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Mês do Sagrado Coração de Jesus 0

12ª Edição
1962
Mês do Sagrado Coração de Jesus 1

MÊS DO SAGRADO
CORAÇÃO DE JESUS

Traduzido das "PALHETAS DE OURO"


12ª EDIÇÃO
AUMENTADA COM DUAS COLEÇÕES DE EXEMPLOS PARA
CADA DIA DO MÊS
POR
Mons. Dr. José Basílio Pereira

1962
EDITORA MENSAGEIRO DA FÉ LTDA. Caixa Postal,
708
Salvador – Bahia – Brasil
Mês do Sagrado Coração de Jesus 2

NIHIL OBSTAT:
Salvador, 15 de setembro de 1962
Frei Valdemiro Schneider O. F. M, (Censor diocesano)
REIMPRIMATUR:
Salvador, 15 de setembro de 1962
Mons. Pedro C. Guerreiro P. V. G.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 3

PRÓLOGO
A primeira ediçao deste opusculo veio a lume em 1888, e trazia entao uma notícia
resumida mas bastante explicativa, sobre o Apostolado da Oraçao.
Hoje ele e reeditado sem esta segunda parte, mas em seu lugar vem duas coleçoes de
exemplos para os dias do mes; alguns transcritos quase textualmente do periodico
"Mensageiro do Coraçao de Jesus" (Ediçao francesa), e outros compostos sobre dados
que se encontram no dito periodico religioso e noutros, ou em vidas de Santos e
biografias de cristaos de todas as classes, que foram fervorosos devotos do Sagrado
Coraçao.
A primeira serie de exemplos, que vem junto as meditaçoes, consta de fatos que se
deram em tempos e lugares diferentes, e demonstram a utilidade e o poder incalculavel
da pia devoçao; chamar-se-a bem esta serie a das — "Graças do Coraçao de Jesus". A
outra oferece, a largos traços, o esboço de vidas que se orientaram todas por este culto
especial; pode intitular-se a dos — "discípulos do Sagrado Coraçao".
A segunda coleçao de exemplos vai colocada no fim do opusculo, proporcionando,
mesmo fora dos exercícios devotos, uma interessante e proveitosa leitura espiritual para
cada dia do mes consagrado ao Santíssimo Coraçao de Jesus.
BAHIA, 29-3-1913.
Padre José Basílio Pereira
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MÊS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


(7 anos e 7 quarentenas de indulgencia cada dia e uma indulgencia plenaria no fim.)

ORDEM DO EXERCÍCIO COTIDIANO


Invocação do Espírito Santo
Vinde, Espírito Santo, enchei os coraçoes dos vossos fieis e acendei neles o fogo do vosso
amor.
V. — Enviai o vosso Espírito e tudo sera criado.
R. — E renovareis a face da terra.
ORAÇÃO
Deus, que esclarecestes os coraçoes de vossos fieis com as luzes do Espírito Santo,
concedei-nos, por esse mesmo Espírito, conhecer e amar o bem e gozar sempre de suas
divinas consolaçoes. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amem.
Oração preparatória
(100 dias de indulgencia — Leao XIII, indulto de 10 de dezembro de 1885).
Senhor Jesus Cristo, unindo-me a divina intençao com que na terra pelo vosso Coraçao
Sacratíssimo rendestes louvores a Deus e ainda agora os rendeis de contínuo e em todo
o mundo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia ate a consumaçao dos seculos, eu vos
ofereço por este dia inteiro, sem exceçao de um instante, a imitaçao do Sagrado Coraçao
da Bem aventurada Maria sempre Virgem Imaculada, todas as minhas intençoes e
pensamentos, todos os meus afetos e desejos, todas as minhas obras e palavras. Amem.
Le-se a intençao propria do dia, recitando em sua conformidade um Pai Nosso, Ave
Maria e Gloria, e a jaculatoria: Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais.
Em seguida, a Meditaçao correspondente ao dia e, depois, a Ladainha do Sagrado
Coraçao.
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LADAINHA DO SAGRADO CORAÇÃO


Senhor, tende piedade de nos.
Jesus Cristo, tende piedade de nos.
Senhor, tende piedade de nos.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus Pai dos ceus, tende piedade de nos.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nos.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nos.
Santíssima Trindade, que sois um so Deus, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, Filho do Pai Eterno, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, formado pelo Espirito Santo no seio da Virgem Mae, tende piedade de
nos.
Coraçao de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, tabernaculo do Altíssimo, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, casa de Deus e porta do ceu, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, receptaculo de justiça e amor, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, rei e centro de todos os coraçoes, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, no qual estao todos os tesouros da sabedoria e ciencia, tende piedade
de nos.
Coraçao de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, no qual o Pai celeste poe as suas complacencias, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, de cuja plenitude nos todos participamos, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, desejo das colinas eternas, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, paciente e misericordioso, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, rico para todos os que vos invocam, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, propiciaçao para os nossos pecados, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, saturado de oprobios, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, atribulado por causa de nossos crimes, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, feito obediente ate a morte, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, atravessado pela lança, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, fonte de toda a consolaçao, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, nossa vida e ressurreiçao, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, nossa paz e reconciliaçao, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, salvaçao dos que em vos esperam, tende piedade de nos.
Coraçao de Jesus, esperança dos que em vos expiram, tende piedade de nos.
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Coraçao de Jesus, delícia de todos os Santos, tende piedade de nos.


Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nos.
V. — Jesus, manso e humilde de coraçao,
R. — Fazei o nosso coraçao semelhante ao vosso.
ORAÇÃO
Onipotente e sempiterno Deus, olhai para o Coraçao de vosso diletíssimo Filho e para os
louvores e satisfaçoes que ele vos tributa em nome dos pecadores, e aqueles que
invocam vossa misericordia, concedei benigno o perdao, em nome do mesmo Jesus
Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina juntamente com o Espírito Santo por todos
os seculos dos seculos. Amem.
Para concluir, a seguinte fórmula de consagração
(300 dias de indulgencia. Leao XIII, Decreto de 28 de maio de 1887).
Recebei, Senhor, minha liberdade inteira. Aceitai a memoria, a inteligencia e a vontade
do vosso servo. Tudo o que tenho ou possuo, vos mo concedestes, e eu vo-lo restituo e
entrego inteiramente a vossa vontade para que o empregueis. Dai-me so vosso amor e
vossa graça, e serei bastante rico e nada mais vos solicitarei.
Doce Coraçao de Jesus, sede meu amor.
(300 dias — Pio IX).
Doce Coraçao de Maria, sede a minha salvaçao.
(300 dias — Pio IX).
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MEDITAÇÕES
-I-
Os terníssimos afetos do Coração de Jesus

PRIMEIRO DIA
Oremos para que em todo este mes nao se cometa um so pecado mortal em nossa família. Pai
Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
Jesus e as criancinhas
Jesus esta assentado e, em redor dele, estao os discípulos; la adiante, por entre a
multidao, seu olhar paternal descobre umas criancinhas que tímidas se aconchegam as
maes; Jesus estende-lhes os braços como a chama-las.
Os pequenos compreendem esse convite afetuoso e logo correm a Jesus que os abraça,
abençoa, detem junto de si e lhes fala do ceu. Os Apostolos, temendo que eles
incomodassem o divino Mestre, queriam afasta-los... "Nao, diz Jesus, deixai que as
criancinhas se cheguem a mim".
Que cena tocante! O Jesus, tambem eu sou criança e tambem, como elas, corro a vos;
acariciai-me, abençoai-me, falai-me do ceu.
Se me conservar simples, inocente, afavel, me haveis de querer: nao e assim meu Jesus?
Afastai-vos, pois, pensamentos, desejos, afeiçoes que arrancareis do coraçao o que
agrada a Jesus.
"Preparar-me-ei devotamente para a minha proxima Comunhao".
EXEMPLO
"Deixai os pequeninos virem a mim, porque deles e o reino dos ceus. Foram certamente essas
palavras partidas do Coraçao de Jesus que ditaram a seu Vigario na terra o decreto sobre a
Comunhao dos meninos, mandando que se lha de logo que neles se acenda o lume da razao e
saibam distinguir entre o pao da alma e o do corpo; e os fatos providencialmente se tem
encarregado de provar que, ao inves de retardar a primeira Comunhao para alem do primeiro
decenio da vida, e justo, muitas vezes, permiti-la ate no primeiro lustro... Um desses casos e o de
Nellie, chamada "a pequena violeta do SS. Sacramento", morta aos 4 anos e meio de idade, a 2 de
fevereiro de 1908, no convento do Bom Pastor, em Cork na Irlanda, e cuja "vida" corre impressa
num volume de 225 paginas sob os auspícios e bençaos de Pio X. Nellie, a primeira vez que viu a
Sagrada Hostia exposta, exclamou radiante: "Ali esta o Deus Santo!" E dizia depois muitas vezes:
"E preciso que va hoje a casa de Deus Santo: eu quero conversar com Ele". Abraçando com
efusao as pessoas que haviam comungado, sem que lho houvessem dito, lhes declarava: "Eu sei
que hoje recebeste o Deus Santo”. Quando, ferida de uma enfermidade mortal, lhe anunciaram
que faria a sua primeira Comunhao, deu um grito de alegria, exclamando : "Terei entao breve o
Deus Santo em meu coraçao!" E, no curso de sua dolorosa enfermidade, recebeu muitas vezes a
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Hostia Sacrossanta, recolhendo-se em fervorosas açoes de graças que duravam duas e tres
horas, e suportando seus padecimentos ate o fim, com uma resignaçao admiravel e edificante,
nunca, vista em criança de sua idade.
"A Revista do Coraçao Eucarístico" de julho de 1911 menciona tambem o caso de certa aluna de
uma casa religiosa de Roma, onde se asilaram cerca de cem meninas escapas ao terremoto de
Messina. Admitidas a audiencia pelo Papa, quando este falava, sentiu-se mais de uma vez puxado
pelas vestes, e perguntou: "Quem e que me sacode assim?" Uma voz argentina responde logo:
"Sou eu". Era uma pequena de 5 anos; as superioras quiseram repreende-la, mas Pio X acudiu:
"Povera fanciulla, que queres de mim?'— "Eu tenho cinco anos ; queria fazer minha primeira
Comunhao, e as Religiosas nao querem!"— "Nao sabes talvez bastante o catecismo", observou o
Papa sorrindo. — "Examinai, replicou ela, eu responderei". O Pontífice fez-lhe diversas
perguntas, e as respostas foram satisfatorias; admirado, voltou.se para as Irmas, e disse: "Dai-lhe
a santa Comunhao amanha".

SEGUNDO DIA
Oremos pelas almas que estao em pecado e nao pensam em se confessar. Pai Nosso, Ave Maria.
Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia
mais”.
Jesus e Lázaro
De pe, junto do tumulo do amigo, Jesus esta chorando... O Jesus, muito amor tendes vos
aos vossos amigos! Quanto me enternecem as vossas lagrimas! como demonstram a
ternura do vosso piedosíssimo Coraçao! Elas suscitam em mim uma recordaçao que me
punge e ao mesmo tempo me comove: a daqueles dias em que, morta a minha alma a
graça, ainda corríeis a ve-la e choraveis sua sorte...O meu Anjo da Guarda, testemunha de
vossas lagrimas, dizia, lembrando a observaçao dos judeus: "Como Jesus ama esta alma!"
Agradeço-vos, meu Deus, a vossa imensa bondade! Lazaro seguiu-vos...do mesmo modo
quero que todas as faculdades de minha alma, que todo o meu ser sejam empregados em
vosso serviço para começar ja hoje.
"Serei fiel em cumprir os meus deveres para agradar a Deus".
EXEMPLO
Em Liao, refere o Pe. Trouiller em 1893, um chefe de família, arredio das praticas religiosas
desde muitos anos, achava.se gravemente enfermo. Atacado como fora de uma apoplexia,
propos-lhe um dos parentes que aceitasse a visita de um padre. Irritado, respondeu que nao.
Repetindo-se o ataque, um amigo esforçou-se por traze-lo a melhor resoluçao: retorquiu,
vivamente, que nao lhe falasse mais no assunto, sob pena de brigarem. Entretanto, os progressos
do mal eram rapidos, e o perigo iminente. A família, entao, angustiada, recorreu ao Coraçao de
Jesus, refugio dos pecadores e abismo de misericordia.
O enfermo acabava de sofrer terceiro ataque. Deram-lhe um escapulario do Sagrado Coraçao,
que tocara em Paray uma das mais preciosas relíquias de S. Margarida Maria, e uma pessoa que
o doente prezava teve a inspiraçao de trazer a ve-lo um sacerdote que ele conhecia e estimava.
Com surpresa de todos, a visita foi logo aceita; e, depois de longa conferencia, o Padre retirava-
se, declarando que seu penitente podia receber os ultimos sacramentos.
No dia seguinte, (uma quinta-feira santa), a zelosa senhora que oferecera o precioso escapulario,
voltando a visitar o remisso, encontrou-o sentado numa poltrona, tendo nas maos um livro de
oraçoes que recitava devotamente. Uma. bem ornada mesa esperava a Sagrada Eucaristia que,
dentro de poucos instantes, viria encher de graças a alma do pobre pecador. E, com a saude espi-
ritual, o Coraçao de Jesus restituiu-lhe a saude do corpo.
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TERCEIRO DIA
Oremos por aquelas pessoas a quem Deus reserva no presente dia alguma dolorosa provaçao.
Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
Jesus e a pobre viúva de Naim que chorava seu filho
Afigura-se-vos, na vossa primeira idade, que nunca sofrereis grandes dores... Mas ai!
tambem vos chegarao essas penas, que dilaceram o coraçao arrancando-lhe tudo o que
ele ama. Lembrai-vos entao que ha sobre a terra um Deus previdente, que ve todas as
dores: Jesus, —e quem vos consolara. E principalmente na comunhao que ele nos diz:
"Nao choreis... eu vos conduzirei aonde estao aqueles que amais; vinde, nao me
deixeis".—Dai-me, meu Deus, o amor da Eucaristia !.e aí que se acha a consolaçao e a
paz... sei que aí nao me enganam... aí ouço, confortado, essas palavras: "Nao chores".
"Irei diligente fazer a minha visita ao SS. Sacramento".
EXEMPLO
"Has de ter sabido o que sucedeu, ultimamente, ao nosso Julio, escrevia de Bretanha, em 1883,
uma boa mae crista a outra sua amiga. Ele comandava o “Alceste”, navio a vela, e ja avariado;
tinha sob suas ordens cerca de 500 homens. Voltando para Brest, foi surpreendido por quatro
tempestades terríveis, redemoinhos e vagas de 30 pes de altura que cercavam o navio. Uma
rajada de vento despedaçou-lhe a vela grande; outra levou-lhe suas tres chalupas; e assim e que
chegou a baía dos Mortos, que tem esse nome pelos muitos sinistros que nela ocorrem. Foi-lhe
preciso passar o Goulet para entrar na enseada; e sabes quanto ele e estreito e perigoso. Junte-se
a isto um mar medonho, um vento assustador, e noite escura, sem haver piloto e estando ocultos
os farois pela altura das vagas; mas o nosso bom Julio tinha feito pregar na popa de seu navio
uma imagem do Sagrado Coraçao e, cheio de confiança nessa proteçao, prometeu uma missa em
açao de graças, se chegasse ao porto de salvamento com toda a equipagem; e assim aconteceu.
Imagina o que minha pobre Cecília passou, mas ouve tambem o que me escreve: "Tive ontem um
desses momentos de felicidades que fazem esquecer todos os sofrimentos passados. Dizia-se a
missa, em açao de graças, em S. Luís: e Julio, de uniforme, tinha ao pe o seu segundo oficial,
protestante convertido pelo prodígio que viu; depois todos os oficiais, acompanhados de suas
mulheres e parentes: e atras deles a equipagem, todos perfilados militarmente e numa atitude
respeitosa. Foi um ato de fe publico, que muito me comoveu e deixou em todos otima
impressao".

QUARTO DIA
Oremos em uniao com as pessoas que hoje comungaram. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a
jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e a Samaritana
La vos estou vendo, Senhor, oprimido de fadiga, assentado a borda do poço de Jaco,
aguardando os que passam, dizendo a todos: "Dai-me de beber; tenho sede do vosso
coraçao, dai-mo; tenho sede da vossa inocencia, conservai-ma..." Ah! Jesus meu, quantas
vezes nao vos tenho eu recusado esta esmola, para dar as leviandades, as paixoes, as
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vaidades...e vos nao desanimastes, continuaveis a pedi-la sempre... Sim, Jesus meu, vos
quero dar este alívio que me pedis, e do qual pareceis carecer...Que quereis de mim no
dia de hoje? Fidelidade no cumprimento dos meus deveres, amor nas minhas oraçoes?...
Eis-me aqui, Senhor... pedi o que quiserdes.
"Recitarei, com mais atençao, as minhas breves oraçoes, durante o dia".
EXEMPLO
O Pe. Ludovico de Casoria, encontrando uma vez, absorta em profundo estudo, a ilustre
napolitana Catarina Volpicelli, disse-lhe : "Vira um tempo em que fecharas todos os livros. Jesus
te abrira o livro de seu Coraçao, que diz infinito amor a cada. pagina, a cada palavra". E assim foi:
Catarina, meditando, junto ao sagrado tabernaculo, inflamou-se de tanto fervor que, deixando
tudo, foi encerrar-se entre as perpetuas adoradoras do SS. Sacramento. O Senhor, porem,
dispunha a seu respeito maiores coisas, e quis que, obrigada a sair do convento por motivo de
saude, fizesse no mundo ainda mais do que teria podido fazer no claustro. Ardendo em santo
zelo, empregou no serviço de Deus quanto era, tinha e podia: o talento, os estudos, os raros dons
da natureza e da graça, o rico patrimonio, suas obras, a propria vida, tudo ofereceu e sacrificou
ao Sagrado Coraçao, com um ato solene que assinou com o proprio sangue, chamando-se vítima
e escrava do divino amor. Fundou o instituto das Servas do Sagrado Coraçao e, em Napoles, o
santuario do Coraçao de Jesus, sede do Apostolado de que ela foi a primeira Zeladora. Criou a
"Voz do Coraçao de Jesus", periodico mensal da Santa Liga; instituiu a obra da Adoraçao
Reparadora, e da assistencia as igrejas pobres, o Orfanato das meninas, varias congregaçoes de
piedade para as jovens, a Biblioteca para a divulgaçao dos bons livros: quem poderia enumerar
todas as obras que realizou sob o impulso onipotente da caridade divina? Era, todavia, tao
humilde, que se tinha como a. ultima e ínfima entre as servas do Sagrado Coraçao; e nunca a sua
devoçao arrefeceu um instante; pois, ainda na hora extrema da vida, quando, placidamente e
com inefavel sorriso nos labios, estava para voar a patria celeste, quis novamente oferecer-se
como vítima ao Divino Coraçao com o ato solene que o Sumo Pontífice chamou "voto heroico".

QUINTO DIA
Oremos pelas almas fracas que estao a ponto de se deixarem arrastar para o mal. Pai Nosso, Ave
Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada
dia mais”.
Jesus e o pai aflito que pede a cura de seu filho
O Coraçao de Jesus nao pode resistir as lagrimas, sobretudo as que se derramam pelos
outros... "Vai, diz ele a este pai amante, vai, teu filho esta salvo". Ah! quem e que nao tera
em torno de si almas cujo estado seja bem mais perigoso, ainda que diferentemente, que
o desta criança?...para cura-las, ide a Jesus, orai, chorai e esperai com toda a confiança...
— Fazei-me ouvir depressa, meu Deus, em favor daqueles que amo e cuja santificaçao
desejo, estas palavras: “Consola-te... todos eles vivem para o ceu”.
“Eu me mortificarei hoje, abstendo-me de dizer qualquer palavra que desagrade a Jesus”.
EXEMPLO
O castelo de Villargoix, em Cote d'Or, pertence a uma nobre família crista, onde o cumprimento
dos deveres religiosos e tradicional e, de tempos imemoriais, se observa o costume de fazer em
comum a oraçao da noite, recitando-a, em voz alta, o chefe da família, reunidos ao toque do sino
todos os parentes e os domesticos. Muito naturalmente, pois, entrou aí o culto ao Coraçao de
Jesus; e com ele vieram bençaos e graças particulares sobre a casa. Um dia, o proprietario,
marques de Belathier Lantage, tendo a seu lado um filho, examinava a construçao ja adiantada
de uma abobada que devia ligar duas partes do castelo, quando se ouviu um medonho estalo. O
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marques aterrado, tem, entretanto, a inspiraçao de fazer um voto ao Sagrado Coraçao: num
momento a abobada se faz em pedaços e cai em terra, mas o piedoso cristao se ve sao e salvo
sobre uma barra de ferro solidamente encravada na parede, enquanto o filho, sem o sentir,
escorrega suavemente ao longo de uma grossa trave, que o depoe sem um arranhao sobre a
relva.
Em cumprimento do seu voto, o marques dedicou sua capela ao Sagrado Coraçao, gravando sob
a santa imagem a seguinte inscriçao: "Eles me constituíram o guarda de sua casa"; e a devota
família dizia agradecida: "O Coraçao de Jesus nos guarda, e nos montamos guarda ao Coraçao de
Jesus".

SEXTO DIA
Oremos em uniao com as Religiosas que por voto guardam silencio. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria
e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o paralítico da piscina
Ha ja 38 anos que este infeliz esta ali, esperando a sua cura sem pensar em pedi-la
aquele que e so quem lha pode dar, ao Deus da imensa bondade.
Passa Jesus... o doente nem pensa nele, e contudo e este bom Mestre que lhe diz: "Queres
ser curado...?"— "Nao tenho quem me valha", responde o doente... Ah! com certeza tu
nao conheces Jesus, pobre desgraçado!... Pede-lhe que te cure. Ele nem sequer lho pede,
e Jesus cura-o... Como sois bom, o meu Jesus! Fazei-nos bem, ainda quando vo-lo nao
sabemos pedir... e eu que vo-lo peço; serei desatendido? Nao, nao! creio-o firmemente!
"Hoje praticarei algum ato particular de bondade a fim de agradar a Deus".
EXEMPLO
Em outubro de 1890, de uma cidade do sul de França, recebia o diretor do Apostolado a seguinte
comunicaçao: "Aproveito a minha primeira hora livre, para vos noticiar que o Sagrado Coraçao
ouviu as minhas suplicas em favor do meu querido pai. De 22 para 23 anos minha alma nao
cessava de recorrer a Deus; mas, obtendo aos poucos a liberdade de fazer as minhas devoçoes,
eu vi esse coraçao de pai sempre afastado da religiao. Nao porei na balança da misericordia
divina meus sacrifícios contínuos, minhas promessas de "vítima" pela salvaçao dessa alma cara.
Mas uma enfermidade longa, inexoravel, veio visitar meu pobre pai, e com ela o isolamento, a
reclusao, a inaçao forçada. Cerquei-o de cuidados e de afeiçao: mas tinha sempre motivos de
chorar por sua alma. O caro enfermo tinha consigo o escapulario do Sagrado Coraçao que eu lhe
cosera nas vestes... Um zeloso missionario renovava, mas em vao, suas visitas, no intuito de
trazer a melhores sentimentos o velho advogado e político. O santo sacrifício da missa era
oferecido quase diariamente por ele. Afinal, uma noite em que o bom religioso velava ao seu
lado, ele chama de repente : "Padre, eu preciso que me ajudeis a cumprir um grande dever: eu
quero confessar-me". Quando terminou, eu me aproximei do leito e lancei-me em seus braços.
Disse-me entao com lagrimas: "Fiz o que de ha muito desejavas, e me sinto satisfeito".
O enfermo testemunhava com lagrimas sua fe e arrependimento. Alguns dias depois, uma crise
terrível quase o leva repentinamente. — "Meu Deus, dizia eu, vos fizestes tanto: concedei-lhe
ainda uma absolviçao e o sacramento dos moribundos". E o Senhor ouviu minha suplica; a
morte, que parecia ja arranca-lo, mo restituiu: ele recebeu com alegria a santa unçao. Enfim, no
dia 8 de junho, um mes depois de voltar a Deus, extinguia.se, docemente, com o crucifixo nas
maos, a serenidade nos traços e a resignaçao no coraçao" .
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SÉTIMO DIA
Oremos a fim de colher bons frutos das instruçoes que recebemos. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e
a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o leproso
Ouvi este grito d'alma, este grito cheio de confiança e de amor: "Senhor, se quiserdes,
podeis curar-me!" e ao mesmo tempo, acrescenta o Evangelho, lançava-se o leproso de
joelhos e suplicava com as maos erguidas... Jesus para, estende-lhe as maos e com elas
toca as chagas do doente. "Sim, quero-o, diz Jesus, se curado..." — Oh! e por que ja nao
estarei eu curado do meu orgulho, da minha sensualidade, da minha indolencia, eu que
tantas vezes vos hei tocado na santa comunhao? Faltar-me-ia a confiança?...
Meu Jesus, eu creio e espero! Curai-me!...
"Recitarei as minhas oraçoes na igreja, como se estivesse vendo realmente Jesus Cristo".
EXEMPLO
O Padre J. Andre, missionario de Callatupaty no Indostao, em 1884, quando ali reinava a peste,
narra numa carta, o seguinte: Um dia, quando eu ia sair de casa, chegaram dois homens cobertos
de suor: "Padre, dois cristaos de Vayalogam". "De tao longe! Alguma extrema unçao, sem
duvida". — "Sim, Padre, para toda a aldeia".—“Para toda a aldeia! Expliquem-se".— "Padre, leia".
E me apresentaram uma folha de palmeira em que leio: "Os cristaos de Vayalogam rogam ao
Souami que os venha socorrer. A colera esta a suas portas, e ja as tres aldeias pagas e turcas que
cercam Vayalogam sao dizimadas. Que o Padre nao abandone seus filhos neste perigo; venha
dizer-lhes uma missa e purificar suas almas, e eles se salvarao". — "Meus amigos, respondi eu,
desde que ninguem dentre vos foi atacado, nao vedes que nosso Senhor vos defende? Vossa
aldeia e tao longe! E viagem de uma semana! Ora, vos sabeis que cada hora do dia e da noite eu
posso ser chamado aqui para alguma vítima da colera ou da varíola". — "Entao, dizei o que
devemos fazer". — "Amigos, como eu mesmo nao posso ir, vou fornecer-vos um substituto que,
sem dar a ninguem a extrema unçao, fara o que eu nao posso fazer. Aqui esta uma imagem do
Sagrado Coraçao de Jesus. Lembro-me de que numa grande cidade de minha patria, em
Marselha, a colera chegou a fazer 120 vítimas por dia. No mais forte da epidemia, o bispo fez um
voto ao Coraçao de Nosso Senhor; desde esse dia, ninguem mais foi atacado. Tomai sua imagem,
e no domingo proximo, levai-a em procissao pela aldeia: Os poucos pagaos que ha por la nao po-
derao opor-se".— "Ao contrario; foram os mais empenhados em que viessemos chamar-vos". —
"Mas nao e tudo. Enquanto durar o flagelo, todos os dias pela manha e a noite, reuni-vos no
maior numero possível na igreja, e recitai a ladainha do Sagrado Coraçao. E que nenhum menino
falte, mesmo os que apenas principiam a caminhar". —“Mas, Padre, um grande numero desses
meninos ainda nao sabem as oraçoes”.—"Nao importa. Dizei-lhes so que e preciso pedir a Deus
que preserve a aldeia de todo o mal: Nosso Senhor lhes inspirara a maneira de o exprimirem.
Alem disto, a presença deles, por si, e ama oraçao que sobe ao ceu. Quanto aos adultos, que
tenham cuidado em nao ofender ao Coraçao Divino. Ide, fazei o que digo, e estareis salvos.
Dois meses depois, bate a minha porta o guarda da igreja de Vayalogam. — "E entao, Aroupalen,
a colera?' — "Desapareceu, padre". — "Quantas vítimas?" — "Nenhuma entre nos. Porem fez
muitas entre nossos vizinhos pagaos e turcos".
Mês do Sagrado Coração de Jesus 13

OITAVO DIA
Oremos para que Deus nos conceda a graça de repelir as tentaçoes, que durante o dia
experimentarmos. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos
amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e os aflitos
Que impressao deviam fazer nos coraçoes estas palavras de Jesus: "Oh vos, que estais
oprimidos de dores e sofrimentos, vinde a mim, que eu vos aliviarei!" Ainda ninguem
tinha falado assim; ninguem se havia mostrado tao acessível a todos como Jesus... Assim,
vede: os pobres, os doentes, e os abandonados sao os que o acompanham. — Quem os
queria anteriormente? Quem nao os bania de sua convivencia? O Jesus, ensinai-me a ter
um coraçao compassivo, a amar aqueles a quem ninguem ama, a acudir aos que todos
repelem... Dai-me sempre muitos coraçoes, a quem eu possa consolar durante a minha
vida.
"Hoje procurarei ser util a alguem da minha companhia".
EXEMPLO
O Dr. Jose Charazac, fundador da Policlínica de Toulouse, autor de varias obras científicas
elogiadas como de alto valor pela imprensa profissional, foi um verdadeiro cristao, sem fraqueza
nem respeito humano. Começava, habitualmente, o seu dia por uma longa visita a igreja de
Beaulieu, onde, recolhido em fervorosa oraçao, oferecia ao Coraçao de Jesus as primícias de seus
trabalhos. Depois, todo entregue aos deveres da profissao suportava-lhe as tarefas com uma
paciencia heroica, viajando a toda a hora do dia e da noite para acudir aos enfermos, sem olhar a
tempo desfavoravel nem a maus caminhos, e dirigindo-se primeiro e de preferencia aos pobres:
"Os ricos, dizia ele, tem mais recursos; lhes e mais facil providenciar". Seu grande espírito de fe
lhe fazia ver no indigente a personificaçao de Jesus Cristo sofrendo. Um dia, um amigo lhe disse:
"Meu caro, eu tenho muitos doentes para lhe mandar; devo, porem, prevenir que todos sao
clientes pobres e para consultas gratuitas". — "Mas entao, respondeu logo ele, nao se ha de
tratar aos infelizes que nao podem pagar medico? Mandemos todos, e sempre". E todos os
enfermos que lhe enviei, informa esse amigo, voltavam penhorados: nao so lhes dispensava
cuidados, mas fornecia-lhes remedios, dava-lhes ate dinheiro, e com tanta bondade, que o modo
de socorrer duplicava o merito e o valor do serviço prestado. Aos 34 anos de idade, caiu
gravemente enfermo, e preparou-se para a morte, comungando varias vezes na semana: no
Coraçao de seu Deus e que o medico exemplar ia haurir a sua invencível coragem e perfeita
resignaçao. Tinha filhos em tenra idade que a miudo o acarinhavam; com os olhos marejados de
lagrimas, ele dizia entao aos que o cercavam: "Faça-se a vontade de Deus! eles nao puderam
conhecer-me bem; vos lhes direis quanto eu os amava!" Um pouco antes de expirar, exclamou:
"Eu morro! mas diviso la no alto uma felicidade mais perfeita, vejo o ceu, eis a eternidade bem
aventurada. La, eu vos tornarei a ver um dia". E, levando a mao ao coraçao, sorriu docemente a
família, traçou sobre si um grande sinal da cruz, e entregou a alma a Deus. Na sociedade medica
de Toulouse, em sessao de 21 de novembro de 1892, o secretario geral, Dr. Bezy, fazendo o seu
necrologio, dizia entre outras coisas: "Ao lado de numerosas coroas depostas sobre o seu feretro
pela piedade dos seus, via-se um "bouquet" de violetas trazido, timidamente, por um "pobre
menino" a quem Charazac salvara a vida por uma habil traqueotomia... Pratiquemos as virtudes
de que nos deixa o mais belo exemplo, e que resumem sua vida privada e sua carreira científica:
Amor do trabalho, coragem na luta, bondade com os infelizes".

NONO DIA
Oremos pelas pessoas que mais estimamos. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao
de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 14

Jesus defende Madalena


Madalena tinha sido pecadora, estava, porem, arrependida e chorava aos pes de Jesus.
Nao era preciso tanto para comover o coraçao do bom Mestre; nao so perdoa, mas vede
como ele toma a sua defesa contra os que, no fundo de seus coraçoes, diziam: E uma
pecadora. — "E mais amante do que vos, respondeu Jesus. Vim a vossa casa, nao me
destes agua para meus pes, e ela mos ha banhado com as suas lagrimas; nao me destes o
osculo de paz, e ela nao cessou de beijar-me os pes... Por isso eu lhe digo: Tudo vos e
perdoado, ide em paz!"
Liçao de misericordia que eu jamais esquecerei, o meu Deus! Talvez que aqueles que eu
desprezo dentro do meu coraçao, e os que acuso, sejam mais queridos de Deus, porque o
amem muito mais.
"Porei sumo cuidado em julgar o proximo, para nao pensar mal de ninguem; e se fizer
juízo temerario, mortificar-me-ei a refeiçao".
EXEMPLO
Em Amsterdam, a Liga do apostolado em 1892 propos-se a trabalhar seriamente na obra da
conversao dos pecadores. A Liga contra cerca de 500 jovens, que se reunem todos os domingos:
no dia do Natal rogaram elas com instancia ao Sagrado Coraçao, que convertesse ao menos um
pecador cada semana, e em curto prazo ja se haviam convertido vinte e um. Cada associada reza,
diariamente, uma "Ave Maria' nessa intençao, e procuram, por toda a parte, os transviados;
quando os acham, dao os nomes ao Diretor, que, sem os declinar, na reuniao seguinte pede
oraçoes por eles e, em seu favor, se faz uma comunhao e o Padre anuncia que num dia
determinado dira a missa nessa intençao, convidando a comungarem nesse ato todas as que
puderem, Se o pecador e da paroquia, o Padre vai procura-lo; se de outra, avisa ao respectivo
Paroco, a fim de que o disponha. Estas piedosas diligencias tem sido ate agora coroadas de exito.
Havia aqui uma mulher de 70 anos que nao queria ouvir falar de Deus: estava em grande perigo
de morte, e nao queria deixar-se levar para o hospital, dirigido pelas Irmas de Caridade;
enfurecia-se, quando lhe falavam nisso. As associadas da Liga, querendo converte-la, vao ao
Diretor: "Padre, nada conseguimos; que se ha de fazer?"— "Nos triunfaremos, ficai certas —
respondeu ele— o Sagrado Coraçao nos ajudara. “Trazei-me aqui nove de vossas companheiras”.
Chegadas estas, disse-lhes: "Começai uma novena com muito fervor; pedi a Nosso Senhor que a
doente perca os sentidos, a fim de que se possa entao transporta-la ao hospital". A suplica foi
ouvida e a pobre mulher veio para a companhia das irmas. Mais tarde, volta a si e, vendo uma
das Religiosas aos pes de seu leito, reune todas as suas forças, salta ao chao e quer atirar-se pela
janela; acode gente, conseguem conte-la e comunica-se o fato ao apostolado: este redobra as ora-
çoes, e faz dizer uma missa na intençao, comungando nela 400 associadas. Nao tardou o triunfo
completo: quatorze dias depois, a pobre pecadora, transformada e recebendo os confortos
religiosos, morria, com todas as disposiçoes da mais piedosa crista.

DÉCIMO DIA
Oremos por aquelas pessoas dentre nos que mais necessidade tem de oraçoes. Pai Nosso, Ave
Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada
dia mais”.
Jesus e o povo falto de pão no deserto
Ha palavras bem comovedoras; Jesus ve a multidao que o segue esquecendo, em seu
fervor o necessario a vida, e diz: "Tenho compaixao deste povo; ha ja tres dias que me
segue e ainda nao tomou alimento algum... Nao o quero mandar embora neste estado,
pois temo que lhe faltem as forças no caminho..." Vos pensais em tudo, bom Mestre, em
Mês do Sagrado Coração de Jesus 15

tudo!... Se eu vos servir, se vos acompanhar, ainda mesmo que algures descure a vida
material, tenho a certeza de que vos provereis as minhas necessidades em pessoa, e ate
por um milagre, se for preciso. Eu compreendo bem vossas palavras: "Buscai em
primeiro lugar o reino dos ceus, e tudo mais vos sera dado em acrescimo!..." O mundo
nao o entende e zomba... Porem eu creio, meu Deus, creio!
“Recitarei uma dezena do terço para pedir a SS. Virgem um grande abandono a divina
Providencia”.
EXEMPLO
O Pe. Causseque, missionario em Madagascar, em setembro de 1890, relatava o seguinte: "Ha
cerca de 15 anos, um dos meus alunos de uns vinte anos de idade, veio uma 1ª sexta-feira, as 5
horas da manha, procurar-me para se confessar. Depois da confissao, disse-me: "Padre, estou
muito cansado, porem meu coraçao esta contente". — "Por que?" perguntei eu. — "E que ontem
eu estava ainda muito longe, e temia nao poder chegar a tempo da Comunhao de hoje que e a
nona e completa os nove meses em honra ao Sagrado Coraçao. Mas caminhei ontem o dia inteiro,
ate 8 horas da noite, e aqui estou". —“Pois bem, meu filho, disse-lhe eu, o Coraçao de Jesus te
abençoara”.— "A bençao veio, de fato. Esse aluno de entao e hoje pai de família com 12 filhos, e
fez carreira. Da Comunhao da sexta-feira do mes passou, com a mulher e dois filhos, a comunhao
semanal: e e feliz, tem boa posiçao e goza de otimo conceito. Um europeu que lhe confiou
grandes somas para negociar, disse-me a respeito: Com esse procurador, eu nao examino contas:
porque se viesse a duvidar de sua probidade, em quem me poderia mais confiar? E que era ele ha
25 anos? Um pequeno malgache pauperrimo e sem instruçao, arrancado por um missionario ao
paganismo, onde a mentira e ganancia sao vícios tradicionais. Hoje, e um bom chefe de família,
estimado entre os seus, e honrado com a confiança dos estrangeiros. Gloria ao Coraçao de Jesus!"

UNDÉCIMO DIA
Oraçao para alcançar de Deus um grande horror a todo pecado. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a
jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e os apóstolos pedindo a
punição dos samaritanos
Os habitantes de Samaria nao quiseram receber a Jesus: expulsaram-no dentre os seus
muros... os apostolos indignados, lhe dizem: "Senhor, quereis que digamos que desça o
fogo do ceu e os consuma?"— "Nao sabeis de que espírito sois! lhes diz Jesus. O filho de
Deus nao veio perder as almas, mas salva-las..."
Ah! quao grande e a vossa bondade, o meu Jesus! Agora sei porque, depois de tantos
pecados, ja me nao tem vindo surpreender a morte! O demonio a enviava; vos porem,
Senhor, a detínheis. Jesus, fazei-me agradecido.
"No dia de hoje procurarei dizer alguma coisa da bondade de Deus".
EXEMPLO
Quando, em 1881, os Padres Jesuítas se estabeleceram na aldeia de Onha, em Burgos, reinavam
ali, por diversas causas, costumes repreensíveis, e a mocidade tinha o habito de blasfemar; nos
dias de festa, se entregava a danças indecorosas; nem o cura, com sua predica, nem o alcaide,
com intimaçoes e penas, tinham podido ate aí por cobro ao escandalo. Tentaram-no os recem-
chegados por este modo: encontrando-se um deles com um jovem em passeio, trava conversaçao
e, depois de falar sobre varios assuntos, pergunta porque se nao formam na aldeia coros
decanto, como ha na Espanha. Respondendo o jovem que nao faltam boas vozes, mas nao tem
quem ensine e exercite, o Padre oferece-lhe o mestre e um local para aprenderem o canto e
Mês do Sagrado Coração de Jesus 16

quaisquer outras coisas de utilidade que pertençam a boa educaçao.


Uma semana depois, os moços na quase totalidade inauguram suas reunioes literarias e musicais
numa sala dos Padres sob a sua direçao, tomando a agremiaçao o título de "Academia do
Sagrado Coraçao de Jesus". O ensino religioso e moral nao poderia, em tais circunstancias, ficar
esquecido; e o Diretor, na primeira oportunidade, fez ver que era absolutamente preciso, dentro
de um mes, corrigirem-se do mau vezo da blasfemia. Respondem ser impossível, porque estava
muito enraizado o habito. O Padre replica sem se perturbar: "Confiando em vosso divino
patrono, fazei o que vos digo. Formai cada manha, o proposito de nao blasfemar nem uma so vez
durante o dia, e quando, por acaso, o fizerdes, apanhai uma pedrinha e metei-a no vosso bolso,
renovando logo a resoluçao tomada". Concordaram todos, e a reforma começou. A noite, a hora
da classe, chegavam todos os jovens com a sua coleçao de pedras.
Mas, para abrandar o corretivo e poupar o amor proprio, foi providenciado a que nao pudessem
conhecer as faltas uns dos outros. O Padre percorria as fileiras, levando um saco no qual todos
metiam a mao, depondo la as pedrinhas os que as tinham, sem que se soubesse quais eram e em
que numero. Fazia-se depois a soma total e era entao imposta uma penitencia comum, por
exemplo, a recitaçao de uma "Ave Maria". E so com isto as blasfemias, sem muito tardar,
cessavam. Em relaçao as danças escandalosas, os jovens agremiados fizeram tambem entre si
um pacto de honra, e as substituíram resolutos por diversoes honestas e agradaveis. Por esta
forma, quando em Onha celebrou-se em 1882 a festa do Sagrado Coraçao, a aldeia se regenerara
ja dos seus dois mais graves escandalos, e por obras de sua piedosa Academia, cujo coro de
cantores nesse dia mesmo a abrilhantava.

DUODÉCIMO DIA
Oremos por todos os membros de nossa família. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria:
“Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
S. João repousando sobre o peito do Salvador
Que amavel familiaridade! Apenas me parece compreensível e, contudo, meu Deus, nao
tenho eu esta dita de S. Joao cada vez que comungo? Se eu tivesse a pureza que ele tinha,
se eu amasse a Jesus como ele o amava, ah! que deliciosos momentos passaria ao pe do
altar, guardando Jesus comigo, e em mim! Agora explico estas palavras de uma
adolescente: "O ceu e uma primeira comunhao contínua". Pois nao esta em mim o ceu
depois da comunhao? O Evangelho nao diz que S. Joao falasse muito com Jesus, mas diz
que foi o unico Apostolo que se achou no Calvario... oh! tambem aí me achareis, meu
Jesus! nada me separara de vos, nada.
"Farei hoje um ato de reparaçao a Jesus no SS. Sacramento".
EXEMPLO
Otavio de Ravinel, noviço da Companhia de Jesus, revelara desde a infancia um coraçao angelico:
ainda criança, abraçando sua maezinha, dizia, as vezes, muito serio: "Eu quero ser um apostolo";
e ao voltar da igreja, onde na bençao do SS. Sacramento segurava a naveta do incenso de que
ainda rescendia, notava contente: "Trago o perfume de Nosso Senhor!' Num dia da festa dos
Santos Inocentes, escrevia: "Tenho inveja desses milhares de meninos que se festejam hoje e que
derramaram o sangue para salvar o Menino Jesus". Na escola apostolica de Amiens, acometido
de uma afecçao que o prendeu por muito tempo ao leito ou a uma cadeira, sem nunca se
impacientar, dizia: "Se o bom Jesus padeceu tanto, um de seus filhos nao pode sofrer um pouco?"
Entrando para o noviciado, ele se ofereceu ao Coraçao de Jesus como vítima pela salvaçao das
almas, propondo-se a trabalhar sempre em favor delas, e aplicando as do Purgatorio, pelo voto
heroico, todos os meritos satisfatorios e indulgencias que lucrasse durante a vida, e os sufragios
Mês do Sagrado Coração de Jesus 17

que tivesse por morte. Ficava-lhe por fazer so o sacrifício da vida; esse ofereceu-o ele tambem,
mais tarde. Uma alma em perigo de perder-se lhe foi recomendada: "Eu me considero par-
ticularmente encarregado por Nosso Senhor da salvaçao desta alma. Peço a Jesus que me faça
sofrer o preciso para alcançar a sua conversao completa". E o sofrimento veio, chegando ao
extremo. Porem na manha mesma de sua morte, ao acabar a açao de graças da Comunhao,
recebia esta carta: "Oh !como te has de sentir feliz de que teu ultimo sacrifício tenha sido para
reconduzir uma alma ao bom caminho! Que poderei eu fazer em retribuiçao? pedira Deus a tua
saude? Eu o fiz, mas parece que Deus nao quer escutar as minhas suplicas. Porem nao partiras
sem ter de mim uma consolaçao; aquele por quem te ofereceste, vem, de joelhos, ante o teu leito
de sofrimentos, prometer-te ser um bom cristao durante o resto da vida. Tu me enviaras as
forças, do alto do ceu, para que eu mereça reunir-me a ti um dia".
Otavio rendeu graças, comovido, e exclamou: "Agora, so me resta morrer". — "Por que? lhe
perguntaram". "Pois nao ofereci eu minha vida por essa conversao? Deus ma concedeu: cumpre-
me pagar", pouco depois, expirava, na flor da juventude, em transportes de fervor, como se
tivesse ja o ceu diante dos olhos.
“Farei hoje um ato de reparaçao a Jesus no SS. Sacramento”.

DÉCIMO TERCEIRO DIA


Oremos a fim de obter uma grande e terna devoçao para com a SS. Virgem. Pai Nosso, Ave Maria.
Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia
mais”.
Jesus negado por S. Pedro
Pobre Apostolo, que remorsos em sua alma culpada e que temor ao pensar que devia
tornar a ver Jesus! Procurava, talvez tremulo e confuso, ver, sem ser visto, seu bom
Mestre, a quem tinha negado... O divino Mestre tambem o buscava... Que se lia entao, o
Jesus, no vosso divino olhar? nao era a “colera”, nem a “queixa” nem a “exprobraçao”;
colera, queixa, exprobraçao, teriam morto o Apostolo... Em vosso olhar so se havia de ler
o “amor”...! Como sois bom, o Jesus meu! Por isso, quaisquer que sejam as minhas faltas,
jamais me apartarei de vos!
"Farei hoje um fervoroso ato de esperança".
EXEMPLO
Quando, em 1883, rompeu a guerra de França com os malgaches, os missionarios catolicos,
estabelecidos entre estes, houveram de retirar-se do país para nao serem perseguidos pela
populaçao paga, mas o Coraçao de Jesus os protegeu e o seu rebanho. No dia 1º de junho, festa
do Sagrado Coraçao, enquanto os missionarios, na primeira estaçao do caminho do exílio
invocam o seu celeste patrono, o rebanho sem pastor era congregado na catedral por uma
piedosa pastora diante do tabernaculo vazio, e aos pes da imagem do Coraçao de Jesus ereta no
altar mor. A Genoveva de Tananarive, cujo nome e Vitoria, escrevia nesse mesmo dia ao Diretor
das missoes: "Padre, esta manha, conforme vossas recomendaçoes, nos reunimos na igreja;
recitamos o terço e entoamos os dois canticos; e assim continuaremos todos os dias, com o
auxílio de Deus".
De fato, as reunioes continuaram em Tananarive e na Imerina. Os antigos alunos dos Padres
organizavam o serviço do culto, distribuindo entre si os papeis em que poderiam substituir os
missionarios, e Vitoria percorria as igrejas, a animar e exortar os fieis. O triunfo maior, porem,
foi o seguinte: o bispo anglicano quis aproveitar-se da situaçao e, dirigindo-a ao grupo mais
importante dos convertidos, lhes disse: "Os Padres nao estao mais aqui; vos nao tendes dinheiro,
eu vo-lo posso dar; ides ser forçados ao serviço militar, mas eu vos livrarei. Como catolicos
Mês do Sagrado Coração de Jesus 18

romanos, sereis considerados cumplices dos franceses: comigo, sereis tratados como amigos do
Estado, sem deixar de ser catolicos, pois que nos somos catolicos anglicanos. Vinde para a minha
igreja!' Todos responderam : "Senhor, nos somos filhos da Igreja Catolica, nao vos podemos
acompanhar". E cumpriram a palavra: feita a paz, ao voltarem os missionarios em 1886, o
rebanho os cercou de novo, fiel ao Sagrado Coraçao de Jesus.
”Farei hoje um fervoroso ato de esperança”.

DÉCIMO QUARTO DIA


Oremos pelos pobres pecadores endurecidos. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria:
“Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Jesus e o bom ladrão
Toda a vida mortal de Jesus pode reduzir-se a uma so palavra: "misericordia". Nao e
tambem isto o que resume a sua vida eucarística? Nunca repelia ninguem. —Ia sempre
ao encontro dos pecadores. — Intercedia sempre por aqueles mesmos que o magoavam:
e, desde que via numa alma a menor vontade de voltar ao bom caminho, usava para ela
de tais cuidados e carinhos, que, diz um Santo, quase faz inveja o ser pecador. —O
ladrao, pendente de uma cruz, reconhece o seu crime e, restando-lhe apenas alguns
momentos de vida, ouve estas consoladoras palavras: "Hoje estaras comigo no Paraíso".
Oh! dizei-me tambem estas palavras, meu Jesus!
"Confessar-me-ei com mais cuidado".
EXEMPLO
O "Mensageiro do Coraçao de Jesus" de setembro de 1880 menciona a seguinte conversao
sucedida na Belgica: "Um medico rico e conhecido, que casara com uma senhora piedosa, de ha
muito desprezara os seus deveres religiosos, e, as exortaçoes da consorte para que voltasse a
Deus, respondia ser mais catolico que muitos outros, fiel a seus deveres de família e generoso
com os pobres. Na guerra de 1870, ele sustentara, as suas custas, uma das principais
ambulancias belgas, enviara socorros a Metz e Sedan, sem querer por isso nenhuma indenizaçao;
tratava e fornecia remedios gratuitamente aos pobres da aldeia em que estava situada a sua
quinta. Depois de passados assim 20 anos, sobrevieram- lhe repetidos reveses que o arruinaram:
mas com eles, em vez de se voltar para Deus, mais infenso a religiao se mostrava. Aos desgostos
pelo abandono em que os amigos de outrora o deixavam, associou-se uma grave enfermidade. A
família entao juntou-se toda a trabalhar por converte-lo, e nessa intençao se fizeram oraçoes e
promessas, celebraram-se missas, e começou uma novena de primeiras sextas-feiras. Em
outubro piorou muito; alguns Padres o visitaram, a quem recebeu com polidez, mas recusando o
socorro de seu ministerio. Aceitou., afinal, um belo Cristo, que mandou colocar perto de si, mas
declarando que, munido deste sinal da Redençao, nao precisava de intermediarios entre Deus e
sua alma. A molestia progrediu, e o assistente a dizia ja no termo; nesse tempo, uma sua tia, Reli-
giosa do Sagrado Coraçao, mandou-lhe uma imagem, abaixo da qual estava escrita uma formula
de consagraçao, e pediu que com a esposa a recitasse durante uma novena das primeiras sextas-
feiras.
Deu-se isto numa quinta-feira a tarde, e no dia seguinte o doente anuiu ao pedido, e recitou, com
sua mulher, a pequena oraçao. A noite que se seguiu foi ma, e a boa crista, ao amanhecer,
estando so com o marido, lembrou-lhe o dever de pensar seriamente na eternidade: ele calou-se
por instantes e, perguntando o que julgavam do seu estado os medicos, a resposta de que o
consideravam gravíssimo, disse: “Mande chamar o Padre, porque eu quero morrer como perfeito
cristao”. Devidamente preparado, recebeu com devoçao os ultimos sacramentos; ao chegarem os
medicos e amigos, contrarios as praticas religiosas, perguntando-lhe surpreendidos, se nao se
Mês do Sagrado Coração de Jesus 19

impressionara, respondeu: "Sinto-me feliz, so quero agora ocupar-me das coisas celestes".
Quando o cercavam as pessoas piedosas da família, queria que lhe recitassem jaculatorias e
pedia perdao a todos, dizendo: "Logo que estiver no ceu, farei por vos o que nao pude na terra,
onde tudo me saiu mal". Os proprios criados exclamavam admirados: "E um milagre! O amo a
pedir perdao! Morre como um santo! Nao foi em vao que tanto se rezou por ele!" Falava da
morte com alegria, e fez suas disposiçoes querendo um enterro pobre, e sepultura no cemiterio
da aldeia, que era sagrado. E morreu, exclamando: "Eis o caminho do ceu! como e belo!"
Confessar-me-ei com mais cuidado.
— II —
Desejos do Sagrado Coração

DÉCIMO QUINTO DIA


Oremos para que nos tenhamos uma terna devoçao a S. Jose. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a
jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O primeiro desejo do Coração de Jesus
é a glória de seu Pai

Amamos aos nossos pais como a nos mesmos: queríamos que todos dissessem como
nos, que nao os ha mais nobres, nem mais virtuosos, nem mais ilustres, nem melhores;
revolta-nos uma injuria feita a eles. — Oh! Como estes sentimentos eram ardentes,
justos, no Coraçao de Jesus! Nada mais quer do que a gloria do seu Pai; o zelo de sua
honra devora-o, tem fome e sede de o fazer amar... Oh! ajudemos Jesus, falemos daquele
Deus de bondade, dirijam-se nossas açoes para Deus, façamos recitar algumas vezes as
criancinhas alguns atos de amor de Deus.
“Hoje farei todas as minhas oraçoes para que Deus seja conhecido e amado".
EXEMPLO
O relatorio do Apostolado da Oraçao, apresentado no Congresso Eucarístico de Liege em 1883,
consigna o seguinte fato, referido por um dos zeladores: "Havia nessa cidade um homem que
desde muito nao ia a Missa nem procurava os sacramentos; dera-se a embriaguez, blasfemava;
em suma, tinha uma pessima conduta. Em casa, eram contínuas as rixas com a família. A mulher,
encontrando-se um dia comigo fez-me chorosas queixas e eu, consolando-a como pude, acon-
selhei que com os filhos recitasse todos os dias um "Pai Nosso" e uma "Ave Maria" em honra do
Coraçao de Jesus; e ela o prometeu. Tempos depois, uma zeladora da Liga fala ao marido
transviado para que se aliste no Apostolado, e ele anui, recebe o escapulario e obriga-se a recitar
as oraçoes. Desde logo opera-se nele mudança total: começou a ir a Missa e, cada vez que lhe vai
escapar uma blasfemia, refreia-se humilhado. Indo uma vez significar-lhe o meu prazer pela boa
transformaçao, vi a seu lado um livre pensador que, oferecendo ate dinheiro, procurava
persuadi-lo a deixar os filhos na escola municipal onde se nao dava o ensino religioso. Em
oposiçao, eu mostrei-lhe o que ha de precario e falso nos gozos deste mundo e que so e feliz
quem serve a Deus. Ele me ouviu com atençao, e mostrou-se resolutamente de acordo, o livre
pensador retirou-se desconcertado e nao voltou. Encontrando, mais tarde, o convertido,
perguntei-lhe se era fiel ao seu compromisso com o Sagrado Coraçao, e respondeu: "Sim, e me
sinto feliz; falta-me, porem, uma coisa; e fazer uma boa confissao e comungar". Ajudei-o a
preparar-se, e fez com todo o recolhimento a sua Comunhao pascoal. Esse homem hoje e um
modelo: colocou os filhos numa escola catolica, leva a filha a comungar em cada lª sexta-feira do
mes, e, a força de exortaçoes e conselhos, reconduziu tambem a vida crista um de seus cunhados.
E ocioso dizer que a paz voltou a essa casa, e que toda a família vive tranquila e feliz, depois de
Mês do Sagrado Coração de Jesus 20

tal conversao, operada toda pelo Coraçao de Jesus, que mais uma vez realizou a sua promessa:
“Os pecadores se converterao por esta devoçao; eu estabelecerei a paz nas famílias”.

DÉCIMO SEXTO DIA


Oremos para que a Santíssima Virgem seja mais conhecida e amada. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria
e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O segundo desejo do Coração de Jesus
é a honra e glória da SS. Virgem
Oh! como e agradavel a Jesus ver honrar e amar sua Mae; essa Mae, a quem por tanto
tempo obedeceu; essa Mae, tao virtuosa, tao santa, tao boa; essa Mae, a quem tanto viu
sofrer!... Por isso, vede como Ele inspira um tao grande numero de praticas de devoçoes
em sua honra, como enche de bençaos aos que a invocam, como concede a paz e a alegria
aos que a amam... O Jesus, queremos amar, com todo o nosso coraçao, a vossa Mae...
Teremos por Maria a mais terna devoçao.
"Recitarei, hoje, um ato de abandono a SS. Virgem".
EXEMPLO
Mons. Bosse, prefeito apostolico de S. Lourenço no Canada, em 1883 relata o seguinte: "Um
milagre acaba de ser operado na missao de "Betchouan" pelo Sagrado Coraçao de Jesus. Numa
pequena casa achavam-se treze pessoas. Trazem ali um barril de 36 libras de polvora para fazer
a divisao. Um homem pega num vaso, enche-o de explosivo e derrama-o tambem numa garrafa.
Entra um rapaz com um cachimbo, em torno do qual estavam sete homens. Uma parede inteira
da casa e atirada longe, o fogao se esboroa, o teto e sacudido a altura de quatro pes e cai
desconjuntado. Portas, janelas, moveis ficam em pedaços; a caixa do edifício e so o que resiste.
Tres dos homens cujas roupas se incendiaram, correram a praia e se atiraram na agua. Sete
queimaram as maos e o rosto; mas estao em via de cura. Todos, no momento do desastre, in-
vocaram Jesus e Maria. Havia nesse aposento, pregadas na parede destruída, duas imagens do
Sagrado Coraçao e uma de Maria, que estavam em quadros com vidros: os quadros e os vidros se
esmigalharam, mas as tres imagens se acharam intactas a doze pes da casa, sobre uma pilha de
destroços... O papel nao estava nem roto, nem machucado, nem enegrecido: ate mesmo as
estrelas doiradas, que ornavam o manto de Jesus, nada sofreram. Os feridos fizeram celebrar
uma Missa em açao de graças, e nela comungaram.

DÉCIMO SÉTIMO DIA


Oremos pelos Ministros de Deus — os Padres, — a fim de os ajudarmos na salvaçao das almas.
Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
O terceiro desejo do Coração de Jesus
é a salvação das almas
Se nos fosse permitido, como a S. Joao, reclinar a nossa cabeça sobre o peito de Jesus, e
perscrutar-lhe as palpitaçoes do coraçao, ouviríamos estas palavras: “Almas! almas!
quero salvar as almas!” Se nao fossemos tao distraídos pelas coisas exteriores,
ouviríamos a voz suplicante de Jesus dizer-nos: “Ajudai-me a salvar as almas!" — Uma
Mês do Sagrado Coração de Jesus 21

alma que se condena e um triunfo para o demonio! e um blasfemo que, durante toda a
eternidade, amaldiçoara Jesus!... Salvemos as almas: podemo-lo fazer "pelos bons
exemplos, pelas palavras e, sobretudo, pelas oraçoes".— Se salvarmos uma alma,
teremos salva a nossa.
"Ouvirei uma missa pela conversao dos pecadores".
EXEMPLO
Havia em Forte de França, na Martinica, e era ali muito conhecido, um homem abastado que
nunca recebera o ensino religioso, e, tendo.se casado com uma boa senhora, porem tíbia e
tímida, contentava-se de ser probo. Aos sessenta anos de idade, em 1880, atacou-o uma fraqueza
geral, que aumentava dia a dia, inquietando a família que pensou em lembrar-lhe que se devia
aproximar de Deus. O doente, porem, respondia, a galhofar, que se havia de arranjar bem com
Deus, quando o visse face a face. Progredia, entretanto, a molestia e mais se afligiam, cada dia, os
parentes, mormente considerando que nem a sua primeira Comunhao ele fizera; conseguira, tao
somente, um deles, que deixasse coser ao seu travesseiro um escapulario do Sagrado Coraçao, e
a este recomendava todos os dias o doente. Apos seis meses de sofrimento, perdeu um dos olhos,
redobram entao as oraçoes ao Sagrado Coraçao, e um dia o rebelde pediu que lhe trouxessem
um Padre e, depois de varias visitas deste e longas conferencias decidiu-se a confessar-se,
fazendo-o com boas disposiçoes, mas sem querer ainda a Comunhao, por lhe parecer
desnecessaria. Passado um mes, trouxeram-lhe uma imagem do Sagrado Coraçao, que foi
colocada em seu quarto. No dia imediato, veio-lhe um escarro de sangue, e, assustado, pediu a
Comunhao. O sacerdote marcou-a para alguns dias depois, e durante esse tempo vinha exorta-lo,
de modo que fez uma excelente preparaçao, e no ato mostrou uma fe e humildade
verdadeiramente edificantes. Viveu ainda tres meses, mas suportando com a maior resignaçao
os seus crueis sofrimentos e, se acaso lhe escapava algum movimento de impaciencia, logo o
corrigia com invocaçao piedosa, ou beijando o Crucifixo. Comungou ainda outras vezes, sentindo
pelo seu estado de fraqueza nao poder ajoelhar-se para receber o seu Deus com toda reverencia;
e teve morte serena e consoladora. Tudo isto foi publicado em 1881, em honra do Coraçao de
Jesus, por testemunhas dos fatos relatados.

DÉCIMO OITAVO DIA


Oremos pelas almas do Purgatorio, que sao mais amadas pela SS. Virgem. Pai Nosso, Ave Maria.
Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia
mais”.
O quarto desejo do Coração de Jesus é o livramento das almas do Purgatório
Almas queridas de Jesus, almas muito amadas que Ele ve sofrer, e que, em respeito a sua
justiça, ainda nao pode livrar!
Estas almas chamam-no, desejam-no, dizem-lhe a cada instante: "Quando vos veremos,
Senhor?... E choram menos pelas dores que experimentam que por se verem separadas
de Jesus! Parece-me, dizia uma Santa, estar vendo Jesus que estende para mim uma das
suas maos, dizendo-me: "Estas pobres almas devem-me oraçoes, missas mal ouvidas,
mortificaçoes, esmolas que deveriam ter feito... Satisfazei por elas".
Sim, Jesus, quero começar hoje mesmo.
“Darei, de tempos a tempos, uma esmola pelas almas do Purgatorio”.
EXEMPLO
Santa Margarida Maria recomendou, vivamente, em suas instruçoes, o seguinte: "A noite, dareis
uma voltinha pelo Purgatorio, em companhia do Sagrado Coraçao, consagrando-lhe tudo o que
Mês do Sagrado Coração de Jesus 22

houverdes feito, e pedindo que se digne aplicar os seus merecimentos as santas almas que
padecem. E ao mesmo tempo lhes pedireis tambem, queiram interpor o seu poder para vos
alcançarem a graça de "viver e de morrer no amor e fidelidade ao Sagrado Coraçao de N. Senhor
Jesus Cristo, correspondendo aos seus desejos de resistencia". Noutro escrito que deixou, le-se:
"Numa noite de Quinta-feira Santa, tendo eu alcançado licença para passa-la diante do SS.
Sacramento, estive uma parte do tempo como cercada destas almas pobres: e Nosso Senhor
disse-me que me dava a elas todo este ano, para lhes fazer todo o bem que pudesse. Desde entao,
vem elas ter muitas vezes comigo; e nao lhes dou outro nome senao o de minhas "amigas
penadas". Eu pedia em favor delas sufragios e aplicaçoes de Missa dizendo: "Muito mais
obrigada vos fico pelo bem que lhes procurais do que se a mim mesma o fizesseis". Outras vezes,
regozijava de terem saído livres pelas oraçoes e penitencias que por elas fizera : "Esta manha,
domingo do Bom Pastor, duas das minhas boas amigas que sofrem, vieram dar-me um adeus;
porque hoje o soberano Pastor as recebia no seu redil da eternidade, com outras que iam
entoando canticos de alegria que se nao podem explicar". Estes piedosos sentimentos de Sta.
Margarida Maria se manifestavam tambem na mesma epoca numa Religiosa de alta virtude.
Maria vitoria da Encarnaçao, do Convento das Clarissas da Bahia, cuja vida foi escrita pelo
arcebispo D. Sebastiao Monteiro. Era a santa freira fervorosíssima devota dos misterios da
Paixao de Nosso Senhor e, as sextas-feiras, fazia a via sacra, carregando uma pesada cruz e
levando a cabeça uma coroa de espinhos a disciplinar-se de modo que o sangue esguichava
sobre as paredes ou corria pelo pavimento; assim, as vezes, a se arrastar de joelhos, ia ate o lugar
das sepulturas e se prostrava sobre elas orando. Tinha ainda uma particular devoçao ao arcanjo
S. Miguel como o defensor das almas do Purgatorio, para cujo alívio fazia muitos sufragios e
oferecia todas as obras de humildade que praticava. Por isso, escreve o seu ilustre biografo, elas
a procuravam com toda a confiança: indo, uma vez, altas horas da noite, ao coro fazer oraçao,
ouviu lastimoso gemido de um defunto que, por chegar tarde a igreja, ficara por enterrar : co-
brando animo, perguntou o que queria, e ele respondeu, pedindo mandasse fazer sufragios de
que muito precisava; satisfez o pedido no dia imediato, e o defunto, mais tarde, veio agradecer-
lhe. Uma noite, viu a alma de uma sua serva que lhe falava, quando a companheira que dormia
perto, despertando e vendo um clarao em sua cela, ao tempo em que lhe ouvia a voz, gritou
assustada, fazendo acordar toda a comunidade. Viu, de •outra vez, a alma da religiosa Madre
Luzia, que subia ao ceu. De uma feita, acabada a sua oraçao no coro, retirava.se, mas a cercaram
de tal sorte as almas, que ficou a orar ate romper a aurora. Como para mostrar que nao era isso
feito de pura imaginaçao, permitiu Deus que as almas lhe imprimissem como tres dedos de fogo
num ombro, e viram-nos varias Religiosas, a quem disse por graça: "As minhas amigas me
cauterizaram; nao quero mais brinquedos". Por outro lado, elas lhe faziam carinhos e a serviam:
em noite de excessivo calor, uma freira que falava a porta da cela, sentiu uma suavíssima viraçao
e, nao podendo explicar, perguntou donde vinha. Madre Vitoria respondeu: "Sao as minhas
amigas que me estao abanando". — "Oh! que consolaçao e a de ver uma alma em salvaçao. Veio
aqui, nestes dias, uma tao linda e resplandecente, que excedia a luz do sol". E, valendo-se delas,
conseguiu a muitas pessoas acharem o perdido, saberem de pessoas ausentes muito longe ou de
coisas futuras que se nao poderiam conhecer naturalmente, e curarem-se prestes de molestias
antigas e graves. Madre Vitoria morreu em 1715, numa sexta-feira, as 3 horas da tarde, dando-
se, nesta ocasiao e depois, por muitas vezes, fatos extraordinarios que confirmaram a reputaçao
de santidade que ja gozava em sua vida, e que tem uma longa e detida comemoraçao na Cronica
da Ordem Serafica.

DÉCIMO NONO DIA


Oremos pelo Santo Padre, Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que
tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O quinto desejo do Coração de Jesus é o triunfo completo da Igreja
Mês do Sagrado Coração de Jesus 23

A Igreja nao perecera jamais: debalde as portas do inferno vomitam contra ela legioes
infernais; debalde a ma imprensa espalhara as suas calunias; a Igreja resistira ate a
consumaçao dos seculos. E um artigo de fe, o temor a esse respeito seria uma falta.
Mas se a Igreja nao pode perecer, pode sofrer, e sofre... Sofre na pessoa de seu “chefe”, o
Papa, cuja autoridade e desconhecida; sofre em seus "membros", os fieis perseguidos;
em seus "mandamentos" desprezados... Oh! como Jesus me alegraria de vos ver algumas
vezes de joelhos, diante do SS. Sacramento, pedindo-lhe a paz da Igreja e impondo-vos,
nessa intençao, algumas pequenas privaçoes".
"Pedirei, com mais fervor, em minhas oraçoes, o triunfo completo da Igreja".
EXEMPLO
O Pe. Romano Hinderer, alsaciano, que recebeu o batismo em 1668, o ano em que se erigiu em
Coutances, Normandia, a primeira igreja publica dedicada ao Coraçao de Jesus, foi como escreve
um seu discípulo, senao o primeiro, ao menos o mais feliz propagador desta devoçao na China.
Enviado para a província de Tchekiang, dentro em pouco erigiu na capital (Hangtcheou) o
primeiro templo que a China possuiu sob a referida invocaçao, e nao tardou a ser testemunha de
uma proteçao miraculosa obtida por ela: um incendio voraz se ateara numa aldeia proxima, e
devorara quarteiroes inteiros. Os habitantes, infieis na maior parte, corriam as ruas
desorientados, clamando por seus ídolos: entre eles havia um cristao muito pobre, cuja casa se
achava entre as dos infieis, e ele pede a Deus que se compadeça de sua miseria. O incendio
prossegue e arde ja a casa vizinha a do cristao; mas, de repente, as chamas passam sobre ela,
respeitando-a, e vao queimar as dos outros, reduzindo-as a cinza. Um grande numero de pagaos
converteu-se logo diante do prodígio. Sucederam-se outros; na aldeia de Kin-kin-kias, estavam
reunidos os neofitos e oravam sob um desses alpendres que sao o oratorio dos camponeses
chins, quando apareceu no ceu sobre o teto de colmo, uma cruz luminosa, cercada de uma
aureola de nuvens brilhantes, que deixava em torno um campo azul semeado de estrelas. Ao
clarao, que parecia o de um incendio, acudiram os pagaos: a cruz pairou, durante um quarto de
hora, em seu nimbo de fogo, e depois desapareceu, deixando infieis e cristaos maravilhados. Em
1722, no dia 24 do mes consagrado ao Coraçao de Jesus, sobre a sua igreja em Hangtcheou,
desenhou-se novamente no ceu a cruz luminosa, futurando pelo tempo de meia hora; o povo
todo a viu, e se fizeram desenhos dela, que foram gravados e distribuídos no Imperio chines e na
Europa. Pela invocaçao do Sagrado Coraçao, obteve o Pe. Romano a graça de curas miraculosas, e
escapou incolume a varias perseguiçoes que a Igreja sofreu na China, durante os 37 anos em que
aí missionou; e ao morrer, em seus 77 anos de idade, tendo arrancado ao paganismo mais de
cem mil almas a quem ensinava tao santa devoçao, dizia ele ainda cheio de confiança: "E pela
devoçao ao Coraçao de Jesus que a missao na China nao se conservara, mas ha de se elevar
muito".
— III —
Os espinhos do Coração de Jesus

VIGÉSIMO DIA
Oremos pelas almas que resistem a graça. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao
de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O 1º espinho do Coração de Jesus são as
almas que, voluntariamente, permanecem
em estado de pecado mortal
A alma inocente e morada de Deus, e pela sagrada Comunhao torna-se a habitaçao
Mês do Sagrado Coração de Jesus 24

particular de Jesus Cristo... aí Jesus Cristo esta "em casa", e encontra suas delícias; aí
quer ficar... Ora cometer um pecado mortal, conserva-lo voluntariamente, e admitir o
demonio dentro d'alma, constituí-lo Senhor no lugar de Jesus que sai entao expulso,
ignominiosamente...
Pobre Jesus! Fica ele entao a porta da alma pecadora; bate a essa porta que lhe cerraram,
pede para entrar e ouve um espantoso grito dos Judeus: "Nao! nao! nao e a vos que eu
quero, mas ao meu pecado!" — Oh! se vos julgais em estado de pecado mortal, ide, ide ja
confessar-vos.
“Uma oraçao pelos pecadores".
EXEMPLO
A piedade, como diz a Sagrada Escritura, e util a tudo. Isto se ve ate no exito admiravel de tantas
pequenas industrias que o amor de Deus sugere aos seus servos para fazerem o bem e lhe
ganharem as almas. Em 1891, na escola catolica da Ilha de Tine, do arquipelago grego, foi
colocado sob a imagem de Nosso Senhor um coraçao "cheio de espinhos", tendo o direito de cada
tarde, no mes de junho, tirar desse coraçao um espinho o aluno que houvesse procedido melhor;
tal foi a porfia entre eles por uma conduta exemplar que tornou um espetaculo de edificaçao a
escola, podendo dizer-se que o Sagrado Coraçao era aí, todo o dia, coberto das mais belas flores
d'alma por aquela piedosa turba infantil.
O colegio congreganista de Negapatan, no Indostao, em 1869, instituía a pratica seguinte: no
começo do mes, cada aluno traçava numa folha de papel tantas linhas perpendiculares quantos
os dias do mes e a margem de uma serie de linhas horizontais, registrava as especies de boas
obras que se poderiam aplicar, escrevendo no fim de cada dia, na coluna e lugar corres-
pondentes, o numero dos atos de virtude que praticara. Ao fim de um mes, entregavam-se todas
as listas ao Diretor do Apostolado da Oraçao, sem nenhuma indicaçao nominal, para que so de
Deus fosse conhecido o esforço e merito de cada um; e o Diretor, somando o resultado em
relaçao a cada especie de boas obras, na conferencia mensal publicava o balanço do "Tesouro do
Coraçao de Jesus".
O Pe. Eraud, noticiando o fato, considera-o a causa principal dos progressos que na instruçao e
na vida crista fazem os alunos dos estabelecimentos, alguns dos quais ainda recentemente se
haviam distinguido em difíceis provas a que se submeteram na universidade de Madras.

VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA


Oremos pelas almas que Deus chama a vida religiosa. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria:
“Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
O 2º espinho do Coração de Jesus
são as almas indiferentes
Ha algumas almas que ouvem falar do amor de Jesus, e veem nisto apenas uma pia
exageraçao, — que pouco se lhes da de cometer ou nao pecados, contanto que nisto
tenham prazer ou proveito, — que se riem do cuidado com que as almas piedosas
procuram evitar os pecados veniais, que assistem as oraçoes por complacencia, mas
considerando esse tempo, se nao mal empregado, perdido. Oh! Quanto Jesus ha de sofrer
com esta indiferença!...
Meu Deus, nao permitais que eu caia em tal!—Bem leviano e esquecido sou eu, mas nao,
nao quero ser indiferente no que toca a vossa gloria!
"Hoje farei uma fervorosa visita ao SS. Sacramento, pedindo-lhe pelos infelizes que
Mês do Sagrado Coração de Jesus 25

resistem a Jesus Cristo".


EXEMPLO
Assim como sao uniformes as manifestaçoes do amor e misericordia do Coraçao de Jesus,
multiforme e o zelo de seus fervorosos devotos em corresponder-lhe; fazem-no com a adoraçao,
a expiaçao e o desagravo, pondo em obra a piedade infantil, a devoçao das va rias classes sociais
e o fervor das Comunidades religiosas. Mas, tendo sempre em vista, com a agonia de Deus, a
salvaçao das almas, os servos do Coraçao de Jesus nao poderiam deixar de ocupar-se,
particularmente, do transe da morte e dessa hora solene que decide da conversao dos pecadores
e da perseverança dos justos. Pesando os interesses eternos de mais de cem mil almas que todos
os dias comparecem diante do Tribunal Divino, e desejoso de valer, por algum modo, aos que
sucumbem de morte subita, e no mar ou em desertos e países paganizados, sem que se lhes
possa ministrar os socorros da religiao, o Pe. Lyonard, em 1847, quando fazia ainda, em Vals, os
seus estudos para o sacerdocio, compos, em favor dos agonizantes, a oraçao— "O mi-
sericordiosíssimo Jesus" — que, enriquecida de indulgencias pela Igreja, e traduzida em todas as
línguas cultas, e hoje recitada em todo mundo.
Em 1885, sob o mesmo impulso piedoso, e arcando com dificuldades, que so por uma visível
proteçao divina pode vencer, a viuva Joana Trapadoux, diretora do Hospício do Calvario em Liao,
erigia ai uma igreja sob a invocaçao do "Coraçao agonizante de Jesus".
Depois de levantar um templo ao "Coraçao agonizante", a piedosa senhora desejou formar uma
congregaçao de Religiosas para o servir; o Pe. Lyonard, que havia sido mestre de um filho da Sra.
Trapadoux, veio coadjuva-la na realizaçao dessa ideia; e o ceu a patrocinou; pois querendo ter
por auxiliar a Agostinha Vallete, que entao se achava entrevada, fez-se para esse fim uma novena
e, ao terminar, a enferma subitamente se erguia curada. A congregaçao fundou-se em 1859,
tendo por sua primeira professora e primeira superiora a Sra. Trapadoux, que tomou o nome de
Maria Madalena do Coraçao Agonizante. "O pensamento da perda eterna dos remidos por Jesus
Cristo, e do quanto ha de isto doer ao seu coraçao me impressionou profundamente, dizia ela.
Diante desta ideia, nao me parece que possa recusar coisa alguma a Nosso Senhor, ainda quando
nao viesse daí nenhuma recompensa, nem neste mundo nem no outro. Mil vidas quisera ter para
dar, e sinto so ter uma e tao incapaz! E os vinte e um anos que ainda viveu, consumiu-os todos a
exemplar Religiosa num continuado trabalho e sofrimento como vítima voluntaria da expiaçao
dos pecados do mundo, e pela salvaçao dos agonizantes de cada dia.

VIGÉSIMO SEGUNDO DIA


Entre os nossos parentes, oremos por aqueles que nao cumprem seus deveres religiosos. Pai
Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos
amemos cada dia mais”.
O 3º espinho do Coração de Jesus são
as almas frouxas e tíbias
Estas almas nao sao indiferentes, mas o quereriam ser talvez... O amor de Jesus Cristo
lhes e molesto e pesado, e, todavia, ja sentiram toda a doçura deste amor. O vos, que por
influencia duma paixao oculta, dum amor proprio e de um orvalho sem medida, vos
afastais de Jesus, ouvi esta queixa: "Se fosse um inimigo que me tratasse assim, eu
suportaria; mas uma alma que amo, que admiti a minha mesa!..." Vinde de novo lançar-
vos aos pes de Jesus... Talvez que amanha ja seja tarde... Se ele ja vos nao pudesse
receber!...
"Rezarei o terço para pedir a Maria Santíssima me alcance o fervor primitivo".
EXEMPLO
Mês do Sagrado Coração de Jesus 26

Do relatorio anual das obras do Apostolado da Oraçao, publicado em novembro de 1884, consta
a seguinte narraçao, feita pela professora da escola primaria de uma aldeia da França: No ano
passado, ao partir eu para o novo posto que me fora designado, informavam-me que me teria de
haver com meninos indoceis e sem nenhuma piedade, filhos de gente descuidada de seus
deveres religiosos e pouco zelosa dos bons costumes. Parti um tanto impressionada, porem
cheia de confiança em Deus; e, logo ao chegar, pus maos a obra. Comecei por uma fervorosa
novena ao Coraçao de Jesus; manifestei-lhe meus receios e minhas esperanças, e procurei depois
ganhar, pouco a pouco, o coraçao dos meus novos discípulos. Alistei-os no Apostolado da Oraçao,
instando a recitarem todos os dias, ao despertar, a pequena formula: "Divino Coraçao de Jesus,
eu vos ofereço o meu dia, pelo Coraçao Imaculado de Maria, em todas as vossas intençoes". No
começo da aula, recitavamos em comum a dezena do Terço. Ate aí tudo ia bem e os meninos se
mostravam muito doceis. Por fim, um dia lhes disse: "Meus amiguinhos, nao e bastante o recitar
todas as manhas a vossa curta oraçao e a dezena da Terço; e preciso comungar todas as
primeiras sextas-feiras do mes em honra ao Sagrado Coraçao. Assim e que estareis com-
pletamente no Apostolado da Oraçao". A tal proposta, houve espanto e desassossego entre os
pequenos; nao tinham o costume de comungar tantas vezes: desde a Pascoa (sete meses
passados), nao se tinham confessado! Todavia, passada a surpresa, consentiram e, em dezembro,
inauguravamos as nossas "Comunhoes mensais". Entre os alunos, um, de 10 a 11 anos, resistia a
princípio, e dizia: "Eu nao quero me confessar hoje, eu nao tenho pecados". "Pois bem, lhe
respondia eu, rindo; confessaras as tuas virtudes, vem sempre conosco a Igreja". Na volta, ele
dizia aos companheiros: "Era o demonio que me fazia gritar que nao tinha pecados; estou bem
contente de minha confissao". A dificuldade estava assim vencida, e no mes seguinte os alunos,
por si proprios, apresentavam-se para. a Comunhao. Em fevereiro caíra a neve e fazia muito frio;
quis dispensa-los, porque a igreja ficava a 5 quilometros, mas acudiam todos: “Nao cai mais neve,
e a gente que tem passado ja abriu o caminho; nos queremos comungar hoje em honra do
Sagrado Coraçao”. Um deles percorreu a pe, em jejum, 10 quilometros, e, de volta a casa, ainda
nao quis comer imediatamente, dizendo: "Eu quero ter ainda por algum tempo so a Jesus em
meu coraçao". Outro que teve de deixar a escola e de empregar.se para ganhar, nao podendo
fazer a Comunhao na 1ª sexta-feira, veio muito pesaroso dizer-mo, e, propondo-lhe eu que a
fizesse, ele so, no 1º domingo do mes, aceitou-o com alegria, e tem perseverado. Com isto, os
meninos, que a minha chegada eram revessos e turbulentos, se tornaram, pouco a pouco,
obedientes e piedosos; e os pais experimentaram tambem a boa influencia da mudança,
melhorando os costumes em toda a aldeia, sobretudo no tocante a religiao. Enfim, eu mesma que
viera cheia de apreensoes, hoje estou contente, e rendo graças ao Sacratíssimo Coraçao de Jesus.

VIGÉSIMO TERCEIRO DIA


Oremos para que se propague a devoçao ao Sagrado Coraçao de Jesus. Pai Nosso, Ave Maria.
Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia
mais”.
O 4º espinho do Coração de Jesus são as almas que profanam os sacramentos
Estas almas chamam-se "sacrílegas"; ora, sabeis o que fazem os sacrílegos? Unem-se ao
demonio para o auxiliar no mais horrível crime: a profanaçao do Corpo e Sangue de
Jesus Cristo.
Convertem a alma numa sentina repleta de vergonhosos vícios e, depois, conhecendo
bem o que fazem, lançam aí o Corpo de Jesus Cristo e esperam pelo agradecimento do
demonio ufano deste crime que ele por si nao podia cometer. Meu Deus! Meu Deus!
Deixai que eu vos peça perdao por todos estes crueis pecadores.
"Hoje farei um ato de reparaçao ao Sagrado Coraçao de Jesus".
Mês do Sagrado Coração de Jesus 27

EXEMPLO
Chamado a missionar numa aldeia de Pondichery, escreve o Pe. Fourcade, eu comecei por
consagrar aquelas regioes ao Coraçao de Jesus e em sua honra disse uma novena de Missas.
Tínhamos ali so uma Capelinha e 8 a 9 famílias cristas. Precisavamos de um terreno e, perto da
capela, havia um, em que estava o pagode chines, e que pertencia a Balekichnen, chefe da aldeia.
Convindo-nos possuí-lo para nos livrarmos da ma vizinhança, e precisando o proprietario
vende-lo para pagar dívidas, contratamos a compra, sob a condiçao de ser demolido antes o
templo chines. Os pagaos se enfureceram com a notícia e procuraram por todas as formas tolher-
nos a aquisiçao. O proprietario, porem, atormentado pelo credor, vinha a miudo, pedir o
dinheiro, respondendo-lhe nos, invariavelmente: "Derrubai o pagode, e o tereis". Conservando-
se as coisas neste pe, longo tempo, recorri ao Sagrado Coraçao, a quem consagrara a aldeia, e
prometi erigir-lhe um templo no proprio local do pagode, se a resistencia cessasse. Poucos dias
depois, Balekichnen veio .comunicar-nos que estava a demolir o pagode, e por nossos proprios
olhos o verificamos, rendendo graças ao ceu. Dentro de poucos anos, tinha eu batizado ali cerca
de sete mil pagaos.

VIGÉSIMO QUARTO DIA


Oremos por todos os nossos parentes e amigos para que Deus lhes recompense a sua dedicaçao
para nos. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais,
fazei que vos amemos cada dia mais”.
O 5º espinho do Coração de Jesus são os que corrompem a infância
Eis uma outra especie de sacrilegio nao menos doloroso ao Coraçao de Jesus, talvez
ainda mais doloroso que a profanaçao do seu corpo... Queridas almas das criancinhas
que tanto ama Jesus, almas inocentes e puras, sera possível que haja seres tao perversos
que vos ensinem o mal e vos levem a pratica-lo? Ah! que tesouro de colera se amontoa
contra eles la no ceu! Todo o pecado pode, sem duvida, obter o seu perdao, mas para
obter o perdao de haver ensinado o mal a uma alma inocente, sobretudo se esta pobre
criança morreu com esse pecado, que penitencias, que expiaçoes, que tormentos nao
serao necessarios!...
"Hoje hei de orar muito pelas almas inocentes".
EXEMPLO
Em Homs, na Síria, durante as chuvas do inverno que em 1890 causaram muitos
desmoronamentos, um menino de uma família cismatica havia colocado "uma imagem do
Sagrado Coraçao no compartimento da casa em que, segundo o costume geral, a família dormia.
Uma. noite, o pai vendo que o madeirame aí, pela sua vetustez, ameaçava desabar sob a violencia
da chuva, disse a família: "Devemos passar para o comodo vizinho, porque pode acontecer
alguma desgraça esta noite; o teto aqui ameaça ruína e o de la esta mais solido". Concordaram
todos, a exceçao do menino, que exclamou: "Que temeis entao? Nao temos nos aqui a imagem do
Sagrado Coraçao, que nos protege? Por mim nao tenho medo; eu fico". A família toda,
impressionada com as palavras do menino, resolveu nao sair ainda essa noite do seu pouso,
entregando-se a guarda do Sagrado Coraçao; e em boa hora o fez. Antes de amanhecer, uma
parte da casa abateu; mas foi aquela que parecia mais solida e em que tinham pensado abrigar-
se. O aposento em que estava a imagem do Sagrado Coraçao, nada sofreu.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 28

VIGÉSIMO QUINTO DIA


Oremos para que o Coraçao de Jesus nos inspire gosto pela Comunhao frequente. Pai Nosso, Ave
Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada
dia mais”.
O 6º espinho do Coração de Jesus são as almas que se afastam voluntariamente da
Sagrada Comunhão
Afastar-se voluntariamente da Sagrada Comunhao, quando ela nos e permitida, e dizer a
Jesus Cristo: “Nao quero estar convosco”. Nao se por em estado de comungar
frequentemente, ao menos todos os oito dias, e dizer a Jesus Cristo: “Nao me quero inco-
modar”. E, com efeito, para nao se incomodarem que estas pessoas nao comungam todos
os oito dias. Certamente nao vos pertence regular as vossas Comunhoes, mas pertence-
vos o preparar-vos para elas; cortai pelos sentimentos de vaidade, pelas amizades
excessivas, pelas maledicencias, pelas perdas de tempo... vereis como se vos despertara
o gosto pela sagrada Comunhao e como voluntariamente o vosso confessor vo-la per-
mitira.
"Vou, desde ja, preparar-me para comungar no proximo domingo”.
EXEMPLO
Uma zeladora do Apostolado comunicou ao "Mensageiro do Coraçao de Jesus" o seguinte,
ocorrido em 1883:
"Uma de minhas antigas discípulas adoeceu gravemente e, a despeito das reiteradas preces e
promessas piorava e chegou a perigo extremo. Ao visita-la nestas circunstancias me disse: "A
Santíssima Virgem nao me quer curar". — Nao desanimeis, respondi, ela quer porventura que
invoqueis o seu Divino Filho; recorri ao Sagrado Coraçao, prometendo-lhe tres coisas : —1º
consagrar-lhe-eis toda a vossa casa; — 2º colocareis sua imagem ali em lugar de honra; — 3º
quando estiverdes curada, fareis nove Comunhoes sucessivas de 1ª sexta-feira do mes. Desde
hoje começaremos uma novena ao Sagrado Coraçao; uni vossas oraçoes as nossas, e do fundo
d'alma dizei a Jesus: "Jesus, outrora vos curaveis na Judeia todos os enfermos que a vos
recorriam; curai-me para gloria do vosso Divino Coraçao". Ela prometeu tudo. Pela minha parte,
eu comecei a orar com fervor, e fiz a oferenda de um sacrifício pessoal. A noite foi medonha para
a pobre enferma: crises repetidas e delíquios assustadores. Todavia, na manha seguinte pode
comungar; mas o dia foi todo de extremas dores. Eu a animei a confiar, mesmo quando se
sentisse agonizante; e redobrei de instancias e de suplicas ao Coraçao de Jesus. Qual nao foi a
minha alegria, quando, no dia seguinte, 16 de agosto, li este bilhete: "A moribunda renasce; a
noite foi muito calma; seu estomago, que se recusava absolutamente a qualquer bebida, suporta-
a sem fadiga. A enferma sente-se voltar a vida". Em menos de oito dias, e antes do fim da novena,
achava-se ela ja em plena convalescença, e antes mesmo de haver decorrido um mes tornava de
novo as ocupaçoes de antes e se dispunha a cumprir suas promessas. Dois magníficos quadros
ornam hoje o salao de sua morada: um representa o Divino Coraçao de Jesus, e outro, o
Imaculado Coraçao de Maria, e todos os meses ela renova a esses Coraçoes a consagraçao de sua
pessoa e da família inteira .Quanto a novena de Comunhoes mensais de 1ª sexta-feira, ela
começou-a, mas um dia viu-se forçada a interrompe-la. — "Que fareis ?" lhe perguntei eu.
Respondeu.me : “Vou recomeçar e, se ainda for obrigada a interrompe-la recomeçarei sempre
ate cumprir a promessa. Os negocios de minha casa de comercio me embaraçam muito nesse dia,
mas, custe o que custar, cumprirei o que prometi. Nisso tenho ate muito prazer; nao compreendo
mais, presentemente, como podia passar meses sem me aproximar da Santa Mesa. A Comunhao
mensal e uma necessidade para a minha alma”.

VIGÉSIMO SEXTO DIA


Mês do Sagrado Coração de Jesus 29

Oremos por aqueles a quem Deus confiou o cuidado da nossa alma. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria
e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Entre os consoladores do Coração de Jesus acham-se primeiramente os zelosos
Ministros de Deus e os santos Religiosos e Religiosas
E o exercito visível de Jesus, sao os seus Anjos sobre a terra.
O fim deles e a gloria de Deus — a honra e gloria de Maria, — a salvaçao das almas, — o
triunfo da Igreja, — numa palavra, todos os interesses de Jesus Cristo. — Cada manha,
recebem as ordens do seu Deus e Senhor; cada noite dao conta do seu dia... Oh! Pedi a
Jesus que este exercito se aumente cada vez mais; oferecei-vos, algumas vezes, para que,
tambem vos, sejais alistados no serviço de tao bom Senhor. — Oh! Se soubesseis como
ali se esta bem! Como se vive feliz! Como se morre cheio de confiança!
"Ora hoje pelos Padres e Religiosos; e le alguma cousa sobre a vocaçao".
EXEMPLO
No ano de 1884, um seminarista de uma diocese da Austria dirigia-se ao orgao da Liga do
Apostolado, para fazer publica a sua açao de graças por tres merces alcançadas do Sagrado
Coraçao:
1ª — No meio de seus estudos teologicos foi atingido pela lei militar e logo considerado valido
para o serviço ativo. Com essa perspectiva de tres anos de vida de quartel, recorre ao Coraçao de
Jesus, e confia-lhe sua pessoa e sua vocaçao. Alguns meses mais tarde, realiza-se a segunda
inspeçao, cuja sentença e definitiva. Qual nao foi entao a sua alegria, ao ouvir essa decisao:
Inapto para o serviço militar!
2ª — Uma demasiada aplicaçao aos estudos lhe abalou a saude, ao ponto de que o medico lhe
mandou interrompe-los, durante alguns anos talvez. Cheio de confiança na promessa do Divino
Mestre, invocou o seu Coraçao compassivo e, contra as previsoes humanas, recobra em pouco
tempo todas as suas forças.
3ª — Uma terceira provaçao lhe sobrevem: sua família empobrece e nao pode mais pagar a sua
pensao; ele pede aos superiores um abatimento, ou, ao menos uma espera, que a princípio nao
lhe e concedida. Nao desanima, e redobra de oraçoes, invocando o Sagrado Coraçao com inteiro
abandono a sua providencia paternal. Sua confiança perseverante nao e frustrada: algum tempo
depois, sem nova diligencia de sua parte, lhe anunciam que tera de pagar so uma pequena parte
da pensao.
Nao sabendo exprimir quanto se sente agradecido, o jovem espera o momento em que, revestido
do sacerdocio, o possa mostrar, dedicando-se a servir e glorificar o Santíssimo Coraçao de Jesus.

VIGÉSIMO SÉTIMO DIA


Oremos pelos enfermos desamparados. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de
Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Os segundos consoladores do Coração de Jesus são as almas que sofrem
pacientemente
Oh! Como uma alma paciente em seus sofrimentos físicos ou morais consola o Coraçao
de Jesus!
"Ela sofre", mas bem sabe que o seu sofrimento vem de Deus... e submete-se com amor,
resigna-se com a maior confiança! "Sofre" e por isso compreende mais vivamente as
dores de Jesus, — e oferece as suas em compensaçao e consola seu Divino Mestre com
Mês do Sagrado Coração de Jesus 30

maior sinceridade. "Sofre"; condoer-se-a, pois, com mais comiseraçao do seu proximo;
nunca se e tao compassivo como depois de se haver sofrido com paciencia! Quanta
virtude nessas almas!
"Nao me lastimarei quando Deus me enviar algum sofrimento".
EXEMPLO
Mons. Segur, um dos mais ilustres e valorosos apostolos da Igreja de França, foi tambem um
fervorosíssimo devoto do Sagrado Coraçao. Nas muitas obras catolicas que fundou e dirigiu, em
suas pregaçoes que eram incessantes, nos 70 opusculos e livros que publicou sobre assuntos
variadíssimos, a devoçao ao Coraçao de Jesus ocupou sempre o seu pensamento e a sua palavra,
e dela fez ardente propaganda o novo sacerdote. Salienta-o, porem, e glorifica sobretudo um
traço característico dos perfeitos devotos do Sagrado Coraçao: o amor as cruzes da vida, a
resignaçao ao sofrimento. Em sua primeira Missa, a hora da elevaçao, Gastao de Segur pediu a
Maria Santíssima que lhe concedesse uma enfermidade, cruciante, mas que lhe nao tolhesse o
exercício do ministerio: queria ter um lugar ao pe da cruz do Divino Mestre. Quando perdeu um
dos olhos, exclamou: "A Santa Virgem mandou-o para o Purgatorio, para la fazer as minhas
vezes". Aos 34 anos de idade, cegando de todo, disse a um amigo: "Pedi ao Senhor que eu
carregue dignamente sua santa cruz. Ja nao correrei mais. Ganham com isto os grandes
pecadores, que terao menos acanhamento em confessar-se a quem lhes nao ve um traço." Foi
instado a tentar a cura, que Nelaton lhe prometia, e sujeitou-se a baldada operaçao, fazendo o
sinal da cruz e dizendo calmo: "Como Deus quiser". Aconselharam-lhe que recorresse as oraçoes
de pessoas santas, e a virtude de imagens milagrosas: obedeceu muito docil e buscou o
venerando cura d'Ars, e M. Depont, o devoto da "Santa Face". O santo homem de Tours dizia a
Mons. Segur: Nao e facil obter de Deus uma graça corporal, quando nao se pede na forma do
postulante do Evangelho: "Domine, fac ut videam— Senhor, fazei que veja". O piedoso sacerdote,
porem, nao pode conformar-se a dizer outra coisa, senao a palavra do Padre Nosso: "Faça.se a
vossa vontade". Falhando tambem todos os pios recursos, Mons. Segur aceitou por toda a vida a
cegueira, bendizendo-a. Todavia, o Sagrado Coraçao, conservando-o preso a cruz, dava-lhe a
virtude de comunicar a outros sua edificante resignaçao: o Jovem cego Afonso Landais, de
irritadiço, turbulento e mau, se tornava, com as suas exortaçoes, um exemplo de paciencia e
bondade Mons. Segur foi mesmo favorecido com a graça de curar a um cego, e assim aconteceu
no ano de 1869, com um menino Felix Gare, em Lorient: sul tia o levou a presença de Mons.
Segur para que o abençoasse, confiando em que isto o curaria. Monsenhor pos-se quase de
joelhos para se aproximar dele, abraçou-o carinhoso e o abençoou com um grande sinal da cruz.
Na manha seguinte, quando a tia de Felix entrou no quarto deste, para levar, lhe o seu chocolate,
e lho quis dar por suas maos, ele c desviou, docemente, dizendo: "Que faz, minha tia? eu a vejo
bem, meus olhos estao curados! E, em vez de que a cegueira de Mons. Segur lhe encurtasse em
nada o exercício de seu santo ministerio, este se manifestava, ate o fim, tao ativo, contínuo e
prodigioso, que a maioria dos operarios da vinha do Senhor poderiam, sem nenhum desdouro,
dizer dele com o santo cura d'Ars: Eis um cego que ve mais claro que nos.

VIGÉSIMO OITAVO DIA


Oremos pelas pessoas que o mundo despreza, a fim de que elas suportem com paciencia os seus
dissabores. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais,
fazei que vos amemos cada dia mais”.
Os consoladores do Coração de Jesus que estão em 3º lugar são as almas humildes
e desconhecidas, que se julgam felizes com este esquecimento
Sao estas almas as que, com maior perfeiçao, imitam a vida oculta em Nazare sob o olhar
de Maria; almas que ninguem conhece, em que pessoa alguma pensa e que vao
Mês do Sagrado Coração de Jesus 31

acumulando todos os dias tesouros de paciencia, de abnegaçao, de resignaçao, de


caridade, suportando os defeitos dos outros, muitas vezes o desdem, dedicando-se por
todos... e que, no fim de cada dia, sem mesmo terem consciencia do seu merito, oferecem
a Deus um coraçao imolado e puro, que consola o Coraçao de Jesus...
"Aplicar-me-ei, hoje, em falar pouco e em praticar ocultamente algumas açoes boas".
EXEMPLO
O "Estandarte", jornal canadense de Montreal, em 1981 publicava: "O comandante da "Naiade", o
Sr. Almirante de Cuverville, passou muitos dias em Montreal, onde deixou a mais favoravel
impressao entre todos os que tiveram a honra de o conhecer. Catolico fervoroso, ele fez
empenho em visitar os nossos estabelecimentos religiosos e, em varias casas, dirigiu a palavra a
comunidade. Terça-feira o Sr. Arcebispo o conduzia ao Grande Seminario para lhe apresentar
seu clero, que se achava em retiro: a recepçao fez-se no salao do colegio, e o ilustre marinheiro
pronunciou um discurso vibrante de patriotismo e amor a Igreja. A pedido do Prelado, o Snr.
Almirante referiu a historia da pacificaçao do Pe. Dorgere; depois, terminou dizendo: "Quero
fazer-vos uma confidencia: A devoçao que me e cara sobre todas e a devoçao do Sagrado Coraçao
de Jesus; devo-lhe todos os triunfos de minha carreira. Uma imagem do Sagrado Coraçao esta
fixada na proa da "Naiade". Outra esta em meu camarote, constantemente sob as minhas vistas.
Toda sexta-feira, o capelao diz a Missa em minha camara. Eu tenho um jornal fiel de tudo o que
me sucede, e Ja verifiquei que muitos acontecimentos, dos mais felizes, se deram na sexta-feira,
dia do Sagrado Coraçao. Esse jornal eu envio regularmente a Montmartre, e foi tambem neste
santuario do Sagrado Coraçao que fiz depositar, como "ex-voto', a riquíssima alabarda que foi
levada em triunfo atraves do Dahomey em sinal do restabelecimento da paz e da proteçao
concedida pela França".

VIGÉSIMO NONO DIA


Oremos pelas almas inocentes a fim de que se conservem puras. Pai Nosso, Ave Maria. Gloria e a
jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada dia mais”.
Os consoladores do Coração de Jesus que estão em 4º lugar
são as crianças devotas e inocentes
As crianças sao um objeto especial de amor de Jesus; como outrora, quando vivia ca na
terra, ele se compraz em ve-las junto de si... e por que isto? A criança mal sabe orar:
depressa se enfastia de repetir as mesmas palavras, e quando tem dito o "Pai Nosso" e a
"Ave Maria", nao vai alem.
Mas alguma coisa ha na criança que “ora” por ela, que “ama” por ela, que “atrai” sempre
o benevolo olhar de Jesus: e a sua "inocencia". A criança diante de Jesus e um vaso de
flores, que nao tem consciencia de seu perfume, mas que o exala, embalsamando tudo
em redor... Oh! Como Deus ama o coraçao que sabe conservar-se inocente!
"Hoje imitarei a docilidade das crianças e dobrarei de afeto e bondade com as pessoas de
minha convivencia".
EXEMPLO
O "Comite" das obras da Basílica de, Montmartre, no meado do ano de 1880, recebera de Samoa,
no arquipelago dos Navegadores, com um importante donativo, uma carta que terminava assim:
"Nao nos e lícito comparar a vossa grande obra o que fazemos aqui em Samoa, país pobre;
entretanto, nos tambem construímos uma igreja que tem o nome do Sagrado Coraçao. Temos
isso de bom a vos dizer de Samoa: toda ela esta agregada ao Apostolado da Oraçao, muitos sao
admitidos a Comunhao reparadora "mensal". Trazia a assinatura do Mataafa, rei de Upolu: era
Mês do Sagrado Coração de Jesus 32

uma valiosa conquista que o Sagrado Coraçao havia feito nas regioes da Oceania. Colocado entre
a pregaçao dos ministros protestantes e a dos sacerdotes catolicos, a princípio vacilara, e dizia
pesaroso: "Vos, europeus, estais nas fontes da verdade, devereis ser zelosos de conserva-la pura
e ardentes em propaga-la; mas vindes a nos, semelhantes a colunas de nuvem do deserto, ora
dando a luz ora fazendo escuridao; isto nos confunde". Inteligente, porem. sincero e refletido,
comparou bem as duas doutrinas, e um dia, tomando as vestes das ocasioes solenes, e
empunhando o bastao hereditario, declarou : "Chefes do sequito de Mataafa, e vos membros de
sua família e seus guerreiros, desde algum tempo eu abri minha alma ao sacerdote; e chegado o
momento de manifestar-me diante de todos: Mataafa quer ser, e em breve sera catolico". E con-
vertido, ei-lo ja feito um campeao catolico, e a rebater os ataques dos protestantes contra o culto
das imagens, dizendo-lhes na interessante linguagem dos cultos de seu país: "As imagens estao
por toda a parte. Os nossos coqueiros balançam nas ondas a imagem dos seus grandes leques; o
sol passeia, na flutuante superfície dos mares, a imagem de sua coroa de fogo. A natureza inteira
nao e a imagem do grande actua (Espírito) que a criou? Os livros sao a imagem da palavra, que e
a imagem do pensamento. A Bíblia, que vos colocais acima de tudo, o que e senao a imagem da
palavra, do pensamento de Deus? Deixai pois, de censurar aos catolicos que nos dao, com as
imagens, o meio de conceber os misterios de sua fe".
A vida de Mataafa e a de seus filhos atesta um escritor que historiou a propagaçao do Evangelho
em Samoa, e a de verdadeiros chefes cristaos, servido a Deus sem fraqueza e sem respeito
humano. Mataafa, declarou numa ocasiao solene o Cardeal Moran, arcebispo de Sidney, traz a
cruz sobre a sua pele bronzeada, e tem sob a cruz o coraçao de um guerreiro; ele deu provas
disso, repelindo no campo de batalha, com heroísmo cristao, os invasores de seu país. Por
ocasiao da consagraçao das famílias, que se efetuou solenemente em todo o vicariato apostolico
dos Navegadores, Mataafa, que acabara de vencer o rei vizinho Matosse, fez uma longa estaçao
na igreja em que se realizava a cerimonia, e aí efetuou a consagraçao de sua "pessoa", de sua
"família", e de seu "governo". Ao retirar-se, pediu que se celebrassem tres Missas ao Sagrado
Coraçao pela paz de Samoa.

TRIGÉSIMO DIA
Oremos na intençao de saber agradecer a Deus as graças que nos ha concedido. Pai Nosso, Ave
Maria. Gloria e a jaculatoria: “Coraçao de Jesus, que tanto nos amais, fazei que vos amemos cada
dia mais”.
Os consoladores do Sagrado Coração de Jesus somos nós que viemos, durante este
mês, meditar nos seus terníssimos afetos e estudar os seus desejos
Todos estes dias foi Jesus consolado, vendo que fomos constantes, que todas as manhas
o procuravamos fervorosos; mas, ainda quer de nos alguma coisa. O mes consagrado ao
seu Coraçao termina hoje; quantas almas devotas porao de parte as suas praticas, as
suas costumadas oraçoes e esquecerao a consolaçao que experimentam!... Jesus pede
que nao nos esqueçamos do seu Sagrado Coraçao, e quer que esta manha lho
prometamos.
“Farei um ato de consagraçao ao Coraçao de Jesus”.
EXEMPLO
Le-se no livro — O Sagrado Coraçao de Jesus, — do Pe. Julio Chevalier, editado em 1886: "Miguel
dos Santos, Religioso Trinitario, desde a sua infancia, dera-se tao perfeitamente a Deus, que este
era tudo para ele, e ele era todo de seu muito Amado. Mas, como o amor nunca diz "basta" —
parecia-lhe que ele nao amava bem a seu Deus, e todos os seus desejos eram ama-lo cada vez
mais. Um dia, fazendo oraçao nesta habitual disposiçao de espírito pouco satisfeito da medida do
seu amor a Deus, pediu a Nosso Senhor Jesus Cristo que lhe mudasse o coraçao e lhe desse outro
Mês do Sagrado Coração de Jesus 33

"mais tenro e mais sensível" aos atrativos do amor divino. Esta suplica amorosa foi tao agradavel
a Nosso Senhor, tao favoravelmente acolhida e generosamente despachada, que nem imaginar
poderia o suplicante o sinal de amizade que seu divino Senhor lhe ia dar. Jesus tirou o "coraçao"
do seu querido Miguel, e no lugar desse "coraçao" que tomou e escondeu no peito, pos o seu
proprio Coraçao, deixando esse fiel servo tao feliz, tao rico" pela incomparavel troca, e tao
abrasado de amor, que impossível e descrever. Este favor admiravel, Miguel mesmo o
comunicou a seu confessor, o sabio e virtuoso Fr. Francisco da Madre de Deus, que o atestou sob
juramento; e Deus o fez conhecer ainda por outro modo. Mas dir-se-a: como viver quando o co-
raçao e tirado ou substituído? Impossível. —Responderemos: Na ordem contingente, nada ha de
necessario. Deus poderia bem ter organizado o homem sem lhe fazer um coraçao. Porque lhe
nao poderia manter a vida, depois de lhe ter retirado uma víscera principal? Seria isso
evidentemente uma derrogaçao as leis atuais e ordinarias de nosso organismo, porem essa
derrogaçao nao constitui uma impossibilidade absoluta, ela tem um nome na Igreja catolica:
chama-se um milagre. Deus que tirou do nada sua criatura para lhe dar o ser e a sua primeira
forma, bem pode refaze-la ou modifica-la a seu agrado. Quem ousaria por limites ao seu poder?
Surge, porem, dificuldade mais seria: como explicar que o Coraçao do Salvador possa, sem cessar
de lhe pertencer, tornar-se o coraçao de outro, e ate de muitos a um tempo? Aí o misterio. Uns
explicam-no, dizendo que Jesus Cristo nestas circunstancias da seu Coraçao do mesmo modo que
da seu Corpo na Santa Comunhao, e que entao se faz uma comunicaçao especial, semelhante a
que se faz na Sagrada Eucaristia. Outros interpretam assim: "Jesus Cristo faz a feliz criatura que
ele assim despoja e enriquece, um duplo dom: a sua alma, o de disposiçoes e sentimentos que
refletem as afeiçoes intimas de sua alma divina; e ao corpo, o de um coraçao em harmonia com o
estado anterior, como se seu Coraçao Sagrado se harmonizasse com os impulsos de sua alma". O
Papa Benedito XV adotou essa explicaçao quando proclamou veneravel Miguel dos Santos: “A
troca do Coraçao de Jesus pelo do seu servo fiel, disse ele, foi mística e espiritual”.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 34

CONSAGRAÇÃO AO CORAÇÃO DE JESUS


Sim, Jesus, eu vos prometo recitar, todos os dias, uma oraçao ao vosso Sagrado
Coraçao; prometo-vos venerar as piedosas imagens que o representarem a minha
devoçao; prometo-vos espalhar o conhecimento desta devoçao e propaga -la.
Sede a minha fortaleza, a minha alegria, a minha felicidade!
"Farei um ato de consagraçao ao Coraçao de Jesus".
Ao Coraçao adoravel de Jesus dou e consagro o meu corpo e a minha alma, a mi-
nha vida, os meus pensamentos, palavras, açoes, dores e sofrimentos. Nao me
tornarei a servir de parte alguma do meu ser, que nao seja para o amar, honrar e
glorificar.
Tomo-vos, pois, o divino Coraçao, por objeto do meu amor, protetor da minha
vida, ancora da minha salvaçao, remedio das minhas inconstancias, reparador dos
meus defeitos, e seguro asilo na hora da morte.
O Coraçao cheio de bondade, sede a minha justificaçao para com Deus, e apartai
de mim a sua justa colera.
Ponho em vos toda a minha confiança, porquanto receio tudo de minha fraqueza,
como tudo espero de vossa bondade. Aniquilai em mim tudo o que vos possa
desagradar e resistir; imprimi-vos em meu coraçao, como um selo sagrado, para
que jamais me possa esquecer de vos, e de vos ser separado. Isto vos peço por
vossa infinita bondade: que o meu nome se inscreva em vos, que sois o livro da
vida, e que façais de mim uma vítima consagrada inteiramente a vossa gloria; que
desde este momento seja eu abrasado e um dia inteiramente consumido pelas
chamas do vosso amor; nisto consiste a minha dita, nao tendo outra ambiçao se-
nao a de morrer em vos e por vos.
Assim seja.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 35

DIA 1
O amor ao Sagrado Coraçao, pode dizer-se, nasceu com a Igreja, e quem primeiro o
praticou e ensinou, entre os homens, foi S. Joao Evangelista. Por isso, com razao chamou-
o Sta. Gertrudes "o porteiro do Coraçao de Jesus". Na verdade, para lhe assegurar esse
título, basta o seguinte: na ultima Ceia pascal, era ele quem reclinava a cabeça no seio do
Divino Mestre, e das maos deste veio as suas antes de passar as dos outros, o calice
eucarístico; a ele coube no Golgota receber o legado inefavel que o Salvador fez de sua
divina Mae, que foi como que o do proprio Coraçao; e, na hora em que, morto Jesus, o
soldado Longuinho rasgou-lhe com a lança o Lado Sacratíssimo fazendo correr dela a
agua e o sangue que representavam os mananciais dos sacramentos da Igreja, foi ainda o
discípulo predileto quem o presenciou para atesta-lo. De sua pena inspirada saiu o mais
profundo e sublime dos Evangelhos, esse em que a um tempo se entreve a Jesus em suas
grandezas inescrutaveis do Verbo Eterno e se o acompanha nas mais íntimas e mais
admiraveis manifestaçoes de Deus Humanado: e alem desse Evangelho, que S. Jeronimo
disse proceder da uniao do coraçao do homem com o Coraçao de Deus, e no qual e histo-
riado o amoroso advento do Salvador, traçou tambem S. Joao o livro das visoes de
Patmos que anuncia a vinda final e triunfante do Juiz dos vivos e dos mortos a coroar de
eterna gloria aqueles que o seguiram. Poderia o Mestre Divino distinguir e favorecer
melhor o Apostolo amado? E o influxo de tao preciosas bençaos se fez sentir poderoso. A
perseguiçao dos Cesares ao nome cristao atingiu o santo Apostolo, mergulhando-o numa
caldeira de oleo a ferver; e ele saiu ileso, e como que refrigerado e fortalecido,
confessando intrepido a fe que professava. As chamas de zelo e de bondade que trans-
bordavam do Coraçao do Mestre comunicaram-se ao coraçao do Discípulo, e foram nele
um contínuo e fervoroso cuidar da salvaçao das almas, que ate a crueis chefes de
bandidos, com instruçoes, suplicas e lagrimas, convertia em mansas ovelhas de Jesus; e,
chegando a avançada idade em que para ir ao templo o carregavam nos braços, quando
ja nao tinha forças para proferir discursos, contentava-se de clamar, repetidas vezes, em
ardentes transportes de caridade : "Filhinhos, amai-vos uns aos outros".

DIA 2
S. Francisco de Assis, o cavaleiro elegante que mesmo nos folguedos de sua mocidade
nunca se maculou e teve sempre sua bolsa desatada para o socorro dos pobres, depois
que de todo se converteu, nao foi simplesmente, como ele anunciava aos bandidos que o
assaltaram na estrada, "o arauto do Grande Rei", nem tao somente o amoroso trovador
que convidava toda a natureza a acompanha-lo em seus hinos ao Criador; ele foi uma
copia viva do Coraçao de Jesus. "Num dia de Sao Francisco refere Sta. Margarida Maria
— Nosso Senhor me fez ver este grande Santo revestido de uma luz e esplendor
incompreensíveis, elevado a um grau eminente de gloria acima dos outros Santos, por
causa da conformidade que teve com a vida de sofrimento do Nosso Divino Salvador e o
amor que dedicara a sua santa Paixao, pelo qual se levara a imprimir nele suas santas
chagas: isso o fizera um dos maiores favoritos do Sagrado Coraçao, que lhe deu grande
poder para alcançar a aplicaçao eficaz do seu precioso Sangue, constituindo-o como que
Mês do Sagrado Coração de Jesus 36

um distribuidor desse tesouro para apaziguar a divina justiça... Ele e como que uma
imagem sua, unida a de seu Filho crucificado... Em seu favor, o rigor da justiça abranda e
cede lugar a clemencia da misericordia, particularmente em socorro dos Religiosos que
declinaram da sua regularidade. Depois de me ter feito ver estas coisas, o Divino Esposo
de minha alma deu-mo por condutor, para me guiar nas penas de sofrimentos que me
sobrevieram". Eis porque o Serafico Patriarca e tao glorificado: por seus traços de
semelhança com o Salvador. Fr. Bartolomeu de Pisa escreveu um precioso livro sobre as
"Conformidades da vida do bem-aventurado Francisco com a de Jesus Cristo". Os
escritores asceticos, todos eles as tem assinalado, e muitas delas sao notorias e como
que palpaveis. Jesus nasceu a meia-noite sobre as palhas de um estabulo, e Francisco
tambem veio ao mundo num estabulo onde sua mae, prolongando-se-lhe as dores do
parto, recolheu-se a conselho de misterioso peregrino para dar a luz. Jesus renuncia ao
lar para sair a pregaçao, podendo dizer nesses dias que nao tem onde recline a cabeça:
Francisco abraça, pelo Evangelho, a mais austera pobreza e a vai pregar, descalço, de
grosseira tunica e rude cordao a cinta, esmolando o sustento. Como Jesus, ele cerca-se de
doze discípulos, dos quais um o trai e se enforca. Como Jesus. Francisco passa quarenta
dias num ermo sem se alimentar e ambos pregam de uma barca que de si propria se
afasta da costa e fica imovel. Uma vez, falando sobre sua Paixao, como Pedro soltasse
exclamaçao a conjura-la, o Cristo repreendeu-o severo como a um tentador; tambem
Francisco, um dia, torturado de dores, porque um de seus irmaos estranhasse nao lhe
diminuir Deus o sofrimento, ele atirou-se do leito ao chao para que mais doesse o corpo
e advertiu o companheiro que nao fosse blasfemo. A semelhança entre os dois foi tal, que
ate a incredulos e ímpios, como Renan, impressionou e se fez sentir e notar; porem o que
mais os assemelhou e uniu foi a visao inefavel do Alverne, em que as chagas de Cristo, os
cravos que lhe transpassaram a Carne sacratíssima e o golpe da lança que lhe abriu o
Lado, como que passaram realmente para o corpo do santo Patriarca, e ele se
transfigurou num crucifixo vivo e ambulante, vivendo ja, por assim dizer, e padecendo
em Francisco o proprio Cristo, segundo a frase de S. Paulo.

DIA 3
"Vim trazer fogo a terra, e que hei de querer senao que lavre?" Estas palavras, que se
leem no Evangelho, significam o fim para que o Filho de Deus se encarnou e o desejo que
arde em seu Coraçao de que o fogo do amor divino e do zelo da salvaçao das almas
inflame todo o mundo. Assim tambem as entendeu, tomando-se por luz e norma de sua
vida Santa Teresa de Jesus, a quem, pela beleza e sublimidade de seus escritos, na Igreja
e no seculo se chama "a Doutora da vida mística". Numa revelaçao deste sentir e da sua
futura vocaçao. Teresa de Avila, aos sete anos de idade, acompanhada de um irmao de
onze anos, saiu furtivamente de casa, e a passos apressados caminhou para fora da
cidade; na estrada encontraram um tio que, surpreendido de ve-los sozinhos tao longe
de sua morada, perguntou-lhes aonde iam, e a menina respondeu com toda a candura
que iam para a Africa, a pregar aos mouros o Evangelho.
Reconduzidos chorosos ao lar, pensaram os dois em se fazerem monges e construir uma
ermida no mais retirado canto de seu jardim, para o que foram conduzindo e assentando
pedras, que, por um instante em equilíbrio, logo vinham abaixo, com grande pesar dos
pequenos operarios que desanimaram de acabar a obra. Teresa, porem, nao desistiu do
seu intento de servir a Deus num claustro, e, na flor da mocidade, renunciando as
grandezas e aos prazeres do mundo que sua condiçao e riqueza lhe ofereciam atraentes,
Mês do Sagrado Coração de Jesus 37

professou num convento de Carmelitas. Depois de uma luta dolorosa de longos anos com
as saudades da família e o terror de nao corresponder a vocaçao, Teresa um dia, apos a
Comunhao, teve de Deus o mandato de restabelecer em sua Ordem a primitiva
observancia da Regra, e ja nao houve obsta culos e sacrifícios que a intimidassem no
levar a cabo essa missao; o seu pensamento, a sua ambiçao foi so, desde logo, contentar
plenamente o Coraçao de Jesus, trabalhar e sofrer por sua gloria, ama-lo, mais e mais,
por aqueles que o esquecem, expiar, a cada instante, pelos que o ofendem. As notícias
dos sacrilegios que em países vizinhos cometiam os huguenotes ou da corrupçao de
costumes em que longe viviam povos inteiros do Novo Mundo, a faziam recolher-se em
pranto e entregar-se, por longo tempo, a oraçao, implorando a graça de se converterem
todos eles, oferecendo-se fervorosa para "sofrer ou morrer" pela gloria de Deus e
salvaçao das almas. Nas grandes tribulaçoes que a afligiam, o Salvador veio muitas vezes
anima-la, mostrando-lhe suas chagas ou a caminhar carregando a cruz; tinha tambem,
frequentemente, a visao de um anjo que trazia nas maos um dardo de ouro com ponta de
ferro e na sua extremidade uma chama, e que ele cravava atraves do seu coraçao,
causando-lhe um misto de dor e delícia. Jesus assim a assemelhava consigo, e como que
lhe dilatava o coraçao para mais amar e sofrer; e um dia, para a confortar na luta, lhe
disse : "Espera um pouco, filha, e veras grandes coisas". Viu-se depois o que era: Teresa
fundou 32 mosteiros, que foram uma visível florescencia de virtude e santificaçao que se
estendeu pelo mundo. Ao termo dessa abençoada tarefa, a Santa expirou num doce
extase, e viu-se entao uma pomba que parecia sair-lhe dos labios entreabertos a voar
para o ceu. Conservava-se ainda no mosteiro das Carmelitas da Alba de Tormez o seu
corpo, e em separado o coraçao que mostra a ferida feita pelo anjo, a qual o atravessa
horizontalmente e divide quase por inteiro; esta relíquia exala sempre odor celeste,
como o atesta o Pe. Marcel Bouix, que a tocou em 1849. A Igreja, alem da festa propria a
15 de outubro, instituiu em 1726 a da Transverberaçao do Coraçao de Santa Teresa.

DIA 4
Iniciado por S. Joao Evangelista, o culto ao Sagrado Coraçao so muitos seculos depois
teve a sua propaganda formal por especiais revelaçoes de Nosso Senhor, que declarou
te-lo reservado para o fim dos tempos como um poderoso meio de reacender a fe e
despertar no mundo o fervor religioso. Como na execuçao de suas obras as mais
grandiosas, tambem nesta escolheu Deus para seu instrumento uma fraca e pequena
criatura: a humilde Religiosa Margarida Maria. Era nela tanta a inclinaçao e gosto pelas
coisas do ceu que, desde menina, para a demover de qualquer proposito, bastava dizer-
lhe que isso ofenderia a Deus; e Deus, por sua vez, recompensava a sua dedicaçao
precoce, favorecendo-a ja com visoes maravilhosas em que se lhe mostrou a carregar a
cruz, para lhe dar a coragem de sofrer as contrariedades e provaçoes do lar infortunado.
Houve em sua mocidade momentos em que os prazeres do mundo a atraíram e tentou-a
o pensamento de nao os deixar; porem nao tardava a reaçao, e Margarida como que em
desagravo ocupava-se em instruir a multidoes de meninos pobres, visitar as famílias
necessitadas e tratar dos enfermos, chegando a beijar chagas, para vencer a natural
repugnancia que sentia ao olha-las, ato de heroísmo com que mereceu que ao seu
contato elas subitamente sarassem. Um dia, finalmente, cerrando os ouvidos as suplicas
de sua mae, a jovem decidiu abraçar a vida religiosa, e bateu as portas do convento de
Paray: ia ataviada como para a mais brilhante festa do mundo, e nao vestia assim por
vaidade, mas pelo contentamento de se ir dedicar ao seu soberano Bem; provava-o,
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dizendo, na hora de entrar, a seu irmao que a acompanhara: "Esteja certo de que nao
sairei mais daqui". No claustro, a sua piedade e fervor causaram admiraçao desde os
primeiros dias, e foram sempre crescendo. Quando se achava so trabalhando, lendo ou
escrevendo, fazia-o de joelhos como tomada de respeito diante de um ser invisível.
Assim a surpreendiam as companheiras, comprazendo-se em contempla-la absorta na
oraçao, em que passava longas horas, noites inteiras, como arrebatada em extase, em
sua cela e no coro, ao ponto de que o povo que frequentava o santuario, o percebeu e
vinha observar pelas grades a "Santa" que se elevava aos ceus quando orava. Com o
proprio sangue escreveu um dia esta consagraçao total de si a Nosso Senhor: "Tudo em
Deus, nada em mim ! Tudo para Deus, e nada para mim! Tudo por Deus, e nada por
mim!" No meio destas tao vivas provas de fidelidade de sua serva, surpreendeu-a o
Senhor com as inefaveis revelaçoes sobre o culto ao Sagrado Coraçao: a primeira vez,
mostrando-lhe a imagem que deveria representa-lo a amar sempre e infinitamente aos
homens, apesar de esquecido e ultrajado por eles; a segunda, imprimindo ao culto a
forma de expiaçao pelos pecadores, com as Comunhoes das primeiras sextas- feiras do
mes e a hora de adoraçao noturna; a terceira, recomendando a instituiçao de uma festa
universal na Igreja em honra do Sagrado Coraçao, na sexta-feira imediata a oitava do
Corpo de Deus. Confessando humildemente a Santa quanto era insuficiente para tao
grande tarefa, Jesus lhes respondeu que supria ao que lhe faltasse, e comunicou-lhe uma
das chamas que abrasavam o seu Coraçao divino. Sucederam-se entao graças
extraordinarias, verdadeiramente prodigiosas, que nao deixaram duvida sobre a origem
divina de tais revelaçoes; vieram logo auxiliar a fervorosa Visitandina santos sacerdotes,
como os Padres Colombiere e Croiset, de quem ela predisse que escreveria um livro
sobre a insigne devoçao, como em breve sucedeu. A primeira imagem do Sagrado Co-
raçao, qual se lhe revelara, Margarida Maria gravou-a sobre seu peito, abrindo-a na
carne a golpes de canivete; a segunda ela esboçou a traços de tinta, e colocou-a no altar
do noviciado de Paray, onde recebeu a veneraçao da comunidade na sexta-feira apos a
oitava de Corpus-Christi em 1685. Pela propagaçao desse culto, que tinha por fim, com a
gloria de Deus, a conversao dos pecadores, a Santa pediu ao Senhor a graça de sofrer a
tal ponto que se tornasse uma viva imagem do Sagrado Coraçao, cingido da coroa de
espinhos e tendo sobre si a cruz. Estas foram as armas com que pelejou e venceu, e o seu
triunfo aí esta patente e marcado com o selo das grandes obras divinas, em dois fatos: a
romaria incessante que de todo o mundo aflui ao pequeno santuario em que viveu a
humilde Religiosa, e o incremento que tem hoje, em toda a Igreja, o culto de que ela foi a
mensageira.

DIA 5
Meu Divino Salvador, por vossa onipotencia e infinita misericordia, fazei que eu me
mude e transforme todo em vos. Que as minhas maos sejam as maos de Jesus, e minha
língua seja a língua de Jesus; que todos os meus sentidos e meu corpo sirvam so para vos
glorificar; sobretudo transformai minha alma e todas as suas faculdades: que minha
memoria, minha inteligencia, meu coraçao sejam a memoria, a inteligencia e o Coraçao
de Jesus". Costumava dirigir a Nosso Senhor esta oraçao o Bem-aventurado Joao Gabriel
Perboyre. Piedoso desde a infancia, ja se fazia entao notar pela bondade e zelo com que
afastava do mal e exortava ao bem, quer a seus irmaozinhos no lar, quer aos pequenos
companheiros com quem trabalhava no campo. A modestia de seu proceder em
qualquer parte e seu recolhimento fervoroso na igreja, mormente quando comungava,
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mereceram-lhe do povo o nome de santinho". Crescendo nestes sentimentos, foi co-


locado num estabelecimento eclesiastico: aí, ouvindo uma predica fervorosa sobre o
apostolado, dissera no fim aos colegas: "Eu quero ser missionario;" e, no concurso para a
distribuiçao publica de premios, apresentou uma bela composiçao sobre este tema: "A
cruz e o mais belo dos monumentos". Em progressiva marcha de santificaçao, professou
no instituto dos Padres da Missao e recebeu o sacerdocio; e como o exerceu, atestam-no
bem muitos fatos. Uma vez o seu ajudante de Missa viu-o, no momento da consagraçao,
suspenso do solo e em extase. Feito diretor de um colegio em Saint-Flour, tinha
inspiraçoes que resolviam prestes graves dificuldades: um dia, ele chama a seu gabinete
um aluno reincidente em seria falta e, depois de empregar sem exito, a brandura e a
severidade, lhe diz de repente, mostrando-lhe o Crucifixo, e vivamente sentido: "Meu
amigo, que tristes momentos me fazeis passar aos pes de Jesus na Cruz!" e o culpado se
comove com este dito, pede perdao e se corrige. Outras vezes, cai de joelhos ante o
Crucifixo, e lhe oferece reparaçao em nome do delinquente; e este, conhecendo a
sinceridade e a grandeza daquela dor, rompe a chorar e sai arrependido e transformado.
— O padre Girard, da Congregaçao, escreveu o seguinte: "Eu desejava muito conhecer
um Santo antes de morrer. Vi o padre Perboyre em 1934, estudei-o; tudo nele me
impressionou. Agora conheço um Santo, sei o que e um Santo vivo". — Insistindo muitas
vezes na sua suplica para ir trabalhar na China, o padre Perboyre afinal e atendido, e se
estabelece na missao de Hou-pe. Nessa montanha existia no seculo XVIII uma "republica
dedicada ao Sagrado Coraçao", que e assim descrita em documentos autenticos: "Cada
família tinha a imagem dos Sagrados Coraçoes de Jesus e de Maria em seu lar. A tarde, ao
fim dos trabalhos do dia, acendiam círios, queimavam incenso e entoavam canticos ante
as imagens. A sexta-feira era consagrada ao Coraçao de Jesus, e o sabado ao Coraçao de
Maria. Na capela, tocava a alguns, antes do Sacrifício, lembrar ao povo a grandeza do
misterio a celebrar-se; a elevaçao da hostia e do calice, avisavam para se prostrarem e
adorarem as chagas de Jesus e seu Coraçao presente no altar; e recitavam os atos
preparatorios para a Comunhao e açao de graças. Outros deviam instruir os jovens e
novos cristaos, a quem faziam cantar as liçoes de catecismo na hora do trabalho para
nao as esquecerem, e visitavam os infieis moradores nos arredores, semeando entre eles
os germens da fe. Eles todos se ofereciam a Deus em expiaçao pela sua patria
paganizada, e velaram em que a sua comunidade nao se afastasse uma linha da santa lei
em que vivia. Nesse regime viveram e prosperaram longo tempo "dez mil famílias". O
padre Perboyre restabeleceu no Hou-pe a colonia do Sagrado Coraçao em todo o seu
edificante fervor. Mas, passados nessa abençoada paz cinco anos, um dia rebentou de
fora a perseguiçao aos cristaos, e a casa em que se achava o padre Perboyre foi cercada.
Seus dedicados companheiros quiseram repelir a força os assaltantes, mas ele o obstou,
imitando o Salvador no Jardim das Oliveiras quando mandou que Pedro guardasse a es-
pada. Os esbirros de um mandarim odiento levaram-no para uma aldeia distante, e apos
um ano de crueis torturas a que resistiu impavido, confessando a fe, o puseram numa
cruz e aí foi estrangulado. Como a Jesus um discípulo traidor, ao padre Perboyre um
neofito por trinta moedas denuncia o lugar em que o encontrariam, e e supliciado
tambem entre facinorosos, numa sexta-feira as 3 horas. No dia imediato ao de seu
enterro aparecia sobre esta, fazendo-se ver ao redor e ate longe, uma grande cruz
luminosa.

DIA 6
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Leao Rarpey d’Aurevilly, irmao do ilustre escritor frances de igual nome, na flor de sua
mocidade conquistara ja um nome brilhante no foro e nas letras, e dera a estampa
volumes de versos que tiveram os aplausos de Mistral e outras sumidades da poesia;
mas todas essas glorias nao o puderam prender no mundo e um dia sentiu fortes
impulsos de o deixar e ir servir a Deus. Para bem se esclarecer nesse passo e vencer todo
o respeito humano que o tentasse, empreendeu uma peregrinaçao de cabeça descoberta
e pes descalços, de Caen ao santuario de Nossa Senhora do Livramento, distante 20
quilometros. Aí, apos um retiro espiritual, decidiu-se a abraçar o sacerdocio. Foi dele que
o Pe. Dubois, autor do livro "Pratica do zelo eclesiastico", escreveu em seu "Guia do
seminarista piedoso": "Conhecemos um jovem que entrou para o Seminario sem se
deixar prender pela consideraçao do brilhante futuro que o mundo lhe prometia.
Quando pos o pe em seu humilde cubículo, tao diferente de sua alcova do seculo, abriu a
janela, olhou o ceu e, ajoelhando-se, exclamou: "Como sou feliz, Senhor! Sede bendito!
Dois meses depois, seu irmao academico visitava-o, e escrevia em seu "jornal": "Cheguei
hoje a Coutances para ver meu irmao... Achei-o de boa saude e feliz, feliz acima de toda a
expressao, "renovado" em todos os pontos. — Durara isto? As duvidas ou receios de
Julio de Aurevilly nunca se confirmaram; seu irmao foi um seminarista exemplar e
depois um sacerdote zeloso. "Amar a Deus e orar, para amar cada vez mais": era a sua
divisa. Ele amava ardentemente as almas, porque as via no Coraçao do Divino Mestre e
partilhava os sentimentos do Salvador segundo a recomendaçao do Apostolo: "Senti em
vos aquilo que sente Jesus Cristo". "Nosso Senhor, dizia ele, e o amante, o Salvador, o
santificador das almas. Qual foi seu pensamento unico, a razao de sua encarnaçao e de
seus misterios, senao a glorificaçao de seu Pai pela salvaçao das almas? Ora, todo o
sacerdote e um coadjutor de Cristo; deve, portanto, ser um salvador das almas. Deve
participar desse duplo amor do Sagrado Coraçao: o amor do Santo dos Santos pelas
almas santas e por tudo o que conduz a santidade; — o amor de Deus Salvador pelos
pecadores, e por todas as obras de zelo proprias para ganhar suas almas e introduzi-las
nos caminhos da salvaçao". Deu-se com ardor a pregaçao, a princípio como auxiliar do
Pe. Dubois, que o chamava "seu filho mais velho, seu bravo Timoteo", e depois com o Pe.
Le Goupils, conseguindo inumeras e admiraveis conversoes. Pela fama de sua eloquencia
apostolica o Arcebispo de Paris convidou-o para fazer as conferencias de "Notre Dame",
porem Leao d'Aurevilly escusou-se, preferindo continuar como o orador popular das
Missoes, onde certamente converteria maior numero de almas do que entre a cetica
sociedade parisiense. Desvanecidas todas as duvidas que um dia tivera, dizia dele seu
irmao em 1847: "Senti uma dessas emoçoes que fazem crer na imortalidade de nossa
alma. Ha nove anos nao o via, nao o vira desde que e padre. Achei-o mudado, oh! sim,
mas tambem transfigurado. E a propria perfeiçao dos caminhos espirituais. Ouvi-o
pregar sobre a "felicidade de quem se confessa..." Nem um sopro de preocupaçoes
literarias, mas solidez, ternura, autoridade, e aqui e acola movimentos de uma fe tao sin-
cera, que sao de uma prodigiosa eloquencia, eis de que fui testemunha. Ele e o
"sacerdote" em tudo quanto de sao exprime essa forte palavra". Aos 8 anos de idade,
quis fazer de si a Deus uma oblaçao mais completa, e entrou para a Congregaçao dos
Sagrados Coraçoes, fundada pelo Pe. Eudes, observando nela, com a docilidade do mais
perfeito noviço, as exigencias da Regra austera. Apesar de ja enfraquecido pelos
trabalhos de um longo ministerio, ainda continuou a pregar cada ano uma estaçao
quaresmal, quatro a cinco missoes de algumas semanas, e dezenas de retiros paroquiais
ou de comunidades religiosas. No que mais se comprazia, porem, era nos retiros de
primeira Comunhao: "Nosso Senhor, exclamava ele, nao tinha tanta satisfaçao em
prodigalizar a sua graça e a sua verdade aos pequenos israelitas dos campos?" No
pulpito ou no confessionario, o seu conselho e exortaçao constantes eram estes:
"Unamo-nos todos numa fervorosa comunhao de oraçoes numa sociedade inflamada de
Comunhoes cheias de fe, para reparar os crimes dos pecadores que se endurecem no
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mal, quando deveria todo o mundo prostrar-se de joelhos, clamando: "Parce Domine,
parce populo tuo". Nesse labutar, o abateu um ataque de paralisia, ao melhorar do qual
ofereceu pela Igreja, pela patria e pela salvaçao das almas o sacrifício de sua vida
intelectual, moral e física; um segundo ataque sobreveio mais tarde, e o extinguiu
lentamente como um círio que ardesse ate o fim no altar do Senhor.

DIA 7
E conhecido e abençoado em todo o mundo o nome de Fr. Damiao Veuster, o apostolo
dos leprosos em Molokai. Um ministro protestante, o Sr. Chapman, enviando-lhe para
suas obras de beneficencias um donativo de 25 mil libras esterlinas, dizia reconhecer
nele o imitador verdadeiro do Bom Pastor que da a vida pelo rebanho. Ao saber a sua
morte, o herdeiro da coroa da Inglaterra abria com avultada quantia uma subscriçao
para se lhe erigir um monumento e formava um "comite" para a fundaçao de um hospital
de leproso em Londres com seu nome.
Quem ignora o que e a lepra? Pode dizer-se que e a agonia com suas angustias, a morte
por antecipaçao, e a fazer cair, uma a uma, as pedras do mísero pardieiro do nosso
corpo; a morte com seu aspecto mais repulsivo, com as legioes de vermes que se
adiantam ao sepulcro, e se encarniçam avidos sobre membros a que ainda anima um
sopro da vida. O Pe. Damiao, Religioso da Congregaçao dos Sagrados Coraçoes de Jesus e
de Maria, ouvindo o Vigario Apostolico de Havaí lastimar que nao houvesse um
sacerdote no leprosario de Molokai, ofereceu-se e partiu. Contava ele entao 33 anos; aí
ficou ate os 49, idade em que morreu. Relatando suas primeiras impressoes, Pe. Damiao
escreveu: “Custei muito a habituar-me a essa atmosfera, e um dia, a Missa, me senti tao
sufocado que estive quase a sair para respirar fora; reteve-me a lembrança de Nosso
Senhor, mandando abrir em sua presença o sepulcro de Lazaro. Agora entro sem
dificuldade nos aposentos dos pobres leprosos”. A força para desempenhar o seu penoso
ministerio, ele a pediu e teve sempre do amantíssimo Coraçao de Jesus. Os que visitavam
alguma vez Molokai, voltavam edificados: fazia-se a adoraçao perpetua na capela e os
cristaos la se achavam, todos os dias, uns apos outros, a fazer a via-sacra, a dirigir
invocaçoes ao Sagrado Coraçao, a recitar o terço, a pedir o conforto e a se oferecerem
como vítimas para reparar os ultrajes que Deus recebe de filhos ingratos aos quais
foram prodigalizados os benefícios da civilizaçao. O Pe. Damiao convertia os
protestantes e os pagaos, reconciliava os inimigos, trazia a paz aos revoltados, identifi-
cando-se tanto com os seus 800 filhos adotivos, que nas instruçoes e no trato usava
sempre desta frase — "nos leprosos". — Por seus esforços, o lugar veio a ter cabanas
alvas e asseadas, um orfanato, escolas, duas capelas, e um hospital para os mais desam-
parados; e seu exemplo atraiu mais tarde companheiros, e Religiosos que se consa-
graram a auxilia-lo. Certo dia, um dos leprosos, que era medico, lhe disse: "Padre, ja
estais afetado;" e ele respondeu: "Nao me assusta o que dizeis; ja o esperava". E depois
dizia a outros: "Estou contente, agora sou como vos leprosos; nao quereria a saude, se a
troco dela tivesse de deixar a ilha e abandonar a tarefa que o Senhor me confiou".
Resistiu ao mal durante cinco anos, firme em seu posto, e quando soou a hora da morte,
rompeu nesta exclamaçao: "Como Deus foi bom em conservar-me a vida ate que eu
tivesse dois Padres para me assistirem nos ultimos momentos, e a alegria de saber que
as boas Irmas aí estao para socorrer os leprosos!" E expirou, louvando e agradecendo ao
Senhor de o deixar morrer como Religioso dos Sagrados Coraçoes.
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DIA 8
Nao houve em certa epoca em Paris nome mais abençoado e popular do que o de "Irma
Rosalia", a princípio simples professora e um pouco mais tarde superiora numa casa de
Irmas de Caridade situada num quarteirao da cidade em que a ignorancia, a miseria e os
vícios mais dominavam. Fazendo desde o primeiro dia o reconhecimento doloroso do
campo em que deveria agir, Irma Rosalia deu combate por mais de 50 anos, sem parar
nem retroceder um instante, nunca desanimada nem vencida, repousando de um
trabalho com outro e so abandonando o seu posto e suas armas no dia em que Deus,
satisfeito de seus combates, lhe deu o descanso eterno. Realizando no meio de Paris as
maravilhas das missoes nas terras de infieis, muitas vezes nas pobríssimas casas dessas
ruas tortuosas e infectas ela conseguia encaminhar os pais ao batismo, a Comunhao, ao
casamento, e ainda ensinava o catecismo aos pequenos e preparava para a morte um
velho tio ou avo. Os pobres e os infelizes se tornaram como que o seu sangue, a sua
família, e entraram a considera-la sua mae, levando-lhe, com toda a confiança, suas
queixas, suplicas e segredos. Se uma oficina lhes recusava trabalho ou um padeiro o pao,
se um proprietario os despedia ou penhorava os poucos moveis, se um comissario os
multava, se um filho desobedecia, era a Irma Rosalia que procuravam para que desse
remedio; e ela se punha em movimento, e remediava de qualquer modo. Os seus
humildes clientes estavam certos de que lhe nao bateriam a porta em vao; e ela, por sua
vez, queria que eles a qualquer hora fossem recebidos. Um dia, estando com um forte
acesso de febre, a Irma porteira nao deu entrada a um homem que lhe vinha falar, e este
encolerizou-se, e gritou. Irma Rosalia, ouvindo o rumor, acudiu e informou-se,
bondosamente, do que ele queria, para o satisfazer; quando retirou-se, repreendeu a
porteira, e, como esta replicasse que o medico recomendara deixassem-na em completo
sossego, retorquiu: "Deixemos o medico fazer o seu oficio e façamos nos o nosso". Os
jovens que precisavam de auxílio para os estudos ou queriam um emprego, valiam-se de
sua intervençao e eram bem sucedidos; quando colocados, e em condiçoes prosperas, ela
os invoca em favor de seus irmaos necessitados, e, pedindo a cada um aquilo que ele
fazia melhor e lhe custava menos, tinha para a sua caridade colaboradores inumeros e
preciosos. Ganhou assim entre todo o povo um prestígio sem igual, e que se manifestou
em varios fatos. Quando, em 1832, o colera invadiu Paris, e as multidoes desvairadas
investiam contra os medicos, acusando-os de importadores do flagelo, o dr. Royer-
Collard foi atacado, mas a furia da turba desarmou-se logo que ele gritou: "Eu sou um
amigo da Irma Rosalia". Nas revoluçoes a santa Irma pode abrigar em sua casa a
sacerdotes e bispos, e teve força para fazer desmanchar barricadas e restabelecer a
ordem; em junho de 1848, salvou a vida a um oficial da guarda movel ajoelhando-se ante
os insurgentes enfurecidos e dizendo-lhes: "Ha 50 anos que vos consagrei minha vida;
por todo o bem que vos tenho feito, e a vossas mulheres e filhos, peço-vos a vida deste
homem". A estima em que a tinham manifestava-se por mil outros modos. Um dia, um
velho trapeiro que levava ma vida, manda-a chamar para lhe entregar alguns mil francos
que juntara para a filha a qual aprendia na escola das Irmas: "Isto e com o tabeliao,
responde ela, eu mandarei aqui um". — "Nao quero, so confio em vos". — E ela teve de
receber o dinheiro, conseguindo entao dele que se confessasse. As virtudes com que
Irma Rosalia pode exercer tanto prestígio, dizem seus biografos, ela as aprendeu do
Sagrado Coraçao e deste as alcançou pela oraçao. Em menina, vira serem asilados em sua
casa sacerdotes perseguidos pela revoluçao, lembrava-se de que num subterraneo e que
seu cura lhe. ensinara o catecismo e lhe dera a primeira Comunhao. Desde esse tempo,
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considerando quanto e o homem ingrato com seu Criador e como, a despeito de tao
ofendido, o Coraçao de Jesus se dilata para nos atrair a seu amor, Irma Rosalia votou-se a
todos os trabalhos e sacrifícios pela conversao dos pecadores.

DIA 9
Julieta de Cobert, de uma nobre família da Vendea, da qual nos dias da revoluçao
francesa muitos membros subiram valorosamente ao cadafalso para nao traírem sua fe e
seu rei, foi um perfeito modelo de virtudes cristas. Esposando, aos 22 anos, o marques
de Barol, entre as suas visitas e recepçoes de dever incluiu logo as dos pobres, indo
procura-los com a esmola nos mais miseraveis tugurios e ensinando-lhes o caminho de
seu palacio, para que se valessem dela nos vexames imprevistos. Um dia, ao atravessar a
praça do Senado em Turim, quando passava o Sagrado Viatico, desceu do carro e
ajoelhou-se, ouvindo entao um grito estridente: "Nao e de Viatico que preciso, e de
sopa". Olhou para o lado donde saía a voz, e viu as janelas gradeadas da Cadeia. Acom-
panhada do criado, la foi para dar algumas moedas ao preso que parecia sofrer fome, a
fim de que ele nao mais blasfemasse. O mísero, porem, era um ímpio, que ja estava a rir e
cantar com os companheiros; ao verem aquela dama jovem, de porte calmo e grave,
calaram-se e receberam com respeito o que lhes deu. Quis ver tambem o carcere das
mulheres, e mais triste foi aí sua impressao. Havendo na cidade uma Confraria de
Misericordia, que tinha como um dos seus fins socorrer os presos, Julieta se inscreveu
nela e, nao contente de levar-lhes víveres, empreendeu regenera-los, particularmente as
mulheres, entre as quais se demorava, instruindo-as e exortando-as, participando as
vezes de sua grosseira refeiçao para lhes ganhar mais a confiança, de modo tal que ope-
rou uma admiravel transformaçao no carcere e conseguiu dos poderes publicos, alem do
apoio a sua empresa, a remoçao da penitenciaria para casa mais salubre e apropriada.
Com o intuito de assegurar e ampliar o efeito deste seu trabalho regenerador, fundou
tambem uma casa de refugio e um convento de Madalenas, para as infelizes que
voltavam a vida religiosa. "Que consolaçao, dizia ela, ver essas pobres purificarem-se do
lodo e correrem como anjos que voltam para o ceu!" Um dia, leu Julieta nos jornais que
um pai desesperado pelos gemidos da filha, doente havia muito tempo, a suspendera do
leito e lançara pela janela; foi o bastante para decidir-se a fundar um hospício para as
crianças deformes e doentes, e depois um asilo para os meninos desvalidos, que instalou
nas salas do seu proprio palacio. Em 1825, o colera penetrou em Turim, e ainda ante
essa pavorosa calamidade Julieta mostrou o heroísmo cristao. "O marido, narra o grande
escritor catolico Sílvio Pellico, veio uma vez ao posto de inspeçao em que eu estava, e me
disse consternado, que ela se expunha ao contagio, socorrendo, por suas maos, os
infelizes atacados. Logo que pude, saí a procura-la, e a encontrei serena e incansavel em
sua tarefa, levando de casa em casa o conforto de sua palavra ou de medicina e sustento
para combater o mal". Debelado o flagelo, o governo conferia uma medalha de ouro a
marquesa de Barol pelos serviços prestados. O seu premio, porem, ela queria de mais
alto, e mais alto se inspirava para fazer o bem: esta sua ardente caridade ela a aprendia e
alimentava no Coraçao de Jesus, a quem dizia: "Eu nao sou mais do que uma fraca
criatura, mas parece-me que vos amo com todas as minhas forças, e quero tambem que
os outros vos conheçam e vos amem. Eu espero e posso tudo naquele que me fortalece".
Como o Coraçao do Divino Mestre, o da fiel serva se inclinava mais de pronto para os
fracos, os padecentes e os desvalidos, porem, com isso nao esqueceu o bem espiritual
das classes elevadas, e lhes assegurou um esforço de sabias educadoras, fazendo virem
Mês do Sagrado Coração de Jesus 44

da França as Damas do Sagrado Coraçao, a quem ofereceu, para se estabelecerem, a sua


esplendida quinta do Casino, perto da cidade. Quando a revoluçao no Piemonte
perseguiu instituiçoes catolicas e baniu as Ordens religiosas a marquesa de Barol, por
ter dado abrigo durante 24 horas ao Pe. Pellico, irmao do poeta, foi acusada de ter em
sua casa um batalhao de jesuítas que se exercitavam nas armas, e denunciaram-na de
roubar as crianças a família e prende-las em seus asilos. Os revolucionarios apinhavam-
se a porta do palacio e ameaçavam por-lhe fogo; os amigos da marquesa aconselhavam-
na a fugir. "Aconteça o que acontecer, lhes respondia ela, nao sairei de Turim; nao posso
levar comigo meus 500 filhos, e devo ficar para lhes servir de mae ate o fim. Cortar-me-
ao a cabeça, direis vos: e um caminho como qualquer outro para ir ao ceu; Deus, que deu
a minha avo a coragem de morrer no patíbulo, nao ma recusara. Fico em meu posto". E
impavida continuou a fazer o bem, sem diminuir em nada a sua tarefa. Quando a velhice
e enfermidade a prostraram, nem assim deixou de por si mesma inspirar e dirigir todas
as suas obras, e dizia: "Paciencia, e coisa bem indiferente o fazer a vontade de Deus
horizontalmente no leito ou perpendicularmente de pe". Acabou a vida, reclinando-se
placidamente no Coraçao de Jesus com o santo pensamento de que fora a ele que visitara
na pessoa dos presos, socorrera nos enfermos e amparara nos pobres.

DIA 10
Eu nao posso ver um menino, dizia, ainda jovem, o Veneravel Champagnat, que nao me
venha logo a vontade de lhe dar uma liçao de catecismo e de lhe fazer conhecer quanto
Jesus Cristo o amou e quanto deve amar o Divino Salvador. E realmente, passava
algumas vezes horas inteiras a ensinar a religiao a pastorinhos que encontrava nos
campos ou a meninos que lhe apareciam nas casas em que ia acudir a enfermos; e
trabalhou por atrair auxiliares nessa tarefa, vindo a fundar para esse fim a Congregaçao
dos Irmaos Maristas. A estreia do primeiro punhado de Irmaos foi muito feliz: havia nos
mestres dedicaçao, bondade, zelo e saber, e entre os alunos gosto pelo estudo, emulaçao
e disciplina, fazendo gosto ver a ordem e respeito que guardavam na escola ou nas ruas,
quando em silencio as atravessavam. A obra progrediu tanto que, estabelecida a
princípio na modesta casa do Padre em Lavalle, foi mister construir para sua habitaçao o
vasto edifício de Hermitage. "Nao compreendo, dizia a Champagnat um amigo, o que
pretendeis vos enchendo vossa casa de meninos indigentes e recebendo tantos pos-
tulantes que nada vos dao: se nao tiverdes um credito sem limites sobre o tesouro do
Estado, haveis de abrir falencia". — "Eu tenho mais do que isso, respondeu o Padre sor-
rindo, tenho o tesouro da Providencia que fornece ao mundo inteiro sem nunca se es-
gotar". O Padre Champagnat era fervorosíssimo devoto do Sagrado Coraçao, ao qual
pedia todas as graças de que precisava; quando encontrava uma alma dominada por
maus habitos, exortava-a a que recitasse as ladainhas do Sagrado Coraçao, acrescentan-
do depois de cada invocaçao: "Eu me consagro a vos". A seus Religiosos dizia: “Quanto
mais se pede ao Senhor, mais se obtem”.
Pedir muito aos homens, e o meio de nada alcançar; mas com Deus, e precisamente o
contrario. Davi, que conhecia o Coraçao de Deus, lhe dizia: “Vos perdoareis meu pecado,
porque e muito grande e patenteara vossa grande bondade”. Assim, o que de ordinario
desanima os homens, as grandes faltas ou grandes necessidades, eram para o santo o
principal motivo de sua confiança. E que ele tinha de Deus uma alta ideia. Para concluir,
digo: “Se quisermos agradar a Deus, peçamos muito, peçamos grandes coisas; quanto
mais longo o requerimento, melhor ele o recebera”.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 45

Desde moço, compusera a seguinte oraçao, que recitou ate o ultimo dia de vida: "Divino
Coraçao de Jesus, que por vossa profunda humildade combatestes e vencestes o orgulho
humano, e principalmente a vos que dirijo as minhas oraçoes; dai-me, eu vos rogo, a
humildade; destruí em mim o edifício do orgulho, nao porque seja ele insuportavel aos
homens, mas porque vos desagrada e ofende a vossa santidade. — Santa Virgem, minha
boa Mae, pedi ao adoravel Coraçao de Jesus a graça de que eu me conheça, me combata e
me vença, e destrua o meu amor proprio e o meu orgulho; tomo aos vossos pes a
resoluçao de lhe fazer uma guerra sem tregua". Dizia dele o povo de
Lavalle, que nao era tao bom e tanto sabia arranjar bem as coisas, que se nao podia
deixar de fazer o que ele aconselhava e queria. Em 1840, no sexto dia do mes consagrado
ao Coraçao de Jesus, morria em odor de santidade o Padre Champagnat, deixando ja
florescente o Instituto dos Maristas, com cerca de 400 membros e a frente de 48 escolas
na França. Hoje ele se acha propagado em varios países da Europa, Africa, Oceania, e
America; varios Estados do Brasil o acolheram com grande proveito, e o governo frances
que expulsara as Congregaçoes religiosas, reconhecendo as vantagens de seu serviços
nas colonias, autorizou-o a abrir no país o noviciado.

DIA 11
E uma Santa: dizia, aos 11 de Abril de 1903, o povo Camigliano de Toscana, junto ao leito
mortuario de sua conterranea Gema Galgani, cuja curta existencia fora um assombro de
virtude e uma comunicaçao quase contínua com o ceu. Esta voz do povo, começaram
logo a confirma-la as graças extraordinarias que pela invocaçao do nome da jovem
finada se foram alcançando, como entre outras, as curas instantaneas de Filomena Bini
de Pisa, Maria Mencucci e Mariana Angelini, romanas, e Isolina Serafim, de Lucca; a
preservaçao de um naufragio iminente nas aguas do Mediterraneo a dois Padres
Passionistas do Mexico; um consideravel socorro prestado em crise aflitiva a um
convento de freiras camaldulenses em Roma; a rapida conversao de um incredulo e
blasfemo, enfermo num hospital de Lucca; e em Roma as de uma mae e dois filhos que
desprezavam a religiao. Um livro, de cerca de 400 paginas, estampado com a licença
pontifícia, da lavra de um ilustre e zeloso sacerdote que foi o guia espiritual de Gema
Galgani, relata a seu respeito coisas maravilhosas; e seu autor nao hesita em compara-la
a Teresa, Maria Madalena e Veronica Juliani, declarando que, como o Evangelista, narra o
que viu, ouviu e tocou. Desde pequenina, Gema experimentava ja as primeiras
irradiaçoes dessas luzes e merces sobrenaturais que a inundariam em sua mocidade; sua
mae, chamando-a junto de si, ensinava-lhe pequenas oraçoes, e, mostrando-lhe o
Crucifixo, dizia: "Olha, este Jesus morreu na cruz por nos;" e lhe explicava com singeleza
o misterio do amor de Deus, e como pode e deve o cristao corresponder-lhe. Propensa as
distraçoes como e por natureza, a criança de ordinario nao se prende por muito tempo a
oraçao e ao ensino; Gema, porem, sentia prazer em ouvir essas instruçoes e, de vez em
quando, agarrando-se as vestes de sua mae, pedia "que lhe falasse mais um pouco de
Jesus"; e, quando a boa senhora, prestes a morrer, lhe perguntou: — "Gema, se eu te
pudesse levar para onde Deus me chama, quererias ir?" — "Aonde?" — "Ao paraíso com
Jesus e com os anjos" — a menina concordou muito contente, e ja nao queria sair um
instante do quarto, empenhada em que sua cara mae a levasse. Ansiosa de fazer sua
primeira Comunhao, o conseguiu aos nove anos de idade, na festa do Sagrado Coraçao
em 1887, e, referindo-se a esse ato, escrevia: "Nao sei exprimir o que se passou entre
mim e Jesus nesse momento. Jesus se fez sentir muito a minha alma. Compreendi entao
Mês do Sagrado Coração de Jesus 46

quando as delícias do ceu venceram as da terra; e senti-me presa do desejo de tornar


contínua essa uniao com Deus". E cada ano festejava de um modo particular esse dia,
com edificantes manifestaçoes de fervor que em suas cartas traduzia assim: "Passei um
dia de paraíso; falei e chorei de amor com Jesus. — Disse-lhe: "O vosso Coraçao e o meu;
aquilo que vos agrada, e o que me pode fazer feliz. — Jesus, eu quero fazer das minhas
mas inclinaçoes um feixe, a fim de as consumirdes todas por uma vez com o fogo do
vosso amor". Dava aos pobres o dinheiro, a comida e ate a roupa que tinha para seu uso,
sendo preciso, as vezes, nao a deixar em suas maos." Se vos nao tornardes simples como
estes meninos, diz Jesus Cristo no Evangelho, nao tereis parte no reino dos ceus". Esse
era o traço que caracterizava toda a vida crista de Gema. Taxada de soberba, porque se
esquivava a contar sem necessidade o que de extraordinario lhe sucedia, explicava:
"Soberba, nao. Eu me calo, porque nao sei que dizer, e temo nao me fazer entender bem".
Procurada para se interessar junto de Deus por diversas necessidades e afliçoes de
outros, resumia tudo assim: "Ja pedi por aquele infeliz; agradeci o bom exito do negocio;
agora nao tratemos mais disso". Incumbida de mensagens de Nosso Senhor, as
comunicava sem rodeios: "Jesus quer que a Sra. ampare esta obra santa; — Jesus manda
dizer isto ao Sr. Padre; se eu esqueci alguma coisa. Ele mesmo lho dira". Quando se viu
com os sinais dos estigmas, surpreendeu-se, pensou mesmo que o tivessem todas as
pessoas que por votos se consagravam ao Senhor, e foi mostra-los a sua tia, dizendo:
"Olhe, tia, o que me fez Jesus". Entretanto Gema tinha uma bela e clara inteligencia;
ganhara nos estudos os primeiros premios e medalhas de ouro; a prelados, sacerdotes, e
pessoas doutas que a interrogaram sobre pontos de fe e assuntos místicos respondeu
com um conhecimento e criterio admiraveis, e uma vez argumentou vitoriosamente,
arrancando aplausos dos circunstantes, e fez calar a um medico racionalista que a
julgava fanatica e censurava suas praticas e mortificaçoes. As pessoas da família, os
famulos da casa viam-na muitas vezes arrebatada em extase, e percebiam vultos
luminosos em seu aposento, e ouviam vozes que lhe falavam de coisas celestes; um dia,
encontraram-na suspensa do chao e com os labios colocados na chaga de um crucificado
que pendia no alto da sala, e assim ficou por muito tempo. Numa gravíssima e longa
enfermidade em que a medicina a desenganou e esteve agonizante, sarou um dia
subitamente; e a explicaçao que deu foi esta: O veneravel Gabriel da Addolorata desceu
do ceu, durante nove dias anteriores e fizera com ela uma novena ao Coraçao de Jesus
pela sua cara. Outra vez a sua benfeitora, dona da casa em que habitava, enfermou com
violentas colicas intestinais, e ela, compadecida, ofereceu-se a Deus para sofrer em seu
lugar: a doente ficou livre do mal naquele mesmo instante, e Gema o suportou paciente
por muitos meses. Pela conversao de um grande pecador propos perder tres anos de sua
vida: e o fato e que, atestam varias testemunhas, o pecador se converteu e tres anos
depois ela morria. A miudo, em seus ultimos tempos, rompia em exclamaçoes como esta:
"Viva o Coraçao de meu Jesus. Vinde, vinde, pecadores, nao temais, nao penetra aqui
dentro o gladio da justiça! Eu quisera, o meu Jesus, que minha voz chegasse aos confins
do mundo: chamaria todos os pecadores, e lhes diria que entrassem todos em vosso
Coraçao". Morreu em 1903 no sabado santo; dias antes tivera dulcíssimos extases que
lhe fizeram dizer a uma Religiosa que lhe assistia: "Irma, se pudesse ver uma pontinha
do que Jesus agora me fez contemplar, como se sentiria feliz! A sexta-feira santa foi, toda
ela, a sua agonia; aos que a cercavam parecia verem a imagem viva de um crucificado. No
sabado, Jesus a conduzia triunfante.

DIA 12
Mês do Sagrado Coração de Jesus 47

A virtude precoce de um menino de doze anos e o quadro que hoje o culto do Sagrado
Coraçao da a contemplar aos seus devotos. Fruto de uma uniao abençoada, Paulo Bedin
ja aos quatro anos distinguia-se por qualidades e açoes que mesmo em idade mais
adiantada sao admiraveis. Ja sabia ler, e, tendo sido a Historia Sagrada o seu primeiro
livro, contava-a aos outros com animaçao, cheio de simpatia e interesse pelos que
sofriam, como Abel e Jose vendido pelos irmaos, e condenava revoltado os maus que os
perseguiram. Na igreja edificava a todos a piedade e atençao reverente com que assistia
as cerimonias, e em casa, se lhe acontecia alguma vez esquecer a oraçao da noite,
levantava-se a qualquer hora e de joelhos supria a omissao cometida. Num olhar de sua
mae ele adivinhava a aprovaçao ou a censura, e lhe servia para logo de estímulo ou de
freio ao que praticava. Entregando-se um dia por demais a leitura de um livro de
viagens, a boa mae ordenou-lhe que o deixasse, mas ele por exceçao nessa hora, fechou-o
lentamente, "filho, disse ela. parece-me que esqueces o teu catecismo. Que coisa e
obedecer?" Paulo respondeu: "E fazer prontamente e com alegria aquilo que se nos
manda". Um momento depois acrescentou: "Prontamente, eu compreendo; mas com
alegria, e diferente". Certo e que ele obedecia sempre alegre muitas vezes, e dominando-
se quando contrariado. Em seus estudos secundarios, no colegio de Mongre, o bom
menino mostrou, mais firmes e acentuados, os mesmos sentimentos e disposiçoes. “E o
modelo do trabalhador”, dizia um dos seus mestres. As vezes ao fim de uma tarefa mais
pesada ou em premio de triunfos alcançados na classe, dispensavam-no de exercícios
impostos aos outros, mas ele preferia partilha-los, pretextando que a ociosidade o
fatigava mais. Era o escolhido para fazer companhia aos alunos recem-chegados, e para
dar coragem aos desanimados ou aconselhar os indoceis: de tudo se desempenhava com
bondade. Um dia, no inverno, puseram-no de porteiro a sala de estudo, perto do fogao
que o incomodava, mas dizendo-lhe alguem que pedisse o dispensassem, respondeu:
"Nao, porque teria de vir para o lugar algum companheiro, que sofreria tanto quanto eu".
Fazia esforço para corrigir-se, ate de pequenos defeitos como o de voltar-se para um e
outro lado a hora do estudo: "O bom Jesus, escrevia ele, dai-me força de nao me voltar
mais: todos os sacrifícios que puder hoje fazer para esse fim, eu vo-los ofereço". Em seu
livrinho de notas se encontram muitas como estas: "Sagrado Coraçao, eu vos ofereço
todas as minhas oraçoes. — Eu vos consagro, o divino Coraçao, o tempo dos estudos. —
Eu vos ofereço as minhas recreaçoes. — Sagrado Coraçao de Jesus, concedei-me a força
necessaria para me corrigir, a fim de fazer bem minha primeira Comunhao". Preparado
assim com o maior cuidado, sua primeira Comunhao como as que lhe seguiram foi em
tudo frutuosa e edificante. Por sua vez, Deus o recompensa: nas provas finais dos cursos
e nas distribuiçoes dos premios, ele colhia sempre copiosos louros, porem acanhado e
modesto, ao ponto de, felicitado, confessar que nao desejaria ser constantemente o pri-
meiro e vexar-lhe o estar superior aos outros. Ou porque o desenvolvimento precoce do
espírito lhe consumisse rapido as forças do corpo ou porque o fruto dessa curta vida tao
pura valesse para colheita celeste e de longos anos cheios de boas obras, Paulo enfermou
gravemente, e a molestia foi como um lento e doce voo para o ceu; as visitas e cartas dos
condiscípulos que faziam votos e preces para sua cura, respondia enviando-lhes finas
imagens ou cabazes de frutas escolhidas; aos mestres agradecia os cuidados e proteçao
que lhe haviam dispensado; recomendava a sua mae que bordasse dois frontais, um para
a grande capela do colegio em que fizera sua primeira Comunhao, outro para a capela da
Congregaçao; aos pais, a quem votava um amor extremoso, confortava, falando-lhes na
felicidade do ceu, onde iria rogar a Deus por eles. Chegada a hora de se lhe ministrarem
os ultimos sacramentos, dispos ele mesmo a ornamentaçao do aposento, e fez colocar na
parede, sobre o leito, as lembranças de sua primeira Comunhao; recebendo em seu peito
a Jesus Sacramentado, expirou suavemente num sorriso inefavel que lhe imprimiu as
feiçoes a serenidade e beleza de um anjo que houvesse descido a terra.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 48

DIA 13
Sto. Antonio de Padua, o grande Taumaturgo, invocado em todo o orbe catolico, e
particularmente na Italia, em Portugal e no Brasil, foi um amantíssimo panegirista do
Sagrado Coraçao. Nos sermoes que dele ainda se conservam, leem-se conceitos e in-
dicaçoes piedosas que o provam, como as seguintes: "A alma religiosa encontrara no
Coraçao de Jesus um delicioso retiro, um asilo seguro contra todas as tentaçoes do
mundo... — Quando a alma religiosa ouvir a voz do sangue divino, que se dirija a fonte de
onde ele deriva; ao mais íntimo do Coraçao de Jesus; ali encontrara a luz, a consolaçao, a
paz, e delícias inefaveis... — A pomba edifica o seu ninho com as arestas que recolhe aqui
e acola. E nos com que construiremos nossa morada no Coraçao de Jesus? O Coraçao de
Jesus e como que o princípio da vida sobrenatural, e como que o altar de ouro, onde, de
noite e de dia, se evola ate aos ceus, um incenso odorífero, e perfumes suavíssimos
embalsamam a terra... A meditaçao dos sofrimentos exteriores de Jesus Cristo e santa e
meritoria, sem duvida; mas se queremos encontrar o melhor do ouro puro, preciso e ir
ao altar interior, mesmo ao Coraçao de Jesus, e aí estudar as riquezas de seu amor".
Uma visao da Veneravel Joana Maria da Cruz veio como que atestar estes devotos
sentimentos do glorioso Taumaturgo e revelar a esplendida renumeraçao que ele teve
de Jesus. Assim a refere a Veneravel: "Num dia de festa de Sto. Antonio, estando eu em
oraçao, vi a alma deste Bem aventurado conduzida pelos Anjos aos pes de Cristo. Nosso
Senhor abria amplamente a chaga de seu Coraçao, e este Coraçao, todo resplandecente
de luz, atraía e como que absorvia a alma de Sto. Antonio, como a luz do sol excede e
absorve qualquer outra claridade. No Coraçao de Jesus a alma do Santo assemelhava-se-
me a uma pedra preciosa, cujo brilho irradiava em redor. As multiplas cambiantes deste
brilho representavam-me as virtudes do Santo: cintilavam com um fulgor maravilhoso
no oceano de luz do Coraçao de Jesus em honra deste e para gloria do Bem aventurado.
Jesus tomou depois esta perola do seu Coraçao e a ofereceu ao Pai Celeste, que a fez
admirar aos Anjos e aos Santos".

DIA 14
O propagador principal do culto ao Sagrado Coraçao na Italia, foi o Pe. Xavier Calvi, e,
como ele mesmo revelou, o foi por inspiraçao de S. Francisco Xavier, seu patrono, que,
porventura para esse fim, duas vezes lhe salvou miraculosamente a vida: uma, de um
naufragio em sua viagem para Malta, e a outra em Roma, quando ele ja agonizante, o
Geral Pe. Ricci lhe ordenou que pedisse a cura ao Santo, a quem se fazia nessa intençao
uma novena porque ele era entao precioso para o serviço da Igreja. Desde noviço, Xavier
Calvi distinguiu-se pelo recolhimento e gosto da oraçao e inteira obediencia; recitava o
Ofício Divino de joelhos, e quase sempre diante do SS. Sacramento; visitava os presos
instruindo-os na fe e exortando-os a virtude; mortificava-se a mesa e na dormida,
tomando para leito o duro chao. Em Malta começou por estampar e distribuir um
opusculo sobre o culto do Sagrado Coraçao, e instituiu na casa religiosa que habitava, a
adoraçao do SS. Sacramento na dita festa, no ultimo dia do ano e nos do carnaval, assim
como a cerimonia das tres horas da Agonia na sexta-feira santa, pregando nesses atos
Mês do Sagrado Coração de Jesus 49

com um fervor que operava conversoes. Chamado dentro de pouco tempo a Roma, onde
ao fim do primeiro mes de estada caiu gravemente enfermo, vindo a restabelecer-se por
intervençao de S. Francisco Xavier, empenhou-se cada vez mais em propagar o culto do
Coraçao de Jesus, sugerindo-o e recomendando-o vivamente a seus penitentes e nos
exercícios espirituais que pregava, num dos quais ganhou como auxiliar desta sua obra o
Cardeal Colonna. Oraçoes, coroas, canticos, jaculatorias, tudo ele compunha e
acomodava com piedosa industria para alimentar a flama e dar multiplas formas ao
culto do Rei dos coraçoes. Nas quintas-feiras, associava-se, diante do Tabernaculo, ao
Coraçao de Jesus agonizante; nas sextas-feiras, seguia o Sagrado Coraçao em todas as
circunstancias da Paixao, e fazia a "via sacra, meditando sobre todas as estaçoes; e nas
grandes solenidades relativas a santa humanidade do Salvador, como as do Natal,
Circuncisao, Epifania, Pascoa, considerava quais seriam os sentimentos do Coraçao de
Jesus nesses misterios de amor de Deus pelos homens. Em oratorio privado ao
recitarem-se as ladainhas de Nossa Senhora, em vez de responder simplesmente — "orai
por nos" — dizia com viva fe: "Orai e amai por nos ao Coraçao de Jesus". Suas cartas
começavam assim: "Viva o divino Coraçao! que Ele triunfe em toda parte, "ubique
gentium!" — e acabavam invariavelmente: "Adeus. Orai por um mísero velho. O Jesus!
por vosso Coraçao, sede para nos Jesus!" Quando se tratou de se instituir a festa e o
oficio do Sagrado Coraçao, o Pe. Calvi incumbido de colecionar tudo que se achasse de
mais frisante a respeito dos Padres da Igreja e escritores asceticos, e foi com santo
jubilo, e como buscando tesouros, que ele compilou os testemunhos da tradiçao sobre o
assunto. Nada recusava do que se lhe pedisse para o Sagrado Coraçao ou em nome dele,
e o Coraçao Divino lhe retribuiu ate com dons extraordinarios, e o espirito de revelaçao
e profecia. Um dia um padre, tendo visto em sonhos palido e triste, um seu irmao
falecido ha pouco, disse ao Pe. Calvi, encontrando-o: "Recomendo-vos uma alma do
Purgatorio". — "Quem ? volveu ele, — vosso irmao? Confiança, esta no ceu". Anunciou ao
celebre Battoni que ele seria o pintor do Sagrado Coraçao e executaria nesse genero uma
obra de grande valor, que daria gloria a Deus e lucro a ele e a família; e, de fato, Battoni
foi o autor do painel encomendado pela rainha de Portugal para a nova igreja do Sagrado
Coraçao em Lisboa. Predisse tambem que Pausi, discípulo de Battoni, iria para a China e
la havia de pintar belas imagens do Coraçao de Jesus para os Missionarios e os centros
de catequese. Estendeu aos gravadores o seu apostolado e fez imprimir-se em medalhas
a apariçao de S. Luís Gonzaga ao Irmao Celestini, curando-o para que ele propagasse o
culto do Sagrado Coraçao. A esta vida de apostolo coroou a morte do justo, morte rapida
e suave, em 1788, na primeira sexta-feira do mes, em dia do aniversario da morte de S.
Francisco Xavier, e cerca da hora em que a lança do soldado abriu o Coraçao de Jesus.

DIA 15
O "Apostolado da Oraçao", que foi em sua origem apenas uma liga piedosa formada pelo
padre Gautrelet, entre os jovens religiosos de Vais, tomou a vasta organizaçao e o
desenvolvimento que tem em todo o mundo catolico, por obra do Padre Henrique
Ramiere. Este sacerdote, dotado de grande talento e provido de variada e solida ins-
truçao, desde o inicio de sua carreira deu-se ao ensino e ao pulpito, pregando de con-
tinuo e com muito fruto. Era igualmente um bravo polemista, e, em sendo atacada uma
verdade religiosa, saía a defende-la, descarregando o golpe com a força precisa para
desarmar o adversario. Por esta sua vivacidade, e pelo zelo com que se dedicava as boas
obras, como que arrastando todos a servi-las, foi taxado de excessivo ardor; mas a tal
Mês do Sagrado Coração de Jesus 50

censura respondeu de uma feita a certo Prelado: "Os carvoes em brasa sao os que
acendem os ouros". Intransigente quanto aos princípios e ao dever, ele era de uma
docilidade extrema, e estava sempre disposto a qualquer sacrifício quando se tratava de
fazer o bem. “Sois de um espírito admiravelmente conciliador”, escrevia-lhe um
cavalheiro que com ele travou rijo combate na imprensa. "E tao humilde e simples, dizia
alguem que o conheceu de perto que aceitara observaçoes de uma criança". Confiava
seus manuscritos a quem se queria instruir sobre assuntos de que ele tratava, e deu
todos os seus sermoes ingleses a um Missionario que partira para a America. Tinha a
mesma dedicaçao para as classes cultivadas e para as condiçoes humildes; as vezes,
recolhia-se a estudar numa casa de campo, a fim de que os habitantes do lugar tivessem
a Missa: visitava-os todos, cuidando particularmente dos enfermos, a quem ministrava
conforto espiritual e deixava a esmola para o remedio e o sustento, quando preciso.
Perdoava generosamente as ofensas; a alguem que o estimava muito e lhe perguntou
como deveria proceder para com uma pessoa que lhe era hostil, respondeu de pronto:
"Ajudai-o em tudo que puderdes", e como lhe observassem que esta pessoa o deprimia,
replicou: "Ele tem razao de estar descontente comigo; eu nao o quis molestar, mas as
aparencias eram contra mim. O Coraçao de Jesus nao sofreu mais?" Desde sua primeira
Missa escolhera como roteiro de sua vida as palavras do Evangelho: “Quem se nutre de
mim deve viver para mim”. "Compreendi, dizia ele, que o meio mais poderoso para me
firmar em minhas resoluçoes era ter os olhos sempre fixos em Jesus Cristo, e ver nele o
ideal dessa liberdade, dessa paz, dessa vida pela qual suspiro. Seu Coraçao e a fonte dela;
cabe-me buscar aí quanto queira". E, com esta norma, organizou o "Apostolado da
Oraçao" e para ele criou o "Mensageiro do Coraçao de Jesus"; surgindo contra esta a ob-
jeçao de que havia ja muitas folhas e revistas religiosas, e que seria dificílimo sustentar
por muito tempo uma que se tivesse de ocupar sempre deste assunto, respondia
triunfante: "Quem e que teme vir a esgotar-se um assunto, como esse, unico, e verdade,
porem mais vasto que o oceano? Poderemos falar sempre e muito, e nunca faltara o que
dizer sobre aquele que "e tudo em todas as coisas". De fato o "Mensageiro" saiu e, ha
mais de 501 anos, percorre o mundo, auxiliando todas as causas catolicas e pondo-as
sobre o amparo do Sagrado Coraçao. Pio IX o aplaudiu logo assinalando que ele unia as
oraçoes dos fieis para os fins mais urgentes e os punha em comunicaçao com o Coraçao
de Jesus, fundindo-os cada vez mais no espírito de unidade. Entretanto, o padre Ramiere,
quase ao termo de tao laboriosa e fecunda carreira, lembrando-se do lema que adotara
ao subir pela primeira vez ao altar, dizia humilde: "Ha 35 anos que me nutro todos os
dias de Jesus Cristo. Celebrei neste espaço de tempo 12900 missas; vivo constantemente
sob o mesmo teto que o Divino Salvador; e como estou ainda longe de viver Unicamente
d'Ele e para Ele!" Nas ligeiras notas sobre um retiro que pregou tres dias antes de
morrer, le-se: "E tempo de me preparar imediatamente para o ultimo sacrifício... O
Senhor bate ja a porta. Resta-me talvez bem pouco tempo para me dispor a grande
prestaçao de contas e santificar minha alma, e mais do que nunca devo faze-lo pela uniao
com o Coraçao de Jesus". E na oitava de S. Joao Evangelista, em janeiro de 1884, quando
se dispunha a celebrar o santo Sacrifício, o Padre Ramiere cala ferido de morte nos
braços de seus irmaos. A "intençao que no "Mensageiro" ele designaria aos fieis nesse
mes, a sua primeira e ultima intençao, fora o "estabelecimento do reino de Deus na
terra!"

1
O Mensageiro do Coração de Jesus completa, no Brasil, neste ano de 2011, 115 anos. Seu primeiro exemplar foi publicado
em 1896, criado pelo padre jesuíta Bartolomeu Taddei, considerado o fundador e o maior promotor do Apostolado da
Oração no Brasil.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 51

DIA 16
Maria Andre, a dedicada "Zeladora do Apostolado da Oraçao", foi logo apos o batismo
consagrada a Nossa Senhora, usando, por voto materno, so vestes brancas, ate os tres
anos de idade: era como um prenuncio da angelica pureza com que em curta vida ela
edificaria o mundo. Aos cinco anos, ja lia bem, tinha gosto pela oraçao e mostrava um
coraçao terno e compassivo, interessando-se, vivamente, pelos que sofriam e
revoltando-se contra quem os maltratava, ate mesmo em relaçao aos contos que ouvia:
desgostava-lhe a fabula do Lobo e do Cordeiro, e afligia-lhe recita-la, tanta era a sua pena
do inocente que a fera escarnecia e imolava! Pelo fervor com que orava na igreja,
pessoas havia que procuravam sua mae para lhe dizerem com instancia: "Peça a sua
menina que reze por mim". Maria desejava ardentemente comungar, e preparou-se com
o maior cuidado e zelo. Numa das liçoes de catecismo, o Padre, falando sobre as faltas
que se cometem diariamente, sobretudo as desobediencias, mandou que se levantassem
as crianças que disto se sentiam culpadas; ninguem se moveu, porem Maria, nao se
julgando de todo inocente neste ponto, ergueu-se humilde, sem se confundir com o riso
malicioso de algumas das companheiras. Sua primeira Comunhao, feita com as melhores
disposiçoes, inflamou-a no amor a Sagrada Eucaristia: buscava-a frequentemente. Vendo
sua mae voltar da Comunhao, quando nao pudera acompanha-la, abraçava-a contente,
porque acabava de entrar aí no peito materno o Deus Sacramentado. As boas qualidades
de Maria Andre manifestavam-se igualmente no colegio em que se educou; as mestras
apontavam-na as outras como o exemplo; as condiscípulas, ao contrario de se
melindrarem com isso e contestarem, reconheciam-no ainda em maior grau,
exclamando: "Nos nao podemos fazer o que Maria faz, ela e uma santa". E, sem se envai-
decer de que assim a julgassem, a jovem dispensava o mesmo carinho e dedicaçao a
todos; mais tarde, na vida social ou no lar, empenhava-se por todas as formas em ser
util, em auxiliar a quem precisasse. Amando muito o desenho e a pintura, abandonava o
lapis e o pincel para se dar a trabalhos manuais que nao lhe agradavam, mas que parti-
lhava satisfeita para aliviar aos que via sobrecarregados: "Eu posso fazer isto, dizia,
dividamos".
O bem das almas, porem, era o que sobretudo procurava, lembrando, gentilmente, os
deveres religiosos, e a pratica de boas obras e salutares devoçoes; tinha sempre diversas
a propor, e quando suas companheiras riam disso, volvia: "E porque assim podem
escolher; se nao quiserem uma, tem outra". Trabalhava, porem, mais especialmente pelo
Apostolado da Oraçao, de que era zeladora: explicava seus dons, mostrava, com
eloquencia e zelo, os frutos e vantagens que dele se podiam colher, notando suplicante:
"E tao pouco que fazer, e tanto a lucrar!" Consegue assim reunir centenas de associados,
e, como o espírito da devoçao ao Coraçao de Jesus e fazer o bem por todas as formas e
zelar tudo o que interessa a gloria de Deus, Maria Andre procura, a miudo, as operarias e
vela em que nao faltem as Missas de preceito e frequentem a Comunhao; visita e socorre
aos enfermos, ensina o catecismo as crianças, fazendo profusa distribuiçao de imagens,
etc. Alem disto, executa por suas maos belos trabalhos para a decoraçao do altar, e, como
nao houvesse organista para as cerimonias da igreja, so por isso estudou a musica, e em
breve, toda a vez que era preciso, estava a tocar o harmonio. Devotíssima do SS.
Sacramento, nao prescindiu nunca de entrar nas igrejas por onde passava fosse embora
so para se ajoelhar um momento diante do Tabernaculo; pelo fervor edificante com que
fazia a via-sacra, mais de uma vez a designaram assim: "Olhem a moça que faz tao bem o
Mês do Sagrado Coração de Jesus 52

caminho da cruz!" Dos vivos o seu zelo se estendia aos mortos; um dia, ao entrar em
casa, sabe que morrera, subitamente, um velho quase abandonado. Maria, contristada,
vai a sua mae, e lhe diz: "Ninguem se lembrara de mandar dizer uma Missa por este
pobre senhor que bem precisa; so me resta um franco; se me pudesse dar outro,
faríamos logo celebrar uma. Em seu desejo de mais servir a Deus, quis ser Religiosa; seus
velhos pais opuseram-se, dizendo que a separaçao lhes causaria a morte e se esforçaram
por distraí-la de seu fervor devoto. Maria sofreu com a recusa e foi definhando;
disseram-lhe entao que, se o contraria-la a afligia muito, livre estava, fizesse o que
queria; mas com lagrimas nos olhos, respondeu: "O sacrifício esta feito; nao falemos
mais nisto". O abatimento das forças prosseguiu; numa procissao que acompanhava,
impressionou a sua mae o ardor e transporte com que entoava, como um hino de
libertaçao, o cantico: "No ceu, no ceu, com minha Mae estarei!" Pouco depois, a febre a
prostrara: "O bom Jesus me tem pregado em sua cruz, escrevia ela na sua ultima carta;
— desde ontem estou reclusa. Eis como as corriqueiras sao punidas. Deo gratias,
sempre". Apos um mes de atrozes sofrimentos, durante os quais recebeu por varias
vezes os socorros espirituais, a 28 de novembro de 1891, dizendo ternamente a seus
pais: — "Eu orarei por vos", — exalou o ultimo alento; sob um impulso do alto, sua mae
recitava nessa hora o "Magnificat, como para acompanhar com a açao de graças da SS.
Virgem a entrada triunfante de sua filha no ceu.

DIA 17
O Pe. Vítor Drevon, descendente de Bayard — o cavalheiro "sem medo e sem pecha", —
mostrou-se como sacerdote um digno continuador das tradiçoes de seus maiores, na
firmeza com que guardou os postos que assumiu, sem jamais contar o numero dos
inimigos que tinha a bater e sem se poupar a nenhum sacrifício na defesa de sua santa
causa. Professando na Companhia de Jesus, exercitou-se primeiro na Algeria, em
Constantina, onde num quarteirao arabe transformou uma velha mesquita em igreja do
Coraçao de Jesus, fundando aí um centro de fervorosa fe crista. Chamado pouco depois a
França, indo pregar em Paray-le-Monial uma novena, falaram-lhe a alma os apelos do
Sagrado Coraçao para que se lhe oferecessem desagravos pelos ultrajes e abandono que
sofria de tantos, e trouxe daí a inspiraçao de criar a "Obra da Comunhao Re- paradora".
Iniciou-a na sua casa religiosa em Lons-le-Saulnier, associando-se lhe o escol das almas
piedosas que ele dirigia. O espírito de sacrifício era a alavanca de que se servia para tao
santo movimento, a Comunhao fervorosa frequente e que o havia de incutir e fortalecer,
unindo o cristao a vida mística de Nosso Senhor no tabernaculo. "Vos, dizia ele, deveis
morrer cada dia no Sagrado Coraçao. Essa morte diaria de todo o vosso ser e de suas
inclinaçoes mundanas, e que vos pode fazer crescer na virtude e no amor de Deus. E na
Santa Mesa que achareis as forças para vos sacrificardes pelos ingratos e para
consolardes o Divino Coraçao das ingratidoes que sofre". Nao se deve comungar so por
si e pela família, mas tambem pela Igreja, e nao tao somente para gozar de Deus neste
mundo, mais ainda e sobretudo para o desagravar e obter o perdao dos pecadores". E foi
ensinando e exortando assim que, de um pequeno santuario, ele espalhou no mundo
inteiro a "Comunhao Reparadora". Com esta grandiosa empresa tentava aqui e acola
varios expedientes e modos de dar combate ao mal e salvar as almas. Quando a França
gemia sob o peso da invasao estrangeira e entre os horrores da Comuna, ouvindo ele de
pessoa veneranda que tais males cessariam se os poderes do Estado e as classes sociais
se unissem em preces, correu a solicita-lo dos representantes da naçao, dirigindo-se a
Mês do Sagrado Coração de Jesus 53

um por um, e, a despeito de que intrepidos cristaos, como Luís Veuillot, tivessem como
perdidos tais esforços, a proposta foi votada no Parlamento quase unanimemente.
Promoveu tambem as peregrinaçoes a Paray-le-Monial, percorrendo para isso a França e
a Belgica, e sustentando ativa correspondencia epistolar com muitos outros países, de
cuja campanha resultou, em junho de 1873, o concurso de milhares de peregrinos de
todas as procedencias, e entre eles um cortejo de 200 deputados franceses que
ofereceram um estandarte ao santuario e fizeram nele a sua consagraçao ao Sagrado
Coraçao. Ao anunciarem os inimigos da Igreja a comemoraçao do centenario de Voltaire,
o Pe. Drevon promoveu um ato universal de desagravo e conseguiu nesse intuito mais de
dois milhoes de "Comunhoes Reparadoras". Realizou ainda, em Paray-le-Monial, duas
grandes obras em honra do Sagrado Coraçao: o "Museu e a Biblioteca Eucarística", cole-
cionando todas as produçoes da arte e todos os livros estampados em homenagem ao
inefavel misterio do amor de Jesus. Ouviram-no algures exprimir o desejo de morrer em
Roma, e oferecer a sua vida pela paz da igreja e pela patria; indo a Cidade Eterna como
postulador da causa do Pe. Colombiere, no dia do aniversario da morte deste caiu
enfermo, agravando-se rapidamente o mal, a que sucumbiu invocando de contínuo por
longas horas o nome de Jesus.

DIA 18
Armelle Nicolas foi uma pobre criada, mas tao admiravelmente exerceu o seu humilde
ofício que deixou uma abençoada memoria em Campenac, sua terra natal, e mereceu que
o chefe da família a que serviu durante sua vida inteira atestasse a seu respeito o
seguinte: Deus por uma especial providencia no-la deu, logo que me casei, para governar
a nossa casa, pois que, sendo minha mulher inexperiente nisso e doente, Armelle a
servia, consolava e ajudava carinhosamente assim como a todos da casa, onde muitas
vezes havia enfermos e meu filho mais velho sofreu por muito tempo uma aborrecida
molestia em que lhe dispensou ela inexcedíveis cuidados. Atendia a tudo em tempo, e
com tanta diligencia fazia suas devoçoes da igreja e suas compras, que mal se percebia
que saísse de casa; quando advertia de alguma falta aos companheiros de serviço, era
com bondade e paciencia tais, que eles a ouviam doceis e se corrigiam, e em 35 anos que
esteve conosco nunca a vi irritada ou impaciente. Educava os meninos com zelo e amor,
ensinando-os desde que sabiam falar, a darem seu coraçao a Deus e fazerem pequenas
oraçoes. Ate as pessoas de posiçao que frequentavam o nosso lar, tinham-lhe estima e
respeito. Interessava-se por todos os nossos negocios e os recomendava a Deus; num
grande processo que sustentei, ela muito me consolava e animava, e as suas oraçoes
atribuo em grande parte o triunfo que alcancei. Era enfim uma crista, em quem nao
conheci defeito". Por sua vez o cura de Campenac, apos a morte de Armelle, dizia do
pulpito: "Desde sua infancia deu indícios de uma vida acima do comum. Caracterizava-a
uma perfeita caridade com o proximo: nao dava lugar a que sua mae ou os de sua casa
fizessem nada de penoso, antecipava-os em tudo quanto era de maior trabalho. Sua
devoçao a Missa era tal, que desde a idade de 7 anos, enquanto morou em minha
paroquia, nunca falhou um so dia, embora morasse longe da igreja. Dava o seu almoço as
companheiras para guardarem o seu rebanho, enquanto ela ia assistir ao Santo
Sacrifício". O povo de Campenac, a uma voz, o confirmava, chamando-a todos a boa
Armelle. Aos vinte anos, deixou as ocupaçoes do campo e veio procurar trabalho na
cidade, para ter mais frequente o ensino e o conforto da religiao. "Se meu sangue
pudesse valer alguma coisa para o bem das almas, dizia ela, eu o daria todo". E a seus
Mês do Sagrado Coração de Jesus 54

votos e oraçoes pela conversao dos pecadores juntava um empenho constante com os
ricos para que protegessem as obras apostolicas e auxiliassem as missoes, sobretudo nas
freguesias rurais. Soube-se que muito concorreu para a conversao de pessoas que de ha
muito viviam escandalosamente no vício. Aplicava as Missas que ouvia e todas as suas
boas obras ao alívio das almas do purgatorio: "Se eu visse um de meus parentes num
braseiro, deixa-lo-ia arder, podendo salva-lo? Que nao devo, pois, fazer para socorrer a
meus irmaos no purgatorio!" Compadecia-se tambem vivamente dos pobres e dos
enfermos, distribuindo com eles o seu salario e visitando-os com a mais desvelada
caridade: a um operario de Vannes que vivia abandonado ate da propria esposa, coberto
de ulceras que repugnava olhar, ela ia ver todos os dias, levava-lhe o sustento, pensava-
lhe as chagas, exortava-o a paciencia, e assim o tratou por muito tempo ate que ele
morreu, bendizendo a Deus de que a houvesse enviado em seu socorro. Nao lhe faltaram
tentaçoes, e as vezes violentas; porem corria a abrigar-se como uma criança nos braços
de seu Pai do ceu rogando que lhe nao consentisse ofende-lo, e a tentaçao cessava.
Perguntando-se-lhe, um dia, de que meios se servia para chegar a essa vida exemplar,
respondeu que durante vinte anos entregou seu coraçao a Jesus, e ao cabo destes Jesus
lhe abrira o seu. “Eu quero te abrigar em minha casa, me disse Jesus, e, mostrando-me a
chaga do seu divino lado, fez-me entrar por aí em seu Coraçao... E me achei aí encerrada
com tanta gloria e liberdade que o nao podia compreender. Sentia-me ali a vontade,
nada me oprimia. Via esse Divino Coraçao tao infinitamente grande, que mil mundos
inteiros nao bastariam para enche-lo. Eu agora, dia e noite, nao saio do Coraçao de Jesus;
e um asilo, e meu refugio contra todos os meus inimigos”. Aconselhada a deixar o serviço
domestico para praticar mais livremente suas devoçoes, recusou-o, declarando que
nessa baixa condiçao se exercitaria mais na humildade, e, servindo as criaturas,
aprenderia a servir a Deus. Num dia da oitava de "Corpus Christi" recebeu o coice de um
cavalo, que lhe fraturou a perna; durante mais de um ano, presa ao leito ou cadeira, nao
ficava ociosa, fazia-se conduzir a um canto da cozinha, e daí dirigia o trabalho ou
executava qualquer coisa de util a casa; e quando lastimavam que se visse privada de
praticar como dantes a sua fe e dedicaçao, acudia logo: "Jesus me ensinou que tudo o que
e feito ou suportado por seu amor, e uma verdadeira oraçao. Por sua graça e sua grande
misericordia, eu estou numa perfeita uniao com Ele". Nestes sentimentos e santas
disposiçoes morreu aos 65 anos de idade; seu amo determinou que se lhe fizesse o
enterro como o de uma sua filha, e, mandando que se lhe nao cobrissem os pes, foi de
joelhos beija-los. Foi uma procissao de todo o povo de Campenac o seu prestito funebre,
e sua sepultura, diz quem lhe historiou a vida, e visitada por muitos, a lhe pedirem
graças ou agradece-las.

DIA 19
Quando desapareceu dentre os vivos o almirante Coubert, pranteou-o em França o
mundo literario pela pena de um dos mais notaveis escritores, Pierre Loti, e a sociedade
crista pela palavra de um dos mais eloquentes oradores sacros, Mons. Freppel. E bem o
merecia, porque havia sido um heroi e um justo. No tempo em que vivemos, dizia o
almirante Julien de la Graviere, ele pode ser apontado aos nossos jovens oficiais como o
melhor e mais completo modelo no caminho do patriotismo e da honra. Coubert reunia
ao cabedal científico essa paciencia operosa que atende as coisas no seu conjunto e nos
detalhes, e possuía o sentimento de justiça que com a bondade d’alma granjeia ao chefe a
afeiçao de seus subordinados. Ele deu sempre as equipagens o exemplo de uma fe
Mês do Sagrado Coração de Jesus 55

sincera e viva: os capelaes de armada atestaram todos, verdadeiramente edificados, a


piedade e recolhimento com que assistia a Missa, acompanhando no “Manual do Cristao”
os atos e as oraçoes da liturgia. Quando foi decretada em França a expulsao das Con-
gregaçoes religiosas, sendo ele nomeado governador da Nova Caledonia, declarou ao
ministro: "Entrando para a armada, fiz o sacrifício da minha vida, nao o de minha honra.
Sou catolico. Se contais comigo para executar os decretos, estais enganado. Procurai
algum mais complacente". E so aceitou o cargo, depois que o ministro lhe respondeu:
"Nao se trata agora de decretos, sois preciso la, parti". E enquanto ocupou esse posto,
Coubert defendeu corajosamente as Congregaçoes contra a perseguiçao dos sectarios e
dos maus, e a respeito deles escrevia: "Na praça publica e como traidores da França se
deveriam castigar os que estorvam a açao dos nossos missionarios". Ao deixar o cargo,
anunciava tambem: "Antes de partir de Numea, tive a alegria de favorecer e autorizar a
fundaçao de uma sociedade de boas pessoas, cujo fim e manter e desenvolver as escolas
congreganistas. Numa semana se reuniram os capitais necessarios".
Aberta a guerra da França com o Tonkin, teve Coubert o comando das operaçoes e
ganhou assinaladas vitorias: porem nesse caminho de glorias o prostrou uma
enfermidade mortal, que ele sofreu ate a ultima hora como verdadeiro cristao, pedindo e
recebendo os sacramentos, e apertando ao peito o crucifixo. Coubert fora, em toda a sua
vida, um adorador fervoroso do Sagrado Coraçao. Subscrevera “em nome de sua
esquadra” uma avultada quantia para a construçao da igreja do "Voto Nacional",
enviava-lhe anualmente o seu obulo, e quis que apos a sua morte sua gloriosa espada e
as condecoraçoes com que foi distinguido se depositassem na capela que a marinha
catolica erigiu no grande santuario.

DIA 20.
Garcia Moreno, o heroico presidente da Republica do Equador, desde menino revelou
um talento nao comum e adquiriu uma vontade energica e firme. Cedo a pobreza se
assentou em seu lar, sendo preciso que sua propria mae ministrasse ao orfao o ensino
primario. Passou depois a estudar humanidades com um sabio Religioso da Ordem de
Nossa Senhora das Merces, que se afeiçoou vivamente ao discípulo, por sua constante
aplicaçao e a facilidade e rapidez, com que tudo aprendia. Acabado este tirocínio, o
jovem resolveu, ainda atraves de todas as privaçoes, ir cursar a Universidade, e tambem
nesta circunstancia lhe valeu o Religioso, recomendando-o a duas irmas suas residentes
em Quito, que, embora pobres, o acolheram. Aí entregou-se com ardor aos estudos, que
estendia ate a noite alta e reatava, madrugando; mas em compensaçao dos labores
conquistava o primeiro lugar nas aulas e se fazia querido e respeitado por mestres e
condiscípulos. Aos vinte anos, os saloes de Quito abriam-se ao pobre que tanto se
distinguia, e ele se deixou seduzir um momento pelas festas do mundo, mas logo reagiu,
e, cortando rente os cabelos como se fora um monge, orou e disse, levantando-se: "A
vida e muito curta para se gastar sequer um dia em futilidades. Agora, serei mais fiel a
meus livros". Pensou entao em abraçar o sacerdocio, e chegou a receber a tonsura e
ordens menores, mas ou por sua sede insaciavel de saber, que parece querer lançar-se a
tudo, ou por desígnios da Providencia que traçavam outros combates, diplomou-se em
direito, dando-se primeiro a advocacia, que abandonou pelo desgosto de ter defendido
uma causa que conheceu mais tarde ser injusta. Com um sabio estrangeiro, expondo por
vezes a vida, fez cuidadosas exploraçoes do grande vulcao de Quito, das quais
apresentou substanciosas memorias que as revistas científicas publicaram. Assentou por
Mês do Sagrado Coração de Jesus 56

fim a sua tenda no jornalismo e na carreira política, votando-se a obra da restauraçao


dos princípios cristaos nas instituiçoes publicas de seu país. Nessa campanha, vibrou a
sua brilhante "Defesa dos jesuítas", demonstrando que a perseguiçao a esses Padres em
Nova Granada, no Equador, em todo o mundo, tinha por alvo a propria fe e o bem que
eles faziam; concluía assim: "Chamar-me-ao fanatico, porque empreguei meu tempo em
traçar esta defesa, mas isto pouco me importa. Sou catolico e me ufano de o ser,
conquanto nao me conte como um dos mais fervorosos. Cristao e patriota, nao me posso
calar sobre uma questao que afeta no mais alto grau a religiao e a patria". Mas, se na
verdade esqueceu por algum tempo certos deveres de cristao, sua consciencia
despertou, diligente e humilde, quando interrogada. Um dia, em Paris, onde Moreno se
abrigara contra as graves ameaças dos que dominavam no Equador, defenderam em sua
presença o ato de um infeliz que a hora da morte recusara os sacramentos; ele rebateu,
fazendo ver que, se o esquecimento do dever religioso, no curso da vida, pode quiça
escusar-se pela irreflexao humana e multiplicidade de negocios que desafiam a atençao,
a hora da morte, em que se decidem os interesses eternos, o desprezo da religiao e uma
coisa monstruosa; e dissertou calorosa e brilhantemente sobre a sublimidade da fe. O
contendor, nao podendo retorquir vantajosamente, achou esta saída: "Mas, vos mesmo
vos descuidais de praticar a bela religiao que pregais; desde quando nao vos confessais?"
Garcia Moreno curva a cabeça um instante, e, erguendo-a logo, exclamou: "Obrigado,
amigo, respondestes com um argumento pessoal, que vos pode parecer hoje excelente,
mas que amanha nada valera;" e no mesmo dia confessava-se, reatando na manha
seguinte a pratica regular e fiel de seus deveres cristaos. Eleito reitor da Universidade
pelo corpo docente, voltou a dar combate aos abusos do poder, ganhando tanto a
confiança dos seus concidadaos, que lhe deram o voto sucessivamente para os mais altos
cargos e na convençao nacional de 1861 o elegeram Presidente da Republica. Viu-se
entao restabelecida no país a ordem; o ensino cristao propagou-se, recebendo o
concurso das instruçoes religiosas da Europa mais altos cargos e na convençao nacional
de asilos e hospitais; e celebrou-se a concordata com a Santa Se, dando açao livre a Igreja
em seu ministerio. Garcia tinha sobre sua mesa de trabalho, como a inspira-lo e guarda-
lo, uma imagem do Sagrado Coraçao. Completo o quadrienio do governo, deixava-o por
entre ovaçoes do povo que em 1869 o reconduzia a presidencia. Neste segundo período
presidencial obteve que o Congresso reformasse a Constituiçao, moldando-a pelos
genuínos princípios cristaos, e por atos oficiais consagrou a Republica ao Sagrado
Coraçao de Jesus. "E preciso, porem, dizia ele neste ato, que o povo se purifique no
Sangue divino, para que a oferenda seja digna". Na ultima pagina de um livro da
"Imitaçao" de que usava, achou-se escrito por seu punho: "Todas as manhas, na oraçao,
pedirei particularmente a virtude da humildade; assistirei a Missa, recitarei o rosario, e
lerei um capítulo da "Imitaçao"... Farei duas vezes por dia o exame particular, e
confessar-me-ei todas as semanas". Nos dias de sua eleiçao, a esposa mostrou desejos de
que oferecesse um banquete aos diplomatas e ministros, e declarando ele que nao
gastaria com festas dessa ordem quando eram tantas as necessidades publicas, ela deu-
lhe 500 piastras suas para esse fim; Moreno levou-as ao hospital, mandando que com a
soma dessem melhor refeiçao aos pobres, e, de volta, informou-a do fato, dizendo:
"Melhor do que desejava, apliquei teu dinheiro". Garcia Moreno foi o unico chefe de
Estado que teve a coragem de protestar contra a ocupaçao de Roma pelo rei do
Piemonte. Um alemao, professor da Escola Politecnica, ao voltar de visita-lo em sua casa
de campo, escreveu edificado que aí o vira com o maior recolhimento ajudar a Missa,
diante de todo o povo do lugar. Foi ainda reeleito em 1873, mas a impiedade e o
maçonismo, exasperados contra o seu governo cristao, trataram de mata-lo. Avisado
varias vezes ate do proprio dia que estava marcado para o assassinato, e aconselhado a
se fazer seguir de uma escolta, nao o quis, declarando que a ultima medida a tomar era a
de ser pronto para ir a presença de Deus, feliz de morrer pela fe. No dia 6 de agosto de
Mês do Sagrado Coração de Jesus 57

1875, primeira sexta-feira do mes, assistiu a Missa e comungou na igreja de S. Domingos


em Quito; a uma hora da tarde, se dirigiu para o palacio, entrando antes na catedral para
adorar o SS. Sacramento exposto; a saída, os algozes o atacam de emboscada, vibrando
sucessivos golpes, e ele cai, exclamando: "Deus nao morre!" Indignado contra o crime
que o surpreendera, o povo castigou logo os principais assassinos; o congresso nacional,
decretando o luto publico, proclamava Garcia Moreno o regenerador da patria e martir
da civilizaçao catolica; e Pio IX, a notícia da grande perda, pranteava-a, dizendo a
cristandade: "Cavalheiro de Cristo, ele caiu vítima da fe e da caridade com a patria!"

DIA 21
O dia 21 de junho evocara sempre a lembrança dos catolicos o vulto angelico de Luís
Gonzaga, o pobre e humilde de coraçao que tanto amou e imitou o Coraçao de Jesus.
Descendente de príncipes, ele mostrou, desde tenra idade, o maior desapego das gran-
dezas e honrarias do mundo e uma inclinaçao afetuosa para os pequenos e pobres, a
quem falava com particular agrado e distribuía copiosas esmolas. Viam-no, ainda me-
nino, erguer-se do leito pelo meio da noite e por-se a orar de braços estendidos em cruz;
acudia a acomodar os criados quando contendiam, repreendendo sem aspereza os cul-
pados, e nas festas da corte, sempre que apareceu, foi com tanta modestia e superio-
ridade que a todos impunha respeito. Refere-se na sua vida que diante de damas nao
levantava os olhos, de modo que, vendo frequentemente a imperatriz Maria da Austria,
nunca lhe conheceu os traços da fisionomia, e de seu pudor se conta que, a despeito da
ordinaria brandura, um dia fez corar a certo velho que proferiu um dito indecoroso.
Mesmo na vida secular praticava a mortificaçao e por modo que ninguem o podia em-
baraçar, como nenhum esforço nem suplica ou estratagema da família conseguiu demo-
ve-lo de abraçar a vida religiosa. Como noviço da Companhia de Jesus, pedia e prestava-
se com satisfaçao aos ofícios mais humildes: carregava as cestas com provisao destinada
aos pobres, limpava na cozinha os pratos e os talheres, sacudia as teias de aranha,
cuidava dos candeeiros do uso comum; o que suplicara lhe reservassem, era o mais
acanhado e desprovido, e suas vestes e panos de cama os mais grosseiros. Quando saía
pela cidade em Roma, era seu prazer explicar as verdades da fe nos lugares onde afluía o
povo, como o campo de Flora ou Montanara; e o fazia com tanta unçao e clareza, que a
todos convencia e cativava: um dia o cardeal de Cusa, de passagem numa praça em que
ele ensinava o catecismo, parou a escutar atento e edificado a pregaçao do jovem aos
camponeses, de pe sobre um tablado, ao modo por que os mercadores ambulantes
anunciam seus artigos, mas apregoando e expondo os artigos da salvaçao. Dele dizia
tambem o sabio cardeal S. Belarmino: "Dando ao Irmao Luís os exercícios de Santo
Inacio, nele descobriu tal copia de luzes, que, eu velho, nascido e educado num meio de
conforto aprendi deste menino a arte de meditar". Em firmeza soube ele sempre do-
minar a natureza e o habito, arriscando-se a todos os perigos, vencendo todas as
repugnancias, e propondo-se a todos os sacrifícios que a salvaçao das almas ou a
caridade com o proximo lhe pedissem. Provou-o a evidencia quando em 1591 a fome e a
peste grassaram em Roma: o Santo percorria a cidade, com um alforje na mao e pedindo
esmolas, que distribuía as vitimas do flagelo; e, encontrando um pestoso caído na rua,
toma-o aos ombros e o conduz ao hospital da Consolaçao. Neste santo lidar contraiu a
peste, e dela morreu, ouvindo-se entao em sua camara suaves melodias de origem
misteriosa, que se atribuíram aos anjos, festejando a seu irmao terrestre. A força e gloria
de S. Luís estiveram em que ele foi um precursor do culto ao Sagrado Coraçao,
Mês do Sagrado Coração de Jesus 58

conhecendo-o e praticando-o, se nao em sua forma, em seu espírito que e o de cristianis-


mo. S. Luís, diz Santa Madalena de Pazzi, quando viveu no mundo, foi sempre a disparar
flechas de amor para o Coraçao do Verbo. Foi no dia 21 de junho que Santa Margarida
Maria e o veneravel padre Colombiere se consagraram ao Divino Coraçao, e o padre
Croiset indica S. Luís como um guia nessa devoçao. Quando Clemente XIII aprovou e
instituiu a sua festa, um solene milagre veio confirma-la: o noviço jesuíta Nicolau
Celestini, que se achava mortalmente enfermo, foi curado de subito por intercessao de S.
Luís Gonzaga, que lhe apareceu, abençoando-o e recomendando-lhe propagar a devoçao
ao Sagrado Coraçao como agradabilíssima ao ceu.

DIA 22
O General de Sonis, uma das mais brilhantes figuras do exercito frances, nascido nas
Antilhas, era tao bravo soldado quanto fervoroso cristao. Descuidado de seus deveres
religiosos a princípio, muito influiu em sua resoluçao de os praticar um simples fato: a
visita confortadora que lhe fez um sacerdote para ele desconhecido, o Pe. Ponce, quando
o jovem e suas irmas choravam inconsolaveis e sos a morte de seu pai, ocorrida no curso
de uma viagem, longe da família e num lugar onde ninguem os conhecia.
“Cada palavra desse padre me calava na alma, escreveu depois Sonis, e quando ele nos
deixou, eu estava convertido; depois fui sempre avançando, porque, desde que se
começa a amar a Deus, nao e possível mais achar que se o ame bastante”. Na escola
"Saint Cyr", foi na sua epoca um dos raros alunos que nao hesitavam em se declarar
cristaos. Enviado para a guarniçao de Limoges, mostrou-se aí um verdadeiro "miles
Christi": todos os dias as 5 horas da manha mesmo no maior rigor do inverno, via-se o
jovem oficial da cavalaria dirigir-se a catedral, ouvir atentamente a Missa e voltar ao
quartel. Num exercício militar o seu cavalo perdeu o freio e deu-lhe uma queda que
poderia ser mortal; seu primeiro ato, logo que ficou livre, foi ir a igreja, em grande
uniforme como estava, fazer a via-sacra em açao de graças. Tinha em sua sala de re-
cepçoes uma imagem do Sagrado Coraçao, diante da qual ardia sempre uma lampada.
Comungava todas as semanas, e fazia diariamente a visita ao SS. Sacramento, como que
montando guarda diante do trono do Rei do Ceu. "Pois que aí esta presente, e onde se
deve ir tomar suas ordens todos os dias". Magoava-o qualquer desrespeito a religiao, e
seus inferiores, sabendo-o refreavam-se: um soldado, em certo exercício soltou uma
blasfemia, porem olhando logo em redor e vendo que Sonis estava longe, disse como
arrependido: "Foi bom que o lugar-tenente nao ouvisse; ele se vexaria". Outra vez,
encontrando numa praça o Santo Viatico, ajoelhou-se ali mesmo e adorou: passava num
carro aberto uma jovem mundana, que pondo-se em pe sobre o coxim, deu uma
gargalhada. Ante o insulto ao seu Deus, Sonis levantou-se, e, medindo-a de alto a baixo,
disse revoltado: "Isto te faz rir a ti?" A mulher empalideceu e ocultou-se. Em sua devoçao
ao SS. Sacramento, promoveu a adoraçao noturna para consolar ao Coraçao de Jesus nas
horas em que se o deixa quase solitario; e comunicava o fato a seu amigo Luís de Seze
nestes termos: "Começamos nossa obra este ano, estando na terça-feira gorda.
Procuramos assim por na balança dos julgamentos de Deus um pouco de amor na
concha da misericordia, que esta muito vazia de nossas reparaçoes, a fim de fazer o
contrapeso a malícia dos homens". Nos dias de jejum tomava uma refeiçao ao por do sol
e da quinta-feira ao sabado santo fazia-o com tanto rigor que um Religioso lhe
aconselhou moderaçao: "Se em consciencia posso bem suporta-lo, replicou ele, podereis
vos dispensar-me?" Tomou parte nas expediçoes a Algeria e a Italia em 1895, vencendo
Mês do Sagrado Coração de Jesus 59

fortes batalhas Percorria depois o acampamento; dirigindo-se carinhosamente aos


feridos, lhes ajudava o tratamento, lembrava oraçoes e distribuía medalhas bentas. Nas
marchas e reconhecimentos, onde havia um presbiterio, apeava-se e ia confessar-se: "As
vezes, refere ele, o cura nao sabia o frances e eu tinha de me arranjar com o pouco de
latim que aprendera; para a Comunhao nos dias seguintes, era entrar na igreja que
encontravamos, a pedi-la com presteza; a açao de graças se ia fazer a cavalo e correndo".
Nas fronteiras de Marrocos, o colera atacou as forças e fez muitas vítimas. Em carta a um
amigo, Sonis, consternado, relatava-o assim: "Angustiava-me ver esses caros companhei-
ros caírem como moscas, sem haver quem os fizesse pensar em sua salvaçao eterna: nao
tínhamos capelao. Eu fiz o que pude; animava-os, fazia-lhes boas exortaçoes, apre-
sentava-lhes o Crucifixo. Nao cabia mais em minhas forças para lhes abrir o ceu mais eu
contava bem com o Sagrado Coraçao de Jesus, que muito me valeu na circunstancia".
Travada a guerra franco-prussiana, foi nomeado general de brigada, e respondeu:
"Quero so a "ordem de marchar, mesmo como simples soldado". Assumindo primei-
ramente um posto em que bate os invasores, ele recebe depois ordem de marchar
tomando por guia a voz do canhao: a maior parte das tropas que deve comandar tarda a
mobilizar-se, outras vem mal disciplinadas, esquivas e descalças, de modo que num
quadro numerico de mais de 40 mil homens Sonis so poderia contar com algumas cente-
nas de bravos. Foi o que se demonstrou em Loigny; ante a fraqueza dos regimentos in-
teiros que se negavam a marchar, o general lhes bradou: "Vou mostrar-vos o que valem
verdadeiros franceses e cristaos!" E, pondo-se a frente dos zuavos que desfraldavam a
bandeira do Sagrado Coraçao, avançou corajoso, rechaçando ate longe o inimigo; este
porem recebia dentro em pouco um reforço esmagador que se atirava sobre o punhado
de bravos, e, aos cem contra um, prostrava-se no campo de batalha glorificados mesmo
em sua queda pelo cumprimento heroico do dever. De Sonis foi baleado em uma das
pernas, que teve de ser amputada. Mais tarde, numa peregrinaçao a Paray,
aconselhando-o alguem a substituir a perna de pau que usava por uma articulada,
respondia: "Nao, nada de imposturas; assim pareceria ter duas pernas, quando tenho
uma so". A noite do aniversario da batalha de Loigny, ele passava-a na igreja em oraçao,
comungando de manha. Pediu a sua reforma para nao ter nenhuma parte na execuçao
dos decretos contra as Congregaçoes religiosas, e ao morrer, em 1886, declarava em seu
testamento dispensar nos funerais as honras militares, desde que se recusavam ao SS.
Sacramento. "Ele foi grande diante de Deus e dos homens", proclamou o Mons. Freppel
em sua oraçao funebre na igreja de Loigny, perante o escol da França catolica.

DIA 23
O Conde de Chambord, da velha dinastia dos Bourbons, que deu tao gloriosos reis a
França e a Igreja fieis defensores, foi reconhecidamente um cristao de convicçao e de
obras, um homem de oraçao; sem com isto deixar de ser como nao o desconheceram os
seus proprios adversarios políticos, um espírito notavelmente esclarecido e culto, um
coraçao nobre e magnífico que no exílio honrou a patria. A educaçao religiosa do Conde
foi desvelada e no dia 2 de fevereiro de 1823, em que fez a sua primeira Comunhao,
Carlos X, seu avo, dizia: "Teus destinos podem ser muito grandes, e muito difíceis os teus
deveres. Se alguma vez sentires o peso das tribulaçoes e trabalhos inseparaveis da tua
condiçao, a lembrança deste dia te dara forças". E o adolescente o compreendia assim,
recebendo a Sagrada Eucaristia como o pao dos fortes e dos puros. Perguntando-se-lhe
entao a qual dos seus dois antepassados, S. Luís ou Luís XIV, desejaria ele assemelhar-se,
Mês do Sagrado Coração de Jesus 60

respondeu sem hesitaçao: "A S. Luís, porque a santidade e a maior de todas as


grandezas". Seu preceptor, o padre Druilhet, oferecendo-lhe um bordado em seda que
representava o Coraçao de Jesus, cujo sangue cala, gota a gota, sobre um ramo de lírios, e
tinha no alto o nome de Henrique e as palavras — "serva lilia", interrogou-o como as
entendia: "Pede ao Sagrado Coraçao que proteja os Bourbons", respondeu. — "Nao terao
ainda um outro sentido?" — "Bourbon, guarda a pureza... Padre, fique tranquilo". De
fato, mais tarde, numa epoca de degeneraçao em que outros príncipes arrastavam
levianamente a honra de seu nome e tristes aventuras, os seus biografos puderam
assinalar que Viena, Roma, Berlim, Londres, Veneza, o viram sucessivamente dentro de
seus muros, e em toda parte ele deu a sua mocidade o brilho de uma conduta sem
macula. Essa divisa - "serva lilia", - Chambord a guardou particularmente e de um modo
heroico, no dia em que lhe propuseram trocar por outra a sua bandeira, para ser
proclamado rei da França; ele o recusou. Foi Terceiro Franciscano; rezava, meditava, e
tinha devoçoes particulares, cujos exercícios nao olvidava, assistia frequentemente a
Missa, antecipando a hora costumada, se lhe era preciso viajar cedo; comungava aos
domingos e festas solenes, dizendo sentir um vazio na alma quando nao o podia fazer;
estudava as questoes fundamentais da religiao e as doutrinas catolicas, munindo-se dos
melhores livros e tratados antigos e recentes. Nas viagens de trem que se prolongavam
quando o movimento em redor diminuía e a conversaçao cessava, ele recolhia-se e
consigo e sem respeito humano, tirando do bolso o terço, postos os olhos no ceu, rezava-
o; conta-se mesmo que o fez por vezes em caçada quando teve de estacionar a espera da
presa que os monteiros iam arrancar da toca. Ninguem poderia calcular o que fazia em
favor dos pobres; mandava dar lhes roupa, sustento, socorros medicos, meios para a
educaçao da prole, e nenhum dos que encontrasse em caminho ficava sem uma boa
esmola. Quando o seu feretro era levado a estaçao de Goritz, viu-se um aleijado que
soluçava em pranto inconsolavel; desde a primeira vez que o vira, o Conde lhe
consignara uma boa pensao mensal. A todas as instituiçoes pias e de beneficencia
auxiliava com donativos frequentes e avultados; Escolas apostolicas, Propagaçao da Fe,
Obras de patrocínio, Bibliotecas. Obulos de S. Pedro, ereçoes ou restauraçoes de
santuarios, tudo achava, solicitado ou espontaneo, o seu pronto concurso; e apos sua
morte, legados verdadeiramente regios coroaram a munificencia dos largos donativos
que lhes fizera em vida. Na sua altíssima posiçao, era um homem humilde. Entrando uma
vez num cercado com alguns nobres para atirar sobre uma narceja, um rustico saiu a
gritar que era um insulto aos penosos labores do povo essas partidas de prazer
renovadas do antigo regime. Seus companheiros quiseram prosseguir, mas ele os
dissuadiu: "Desde que o nosso passa tempo fez raiva a esse bom homem e o pode
escandalizar, retiremo-nos". Outra vez, na via ferrea, um sujeito obeso e arrogante
invade o carro-salao e senta-se-lhe em frente sem a menor atençao. Fez-se logo em torno
o silencio; o homem porem rompe-o, falando, a princípio no bom tempo, depois nos
negocios, e na Republica e Imperio, e finalmente no Conde de Chambord, a quem chama
o "pretendente fatuo e estupido" e o cobre de injurias. Os da comitiva do Conde o
interrogam com o olhar, prontos a reagir mas ele com um ligeiro sinal proíbe o replicar,
e deixa o insolente blaterar a vontade sem que ninguem de indício de lhe prestar aten-
çao. O Conde se formara e se nutria todos os dias na escola d'Aquele que disse Aprendei
de mim que sou manso e humilde de coraçao. Pela manha e a noite ele se recomendava
com fervor ao Sagrado Coraçao; em sua capela fazia-se-lhe todas as sextas-feiras do ano
tres horas de adoraçao, em cada primeira sexta-feira do mes um ato de desagravo, e na
solene festa anual a consagraçao plena do chefe da casa e de toda a família real,
consagraçao que ele por delegados seus fazia efetuar-se tambem no mesmo dia nos
santuarios de Paray e de Montmartre. Se ocupasse o trono, dizia ele, teria gosto em
mostrar-se o "filho mais velho do Sagrado Coraçao", como a França era a filha mais velha
da Igreja. Quando conhecia os sintomas da enfermidade que lhe deu a morte, preparou-
Mês do Sagrado Coração de Jesus 61

se com uma novena regular de Comunhoes nas primeiras sextas-feiras daqueles meses e,
oferecendo a sua vida pelo incremento de fe crista e pela paz da França, morreu a 22 de
agosto de 1882, vespera da festa de S. Luís, estreitando ao peito a cruz cheia de relíquias
que trouxera de sua peregrinaçao a Jerusalem.

DIA 24
No dia 5 de junho de 1841 recebia a unçao sacerdotal em Turim o jovem Joao Bosco, que
por suas obras admiraveis foi depois chamado o Vicente de Paulo do seculo XIX. Aos dois
anos de idade ficou orfao de pai, e o educara sua mae de cujas virtudes cristas se pode
ajuizar por dois fatos. Um dia, atravessando uma rua na ocasiao em que um velho aí
proferia palavras escandalosas, voltou-se para o filho que a acompanhava e disse: "Meu
filho, se jamais tivesse de te assemelhar a este infeliz, eu pediria a Deus que te desse ja a
morte". Outra vez, aconselhando alguem a S. Joao Bosco que se fizesse padre secular,
porque lhe seria mais facil conseguir uma alta posiçao, a mae acudiu logo: "Filho, se
fazendo-te padre viesses a enriquecer, sabe que eu nao poria mais os pes em tua casa;
pobre nasci, pobre quero ficar; uma so coisa me interessa; e a salvaçao de tua alma". E
correspondendo ao sentir de sua mae, D. Bosco so quis fazer o bem; a divisa que mais
tarde escolheu, e que se ligou a todas as suas obras, di-lo muito claro: "Dai-me almas e de
tudo o mais privai-me". Feito sacerdote, entrou para o Instituto de S. Francisco, no qual
se aperfeiçoavam os padres no conhecimento da moral pratica e na pregaçao, e se
exercitavam no sagrado ministerio, visitando os pobres, os enfermos e os presos. Nessa
aprendizagem teve ele ocasiao de ver muitos jovens e ate meninos que se tornaram
presas do vício e do crime pelo abandono em que se achavam e maus exemplos dos que
os cercavam; contristado pensou logo o jovem em fazer alguma coisa para remediar a
tao grande mal. Nessas disposiçoes, poucos dias depois, preparando-se para celebrar a
Missa, ouviu gritos; indagada a causa, era que o sacristao, a busca de quem ajudasse a
Missa, batera em um menino que a isto se recusava, alias por nao o saber. D. Bosco
tranquilizou ao pequeno, pedindo- lhe so que assistisse ao ato, e, acabado que foi,
interrogou-o, verificando que ignorava de todo a religiao. Tomou a si instruí-lo, e nessa
mesma tarde lhe ensinava a fazer o sinal da Cruz. O catecismo feito a Garelli atraiu
outros e outros, e ao fim de dois meses contava ja uma centena de alunos; as reunioes
deles se chamaram desde entao "oratorios", porque a base do ensino e o cabedal maior
da empresa era a oraçao. Dando o ensino elementar e a instruçao religiosa, a escola
formou tambem um grupo de cantores que amenizava algures o estudo. O rumor da
meninada, a aumentar cada dia mais chegou a incomodar a vizinhança, e D. Bosco por
algum tempo so os pode reunir num descampado, ao ar livre: "Deus nao tratara aos
meus meninos pior que as suas avezinhas", dizia ele. Aí se juntavam, ao toque de um
velho tambor e uma trombeta; faziam a oraçao, e, aos domingos confessavam-se com seu
"pai", e iam ouvir a Missa numa igreja proxima. Daí mesmo o proprietario do terreno
afinal despediu-os, alegando que eles com o bater dos pes destruíram a relva ate a raiz.
Nesta conjuntura, os amigos de D. Bosco o aconselharam a ficar somente com os vinte
meninos menores e dispensar os outros. "A Providencia enviou-me estes meninos
respondeu ele; eu nao enjeitarei nenhum, ficai certos. Ela me fornecera o que for
necessario, e, se nao quiserem alugar-me uma casa, eu edificarei uma, com a proteçao de
Maria Auxiliadora. Teremos vastos compartimentos, capazes de receber todos os
meninos que aparecerem, termos oficinas de toda a especie, onde aprendam a profissao
que escolherem; patios e jardins para as recreaçoes; igrejas e Sacerdotes para os
Mês do Sagrado Coração de Jesus 62

educarem". Acreditaram que D. Bosco houvesse enlouquecido, e quiseram leva-lo para


um manicomio, convidando-o a entrar num carro que o conduziria ele, insistindo em que
os seus guias subissem primeiro, fechou sobre eles a portinhola, e mandou que o
cocheiro seguisse para o destino, logrando assim os que lhe armavam a cilada. Em 1846,
o padre adquiriu um abrigo para sua obra: era uma especie de telheiro tao baixo, que o
Arcebispo de Turim, oficiando aí um dia, nao podia estar de pe com a mitra; porem foi o
abençoado embriao de que surgiu o atual santuario de Valdoco. O Padre vendeu umas
jeiras de terra que eram o velho patrimonio da família, sua mae dispos ate das joias
nupciais e preciosas recordaçoes que ainda guardava, e tudo se empregou em acomodar
a seus destinos o casarao tosco. A Providencia veio tambem manifestamente em auxílio
dessa loucura da caridade: a casa chegou um dia a dever uma soma avultada e o credor
apresentou-se, exigindo pronto pagamento; na mesma ocasiao um homem procura com
insistencia a D. Bosco, e pedindo-lhe este que esperasse, ele entra bruscamente no
gabinete, depoe sobre a mesa um pequeno embrulho, e sai dizendo: “Aceite isto, e reze
por mim”. Era precisamente a quantia que D. Bosco devia. Deus abençoava as obras do
seu servo, e fazia patente a sua santidade por meio de uma visível proteçao ate em
circunstancias triviais: uma vez, devia celebrar-se numa de suas casas certa festa
literaria e a ultima hora aquele a quem cabia o principal papel enrouquecera ao ponto de
nao poder proferir uma palavra. D. Bosco chama-o, da-lhe a bençao, e diz: "Deixa-me ver,
eu te vou dar a minha voz, e tu te sairas muito bem". De fato, o menino recobrou a voz, e
o Padre ficou subitamente rouco e assim esteve muitos dias. O foco em que este santo
sacerdote buscava a inspiraçao e a luz em todos os seus cometimentos, o tesouro de que
hauria forças e recursos para todas as suas obras, era o Sagrado Coraçao; foi ele quem
erigiu em Roma o primeiro templo que aí existe sob tao grata invocaçao, e teve como
uma de suas maiores e ultimas consolaçoes a de ir em pessoa inaugura-lo em maio de
1887. Determinou tambem que esta fosse a devoçao especial de todas as suas casas de
estudo e de noviciado; sob os auspícios do Coraçao de Jesus colocou as suas missoes da
America do Sul, a "Colonia do Sagrado Coraçao" se chamou a primeira que seus apos-
tolicos missionarios fundaram no Brasil, chamando ao convívio da civilizaçao e da fe os
silvícolas do Barreiro. "Eis, — escreve o bispo de Nice, referindo-se a vida de D. Bosco, —
eis como ele veio a ser pai de milhares de meninos desvalidos; eis como o S. Vicente de
Paulo de Turim fez tao grandes coisas, tendo so, para o sustentar, sua fe e seu coraçao:
eis como o pequeno grao de mostarda se tornou em tao pequeno tempo essa arvore
frondosa que estende sobre a Europa e sobre o Novo Mundo seus ramos vigorosos,
cobertos de flores e de frutos".

DIA 25
Firmino Suc foi um cristao que trilhou constante o caminho do dever e da virtude, na
quadra da vida em que o coraçao mais se inclina as ilusoes e gozos do mundo, e numa
epoca de hostilidade aberta as crenças, de indiferença e menosprezo por delicados
preceitos da moral. Quando seu pai, no pensamento de lhe assegurar mais facil acesso a
uma carreira publica, lhe propos matricula-lo numa das instituiçoes oficiais de ensino
leigo, ele declarou logo que, a todo risco, preferia aprender com os irmaos da Doutrina
Crista. O livro de suas notas mais íntimas registra as impressoes que guardou da
primeira Comunhao, quando, de mao estendida sobre o Evangelho, diante do Crucifixo,
disse anatema a Satanas e protestou servir a Deus fielmente nos combates da vida. Anos
depois, referindo-se a esta jura, escrevia ele: "Renunciei eu deveras ao mal? Entre os 12
Mês do Sagrado Coração de Jesus 63

e os 20 anos ha sempre alguma coisa para atirar na agua. Ha faltas que ainda me
sangram o coraçao e me fazem chorar". Quais eram? Ei-las: "Sobretudo os meus ímpetos
de menino para com os meus, que eram tao bons comigo, e a quem eu amava; com a
minha madrasta, que me fazia todas as vontades, e contra quem eu as vezes gritava
como se fosse martirizado. Meu Deus, concedei-me para com todos um pouco dessa
doçura e bondade que transbordam de vosso Coraçao". Completo o seu tirocínio fez um
concurso para as vagas nos correios e telegrafos; e foi nomeado telegrafista em Brest,
que era nesse tempo um foco de impiedade e corruçao. Aí, continuam a relatar as suas
notas: "o proprio excesso do perigo foi porventura a minha salvaguarda, porque vi claro
a minha situaçao. Sem me importar do que resultasse, isto e, sem respeito humano, ia a
Missa; a princípio, fui escarnecido, mas continuei, deixando-os falar. Fazia minha oraçao;
souberam e zombaram, mas eu continuei. Nao saía a divagar pelas ruas e a busca de
folguedos, como outros; lançavam-me o ridículo, porem eu nao recuava. Sou um tanto
susceptível, e ainda me admiro de que esses motejos nao me incomodassem; era a mao
da Providencia que me amortecia a susceptibilidade, para que resistisse ao assalto.
Estou convencido de que os meus críticos dentro de si me aprovaram e me reconheciam
a coragem". Firmino tinha uma pequena imagem do Coraçao de Jesus a cabeceira do
leito, e, ao deitar-se, a invocava e beijava: "E uma guarda, dizia, e o inimigo, o diabrete
negro, nao ousa atacar-me ao pe dela". Era associado ao Apostolado da Oraçao e o
praticava nos tres graus, comungando frequentes vezes. Morando distante o seu diretor
espiritual, quando nao o procurava pessoalmente, pedia-lhe conselho por carta, e era
isso a quase cada passo; deste e que se le em seu livro íntimo: "Um amigo me explicava
os dogmas e fortalecia minha fe, quando minha razao o interrogava com orgulho; e eu
sentia que me tornava bom e que uma força secreta e suave penetrava em mim, como o
calor a um corpo que se aproxima de um foco ardente". Transferido para o Havre, e
depois a Paris, manteve em toda a linha o seu procedimento exemplar. "Nao se pode
abandonar os deveres religiosos sem destrilhar, notava ele, e entao ai da honestidade!
sinto que cairia depressa, se nao comungasse: e o tabernaculo que faz os fortes. O
Coraçao de Jesus e Deus inteiro num peito humano: mil vezes feliz quem o compreende.
Chamam "devoçao nova" a do Sagrado Coraçao. Nao ha nada de novo na Igreja. Ele e um
centro, e uma conjunçao de forças divinas e de oraçoes humanas sob um vocabulo mais
vibrante. Sempre se procurou o Coraçao de Jesus, o belo livro da "Imitaçao" o prova, e a
humanidade crista sempre bebeu nessa fonte e aí se saciou. Eu corro sempre a este san-
tuario, e dele trago um que de melhor, que la renovo todas as vezes que me sinto
fraquear". Com a oraçao ele tinha outro meio de combater as tentaçoes: era o trabalho.
Fez estudos serios sobre monumentos e antiguidades sacras, que mereceram os aplau-
sos dos eruditos e mestres que os leram. Suas proprias distraçoes eram boas e santas:
"Eu desenho um pequeno vitral que tem no meio um Sagrado Coraçao respirando amor.
Tudo distrai; o espírito, a consciencia, o corpo, tudo em nos aspira ao repouso pela
liberdade; mas a verdadeira liberdade, o verdadeiro repouso e o dever". Mandam-no
para Nice, e aí se repetem logo as zombarias de seus companheiros de serviço contra o
"clerical"; a refeiçao motejam porque guarda a abstinencia, e ele delicadamente lhes
oferece o que tem; perguntam-lhe escarninhos se ele vai a Missa, e responde corajoso: "E
vos por que tambem nao ides?" Acabam afinal respeitando-lhe as convicçoes e o
proceder. Impelido sempre a avançar no caminho da virtude, resolve-se um dia a
abraçar o sacerdocio; mas o seu debil organismo estava ja invadido pela tuberculose, e o
mal progrediu rapido. Recolhendo-se ao seio da família, fez colocar bem perto do leito a
imagem do Sagrado Coraçao que sempre o acompanhava, “a fim de poder ve-la bem e
ouvi-la, quando lhe quisesse ela falar”; e pediu tambem um novo escapulario. A uma
senhora que o visitou no dia em que recebera os ultimos sacramentos, disse tranquilo:
"Prepararam-me esta manha com todo o preciso para a grande viagem... Se bem que seja
um erro falar assim, porque Deus nao esta longe. Dando ate o ultimo instante o exemplo
Mês do Sagrado Coração de Jesus 64

da vida crista, morreu em 1887, contando 23 anos de idade completos nesse mesmo dia,
a 17 de fevereiro. Seus funerais tiveram o concurso de todas as classes sociais; o escritor
catolico Marques de Segur publicou o "Jornal de Firmino Suc", e o Pe. Laurienne traçou-
lhe a biografia, consignando nela o seguinte depoimento do seu diretor espiritual: "Estou
convencido de que foi pela sua extraordinaria devoçao ao Sagrado Coraçao que ele veio a
ser o consumado modelo de jovem cristao, que todos conheceram".

DIA 26
Isabel Maria Cabral, de ilustre família que teve, em 1910, um digno representante entre
os Padres da Companhia que a furia carbonaria perseguiu e desterrou de Portugal, foi
tambem uma flor peregrina que vicejou ao calor do Sagrado Coraçao. Quando ainda em
botao no lar, la o perfumava com o aroma de finas virtudes. Docil as recomendaçoes dos
pais, terna e desvelada com os irmaos, de quem atenuava as pequenas faltas, quando nao
as podia prevenir, foi considerada e chamada o anjo da família; para ve-la recolhida e
como que a meditar, bastava dar-lhe uma pequena imagem. Desde que fez a sua
primeira Comunhao, adotou como exercício cotidiano o exame de consciencia, a oraçao
mental, e as leituras de piedade, escolhendo livros como a "Imitaçao de Cristo", os
escritos de S. Francisco de Sales e de Sta. Margarida Maria, os opusculos de Mons. Segur,
e outros como esses; por trabalho tomou o de fazer roupas para os meninos pobres e
preparar fios para o tratamento de feridos no hospital; e do que entrava em seu
bolsinho, dava quase tudo aos necessitados, e, tendo por mestra uma senhora cuja
família se arruinara, mais por isso a queria e respeitava, empenhando-se com os pais em
que a protegessem. Na estaçao calmosa, a família Cabral ia para uma casa de campo na
freguesia de Real, perto de Braga, e Isabel aí organizava peregrinaçoes de jovens do
lugar para um santuario vizinho, e com Luís Gonzaga, seu irmao mais moço, fazia tam-
bem uma especie de excursoes apostolicas aos arredores, dando as colinas, bosques e
rios que via, os nomes de Jesus, da SS. Virgem e dos Santos, como se fossem terras que
descobrissem para Cristo. O seu culto era o do Sagrado Coraçao, e quis que em sua honra
se celebrasse anualmente uma festa na capela de Real, assim como, logo que pode viajar,
foi em romaria ao santuario de Paray. Embora pertencendo a alta sociedade, Isabel tra-
java com a maior modestia, quase sempre de branco, por ser a imagem da pureza, e um
dia, recebendo, em mimo, de um velho tio conego, um par de argolas de valor, mas de
mau gosto e fora do uso, a despeito de que os irmaos se pusessem a rir do presente, essa
foi a joia que ela preferiu para ir no mesmo dia a uma festa brilhante e muito concorrida.
Nao surpreendeu, pois, a vocaçao religiosa manifestada por Isabel, ao terminar os
exercícios espirituais feitos para conhece-la; e as Irmas Doroteias, cujo instituto ela
abraçou, desde o seu noviciado puderam atestar: "Ela amoldou-se tao facilmente a todos
os nossos costumes, que parecia ter vivido sempre no exercício da Regra". Sob a
disciplina religiosa, as virtudes e o fervor de Isabel cresceram, e em suas cartas liam-se
trechos como este: “Pede para mim o desejo dos sofrimentos um grande amor a Cruz, a
completa renuncia aos meus gostos e vontade para substituí-la pela do Coraçao de
Jesus”. E seu culto ao Divino Coraçao foi tao ardente, que deixou na comunidade a
pratica de se lhe cantarem estrofes na visita do SS. Sacramento, que precede a recreaçao
das noviças, Isabel procurava sempre o ultimo lugar, escolhia, quanto possível, o que era
de menor valor, desfazia-se de todo o superfluo, a trazia enquanto lho deixavam, roupas
e calçados usados que por suas maos consertava. Um dia enviou a seu irmao Luís
Gonzaga, professo na Companhia, um desenho seu a pena representando os coraçoes
Mês do Sagrado Coração de Jesus 65

dos dois unidos ao pe da Cruz por uma corrente que os prendia ao Sagrado Coraçao e
que se pregava na cruz por tres cravos, emblema dos votos religiosos. Outra vez,
escrevia-lhe: "Sei que tem pregado, e me da prazer isto: quantas almas se podem salvar
por este meio. Quanto a nos que nao dispomos desse e de outros recursos, tomamos
coragem meditando no que disse o Pe. Rodrigues de vossos Irmaos coadjutores, que sem
pregar nem confessar, podem obter a salvaçao de tantas almas". Curta, mas assim toda
cheia de santas aspiraçoes e exemplos edificantes, foi a vida de Irma Isabel Cabral.
Quando transpusera de pouco so os 26 anos de idade, enfermou gravemente; a suas
companheiras que faziam uma novena impetrando a sua cura, dizia sorrindo: "Nosso
Senhor nao quer ouvir o vosso pedido; na festa de Sta. Doroteia, estarei no ceu". Ja antes
disso, estando uma vez em suas funçoes de mestra de desenho, uma irma chegou-se e
pediu-lhe um objeto de que precisava: "Vede, lhe disse, a disposiçao de todas estas
coisas; breve me substituireis". E assim foi. De outra vez anunciou que nao tardaria a
vestir o habito completo da sua Ordem o que so se fazia no leito de morte. No segundo
dia de molestia, quis receber o Viatico, e, perguntando-lhe a superiora se Nosso Senhor
nao a deixaria ainda viver, como suas Irmas desejavam, respondeu: "Ele me disse que eu
va para o ceu, de la vos ajudarei muito; eu orarei por vos, por esta casa, por todos". Mais
tarde recebeu ainda os sacramentos e a bençao papal, e dizendo em voz forte: "Como e
doce fazer a vontade de Deus!" expirou. Na Congregaçao de Sta. Doroteia como noutras,
e costume tirar por sorte o ofício que se ha de exercer cada mes, em hora determinada,
para com o Sagrado Coraçao. Nesse mes coubera a Isabel o ofício de "vitima", e sua hora
de culto e uniao era de onze a meia noite; e nesta hora morreu numa sexta-feira.

DIA 27
O Dr. Agostinho Fabre foi um medico ilustre pelo saber, por sua corajosa fe crista e pela
extrema caridade com que exerceu sua profissao. Filho de um rico negociante, ele teve a
fortuna como um bem secundario e do qual devia aplicar sempre as boas obras o
superfluo: indo fazer em Paris os estudos superiores, mobiliou tao modestamente os
seus aposentos, que sua propria mae, ao visita-lo, o estranhou ; e empregava em esmolas
uma boa parte da pensao que recebia. Ainda estudante, alistou-se nas Conferencias de S.
Vicente de Paula, distinguindo-se entre os mais zelosos de seus membros, e numa prova
publica do tirocínio academico sustentou a sua crença na Providencia Divina, sem
nenhum temor dos ouvintes e juízes eivados do materialismo e que se lhe mostravam
hostis. Aos 28 anos era professor, e com o brilho e vigor de suas liçoes prendia os
discípulos, como escreveu um deles, fazendo conhecido seu nome na Europa e citadas
com apreço as suas obras nas principais revistas medicas. Mas, ao contrario dos que
desprezam tudo o que nao podem trazer para o campo de suas observaçoes de modo a
analisa-lo e decompo-lo, Agostinho Fabre via a reger e presidir o universo uma causa
suprema que lhe explicava o equilíbrio e a harmonia dos seres, e queria "a ciencia
esclarecida pela fe e Deus glorificado pela ciencia". No exercício da medicina tanto o
caracterizava o desinteresse unido a generosidade, que vulgarmente o chamavam o
"medico dos pobres", tinha para todos estes um dia da semana, e era certo ve-los
apinhados na rua a esperarem a sua vez da consulta, na qual lhes dava com a receita o
dinheiro para a botica e o mais necessario. Acudia aos enfermos com verdadeiro carinho,
dirigindo-lhes palavras de conforto, lendo-lhes as vezes uma pagina da "Imitaçao de
Cristo", e prestando-lhes qualquer serviço preciso na ocasiao. "Eu tomarei os remedios
que indicais, disse-lhe um dia uma doente, porque sois um santo". O bom doutor sorriu,
Mês do Sagrado Coração de Jesus 66

e, voltando-se para o berço onde dormia uma criança, inclinou-se, beijou-a na fronte, e
respondeu: "Eis o santo, aquele que nunca ofendeu a Deus". Catolico de ideias e obras,
Fabre foi quem promoveu em Marselha a organizaçao da “Liga do Coraçao de Jesus”, e
com tanto zelo e exito, que em poucos meses, no ano de 1874, a diocese enviava a Paray-
le-Monial uma peregrinaçao levando rica oferenda simbolica em que iam inscritos os
nomes dos primeiros 50 mil associados da "Liga". Instituiu tambem a obra da "Adoraçao
noturna" da quinta para a sexta-feira, sendo o primeiro a apresentar-se: foi proposto
que lhe coubesse a primeira hora para que pudesse repousar dos labores do dia, mas
recusou-o e quis que se fizesse por sorte a distribuiçao das horas e qualquer que fosse a
sua, ficava ate a hora da Missa que encerrava o exercício. Quando a perseguiçao religiosa
quis fechar o santuario e hospício de Notre Dame de la Garde ele como administrador
invocou a lei contra o atentado e deitou-se de traves, na porta do corredor: os dois
comissarios passariam sobre seu corpo, mas os agentes da polícia recuaram.
Anunciando-se que seria punido, os alunos da escola medica, "sem distinçao de
opinioes", protestaram na imprensa, e no primeiro dia de aula receberam-no com
brilhante ovaçao. A um amigo que o aconselhava a poupar-se, respondeu: "Eu
descansarei no ceu". Na lida, a cabeceira de um enfermo, sentiu os primeiros sintomas
da morte, e voltou pressuroso a casa, mandou chamar o cura para lhe administrar os
sacramentos, despediu-se da esposa, confortando-a, e teve ainda nessa hora extrema um
pensamento para os pobres, pedindo que mandassem levar a certa pessoa, que indicou,
uma quantia que lhe prometera. A hora em que morria, um agente policial batia a porta,
acompanhado de uma mulher que clamava: "Digam que e para um pobre, que e certo ele
vir". Ao ouvir que o Dr. Fabre estava a morte, o agente disse comovido: So assim e que a
um pobre ele nao acudiria". Nesse mesmo dia, celebrava-se na igreja de S. Jose a
assembleia anual do "Comite catolico", e o lugar do Dr. Fabre, um dos primeiros, estava
ali vazio; o Cardeal Perraud assinalava-o com lagrimas, dizendo: “Esta manha, Marselha
foi fulminada por nova consternadora: o Dr. Fabre morreu; o amigo dos pobres, o
sustentaculo de todas as Obras que interessam a Igreja e as almas. A grande oraçao
funebre desse cristao sera feita pelo pranto dos pobres, pela saudade de todos, e por
essa revelaçao que segue a morte e que nos deixa entrever as eternas recompensas das
virtudes cristas”.

DIA 28
Aos incredulos e mundanos parece incrível que alguem queira viver peregrinando e a
mendigar por amor de Deus e do proximo; julgam-no desprezível e condenavel como
sinal de indolencia e profissao de ociosidade. S. Bento Jose Labre o quis e praticou, de
modo tal que foi para ele o merito e uma gloria, e a Igreja, elevando-o a seus altares,
mostrou que tambem isto pode ser um meio de santificaçao, e que os infelizes que as
vicissitudes da vida forçam a implorar a esmola tem no ceu um patrono especial para
lhes ensinar a resignaçao as repulsas e a confiança na Providencia. Bento Labre, educado
por um tio paroco de Erin, manifestou desde cedo inclinaçoes piedosas e capacidade
intelectual que deram esperanças de que viesse a abraçar o sacerdocio. Reservava para
os pobres o melhor de suas refeiçoes, lho ia distribuir as ocultas; entre os companheiros,
a uns aconselhava, a outros repreendia amigavel, e reconciliava os desavindos, fazendo
tudo isso tao habilmente, que o povo o chamava o "pequeno Cura". Grassando uma peste
na freguesia, ele, embora avisado pelo tio de que se deve acautelar, o acompanha sempre
a visita dos enfermos, expondo-se de perto ao perigo; e toma sobre si a tarefa de alguns
Mês do Sagrado Coração de Jesus 67

dos atacados, indo cuidar dos rebanhos que eles guardavam, ou carregando as costas
fardos de forragem que deveriam transportar. Morrendo de peste seu tio padre, Bento
Labre, logo que pode, recolheu-se a Cartuxa de Neuville, e depois, em busca de um ins-
tituto mais rigoroso, a Trapa de Sept-Fons, onde os superiores, embora edificados pela
sua conduta, nao o puderam conservar pela declaraçao dos medicos de que era muito
debil para observar a Regra. Destinava-o Deus a singular funçao de passar entre os
povos como um vivo exemplar do Divino Crucificado, lembrando aos ricos o "quid
prodest?" (que se lucra?) que tantas vezes lhes segreda o vacuo d'alma, e fazendo ver
aos indigentes que a pobreza aceita e paciente e um tesouro que enriquece e alegra a
alma. Com uma pobre veste, um bastao, o Crucifixo pendente ao peito e um rosario de
grossas contas passado ao pescoço atravessou a pe extensas regioes da França, Espanha,
Italia e Alemanha, visitando os santuarios mais notaveis, onde ficava longas horas
embebido na oraçao. Circunstantes, e quem era desconhecido, viram-no por vezes nos
templos, cercado de uma aureola que mal deixava perceber numa quase escuridao os
que se achavam em redor, com os olho fitos no ceu e suspenso do chao. Seu peregrinar
nao era nem um instante ocioso; caminhava, fazendo sempre o bem: aqui, a consolar um
aflito; ali, a dar um conselho de salvaçao ou a pensar um enfermo; adiante, a obter do
ceu uma graça para quem o beneficiara, e, a miudo, a repetir com seus irmaos indigentes
a esmola toda que recebera. Numa de suas viagens, recolheu-se atacado de febre ao
hospital de Paray-le-Monial, onde tanto impressionaram as Irmas o seu aspecto
penitente e atos de virtude, que elas guardaram com apreço as migalhas de pao que
deixou de suas refeiçoes; e as Religiosas da Visitaçao por sua vez nao esqueceram nunca
o extase fervoroso em que ele ficava longas horas no lugar das apariçoes do Salvador.
Em Roma, ia frequentemente orar numa capela da igreja do Gesu, onde havia um painel
do Sagrado Coraçao; e nas igrejas em que se fazia a adoraçao das "Quarenta-Horas",
pedia que o deixassem passar a noite de guarda ao Santíssimo Sacramento. Antes de
dormir, todos os dias se consagrava ao Divino Coraçao dizendo: "Eu quero de toda a
minha alma repousar em vossa santa graça. Este coraçao que me destes onde melhor o
posso colocar do que no vosso? E aí que eu o deposito, e meu doce Jesus! E aí que eu
quero habitar e que desejo tomar o meu descanso". Sua vida foi "um ato contínuo de
adoraçao", que veio a encerrar-se com a mais suave morte numa quarta-feira santa, em
que ouviu muitas Missas e a leitura da Paixao se desfazia em lagrimas e caía em delíquio.
O corpo ficou insepulto ate a Pascoa e se conservou flexí vel como se estivera so
adormecido, sem a mais leve exalaçao ma. O povo afluiu em massa a contemplar e
bendizer o "Santo das Quarenta-Horas" e foi um verdadeiro cortejo triunfal, mais sincero
que o dos antigos Cesares Romanos, o prestito para o enterramento desse mendigo que
comia um pao esmolado e dormia ao relento!

DIA 29
A virtude perfeita de uma pequena operaria e a joia que o Sagrado Coraçao agora nos
expoe em seu preciosíssimo escrínio. Maria Husson, desde criança, conheceu e suportou
paciente as privaçoes que sao como que a herança dos pobres. Quando os bandos de
meninas, passando aos saltos e carreiras para o vale ou a montanha, lhe gritavam: "Vem
brincar conosco, o dia esta tao bonito!" — ela que devia guardar a casa, porque-seus pais
tinham ido trabalhar no campo, respondia sem pesar e sem queixa: - "Eu tenho as pernas
fracas para correr, e meu coraçao bate muito quando subo ao monte". Entrando para a
escola de Rignat ganhou depressa a estima da mestra pela sua conduta exemplar e vivo
Mês do Sagrado Coração de Jesus 68

desejo de aprender, que, favorecido por uma inteligencia clara e penetrante, lhe
alcançou rapidos progressos. Suas proprias condiscípulas reconheciam que ela se
distinguia entre todas, e nao lhe queriam mal por isso. Algumas delas uma vez
observaram entre si: "Que tem Maria que nos tambem nao tenhamos? Nos fazemos o
que ela faz: ler, coser, estudar, ir a Missa, e o mais. Isto nao e nada extraordinario;
entretanto..." Uma das mais atiladas e francas acudiu entao: "Nao ha nada extraordinario
nisto; mas olha, o extraordinario e fazer todas essas coisas do melhor modo possível, e
sempre bem, como Maria o faz, ao passo que nos, tu sabes...!" — Maria, porem, nao pen-
sava em sobressair nem se julgava superior as outras; o que ela queria, so era aprovei-
tar-se bem das liçoes recebidas, e todos os dias ia pedi-la a Jesus na igrejinha da aldeia,
falando-lhe como se o visse com os seus olhos. Nas instruçoes do padre sobre a primeira
Comunhao, ela ouviu que deviam confessar todos os pecados, mas que so era pecado o
fazer voluntariamente alguma coisa proibida por Deus ou recusar-se ao que ele
mandava; Maria estava quase certa de nunca ter tido essa vontade contraria a Deus, e foi
o que com toda a candura acusou ao sacerdote, o qual, encantado da confissao que
ouvira, encaminhou-a contente para os braços de Jesus como um anjo terrestre. Acabado
o tirocínio escolar, a fim de ganhar logo honradamente os meios de vida, por ser de
compleiçao fraca, abraçou a profissao de costureira que lhe proporcionava trabalho,
porem deficiente as vezes e mal remunerado, dando-lhe, porem, ocasiao de, no trato com
a freguesia ou nas diligencias da tarefa, aconselhar ao bem ou desviar do mal, e nao
poucas vezes socorrer outras ainda, mais necessitadas que ela. Para fazer tais prodígios,
vestia com simplicidade e modestia, e em sua mesa havia so o necessario para que nao
padecesse fome; em compensaçao, o seu tesouro de virtude crescia, e o Cura de Rignat a
apontava como a melhor crista de sua freguesia. As crianças amavam-na como a uma
verdadeira mae, e os adultos a consultavam nas mais serias dificuldades, e queriam-na a
sua cabeceira na hora da morte. Maria Husson começava e acabava o dia, pedindo
inspiraçoes e Forças ao Coraçao de Jesus, e sempre lhe parecia ouvir dele: "Avante! Sede
cada vez mais humilde e delicada por amor de mim". Mas, humilde embora, como Jesus,
a meiga operaria teve um dia um grito de indignaçao contra um insolente que em lugar
publico insultava uma pobre jovem: "Nao mereceis a honra de ser homem, pois que
falais como se fosseis um bruto!" E ele emudeceu e fugiu. Tendo-se fechado a escola
infantil, Maria, sem olhar a sacrifícios, decidiu-se a restabelece-la, ensinando ela mesma;
e o fez de modo admiravel e proveitoso durante seis anos, em que instruiu solidamente
suas discípulas para os trabalhos e deveres da vida, e formou com elas uma legiao de
cristas que, pelos seus cuidados e esforços, vestidas de branco, e em concertos angelicos,
solenizavam anualmente a festa da primeira Comunhao e a procissao de "Corpus
Christi". O abatimento das forças e as exigencias que lhe fez o representante do ensino
oficial obrigaram-na a retirar-se da escola; porem, saindo logo a esmolar, colheu daqui e
dacola uma quantia com que pode fornecer a duas Religiosas de Chastei a casa e o estrito
necessario para que viessem ensinar em Rignat, adicionando ela a esse modesto cabedal
tudo quanto da propria mesa podia reservar. Por ultimo, ao voltar de uma detida visita
ao santo Cura d'Ars, veio a arder em um novo zelo e toda entregue a ideia de que se
devia dar a Jesus em Rignat uma habitaçao digna, pois que a sua estava nua e arruinada,
tomou a agulha e, trabalhando dia e noite, condenando-se a privaçoes pode fornecer, ao
serviço do altar, paramentos, alfaias, ornatos, operando uma transformaçao ante a qual o
povo dizia: "Como pode ela fazer tudo isto? Parece que Deus manda os anjos a ajuda-la;
ha igrejas de grandes cidades que nao se ornam como a nossa". Depois tratou da res-
tauraçao do templo, e apelou para todos, aceitando o concurso em dinheiro, materiais ou
dias de trabalho; ninguem ficou ocioso: enquanto os homens trabalhavam na construçao,
as mulheres iam ao vale buscar agua para fazer cal e a argamassa. E assim ergueu-se
uma bela igreja gotica, mais vasta que a primeira. Coroados assim todos os seus pios
desejos, chamou-a Deus a contempla-lo em toda a sua grandeza e goza-lo em todo o seu
Mês do Sagrado Coração de Jesus 69

amor, deixando na terra natal a saudade e o exemplo de uma perfeita crista. A um


viajante, que, de passagem na aldeia, perguntava de quem era tao solene e comovente
prestito, respondeu o Cura: "E de Maria Husson, pobre operaria, que todavia foi durante
mais de meio seculo, a Providencia visível de Rignat, e a benfeitora de sua igreja, sua
escola e seu povo".

DIA 30
O luminoso cortejo que no decurso deste mes temos visto desfilar em honra ao Sagrado
Coraçao, fecha hoje com o vulto de um egregio brasileiro: D. Vital, bispo de Olinda. Um
traço da sua infancia revelava ja, como que em germen, a vocaçao religiosa que mais
tarde lhe encheria nobremente a vida: morando perto da igreja, seus pais vinham acha-
lo muitas vezes ali, a ouvir a Missa, ou rezando muito devotamente. No colegio de
Benfica onde fez os estudos secundarios, como escreve o seu professor de latinidade,
captou depressa a estima e apreço de mestres e alunos, e ocupava sempre nas aulas o
primeiro lugar. Depois entrando para o Seminario, tanto se recomendou por seu talento
e piedade que o Prelado lhe facultou em premio o ir acabar seus estudos em Paris, no
seminario de S. Sulpício. Aí sustentou brilhantemente as teses finais de filosofia, e, como
informa um companheiro, superiores e iguais o viam sempre cingido ao regulamento, e,
se por acaso incorria na menor falta, a reparaçao era pronta. Mas, na grande capital
francesa em que tantas vezes se desvaneceram aspiraçoes piedosas, no afamado
instituto eclesiastico em que se formavam os combates para os primeiros postos da
milícia catolica, Vital so teve uma ambiçao: professar numa Ordem religiosa, pobre e
humilde. Recolheu-se para isso em 1863 ao convento dos capuchinhos em Versailles,
onde fez o noviciado, indo depois para o de Toulouse, que era a sede dos estudos na
Ordem. “Parecia deliciar-se nas privaçoes que o cercavam”, relata um visitante (o Pe. Dr.
Barroso). E, falando sobre a sua proxima profissao, dizia: “Ora muito por mim, a fim de
que Jesus faça deste seu indigno servo um perfeito religioso, um verdadeiro filho do
Serafim chagado de Assis”. Em 1868, ordenado presbítero, ele era logo chamado para o
seminario de S. Paulo no Brasil, que estava sob a direçao dos Religiosos capuchinhos; e
lhe foi ali confiada a catedra de filosofia, que regeu com toda a proficiencia. Porem a
muito mais alta missao destinava a Providencia o exemplar sacerdote que sob o rude
burel, quisera furtar-se as honras e dignidade. Em 1871 surpreendeu-o, em seu retiro, a
nomeaçao para bispo de Olinda, e nao houve escusas que o livrassem. A 24 de maio de
1872, do solio de sua catedral saudava o rebanho e desejava-lhe a paz, "nao a paz
fementida e efemera do mundo, comparavel a vaga do oceano que expira aos pes do
homem sem poder atingir a sua parte superior e divina, mas a paz de Deus, que se baseia
no cumprimento do dever, no testemunho da consciencia pura, e que acompanha o
cristao ate a eternidade". Mas a paz que aí entao reinava era, em grande parte, a da
confusao e indiferença religiosa, a de um culto que se satisfazia de meras exterioridades
e bania o essencial; a paz de uma aliança enganadora e funesta em que as lojas
maçonicas se enchiam com o seu pessoal, e com a sua ímpia orientaçao desvirtuavam os
sodalícios catolicos. D. Vital viu, constrangido, o perigo crescente, nao poupou meios
brandos e suasorios para sustar o mal; o inimigo, porem, respondeu, atacando pela sua
imprensa os dogmas de fe e a pureza da SS. Virgem, pretendendo comemorar a fundaçao
de lojas com solenidades na igreja, e fazendo-se eleger presidente de uma confraria que
tinha sua sede proxima do palacio do Bispo um chefe da seita que em seu jornal
blasfemava das coisas sagradas. Lançado entao o interdito sobre as Irmandades
Mês do Sagrado Coração de Jesus 70

refratarias, exasperou-se o odio sectario, e o Bispo foi preso e arrastado a barra do


Supremo Tribunal. Do Episcopado, das Camaras, da imprensa jurídica, de todas as
classes sociais, levantavam-se protestos; mas ao leme da nau do Estado se achava o
Grao-Mestre do Oriente, e a condenaçao se fez, contra o voto de um so dos juízes. D.
Vital, quando lhe apresentaram o libelo para dizer em sua defesa, escreveu somente as
palavras do Evangelho sobre o interrogatorio de Cristo no tribunal de Caifas: "Jesus se
calava: "Jesus autem tacebat". Devotíssimo do Sagrado Coraçao, fora ele quem primeiro
havia divulgado no Brasil, por uma traduçao sua no vernaculo, um livro de exercícios do
mes dedicado a esse culto; ao Coraçao de Jesus, por uma pastoral expedida aos 12 de
junho de 1874, da fortaleza em que o prenderam, antecipando-se a consagraçao
universal decretada por Pio IX, consagrou ele a sua diocese dizendo: "Entremos por
aquela porta da vida, que no lado do nosso adoravel Salvador foi aberta de par em par
dessa fonte perene de todas as graças; permaneçamos nesse paraíso de delícias inefa-
veis, ate o nosso ultimo alento". Mudando a situaçao política, o novo governo, em setem-
bro de 1875, anistiou os eclesiasticos envolvidos no conflito religioso, e D. Vital, desde
que lhe foi restituída a liberdade, quis ver a Pedro, quis ouvir o Vigario de Jesus Cristo,
que o acolheu com toda a confiança e o cumulou de atençoes; no aniversario da sua
prisao em Olinda, ele celebrava o santo Sacrifício no Carcere Mamertino. A 6 de outubro
seguinte D. Vital voltava a sua diocese, e do pulpito da igreja de Sao Pedro, falava assim
ao amado rebanho: "Bendito seja Deus, desencadeando a procela; bendito seja Deus
trazendo-nos a bonança! Conseguiu a mao da violencia, arrancando o Pai do seio da
família, atira-lo para bem longe; mas nao logrou que ele a esquecesse um momento
sequer. La mesmo na solidao do carcere fostes o objeto contínuo das nossas vigílias, a
imagem constante dos nossos sonhos. E quem, senao essa mesma pastoral solicitude nos
impeliu a atravessar o Atlantico, em demanda da Cadeira Apostolica, centro da unidade?
Pela segurança do rebanho cometido a nossa vigilancia, nao cessaremos de propugnar
um so instante. Venha de novo o carcere com todas as suas provaçoes: ja o conhecemos.
Venha o desterro; empunhando o bastao de peregrino, tomaremos o caminho do exílio.
Venha a propria morte violenta ou traiçoeira: nada de tudo isto, saiba a impiedade, nos
ha de acobardar o animo. Sim, venha a morte por amor do rebanho estremecido; venha
essa morte tao bela! A cruz no peito, Jesus nos labios, os olhos no ceu, recebe-la-emos
radiante de prazer. Seras, o morte gloriosa, o nosso maior triunfo". Em 1877 o ínclito
bispo veio ainda ao Rio de Janeiro, de onde partiu com uma romaria brasileira, para a
França, visitando nessa ocasiao alguns dos grandes santuarios desse país e da Italia. Em
todas as suas viagens hospedava-se nos conventos de sua Ordem, onde havia, e aí
desaparecia logo a entrada o bispo, ficando so o humilde capuchinho: de uma
testemunha ocular, digna de todo o credito, soube-se que "as sextas-feiras, e em algumas
semanas mais vezes, sobretudo se ocorria festa Solene de Nossa Senhora, servia a mesa,
ia a cozinha lavar a louça, varria o refeitorio, e empregava-se nos misteres os mais
humildes" e "foi surpreendido muitas vezes sozinho, descalço, em tempo de intenso frio,
a praticar a devoçao da "Via-crucis" no claustro do convento. E tao contente se sentia
entao, que muitas vezes disse a um sacerdote seu amigo: "Que boa e santa vida! Quem
me dera morrer por aqui entre meus irmaos!" Sofrimentos que lhe minavam o forte
organismo, e cuja origem real seus medicos nao puderam conhecer bem, agravaram-se
em Roma no mes de janeiro de 1878, e, aconselhado a voltar para a França, recolheu-se
ao Convento dos Capuchinhos em Paris, onde morreu a 4 de julho. O Religioso que lhe
serviu de enfermeiro, em carta que foi publicada, escreveu: "Durante os tres meses que
passei com ele sem jamais o deixar dia e noite, nunca notei nele a menor imperfeiçao;
nunca se queixou, nunca murmurou, nunca deu demonstraçoes de mau humor nem de
impaciencia; sempre calmo, resignado, contente e reconhecido a tudo o que se lhe fazia;
pedindo a Deus sofrer ainda mais, se esta fosse a sua santa vontade, ter o seu purgatorio
neste mundo, perdoar seus inimigos e morrer pela Igreja do Brasil... Ja desde quarta-
Mês do Sagrado Coração de Jesus 71

feira tinha pedido e recebido os ultimos sacramentos, assistindo a esta cerimonia toda a
comunidade reunida. O Pe. Provincial dirigiu-lhe uma tocante alocuçao; todo o mundo
chorava, somente S. Exa. estava calmo e resignado. A partir deste momento permaneceu
ele recolhido em Deus, nao se ocupando mais o seu pensamento senao da eternidade. O
dia de quinta-feira passou assaz calmo, mas a noite pelas dez horas entrou em uma
suave agonia, meia hora depois disse-me ainda algumas palavras que nao pude
compreender e as onze horas e quinze minutos extinguiu-se docemente e em pleno
conhecimento. Acabava em um ato de adoraçao noturna, ao entrar da primeira sexta-
feira do mes, o dia especialmente consagrado ao Coraçao do seu amantíssimo Jesus.
Mês do Sagrado Coração de Jesus 72

ÍNDICE GERAL

Paginas
Ordem do Exercício Cotidiano 4
Ladainha do S.C. de Jesus 5a6
MEDITAÇOES
I ---- Os terníssimos afetos do
Coraçao de Jesus
Do dia 1.° ao 14.° dia 7 a 18
II ---- Desejos do S. Coraçao
Do 15.° dia ao 30.° dia 18 a 33
Consagraçao ao S. C. de Jesus
Do dia l.° ao dia 30 34 a 68
Mês do Sagrado Coração de Jesus 73

Editado, formatado e revisado


por
Carlos Alberto de França Rebouças Junior
Fortaleza, 16 de março de 2011.

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