-VEJA & MASCIMENTO,
E. P. (Orgs) O pensar complexo. RJ: Garamond, 1999,
DESCOLA, P. A natureza: um conceito em sursis? In: PASTERNAK-PESSIS, G.
(Org.) A ciência, Deus ou Diabo? São Paulo: UNESP, 2001, pp. 109-121
FLORIANI, D. Conhecimento, meio ambiente e globalização. Ctba: Juruá,
2003 (prelo).
GIDDENS, A. A teoria da estruturação, pesquisa empírica e crítica social. In: A
constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1989
JOHNSON, S. Emergência: A Dinâmica de Rede em Formigas, Cérebros,
Cidades e Softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
LEFF, E. Epistemologia Ambiental. São Paulo: Cortez, 2001.
MATURANA, H. O que se observa depende do observador. In: THOMPSON, W.
I. (Org.). Gaia: uma teoria do conhecimento. SP: Editora Gaia, 2000
MORIN, E. Contrabandista dos saberes. In: PESSIS-PASTERNAK, G. Do caos
à inteligência artificial: quando os cientistas se interrogam. SP: UNESP, 1993.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. SP: Cortez,
2003
MORIN, E; CIURANA, E. R.; MOTTA, R. D. Educar na era planetária. SP: Cortez,
2003
OMS - World Health Organization. Disponível em: <<http://www.who.int>>.
Acesso em: 25/08/2004
TOURAINE, A. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994.

José Henrique Volpi é Psicólogo, Orgonoterapeuta Mestre em Psicologia da


Saúde/UMESP e Doutorando em Meio Ambiente/UFPR. Diretor do Centro
Reichiano
E-mail: volpi@centroreichiano.com.br
92
A REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE
AUTO-ESTIMA A PARTIR DA PERSPECTIVA
DE WILHELM REICH
REFLECTIONS ON THE CONCEPT OF SELF-ESTEEM
FROM REICH’S PERSPECTIVE

Heloisa Lescano Guerra


Resumo
Nosso trabalho tem o propósito de refletir sobre o conceito de auto-estima,
a partir da ótica de Reich, considerando que esse tema integra um campo
relevante da vida social cotidiana da pós-modernidade, no bojo de uma
área de conhecimento que carece de mais investigações, atualmente,
quer da Psicologia, quer das outras ciências afins.
Palavras-chave: Auto-Estima, Couraça, Psicologia, Reich.

Abstract
This paper deals with the concept of self-esteem, looking at it from Reich’s
perspective. This subject represents a relevant post-modern social life
topic, which lacks scientific studies in psychology, as well as in others
fields of knowledge.
Keywords: Auto-Esteem, Armor, Psychology, Reich.

93
O presente artigo tem por finalidade tecer considerações acerca
da noção de auto-estima, sob o paradigma de Wilhelm Reich, uma vez
que consideramos esse tema relevante no que diz respeito aos nossos
conhecimentos sobre o cotidiano, o homem comum, a sociedade, da
perspectiva do dos estudos psicológicos.
A auto-estima é compreendida como uma valorização, apreciação
e satisfação, enfim, um sentimento de juízo que o sujeito tem de si mesmo,
expresso pelas atitudes para consigo e nas relações com os outros.
Vamos aperfeiçoar essa definição, afirmando que a auto-estima
é um ato de amor e de confiança consigo mesmo. Precisamos entender
bem que são as duas coisas juntas: o “amor próprio” e a “autoconfiança”.
Faltando um destes ingredientes, não teremos uma auto-estima verdadeira
(BRANDEN, 2000).
Amar a si mesmo sem confiança nos seus atos ou pensamentos
não resolve. Neste grupo temos as vítimas, aquelas pessoas que desejam
algum “bem” para si, mas se lamentam por não terem condições de
consegui-lo.
Confiança em seus projetos ou na sua capacidade de conquista
sem o amor próprio também não traz felicidade. Neste último grupo, vemos
a maioria das pessoas mergulhadas no estresse social, preocupadas em
ter e poder, mas esquecendo de ser. O psiquiatra e terapeuta familiar
residente na França, Reynaldo Perrone, acredita que 90% dos pacientes,
que buscam tratamento psicoterápico trazem queixas relacionadas com
problemas de baixa confiança ou estima. Entre as técnicas utilizadas
para trabalhar com este tema destacamos aqui a “Técnica da escala de
Percentagens”, na qual o paciente determina o quanto de confiança possui
em si naquele determinado momento, numa escala de 0 a 100%.
Ao utilizar os valores percentuais de auto-estima, registrado no
círculo em que o paciente concretiza sua auto-estima, pode relacionar
com outras dificuldades trazidas durante o trabalho terapêutico,
identificando assim quais os aspectos que impedem de elevar sua
porcentagem. O método específico para auto-estima foi aplicado em 150
sujeitos durante seus processos psicoterápicos e foram levantados temas
relacionados ao sistema familiar, a criança interior, desenvolvimento corporal
e formação do eu (PERRONE apud BOZZA, 2001).
Pensar o quanto nos estimamos e valorizamos os que estão ao
nosso redor requer refletir sobre a forma como as relações na família, na
escola e no trabalho se processaram e/ou se processam. Isso porque as
relações sociais e afetivas estão intrinsecamente ligadas aos valores e
padrões da sociedade da qual estamos inseridos.
Relações essas que se caracterizam por respeito mútuo,
sinceridade, ética e consideração ao outro enquanto ser humano, em que

94
as pessoas conseguem ver, ouvir, sentir o outro e a si, tendem a manter
elevada a auto-estima com reflexos positivos sobre o “clima” familiar,
profissional e social. Nesse caso o desempenho profissional, escolar,
sexual, a criatividade, o raciocínio e a delicadeza encontram espaço para
florescer e se ampliar de forma prazerosa e mais intensa. A saúde “do
corpo e das relações” prevalece.
De modo geral, a baixa auto-estima é produzida por relações
caracterizadas pelo descaso, desqualificação e violência com que tratamos
as necessidades básicas, sensações, sentimentos, percepções, desejos
e projetos em qualquer área de nossas vidas. Quem tem auto-estima
baixa está sujeito a vários comprometimentos psicológicos, tais como a
depressão e a ansiedade, pois seu modo de ver o mundo e de comportar
o faz se sentir infeliz e inseguro.
Um início de vida com maior respeito e carinho (que inclui limites)
ajuda a formar cidadãos menos rígidos (encouraçados) e mais fortes
emocionalmente, capazes de lidar com alegrias, tristezas, ganhos e
perdas. Sobre isso, podemos afirmar que um bebê, inicialmente, sente e
mostra com seu corpo, por meio de seus movimentos, sua satisfação ou
insatisfação, prazer ou desprazer. Se a forma como tratamos a criança
não espelhar aconchego, calor e prazer, ela vai descobrindo corporalmente
um modo de disfarçar suas necessidades e sensações, vai negando a si
o direito de demonstrar corporalmente aquilo que sente. Desenvolve
Couraças Musculares, que segundo Wilhelm Reich (1995), são defesas,
armaduras biológicas e energéticas que vão interferir na auto-regulação
do organismo, produzindo inibição da pulsação e da vibração corporal,
dificultando a respiração e a circulação sangüínea, influenciando na postura
e na atitude diante de si e da vida.
Nosso comportamento de desconsideração, frieza, violência,
incoerência entre o que dizemos e o que fazemos pode deixar na criança
ou no adolescente um olhar “vazio”. Segundo Yoder, silêncio, birra, inibição,
isolamento, falta de limites no dia a dia, ausência de sensações e
sentimentos, movimentos estereotipados, dificuldade de estar atento
quando necessário, medo constante do abandono e da morte, sentimento
de solidão, individualismo, narcisismo, competição constante, violência,
indiferença, falta de criatividade, de atenção, de empenho na resolução
de problemas, saúde deficiente e descaso consigo podem ser indícios de
baixo-estima (1990).
No âmbito profissional as desvalorizações, ameaças de
demissão, monopólio de informações, ritmo de trabalho, exigências do
mercado, trabalhos insalubres, falta de perspectiva e de estímulo à
competição acirrada, tendem a provocar baixa na auto-estima com todas
as conseqüências sobre saúde, a vida afetiva e sexual.

95
A auto-estima, segundo as teses de Wilhelm Reich

A Psicoterapia Reichiana tem por finalidade atuar sobre a rigidez


corporal e/ou falta de tensão, restabelecendo e mantendo a saúde “físico-
emocional” dentro de uma perspectiva de transformação das relações
afetivas, profissionais e sociais. Esta abordagem engloba aspectos
biológicos, psicológicos e sociais dentro de um plano energético, em
consonância com a energia orgônica descoberta por Reich. Dentro desse
caminho o trabalho psicoterapêutico com “temas tão atuais” como da
auto-estima tem sido tarefa do dia a dia.
Para o autor, a auto-estima tem dois aspectos inter-relacionados:
a noção da eficiência pessoal (auto-eficiência) e a noção do valor pessoal
(auto-respeito). A primeira significa confiança no funcionamento de nossa
mente, em nossa capacidade de pensar, nos processos por meio dos
quais refletimos, escolhemos e decidimos, é uma autoconfiança cognitiva;
a outra significa ter certeza de nossos valores, uma atitude afirmativa
diante de nosso direito de viver e ser feliz, a sensação de reafirmar de
maneira apropriada os nossos pensamentos, as nossas vontades e
necessidades.
Se um indivíduo se sente inadequado para enfrentar os desafios
da vida, se não tem uma autoconfiança básica, confiança em suas próprias
idéias, reconheceremos nele uma auto-estima deficiente, sejam quais
forem suas outras qualidades. Ou, então, se falta ao indivíduo um senso
básico de respeito por si mesmo, se ele se desvaloriza e não se sente
merecedor de amor e respeito da parte dos outros, se acha que não tem
direito à felicidade, se tem medo de expor suas idéias, vontades e
necessidades, novamente reconheceremos uma auto-estima deficiente,
não importa que outros atributos positivos ele venha a exibir.
Vale dizer que auto-eficiência e auto-respeito são os dois pilares
da auto-estima saudável; se um deles estiver ausente, a auto-estima
estará comprometida, já que ambos são características definidoras do
termo por serem fundamentais. Não representam significados derivados
ou secundários da auto-estima, mas sua essência.
Reich (1995) considera certas estruturas humanas nativas a
determinadas organizações sociais. Isto é, cada organização social produz
estruturas de caráter necessárias para sua existência, utilizando para
isso a ajuda das formas de educação, da instituição familiar e criando
ideologias que serão adotadas por cada membro dessa sociedade.
Entendemos que o ser humano, para atingir sua total identidade
como um ser masculino ou feminino, deve trazer em si, de forma satisfatória
e integrada, a identidade primária, secundária e a social. Essas três
identidades são qualitativa e quantitativamente dependentes e se

96
processam, simultaneamente, com a organização e estruturação do Ego.
Na identidade primária, a organização do Ego se processa por
meio da coordenação e interdependência das funções de autopercepção
e conscientização; essas funções só podem se desenvolver plenamente
dependendo da qualidade da relação objetal. Em outros termos, de acordo
com a tese de Reich (1995), a criança quando nasce já possui
autopercepção e consciência, mas por meio de sua relação com a mãe,
ou pessoas que lhe cuidam, é que será capaz de confirmar seu auto-
conhecimento. As reações do adulto são críticas e consolidam a primeira
experiência do bebê com o meio ambiente como um local previsível, estável
e dependente.
Essas primeiras interações fundamentam também a base para o
lento desenvolvimento da essência da sua auto-confiança. Portanto, a
autopercepção e consciência corporal se organizam durante a relação
objetal. Reich acredita que a disfunção da autopercepção e consciência
estão diretamente relacionadas às disfunções emocionais.
Hoje sabemos que o contato íntimo e interpessoal entre pais e
filhos forma uma base indispensável para a auto-estima e a auto-confiança.
De fato, esse contato é essencial para praticamente todas as conquistas
e toda a felicidade que possa advir mais tarde na vida (BRIGGS, 2000).
Na perspectiva de Reich (1995), a formação caracterológica
consiste numa mudança crônica do Ego; o estudioso o descreve como
um endurecimento que formará as bases crônicas das formas de reações
defensivas. O objetivo dessas formas defensivas são de defender o Ego
de perigos internos (pulsões) e externos (repressão moralista e sedução).
As qualidades destas formas de reação são comuns a ambos os sexos,
bem como as emoções primárias, por ele definidas como prazer, ansiedade,
medo, tristeza, dor e raiva. A qualidade emocional é a mesma nos seres
humanos, mas a quantidade e grau é que podem variar de uma pessoa
para outra, dependendo com quem e como se deram as frustrações vividas
e de que forma aparecem os bloqueios. A forma de expressão, ou ausência
expressiva dessas emoções, irão definir as formas de defesas que cada
um organiza na sua estrutura biopsíquica e na qualidade do
encouraçamento.
Sabemos que o pensamento naturalmente racional está centrado
na capacidade de experienciar as percepções, sensações e emoções de
forma contínua e sem distorção. A limitação nessa capacidade denuncia
uma intolerância, em diferentes graus, ao movimento espontâneo de
energia. Tal intolerância pode ser consciente ou não, mas na medida em
que, lembramos, ocorre o desbloqueamento das couraças e o
restabelecimento perceptivo do fluxo energético natural do organismo, o
indivíduo vive intensa ansiedade interrompendo ou provocando uma

97
distorção na função da percepção.
Segundo Konia (1991), a função das distorções perceptivas e
cognitivas é defensiva e alimenta o estado de falta de contato com o self
e com os outros. A percepção e consciência da imagem corporal e a
capacidade de sentir o corpo integrado a essa imagem depende da
organização e restabelecimento das funções de percepção e
conscientização. Há uma interdependência entre as funções de
autopercepção e da consciência. Para Reich (1995), quando a função da
autopercepção se deteriora, em geral, isso também ocorre com a função
de conscientização e, por conseqüência, todas as outras funções a elas
relacionadas como a fala, associação, orientação e outras.
Tendo como meta uma reflexão, a partir dos estudos de Reich
sobre a noção de auto-estima, o presente artigo leva-nos a concluir que
gostar de si próprio, achar-se merecedor das coisas boas da vida, cuidar
de si e tratar-se muito bem são atitudes que conduzem a um bom
exercício da auto-estima. E para conduzi-la bem, é necessário muito
amor, por si mesmo.
É importante observar que auto-estima é a reputação que criamos
de nós mesmos: é o que eu penso e sinto sobre mim mesmo, é a opinião
e o sentimento que cada pessoa tem por si mesma e pelo seu interior, é
ter consciência de seu valor pessoal, acreditar e confiar em si mesmo.
Sendo assim, a auto-estima fortalece, dá energia e motivação.
Ela nos inspira a obter resultados e nos permite a sentir prazer e satisfação
diante de nossas realizações e proclama-se como uma necessidade
porque sua (relativa) ausência compromete nossa capacidade de funcionar.
É por esse motivo que dizemos que ela tem valor de sobrevivência.
E hoje mais do que nunca. Atingimos um ponto na história em
que a auto-estima, que sempre se mostrou como uma necessidade
psicológica de suma importância, também se tornou uma necessidade
econômica da maior relevância, atributo imperativo para a adaptação a
um mundo cada vez mais complexo, desafiador e competitivo.
Assim como um sistema imunológico saudável não é garantia de
que a pessoa nunca ficará doente, mas torna-a menos vulnerável a doenças
e mais bem preparada para combatê-las, a auto-estima saudável também
não é garantia de que a pessoa nunca venha sentir ansiedade e depressão
diante das dificuldades da vida, mas torna-a menos suscetível e melhor
equipada para suportá-las e até superá-las. As pessoas com auto-estima
elevada certamente podem ser derrubadas por um excesso de problemas,
mas são rápidas em recuperar-se.
É visível e latente que a valorização de si mesmo é um processo
que se constrói no dia-a-dia e que pode ser ajudado por intermédio do
auto-conhecimento. Quem se conhece sabe da riqueza que existe em

98
seu mundo interior, sabe dos recursos que pode lançar mão nos momentos
bons ou ruins, confia mais em si mesmo.
Por fim, de acordo com a abordagem das teses de Reich, objeto
de nosso trabalho, o sintoma é uma forma de expressão do próprio corpo,
sendo o seu maior meio de expressão a linguagem simbólica. E como
forma de expressão, avisa que algo está fora do centro, desequilibrado.
Aplaudimos Lowen (1997) quando afirma que o corpo é a parte
mais observável e material do EU. Isso porque o corpo envolve a parte
física que garante a existência do sujeito como um corpo único e os
órgãos dos sentidos que influenciam nas percepções. Dessa forma, uma
pessoa que se encontra bem consigo mesma e com o mundo, de forma
integrada, revelará tal condição por meio de sua imagem corporal: a
aceitação que tem de si mesmo, incluído o corpo, está diretamente
proporcional à visão que se tem do mundo e de como se realizam as
ações.

Referências
BOZZA, M. G. Argila espelho da auto-expressão. Curitiba: autores
paranaenses, 2001.
BRANDEN, N. A Auto-estima e os seis pilares. São Paulo: Saraiva,
2000.
BRIGGS, D. C. A auto-estima de seu filho. São Paulo: Martins Fontes,
2000.
FOUCAULT, M. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994.
LOWEN, A. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética. São
Paulo: Summus, 1997.
KONIA, C. Orgone Therapy: Part XI, The Application of functional Thinking
in Medical Practice. In: The Journal of Orgonomy. USA: Orgone Publi-
cations, vol. 25, n. 1, May, 1991, pp 42-56.
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: da Psicanálise à Análise do Caráter.
Curitiba: Centro Reichiano, 2003.
YODER, J. A criança auto-confiante. São Paulo: Saraiva, 1990.

Heloisa Lescano Guerra é graduada em Psicologia pela Pontifícia


Universidade Católica de São Paulo e aluna da Especialização em
Psicologia Corporal pelo Centro Reichiano, Curitiba/PR
E-mail: heloguerra@terra.com.br

99
A INFLUÊNCIA DO CANTO NO
AUTODESENVOLVIMENTO
THE INFLUENCE OF SINGING IN ONE’S
SELF-DEVELOPMENT

Luciana Elisa Hoerner

Resumo
A voz humana evoluiu através dos séculos como forma de comunicação,
até como a conhecemos hoje. Neste trabalho será apresentada uma das
formas de comunicação da voz, o cantar. Através dele as emoções e
sentimentos começaram a mostrar os reais desejos e a retratar a vida do
ser humano. Este cantar envolve três aspectos em seu desenvolvimento:
a respiração – fonte de energia; a postura – saúde física e bem estar e a
vocalização – descoberta e expressão dos sentimentos e emoções. Neste
âmbito também foi observada a diferença da voz falada para a voz cantada
na descoberta do Eu, gerando a possibilidade do autoconhecimento e
autodesenvolvimento através da música. Assim, o cantar é um dos
caminhos para descobrir a si mesmo.
Palavras-chave: Autoconhecimento, Autodesenvolvimento, Cantar,
Couraças.

Abstract
The human voice evolved through the centuries as communication means,
until it reached the current status. This paper will present one of the ways
to communicate though the voice – singing. The emotions and feelings
started uncovering desires and to provide a picture of the person’s life.
Singing involves three aspects in its development: the breath – energy
source; the posture – corporal health, welfare and vocalization - discov-
ery of feelings and emotions and their expression. The difference be-
tween the speaking voice and the singing voice is also important in dis-
covering one-self. Self-knowledge and self-development can be achieved
through music. Singing is a way to obtain self-discovery.
Keywords: Self-knowledge, Self-development, Singing, Armors.

100
A voz humana possui infinitas forças de expressão, seja ela falada
ou cantada. Através das emoções expostas e dos sentimentos vividos
pode-se observar e sentir o que uma pessoa quer dizer. A voz cantada é
muito diferente da voz falada. Através do canto, a pessoa pode expressar
seus sentimentos e liberar suas emoções.
Aprender a cantar engloba ouvir – interna e externamente,
perceber-se, entrar em contato com o seu interior e expressar-se. Neste
aprendizado três elementos importantes e essenciais são trabalhados: a
respiração, a postura e a vocalização (exercícios vocais para a “colocação”
da voz na posição correta para a emissão cantada). Estes elementos
constituem a estrutura base para a formação da voz cantada,
proporcionando o conhecimento do seu material vocal, corporal e psíquico.
O primeiro elemento, a respiração, é a fonte de energia vital para
a vida. O homem nasce respirando corretamente, sem esforço, integrado
com o meio que o cerca e usando naturalmente sua plena capacidade
pulmonar (pulmões + diafrágma). Para entender melhor esta respiração,
basta observarmos um bebê dormindo. A sua respiração movimenta-se
na parte inferior do tronco; o abdômen se expande na inspiração e se
contrai na expiração (respiração abdominal-intercostal ou costo-
diafrágmática). Para experimentar esse processo, fique em pé, coloque a
palma das mãos no abdômen (na parte inferior) e ao inspirar imagine o ar
entrando e empurrando a sua mão para fora, depois de completar a
inspiração, expire encolhendo o abdômen, como se estivesse esvaziando
uma bexiga. Assim podemos senti-la e observar a sensação de conforto
que ela nos proporciona.
No entanto, com o passar dos anos esta respiração vai se tornando
cada vez mais difícil, curta e acelerada, devido à vida agitada, à “falta de
tempo”, comum nos dias atuais, fazendo com que a pessoa diminua sua
qualidade respiratória, conseqüentemente comprometendo sua qualidade
de vida, pois respirar é fonte de energia. A má respiração pode gerar
tensões, que levam a sintomas freqüentes, como angústia e ansiedade
(tão comuns atualmente).
A respiração presa na parte superior do tórax (respiração toráxica-
clavicular), onde se observa o movimento de expansão e contração do
tórax, deixa-nos impossibilitados de usar plenamente nossa capacidade
pulmonar, deixando rígido e tenso o movimento respiratório, pois desta
forma o diafrágma é pouco trabalhado; como a voz é formada neste
movimento, influenciará na emissão vocal gerando tensões (pois ao expirar,
o ar passa pelas cordas vocais gerando vibrações, formando os sons da
fala). Lowen apud Trevisan (2004) ponderou que a tensão na região do
pescoço, obstrui e estreita a emissão vocal no maxilar, na união da cabeça
com o pescoço e na união do pescoço com o tórax. Além destes, outros
sintomas podem a aparecer devido à má respiração, tais como a
101
ansiedade, a rigidez do abdômen, a falta de intensidade nas emoções,
etc.
Estes sintomas podem ser amenizados e possíveis de
desaparecerem com o preparo corporal e através do estabelecimento da
respiração natural (abdominal-intercostal ou costo-diafrágmática). Os
exercícios para trazer novamente a respiração ao seu estado natural fazem
com que músculos intercostais, diafragma e abdominais proporcionem
uma nova experiência para o homem, que passará a se observar cada vez
mais e mudar sua visão corporal e do mundo em que vive, integrando-se
novamente a ele.
“A respiração é um ato natural, que nos acompanha durante toda
a vida, até o último minuto” (STORÓLLI, 2004). Na maioria das vezes esta
respiração é reaprendida pelas pessoas que se propõe a aprender a cantar.
Depois de relembrada, pois nascemos respirando da maneira correta,
abre-se um novo “mundo” para a pessoa. Segundo Vigostky (1930-1990)
apud Maheirie
...toda emoção se manifesta em imagens concordantes com ela,
de tal forma que as reações corpóreas, impressões, idéias e imagens
constituem um todo que se unifica a ela. Nesta perspectiva, os sentimentos
tendem a dominar outras dimensões da vida e “qualificar” o mundo de
acordo com o nosso estado de ânimo porque, se estamos alegres, corpo,
pensamentos, impressões e imagens constituem um “mundo alegre”.
Uma boa respiração conduz ao bom canto. A respiração
bloqueada, rígida, remete a um som rígido e bloqueado. Cada movimento
corporal e respiratório está intrinsecamente ligado ao som, refletindo o
estado interno desta pessoa, interferindo na expressão e na livre produção
do som. Através do canto são expostos inúmeros sentimentos internos,
sejam eles agradáveis ou desagradáveis, leves ou pesados, de frustração
ou de alegria. Quanto mais se respira, mais estes sentimentos serão
liberados e mais qualidades e nuances da expressão estarão presentes
ao cantar. Começa aí o processo de autoconhecimento e auto-
desenvolvimento.
O segundo elemento, a postura corporal, está intrinsecamente
ligada ao primeiro elemento, respiração. Boa postura é sinônimo de boa
saúde e de bons hábitos, retratando o homem em suas relações pessoais,
suas atitudes e como se expressa a determinadas situações da vida. A
boa postura também pode ser aprendida e praticada diariamente por meio
da observação corporal. A saúde física de acordo com Cheng (1991)
garante-se com exercícios que mantenham a saúde do corpo adequados
a pessoa, sem exaustão e força excessiva. Praticar exercícios tais como
T’ai Chi Ch’uan, Ioga, Natação e Dança, libera as tensões, relaxa a
musculatura, adquirindo equilíbrio e tranqüilidade com a mente. Sem uma

102
boa postura a sonoridade também é comprometida. Portanto, o principal
objetivo do preparo da postura é a consciência corporal que ela desperta.
Segundo Coelho (1994), o corpo preparado e consciente está em harmonia
com o meio, manifestando a disponibilidade para cantar. Há um princípio
milenar chinês que diz (CHENG, 1991, p.119):
Durma como um arco
Fique em pé como um pinheiro
Sente-se como um sino
Ande como o vento

Os exercícios chamados vocalizes constituem o terceiro elemento


fundamental a ser trabalhado pela pessoa para “descobrir” sua voz cantada.
Numerosos, esses exercícios preparam a voz para a colocação correta
da emissão vocal ao cantar. Eles são formados por pequenas “melodias”
repetidas várias vezes, com o objetivo de trabalhar a ressonância, a
colocação, a articulação, a sustentação, etc. O processo de repetição
dos exercícios desperta sensações internas e ao praticar com a orientação
do professor, estes exercícios desenvolverão a voz até que esta esteja
sendo usada plenamente ao cantar. É um desafio escrever sobre um
elemento que precisa ser escutado, sentido e que se apresenta
sonoramente, pois serão estas sensações sonoras no corpo, que guiarão
a pessoa a descobrir o seu som. Este processo é o mais trabalhoso e
até podemos dizer, mais difícil do canto, pois nele estão ligados: a
respiração, o corpo e a voz.
Ao cantar a pessoa precisa, primeiro descobrir a diferença de
sua voz falada para a sua voz cantada, obrigando-a a prestar muita atenção
em si mesma. Particularmente no Brasil esta diferença da voz cantada
para a voz falada gera muita confusão para os aprendizes de canto, pois
o exemplo musical dos cantores na música brasileira é da voz falada
cantada. É uma característica brasileira ouvirmos na música vozes faladas
nas canções, sem que o cantor use a capacidade vocal total ao cantar,
como por exemplo o rap e a própria música popular brasileira. Para uma
melhor clareza disso, imagine que você está conversando com alguém e
sem mudar a voz, passa a verbalizar as palavras só que dessa vez,
cantando. Essa é a chamada voz falada cantada .
Existem casos onde encontramos a dificuldade de reconhecer a
própria voz ao cantar. Quando a pessoa aprende e passa a se escutar,
tem dificuldade se aceitar esta expressão. Muitas vezes isso acontece
pelo desejo de cantar como seu cantor preferido, pois até então, ela tentava
cantar como ele, sem prestar atenção na sua própria voz. A partir daí
começa um grande trabalho em busca da autoaceitação – aceitar sua
voz, do reconhecimento de si – reconhecer a si mesmo no mundo, a
autoestima – sentir-se bem consigo mesmo, expressão – expressar-se

103
livremente e sua autoimagem – criar a imagem real de quem você é. Este
fator de rejeição da própria voz, pode ter origens variadas: na extrema
admiração de seu ídolo (Transferência ou Identificação) onde a pessoa
passa a querer cantar como ele (a), pela falta de educação musical na
infância e adolescência nas escolas e em casa, por timidez (Inibição ou
Negação), através da repressão (familiar ou do meio) da expressão
individual (Inibição).
Observamos no Brasil, a grande quantidade de cantores de baile,
que segundo Zampiere (2002) “o cantor de baile na maior parte das vezes
tende a imitar a qualidade vocal dos grandes ídolos, estabelecendo com
freqüência padrões de abuso vocal.” Em sua maioria começaram a
profissão pelo dom de cantar sem nunca terem passado por um
desenvolvimento técnico (técnica vocal: respiração, postura e vocalização),
por isso os índices de problemas fonatórios nestes profissionais são muito
grandes. E ainda segundo seus estudos “o cantor popular de baile é tão
mais valorizado pelo público quanto mais se aproximar dos padrões
estéticos de cantores famosos...” dificultando a expressão autêntica de
cada cantor.
A vontade de entrar neste caminho de autoconhecimento e
autodesenvolvimento leva ao desencouraçamento e a afirmação do Eu.
Ao descobrir e vivenciar todos estes processos, rupturas são feitas
gerando alguns desequilíbrios psíquicos e corporais na antiga conduta
pessoal, sendo positivos para a reorganização do homem, tornando possível
o crescimento interior. Observando este homem em seu contexto social,
que segundo Maheirie (2002) considera:
O processo de criatividade do músico precisa ser compreendido,
por sua vez, sempre como um produto histórico-social, completamente
inserido no tempo/espaço no qual se dá, a partir das condições objetivas
do contexto, sempre mediado por um processo intresubjetivo. Nesta
perspectiva, toda obra é domínio da atividade de todos os homens,
destacando um caráter coletivo em qualquer invenção singular.
Há séculos o canto está presente na vida humana e acredita-se
que nos primórdios da raça humana, a comunicação era feita através de
sons ou ruídos rudimentares. Com a evolução da inteligência, a
comunicação também se aperfeiçoou até como a conhecemos hoje. Nesta
comunicação, além de apenas informar, o cantar trouxe o sentimento, a
expressão do sentimento, a expressão do “ser” através da música. É
também através da música que as pessoas alcançam estados de
consciência inexplicáveis. O pleno desenvolvimento do canto proporciona
esta descoberta e pode ajudar o ser humano em vários aspectos. Cabe a
cada um querer descobrir o seu. Este é mais um caminho que se faz
presente na jornada da busca do conhecimento.

104
Referências
CHENG, S. C. T. O Tão da Voz: Uma abordagem da técincas do canto e
da voz falada combinando as tradições oriental e ocidental. Rio de Janeiro:
Editora Rocco Ltda, 1991.
COELHO, H. W. Técnica Vocal para Coros. São Leopoldo: Editora
Sinodal, 1994.
MAHEIRIE, Kátia. Processo de criação no fazer musical: uma
objetivação da subjetividade, a partir dos trabalhos de Sartre e Vygotsky.
Maringá, Revista de Psicologia (online), 2004 Departamento de Psicologia
- UEM. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 29/09/2004
REICH, W. Análise do Carácter. Lisboa: Dom Quixote, 1979.
SVÄRDSTRÖM, V. W. A Escola do Desvendar da Voz: Um caminho
para a redenção na arte do canto. São Paulo: Editora Antroposófica Ltda,
2001.
TREVISAN, A. V. O som e movimento corporal como psicoprofilaxia na
infância. In: CONVENÇÃO LATINO AMERICANA, CONGRESSO
BRASILEIRO E ENCONTRO PARANAENSE DE PSICOTERAPIAS
CORPORAIS.1.,4.,9., Foz do Iguaçu. Anais... Centro Reichiano, 2004.
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VOLPI J. H.; VOLPI S. M. Reich: da psicanálise à análise do caráter.
Curitiba: Centro Reichiano, 2003.
STORÓLI, W. Cursos. Disponível em: <www.usp.br>. Acesso em: 20/
08/2004.
ZAMPIERI, Sueli A., BEHLAU, Mara e BRASIL, Osíris O. C. do. Análise
de cantores de baile em estilo de canto popular e lírico: perceptivo-
auditiva, acústica e da configuração laríngea. São Paulo, Rev. Bras.
Otorrinolaringol. [online]. Disponível em: www.scielo.br/scielo. Acesso
em: 29/09/2004

Luciana Elisa Hoerner é Cantora, Violinista, Educadora Musical, membro


do Collegium Cantorum – Coro Feminino, integrante do grupo de música
contemporânea Ensemble EntreCompositores e do Coro Nova Filarmonia
– Teatro Guaíra. Cursa Especialização em Psicologia Corporal, no Centro
Reichiano, Curitiba/PR.
E-mail: luelisah@yahoo.com.br

105
RESPIRAÇÃO, PRÁTICAS CORPORAIS E
EQUILÍBRIO PSICOFÍSICO
BREATH, CORPORAL PRACTICES AND
PSYCHOPHYSICAL BALANCE

Maria Zélia Nicolodi

Resumo
O primeiro ato de nossa vida é a respiração e o bebê desde o nascimento
é um mestre nesta arte. Infelizmente à medida que crescemos vamos
pouco a pouco perdendo essa habilidade maravilhosa, longa, profunda e
relaxada e nos acomodando a respirações cada vez mais curtas, presas,
angustiadas e incompletas. Nosso corpo reclama a falta da plena
oxigenação dos tecidos e do sangue através de distúrbios físicos e
emocionais. Um abastecimento insuficiente de oxigênio para o organismo
pode reduzir a capacidade cardíaca e diminuir a eficiência do nosso
sistema imunológico. No decorrer deste artigo, procuraremos demonstrar
rapidamente a correlação existente entre métodos modernos e antigos
que têm por objetivo resgatar a respiração plena visando a melhoria da
condição psicofísica dos seres humanos.
Palavras-chave: Corpo, Energia, Reich, Respiração, Yoga.

Abstract
The first act of our life is the breath and the baby is a master in that art.
Unfortunately, as we grow we loose this wonderful, lengthy, deep and
slovenly ability and adapt ourselves to briefer, anguished and incomplete
breathing. Our body suffers the effects of the lack of complete tissue and
blood oxygenation through corporal and emotional commotions. Insuffi-
cient oxygen supply can reduce the cardiac capacity and diminish the
efficiency of our immunologic system. This paper demonstrates the rela-
tionship between ancient and modern methods developed to help people
recover the ability of perform the complete breath, improving the psycho-
physical condition of the human beings.
Keywords: Body, Energy, Reich, Breath, Yoga.

106
Sendo a respiração o sustentáculo da vida já que a morte acontece
quando esta é interrompida, desde tempos imemoriais o homem alimenta
a curiosidade em descobrir o que realmente mantém o ser vivo e pensante.
Que energia permeia o oxigênio que respiramos sustentando a vida neste
planeta e fazendo com que o nosso corpo físico se mantenha trabalhando
de maneira tão fantástica, independente da nossa vontade? Nesta procura,
em épocas diferentes o homem foi estabelecendo conceitos e dando
nomes para esta energia. Os hindus chamam-na de prâna, que significa
literalmente “vida”, isto é, “força vital”. Os chineses chamam-na de chi, os
polinésios de mana, os ameríndios de orenda, os antigos alemães de od
(FEUERSTEIN, l998) e mais recentemente, Reich a chamou de orgone.
Vamos abordar esse assunto começando pela visão hinduísta
que nomeou esta energia de prana, que é
soma total das energias do Universo. )...) não é nem magnetismo,
nem gravitação, nem eletricidade, mas estes diversos fenômenos
são manifestações do prana universal. O Prana manifesta-se em
todo o Universo onde há movimento (...) A fonte mais importante do
prana vital é a atmosfera (LYSEBETH, 1978, p. 21)

Os relatos mais antigos sobre a investigação desta energia vital


pertence aos hindus, pois já existem menções sobre o prana em um dos
quatro Vedas, o Atharva Veda vers. 15. Os Vedas são antigas escrituras
hindus, que serviram de base para toda a filosofia e religiosidade da Índia.
Segundo a tradição, os conhecimentos contidos nestes documentos foram
revelações divinas recebidos por homens sábios chamados de rishis; estes
conhecimentos eram passados aos mais jovens de forma oral e esses
jovens dedicavam todo o seu tempo a decorar os textos que deviam
permanecer na sua íntegra. Os Vedas, são datados de 4500 – 2500 aC.
Dentro dessa investigação o que todos pareciam ter em comum
era a idéia de uma energia abrangente fornecida através do ar que
respiramos. A respiração, completa e profunda seria então a ferramenta
para um bom abastecimento energético, fonte de uma saúde física e
emocional equilibrada. Muitas tradições desenvolveram práticas para
equilibrar essa energia dentro do corpo com o uso de respirações ritmadas
e sincronizadas a movimentos corporais. Na Índia encontramos o Yoga –
com o objetivo de equilibrar corpo, mente e espírito através do alinhamento
e harmonização dos centros energéticos (chackras); sua técnica usa:
asanas (posturas que estimulam estes centros), bandhas (contrações
de determinadas musculaturas), pranayamas (técnicas de respiração) e
dhyana (meditação). Na China, o tai-chi-chuan através de movimentos
sincronizados com a respiração procura a captação do chi (a energia
mais sutil) que a nível físico, ao circular livre pelo corpo harmoniza a
circulação sanguínea e coloca todos os músculos e articulações para

107
funcionar. Além do yoga e tai-chi, algumas lutas marciais como aikido,
kung-fu, karatê também usam o movimento respiratório em suas técnicas
que procuram equilibrar corpo e mente.
Em uma época mais recente o psiquiatra Wilhelm Reich trouxe
novamente à tona o estudo dessa energia, à qual denominou orgone. “A
energia orgone cósmica funciona no organismo vivo como energia biológica
específica. Como tal, governa todo o organismo, expressa-se tanto nas
emoções quanto nos movimentos puramente biofísicos dos órgãos”
(REICH, 1998, p. 330).
Apesar de toda a dedicação de Reich em experiências que
procuravam provar a existência de uma energia sutil que permeava todos
os seres vivos e da insistência em trazer para a terapia analítica formas
inovadoras de trabalho, foi marginalizado pelos chamados “cientistas” da
época.
É interessante observar o paralelo entre “prana” e “orgone” e a
importância que essas duas idéias dão à respiração, como a forma mais
eficaz de equilibrar essa energia dentro do corpo humano. Na obra de
Reich, Análise do Caráter (1995) são descritos os bloqueios musculares
que se instalam no corpo humano como resultado de experiências
emocionais negativas ocorridas ao longo da vida de cada indivíduo. Esses
bloqueios passam a manifestar-se através do comportamento social de
cada indivíduo ao qual Reich classificou como caráter. Posteriormente
Reich descobriu que esses traços de caráter apresentavam um
correspondente somático no corpo, uma couraça muscular, e passou a
trabalhar diretamente sobre o corpo do paciente, técnica denominada
vegetoterapia caracteroanalítica. Portanto, a proposta da técnica da
vegetoterapia é flexibilizar ou até mesmo dissolver essas couraças
psíquicas e somáticas que são limitadoras e impedem a autoregulação
do corpo e da mente (VOLPI & VOLPI, 2003).
Como nas tradições filosóficas e religiosas orientais sempre houve
a tendência de considerar a mente e o corpo como uma unidade, não
surpreende que numerosas técnicas tenham sido desenvolvidas, no
Oriente, para abordar a consciência a partir do nível físico. Um aspecto
importante dessas técnicas orientais, que também é fortemente
enfatizado na terapia reichiana, é o papel fundamental da respiração como
um elo entre os níveis consciente e inconsciente da mente. Nossos
padrões de respiração refletem a dinâmica de todo o nosso sistema
corpo-mente, e a respiração é a chave para nossas recordações
emocionais. A prática de respiração adequada e o uso de várias técnicas
respiratórias como instrumentos terapêuticos é, portanto, fundamental
para muitas escolas de trabalho do corpo, tanto no Ocidente quanto no
Oriente (CAPRA,1982, p.338).

108
Ao mapear os segmentos das couraças no corpo humano, Reich
(1995) não deixa de citar o diafragma, principal órgão da respiração,
dando ênfase ao desbloqueio desse segmento, reforçando ainda mais a
importância de regular a respiração de forma profunda, ritmada e relaxada.
Vejo a respiração como um indicador essencial daquilo que está
acontecendo com o paciente e com a expressão de seu estado
emocional. O reequilíbrio da energia emocional está tão
intrinsecamente ligado ao reequilíbrio da respiração que considero
os dois trabalhos inseparáveis. O ritmo respiratório relaxado constrói
um senso de concentração. Consideramos que uma pessoa está
“centrada”(centering) quando ele está ligada ao ritmo de sua
respiração (BOADELLA, l985 p. 75).

Tomando por base os trabalhos desenvolvidos por Reich, várias


outras escolas de abordagem corporal foram sendo criadas. Algumas
procuram seguir com a proposta inicial de Reich enfatizando o trabalho
sobre a mente e o corpo. Outras, já buscam o bem-estar da mente por
meio do trabalho enfático sobre o corpo. É o caso do renascimento cuja
técnica usa a hiperventilação como ferramenta para quebrar a resistência
de bloqueios emocionais, através de respirações peitorais aceleradas,
levando o paciente a um estado alterado de consciência. É uma técnica
muito questionada uma vez que a hiperventilação para algumas pessoas,
do ponto de vista fisiológico, pode ser bastante prejudicial.
Os hindus conceberam várias técnicas respiratórias onde o
praticante experiente consegue acumular essa energia prânica de forma
equilibrada e benéfica através de práticas disciplinadas e constantes;
essa técnica é denominada pranayama (domínio sobre o prana); esse
domínio consegue manter um fluir constante e harmonioso do prâna em
todos os nadis - centenas de canais energéticos mapeados pelos hindus
dentro do corpo humano, correspondente aos meridianos da acupuntura
chinesa.
Quando você inspira, o eu entra em contato com o corpo. Por
isso, a inspiração é a evolução da alma através do corpo, é o hálito
cósmico espiritual entrando em contato com a respiração individual. Do
ponto de vista da saúde física, a expiração é a remoção das toxinas
existentes no sistema. Do psicológico, aquieta a mente. Do espiritual, é
a respiração individual entrando em contato com o hálito cósmico exterior
para que se unam (YENGAR, 1988, p.187).
A respiração é a grande fronteira que sob o ponto de vista fisiológico
separa domínios distintos que são a atividade orgânica inconsciente e a
atividade voluntária. É impossível dar ordens diretas aos nossos órgãos
internos, mas, o centro respiratório tem essa particularidade: além de
funcionar de maneira autônoma como os outros centros vegetativos, possui
o privilégio de ser comandado pelo consciente e colaborar com ele.

109
Infelizmente com o ritmo acelerado dos dias atuais o volume da
respiração do ser humano se torna cada vez menor. A falta de oxigênio
daí resultante, entre outros fatores, é uma das causas de insuficiência de
oxigênio nos órgãos e nas células. Todas as células do nosso organismo
necessitam principalmente de oxigênio para se manterem vivas e uma
interrupção no fornecimento de oxigênio significa sua morte dentro de
pouco tempo.
Respirações curtas e incompletas facilitam a instalação de
tensões musculares e emocionais, que ao longo do tempo podem se
transformar em doenças. Quando estamos inquietos e em conflito, a
respiração se torna acelerada e irregular; se ao contrário, nos encontramos
integrados, livres de contradições e de bem-estar com a vida, a respiração
se torna compassada e tranqüila. “Respirar não significa simplesmente a
admissão e expulsão de ar, ao contrário, é um movimento fundamental da
vida” (CARDAS, 1997, p. 9).
Dedicando-se com disciplina à arte de bem respirar, conquista-
se aos poucos o ritmo e a proporção. O ritmo é uma propriedade
fundamental da natureza e influencia a nossa resistência; permite que
andemos longas distancias com fadiga reduzida, enquanto um passo
irregular e não ritmado cansa facilmente. O ritmo traz harmonia e fluidez.
Ao observar a dança e ouvir a música, sentimos o quanto o ritmo visível e
vivo influencia a emoção e age sobre a nossa mente.
Há em cada homem duplo ritmo respiratório. Um ligado à vida de
relação ou consciente e o outro à atividade inconsciente e vegetativa.
A primeira que todos conhecem, é superficial, e a outra, profunda. A
integração que se atinge no plano respiratório é estendida ao plano
psíquico, mercê da integração dos dois sistemas nervosos:
cerebrospinal e simpático. Consegue-se isso com a prática da
respiração integral, que, começando como respiração superficial,
se vai progressivamente aprofundando até a meta final. Desde já,
porém, não se deve entender como respiração profunda apenas o
inspirar sob grande esforço com o fim de encher ao máximo o pulmão
(HERMOGENES,1967, p. 63).

Os yogis observaram em suas práticas que a quatro batimentos


do coração o corpo sentia a necessidade de fazer uma respiração profunda.
Partindo dessa constatação, tomaram por objetivo estabelecer uma
sincronia entre o coração e o pulmão e criar um ritmo. Perceberam também
que modificando através da vontade esse ritmo, seria possível influenciar
todas as funções fisiológicas e mesmo psicológicas do ser humano. No
entanto, para se conseguir chegar a esse patamar de controle, é preciso
extrema disciplina e muito tempo de prática com os pranayamas
(LYSEBETH, 1978).
Segundo Lysebeth, traduzir pranayama por “exercicio respiratório”
ou “controle da respiração” daria uma visão pouco abrangente do assunto,
110
pois o controle da respiração não é o fim, é só um meio eficaz, para
chegar a controlar e a repartir as energias vitais. Para os yogis os principais
pontos de absorção de prana, por ordem de importância, são:
1) as terminações nervosas das fossas nasais – os cornetos do nariz têm
uma relação reflexa com toda a mecânica que regula o funcionamento do
nosso corpo.
2) os alvéolos pulmonares – permitem a passagem do oxigênio para o sangue,
função de ordem estritamente física.
3) a língua – para os yogins a língua é um importante órgão de absorção de
prana; para eles o prana está ligado ao gosto.
4) a pele - em contato com o ar cheio de energia absorve quantidades
importantes de prana solar.

Conquistar, ou melhor, reconquistar uma respiração equilibrada e


harmoniosa é a finalidade de várias atividades que buscam melhorar a
qualidade de vida do indivíduo. Yoga, relaxamento, práticas corporais das
mais diversas, psicoterapia corporal, meditação e muitas outras, têm como
mola mestra a conscientização do corpo, o bem-estar da mente e a
restauração da própria respiração. Em todos os tempos, o homem sempre
procurou uma maneira de viver de forma mais harmoniosa e equilibrada.
Desde os antigos rishis - sábios indianos ligados ao hinduísmo - passando
pelos filósofos gregos que estabeleceram as bases para a filosofia
Ocidental, dos antigos chineses que estabeleceram o interessante
conceito de yin yang, de Freud, de Jung, de Reich e tantos outros, a
busca foi sempre a mesma: viver de uma maneira melhor, interna e
externamente. Por isso, é importante fazermos valer esses ensinamentos
e essa busca.

Referências
BOADELLA, D. Correntes da Vida. 2ª ed. São Paulo: Summus, 1985
CAPRA, F. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1982
CARDAS, E. A cura pela respiração. Porto Alegre: Kuarup, 1997
FEUERSTEIN, G. A Tradição do Yoga. São Paulo: Cultrix, 1998
HERMOGENES, J. A. Autoperfeição com Hatha Yoga. RJ:Record, 1967
LYSEBETH, A. Pranayama. Lisboa: Centro do Livro Brasileiro, 1978
REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: Da psicanálise à análise do caráter. Centro
Reichiano, 2003.
YENGAR, B. K. S. A árvore do Yoga. São Paulo: Editora Globo, 1988

Maria Zélia Nicolodi é instrutora de Yoga formada pela AYPAR – Associação


de Yoga do Paraná, atualmente cursa Especialização em Psicologia Corporal,
no Centro Reichiano em Curitiba/PR.
E-mail: zelianicolodi@yahoo.com.br

111
A PRÁTICA DA VEGETOTERAPIA
CARACTEROANALÍTICA
CHARACTERANALYTICS VEGETOTHERAPY PRACTICES

José Henrique Volpi


Maria Beatriz de Paula

Resumo
Foi a partir do trabalho com a técnica da análise do caráter que Reich
percebeu que toda couraça psíquica possuía um equivalente somático, a
couraça muscular. Assim, desenvolveu ainda nos anos 30, a chamada
vegetoterapia caracteroanalítica que tem por objetivo principal eliminar ou
flexibilizar as couraças do corpo, atuando diretamente sobre o sistema
neurovegetativo. A técnica consiste na aplicação de alguns movimentos
(actings) que são executados pelo paciente de forma repetida, seguidos
de um protocolo progressivo e sistemático. A aplicação da vegetoterapia
exige muita atenção e persistência, uma vez que atua diretamente sobre
o sistema neurovegetativo.
Palavras-chave: Couraça, Vegetoterapia, Reich.

Abstract
It was from the work with the character analyses technique that Reich
realized that every psyche armor had an equivalent muscular armor. Thus,
he development, still in the 30’s, the characteranalytics vegetotherapy,
which has as a major objective the elimination or flexibilization of the body
armor, with an impact on the neurovegetative system. The technique con-
sists on requiring the patient to repeatedly perform some movements,
followed by a progressive and systematic protocol. The use of vegetotherapy
requires a lot of attention and persistence, as it acts directly on the neu-
rovegetative system.
Keywords: Armor, Vegetotherapy, Reich.

112
Descontente com os resultados obtidos com alguns pacientes
que se submetiam à técnica psicanalítica, Reich passou a trabalhar de
maneira diferente. No lugar de analizar o sintoma de forma individual ou
apenas o conteúdo verbalizado pelo paciente, passou a olhar a dinâmica
do caráter de cada pessoa e descobriu que é por meio dessa dinâmica
que os pacientes mostravam suas inseguranças, medos, dificuldades e
resistências, tudo isso traduzido em uma só palavra: a couraça psíquica.
Assim, fazer apenas a análise do sintoma deixou de ter um significado
peculiar e foi inteiramente incorporada à análise do caráter, ou seja à
forma do paciente agir e reagir na vida. Na seqüência, Reich descobriu
que a couraça psíquica, da mente, possui um equivalente somático, a
couraça muscular, que por sua vez, está ancorada no corpo. Assim, o
foco do trabalho passou a ser diretamente sobre o corpo do paciente de
forma a mobilizar o sistema neurovegetativo, eliminando ou flexibilizando
a couraça muscular e por conseqüência, a couraça psíquica. Reich (1998)
define couraça muscular como sendo tensões crônicas que se formam
ao longo da vida, cuja função é a de proteger o ego de toda e qualquer
experiência dolorosa e ameaçadora da estrutura psíquica. Mas, além das
couraças psíquica e muscular, também encontramos a couraça celular
(nas células), tissular (nos tecidos) e visceral (nas vísceras) (BOYESEN,
1988) e a couraça energética, que envolve o corpo todo.
A atuação direta sobre a couraça muscular mobiliza todo o
sistema neurovegetativo que por sua vez provoca reações físicas e
energéticas e faz emergir conteúdos emocionais reprimidos que estão
ligados aos traços de caráter do paciente. Daí o nome vegetoterapia
caracteroanalítica, que inclui num só conceito o trabalho nos aparelhos
psíquico e físico.
Estando à procura de uma lei que pudesse governar os bloqueios
corporais, Reich (1995) percebeu que a couraça muscular estava ordenada
em segmentos, formando um cinturão no corpo todo. Para uma melhor
explicação pedagógica, mapeou o corpo em sete segmentos de couraças:
ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico. Essas
couraças impedem o livre fluxo energético e para compensar, como defesa,
o corpo adota novas posturas como olhos arregalados, tensão no maxilar,
desvios na coluna, etc.
A continuidade do trabalho clínico e de pesquisas levaram Reich
à descoberta de um novo tipo de energia, à qual denominou orgônio. Sua
empolgação fez com que a continuidade do desenvolvimento da técnica
da vegetoterapia ficasse prejudicada. Mas sabia ele que a técnica ainda
precisava ser aprimorada, revista, complementada e foi quando encarregou
um de seus colaboradores e amigo, o ex-psicanalista norueguês Ola
Raknes dessa missão que, julgando-se inapto para cumprir com esse fim

113
por julgar que seus conhecimentos de neuropsicofisiologia eram precários
visto não ser médico, nem psicólogo, repassou o pedido de Reich a um
de seus alunos, o neuropsiquiatra italiano Federico Navarro.
Anos de estudos e trabalho enquanto psiquiatra e psicanalista,
somados aos conhecimentos reichianos adquiridos com Ola Raknes,
Navarro (1996) sentia-se seguro naquilo que fazia e dessa forma,
brilhantemente sistematizou a vegetoterapia caracteroanalítica tornando-
a uma ferramenta essencial para se trabalhar o desbloqueio da couraça
muscular caracterológica e liberar o fluxo de energia do corpo. Portanto,
o objetivo da vegetoterapia é o de restabelecer a saúde biopsicosocial do
sujeito, o fluxo das correntes plasmáticas no corpo em direção à pélvis
(capacidade orgástica), a plena pulsação do organismo que possibilita o
amor a si mesmo e aos demais, além de dissipar a couraça caracterológica
para permitir o aparecimento da identidade singular do sujeito.
Através do resgate das emoções, a vegetoterapia
caracteroanalítica reativa a história do sujeito desde a vida intrauterina,
porque a estruturação do caráter se inicia com a vida e, a primeira relação
dominante se dá já no útero materno. O caráter, a maneira de ser específica
de uma pessoa, expressa seu passado, sua história, seu encontro/
desencontro com o mundo. Mas também expressa um mecanismo de
proteção narcísico, conservador e de adaptação que contém angústias e
emoções. É formado por componentes herdados e componentes
adquiridos.
O psiquiatra italiano Genovino Ferri (1998), revela que há um
“continuum” de variáveis que são significativas na formação do caráter e
portanto, importantes de serem verificadas pelo terapeuta na prática clínica
da vegetoterapia:

1 - Carga vital, espessura, densidade energética;


2 - Quantidade e qualidade energéticas do primeiro campo (mãe-útero);
3 - O modo como ocorreu a primeira grande separação (parto);
4 - Quantidade e qualidade energéticas do primeiro campo (mãe-seio)
5 - O modo como ocorreu a segunda grande separação (o desmame);
6 - Quantidade e qualidade energéticas do segundo campo (família);
7 - Ordem de nascimento;
8 - Sexo e caráter da figura líder do segundo campo;
9 - O modo “como” foi experimentada a primeira erotização genital;
10 - Quantidade e qualidade energéticas das impressões determinantes
do segundo campo;
11 - O modo “como” foi experimentada a explosão energética da puberdade;
12 - Quantidade e qualidade energéticas do terceiro campo (social).

114
Essas variáveis emocionais, afetivas, dinâmicas, energéticas e
pulsionais são válidas para a determinação das chamadas “fixações” que
tem significado positivo ou negativo no plano energético e nos sete níveis
reichianos.
Na perspectiva energética o ser humano é um núcleo de energia
cósmica que se distingue do campo de energia que está imerso, por sua
membrana. Ele é um fluxo de energia imerso em um grande fluxo de
energia: o campo. A energia é o ponto central da realidade. Cada fase do
seu desenvolvimento é caracterizada por relações energéticas com o
campo que o circunda. Elas têm características peculiares ao momento
vivido, real e objetivo. Os aspectos caracteriais são determinados pela
complexidade dos campos de energia.
O diagnóstico energético observa o fluxo, a pulsação, a densidade
da bioenergia no corpo e sua correlação somatopsíquica. Por isso, o
vegetoterapeuta faz a leitura do campo energético do paciente, utiliza a
massagem reichiana como instrumento de diagnóstico e de pesquisa,
observa atentamente como o paciente executa cada acting (movimento),
sente e compreende a transferência como uma experiência
somatopsicoenergética.
O diagnóstico diferencial permite que o terapeuta saiba o tipo de
estrutura caracterial do seu paciente e em que momento ele vai trabalhar
com a análise do caráter ou com a análise dos actings, em que momento
deve calar, deve aproximar-se ou afastar-se. A complexidade do processo
está no manejo da transferência e da contra-transferência em cada acting.
A complexidade do campo está na relação terapeuta-paciente, em cada
momento do processo.
O corpo contém a história do indivíduo e é através dele que a
vegetoterapia busca resgatar as emoções mais profundas, restabelecendo
a mobilidade biopsíquica através da anulação da rigidez (encouraçamento)
do caráter e da musculatura (REICH, 1995), mediante os movimentos
específicos (actings), seguidos sempre da análise dos conteúdos
verbalizados pelo paciente. A execução “mecânica” de um acting, sem
aliança terapêutica, irá dificultar ou até mesmo impedir o aparecimento
das emoções reprimidas. Portanto, o terapeuta deve ter uma participação
ativa durante a sessão a fim de observar “como” os actings são executados
pelo paciente, antes que este verbalize o que sentiu ao realizá-los.
O trabalho prático da vegetoterapia segue um protocolo de forma
progressiva, que começa a ser aplicado no primeiro segmento (ocular),
em direção ao último (pélvico), levando o indivíduo ao amadurecimento
caracterológico, aproximando-o cada vez mais do caráter genital.
Iniciamos a vegetoterapia pela aplicação da massagem reichiana
que deve ser feita no início de sessão, até o final do processo do tratamento

115
psicoterápico. Em seguida, procedemos com a continuidade de nossas
investigações, voltadas agora à comprovação prática da sensação tida
durante o período da gestação. Para isso, aplicamos a concha aberta
(15 minutos) e depois, na sessão seguinte, da concha fechada (15
minutos). A fim de investigarmos as relações parentais, ainda nessa
primeira sessão, fazemos uso da lanterna, tapando olho esquerdo, se o
paciente for destro, e pedimos que olhe firmemente para o ponto luminoso
(lanterna), colocada a uma distância de 20 a 30 cm de seu rosto, pelo
tempo máximo de 15 minutos. Inverte-se o trabalho para o olho direito,
não se esquecendo de sempre, ao final de cada trabalho, trabalhar a
sensação e os pensamentos surgidos durante o acting.
A utilização da luz para o desbloqueio da couraça do segmento
ocular foi proposta por Bárbara Goldenberg, cujas pesquisas revelaram
ser essa a melhor forma de se atingir o nível profundo da couraça no
parênquima cerebral. Essa técnica é seguida de dois objetivos:

(1) a estimulação direta da luz sobre a substância cerebral


propriamente dita; (2) forçar o paciente a ultrapassar o limiar do
estímulo visual, de modo que ele seja obrigado a abandonar sua
contenção ocular (BAKER, 1980, p. 73).

Os relatos dos pacientes após o trabalho da luz sobre os olhos


são sempre de um bem-estar e sentimento de segurança, ampliação da
percepção e muitos outros efeitos benéficos. Alguns também chegam a
relatar e a comprovar uma redução ou até mesmo eliminação de erros de
refração da visão como astigmatismo, miopia, hipermetropia, etc.
Na segunda sessão de vegetoterapia, após a aplicação da
massagem, seguida da aplicação da concha fechada, pedimos ao paciente
que olhe atentamente, com os dois olhos o ponto lumisoso, pelo tempo
máximo de 15 minutos. Após a verbalização dos conteúdos mobilizados,
passamos para o trabalho intercalado com o segundo segmento (oral),
que corresponde à boca, pedindo ao paciente que deixe-a aberta e entre
em contato com as sensações. O tempo continua sendo de 15 minutos,
seguido da verbalização. Para encerrar essa segunda sessão, pedimos
que o paciente fixe um ponto imaginário no teto, durante 15 minutos. É
importante que o paciente encontre seu próprio ponto e não que olhe um
ponto demarcado pelo terapeuta. E assim, a cada sessão vamos
verificando a possibilidade de aumentar o tempo dos actings até atingirmos
o tempo máximo de 25 minutos, tempo esse necessário para estressar a
musculatura do segmento trabalhado.
Finalizada a aplicação do primeiro “pacote” de actings (ponto
fixo com boca aberta), que representa a gestação, parto e primeiros dias
de vida, cujo bloqueio caracterial responde pelo núcleo psicótico e

116
muscular pelo astigmatismo, damos início agora ao segundo pacote
(convergência com boca em sucção). Esse pacote leva ao
amadurecimento da situação oral, cujo comprometimento se deu durante
o período de amamentação e desmame, responsável pelos traços
depressivos e pela miopia. E assim, seguimos com o protocolo proposto
pela escola de Navarro, através de outros actings, até chegarmos ao
desbloqueio do segmento pélvico quando, depois de aproximadamente
80 sessões de uma hora e meia cada, o processo terapêutico finaliza.

Referências
BAKER, E. F. O labirinto humano. Causas do bloqueio da energia
sexual. São Paulo: Summus, 1980.
BOYESEN, G. Entre psique e soma. Introdução à Psicologia
Biodinâmica. São Paulo: Summus, 1986.
FERRI, G. Psicopatologia funcional. Rio de Janeiro: EOFeN, 1998.
Apostila de curso.
NAVARRO, F. Metodologia da vegetoterapia. São Paulo: Summus,
1996.
REICH, W. Análise do caráter. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
REICH, W. A função do orgasmo. 19ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1998.

José Henrique Volpi é Psicólogo, Orgonoterapeuta Mestre em Psicologia


da Saúde/UMESP e Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento/
UFPR. Diretor do Centro Reichiano de Psicoterapia Corporal, Curitiba/
PR.
E-mail: volpi@centroreichiano.com.br

Maria Beatriz de Paula é Psicóloga, Orgonoterapeuta, Psicoterapeuta


de Grupo e Especialista em Psicoterapia Breve pela Escola Espanhola
de Terapia Reichiana. Foi didata e colaboradora de Federico Navarro nos
cursos de formação de Orgonoterapeutas, nas escolas do Rio de Janeiro,
São Paulo, Curitiba, Brasília, Natal, Chile e Espanha.
E-mail: centroreichiano@centroreichiano.com.br

117
SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE
EM 2004
TEENAGERS’ SEXUALITY 2004

José Henrique Volpi


Sandra Mara Volpi
Marlize Spagolla Bernardelli

Resumo
Até anos atrás, falar de sexualidade era um tabu. Na família e na escola,
lugares de maior convívio social, a palavra sexo era banida dos dicionários
e quando mencionada, vinha acompanhada de uma série de preconceitos,
pudores, negativas. Hoje, percebemos que isso ainda não é diferente.
Continuamos reprimindo nossos jovens não apenas com relação ao ato
sexual, mas principalmente no diálogo. Pais e professores se dizem
abertos, mas o que percebemos é ainda uma grande limitação em ambos.
Esse artigo trata de uma pesquisa a respeito da sexualidade do
adolescente no ano de 2004, aplicada em 394 jovens estudantes do
segundo grau.
Palavras-chave: Adolescência, Reich, Sexualidade

Abstract
In the past, talking about sex and discussing one’s sexuality was a ta-
boo. In the family and at school, where adolescents have most of their
social contact with other people, the word sex was banned. The same
happened with dictionaries, which, when referring to the word brought a lot
of preconception. We notice that that situation hasn’t changed much. We
keep repressing our teenagers, not only with respect to any sex related
practices, but also in the dialogue. Parents and teachers consider them-
selves open, but we notice that they face great limitations when the issue
is sex. This paper discusses the results of a survey that was carried out
with adolescents, with respect to their sexuality. The survey was applied
to 394 high school students, during 2004.
Keywords: Adolescence, Reich, Sexuality

118
É um erro supormos que a sexualidade aparece apenas na
adolescência. Desde criança, somos movidos pela existência de instintos
sexuais que nos levam em busca do prazer. Esse é um fenômeno
biologicamente fundamentado com manifestações normais e necessárias.
É isso que leva a criança ainda pequena ao ato conhecido por
masturbação. A criança naturalmente descobre seus genitais e sente a
necessidade de manipulá-los. Isso lhe dá prazer. Mas nós, adultos, quando
vemos uma atitude dessas, queremos rapidamente distrair a criança ou
até mesmo reprimi-la com ameaças, surras e castigos. Tudo isso graças
à nossa neurose, nossa castração que foi passada de geração a geração.
Segundo Reich & Shmidt (1980), há duas classes de masturbação infantil:
a que é por puro prazer genital, mais saudável, e a que busca a descarga
da tensão causada pela sensação de angústia, medo, humilhação. A
primeira classe procede de estímulos corporais de origem genital e serve
somente para a satisfação. A segunda provém de um aumento da
excitabilidade vegetativa devido ao temor ou ao descaso que a criança
tenta descarregar por meio da estimulação genital. Então, não adianta
reprimir. Isso só aumenta a tensão da criança e é prejudicial para seu
estado psicológico.
Aparentemente, o tema sexualidade parece ter sido tão falado,
escrito, debatido, mas a questão continua a mesma: somos reprimidos e
continuamos reprimindo. Reich (1988) sempre militou a favor de uma
liberdade sexual, onde pais e filhos pudessem viver em harmonia, sem
repressão, sem pudores e por conseqüência, sem grandes neuroses.
Também sempre foi a favor da educação sexual para os educadores que
na maioria das vezes não suportam ver duas crianças se acariciando.
Afirma Reich:
o próprio educador deve ter tido uma educação sexual negativa; casa
paterna, escola, igreja e todo o meio ambiente conservador o
imbuíram de conceitos sexualmente negativos; estes entram em
choque com seus próprios pontos de vista afirmativos da vida (1988,
p. 290)

Em todas as sociedades a adolescência constitui um período de


muitas transformações e transições. O adolescente passa muitas vezes
por uma crise de identidade, quando está se preparando para assumir
uma maior liberdade e responsabilidades exigidas pela vida adulta; os
hormônios estão à flor da pele provocando um aumento dos impulsos
sexuais; a ansiedade toma conta de seu corpo e psiquismo e o deixa
mais vulnerável ao uso de drogas e transtornos de ordem emocional,
motivo de brigas e discórdias com os pais. Segundo Achenbach &
Edelbrock (1987), os problemas mais comuns que podem aparecer na
adolescência são abuso de substâncias, como drogas e medicamentos,

119
depressão, ansiedade, fobia e problemas comportamentais tais como
delinqüência, agressão anti-social e evasão escolar.
É também na adolescência que muitos pais passam a se
preocupar de forma acirrada com o comportamento sexual dos filhos
sendo que muitas vezes perdem a oportunidade de os instruírem a uma
sexualidade que poderia ser saudável. Para a menina, uma série de
proibições: não deve sair sozinha, não pode namorar, transar nem pensar,
deve se manter virgem até o dia do seu casamento. Para o menino, o
discurso é outro. Tudo é permitido e até estimulado: sair, beber, fumar,
dirigir, ir a festas, transar e no dia seguinte ter liberdade para contar aos
pais e familiares, motivos de muitas risadas e festa.
Se por um lado temos a proibição por parte dos pais, da escola,
da igreja e da sociedade, por outro temos a mídia bombardeando nossos
jovens com cenas audazes, picantes que instigam o desejo sexual. Como,
então, podemos lidar com essas mudanças físicas e hormonais que
ficam à flor da pele provocando uma alteração das emoções, perda de
controle e até mesmo desequilíbrio psicológico do adolescente? Segundo
Reich (1983):
pode-se dizer que o único perigo da masturbação está em sua
proibição. A proibição, sem conseguir reprimir completamente a
masturbação, cria sentimentos de culpa e ansiedade hipocondríaca,
que perturba o curso da excitação durante o ato sexual e causa
neurastenia (p. 140).

A educação sexual que deveria ser feita pelos pais não acontece,
pois esses se julgam incapazes de tal proeza e transferem essa
responsabilidade para a escola que por sua vez não se acha responsável
em assumir esse papel, e o problema continua o mesmo. Quando muito,
esses jovens acabam sendo educados por professores que se encontram
no mesmo patamar de dificuldade que os pais e a educação não vem de
outra forma que não seja neurótica ou repressiva.
Acreditamos que a repressão não é a melhor forma de educação
sexual. Ela só gera tensões, angústias, discórdias e faz com que os
jovens se rebelem ainda mais. É preciso mais diálogo, compreensão,
atenção. E foi pensando nessas necessidades que resolvemos levantar
alguns pontos importantes que pudessem ser trabalhados na escola com
os adolescentes no ano de 2004 e 2005.
Como instrumento de pesquisa utilizamos um questionário
fechado, composto de 24 perguntas objetivas, aplicado na própria sala
de aula. Ao todos foram 394 questionários aplicados em jovens
adolescentes com idade entre 14 e 19 anos, estudantes do segundo
grau. Desses, 323 eram do sexo feminino e 71 do sexo masculino.
Iniciamos o questionário perguntando aos jovens qual o nível de

120
informação que receberam até hoje sobre sexo e a resposta de ambos os
sexos foi “muito bom”. Na seqüência, pedimos aos jovens que apontassem
qual o grau de importância que as instituições abaixo tiveram em sua
educação sexual e as respostas foram as seguintes:

Instituição Meninos Meninas


Escola 72% 77%
Amigos 75% 75%
Família 58% 69%
Livros e revistas 58% 63%
Namorados 44% 50%
Igreja 13% 31%
Quadro 1: Nível de informações recebidas das Instituições

No quadro 1 é interessante perceber que para ambos os sexos a


escola e os amigos tem um grau de importância equivalente no nível de
informações que receberam sobre sexo. Em seguida vem a família
acompanhada de livros e revistas, depois os namorados e em último lugar
aparece a igreja que para as meninas ainda acaba tendo um valor
significativo em relação aos meninos.
Perguntamos aos jovens qual a sensação que lhes causa falar
sobre sexo e 39% respondeu que sentem vergonha, pudor ou até mesmo
culpa. Em resposta à forma com que o assunto é tratado dentro de casa,
28% dos meninos e 33% das meninas responderam que essa questão é
tratada com pudores, discriminações ou até mesmo não se fala no assunto,
o que demonstra ainda mais a necessidade de diálogo entre pais e filhos.
Quando questionados a respeito de sua masturbação as
respostas foram:

Idade Meninos Meninas


Antes dos 10 anos 5,6% 0,3%
10 aos 12 anos 44,2% 2,5%
13 aos 15 46% 15%
Depois dos 15 - 9,6%
Nunca me masturbei 4,2% 72,6%
Quadro 2: Idade em que iniciaram sua prática masturbatória

No quadro 2 percebemos que apenas 4,2% dos meninos jovens


ainda não iniciaram sua prática masturbatória, um número muito pequeno
comparado aos 72,6% das meninas, o que demonstra terem os meninos
uma maior liberdade em relação a isso. Além disso, meninos iniciam em
torno de três anos antes que as meninas sua prática masturbatória.
Nosso próximo passo foi investigar a relação desses jovens com
a Internet e perguntamos quem já havia visitado um site pornográfico.
91% dos meninos e 36% das meninas responderam afirmativamente. Na

121
seqüência perguntamos se eles já haviam se masturbado olhando um
site pornográfico na Internet. 52% dos meninos deram resposta afirmativa,
contra apenas 3% das meninas. A próxima questão foi saber se já haviam
encontrado pessoalmente alguém que conheceram pela Internet e até
mesmo mantido algum tipo de relação sexual. 14% dos meninos disseram
ter conhecido alguém pessoalmente e desses, apenas 2,8% acabaram
tendo uma relação sexual. Já as meninas foram um pouco mais, 16%
tiveram encontros pessoalmente, mas um número menor, 1,2% é que
tiveram relação sexual.
Por mais que se apregoe que somente após a maioridade é que
esses jovens deveriam iniciar suas atividades sexuais, a pesquisa mostrou
que não é bem assim. No quadro 3, perguntamos a idade que esses
jovens tiveram sua primeira relação sexual e as respostas foram:

Idade Meninos Meninas


Menos de 10 anos 2,8% 0,6%
10 a 12 anos 4,2% 0,3%
12 a 14 anos 8,4% 1,2%
14 a 16 anos 36,6% 14,9%
16 a 18 anos 6,0% 11%
Nunca transei 42% 72%
Quadro 3: Idade em que tiveram sua primeira relação sexual

Ainda no quadro 3 podemos perceber que mais da metade dos


meninos já tiveram sua primeira relação sexual. Também pode-se notar
que na idade entre 14 e 16 é onde está o maior índice de iniciação sexual.
Já quanto ao tipo de relação sexual mantida por esses adolescentes, as
respostas foram vaginal, oral e anal. Questionados quanto ao uso de
preservativos, 13% dos meninos responderam que não usaram contra
5,6% das meninas.
A virgindade também foi um dos assuntos abordados em nossa
pesquisa. Perguntamos aos jovens se eles consideram a virgindade
importante para a mulher e para o homem e as respostas foram:

Sexo Virgindade
para a mulher para o homem
Meninos 76% 24%
Meninas 82% 18%
Quadro 4: Importância da virgindade para a mulher e para o homem

É interessante perceber no quadro 4 que os meninos acham


importante a virgindade para as mulheres, mas não para eles, um percentual
que quase se equipara ao pensamento das meninas.
Como última questão, perguntamos onde seria o melhor lugar
para se aprender sobre sexo e ambos responderam que em primeiro lugar

122
em casa e depois na escola.
Como proposta final gostaríamos de apontar a importância de
desenvolvermos programas instrutivos que possam auxiliar pais,
professores e alunos no tema sexualidade.

Referências
ACHENBACH, T.; EDELBROCK, C. The manual for the Youth Self-
Report and Profile. Burington: University of Vermont, 1987
REICH, W.; SCHMIDT, V. Psicoanálisis y educación. Barcelona:
Cuadernos Anagrama, vol. 1, 1980
REICH, W. Bambini del futuro. Milano: SugarCo, 1983
REICH, W. A revolução sexual. 8ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara,
1988

José Henrique Volpi é Psicólogo, Orgonoterapeuta Mestre em Psicologia


da Saúde/UMESP e Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento/
UFPR. Diretor do Centro Reichiano- Ctba/PR.
E-mail: volpi@centroreichiano.com.br

Sandra Mara Volpi é Psicóloga, Psicopedagoga, Analista Bioenergética


(CBT pelo IABSP). Diretora do Centro Reichiano- Ctba/PR.
E-mail: sandra@centroreichiano.com.br

Marlize Spagolla Bernardelli é Licenciada em Química pela UEM e


Mestre em Educação. Professora de Química da FAFICOP.
E-mail: marlizespagolla@ibest.com.br

123
PROFISSIONAIS E INSTITUIÇÕES DE TERAPIA
E PSICOTERAPIA CORPORAL
ANO DE REFERÊNCIA: 2004

ESPÍRITO SANTO
VITÓRIA/ES
Ilza Cazeli (27) 33373335 / 99625965 - pedagoga, terapeuta corporal e analista
bioenergética
Scheila Silva Rasch (27) 33254265 - psicóloga, psicoterapeuta corporal
pelo Ágora/SP, turma Vitória/ES e Trainee em Análise Bioenergética/IABSP

GOIÁS
GOIÂNIA/GO
Marise Nunes (62) 2531069 - psicóloga, nutricionista, formação em Core
Energética, Transpessoal com Abordagem Corporal e Constelação Familiar
Nilton Ferreira (62) 2411995 - pós-graduação em Core Energética e Psicologia
Transpessoal. www.serradaportaria.com.br

MINAS GERAIS
BELO HORIZONTE/MG
Januassele Valentim (31) 33719699 / 91410134 - terapeuta de abordagem
Reichiana, Reiki I, II e III e facilitadora em Shantala
Leonardo Jeber (31) 34975127 - terapeuta neo-reichiano/Análise
Bioenergética - atendimento individual e Grupos de Movimento
Paulo Martins (31) 33442222 - terapeuta holístico/ Bioenergética e Core-
energética. Espec. em Cinesiologia Aplicada e Educacional e Eneagrama
Reginaldo Teixeira Coelho (31) 32274983 - CBT. Studio de Analise
Bioenergética, Cinesiologia aplicada, Constelações familiares

PARANÁ
CURITIBA/PR
Abigail da Cunha (41) 99655331 - musicoterapeuta, terapeuta corporal com
residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Amélia Akemi Shimabukuro (41) 99823328 - musicoterapeuta, terapeuta
corporal/Orgonomia-Centro Reichiano, esp. em consciência corporal e dança
Ana Rosa Brum Marcelos (41) 96161025 - educadora física e terapeuta
corporal com residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Angela Kürten de Vasconcelos (41) 3354135 - Professora de dança e dança
terapia, acadêmica de psicologia e psicoterapia corporal (em formação)
Carla Stefan (41) 3665143 / 96239836 - psicóloga, psicoterapeuta corporal
pelo Centro Reichiano, Ctba/PR. Atende crianças, adolescentes e adultos
Chiara Lorenzzetti (41) 30185288 / 88041419 - musicoterapeuta e terapeuta
corporal pelo Centro Reichiano-Ctba/PR - chiloren@terra.com.br
Cinely Cordeiro (41) 6737600 - psicóloga, psicoterapeuta corporal, Espec.
em Gestão Social. Psicoterapia, treinamentos e projetos comunitários
Claremilia Piffer (41) 3299043 - psicóloga, psicoterapeuta corporal pelo Centro
Reichiano-Ctba/PR. Atende em inglês

124
Cristian Alencar (41) 3226040 / 91813331 - psicólogo, psicoterapeuta corporal
com residência em Análise Bioenergética pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Claudimara Zanchetta (41) 91423609 - musicoterapeuta e terapeuta corporal
com residência em Análise Bioenergética pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Cleide Negri dos Santos (41) 30163159 / 99613651 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal com residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Daniele Barbieri (41) 3420918 / 91997616 - psicóloga, psicoterapeuta corporal
com residência em Análise Bioenergética pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Daniel Almeida (41) 3370522 - educador físico e terapeuta corporal com
residência em Orgonomia pelo Centro Reichino-Ctba/PR
Eliane Biancolini (41) 2622789 / 91738161 - psicóloga, psicoterapeuta corporal
com residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Elke Simons (41) 3384518 - psicóloga, psicoterapeuta corporal com residência
em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Fabiane Alonso Sakai (41) 2647234 / 99610792 - musicoterapeuta de
abordagem corporal, Consciência Corporal/Dança. musicane@uol.com.br
Harbhajan Kaur - (41) 3272187 / 2689661 - terapia reichiana, Yoga individual,
grupo e pré-natal, numerologia tântrica aplicada ao Kundalini Yoga, Reiki
Heloisa Lescano Guerra (41) 99179881- psicóloga, psicoterapeuta corporal
pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
José Henrique Volpi (41) 2634895 - psicólogo, psicodramatista,
psicoterapeuta corporal/Orgonomia. Diretor do Centro Reichiano
Laura Rocha (41) 3529858 / 99799197 - psicoterapeuta corporal,
acompanhamento hospitalar, dinâmica com grupos, avaliação psicológica
Lucia Guimarães Tinoco (41) 2442382 / 99756571- profissional de Rolfing,
Psicomotricista Relacional/CIAR e Somatic Experience (tratamento de trauma)
Ma Deva Narman (41) 3459897 - terapeuta corporal pelo Centro Reichiano,
massoterapia, reiki, acupuntura e florais
Maria Aparecida Montanher (41) 2761515 / 3625734 - psicóloga,
psicoterapeuta corporal/Orgonomia/Centro Reichiano-Ctba/PR.
Maria de Lourdes Sávio (41) 2621212 - irmã religiosa, orientação e florais de
Bach, terapia corporal reichiana/Centro Reichiano-Ctba/PR. Atende em francês
Maria Zélia Nicolodi (41) 2465828 / 96079430 - terapeuta corporal pelo Centro
Reichiano-Ctba/PR. Instrutora de Yoga.
Natalina De Bastiani (41) 96161430 / 2257029 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal/Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR. At. Adultos
Sandra Mara Volpi (41) 2634895 - psicóloga, psicopedagoga, psicoterapeuta
corporal, CBT em Análise Bioenergética. Diretora do Centro Reichiano

LONDRINA/PR
Márcia Sel (43) 91162232 - psicóloga, psicoterapeuta neo-reichiana/Análise
Bioenergética-trainee. Psicanálise. Atend. Individual, Grupos/Gestantes

MARINGÁ/PR
Elizabeth Maio de Siqueira - (44) 2244632 - psicóloga especialista em
Psicodrama, Casal, Família e Psicologia Corporal. bethpsiq@yahoo.com.br
Elizabet Moro (44) 2622505 / 91020784 - psicóloga, psicoterapeuta corporal/
Análise Bioenergética-Centro Reichiano. Prof. dança do ventre

125
Natalina De Bastiani (44) 2268974 / (41) 96161430 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal/Orgonomia-Centro Reichiano-Ctba/PR. At. Adultos

RIO GRANDE DO NORTE


NATAL/RN
Têmis Nellie (84) 94187094 / 2064232 - vegetoterapeuta - atendimento clínico
individual para adultos

RIO GRANDE DO SUL


SANTIAGO/RS
Nandra de Almeida (55) 99783631 - psicoterapeuta corporal com residência
em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR - nandra_al@yahoo.com.br

RIO DE JANEIRO
RIO DE JANEIRO/RJ
Carmem Lemos (21) 25765377 / 91167441 - psicóloga, psicoterapeuta
somática. At. individual e grupos/Keleman - carmemlemos@uol.com.br
Centro de Psicologia Formativa (21) 25120590 - Abordagem somático-
emocional - Stanley Keleman. Cursos para capacitação e atualização
profissional, eventos teórico-vivenciais para aprimoramento pessoal.
Direção: Psicóloga Leila Cohn - www.psicologiaformativa.com.br
Invict Prevenção e Saúde (21) 24135283 / 33777001- Marilza Neves da Silva
e demais psicoterapeutas pós-reichianas. Rua Guaraí, 45 - Campo Grande
Maria Beatriz de Paula (21) 22665901 - psicóloga, psicoterapeuta corporal/
Orgonomia
Regina Tavares (21) 22817053 / 938966 - Psicoterapeuta reichiana,
especialização em psico-oncologia e E.M.D.R

SALVADOR
SALVADOR/BA
Telma Nadja Lélis (71) 358-8585 - psicóloga de abordagem reichiana/Análise
Bioenergética. Atende adultos (individual e grupo). telma.nadja@terra.com.br

SANTA CATARINA
BLUMENAU/SC
Rosane Magaly Martins (47) 30353919 / 3226428 - terapeuta somática com
especialização em terapia energética corporal e massagem reichiana
João Altair (47) 3370522 - acumpunturista, terapeuta corporal reichiano com
residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano, Ctba/PR. jaltair@bol.com.br

CAÇADO/SC
Madaline Ficagna (49) 5638461- psicóloga, psicoterapeuta corporal pelo
Centro Reichiano, Ctba/PR
FLORIANÓPOLIS/SC
Rafael Pozzobon Campagnolo (48) 96023463 - psicólogo, psicoterapeuta
corporal pelo Centro Reichiano-Ctba/PR. rpconsulte@igcom.br
Susan Mariot Werner (48) 3331465 - 99821024 - psicóloga - CRP 12/01248
- psicoterapeuta reichiana

126
ITAJAÍ/SC
Jeanete de Almeida Ferreira (47) 3444855 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal/Orgonomia, Esp. em sexualidade humana. Adolesc, adultos, casais

JOAÇABA/SC
Andréa Paludo Tanello (49) 91143600 - psicóloga, psicoterapeuta corporal
com residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Maria Joaquina Guerreiro (49) 5221468 / 99957627 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal com residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR

RIO DO SUL/SC
Letícia Barbisan (47) 5253272 (49) 99517828 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal com residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR

SÃO PAULO
AMERICANA/SP
Laine Pizzi (19) 34624301 - psicóloga, psicoterapeuta corporal - CBT - Local
trainer e supervisora do IABSP, fundadora do LIGARE. Terapia Linha do Tempo

ASSIS/SP
Leila Rasihi (18) 33224107 / 91061792 - psicoterapeuta de abordagem neo-
reichiana. Especialista em psicossomática

BIRIGUI/SP
Maria José Barroso Gomes (18) 36426133 - 97935999 - psicóloga, analista
bioenergética (CBT), coordenadora de Grupos de Movimento.

CAMPINAS/SP
Angela Naccaratto (19) 32315487 / 97736866 - psicóloga, psicoterapeuta
corporal reichiana / Vegetoterapia/Orgonomia
Carlos Eduardo Cantusio Abrahão (19) 32540371 - medico de família,
terapeuta corporal neo-reichiano.

OSASCO/SP
Marcia Bulbow (11) 97178024 - psicóloga de abordagem Bioenergética e
Psicodrama (Cotia - Granja Viana)

PIRACICABA/SP
Rosemary Seguim (19) 34323054 - psicóloga, psicoterapeuta corporal/Análise
Bioenergética. Atende pacientes com câncer e familiares

PRESIDENTE PRUDENTE/SP
Clínica de Psicologia SER (18) 2214799 - Rubens Afonso e Marly Fernandes
Santos - psicólogos de abordagem corporal pelo Centro Reichiano-Ctba/PR.

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO/SP


Ma Teresa Contesini (17) 2265411 - psicóloga, CBT em Análise Bioenergética.
Terapia sistêmica/familiar (individual, casal, família). Orientação vocacional

127
SÃO PAULO/SP
Claudia Thomé (11) 99615747 - psicóloga, psicoterapeuta corporal com
residência em Orgonomia pelo Centro Reichiano-Ctba/PR
Fernando Cariello (11) 38124397 - psicólogo, psicoterapeuta corporal neo-
reichiano / CBT em Análise Bioenergética
Irene Cardotti (11) 30316199 - psicóloga (CBT e CBI), psicodramatista,
consteladora Familiar/Organizacional, Self-Healing e Cinesioterapia
Márcia Souto de Araújo (11) 55945924 - psicóloga Reichiana e Bioenergética,
ministra curso de Formação Reichiana e realiza atendimento psicoterápico
Maya Hantower (11) 38126417 - psicóloga, psicoterapeuta corporal neo-
reichiana / CBT em Análise Bioenergética, Biodinâmica
Odila Weigand (11) 38132261 - psicóloga neo-reichiana/Análise Bioenergética,
Trainer International Inst. Bioenergetic Analysis -Vila Madalena
Rebeca Lea Berger (11) 38629372 - psicóloga, psicoterapeuta corporal / CBT
em Análise Bioenergética e psicanálise. At. Individual, grupo e casais. Perdizes

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Orgonomia clínica - Federico Navarro - 80 pg

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