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BOLETIM TÉCNICO

Uma publicação da Revista Engenharia na


Agricultura

Fornalha a Carvão para


Secagem de Produtos
Agrícolas

N0. 02 – DEZEMBRO 2000

Associação dos Engenheiros Agrícolas de


Minas Gerais
Departamento de Engenharia Agrícola
Universidade Federal de Viçosa
Viçosa - MG
Engenharia na Agricultura
Boletim Técnico no 02

FORNALHA A CARVÃO PARA SECAGEM


DE PRODUTOS AGRÍCOLAS

Juarez de Sousa e Silva1


Roberto Lopes Precci2
Marise Cotta Machado3

Associação dos Engenheiros Agrícolas de Minas Gerais


Universidade Federal de Viçosa – Departamento de Engenharia
Agrícola

Viçosa – MG
Julho 2000

________________
1 Eng° Agrônomo, PhD., Prof. Titular – DEA/UFV,
juarez@ufv.br
2 Eng° Agrícola, MSc., Prof. Assistente – UFRRJ,
precci@ufrrj.br
3 Enga Agrícola, M.Sc., Pesquisadora CBP&D Café,
mcmachado@ufv.br

Todos os direitos são reservados à


Revista Engenharia na Agricultura
Associação dos Engenheiros Agrícolas de Minas Gerais

2
INTRODUÇÃO
A disponibilidade de energia para a secagem de produtos agrícolas
constitui hoje uma preocupação para o agricultor, devido à escassez dos
recursos naturais utilizados, ou devido ao aumento freqüente dos
combustíveis derivados do petróleo ou à falta de um programa específico
para o setor.
Têm sido encontradas, em propriedades agrícolas ou nas indústrias
de pré-processamento, fornalhas a lenha com elevado consumo de
combustível, algumas em estado precário de conservação, com excessivas
perda de calor, mal dimensionadas e, quando de boa qualidade, operadas
inadequadamente.
O manejo inadequado de fornalhas favorece a combustão incompleta, a
contaminação do produto e a dificuldade para manutenção constante da
temperatura do ar durante a secagem. Além desses aspectos, quando se
queima lenha de má qualidade e com elevado teor de umidade, produz-se
fumaça em excesso, o que causa desconforto para o operador podendo
deixar cheiro ou gosto no produto.
Insatisfeito com essa situação, o agricultor, em vez de solucionar o
problema optando por uma fornalha eficiente, juntamente com a
implantação de um programa de reflorestamamento voltado para fins
energéticos, procura a solução em outras fontes de energia1, o que num
primeiro momento pode lhe parecer bastante cômodo, mas que no futuro
pode vir a causar-lhe aborrecimentos2.
A utilização racional da energia na secagem de produtos agrícolas
pode contribuir sobremaneira para a economia de combustível e,
obviamente, para a redução dos custos de secagem.
Apesar da existência de uma grande variedade de fornalhas para
utilização em secadores de grãos, neste boletim é apresentada uma fornalha
eficiente e econômica para a secagem de produtos agrícolas, que apresenta
sobre as demais a vantagem de promover um ar de secagem livre de fumaça,
podendo, portanto, ser utilizada mesmo para aqueles produtos sensíveis à
contaminação, como o café descascado. Outras características são: a
manutenção constante da temperatura do ar de secagem, a queima contínua
e completa do combustível, a elevada autonomia e a necessidade de pouca
mão-de-obra, que permite ao operador exercer atividades paralelas durante o
processo de secagem .

COMBUSTÍVEIS
Combustíveis são substâncias ricas em carbono e hidrogênio que, ao
queimarem, produzem energia sob a forma de calor. O poder calorífico é a
principal característica dos combustíveis e refere-se à quantidade de energia
liberada durante a combustão completa de uma unidade de massa ou de

1
Refere-se ao gás liquefeito de petróleo (GLP).
2
Refere-se à incerteza de preços e à garantia de fornecimento do GLP na propriedade,
quando as vias de acesso se tornarem intransitáveis.
3
volume de um combustível. No caso dos combustíveis sólidos esta energia é
expressa em kJ.kg-1 e, para os combustíveis gasosos, em kJ.m-3.
O parâmetro de maior influência no poder calorífico dos
combustíveis é o teor de umidade. A umidade aumenta a energia necessária
à pré-ignição e diminui o calor liberado pela combustão.
Os combustíveis utilizados como fonte de energia para secagem
compreendem dois grupos: os fósseis e os provenientes da biomassa. Os
combustíveis do primeiro grupo são esgotáveis e seus preços estão sujeitos
às oscilações do mercado internacional; já os do segundo são provenientes
de fontes renováveis de energia, as quais podem ser encontradas no próprio
local de utilização, não dependendo de influências externas. Esta fonte, se
racionalmente explorada, pode garantir, por muitos anos, o suprimento de
energia para a secagem de produtos agrícolas.

COMBUSTÃO
Para que os combustíveis possam ser utilizados racionalmente e com
o máximo de aproveitamento, é conveniente que se entenda como ocorre a
combustão.
Todo processo de combustão deve atender a princípios fundamentais
que assegurem economia ou eficiência na queima do combustível.
A combustão é definida como um conjunto de reações químicas nas
quais os elementos combustíveis se combinam com o oxigênio, liberando
energia quando o combustível atinge a temperatura de ignição.
Para que ocorra a combustão são necessários três elementos, os quais
formam o chamado “triângulo da combustão” (Figura 1). Na ausência de um
deles não há combustão.
Uma combustão adequada deve liberar toda a energia química
contida no combustível e com um mínimo de perdas devido à combustão
incompleta, seja por falta ou excesso de ar, umidade do combustível,
processo de turbulência e mistura inadequada do ar durante a operação,
entre outros.

TEMPERATURA OXIGÊNIO

COMBUSTÍVEL
Figura 1 – Triângulo do fogo.

Para que a combustão ocorra eficientemente, são necessários:


a) Temperatura igual ou superior à temperatura de ignição para iniciar e
manter a queima do combustível. Há uma temperatura mínima que a
fornalha deve propiciar para que ocorra a ignição do combustível. Para o

4
carvão vegetal o valor médio é de 370ºC e, abaixo deste valor, a
combustão não se realiza, mesmo que haja ar em quantidade suficiente.
b) Mistura ou turbulência adequada do ar com o combustível. É necessário
que o comburente e o combustível sejam colocados em contato íntimo.
Para isso, é preciso que o combustível sólido seja dividido
convenientemente, e os combustíveis líquidos pulverizados. Isto, além
de propiciar a combustão completa, conduz a fornalhas de dimensões
reduzidas.
c) Tempo e espaço suficientes para que ocorra a reação de combustão. É
preciso um tempo para que todo o combustível na fornalha seja
consumido e transformado em gases de combustão.

Estes três itens são conhecidos como os 3 Ts da combustão: temperatura,


turbulência e tempo.
O ar fornecido para a combustão em quantidade suficiente para a
queima completa de carbono, hidrogênio, enxofre e outros elementos
presentes no combustível que possam oxidar é denominado “ar teórico”, o
qual é calculado com base na análise elementar do combustível. Na prática,
a quantidade de ar teórico não é suficiente para promover a combustão
completa. A quantidade real de ar necessária é maior, sendo por isso
denominada “excesso de ar”, e comumente expressa como uma
porcentagem da quantidade do “ar teórico”. Para lenha, dependendo do tipo
de fornalha, este valor situa-se entre 30 e 60%, e, para combustíveis
gasosos, entre 5 e 20 %.
O operador de fornalhas deve ter cuidado com os níveis de excesso
de ar elevados, para que não provoque:
- retardamento da reação de combustão;
- redução na eficiência global do sistema de combustão;
- arraste de partículas incandescentes ou não-queimadas; e
- exigência de ventilador mais potente.
Por outro lado, ar em quantidade inferior ao ar teórico necessário
deve ser evitado, pois propicia a combustão incompleta - uma parte do
carbono se une ao oxigênio para formar o monóxido de carbono3 (CO) e não
o dióxido de carbono (CO2), levando ao aparecimento de fuligem nos gases
de combustão.

Qualidade dos gases da combustão


Independentemente do tipo de combustível, quando a combustão
ocorre de forma incompleta, os gases oriundos passam a conter resíduos
tóxicos prejudiciais ao café, ao meio ambiente e à saúde. Os compostos
considerados preocupantes para aplicação direta destes gases na secagem de

3
O monóxido de carbono é um gás extremamente tóxico, que dificulta a capacidade da
hemoglobina do sangue em carregar oxigênio. Por ser um gás incolor e inodoro,
dificilmente percebe-se a sua presença. Portanto, é importante que, durante a queima de um
combustível, este elemento seja totalmente extinto.

5
café são os óxidos de enxofre, os óxidos de nitrogênio, os hidrocarbonetos
polinucleados, os pirolíticos condensados voláteis (fumaça), as partículas de
carbono (fuligem) e a cinza, cujas concentrações dependem do tipo de
combustível.
Os óxidos de enxofre, em ambientes úmidos, formam compostos
ácidos que podem resultar em problemas de corrosão dos equipamentos de
secagem; quando emitidos para atmosfera, em grandes quantidades,
contribuem para formação de chuvas ácidas, e os óxidos de nitrogênio
podem reagir com a proteína dos produtos agrícolas e produzir nitrosaminas,
um elemento cancerígeno. Dessa forma, na impossibilidade de um controle
eficaz da combustão que resulte num gás de secagem de qualidade,
recomenda-se o uso de fornalhas dotadas de trocadores de calor.

UTILIZAÇÃO DO CARVÃO VEGETAL


O carvão vegetal apresenta características que o tornam adequado à
secagem de produtos agrícolas, sendo elas:
a) Por ser um combustível oriundo da pirólise da madeira, grande
parte dos compostos fenólicos (indesejáveis ao processo de secagem) já foi
eliminada durante o processo de carbonização.
b) Seu poder calorífico é superior ao da lenha.
c) Apresenta fácil manuseio e estocagem.
d) Possui baixos teores de cinzas, finos e enxofre.
e) Quando fragmentado, apresenta boa fluidez e é adequado à utilização em
alimentadores contínuos.
f) Pode ser produzido com facilidade na própria fazenda (entre 10 e 12
horas, em fornos do tipo “container”).
g) Quando de boa qualidade, não apresenta odor ao queimar.

O poder calorífico do carvão vegetal está associado à temperatura de


carbonização. Sob temperatura de carbonização de 400° C, o poder
calorífico inferior está ao redor de 7.400 kcal.kg-1. A densidade a granel
varia em função da madeira que lhe deu origem. As madeiras mais duras
fornecem carvões mais densos, que são naturalmente os melhores. Um valor
aceitável para base de cálculo é 250 kg.m-3. Por ser muito friável, o carvão
produz muitos finos, devido ao manuseio e transporte inadequados. Por
outro lado, a compactação de finos de carvão através da utilização de
aglomerantes especiais permite a obtenção de briquetes de elevado poder
calorífico, que podem ser utilizados com sucesso na fornalha descrita a
seguir.

DESCRIÇÃO DA FORNALHA A CARVÃO


A fornalha proposta é do tipo aquecimento direto, ou seja, os gases
resultantes da combustão do carvão são misturados com o ar ambiente e
insuflados diretamente na massa de grãos. Por não requerer chaminé e
trocador de calor, este tipo de fornalha, além de possuir custos inicial e de

6
manutenção mais baixos, é compacto e termicamente mais eficiente que
fornalhas semelhantes do tipo aquecimento indireto.
A fornalha proposta neste trabalho é dividida em compartimentos
específicos por três lajes de concreto. O primeiro compartimento destina-se
à queima do combustível, constituindo a câmara de combustão propriamente
dita. Nela é instalada uma célula de queima que recebe carvão, por
gravidade, diretamente do depósito de combustível. A entrada de ar primário
na fornalha se faz por uma abertura no centro da parede posterior da câmara
de combustão, afim de que o ar ao ser succionado pelo ventilador, passe
pela célula de queima.
A parte intermediária da fornalha constitui o compartimento
destinado ao recebimento das cinzas provenientes da célula de queima, por
meio de uma abertura central deixada na laje que sustenta a célula de
queima ou grelha. Por fim, a terceira e última parte constitui uma extensão
da câmara de combustão e se destina à condução dos gases até a entrada do
ciclone.
A Figura 2 ilustra a fornalha depois de pronta, mostrando o depósito
de combustível, a entrada de ar primário na câmara de combustão e a saída
do ar aquecido para o ciclone.

Figura 2 – Fornalha a carvão vegetal.

Construção da fornalha
Os materiais utilizados na construção da fornalha são tijolos comuns,
areia lavada, terra, melaço de cana ou açúcar, cantoneira, ferro de
construção, chapas de aço, brita e cimento para confecção das lajes. Para
facilitar o entendimento da construção, o interessado deverá seguir passo a
passo as etapas descritas a seguir.
Visando evitar perda de tempo durante a construção, recomenda-se
ler todos os passos descritos, a fim de que sejam providenciados todos os
materiais necessários e seja sanada qualquer dúvida que possa existir.
Recomenda-se ainda providenciar todos os elementos cuja construção
7
dependa de terceiros, como o depósito metálico para carvão, a célula de
queima, os registros para controle da entrada de ar primário e secundário, a
tampa de acesso ao compartimento do cinzeiro, a câmara de combustão e de
limpeza da fornalha e, se for o caso, o ventilador e seus acessórios (correia,
proteção da correia, base para assentamento do motor do ventilador).
Para a construção do ventilador, recomenda-se consultar o informe
técnico “Manual de Construção e Manejo de Terreiros para Secagem de
Café”, ou o livro “Colheita, Secagem e Armazenagem de Café”.

Depósito de Carvão
O depósito de carvão deve ser construído com dois tipos de chapa. A
parte inferior do depósito, por estar sujeita a maiores tensões térmicas, deve
ser confeccionada com chapa nº 12; o tronco do depósito e a parte superior,
por onde se fará o abastecimento, devem ser construídos com chapa nº 14; e
a tampa com chapa nº 10.
Com exceção da parte inferior do depósito, onde se verifica a saída
do carvão, é fundamental que todo o depósito, assim como a tampa, seja
convenientemente vedado. Se houver qualquer entrada de ar no depósito de
carvão, além de incêndio, a fornalha será danificada pela queima do carvão
dentro do depósito. A combustão deve ocorrer somente na célula de queima.
Portanto, recomenda-se a colocação na tampa de uma junta de vedação e o
aperto por igual de todos os parafusos da mesma.

Etapas de construção
1° Passo – Construção das lajes
A construção deve começar pela confecção das lajes, para que não
atrase as etapas seguintes da confecção da fornalha. As lajes, com espessura
de 5 cm, devem ser construídas com as dimensões mostradas nas Figuras 3 e
4, no traço 1:3:3 e com ferragem de 3/16 polegadas.

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Figura 3 – Dimensões das lajes da câmara de combustão.

Importante: As aberturas indicadas nas lajes 1 e 2 devem ser coincidentes,


isto é, após o assentamento das lajes, as projeções de suas aberturas devem
coincidir.

2° Passo – Preparo da argamassa


Caso não se use as formas metálicas, mostradas mais adiante, a
fornalha pode ser toda construída em alvenaria de tijolo maciço, à exceção
do reservatório de carvão, que deve ser construído com chapa. No
assentamento dos tijolos deve-se utilizar uma argamassa especial, na
proporção de 18 volumes de areia + 18 volumes de terra + 2 volumes de
melaço ou 3 de açúcar cristal. Na argamassa de revestimento poderá ser
adicionado um volume de cimento. A adição de melaço ou açúcar na
argamassa, se faz necessária, para diminuir o coeficiente de dilatação e
evitar trincas quando a fornalha atingir elevadas temperaturas.

9
Figura 4 – Dimensões das lajes 1, 2 e 3.

3° Passo – Construção da base


A base da fornalha constitui uma extensão da câmara de combustão
e se destina à condução dos gases até a entrada do ciclone. Uma abertura de
20 x 30 cm deve ser deixada neste compartimento, para limpeza do interior
da fornalha, e outra, com as mesmas dimensões, para a saída do ar para o
ciclone. A fim de facilitar a construção da fornalha, sugere-se construir um
molde4 em chapa no14, com as dimensões indicadas na Figura 5. Esta
estrutura servirá como alinhamento para o assentamento dos tijolos e
permitirá a construção da base da fornalha já nas dimensões predefinidas.

Figura 5 – Dimensões da base da fornalha (molde).

4
O molde em chapa apresenta a vantagem de poder ser incorporado à fornalha, servindo
como acabamento externo.
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Uma vez pronta a estrutura apresentada na Figura 5, assentam-se os
tijolos maciços na parte interna desta, com a argamassa especial. A
espessura da parede da fornalha deve ser de meio tijolo. Terminado o
assentamento dos tijolos, coloca-se sobre a base da fornalha a primeira laje,
denominada laje número 3, conforme mostrado na Figura 6.

Figura 6 – Construção da base da fornalha e colocação da primeira laje.

4° Passo – Construção do cinzeiro


A parte intermediária da fornalha constitui o segundo compartimento
a ser construído e destina-se ao recebimento das cinzas provenientes da
célula de queima, através da abertura central deixada na laje de número 2,
que sustentará a célula de queima.
Como descrito no passo anterior, deve-se construir um molde em
chapa com as dimensões mostradas na Figura 7 e posicioná-lo sobre a base
anteriormente construída. Após este procedimento, deve-se assentar os
tijolos sobre a primeira laje, faceando-os com a forma metálica (Figura 8).
Uma parede de tijolos de 20 cm de altura deve ser construída na
extremidade da primeira laje mostrada na Figura 6, para isolar o
compartimento de cinzas da passagem do ar proveniente da câmara de
combustão (Figura 8). Em seguida, deve-se posicionar sobre o
compartimento construído, destinado ao recebimento das cinzas, a laje de
número 2. Ao terminar esta etapa, verificar-se-á que o cinzeiro formará uma
câmara isolada, cuja única abertura é a porta de acesso para limpeza. A fim
de facilitar o recolhimento e a retirada das cinzas, uma bandeja metálica
poderá ser colocada no interior do cinzeiro. As cinzas poderão também ser
retiradas por meio de um pequeno rodo metálico.

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Figura 7 – Dimensões do depósito de cinzas da fornalha (molde).

Figura 8 – Depósito de cinzas da fornalha, mostrando a parede interna


de fechamento e o acesso para limpeza.

5° Passo – Construção da câmara de combustão


O terceiro e último compartimento a ser construído destina-se à
queima do combustível e constitui a câmara de combustão. Como nos
demais passos, deve-se construir um molde em chapa, nas dimensões
indicadas na Figura 9, e proceder ao seu revestimento interno com tijolos
maciços e argamassa especial (Figura 10). Uma parede de 20 cm de altura
(parede quebra-chamas), deve ser construída sobre a laje de número 2,
conforme indicado na Figura 10. A entrada de ar primário na câmara de
combustão, mostrados nas Figuras 9 e 10, deve ficar posicionada no centro

12
da câmara de combustão, a fim de direcionar melhor o ar ao ser succionado
pelo ventilador.

Figura 9 – Dimensões da câmara de combustão (molde).

Figura 10 – Câmara de combustão mostrando a parede quebra-chamas


e as aberturas de acesso à grelha e de entrada de ar
primário.

Após a construção das etapas de 1 a 5, a fornalha deverá apresentar o


aspecto mostrado na figura 11.

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Figura 11 – Vista da fornalha após a construção da base, do cinzeiro e
da câmara de combustão.

Para finalizar a construção da câmara de combustão, assenta-se sobre


ela a laje 1, mostrada nas Figuras 3 e 4.

Célula de Queima
Na câmara de combustão deve ser instalada a célula de queima, com
dimensões de 32 x 32 x 32 cm, construída com ferro de ¾ de polegada
(Figura 12). A grelha deve ser simplesmente apoiada sobre a laje por quatro
pequenos pés de 2 cm de altura, devendo, por esta razão, as arestas da célula
de queima ser de 34 cm.
A altura útil da célula de queima poderá ser modificada de acordo
com a demanda de energia.

Altura
útil

Figura 12 – Detalhes da célula de queima em funcionamento.


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Deve-se adotar um espaçamento entre as barras que compõem a
célula de queima compatível com a granulometria do carvão, para que este
não passe através da grelha e para que tenha boa fluidez dentro do depósito
de combustível, não obstruindo, dessa forma, o fluxo de carvão por
gravidade para a célula de queima.
Para facilitar a retirada da célula de queima, no caso de manutenção,
ou no término da secagem, a célula de queima com carvão em brasa deve
ser apagada e deslocada de sua posição central, por meio da fixação de um
gancho em um pequeno anel fixado em seu corpo. Caso o depósito contenha
carvão, deve-se proceder de forma que o fluxo de carvão seja interrompido
ou o depósito totalmente esvaziado.

6° Passo – Construção da caixa de areia


A fim de amenizar as perdas de calor na câmara de combustão, uma
camada de 18 cm de areia deve ser colocada, preenchendo o espaço entre o
depósito de combustível e a superfície superior da fornalha. Para este
propósito, deve-se construir sobre a câmara de combustão a armação
apresentada na Figura 13 e proceder ao seu revestimento interno com tijolos
maciços (Figura 14), como nas etapas anteriores.

Figura 13 – Armação para construção da caixa de areia (molde).

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Figura 14 – Caixa de areia.

Terminada a construção da caixa de areia, a fornalha está pronta para


receber o depósito de carvão, bastando apenas encaixá-lo na abertura
deixada na laje superior da câmara de combustão (Figura 15), e preencher a
caixa de areia.

Figura 15 – Vista geral da fornalha com a caixa de areia.

7° Passo – Construção do ciclone


Para impedir a injeção de partículas (cinzas e fagulhas) na câmara de
secagem e evitar possíveis incêndios, um ciclone com 90 cm de diâmetro e
130 cm de altura (Figura 16 a, b), com parede de espessura de um tijolo,
deve ser construído entre a fornalha e o duto de conexão do ventilador. No
ciclone, os gases de combustão e o ar ambiente entram tangencialmente nas
partes inferior e superior do ciclone, respectivamente. Uma pequena
abertura deve ser deixada na parte inferior do ciclone, para limpeza semanal,

16
devendo estar sempre fechada durante o funcionamento da fornalha. A
figura 17 apresenta, em corte, as demais dimensões do ciclone e dos dutos
de ligação da fornalha ao ciclone e do ciclone ao ventilador.

CBP & D Café


Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento
Núcleo: Colheita, Pós-colheita e Qualidade
Visite o Site www.pos-colheita.com.br

(a) (b)

Figura 16 – (a) Corte do ciclone mostrando a ligação tangencial com a


fornalha.; (b) Posicionamento tangencial dos tijolos na
parte superior do ciclone.

17
Figura 17 – Corte longitudinal e detalhes do conjunto ciclone,
mostrando os dutos de conexão da fornalha ao ciclone e
deste ao ventilador.
Detalhes construtivos
Para melhor conhecimento da estrutura da fornalha, de suas
dimensões e seu funcionamento, as Figuras 18 a 22 são apresentadas em
planta, mostrando vários cortes e o aspecto final da fornalha depois de
construída.

(a) (b)
Figura 18 – (a) Vista posterior da fornalha mostrando, em corte, a
ligação da fornalha ao ciclone; (b) corte transversal
posterior da fornalha.

Figura 19 - Corte longitudinal da fornalha, mostrando parte do ciclone.

18
Figura 20 – Vista superior da fornalha, mostrando ventilador e ciclone.

Figura 21 – Vista geral da fornalha, mostrando ventilador e motor.

ADAPTAÇÃO EM SECADORES
A fornalha apresentada foi dimensionada para utilização em
secadores de pequeno porte, comumente encontrados nas propriedades
rurais, cuja capacidade situa-se entorno de 7.500 litros. No caso de
secadores de maior porte, deve-se procurar um técnico para o
redimensionamento da fornalha e as adaptações necessárias de acordo com
as características do secador. A Figura 22 mostra uma fornalha a carvão
vegetal adaptada a um secador rotativo pinhalense.

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Figura 22 – Fornalha a carvão vegetal adaptada a secador rotativo
pinhalense.

RECOMENDAÇÕES PARA O USO CORRETO DA FORNALHA


Mesmo seguindo criteriosamente todas as recomendações contidas
neste trabalho ou sugeridas pelo fabricante do secador, o bom resultado no
processo de secagem só será alcançado se o sistema for operado
corretamente. As sugestões dadas a seguir, se colocadas em prática,
contribuirão para o bom desempenho do sistema.

Utilize eficientemente o combustível


O carvão vegetal, por apresentar estrutura porosa, absorve com
facilidade a umidade do ar. A presença de umidade no carvão constitui um
obstáculo à produção de calor. A água, ao ser evaporada, subtrai calor do
processo de combustão resultando em saldo menor de energia para a
secagem. Quanto mais seco for o material combustível, maior o seu
aproveitamento. Por esta razão, mantenha o carvão estocado em sacos
fechados impermeáveis a umidade, e protegidos da chuva.
Apesar de, aqui apresentada, ter sido projetada para usar o carvão
vegetal como combustível pode-se, dependendo da material a ser secado,
utilizar outros combustíveis sólidos, desde que a granulometria dos mesmos
sejam equivalentes à do carvão vegetal a ser usado na fornalha
(aproximadamente 30 cm3).

Padronize o tamanho do carvão


Para uma combustão contínua e regular, utilize carvão com
granulometria uniforme. Pedaços muito grandes dificultam o escoamento
por gravidade dentro do depósito de combustível, podendo, inclusive,
interromper a alimentação contínua para a célula de queima, interrompendo
a combustão. Da mesma forma, devem-se evitar fragmentos muito
pequenos, pois eles podem passar pelo espaçamento da ferragem que
compõe a célula de queima e ser arrastados ainda em brasa para o secador.
Impõe-se, portanto, a necessidade de se incorporar à saída da fornalha um
ciclone, para decantação de fagulhas e incombustos.
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Carga e reabastecimento
Para enchimento do depósito de carvão, aconselha-se a construção
de uma escada de madeira com três degraus (Figura 23). A escada facilitará
o carregamento e dará maior segurança ao operador. Enfatiza-se, mais uma
vez, que durante o processo de secagem a tampa do depósito de carvão deve
estar convenientemente selada, para evitar entrada de ar.
Na reposição da carga durante a secagem, deve-se desligar o sistema
de ventilação e fazer o reabastecimento sempre com o ventilador desligado,
e somente ligá-lo após certificar-se do fechamento e da vedação da tampa do
depósito. O término da operação de secagem dependerá do teor de umidade
inicial do produto, da temperatura do ar de secagem e do tipo de secador. No
caso de secadores comerciais, é recomendável que o operador siga todas as
instruções do fabricante (temperatura do ar de secagem, fluxo de grãos,
etc.), pois o tempo de secagem praticamente independe do tipo de fornalha.
Dependendo do secador, uma carga completa de carvão pode ser
suficiente para 10 a 12 horas de funcionamento.

27

80

20
60

Figura 23 – Escada de madeira para acesso ao depósito da fornalha.

Certifique-se da hermeticidade do depósito de combustível


Inspecione periodicamente o depósito de combustível, verificando o
estado das chapas metálicas no interior da câmara de combustão, seu
desgaste e possíveis furos. Faça os reparos necessários, se for o caso, de
modo a evitar a entrada de ar por qualquer orifício no corpo do depósito.

Limpe periodicamente a fornalha


Para uma combustão eficiente e circulação livre dos gases
provenientes da combustão, limpe diariamente o cinzeiro e o interior da
fornalha e do ciclone, evitando assim o acúmulo de cinzas na célula de
queima e o seu arraste para o secador. Da mesma forma, deve-se
providenciar a limpeza do secador, desobstruindo-se os furos de passagem
do ar. Toda a área envolta da fornalha e do secador também deve ser
mantida limpa, de modo a facilitar o acesso às estruturas e não servir de
foco de infestação. Tais cuidados são muito importantes porque previnem

21
acidentes, corrosão das partes metálicas e contaminação do produto a ser
secado, entre outros, além de favorecerem a eficiência de secagem, devido
ao maior fluxo de ar.

SUPORTE TÉCNICO
Este trabalho, financiado pelo Consórcio Brasileiro de Pesquisa e
Desenvolvimento do Café – CBP&D-Café, foi desenvolvido no
Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa.
Outras informações poderão ser obtidas via consulta pelo telefone
(0xx31)3899-1889 ou no SITE (www.pos-colheita.com.br )

LITERATURA CONSULTADA

ANDRADE, E. B., SASSERON, J. L., OLIVEIRA FILHO, D. Princípios


sobre combustíveis, combustão e fornalhas. Viçosa: CENTREINAR,
1984. 40p.

MAGALHÃES, J. G. R. Tecnologia de obtenção da madeira. In: Uso da


madeira para fins energéticos. Belo Horizonte, MG, Fundação
Centro Tecnológico de Minas Gerais – CETEC, 1980. p.55-66.

MENDES, M. G., GOMES, P. A., OLIVEIRA, J. B. Propriedades e


controle de qualidade do carvão vegetal. In: PENEDO, W. R. (Ed.).
Produção e utilização do carvão vegetal. Belo Horizonte: CETEC. 1982,
p.75-89.

OLIVEIRA, G. A. Desenvolvimento e teste de uma fornalha com


aquecimento indireto e autocontrole da temperatura máxima do ar
de secagem de produtos agrícolas. Viçosa, MG, 1996, 69p. Dissertação
(Mestrado em Engenharia Agrícola), Universidade Federal de Viçosa.

PINTO, F. A. C., MELO, E. C., SILVA, J. S. Programa para


dimensionamento de fornalhas a fogo direto e fluxos descendentes.
Viçosa: Engenharia na Agricultura; Série energização rural.
AEAGRI-MG, 1992. 12p.

SILVA, J. S. et al. Manual de construção e manejo de terreiros para


secagem de café. Viçosa: UFV, 2000. 28p. il. (Engenharia na
Agricultura. Boletim técnico; 1).

SILVA, J. S. & BERBERT, P. A. Colheita, secagem e armazenagem de


café. Viçosa: Aprenda Fácil Editora, 1999. 146 p.

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Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento
em Café

O Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café -


CBP&D/Café - foi criado em 1997, por dez instituições brasileiras de P&D do
café, tendo a EMBRAPA como instituição coordenadora. O preceito
orientador da criação deste consórcio é o do somatório de recursos
humanos, laboratoriais, físicos e financeiros das instituições, com vista à
concepção e execução de atividades de P&D em todas as áreas da cadeia
produtiva do café e na abrangência dos principais estados produtores.
O Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café é uma
congregação de instituições de pesquisa e desenvolvimento para
sustentação tecnológica do agronegócio Café no Brasil. Atualmente, as
atividades de P&D são desenvolvidas por 38 instituições brasileiras,
abrangendo doze estados produtores de café.
Fone: (61) 349-6017

Temos os melhores consultores nas áreas de:


- Armazenamento de Produtos Agrícolas;
- Climatologia Agrícola;
- Construções e Ambiência Animal;
- Energia na Agricultura;
- Engenharia Ambiental;
- Irrigação e Drenagem;
- Mecanização Agrícola;
- Pós-Colheita.

Fone: (31) 891-1585

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