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A função de proteger e promover a saúde

e o bem-estar dos cidadãos é uma das mais


importantes do Estado moderno, e representa GEORGE ROSEN
a concretização de uma série de deliberações
políticas, econômicas, sociais e éticas.
Conhecer a História ilumina o interesse
público pela saúde. Uma História da Saúde
Pública conta a história da ação comunitária
nesse campo, desde seu começo nas mais
antigas civilizações, até seu estado atual em
países de economia e tecnologia avançadas.
UMA HISTÓRIA
George Rosen escreveu-o para um vasto DA
círculo de leitores, profissionais de saúde ·e
,····. leigos, acreditando que uma conscientização
crescente quanto aos problemas de saúde que
afetam todas as camadas da população res-
SAÚDE PúBLICA
soaria a antiga máxima romana, e que nós
brasileiros também desejamos se consolide:
A saúde do povo é a suprema lei.

i1NÊsP
fí.b:r<lo:>eG
Obru co-editada com a
FUNDAÇÃO PARA O DESE"JVOL\'IMEI'iTO DA UNESP George Rosen
Pn,sirlmrr rio Crmsdho Curador
Artllllr Hoquete de Macedo
Di!dor-Presidelltf'
Amilton Ferreira
Din•Jom rk Fmm'JIIO r/ Pt:íqllisa
Hennione Elly !'Vlclarn de Campos Bicudo
Dirf!tor dt P11blimções
José Castilho Marques Neto

EDITORA UNESP

Diretor
José Castilho Marques Neto
Come/h o EdiJo-rial Acadêmico
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
Aguinaldo José Gonçalves
Annu MariH Martinez Corrêa
Amonio Carlos Massabni
Antonio Celso \Vagner Zanin
Antonio Manoel dos Santos Silva Tradução
Carlos Erivanv Fantinmi MARCOS FERNANDES DA SILVA MOREIRA
Fausto F.oresti
José Ribeiro Júnior com a colaboraÇ'JO 'de
Roberto Kraenkel }OSÉ RUBEN DE ALCÃNTARA BONFIM
Editores Assislm!es
] osé Aluvsio Reis de Andrade
Maria App~recida F. M. Bussolotti
Tulio Y. Kawata

tJNill
HuciTEC rtbr~seo
Siiu Jlaulu. 199..J.

-~----- -- - - - -
© 1958, by IviD Publications, Inc. New York, U.S.A. Direitos de tradução (do original norte·
americano A Hist01J' of Public Heo/th) c de publicaÇ':i:O reservados pela Editora· de Humanismo,
Ciência e Tecnologia "1-Jucitec" Ltda., Rua Gil Eanes, 713 - 04601 ·042 São Paulo, Brasil. Telefo·
nes: (011)543·0653 e 530-9208 Fac-símile: {011)535-4187.

Foi feito o depósito legal.

Dedicado à men'lória de m.eu irn1ão


Dados Internacionais de Catli.lbgação na Publicação {CIP)
(Câmara Brasieleira do Livro, Si:\ Brasil)
Jack Rosen (1912"1952)
Rosen, George, 1910~l977.
Uma história da saúde pública I George Rosen;
tradução lv1arcos Fernando da Silva Moreira com a
colaboração de José Ruben de Alcântara Bonfim,-
São Paulo: Hucitec: Editora da Universidade
Estadual Paulista; Rio de Janeiro: Associação
Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, 1994.
-(Saúde em Debate; 74)

Bibliografia
ISBN 85·271·0262-5 (Hucitec)
ISBN 85-7139-63-0 (UNESP)
1. Saúde Pública- História L Título. li. Série.

94-2116 CDD-6!4.09

Índices para catálog'o sistemático:


1. Saúde pública: História 614.09

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I-: Obra co-editada com a / "·,-;' _
1 Editora-Unesp ~ :· \ - 1.
):; Av. Rio Branco, 1.210, Campos E!íseos -~ ~~ ,, ':~!
f: CEP 01206·904, São Paulo, Brasil \ . ·,. ;.. __ , _, _ ..:·\._·:/·'~i
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li: Associação Brasileira de Pós·Graduação em Saúde Coletiva ~"-,.., ~ .• ·"/ Í ,
~ Rua Leopoldo_ Bulhões, :.480, !\~ahguinhos ·-~-~·---:~·;··: . ,·ü} j' · ____________ _
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"
NOTA SOBRE O AUTOR

.............................................................
Çjeorge Rosen nasceu em 1910, no Brooklin, cidade de Nova
Dedicatória do Tradutor York. Obteve seu grau de doutor en1 :Medicina em 1935, pela Faculdade
de Medicin2 da Universidade de Berlim.
A José Ruben Ferreira de Alcântara Bonfim
Em 1945 recebeu o título de doutor em Filosofia pela Faculdade de
Eduardo Navarro Storz e
Ciências Políticas, e, em 1947, o de mestre em Saúde Pública, ambos pela
Pedro Gouveia Teixeira
Universidade de Colúmbia. r ·.:

.. Agradecimentos do Tradutor Ocupou diversos postos junto do Deparran1ento de Saúde da Cidade


A Ftmdação 1\1unicipal de Saúde de Niterói, na pessoa de de Nova York. Em 1951 tornou-se professor de Educaç~o em Saúde da
Aluísio Gomes da Silva Junior Escola de Saúde Pí1blica e 1vledicina Administrativa da Universidade de
A Rogério Cosme Vieira de Castro, pela digitação Colúmbia. Em 1959 passou a fazer parte do corpo docente da Escola
AJo sé Carlos Martins Barbosa l\1édica da Universidade de Yale.
Editar, durante muitas anos, do J1merican lourna! of Pub!ic ]{ealth e do
lo urna/ ofHistm~p ofJlfedicine, sua obra escrita é extensa e valiosa. Citam-se
os livros The Hist07J 1 of Jl1iner's Diseoses: a .Medica/ and Social lnte71Jretation
(Uma História das Doenças dos l\11ineiros: uma interpretação médica e
social), de 1943, A H istO!)' of Public Healtli (Uma História da Saúde Públi-
ca), de 1958, Nadness rmd Society: CliajJtm ifl the Histo?ical Socio!ogy of
Mental lluess (Loucura e Sociedade: Capítulos na Sociologia Histórica da
Doença Mental), de 1968; From Jlfedical Police to Social Jlfediciue. Essays Ofl
tlie HistO?J' oj Healtli Core (Da Polícia Médica à Medicina Social- Ensaios
sobre a História da Assistência M.édica), de 1974 (ed. brasileira: Graal,
1980, uad. de Ângela Loureiro) e Preveutive Jlfediciue Ífl the United Stotes,
1900-197S (Medicina Preventiva nos Estados Unidos, 1900-!975), de
•, 1976.
George Rosen morreu em 1977.

-------=-!----- 9

I
'~
.. ················· ........................................ .
SUMÁRIO

····························································
Apresemação da edição brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
Prefácio da edição brasileira . . . .. .. . . . . . . ... .. .. . . .. . . . . . . 19
Prefácio da edição none-al)lericana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

G
AS ORIGENS DA SAÚDE PÚBLICA
Saneamento e Habitação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
Limpeza e Religiosidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
Doença e Comunidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Nmas do Tradutor . . . . . . ............................. , . . . . . 34
11
SAÚDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO
G'ricia
Problemas de doença.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Difteria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
:tvlalária · ................... , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
1
A natureza da doença . . . . . ............................... ." • • • 37
Ares, águas e lugares .......... , ............................ 37
Colonização e assistência médica ............................. , . . . 37
Higiene e Educação em Saúde ...... , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . 39
Saúde ocupacional ... .- ...... : ............................ , . . . . . 39
Administração da Saúde Pública ......................... , . . . . . . . . 40
Roma
O legado da Gréda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Suprimento de água e saneamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Clima, solo e saúde . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
Doenças endêmicas e epidêmicas ................. , . . . . . . . . . . . . . . 44
A saúde dos trabalhadores.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
A assistência médica ................................ , . . . . . . . . . . 46
Banhos, além de pão e circo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Administração da Saúde Pública. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Notas do Tradutor ......................... , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
11 i
- ----------~
!I'
,
I
!li i. 13
12 SUMÁRIO
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLlCA ' .... N~~~;·ct~·~;~d·~;~~;·~·. ._............ :·~·-.._.~·:·~·_.._. ....~ ...._.:·:·~·-.._.~·~·:· . . . . ·:·~·. ._.~·:·~·. ._.~·:···i·ôs
!:

........................: .......... : ...................... j]j""""""""'""""""""""""""""""""""""


I
'
A SAUDE PUBLICA NA IDADE MÉDIA (500-1500 d C) v
O declínio de Romn
A Idade h·lédia . . . ......... · · · · · · · · · · · · · · ·
. .
· · · · · · · · 51 I A SAÚDE EM UMA ERA DE JLUWNISMO E
O crescimento das cidad~~ ...... , ' . . ···········
52 ! REVOLUÇÃO (1750-IR30)
113
~~;b;J~íl· :: ::
53
Problemas sanitários da vid·a· ··········· 54
Um tempo seminal ..
IluminismCJ e raz5o ....
114
A proteção do consumidor.. . . . . . . . . . . . ············ ' ' ' ' ........... ' ' ... ' ' ' ......... .
115
Doenças..... .,. . .. ... . ········ 56
Do bem-estm humano.
' ' ' ......... '.'. 117
Aumentn a população. . . ............. .
Lepra, n grande praga. . . . . . . . ········ 57
A cnmpanha contra o gim ........ . . ' ... ' ' .... ' ... 118 .
Os monos-vivas . . ········· 59 118
Uma chacina de inocentes .............. .
A Morte Negra ... ::: : :: :::: :: : : ............... · · · · · · · · · · · · · · · · 61 120
Todos os males do ser e estados dos homens
Quaremem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ············· 61 Lunáticos e conscientes............ . .................... . 122
As causas das epidemias.. . . . . · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 62
64 Bospiwis e dispensários . . . . . . . . . . . . . ..................... . 124
A organização da Saúde Pública .. : .... ' ·. · · · · · · · · · · · · · · ·
'tdelhorias da vida urbann ...................................... . 127
A assistência médica. . · ······················ 65
. .............. . 133
instituiçõe·s·b~~~f~~~~~~s·:::::::::::::::::::. ~~
A saúde na política nacional . . . . . . . . . . .
Bospitais e Um código de saúde para déspotas esclarecidos ................... . 133
O regime de saúde .... 69 A saúde e os direitos do homem ......................... . 137
A façanhn sanitária medieval . : : : : : · .: · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
Uma política de saúde das freguesias ............................ . 140
Noras do Tradutor · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · 71
... . . . .. . .. . . ... . . . .. .. . . . .. . .. . . . ... . ....... 71 Os registros da vida e da morte ................................. . 141
Uma geogrnfia da saúde e da doença . , ..... , .................... . 144
IV 146
O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A Conselhos ao povo ...................................... .
Um perfil de doenças .................................... . 147
SAÚDE DO POVO (1500-1750)
Admiráveis mundos novos 75 Variolização- o semelhante cura o semelhante ................... . 148
Causas e conseqüências .. : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : . . ...... · · · · 76 A vacina e um médico rural .................................... . 151
A amiga Saúde Pública e a Nova Ciência. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 Um mundo de carvão e ferro ............. , ..................... . 152
Doenças novas para um mundo novo , ............... . Notas do Tradutor ............. , ............................. . 153
O suor inglês ........... _........ : : : : : : : : : : : : : : : : . . . . . ;~ VI
A febre das cadeias e os tribunais negros . , ........... : :. : ........ ' . 79
A moléstia rubra ......... . O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO (1830-1875)
O raquitismo, ou ~-d~~~;~ i~~~~~~~::::::::::::: ............. '.... ··
~~ As rodas satânicas ............................................. 157
A amiga Lei dos Pobres ....................................... . 158
Escorbuto - a morte negra do mar . , ......... : : : ....... - .. .
As doenças dos trabalhadores , .................. ::: : ............. ~~ A mobilização da força de trabnlho .............................. . 159
A doutrina da necessidade filosófica ............................. . 160
A grande pústula.... . . , .......... .
···················· .... ~ A visão da economia política ................................... . 161
A
'I pequena pústula ........ . .... · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ......
1 87 Benthnm e os filósofos radicais ................................. . 161
n' a ária e outras doenças ............ , ..... , 88
Entra o Sr. Chadwick ......................................... . 162
Comágio ou constituição epidêmica? .... , .... :: : : : : : : : : :: ::: :: :: :: 90 A nova Lei dos Pobres .............................. ·.......... . 162
:,1
Leeuwenhoek e seus "pequenos animais" . . . . . . . . . . . . . 93
,,i:'t Crescimento urbano e problemas da cidade ...................... . 163
Fundações da administração em Saúde Pública ............ 94
:'! 1vlenos doenças, menos impostos! ............................... . 167
I Aritmética política: os registros do Estado .... : : : :: : : ............... 95
.~1: Uma Política Nacional de Saúde ... , .............. . As condições sanitárias do povo ... , . . . . . ................... . 170
'i I
.li!
'~
A cidade e a saúde pública ......... : : : : :: : :: . . . . . . . . . . . . . . 1b~ A Comiss5o da Saúde das Cidades .............................. . 173
O Conselho Geral de Saúde ....... , ........................... . 176
Lm1peza das ruas e drenagem. . . . . . . . . . . . . : : :: . : : . : .... , , . . . 103 . .. ' . ' . ' ' . ' .... ' ' ..... ' .... ' ' ... ' .. 177
Sai o Sr. Chadv,,ick ....
[.: Supnmento de água: o empreendm1ento pnvado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 "Que estranhas as vias do paradoxo!" .......................... . 179
. :, O aleJ]ado,
. o manco
. e o cerro
o . . . . . . . . ' . . . . .· . . . . . . . . . ' . . . . . . . . . . . . 106 181
~-:2oi~ __ p~s_s?s à frente, um passo atrás ............................. .
-.. ._------t----- ___. . . .l!
i,
ma. era .de rransJção.. ______ .., ___ ·~-----·- ·------·-·--·--·~··~~-~-............. _108 .. __________ _

1-
I
15
14 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA SUMÁRIO ............................ , ......... ..
........................................................................................................................ .............................. :................................................. ' .. ' .. '.' .... ''. 377
Bibliografia selecwnada · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ' · · · ·
si
.b_.j;jJ117', JllJ(OVC •.• , , , .•..•••.•• , , • • • • •••• , ••.•.•. 182
! -··O urbanismo e 85 origens da Saúde Pública americana no século XIX .. (0 387
I,
Figuras memoráveis na História da Saúde Pública ............ .
Um livreiro se tornu cruzado ................................ . .. 190
O h1quérito Sanitário de Nova York, de 1804 ................. . 192 ........ ' 397
Um Departamemo Nacional de Snúde prematuro ............ . 195 Índice de assunros .. · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ' ' · · · · · · · · · ·
Revolução social, industrialismo e l1igiene públicn na França ...... . 197
Índice onomástico .. · · · · · · · · · · ·
. . . ' . . . . . . . . . .... '.'.'.
' ' '. 429
Unificação naciom!l e reforma sanitária na Alemanh<J ............... . 199
Uma era de entusiasmo estatístico . . . . . . . . . . . . . . . ......... . 203 f
JvJulheres e crianças primeiro . . . . . . . . . . . . . . . ....... . 206-.
Um período de grandes epidemias . . . . . . . . . . . ....... . 214 I
E algumas menores .....................' ....................... . 2l6J
:tviiasma versus contágio: um enigma epidemiológico ................ . 222
Primeiros passos para uma Organização Internacional de Saúde ...... . ··,®
Notas do Tradutor . . . . . . . . . . . . . .................... . 226
VII
A ERA BACTERIOLÓGICA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
(1875-1950)
O elementO específJCo na doença ............ , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2:lJ
"Um relato mais racional da sarna". . ........................ 232
Uma doença de bichos-da-seda.. . . .................... , ... 232
Um anatomista revolucionário defende Uma idéia ultrapassada ........ 233
Fermentos e micróbios . , ............. , .............. , ......... 236
A doença do bicho-da-seda e a teoria microbiana ............. , ..... 238
Um botânico recebe um médico desconhecido ..................... 241
Ami-sepsia e assepsia na cirurgia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ~6
A Bacteriologia e a Saúde Pública ................................ (24"R
As doenças evanescentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ............ 260
Notas do TradutOr ............................................ 266
VIII
A ERA BACTERIOLÓGICA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
(CONCLUSÃO)
Tendências econômicas e sociais em uma sociedade mutante ......... 267
O bem-esrar de mães e crianças ................................. 270 ...
A saúde da criança em idade escolar .............................. 281 .....
Surge uma nova enfermeira ..................................... 287
Ação voluntária pela saúde . , ................................... 293
Ensinando saúde ao povo ...................................... 300
A ascensão da Nutrição científica ............................... , 308
A salide e o bem-estar do trabalhador industrial .................. , . 319
Jvielhor assistência médica para o povo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 332
A responsabilidade do governo na melhoria da saúde ................... 349
"Nenhum homem é uma ilha ... " ................................ 359
"Aquele mundo invisitado, cujas margens se afastam ... " ............. 365
Notas do Tradmor . . . . . . . . . ............... , ...... 371
--- -~,---
••• t . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

TABELA<;

I, APRESENTAÇÃO
1. 'T'axns médias de mortalidade para u Hospiwl Britânico ele Pãnos DA EDIÇÃO BRASILEIRA
2 p ... 120
I
,.,'1 · ercenragem da população, da lnglnrerra e do Pa 1's de Gales, em
C omunidades Urbanas
organi.sm~~·~~;t~~~:,~~~s· ~ ~:: ~:::::: ~ ~:::::.. ~!~
........................... + ....................................... .
3. Descoberta de
4., Arrrópodes respomriveis pela transmissão de doençns humanas . . . . . 4
25
5. Taxas de mortalidade geral na lnglmerra e 110 País de Gal
França, por 1.000 hab. . es, e na
6. Taxa de mortalidade m~~;~ ~; ~ ~; .p.~r· ;~~r~· ~i~~i·d·e· ( ~~; ' ' ~ ·i;l~~~ ~·e
11 1 1
I 262
.H 1
.1,,] pe~soas, na Inglaterra e Gales) ................................ 263 '
~ com grande prazer que apresentamos ao leitor de língua
,,,I
7. Pa.Jses, ano de nomeação e nomes dos primeiros inspetores médicos . 322 portuguesa, desras baudas e, eventualmente, d'além-mar,~a primeira edi-
8. A lmportância dos fatores econômicos e sociais na saúde do povo 360 f
t ção brasileira do livro de George Rosen A Hist07)' ~f Public Health. Convi-

t'l dado pelos editores da coleção "Saüde em Debate" da Editara "Huci-


. tec", para escrever o prefácio da obra, transferimos, de comum acordo, a
honrosa imcumbência a José Ricardo Ayres, companheiro do Departa-
ILUSTRAÇÕES
mento de 1\1edicina Preventiva, Fl\IIUSP, por estar ele mais qualificado
(entre Cap. 7 e Cap. 8)
para fazer uma concisa análise do textO do que nós, uma vez que, em sua
tese de mestrado (J. R. Ayres, A Epidemiologia e o Profeta Emmzc;j;adornas
!viúmia egípcia (c. 1000 a.C.) Práticas de Saúde. São Paulo: dissertação de mestrado, Departamento de
Ruínas de uma latri11a comunitária em Corinto Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina, USP, 1991) ele desenvol-
Estátua de Hip6crates veu, em um dos capítulos, uma excelente análise histórica das origens e
Cloaca Jl1a:xima do desenvolvimento da Saúde Pública a partir do movimento da Reforma
Sanitária do Estado Liberal Inglês de meados do século XIX.
Encanamento de chumbo ao lado de uma casa romana
Ficamos, portanto, com a tarefa mais fácil, a de recomendar aos leitores
Estátua de Galena
o livro que ~stá sendo lançado. Esta recomendação, contudo, deve mere-
Ruínas dos banhos de Caracala, em Roma cer algum_a fundamentação. Com este objetivo, e para i1ão correr o risco
Xi 1ogravura de Razes
de redundância, gostaríamos de realçar apenas alguns dos aspectos que
Monges e monjas cuidando de pacientes justificam a tradução e publicação do livro.
lntf';rior do hospital Hôtel~Dieu, Paris O primeiro refere-se à densidade do conteúdo historiográfico da obra,
Thomas Sydenham em termos de citações, de crônicas e análise histórica, fundamentado
Bernardino Ramazzini numa extensa bibliografia que está fora do alcance dos pobres leitores
]ohann Peter Frank nesta parte do mundo subdesenvolvido. Em segundo lugar, esta, e a
Frontispício do livro Disquisilio, de Jenner (Viena, 1799) )_) extensa produção intelectual adiciunal de George Rosen, marcam uma
Vacinação de pobres rotura com a historiografia tradicional, quando, por exernplo, o autor
Enfermeira visiwdora identifica nos movin1enms da l\1edicina Social, da Reforma Sanitária 1 e
Pintura de Dean Cornwell em outros, "uma infinita variedade de projetos e planos para a reconstru-
ção das instituições sociais" em momentos de profundas mudanças estru-
16 17

I.
......._<_;
L
18 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
~~·;~y;~·p·~·;·~~~;~i;i·~:··R~~·~·~~·ict~;~~ifi~~·l~;·E~~0~~i;p;;;;;·~~;~ã~·~~~;~~~··~·;~;i·; i •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••

Imp~rtante empreendimento literário" do Iluminismo, mas também "a


maí11fesração ideológica mais completa" de uma classe social em ascen-
são _{a burgu:sia), onde já se encontra esboçada a proposta da I\1edicina PREFÁCIO
Social, reescnta, pouco depois, em linguagem planfletária pelos jacobinos
na Assembléia Constituinte, durante a Revolução Francesa, e retomada
DA EDIÇÃO BRASILEIRA
~~~s mo~1entos revolucionários dos meados do séc~1o XIX, na França (cf.
'\ illerme e outros) e na Alemanha (Virchow e Neumann). Aponta 0
••••••••••••••••••••••••••••••••• t ••••••••••••••••••••••••••

caráter utópico das propostas, afirmando que "( ... ) a filosofia da história
est~v~ [~1o Iluminis~1o] imptegnada e dominada pela idéia de progresso e
a l?Istona da humamdade era considerada como uma linha ascendente e
cOntínua que ia da barbárie à civilização ... ". tz:htrapassando fronteiras históricas e geográficas, A I-listo1J' of
Distingue clar~m_ente a especificidade dessa determinação ideológica Public Hea!th chega ao público em sua primeira edição brasileira.
~a do plano econom1eo, quando aponta, ao analisar o movimento sanitário Atual e fecunda, após as quase quatro décadas que a separam da
m~lês, que "a economia _(. .. ) estava reivindicando a transfoimaçâ:o da primeira edição norte-americana, esta instigante jornada pela "História
mao-de-obra em mercadona", colocando como questão social fundamen- da Saúde Pública, é, antes de mais nada, um convite. Com efeito, cada
t~l a do_tra?alhador pobre ... e doente, num momento em que a acumula- um de nós, novo ou antigo leitor desta obra, ·é chamado por Rosen a
ça? ~apitalista pa~sava a exigir uma ?ferta de mão-de-obra, a um só tempo integrar a "atemporar, comunidade sanitária em que nos torna a todos,
e!asttca e co~1pat1ve_l com as necessidades da i11dustrialização. quahdo, com rigor empírico e sensibilidade, logra apreender necessida-
Um tercerro motiVo é que não se trata de uma obra petfeita, encerrando des ao mesmo tempo contingenciais e transcendentes na história das
algumas contradições, que estimulam o debate e a reflexão. Dentre práticas sanitárias. Contingenciais porque determinadas por realidades e
outros defeitc;s ressalta-se a impressão de que nos dá o autor de um práticas delimitadas no tempo e no espaço; transcendentes porque dota-
desenvolvimento natural linear das idéias, no transcorrer dos distintos das da capacidade de transpor esses limites, ao deles emergirem na forma
momentos: "( ... ) da Polfcia A1édica à Medicina social', e à Saúde Pública de valores do gêtzero humano.
~orno "uma linha ascendente e contínua", que vai da proposta mercanti~ Sob o cuidadoso trabalho do historiador está, portanto, a inconfundível
lista do Estado Absolutista até os tempos modernos do Estado Liberal e presença do humanista- acaso não é esse o característico traço humano,
da emergência do J\1ovimento Sanitário na Europa. romper as barreiras do tempo e do espaço ao extrair da matéria trabalhada
· A ~ublicação do livro de Rosen será de grande valia para os nossos a forma que a transcende, a criação na qual o Homem reconhece e
estudwsos da história d~ Saúde Coletiva, como para os que almejam constrói o próprio ser?
transformar a atual orgamzação social dos serviços sanitários nacionais. Na presente obra o leitor encontrará um trabalho que se distingue da
média de seus similares pela iniciatiya extraordinariamente bem-sucedi-
São Paulo, 30 de junho de 1993. da em Rosen, de levar para o âmago da reconstrução objetiva do passado
a perspectiva crítica do historiador, o que a torna uma historiografia
Gtti!henne Rodrigues da Silva efetivamente interessada no I-Iom<::rn. Essa postura teórico-filosófica é
Departamento de Medicina Preventiva descrita por Rosen, em seus escritos metodológicos, como uma ativa
Faculdade de Medicina, USP renúncia àquilo a que chama de uma "historiografia iatrocêntrica".
Francamente predominante na historiografia médica, a perspectiva
iatrocêntrica faz ·a história das práticas de saúde equivaler, segundo o
médico e historiador norte-americano, a um suposto "progresso linear das
trevas para a luz por meio das descobertas científicas e inovações técni-
cas,. Transmitindo e aperfeiçoando as lições que recebera de -I-Ienry
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20 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 21
Si~~~i·;~·:·;~~··;~~~·~~~··~-·~~~~~;~;~~:··R~~~;~·~~;;~;~1~õ~·~·~~·~~·~;~~i~;~i~;;i~;~;~ ct~~··d~~;~~~~··;~~~~~i~;r~:~·i·~·~~~~·d·~~:·E~;~·d·~~;·~·~~i~~ã~·~~~·~~~··~~~·;~~~~·~
tecnicista a noção de que a natureza dos problemas de saúde e do modo doença mental. Contudo, sem sombra de dírvida, o objeto a que dedicou
de enfrentá-los em cada sociedade decorrem de condições políticas, a maior parte de suas energias intelectuais e profissionais foi a Saúde
econômicas e sociais, assim como dos conhecimentos disponíveis e das Pública. .
concepções de saúde e doença nela prevalentes. É da interpretação dos Embora não seja uma "doença", na acepção da palavra, é na condição
problemas de saúde à luz destas condições objetivas de vida que, segundo de objeto coletivo de uni.a intervenção "médica', estatal, em sentido lato,
o autor, surge a teoria capaz de dar inteligibilidade e significado aos fatos que Rosen a toma para análise. ]~ essa condição de elemento de re~a~ão
de que se ocupa a história'da medicina. entre necessidades humanas e meios de satisfazê-las que Rosen pnvile-
Entre as alternativas metodológicas desenvolvidas por Rosen para gia quando estuda a Saúde Pública.
fugir à abordagem estritamente técnica da análise historiográfica, uma De onde vem a preocupação cOm a saúde e o bem-estar de grupos de
delas merece destaque especial, não só pela importância a ela conferida cidadãos? Como esta preocupação está relacionada com cada cidadão
pelo próprio historiador, mas pelo seu particular interesse para a adequa- individual? Estas são as questões com que nos "arma" Rosen, já nas
da compreensão do trabalho que o leitor tem em mãos. Trata-se do primeiras linhas de seu prefácio à primeira edição norte-a_merican~ de A
privilégio da doença, na eleição do substrato historiográfico da medicina. Hi'st07)' of Pttblic Healtl!. Nestas perguntas aparentemente s1mples ha bem
Enquanto a historiografia iatrocêntrica restringia-se, quas~ exclusi- mais que questões teóricas a serem respondidas na longa jornada da
vamente, às biografias e biobibliografias dos expoentes da ciência e da investigação proposta. Elas são também instrumentos do resgate de um
prática médica, Rosen divisou na "história da doença" um ângulo parti- passado ainda ameaçado pelo futuro que temos estado con~truindo. São, ~
cularmente favorável à apreensão das diversas conjunturas através das um só tempo, interrogação e conclamação, atestação e queixa: salus pubh-
quais a medicina vem desenvolvendo sua trajetória. Na condição de ca suprema /ex. . . . .
objeto das práticas de saúde, afirmava em diversos artigos, a doença A argüição pela origem confirma o profundo senndo de histonc1dade
cOnfigura a base sobre a qual se estruturam as relações entre, de um lado, de que Rosen dota sua historiografia, o que, por paradoxal que possa
necessidades socialmente postas e, de outro lado, instrumentos para sua parecer, não é tão comum assim. A historiografia iatrocêntrica, q_ue .e~ e tão
satisfação. A doença permite, dessa forma, distinguir com mais acurácia agudamente criticava, restringe a apreensão (histórica?) da var_Iabihdade
que a técnica, isoladamente, os determinantes e os valores que explicam da medicina aos meios da intervenção médica ou dos as·pectos Circunstan,-
as diferentes conformações dessas práticas ao longo da história. ciais de seus objetos, nunca à possibilidade mesma desses objetos. E
Em uma conferência sobre história da medicina, em 1967, Rosen como se as necessidades postas para a intervenção médica estivessem
sintetizou da seguinte forma este aspecto metodológico: "O padrão de sempre estado dadas de antemão, ainda que só potencialmente. De modo
adoecimento que caracteriza qualquer grupo de pessoas nunca é casual. diverso, Rosen busca, através da análise crítica de seus dados empíricos,
Em termos gerais, ele está associado com o nív~l de desenvolvimento "datar os tempos", "localizar os lugares", "subjetivar os· sujeitos", para
social e técnico da população e está significativamente relacionado com dar inteligibilidade à particularidade dos diversos objetos das práticas de
os valores prevalescentes no grupo. Desse modo, na medida em que as saúde.
doenças são resultantes, ou interferentes, das condições sociais ou das Assim é que Ros·en explica pela emergência do Estado ·.capitalista o
relações sob as quais os homens vivem e trabalham, elas se tornam surgimento das primeiras preocupações com a saúde _pública. em. sua~
fenômenos sociais, só sendo completamente compreensíveis em um feições modernas.· Ao mesmo tempo, conferindo ~nidade d1alét~ca a
contexto biossocial. Nestes termos, a história da doença pode ser vista diversidade da trajetória que vai da ocupação hipocránca com o ambiente
como mais do que o estudo de entidades particulares, independentes; ela até o internacionalismo sanitário do século XX, Rosen divisa nestas
se torna o delineamento de padrões de adoecimento característicos de preocupações o devir de uma necessidade que se incorpora à existência
certas épocas e sociedades assim como dos fatores e processos que condu- humana.
zem às suas transforn1ações no tempo e. no espaço". O leitor poderá distinguir, nesse sentido, três momentos a um só
George Rosen trilhou este caminho historiográfico em diversos empre- tempo discriminados e inter-rdacionados. na reconstituição roseniana da
endimentos seus. Estudou a saúde ocurJacional, escrevendo um trabalho história da saúde pública: o pré-capitalista, o revolucionário e o moderno.
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:I · · · e a Idade lVIédia. Aqui a
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-------~~~re minerad~r~~-~~ricanos que se tornou um clássico da~___!__~ª-: Estu- __
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22 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA PREFÁCIO DA EDIÇÃO BRASILEIRA 23
··:·· .. ··············"'' 1'•········································································.. ·················
dtm~nsão pública da saúde aparece pulverizada em concepções e prática·s ;;~~·~~;·~i~;id~d~·~·~·t~~i·~;~··à·d·i·;~~;~;·ã~·~;·úbii~~··d·~··~~úd~:·N·;··i~~~~;··d~;·~;;·;·;~
de dtferentes ordens, sempre baseadas em concepções naturalistas ou mes progressos científicos e êxitos práticos obtidos pela :Microbiologia e
met~físicas, até serem superadas por ocasião do Renascimento. Da pers- pela Imunologia, essa "regulação bacteriológica" das relações sociais "con-
pectnra dos novos .saberes e práticas que então emergirão, Rosen refere- taminou" científica e metaforicamente todo o sanitarismo das primeiras
se a todos os antenores como "a velha Saúde Pública''. décadas deste século.
O segundo período, o período revolucionário da Saúde Pública é Sob o paradigma bacteriológico, Rosen localiza algumas das mais ex-
descrito por Rosen como a configuração de uma espécie de "consciên~ia pressivas conquistas jamais obtidas pela humanidade em quantidade e
médica", digamos assim, do caráter social da saüde pUblica. Em outros qualidade de vida, assim como vai mapeando o surgimento das diversas
te~n:os, todas as manifestações da saúde e da doença que transcendiam os frentes en1 que o cidadão, em associação ou isoladaní.ente, vai construin-
SUJeitos individuais, que desde a Antiguidade até o Renascimento só do a sua "vida asséptica,. Conduzidos por descrições cheias de transpa-
tiv:ra~n em comum o fato de serem interpretadas como aspectos extra- rente entusiasmo, somos levados a conhecer a emergência, especialmente
orgamc?s (as re~ações com a natureza, o contágio, as entidades patológi- nos Estados Unidos, das primeiras práticas de puericultura, assistência
cas, as mfluênctas atmosférico-cósmico-terrestres, os miasmas), passam pré-natal, educação sanitária, saúde escolar, ações comunitárias, cuidados
agora a ser relacionadas entre si e entendidas como resultantes da vida em nutricionais, saúde ocupacional e assistência médica previdenciária.
sociedade. IV1ais que isso, passam a ser vistas como determinantes funda- Coerente com os ideais e con1 os princípios teórico-metodológicos-que
mentais dos resultados dessa vida em sociedade. A partir dessa transfor- orientam toda a sua obra, Rosen mantém, todavia, o seu entusiasmo a
mação vão surgindo, como forma de conhecer e interferir racionalmente uma segura distância de qualquer tipo de triunfalismo imobilizador. Ao
sobre essa dimensão pública da saúde, a Polícia Médica, a Higiene Públi- contrário, sua profunda e fundamentada crença n~ Saúde Pública serve-
ca, e, por fim, a moderna Saúde Pública. lhe de instrumento para apontar aspectos ainda hoje críticos neste campo,
. As mesmas transformações sociais que explicam a emergência da cons- como as desigualdades na distribuição social das conquistas do capitalis-
ciên~ia s~nitária colocam no centro da cena um personagem' fundamental mo, a debilidade das condições de saúde nos países subdesenvolvidos, os
na lustonografia roseniana: o cidadão. O "citoyen'', o indivíduo civica- aspectos extramédicos envolvidos no implemento da Saúde Pública e a
n:ente emancipado pela Revolução, é, para Rosen, como pode ser ante- emergência de novas qUestões sanitárias, como os acidentes, as doenças
VISto na segunda pergunta do Prefácio, um elemento nuclear da sua crônicas, o câncer, o problema ecológico etc.
compreensão do desenvolvimento da Saúde Pública em sua terceira fase. Rosen faleceu em 1977. Não chegou a presenciar os mais recentes
A esse terceiro momento Rosen identifica o processo de institucionali- movimentos da história que com tanta riqueza reconstituiu. Não chegou
zação e pluralização da intervenção sobre a dimensão pública da saúde sequer a conhecer a crise do welfare state estreitan1ente associado ao que
1

so~ a. é.gide da recén:-consolidada "sociedade dos cid~dãos". Este preces~ julgava ser a vocação do sanitarismo. Este seu trabalho~ escrito em época
so Imcta-se no terceiro quartel do século passado e corresponde ao perío- ainda anterior, na década de cinqüenta, não logrou alcançar as rápidas e
do em que se estabilizaram as modernas relações econômicas e políticas profundas transformações pelas quais tem passado o mundo contemporâ-
da ordem social capitalista. neo. Embora já presentes como tendência, elas não tinham ainda os
Pqde parecer curioso que Rosen dê a denominação de "era bacterioló- contundentes perfis de hoje, especialmente para que1n vivia no ambiente
gi~a" ~ um processo tão amplo e diversificado como o que ele descreve de otimismo e onipotência da mais poderosa nação a emergir do pós-
n:mucwsamente n?s seus dois últimos capítulos, abordando aspectos que guerra.
nao parecem assoctad?s, ao menos imediatamente, com a Bacteriologia. Revisitar a construção histórica de Rosen em nossos dias, suscita, por
Contudu, se formos ngorosamente "rosenianos'', não deveremos estra- isso, profundos questionamentos. Em um mundo no qual, por U1n lado,
nhar.o fato, ?ado o profundo impacto da teoria bacteriológica na conjun- radicaliza-se a redução do espaço público à concorrência utilitarista dos·
t~ra IdeológiCa e sanitária da Saúde Pública durante a maior parte de sua interesses ·privados e, por _outro lado, invade-se o privado com uma
VIda acadêmica e profissional. poderosíssima, sofisticada e monopolizada "mass-media"; em um modo
. Es_sa espécie de álter, a bactéria (ou a ausência dela), por meio do qual de produção cuja força produtiva mais importante tornou-se a tecnologia,
___ :__~ ________o_g:dnj"_QJJ_g__@_c_o_nh~_c__sua~~çi_d_adania__sanitári~_p.assoll,_de_fato,___amouo,_ ___ _ _______!!_lJla_j:_eCI:!_olqgia cada_ vez mais ~_!l!ônoma em relação ao homem; e na era
! :, pohzar, a partir do. fim do século XIX, toda a interpretação e toda a de uma razão que tudo penetra, atudo fegU:ra-eque, ao mesmotempo,-----------
24 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
d~~·~~·~~;i~;·:·~;;;··;~;~·~;·~·~~~~·~~~i;~·~~·,~·~ã~:·~~·;~~i~~~~·i;~·~~~~6;··~·~~~~·f;~~~~ .
'
..............................................................
legítima de racionalidade, caberá certamente indagar "Quem é o cidadão
hoje?", "Por onde está transitando a dimensão pública da saúder, "O
que significam concretamente, na atualidade, as promessas libertadoras
PREFÁCIO
da Modernidade?". DA EDIÇÃO NORTE-AMERICANA
Longe, porém, de significar uma limitação, essa aptidão para instigar
questionamentos e renovar-se neles é, talvez, a maior evidência do vigor
desta obra. Num contexto já tão Uiferenre daquele em que foi concebida ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
e realizada, sua capacidade de fomentar esses questionamentos é, por si
só, prova de sua efetiva fecundidade. Ainda que não se compartilhe do "O homem é a realidade que torna possível todas as
coisas, e também a si mesmo."
mesmo quadro explicativo, ainda que se questione o tratamento dado a ··~ Hugh Ivl'Diannid
algum elemento empírico, ainda que se divirja de uma ou outra solução
metodológica ... a capacidade desta História da Sazíde Pzíb!ica de gerar
interlocução com o presente vem demonstrar que Rosen já conquistou
sel..l próprio lugar na história que não cessa de contar. ·
Não devemos, então, reter por mais tempo o leitor. Deixemo-lo somar-
Jt função de proteger e promover a saúde e o bem-estar dos
cidadãos é uma das mais importantes do Estado moderno, e represe~ta a
se, com seus próprios questionamentos e valores, à vida desta obra, pois
consubstanciação de uma série de considerações po~íticas, <?con~miCas,
se há algum reconhecimento que faça jus à estatura intelectual de George
sodais e éticas. J\1as, desde quando essa preocupaçao com a saude de
Rosen é acolher aberta e criticamente o seu trabalho. Só nos resta,
grupo existe? E como se relaciona com a vida de cada cidadão, ~e cada
portanto, parabenizar os editores pela louvável iniciativa desta publicação
indivíduo? A história da comunidade e de seus problemas de saude nos
e endossar a exortação de Rosen à continuidade do enriquecimento
humano do legado histórico da saúde pública. ajuda a responder a essas perguntas. .
"And may the outcome be a happy onel" 1 A História, como memória de grupo humano, aJuda a moldar, ~ara o
bem ou para 0 mal, a consciência coletiva, e desperta _a atençao do
São Paulo, 30 de junho de 1993. indivíduo para o mundo, mesmo o de ontem e o de an1anha. ,
Um entendimento significativo do presente exige que se o enxergue a
José Ricardo de C. M. Ayres luz do passado- de onde veio- e do futuro, que está nascendo em se~
Departamento de J\1edicina Preventiva interior. Todo desafio enfrentado pelo homem, todo problema qu~ ~reei­
Faculdade de Medicina, USP sou Tesolver, tem origem histórica. Jviais ainda, nosso mod~ de agtr e, em
grande medida, determinado por nossas imagens n~entars do passado.
Assim, para entendermos os problemas de nossa soct~d~~e e_ desem?e-
nharmos um papel inteligente na construção de nossa crvthzaçao, precisa-
mos possuir um senso de continuidade no tem?o, ~evemos ter a cons-
ciência de ser impossível avançar para o futuro, Inteligentemente, sem a
disposição de olhar para o passado; devemos, enfim, conhecer o passado,
saber como veio a originar-se o presente.
Conhecer a História ilumina o interesse público pela saúde. Os ho-
nlens tiveram sempre que enfrentar problen1as de saúde nas~idos de
atributos e carênCias de sua natureza. E con1 base nessa necess1d~de da
vida social, se desenvolveu, com uma clareza crescente, o reconhec~Imen­
to da importância notável da comunidade para promover a saude, e
~-
........................................................................................................................ • • • • • • • • • • • • • • • •• • • • •• • • • • • • • • • •• • • • • •• • ••••••••••••••••••••
26 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
prevenir e tràtar a doença. A suma dessa consciência é o conceito de
Saúde Pública.
Este livro tem por finalidade contar a história da ação comunitária no
campo da sal1de, desde seu começo, nas mais antigas civilizações, até seu AGRADECIMENTOS
estado presente em países de economia e tecnologia avançadas. Por este
motivo, a narrativa, sobretudo para o período moderno, se refere aos
centros principais da moderna Saúde Pública, em especial Grã-Bretanha, • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • t •••• t ••••••••••••••••••••••
França, Alemanha e Estados Unidos. E se mencionam apenas alguns
fatos, de interesse maior, em outros países, porque, por várias razões, uma Qtem empreendt:: uma obra de síntese histórica fica, in~vitavel­
larga parte do mundo- na Ásia, na África, no Oriente :Médio- por volta mente, com mm·ras d'1v1·das·, nem todas podem ser reconhecidas, em
de 1400 parou de se desenvolver econômica, política e cientificamente, detalhe, em um espaço limitado. . .
precisamente no momento em que nações ocidentais entravam em um A bibliografia selecionada não é, em nenhum se.~tido, u_ma ~Ista de
período de crescimento extraordinário. En1 conseqüência, só hoje asiáti- todas as fontes que usei. J\1inha intenção é a de auxtlta_: o leitor Interes-
cos e africanos começam a efetivar mudanças necessárias à superação de sado em aprofundar-se em algum tópico. Por essa raza~, a_ esn1ag~d~ra
um vazio de séculos, em um processo cujas implicações para a Saúde maioria das referências é em inglês, e disponível na n1a1ona das btbho-
Pública também nos empenhamos em avaliar. tecas. r-r ' .
Esse livro se sustenta em cerca de vinte anos de traba,ll:o em tstona,
Várias linhas contribuíram, e continuam a se somar, na construção de
trabalho comunitário em saúde. Seguir essa evolução, no entanto, não é J\1edicina e Saúde Pública. Durante esse períod~~ uma sene d~ hOJ~_re~lS _e
um fim em si mesmo. A finalidade maior dessa minha análise reside em mulheres me estimulou e instruiu. Nesta ocas1ao, lh~s deseJO expnm1r
lançar luz sobre os processos de formação e de mudanças da política meu reconhecimento. . .
sanitária, e de conhecimento, e suas aplicações, em cada momento his- 0 finado Henry E. Sigerist ajudou-me a dar meus pnn1e1ros passos em
tórico. direção à Clio médica, em 1933. E por vinte e quatro anos se_ revelou um
Este livro foi escrito para um vasto círculo de leitores, pensado com a rofessor estimulante e um amigo igualmente caro. 1\ifeu,.. an:Ig? e colega,
intenção de interessar profissionais de saúde e leigos. E se-puder contri- ~- Ackernecht, tem sido, ao longo do tempo, uma influencia mtelectual
buir para uma conscientização crescente quanto aos problemas de saúde inspiradora. . . · 1M ..
comunitária terá alcançado seu objetivo. Pois Concordamos com a antiga Do campo da Saúde Pública, deseJO mencwnar, em especta , arga
máxima romana: Salus publica suprema lex1• reth \V. Barnard e Sophie Rabinoff; elas me mostraran1 como transformar
idealismo em realidade prática e serviço público. Não_ posso,e_squecerb~s
George Rosrm, M. D. ensinamentos em ação em saúde comunitária, em teona e pranca~ rece l-
dos de Henry S. Mustard e do finado Charles-Edward Amo.'?' Wmslow.
Gostaria de agradecer a minha esposa, Beate, pela paciencta ~ pela
indulgência durante a gestação deste !i:rro. Cuidar de autores contmua a
ser uma arte aprendida de modo empmco. _ . . , .
Por fim, desejo agradecer a Mrs. Waltorr M. Smlth, mmha secr~tana,
por seu interesse nesta obra e pelo cuidado em preparar o manuscnto.
- do livro e pelos erros porventura
Pela concepção e pe la execuçao ,
existentes, sou, decerto, o único responsável.
George Rosen, M.D.
Cidade de Nova York,
31 de março de 1957.
1
Frase de Marco Túiio Cícero {106-43 a.C.), orador, escritor, e político romano, em
Das Leis, III, 9 (apud Rónai, Paulo. Não Perca o seu Latim. Nova Fronteira, Rio, 1980) 27
(NT).
---·--

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UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
•• + ..... + + .. + ..... + ...... + + •••• ++ ++ •• + •••••••••• + ... ++ ++ ••• + .... +. +.

•I•
AS ORIGENS
da
SAÚDE PÚBLICA
... +. ++. + . . . . . . . . . . . . . . . . . + ••••••••• ++ .......... + . . . . . . + •• +++ •• + +. +

J1..o longo da história humana, os maiores problemas de saúde


que os homens enfrentaram ·estiveram relacionados com a natureza da
vida comunitária. Por exemplo, o controle das doenças transmissíveis, o
controle e a melhoria do ambiente físico (saneamento), a provisão de água
e comida puras, em volume suficiente, a assistência médica, e o alívio da
incapacidade e do desamparo. A ênfase relativa sobre cada um desses
problemas variou no tempo. E de sua inter-relação se originou a Saúde
Pública como a conhecemos hoje.

SANEAMENTO E HABITAÇÃO. Encontraram-se evidências de ativida-


des ligadas à saúde Gomunitária nas mais antigas civilizações. Cerca de
quatro mil anos atrás, um povo, do qual pouco se sabe, desenvolveu uma
grande civilização no norte da Índia. Sítios escavados em Mohenjo-Daro,
no vale da Índia, e em Harappa, no Punjab, indican1 serem essas antigas
cidades indianas planejadas em blocos retangulares, segundo, aparente-
mente, leis de construção. Banheiros e esgotos são comuns nas constru-
ções escavadas. As ruas eram largas, pavimentadas e drenadas por esgotos
cobertos. Esses canais de escoamento ficavam cerca de dois pés, ou
111enos, abaixo do nível da rua, e consistiam, em sua maior parte, de tijolos
cimentados com uma argan1assa de barro. Usavam-se materiais superio-
res no interior das casas e, ao menos em uma ocasião, se mencionam canos
de drenagem feitos de cerâmica, embutidos, para evitar-se vazamento,
em emplastro de gesso. .
Achados do Médio Império (2100-1700 a.C.) oferecem· alguma idéia
das condições no Egito. O arqueólogo Flinders Petrie descobriu as ruínas
da cidade de Kahum, construída, por ordem do faraó, segundo um plano
unificado. Houve o cuidado de se fazer a água escoar, através de uma
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32 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA AS ORIGENS DA SAÚDE PÚBLICA 33
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calha de pedra mármore implantada no centro da rua. As ruínas de Tel-el- DOENÇA E COMUNIDADE. A doença tem sempre afligido o homem,
Amarna, do século XIV a.C., são, em essência, iguais às de Kahum. Um pois a enfermidade é inerente à vida; por toda parte o hon1em se esforça
detalhe, no entanto, merece menção: os restos de um banheiro, em uma para enfrentar essa realidade do melhor modo possível. Estudos de paleo-
das casas menores. patologia mostram não só a antiguidade da doenç2, n1as sua ocorrência nas
Dois mil anos antes da era cristã já se tinha resolvido, em parte, o mesmas formas essenciais -infecção, inflamação, distúrbios do desen-
problema do suprimento de água para comunidades maiores. A cultura volvimento e do metabolismo, traumatismos e tumores. Encontrou-se a
creto-micênica, por exemplo, dispunha de grandes aquedutos. Escava- esquistosomose, existente no Egito ainda hoje, em rins de 3.000 anos de
ções revelaram, em Tróia, um sistema de suprimento muito engenhoso. idade, e se diagnosticou a tuberculose da espinha en1 restos de esqueletos
Em toda parte em que existiam sistemas de abastecimento de água de de índios pré-colombianos. Evidência pictórica, do Egito, sugere a exis-
beber, regulamentava-se também o destino dos dejetos e se desenvolvia tência de poliomielite e nanismo acondroplástico. Se, no entanto, os tipos
o sistema de esgotamento. Em palácios, como o de Cnossos em Crera do básicos não mudaram, a incidência e a prevalência das enfermidades
'
segundo milênio pré-cristão, havia não apenas magníficas instalações '
para variaram muito no tempo e no espaço. Conhecer essas mudanças é
o banho, como também descargas para os lavatórios. Instalaram-se tornei- essencial para a compreensão dos problemas de saúde e das teorias e
ras - cujos vestígios ainda se vêem entre as ruínas de Priene mt Ásia práticas relativas à enfermidade, no curso da História.
lvienor - em casas particulares, talvez muito cedo, mesmo sendo usual, Enfrentando doenças endêmicas ou epidêmicas, as comunidades e
em muitos lugares, retirar a água de poços públicos. indivíduos agem segundo alguns conceitos acerca da natureza da mo-
Impressionantes ruínas de sistemas de esgoto e de banhos atestam as léstia. Essa ação, no nível primitivo de conhecimento, se sustentava,
façanhas dos quéchuas em engenharia sanitária. Eles ergueram cidades quase sempre, em termos sobrenaturais. A :Medicina n1oderna, por ou-
drenadas, e com suprimento de água, garantindo, assim, um terreno tro lado, tenta entender as doenças através do estudo das estruturas e
seguro para a saúde da comunidade. Estavam cônscios, ainda, da influên- dos processos mórbidos, no corpo, e as identifica e diferencia, em ter-
cia possível de outros elementos do ambiente físico sobre a sa'Úde e mos de sintomas, local e causa, com a maior clareza possível. O concei-
reconheceram a conexão entre aclimatação e má saúde; assim, as tropas to de doenças distintas tem, no entanto, uma origem relativamente re-
oriundas dos planaltos serviam nos vales quentes e1n um sistema de cente.
rodízio, permanecendo ali apenas alguns meses de cada vez. Os médicos antigos e medievais, em geral, não distinguiam as diferen-
tes doenças e se preocupavan1, ao invés, com vários grupos de sintomas.
LIMPEZA E RELIGIOSIDADE. Ainda hoje os povos primitivos se ocu- Explicavatn-se as evidências de desordem na saúde por meio de teorias
pam da limpeza e da higiene pessoal, como o faziam os homens pré- sobre a mistura anormal dos fluidos do corpo (humoralismo) ou acerca dos
históricos e do início da história. Esses povos em geral dispõem de suas estados, constritos ou relaxados, das partes sólidas do corpo (solidismo).
excreções de uma maneira sanitária; suas razões para agir assim, no Enquanto essas concepções de saúde prevaleciam, os médicos não po-
entanto, não são necessariamente idênticas às nossas. No decorrer de diam concentrar-se em sítios específicos da enfermidade. No entanto,
longos períodos da História, crenças e práticas religiosas avizinharam notou-se a transmissibilidade de certas moléstias muito antes de se co-
limpeza e religiosidade. As pessoas se mantinham limpas para se apresen- nhecerem suas causas, e se reconhecem algumas doenças comunicáveis
taren1 puras aos olhos dos deuses, e não por razões higiênicas. Egípcios, há muitos séculos.
mesopotâmios e hebreus, e outros povos, davam valor a esses hábitos. Não há dúvida de que epidemias visitaram o mundo antigo repetida-
Um exemplo interessante da conexão entre limpeza e religião é uma mente. JVI. A. Ruffer sugere a possível existência de varíola, no Egito, por
festa quéchua, a citua. A cada ano, em setembro, início da estação chuvo- volta de 1000 a.C.; ele examinou uma múmia, da vigésima dinastia, cuja
sa, o povo, liderado pelo inca, realizava a cerimônia da saúde· além da pele era "a sede de uma peculiar erupção vesicular ou bolhosa, na forma e
o~ação, de oferendas propiciatórias aos deuses, e de outras prá~icas reli- na distribuição geral muito semelhante à varíola". Na !Nada, Apolo lança,
giosas, limpavam-se todos os lares. com seus dardos, uma epidemia sobre o exército acampado diante de
Tróia 1• E o Velho Testamento da Bíblia, no livro I de San1uel, nos conta
34 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA

estar a mão do Senhor contra os filisteus, seriamente atingidos e ((feridos • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 444t+t+t+tt+++++++t+++tt+++t4++


com tumoreS 112 •
Por milhares de anos, se consideravam as epidemias julgamentos divi-
+ II •
nos sobre a perversidade do ser humano. Apaziguando-se os deuses
irados, evitar-se-iam as punições. No Egito, por exemplo, Sekhmet,
deusa da pestilência, provocava epidemias, se irritada, e as extinguia
Saúde e Comunidade
quando acalmada. Essa teoria teúrgica da doença perdurou por vários no
milênios. :tvfas a seu lado se desenvolveu, aos poucos, a idéia de dever..se
Mundo Greco-Romano
a pestilência a causas naturais, ligadas, em especial, a clima e ambiente
físico. Essa grande liberação do pensamento teve lugar na Grécia e • • • • • • • • • +4 + •• +. +. + +. ++ + t. ++++ t. 4 ++ ++ •• + • • • • + ••• +. +. + + •••• ++

culminou, durante os V e IV séculos antes de Cristo, nas primeiras


tentativas de Se criar uma teoria científica, racional, a respeito da causação
de doença. Isso não implica dizer que o pensamento médico grego esti...:
vesse completamente destituído de aspectos religiosos. !vlais e mais, GRÉCIA
porém, os grandes médicos e pensadores da Grécia se orientaram segun-
do o mundo natural. PROBLEMAS DE DOENÇA. Os primeiros relatos nítidos acerca de
doenças agudas comunicáveis ocorrem na literatura da Grécia clássica.
NOTAS DO TRADUTOR Tucídides 1 narra de 1nodo vívido uma epidemia, em Atenas, no segundo
1 Na !!fada, Canto I (41-67), Apolo lança suas setas sobre um exército acampado, ano da guerra do Peloponeso 2• Curiosamente, no entanto, a maioria das
matando primeiro mulas e cachorros e depois homens e mulheres; é a peste. doenças transmissíveis parecem ausentes nos escritos do Corpo Hipocrá-
2 Samuel I, 5 (6). tico3. Não se mencionam varíola, ou sarampo, nem_ há referência segura a
difteria, varicela ou escarlatina. A grande peste de Atenas não aparece nos
escritos hipocráticos. !vias, no livro conhecido con1o Epidemias I, existe
uma inconfundível descrição clínica da caxumba. Nas obras hipocráticas,
a atenção se concentra, mormente, em doenças endêmicas, entre as quais
resfriados, pneumonias, febres maláricas, inflamações dos olhos, e várias
moléstias não identificadas.

DIFTERIA. A literatura ~édica clássica contém numerosas referências


a graves dores de garganta que muitas vezes se terminavam em morte.
Devido à ambigüidade dos termos empregados, no entanto, é difícil
asseverar qual a doença envolvida. Aplicava-se a palavra grega kj•?l012che 4 a
várias formas de doença inflamatória aguda da garganta e do laringe,
caracterizadas por dificuldades de engolir e de respirar, que chegavan1 à
sufocação. Angi11a5 era o termo equivalente em latim. Ainda que sejamos
incapazes de tirar alguma conclusão definitiva louvando-nos nos sintomas
descritos, é possível incluir a difteria 6 entre essas formas.
Vários tratados hipocráticos oferecem relatos aterradores que sugerem
difteria e suas seqüelas. Em Epidemias 11, o escritor 1nenciona certas
complicações da kj;nanche, entre as quais voz anasalada, dificuldade em
:---------------------------"------ ---------
36 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA SÁUDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO 37
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~ng~l~r, saída de fluido pelas narinas durante a ingestão de líquido e nes Laércio 10 , Empédocles livrou de uma epidemia o povo de Selinute,
1~1abrhdade para ficar de pé. Duas afirmações presentes na coleção aforís- na Sicília, desviando dois rios para os pântanos, com o intuito de prevenir
tlca Sobre a Dentição parecem sugerir difteria; em uma se diz que "em a estagnação das águas e salubrificá-las.
casos de amígdalas ulceradas, a formação de uma membrana semelhante
a uma teia de aranha não é um bom sinal" (XXIV). Em outra, "úlceras em A NATUREZA DA DOENÇA. Os grandes médicos da Grécia eram tam-
amígdalas, que se espalham até a úvula, alteram a voz dos que se recupe- bém filósofos naturais. Eles não tinham como objetiv.o apenas lidar com
ram" (XXXI). Esses comentários talvez se refiram à difteria c à voz problemas de saúde, mas desejavam também sondar a constituição do
anasalada típica da paralisia diftérica. universo e entender as relações entre homem e natureza. Apoiando-se no
Embora haja dúvida quanto à presença da difteria nos escritos hipo- raciocínio filosófico, e em observações empíricas, e respondendo a neces-
cráticos, pode-se identificar, com mais certeza, o quadro clínico da Ul- sidades práticas, os gregos desenvolveram concepções e explicações na-
cera egípcia, ou síria- descrito por Areteu, o Capadócio7, no século II turalistas acerca da doença, atribuíram saúde e doença a processos natu-
d.C. - , como difteria. Ele apresenta uma descrição clara de uma séria rais. Assim, o autor da obra hipocrática A Doença Sagrada (provavelmente
doença inflamatória da garganta, que acomete, em particular crianças, a epilepsia) diz, no início de seu texto, "não é, em minha opinião, mais
e se ~campanha de formação de uma membrana esbranquiçada, oU des- divina ou sagrada do que outras doenças, mas tem uma causa natural...". A
colonda, sobre a garganta; essa membrana pode-se estender até a boca, falta de saúde originar-se-ia da desarmonia entre homem e ambiente.
ou descender até a traquéia, causando dificuldade de respirar ou sufo-
cação. Areteu diz ser a doença originária do Egito e da Síria, em particular ARES, ÁGUAS E LUGARES. A crença na harmonia entre homem e
da Celesíria; por isso o nome úlcera egípcia ou síria. Anotou, ainda, ambiente se evidencia muit~ no livro hipocrático Ares, Águas e Lugares~ 1 •
que, em casos muito graves, antes da ocorrência de morte advinham Nunca é demais superestimar essa obra, o primeiro esforço sistemático
regurgitação de alimentos e bebidas através das narinas, rou~uidão, per- para apresentar as relações causais entre fatores de meio físico e doença
d.a da fala e grande dificuldade de respirar; a morte aliviava esses pa- e, por mais de dois mil anos, o texto epidemiológico essencial, o sustentá-
Cientes. culo teórico para a compreensão das doenças endên1icas e epidêmicas.
Esse autor, quase sem dúvida, observou casos de difteria e assinalou A esse respeito, não se deu nenhuma mudança fundamental até o final do
várias de sttas seqüelas. A doença parece ter sido endêmica na área do século XIX, quando as novas ciências da Bacteriologia e da Imunologia se
Mediterrâneo, ocorrendo na Itália, na Grécia, na Síria e no Egito, em instituíram.
especial em torno de suas costas leste e sudeste. O autor de Ares, Águas e Lugares reconhecia a presença contínua de
certas doenças na população; chamava-as e11dêmicas, termo que ainda
MALÁRIA. A malária8 era muito familiar aos médicos gregos do século V usamos. Sabia, ainda, que a freqüência de outras doenças, nem sempre
a.C. Re!erências a febres maláricas são abundantes nos escritos hipocráti- presentes, por vezes aumentava em demasia; chamou-as epidêmicas, um
cos, CUJOS autores conheciam a periodicidade das febres, falavam em termo também corrente. No livro, tenta-se responder à pergunta: "Quais
terçãs e quartãs e se referiam ao caráter benigno da última. É notável a são os fatores responsáveis pela endemicidade local?". Os oito parágrafos
o_,bservaçã~ de serem as crianças, nas áreas endêmicas, as mais atingidas. introdutórios apresentam e resume:m esses fatores essenciais: clima, solo,
Esses escntores observaram, e anotaram, o caráter sazonal da doença e água, modo de vida e nutrição.~
também as conseqüências negativas de primaveras úmidas e verões se-
cos. Associaram, ainda, pântanos e febres maláricas, embora entendessem COLONIZAÇÃO E ASSISTÊNCIA MÉDICA. Ares, Águas e Lugares não é,
mal essa relação e pensassem se1: a causa das febres a ingestão de água no entanto, apenas um tratado teórico; possui também un1 aspecto muito
pantanosa. prático, e ilumina a atitude das comunidades gregas diante de certos
U~1a história sobre o filósofo Empédocles de Agrigento (c. 504-443 problemas de saúde.
a.~.) mdtca que multo cedo os gregos estabeleceram uma associação l\1ovimentos extensivos de colonização caracterizam a história grega.
raciOnal entre malária e pântanos. Segundo a tradição, relatada por Oióge- antiga. A partir de cerca de 1000 a.C., os gregos se expandiram para leste
38 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA SÁUDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO 39
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e oeste, além da Grécia continental propriamente dita e das costas do livre vontade, oferecer assistência à cidade. f\1as, não sendo licenciados os
E~~u. Plan~a:~m-se colônias nas costas da Tnlcia e do mar Negro, na médicos, como distinguir um profissional competente de um charlatão?
Iraha e.na SicJ!Ia, mesmo na Espanha e na Gália. Ao estabelecer uma nova Ademais, como podia o médico ganhar a confiança do público?
comumdade, necessitava-se garantir não apenas que o sítio satisfizesse As cidades já conheciam médicos de reputação estabelecida. Outros,
e,xigências religiosas e militares, mas também a sua salubridade. Ares, novos para a comtmidade, precisavam ganhar a confiança de seus pacien-
Aguas e Lugares pretende servir de guia nessa matéria. Assin1 , 0 autor tes, de maneira rápida, predizendo o curso futuro da moléstia; se os
aco~1selh~ consultar os médicos, antes de se colonizar um lugar, e subme- eventos confirmavam sua previsão, sua reputação se estabelecia.
ter o carater do solo a uma investigação minuciosa. Consideravam-se A condição social de médico grego, no século V, explica a ênfase no
nocivas. as planícies encharcadas e as regiões pantanosas e supunha-se prognóstico. Ares, Águas e Lugares pretende ajudar o médico a entrar em
que sena melhor erguer as casas em áreas elevadas, aquecidas pelo sol, uma cidade desconhecida, orientando-o a enfrentar as doenças locais e a
para que entrassem em contato somente com ventos saudáveis. fazer prognósticos acertados.
Exi~tia também a int~nção de ajudar o médico a iniciar sua prática em
uma Cidade. d:sc~nhe. .ct?a. Esse propósito se liga à maneira grega de HIGIENE E EDUCAÇÃO EM SAÚDE. Ao longo de sua história, a Medi-
of:r~cer a.ss~stencia
. medrca a seus membros, e às peculiares condições da cina grega nunca se resun1iu apenas à curação. pesde o início, a preserva-
pratica medica no século V a.C. ção da saúde lhe pareceu ser a tarefa mais importante, e os problemas de
Co:no. ~s outras artes e ofícios na Grécia antiga, a 11edicina era uma higiene lhe mereceram muita consideração. Uma velha canção dionisíaca,
v~caça~ .Itmerante. Havia um número pequeno de médicos, e 0 médico da Ática1\ reza ser "A saúde é o primeiro bem emprestado ao homem". O
lu~ocratico,. como outros profissionais, por exemplo 0 sapateiro ou 0 poeta Árifron, em um peã, elogiou "A saúde, o mais velho dos deuses",
artista, praticava seu ofício indo de uma cidade a outra. Nas cidades com quem deseja viver para o resto de sua vida.
~1~nores, só e~s:s profi.ssionais itinerantes prestavam serviços. Ao chegar Para o médico grego, a saúde exprimia a condição de equilíbrio entre as
a Cidade, o medico batia nas portas, oferecendo seus serviços. Se encon- várias forças, ou elementos constituintes, do corpo hun1ano; a perturba-
trava bastante t:abalho, a~ria sua loja (o iatrei01z) 1Z e se estabelecia por un1 ção do equilíbrio resultava em doença. Importava, portanto, manter um
tempo. Comumdades mawres tinham médicos municipais permanentes. modo de vida capaz de reduzir esses distúrbios ao mínimo. Como os
Cerca de 600 a.C., certas cidades' começaram a nomear médicos Se uma elementos eXternos faciln1ente perturbavam a harmonia, n1erecia muita
comunidade desejasse ter um médico, oferecia-lhe um salário a;1 ual e se atenção a influência de fatores físicos e da nutrição sobre o corpo humano.
reunia o dinheiro para pagá-lo através de uma taxa especial· ao fim do Para os médicos, no modo ideal de vida equilibravam-se nutrição, excre-
' Io V, e~s~ procedrmento
s.ecu · se generalizou pelas cidades gregas. ' Garan- ção, exercício e descanso. Além disso, dever-se-ia levar em conta, em cada
tia-se ao medrco algum provento mesmo quando não havia muito traba- indivíduo, a idade, o sexo, a constituição e as estações. Em suma, necessi-
lho. Em larga medida, o médico de comunidade atendia os necessitados. tava-se organizar toda a vida segundo esse fim.
Durante o período helenístico, essa prática era comum em toda região Poucas pessoas, no entanto, podiam seguir esse regime, apenas uma
dominada pela cultura grega. pequena classe que dispunha de lazer- uma classe sustentada por uma
Nun:erosos decreto~ de agra?ecimento testemunham a satisfação das econonlÍa escravagista. Essa higiene era, portanto, uma higiene aristocrá-
:o~umd~~es com murros médteos. O médico municipal não era rico, o tica. A massa do povo, disse o escritor do livro hipocrático Sobre a Dieta,
umco salano de que se tem notícia é de cerca de cento e oitenta dólares "necessariamente deve levar uma vida sujeita aos acasos e, como negli-
~o~ ano. 11u~tos agiam como Damíades, de Esparta, de quem se dizia 'gencia tudo, não pode cuidar de sua sal1de".
nao fazer diferença entre rico e pobre, livres e escravos". Existia um
nível alto de devoção ao dever entre esses homens e muitas vezes SAÚDE OCUPACIONAL. A ênfase em uma higiene aristocrática se
durante epidemias, eles abriam mão de seus salários. A~olônio de 11ileto
1

reflete na falta de atenção aos problemas de saúde dos necessitados de


I lutou contra a peste nas ilhas, sen1 recompensa. E quando todos 0 ~ trabalhar para viver. Alusões à saúde do trabalhador não aparecem com

1--
13
médicos de Cós caíram vítimas de uma epidemia, Xenótimos veio, de freqüência na literatura médica da Grécia clássica; não obstante, ocorriam
40
doeJ1Ças
...................................
........................
·
UMA HISTÓRIA DA.
·
- SAU' DE PUBLICA •
............................................................ . SÁUDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO 41
ocupacwnais Há po . - .
usando uma bandagei;1 de' c r exemp 1oi,.Imagens de tocadores de flauta Todas as cidades antigas dependiam, em algum grau, de poços e
- . ouro em vo ta das bocl J • d ~ ·
mnuto, aparentemente de prevenira djJ - 1ec_1as e os Iabws, no cisternas de água de chuva para se abastecer. Cedo, algumas cidades
evitar uma eventual r~laxação d "ataçao excessiva das bochechas e gregas se determinaram a reforçar esse suprimento com fontes externas.
escravos e convictos labutavam ~~ ~usculos. Nas minas dos gregos, Em algum momento do século VI a.C., a água foi trazida, das colinas até
pobremente ventiladas Ai ld . ~ ngas h~ras ~m galerias estreitas, Atenas, para aumentar o suprimento da cidade. Escavações em Olinta,
uma única r r " ·. . J a ~ssJ_m, nos escntos hipocráticos, só existe datadas do século V a.C., revelaram um elaborado sistema: trazia-se a
e1erenc1a a um mmeJro· u d
chumbo, ou de pneumonia. Antes do. n: ~asa e env:nenamento por água de uma montanha, a dez milhas de distância, e se levava o líquido,
menções comuns à sau'de - I peno o romano nao se encontram por canos, até banheiros e uma fonte pública. O sistema desenvolvido
ocupacwna .
pela cidade de Pérgamo, na Ásia 1v1enor, cerca de 200 a.C., se aproximava
ADMINISTRAÇÃO DA SAÚDE PÚ . ainda mais da prática romana. Nesse caso, estabeleceu-se um aqueduto
dos pelas cidades re BLICA. Os serVIÇOs públicos ofereci- segundo verdadeiros princípios hidráulicos. A fonte de suprimento se
. g gas a seus habitantes variavam nos obj'ef
magmtude, de acordo com 0 tam 1 . ' _ IVos e na situava em um reservatório de alto nível, a uma altura de cerca de mil,
guidade, não há muitas men ões. an lO e_ a nquez~ ~as_ Cid~des. Na Anti- duzentos e vinte pés, no monte Hagios Georgios. Daí se carregava a água,
Saúde Públl"c M I . fç . aos serviços mumciiJa!S hoJe associados à através de um terreno intermediário, mais baixo, até uma cisterna, a
a. as 1av1a unc10 ná · "fi ·
veis pela drenagem e pelo su . nosdespeci Icos, astjwomP6, responsá- trezentos e sessenta e nove pés acima do nível do mar. Outras cidades
pnmento e águ - ·
plo, tinham dez a "' - - a, os atemenses, por exem.:. gregas também desenvolveram sistemas semelhantes. No entanto, mes-
- .S..jtzomt, cmco para Atenas e cinc ·
Cidades do período helenístico I? a ad - . - o para o Pireu. Nas mo reconhecendo essas façanhas, não· há dúvida de que os r01nanos em
e, em geral, mais uniforme com a ~t~mstraçao se tornou mais complexa muito ultrapassaram seus antecedentes.
pra 1ca romana.
Devemos nosso conhecimento do suprimento de água de Roma a um
relato abrangente de Sexto Júlio Frontino (c. 40-104 d.C-)1 9 Depois de
ROMA
servir como cônsul, em 73 e 74, e como governador da Bretanha, Frontino
O LEGADO DA GRÉCIA Qu d R . foi designado comissário de água de Roma, em 97, sob o Imperador
rãneo e assumiu o legado da c ~~ o oma con~UJstou o mundo medi ter- Nerva20• Ele serviu nesse posto até sua morte, em 103 ou 104, e durante
as idéias sanitárias helênicas uNura grega, ~ceJt~u ~ambém a lvfedicina e sua gestão preparou o livro De A quis Urbis Romoe (Os aquedutos da cidade
.. .
G recia - o entanto 1mpnmm às ·d ... f;" . d
seu próprio caráter e as amold ' . I eJas er:eis_ a de Roma). Essa obra é, primari:11nente, uma fonte de informação sobre o
Como clfnicos os romanos nã oudse~~ldo mteresses propnos.
0 passaram e Imitadores do
suprimento de água de Roma. :f\1as é, talnbém, o primeiro relato c01npleto
'
como engenheiros e administradores d . s gregos; mas acerca de um ramo importante da administração da Saúde Pública. E
e de banhos e de . :construtores e Sistemas de esgotos revela, ademais, as motivações e os ideais, as fontes de conduta de um
supnmentos de agua e t ·
_ou ras msta 1ações sanitárias,
ç '

ofereceram grande exemplo a d servidor público zeloso e consciencioso, orgulhoso de que, graças a seus
o mun o, e deixaram sua marca na História. esforços, Roma não só se tornou uma cidade mais lin1pa, e de ar mais
SUPRIMENTO DE ÁGUA E SANE puro, mas também se removeram as causas de doenças responsáveis pela
ábundantes as fontc;s e correntes ~~1ENTO._Segundo Estrahãols, sendo má reputação da cidade.
1

água, de longe, até suas cidad' ~reg~s nao se esforçar~m para trazer Segundo Frontino, por quatrocentos e quarenta e um anos depois da
sistema de aquedutos e d . es. ou e aos romanos mtroduzir um fundação de Roma 21 , os habitantes obtinham água do rio Tibre e de poços
- e supnmento de água organizado.
E ssa a fiIrmaçao carece de r . - O particulares. Em 312 a.C., no entanto 1 o censor Ápio Cláudio Crasso,
deram com os etruscos . p ecisao. s romanos provavelmente apren- construtor da primeira das grandes estradas romanas, a Via Ápia, trouxe a
água à distância Não ~bpotiS tessel povod sabia como transportar e utilizar a água através de um aqueduto. A esse primeiro passo rumo a um supri-
. s an e, evan o-se em conta .. . d
volvimento tecnológico e as realiza ões d os mveis e ~esen­ mento público se sucederam outros. Na época de Frontino, nove aquedu-
romano de suprimento de águ - ç e seus predecessores, o sistema tos traziam água até a cidade, e mais tarde se construíram outros quatro.
a nao encontra paralelo na História. Não se pode precisar a capacidade total desses aquedutos, e as várias
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42 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA SÁUDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO 43
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estimativas diferem muito. Com base em números de Frontino, Ashby restos existentes, torna-se clara a existência, em muitas cidades ao longo
deduziu que o sistema total seria capaz de lançar não menos de duzentos do Império Romano, de sistemas semelhantes. ao de Ro~1~, em~ e~cala
e vinte e dois milhões de galões em vinte e quatro horas. Segundo menor. Em geral, o suprimento de água se destma1~a a predw~ ~ubhcos,
estimativa de F. "'· Robins, os onze aquedutos principais (presumivel- como os banhos e a fontes de rua. Suprimentos particulares extstlam, sob
mente no século III século d.C.) despejariam cerca de quarenta milhões variados graus, ~m diferentes cidades. Em Antióquia, muitas casas _P~rti­
de galões por dia. Como no auge do Império" a população de Roma culares usufruíam desse luxo; Esn1irna desfrutaria das n1esn1as condtçoes.
chegava a um milhão de habitantes, o consumo total seria de no mínimo Vestígios de cerca de duzentos aquedutos romanos ainda existem em
quarenta galões por pessoa a cada dia, e possivelmente mais, 1~Ú1neros nã~ uma área que se estendia da Espanha à Síria, e de Roma ao norte da
inferiores aos das condições modernas; números recentes para um grupo África.
de cidades americanas mostram variações de um mínimo de quarenta e l\1uitas cidades antigas, entre as quais Atenas e Roma, tinhan1 sistemas
cinco a uni. máximo de trezentos e cinqüenta e sete galões, as cidades de esgoto. Cidades avançadas dos períodos helenístic~ ~ roma~o pos-
maiores se situando entre cem e cento e cinqüenta galões por pessoa. suíam um sistema regular de canos, sob as ruas, para ehmmar a agua de
A pureza da água merecia atenção. Em pontos específicos ao longo do superfície e a dos esgotos. Josefo 27 , por exemplo, elogia o moderno
aqueduto, em geral perto do meio e do final, havia bacias de assentarnen- sistema instalado por Herodes 28 en1 Cesaréia. Estrabão anota, com sur-
to (pisciuae) nas quais o sedimento se podia depositar. Em Roma, a água presa, na construção da Nova Esmirna, a ausência de canos, de modo que
alcançava grandes reservatórios (castella) de onde fluía até reservatórios a água dos esgotos corria em valas abertas. . .,
menores, e saía, em canos, para o uso. Por causa da pureza, se reservava a A manutenção e a limpeza dos canos eram encargo dos os/:j11W:m, Ja
água de alguns aquedutos para beber, ao passo que o suprimento de mencionados. Escravos públicos se desincumbiam dessas tarefas e hmpa-
outros, poluídos, servia para aguar jardins. van1, também, as instalações públicas oferecidas por Pérgamo e outras
Inicialmente, a manutenção dos aquedutos e a distribuição da água cidades grandes. .
ficavam sob a responsabilidade dos censores e dos edis. Sob Augusto23 Durante o período republicano 29, o sistema de esgotos r~ma~~ recebra
n01neou-se uma comissão, composta de um curador, de nível consular, e a supervisão de censores. Sob Augusto, nomeara.m-se ~unc10nan~s espe-
dois assistentes, de nível senatorial. Sob Cláudio24, criou-se o cargo de ciais, os atratores a!vei et?iparum Tiberi-i' 0, aos quars se aJuntou, mms tarde,
P1'0curatoraquorum; seus ocupantes, provavelmente, faziam a maior parte um comes cloacarum 31 •
do trabalho administrativo. A comissão dispunha de um quadro perma- Atribui-se a construção do grande esgoto de Roma, a cloaca maxima, ao
nente de, no início, duzentos e quarenta escravos especializados, legados rei romano Tarqüínio Prisco32 ; essa obra, porém, se origina, provaveln1en-
por Augusto; a esses, Cláudio adicionou quatrocentos e sessenta outros. te, dos primeiros tempos republicanos. A cloaca drenava o solo ~ncl:arca­
Entre esses trabalhadores havia pedreiros, ladrilheiros, castellarii, para os do aos pés da colina do Capitólio e o esvaziava no Tibre, onde atm~w dez
reservatórios, vi/fiei para os canos, e supervisores. pés de largura e doze 'de altura. A cloaca maxima ainda é parte do s~ste~a
Existia suprimento geral para fontes, banheiros e outras estruturas de drenagem da moderna Roma, e o sisten1a de esgotos no qual s~ mclma
públicas. Só se podia obter um suprimento privado por meio de uma é tão valioso quanto o suprimento de água romano. Roma d1spunha
permissão imperial. De início, não se atendiam toda~ as seções da cidade; ta1nbém de latrinas públicas, cento e cinqüenta, no mínimo, na 6poc~ de
sob o reinado de Trajano25 , os habitantes da margem direita do rio Tibre Constantino33. Nos quarteirões mais pobres, no entanto, as ruas fedtam
ainda dependiam de poços. Em geral, só havia suprimento particular para por causa do conteúdo dos urinóis, esvaziados dos andares superiores das
cidadãos prósperos, ao passo que os outros empregavam os serviços de casas de cômodos. Apesar das conquistas dos romanos, não se deve
carregadores ou buscavam sua própria água. O usufruto de um suprimen- negligenciar os lados sombrios da saúde pública, visív~is nos.apinha~os
to privado de água dependia do pagamento de uma taxa, ou honorários, ao cortiços; nem sempre se permitia às massas usufrUir das mstalaçoes
tesouro imperial.
26
higiênicas existentes.
Pausãnias , escrevendo no segundo século d.C., via no supriinento
público de água uma das necessidades essenciais da vida civil. Pelos CLIMA, SOLO E SAÚDE. Mesmo antes de o pensamento grego vir a ser
44 SÁUDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO 45
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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dominante em Roma, já se reconhecia a necessidade de se con;truir em devastou a África do Norte, a partir de 125 d.C. Não se conseguiu
sítios salubres. Segundo o arquiteto romano· Vitrúvio Pólio34, usava-se~~ determinar a natureza dessas duas epidemias, nem tampouco saben~os
inspeção do fígado, pelos áugures 35 , com esse propósito. Sacrificavam-se muito acerca da série de epidemias seguintes, no século II, durante o
animais que haviam pastado na terra examinada para o assentamento e se reinado de Marco Aurélio40• Conhecida como pestilência longa, ou anta-
observavam seus fígados; se a víscera se apresentasse amarelo-esverdea- nina~ I, essas epidemias começaram em164 e se este:1deram até 180 d.C.,
da, considerava-se a terra insalubre para o homem. Essa atenção à estreita por todo 0 Império, da Síria ao Ocidente. Ainda se dtscut:_ a n_arur:z~ da~
relação entre ambiente e saúde se reforço~1, mais tarde, com idéias gregas, pestilências, mas suposições contemporâneas sugerem tres dtagnosncos:
assentadas sobre a obra hipócrática Ares, Aguas e Lugares. Vitrúvio, em seu tifo exantemático, peste bubônica ou varíola. Provavelmente se deveu a
livro De Architectttra (Sobre Arquitetura), acentua a importância de se varíola a peste de Cipriano42, de 251 a 266 d.C. Em 312 ocorreu nova e
determinar a salubridade de um sítio e oferece indicações precisas para a grave epidemia da mesma doença.
seleção de lugares apropriados à fundação de cidades e à construção de Sem dúvida também ocorreram, sob forma epidêmica, de tempos en1
prédi~s. Vitrúvio confere, ademais, muita atenção à posição, à orientação tempos, difteria, malária, febre tifóide, disenteria, .e, ;a~ vez, in~uen~~- ~
e ao sistema de drenagem das moradias. tuberculose estava presente no mundo antigo, e Vrtruvw menciona fno
Dignas de nota são as observações empíricas dos romanos sobre a na traquéia, tosse, pleurisia, tísica, cuspir sangue" como "doe_nças que se
relação entre pântanos e doenças, em especial a malária. No primeiro curam com dificuldade" em regiões onde o vento sopra a partir do norte e
século antes de Cristo, Marco Terêncio Varro (116-27 a.C.) 36 havia alerta- do noroeste. Os autores clássicos descrevem várias dores de ga:ganra_ e
d~ C_?ntra constr~ír~m-se fazendas em lugares encharcados, "( ... )porque parece plausível que algumas delas tenham sido causadas por mfec?ao
ah sao geradas dm1mutas criaturas, que os olhos não podem ver e entram estreptocócica. As superpovoadas insularft3, as c~sas de cômod. o. n~s q~a1s o
no corpo através da boca e do nariz, e causan1 sérias doenças". Seu proletariado romano vivia, se prestavam a~muav~lmente a dtfusao de
contemporâneo Vitrúvio e o agricultor Columela37, no século I d.C., doenças transmissíveis. Não obstante, o cuidado dtspensado pela Roma
seguiram essa visão. Vitrúvio, percebeu, ainda, que cidades situadas perto imperial ao suprimento de água, e ao desci_n~.da água d~ esgot~, provavel-
de charcos podem permanecer sadias se se consegue misturar a água mente ajudou a prevenir surtos de febre ttfo_rd~ e ~e- disenten.a. O apreço
salgada à do charco. Hoje se pode entender essa fina observação, pois dos romanos pelo banho, e a conseqüente dtmmmçao do Pedt.culus corpo-
sabemos não se reproduzirem na água salgada certos mosquitos. tis, talvez tenha evitado surtos de tifo exantemático.

DOENÇAS: ENDÊMICAS E EPIDÊMICAS. A despeito das importantes A SAÚDE DOS TRABALHADORES. Os romanos sabiam da relação entre
observações de Vitrúvio, Varro e outros, e das notáveis realizações. dos ocupações e enfermidades. Plínio44 diz que algun~as ?o~nç~s são .~ats
romanos em engenharia sanitária, os problemas de doenças endêmicas e comuns entre os escravos. Vários poetas fazem referencias mc1denta1~ aos
epidêmicas de Roma se assemelhavam aos de outros povos da bacia do perigos de certas ocupações. l\1arcial45 menciona as do_enças ~Jecuhares
~editerrâneo. Roma vivenciou irrupções epidêmicas de doença em vá- aos que trabalham com enxofre; Juvenal46 ~ala das ve1a: vancosas dos
nas épocas de sua história, desde 707 a. C. até o tempo de Justiniano3B. áugures e das doenças dos ferreiros; e Lucrécw47 se refere a dura sorte dos
Infelizmente, a informação existente é inadequada, sendo impossível mineradores de ouro.
sugerir um diagnóstico para a doença, ou doenças, responsável, ou res- Em verdade há mais referências a mineiros do que a qualquer outro
ponsáveis, pela maioria dessas epidemias. Em certas instâncias, é possível grupo ocupacio,nal. Vários autores comentam a palidez da com~Jl_eição . .~o
arriscar uma suposição, e ao menos em uma epidemia se pôde reconhe- mineiro. Lucan 0 4S fala do pálido buscador de ouro, das Astunas. S1ho
cer, como peste bubônica, a doença que devastou o Império Oriental e só Itálico procônsul durante o reinado de Vespasiano49 , se refere ao av~rento
encontrou rival, em gravidade, na tvforte Negra. No entanto, com Justi- ' pálido como o ouro que arranca da terra. Qua~ dE'·oD
asturiano, ~ ~ stac10 , que
niano já chegamos ao limiar da Idade Média. viveu no tempo de Domiciano5 \ iguala a lividez do mme1ro, ao :et. .~rnar
Imediatamente em seguida à erupção do Vesúvio, em 79 d.C., uma do seu labor, à do ouro que ele coleta, repercute essa. n1esma 1~e1~. A
intensa epidemia se espalhou pela Campanha39 romana e uma pestilência palidez assinalada por essas citações como característica dos mme1ros
46 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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espanhóis, devia-se, provavelmente, à pobre ventilação das minas. É que eles recebiam de quem pudesse pagar, mas esperava-se tratassem de
ta~bém possível que estivesse ligada à ancilostomíase (amarelão), hoje graça os que não o pudessem. Eram estimulados, ademais, a assumir a
existente na Espanha e talvez também em tempos antigos. preparação de estudantes de Medicina.
52
Galeno tinha experiência pessoal dos riscos ocupacionais dos mi- Na Roma imperial havia várias formas de assistência médica, além da
neiros. Em ~ma d~ suas viagens, ele visitou a ilha de Chipre e por al- oferecida pelos clínicos municipais. l\1uitos médicos exerciam uma práti-
gum ten1po mspecwno11 as minas das quais se retirava sulfato de cobre. ca privada. Havia tan1bém outros grupos de assalariados, ligados à corte
Os mineiros trabalhavam em nma atmosfera sufocante e Galena men- imperial, e outros, às escolas de gladiadores ou aos banhos. Quando foi
ciona ter sido ele mesmo quase subjugado pelo fedor. Os trabalhado- imperador (222-235 d.C.), Alexandre Severo organizou o serviço médico
res encarregados de levar o fluido vitriólico para fora da mina o faziam 0 da casa imperial. Em alguns casos, médicos se ligavam a fan1ílias, que lhes
mais rápido possível, para evitar a sufocação. Galena relata ainda traba- pagavam uma son1a, anual, pelo atendimento durante o ano inteiro.
lharem os mineiros despidos, pois os vapores vitriólicos destruíam suas Outra importante contribuição de Roma romana à assistência médica
roupas.
organizada é o hospital. latreia, ou salas de cirurgia, eran1 comuns entre os
Nada se fazia para proteger esses trabalhadores; parece, no entanto, gregos, como lojas ou consultórios dos médicos individuais. Templos,
qu_e eles_ mesmos se ajudavam. Usavam-se respiradores primitivos· para como o de Asclépio, em Epidauro 55 , ofereciam acomodações para os que
e'~lt~r a Inalação de poeira. Plínio menciona o uso, por refinadores de procuravam ajuda junto aos deuses. Durante a República, os romaüoS não
m1mo, de membranas de pele de bexiga, como máscaras. Júlio Pólux dispunhan1 de mais nada. No século I d.C., no entanto, Columela men-
(124-192 d.C.) narra que os mineiros de sua época se cobriam com sacos e ciona a existência de valetudi1lari.a, ou enfermarias, para escravos, e Sêne-
~apas, ou se valiam de bexigas para tapar suas bocas e se proteger contra a ca56 nos relata usarem os romanos livres essas instalações. Escavações em
malação de poeira. Pompéia parecem indicar que os clínicos privados dispunham de algo
como uma moderna casa de convalescença, ou de enfermagem. Algumas
A ASSISTÊNCIA MÉDICA. Os romanos realizaram pouco em teoria e passagens de Galena parecem sugerir, nas províncias, a transformação de
prática Il_lédica~; s~a contribuição para a organização dos serviços médicos estabelecimentos Privados em hospitais sustentados por fundos públicos.
teve mmto mawr Importância. A criação de hospitais públicos para civis encontra paralelo na institui-
Nos primeiros dias da república romana, a :rvledicina esteve, principal- ção de hospitais militares em pontos estratégicos. Nesses acampamentos,
mente, n~s mãos dos sacerdotes. Praticavam-na os escravos e, mais tarde, ou em cidades provinciais próximas, criaram-se também, para os oficiais
h?mens hvres. Os médicos gregos começaram a migrar para Roma no do império e suas famílias, instituições similares. Eventualmente, sob a
seculo li! a.C. e logo passaram a ser muito requisitados. Depois de 91 influência do cristianismo, razões humanitárias influenciaram no surgi-
a.C., mé~ic. o~
. estiveram s:mpre presentes em Roma. Durante a Repúbli- mento de hospitais públicos em muitas localidades. Uma 1nulher cristã,
ca, e no lniCIO do Impéno, no entanto, o conhecimento e a técnica da de nome Fabíola, estabeleceu a primeira instituição de caridade em
:rvle;dicina beneficiavam apenas os abastados; os pobres se confiavam à Roma, no século IV. A fundação, durante a Idade Média, de hospitais
rp.edicina folclórica popular e aos deuses. para pobres e indigentes nasceu das va!etudinaria romanas.
No século II d.C., porém, criou-se um serviço público. Nomearam-se
m~dicos públicos, conhecidos como archiatrf53, para várias cidades e insti- BANHOS, ALÉM DE PÃO E CIRCO. 0 apreço dos romanos pela higiene
tUições. Essa prática se espalhou da Itália à Gália, e às outras províncias. pública e particular se revela não apenas nos vestígios dos sistemas de
Por volt;' de 160 d.C., Antonino Pio 54 regulamentou a nomeação desses água e esgoto, mas também nos dos banhos. Durante o Império havia o
ofi~1a1s n1edtcos. Ele decretou que as cidades grandes não deviam ter costume de se ir aos banhos regularmente. Os maiores são os banhos de
mats do qu~ dez médicos municipais, e as médias e as pequenas, não mais Caracala, também um ponto de encontro para vadios e atletas. Junto aos
do que sete e cinco, respectivamente. banhos havia restaurantes~ e existiam salas para banhos frios, mornos e
Esses médicos tinham como principal função a de atender aos cidadãos quentes, e para massagens.
pobres. Os decuti01~es, ou conselheiros, fiscalizavam seus salários. Parece Em 33 a.C., Agripa promoveu um censo dos banhos, e contou cento e
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UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA .......................................................................................................................
SÁUDE E COMUNIDADE NO MUNDO GRECO-ROMANO
.
6 A palavra portuguesa difteria vem do grego diphtem, membrana.
setenta. O número cresceu constantemente e mais tarde se aproximou de
7 Are teu, o Capadócio (c. 80-138 d.C.). Estudou Medicina em Alexandria. Restam-nos
mil. Cobrava-se, em geral, meio centavo, e as crianças entravam de graça. duas de suas obras, cada uma em quatro livros: Dos Causas e Si11ais das Domços
Até a época de Trajano não se proibia o banho misto, embora existissem Agudas e Crô11icns e Da Tempêulica das DoCilft7S Agudas e Crô11icas.
bo!neae só para mulheres. Entre 117 e 138 d.C., um decreto de Adriano57 8 A palavra portuguesa malária vem do italiano ma/mia, ar insalubre, de mala, má,

separou os sexos. Nos últimos anos do Império, muitas práticas anti- insalubre e ario, ar. A palavra grega para mahlria é elo11osio, de elos, pântano e uosos,
higiênicas, como por exemplo comer demais e beber, aconteciam nos doença.
9 Empédocles de Agrigento. Ver em "Figuras :tvlemoráveis".
banhos. !'/[as, no geral, essa instituição trouxe imensos benefícios ao povo 10 Diógenes Laércio viveu na segunda metade do século III d.C. Escreveu Yitae
romano. A higiene pessoal fazia parte da agenda diária, e era acessível ao Philosophomm (Vidas de Filósofos).
mais humilde romano. 11 Aerou Hidro11 Topou, na língua grega.
12 O médico, na língua grega, é o intrós; o lugar onde o iotrós exerce sua profissão é o

ADMINISTRAÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA. Apenas sob Augusto a admi- iatreio11.


13 Cós, a cidade natal de Hipócrates, é a segunda maior ilha do Dodecaneso, um
nistração dos vários serviços públicos de saúde se oro-anizou em um
. b arquipélago grego a sudeste do mar Egeu.
sistema. Durante a República, por exemplo, nenhum departamento per- 14 O adjetivo ático se refere a Ática, a Atenas, aos atenienses.
manente se responsabilizava pela manutenção dos aquedutos, que foram l5 Peri Dioites, na língua grega. Dieta, em grego, significa regime, 01,1 modo de vida.
dilapidados. 16 Aslytwmi (osly, cidade e 11emei11, governar), palavra grega, significa astí11omo, em

Augusto criou uma Câmara de Água para cuidar do suprimento de porwguês. Ou seja, aquele que governa, ou protege, a cidade.
17 O período helenístico se estendeu da conquista da Ásia por Alexandre, o Grande
água. A inscrição em uma moeda de prata, Af'Acilius triumvirvaletudiuisSB,
(356-323 a.C.), até a conquista da Grécia pelos romanos e início do Império Romano,
indica a existência de uma comissão de saúde com uma função específica.
em27 a.C.
Havia, ainda, oficiais próprios para os banhos. Agripa, ministro de Augus- 18 Estrabão (c. 63-c. 24 a.C.). Geógrafo e historiador grego.

to, foi edil em 33 a.C. Tinha como deveres a supervisão dos banhos 19 Frontinus (ver Figuras Memoráveis).

públicos, incluído o teste dos aparelhos de aquecimento, e a limpeza e o 20 Marcus Cocceius Nerva (c. 32-98). -Imperador de 96 a 98.
21 Considera-se que se fundou Roma por volta de 750 a.C.
policiamento. No tempo de Nero 59 , os aediles supervisionavam a limpeza
22 O Império Romano se estendeu de 27 a.C. a 476 d.C. Seu auge se situou nos dois
das ruas, pelas quais se responsabilizavam os proprietários das casas.
primeiros séculos _da era cristã.
Cabia-lhes, ainda, cuidar das ruas e mantê-las planas. Controlar o supri- 23 Augustus Octavianus (63 a.C.-14 d.C.). Primeiro imperador romano (27 a.C.-14 d.C.).
mento de alimentos também era função dos edis; eles inspecionavan1 os 24 Tiberius Claudius Drusus (10 a.C.-54 d.C.). Imperador de 41 a 54 d.C.

mercados e tinham o direito de proibir a venda de gêneros estragados. A 25 Marcus Ulpius Trajanus (56-117 d.C.). Imperador de 98 a 117 d.C.
26 Pausânias (143-176). Viajante e geógrafo grego.
máquina criada por Augusto e seus sucessores para manter e administrar
27 Flavius ]osefus (37-c. 96 d.C.). Historiador judeu.
os serviços públicos no interior do Império absorveu essas funções.
28 Herodes (c. 73-4 a.C.). Rei da Judéia de-37 a 4 a.C.
Entre as glórias de Roma esteve a criação de serviços públicos de saúde 29 A República Romana durou de cerca de 509 a.C. a 27 a.C., quando se iniciou o
em um sistema administrativo eficiente. Esse sistema continuou a fun- Império.
cionar mesmo quando o Império decaiu e se desintegrou 60• 3°Cumtot7!S uivei e ripnmm Tiberis. Em latim, zeladores, ou administradores, dos canais

e das margens do Tibre.


31 Comes cloacorum. Em latim, atendentes, ou zeladores, das cloacas.
NOTAS DO TRADUTOR
1 32 Tarquinius Priscus foi o quinto rei de Roma. Etrusco.
Tucídides (c. 471-c. 399 a.C.). Historiador e estadista ateniense.
2 33 Constantino I, Flavius Valerius Aurelius (c. 280-337). Fez do Cristianismo a religião
A Guerra do Peloponeso se estendeu de 431 a 404 a.C. e opôs Atenas e Esparta.
3
O Corpo Hipocrático (Corpus Hippocraticum) é a coleção onde se reúnem os oficial do Império romano sendo, assim, o primeiro imperador cristão de Roma.
34 Marcus Vitruvius Pollio. Arquiteto, engenheiro militar e escritor do século I a.C.
escritos atribuídos a Hipócrates e a seus discípulos. Esses escritos começaram a ser
35 À inspeção do fígado dos animais pelos áugures se denomina otitspicaçiio.
reunidos na Biblioteca de Alexandria, no século II a.C. Hipócrates de Cós (c. 460-
36 Varro (ver Figu!as Memoráveis).
377 a.C.), é considerado o Pai da Medicina.
4 37 Lucius ]unius Moderatus Collumella. Sábio agrônomo e agricultor, dono de vastas
K.J'flmlche é uma palavra grega e significa coleira.
5 A11gino é uma palavra latina e vem do verbo a11gere, apertar. extensões de terra. Viveu no século I d.C. Escreveu De Re Rustica (Das coisas do
50 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
························································································································
campo).' em doze livros, a obra mais completa sobre a agricultura que nos legou a
AntJgu1dade.
38 • •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
Justiniano (483-565). Imperador romano do Orieme, de 527 a 565. Codificou as leis
39
romanas (Código de Justininno).
A Campanha é uma planície que circunda a cidade de Roma.
• III •
:~ Iv1arcus A_urelius Antoninus (121-180). Filósofo estóico. Imperador de 161 a 180. A Saúde Pública
Ess~ ~estJlência se chama OJJIOiÚ!ln. em virtude do último nome do imperador Marco
42
Aureho. na
~ão :ipriano (:00-258). Padre da igreja latina, bispo de Cartago. Mártir quando
~; \ alenan~ (c. 19.:J-c. ~60) era imperador de Roma (c. 254-c. 260). Idade Média
· Insu/ne, Ilhas, em lmnn.
4
~ Gaius Plinius Secundus {23-79). Naturalista romano
(500-1500 d. C.)
Marcos Valerius Martialis (c. 40-c. 100). Epigramist~ ]atino.
45

46
Decimus Junius Juvenalis (c. 60-c. 140). Poeta romano. • •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
~7T" L . .
Itus ucretms Carus (c. 96-55 a. C.). Poeta e filósofo romano. Autor de De Natura
Renm~ (Da Nat~reza das Coisas), poema filosófico em que expõe, em versos latinos, a
•..
9
doutnna de Ep1curo (c. 342-c. 270) , filósofo grego .
marcus Annaeus Lucanus (39-65). Poeta romano. O DECLÍNIO DE ROMA. A desintegração do mundo greco-romano, a
~ Titus Flavius Vespasianus (9-79). Imperador romano de 69 a 79. partir de seu interior e sob o impacto das invasões bárbaras, levou a um
:o Publius Papinius Statius (c. 45-c. 96). Poeta romano. declínio da cultura urbana e a uma decadência da organização e da prática
:: Titus Flavius ~omirianus Augustus (51-96). Imperador romano de 81 a 96. da Saúde Pública. Isso não se pode atribuir apenas à destruição infligida
·· Galena (ver F1guras Memoráveis).
:: Archia':ti, ou ~hefes dos médicos, ou médicos principais, em grego.
às cidades pelas tribos germânicas invasoras; as cidades declinaram em
Anto~mu_s Pms (86-161). Imperador de Roma, de 131 a 161. riqueza e importância mesmo onde continuaran1 habitadas, como na
55
O n;_a1s celebre teJ~p.lo do culto a Asclépio (Esculápio é o nome latinizado), 0 deus- Itália, ou nas antigas províncias do Império.
herm ~re~o da Medtcma, ficava em Epidauro, na Grécia, construído sobre a sepultura Esse processo é muito evidente na própria Roma. Depois de Constan-
do propno Asclépio. A Medicina praticada nos templos de Asclépio era em su tino m.udar-se para Bizâncio\ em 330 d.C., o declínio político e econômi-
essência, religiosa e sacerdotal. À entrada do templo de Epidauro estava gra~ada um:
mensagem: co da cidade se acelerou. Durante os séculos V e VI, Roma sofreu várias
pilhagens e intensas devastações. Em 410 d.C., Alarico2 tomou e saqueou
Puro deve ser aquel~ que entra no templo perfumado. a cidade que havia dominado o mundo. Enquanto sitiada pelos gados, em
E pureza significa ter pensamentos sadios.
537 d.C., danificaram-se os onze principais aquedutos da cidade, que
. Os templos de Asclépio s_e compunham de um santuário (Abato 11), de um bosque depois não receberam reparos e decaíram ainda mais, pois Roma, empo-
~agrad~ e de uma fome de a~ua. No Abato11 os pacientes dormiam 0 sono (enkofmesis, brecida, não tinha n1eios para financiar as obras necessárias. Essa situação
mcubatto) durante o qual havtam de ser curados
56 persistiu até 776, quando o Papa Adriano P iniciou uma restauração
Lucius Annaeus Seneca (c. 3 a.C.-65 d.C.). R.omano. Filósofo estóico estadista e
dramaturgo trágico. ' parcial dos aquedutos.
s; Publius Aelius Adrianus (76-138). Imperador romano de 117 a 138 O destino das instalações de higiene nas cidades provinciais não foi
~ 9 M'Acilius Triumvir Valetudinis (Acilius, um dos três homens da s~úde)
8
diferente: acabaran1 destruídas, ou se arruinaram pouco a pouco.
~ Nero Claudius Caesar Dmsus Gennanicus (37-68). Imperador romano de 54 a 68.
60 Essas mudanças, no entanto não tiveram o mesmo itnpacto em todas
1
O ano da queda do Império Romano, do Ocidente, é 476 d.C. Essa data assinala as partes do Império. Enquanto na Europa Ocidental, sob a pressão da
também o início d.~ Idad~ Média. Em_1453, com a tomada de Constantinopla pelos
rurc~s, e o consequente fm1 do Impéno Romano do Oriente, chega-se ao fim da era
anarquia e das invasões, a máquina do governo ruiu e o declínio econômi-
medteval. co se acentuou, a metade oriental do Império continuou relativamente
inalterada. As prósperas cidades da Ásia Menor, da Síria e do Egito
permaneciam, ainda no século V, quase imperturbadas pelos invasores.
Seus produtos e riquezas continuavam a fluir para Bizâncio. Com o
52 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA 53
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estabelecimento dos reinos bárbaros, a organização administrativa roma- árabe. Por essa época, os árabes, e os que viviam sob o seu regime 7, já
na desapareceu da Europa Ocidental. Em Bizâncio, no entanto, conti- estavam contribuindo, originalmente, para a Jviedicina e a Saúde PUblica.
nuou a existir um governo central capaz de lidar com os complexos No Ocidente, durante o primeiro período medieval - a chamada
problemas de um Estado civilizado. Por outro lado, exceto na Itália, onde "Idade das Trevas" (500-1000 a.C.)- em geral enfrentavam-se os pro-
alguns elementos da organização romana se mantiveram, essa administra- blemas de saUde em termos mágicos e religiosos. FOntes pagãs e cristãs
ção ultrapassava o alcance dos invasores germânicos. forneciam o terreno para o supernaturalismo da Idade JVIédia ocidental.
Em 476 d.C., honve a deposição do último imperador fantoche, no Velhos costumes e ritos pagãos sobreviviam, e eram usados para resolver
Ocidente\ e ao fim do século V o processo de separação de Roma e problemas de saUde dos indivíduos e da comunidade. Ao mesmo ten1po,
Bizâncio se completou. Com a queda do regime romano no Ocidente, e o o cristianismo afirmava a existência de uma conexão fundamental entre
estabelecimento de novas formas políticas, econômicas e sociais, inaugu- doença e pecado: a doença seria uma punição pelo pecado. Considerava
rou-se um novó período: a Idade I\1édia. também, como causas de doenças, a possessão pelo diabo e a feitiçaria.
Em conseqüência, diante de problemas de saUde usavam-se a oração, a
A IDADE MÉDIA. O período chamado pelos historiadores de Idade penitência e a invocação dos santos. No entanto, sendo o corpo o vaso da
Média cobre um lapso de tempo de cerca de mil anos, iniciando-se terca alma, ganhava importância fortalecê-lo fisicame;lte, para que pudesse
de 500 e findando por volta de 1500 d.C. A Idade Média não se revelou suportar melhor os ataques do demônio. Entre esses limites se riloviam a
no entanto, mais homogênea que qualquer outra era histórica. Assim, é d~ Higiene e a Saúde Pública na Idade Média.
extraordinária: importância perceber a imensa diversidade, em tempo e Sob essa luz, não é surpresa realizarem a Igreja e, em particular, as
espaço, incluída no termo "medieval". Nesses mil anos, um agitado ordens monásticas, as atividades comunais de saúde. Na ruína geral da
panorama se estendeu contra o colorido e variegado fundo geográfico, civização greco-romana no Ocidente, os mosteiros eram o Ultimo refúgio
etnológico, político e cultural do palco europeu. do saber. O conhecimento de saúde e higiene sobrevivente se preservou
O mundo medieval enfrentava o desafio de fundir a cultura dos invaso- em claustros e igrejas e foi usado na organização e nas regras das comuni-
res bárbaros com a herança clássica do extinto Império e com os ensina- dades monásticas. Instalações higiênicas importantes, como água encana-
mentos da religião cristã. Esse amálgama dos novos elementos pagãos da, latrinas apropriadas, aquecimento, ventilação própria nos cômodos, já
com a cultura da velha Europa durou muitos séculos e passou por várias existiam no início da Idade Média, sobretudo onde se erigiam grandes
fases. Outrossim, nem tudo que hoje consideramos medieval caracteri- prédios de moradia, segundo um plano uniforme; ou seja, principalmente
zo.u, realme~te, o período inteiro, ou ocorreu em toda a Europa. As nos mosteiros. Localizados em importantes estradas, serviam também
condições e os padrões de saUde, em épocas diferentes, ilustram de modo como albergues para viajantes, cuja recepção representava um ato de
particular essa situação. caridade cristã. Todas essas circunstâncias levaram, já no século IX, ao
A Roma Oriental, ou Império Bizantino, conservou a tradição e a aparecimento de mosteiros com .um nUmero muito grande· de recursos
cultura de Roma, e assim a perspectiva do mundo clássico pôde sobrevi- higiênicos. Essas construções, sem dúvida, serviram de modelo para as
ver no ambiente medieval. Com a transferência do centro de cultura para comunidades urbanas que, por volta do século X, começaram a se desen-
o leste, Bizâncio, ou Constantinopla, como passou a ser nomeada a cida- volver na Europa.
de, tornou-se também a sede da cultura médica da Europa. Assim o
legado greco-romano se preservou e a partir desse centro transmitiu-se, O CRESCIMENTO DAS CIDADES. As origens das cidades medievais
primeiro aos árabes, a leste, e depois aos povos do oeste. variaram. Umas se desenvolveram de antigas colônias romanas, outras se
Os árabes se iniciaram no reino da filosofia e da ciência gregas por meio ergueram nos vaus de rios ou em importantes rotas comerciais. Outras,
de traduções sírias, preparadas por cristãos nestorianos 5 ou monofisistas 6• ainda, floresceram em torno de sÇSs episcopais fortificadas, ou de castelos
Expulsos do Império Bizantino por causa de suas heresias, esses sectários de senhores feudais, poderosos o suficiente para protegê-las contra ini-
vieram a se instalar na Pérsia. No século X, todos os escritos médicos mrgos.
gregos essenciais tinham sido traduzidos para o sírio, o hebraico ou o Toda cidade tinha necessidade de se defender da agressão, pois sua
54 A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA 55
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UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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seg:1r.ança dependia de seus cidadãos e das fortificações circundantes. sistema incluía uma rede completa, pois condutos subterrâneos supriam
Mmtos problemas de saúde pliblica resultavam da circunstância de ser a fontes píiblicas, e outras vazões, em cruzamentos de ruas importantes.
cidade incapaz de acomodar, no interior de suas paredes fortificadas, uma Colhia-se o líquido em um reservatório fora da cidade e se a conduzia até
população crescente. As fortificações, necessárias para proteger a vida e a a Casa da Água; levava-se a água, então, até uma cisterna, no alto, por
propriedade, dificultavam a expansão urbana e tornavam imperioso usar a meio de uma cadeia de baldes sobre roda, método antigo já usado no
terra por trás das paredes ao máximo possível. Como resultado, deu-se a Egito e em Roma. Canos a conduziam até cisternas, na cidade.
aglomen1ção característica das cidades medievais. Garantir a pureza da água necessária para beber e cozinhar se revelou
A maioria dos habitantes das cidades, além disso, conservou por um um constante problema das autoridades municipais. Quando se colhia
longo tempo hábitos da vida rural. Por exemplo, mantinham-se dentro da água de rios, pedia-se aos cidadãos para não lançar animais mortos, ou
cidade animais grandes e pequenos e se ajuntavam montes de excremen- refugos, na corrente. Não se permitia aos curtidores lavar suas peles no
tos onde houvesse espaço. Por muito tempo as ruas não tiveram calça- rio, proibia-se aos tintureiros de vazar nessa água os resíduos de corantes,
mento e receberam toda sorte de refugos e imundícies. Diante desses, e como também a lavagem de linho ou roupas (Douai, 1271; Augsburgo,
de outros problemas relativos à saúde da comunidade, todas as institui- 1543; Roma, 1468). Para a provisão de água de beber, distribuían1-se, ao
ções necessárias a um modo de vida higiênico precisaram ser recriadas longo da cidade, poços, em torno dos quais se centrava a multifária
pelas municipalidades medievais. Nesse meio urbano a Saúde Pública na atividade do povo. Em algumas partes da Europa, em especial na Alema-
teoria e na prática, reviveu. E evoluiu. , nha e na Itália, essas fontes tinham grande beleza e várias cidades as
elegiam como seus sinais distintivos. l\1as tambén1 aqui a administração
PROBLEMAS SA.I\IITÁRIOS DA VIDA URBANA. Como aconteceu nas municipal precisava prestar atenção constante ao probkma da poluição.
primeiras comunidades, oferecer aos habitantes um suprimento adequa- Regulamentos, e severas penalidades, surgiram, em sucessão rápida, para
do de ~gua se apresentou como tarefa urgente da cidade medieval. De disciplinar essas matérias. E se tornaram a base de um código sanitário
início, cisternas, fontes naturais, poços cavados, representaram as únicas oficial. Na maioria das comunidades nomeavam-se, ou elegiam-se, ofi-
fontes. Quando o suprimento se mostrou insuficiente, tornou-se indis- ciais específicos para cuidar do suprimento de água. Em Bruges, o zelador
pensável assegurar novas, mesmo à distância. da Casa da Água jurava ser diligente e consciencioso, vigiar tudo que dizia
No Oriente, onde o grau de continuidade com a civilização romana se respeito ao suprimento e nunca, em nenhuma circunstância, divulgar
conservava maior do que no Ocidente, o uso de água encanada apareceu seus segredos.
antes. Ao. término ~o século IX, o sultão Ahmed, do Egito, trouxe água Outros problemas eram a limpeza das ruas e o destino do lixo. Remo-
para s~1pnr a nova crdade do Cairo: seu engenheiro, Ibn Katib ai Faighani, ver o lixo revelou-se desafio importante de higiene, de difícil solução
um cnstão, conduziu o líquido através de um aqueduto arqueado, de um técnica no período medieval. Não se deve esquecer que nas casas medie-
poço profundo cavado no deserto, ao sul. vais se ajuntavam muito mais refugos do que em uma casa moderna. O
No Ocidente, em especial no início da Idade :Média, essas atividades modo de vida na cidade ainda não se afastava muito da vida no campo e,
resultavam, muitas vezes, da iniciativa eclesiástica ou monacal. South- no começo, as casas urbanas se assemelhavam às da aldeia. Além da
ampton, na Inglaterra, recebeu em 1290 um suprimento de água para o abundância de refugos, o fato de muitos habitantes criarem grande quan-
uso de um convento de franciscanos. Vinte anos depois, os frades conce- tidade de animais- como porcos, gansos e patos -representava outra
deram à cidade o uso da água excedente. Em meados do século XIII no causa relevante do aumento da sujeira das ruas. Em Paris, o palácio real, e-
entanto, Dublin, já se vangloriava de possuir um suprimento custe~do também inúmeras casas particulares, tinham estábulos. Só no início do
pelos cidadãos. Talvez se tenham usado canos de chumbo, embora eles século XV, em várias cidades alemãs, como Breslau e F'rankfurt, proibiu-
não sejam mencionados, com certeza, antes do século 1..~1. Usaram-se se a construção de chiqueiros de porcos de frente para a rua. Proibição
também condutos de pedra e canos de madeira, os últimos em Basiléia, semelhante só se promulgou em Berlim, em 1641. Por vezes, a ilnundície
em 1266. Um belo exemplo de um sistema de suprimento de água assumia proporções tamanhas que padres não conseguiam oficiar cerimô-

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nias e funcionários municipais não podiam con1parecer a.reuniões.
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56 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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Aluta ~as autoridad~~··:;~~:~·i·~~~~·~~·~··~~~~~;~·~~~~·-~~~·~·~·~~:·~~ ..;~~~~~..~~~ Proibia-se lançar refugos a menos de mil passadas 9 do mercado, e uma
gr~nde numero de regulamentos e editos, e, também, nos repetidos rígida sanção recaía em quem transgredia essa regulação.
av~sos, ameaças e apelos dirigidos aos cidadãos. Houve, ademais, várias O vigor da inspeção dos alimentos nas comunidades medievais é un1
a?o_es ~e resultados positivos. Algumas cidades criaram matadouros mu- aspecto impressionante da administração de Saúde Pública. _Ao mes_mo
lllclp:ts, _a que a mata~1~a dos animais maiores se restringiu. A mais antiga tempo, é notável que, em geral, só se protegesse o consumtdor nanvo.
referenc1a a essa matena está contida em um documento de Augsburgo Caveat emptor (o comprador que se cuide) continuou a ser a regra para
datado de 1276. ' estrangeiros.
_ Introduziu-s_e a pavimentação das ruas, com a finalidade de mantê-las Eis uns poucos exemplos das inumeráveis regulamentações referentes
hmpas, em Pans, em 1185. Praga viu as primeiras ruas calçadas em 1331 aos alimentos. Em 1276, Augsburgo ordenou a venda da carne considera-
Nurembergue em 1368, Basiléia em 1387, Augsburgo em 1416. ' da suspeita, em uma bancada especial. Em Basiléia, no início do sé~ulo
A canalização, ou seja, o escoamento dos dejetos para pOços cobertos XIII, vendiam-se restos de peixe, em uma bancada onde se negociava
representou outro passo importante. Em Paris, se exigia a existência e~ alimento de qualidade inferior, só para estrangeiros. Em Zurique, ein
toda ca~a grande, de um_cabinet d'aisancrfl destinado a drenar os dejeto~ até 1319, ordenava-se aos peixeiros se livrarem, ao anoitecer, d~ ?eixe morto
~s canais. Se~eras pet~al_Id~des agu~rdavam os que não respeitassem a lei. que não tivessem conseguido negociar. Os florentinos prOibiam vender,
Em o_:denaçoes mumctpais de hiftlão, do século XIV, merecem muita às segundas-feiras, carne posta à venda no sábado precedente.
atençao es?otos e cloacas, a serem construídos em lugares aprovados Nessa área, no entanto, con1o em outras, o cenário medieval tinha lados
pelas autondades, e cavados até uma profundidade em que não emitis- sombrios e lados luminosos. Certas cidades, como Estrasburgo, ein 1435,
sem o mínim~ o~or. Em Londres, lançavam-se os esgotos no rio Tâmisa. enviavam para hospitais a carne de animais doentes. Não obstante, essas
J\ifas, sendo hm1tada a capacidade de depuração do rio, uma série de aparentes inconsistências não devem causar muito espanto. Em especial
ordens e regulamentações, a partir de 1309, indica a necessidade contínua se tivermos em mente se sustentarem essas medidas não no moderno
de se r~solver melhor o problema. No entanto, mesmo quando se contra- conhecimento científico, mas em observações empíricas e teorias médi-
taram limpadores de rua para retirar da cidade entulhos e imundícies cas originárias do saber da Antiguidade clássica.
us...an?o-se carroças, os habitantes continuaram a jogar refugos no ri~
Tamtsa. · DOENÇAS. Como uma espada de Dâmocles 10 , a doença pendia acima
da cabeca do homem medieval. Duas epidemias marcam o começo e o
A PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR. A vida urbana na Idade Média se ocaso d;ldade Média: a peste de Justiniano (543) e a Morte Negra (1348).
c?~1centrava em torno da praça do mercado. Aí, política, comércio, reli- Entre essas duas datas, maiores ou menores surtos de doença visitaran:, e
g~ao, art~ s: ~ncontravam e se misturavam. Reuniões sociais, conspira- arruinaram, a Europa e o litoral mediterrâneo. Lepra, peste bubô~tca,
çoes, ce:rmomas solenes e todas as demais manifestações de vida pública varíola, difteria, sarampo, influenza, ergotismo, tuberculose, escabwse,
ac~ntec1am nes.se palco. Oferecia-se à venda uma larga variedade de erisipela, antraz, tracoma, miliária e a mania dançante poden1-se identi-
a:ng~s, como ahmen_tos, roupas, sapatos, cerâmica, artigos de couro. Em ficar.
vtrtu_àc d~ crença difusa de que perigosos focos de doença poderiam O medo da pestilência não abandonava a mente do homem tnedieval.
surgir, rap~damente, en: lugares de venda de alimento, em especial estra- Esse temor, no entanto, não o levava à passividade. Agindo segundo a
gad_o, havta gr_ande cmdado em se mant~r o mercado limpo. Por essa mentalidade reinante, ele tet~tava proteger-se. Assin1, suas medidas de
razao, as autondades municipais se preocupavam em policiar a praça do proteção resultavam da união de idéias médicas e religiosas.
mercado e e~ proteger os cidadãos contra a venda de alimento adultera- Não há nenhuma dúvida quanto à existência de varíola 11 na Idade
do, ~u detenorado. Em Florença, por exemplo, ao anoitecer os mercados Média. Um tratado de Razes (850-923) 12 , do início do século X, contém a
prect~avam estar li~res de ossos, e outros restos. Toda noite de quinta e primeira descrição da moléstia. J\1esmo considerando-os parte de um
nas vesper~s ~e fenados religiosos, mesas, bancos e barracas tinham q~e único processo mórbido, ele distingue varíola e sarampo. Razes alude à
de ser removidos: de modo a se poder limpar c01npletamente 0 lugar. disseminação da moléstia pelo Oriente, opinião compartilhada por Avice-
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58 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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na 13 e outros escritores muçulmanos dos séculos X e XI. Esses ~elatos mia parecida, em Roma, no ano de 1039. Gilberto Ânglico 21 escreveu, na
tornam evidente ser a varíola conhecida, e estar sedimentada, no Oriente passagem do século XII para o XIII, sobre uma sqzti1lan.tia, às vezes
22
Próximo, já antes do século VIL Estudiosos de sua história parecem responsável por morte por sufocação. No século XIV, John de Arderne ,
concordar que ao fim do século VI a doença se tenha tornado epidêmica ao que parece, observou, na Inglaterra, casos similares de uma doença, a
na Arábia e se espalhado, através da área mediterrânea, até a Europa. As que chamou Ue e.squi11ência. Uma grave epidemia de dor.-de-g~rganta
epidemias relatadas, para Itália e França, em 570, por J\1arius, bispo de ocorreu na Holanda, em 1337. Uma peste, fatal para n1mtas cnanças,
Avenches, e por Gregório, de Tours (em 581), para sua cidade, depois de grassou em 1382 em diversos países europeus, entre os quais a !n~l~terra,
573, se deveram, quiçá, a surtos de varíola. O termo vadola aparece pela a Alemanha e a França. Não há dúvida quanto à natureza d1ftenca de
primeira vez.no relato de .Marius, significando simplesmente "pintado", algumas dessas epidemias.
"pontilhado''. Quase todos os escritores médicos da época se refe,rem a O ergotismo, conhecido durante o período medieval como ignis sacef?-3,
essa moléstia, e a maior parte dos autores ocidentais sustenta seus relatos ou fogo de Santo Antônio, se revelou como outra séria doença, sob a for-
nos escritos muçulmanos. Na Inglaterra, conhecia-se a varíola; fundando- ma de intensas epidemias. l\1encionada pela primeira vez por volta de
se nas poucas referências existentes, porém, é impossível fazer alguma 857, nas crônicas do convento de Zanten, irrompeu em pelo menos seis
sup,osição quanto aos números da doença. epidemias, até 1129. Em 1128 e 1129 aconteceram irrupções difusas na
E :nuito provável a larga disseminação do sarampo 1\ pela Europa e França, na Inglaterra, na Alemanha e nos Países ~ai~os. 1-hrsch :hsta
pela Asia, desde a Idade .Iv!édia, ou antes. Razes o descrevera, e conside- trinta e sete surtos na Europa, entre 857 e 1486, a n1a10na antes do seculo
rava sarampo e varíola duas condi-ções originárias de um processo mórbido XIV. É provável a inclusão de erisipela e outros exantemas sob o termo
comum. 1\1édicos da Idade :Média seguiram essa doutrina, persistente ignis sacer.
pelo século )(VIII adentro. Influenza24 também aconteceu em vários países europeus; entre 1173 e
O nome measles é, em si mesmo, produto de confusão semântica e 1427 relatam-se surtos na Itália, na Alemanha, na Inglaterra, na França e
nosográfica. No período medieval, aproximavam-se varíola e sarampo, nos Países Baixos.
variolae e morbilli. O último termo.:.......... diminutivo de morbus- indicava
ser o sarampo, diante da varíola, a doença menor. Segundo Charles LEPRA, A GRANDE PRAGA. A despeito da importância das doenças
Creighton, John de Gaddesden (1280-1361) 15 introduziu a palavra inglesa mencionadas, duas outras ocupam lugares de maior relevo na saúde
para sarampo - measles - como equivalente ao termo latino morbi!li. pública da Idade Média: lepra e peste bubônica. . ., .
Essa palavra derivava do latim miselli e mise!lae- um diminutivo de miser A lepra25 representou a grande praga, a sombra sobre a :r1da d1a~Ia ~a
- e originariamente se referia ao leproso. Em um esforço de imaginação, humanidade medievaL O medo de todas as outras doenças, JUntas, d1fic1l-
Gaddesden associou as chagas das pernas dos "pobres e dos debilitados" mente pode comparar-se ao terror desencadeado pela lepra. Nem mesmo
ao morbilli dos escritores médicos. Finalmente, o termo measles perdeu a Morte Negra, no século XIV, ou o aparecimento da sífilis, ao final do
sua conexão com a lepra e se associou à doença hoje conhecida por século XV, produziram estado de pavor semelhante.
sarampo 16 • No mundo antigo, hebreus, gregos e romanos conheceram a lepra, no
Dos séculos VI a À''li, a difteria esteve encoberta pela escuridão, entantu relativamente incomum. No início da Idade Média, durante os
apenas vacilantemente iluminada por relatos, escassos e incompletos, de séculos VI e VII, a enfermidade começou a se espalhar pela Europa,
epidemias de dor-de-garganta. passando a ser um sério problema social e sanitário. Endên1ica, em
Segundo a crônica de São Dionísio 17, de 580 d.C., a uma grande en- especial entre os pobres, alcançou um pico aterrador nos séculos XIII
chente seguiu-se uma praga chamada esquinência (sqtti7lanciajl 8. ·Barô- e XIV.
. 8
mo • .
narra a ocorrenc1a, em Rama, no ano de 856, de uma epidemia de A lepra assumiu proporções epidêmicas em decorrência, provavelmen-
te, dos grandes deslocamentos de população resultantes das Cruza~as ,
26
dor-de-garganta (pestilmtia faucium). Cedrênio20 observou uma moléstia
epidêmica, conhecida como cynanche, em 1004, em algumas províncias do pois, ao retornar do Oriente, os cruzados trouxeram caso~. Depms do
Império Bizantino, freqüentemente fatal. Barônio menciona uma epide- século XIV, a doença aos poucos cedeu, talvez porque a fmce da !Vlorte
60 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA 61
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· Negra tenha levado a vida de muitos leprosos. Não obstante, só no século mil. O terceiro Concílio de Latrão, em 1179, ocupou-se, em detalhes, da
XVI a lepra perdeu sua importância prática. enfermidade, e as políticas então estabelecidas vieram a prevalecer pelo
Cedo se reconheceu a necessidade de controlar a enfermidade e se resto do período medievaL
desenvolveu uma forma de ação de Saúde Pí1blica ainda presente entre
nós: o isolamento de pessoas vítimas de doenças contagiosas. Quando OS MORTOS-VIVOS. Um leproso representava uma ameaça pí1blica.
pessoas que sofrem de moléstias transmissíveis podem ameaçar, direta- ·Assim, a comunidade, no intuito de proteger seus n1embros sadios, o
mente, a saúde dos que as circundam_, a comunidade, agindo através de expulsava. Sendo a doença incurável, ele se tornava um proscrito para o
~ua~ !nstituições., sente-se no direito, para proteger-se, de sujeitar o resto da vida. Jviuito antes de receber a bênção misericordiosa da morte
md1v1d.u~ a restnções, e até mesmo a sanções. Assim, surgiu a obrigação física, já se o destituía de seus direitos civis e se o considerava, socialmen-
de not1f1car algumas doenças comunicáveis, e, em algumas ocasiões a te, morto.
liberdade do indivíduo pôde ser severamente limitada. O caso m~is Não se decidia de modo leviano se um indivíduo sofria de lepra.
conhecido é o de Mary Tifóide27• Examinava a pessoa suspeita uma con1issão especial, a qual, no início da
Essa face do trabalho em Saúde Pública começou a aparecer no início Idade :t\1édia, se compunha de um bispo, vários outros clérigos e um
da Idade :tvlédia, quando a lepra passou a ser um importante problema de · leproso, considerado especialista na matéria. :t\1ais tarde, essa comissão
s_aúde. Como os médicos não tivessem nada a oferecer, a Igreja assumiu a incluiu vários eminentes médicos e barbeiros da cidade.
liderança do processo, usando como princípio orientador o conceito de O isolamento dos leprosos tinha regras muito minuciosas e precisas. A
contá~io do Velho Testamento. Em todo o mund~ antigo, e em particular realização do serviço funerário, com a participação da vítiina, simbolizava
no Onente, se considerava contagiosa a impureza espiritual. Essa idéia, e a terrível exclusão da sociedade humana. O leproso vinha vestido com
suas conseqüências práticas, se definem com grande clareza no livro do uma mortalha, lia-se a missa solene para os mortos, jogava-se terra sobre o
28
Levítico , no qual se mencionam não só a impureza espiritual mas doente; então os padres o conduziam, acompanhado de parentes, amigos
tamb~n: processos fisiológicos - como a menstruação - ou condições e vizinhos, até uma choupana, ou um leprosário, fora dos limites da
patolog1cas- como a descarga uretral- através dos quais um indivíduo comunidade. Um relato dessa cerimônia encontra-se em A mão dourada.
se torna impuro. Deviam-se isolar essas pessoas do resto da comunidade de Edith Simon, famosa novela da Inglaterra no século XIV. Compeliam-
até elas se submeterem a ritos de purificação específicos. lV[uito mais se os leprosos a usar um traje característico, a anunciar sua aproximação
severo era o isolamento prescrito aos infelizes afligidos por uma doença por meio de corneta, guizo, badalo de sino, se os proibia de aparecer no
de pele chamada zara'ath; uma vez se confirmasse essa moléstia, segrega- mercado e de entrar em hospedarias ou tavernas. Não se permitia a
va-se e e~cluía-se da comunidade o paciente: "Todos os dias em que a nenhum barbeiro barbeá-los, ou lhes cortar os cabelos. Não obstante, é
peste esttver nele, estará manchado, ele é impuro, deverá morar sozinho, espantoso constatar serem essas n1edidas abolidas em ocasiões especiais.
sua habitação deverá ser fora do acampamento", dizia o Velho Testa- Com freqüência, revogavam-se as proibições, de entrar na cidade, no
mento29. Natal ou em Pentecostes, para permitir aos leprosos pedir esmolas e
Seguindo os preceitos apresentados no Levítico, a Igreja assumiu o receber os benefícios da caridade pública. Essas exceções, porém, aconte-
t;ncargo de combater a lepra. O Concílio de Lião, em 583, restringiu a ciam eni pequeno númt;ru, e mal atenuavam o isolan1ento a que a pessoa
associação livre dos leprosos com pessoas sadias, política seguida, e refi- se via condenada.
na~a, por concílios posteriores. Em 644, Rotário, rei lombardo, lançou um
edttal para regulamentar o isolamento dos leprosos. Gregório de Tours3o A MORTE NEGRA. As tentativas de controlar a lepra levaran1 à primeira
descreve uma casa de leprosos em Paris, no século VI; estabelecimentos· grande façanha na profilaxia direta: tornar os enfern1os inofensivos como
similares se ergueram em :t\1etz, Verdun e Maestricht, no século seguinte. portadores do elemento causal e, assim, a erradicar a doença. A analogia
Depois do século X, o número de leprosários cresceu enormemente· no com as campanhas mais recentes contra tuberculose e doenças venéreas é
início do século XIII existiam, só na França, cerca de duas mil casa~ de evidente. Ampliou-se e estendeu-se esse princípio de :t\1edicina Preven-
leprosos, ao passo que em toda a Europa chegavam a cerca de dezenove tiva a outro grande flagelo da Idade Média: a peste bubônica31 .
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62 A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA 63
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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Existem registros de três grandes pandemias de peste no curso da todos que tivessem tido contato com o paciente a pern:a~e~er isola~os;
história humana. A peste de Justiniano, a primeira, a IVIorte Negra, a por meio de mensageiros especiais, as autoridades mtll11Clpals atendiam
segunda, e as difusas epidemias de nosso século. suas necessidades de alimento, e outras.
A peste humana é, em essência, um problema de comunidades urba- Retiravan1-se os mortos das casas pelas janelas e removiam-se seus
nas. Por conseguinte, não é surpreendente encontrarem-se poucos relatos corpos para fora da cidade, em carroças; também o lugar do enterramento
de surtos, difusos, no início do período n1edieval, depois de cederem as tinha a finalidade de prevenir a extensão da epidemia. Quando n1orria um
ondas epidêmicas na esteira da peste de Justiniano. Não obstante, entre paciente de peste, arejavam-se e fumigavam-se os cômodos e queima-
os séculos VI e XIV há registros de surtos no lraque, na Pérsia, e em vam-se seus pertences.
outras partes do Levante, como também alguns questionáveis, na Europa Além dessas medidas no interior da comunidade, urgia também evitar
e nas Ilhas Britânicas. a entrada da peste. Para se alcançar esse objetivo, e assim salvaguardar o
Embora não possa haver certeza, parece provável ter-se originado a grupo, usava-se o método de isolar e observar pessoas e objetos por um
pandemia do século XIV em algum ponto do interior da Ásia Centrai período específico e sob condições rigorosas- até se estab~le~e~ que não
região onde, entre roedores selvagens das estepes, um reservatório d~ estivessem com a peste. Assim nasceu a quarentena, contnbmçao funda-
infecção ainda hoje persiste. A partir de seu foco original, a doença Se mental à prática da Saúde Pública.
espalhou para o oeste até atingir, na primavera de 1346, as costas do mar Deu-se o primeiro passo nesse sentido em Veneza, principal porto de
Negro. Do mar Negro, navios a-carregaram até Constantinopla, Gênova, entrada para o comércio do Oriente. Seguindo a crença de que _a peste se
Veneza e outros portos europeus. introduzia, principalmente, através de artigos trazidos em·navws, os ve-
A peste alcançou a Europa logo no início de 1348, disseminando-se nezianos criaram um sistema para segregar embarcações, mercadorias e
pelo interior. Atingiu Florença e outras regiões do norte da Itália e em pessoas suspeitas. Já a 20 de março de 1348, estabeleceu-se um Conselho,
abril estava em Avinhão, e, em Valência e Barcelona, no início de maio. de três homens, para supervisionar a saúde da comumdade e tomar
A imensa onda da peste levou três anos para varrer a Europa. E outras, quaisquer medidas julgadas necessárias (os venezian_os par~c~m ter se-
sucessivas, de menor altura, se seguiram, em intervalos variáveis, até guido um padrão institucional, pois já no ano 100~ tenam extstl~o su?er-
cerca de 1388. visores de Saúde Pública, designados para serv1r durante epidemias).
Esses funcionários tinham autorização para isolar, em uma ilha, na laguna,
QUARENTENA. A primeira reação ao aparecimento da Morte Negra foi embarcações, mercadorias e pessoas infectadas. .
muitas vezes o pânico. Buscava-se a salvação na fuga, mas nem todos A partir de 1348, o povo de Veneza, -e de outras comumdades, desen-
podiam, ou queriam, fugir. Primeiro, porque a antiga concepção da. pesti- volveu o sistema de quarentena. Em 1374, Bernabo Visconti, Duque de
lência con1o sinal da ira divina vigia, e muitas sentiam serem a oração e a Ivlilão, promulgou um decreto para prevenir a introduçã~ e a difus~o da
penitência os únicos remédios; e, segundo, porque as comunidades se peste. Pelo edito, ordenava-se a remoção de todos os pacientes da c1dade
negavam a admitir pessoas vindas de áreas onde grassava a peste. Em para um campo, onde morreriam, ou se re~uperariam. Quem tive~se
conseqüência, tornou-se imperioso tomar tnedidas para proteger os sadios atendido um paciente de peste, deveria ser tsolado, por quatorze dias,
e ajudá-los a evitar o temido mal. antes de reassumir suas relações sociais com outras pessoas. O mesmo
A experiência ganha com o isolamento dos leprosos influenciou as período de observação valia para viajantes ou mercadores infectados, ou
medidas adotadas contra a Morte Negra. Sendo a doença considerada simplesmente suspeitos de ter a doença. No mesmo ano 1374, Veneza,
comunicável, seguiam-se os mesmos princípios do combate à lepra. Como novamente ameaçada, negou entrada a todos viajantes, veículos e navios,
a defesa essencial fosse evitar a infecção, o princípio do isolamento se suspeitos ou infectados. Três anos depois, em 27 de julho de 1377, o
desenvolveu rápido, e se generalizou. Notificavam-se as autoridades da conselho municipal de Ragusa, na costa dálmata, ordenou um período de
existência de pacientes; depois de examinados, isolavam-se os pacientes isolamento de trinta dias, para os oriundos de áreas atingidas pela peste.
em suas casas, enquanto durasse a enfern1idade. Sobre toda casa que Mais tarde estendeu-se esse período para quarenta dias, origem do termo
abrigasse uma vítima de peste recaía um impedimento. Compeliam-se quarentena, derivado de quarantetzaria. (Segundo Clemow, mencionou-se
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64 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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~ ....... A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA 65
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pela _primeira vez um período, de quarenta dias, em Veneza, em 1127.) A estagnadas, de cemitérios, de estábulos de animais de carga. Evite esses
segmr, em ~383, :Marselha construiu suas primeiras estações de quarente- lugares". Acreditava-se que o ar corrompido, por causa de sua natureza
na: nas qua1s, depois de rígida inspeção das embarcações, todos os passa- alterada, atacava, se inalado, os humores do corpo e assitn produzia a
geiros e ca_rgas de navios infectados, ou suspeitos, ficavam detidos por doença. Surtos em massa ocorriam quando uma conjuração maligna dos
quarenta d1as, expostos ao ar e à luz solar. astros conferia à corrupção da .atmosfera uma virulência especial. Na
Segundo Hecker, a razão para o estabelecimento de um período de tentativa de explicar por que, no curso de uma epidemia, algumas pessoas
quarenta dias residia na crença, generalizada nos séculos XIII e XIV, de se viam atingidas e outras não, muitos escritores salientavam a importân-
ser o quadragésimo dia o da separação entre as formas agudas e crônicas cia da predisposição individual. A ênfase no indivíduo caminhava junto
das do~nç~s. Também se recorria à Bíblia para atribuir ao número quaren- com aquela no valor da higiene pessoal.
ta um stgmficado especial. O dilúvio, por exemplo, durou quarenta dias, e Apoiada nessas doutrinas, a população medieval se_ esforçou, coletiva e
:ambém outros episódios bíblicos. Também na alquimia se considerava individualmente, para enfrentar seus urgentes problemas de saúde. Es-
Importante o número quarenta, pois se acreditava na necessidade de ses pontos de vista, no entanto, são importantes não apenas por fornecer
quarenta dias para certas transmutações. Assim, compelidos pela I\1orte um edifício teórico para a prática dà Saúde Pública; com base nessas
Negra de meados do século XIV, funcionários públicos, na Itália, no Sul concepções se desenvolveram as teorias epidemiológicas dominantes no
da França e na área vizinha, criaram um sistema de controle sanitário para período moderno, até a última parte do século XIX.
?embater doenças contagiosas, com estações de observação, hospitais de
Isolamento e procedimentos de desinfecção. Durante o Renascimento, e A ORGANIZAÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA. Embora não dispusesse de um
em períodos posteriores, se desenvolveu esse sistema, ainda hoje instru- sistema de Saúde Pública organizado, no sentido de hoje, a comunidade
mento da prática de Saúde Pública. medieval tinha uma máquina administrativa para prevenção de enfermi-
.dades, supervisão sanitária para a proteção da saúde comunitária, em
AS CAUSAS DAS EPIDEMIAS. Para explicar a origem da peste, e o modo geral. A natureza desse sistema está muito ligada à natureza da adminis-
de ?embater a enfermidade, um vasto corpo de literatura médica e leiga tração da municipalidade medieval.
raptdamente apareceu na maioria dos países europeus. Fundando-se A despeito de variações menores, as primeiras administrações munici-
nessa literatura, podem-se deduzir as principais teorias relativas à causa- pais costumavam seguir um plano simples. Dirigia a cidade um conselho,
ção desse terrível flagelo e entender o sustentáculo teórico das atividades cujos membros se podem comparar aos homens seletos32 das cidades da
administrativas. Essas concepções derivavam, em parte., da tradição hipo- Nova Inglaterra. O título outorgado a esses cavalheiros variava de lugar
crática, com sua ênfase na importância dos fatores físicos do ambiente na para lugar, mas seu ofício era o mesmo. Na Itália~ e no sul da França,
causação da doença. conheciam-nos como co1Zsu!s, ao norte da França e nos País~s Baixos
Admitia-se e aceitava-se, em geral, ser a peste uma doença comunicá- e,
chamavam-nos échevins na. Inglaterra, vereadores.
vel. Essa idéia se apoiava na observação direta, mas não respondia a todas Cabia ao conselho a administração rotineira da comunidade. Assim,
as que~tões relativas à origem e à natureza das epidemias. Assim, se a cuidava das finanças, organizava o abastecimento da cidade, ordenava e
peste tmha uma natureza contagiosa, qual era, e de onde vinha, o elemen- supervisionava obras públicas. Ocupava-se também de problemas de
to comunicável? saúde e bem-estar. Geralmente, atribuíam-se esses assuntos a um ou
As re.spostas. a essas perguntas advinham da tradição hipocrática, na mais membros do conselho, que passavatn a agir como um subcomitê. No
forma SIStematizada por Galena e transmitida aos médicos medievais. século XIV, em I\1ilão, por exemplo, seis funcionários se encarregavam da
AlgL~n:-a alt:ra.ção atmosfériCa, ~ma corrupção do ar, trazia a doença; limpeza das ruas e do sanean1ento ambiental. Em Amiens, no século XV,
matena orgamca em decomposJção, águas estagnadas e pútridas etc., designaram-se dois échevins para supervisionar o mercado de peixe, dois
corrompiam o ar. Em seu tratado da peste, Johannes de Tornamiera, diz: para a venda de carne a varejo, dois outros para vigiar o cozimento e a
"Em te.mpos de epidemia deve-se, sobretudo, evitar o ar corrompido, que venda de pão, outros para inspecionar as ativiüades de merceeiros e
pode vu de lugares pantanosos, enlameados e fétidos, de águàs e valas boticários, e assim por diante.

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66 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
......................................................................................................................... A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA 67
O mandato desses funcionários durava um ano. Ao fím de cada dia um degrau diferente na escada social, relegando-se os cirurgiões a um
relatavam se~s ach_ados, para que, se necessário, se pudesse agir imediata~ nível inferior.
mente. As gmldas mtegravam o governo da cidade medieval e em nume- Porém, tanto os clínicos 34 quanto os cirurgiões reconhecidos negligen-
rosas comunidades, como em Florença, funcionários da guild~ desempe- ciavam quase completan1ente os doentes que só pudessem ser tratados
n~1ava~ essas funções. Peno do fim da Idade :Média, esse padrão admi- mediante cirurgias arriscadas. Em conseqüência, ao lado dos médicos
mstrativo ganhou em complexidade; em essência, porém, seu caráter se reconhecidos e estabelecidos, surgiu uma classe de empiristas itineran-
manteve.
tes; eles faziam operações difíceis e sérias, con1o cataratas, redução de
~m g~ral_, os leigos, e não os médicos, cuidavam da administração da ,hérnias e retirada de pedras da bexiga. Embora esses oculistas, litotomis-
Saud~ Publ_Jc~. E_mpregavam-se médicos em cargos específicos, como 0 tas e operadores de hérnias não ocupassem lugar social alto, havia neces-
de c~Idar dos md1gentes e prisioneiros, o de diagnosticar a lepra e outras sidade de seus serviços. Assim, se fizeram vários acertos para se poder
con~Ições, e o de servir como conselheiro técnico, em tempos de pesti- usar suas habilidades e, no período medieval tardio, além dos práticos
lêncra, ou em assuntos médico-legais.
itinerantes existiam os que se estabeleciam em uma comunidade. IVlen-
cion~-se um oculista em 1366, em Speyer, e em 1372 havia outro em
A ASSISTÊNCIA MÉDICA. Na comunidade medieval a natureza da Esslingen, na Alemanha. Em cidades onde não residiam médicos, as
sociedade determinou, além de outras características da Saúde Pública a autoridades se esforçavam por empregar os serviços desses práticos, mes-
assistência médica. A sociedade era estática, as classes sociais demarc'a.,. mo se apenas por um período do ano. Em geral essa situação persistiu
1
das. Assim, os grupos se organizavam e se moviam em esferas delimitadas durante os séculos J,.'Vli e J,.'Vlii.
com rigidez.
. ~o início da Id~de IV1édia, os médicos eram, em geral, clérigos. Como a HOSPITAIS E INSTITUIÇÕES BENEFICENTES. A idéia da necessidade
IgreJa lhes garantisse a subsistência, eles podiam exercer a I'vfedicina de assistência social, en1 casos de moléstia, ou outro infortúnio, se desen-
como caridade; podiam aceitar presentes mas não se esperava que cobras- volveu n1uito durante a Idade Média, tanto no Oriente, islâmico, quanto
sem. A partir do século XI, no entanto, os leigos começaram a entrar na no Ocidente, cristão. E tal fato é muito evidente na criação dos hospitais,
1~rofissão e~ número crescente. Em 934, por exemplo, os arquivos floren- em que motivos religiosos e sociais tiveram muita in1portância.
tmos r:nen_cwnam um Amalpertus, diácono da Igreja e também médico. No Oriente, soberano e funcionários públicos criaram hospitais nos
Na pnmeua metade do século XIII, sessenta médicos se organizavam, centros urbanos. No século IX, durante o reinado do califa Harun AI-
em Florença, em uma poderosa guilda.
Rachid, ergueu-se um hospital em Bàgdá. E um outro, na mesma cidade,
Como não foss~m sustentados pela Igreja, os médicos leigos preci- no século seguinte, graças ao califa Al-Muktadir, e um terceiro, em 970,
I savam. ganhar a _vida de outra maneira. Aceitavam, então, um posto com um corpo de vinte e cinco médicos, em que se ensinava a Ivledicina.
'
'· assalanado - seJa de médico de algum senhor, ou de uma cidade _ Ao todo, existem registros de trinta e quatro hospitai~ em países de
ou se _entregavam à prática privada. Em qualquer caso, estipulavam-se governo islâmico. Em geral, essas instituições refletian1 o alto nível da
seu!'l ~i':~reres ~ sua remuneração. Os médicos municipais tratavam dos J\1edicina nas terras muçulmanas. No Cairo, por exemplo, um hospital,
p~bres, Investigavam a ocorrência de doenças incomuns ou epidêmicas, fundado em 1283, tinha seções separadas para pacientes con1 doenças
on~ntavam sobre o que fazer nessas situações, e supervisionavam as febris, para os feridos e para aqueles com doenças dos olhos, além de
bancas.
acomodações especiais para mulheres. Um diretor e u1n corpo de médtcos
A maioria dos médicos assalariados também exercia a prática privada. prestavam assistência e havia enfermeiros e enfermeiras. Não se deve, n_o
No tratamento dos pacientes particulares seguiam rígidos códigos, e entanto, considerar os estabelecimentos islâmicos modelo para os hospi-
cobravam segundo tabelas elaboradas pelas guildas. tais do Ocidente. Hospitais erguidos pela Igreja cristã se espalhavam pelo
Durante a Idade IVlédia, uma nítida separação entre médicos e cirur- Oriente Próximo, e quando essa área caiu sob a influência do Islão, os
giões se desenvolveu. Trabalhando com as mãos, o cirurgião33 continuou a n1uçulmanos os desenvolveram.
ser um anífice, a aprender seu ofício com um mestre. Cada grupo ocupava No Ocidente, os hospitais também se originaram da Igreja. A mais
69
68 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA
.
significativa contribuição a seu desenvolvimento veio das ordens monás- continuaram a cuidar dos enfermos. Administrativamente, no entanto, a
ticas medievais, servindo o tratamento dos monges a seus companheiros responsabilidade passou às autoridades municipais. Em An1iens, no sé-
doentes de exemplo para os leigos. culo }..'\1 por exemplo, a comunidade elegia o diretor do H6tel-Dieu 35 n1as
Os mosteiros possuíam um i77firmitorium - lugar do tratamento - o bispo residente o empossava. A municipalidade escolhia e pagava o
uma farmácia e, com freqüência, uma horta de plantas medicinais. E além médico do hospital, monges e freiras atendiam às necessidade dos pa-
de cuidar ~o~ companheiros doentes, os monges abriam as portas do cientes.
claustro a viaJantes e peregrinos, prática cujos primórdios se desconhe- Ao fim do século XV, uma rede de hospitais cobria a Europa. Só na
cem, mas que recuam, talvez, ao início da Idade :í\1édia. Inglaterra, por exemplo, instalaram-se, dos séculos XII ao XV, mais de
Esses hospitais monásticos tinham pouco em comum com as modernas setecentos e cinqüenta, sendo duzentos e dezesseis para leprosos.
instituições de mesmo nome, e muitas vezes não passavam de pequenas Algo similar aconteceu no continente. No início do século XIV, Paris
c~sas onde se o~erecia alguma espécie de assistência de enfermagem. Em tinha cerca de quarenta hospitais e quase tantas casas de leprosos. Segun-
vutude da dualidade de sua natureza e de sua função, é difícil estimar 0 do o cronista Villani, em 1300, a cidade de Florença, com uma população
qu_an;o ~ealmente serviram para o cuidado dos doentes. É provável a em torno de noventa mil habitantes, possuía trinta hospitais e instituições
ex1stenc1a de todos os graus de variação, desde enfermarias destinádas de assistência, capazes de fornecer socorro médico e abrigo a mais de mil
quase exclusivamente ao tratamento dos doentes, até simples alojamen- pessoas doentes, ou indigentes; mais de trezentos monges, ou outras
tos. ~n~ suma, porém, desde o século VIII e até o século XII, o hospital pessoas, compunham sua equipe de enfermagem. Na última parte do
monasnco representou quase a única instituição, na Europa cuja função século XV, sob Lourenço, o Magnífico 36 , existiam em Florença ao menos
principal residia no cuidado do doente. ' quarenta hospitais, de vários tipos. Em verdade, não é exagero conside-
Outro importante impulso para a criação de hospitais se deu em mea- rar-se a criação do hospital uma das grandes façanhas, em Saúde Pública,
dos do século XII, com a fundação do hospital do Espírito Santo, em da Idade Média.
Montpelber, em 1145. Sancionada em 1198 pelo Papa Inocêncio III, a
Ordem do Espírito Santo estabeleceu e inanteve hospitais por toda a O REGIME DE SAÚDE. A educação em saúde e a higiene pessoal
Euro.pa_. T~~bém ao longo das vias usadas pelos cruzados surgiram representaram outras áreas da Saúde Pública a receber importantes con-
hosp1t~1s. \ ana~ ordens de cavaleiros, criadas durante as guerras santas, tribuições na Idade Média.
assumuam a m1ssão de fundá-los e mantê-los. A mais conhecida dessas O homem medieval cuidava de seu corpo muito mais do que se
ordens, os Cavaleiros de São João dos Hospitalários, os instituiu em imagina. Embora em geral se considerasse vã a existência terrena, e
lugares tão distantes quanto Malta e Alemanha. existisse a crença na punição, ou na salvação, no outro mundo, havia
Na Idade Média tardia, as cidades, em particular através das guildas, também a convicção de que, seguindo-se um regime correto, poder-se-ia
partic~pa__ran: atn:a~1ente d~ fundação de hospitais e de outras instituições estender a vida até três vintenas e mais dez anos.
de. ass1stencJa medica e social. Orgulhosos de suas comunidades, cidadãos A necessidade de viver originou toda uma literatura sobre a preserva-
ncos procuravam superar-se uns aos outros na promoção e no adornamen- ção da saúde, fundada, em essência, em fontes clássicas. Durante a Idade
to de suas amadas cidades. Ainda no século XII, mercadores destinavam lVlédia, esses c:;scritos eram escassos, mas suficientemente comuns para
u~a porçã? de seus ganhos a seus concidadãos. Criaram-se hospitais, oferecer regras de conduta aos interessados. Todas as ordens monásticas
as1!os e abn~os para todas as espécies de homens, mulheres e crianças. As possuíam regulamentações referentes à higiene pessoal, e sua influência
gmld~s re~mam fundos para socorrer seus membros doentes, ou incapaci- talvez tenha penetrado nas fileiras leigas.
tados: Gml~a~ próspera.s construíam seus próprios hospitais, outras paga- Quase sempre, o tratado de higiene se dirigia a uma pessoa de classe
vam a hosp1ta1s monásticos para cuidar de seus associados. alta, aconselhando-a a como viver de modo a permanecer sadia. Do século
i XII ao XV escreveu-se um grande número desses livros, em latin1 ou em
A partir do século XIII, o hospital medieval começou a sair das mãos de

j- - rehgwsos e a passar para a jurisdição secular, em especial nas cidades. Isso


não implica a completa substituição do clero, pois monges e freiras
várias línguas vernaculares. A mais conhecida obra é, Sem dúvida, o
Regimen Sanitatis Salernitanum (O Regimento de Saúde de Salerno) 37 ,
71
70 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA
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provavelmente também em aldeias maiores. A presenÇa de comida, bebi-
provavelmente escrito durante o século XII e ainda publicado na In0cria-
das, n1ulheres e música levou-as a se tornarem, cada vez n1ais, un1 lugar
terra, na Itália e na Alemanha, em meados do século XIX. Escrito em
de divertimento. Ao longo do período medieval, no entanto, representou
versos, podia facilmente ser guardado na memória. Os versos introdutó-
o centro higiênico da cidade. Ao final do século XV, quando a sífilis surgiu
rios da tradução isabelina de Sir John I-:larrington ilustram o sólido senso
como um novo problema de saúde, o banho comunal caiu em desgraça;
comum presente nesse clássico da Educação em Saúde:
considerado um foco de infecção, aos poucos sumiu do cenáiio urbano.
Por essas linhas a Escola de Salerno deseja
A FAÇANHA SANITÁRIA MEDIEVAL. Ao examinarmos os numerosos.
Toda a saúde ao Rei dos Ingleses e aconselha.
empreendimentos da Saúde Pública medieval - os esforÇos para lidar
A mente mantenha livre de cuidados, e da ira o coração,
com os problemas sanitários da vida urbana, para criar medidas adminis-
Não beba muito vinho, ceie pouco, levante cedo,
trativas (como a quarentena), para criar o hospital e oferecer cuidados
Depois de comer, ficar sentado causa danos·
médicos e assistência social- é impossível não reconhecer a magnitude
Depois do almoço, mantenha aberto seus oll1os
dessa façanha. Essas tentativas de criar um sistema racional de Higiene
Quando sentir as Necessidades da Natureza
não as retenha, pois isso é muito perig~so, '
Pública se distinguem ainda mais se lembrarmos que tiveram lugar em
um mundo de superstições abundantes e em que muito de conhecimento :
E use ainda três médicos, prirneiro o Doutor Descanso
científico necessário para enfrentar os problemas de saúde estava ausen- '
Depois o Doutor Alegria, e o Doutor Dieta. '
te. Revela-se mais significativo ainda, do ângulo histórico, o desenvolvi-
mento de padrões de pensamento e de prática em_ cujo interior a Saúde
Esse didático poema médico, e seus sucessores literários -os livros de
PUblica mover-se-ia nos dois séculos e meio seguintes.
saúde e almanaques populares que inundaram os países europeus pouco
após a invenção da imprensa38, - tratavam de cada detalhe da vida diária NOTAS DO TRADUTOR
e indicavam como cuidar de cada parte do corpo. Entre os assuntos 1 Quando Constantino se mudou para Bizâncio, esta cidade passou a se chamar
i~1cluídos na higiene_ pessoal estavam a habitação, a alimentação e a Constantinopla; hoje Istambul.
hmpeza corporal. A lnnpeza da casa ocupava pouco espaço nos tratados 2 Alarico (c. 370-410). Rei dos visigodos.

3 O Papa Adriano I foi o chefe da Igreja de 772 a 795.


medievais de higiene, sendo muito maior o interesse pelo regime nutri-
4 O ano de 476 marca o final do Império Romano do Ocidente, quando Odoacro, rei
cional necessário para se manter a saúde; exaltava-se a virtude da modera-
dos hérulos, depôs o últinw imperador, Romulus Augustulus.
ç~o-na die~a. Também se aborda, em minúcias, o assunto sono; segundo a 5 Os nestorianos eram sectários de Nestor, patriarca sírio de Constantinopla, fundador
Vtsao medteval, o sono profundo previne a doença e promove a composi- de uma seita herética, no século V. Sustentavam a necessidade de se distinguír duas
ção apropriada dos humores. naturezas em Cristo: uma, humana, e a outra, divina, distintas .
6 Os monofisistas pertenciam a uma seita cristã, oriental, bizantina, do século V.
. ~crença popular de que a eliminação dos humores corrompidos preve-
Afirmavam a existência, em Cristo, de uma só natureza, a divina, sozinha, ou de unia
mna.as doenças estava amplamente espalhada e coincidia com a opinião
única natureza composta, e não de duas naturezas.
médtc~. Para conservar a saúde, fazia-se portanto necessário seguir três 7 Então, o mundo árabe já era muçulmano. Para os muçuhnanos, ou seguidores do
procedimentos, de que barbeiros e serventes dos banhos se desincum- islamisnlO, só existe um Deus (como no judaísmo e no cristianismo, mais antigos); O
biam: purgações, ventosas e sangrias. Almanaques, notícias e cartas de deus dos muçulmanos é Alá, e Maomé é seu profeta. A palavra árabe islã significa
~angr~as in~ormavam ao público a melhor época para deixar-se sangrar; submissão (à vontade divina). !vlaomé (570-632), líder religioso e militar dos árabes,
é o fundador do islamismo e autor do Cotiio, ou Com11, livro sagrado de sua religião.
rsso s~ ~evta ac?ntecer em certas estações e sob constelações astrológicas
8 Cnbitu:t d'aisa11ce é privada, em francês.
especiais. 9 Cerca de oitocentos metros.
;
~evemos m~ncionar, por fim, outra instituição municipal importante 1 10 Segundo a lenda grega, Dâmocles, um cortesão, elogiou em demasia a felicidade do

na ctdade medteval, usada com propósitos de higiene e de prazer: a casa thano de Siracusa, Dionísio, o Velho (430-367 a.C.). Em conseqüência, Dionísio o
de banhos. Licenciada pela municipalidade, oferecia banhos de vapor e levou a um banquete e fez suspender sobre sua cabeça uma espada, presa por um

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de água. Durante o século XIII, casas de banho já existiam em cidades, e único fio de cabelo, na intenção de mostrar-lhe a natureza perigosa dessa felicidade.
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A SAÚDE PÚBLICA NA IDADE MÉDIA 73
72 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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······~·~:~:·~~·~:··~~·~::~~~~;:~::~::~:~·~~~:·~:~:~·~~:·;~::·;;~;;~·~··~:·~~;~:·i·~~~·~··i·~:~~:·l::~· antigo lepre, liepn:, derivado do latim /r:pm. Esta, por sua vez, deriva do grego lept-os,
A ~alavra_ portugues~ vndoln vem da francesa vnrio!e, origi;1ada, por sua ve'z, do baix~
11
escamoso. Lepos, em grego, é escama, e o verbo lepeiu significa descascar. Sob a
latm1 ~~no!~· de ~nnt~s: mancha ou marca pequena, salpico (Cunha, Amônia Geraldo denominação lepra, na Antiguidade e na ldade Média, se incluíam várias afecções de
da, DIC1oflnrto Etmwlogtco Novo Fro111eim da LfllfJtta Pot1llglleso 1982) pele, entre as quais a hanseníase. Como salienta Abrahão Rotberg iu Noções de
Razes (c._SS0-923/926). Nasceu no Irã. Filósofo, físico, músi~o e al~uimista muçul-
12
Hauseno/ogia, São Paulo, Fundação Paulista Contm a Hanseníase, 1977: "Na realida-
mano, na 1dnde :11adura se dedicou ao estudo da Medicina. Sua principal obra médica de, as 'lepras' da Bíblia não eram hanseníase e sim manchas, de natureza variada da
r~cebeu, em_ l~tim, o non~e de Liber Co11ti11eJJS. Essa obra é uma grandiosa enciclopé- pele humana ou animal, vestuário, muros e paredes. Cooperando para resolver o
d~a da 1\lledJCma e da. Cuurgia, em vinte e cinco volumes, resultame da retmião, grave problema médico-social causado pela indevida aplicação do termo 'lepra' a uma
postuma, de seus escntos (ver Figuras Memoráveis). única enfermidade humana, a última ediçao da Nova Bt'blia l11glesa (1970) substituiu-
Avicena {~80-1037). ~,lédico, poeta, teólogo, astrônomo, filósofo, músico, matemáti-
13
a no Levítico por 'uma doença maligna"',
co~ naturahsta e estad1sta muçulmano, nascido no Irã. Em Medicina, imortalizou-o o !6 As Cruzadas foram expedições militares dos cristãos europeus, que se estenderam de

Crmou, J~1~numental trabalho em que se encontra, codificado e ordenado, todo 0 1096 a 1291. Tinham a intenção de reintegrar à Cristandade a Terra Sanra, em poder
saber med1co de seu tempo, apresentado em cinco livros. dos muçulmanos. Houve Cruzadas, também, para retomar a Península Ibérica aos
O Côt~Oil f~i considerado uma espécie de bíblia da Medicina. Exigia-se seu estudo mouros.
nas UmvefSidades da Europa. 21 O nome real de Mary Tifóide é Mary Mallon. Identificada, em 1907 como portadora

A pal~v.ra portuguesa sarampo vem do castelhano sammpio11, e esta, do latimsirimpio;


14
de Salmo11ella zvphi, ela passou a trabalhar como cozinheira na cidade de Nova York,
est~ vma do grego ,.·emmpéli11os, de xeros, seco, e ampéli11os, relativo a ampelos, 'iJitJha. sob vários nomes fictícios, mudando-se sempre de casa, até ser apanhada, e detida,
Ass1m, as ~~~nch~s do_ sarampo teriam a cor das folhas secas, da uva (Nascentes, em 1925. Mary Mallon ficou detida até sua morte, em 1938. ConsideraMse que ela
Antenor, D1C!o11r!no Etnnológico da Llngua Portuguesa, Rio, 1956). ocasionou, no mínimo, dez surtos de febre tifóide, com 51 casos e 3 mortes.
15
Jobn de Gaddesden (c. 1280-1361). Médico, professor de Medicina em Oxford 28 Em Levítico (13, 14) há referências à lepra.
Escrev~u u_m tratado prá,ti:o de Medicina e Cirurgia, Rosa L1fedici11ae, ou Rosa Ângli~ 29 Levítico 13, 46.
ca, 0 pnm~lfo tratado med1co de um autor inglês a ser impresso, em 1492. 3o Gregório de Tours (c. 544-594), bispo católico, da cidade de Tours, e historiador
16
A palavra mglesa meas~r:s, é o plural de mase/ (baixo alemão), bolha, púsrula, vesícula francês. Escreveu a HiStória dos Fnmcos. ·
(Funk & Wagnalls, Bntmmica World Language Dictio11my, 1962). 31 A palavra portuguesa peste vem do latim pestis-es, como pe.stilê11cin vem de pestilell-

A palav~a ~ort~guesa mazela, parecida com masel e mcnsles, vem do latim vulgar tiae.
mace/la: dtmmutJVO de 1/~a~ula, mancha. nódoa (Cunha, obra citada). O adjetivo bubô11ica vem de bubõo, oriundo do francês bubo11 e este do grego bubo11,
17
~ pamr de 1274, os rehgwsos do mosteiro de São Dênis, na França, começaram a tumor na virilha, tumor, pt1stula (Cunha, obra citada).
drvulgar as chamadas Grandes Chro11iques de Fnmce. Essas"crõnicas" eram escritas em A palavra inglesa para peste, plague, vem do latim tardio p/aga-ae, praga (Funk &
prosa, em francês, e resultavam, em grande parte, de crônicas latino-cristãs. Wagnalls, obra citada).
A ~alav~a port~guesa esqtti11êJJcia significa inflamação das amígdalas; vem do italiano
18
J! Os homens seletos (se/ectmcn) eram membros de um conselho de funcionários da

SChwauzm, por _mtermédio do grego J:y11tmche, coleira. cidade (tow,w), eleitos a cada ano, na Nova Inglaterra, para exercer a autoridade
19
Cesare Baronms (1538"1607), sacerdote r'talr'ano. Escre,•eu os· A1101s · E1 ctesidsticos,
' executiva em assuntos locais.
publicados de 1588 a 1607. J3 As palavras portuguesas cimrgiõo e cinugia vêm do latim médio chimrgia, derivado do
20
Georges Cedrenus foi um cronista bizantino do século XI. grego cheiromr;ia, operação manual, do grego cheit; mão, e e~r;oo, trabalho (Cunha, obra
~~ Gilberto Ânglico {1180~1250). Inglês, formado em Medicina na Escola de Salerno. citada).
Escreve~ un: C~,;~p:ndmm Afedici11ae, também conhecido por Lilium Medici11ae. O 34 As palavras portuguesas dlnico, clf11im vêm do grego kliiJos, leito.
Compeur/mm e dtv1d1do em sete livros e Gilberto se apóia em clássicos gregos e em 35 Hôtel-Dieu significa, aproximadamente, Santa Casa da lvlisericórdia (Rónai, Paulo,

seus mestres salernitanos. Gilberto reconhece a contagiosidade da varíola e oferece Dicioutfrio Fmncês-Pottuguês/Pottuguês-FmtJd!s, Nova Fronteira, 1989).
uma notável descrição da lepra. 36 Lourenço, o Magnífico (1449"1492) governou Florença de 1469 a 1492.
22
John de Arderne (c. 1307"1390). Cirurgião inglês. n Existe uma versão portuguesa de Regimen Sa11itatis Salemitauum (Regimento de Saúde
23
lgni's sacer significa, em latim,Jogo sagrado. de Solemo. Tradução de Maria Helena Rocha Pereira, segundo o texto de Ack.er-
~4 A I ·
" pa avra ~ortuguesa ~nfh~mza vem da inglesa iuj!ttellza e esta, da italiana iujlue11 za. mann. Prolóquio de Luís de Pina. Coleção Amphiteatrum, VIL Centro de Estudos
Todas dem'an~ do lat1m wjluere, de i11, para dentro, e j/uere, correr, escorrer, fluir Humanísticos, Porto, 1963).
(Cunha, obra Citada). Em Salerno, cidade ao sul da Itália, floresceu, nos séculos XI e XII a primeira Escola
A pal~vra portuguesa lepra vem do latim lepm-ae, derivado do grego lépm-as (Cunha
25
de Medicina do Ocidente. Salerno foi o único lugar, na Europa cristã, capaz de
obra Citada). ' oferecer uma formação médica regular antes que, no século XII e, sobretudo, no
Segundo Funk & \Vagnalls (obra citada) a palavra ingle"sa leper vem do francês XIII, o ensino passasse às mãos das universidades.
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HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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. utem erg, Jobann {c. 1397-1468) impressor alemão , 'd 0 . .
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• IV •
O Mercantilismo, o Absolutismo
ea
Saúde do Povo
(1500-1750)

+++ + +. +. + ++. +++++ ++ ....... + ..... + ........... + •••• + ++ ++. ++. ++ ... ++ + +. +

ADMIRÁVEIS MUNDOS NOVOS. Durante o pontificado de Leão Xt,


Girolamo Fracastoro2, famoso n1édico, cientista e poeta italiano, escreveu
um poema didático sobre a sífilis, publicado em 1530, en1 Verona. A
descrição dessa temível e repugnante doença o levou a comentar os males
da época, a exam_inar a proporção de bem e mal em seu tempo e a
compará-la com períodos anteriores. "Embora uma tempestade cruel se
agite", ele refletiu, "e a conjunção dos astros seja perniciosa, a clemência
divina não nos abandonou completamente. Se esse século viu uma nova
doença, devastações da guerra, saques de cidades, enchentes e secas,
també1n soube navegar por oceanos negados aos antigos, e ultrapassou os
limites do mundo antes conhecido''.
Quando Fracastoro compara a expansão do horizonte e as devastações
de doenças e guerras, ouve-se o poderoso in1pulso de uma nova era, "a era
da descoberta do mundo e do homem", a era do Renasci1nento.
Para o leitor médio, o Renascimento é um período de fascínio histórico.
Em geral, esse tern1o traz à imaginação uma era de príncipes cultos e
impiedosos condottien·3, de pintores e escultores geniais, de eruditos clás-
sico~, de assassinos de aluguel; um tempo, em suma, de versáteis super-
homens a viver a vida como uma obra de arte.
Contém muita verdade essa imagem. Na história da Saúde Pública, no
entanto, o Renascimento é significativo não por seu brilhantismo e por
sua cor, mas por representar a aurora de um novo período da História, o
período moderno, no qual a Saúde Pública con1o a conhecemos hoje se
desenvolveu. Desse ponto de vista, pode-se ver o Renascimento como
uma fase no processo de desaparecimento da civilização medieval, de sua
transformação em n1undo moderno. Ademais, esse período de ascensão
76 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 77

~~~~;~·~~·;;~~·~·~~·~~~~~·:~~;;;~··~~~~;~;;~:·~·~·~:;~~~;~;~~;~·~:·~·;;;;~~~~·~~
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da civilização moderna testemunhou também os primórdios da ciência


moderna como um de seus elementos essenciais, e de profunda influên- tecnologia para alcançar-se 0 poder, _levara~n soberano: e _estadistas a
cia sobre a Saúde Pública. incentivar homens de engenhosidade mventtva e saber tecmco.
A revolução tecnológica da Idade Média representou u?' papel de
CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS. Esse processo de mudança, em que a extraordinária importância na abertura do can1mho para o penado moder-
Renascença representou a primeira fase, se deu de modo lento e desigual no. Sem 0 progresso tecnológico acumulado nos quatro séculos p~eced~n­
e se estendeu por um período de mais de dois séculos. Em geral se . tes, muito provavelmente os criadores da ciência m?derna :enam std_o
concorda em situar as raízes dessa transformação nos séculos XIV e XV, e incapazes de alcançar seus objetivos. A criação _de mn~a~, salmas, fun~l­
a relacioná-las a mudanças vivenciadas pela Europa ocidental, em p·arti- ções, vidrarias, e de outros empreendimentos mdustnats, . .t~ve espe~1al
cular pela Itália. Em resumo, mudanças que vinham acontecendo, e significado na formação de um novo clima intelectual, prop1c10 ao cult_l"i~O
amadurecendo lentamente, no interior da ordem medieval, enfim encon- da ciência. A invenção da imprensa, no fim do século XV, permitiU
traram expressão decisiva. E, em um país após outro, inauguraram uma emancipar esse conhecimento prático da tradição oral, e estendê-lo, e
nova orden1 política, social e científica. aperfeiçoar sua natureza. Ao mesmo tempo, er~tditos co~eça~am a se
Para entender por que isso aconteceu é necessário recuar na Idade interessar pelas atividades técnicas dos artífices: 1_sso se _evidencia e~ De
:Média, recuar até antes da Primeira Cruzada4• Por esse tempo, como Re .Metallica (1556), um erudito tratado sobre mmeraçao, de autona do
vimos, e pelos séculos XII e XIII adentro, surgiram muitas cidades na médico Georg Agricola6. Agrícola acentua não s? a rel~ção entre teona e
Europa, mais numerosas, e mais vigorosas no norte da Itália e em Flan- aplicação, como também a utilidade social da mu1eraçao:
dres. Empenhados no co111ércio e na indústria, os habitantes desses 0 impacto dessas tendências começou a se faz~r sentr: sobre~ educa-
centros desenvolveram uma nova classe social, a classe média, ou burgue- ção, e 0 currículo das escolas passou a receber n:a~s atença~. ~po.ta~~o-~e
sia, cujas origens o próprio nome já indica. Com essa classe, nasceu uma nessas manifestações, e alimentada pelas cond1çoes favoravets, a ctencm
nova noção de riqueza, a noção da riqueza mercantil, não mais fundada na natural alcançou um progresso notável nos séculos XVI e XVll.
terra, mas em dinheiro, ou em artigos de comércio, mensuráveis em
dinheiro. Além disso, à proporção que a posição social e a força política da A ANTIGA SAÚDE PÚBLICA E A NOVA CIÊNCIA. Para entender-se a
classe média se manifestavam, e aumentavam, os métodos de comércio e · t' ·a da Saúde Pública durante o período de transformação
I11SOfl ,.
rmcrado
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os ofícios manuais começaram lentarp.ente a merecer a dignidade da com a Renascença, é preciso examinar suas faces, a teo~tca e ~ pr~nca.
indagação intelectual. A atenção a problemas de comércio e indústria Enquanto essa época se caracteriza pela rápida evoluç~o. e dtfusa. .o_ da
desempenhou papel muito importante na criação do ambiente em cujO ciência em vários campos, a Saúde Pública, como atlvtdade pratica,
interior a moderna ciência pôde vir à luz. Com efeito, um sociólogo pouco, 'ou nada, se beneficiou desses avanços. Não obstante, . .acum~Ia:'a.­
alemão, SimmeJS, expressou a opinião de que "a economia monetária foi a se um conhecimento, e sobre esse terreno a moderna Saude Pubhca
primeira a despertar o ideal da calculabilidade numérica" e de que "a eventualn1ente erigir-se-ia.
interpretação quantitativamente exata da natureza é a contra parte teórica 0 avanço científico não é nunca uniforme, ou simultâneo, ao longo ~e\
das finanças". Não é acidental existirem informações esLatísticas detalha- uma frente inteira, mas ocorre, segundo tempos diferentes, de v~~as \
das, sobre as cidades, na Itália nos séculos XIV e subseqüentes (ver pág. maneiras, em áreas de conhecimento específicas. Em algumas ocaswes
69). Essa evolução, além do mais, estava ligada de modo indissolúvel à são necessárias a descoberta e a deftniç-ão de dados elementares; em
evolução do Estado nacional; em larga medida, a atividade econômica das outras, quando um conhecimento já existe, pode oc?rr~r um avanço
cidades permitiu o crescimento e a consolidação de governos centrais. E a frutífero através da criação e da aplicação de um cm:cet_to mtegrador, ou
atividade intelectual de grupos urbanos, muitas vezes encorajados e atacando-se um problema mais complexo e contn~mndo-se para sua
orientados pelo patrocínio real, teve as influências mais profundas sobre o resolução. Relativamente à Saúde Pública, no Renascimento, todos esses
florescimento da cultura secular, característica do Renascimento. E da aspectos estiveram presentes.
qual a nova ciência se constituía em um dos elementos mais notáveis. O André Vesálio7, seus contemporâneos e seus sucessores, lançaram as
78 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
......................................................................................................................... O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 79
....................................................................................................................... .
fundações de um saber acurado da estrutura do corpo humano. Igualmen- latina e varicela. E a que veio a se tornar um problema de saúde maior,
te fundamental revelou-se a descoberta da circulação do sangue por desde o Renascimento até nossos dias: sífilis.
'Villiam Harvey , um solo finalmente firme para a visão do corpo ~orno
8

uma unidade funcional. O SUOR INGLÊS. No início de agosto de 1485, Henrique Tu dor, Conde
A ciência natural se caracterizava, na época, não apenas pelo uso de Richmond, vindo da França, desembarcou na enseada de Milford;
crescent~ do método experimental, mas também pela disposição de tratar ainda naquele mês, derrotou Ricardo III 11 , no can1po de Bosworth. Mal o
matemat1camente os fenômenos naturais. Essa tendência se exprimiu em vencedor tinha entrado em Londres, para ascender ao trono como Henri-
diversos sentidos, entre os quais a criação da aritmética política por que V!I 12 , um pálio de medo e terror cobriu a capital; uma doença
iVililliam Petty9 teve extraordinária fecundidade para o futuro da S~úde comunicável, aparentemente desconhecida, irrompeu em meio aos solda-
Pública. De igual, senão de maior importância para seu crescimento, se dos do exército vitorioso e rapidamente se espalhou entre a população.
mostraram a evolução da Epidemiologia e da observação clínica, durante Essa enfermidade tinha como principais quacterísticas a febre alta-
os séculos À~TI e XVII. Crescia a tendência para individualizarem-se as com calafrios, cãimbras nas extremidades e dores em várias partes do
do~nças, segundo a observação clínica; descreveram-se várias pela pri- corpo - uma sensação de profunda angústia, dificuldade de respirar e
meira vez, como coqueluche, febre rifóide e escarlatina. E Girolâ.mo irregularidade do pulso. Em casos graves instalavam-se delírio, alucinação
Fracastoro elaborou a primeira teoria científica, consistente sobre a con- e estupor. A moléstia durava de algumas poucas horas até um dia, e como
tagiosidade das moléstias. ' o restabelecimento acontecesse após suores profusos, recebia o nome de
!vias a organização e a administração da Saúde Pública praticamente suor inglês.
não mudaram. Não existem contrastes absolutos entre períodos suces- A moléstia dos suores se espalhou agilmente a outras partes da Ingla-
sivos na História, pois cada era carrega instituições, e modos de pensar e terra, mas não inv~diu a Escócia, a Irlanda ou o continente.
agir, de períodos precedentes. Assim, o padrão de Saúde Pública criado Incidiu com extrema gravidade, milhares de pessoas pereceram. Em
pela comunidade urbana medieval continuou em uso do século XVI ao Londres, matou, em uma semana, dois prefeitos e seis vereadores. Em
século XVIII. Com o desenvolvimento de Estados nacionais, de quando poucas semanas, porém, a força da onda epidêmica se debilitou, e a
em quando governos centrais assumiam as ações. No geral, porém, cabia à doença sun1iu por cerca de vinte anos, para reaparecer, ainda na Inglater-
comunidade local cuidar dos problemas de Saúde Pública. E quando ra, em 1508, e de novo, em 1517, 1528 e 1551. ·
novos problemas surgiam, ajustavam-se ao modelo existente. · O surto mais grave aconteceu em 1528, e não apenas se d~fundiu
celeremente mas alcançou o continente, assolando Alemanha, Austria,
DOENÇAS NOVAS PARA UM MUNDO NOVO. Em 1849, o patologista Países Baixos, Dinamarca, Suécia, Polônia e Rússia. Houve centenas de
IRu_do1fVIrcho~' 10 ela~orou uma.teoria segundo. a qual a doença epidêmica
sena uma mamfestaçao de desaJUstamento social e culturaL Ele salientou
mortes em Estrasburgo, e relata-se a morte, em Hamburgo, de mil pes-
.soas em poucos dias. Depois de 1551, não se registrou mais nenhuma
que, na aurora de novos períodos históricos, "doenças epidêmicas, exibin- epidemia de suor inglês, nem na Inglaterra nem na Europa continental.
do um caráter até então desconhecido, aparecetn e desaparecem, muitas Em 1552, John Caius publicou um relato clássico da doença, em Um
vezes sem deixar traço algum. Como exemplos, tomemos a lepra e o suor Livro, ou Conselho Contra a Do(J7].ça Comumente Chamada de Suor, ou il1oléstia
inglês". ~ara ilustrar sua teoria, Virchow escolheu duas doenças opostas, dos Suores" 13 •
mas podia ter usado outras, pois, com a entrada do período moderno, o Nunca se esclareceu suficientemente a natureza dessa enfermidade.
quadro patológico da Europa mudou muito. Doenças de vasta prevalên- Segundo alguns autores, teria sido uma forma de influenza, segundo
cia, como a lepra, diminuíram em importância e deram lugar a flagelos outros, um tifo atípico, ou uma infecção viral.
novos, ou não percebidos antes. Nos séculos XVI e XVII, entre as doen-
ças epidêmicas observadas pela primeira vez, ou pela primeira vez estu- A FEBRE DAS CADEIAS E OS TRIBUNAIS NEGROS. Enquantq a molés-
dadas de modo nnis preciso, estavam o suor inglês, o tifo exantemático, o tia dos suores permaneceu um enigma fascinante, outras doenças, por
escorbuto, e algumas enfermidades exantemáticas agudas____,.. como escar- causa do morticínio da população, tiveram mais importância. Entre elas
- - - - - -
80 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA 81
..............................................................................................................
~ ......... O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO

estava o tifo exantemático, descrito pela primeira vez, clara e precisamen- reconhecer a escarlatina. Em 1553, no entanto, Giovanni Filippo Ingras-
te, por Fracastoro, em seu clássico tratado sobre contágio, de 1546. sia (1510-!580) 19, interessado por problemas de Saúde Pública e de Medi-
En:-bora considerada, na Renascença, uma nova doença, provavelmen- cina Legal, descreveu uma doença de crianças. Diferençou-a do sarampo
14
te o ufo não era novidade na Europa. Não obstante, apesar de notícias e, afirmou ser a enfermidade conhecida, comumente, por mssania ou
de ~urtos no final da Idade J\tiédia, sem dúvida sua presença aumentou rossalia. A erupção cobria o corpo inteiro e consistia de muitos pontos
mmto durante, e após, o século À.7 VI. grandes e pequenos, de uma ígnea cor rubra, e assim o corpo parecia estar
O tifo sempre esteve intimamente ligado a guerras, fome e pobreza. em chamas, descreveu lngrassia. E embora não mencionasse a dor de
Qu_ando as pessoas se ajuntam e não conseguem manter-se limpas, e garganta, ele se referia, evidentemente, à escarlatina.
assJm se expõem ao piolho transmissor, passa a ser uma ameaça. Em Não obstante, a individualização clínica dessa moléstia só se consumou
conseqüência, a doença continua a ser freqüente em acan1pamentos no século XVII. De início, a atenção se concentrou, ao que parece, em
militares - em especial nas guerras - em prisões, em navios e em surtos epidêmicos de uma doença, na Alemanha. Em escritos populares
hospitais. aparecem referências ocasionais, a uma "moléstia rubra" (Rotsztcht). E em
Ao longo dos séculos XVI e À'VII, o tifo teve participação constante e 1624, G. Horst publicou um livro em que distinguia a "moléstia rubra" de
~e~mda nas campanhas militares que se seguiram, em sucessão qu·ase varíola, sarampo e rô"telu (possivelmente rubéola). Relatos de epidemias,
mmterrupta. Durante o cerco de Granada (1489-1490), uma epidemia em Wittenberg e Breslau, em 1627, de autoria de Daniel Sennert (1572-
dizimou o exército de Fernando e IsabeJ1 5, levando dezessete mil vidas. 1637) e Michael Dõring (morto em 1644) contêm a primeira descrição
Naquele tempo, já se usava a palavra espanhola moderna para a doença clara da enfermidade, com todas as suas feições distintivas. Sennert não
tabardi!lo • Tamb~m se conhecia o tifo como febre pintada ou petequial:
16
apenas foi o primeiro a anotar a descamação. que se segue à erupção, mas
e, por vezes, pela designação de um país, como, por exemplo, ·doença também a relatar as sérias complicações da escarlatina, em particular a
húngara, morbus hzmgariczts. Em 1529, o tifo atacou o exército francês, que hidropisia resultante da inflamação do rim.
sitiava Nápoles, devastando-o quase completamente. E durante a guerra Durante a última parte do século XVII a escarlatina teria estado pre-
dos _Trinta ~nos 17 , contribuiu muito para a desnorteante assolação e o sente, de maneira habitual, em várias regiões da Europa e das Ilhas
sofnmento mlltil infligidos à indefesa massa do povo. Britânicas. De fato, recebeu na Inglaterra o nome pelo qual a conhecemos
A t~adição de espalhar ervas doces nos tribunais, na Inglaterra, é uma até hoje. Em 1676, Thomas Sydenham (1624-1689) 20 incluiu, na terceira
relíqm~ da história da Epidemiologia, testemunho mudo de uma antiga edição de seu Obseruatio1ZU1ll ll1edicarum um curto capítulo intitulado
denommação dessa moléstia: febre das cadeias. O tifo era, quase inevita- "Febris scarlatina". Aparentemente, seu uso do termo é a simples tra-
velmente, uma conseqüência de se ir para a cadeia. Uma série d6 surtos; dução, para o latim, de um nome de utilização comum na época. Uma
desi~nados na história da Inglaterra como Tribunais Negrosls, ilustra anotação de Samuel Pepys em seu diário, de 10 de novembro de 1664,
admiravelmente essa vinculação. reforça essa hipótese: ":f\1inha filhinha Susan adoeceu, nós suspeitamos
O primeiro ocorreu em Cambridge, em 1522, e se seguiram outros, em de sarampo, ou, ao menos, de uma febre escarlate".
Oxford, em 1577 e em Exeter, em 1586; os últimos aconteceram em Sydenham a descreveu como uma doença muito branda,. pouco mais
Taunton, em 1730, e em Londres, em 1750. Em cada um, uma infecção que um nome, como ele afirmava, mesmo se, por vezes, houvesse mortes.
fatal, provavelmente o tifo, se espalhou, dos prisioneiros trazidos diante No geral, sua descrição condiz com o caráter da doença como a conhece-
da corte, para os juízes e outras pessoas presentes. mos hoje. Dos dias de Sydenham até cerca da metade do século XVIII,
tem-se a impressão de que a escarlatina se manifestou de modo benigno.
. A MOLÉSTIA RUBRA O Renascimento se caracteriza ~ela crescente E, a despeito dessas descrições, até o fim do século XVIII continuou a ser
IndiVIdualização da doença fundada na observação clínica e epidemi~lógi­ confundida com o sarampo.
ca. Essa tendência se evidencia não só com a moléstia dos suores e o tifo,
mas também na descrição da escarlatina e de outros exantemas agudos. O RAQUITISMO, OU A DOENÇA INGLESA. Nos primeiros anos do
Antes do século ÀrVI, não existe nenhuma descrição em que se possa século À.~TII surgiu uma ameaça aparentemente nova à infância sadia.
82 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 83
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~~·:;;~~~·~~~~~·~·~;;·~~-~~·~·;;~,~~~~:::·~~~;:;::~·~·~;:·~·:;;~;·~~~·;~~~:·::;~·~;:~ esse libreto se refere a escorbuto, tifo, e, possivelmente, febre an1arela,
doença-cnanç~, _que ~té agora não recebeu um nome próprio em latim) intermação, calor pruriginoso e disenteria, a que os marinheiros estavam
chamada raqmt_Ismo_- (... ) a cabeça aumenta muito, ao passo que as sujeitos nos trópicos.
pernas e partes mfenores mínguam demais". Nas longas viagens, porém, o marinheiro encontrava seu grande inimi-
Era o raquitismo realmente .novo? Há alguma evidência de que, com go no escorbuto 25 , enfermidade devida, essencialmente, a uma dieta
out~o ~ame, se o tenha conhecido muito antes, decerto até mesmo na deficiente em, ou destituída de, vitamina C.
A~tigu1dade clássica. No século XVI, Ambroise ParéZZ descreveu defor- Não se estava diante de uma doença nova. Durante a Idade J\1édia, o
mtdad~s valgas e varas das pernas, provável sinal da presença dessa escorbuto tinha sido observado em cidades_ sitiadas, quando se cortava o
molésti_a n~ França. Não obstante, na Inglaterra o raquitismo apareceu, suprimento de provisões frescas, ou em tempos de escassez. Tornou-se
pelaynmerra vez, nos boletins de mortalidade de 1664, e só em meados um problema agudo, no entanto, ao se aventurarem os marujos da Europa
do seculo À'VII passou a atrair a atenção pública como problema de saúde. Ocidental pelo Atlântico .
. A pru1_1e1ra descrição publicad_a do que hoje conhecemos como raqui- Os portugueses estiveram entre os primeiros a enfrentar as devasta-
tismo VeiO~ lume em 1645, na drssertação apresentada por Daniel '";\rhis- ções do escorbuto. Em sua viagem de 1498, Vasco da Gama" perdeu
tler, ern Lerden, para obtenção de seu diploma de doutor em IV1edicina. cinqüenta e cinco de seus marinheiros para a temível doença. Quando
"Cerca de vinte e seis anos atrás", ele escreveu, "pela primeira vez se Jacques Cartier-27 explorou o Canadá, em 1535, un1a violenta forma da
·observou a doença em nosso país". Esse ponto de vista coincide com a moléstia atacou seus homens. A experiência inglesa com esse flagelo de
opinião expressa por Drummond e 'Nilbraham em seu estudo A A!ime11 .., homens do mar se iniciou em meados do século X\TI, nas primeiras
t~ção do lnglê!- • Pois, se o raquitismo se manifestou em períodos ante-
3
viagens à África.
nores de escassez, um aumento marcante de sua incidência ocorreu Por mais de duzentos anos o escorbuto continuou a ser uma enfer-
duran_te as d~as_ prim. .eiras ,.décadas do século XVII, graças à sev~ra de- midade disseminada entre marinheiros, embora os holandeses, já no meio
pressao economrca e a ternvel pobreza, em especial no sul da Inglaterra. do século XVI, tivessem reconhecido o valor de vegetais frescos e sucos
Des~mprego e. preços em alta sem dúvida levaran1 a uma diminuição no de frutas em sua prevenção. Purchas, em 1601, Lancaster, em 1605,
c~nsu_mo de lerte e à conseqüente queda de ingestão de cálcio, fósforo e Woodall, em 1617, Cockburn, em 1696, eMead, em 1749, todos afirma-
vrtamma D. Desde então, e por um período de mais de dois séculos ram o valor dos sucos de limão e de laranja. Até a metade do século :lc'VIII,
~resceu muito a freqüência da enfermidade e o raquitismo se tornou u~ vieram à luz mais de oitenta publicações sobre o escorbuto, e em muitas
rmpo_rrante problema de saúde pública. Esse aumento também estari~ se recomendava o uso de frutos ácidos, ou de seus sucos. Não obstante,
relaciOnado ao crescimento da vida urbana, quando era difícil consumir as apenas em 1795 o almirantado britânico editoU a sua famosa ordem para
"carnes brancas", em particular leite, e tomar sol. que todos os m<\finheiros recebessem uma provisão de suco de limão.

ESCORBUTO, A MORTE NEGRA DO MAR. A história das grandes AS DOENÇAS DOS TRABALHADORES. 0 interesse pelas doenças dos
descobertas geográficas dos séculos Ã_'\T e XVI é um tema familiar mas marinheiros não era um fen6n1eno isolado; problemas de saúde de outros
um mundo mais espaçoso trouxe também problemas novos e in~spe­ grupos de trabalhadores também atraíam atenção. Em verdade, nesse
rados. período se lançaram as fundações da Medicina Ocupacional, o que permi-
As r?tas maríti_mas para o Extremo Oriente e o Novo J\!fundo implica- tiu a Ramazzini 28 publicar, em 17001 o primeiro tratado amplo sobre as
vam VIagens mawres, e dirigiram a atenção para novos problemas de enfermidades dos trabalhadores.
s_aúde .... Assim, r:ão por acaso apareceu, no século XVI, uma literatura Em virtude de avanços econômicos e tecnológicos, os mineiros e os
hgada as necessidades de saúde dos marinheiros. O primeiro trabalho em metalúrgicos estiveram entre os primeiros grupos ocupacionais a merecer
inglês, dedicado à lVIedicina Naval, se publicou em Londres em JS98 estudos. O volume aumentado de negócios, resultante do crescimento
sob o _título As Curas dos Doentes nos Empree11dimentos da Naçã~ Inglesa 11 ~ das ernpresas comerciais no século Ã.'V, criou uma demanda de.expansão
4
E.xteno?- • Aparentemente obra de George \Nhetstone, soldado e poeta, das moedas correntes e de capital. Durante os séculos XV e XVI só por
84 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
........................................................................................................................ o MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 85
meio de um sllprimento maior de ouro e prata se podia atender a essa
necessidade, e, assim, as minas da Europa Central começaram a trabalhar ~~~:~:~~·~;·~~~~·~·~~··:·;~·~·~:~··;.···~-···~·;:~·~:·~··~:~:~:~~;···~~~:·~··~··:·:~·~·~··~·~·~
com esse objetivo. Aprofundaram-se as minas, e a precisão de cavar mais -· (1657) L Antonio Porzio (1685) e Hemncb Screta (1687),
mant1mos , · ~ . . F Pl bre
fundo na terra afetou a saúde dos mineiros. Quanto mais fundas as minas, sobre a dos soldados, G. Lanzoni, sobre a dos salmeiros e ~. emp, so
maiores os riscos ocupacionais. O surgimento dos primeiros livros relacio- a dos advogados.
nados com doenças e acidentes de mineiros reflete essas circunstâncias. Essa tendência, plena de significados para o futu~o, ~lcanç~u sua
Contudo, a primeira publicação sobre os riscos de um grupo ocupa- · · . afirmação clássica com De Morbis Artiftcum Dzatnba (Discurso
pnme1ra
sobre as doc::nças dos artífices), de Bernardino R amazztm,
· · d e lvl'd
o _ena , um
cional -uma pequena brochura de oito páginas, escrita em 1472 por
Ulrich Ellenbog, médico de Augsburgo, e impressa em 1523 ou 1524- médico de grande saber e encanto pessoal. Sua atraent~ personalidade se
se referiu a ourives, e não a mineiros. Intitulava-se Sobre os Ve!Zenos e revela 110 poema introdutório de seu livro, quando dtz est_ar a ?bra se
A1aléftcos Vapores e Gases de Afetais, como Prata, Mercúrio, Chumbo e Outros coçando e ardendo para ser publicada e a adverte quanto a tnste sma que
que o Valioso Negócio do Ourives e de Outros Trabalhadores os Compele a Usar: a espera. - d r-r · ·
Como Devem Eles Agir e Como Dissipar o Vmeno (Von den gifftigen besen Publicada em 1700, essa obra representa, para a evoluçao ~ tgtene
tempffen und reuchen ... ). O autor tinha intenções profiláticas. Ocupacional, 0 mesmo que 0 livro de Vesálio para a Anator~1.1a, e_ o de
O primeiro relato de doenças e acidentes de mineiros apareceu em l'v1orgagnP1 para a Patologia. Percebendo a grande importância soctal ~a
1556, no compendioso tratado sobre mineração de GeorgAgricola (1494- saúde ocupacional, Ran1azzini se dedicou não apenas a estudar_as condi-
1555). Ele dividiu os padecimentos dos mineiros em quatro grupos (os ções mórbidas das profissões, mas também_ a ~hama: ~tençao yara. a
que atacam as juntas, os pulmões~ os olhos e, finalmente, os fatais) e aplicação prática desse conhecimento. Na pnmeua e~tça~, ~le discutiU
discutiu a prevenção e o tratamento de cada um desses estados. O relato quarenta e dois grupos de trabalhadores, entre os ~uats ~~netros, do:rra-
dos padecimentos, porém, é apenas incidental à descrição da mineração, dores, farmacêuticos, parteiras, padeiros e rr:-o~eiros, pintores, ~letra~,
mais longa. · cantores e soldados. E ampliou a segunda ediçao, de _1713, para mclmr
Em 1567, onze anos depois da publicação do tratado de Agricola, veio a mais doze grupos, entre os quais impressores, tecelaes, amoladores e
lume, em Dillinger, Alemanha, a primeira monografia dedicada exclusi- cavadores de poços. . . _ , ,
vamente às doenças ocupacionais de mineiros e fundidores. Teve como A obra de Ramazzini ten1 uma sigmficaçao dual; e. stn:ese de todo o
autor Theophrastus von Hobenheim, usualmente conhecido como Para- conhecimento sobre a doença ocupacional, desde_ os pnmeuos tempos, e,
celso". Intitulava-se Vou der Bergsuchtu!Zd a11dmm Bergkra11kheiten (Sobre a também, um solo para novas investigações; é, assim, u~ olhar ao passa?o
tísica dos mineiros e outras doenças das montanhas). e uma intimação a um desenvolvimento futuro. Traduzido para o frances,
Consiste de três livros. O primeiro, sobre as doenças, principalmente 0 alemão e 0 inglês, 0 livro de Ramazzin~ perd~rou . .como o t~xto funda-
pulmonares, dos mineiros; o segundo, sobre as moléstias dos fundidores e mental desse ramo da JVledicina Preventiva ate o seculo XIX, quando a
metalúrgicos; o terceiro, enfermidades causadas por mercúrio. Paracelso Revolução Industrial lançou ao cenário novos problemas.
discutiu etiologia, patogênese, prevenção, diagnóstico e tratamento, e sua
monografia exerceu influência definitiva sobre a l\1edicina Ocupacional. A GRANDE PÚSTULA. Entre as doenças novas, ou apar_entemente
Agricola e Paracelso puseram sobre solo firme o estudo dos problemas novas, características dos séculos }._~TJ e XVII, sobres_sam ~ stfi~IS ....Q~al­
de saúde dos mineiros e a crescente literatura moderna sobre o assunto quer que seja sua origem- e não cabe discuti-la aqu~--::- n~o ha duvidas
reconhece o valor de suas contribuições. Embora os séculos XVII e XVIII de que a doença apareceu na Europa, sob a for:na e~tdemica, no fim do
não tenham trazido descobertas importantes, a compilação de observa- ' 1 XV Apareceu em Nápoles ' de onde se diSsemmou para o resto
secuo. S' do
ções, por vários autores, valeu por si mesma. Simultaneamente, outros continente. Em 1495 a sífilis estava na Alemanha, na França e n~. Uiça,
médicos escreveram sobre os riscos de diferentes ocupações. Desde 1496 na Holanda e na Grécia, em 1497 11a Inglaterra e na Escoc1a, em
Marsilio Ficino (1497) 30 e passando por G. Horst (1615) e Grataroli (1652), em
1499 na Hungria e na Rússia. Como os médicos . a const"d erassem una I
existia uma literatura sobre a saúde dos eruditos. No século XVII, para nova doença, recebeu vários nomes; os franceses a cha_mavam de doença
napolitana, ao passo que os italianos a ela se refenam como-~~~~~---
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86 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 87
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~~~:~~~~::·~,;~;:~;,~·~~;;;;;;~:·::·~::~·~~~·~~·;~~~~:~;·~·~;~;~·~~~:~:··l~:··~~·;~p"~'
E I ' · I .
contatos com pessoas sadias. Em 1496, barbeiros de Roma receberam a
m a guns patses tm1a. também denominações vernaculares: a pústula proibição de servi-los.
grande, o~ fra~1cesa, em mglês, la grosse vérofe'Z em francês, e die B!atte171 33 rvluito cedo se criaram hospitais, e outras instalações para tratamento
e~ alemao. Em _15~0, porém, Fracasroro publicou seu poema Syphili's de sifilíticos. As autoridades municipais de Würzburg, em 1496, de Fri-
Srv~ A1orb~ts Ga!ltcusJ~, poema que logo ganhou popularidade e m~receu burgo, em 1497, e de Hamburgo, e1n 1507, tomaram providências para a
mmtas e?tções. Conta a lenda de Sífilo, um pastor bonito e jovem. Sífilo, hospitalização e o tratamento. Em 1505, a Confraternidade de Ferrã.ra
por ,te~ msultado o deus Apolo, recebeu como punição uma terrível recebeu licença para estabelecer um hospital. Um alvará veneziano, de
n:;~I<~~tia, a doença francesa. Segundo o modelo das Geórgicos, de Vir- 1552, ordenava a todos os doentes a procurar o Hospital dos Incumb/es.
gtho-n, Fracast?ro apresentou os sintomas, o curso e o tratamento da Muitas comunidades, além disso, ofereciam tratamento médico, de graça,
doe_nça em refm~d?s versos latinos. A fama do poema levou à generali- e, na maioria das vezes, se pedia aos clínicos a notificação dos casos às
zaçao do nome s(filr.s. autoridades.
!'l"aquela época_, a sífilis exibia muito mais sintomas agudos do que Nos séculos :\.'VII e XVIII, possivelmente como resultado dessas me-
hoJe, e _se a considerava doença epidêmica. Como a tolerância sexual didas, e também do enérgico tratamento pela unção mercurial, e do
caractenzasse
_ . . o período. entre. o Renascim.ento e o século 1.'VIII , a doença
· desenvolvimento de algum grau de imunidade, a sífilis se tornou uma
na o esti~manz~va e"assim fOI possível levar a cabo ingentes esforços para doença de natureza mais crônica. Não obstante, continuou a se difundir e
con:bate-la. Nmguem pensava em esconder un1a infecção sifilítica e a ser um problema de saúde maior. E quando a moralidade da classe
Ulnch von Hutten, cavaleiro fidalgo alemão, chegou a publicar um rel~to média passou a dominar, caiu sobre a doença o estigma social. Em
de se~ c~so, de modo a que outros se pudessem beneficiar de sua conseqüência, a sífilis se escondeu e isso n1uito prejudicou os esforços
exp~nenc1a. Em conseqüência, o conhecimento sobre a sífilis - suas para controlá-la, até recentemente.
ma~Ifestações clínicas, sua contagiosidade, seu tratamento- se difundiu
rap1da e a~plamente. Por volta de 1530, já se reconhecia 0 caráter sexual A PEQUENA PÚSTULA. O aparecimento de novas doenças não impli-
da enfermidade~ se agia com vigor para controlar fontes de infecção. cou o desaparecimento das antigas. Ao contrário, algumas cresceram em il
Algumas me~1da~ ~e_ contr~le tiveram como alvo as prostitutas. O importância con1o problemas de saúde comunitária. ,I
bordel era ~1ma mstit~Içao aceita e a prostituição uma profissão ampla- Não há dúvida quanto à existência da varíola na Idade Média. Ao fim
~ente pratlcad~; ao frm do século À'V Roma possuía mais de seis mil e do período medieval, contudo, essa moléstia parece ter-se espalhado pela
li
mtoce~tas prostitutas públicas. Em Veneza, no censo de 1509, se conta- Europa, como também por Ásia, África· e Américas, onde exploradores e
ra~ _na~ menos de onze m!l e seiscentos e cinqüenta e quatro jemene da colonizadores europeus a tinham introduzido. Em geral, a varíola aparece,
pa7ttdo , em uma populaçao de trezentos mil habitantes. Já em 1496 as na Europa, de forma branda e raramente fataL Em seu livro sobre o
prostitutas haviam Sido expulsas de Bolonha, Ferrara e outras cidades. contágio, Fracas toro a considera uma doença leve, à qual se sujeitavam
Em 1507, ~m~ lei de F_a~n:a ordenava o exame das mulheres desejosas quase todos. Existen1 vários relatos de epidemias na Itália, no século XVI,
de se prostitUir e a prmbtçao de exercer a profissão para as encontradas como, por exemplo, em J\1ântua, em 1567, e em Brescia, enl1570, 1577 e
com a doença francesa.
1588. Ambroise;:; Par6 se refere à varíola na França e descreve casos que
Em geral, as medid~s se originavam das desenvolvidas para enfrentar viu em 1586 e e1n outros anos.
out_ras do~nças contagiOsas, em particular lepra e peste. Expulsavam-se, O termo smal!pox apareceu na Inglaterra no início do século XVI
ou Impedian:-se de entrar na comunidade, os não residentes doentes, ou como contraparte ao termo francês lo petite vérole, usado em oposição a
s~spe1tos. Cidadãos enfermos tinham que tratar-se em hospitais espe- la grosse vérole, a sífilis. Os termos i1nplicam o reconhecimento de al-
ciais. Em 1496, Besançon expulsou prostitutas e estrangeiros acometidos guma semelhança entre as duas condições, sendo a erupção o elemento
pela doença napol_itana. Zurique, nesse mesmo ano, e Nurembergue em COI11Um. "'
149?•. tomaram amudes similares. Ainda em 1497, Bamberg proibi~ os No fim do período isabelino37 , a varíola começou a ser reconhecida
s~~~~I-~~?os _5:l~-~~~~-~~~-J1o~pe~~i~~--~~~!_~j~--~-~!::_E~~~~-~_g uaisq uer __ como uma doença habitual na Inglaterra. Em 1629, os primeiros boletins
88 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO
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de mortalidade impressos para Londres a registraram como uma enfermi- particular, em 1657 e 1644, epidemias visitaram a Inglaterra. Cromwell '
dade distinta, que, ano a ano, se manteye com regularidade nos registros. teria morrido de malária.
Ao long_o do período Stuart38, fazem-~é freqüentes referências à varíola, ' Durante esse período a enfermidade se introduziu no Novo h1undo,
em particular em Londres, e sua crescente gravidade se reflete na alta nos Sua incandescência, nessa época, teria ocorrido por causa das contínuas
números dos boletins de mortalidade; mais de mil e quinhentas pessoas guerras e da grande expansão do comércio marítin1o. Os europeus esta-
pereceram, só em Londres, durante a epidemia de 1659. van1 em permanente contato com alguns dos maiores focos da doença na
. P~l? fim d~ s~cu~o À'VII, já se considerava a varíola quase uma parte África, na Índia e na Ásia Oriental. A importação de novas linhagens do
1~1evrravel .da mfancra. Os recém-nascidos e crianças mais novas contrai- parasito e a disseminação da moléstia pela Europa, por portadores, são
nam uma forma branda da d-oença, mais fatal em crianças mais velhas e prováveis.
em adultos. , Nessa época se fizeram duas contribuições significantes à profilaxia da
Pelo início do século }{VIII, era. endêmica nas cidades da Grã-Breta- malária. Entre 1630 e 1640, se importou a quina peruana, ou cinchona,
nha, e uma das principais causas de morte. A Rainha Maria morreu em para a Europa, assim se conseguindo um remédio específico contr~ a
1694, durante uma epidemia. Ao longo daquele século, no continente e doença. E em 1717, Giovanni Maria Lancisi (1654-1720) 41 , um conhec1do
na Inglaterra, ardendo endemicamente nas cidades e se inflamando ém clínico, publicou um volume intitulado De Noxiis Pa!udum Eff!uviis (Sobre
. surtos epidêmicos, a varíola representou uma ameaça contínua à saúde as emanações nocivas dos pântanos). Ele acreditava produzirem os pânta-
pública. nos duas espécies de emanações, animadas e inanimadas, capazes .d~
Penetrou no Novo 1v1undo pouco depois da descoberta. Desde entãó originar malária. As animadas eram os mosquitos. Estes, segundo LanciSI,
apareceu em ondas, ~e tempos em tempos, em uma ou mais localidades, podiam carregar, ou transmitir, matéria patogênica ou animálculos. Lan-
mas com uma magmtude nunca co.mparável às da Grã-Bretanha ou Eu- cisi, portanto, se aproximou do conceito de vetor e antecipou, em parte, a
ropa. Não obstante, evocava um terror vívido. A necessidade de infor- solução do enigma da malária, conseguida apenas no final do século XIX.
mar o público quanto à natureza da doença e aos meios para enfrentá-la Outras doenças já conhecidas também apareceram, sob formas epidê-
levou Thomas Thacher a publicar, em 1677-1678, Uma Breve Regra pa 1 ~ micas, das mais graves da História, durante os séculos XVI e XVII.
Gutar as Pessoas Comuns da f{ova Iuglaterra a se Conduzirem e aos Seus No século XVI, a difteria emergiu, na Europa, como uma séria doença
D. d. J! , ,
1011te a mio/a ou Sarampo 39 , o primeiro documento médico impresso epidêmica, primeiro nos Países Baixos e ao longo do Reno e na França,
na América ao norte do J\1éxico. depois na área ocidental do J\1editerrâneo, na Península Ibérica e na
Por toda parte··se reconhecia a necessidade de uma prevenção efetiva. Itália. Observações de médicos forneceram as primeiras descrições clíni-
E graças à varí~la se chegou, no século À'VIII, à vacinação de Jenner, um cas apropriadas da enfermidade. Uma série de epiden1ias mortíferas
dos gra1:des tnunfos da Medicina Preventiva. Os primórdios dessa faça- varreu Espanha e Itália a partir do fim do século XVI e levou os médicos
nha se srtuam no início do século À'VIIL desses países a aceitar o caráter comunicável da moléstia. Lef!.ta, mas
seguramente, a diferenciação clínica da difteria se processava. No entan-
MALÁRIA E OUTRAS DOENÇAS. A malária, como a varíola, estava to, como, mais para o final do século XVII, a violência da doença arrefe-
presei1t~ na Europa na Idade :Média. Mas só no século XVI dispomos de cesse o interesse dos médicos din1inuiu. Pelo século XVIII adentro,
alguma mformação sobre sua intensidade e distribuição. porér~, a difteria de novo cresceu na Europa, irrompendo também na
Dos séculos XVI a XVIII, a malária se manifestou de modo endêmico Grã-Bretanha e na América. J\1as em nenhuma parte com a n1esma
e com f~eqüência epidêmico, em largas faixas da Europa. A primeir~ virulência das epidemias espanholas e italianas do século anterior.
pandemra européia conhecida se refere aos anos 1557 e 1558. A peste bubônica continuou a arder ao longo da Europa durante o
Durante o século XVII, Inglaterra, Espanha, Itália, França, Países século XVI. Com o avanço do século, contudo, parece ter-se espalhado, e
Baixos, Alemanha e Hungria sofreram importantes infecções. De acordo atingido cidades an.tes poupadas. Também a letalidade se elevou. Mas só
com G. B. Cavallari, a malária matou, na Itália, em 1602, não menos de no século À~lll a doença recrudesceu, cmn a maior virulência desde a
quarenta mil pessoas. Durante a segunda metade do século XVII, e 1n Morte Negra.

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o MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 91
90 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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Sob os Tudor e os Stuart, a peste visitou a Inglaterra a intervalos constituições, atmosféricos, ao longo das estações e d~1rante ,~árias anos,
freqüentes, atingindo o auge durante a grande epidemia de 1665. Tam- entre 1570 e 1579. Anotou, por exemplo, ter sido úmtda·a pnn1avera de
bén1 o continente sofreu de modo intenso; a terrível epidemia de 1628 e 1571, quando muitas pessoas tiveram resfriados, pleurisia e dor de gar-
1629 dizimou quase a metade da população de Lião. Movendo-se para o ganta. ~ _ . ,. . :
norte, ao longo do vale do Saona, a peste invadiu a zona de Oijon; em XThomas Sydenham (1624-1689), o grande clmiCO mgles, apro_fundou,
1636 aconteceu um surto assustador, que quase despovoou a região. essa maneira de ver. Em sua visão, as doenças febns agudas camn1 em
Entre 1629 e 1631 a Itália passou por UITia experiência similar; segundo dois grupos principais: as desordens epidêmicas - produzidas por mu- ·
Corradi, entre 1630 e 1631 a peste causou um milhão de mortes só no danças atmosféricas - e as doenças interc~rrente~ - depe~1dentes d.a
norte. tv1ilão, em 1630, perdeu oitenta e seis mil pessoas e relatam-se não suscetibilidade do corpo. Peste, varíola e dtsentena pertenciam ao pn-
n1enos de quinhentas mil mortes na República de Veneza. Ao fim da meiro grupo; escarlatina, amigdalite, pleurisia e reun:atismo, ao segundo.
Guerra dos Trinta Anos, a peste se espalhou pela Alemanha e pelos As doenças intercorrentes agudas podiam aparecer mdependent.emente
Países Baixos. De 1654 a 1656 os povos da Europa Oriental sofreram seu 1: do estado atmosférico, mas as desordens epidêmicas_ tambén1 as ln~ue~n­
impacto. Ao fim do século À'VII, porém, a intensidade dos surtos amai- ciavam. Sydenha1n sustentava ser uma feição proemmente de um dtstur-
nou, e embora a peste bubônica continuasse, no século XVIII, a afligir·a bio epidêmico a assim chamada "febre estac~onária", capaz de enx:rt~r- ,
Europa, não representava mais o problema opressivo dos séculos prece- se sobre doenças intercorrentes. Existiria, ~sstm, uma :na.rc_a caracter:s:tca
dentes. em todas as enfermidades de uma determmada constttwçao atmosfenca.
Ao estado da atmosfera e às mudanças hipotéticas em que se produziam
CONTÁGIO OU CONSTITUIÇÃO EPIDÊMICA? Os médicos tinham doenças, Sydenham chamou de "constituição epid~mica". . " .
muitas oportunidades de-estudar e observar doenças pestilenciais. Acu- Os distúrbios epidêmicos aumentavam em gravtdade e v10le~~~a en-
mulou-se, assim, muito conhecimento, origem de considerável especula- quanto a constituição epidêmica crescia e levava su~ ~orça ao .maxtmo, e
ção sobre a gênese das epidemias e de várias doenças febris agudas. se atenuavam à proporção que os elementos atmosfencos cedtam lugar a
Esforços para explicar esses fenômenos levaram ao desenvolvimento de un1a nova constituição. Esta prevaleceria por un1 certo per~odo e a ela.
conceitos conflitantes, influentes no pensa:r;nento e na prática da Saúde associar-se-iam outras doenças epidêmicas. Sydenham não unha certeza\
Pública até nossos dias. Um, a constituição epidêmica, o outro, o contágio. quanto à natureza da n1udança atmosférica, mas a atrib~ía a um mi:s~a
Nenhum inteiramente novo, pois cada um se orig~nava, ao menos em que se elevava da terra. E chegava a pensar em uma ongem astrologtca ·:
parte, de pontos de vista anteriores. das epidemias. . . , . . . .
A idéia de serem as epidemias causadas por uma constelação de con- A influência da concepção atmosfénco-mmsmattca perdurana mmto\
dições climáticas e circunstâncias locais, presente nos escritos hipocráti- longamente e esse conceito desempenharia un1 importante papel no·l
cos, é um dos princípios da Epidemiologia medieval. Hipócrates distin- avanço da Saúde Pública no século XIX. Edwin Chadwick, como o\
guiu as variações meteorológicas e o caráter das estações como os elemen- veremos, aderiu à teoria miasmática das febres epidêmicas._ E, e~~o.ra \
tos determinantes da ascensão e do declínio das doenças epidêmicas, e não estivesse certa, essa idéia forneceu um terreno para a açao samtana.
das variações em sua incidencia sazonal e anual. Esse conceito de consti- Assim vemos que, no curso da História, muitas vezes as coisas não são
tuição epidêmica- um estado da atmosfera produtor de certas doenças completamente claras ou con1pletamente escuras, e idéias erradas podem
capazes de se espalharem enquanto persistir a constituição particular- ser usadas de modo produtivo. . ·
se desenvolveu mais durante os séculos XVI e XVII. Coube a Guillaume J Ao mesmo tempo, porém, outros médicos, e leigos, viam no contágiO o\
de Baillou (1538-1616), médico francês, autor da primeira descrição clíni- 1. principal fator responsável pelo aumento e pela difusão da doença epl-
ca da coqueluche e introdutor da noção de reumatismo, ser o primeiro f dêmica. .
advogado eminente dessa idéia. No livro Epidemiorum et Ephemeridum x Em 1546, Girolamo Fracastoro (1478-1533), no tratado De Co1ltagl0m,
I
j_---~~~ -~--s-~~-~ -~-~~~:~~-~~~~~~~ou_~-~~--~~o_r~~-~~~~~~~i~~~a d~-~~:~~~io.
(Sobre epidemias e efemérides), publicado postumamente, em 1640, em Contagiosis /J1orbis et Eom!ll Curatio11e (Sobre contágio, doenças contagw-
Paris, Baillou tomou Hipócrates como modelo e discutiu os estados- ou _E_s_s_e____
'
O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 93
92 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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.................................................................................................................: ...... LEEUWENHOEK E SEUS "PEQUENOS ANIMAIS". Embora Fracastoro
livro representa um dos marcos na evolução de uma teoria científica da tenha elucidado o mecanismo do contágio, as sementes da doença perma-
doença comunicável. A obra de Fracastoro se sustenta em um estudo neceram envoltas em mistério. E até o século XVII não se levou em
vasto, e prático, da peste, do tifo, da sífilis e de outras doenças epidê- conta, seriamente, a idéia de que diminutos organismos 'i~ivos pudessem
micas. Seu tratado compreende três livros: no primeiro, expõe sua teoria ser a causa do contágio. A verdade só se insinuou, e mmto lentamente,
do contágio; no segundo, discute várias doenças contagiosas; no terceiro, quando o microscópio começou a revelar suas mara:ilhas.~ ~on1 a evolu-
trata de suas curas. ção das lentes de aumento simples, e a aparição do I~Ic~oscopw c~mp?sto,
Fracastoro teve a primazia de apresentar, com clareza, uma teoria da no século À'VI, pôde-se investigar a natureza das dtmmutas semmat'l-a de
infecção, no sentido moderno do termo. E apreendeu o fato de ser a Fracastoro.
infecção a conseqüência e não a causa. Apoiando-se na observação objeti- tviesmo quando se aprendeu que diminutas formas de vida, pequenas
va, e em ufn racib'tínio sagaz, ele concluiu seren1 as doenças epidêmicas demais para serem vistas a olho nu, pululavam na natureza- no ar, na
causadas por diminutos agentes infecciosos, que são transmissíveis e se água e no solo - não se consumou a ligação en~re essas ~1inúsculas
reproduzem por s3 mesmos. Essas sementes, ou semitzari.a, são específicas criaturas e a causação da doença. O primeiro a observar bacténas e outros
42
para doenças indiViduais; determinadas sementes geram determinadas organismos microscópicos foi Antony van Leeuwenhoek (1632-1723) ,
doenças. A doenÇa se instalava quando as sementes alteravam os humor~s negociante de linho de Delft. Na famosa carta de 9 de outubro de 1676,
e princípios vitais do corpo. ele comunicou sua descoberta à Real Sociedade de Londres. Leeuwe-·
É difícil precisar como Fracastoro concebia as semi11aria, n1as é im- nhoek descreveu as formas hoje conhecidas como cocos, bacilos e espiri-
possível igualá-las aos micróbios vivos, no sentido moderno. Seremos los, mas, aparentemente, não lhe ocorreu uma possível conexão en~re
mais fiéis a seu pensamento se considerarmos suas sementes de doença seus "pequenos animais" e as doenças. Como ele os encontrou em me~os
como substâncias químicas, ou fermentos. Como as sementes pudessem inofensivos- tais como água de chuva, solo e excreções humanas sadias
variar em sua habilidade de invadir o corpo, ou de persistir no ambiente, -isso não chega a surpreender.
essas variações ajudariam a explicar o caráter cíclico de certas doenças. Se havia fascínio em observar essas pequenas criaturas, era infinita-
Fracastoro, por fim, reconheceu três modos de contágio: por contato mente mais excitante perguntar de onde vinham e como viviam. Muitos
direto de pessoa fl:.:pessoa; por agentes ~ntermediários, como os fômites; e ' ~·
criam em geração espontânea e outros, entre os quais Leeuwenhoek,
à distância, atravéS do ar, por exemplo. Ele postulava que, sob condições sustentavan1 sua origem em germes preexistentes. Em torno dessa ques-
incomuns, a atmosfera geral se infecta e produz pandemias. Conjunções tão, e dos problemas da fermentação e da putrefação, evoluiu uma notá-
atmosféricas e asúológicas anormais favorecem a infecção; como muitos vel controvérsia.
de seus predecess·ores e contemporâneos, Fracastoro cria em astrologia. Encontravam-se organismos diminutos em substâncias de decompo-
Algumas das idéias de Fracastoro não eram nem novas nem originais. sição fácil- em leite azedo, carne podre, caldo de carne estraga.do- en1
Outros, entre os quais Varro, Columela e Paracelso, haviam aventado as que, em suma, ocorressem deterioração ou fermenta?ão. Outrosstm, quan-
doutrinas de um contágio animado e de sementes específicas de doenças. do se punha matéria orgânica que se estragava fac1~mente e1n un1 lug:r
Fracastoro tampouco descobriu, ou previu, a existência de bactérias. Sua quente, por curto tempo, surgiam enxames de orgamsmos_nnde an~e:s nao
façanha, porém, se revelou tão ou mais significativa. Raciocinando de existia nenhum. Parecia razoável supor, portanto, a geraçao dos microor-
modo lógico, fundando-se em fatos, e, quando carecia de observações, ganismos a partir da matéria inanimada. Seguindo ~ssa linh.a de ~e~sa­
· valendo-se de analogias, ele conformou as idéias difusas de seus prede- mento tambén1 parecia lógico considerar os orgamsmos mtcroscopiCOS
cessores e contemporâneos. Fracastoro chegou à concepção da natureza produ~os, ao invés de causas das doenças geradas nas febr~es pú:rida~.
particulada do elemento contagioso e delineou um relato, claro, e, em Assim, a crença na geração espontânea representou um obstaculo a acei-
essência, acurado, sobre a maneira de agir das sementes de doença. tação da teoria dos germes. Tentativas de entender a geração espontânea
Assim, criou uma teoria contagionista, rival, até finais do século XIX, da e a natureza da fermentação acabariam por levar ao entendimento do
doutrina atmosférico-miasmática. problema da doença comunicável. Mas apenas no século XIX.
94 O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 95
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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Durante esse período, contudo, aumentou lentamente o número de mos considerá-las partes de um esquema de política e adn1inistração cujo
observadores que atribuíam a essas criaturas microscópicas a causa das fim supremo estava em pôr a vida social e econômica a serviço do Estado.
doenças contagiosas. Como o sabemos, a teoria de que organismos vivos Esse sistema veio a ser conhecido como mercantilismo, ou, e1n sua forma
pudessem ser os agentes da doença comunicável não representava novi- alemã, como cameralisn1o.
dade. Em 1557, Girolamo Cardano~ 3 sugeriu serem as sementes das Do ponto de vista político, tem-se descrito o mercantilismo como a
doenças animais minúsculos, capazes de se reproduzir; outros cientistas política do poder. A idéia do mercantilismo, porém, não se exaure nessa
exprimiram visões similares. ~-ias só em 1658, Athanasius Kirchef'l\ um descrição de seu conte(Jdo. O mercantilismo significou muito mais do que
jesuíta, pela primeira vez reivindicou a observação de diminutos organis- isso: era também un1a concepção de sociedade. Olhava-se o bem-estar da
mos vivos como a causa da peste. E, a despeito do seu caráter incipiente e sociedade como idêntico ao bem-estar do Estado. Como se considerava
contraditório, seu trabalho atraiu atenções em toda a Europa e micros- que o poder fosse o interesse supremo do Estado, se justificavam a
copistas entusia~mados começaram a caçar os germes das doenças. Entu- maioria dos elementos da política mercantilista como fortalecimento do
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siasmo, porém, não bastava para compensar as deficiências técnicas e poder do in1pério; o fulcro da política social, rortanto, era a raiso1J. d'État •
t~óricas com as quais esses investigadores trabalhavam. Em conseqüên- Para os políticos, em todos os países, em monarquias ou cidade~­
cia, seus relatos,- confusos e contraditórios, rapidamente levaram a uma Estado, havia uma questão importante: que rumo deve o governo segmr
reação contra a teoria dos germes. para aumentar o poder e a riqueza nacionais? Segundo o entendiam os
~urante o século À'VIII não faltaram defensores dessa teoria, entre os soberanos e seus conselheiros, antes de tudo fazia-se necessária uma
quars o inglês Benjamin Marten (morto em 1720) e o austríaco M. A. von população grande; em segundo lugar, cuidar dessa população, no sentidO
Plenciz (1705-1786). Mas não se chegou a evidências suficientes para material; e en1 terceiro, controlá-la, de maneira a se poder utilizá-la
confirmar suas opiniões. E só em 1830 e 1840 a teoria dos germes veio a segundo os interesses da política pública. E embora a aplicação da doutri-
reviver, apoia?a em novos achados. na mercantilista recebesse ênfases variadas, en1 diferentes tempos e
lugares, se reconhecia, em qualquer país, para se poder usar uma popula-
FUNDAÇÕES DA ADMINISTRAÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA. Em seus ção, a exigência de alguma atenção aos problemas de saúde. .
estudos, o historiador da Saúde Pública deve levar em conta dois compo- Com o crescimento da indústria, na Inglaterra do século Àrvll, come-
nentes. Um, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia médicas, pois 0 çou-se a considerar a produção como central na atividade econômica.
entendimento da natureza e da causa da doença fornece o solo para a ação Assim, o trabalho - um dos mais importantes fatores de produção -
e o controle preventivos. Mas, como a aplicação efetiva desse conheci- passou a ser elemento essencial na geração da riqueza nacio_nal; qualquer
mento depende .,de uma variedade de elementos não científicos - em perda na produtividade de trabalho, decorrente de enfern11dade ou mor-
~ssência, ?e_ fatores políticos, econômicos e sociais- esse é outra grande te, tornava-se u1n problema econômico. Além do mais, sendo a pop~lação
lmha no tecido da Saúde Pública. '
um fator de produção, saber o numero e o "va1or d o povo " , em par t lCU lar
Do século XVI ao 1.'\TIJ, duas tendências fundamentais moldaram a os dos grupos ocupacionais mais produtivos, tornava-se vital. O reconhe-
atividade de Saúde Pública. De um lado, a administração permaneceu cimento dessa necessidade, na Inglaterra, no século À.."''Il, levou às pri-
centralizada em uma unidade local, em particular a cidade, conservando- meiras tentativas de usar métodos estatísticos nesse campo. E a aplica-
se, assim, o caráter de freguesia do período medievaL Do outro lado, ção de métodos nun1éricos à análise de problemas de saúde veio a ren-
como tendência compensatória, veio a emergência do grande Leviatã45 , 0 der frutos extraordinários para o estudo e o desenvolvimento da Saúde
Estado l\1oderno, cujos contornos lentamente se elevaram acima do Pública.
tempestuoso mar da política como uma baleia vinda à superfície. Com o ..
passar do tempo, cada vez mais o Estado caminhou em direção a um ARITMÉTICA POLÍTICA: OS REGISTROS DO ESTADO. De início, os
governo nacional centralizado, com um conjunto de doutrina_s políticas e que se incumbiram de usar a abordagem estatística se interessavam,
econômicas que influenciaram a administração da Saúde Pública. Para sobretudo, pelo que se podia chamar de registros do Estado. Fizeram-se
apreciar, com justiça, a relevância dessas doutrinas para a prática, deve- esforços para apurar os dados quantitativos principais da vida nacional, na
96 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
........................................................................................................................ O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 97
........................................................................................................................
crença de que se pudesse utilizar esse conhecimento para aumentar o tica política, "arte de raciocinar com cálculos sobre coisas relacionadas
poder e o prestígio do Estado. Caracteristicamente, a esse novo campo de com o governo", prosseguiu durante o século À,...VII e princípios do XVIII,
trabalho se nomeou "aritmética política". Essa evolução teve anteceden- em especial com Gregory King, Charles Davenant, Edmund Halley, John
tes. A importância do conhecimento estatístico relativo às cidades tinha Arbuthnot, Sebastien de Vauban, e Johann Peter Süssmilch. A população
sido claramente reconhecida na Renascença italiana, em particular em continuou a ser o objeto central da política aritmética, e houve esforços
Florença e Veneza (ver págs. 69, 71), mas esse conhecimento não tinha engenhosos para se calcular o tamanho e determinar o estado de diversas
evoluído como método para análise de problemas de saúde. populações. O interesse se voltotl para vários elementos, incluindo-se as
A paternidade da aritmética política coube a William Petty (1623- doenças, capazes de causar aumento ou declínio no número de pessoas.
1687), médico, economista e cientista, que inventou o termo e era profun- Esses esforços, contudo, levaram a pouco progresso substancial. Não
damente sensível . à importância de uma população sadia como fator de obstante, esse período produziu algumas contribuições, práticas e teóri-
opulência e podçr nacionais. Repetidamente, Petty insistiu em que se cas, plenas de significação futura.
colhessem dados sobre população, educação, doenças, renda e muitos No lado prático, isso é verdade quanto à tábua de vida; ou de mortalida-
outros tópicos. Dominado pela idéia de, analisando esses dados, lançar luz de. O esforço incipiente de Graunt repercutiu em outros países e, uma
I
sobre matérias de interesse e de política nacionais, sempre que possível geração a partir de sua morte, homens de negócios já tentavam, através do
ele se valeu de cálculos matemáticos. uso da tábua da vida, pôr o seguro de vida sobre um terreno firme. Em
Embora Petty tivesse reconhecido a importância de um estudo quanti- 1669, set~ anos após a publicação do livro de Graunt, Christian Huygens49
tativo de problemas de saúde, e sugerido muitos temas de investigação, a trabalhava com o problema de determinar, matematicamente, a provável
primeira contribuição sólida nesse campo veio de seu amigo John Graunt expectativa da vida humana, em qualquer idade. Mais valiosa, porém, se
(1620-1674)47• Seu clássico (Observações Naturais e Polfticas .... por /Jfeio dos mostrou a tábua de vida publicada em 1693 por Edmund Halley50, de
Boletins de Mortalidade}" apareceu em 1662. Usando o número das mor- aplicação direta no cálculo de anuidades de vida. Vale a pena mencionar o
tes, em Londres, durante o último terço do século, Graunt os interpretou, uso, pelas primeiras companhias de seguros de vida a se estabelecerem
por raciocínio indutivo, e demonstrou a regularidade de certos fenômenos em Londres- no século 1.'VIII - , da tábua de Halley. A administração
sociais e vítais, assim iluminando uma série de fatos. Ele notou, por de qualquer plano de seguro de vida implica conhecer as taxas de morta-
exemplo, que as mortes devidas a vários distúrbios físicos e emocionais, e lidade e a expectativa de vida. No curso do século XVIII, fizeram-se
até a certos incidentes, "guardam, no número total de enterros, uma algumas melhorias na construção dessas tábuas e, em conseqüência, as
proporção constante". Graunt também indicou o excesso de nascimentos operações de seguro se assentaram sobre linhas atuariais mais confiáveis.
de homens em relação a mulheres, e a eventual igualdade numérica, Estimularam essa evolução, também, os interessados em ensinar os po-
aproximada, dos sexos; a proporção de nascimentos e mortes na cidade e bres, por meio de esquemas voluntários de seguro de doenças - as
,.. _.
no campo, e a supremacia da taxa de mortes na cidade sobre o campo; e as chamadas "sociedades de mútuo socorro" - , a cuidarem de si mesmos.
variações da taxa de mortes segundo as estações. E, por fim, foi o primeiro Por fim, depois da metade do século XVIII, a tábua da vida encontrou
a tentar construir uma tábua de vida. algum uso em testes da eficácia da inoculação contra a varíola.
A obra de Graunt é mais significativa, ainda, por conter os princípios do No lado teórico, surgiu a primeira sugestão de se aplicar u cálculo de
método estatístico de análise. Ele reconheceu ser a acurácia das deduçOes probabilidade ao estudo da aritmética política. Em 1713, seguindo a obra
matemáticas inevitavelmente limitada pela adequação e precisão das pioneira de Pascat51 , Fermat5z e I-Iuygens, apareceu a Ars C01zjectandi, a
próprias observações em si mesmas. Os defeitos do material escasso e importante obra póstuma de Jakob Bernoulli", na qual ele desenvolveu a
imperfeito com que trabalhou levaram Graunt a testar a confiabilidade de teoria matemática da probabilidade e se pôs o problema de aplicá-la a
seus dados. E assim a poder mostrar que mesmo dados imperfeitos, se "condições civis, morais e econômicas". Na maior parte dos escritos sobre
cuidadosa, lógica e honestamente interpretados, podem resultar em in- cálculos de probabilidade, contudo, não se prestava quase nenhuma
formação útil. atenção às freqüências reveladas pelo material es.tatístico existente. Não
Apoiando-se no promissor início de Graunt e Petty, o cultivo da aritmé- obstante~ já no início do século 1...''liii se haviam reconheCido as possibili-
O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 99
98 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA ........................................................................................................................
......................................................................................................................... calcular as perdas econômicas devidas às doenças. Da mesma forma,
.dad;s ineret~te~ à teo:i~ .matemática da probabilidade em relação aos tendo em mente, em particular, as mulheres grávidas e solteiras, ele
fenomenos VItais, possJbthdades desenvolvidas no século XIX. advogou a fundação de maternidades. Ele estava convencido, também,
da conveniência de certos grupos de trabalhadores merecerem uma aten-
UMA POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE. A aritmética política era ape- ção direta do Estado; coerentes com esse ponto de vista são suas suges-
nas um meiO para um fim, a saber, a prosperidade e o poder nacionais. A tões de se realizarem estudos da morbidade e da mortalidade ocupacio-
população figurava como um interesse central dos aritméticos políticos nais. Petty, por fim, compreendeu a necessidade de un1 número adequa-
porque sua importância política e econômica representava um axioma da do de pessoal médico. Em conseqüência, ele propôs que, usando-se os
a~te de governar. Qualquer dano a esse recurso causava muita preocupa- métodos de Graunt, se analisassem as necessidades de saúde e se çalcu-
çao. Olhavam-s~ -os problemas de saúde e doença, principalmente, com 0 lasse o número de clínicos, cirurgiões, e outros, suficiente para atendê-las.
fim de s~ ~anter e aumentar uma população sadia, em tern1os, portanto, Petty não estava sozinho na tentativa de lidar com problemas de saúde
de s~u Sigmficado para o fortalecimento político e econômico do Estado. pública em uma escala nacional, ou no esforço de analisá-los quantitativa-
Legisladores, estadistas, administradores, médicos, homens de negócio, mente. Esses interesses se revelavam, tan1bém, entre seus contemporâ-
compreender.an~_-que não bastava simplesmente reconh<1cer a fertilidade neos e sucessores. Três merecem menção: o culto reformador educacio-
natural ~ a pop~~ação ~amo condições principais da p.rosperidade nacio- nal Samuel Hartlib, o clínico Nehemiah Grew (1641-1712) e o negociante
nal. Aceitar _essa_p:emissa implicava aceitar também a responsabilidade de tecidos e filantropista John Bellers (1654-1725), um quacre. Realmen-
de remover Impedimentos à plena expansão desses recursos. Criar condi- te notável é o plano para um serviço nacional de saúde lançado por
54
çõ~s -e oportun~dades para promover a saúde, prevenir a doença e oferecer Bellers, em 1714, em seu Emaio para o Melhomme?lfO da A1edici11a • A·
curdados ~1_éd1cos aos necessitados, constituía um aspecto maior dessa substância de seus argumentos e de suas propostas se pode assim sinteti:-
respo~sabthd~de. Essa visão implicava um conceito de política nacional zar: enfermidade e morte prematuras significam desperdício de recursos
de saude, aceito, e levado adiante, tanto na Inglaterra quanto no conti- humanos; a saúde das pessoas é de extrema importância para a comunida- .
nente. de, e não pode ser largada à incerteza da iniciativa individual, inadequada
Na Inglaterra, embora a idéia de 1,1ma política nacional de saúde ao para lidar com esse problema (como o indica a alta incidência de doenças
longo de linhas .'teóricas sistematizadas não se desenvolvesse, acontece- curáveis). Por esses motivos, urge estabelecer hospitais e laboratórios-
ram ousadas e P<?,?etrantes análises de problemas de saúde e lançaram-se centros de treinamento e pesquisa-, criar um instituto de saúde nacio-
pro??stas de um_a ação nacional. William Petty, o versátil pai da aritmética nal e oferecer assistência médica·aos doentes pobres.
polltlca, ao perceber que o controle das doenças comunicáveis e a salva- A despeito de suas grandes potencialidades, as idéias desses pensado-
ção da vida_ das Ç:ria~ça~, concorreriam muito para impedir a diminuiçãO res não produziram resultados imediatamente tangíveis. Suas propostas
da pop.ulaçao, contn~~m _de modo notável. Petty, enxergou, ademais, a não levaram a ações concretas porque corriam em sentido contrário ao de
ne~esstdade, para se atmg1r esse fim, de elevar o conhecimento médico ao importantes tendências políticas e administrativas. Sua efetiva execução
m~Is alto grau possível. Em 1676, em uma conferência, em Dublin, ele exigiria a existênci.a de uma administração local desenvolvida, con1 con-
salientou ser dever do Estado promover o progresso médico. Quase trinta trole centraiizado. :rvlas precisamente essa rede de administração, depois
an~s antes, ele tinha reconhecido a importância crucial do hospital no da Revolução Inglesa do século XVII55 , tinha desaparecido.
tremamento dos médicos e no estímulo à pesquisa médica. Além de Funcionários locais eram, em teoria, representantes do governo central
recomendações gerais, Petty ofereceu propostas específicas; assim em e, sob os primeiros Stuart, se tinha desenvolvido um aparelho administra-
1687, ele propôs a criação de um Conselho de Saúde, para Londres,' que tivo centralizado. A Guerra Civil, no entanto, rompeu a ligação entre as
se. o~upana de ass~ntos d~ sa~de pública. No mesmo ano, sugeriu a autoridades locais e a Coroa e nem a União, nem a n1onarquia restauraqa,
c:1açao de um hos~1tal de mil leitos, também em Londres. Recomendou, conseguiram restabelecer o velho sistema. De fato, a feição mais notável
amda, o estabelecimento de hospitais de isolamento, para receber doen- da administração inglesa, do meio do século Àrvii até o ato de emenda da
tes de peste. _Com o fito de apoiar a utilidade dessa recomendação, e a _de Lei dos Pobres, em 1834, é seu caráter intensamente local. Essa tendên-
~-------' to~~~-~~_l_!le?~-~~~-~e combate às devastações da peste, ele se incumbiu de
100 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
........................................................................................................................ O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 101
cia teve importantes conseqüências para o desenvolvimento da Saúde ........................................................................................................................
Pública, pois não existiam mecanismos para atender às necessidades da Durante os séculos XVII e XVIII as obrigações do Estado quanto à
comunidade local e, ao mesmo tempo, levar em consideração o país como saúde receberam ainda mais atenção. Cmno na Inglaterra, vários adminis-
um todo. Ao longo do século À'VIII, continuou-se a administrar os proble- tradores, médicos e filósofos apresentaram propostas relativas à admi-
mas de saúde pública, na Grã-Bretanha, no âmbito das freguesias. E só no nistração da Saúde Pública. Assim; em suas atividades variadas, em inú-
/Século XIX, com o advento da nova civilizacão industrial e urbana 1 o meras ocasiões o grande filósofo, cientista e político Gottfried \iVilbelm
iprob'lema de organizar uma comunidade maio; pa~a proteger sua saúde se von Leibniz (1646-1716) se referiu à relação entre problemas de saúde e
.tornou matéria de interesse nacional. atuação do governo. Um dos primeiros a valorizar a investigação estatís-
Ainda por essa época, a posição mercantilista quanto à saúde também tica na década de 1680, Leibniz publicou vários ensaios salientando a
se desenvolveu no continente, em particular nos estados germânicos; ,. necessidade de estatísticas adequadas da população e da mortalidade.
nesses estados, no entanto, floresceu como um elemento da teoria da Pela mesma época, sugeriu também a criação de un1 Conselho de Saúde,
monarqu~a absolut~, Concebia-se a relação entre o soberano e seus súdi- para cuidar da saúde pública. Também Conrad Berthold Behrens (1660-
tos como a de u:n pai e seus filhos. Em fidelidade a essa teoria paternalis- 1736), um médico de Hildesheim, defendeu, ao final do século XVII, a
ta, se reconhecia _cÇJmo um dever do Estado absolutista a proteção da. supervisão governamental da saúde pública. Seguindo a premissa de
saúde do povo. O povo, porém, não passava de ser o objeto do cuidado estarem as autoridades governamentais obrigadas, pela lei da natureza, a
governament~l; em matéria de saúde, e em outras esferas de atividade, o cuidar da saúde de seus súditos, Behrens argüiu qu_e se assentassem esses
soberano sab1a o melhor para seu povo, e, por meio de leis e medidas cuidados sobre duas principais formas de ação; a prevenção das doenças, e
administrativas, lhe ordenava o que devia, ou não, fazer. Nesse contexto seu tratamento; na prevenção, mereceriam atenção a constituição do ar e
a idéia de "polícia" é um conceito-chave para o entendimento de proble~ a nutrição. Behrens também se ocupou das doenças infecciosas e de
mas de saúde e doença. outras matérias de interesse da saúde pública. Esses esforços, e numero-
C?s escri:ores alemães já usavam, no século }..'VII, o termo "polícia" sos outros, culminaram, ao final do século XVIII, com a n1onun1ental obra
Pohcey, denvado da palavra grega politeia- a constituição ou administra- de Johann Peter Franli: sobre polícia médica.
ção de um Estado:. A teoria e a prática da administração pública vieram a A c!_espe_ito des~a _evolução no plano teórico, nem a Inglaterra, E.~IIl
ser conhecidas como Polizeiwissenschajt, a ciência da polícia, e o ramo do qu_~lquer dos pats.~s __continentais, realmente_ criou uma _po_lítiCa nacional
campo da administração da Saúde Pública recebeu a desii"nação de A1edi- -~-~S_ái!ª~e:--oeC;~taram-se poucas medidas práticas de Saúde PúbÜ~;-~~
Z11lalpohzet, ou Polícia Médica. plano nacional. ~iferecem menção as várias ordens sobre a peste, editadas
Em 1655, Veit Ludwig Seckendorff (1626-1692), um contemporâneo
de W1lham Petty, que serviu em vários postos administrativos nas cortes
ducais de Gotha c:;,. Sachsen-Zeits, sisten1atizou, de modo precoce mas
fecundo, a maneira mercantilista alemã de ver a Saúde Pública. Segundo
Seckendorff, a finalidade própria do governo seria a de estabelecer orde-
nações _capazes de assegurar o bem-estar da terra e do povo; como a
'
'
pelo governo inglês durante os séculos XVI e XVII. Na Prússia, em 1685,
agiu-se de outra maneira, possivelmente como resultado da proposta, de
Leibniz, de supervisão médica da saúde pública, e se estabeleceu um
Collegium Sanitatis, um conselho de saúde. Vale a pena anotar, ainda, que,
em: 1688, o Grande Eleitor incumbiu-se de determinar o número de
.casamentos, nascimentos e mortes nas cidades e aldeias prussianas. Na
prospendade e o bem-estar se manifestam através do crescimento da França, a prática de ajuntar dados estatísticos estabeleceu-a Colbert, mas
população, é necessário to-?1~~ m~.didas para resg!Jardar a saúde do povo, só ao fim do século }._~TII se empreendeu um levantamentp de toda a
p_ara.o número das pessõiS ~umç:;11r~-~· Um programa dé sadde Cio gcr\réfi1õ população fráncesa. No geral, os governos careciam do saber e da máqui-
deve r,nanter e supervision_ª-f.ª-~p~rteiras, cuidar dos órfàos nomear mé- na administrativa capazes de levar adiante qualquer política nacional de
::i~.co_s__ ~---~i_rurgiões, oferecer proteÇã~- ~Üntra a -pe~t~ ~-~~trª _ dOe·IiÇa~ 13 saúde. Em conseqüência, continuou-se a enfrentar os problemas de saú:-
çontagwsas e contra o uso excessivo de tabaco e de bebidas alcoólicàS"--,-... de pública a partir de comunidades locais. Essa situação persistiu pelo
_insp~çionar os alimentos e a __águ_a,jazer li~-pa; a_s ~ió""a_-d~_ª:~~_g~~~~ti~.sU:i- século XIX adentro .
.drenagem, manter os hospitais e dar assistência aos pobrç_S,- -- ---- ··----.
_ _ _ _____cA CIDADE E A SAÚDE PÚBLICA. Quando examinamos os esforços_d_e_ _ __
O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 103
102 UMA I-JISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA ........................................................................................................................
LIMPEZA DAS RUAS E DRENAGEM. Recaía sobre os habitantes a
autoridades locais parf!- resolver seus problemas, convém não esquecer os responsabilidade principal de manter as ruas limpas. Na Inglaterra, a
limites estreitos da estrutura do governo da cidade em que tinham de maioria das cidades insistia em varreduras semanais. En1 Coventry e
atuar. As autoridades só cuidavam dos interesses e problemas de sua Ipswich, no século XVI, e em Gloucester, no século XVII, todo chefe de
comunidade particular, fossem a pestilência ou a pobreza. Compreende- família tinha que limpar e varrer as ruas em frente a sua porta, a cada
se essa atitude, pois os funcionários locais não tinham controle algum das sábado. Em Cambridge, varriam-se todas as ruas pavin1entadas, às quar-
causas externas influentes sobre a saúde ou o bem-estar da comunidade. tas e sábados. Em Glm1cester, toda segunda-feira quatro inspetores fa-
Se a peste entrasse em Londres, por meio de navios ou mercadorias ziam rondas para assegurar que o serviço tinha sido realizado no sábado
vindos do Oriente, as outras cidades não podiam impedir os navios de precedente; em Coventry, a inspeção acontecia aos domingos.
penetrar no porto londrino, nem podiam assegurar a desinfecção das O maior problema, porém, não estava em varrer regularmente as ruas,
n1ercadorias. Só lhes cabia tentar impedir a entrada de pessoas infectadas, mas sim no destino a se dar à água de esgoto e a outros refugos das casas e
ou mercadorias contaminadas, em suas cidades. Em essência, as cidades das ruas. No interesse da limpeza e da saúde pública, as cidades tentavam
dos séculos 1.'VI e XVII enfrentavam problemas análogos, em escala impor algumas restrições. Proibiam-se açougueiros e peixeiros de _jogar
menor, aos enfrentados pelos Estados nacionais nos séculos XIX e XX. E sobras nas sarjetas, ou em quaisquer cursos d'água nos quais a cidade
que levariam à criação de uma organização mundial de saúde. pudesse abastecer-se. Previam-se punições para quem poluísse a~ ruas
Dentro desses limites, as autoridades municipais tomavam as atitudes
consideradas mais convenientes. Nessas áreas, o avanço local precedeu a
com excreções humanas ou animais. Em meados do século a Cld~d_e xyn.
de Gloucester tentou resolver esse problema instalando latnnas mumci-
política nacional. A Lei dos Pobres isabelina não criou nada de novo, pais. Sob pena de multas para os proprietários, nãO se permitia aos
simplesmente tentou organizar as prát.icas das cidades em âmbito na- animais, em especial aos porcos, perambular pelas ruas.
cional. Durante esse período, não obstante, não se resolveu o problema do
Para entender os problemas da administração da Saúde Pública da destino dos esgotos. Usavam-se vários métodos. Em cidades pequenas,
época, é necessário relembrar algumas das grandes diferenças entre as jardins, ligados às casas, serviam a esse fim. Em cidades maiores, lançava-
cidades dos séculos À'VI e XVII e as atuais. Em substância, aquela cidade se mão de outros recursos. Era uma prática comum, no século À'VI,
estava muito mais próxima da comunidade medieval. As cidades de hoje escolher vários locais, fora da cidade, até os quais as pessoas deviam levar
são, quase inteiramente, um centro industrial ou comercial. As modernas todo o lixo e refugos. Esse método tem desvantagens pois, dependendo
populações urbanas vivem em milhas de ruas contínuas, em moradias de muitos indivíduos, acaba por tornar-se ineficiente. Assim, algumas
assemelhadas, muito afastadas de um ambiente rural. Aquela cidade, por autoridades municipais se voltaram, no século À'VI, para outro método:
sua vez, servia de mercado para os distritos vizinhos, de centro para a limpadores de ruas, usando carroças, recolhiam material dos esgotos e
produção da manufatura e da agricultura, conservava-se o gado em seus outras sobras.
pastos, e jardins ocupavam grande parte do espaço livre entre as fronteiras Pela altura do século À'VII, a maioria das cidades já tinha adotado esse
urbanas. sistema. Em Londres, no tempo de Shakespeare (1564-1616), os limpa-
A administração da Saúde Pública, na cidade renascentista, ou no dores eram funcionários que supervisionavam os serviços, ao passo que
século XVII, se assemelhava muito à da cidade medieval. Uma autorida- homens, os raspadores, se incumbiam, efetivamente, do trabalho. No-
de organizada, o Conselho da Cidade, muitas vezes eleito para a vida meavam-se dois lixeiros, por um ano, para cada freguesia. A definição de
inteira, governava-a. Embora sua constituição variasse, para efeitos práti- lixeiro do Dr. Johnson56 - "um magistrado subalterno, cujo raino é o de
cos a autoridade citadina tinha alguns dos poderes de um Estado sobera- manter as ruas limpas" -indica a natureza não servil do ofício. Dublin
no. Como o Conselho da Cidade fosse, em geral, um corpo permanente, possuía, no século }._~7II, um sistema regular de limpeza,. cuja fraqueza
conseguia criar um corpo· de pessoal administrativo responsável por as- residia em seu arrendamento a um particular, raramente disposto a fazer
suntos de Saúde Pública, como limpeza de ruas, drenagem, suprimento mais do que o obrigava o contrato. Aliás, o método de enfrentar os
de água e outros. problemas comunitários mediaàte contratação de uma pessoa, ou grupo,
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104 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 105
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particular, se tornou cada vez mais comum. E veio a se revelar uma das nascentes em :Middlesex e Hertfordshire. Não obstante, nada se fez até
maiores dificuldades administrativas do moderno movimento da Saúde 1609, qua~do Sir Hugh Myddleton, um ourives e cidadão londrino, se
Publica. ofereceu para financiar essa empresa, e a Corporação lhe transferiu os
Escoavam-se os refugos das ruas para correntes ou valas. Sendo esse poderes que tinha obtido. Assim, :rvlyddleton organizou a Ne·vi' River
um meio fácil de se eliminarem as sobras, um grande problema surgia: Company (Companhia do Novo Rio) e, com o apoio de Jaime I 58 , come-
como manter as valas livres de poluição e de um fedor nocivo? De início, çou a trazer água para Londres. A primeira água alcançou o reservatório
essa responsabilidade coube, em algumas cidades inglesas, aos indiví- de Islington em 1613. A Companhia do Novo Rio teve a primazia em uma
duos. No decurso do século À'\11, porém, as autoridades municipais a série de empreendimentos particulares organizados para levar a cabo
assumiram. O comentário de John Stow em seu Levantamento de Loudres57 funções públicas, e representa um novo e importante passo na organiza-
de 1598, de estar a vala da cidade "há muito negligenciada e forçada a se; ção de serviços comunitários. Essa tendência, contudo, só ganhou muito
um canal, n1uito estreito e imundo, ou por completo obstruída ... '' mostra relevo no final do século }.'VIII.
que nem sempre se cumpria essa função. O aparecimento dessas companhias está ligado, também, a inovações
Apesar das intenções das autoridades citadinas, e de suas tentativas de técnicas, em particular ao uso de bombas. Na Europa Central, antes do
fazer cumprir as várias ordenações referentes ao destino dos esgotos e dos. século XVI, já se tinham usado bombas para a drenagem de minas. No
refugos, o sistema administrativo se revelava inadequado. E assim conti- início daquele século, porém, essas bombas começaram a ser utilizadas no
nuou até grande parte do século XIX. suprimento da água. A idéia de en1pregá-las ter-se-ia originado na Alema-
nha e se espalhado pela Europa. Na Inglaterra, no ocaso do século XVI, se
SUPRIMENTO DE ÁGUA: O EMPREENDIMENTO PRIVADO. A situação fizeram várias tentativas de usá-las, mas só no século seguinte se tornaram
do suprimento de água da cidade se mostrava similar às da drenagem e da comuns essas máquinas. De modo geral, o término do século XVII e o
limpeza das ruas. Na comunidade medieval, uma grande porção da água início do XVIII assistiram a um aumento marcante na instalação de
necessária aos cidadãos vinha de poços e nascentes no interior da cidade. sistemas hidráulicos e na criação de companhias com essa finalidade. As
Com o desenvolvimento e o crescimento das comunidades urbanas, essas conseqüências desse processo, para a saúde pública, só vieram a ficar
fontes se mostraram. insuficientes e se tomaram providências para trazer claras no século XIX.
água de uma fonte externa. Em cidades em que a comunidade já recebia O método usual consistia em trazer água diretamente para uma cister-
um suprimento de água fresca desde o período medieval, com freqüên- na central; se necessário, a partir desse centro se supriam cisternas locais.
cia houve necessidade de aumentá-lo. Mas a despeito dos suprimentos Os habitantes tiravam a água diretamente desses reservatórios. Em geral
adicionais, por vezes havia insuficiência de água, como em Northampton, se abrigava a cisterna principal em uma estrutura muito enfeitada, na
durante o seco verão de 1608, quando se fechava a água das torneiras Inglaterra sempre c l1amad a d e " con d uto "59 .
públicas de dez da manhã às duas da tarde e das dezenove horas até seis Antes do século XVII, raramente a água chegava até as casas particula-
da manhã. Também em Dublin, no século era usual que uma ou 1..rvn, res. Na maioria das maiores cidades, sob os Tudor e os Stuart, as pessoas
mais das fontes regulares falhasse; em certa ocasião um distrito da cidade obtinham-na a partir dos condutos públicos. Durante o século XVII, no
ficou sem água por um ano inteiro, pois o conduto antigo se tinha arrui- t! entanto, com o aumento e a melhoria dos suprimentos, mais lares come-
nado e as autoridades municipais não dispunham do dinheiro para os çaram a receber água. Em Leeds, ao final do século XVII, se organizou
reparos. uma companhia para bombeá-la até um reservatório; então distribuía-se
Ao longo de toda a história de Londres, até recentemente, o suprimen- a água através de pequenos canos, até os moradores.
to de água continuou a ser um problema. Também na capital londrina as Prevaleciam mais ou menos as mesmas condições no continente e no
primeiras águas vieram de poços e nascentes naturais. :tviais tarde, três rios Novo l\1undo, em particular na América hispânica. Ao fim do século
- o Tâmisa, o Fleet e o ~TaJbrook-serviram para o suprimento. No fim XVII, Paris possuía duas fontes principais de suprimento, a saber, o Sena
do reinado de Isabel, contudo, as fontes existentes se mostraram inade- e o aqueduto de Arcueil, cuja água vinha de uma fonte a quinze milhas de
quadas, e deu-se à Corporação da Cidade o poder de captar água de distância. Os conquistadores e colonizadores espanhóis trouxeram para a
106 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 107
~:~~;~~·~~··~~~;;~~~··~:;~~~~;~;·.··~~~~.~~~~·;·~··;;~;~:~;··;;;~~~~;;;~·~~·~~.,~~: ························································································································
rio, iio século ÀrVIII, se construíram poucos estabelecimentos novos. O
nado colomal hrspamco podem ser vrstos no l'vféxico ainda hoje. Quando hospital continuou a ser uma mistura de asilo de pobres, e de idosos, e de
se entra, por.exemplo, na cidade de l'vforelia, capital de JV:Iichoacan, pelo lugar para o cuidado dos doentes. A cidade, ou a freguesia, o administrava
leste, a estra~a acompanha um grande aqueduto de mármore, de mais de como parte da política de cuidar dos pobres. Durante o século h..'VI se
d_uzent~s e cmq~ienta arcos, construído no século XVI para levar até a votaram várias medidas relativas à pobreza, finalmente consolidadas na
c1d~de agua colhrda em nascentes montanhosas, várias milhas distante. O lei isabelina de 1601, a base para a administração da Lei dos Pobres
mars ~onspícuo traço de arquitetura e engenharia, quando alguém se inglesa por mais de dois séculos. Embora a lei não faça nenhuma menção
apro~rma de Q~erétaro, é também um grande aqueduto, erguido durante específica a assuntos de saúde, havia a intenção de aliviar os "aleijados,
o penedo colomal, que supre a cidade com água das colinas vizinhas. impotentes, idosos, cegos e outros, desde que pobres e incapazes de
Quando chegava ao consumidor, a água da maioria dos sistemas de trabalhar". Con1 o passar do tempo, porém, essa lista se ampliou para
abas~ecimento já estava, mais ou menos, poluída. Ao final do século 1..'VII incluir cuidados médicos e de enfermagem. O desenvolvin1ento comple-
consrderav~-se a água do Se~a muito perniciosa para estrangeiros, e to da ação local, entretanto, só aconteceu ao final do século XVII e no
ad_ve~sa ate ~es111o aos própnos franceses; a disenteria representava a século XVIII, quando a administração inglesa passou a ser quase cmnple-
pnncrp~l querxa de seus usuários. Também na Inglaterra a poluição tamente municipal (ver págs. 99, 140).
acontecra. Em 1765, h1anchester proibiu a prática de se afogarem gatos e Em alguns países do continente tendências parecidas se manifesta-
cachorros e de lavar roupa no reservatório da colina Shute. Em York, os vam. Na França e na Alemanha, hospitais passaram ao controle do gover-
r;norad~res guar~avam a água em dois ou mais grandes potes. Como a no nacional ou municipal. Já no reinado de Henrique l\162 , se tinham feito
ag~a, tirada do no, n_ão fosse filtrada, ficava em repouso por um dia ou planos d~ criar instituições para cuidar dos pobres; pouco, porém, se
dms, para haver a sedrmentação. Enquanto se usava a água assim purifica- conseguiu. No século 1..'\TII as autoridades locais ofereciam a assistência
da, out~o_s potes.estavam sendo enchidos, ou sua água depurada. médica segundo linhas descentralizadas. Assim, em 1649, entre as ativi-
A pr~tJca da filtração para purificar a água se iniciou no século XVII. L. dades dos funcionários responsáveis pelo socorro aos pobres, em Paris,
A: Porzro, em seu l~v~~ sobre a conservação da saúde dos soldados (ver estavan1 o exame e o tratamento dos que tinham doenças venéreas e
pag. 85), lançou. a rdeta de se usar areia. Mas sua aplicação, em larga escorbuto. Sob o Cardeal Mazarino 63 , houve um esforço detenninado para
escala, para ~s cidades, não aconteceu antes do início do século XIX. se resolver o problema do pobre, com o estabelecimento dos hôpitaux
Durante os seculos 1..'\TII e À"VIII, contudo, criaram-se e utilizaram-se na géuérau.x (hospitais gerais), uma combinação de hospital e asilo.
França, filtros para uso doméstico. ' Essas instituições são sinais da intervenção crescente do Estado abso-
lutista nos problemas econômicos e sociais. Essa tendência se acentuou,
,o ALEIJADO, O MANCO E O CEGO. Como outros aspectos da Saúde sob Colbert64 , em vários empreendimentos destinados a oferecer assis-
Publica, o oferecrmento de assistência médica reflete o caráter de transi- tência ao pobre e, em geral, a melhorar a saúde da nação. Na Alemanha,
ção do p~r~odo. A maior parte dessa assistência continuou sendo de depois da Reforma, a manutenção dos hospitais caiu sob a responsabilida-
responsabilidade local. A cidade, ou a freguesia, preocupava-se com os de de corporações municipais. Mais tarde, no século XVIII, os governos
do:~tes pobres e outros incapazes de cuidarem de si mesmos. Hospitais e reais, ao fundarem novas instituições, vieram a influir.
medrcos contratados pela comunidade dispensavam os cuidados. Contu- Outra importante linha de desenvolvimento, no século À'\TII, se con-
do, embora na forma não se distinguisse muito da do· período medieval substanciou na visão de que os hospitais deviam ser lugares para o_...,
em algt~ns países, em conseqüência da Reforma60 e da ascensão do Estad~ tratamento de doentes e centros para o estudo e o ensino da Nledicina,
absolutista, a administração dos serviços mudou. idéia de conseqüências muito frutuosas nos séculos seguintes.
_ h1udou, em _particular, na Inglaterra, com os hospitais. Com a dissolu- A Holanda assumiu a frente; em 1626, em Leiden, se estabeleceu o
çao dos mosteiros, sob Henrique Vlll 61 , o sistema hospitalar inglês se ensino no pé do leito. :f\1ais tarde, no mesmo século, e sob a liderança de
desfez. As mumctpahdades assumiram alguns hospitais, e se destinou o Hermann Boerhaave (1668-1738), essa tendência se consolidou e se
_______
re_s_tante a outros fins. Entre 1536 e 1539 e a ascensão do hospital voluntá- desenvolveu, e veio a influenciar outros centros médicos, em especial
O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 109
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108 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
10 RudolfVirchow (ver Figuras Memoráveis).
Edimburgo, na Escócia. Como já vimos, Francis Bacon, Samuel Hartlib 11 Ricardo III (1452-85). Usurpou o trono e foi rei da Inglaterra de 1483 a 1485. Morto
'~'illiam Petty e John Bellers, na Inglaterra, tinham-na sugerido. No finai em Bosworth.
12 Henrique VII (1457-1509). Rei da Inglaterra de 1485 a 1509, primeiro m.onarca da
do século XVIII, com a criação de hospitais e dispensários, o ensino
dinastia dos Tu dor.
clínico se ampliou. 1.1 A Boke, or Cotmseil Agoi11st the Diseme Commo11~1' Ca!led the Sweat, ot· Swentj•ug SiJ.-msse.
14 A palavra portuguesa tifo vem do grego typhos, fumaça, estupor.

UMA ERA DE TRANSIÇÃO. O período entre início do século :A'VI e 15 Fernando V (14SZ-1516), rei de Castela e Aragão. Estabeleceu a Inquisição, em

meados do_ século XVIII é, sem dúvida, um tempo de transição. A grande Sevilha. Expulsou os mouros, e os judeus, da Espanha. Conhecido cmnu Fernando, o
explosão Científica dos séculos XVI e XVII assentou as bases da ciência Católico.
Isabel I (1451-1504). Rainha de Castela e Leão. Esposa de Fernando V. Conhecida
médi~~ sobre a Anato~1ia e a Fisiologia. A observação e a classificação
como Isabel, a Católica.
permttuam o reconhecunento mais preciso das doenças. Ao mesmo tem- 16 Existe em português a palavra tobardi/ho, que vem do espanhol tobordillo, e significa

po, ganharam for!}la ideológica a possibilidade e a importância de se febre acompanhada de exantema.


17 A guerra dos Trinta Anos durou de 1618 a 1648 e opôs católicos e protestantes, em
aplicar o conhecimento científico à saúde da comunidade. Desenvolveu-
se, segundo as necessidades políticas e econômicas do Estado moderno especial na Alemanha. Dinamarca, Suécia e França também se envofveram.
uma abordagem quantitativa dos problemas de saúde. E começou a s~
18 Em inglês, Blacl: Assizes.

19 Filippo lngrassia (ver Figuras Memoráveis).


concretizar a idéia de serem organismos microscópicos como a possível 20 Thomas Sydenham (ver Figuras Memoráveis).
causa das doenças transmissíveis. 21 As palavras raquitismo, portuguesa, e tid-ets,·inglesa, vêm do grego rháchis, espinha

Não obstante, nenhuma dessas áreas teve algum efeito maior sobre a dorsal, espinha vertebral (Cunha, obra citada). '
12 Ambroise Paré (c. 1510-90). Francês. Aprendiz de barbeiro, barbeiro-cirurgião,
administração dos problemas de saúde comunitária. A comunidade dos
cirurgião-jurado, cirurgião-ordinário e, por fim, primeiro-cirurgião. Pela sua atuação
séculos XVI e XVII, e até mesmo do ),'VIII, lidava com os problemas de
prática e pela sua obra escrita, é considerado por muitos o criador da cirurgia
doenças epidêmicas, assistência médica, saneamento ambiental e supri- moderna. Escrevia em francês, e não em latim.
me~to de água quase do mesmo modo que a medieval. O padrão adminis- 23 The E11glish111011 's F ood.

tratrvo da Idade J\1édia persistiu, e não seria alterado, até o século XIX. 24 The Cures of the Di.seased iH Formi11e Attempts of the E11glish Natio11.

Durante esse período seminal, no entanto, o terreno para a mudança 25 A palavra portuguesa escorbuto vem do francês escorbut, por sua vez derivada do latim

estava sendo preparado. médioscorbutus e este, do neerlandês médioscodl!tt(neerlandês sdteurbu.il:) de origem


escandinava (antigo sueco skõ"rbjug). Esta se aparentava ao antigo norueguês sbyebjugr
(slyr, leite coalhado e bjugr, edema). Assim, edema do leite coalhado. Os amigos
NOTAS DO TRADUTCR normandos utilizavam o leite coalhado em suas longas viagens marítimas. Como nas
1
Leão X (1475-1521) foi papa de 1513 a 1521. Seu nome era Giovanni de Medici. viagens apareciam, com freqüência, edemas de certa gravidade, eles os atribuíam ao
1
Girolamo Fracastoro (ver Figuras Memoráveis).
leite.
: Co11~otti~á é o plural de condottiero, palavra italiana para guia, chefe, conduror. 26 Vasco da Gama (c.1469-1524). Navegador ponuguês, o primeiro a dar a volta à África
A Pnmeua Cruzada se estendeu de 1096 a 1099.
5 e a alcançar a Índia, em 1498.
Simmel, Georg (1858-1918). 27 Jacques Cartier (1491-1557). Navegador francês, descobridor do rio São Lourenço,
6
Agricnla,_ G-enrgius é-: o nome latino de Georg Bauer (1494-1555), alquimista e
do Canadá, em 1535.
metalurg1sta alemão. De Re MetaJJica significa, em latim, Das Coisas .Metálicas. 28 Bernardino Ramazzini (ver Figuras Memoráveis).
7
Vesalius, Andreas (1514-64), nasceu na Bélgica. Estudou Medicina em Paris, e 29 Paracelso (ver Figuras Memoráveis).
mesmo sem ter os títulos acadêmicos exigidos pela Faculdade de Paris, começou a 30 f\.farcílio Ficino (1433-99). Médico e teólogo italiano. Traduziu para o latim as obras
fazer o ensino da Anatomia. Publicou, em 1543, na Basiléia, sua obra monumental de Platão e Platina e tornou-se o arauto do neoplatonismo renascentista. Diretor da
De Huma11i Cotporis Fa_bt~ca Libn· Septem (Sete Livros sobre a Constituição do Corpo
Academia Florentina.
Humano). Essa obra d1V1de a Anatomia em antes e depois do Vesálio. 31 Giovanni Battista Morgagni (1682-1771). Anatomista e patologista italiano.
8
Harvey, '~7 illi_am (1578-1657). Médico inglês. Descobriu o sistema de circulação do 3:; Os franceses cham~vam a sífilis de la grande vérole e a varíola de la petite vérolc.
sangue, publicando em 1628, em Frankfurt, a primeira edição da Exercitatio A1lato- 33 Em alemão' moderno t!ie Blatter'll, plural de die Blatter (pústula, bolha) significa
mica de A1otu Cordis ct Sangui11is A11imalibr1S (Ensaio Anatômico Sobre o Movimento
varíola, bexigas.
do Coração e do Sangue nos Animais).
~ W-illiam-Petty-{ver-F-iguras-Memoráveis).
110 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
......................................................................................................................... O MERCANTILISMO, O ABSOLUTISMO E A SAÚDE DO POVO 111
........................................................................................................................
34 Sfji!is ou n Doe11çn. Fmucesn, em latim. 59 No original, condtÍit.
s,; Pu blius Vergilius Maro (70-19 a.C.). Poeta épico romano. Go A Reforma foi um movimento religioso europeu, do século XVI. Iniciou~se com a
36
Femeue dn pmtido, ou do1111e di partido, mulher que todos podem escolher, repartir. intenção de reformar o catolicismo mas acabou estabelecendo o protestantismo em
3i O termo isabeliuo se refere a Isabel I (1553-1603), rainha da Inglaterra de 1558 a 1603,
muitos países do norte e do oeste da Europa.
ou a sua era, ou a um ·escritor da época de seu reinado, ou do reinado de Jaime I (1603- Martinho Lutero (1483~1546), monge e teólogo alemão, foi o líder da Reforma.
!625). Excomungado pelo papa Leão X (1513~21). Lutero compôs muitos hinos e traduziu
Ja O período Stuart, na Grã-Bretanha, se estendeu de 1603 a 1714. a Bíblia para o alemão.
~ 9 A Briif Rrtle to Cuide the Commo11-People of New-E11glnnd hmil! to Order Themselves rmd 61 Henrique VIII(1491-1547). Rei da Inglaterra de 1509a 1547. Destituiu a autoridade
Theits i11 tlte Smtdi-PoJ:s or Mens/es. do papa.
40 Oliver CromWell (1599~1658). General e estadista inglês, lorde protetor da Inglaterra
63 Henrique IV (1553~1610). Rei da França de 1589 a 1610.
de 1653 a 1658, líder da Revolução Puritana que destronou e executou o rei Carlos I, 63 Giulio Mazarino (1602-61). Cardeal italiano, estadista a serviço da França, primeiro
em 1649. ministro de Luís XIV (1638~1715), o Rei-Sol, rei da França de 1643 a 1715.
~ 1 Lancisi (ver Figuras Memoráveis). 64 Jean~Baptiste Colbert (1619-83). Ministro das Finanças do rei Luís XIV, depois de
42 Leeuwenhoek (ver Figuras Memoráveis). ser assistente pessoal do Cardeal Mazarino. Levou a cabo o programa de reconstrução
43 Girolamo Cardan,o (1501~76). Médico, filósofo, matemático e astrônomo italiano. Fez
do comércio e da indústria franceses, que ajudou a fazer da França uma força
a primeira descrição clara do tifo exantemático. . dominante na Europa.
44 Athanasius Kircher (1602-80). Alemão. Padre jesuíta, matemático, físico e alquimis~
ta. Usando um microscópio rudimentar, examinou o~ bubões de doentes com peste e
viu vermes. Em 1658 publicou Scmti11ium Pestis (Exame da Peste). Relacionou peste
bubônica e putrefação.
45 Leuiatã é o tímlo de um livro de Thomas Hobbes (1588~ 1679), pensador, inglês, do
absolutismo. Leviatã é um grande animal aquático mencionado na Btô!io, talvez uma
serpente ou um crocodilo, ou outro réptil grande. Para Hobbes, o Estado é um
Leviatã.
46 Rniso11 d'Étot, razão de Estado, em francês. Em teoria, a razão do bem comum, do

bem de todos, que o Estado representaria.


47 John Graunt (\•er Figuras Memoráveis).
48 Natural aud Politico! Obseroatiou .... upott the Bi!ls of Morta!ity.
49 .Christian Huyghens (1629~95). Matemático, físico e astrônomo holandês.

so Edmund Halley (1656-1742). Astrônomo real inglês. Viu o cometa que leva seu
nome.
51
Blaise Pascal (1023~62). Matemático, filósofo e místico francês.
52
Pierre de Fermat.{1601-65). Matemático francês.
Sl Jacob Bernoullf·-(1654:1705). Matemático suíço. At:> Co11jecttmdi significa A Arte de
Conjeturar.
54
EssaJ' To'fi'Janls the Improvemmt of PhJ'sicl:.
55 A Revolução Inglesa se estendeu de 1640 a 1660 e é considerada a primeira

revolução burguesa. Inclui a Grande Rebelião (1640-42), que designa a revolta do


Parlamento contra a Monarquia Absolutista; a Revolução Puritana; a Guerra Civil
(1642-48); a República de Cromwell (1649-58), que levou à Proclamação da Repdbli-
ca (União, Commonwealth) e a Restauração (1660).
6
5 Samuel Johnson (1709~84). Escritor e dicionarista inglês.
5
7 SurvCJ' ojLo11don.
sa Jaim~ I (1566~1625). Primeiro rei da Inglaterra da dinastia Stuart (1603~1625). Em
1604 propôs uma revisão da Bfblia inglesa; o trabalho dos cinqüenta revisores veio a
lume em 1611. ABfbHa do rei Jaime (Ki11gJames Bible}temgrande beleza literária e é
a mais usada versão protestante em países de língua inglesa.
"----------------
+++ ••• + ••••••••••••••••••••••••••••• + ••• +. •++ ••• + + •• + + ••• +++

• v.
A Saúde
em uma
Era de Iluminismo e Revolução
(1750-1830)
++••++++tt+t+++++t++t+t+++t++tt+t++tttt+tt+t+ttt+tttt++t+t+t

UM TEMPO SEMINAL. Os anos entre 1750 a 1830 são decisivos na·


evolução da Saúde Pública; então se lançaram as fundações do movimen-
to sanitário do século XIX, pleno de conseqüências para o nosso tempo.
O legado desses oitenta anos ainda hoj~ atrai nossa atenção, pois ainda
hoje nos afeta. Esse foi um período de sublevação e mudança crucial, de
revolução e restauração, um tempo intensamente confuso, marcado por
uma variedade de incidentes melodramática e caleidoscópica.
Durante esses decênios a Europa se empenhava em repudiar seu
passado e construir o futuro sobre novos alicerces. As grandes revoluções
políticas na França e na América, a ascensão e a quec;la do Império de
Napoleão\ os esforços para restaurar- o ancien régimrf são as expressões
mais dramáticas desse processo.
A despeito de sua diversidade, a despeito de seus antecedentes com-
plexos e de seus fins contraditórios, durante esses oitenta anos o mundo
europeu teve ao menos uma tênue espécie de unidade, um fator de
relativa constância em seu clima de idéias: aceitava-se a inevitabilidade
da mudança. Cada, vez mais os homens, tendo experimentado a transfor-
mação social súbita, achavam difícil conceber uma sociedade estática.
Podia-se discutir a conveniência de lima mudança _particular, ou o modo
de realizá-la, mas todos passaram a ver a mudança como inerente à
sociedade. Essa atmosfera intelectual e emocional, e suas atitudes, nas-
cem dos movimentos culturais e econômicos conhecidos como Iluminis-
mo e Revolução Industrial. As situações criadas por esses movimentos
forneceram a sementeira para a germinação de novas idéias e tendências
revolucionárias da Saúde Pública no século XIX.
-----," _______________
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1

114 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 115
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ILUMINISMO E RAZÃO. O Iluminismo, no seu auge, chegou a ser um Assim, Diderot, em seu artigo sobre O Iiomem, enfatizou a importância da
movimento internacionaL Não há düvida, porém, quanto à liderança mortalidade infantil para o crescimento ou o declínio da população, e
intelectual da França. Originada no fermento político, social e econômico salientou ser necessário a un1 soberano interessado em aumentar o núme-
da Inglaterra no fim do século XVII, em meados do século 1.'VIII a ro de seus sítditos tomar medidas para reduzir o nítmero das mortes de
supremacia inrelectual tinha passado para o solo francês onde a herança crianças. Diderot, ademais, ao escrever sobre JiosjJita!, alinhavou um
de Locke e Newton-' forneceu o estímulo ao gênio de algumás das esquema de assistência pí1blica, incluindo seguro à velhice e à assistência
inteligências mais capazes e de alguns dos mai~ brilhantes escritores do médica, a ser oferecido pelos vários hospitais de Paris. Ele acentuou a
século. necessidade de se reformar e melhorar os hospitais, especialmente o
Essenciais para o pensamento e a ação do Iluminismo eram a aceitação Iiôte!-Dieu onde a mortalidade atingia níveis demasiadamente altos.
do supremo valor social da inteligência e, em conseqüência, a crença na Com a Revolução Francesa6, os admiráveis planos e esperanças do
grande utilidade da razão para o progresso social. O furidamento teórico Iluminismo, as promessas implícitas no lema Liberdade, Igualdade, Fra-
da confiança ohocentista na capacidade da razão humana adveio do ternidade realizar-se-iam, supunha-se. Por um tempo, no entanto, o apa-
marcante E11saio Acerca do Ente11dimento Humano, de John Locke\ com rente fracasso da Revolução, e a frustração dessas esperanças, lançara1n
sua rjegação das··idéias inatas. Se a mente devia tudo ao ambiente, as uma sombra de dúvida Sobre as doutrinas dos enciclopedistas, considera-
sensações do mUndo externo, a conformação .da mente, e a expressão dos seus pais. Essas idéias, porém, não estavam destruídas, e como se
prá-tica desse processo, na educação, tornavam-se matérias de significado enraizavam em necessidades e ideais insatisfeitos, não iriam permanecer
profundo. A inteligência social só poderia efetivar-se se houvesse uma inertes. Na França, o Diretório7 e o Consulado 8 viram o florescimento da
opinião pública informada. Caracterizou o período, -portanto, um ávido es~ola dos Ideologues, Cabanis, Daunou, Oestutt de Tracy9, que levaram
impulso de fazer os resultados da ciência e da Medicina alcançar o adiante o trabalho dos enciclopedistas. Entretanto, o lugar de mais signi-
público. Assim, envidaram-se esforços para esclarecer o povo em assuntos ficativo pensador, na transmissão do pensamento do século À'VIII e de
de saúde e higiene. sua transformação no ideário do século XIX, coube ao inglês 1eremy
Para os líderes do Iluminismo, suas atividades redundariam no maior )3entham 1~. Ao combinar o otimismo e a ousadia intelectuais do Ilumll.Us"='
benefício para a humanidade, pois suas idéias coincidiam com os mais mo co ri·( uma perspectiva prática, oriunda da tradição do empirismo de
verdadeiros interesses do gênero humano. Inspirados na confiança no Locke, Bentham exerceu uma larga influência sobre o pensamento social
aperfeiçoamento do homem por meio da educação e das instituições e a prática legislativa, tanto na Inglaterra quanto no continente. Nas mãos
livres, os filósofos franceses Diderot, d'Alembert, Voltaire e Rousseau 5 de seus discípulos- os Filósofos Radicais 11 -suas idéias forneceran1 o·
concentraram sua atenção na reforma das instituições e das condições sustentáculo teórico para a política social e sanitária britânica, ao longo da
sociais. O pensamento crítico e o idealisn1o humanitário desses pensado-·. maior parte do século XIX, assim ajudando a criar o movimento da
res se consumou na monumental Encyc!opédie des Arts, Sciences et l11étiers moderna Saúde Pública.
(Enciclopédia das Artes, Ciências e Ofícios), publicada em vinte e oito
volumes, de 1751 a 1772. Diderot declarou ser a finalidade daEnc:yc!opédie DO BEM-ESTAR HUMANO. Enquanto legisladores e homens de negó-
reunir o conhecimento disperso, explicá-lo ao leitor contemporâneo e cio tentavam guiar-se pelos preceitos do Iluminismo, t1ma nota de protes-
"transmiti-lo aos que nos seguem, para que o trabalho dos séculos passa- to humanitário se ergueu, se fez ouvir. E, com o século XVIII se aproxi-
dos não se transforme em trabalho perdido para os s~culos vindouros''. A mando de seu término, esse protesto e esse modo de pensar e agir
Encyclopédie era un1 crisol onde pensadores tentavam fundir teoria e tornaram-se cada vez mais importantes.
prática, a fim de usar o conhecimento para a melhoria da condição 1m- De todos os lados, surgia un1 interesse vivo pelos direitos e pela
mana. situação do homem. Interesse manifesto, E_Q_;-__ ~-~~!J:1-.P.l_o 1 I~a~preocu_p~ão
Vários artigos da EncyclojJédie, sobre assuntos como duração da vida, o crescente com os problemas de saúde de grupos específicos_."_A ã;;àliação
hospital, enjeitados, aritmética política, homem e população, represen- croseieitõS-SociaíS-·a·as~aõenças'"le,rolrffi~ê·rcaaõte'S,ffiédicos, clérigos e
tam uma ~-~p~~~~ ~~ncreta d~ssa int_:nção no campo da saúde pública. outros cidadãos de espírito público a lutar por melhoramentos. Ao térmi-
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116 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
......................................................................................................................... A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 117
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no do século XVIII, estava enraizada na atenção pública a convicção de saúde. Pode-se considerar essa "Nova Filosofia", como a chamava Si r
serem os problemas de saúde e doença fenômenos sociais de muita Thomas Bernard, a contraparte britânica do conceito de polícia·médica.
importância para o indivíduo, e para a comunidade. Reconheciam-se os Embora menos sistematicamente desenvolvida, era un1 reflexo ideológi-
efeitos da doença sobre o corpo político e se envidavam esforços na co das ações levadas a cabo por leigos e médicos. E refletia um interesse
solução do problema. acentuado pelos problemas de saúde e bem-estar dos pobres, não apenas
Também em assuntos de saúde pública se manifestavam, dentro dos por sentimento de caridade mas na intenção de contro!á-los_ de ~nado
limites da prática e da teoria dos séculos 1.'Vlll, e início do XIX, as racional e inteligente. Se, no entanto, essa filosofia confena raciOnalidade
vertentes da ação individual e do controle sociaL No c'ontinente existia à crescente consciência social, era uin humanitarismo com numerosos
mais consciência da necessidade da intervenção do governo na saúde pontos cegos. Um humanitarismo dos próSperos, um tempero de s_imp~ti_a
pública, em especial nos Estados de língua alemã, onde a ciência da li!· e firme convicção nas virtudes sóbrias e práticas da eficiência, da s1mphc1-
"política médica',, encarnação dessa consciência (ver pág. 100), se desen- dade, do comprar mais barato. Produziu, não ;bstante, vári~s refo~ma.s,
volveu de modo si-stemático. A culminância dessa consciência é o monu- pequenas se comparadas com as do século XIX, mas de alta 1mportanc1a
mental SJ•stem ei11er voflstêi7ldigen medicinischen Polizey (Sistema de uma como sinal de uma nova visão e de novos métodos.
política médica integral) de }ohann Peter Frank, cujo primeiro volume
apareCeu em 1779. e, o sexto, e último, em 1817. A idéia de polícia médica ·AUMENTA A POPULAÇÃO. "A Fêmea Eterna gemeu! E esse gemid9
desenvolvida por Frank tinha raízes em um sistema político, econômico e se ouviu por toda a Terra": William Blake 12 escreveu essas palavr~s em
social particular, a saber, o absolutismo esclarecido. No fim do século 1792, a França revolucionária· em mente. :Mas dificilmente po_dena ter
1..'\TIII esse sistema diferia substancialmente das condições existentes na caracterizado com mais felicidade o fecundo período em que VIveu, um
Grã-Bretanha, na França e nos Estados Unidos. ; tempo em trabalho de parto da "prole-gigan.te" do futuro, escreveu. Um
homem que tivesse nascido nos primeiros anos do reinado de I ~rge IIP ,
3
A Grã-Bretanha se caracteriza pelo desenvolvimento da iniciativa pri-
vada em conjunto com a ação cooperativa. Esse fenômeno se relaciona
I1 e alcançado a velhice, teria vivido .durante um período de ~u.d:nças
com o caráter limitado das atividades do governo local, que cedeu cada profundas e dramáticas. Ele teria vivenciado a época da substttmçao da
vez mais espaço à iniciativa privada. Deve-se atribuí-lo, também, à dinâ- manufatura pela fábrica e da força da mão pela da água e d.o vapor, o
mica econômica e social. tempo em que a Inglaterra passava por uma transformação radtcal, passa-
o ritmo e a natureza da vida econômica já vinham mudando, na va de país essencialmente agrário a· nação industrial. .
Inglaterra, antes de meados do século ÀrVIII; mas as mudanças industriais Um elemento muito significativo e fundamental nessa mudança resi-
e agrárias, durante a última metade do século, se revelaram rápidas e diu no notável e rápido aumento da população, iniciado por volta de 1750.
revolucionárias. A- esses movimentos se designou de Revolução Indus- O número de habitantes, até então estável, começou a crescer rapidamen-
trial e Revolução Agrária. Essas alterações profundas na vida econômica te um fenômeno que não se limitava à Inglaterra. De 1748 a 1800 a
do país perturbaram, necessariamente, sua estrutura social e originaram p~pulação da Prússia quase dobrou, ao passo que a de Berlim aumentou,
uma nova atitude mental diante dos problemas da vida comunitária. de 1700 a 1797, quase cinco vezes. Esse crescimento se deveu, em geral,
Rypresentando, em essencia, a visão da classe média, essa nova ética se a uma alta taxa de nascimentos e a uma taxa de mortes decrescente.
caracterizava por duas facetas dominantes: insistência na ordem, na efi~­ Apesar da deficiência das estatísticas, não pode haver dúvidas q.uanto
ciência e na disciplina social; e preocupação com a condição humana. E. às tendências principais. Nas cidades, as mortes superav~m os nascimen-
signific~tivo serem o movimento do hospital e do dispensário, o movi- tos e, no entanto, as cidades continuavam a crescer. E claro que esse
mento do bem-estar da criança, e outros, originários de centros urbanos, crescimento dependia, principalmente, do acréscimo de população rural.
primeiro em Londres, e depois em outras cidades. Riqueza, comércio e Considerava-se as grandes cidades, como Londres, moloques 14 devorado-
indústria se concentravam nas cidades, onde a classe média encontrava res. Uma população a se expandir rapidamente implica um mundo de
mais facilidade em se fazer ouvir. crianças; 0 ponto crucial estava na mortalidade infantil, espantosamente:
Fundada nessas atividades emergiu uma teoria de ação social relativa à alta, em especi~~ntr~-~-~!~hos. dos p_~br~~_:__:_Evidentem_ente, est_a_:,::_a____
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118 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 119
..................................................................................................................;.....
Ocorrendo um sério e temível desperdício de vidas. Assim, se deram crianças ao campo, para serem amamentadas. Em 24 de abril do mesmo
passos, na Inglaterra e em outros países, para estancar essa sangria. E ano George Armstrong abriu o primeiro Disperlsário para a Criança Po-
nasceu um movimento de reforma contra os fatores e condições responsá- bre, na Inglaterra. Nos doze anos seguintes, não menos de trinta e cinco
veis pelas mortes de crianças.
f
t
mil crianças receberam cuidados nessa instituição.
Um despertar semelhante da consciência pública ocorreu no continen-
te. Viam-se as crianças como vítimas de cuidados impróprios, e se exigiam

lI,
A CAMPANHA CONTRA O GIM. Os reformadores ingleses dirigiram , '
. medidas higiênicas mais racionais_ Na França, Nicholas Andry cunhou o
seus primeiros esforços contra o tráfico de gim. O valor da campanha
contra o gim não reside apenas em sua eficácia, mas na circunstância, mais ' termo orthopedícs, em seu livro L 'Ortlwpédie ou !'Art de Prévenir et de
importante, de ter sido uma das primeiras tentativas de se conseguir
.
• Coniger da1ls les E1l{ants les Dijfomzités du Co1ps 19 , publicado em 1741. Ele
.

reformas .sociais por meio da pressão organizada sobre o parlamento. A mostrou serem muitos padecimentos e deformidades, nas crianças, con-
campanha representou um tipo de agitação, em favor da saúde pública, seqüência de um manejo errado. Em 1760, Jean-Charles des Essartz, no
.
que viria a assumir importância central no século XIX. Apresentavam-se ' livro Traité de l'Éducation Corporelle en Bas-Age, ou Réj!exions Pratiques pour
petições .<lO governo, apoiadas por propaganda em jornais, por magistra- les Jlfoyens de Procurer une A1eilleurc Constitution aux CitOJ'ens 20 , defendeu a
dos,_ por médicos. A llia do Gim 15 , de Hogarth, publicada nesse tempo, nã·o exigência de uma criação física correta das crianças. Superior a todos os
,:
pod1a ser, como documento histórico, mais verdadeira. O parlamento
sancionou uma série de Atos do Gim, culminando com um, de 1751,
conferindo aos magistrados o controle do licenciamento da bebida e do
1
f
argumentos médicos, porém, se revelou Émile, a novela educacional de
Jean-Jacques Rousseau, publicada em 1762; sua influência se estendeu
para muito além -das fronteiras da França. O decreto sancionado pela
teor de álcool. O declínio no consumo de álcool teve um efeito considerá- ~ Convenção Nacional France~a, de 28 de junho a 8 de julho de 1793,
vel sobre a taxa de mortes, em especial sobre a mortalidade infantil. relativo ao bem-estar e à saúde de crianças e de mulheres grávidas,
representa a culminância desse processo.
UMA CHACINA DE INOCENTES. Também de vários outros lados se A inclinação a promover o bem-estar de crianças é também evidente na
enfrentou o enorme morticínio das crianças. Sendo a ilegitimidade co- Alemanha. Sua melhor expressão se encontra nos escritos de Johann
mum, muitos bebês indesejados morriam, por negligência, ou assassina- Peter Frank e seus contemporâneos. Nesse país a tendência era a de se
dos. Abandonavam-se muitos nas mãos das autoridades da freguesia. I\1as conseguir reformas através da ação administrativa. Ao mesm_o tef).lpo, não
mesmo qUando criadas pelos pais, as crianças pobres enfrentavam muitos se negligenciava a educação em saúde. Ilustrativo exemplo é o Gesu1ld-
riscos. Por volta de 1750, em algumas freguesias de Londres a mortalida- hcitskatcchismtts21, de B. C. Faust; publicado em 17941 teve inúmeras
de de crianças variava entre oitenta e noventa por cento, sendo a dos reimpressões e mereceu traduções em várias línguas. Nesse período,
menores de um ano ainda mais alta. paralelos aos trabalhos pela criança estiveram os esforços para aperfeiçoar
O estabelecimento, em 1741, do Hospital dos Enjeitados de Londres, a Obstetrícia e reduzir a mortalidade materna_ Vlilliam Smellie ajudou a
resultado dos esforços de Thomas Coram 16, reflete a consciência do melhorar a posição profissional das obstetrizes. Antes de 1739, quando Sir
probl~ma. Em 1748 apareceu Um E1Zsoio sobre a Amamentação c o Jl1mi4o Richard I\Jlanningham criou uma enfermaria para parturientes, não havia
de C11anças 17, por VVilliam Cadogan. Escrito para os administradores do lugar para elas nos hospitais de Londres. Logo outros seguiram esse
Hospital dos Enjeitados, nesse ensaio Cadogan defendeu os direitos das caminho. Em 1747, por exemplo, o Hospital de Middlesex pôs uma
crianças à vida e à liberdade e assentou algumas regras empíricas sadias enfermaria sob a direção de uma parteira. Então, em rápida sucessão, se
para amamentação, alimentos, vestes, roupas e exercícios. O notável fundaram o Hospital Britânico de Partos - em 1749 - o Hospital de
Jonas Hanway 18 - negociante, viajante, oponente do hábito de se beber Partos de Londres- em 1750- o da Rainha Charlotte- em 1752;
chá, advogado do guarda-chuva, e filantropo- empreendeu uma campa- vários outros logo se seguiram. Charles \Vhite, de Manches ter, deu. uma
nha importante contra as mortes infantis, e exerceu sua maior influência contribuição notável para a melhoria da prática obstétrica; suas exigências
em defesa da causa da criança pobre das freguesias. Em 1769 ele assegu- de limpeza, na Obstetrícia, anteciparam as contribuições de Holm.es e
_______,r_o~-~n?__~-~~E~!9_ qQ~--~9!1)_~ y_~ _c_~!!IP~~J~~-ti9_ ~~_freg_~~~!~~--d~--~0~~E_es !?nviar r. Semn1elweis na prevenção da febre puerperaL
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120 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 121
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A comparação de taxas de mortalidade em diferentes períodos oferece sapateiros e metal(~rgicos, sarna do merceeiro, eczema das lavadeiras,
alguma idéia do efeito dessas medidas. Na Tabela 1, números médios sarna do padeiro.
para o Hospital Britânico de Partos indicam a tendência de queda. Durante as primeiras décadas do século XIX, a França assun1iu a
liderança nesse campo da Saúde Pública. Em 1817, por exemplo, Keran-
Tabela!: Ta>:as médias de mortalidade para o Hospital Britânico de Partos dren (1769-1857), um cirurgião naval, publicou, baseando-se em numero-
sos e detalhados estudos, un1 volume sobre Higiene Naval. A. L. Gosse
Ano 1749-1758 1779-1788 1789-1798
(nascido em 1791), antropólogo e participante da guerra de libertação da
Taxa de mortalidade materna
para 1.000 nascidos vivos 24
Grécia23 publicou, em 1816 e 1817, dois tratados sobre con1ércios perigo-
17 3,5
Taxa de mortalidade infantil sos. Outra expressão desse interesse residiu na publicação, em 1822, da
para 1.000 nascid.os vivos 66 23 13 tradução de Patissier do tratado de Ramazzini, enriquecida con1 suas
observações próprias. Em 1825, F. E. Fodéré (1764-1835) 24 , um original e
Por :oi ta de 1810, ou 1820, a taxa de mortes começou a subir de novo, vigoroso pensador da Saúde Pública, entregou ao público seu Essai Histo-
s: continuando pelos "famintos anos quarenta'' do século XIX (ver págs. rique et Aioral sur la Pauvreté des .Nations (Ensaio histórico e moral sobre a
1~0, 164). . pobreza das nações), no qual discutiu os riscos, para a saúde, das grandes
fábricas de St.-Etienne e Marselha. E então, em 1829, se editou um
TODOS OS MODOS DE SER E ESTADOS DOS HOMENS. A preocupação periódico dedicado à Saúde Pública. Essa publicação, os Amza!es d'Hj'giCne
com a saúde de grupos se evidencia, ainda, na atenção dedicada às Publique et A1édecine Léga!e (Anais de higiene pública e medicina legal),
condições de trabalho e às doenças associadas a certas ocupações. Em concedia importante espaço à Saúde Ocupacional e de imediato conquis-
1700, Bernardino Ramazzini tinha publicado seu clássico tratado sobre as tou reputação internacional.
doenças dos trabalhadores (ver pág. 85). Mas só depois de meados do As investigações de John Howard (1726-1790), no curso das quais pôs a
século XVIII aconteceram outras contribuições significativas à sanidade nu as apavorantes condições das prisões inglesas, ilustram de modo admi-
no trabalho. Durante a última metade do século, a 1\1edicina Naval e rável esse empenho em estender a higiene do plano pessoal ao público.
~1ilitar ocupou a atenção de vários médicos britânicos, franceses e ale- Como juiz supremo de Bedforshire, Howard se tinha familiarizado com as
mães. condições das prisões e se incumbira de investigá-las. Em 1777, publicou
Tiveram notáv·eis efeitos para melhorar a saúde dos marinheiros e em seu famoso relato do Estado das PJisões2S, onde ofereceu uma visão com-
espeCial, para a étradicação do escorbuto da 1\1arinha Real, as contribui- pleta de suas sindicâncias e propôs remédios para os males revelados. Sob
ções de}ames Lind (1716-1794) 22, Gilbert Blane (1749-1834), e Thomas muitos aspectos, as investigações de Howard antecipam a obra dos refor-
Trotter (1760-1834). Lind recomendou o uso de suco de limão para mistas sanitários do século XIX. Ilustram, ainda, a eficácia de se analisar
com?a.ter o escorbuto, e sugeriu medidas para elevar as condições de vida os males sociais segundo suas conseqüências para a saúde da comunida-
e a lugtene pessoal dos marinheiros, assim ajudando a reduzir a incidência de, além de ser um testemunho notável do valor dos inquéritos para
de tifo exantemático. Na França, Poissonier-Desperriêres, a autoridade . enfrentar esses problemas. Através de suas revelações acerca das relações
francesa em Medicina Naval, adotou a linha de Lind. }ohn Pringle (1707- entre prisões e febre das cadeias, Howard despertou a opinião pública e
1782), na Inglaterra, e E. G. Baldinger (1738-1804) e]. P. Brinkmann tornou possível melhorar a situação dos presídios. Assim, mostrou que, se
(1746-1785), na Alemanha, se ocuparam das doenças dos soldados, e de os fatos sobre a doença social penetram na mente das pessoas, elas se
sua prevenção. galvanizam para a ação e se pode usar a opinião pública como uma
N~s t~rras de língua alemã se prestava considerável atenção às doenças alavanca para as mudanças. Howard dedicou sua vida à reforma das
de mme1ros e metalúrgicos. As condições de saúde dos trabalhadores, em prisões, viajando por toda a Europa em defesa de sua causa_. Por ironia do
. gera~ estudaram-nas Z. G. Huszty, em 1786, E. F. Hebenstreit, em 1791, destino, morreu de febre das cadeias, em Kherson, na Ucrânia. Na Ingla-
e Georg Adelmann, em 1803. Na Inglaterra, Robert Willan (1757-1812) terra, depois das guerras napoleônicas26 , Elizabeth Fry, Thomas Fowell-
_ _ _ _ __cde~~E~V~-~~-~-~Ii_~~--~t?~~_?._s_d~pele em trabalhadores - dermatoses dos _ _
..c_c_.c..c::. Buxton, e outros filantropos, continuaran1 seu trabalho .
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122 A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 123
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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LUNÁTICOS E CONSCIENTES. "0 homem nasce livre, e por toda parte de chá e café, instigado à ação pelas más condições no Asil'o de York, uma
vive acorrentadd'. Ao lançar seu irado grito, Rousseau não estava pensan- instituição para insanos, fundada em 1777. Construído para abrigar trinta
do nos doentes mentais. Em seu tempo, entretanto, a nenhum outro pacientes, o Retiro se inaugurou em 1796. Tuke introduziu um regime
grupo esse grito se ajustava melhor. No século },_'\/III, trancafiavam-se os fundado no senso comum e no cristianismo. Envidavam-se todos os
loucos em prisões, casas de correção, asilos e hospícios. Atribuía-se a esforços para oferecer um ambiente familiar aos pacientes. Alimentação,
insanidade ao pecado e a atividades do diabo, como também a retenção ar fresco exercício e atividades substituíam a brutalidade, as correntes e a
de excreções corporais, distúrbios emocionais, dieta ruim e falta de sono e inanição: ;l"'uke provou ser a bondade um tratamento Sllperior ao confina-
outras causas. Ignorância, superstição e condenação moral dominavam o mento ril~roso. Sua obra teve uma influência direta nos Estados Unidos,
tratamento do insano. e o exemplo do Retiro vingou nas criações do Asilo de Amigos, inaugura-
Em séculos anteriores, aqui e ali, algumas vezes se tinham erguido do em Frankford, Pensilvânia, em 1817, e do Asilo de Bloomingdale,
vozes em um esforço para furar o denso pálio de ignorância e medo que aberto em 1821, em Nova York.
envolvia em mistério a natureza da doença mental. Entre esses estavam Um ·ano depois de \Nilliam Tuke conceber seu plano, um rnédico
Paracelso, Johann Weyer, Reginald Scot e Felix Plater, no século XVI, e francês, sob circunstâncias dramáticas, em meio à turbulência revolucio-
diversos outros médicos e filósofos, no século XVII. Em geral, no entanto·, nária e aos alarmes de guerra, deu um passo semelhante. Philippe Pinel
clamavam no deserto. Só na última parte do século Ã'VIII evidências de (1745-1826), tinha sido nomeado, em 1793, médico do Hospital Bicêtre,
mudança começaram a se manifestar, entraram em movimento forças que em Paris; onde se confinavam homens. Convencido de ser um regime
viriam a alterar, radicalmente, o cuidado e o tratamento do alienado. apoiado em bondade, simpatia e em um mínin1o de contenção mecânica,
O movimento de reforma da atenção à demência não estava isolado. mais efetivo do que os brutais métodos de seus dias, em 1793 removeu as
Integrava a preocupação rriaior com os direitos e a situação do homem e, correntes de cinqüenta e três lunáticos.
assim, se ligava a outras reformas do período: a reforma do sistema penal, Vieram triunfos encorajadores. Três anos depois ele se tornou médico
a preocupação com as crianças, a melhoria da saúde pública. Não é da Salpêtriêre, o segundo maior hospício em Paris, onde se internavarp.
surpreendente encontrar, quase simultaneamente, em vários países euro- mulheres. Pinel introduziu na Salpêtriêre um regime similar ao de Bi-
peus, em particular na França e na Inglaterra, propostas e ações de cêtre e demonstrou o valor do tratamento humano para o doente mentaL
reforn1a, motivadas pelas idéias do Iluminismo e pelo novo espírito hu- Pinel apresentou seu sistema de tratamento moral, e seus resultados, no
manista- presente .na vida comunitária. clássico Traité Médico-Philosophique surl'Aliénation Mmtale (Tratado médi-
Em 1774, depois de investigar as condições no hospício de Pforzheim, co-filosófico sobre a alienação mental), publicado em 1801. Sua obra
G. F. Jaegerscbmid (morto em 1775) propôs o oferecimento de mais li- exerceu uma grande influência, não só na França n1as ao longo do conti-
berdade aos pacientes menos perturbados, e o uso do recurso do encarce- nente europeu e também na Grã-Bretanha e na América.
ramento apenas para os violentos. Insistiu ainda para a enfermagen1 cui- Um dos mais significativos resultados da reforma do tratamento do
dar dos pacientes, sob a supervisão regular de um médico. Essas propos- insano foi o estabelecimento de hospícios. Na _Inglaterra, esse trabalho se
tas não se efetivaram, mas, em 1788, Vincenzo Chiarugi (1759-1820) consolidou, durante o início do século XIX, no Ato do Asilo h1unicipal, de
realizou reformas sin1ilares no Hospital de São Bonifácio, em Florença. Se 1808 e nas emendas de 1815 e 1819. Construiu-se o primeiro hospício
consideradas no tempo, as rê:formas de Chiarugi precedem as iniciadas municipal em Nottingham, aberto em 1811. Por volta de 1815, havia três
por Philiprle Pinel, na França, e \Nilliam Tuke, na Inglaterra. No entanto, hospícios municipais em funcionamento, e, em 1842, um total de dezes-
como ele p'rimeiro apresentou seu trabalho em seu tratado sobre a insânia, seis. Em geral, essas instituições representam um progresso no uso de
publicado em 1793-1794, e escrito em um italiano bastante difícil, sua :~ métodos humanos e na evolução dos padrões profissionais no cuidado dos
obra não influiu tanto quanto o poderia sobre a prática de seu tempo. t mentalmente enfermos. Pode-se observar esse movimento de criação de
l\1ais profunda e de longo alcance se tnostrou a influência do Retiro, i~ instituições especiais para os insanos, durante as três primeiras décadas
fundado em York, em 1792, pela Sociedade de Amigos. Seu projeto l--_,: do século XIX, também nos Estados Unidos. Finalmente, esses hospitais

- - - - -

-,
nasceu da mente de William Tuke (1732-1822), um quacre, negociante
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tornaram possível o estudo científico da doença mental.
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A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 125
124 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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parecidas agiam na Irlanda e na Escócia e ao final do século XVIII
HOSPITAIS E DISPENSÁRIOS. O desenvolvimento de hospícios cami-
encontravam-se hospitais na maioria das cidades grandes e em algumas
nhou ao lado da ascensão dos hospitais gerais e dispensários. No início do
cidades maiores 27 •
século XVIII, quase não existiam hospitais na Inglaterra, exceto em
Ivfesmo enquanto os hospitais estavam sendo fundados, compreendeu-
Londres, mas com acomodações inadequadas. No entanto, e em especial
se a necessidade de complementá-los com outro tipo de instituição.
na metrópole, era necessário cuidar dos doentes pobres. Londres estava
Assim, criou-se o dispensário.
crescendo, os salários estavam em alta, a cidade atraía trabalhadores.
Podem-se encontrar já no século XVII vestígios da idéia do dispensá-
Muitos, impossibilitados de apresentar os atestados de moradia necessá-
rio. 11as o dispensário só veio à luz em 1769, quando o Dr. George
rios, não tinham direito, se adoeciam, a receber assistência da freguesia.
Armstrong abriu, en1 uma casa na Praça do Leão Vermelho, em Holborn,
Havia dois hospitais mais antigos, o São Bartolomeu e o São Tomás,
Londres, o Dispensário para a Criança Pobre_ Não se visitavam as pessoas
apinhados, e sem condições de cuidar de todos os necessitados. Reconhe-
cendo o problema, em 1719 um grupo de leigos e médicos de Londres
organizou uma Sociedade Beneficente, em '''estminster, para atender a
tI em suas casas. Ao dispensário de Armstrong, se seguiu, em 1770, a
fundação do Dispensário Geral, pelo médico, quacre, ]ohn Coakley Let-
tsom e um grupo de associados. Sua feição distintiva estava em oferecer
pessoas doentes incapazes de obter os cuidados necessários. Assim tev~
início o Hospital dC "'estminster, logo seguido pelo estabelecimento de I cuidados médicos no lar. Em um certo sentido, a assistência nas casas não
era realmente nova, pois, ao menos no campo da Obstetrícia, tinha acon-
outras instituições, como os hospitais de Guy (1724), São Jorge (1733), de
Londres (1740) e de Middlesex (1745). Por volta de 1760, a maioria dos
grandes hospitais gerais de Londres já tinha sido criada. Em 1797, os sete i tecido uma década antes. William Smellie, o fundador da Obstetrícia
científica na Grã-Bretanha, tinha iniciado um esquema em que ele e seus
estudantes atendiam mulheres pobres, de graça, em suas cas·as. No Dis-

l
hospitais gerais ofereciam um mil e novecentos e setenta leitos.
pensário Geral se aplicou esse princípio a todos os pacientes ~ncapa~i:a­
Em meados do século, criaram-se hospitais especiais. O Hospital de
dos de vir ao dispensário. Seguindo o exemplo de Lettsom, dispensanos
Londres tinha sido fundado "para o alívio de todas as pessoas doentes ou
floresceram em Londres e nas províncias. De 1770 a 1792 fundaram-se
enfermas, e, em .particular, de manufatureiros, marinheiros da marinha
mercante, e suas -esposas e seus filhos". Ainda mais específico era o
' quinze, em Londres, e, de 1715 a 1798, treze, nas província,s; em 1840,
havia vinte e três dispensários na capital, e oitenta nas províncias.
objetivo do Hospital de Middlesex, instituído, em 1746, para receber
Nas Américas, os hospitais se iniciaram no século 1..rvi, quando os
pacientes com varíola e para estimular a inoculação. O mesmo ano viu a
conquistadores espanhóis fundaram instituições semelhantes às exis-
fundação Qo Hospital Lock, para pacientes com doenças venéreas. Já se
·tentes na Europa. Nos séculos seguirites, estabeleceram-se outras, sob' os
mencionou a atenção às gestantes e aos enjeitados. O Hospital de São
auspícios da Igreja ou das autoridades temporais, municipais ou ,na-
Lucas, para receber doentes mentais, surgiu em 1751.
cionais.
De 1760 a 180"0 o ritmo de crescimento de hospitais, em Londres,
As colônias inglesas na América seguiram o padrão ditado pela pátria-
diminuiu, mas depois retomou-se o processo. Durante as primeiras qua-
mãe. O primeiro esforço vitorioso de se estabelecer um hospital geral
tro décadas do século XIX, fundaram-se quatorze hospitais em Londres.
ocorreu na Filadélfia, em meados do século XVIII, com a abertura do
Enquanto alguns eram gerais, é notável serem os hospitais especiais a
Hospital da Pc;u~ilvâuia, c:;m 1751. O ~c;guwJu hu~pital mai~ antigo dos
maioria; em 1802 fundou-se o Hospital de Febres de Londres; em 1804, o
Estados Unidos, o Hospital de Nova York, se inaugurou em 1791. A
Hospital Oftálmico Real, de Londres; em 1814, o Hospital Real do Tórax;
despeito desse início, os hospitais se desenvolveran: de modo le~1to. A
em 1816, o Hospital Real do Ouvido; e em 1838, o Hospital Real Nacional
de Ortopedia. principal razão para esse atraso residia no fato de exist~rempouca~ CJ?ades
grandes. Em 1825, a cidade de Nova York possuía m~1s dms ho.sp~tms, u~
Essa tendência logo se fez sentir, e seguir, fora de Londres. O primeiro
geral e uma enfermaria de olhos e ouvidos. Exisnam hospitais gera1s
hospital provincial se fundou em 'Vinchester, em 1736. Iniciado, o movi-
também em Boston, Baltimore, Cincinnati e Savannah.
mento rapidamente se espalhou a Bristol (1737), York (1740), Exeter
Os hospitais e dispensários instituídos na Grã-Bretanha, durante o
(1741) e Liverpool (1745). Em 1760, havia dezesseis hospitais provinciais,
século 1..rviii e no começo do século XIX, tinham a intenção de pron1over
sendo quatorze de caráte~-~era~; eu: 1800, cento e quatorze. Forç~a_s____
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126 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 127
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a saúde e salvar vidas. Embora não seja fácil definir em termos estatísticos A situação nos hospitais alemães e austríacos si assemelhava à france-
sua influência, parece claro que ajudaram a espalhar informação médica e sa. As mudanças para melhor ocorreram, também, apenas nas primeiras
a imprimir nas pessoas os rudimentos da higiene. Outrossim, eSsas insti- décadas do século XIX.
tuições não nasciam do governo, mas resultavam de esforços voluntários
de cidadãos particulares. Subscrições e heranças as financiavam. Nem o MELHORIAS DA VIDA URBANA. Segundo padrões modernos, muitas
hospital voluntário nem o dispensário eram resultado das mudanças so- cidades do século XVIII eram extremamente insalubres, sujas e impreg-
ciais e econômicas promovidas pela Revolução Industrial. Não obstante, nadas de odores nauseantes. O alojamento de Jonathan Swift 28 , em Lon-
ajudaram a criar um padrão de comportamento, comum, nos esforços da dres, continha "um milhar de fedores". O saneamento urbano era pobre,
Saúde Pública do século XIX, na luta contra os problemas trazidos pela até mesmo inferior, sob certos aspectos, ao do século XVII. Ruas e vielas
industrialização- e que se caracteriza por várias fases: primeiro um indiví- viviam sujas e comun1ente arremessavam-se, pelas portas e janelas, água
duo, ou um pequeno grupo influente, reconhece um mal social; em de esgoto e refugos domésticos. Abatiam-se os animais em locais públi-
seguida, empreendem-se, através da iniciativa individual, estudos, expe- cos. Os versos de Sv.rift retratam com vivacidade cenas da cidade.
rimentos-locais ou melhoramentos; por fim, essa agitação leva o governo a
agir e, em caso de sucesso, à legislação. De todas as partes as sarjetas inchadas afluem,
A proliferação-de hospitais não se restringiu à Inglaterra e à América. O E enquanto avançam, ostentam seus troféus.
crescimento dos:municípios, na França, durante o século À'\TIII e o início Imundícies de todas as cores e odores parecen1 contar,
do XIX, exigiu uma extensão considerável dos recursos hospitalares. Em Pelo aspecto e pelo cheiro, de que rua velejaram.
1830, Paris possuía não menos de trinta hospitais, a acomodar vinte mil Refugos das tendas dos açougueiros, bosta, tripas e sangue,
pacientes; só o Hôtel-Dieu tinha mil leitos. Ocorreu algo parecido nos Cãezinhos afogados, arenques fedidos, todos encharcados na sujeira,
países de língua alemã, embora não na mesma amplitude. No continente, Gatos mortos e folhas de nabo, rolam corrente abaixo.
entretanto, essas instituições foram criadas e administradas sob os auspí-
cios do governo. Não obstante, na segunda metade do século XVIII se começou a
En1bora valios_os, esses hospitais deixavam muito a desejar. A prática presenciar benfeitorias consideráveis nas cidades britânicas. Essas mu-
da enfermagem -era primitiva, as condições higiênicas muitas vezes po- danças foram mais notáveis entre 1750 e 1815, ou seja, durante o primeiro
bres, e as enfermarias, graças a conceitos de economia fals~s, viviam impacto do industrialismo e durante um prolongado período de guerra29,
apinhadas. responsáveis por violentas flutuaçõeS econômicas e outros males sociais.
Em fins do século À'\TIII, caminhou-se·para mudar essa situação. John A partir de 1760, primeiro Londres, e depois outras comunidades, desen-
Howard, o reformador das prisões, também estudou o hospital e propôs volveram e efetivaram esquemas para melhoramentos públicos. Derruba-
melhorias. Sob a influência de James Lind, o pioneiro da higiene naval, a ram-se prédios deteriorados ou que impediam a circulação, drenaram-se,
ventilação, e as instalações sanitárias melhoraram e se introduziu um pavin1entaram-se e iluminaram-se ruas. Vias estreitas e tortuosas foram
padrão de limpeza mais alto. Na Irlanda, no início do século XIX, pela alargadas e tornadas planas. Prédios de tijolo substituíram casas de madei-
primeira vez se levou a sério a reforma dos hospitais. ra, desaparecendo~ assim, alguns cortiços horríveis. À proporção que
Os hospitais franceses estavam muito abaixo dos ingleses. De fato, às surgiam os novos quarteirões, con1 ruas largas e quadras abertas, a classe
vésperas da Grande Revolução, surgiu a proposta de se abandonar o mais rica gravitava para esses bairros, deixando para os pobres as regiões
Hôtel-Dieu, em Paris, e de se remover seus pacientes para nOvos hospi- mais antigas e insalubres. Durante a década de 1780, visitantes admira-
tais. Os governos revolucionários reconheceram a necessidade de melho- ram as luzes das ruas, o suprimento de água e os esgotos. É claro que se
ramentos. E em 1793 a Convenção determinou que cada paciente tivesse deve julgai' essas observações segundo as condições contemporâneas de
, seu próprio leito e que os leitos guardassem, um do outro, uma distância outras cidades (para nós, Londres ainda seria sombria, soturna e suja).
: de :rês pés. No início do século seguinte, as condições tinham progredido O exemplo de Londres se espalhou às províncias, e outras cidades
mmto. empreenderam melhorias. Pode-se considerar o Ato da Pavimentação de
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128 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 129
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\~Testminster, em 1762, o ponto de partida desse processo. Em 1776, poluídos e de fontes de superfície. Em Londres, em 1827, a Companhia
11anchester votou um ato similar e logo suas ruas puderam ser compara- da Água da Grande Junção captava água a menos de três jardas da saída de
das às de Londres. Liverpool não somente reformou suas ruas mas iniciou um grande canal de esgoto; condições semelhantes existiam em outras
uma campanha contra o uso de porões como moradia. Avalia-se a grande- comunidades.
za desse movimento pelo fato de que, entre 1785 e 1800, não menos de Em 1829, ]ames Simpson, ei1genheiro das companhias de água de
duzentas e onze comunidades tenham iniciado beneficiamentos urbanos. Chelsea e Lambeth, introduziu em Londres a filtração arenosa, lenta, dos
Houve algum avanço no supritnento de água e no sistema de esgotos, e suprimentos de água. Ele se valeu de um pequeno reservatório, com
se introduziram, de modo gradual, bombas a vapor e canos de ferro. No camadas de pedras grandes e pequenas, cascalho e areia, nessa ordem, de
entanto, até a primeira década do século XIX os encanamentos principais cima para baixo. Naquele tempo, o propósito principal do filtro de areia
continuaram a ser, principalmente, de madeira. era o de remover a poluição grosseira e clarear a água.
Durante os Primeiros trinta ou quarenta anos do século, sentia-se a A evolução do suprimento comunitário de água, nos Estados Unidos,
necessidade de maiores e melhores fornecimentos de água para a cidade. seguiu o modelo britânico. Quando se organizou, em 1799, a Companhia
E como o crescimento da indústria do ferro já permitisse o uso mais amplo de Manhattan, para abastecer a cidade de Nova York "com água pura e
desse material, Canos de ferro passaram a ser mais empregados e, a partir salubre", usavam-se toros vazados para conduzir a água, e canos de
de 1827, seu usá se tornou compulsório. A Companhia de Água de West chumbo a levavam até o interior das casas. Em 1797, o Comitê de
Middlesex- uma das abastecedoras de Londres -em 1808 substituiu a Aguagem da Filadélfia começou a usar bombeamento a vapor, e em 1817
madeira pelo ferro. Dublin, depois de hesitar entre madeira e ferro, o mesmo grupo importou canos de ferro fundido para substituir os toros
finalmente decidiu-se pelo "ferro fundido", em 1809, substituindo os vazados. Em Lynchburg, Vat)couver, em 1829, usou-se ferro fundido no
encanamentos principais, de madeira, nos cinco anos seguintes. Em 1805, que é considerado o primeiro encanamento principal, sob alta pressão, no
Lichfield substituiu seus canos de chumbo por canos de ferro fundido. mundo.
:tviais ou menos ao mesmo tempo, a River Company, de Londres, punha W. G. Smillie observou que nos Estados Unidos, como regra geral, a
canos de ferro fundido no lugar dos canos de madeira. ·É interessante instituição de um suprimento de água precede o desenvolvimento de um
notar que em 1826 o custo estimado para colocar canos de ferro fundido, sistema de esgotos por um período variável entre cinco e cinqüenta anos.
em Gloucester, variava de cerca de cinco xelins por jarda para canos de Num sentido mais largo, essa generalização se aplica também à cena
duas -polegadas de diâmetro, a dez xelins por jarda para os de cinco po- britânica. Passar-se-iam muitos anos antes que se viessem a utilizar os
legadas de diârríetro. Em Londres, na mesma época, um cano de ferro abastecimentos de água comunitários para eliminar refugos domiciliares.
fundido de dois pés e seis polegadas de diâmetro, com nove pés de A idéia de usar água corrente para carrear excrementos surgira cedo, e no
comprimento, custava oito libras por jarda. século XVI, Sir John Harrington, cortesão e poeta, tinha inventado uma
A despeito desses progressos, várias imperfeições persistiam. Por causa latrina, e persuadido a Rainha Isabel a instalá-la em seu palácio, em
de métodos de juntura ineficientes, e dos vazamentos resultantes, um Richmond. A privada, no entanto, era apenas uma divertida excentricida-
suprimento intermitente continuou comum no século dezenove, em de. No século XVIII, as latrinas cmÍtinuaram raras. Por vezes. instalavam-
particular nas zonas mais pobres. Em geral, uma coluna de alimentação se-as nos lares dos abastados; assim, quando se fizeram os novos banhei-
vertical servia como fonte de suprimento para uma série de casás. Em ros na casa de Bloomsbury do Duque de Bedford, em 1771, instalaram-se
Bath, por certo tempo existiam só três canos verticais para uso dos pobres, duas. ~{as só nas décadas de encerramento do século XVIII o sistema de
a servir água só durante certas horas da manhã. Em York, no início do drenagem por carrea·ção pela água começou a se tornar comum. Em 1791,
século XIX, metade da cidade recebia água por duas horas, às segundas, vinte anos mais tarde, ao visitar o Hospital çle Guy, John Hmvard notou,
quartas e sextas, e a outra metade, nos dias alternados; aos domingos não com surpresa e satisfação, que as novas enfermarias possuíam, cada uma,
caía água. uma privada; acionava-se a água, através de um engenhoso arranjo, quan-
Envidavam-se também esforços para melhorar a qualidade da água do se abria a porta.
oferecida, mas com pouco êxito. Em sua maior parte, a água vinha de rios As províncias ficaram atrás de Londres; ainda em 1808, os habitantes
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de Exeter despejavam a água do esgoto na sarjeta e na cidade inteira corporação municipal típica do século XVIII dificilmente se considerava a
havia apenas uma sentina. si mesma como um órgão do governo local. (Como os \~lebbs o indicaram,
No entanto, a introdução dessa comodidade logo criou mais problemas: o próprio termo "governo local" só apareceu depois de meados do século
as fossas raramente eram limpas e seu conteúdo se infiltrava pelo solo, XIX.)
saturando grandes áreas do terreno e poluindo fontes e poços usados para Esse tipo de corporação não aceitava nenhuma responsabilidade pelo
o suprimento de água. Além disso, era ilusoriimente fácil eliminar a água desenvolvimento de serviços sanitários e de outras instalações urbanas.
de esgoto, permitindo-a alcançar os canais de esgotamento existentes sob Como resultado, quando a população crescente, e prohlemas comunitá-
muitas cidades. Como esses canais se destinavam a carrear água de chuva, rios urgentes, começaram a impor à atenção pública a necessid3de de
a generalização dessa prática levou rios e lagos, no interior ou próximos organização e ação municipais, criaram-se novos órgãos.
das cidades maiqres, a se transformarem em esgotos a céu aberto, um dos A via mais comum para a criação de novos serviços não esteve em se
maiores desafiOs ·enfrentados pelos reformadores sanitários do século usar as corporações municipais existentes, mas na criação, a seu lado, de
XIX autoridades novas e independentes. A longa sucessão de Atos de 1\ilelho-
Ao fim do século Ã'VIII e no início do XIX, as condições de vida urbana ria locais, nos séculos À.rviii, e início do XIX, mostra o estabelecimento,
começaram claramente a melhorar.Apesar disso, esse movimento aconte- pelas cidades, uma após a outra, e sob vários nomes, de corpos especiais
ceu de modo desigual e ainda restava muito por fazer-se. de Comissários de M:dhoramentos, criados pelo parlamento com o poder
Persistiam a àcumulação de água de esgoto, a poluição de fontes de de cobrar impostos. (A situação é, sob alguns aspectos, análoga a dos
suprimento de água, as moradias apinhadas e impróprias, persistiam todas Estados Unidos, hoje, quando se nomeiam autoridades independentes
as coisas, em suma, que viriam a agitar os reformadores do período para executar certos empreendimentos- como os de construir estradas e
vitoriano30• Pôde-se tolerar a situação, contudo, enquanto as cidades não pontes- ou para lidar com problemas que ultrapassam as fronteiras de·
cresciam rápido demais e o movimento de reformas urbanas e aperfeiçoa- jurisdições governamentais mais antigas - por exemplo, a gerência do
mento•da saúde conseguia acompanhar seu crescimento. No entanto, porto de Nova York ou a gerência do vale do Tennessee.) Essas comis-
quando, sob o impacto do industrialismo, as cidades se desenvolveram sões, ao final do século XVIII, introduziram os melhoramentos e serviços
em um ritmo cada vez mais veloz, e não se conseguiu controlar ou regular municipais descritos. Embora interessadas, principalmente, em iluminar,
esse processo, os males suplantaram os benefícios iniciais. limpar e pavimentar ruas, em remover transtornos sanitários e em regular
Essa situação se reflete 1 em números, na mudança da mortalidade. Por o trânsito, sua atenção também se. voltava para problemas de saúde.
volta de 1815, à taxa de mortes, declinante durante o final do séc\llo As ações das agências oficiais complementavam e se ligavam, intima-
ÀrVIII e o princípio do XIX, de novo ascendeu. A Grã-Bretanha serve mente, às atividades voluntárias relativas ao bem-estar da mãe e da
como o -exemplo'~.mais antigo e impressionante desse aumento, embora criança, aos hospitais, dispensários e prisões. Essas duas tendências ilus-
seja possível oferecer, um pouco mais tarde 1 relatos semelhantes para os tram a combinação de iniciativa privada e ação cooperativa 1 característica
Estados Unidos e vários países continentais. da Grã-Bretanha nessa época.
Como não existisse quase nenhuma corporação responsável pelo bem- A história do Conselho de Saúde de :Manchester é muito esclarecedora.
estar da comunidade, a situação se complicava. A velha ordem, herança da :rvianchester1 a primeira cidade industrial, nasceu graças ao impaçto da
Idade :Média, estava nos últimos estágios de desintegração, ao passo que a industrialização sobre a indústria do algodão. Em 1784, uma epidemia de
nova ordem mal nascia. Em conseqüência, o governo das cidades não ia tifo exantemático atraiu a atenção para as fábricas e seus problemas de
bem. Cidades mais recentes, como Birmingham e i\1anchester, careciam saúde. Em conseqüência, se solicitou a um grupo de médicos, sob a
de instituições municipais plenas. 1Vlas outras, já organizadas em corpora- liderança de Thon1as Percival, que examinasse o problema. O relatório do.
ções) não se administravam muito melhor. Muitas datavam do tempo dos grupo, sobre a saúde de i\1anchester, encaminhado às autoridades muni-
Tu dor, algumas sendo ainda mais antigas. Embora tivessem enfrentado a cipais, recomendava uma ação remediadora. ,
contento, .durante o período anterior, os problemas da higiene urbana, ao No entanto, pouco se realizou. Assim, outras epidemias vieram e ·a
-------~fi~mc:c1=-d=o-=sc::éculo se _mostravam refratária_s aos propósitos do governo local. A situação piorou. Por fim, no inverno de 1795-1796, a disseminação dO tifo
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causou tanto terror aos habitantes que o O r. Percival e seus colegas se necessidade da organização e da administração centralizadas, e as autori- ,I
reuniram e formaram o Conselho de Saúde de JVIanchester. Os membros dades se multiplicavam. Na década de 1830, por exemplo, o governo de·
desse conselho tinham plena consciência de estarem as epidemias rela- Londres se dividia entre a Corporação da Cidade e as compan.hias da
cionadas com os engenhos de algodão, onde trabalhavam muitas crianças. cidade, sete conselhos de comissários para esgotos, quase uma centena de
E recomendaram a instituição de leis para regular as horas e as condições conselhos de pavimentação, iluminação e limpeza, cerca de cento e
de trabalho nas fábricas, como também medidas necessárias para prevenir setenta e duas representações comunais, conselhos de guardiães nomea-
ou reduzir a difusão da doença. dos no Aro da Lei dos Pobres- de 1834- além de uma desnorteante
Essa maneira de lidar com os problemas da comunidade se afinava com reunião de outras autoridades. Somente a freguesia de São Pancrácio
a opinião generalizada, na Inglaterra, sobre a finalidade do governo; possuía vinte e um conselhos de pavimentação e iluminaçãq, nos quais se
exceto nas relações externas, na política e no comércio externos, a inicia- sentavam novecentos cOmissários, muitos, como também em outras fre-
tiva privada substituía a atividade pública, em grau crescente. guesias, irresponsáveis, extravagantes e corruptos. Para culminar, não
Em nenhuma parte isso se evidencia mais do que no suprimento de havia agência encarregada da saúde e vários aspectos da sa.úde pública
água. Ao fim do século 1.'\IIII, as companhias privadas de água se torna- estavam sob a responsabilidade de diversas autoridades. Assim era a
ram-mais e mais comuns na Grã-Bretanha, atingindo um ápice entre 1800 situação quando, depois de 1830, se empreendeu a reforma dos gover-
e 1835, quando·o Ato das Corporações J\llunicipais começou a reverter nos locais, assim era o terreno que originou o movimento pela reformà
essa tendência. Por volta de 1830, oito companhias supriam Londres. Em sanitária.
1819, Edimburgo concedeu o suprimento de água, por uma soma de
trinta mil libras, a uma companhia privada. Em Bath, a municipalidade A SAÚDE NA POLÍTICA NACIONAL. Nos mais avançados países do
supria a água, mas, em 1845, sete companhias abasteciam partes da mundo, hoje, a saúde do povo se tornou um grande interesse do governo.
cidade. O oferecimento de serviços para a promoção e a manutenção da saúde é
Essa tendência de deixar a provisão de água nas mãos do empreendi- parte fundamental de um impressionante edifício de serviços sociais.
mento particular não se limitava à Grã-Bretanha, pois também os Estados Esse interesse encontra expressão no ·conceito de saúde nacional ou
Unidos a seguiam. Na primeira parte do século XIX, não eram comuns a comunitária e é o produto de p.ma longa evolução.
posse e a operação, pelos municípios, desses serviços públicos. De 1800 a No século À~'ll, alguns visionários, tmnando como ponto -de partida a
1817 havia nos :E-stados Unidos apenas dezessete suprimentos comunitá- pos.ição mercantilista, tinham sido le;:vados a considerar a idéia de saúde
rios de água, todos, menos um, de propriedade privada. A existência de como um elemento significativo da política nacional (ver págs. 98 a 101).
funções pUblicas concedidas a companhias privadas, organizadas para o Num plano teórico, essa idéia se tinha desenvolvido em diferentes países.
lucro, não causá surpresa em uma comunidade de mentalidade empresa- No entanto, por falta de conhecimento e de mecanismos administrativos,
rial. Em verdade, esse tipo de pensamento é ainda muito comum entre não havia sido possível, em parte alguma, desenvolver e executar uma
nós, quando, por exemplo, reclamamos a transferência, para as mãos de política de saúde nacional. Embora só em fins do século XIX realmente
particulares, da operação e da distribuição dos sistemas de energia elétrica se alcançasse esse objetivo, no sécUlo À'VIII aconteceram avanços signifi-
instalados pelo governo. cativos, em especial nas terras de língua alemã, na França revolucionária e
Suplementar uma auto"ridade ou agência com outra representou, mui- na Grã-Bretanha.
tas vezes, o meio mais efetivo de se conseguir alguma melhoria imediata
para uma cidade, ou parte de uma cidade. Com o correr do tempo, no UM CÓDIGO DE SAÚDE PARA DÉSPOTAS ESCLARECIDOS. Na segun-
entanto, esse modo de agir não podia solucionar um problema maior, da metade do século XVIII, no continente, em particular nos estados
emergente: como organizar a vida em uma complexa sociedade industrial gern1ãnicos, o interesse pela saúde como tema de política pUblica entrou,
e urbana? A organização da comunidade para proteger sua saúde era um através da criação do conceito de polícia médica, em uma nova fase de
aspecto maior desse problema, e ainda não se sabia ser impossível levá-la desenvolvimento. Influenciados pelas doutrinas dos filósofos políticos e
a efeito de modo fragmentário, a esmo. Ainda não se havia reconhecido a dos teóricos da ciência política, alguns médicos adotaram o conceito de
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UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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polícia e começaram a aplicá-lo aos problemas de saúde. Ao que se sabe, o nosso tempo. Tanto qttanto possível, Cupido devia receber a assistência
termo ,"polícia médica" usou-o pela primeira vez \Volfgang Thomas Rau da lei. Frank estava imbuído, também, da importância do treinamento e
(1721-1772), em 1764. A idéia de polícia médica, ou seja, a criação de uma da educação para o casamento.
polí~ic~ mé.dica pelo governo e sua efetivação por meio da regulação Do casamento ele leva sua atenção, seguindo a lógica, para a gestação.
admmistratrva, rapidamente ganhou popularidade. Os estados germâni- Insistindo na necessidade de todo trabalho de parto ser assistido por uma
cos se empenharam em aplicar esse conceito aos grandes problemas de pessoa capaz, ele instou para que se procurasse consultar a parteira antes
saúde. Esse empenho alcançou seu ápice nas obras de Johann Peter da data esperada do n::~scimento. Entre outras n1edidas, ele sugeriu leis
Frank (1748-1821)31 e Franz Anton Mai (1742-1814). para obrigar a um razoável período de descanso da mulher, no leito,
Atualmente, .Frank é mais conhecido como um pioneiro da Saúde durante o puerpério, e para liberar a mãe, por várias semanas, dentro ou
Pública e da rviedicina Social. Entre seus contemporâneos, porém, sua fora de casa, de qualquer atividade capaz de impedi-la de dar a atenção ao
reputação se su-stentava também, senão mais, em suas atividades como filho; quando necessário, o Estado deveria sustentar a mãe durante as seis
clínico, educado! médico, e administrador de hospitais. -Em verdade, ele primeiras semanas depois do parto.
merecia sua fama. Em 1766 Frank já havia concebido mn plano de A seguir, Frank examina a saúde da criança. Não é possível discutir
escrever sobre :as medidas que o governo devia adotar para protegei- a aqui os detalhes de seu programa de bem-estar infantil. No entanto,
saúde púb_lica, ·uma obra, em suma, sobre polícia médica; o primeiro deve-se mencionar a discussão sobre a assistência às crianças em idade
volume vew a lume em 1779, o sexto, e último, em 1817. escolar e a supervisão policial das instituições educacionais. Frank atende
Levando adiante a idéia de ser a saúde do povo uma responsabilidade à sanidade das crianças eScolares com sua costun1eira amplitude, indo da
do Estado~ Frank apresentou um sistema de higiene, pública e privada, prevenção dos acidentes à higiene mental, e da iluminação, do aqueci-
~:se~volv~d_o em minúcias e apoiado em enorme erudição e rica expe- mento e da ventilação da escola até a educação física.
nencta prattca. Ao longo da obra inteira se percebem, con1 clareza o No terceiro volume do System, Frank se volta para a higiene do ali-
espírito do iluminismo e do humanismo. ~1as, como se podia esperar 'de mento, da roupa, da recreação e da moradia, incluídas a-s instalações
um funcionário público que passou sua vida a serviço de vários soberafios sanitárias. Analisa o alimento ainda com mais minúcias do que a saúde da
a~solutos, grandes e pequenos, a exposição de Frank não serve tanto p~râ­ mãe e da criança, pois acompanha cada artigo da dieta desde sua origem
a ms~ruçã? do povo, ou mesmo dos médicos; serve mais com9 guia paraõ-S até a mesa do consumidor. De passagem, discute vários tópicos relevan-
funcwnános encarregados de regular e supervisionar, em benefício -d~ tes - como as doenças de anim~is que contra-indicam o uso da carne
sociedade, todas as esferas da atividfide-liúffianã., até mesmo a~--~-~TS como alimento- e outros, menos relevantes. Considera problemas sani-
pessoais. Frank é um representante do despotismo esclarecido e assim-- o-- tários relativos a moradia, destino da água do esgoto e do lixo, e abasteci-
leitor moderno pode sentir-se repelido pela sua excessi·va confiança ;;_a-· mento de água. Ao analisar a higiene das comunidades, Frank insiste na
regulação legal, e pela minudência de suas proposições, em especial em inexistência de tarefa mais vital, para as autoridades n1unicipais, do que a
questões de higiene individual. de manter limpas as cidades. Para o destino do lixo e dos refugos, ele
Não é tarefa simples sumariar o System de Frank. Não obstante indo do sugeriu a reserva de terrenos a uma distância considerável da cidade.
princípio ao fim, como ele o fazia, e usando também algumas cate~orias da Apontou também a necessidade de espaço::; públicos para descanso c da
prática da moderna Saúde Pública, é possível oferecer uma impressão construção de privadas de n1odo a não se contaminar nenhuma fonte de
geral da obra. água de beber.
No século XVIII, a política populacional era um assunto de alto inte- No quarto e no quinto volume, Frank se voltou para problemas que
resse; o SJ1Sfem, se abre com uma consideração sobre população. A essa hoje, em sua maior parte, estão separados da Saúde Pública. Guarda
introdução sobre os problemas gerais da população se segue uma análise interesse considerável~ no entanto, a discussão dos acidentes. Frank
da procriação, do casamento e da gestação; segundo Frank, era dever dos considera possível a prevenção de muitos acidentes. A partir dessa pre-
funcionários públicos promover o casamento. Como parte desse progra- missa, ele conclui que as autoridades sanitárias deviam iniciar um progra-
_______ !:_ll:~'- _e_l~_p_ro_~un_h_a -~_fl!_}m_l~?-~~~ _P_~~~-~~-~~-~~-1?~-~~~-~~-~-~~_?~~~zada em ma para enfrentar os fatores responsáveis por esses acontecimentos. Em
136 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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verdade, a Saúde Pública contemporânea mal começa a compreender a casais prestes a se casar, estudantes e diaristas errantes, e quaisquer
importância do problema da prevenção de acidentes. outros grupos, ou indivíduos, interessados.
Além dos seis volumes mencionados, em 1822, 1825 e 1827, respecti- As realizações de Frank e lviai representam o ponto alto no desenvolvi-
vamente, apareceram mais três, suplementares. Entre outros tópicos, mento, na exploração e na tentativa de aplicar a idéia de polícia médica.
Frank lida, nesses volumes, com estatística vital, :rvfedicina J\1ilitar, doen- Hoje vemos, no entanto, o quanto esse imponente conceito já estava
ças venéreas, hospitais e doenças epidêmicas e comunicáveis. Assim, esvaziado qua11do, depois da queda de Napoleão, a paz e condições mais
mesmo sendo difícil resumir uma obra vasta como o System, vê-se que estáveis retornaram; apesar disso, a teoria, os propósitos sociais e os fins
Frank atingiu seu objetivo de formular, e apresentar de modo sistemati- de polícia médica já estavam ultrapassados e eram reacionários. Durante
zado, uma política de saúde coerente e abrangente. -ª§primeiras décadas do século XIX esse conceito era uma superestrutura
A publicação da AfedicimSche Polizq exerceu uma influência de inco- iQ_eológica sustentada sobre as fundações friáveis do absolutismo e do
mum vigor e ajudou a difundir a idéia de polícia médica além das frontei- mercantilismo. Tentar aplicá-los aos problemas de saúde da nova socie-
ras dÜs estados g-ermânicos, mas, em especial, entre funcionários e médi- dade industrial significava, em suma, oferecer como solução um remédio
cos alemães. Esse ih teres se se revela de maneira significativa no es baço prestes a ser rejeitado.
de um_ código ?e.~aúde, apresentado ao governo do Palatinado32 , em 1800, Isso não implica, no entanto, a negação de quaisquer dos importantes
por Franz AntoJ1.1\1ai, médico e humanitário. Ao longo de sua carreira, triunfos e efeitos duradouros da idéia de polícia médica. Em primeiro
Mai propôs medidas para melhorar a saúde de seus compatriotas. O lugar, desenvolver e explorar esse conceito representou um empenho
alcance do seu código é amplo como o do tratado de Frank. Composto em pioneiro de análise sistemática dos problemas de saúde da vida em
1800, recebeu a aprovação do Eleitor'', da faculdade médica da Universi- comunidade. Em segundo, reuniu-se um corpo definido de conhecimen-
dade de Heidelberg, e dos funcionários médicos de Mannheim. Todavia, tos, e esses esforços estimularam mais estudos. Coube à França e à
~ proposta de l\1ai não se realizou, em grande medida _por causa das Inglaterra a tarefa de enfrentar, sob as novas condições de início e meados
condições políticas, dos alarmes e incursões das gu_er~as e da inefiCrêncici do século XIX, os problemas fundamentais da organização sanitária defi-
do _governo, _ nos. Estados germânicos, no início do _século_ XIX. Contud_o_-· nidos por Johann Peter Frank e os outros criadores do conceito. Nesses
~eu-yalOr re_side na tentativa de pô-r ~m prâ(ic~ -a-s idéia~ ~:ie--Fra~k -~ ~ países, pela- primeira ve2;,_ ~ITl. e~cala nacional, se desenvolveram e se
criação de um código integral de leis para coordenar todos os aspectos d3. aplicaram políticas de saúde.
saúde, destinado não apenas a manter mas, também, a promover a saúde. ·
Os assuntos presentes no código indicam sua abral1gência. Incluem A SAÚDE E OS DIREITOS DO HOMEM. Havia boas razões para o povo
higiene da habitação e da atmosfera, higiene dos alimentos e das bebidas, francês saudar com e.ntusiasmo os Estados Gerais 34 em 1789, uma oportu-
aspectos médico_s da recreação, higiene do vestuário, saúde e bem-estar nidade de externar queixas acumuladas durante dois séculos de lei arbi-
de mães e crianças, prevenção e controle de doenças comunicáveis - trária e de cuidar de problemas que exigiam solução. Na última década do
humanas e animais - organização de pessoal médico e provisão de século XVIII, muitos franceses consideravam óbvia a necessidade de
assistência médica, e Educação em Saúde. l\1ai punha muita ênfase na profundas mudanças para que se pudesse enfrentar, realn1ente, proble-
educação, não só do público mas também dos médicos e de ouçros mas de saúde e bem-estar.
atendentes médicos. Ele considerava médicos, parteiras, e outros, ligados A Assembléia Constituinte,· o primeiro dos governos revolucionários,
a questões de saúde e doença, como os educadores sanitários naturais. De defrontou-se com un1a tarefa dual: liquidar o antigo regime e, ao mesmo
fato, na primeira seção do código- relativa às tarefas de um funcionário tempo, construir a nova França. A Declaração dos Direitos do Homem35,
oficial de saúde- cabe a esse funcionário instruir as crianças nas escolas, promulgada pela Assembléia, aboliu os privilégios do Anâm Régime, e
ou seus professores, a manter e promover a saúde. Esse funcionário oficial proclamou a liberdade e a igualdade do indivíduo e a soberania da nação e
esclareceria, ainda, os adolescentes quanto ao perigo de excessos sexuais. da lei. Como transformar, porém, esses princípios gerais em atos? Os
Lendo-se essa seção, parece que Mai concebia o oficial sanitário como médicos membros da Assembléia desejavam reconstruir o sistema de

uma espécie de educador em saúde da comunidade, a instruir jovens saúde, tanto quanto os outros deputados tinham a intenção de refazer a
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A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 139
138 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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estrutura política do Estado. A 12 de setembro de 1790, seguindo uma Em 1793 e 1794 a Convenção aprovou uma sérle de leis que estabele-
moção de Joseph lgnace Guillotin (1738-1814)- o médico que deu o ciam um sistema nacional de assistência social, incluindo-se a assistência
nome à guilhotina - a Assembléia Constituinte criou um Comitê de médica. Nesse sistetna, cada distrito devia ter três médicos, encarregados
Saúde (Comité de Sa!ubri!é). Em sua moção, Guillotin pretendia submeter de realizar algumas das funções imaginadas por Liancourt. _R~velou-se
a prática e o ensino médicos, a IVledicina Forense, a política de saúde e os incompleta, todavia, a aplicação dessas leis, pois os recursos, hmitad_os, se
serviços sanitários- na cidade e no campo- as doenças epidêmicas, e revelaram mais urgentemente necessários para sustentar as energias da
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até as doenças de animais, ao controle de uma Comissão de Saúde. O guerra. Em seguida à queda dos robespieristas 37 , no Termidor' , a Con-
Comitê teve a incumbência de atendera todas as questões "relativas à venção e o Diretório se afastaram dessa política. . .
arte de curar, e seu ensino, aos estabelecimentos de saúde, na cidade e no Já no início do século XIX deram-se outras passadas com o mtmto de se
campo, como as escolas e seus similares e a todos os assuntos de interesse criar um sistema nacional de Saúde Pública. Até o século XVIII, as
provável para a saúde pública". Como parte do trabalho do Comitê de cidades francesas dispunham de agências de saúde (bureauxdesmzté} para
Saúde, Jean Gobriel Gailot (1743-1794), seu secretário, •presentou à enfrentar surtos epidêmicos. Em 1802, no entanto, Oubois, chefe do
Asse111-bléia Constituinte, em 1790, um plano para a completa reorganiza- departamento de polícia - responsável pela adn1inistração ?a S~ú_de
ção do sistema médico, e outro para a construção de hospitais. A Assem- Pública- de Paris, organizou, seguindo a sugestão do conhecido htgte-
bléia, suspensa sem ter tomado qualquer atitude, deixou a sua sucessora o nista Cadet-Gassicourt, um conselho de saúde (co usei/ de salitbrité), um
encargo de examinar esses planos. órgão consultivo. Originalmente composto de quatro men1bros, O c~nse­
A Assembléia Legislativa, instaloda pela constituição de 1791, fundiu o lho teve esse número aumentado para sete, em 1807; nos anos segumtes
Comitê de Saúde com o Comitê de J\1endicância, para formar um Comitê incluíram-se mais membros.
de Assistência Pública. Embora uma parte do novo comitê estivesse O Conselho tinha como função estudar problemas de saúde pública
relacionada com a saúde pública, dava-se mais atenção à assistência, encaminhados pelas autoridades administrativas e recon1endar as ações
mesmo a médica, aos necessitados. Sob a Convenção, a necessidade de necessárias. Em sua atuação, abrangia u~a vasta gama de problemas:/
superar inimigos externos, a anarquia interna e a guerra civil absorveram higiene de mercados, salas de dissecção, banheiros públicos, esgotos e\
as energias e a atenção do governo revolucionário. A Convenção, entre- fossas, condições. sanitárias dos presídios, primeiros socorr~s às ví~imas_ de}
tanto, reconheceu a obrigação do Estado de proteger a saúde de seus afogamento ou asfixia, estatística médica, saúde industnal, epidemias,)
cidadãos. adulteração de alimentos. De 1829 a 1839, o Conselho se deteve sobrei
Em 1791, Rochefoucauld-Liancourt, presidente. do Comitê de Mendi- quatrocentos e quarenta e três problemas. _
cância, tinha apresentado à Assembléia Constituinte um plano de um O exemplo parisiense não repercutiu, de im~diato, em ~utras c~d~des.
sistema nacional de assistência social. Liancourt reconhecia o importante Gradualmente, nó entanto, à proporção que o Impacto do mdustnahsmo
papel da doença como causa de indigência. Em seu plano, especificava incidia sobre a vida urbana, algumas cidades con1eçaram a instalar conse-
que cada distrito rural teria um clínico, ou um cirurgião, nomeado pelo lhos semelhantes: Lião, em 1822, Marselha, em 1825, Lille e Nantes, em
departamento36, para cuidar dos indigentes, supervisionar a saúde das 1828 Traves em 1830 e Ruão e Bordéus em 1831. Em alguns departa-
crianças sob assistência, e desempenhar algumas das funções de um men~os criaram-se conselhos distritais 1 mas esse movimento espontâneo
oficial de saúde local. Em épocas determinadas, eles inoculariam crianças não levou, nessa época, à formação de um sistema nacional.
e adultos contra a varíola. Em caso de doença séria, ou epidêmica, a Em 1822, o governo francês criou um Conselho Superio.r de Saúde,
comunicariam à divisão de bem-estar do distrito, ou do departamento, e com doze membros, para aconselhar o ministro do Comércw em ques-
requisitariam consultas de médicos ligados a esses órgãos. A cada ano, se tões sanitárias. Esse órgão nunca significou muito, e só na revolução de
pedia aos médicos distritais que fizessem um relatório à repartição distri- 184839 se estabeleceu um sistema nacional de adininistração de Saí1de
tal, com suas observações e reflexões sobre o clima e o solo, sobre as Pública.
epid~mias, e sobre o tratamento dessas doenças; eles tinham de fazer, Em 1793 0 triunfo da máquina e a concentração do capital ainda
ainda, uma comparação de nascimentos, casamentos e mortes. residiam no 'futuro)•v1as, nos limites da situação criada por essas tentati-
140 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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vas, os homens de 1848 se empenharam em aplicar as idéias de seus depois da Revolução, um sisten1a que realizava a política de centralização
predecessores à organização da saúde comunitária. do antigo regime, mas de um modo mais eficiente. A administração
francesa superava a ilógica miscelânea de jurisdições, característica do
UMA POLÍTICA DE SAÚDE DAS FREGUESIAS. Na Grã-Bretanha du- governo local inglês. Superava também os esforços ineficientes, e algu-
rante a última parte do século XVIII, e o início do XIX, os problem~s de mas vezes caóticos, de funcionários que, em completa independência do
saúde comunitária continuaram a ser. de responsabilidade de autoridades governo central, se ocupavam da Saúde Pública e de outros serviços
locais. Os municípios, e as freguesias em que se dividiam, conduziam o sociais de interesse vital. Bentham morreu em 1832, e seus discípulos
governo. Essas unidades administrativas serviam como estrutura de refe- logo se dedicaram a realizar suas idéias.
rência para o pensamento e a ação. De fato, a feição mais notável da
administração britânica era sua sustentação nas freguesias. Isso teve OS REGISTROS DA VIDA E DA MORTE. Quando, em 1820, Bentham
co~s~qüências i_mportantes para a evolução da Saúde Pública, pois não instalou seu governo hipotético, teve o cuidado de criar um escritório
ex1st1am mecamsmos de subordinação dos interesses da freguesia aos da central de estatística. Nessa época, em conseqüência dos progressos
comunidade maior. ocorridos ao longo dos setenta ou oitenta anos precedentes, já se reconhe-
No século XVIII, o Estado não estava inteiramente alheio, ou indife·- · ·cia a importância da informação estatística. No século XVIII, cada vez
rente, a questões· de saúde. Quando epidemias ameaçavam o país, consul- mais se aceitava a necessidade de dados numéricos precisos sobre os
tavam-se especialistas. Richard Mead (1673-1754), por exemplo, em seu habitantes de um país e vários Estados europeus não mediam esforços
Pequeno Dtscurso Concenze1tte ao Co11tágio Pesti!encial e aos !J1étodos Usados para determinar os nún1eros e as características de suas populações .
. para Preveni-lo40, publicado em 1720, aconselhou o governo inglês a como Coube à Suécia a primazia de oferecer à política aritmética, através da
agir se a peste se difundisse a partir da França, onde uma epidemia rei- coleta de estatísticas oficiais de população, um solo firme~ Em 1748,
nava. Embora as instituições médicas só recebessem ajuda financeira louvando-se em um estudo de Per Elvius- matemático e secretário da
pequena, essas quantias ajudavam a resolver alguns problemas legais. Na Academia de Ciência da Suécia- o governo aprovou uma legislação en1
Irlanda do século XIX, por exemplo, ·não obstante o /aiSsez1aire, o Parla- que se ordenava ao clero das freguesias preparar tabelas sobre a popula-
mento autorizou os supremos tribunais de cantas a defender a causa dos ção. Enviavam-se essas tabelas ao governo central e as tabelas eram
hospitais e disp{fnsários. E lhes destinou recursos do tesouro. condensadas e1n um sumário, para o país inteiro. Preparar o sumário cabia
Não havia agência administrativa central para cuidar dos problemas de a um comitê, transformado, em 1756, en1 uma repa,rtição permanente,
saúde, em escala nacional, nen1 política capaz de sustentar um programa chamada Comissão das Tabelas. Seu membro mais ativo, Per Wargentin,
de saúde organizado. Isso não configura a ausência dessas idéias. Adam publicou em 1766 tabelas de mortalidade, para os anos de 1756 a 1763, as
Smith, em a A Riqueza das Nações41 comenta que teria estimulado a primeiras para todo o país.
legislação sanitária se soubesse de técnicas efetivas para lidar com proble- A constituição dos Estados Unidos estabelecia um censo decenal, e o
mas de saúde. Ainda mais significativa é a prop-osta de Jeremy Bentham, primeiro aconteceu em 1790, por enumeração direta. Antes, tinham ha-
em ~eu Código Co11stitucio1la~ 2, de 1820, o grande projeto de uma utopia vido recenseamentos em colônias específicas, por exemplo, em Connec-
pr~t~ca~ ~ue ocupou os últimos anos de sua vida. Bentham propôs um ticut, em 1756, e em Massachusett;s, c.m 1764.
mmtsteno de quatorze membros, entre os quais um ministro da Saúde, A Grã-Bretanha e os Estados germânicos ficaram atrás da Suécia e da
responsável por saneamento ambiental, doenças comunicáveis e pela França na compilação de estatísticas oficiais. Na Inglaterra, vários indiví-
administração dos cuidados médicos. duos continuaran1 a fazer estudos de estatística vital e estimativas de
Er~1bora não entrasse em vigor nessa época, a idéia de Bentham pre- população; com esses dados se construíram tábuas de 1nortalidade. Entre
nuncJava o futuro e teve uma influência notável sobre os líderes da as mais conhecidas estão a Tábua de Northampton, de Richard Price, e a
reforma sanitária na Inglaterra- Edwin Chadwick, Southwood Smith e Tábua de Mortalidade da cidade de Carlisle, desenvolvida por Joshua
outros-, que viriam a criar a Saúde Pública no sentido atual. Bentham :Miln~ a partir de um estudo das estatísticas vitais, de John Heysham.
estava impressionado com o sistem_~_!rancês de administração, instituído Esforços individuais· para coligir e comparar estatísticas vitais tan1bén1
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142 UMA H!STÓRJA DA SAÚDE PÚBLJCA 143
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A SAÚDE EM UMA ERA DE JLUMIN!SMO E REVOLUÇÃO
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caracterizam a situação nos Estados germânicos. Embora se realizassem, 1749, para designar a análise descritiva da organização política, econômica
regularmente, censos oficiais- na Prússia, sob Frederico II4 3 - e se e social dos Estados. Os propósitos e fins originalmente utilizados como
ordenasse ao clero a manutenção de registros de nascimentos, mortes e premissas do conceito de aritmética política estavam agora, em grande
casamentos, não se submetia o material à análise de qualquer repartição parte, fora de moda. rv1as levantes fundamentais- políticos, econômicos
pública. Em 1741, Johann Peter Süssmilch (1707-1767), um pastor prus- e sociais- em especial a Revolução Francesa e a Revolução Industrial-
siano, publicou uma grande massa de dados alemães e estrangeiros, expunham novas necessidades, novos problemas e novas metas, que a
compêndio relativamente completo da literatura estatística da época. Estatística podia estudar.
Nesse campo, o conhecimento permanecia vago e impreciso, não Até então não existia contato próximo entre o cálculo de probabilidade
apenas em virtude da insuficiência dos dados, mas também pela falta de e a investigação estatística das questões de sal1de. No entanto, Condor-
métodos apropriados para trabalhá-los. A estatística moderna diz respeito, cet48, enciclopedista e revolucionário que passou os últin1os n1eses de sua
em grande parte, a métodos para estimar erros de amostragem. Ou seja, a vida imaginando uma história do prog·resso da mente humana, reconhe-
técnicas capazes de permitir ao investigador testar seus dados, quanto ao ceu a importância de estender uma ponte sobre o vazio entre essas áreas.
viés, com segurança, e assim levar e1n conta esse fator em quaisquer de Nesse hino ao aprimoramento ilimitado do homem~ ele profetizou que a
suas inferências. No século 1..T\JIII, porém, não se usavam esses métodos, I\1edicina Preventiva levaria ao desaparecimento não apenas- das doenças
que apenas começavam a ser desenvolvidos. Laplace, o famoso matemá- comunicáveis, mas também das devidas à nutrição, à ocupação e ao clima;
tico, deu um passo largo nesse caminho: em 1786 ele se propôs a estimar e, conjeturava, o cálculo de probabilidade seria um instrumen~o p-óderoso
a população francesa usando as taxas de nascimento em um grupo sele- nesse processo.
cionado de distritos representativos. E concebeu também 'um método A obra de Condorcet veio a lume postumamente, em· 1795. Doze
para avaliar a acurácia do resultado, por meio da determinação dos limites anos depois, em 1807, seu amigo Phil\ippe Pinel (ver pág. 123) apre-
prováveis de desvio dos números verdadeiros. sentou um relatório, ao Instituto Nacional, em que se empenhava em
Essa importante contribuição de Laplace não foi, todavia, a primeira provar, estatisticamente, o valor de seu "tratamento moral" dos pacientes
tentativa de aplicação de métodos matemáticos mais precisos aos fenô- na Salpêtriêre.
menos vitais. Durante a maior parte do século XVIII, os méritos da A despeito das melhores intenções, porém, o usp da teoria de probabi-
vacinação contra a varíola serviram de tema não só de uma acesa contro- lidade no estudo dos problemas de saúde avançoU pouco. Existia, não
vérsia, mas dos primeiros ensaios para a determinação ~statística, do valor obstante, um interesse contínuo pela aproximação-numérica das questões
de uma medida profilática. Em 1760, o matemático Daniel Bernoulli44 sanitárias. Nutrido por várias fontes, esse interesse serviu como terreno
usou a mais significativa abordagem do problema. Em um ensaio, envia- para o desenvolvimento de um novo período, ao final da década de 1820.
do à Real Academia de Ciência de Paris, ele se incumbiu de analisar a Tendências e influências médicas, sociais e· ecónôn1icãs se uniam
mortalidade causada pela varíola e de mostrar as vantagens da inoculação nesse processo. Com a evolução e a difusão do Sistema industrial, os
como medida preventiva. Bernoulli tentou determinar quantos anos so- efeitos do industrialismo sobre a massa do povo .despertavam preocupa-
mar-se-iam à média de vida se se eliminasse a varíola como causa da ção crescente. Esse interesse pelo problema social criado pela industriali-
morte; ele se ocupou, em suma, com o problema matemático de conse- zação serviu de importante elemento estimulador Ua análise estatística de
guir estimar a influência de uma doença sobre a duração da vida. temas de saúde. Embora se soubesse da relação entre as condições
Os últimos anos do século XVIII, e as primeiras décadas do XIX, sanitárias e o ambiente social e econômico, como associar em n(Jmeros,
apresentam todos os sinais de llm período de transição. A era inaugurada insalubridade e condições sociais deletérias?
por Graunt e Petty se aproxin1ava de seu final (ver pág.95), mas a cortina Outras situações favoreciam essa tendência, em particular na Inglater-
de tempo ainda não tinha subido o suficiente para revelar, em detalhes, o ra e na França. Entre 1801 e 1831 levaram-se a cabo quatro censos na
períOdo seguinte, o de Quetelet45 e Farr~ 6 • Na verdade, o próprio nome Inglaterra. E, talvez ainda mais importante, estabeleceu-se, em 1831, o
"aritmética polític.i" estava sendo substituído por um novo termo, "esta- registro público da Estatística Vital. h1as mesmo antes da aprovação do
,________ tística", empregado, pela primeira vez, por Gottfried Achen'ivaU4 7, em Ato do Registro, suas conseqüências para o estudo estatístico de proble-
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A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 145
144 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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mas de saúde já eram evidentes para homens como Edvi'in Chadwick e Em cmtseqüência, começaram a aparecer inquéritos regionais, ou to-
'~'illiam Farr. Sob a direção desse último, o registro dos dados melhorou e pografias médicas. Na Europa Central, a elaboração dessas monografias
assim se criou um terreno firme para a análise estatística. se incluía entre os deveres dos médicos públicos. Nos estados germâni-
cos, o médico geralmente recebia a incumbência de visitar as cidades e
UMA GEOGRAFIA DASAÚDE E DA DOENÇA. 0 uso de inquéritos para aldeias de seu distrito, examinar as fontes de águas minerais e os locais de
o estudo de problemas de saúde comunitária é um importante instrumen- abastecimento de água, supervisionar boticários, cirurgiões, parteiras e
~o entre as armas da moderna Saúde Pública. Não ~' no entanto, uma funcion1.rio_,;; dos banhos, combater os charlatões e prestar assistência aos
movação recente mas antes o prOduto de uma. evolução de mais de dois necessitados. Vários médicos públicos recebiam instruções para preparar
mil anos. O interesse pela relaç?o entre fatores geográficos e saúde e relatórios sobre seus distritos, incluindo temas como condições de saúde,
doença recua_a Heródoto~ 9 e Hipó'crates. A despeito dessa longa tradição, dados meteorológicos e hidrográficos, plantas e modo de vida dos habi-
porém, só no século XVIII se chegou aos inquéritos sanitários. tantes. É notável o decreto editado, com essa finalidade, em Baden-
De início, esse processo teve mais presença na área de língua alemã da Durlach, em 7 de fevereiro de 1767. Assim, no finaLdo século ÀrVIII veio
Europa Central, manifestando-se, depois, na Inglaterra, na França, na a lume um número crescente de topografias médicas relativas aos vários
Itália, na Espanha e em outros países europeus, e no Novo Mundo. · distritos ou cidades alemãs. Essa linha ganhou aind'a mais impulso com as
Vários fatores influíam. Um era político. Ivluitos anos atrás, na Idade publicações, em 1779, do primeiro volume de J. P. Frank, e, enüe 1792 e
~1édia, inquéritos tinham servido a propósitos específicos. O Livro do Dia 1795, da primeira geografia médica, de L. L. Finke (1747-1728). O
do Juízo Fiua/? 0, por exemplo, apresentava uma revisão completa dos terceiro volume dessa última obra contém um manual para elaboração de
recursos do reino conquistado pelos normandos em 1066. Mais tarde, topografias médicas; os livros de Finl\e têm interesse por serem os pri-
outros soberanos realizaram inquéritos sobre os recursos e as rendas de meiros do gênero e ainda porque os cinqüenta anos seguintes veriam uma
seus domínios, como o fez um príncipe alemão, Guilherme IV, Land- impressionante produção nesse campo.
grave de Hessen-Cassel, que reinou de 1567 a 1592. O ponto de vista Ao final do século aumentou o número de livros e artigos sobre as
mercantilista reforçou essa tendência. Assim, em um memorando de doenças de regiões particulares. Em 1776, Lionel Chalmers, um clínico
setembro de 1678, preparado para o Duque Johann Friedrich, de Ha- de Charleston, publicou Um Relato sobre o Tempo e as Domças da Carolina
nô_ver, e intitulado "Idéias sobre Administração Estatal", Gottfried do Sul ; 1. Em 1792, William Currie apresentou um Relato Histórico sobre o
V'hlhelm von Leibniz (1646-1716) propunha a criação de uma "topogra- Clima e as Doe11ças dos Estados Unidos'' e Josepb Gallup, em 1815, publi-
fia política ou uma descrição das condições atuais do país". cou Esboços de Domças EjJidêmicas 110 Estado de Vr!rm01zt' 3 Outros exem-
A descrição devia incluir o número de cidades, maiores e menores, e de plos são Versuch eiuer medizi11ischen Top·ographie vá?z Berli1z5\ de Ludwig
aldeias, como também a população total e a área do país, em acres. Devia Formey, em 1796, as Observaciones sobre e/ Clima de Lima)' stt Influencia eu
constar ainda da enumeração de soldados, mercadores, artesãos e diaris- los Seres Organizados, en Especial e/ Hombnf;, de Hipólito Unanue, em
tas, de informações sobre a relação de cada ofício com os outros e de uma 1806, e a Topogrophie Afédicale de Paris;6, em 1822, por C. Lachaise. Não é
lista não só do número mas também das causas de mortes,' como na possível mencionar aqui todas as contribuições significativas; e1n geral os
Inglaterra. (Leibniz sofreu influência de Petty e Graunt, e o sinal da autores dessas monografias se detinham sobre; a geografia física e a
aritmética política em seu pensamento é muito claro.) história natural da região, sobre a alimentação, a moradia e os costumes
Tiveram forte influência também a obra hipocrática Ares, Águas e dos habitantes e sobre a relação entre esses fatores e a ocorrência de
Lugares, ainda uma fonte fundamental da teoria epidemiológica, e as doenças endêmicas, epidêmicas e esporádicas. Em 1830, por exemplo,
o?servações, reunidas por viajantes, sobre a ocorrência de doenças em um comitê da Sociedade Médica do Estado de Nova York apresentou um
~1fere1;tes partes do mundo. Com a expansão da Europa pelã.s Américas, plano para a realização de um "inquérito médico-topográfico do estado" e
Asia, Africa e Austrália, e com o aumento das viagens científicas e das assinalou que, sendo o objetivo principal da topografia médica o de
empresas coloniais, crescia a necessidade de informações sobre as condi- "apurar as influências do clima, do solo, das diferentes ocupações, e. das
ções de saúde nessas áreas. causas normais e físicas, na produção e na modificação das doenças",
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146 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA Dll!LUMJNISMO E REVOLUÇÃO 147
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deve-se dirigir a atenção para a idade, o sexo, a constituição, a ocupação e esse empreendimento podia alcançar êxito. Prim_eiro, porque a difusão do
a dieta dos mais sujeitos "a doenças endêmicas ou epidêmicas". conhecimento em saúde não se ocupava, e ainda não se podia ocupar, da
Essas monografias combinam estudos epidemiológicos, inquéritos sa- massa trabalhadora, na cidade e no campo. A análise do contexto social do
nitários e investigações sociais e abriram caminho para os inquéritos e Iluminismo o revela como um movimento de classe média. Em sua maior·
análises mais especializados, de meados e de fins do século XIX. Quanto parte, os advogados da educação em saúde se dirigiam às classes alta e
ao método, as obras de Villermé, Chadwick, Shattuck, Snow, Budd, média, não a camponeses e artesãos. O humanitarismo iluminista tendia,
Panum, Virchmv e Pettenkofer se originaram das topografias médicas do em geral, a subestimar fatores econômicos subjacentes. Em h1anchester,
século XVIII e do início do XIX. por exemplo, Ferriar aconselhava os pobres a "evitar viver en1 porõeS
úmidos", esquecendo-se de que a maioria dificilmente poderia permitir-
CONSELHOS AO POVO. O impulso didático do Iluminismo se consubs- se algo melhor. Atravessam o tecido intelectual do-Iluminismo fios utópi-
tanciou em um esforço para esclarecer o povo em matéria de sa(Jde e cos. A filosofia da História estava encharcada e dominada pela idéia de
higiene. Esse movimento de educação em saúde tinha amplitude inter- progresso, considerava-se a História da Humanidade uma ascensão inin-
nacional, e, embora se adaptasse a circunstâncias locais, suas caracterís- terrupta da barbárie à civilização. Assim, era in~eiramente aceitável e
ticas eram similares em todos os países- em toda parte o mesmo apelo à lógico considerar as idéias racionais do presen~e como realidades do
razão e a crença no progresso e na capacidade de aperfeiçoamento do futuro. Se ajuntarmos ao senso da inevitabilidade do progresso··a ·esperan-
homem. ça de salvação humana baseada em uma re,Tolução na moralidade social, e
Ilustrativo dos muitos livros e panfletos escritos para favorecer a educa- o desejo de persuadir os outros da necessidade e da racionalidade dessa
ção em saúde é Avis au Peup!e sur la Smzté 57, de S. A. Tissot- que se e- mudança, começare.mos a entender a grande ênfase em educação em
ditou em 1762, em seis anos teve dez edições francesas, e recebeu saúde e higiene; era como se simplesmente demonstrar a maneira de
traduções para várias línguas-, e Gesuudheitskatechismus, de B. C. Faust, mudar as condições viesse a se mostrar suficiente para melhorá-las. Esses ,
publicado em 1794, e já mencionado; o último vendeu cento e cinqüenta esforços iniciais, porém, ajudaram a preParar o caminho para as campa- ,i
mil exemplares e chegou a ser traduzido também para o letão. nhas de saúde de meados e do final do século XIX; de fato, na área de
No início do século XIX se .publicaram nos Estados Unidos vários Educação em Saúde não há, virtualmente, nenhuma ruptura de continui-:__,
periódicos relativos à educação em saúde, sendo o primeiro o Arquivo dade até o presente. -
Nédico e Agrário" de 1806, editado por Daniel Adams. Aconselhava sobre
higiene pessoal e sobre assuntos de agricultura e teve vida curta. Em UM PERFIL DE DOENÇAS. Richard Mead, clínico e higienista inglês,
1.830, um grupo de médicos publicou o Jomal de Saúde, que saiu de comentou, de modo incisivo, que "se a imundícieA uma grande fonte de
circulação depois de quatro anos, e, em sua maior parte, tratava de higiene infecção, a limpeza é a maior prevenção".·Esse é-o ponto de vista subja-
pessoal. cente à ênfase na melhoria do ambiente, e na educação para a higiene
Além dessas publicações, houve a edição de numerosos guias médicos pessoal e, afinal, na reforma sanitária. J'v1as, qual sua relevância diante dos
para o lar. Entre os mais populares esteve okledicina Doméstica ou o fi1édico maiores problemas de doença de período? Uma imagem das doenças
da Família 59 , de 'Nilliam Buchan, que apareceu primeiro em 1769 e durante a última parte; do século XVIII e o início do XIX nos ajuda a
passou por dezenove edições. Buchan era escocês, mas sua obra gozou de responder essa pergunta.
larga popularidade também nos Estados Unidos e mereceu, ainda, uma No século XVIII, a ameaça da peste ainda pesava sobre a Inglaterra,
tradução ao alemão. EmA Filosofia da Sazídrfi', Southwood Smith, um dos embora tivesse desaparecidO depois d~ temível visita de 1665. :r·v1as, se a
mais ativos reforn~adores sanitários ingleses, apresentou ao público leigo peste não passava de uma sombra, outros flagelos epidêmicos reclama-
noções do corpo humano e de suas funções, utilizando-se da fisiologia vam vítimas em intervalos periódicos. Na Grã-Bretanha, no continente, e
como base para uma série de regras de saúde. nas Américas, a varíola se revelou, ao longo do século h._'VIII e até o século
A despeito da seriedade da convicção, da devoção humanitária e do XIX, um perigo para saúde pública. Para os americanos, o castigo da febre
________ entusiasmo milenário desses apóstolos da saúde, só em pequeno grau amarela se mostrou igualmente sério durante esses séculos. A febre
148 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 149
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amarela atacava repetidamente nos portos principais, mas os piores desas- O impacto da doença se revela em várias afirmações e estimativas a
tres aconteceram no período seguinte à terrível epidemia da Filadélfia, de respeito de sua mortalidade e de seus efeitos sobre a população. Vlilliam
1793. Charleston, Baltimore, Nova York e Nova Orleans foram invadidas Douglas, em 1760, punha a varíola como uma das primeiras causas da alta
durante a década final do século XVIII, e Nova York, novamente, em mortalidade infantil na Europa. Pode-se avaliar sua importância pela
1805 e 1822. afirmação de Rosén von Rosenstein, em 1765; " ... a cada ano a vHríola
"Febre'' foi outro castigo notável. Sob essa designação se ajuntavam arrebata à vida a décima parte das crianças suecas". Em Berlim, de 1758 a
uma variedade de condições febris, em sua maioria casos de tifo exante- 1774, a enfermidade levou 6.705 vidas, das quais 5.876 de crianças de até
mático e de febre tifóide. Ao final do século XVIII, quando se iniciavam cinco anos. Os boletins de mortalidade de Londres indicam que a mC?.tade
melhorias públicas nas cidades e se elevavam as condições de vida dos de todas as mortes ocorria entre crianças menores de cinco anos. A luz
moradores privilegiados, declinava a incidência de febres, ainda presen- dessa situação, não se deveu ao acaso que un1a possibilidade prática de
tes, todavia, entre os pobres. E quando, ao final do século, o primeiro prevenir a varíola se tenha experimentado.
impacto do industrialismo começou a se manifestar na Inglaterra, e irrom- Na Inglaterra, em 1714, nasceu essa idéia. Desde séculos-já se sabia
peram epidemias entre os trabalhadores nas novas fábricas, as "febres" de que um ataque de varíola quase sempre conferia imunidaçie a infecções
novo ganharam evidência. Em 1783, abriram-se as primeiras alas espe- subseqüentes. Seguindo esse princípio, se tinha ·desenvolvido, e usado
ciais, para febre, na Enfermaria de Chester, e em 1796 se inaugurou um por muito tempo, em especial no Oriente, um procedin1ento de preven-
hospital de febres, em Manchester. De 1800 a 1815 houve alguma queda ção. Segundo esse método, inoculava-se matéria variólica,_ de um c~~o
na incidência das "febres'' mas depois o problema voltou a ficar agudo. benigno, em um indivíduo sadio, para provocar um caso bemgno, qu~ 1na
Quanto à natureza e à difusão das doenças, as opiniões continuavam a conferir proteção contra qualquer ataque sério no futuro. Emanuel Timo-
se sustentar mais ou menos nas linhas dos séculos anteriores. Invocavam- ni, um grego de Constantinopla, falecido em 1718, atraiu a atenção dos
se, como explicação, contágio direto, defeito da constituição corporal e médicos ingleses para essa prática. A seu relato se seguiram vários outros,
condições climáticas e terrestres. Pontos de vista contagionistas e não cuja importância os médicos reconheceram. Para o público, no entanto,
contagionistas se alternavam no favor do público. Nas primeiras décadas tudo não passava de "divertimentos de virtuoses".
do século XIX a última posição tinha conseguido a dominância. Assim, a A situação se manteve nesse ponto até 1721, quando Lady Mary
hipótese da presença de organismos animados na causação e na propaga- Wortley Montagu (1689-1762) estimulou a prática. Enquanto vivia em
...ção de doenças contagiosas recuou para segundo plano. E praticamente Constantinopla - seu marido era. o embaixadOr britânico - ela tinha
não teve nenhuma participação no movimento sanitário de meados do feito inocular seu filho pequeno, em março de 1718. Na primavera de
século. 1721, três anos depois de seu retorno do Levante, irrOmpeu na lngla~erra
uma grave epidemia de varíola. Lady Mary decidiu que sua filha de cmco
VARIOL!ZAÇÃO- O SEMELHANTE CURA O SEMELHANTE. Embora anos seria inoculada. A intervenção se realizou na presença de vários
a varíola, a febre amarela e as "febres" enchessem as pessoas de terror, médicos. Impressionados com o resultado, alguns, entre eles Sir Hans
em especial por se manifestarem dramaticamente, milhares de indiví- Sloane, passarat)). a defender a prática. O interesse popular se elevou
duos - em sua maioria crianças - estavam morrendo de escorbuto, quando a família real ficou vivamente interessada; em abril· de 1722, os
raquitismo, t_uberculose, coqueluche, escarlatina e difteria. Porém, as filhos dos reis receberam a inoculação.
primeiras· doenças ocupavam mais a atenção dos médicos, e de outras Com a realeza ditando a moda, a prática ganhou ímpeto. A despeito
pessoas interessadas pela saúde pública. E no enfrentamento da varíola a desse apoio influente, todavia, logo estava envolvida em uma violenta
l\1edicina Preventiva alcançou, em 1798, un1a de suas vitórias mais signi- controvérsia. Surgiram duas facções opostas, ouviram-se sermões a favor
ficativas e fecundas. e contra o novo procedimento, e uma amarga guerra de panfletos se
No início do século XVIII, a varíola era endêmica nas cidades da Grã- sucedeu. Embora a maioria da oposição fosse, em essência, irracional, a
Bretanha e do continente, e uma das principais causás de morte. Sempre alegação de que a inoculação podia espalhar a varíola estava certa. S?m~n­
ardendo endemicamente, de quando em quando se inflamava em surtos. do-se ao perigo da disseminação, havia também o fato de alguns mdtví-
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150 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
......................................................................................................................... A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO
..........................................~
151
............................................................................ .
duas i~wculados sofrerem ataques graves, alguns fatais. A despeito da Esses eventos desencadearam uma polêmica an1arga na região. l\1as, a
polêmtca, no entanto, a prática continuou. despeito da prolongada oposição, pouco a pouco a prática se impôs. E
Em 1743, recomendou a inoculação, ou variolização, James Kilpatrick, quando Boylston morreu, em 1776, ele já tinha visto a inoculação genera-
um médico de Charleston, na Carolina do Sul. Em parte por meio de sua lizar-se em Boston, e em outras colônias.
influência, e também por causa do aumento dos casos e da gravidade da Já en1 1722, os vereadores de Boston tinhmn insistido com Boylston
varíola, durante a última parte do século XVlli, a prática se afirmou, na para não inocular sen1licença e consentimento das autoridades. Por volta
América. de 1760, tinham sido tomadas salvaguardas para regulamentar as condi-
A variolização teve em Voltaire seu mais ardente defensor na França. ções sob as quais se devia inocular. Durante a Revolução6 z a prática se
Apesar de sua agitação, porém, só depois de 1750 a vacinação se genera- disseminou largamente e o general George \Nashington63 mandou ino-
lizou. cular o exército inteiro. Influenciou-o, sem dúvida, John l\1organ, mé-
Su~ difus-ão a outras partes da Europa seguiu um padrão cronológico dico-chefe dos exércitos americanos, autor, em 1776, de uma Recomen-
p~rec1do. Entre 1754 e 1756 o rei da Suécia a introduziu em seu país e na dação da Inoculação Segundo o Método do Barão Dr;nsdalrf">. Em vários
Dmamarca. Em Hanôver, por causa de suas estreitas relações com a pontos ergueram-se hospitais com esse propósito.
Inglaterra, o método penetrou cedo, sendo a primeira inoculação rerili- Sem dúvida a inoculação se mostrou valiosa para prevenir a varíola. Sua
zada em 1722. Todavia, nos outros Estados germânicos só vingou mais eficiência se revelou relativa nas colônias americanas, de população me-
tarde. Frederico II, da Prússia, providenciou, em 1755, seu ensino a nos densa e onde se podiam tomar precauções apropriadas contra a
quatorze médicos de província. difusão. Esse não era o caso, na Inglaterra; exceto para os ricos, que iam
Enq~anto a prática pouco a pouco conquistava a aceitação na Inglater- para hospitais de isolamento especiais, concordava-se quanto à dificulda-
ra, e aSSim se espalhava ao continente, nas colônias americanas se repre- de de se aplicar o método, em massa. Iv1édicos como J ohn Coakley
sentava, independentemente, um drama paralelo. Logo depois de desco- Lettsom (1744-1815) e John I-laygarth (1774-1827) propuseram medidas
berto o Novo J\1undo, a varíola o invadiu. A partir de então, apareceu em para fazer a inoculação chegar aos pobres. Em 1798, no entanto, Edward
ondas, de tempos em tempos, em uma ou mais localidades, mas numa Jenner publicou sua descoberta revolucionária, e a urgência de resolver
intensidade jamais comparável às da Grã-Bret;~hQa ou da Europa. Evoca- esses problemas desapareceu.
va, porém, um terror igualmente vívido. ·
A n~cessidade de se informar o público a respeitq da natureza da A VACINA E UM MÉDICO RURAL. Edward Jenrier (1749-1823) 65 era
enfermidade e dos meios de enfrentá-la levou à publica'N_o- em 1677- um médico rural inglês. Tinha estudado com John Hunter, o celebrado
1678- de Uma Regra Breve para Guiar o Povo Comum da No:va Inglaterra cirurgião, e depois voltado para sua cidade natal, Berkeley. Jenner desde
a se Ordenat~ e aos Seus, quanto à l1adota ou Saramj;o, de Thomas Tha- muito tempo se interessava pela relação entre vacina e varíola e, como
cher61. Como na Inglaterra, também na América se reconhecia a necessi- médico rural, praticava inoculações. Em sua prática, ele encontrou pa-
dade de uma prevenção efetiva. Assim, ao aparecerem os relatos de cientes nos quais a inoculação não vingava porque eles já haviam tomado
Tirnoni e de Olltros, a semente caiu em um solo receptivo. a vacina. Assim, Jenner teve a idéia de inocular um indivíduo com matéria
Dois homens, o Reverendo Cotton Mather (1662-1728) e o médico vacinal de urna pessoa que tivesse contraído a doença naturalmente, e de
Zabdiel Boylston (1680-1766), ambos de Boston, introduziram a prática. utilizar a matéria colhida desse indivíduo para inocular outros, e assim por
l\1ather tinha aprendido sobre a inoculação não só com as publicações diante.
inglesas, mas também com escravos trazidos da África. Em abril de 1721 Em 1796, a oportunidade de testar essa idéia se apresentou. Jenner
navios oriundos das Índias Ocidentais trouxeram a varíola a Boston. E inoculou um menino, ]ames Phipps, com matéria vacinal tirada da mão de
~1ather propôs aos médicos que a inoculassem. Só Boylston respondeu, Sarah Nelmes, un1a ordenhadora que tinha apanhado a doença de modo
maculando seu filho Thomas, de seis anos, e dois escravos, negros, un1 natural; passadas várias semanas, ele inoculou o menino com a varíola. A
homem e um menino. A experiência foi exitosa e Bovlston continuou-a. inoculação não resultou em nada, }ames Phipps estava imune!
1-------__ 1\t~--.â~em_~.r_Q_L_inoculou trinta e ci1~co pessoas, sen~ nenhuma morte. Jenner ofereceu suas observações à Sociedade Real, mas esta recusou-
~----
152 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO 153
························································································································ ........................................................................................................................
se a publicar seu artigo. Ele então publicou sua obra, em 1798, sob o da vacinação na conquista de doenças comunicáveis teria que aguardar a
modesto título, Uma 11'lvestigação sobre as Causas e os Efeitos da Vario/a obra de Pasteur, Koch e seus contemporâneos, na última parte do século
Vacina/, uma Doença Descobe1ta em Alguns Co11dados do Oeste da Inglaterra, XIX. E ainda continuavam sem solução inúmeros problen1as de saúde
em Pmticu!or Gloucester:shire, e Conhecida pelo !{ome de Vaci11af'6• comunitária, que, a partir de situações e necessidades criadas pelo desen-
Embora a recepção inicial à Investigação não se revelasse muito promis- volvimento industrial, pediriam atenção.
sora, não se a pôde negligenciar por muito tempo. Logo vieram confirma- Hoje, é lugar-comum_ não considerar a transformação na estrutura da
ções, de Henry Cline, um cirurgião de Londres, amigo de Jenner, e de indUstria, conhecida como Revolução Industrial, um evento único, situá-
George Pearson (1751-1828), um clínico do Hospital de São Tomás. velem duas ou três décadas. Sua essência residiu na mudança na produ-
Pearson viria a abrir o primeiro dispensário para vacinação pública. Rapi- ção industrial, conseguida graças à subordinação de rnáquinas à força não
damente se adotou a nova prática, e até 1801 ao menos cem mil pessoas humana e não animal. Embora essa mudança se .esteti.desse por um longo
tinham sido vacinadas, só na Inglaterra. tempo, na Inglaterra seu estágio crucial se deu entrb 1750 e·1830.
A difusão da vacinação por todo mundo se revelou espantosamente A introdução da máquina a vapor na indústria,- ·e·· o désenvolvimento
rápida. Em poucos anos a lnvestigo.ção de Jenner tinha recebido traduções resultante, criaram uma situação nova. Por volta dé J830, a Grã-Bfetanha
para as principais línguas européias. C. F. Stromeyer e G. F. Ballhorn se encontrava sob o domínio do ferro e do carvão;. a ~ndústria pesada _tinha
começaram, em 1799, a-vacinar em Hanôver e até 1801 tinham feito duas atingido um alto nível de atividade e uma nova classe sOCia( a dos
mil intervenções. Também em 1799, Benjamin Waterhouse (1754-1846), trabalhadores industriais, estava começando a se expreSs:ô!-r política e
primeiro professor de teoria e prática de Ciência Natural na Escola socialmente. Assim, quando à Era do Iluminismo se sucedeu a Era do
.Médica de Havard, recebeu uma cópia da obra de] enner. Impressionado Homem Econômico, um tropel de problemas se impôs à atenção pública.
com 6 novo método de vacinação, ele mandou vir material da Inglaterra e A Revolução Industrial encontrou a Inglaterra sem nenhum sistema
vacinou seus filhos, e vários serventes domésticos, sete pessoas ao todo. A efetivo de governo local. A organização das cidades não seguia qualquer
seguir, \Vaterhouse estendeu a prática a outras pessoas e em 1800 publi- propósito mais significativo de administração, e os distritos rurais não
cou um relato de seu trabalho, sob o título Uma Espera11ça de Extermi11ação estavam em situação melhor. Assim, enquanto a indústria florescia e ci-
da l1miola67• Thomas Jefferson68 apoiava 'Vaterhouse e contribuiu muito dades-de-cague pululavam, deterioravam-se a ·saúde e o bem-estar dos
para estabelecer a vacinação como um procedimento de Saúde Pública. trabalhadores. A discrepância entre essa realidade sOcial e· a filosofia do li-
Em Nova York, Valentine Seaman foi o primeiro advogado da nova beralismo econômico predominante trouxe à baila a urgência de erifren-
prática e organizou, em 1802, um Instituto para a Inoculação das Vaci- tar os problemas de saúde pública. _. . ·:
nas69, com o propósito de oferecer vacinação, de graça, aos pobres. O movin1ento de reforma sanitária do séculÓ ~lX, a partir do qual a
Embora a vacinação viesse a conseguir uma aceitação generalizada, o Saúde Pública se desenvolveu, começou na Ingl8..terra pofque tanto aRe-
processo não ocorreu sem oposição. Opunham-se corporações legalmente volução Industrial como seus efeitos nocivos pafa a saúde primeiro apare-
estabelecidas, como a dos inoculadores; outros oponentes apresentavam ceram naquele país. No entanto, onde o industrialismo se desenvolvia-
objeções científicas válidas, uns alegavam transmitir a vacinação outras na França, na Alemanha ou nos Estados Unidos- conseqüências simila-
doenças, outros, ainda, .levantavam objeções religiosas. Por fim, quando res pediam ren1édios similares. O custo humano da industrialização, em:-··r
de uma tentativa, na Inglaterra, para tornar a vacinação compulsória, termos de insalubridade· e morte ·prematura, se revelava grande. Os 1

levantou-se o argumento de que essa medida representaria uma violação, reformadores sanitários, organizando a comunidade para proteger a saúde
pelo Estado, da liberdade individual. A vacinação, contudo, abriu seu de seus membros, se empenhavam em reduzi-lo. Sua visãol entretanto, se
caminho. -orientava, por situações, idéias e métodos criados entre 1750 e 1830.

UM MUNDO DE CARVÃO E FERRO. A descoberta de Jenner ofereceu NOTAS DO TRADUTOR


um instrumento poderoso para o controle de um importante problema de 1 Napoleão Bana parte (1769-1821), lrder militar e conquistador francês. Como Napo-

saúde: varíola. Não obstante, uma apreciação mais completa do impacto leão I, Bonaparte foi imperador da França de 1804 a 1815.
!54 A SAÚDE EM UMA ERA DE ILUMINISMO E REVOLUÇÃO !55
UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
........................................... .-............................................................................
~O rmcieu dgime é o antigo regime, anterior à Revolução Francesa de 1789. 19 A 01topedin ou mte de prevmire de corrigit; uns criouçns, as deformidades do cotpo.
3 Sir Isaac Newton (1642-1727). Filósofo e m<ltemático inglês. Formulou a lei da ::o Trotndo de educnção cotpom/1/fl bnixn~idnde, ou t"ef/exõcs práticos sobre os meios de oferecer
gravidade, o teorema binomial e os elementos do cálculo diferencial. umn melhor constituirão aos âdadãos.
4
John Locke (1632-1704). Filósofo e ensaísta inglês, teórico da revolução liberal 21 Catecismo da Smíde.
inglesa. · 2~ James Lind (ver Figuras Memoráveis).
5
Denis Diderot (1713-84). Filósofo e crítico francês. Editor da E11cyclopédie. ::.; A guerra de independência grega durou de 1821 a 1829.
Jean Lerond d'Alembert (1717-83). Filósofo e matemático francês. Editor da 24 F. E. Foderé (ver Figuras Memoráveis).

E:11f:ydopédie. 25 T/ie Stalt' of t!te Priso11S.


François-Marie Arouet de Voltaire (1694-1778). Escritor e íilósofo francês, enciclo- 20 As guerras napoleônicas se estenderam de 1796 a 1815.
pedista, iluminista. 21 " ••• in most ofthe cities and large towns." Em inglês existe uma diferença entre city

Jean-Jacques Rousseau (1712-78). EscritOr suíço, de língua francesa. Enciclope- e tofJ!.'Il, palavras traduzidas em ponuguês por cidade. A towJI tem mais prédios que a
dista, iluminista. aldeia (vil/age), mas não alcança o tamanho da ciiJ'· --
6
A Revolução Francesa começou em 1789. ::a Jonathan Swift {1667-1745). Escritor de língua inglesa, nascido em Dublin, Irlanda.
7 Autor de As Viagens de Gulliver.
O Diretório era um conselho formado por cinco membros que, em seguida à
Convenção (Assembléia Francesa, de 1792 a 1795) governou a França de 1795 a 29 A partir de 1775 (guerra com as colônias americanas) e'alé 1815 (quando findou a

1799, quando Napoleão o derrubou. guerra de 1812, com os Estados Unidos) e passando pelas ..guerras napoleônicas (de
a O Consulado foi o governo de três cônsules, instituído pela constituição do ano VII 1796 a 1815) a Inglaterra se viu envolvida em várias frentes militar~.s.
da República Francesa. Governou de 1799 a 1804, quando Napoleão passou a ser 3° Vitória (181 9~1901) foi rainha da Grã-Bretanha de 1837 a 1901. O adjetivo vitotia11n

imperador. caracteriza os ideais e padrões de moralidade e gosto prevalecentes durante seu


9
Os ideólogos pretendiam elaborar uma ciência da origem das idéias, considerando-as reinado.
fenômenos naturais que exprimem a relação do corpo humano com o meio ambien- 31 Johann Peter Frank (ver Figuras Memoráveis).
te. Os ideólogos franceses eram antiteólogos, amimetafísicos e antimonárquicos e 3! O Palatinado era um Estado do Império Germânico, situado a oeste do rio Reno,

pertenciam ao partido liberal. De início, apoiaram Napoleão. Todavia, logo se administrado (1837-1945) pela Bavária e incorporado, em 1945, ao Palatinado do
decepcionaram e passaram a considerá-lo um restaurador do Antigo Regime. Em Reno.
1803 Napoleão dissolveu a academia dos ideólogos. 33 Cada um dos príncipes alemães que tinham, desde o século XIII, o direito de eleger
Pierre-Jean-Georges Cabanis (1757-1808). Filósofo e médico francês. 0
imperador (Modema E11ciclopédia Jl1elhommel!tos, São Paulo, Edições Melhoramen-
Pierre-Claude-François Oaunou (1761-1840). Estadista, teórico do liberalismo e tos, 1976). ·
historiador francês. Ordenado padre em 1787. Principal autor da constituição france- J4 Os Estados Gerais (États Gémfmux) formavam a assembléia dos representantes dos
sa de 1795. três Estados: a nobreza, o clero e o povo (camponeses; ..artesãos e burgu·eses), o
Conde Antoine-Louis-Claude Desrutt de Tracy (1754-1836). Filósofo, político e terceiro Estado.
soldado francês. Líder da escola filosófica dos ldeólogos. Criou, em 1801, o termo >5 A Assembléia Constituinte produziu e· proclamou, em Paris, em 1789, a primeira
idfologie. "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão".
10
Jeremy Bentham (1748-1832). Economista, jurista e filósofo inglês. O mais antigo e J6 O déjHtrteme111 é a divisão administrativa da França. .
o principal expoente do utilitarismo. 37 Robespieristas eram_ os partidários de Maximilien François Marie lsidore Robespiê-
11
Os Filósofos Radicais eram adeptos da filosofia utilitarista política de J eremy re (1758-1794), revolucionário francês, morto na guilhotina.
Bentham, cuja culminância é a domrina do filósofo inglês John Stuart Mill (1806-73). 38 O Termidor é 0 décimo primeiro mês do calendário republicano, instituído pela

Os filósofos radicais eram liberais em economia e política e, embora primariamente Convenção, na Revolução Francesa, em 1793 e novamente substituído pelo calendá-
teóricos, almejavam, e alcançaram, considerável influência prática. rio gregoriano em 1 de janeiro de 1806.
12 ,~lilliam Blake (1757-1827). Visi.onário, poeta, pensador profético. Nasceu e morreu O ano I da República iniciar-se-ia a 22 de setembro de 1792.
em Londres. J9 No aho de 1848 aconteceram várias revoltas republicanas contra monarquias euro-

ll Jorge III (1738-1820). Rei da Inglaterra de 1760 a 1820. péias, iniciadas na Sicília e se espalhando por França, Alemanha, Itália e império
14
Na-Bíblia, 1-loloque, ou rvioloch, era um deus dos amonitas e fenícios, ao qual se austríaco. Só na França as revoluções de 1848 tiveram algum êxito, com a instalação
ofereciam sacrifícios humanos. da Segunda República e a instituição do sufrágio universaL
15 Giu 's Lnm. ~o Dúcourse Co11ceming Pesti!eHtial Co1Jtagion and the J11et!tods Used to Preveni it.
16 41 Adam Smith (1723-90). Economista escocês.
Thomas Coram (ver Figuras Memoráveis).
17 An EssnJ' upon Nm:si11g a11d the il1tmngemeJJ! of Chi/dnm. 4~ Co11stitutioual Code.
18 Jonas Hanway (ver Figuras Memoráveis). u Frederico li (1712-86). Rei da Prússia, de 1740 a 1786. Conhecido como Frederico, o
~---~-----
156 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
............................................................................................................: .......... .

44
Grande. O mais representativo dos "déspotas esclarecidos", dos reis-filósofos. ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
Daniel ·Bernoulli (1700-82). Matemático suíço, sobrinho de Jakob Bernoulli.
4
;; Ado]fl)e Queteler (ver Figuras Memoráveis). • VI •
~" William Farr (ver Figuras Memoráveis).
47
Gottfried Achenwall (1719-92). Alemão. Considerado o fundador da ciência da O Industrialismo
Estatística.
48
Marie Jean Caritat, lVlarquês de Condorcet (1743-94). Matemático e filósofo francês. eo
~~ Heródoro (c. 484-c. 424 a.C.). Historiador grego, chamado de "Pai da História".
,;nO Domesda_1• Bool· ou Doomsdoy Bool.· (Livro do Dia do Juízo Final) continha o registro Movimento Sanitário
do inquérito estatístico da Inglaterra, realizado, de 1085 a 1086, por ordem de
Guilherme I (1027-1087), rei da Inglaterra de 1066 a 1087. (1830-1875)
51
Au Accormt o.f the Weathertmd Dúea.res ofSouth Cnrolinn.
52
Historical Accormt of t/u: Climate nud Disea.res ofthe U11ited States.
53
Sfetches of Epidemic Diseases i11 the State of Vm11otll. ··········································~·················
54
E11snio de tmM Topografia Médica de Berlim.
55
Observações sobre o clima de Lima e sua iufluêucin sobre os se-res orgnuizados, em especial o
homem.
36
Topografia médico de Ptnis. AS RODAS SATÂNICAS
57
Conselhos oo Povo sobre fl Saúde.
os The Afcdicnl n11d Agricu/IÚm! Register. " ... o pano negro se dobra pesadamente sobre cada nação;
59 obras cruéis de muitas rodas eu vejo, roda sem roda, com
Domcstic Mcdicine o-r the Family PhJ•siciau.
60
The PhilosophJ• of Hcalth. dentes tirânicos movendo, por compulsão, uns aos ou-
61
A Bricj Rufe to Cuide lhe Commou-Pcoplc of New Eugla11d how to Order Themse!ves aud tros ... " .
Theiriu the Smn/1-Pod:s or J11easlcs.
6
z A guerra revolucionária das colônias norte-americanas contra a Inglaterra ocupou os Com retórica lúgubre e amarga, o poeta Blake pintou as máquinas que,
anos de 1775a 1783.
inexoravelmente, começavam a mudar o mundo. Com compaixão·e poe-
63
George '\~lashington (1732-99). Patriota, soldado e estadista americano. Primeiro
presidente dos Estados Unidos (1789-97). sia, ele anteviu o crescimento da indústria e os males conseqüentes a uma
64
RecommeJ!datio11 ojh10culflliotl Accordi11g to Baro11 Dimsdale's J11ethod. sociedade mecânica. Sua visão penetrou no cerne do problema. Historica-
65
Edward Jenner (ver Figuras Memoráveis). mente, um dos fatores determinantes do desenvolvimento do mundo
66
A11 Iuqui1J• i11to lhe Causes a!f(/ Elfccts ofthe lTariolne T!ncciune, a Diseasc Discovered i11 Some moderno, e da organização e das ações da moderri::i Saúde Pública, foi a
oflhe Wcstet11 C01mties of Etlgltmr!, Patticulor~1' Gloucestn:shire, m1d K11oW11 b_v the Name of ascensão de uma economia industrial. A esse fenômeno, Jérôme Blanquil
lhe Cow Pox.
67
A Prospect of Extermi11ati11g t/ze Sma/1-Pox.
deu, em 1837, o nome de "Revolução Industrial"::-
68
Thomas Jefferson (1743-1826). Estadista americano. Esboçou a Declaração de Por mais significativa que a industrialização tenha sido no final do
Independência. Presidente dos Estados Unidos de 1801 a 1809. século XVIII, não passou, em contraste com o qÚe se seguiu no século
69
Institute for Inoculatiun ofthe Kine Pox. XIX, de mero começo: Países indusuializado:s, como Inglaterra, França e
Bélgica, introduziram inovações técniCas em velhas indústrias e as transfi-
guraram. Ao mesmo tempo, países menos industrializados, como os esta-
dos germânicos e os Estados Unidos, entraram nesse terreno, e na passa-
gem do século já disputavam a liderança com seus rivais 1nais antigos.
A expansão dos transportes e de novos meios. de comunicação seguia o
· passo da industrialização. Abriram-se sistemas de estradas e de canais na
maioria dos países. Na Inglaterra, esse processo já se tinha iniciado no fiin
do século XVIII, e por volta de 1830 existiam cerca de vinte mil milhas de
------------------------~'~-------------------------
,,

158 LIMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA 159


........................................................................................................................ O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO
············································-············································································
estrad:ls, ·e quase cinco mil milhas de vias fluviais. A França, em seguida à responsável pela manutenção de seus pobres e, conseqüentemente, ten-
queda de Napoleão, também se empenhou nesse sentido. Nos Estados tava reduzir esse fardo o máximo possível. Acreditava-se que isso seria
Unidos, esse foi, igualmente, um período de melhoramentos internos, a possível empregando-se essas pessoas.
grande era da construção de estradas e canais. Enquanto se construíam Essa visão se afinava com o desejo de estimular a prosperidade nacio-
esses sistemas, o "cavalo de ferro'\ a locomotiva, apareceu em cena para nal através da utilização dos desempregados nas manufaturas. Entre a
revolucionar os transportes. Como em muitos aspectos da industriali- Restauração3 e o fim do século XVIII, escreveram-se inúmeros livros e
zação, a Inglaterra mmou a dianteira e em 1850 tinha mais de seis mil panfletos e nasceram muitos projetos de criar centros de manufaturação,
milhas de vias férreas em operação. No continente, e nos Estados Uni- sob a forma de asilos de trabalhadores\ onde os pobres pudessen1 apren-
dos, a construção de estradas de ferro só se iniciou seriamente na década der a se sustentar. O primeiro asilo foi criado em Bristol, em 1696, e no
de 1830. Em meados do século, porém, os ameri~anos já dis~unham de início do século ::h.:rviii seu número cresceu de modo contínuo. E1nbora a
nove mil milhas de linhas férreas, cerca de três mil a mais que a Grã- crença entusiástica en1 sua eficácia para lidar com a pobreza jamais se
Bretanha. realizasse, muitos de seus planos e programas atraíram· a atenção para
Tamb~m a necessidade de instrumentos de precisão estimulou a in- problemas de saúde, em particular o da assistência médica. Deve-se
dústria. A proporção que se criavam e desenvolviam máquinas i11ais guardar na mente que a aprovação, no ano de 1662, do Ato de Assenta-
complexas, os engenheiros exigiam máquinas operatrizes mais eficientes mento e de Remoção 5 limitou severamente a mobilidade dos trabalha.,.
e trabalho humano cada vez mais preciso. Assim, o progresso na tecnolo- dores pobres.
gia, a melhoria dos transportes e o crescimento do mercado levaram à A despeito de várias ações, o problema da massa de trabalhadores
organização da Indústria sob o sistema de fábricas, com todas as suas pobres, como fundamental questão econômica e social, permaneceu sem
vantagens, e todos os seus males. solução. Na segunda década do século XIX, a pobreza e o infortúnio
Já existiam fábricas muito antes da Revolução Industrial; pode-se social se espalhavan1 mais do que nunca, acentuados pelas mudanças na
seguir a presença da organização fabril, na Europa, ao menos até o século agricultura e na indústria. Não obstante, a situação continuou imutável
À"\7III. No entanto, no século XIX a fábrica começou a crescer em até 1834, quando se aprovou o drástico e revolucionário Ato de Emenda à
número e se tornou a forma institucional característica da organização da Lei dos Pobres, sinal de abertura de um novo período de pensamento e
produção, passou a ser o centro de produção de máquinas, ferramentas e prática em relação ao bem-estar social e à saúde pública.
outros artigos de consumo; para a fábrica passaram a convergir os elemen-
tos ,da produção e da fábrica passou a sair o produto acabado. A MOBILIZAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO. As mudanças revolucio-
A proporção que o sistema industrial crescia, eram necessários mais e nárias nas estruturas e na política do governo, causadas pelo ato de 1834,
mais trabalhadores. E já que não se podia levar a força do vapor e as novas se enraizavam em considerações teóricas e práticas. O principal desafio da
máquinas para os lares dos trabalhadores - como aconteceu com os Inglaterra, durante o prin1eiro quartel do século XIX, esteve em organizar
meios de produção sob formas mais simples de organização industrial- e financiar a assistência ao pobre.- Quinze mil freguesias, muito variadas
tinha-se que trazer o trabalho para a fábrica, onde quer que se a localizas- em tamanho, população e recursos financeiros, administravam a assistên-
se. Assim surgiu a necessidade da organização comunitária para proteger a cia aos desvalidos. Cada uma, além do mais, tinha autonOinia. No interior
saúde, e se encontraram os meios de atendê-la. A moderna Saúde Pública desse sistema de autoridades locais, os gastos anuais para assistência aos
se originou na Inglaterra porque a Inglaterra foi o primeiro país industrial pobres subiam continuamente. De dois tnilhões de libras, em 1784, o
moderno. Para entender esse processo, nós nos devemos voltar para o custo escalou até oito milhões, em 1818 e, em 1832 ainda alcançou sete
principal problema social inglês no início do século XIX, a assistência aos milhões de libras, embora desde 1818 o preço do pão tivesse decrescido
pobres. um terço. Os novos industrialistas, ao mesmo tempo, se sentiam limitados
em seus movimentos pelas restrições "irracionais" de um sistema legado
A ANTIGA LEI DOS POBRES. A Lei dos Pobres isabelina2 pôs sobre a por um período pré-industrial. Via-se na mobilidade dos trabalhadores
,---------'f-'r_e.,.g_uesia o dever de assistir o indigente. Cada freguesia passava a ser uma condição essencial para a florescente civilização industrial. A força de
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160 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 161


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trabalho precisava estar disponível, em número adequado, nos locais mesn1os seus problemas e estimulá-los a sere~ previdentes, a se ajuda-
onde se fizesse mais necessária; conseqüentemente, os industrialistas rem.
reclamavam um mercado de trabalho aberto ao jogo livre da oferta e da
procura. Em grande medida essa situação já existia no norte da Inglaterra. A VISÃO DA ECONOMIA POLÍTICA. A segunda linha doutrinária se
No entanto, no sul, agrário, enquanto o movimento das cercas estava originava dos teóricos econômicos da nova ordem. Na era industrial, a
expulsando da terra a classe camponesa, vários obstáculos ainda impe- economia política se desenvolveu como a ciência das leis de funciona-
diam a consecução do objetivo desejado. A racionalização da agricultura mento do novo sistem_a econôm_ico. Segundo Adam Smith e os outros
desenraizou o trabalhador camponês e minou qualquer tradicional segu- econon1istas políticos, a motivação da atividade econômica residia na
rança social que pudesse ter. Ao mesmo tempo, como as leis do assenta- poderosa e invasiva força do interesse próprio; o poder da competição e o
mento o cingissem a sua freguesia, necessitava-se oferecer alguma assis- mecanismo de mercado guiavam essa motivação. Assim, livres, os interes-
tência ao trabalhador rural desempregado, ou subempregado. As várias ses dos diferentes indivíduos entrariam em harmonia e conduziriam a um
formas de assistência aos pobres ajudavam a manter un1a reserva de sistema de cooperação espontânea. Isso implicaria mais produtividade e
trabalhadores rurais e evitavam sua vinda para as cidades. Esses poços p1ais produtividade implica mais bem.,.estar. Aceitava-se em suma, o
estagnados de mão-de-obra, e o sistema que os produzia,' eram anátemas empreendimento privado, sen1 restrições, como fonte principal do pro-
para a nova classe média industrial e para os defensores de seus interesses gresso social. Nesse contexto, considerava-se a Lei dos Pobres um empe-
e ideais. Alegava-se ser o sistema de assistência aos pobres o maior cilho anti-social, a se remover para que se liberasse o imenso potencial da
obstáculo a uma oferta perfeitamente elástica de trabalhadores para a iniciativa individual. O máximo de auto-ajuda dos indivíduos faria mais _
indústria. Assim, propunha-se como remédio o fim da ajuda aos pobres para melhorar a condição do pobre do que qualquer assistência legal.
sadios, e a liberação dos trabalhadores para atender a seus próprios inte- Não obstante, esse não era um ideal de liberdade em um vácuo.
resses econômicos. Essa visão tinha fundas rafzes em posições teóricas Reconhecia-se que fins econômicos desejáveis e relações harmoniosas
definid~s; a saber, a doutrina da necessidade filosófica, a economia políti- entre indivíduos não viriam a se concretizar sem uma estrutura firme de
ca de Smith, Malthus 6, e Ricardo' e a filosofia de lei e administração de lei e de ordem. Em outras palavras, se simplesmente se deixasse as coisas
Bentham. seguirem seu curso, resultaria o caos, e não a atividade econômica ordena-
da. Havia consciência da necessidade de criar o ambiente Para -que
A DOUTRINA DA NECESSIDADE FILOSÓFICA. A essência do conceito competição e mercado pudessem funcionar bem; da necessidade de uma
de necessidade filosófica estava na fé na ordem natural da sociedade. mão invisível guiando os homens em sua ação econômica e social: a mão
Considerava-se o mundo do homem ordenado e regular como o universo do legislador e do administrador. Esse conceito se encontra no cerne da
newtoniano. Por conseguinte, qualquer esforço para intervir nos proces- filosofia administrativa e legal de Jeren1y Bentham. O problema estava
sos sociais seria contrário à natureza. Em relação aos pobres, Joseph em Imaginar meios de fazer os interesses privados coincidirem com o
Priestley deu a mais clara formulação dessa doutri~a. Em sua opinião, interesse público.
"deixados a si mesmos, os indivíduos são previdentes e a cada dia melho-
ram suas circunstâncias". A pobreza e a ociosidade devem ser governadas BENTHAM E OS FILÓSOFOS RAlJICA!S. Essas idéias encontraram
pela razão e pela necessidade, e não por qualquer ajuda legal aos pobres, expressão mais vigorosa, e prática, no grupo conhecido como os Filósofos
que serviria apenas como incitação à ociosidade. Se o governo se man- Radicais, cujo grande mestre-e profeta era Bentham. 'Eles compunham
tivesse neutro e permitisse à necessidade agir, o progresso material re- um pequeno conjunto de intelectuais dispostos a lidar com problemas
sultaria em diminuição da pobreza e em aumento da educação, e levaria públicos e usando uma base científica racional. Sua abordagem, inflexí-
ao aperfeiçoamento moral. Assim, qualquer tentativa de assistência atra- vel, de questões políticas, econômicas e sociais se misturava, curiosamen-
vés da Lei dos Pobres significava, em realidade, um obstáculo à auto- te, com um grau alto de ingenuidade. Eles contribuíram muito -para o
ajuda, um pecado contra a necessidade filosófica, e um imped.imento ;3.0 desenvolvimento das ciências socià.is de seu tempo, e, louvando-se em
_________cprogr~~so. D~~er-~~-ia, ao invés, c~mpelir os pobres a resolverem por si seus estudos, exigiram inúmeras reformas. Os projetos pelos quais esses
162 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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intelectuais labutavam tão vigorosamente incluíam a reforma parlamen-
tar, o comércio livre, a reforma da lei, o controle dos nascimentos e a
I O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO
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)''"'''"""'""''"''""'"''""'"''""'"'"'''''""'"""""''""
Os princípios de concessão da assistência eram restritivos. Nenhuma
pessoa fisicamente capaz, e, ou, sua família, receberia ajuda fora de asilos
reforma da educação. I\tlesmo sendo um grupo pequeno, e com pouco oficiais. Restringir-se-ia a assistência, aos pobres fisicamente capazes,
apelo emocional (alguns tinham a antipatia de seus contemporâneos), apenas aos mais miseráveis do que o trabalhador em pior situação fora do
conseguiram a aprovação de grande parte de seu programa. Direta ou asilo.
indiretamente, os filósofos radicais exerceram uma influência profunda Do lado administrativo, o empenho em assegurar centralização, unifor-
em seus Contemporâneos. E muitas das mudanças de longo alcance no midade e eficiência distinguia o Ato. Em lugar dos funcionários das
governo inglês, e também na legislação econômica e social, entre as freguesias, o Ato estabeleceu a existência de três comissários do governo,
décadas de 1820 e 1870, tiveram a natureza daquelas pelas quais eles e um secretário, pagos, que constituiriam uma comissão central da Lei
argumentaram e lutaram. dos Pobres. Esse corpo expediria ordens e regulamentações para orientar
funcionários locais na administração da Lei. A unidade administrativa
ENTRA O SR. CHADWICK. A oportunidade dos Filósofos Radicais veio seria a união das freguesias, e em cada união um Conselho de guardiães
em 1832. Uma das primeiras ações do parlamento reformado foi a de executaria a lei.
nomear uma Comissão Real para investigar a prática e a administração das É difícil superestimar o significado da Nova Lei dos Pobres como
Leis dos Pobres. Com a nomeação de Edwin Chadwick8, um ardente centro de mudança social. Se o primeiro objetivo db Ato era o de reduzir a
radical e discípulo favorito de Bentham, primeiro como assistente da proporção dos pobres, sua finalidade mais ampla estava em liberar o
comissão e, depois como chefe, as idéias benthamitas se voltaram para a mercado, como precondição para o investimento. A economia de merca-
investigação da Lei dos Pobres. Na mente de Chadwick, o benthamismo do se afirmava, e clamava pela transformação do trabalho humano em
e a política econômica clássica se fundiram para produzir uma filosofia mercadoria.
social pronta a ser levada à ação por circunstâncias propícias. Mesmo um Atingiu-se esse objetivo e não é exagero dizer que a lógica do sistema
e~~m~_.§_@çrJiç~ªL<iª-. his!Qria da Ingiaterr-~-~~-~-é~·uro· XIZCeviOencia que de mercado estabelecido pela reforma da Lei dos Pobres (de 1834)
Ql1~d_30jgk_ rl.ão se_ egjJJÍY.Ol.Wl..SJJM.Q[>Q.I\!JJlidades, COII(Q_Q jornal The Times determinou a história social do século XIX. Não por acidente, nas décadas
o comenta, com ironia, em 1854: seguintes os homens começaram a olhar para os problemas da vida comu-
"Futuros historiadores que desejarem saber o que era, no século XIX, nitária com uma nova ansiedade. Pois a instalação do mercado de trabalho
uma comissão, ou conselho, de trabalhadores ou parlame:ntar, um relató- introduziu, ao mesmo tempo, uma questão maior: con1o organizar a vida
rio, um secretário de Estado, ou quase outro membro qualquer do nosso em uma complexa sociedade industrial e urbana?
sistema, encontrarão o nome de Chadwick inextricavelmente misturado
com suas pesquisas. Se quiserem saber o que era, naqueles dias, um CRESCIMENTO URBANO E PROBLEMAS DA CIDADE. Um aspecto
emprego, nesse nome ubíquo ele encontrará uma chave para suas investi- capital dessa pergunta residia na organização da comunidade para pro-
gações. Se perguntar~ Quem fez isso? Quem escreveu aquilo? Quem teger sua saúde, pois o problema da sa(tde pública era inerente à nova
elaborou essa tabela ou aquela dieta? Quem autorizou aquela nomeação, civilização industrial.
ou ordenou a construção daquele canal de esgoto? a resposta será sempre O proces::;o criador da economia de mercado, da fábrica e do ambiente
a mesma- o Sr. Chadwick." urbano n1oderno, também trouxe à luz problemas que tornaram necessá-
rios novos meios de prevenção da doença e de proteção da saúde.
A NOVA LEI DOS POBRES. 0 relatório da Comissão, escrito por Chad- Significativamente, em l\1anchester, a primeira cidade industrial (ver
'\vick e seu amigo Nassau Senior, economista, apareceu no começo de pág. 131), esses problemas primeiro atraíram a atenção pública. Uma série
1834. O Ato de Emenda à Lei dos Pobres, tornado lei em 14 de agosto de febres epidêmicas tinha despertado na con1unidade a consciência de
de 1834, incorporou e efetivou os princípios do relat6rio. Pode-se dividir que fábricas e moradias congestionadas condicionavam o florescimento e
em duas partes as prescrições do Ato: as relativas aos princípios de ad- a difusão de doenças. Durante o inverno de 1795, a disseminação do tifo
m~nistração da assistência e as relativas à máquina administrativa criada. ,. exantemático, como vimos, tinha levado à formação de un1 Conselho de
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Saóde, voluntário. A despeito de multifárias atividades e recomendações, fábricas segundo suas necessidades e, à proporção que os trabalhadores e
porém, a oposição ao programa, e a negligência, tornaram ineficiente o suas famílias COIJ.fluíam para a área, empreiteiros ousados levantavam
Conselho. Ao mesmo tempo, enquanto o século XIX avançava, o cres- moradias em quãlquer pedaço de terra, desde que próximo dos locais de
cimento das condições insalubres em muito superou as tentativas de empregos em perspectiva. A construção das acomodações para os traba-
melhoria. lhadores resultou, portanto, inteiramente, de .um empreendimento co-
Por todo o país essa situação se manteve, em geral, inalterada. IVfais e mercial, a competir, pelo capital de investimento, com alternativas de
mais ingleses viviam em cidades e trabalhavam em fábricas. E, irradian- maior remuneração. Os construtores atendiam a demanda num nível
do-se esse novo tipo de vida, deterioravam-se as condições de saúde, prático e lucrativo, e não se preocupavam com a qualidade das casas, ou
ultrapassando-se em muito quaisquer esforços voluntários, fragmentá- com as necessidades dos que as habitavam. O Comitê Seleto, de 1840,
rios1 para enfrentar os novos desafios. Assim 1entre 1801 e 1841, a popula- assinalou que, a despeito da pesada carga financeira que impunha à
ção de Londres saltou de 958.000 para 1.948.000 habitantes, entre 1801 e comunidade, o número das moradias de nível inferior, construídas, fun-
1831 a de Leeds se expandiu de 53.000 para 123.000, e a de Huddersfield, dos com fundos, em áreas coügestionadas, aumentava constantemente,
de 15.000 para 34.000. A Tabela 2 apresenta o percentual da população da pela simples razão de darem lucro.
Inglaterra e do País de Gales vivendo em comunidades urbanas 1 de vários No que se refere à residência, não existia, aliás, para grande número de
tamanhos, entre 1801 e 1861. E indica o significado dessas mudanças para trabalhadores, nenhuma escolha. Durante o século XIX, repetidas vezes
todo o país. Esse rápido crescimento logo se refletiu ·em taxas ascenden- se evidenciou serem eles compelidos a viver em distritos urbanos super-
tes de morte; entre 1831 e 1844, a taxa de mortalidade (por mil habitan- povoados porque seus empregos eram, tantas vezes, de natureza casual,
tes) de Birmingham subiu de 14,6 para 27,2, a de Bristol, de 16,9 para 31, que eles tinham que estar no lugar certo, ou perderiam a oportunidade de
a de Liverpool, de 21 para 34,8; e a de Manchester, de 30,2 para 33,8. ganhar a ninharia necessária à subsistência.
Por fim, as mudanças sociais que acompanhavam o crescimento das
Tabela 2: Percentagmz da população, da Inglaterra e do País de Gales, em comunidades urbanas tendiam a acentuar, e a prolongar, a aglomeração, a
cotrzu1tidades urbanos congestão e a negligência nos distritos mais pobres. Quando a nova
população se apinhava em qualquer localidade, os moradores de salários
Ano Londres Outros centros urbanos Cidades com 20.000 mais altos se inclinavam a deixar a área para os recém-chegados; surgindo
com mais de 100.000 hab. a 100.000 1mb. a oportunidade, mudavam-se para outros distritos, com freqüência subur-
1801 9,73 0,00 7,21 banos e rurais. Os novos meios de transporte facilitavan1 esses moviinen-
1831 10,64 5,71 8,70 tos de população. Um pastor de Dundee, escrevendo em 1841, anotou
1861 13,97 11,02 13,22
que "as recém-abertas estradas de ferro oferecem novas facilidades de
O fator essencial por trás dessas cifras nuas era que o crescimento união dos negócios, na cidade, com a residência familiar, no campo, e
rápido da população urbana superava qualquer àumento na oferta de ameaçam converter Dundee, em poucos anos, em uma grande oficina,
moradias. As cidades explodindo subitamente, o problema passou a. ser com as famílias de seus trabalhadores completamente distanciadas da
juntar o máximo de pessoas possível1 o mais depressa possível, em qual- atenção, ou da simpatia1 das famílias da classe mais alta". Hoje, uma das
quer lugar, de qualquer maneira. Especialmente nos mais velhos distritos mais proeminentes tendências· na distribuição da população, em países
das cidades, construiu-se em cada metro de espaço, e densidades popula- como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, é o assentamento de pessoas
cionais excessivas se tornaram feições comuns das comunidades urbanas. nas franjas das grandes cidades e das áreas rurais adjacentes, com a criação
A interação de vários elementos facilitava, em verdade promovia, esse de subúrbios e "exúrbios". Essa é, no entanto, apenas a forma mais
desenvolvimento característico. Motivos financeiros exerceram uma in- recente de um processo iniciado cerca de cem anos atrás, e acelerado, em
fluência dominante sobre a rápida expansão das cidades; esse fato permi- llosso tempo, pela introdução do motor de combustão interna. A partir de
te um entendimento mais claro das causas dessa evolução. Virtualmente, 1840 e de 1850 surge uma cidade muito mais espalhada, e raras colônias
de passageiros- os que podian1 se dar ao luxo de se deslocar- começam
r-------~nã_Q_h_~yj-~_p_l'ªn~ja_m_~l1J_Q---'fi:Jgq_fl}_,__~I11-~YJ1ti.Q.Q__~Um. ~1all_Úfatg_!_~-~-~g,u,"'ia.,m""----
166 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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a se agrupar aqui e ali. Os menos afortunados continuavam a morar no década de J 840, com a rápida imigração de milhares de irlandeses fam.in~
interior da cidade, a maioria em bairros de cortiços miseráveis. Cortavam tos; os irlandeses afluíram através do porto de Liverpool e se amontoaram
esses distritos vielas estreitas, das quais nascia, por sua vez, um labirinto em porões e casebres de cidades fabris como Birmingham, Brístol, Leeds,
de pátios pequenos e mal ventilados. Em conseqüência, os trabalhadores :Manchester e outras.
se espremiarn em um denso labirinto de imóveis tão compactamente Pode-se imaginar a aglomeração. Manchester possuía 1.500 porões em
amontoados que quase não tinham espaço para chegar a suas portas. que, em uma cama, três pessoas dormiam; 738 em que dorn1iam quatro, e
Agravava ainda mais essas condições a crença de que os meios para 281 em que dormiam cinco! Em Bristol, havia 2.800 fan1ílias, das quais
atender ~s várias necessidades, físicas e sociais, dos habitantes, surgiriam quarenta e seis por cento dispunham apenas de um ar~osento. Em Liver-
de mane1ra quase automática. Tinha-se como certo que, ou os indivíduos pool, 40.000 pessoas viviam em porões e 60.000 nos abafados pátios
se organizariam para suprir suas carências, ou alguém - por motivos descritos. Devem-se confrontar essas cifras com a informação de que em
pecuniários, ou por princípio moral - se interessaria em atendê-las. A uma população de 223.054 pessoas - segundo. o censo de 1841 -
circunstância de que lojas e bares, em e~pecial os últimos, estivessem 160.000 pertenciam às classes trabalhadoras. Em suma, mais de setenta
ent~e as primeiras instalações públicas oferecidas, dá uma medida do por cento da população compunha-se de trabalhadores, dos quais mais de
realismo dessa suposição. sessenta por cento viviam apinhados em meio à sujeira, conviviam em
C?s bares preenchiam o vácuo criado pela ausência de qualquer outro condições insalubres. Londres estava em uma situação um pouco melhor
meiO de recreação e lazer. Até 1845, Manchester não possuiu um único do que as das mais novas comunidades manufatureiras, mas também
parque público, situação seme~hante a de outras cidades. Só no último tinha grandes cortiços onde as pessoas viviam sob as condições mais
terço do século o governo se empenhou em comprar terrenos e em d_egradantes. Não se deve pensar, porém, que essa .situação se limitava à
instalar parques públicos. Na maior _parte do século, muitas cidades se Grã-Bretanha. A partir dos anos de 1830 encontravam-se, na F rançá, na
1

c~rac:erizavan~ pelo número excessivo de bares. Em 1848, por exemplo, Bélgica, na Prússia e nos Estados Unidos- em verdade, onde quer que o
Brrmmgham tinha um botequim para cada 166 habitantes. novo sistema industrial se tivesse enraizado e desenvolvido- condições
Ao mesmo tempo,. havia pouco interesse em tomar medidas sanitárias igualmente lúgubres e brutais. Em todos esses países uma resposta
pois não se consideravam rendosas as despesas necessárias para usufrui; similar emergiu: a exigência de uma reforma sanitária.
esses benefícios. A raridade de esgotadouros e da remoção do lixo, e 0
descaso quanto aos pátios e ruelas em torno dos quais se construíam as MENOS DOENÇAS, MENOS IMPOSTOS! À proporção que novas comu-
casas, deu origem à prática de usá-los como lugar de depósito. Assim, nidade15, com seus bairros congestionados, cresciam, mais e mais pessoas
raramente um pátio não estava ocupado por uma fossa comuna!, ou por tomavam consciência de suas novas, poderosas e alarmantes característi-
um monturo. As casas nos bairros mais pobres não possuíam privada com cas. Na década de 1830, em parte em forma estatística - quando às
descarga d'água, muitas não tínham sequer privadas. Esse estado de informações do censo decenal, de 1801, se juntaram as do registro com-
c~isas 1~~0 se restringia aos lares das classes trabalhadoras, mas se agravava pulsório de nasciinentos, casamentos e mortes, iniciado em 1837 - o
ali. Na Pequena Irlanda'', em Manchester, havia duas privadas para 250 efeito das novas cidades sobre a saúde começou a se evidenciar.
pessoas e em um bairro da vizinha Ashton, duas privadas para cinqüenta Várias circunstâncias atraíram a atenção para as cidades. Graças a uma
famílias, exemplos encontrados também em outras comunidades. Ao série de epidemias em Manchester (veja pág. 131), já ao final do século
invés de privadas, com ou sem descarga, existia um "urinol'' 9 uma XVIII a saúde dos trabalhadores das fábricas passara a ser motivo de
espécie de tina, esvaziada a cada manhã. J\1esmo assim, a situação 'conti- preocupação. O Parlamento se 'Ocupou do assunto e, em 1802, a despeito
nuou temível. Em um distrito de :Manchester, trinta e três "urinóis" da oposição, Robert Peel, ele mesmo um dono de fábrica, conseguiu a
servi~m a sete mil pessoas] Na maioria dos casos, não havia como chegar aprovação do Ato da Saúde e da Moralidade dos Aprendizes 10 , com o
ao qumtal senão passando por dentro da casa, e assim todas as imundícies intuito de melhorar as condições de trabalho das crianças nos engenhos
eram carregadas através de quartos, corredores, entradas e outros pisos, de algodão. En1bora, em geral, ineficaz, esse ato estabeleceu o princípio
~-------que __ficavanl_.poluídos._E.sse_inf.e.rno_..cloacal_s_e__inten.sj_fi.ç_o:u, __duta_pte a de que o Estado tinha interesse pela saúde e pelo bem-estar dos trabalha."
"~--
168 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 169
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dores fabris. !\IJ:as só em 1830 o movimento pela reforma das fábricas- deduzi a convicção poderosa da importância superior do estudo (como
iniciado por Richard Oastler e IVIicbael S<;ldler, e continuado por Lorde
Ashley- começou a se fazer sentir. Seguindo um estudo de uma comis-
\ ciência) dos meios de prevenir a doença. Assim, eu era o mais habilitado
para perceber algumas das importantes relações entr~ os fa~os ex!Jfes:os
são - que tinha Ed·win Chadwick como membro - aprovou-se, em pelas estatísticas vitais apresentadas a mim em mmhas mvest1gaçoes
1833, o Ato das Yábricas, verdadeiro marco inicial da legislação fabril na públicas". Re.~~~hecendo ser o pauperism_o,_ em muit~s. caso~--.~ .~-~~:.se­
Grã-Bretanha. E importante notar que, no curso dessa campanha, a qüê~).ç_i<"! _de_ d~_en_ças pela~ .quais nãQ se podia responsabilizar o mdivi~uo,
atenção convergiu não só para os aspectos deletérios do trabalho fabril e ser a doença um importante fator de aumento do número dos _po?te~,
mas também para as deploráveis condições de vida dos trabalhadores. Em Châdwick concluiu ser econômico tomar medidas para prevenir a et~f~r­
1831, C. Turner Thackrah, um cirurgião de Leeds - em sua obra ~id"ade. Em uma carta para Soutlnvood Smith, por volta dé 1848, ele
pioneira Os Efeitos das A1tes, O/feios e Pr~fissões e dos Estados Civis e H dbitos • dç;Clinou_selJ pofl_to de vista co~ franquez;:t.~
de Vida sobre a Saúde e a Lo11gevidade11 -revelou as lamentáveis condições ''As medidas sanitárias", escreveu, "tiveram, estrita e exclusivamente,
de trabalho e de vida na cidade de Leeds, responsáveis por taxas de uma origem oficial .... surgiram como uma conseqüência·- embora
doenças e de morte mais altas do que as da zona rural vizinha. indireta, e talvez acidental - de medidas ordenadas pelo Governo, etn
A epidemia de cólera de 1831 e 1832 fortaleceu ainda mais o interesse 1832. A saber, a pesquisa sobre a administração da Lei dos Pobres; no
pela situação das cidades. Evidenciou-se que a doença procurava os curso de algmnas investigações para discriminar as causas do pauperismo,
distritos mais pobres, os locais onde mais se negligenciavam as medidas 0 excesso de enfermidades, e suas causas previsíveis, fora!? sugeridas
sanitárias, as áreas mais poluídas por excrementos e outras imundícies pelas circunstâncias, e indicadas como ')Jm dos tópicos a se examinar, e~
acumuladas. Além do mais, era também claro não se limitar a doença às meu relatório, apresentado ao Parlamento junto com outros .... depms,
classes mais baixas. A conclusão se revelava óbvia: mesmo não se sentip- sob a comissão Administrativa, em 1838, quando, em conseqüência de
do responsável pelo-Se~ __p.ró?CiD}.ó, qu~m valoii.Zã'':i sua i)fópria vid~ ct~se~ uma epidemia, se ouviu um alto volume de clamores, eu senti ser meu
java não ter doenças virulentas, e as condições que as favoreciam, muito dever chamar a atenção dos comissários para a natureza prevenível das
por perto. Sob essa luz, pode-se considerar a epidemia de cólera uma causas de uma grande proporção desses casos, e recomendei que mere-
bênção parcial, sob disfarce, pois dirigiu os olhares para a saúde, bem n-o cessem uma investigação especial...',. ·
momento em- que o problema se tornava agudo. O estímulo final veio com A "concepção sanitária" de Chad'i:vick, sua convicção, de que o estado
a Nova Lei dos Pobres, que concentrou a atenção nos problemas de saúde do ambiente físico e social afetava a saúde, para ó bem ou para o mal,
das comunidades urbanas. Imundície, doença, desamparo e exigências de reforçava essa visão. De fato, antes de se empreerider o estudo crucial das
redução no peso da assistência aos pobres são as raízes do movimento pela condições sanitárias da população, ele fez circular ~ma carta, com instru-
reforma sanitária. ções aos funcionários médicos, apontando a necessidade de se '"averiguar
A criação da Comissão da Lei dos Pobres, en1 1834, também trouxe à a existência e a extensão dos agentes, visíveis e removíveis, responsáveis
luz, involuntariamente, o instrumento que viria a ampliar a questão pela prevalência das doenças relacionadas a deficiências na situação e na
sanitária e a prover os meios para enfrentá-la. Nomeou-se Chadwick estrutura, na economia interna, ou nas residências, das classes trabalhado-
secretário da Comissão. E embora seus interesses e suas atividades de ras". Chadwick, além disso, viu que informações estatísticas acuradas
i~1ício, se voltassem para o fim limitado de reduzir as taxas de pobres,' ele poderiam ser muito importantes na prevenção de doenças. Ele tentou
tmha uma percepção muito mais profunda das causas do pauperismo. instalar uma Divisão de Estatística :l\!lédica no Escritório da Lei dos
Entre os membros da• Comissão Real de Estudo das Leis dos Pobres 1 ele Pobres e, quando da aprovação do Registro de Nascimentos e Mortes, em
~ • • .
era o umco a mvest1gar a saúde da população indigente. Ele possuía, 1836, imediatamente percebeu, e alistou, os usos a que se prestaria. Essa
ainda, um conceito de ação social preventiva que se podia aplicar aos lista ilustra bem como problemas de rendimentos, prevenção de doenças,
problemas de pobreza e doença. Por volta de 1824, Chadwick tinha causação ambiental e ação do governo se entrelaçavam, intimamente, no
conhecido Soutlnvood Smith e Neil Arnott, dois médicos, e amigos e pensamento de um líder da reforma sanitária. Segundo Chadwick pensa-
discípulos deBentham. "De Arno.tt e Smith", ele escreveu em 1844, "eu va, o Ato poderia permitir: "(a) O registro das causas de doença, com o
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intuito de se imaginar remédios ou meios de prevenção. (b) A determina~ Smith pertencia ao corpo clínico do Hospital de Febre~ de Londres.
ção da salubridade dos lugares em diferentes situações, tendo-se em vista Smith tinha sido, :?~inda, um membro da Comissão da Fábnca, de ~833, e
assentamentos individuais e estabelecimentos p(Iblicos. (c) A determina- continuaria desempenhando uma parte muito importante no movnnento
ção de graus comparativos de salubridade entre as ocupações, e entre as pela reforma sanitária. . "
ocupações em locais diferentes, para que as pessoas dispostas a se desin- Nem era coiúcidência que esses homens se mteressassem por fe-
cumbir de ocupações insalubres pudessem obter recursos adequados para bres", termo em que febre tifóide, tifo e febres recorrent_es ~e incl~íam.
compensar sua perda de saúdt::. (d) A coleção de dados para se calcular a Ao fim do século XVIII, as doenças desse grupo, então md1ferencia~o,
taxa de mortalidade e se oferecer segurança à massa imensa de proprieda- tinham, aparentemente, cessado. I'v1as durante o segundo e o tercet~o
de segurada, para permitir a cada um empregar seu dinheiro com as decênio do século XIX, houve surtos graves, primeiro na Irlanda, e depOis
maiores vantagens para si mesmo, ou para o benefício das pessoas que lhe na Escócia e na Inglaterra. Observou-se que a populaç-ão trabalha~ora não
são caras; e isso sem a impressão de perda para mais ninguém. (e) A apenas era atingida de forma mais séria mas que es~es surtos ocaswna;am
obtenção de meios para averiguar o progresso da população em diferentes uma perda econômica, negativa para toda a com~mdade: Para ur:n penado
períodos, e sob diferentes circunstâncias. (f) A orientação da mente das de sete anos, por exemplo, 12.895 pessoas unham sido pacientes do
pessoas quanto à extensão e aos efeitos de calamidades e acidêntes· Hospital de Febres de GlasgoVi'. Estimava-se, para cada um desses ~a­
quanto à prevenção de internações indevidas; quanto a assassinatos dissi~ cientes, uma perda média de seis semanas de emprego, q~e, a sete xehn.s
mulados e mortes por descuido ou negligência culposos". e seis peuce por semana, chegavam à quantia total de vmte e nove mil
No interior desse contexto, o documento fundamental da moderna libras. A isso se somava o custo dos cuidados médicos e de enfermagem,
Saúde Pública, o Relatório ou uma Investigação sobre as Condições Sat1itári.as de cerca de uma libra por paciente. Quando o paciente morria, havia a
da População Trabalhadora da Grã-Bretanha", veio à .Juz em 1842. pesada carga dos custos do funeral. Além do mais,_ vi~vas e órfãos co~
freqüência inchavam as fileiras de pobres aos quais unha-se de acudir. ·
AB CONDIÇÕES SANITÁRIAS DO POVO. Em 1838, a Comissão da Lei Esse reconhecimento dos custos econômicos e sociais das doenças evitá-
dos Pobres relatou a Lorde John Russell, secretário do Interior, que três veis forneceu o estímulo para a ação de melhorar a saúde pública. 1
inspetores médicos tinham sido empregados para examinar a situação e as Por razões econômicas e de humanidade 1 eram necessários esforços
causas das doenças evitáveis, em Londres. E que, em suas opiniões, no para lidar com o problema. Estávamos, afinal, na ~ra do Homem Eco~ô:
montante de despesas necessárias para adotar e manter medidas de mico. Ao discutir o impacto da doença sobre os trabalhadores, o Com1te
prevenção seria, no final das contas, menor que o custo das doenças ora Especial sobre a Saúde das Cidades declarou, em 1840: "as vantagens que
constantemente geradas". 0
país usufrui, graças a seu trabalho, din1inuirão tanto, e as despesas
Os três clínicos mencionados no relatório eram James Philips Kay improdutivas necessárias para manter e reprimir os trabalhadores_aume~­
(1804-1877), Neil Arnott (1788-1874) e Thomas Southwood Smith (1788- tarão tanto ... ". O comitê continuou, " ... ~gumas d~~~~S.----~~9-~~-~-~-s~o
1861). Sua colaboração com Chadvi1ick não era 1nera coincidência, todos urgentes, como clamores de humanidade e]u_s.ti~Çapaii grandes mult!d<?f??
os três se preocupavam com problemas de saúde em comunidades tuba- dê -nOssos-·i·rmao·s····e-como necessárias, não menos, para o b~m-estar dos
nas. E tinham estado entre os primeiros a avaliar sua magnitude e a pobres e para a' defesa da propriedade e para a segurança d_o. ric.a·:_.
revelar sua natureza ·a um público mais vasto. Em 1832, por ocasião da POdiam-se considerar a doença e a pobreza como parte do plano mescru-
primeira epidemia de cólera, Kay tinha publicado uma obra breve e tável do Todo-Poderoso. Mas quando estas feriam ou matavam o traba-
pioneira, A Condição !11oral e Ffsica das Classes Trabalhadoras de /J1anches- lhador e interferiam com a sagrada máquina industrial, tinha chegado o
ter13, na qual relatava os resultados de um inquérito realizado entre tempo de os homens se conscientizarem e agiren1. _
trabalhadores de fábrica. Em 1835, ele tinha sido nomeado Comissário Investigar esses assuntos e preparar un1 terreno firme para a _açao eram
Assistente da Lei dos Pobres. Arnott e Smith eram benthamitas, como os propósitos dos famosos inquéritos sanitários, públicos e pnvados, do
Chadwick (ver pág. 168) e tinham também sido ativos no estudo das século XIX. Já se conhecia o inquérito como instrumento para obter
condições de saúde. Ambos se interessavam por febres, e desde 1824 --~formay{j"_S,_ durante..."_Séc_ulo XVIII, e in~cio do){IX, em P_"rticular sob a - - - -
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forma de inquérito regional de saúde, ou topografia médica (veja pág. em um país subdesenvolvido se apóia muito, ainda hoje, nos princípios
145). E também com propósitos mais específicos, como nos estudos de estabelecidos por Chadwick mais de cem anos atrás.
Hmvard -de hospitais e prisões-, na investigação, de Percival, sobre a O relatório provou, acima de qualquer dúvida, estar a doença, em
febre entre operadores fabris, em l\1anchester, e no exame da Lei dos especial a doença comunicável, relacionada com a imundície do ambien-
Pobres. Além do mais, a França, como líder da Saúde Pública durante o te, por falta de escoamento, de abastecimento d'água e de meios para
início do século XIX, usou o método do inquérito em vários estudos remover refugos das casas e das ruas. O apego de Chad,:vick à teoria de
conhecidos na Inglaterra, de problemas de saúde. Em 1828, Pigeott~ que as febres epidêmicas se deviam a miasmas originários ct·e anin1ais e de
estudou a saúde de trabalhadores têxteis, em Troyes, e no mesmo ano, 0 matéria vegetal em decomposição concentrava ainda mais a atenção sobre
relatório de Villermé 14 mostrou a relação íntima entre as taxas de morbi- esses problemas. "As deficiências mais importantes," escreveu Chad-
dade e mortalidade e as condições de vida das diferentes classes sociais váck, "e que mais imediatamente podem cair sob controle legislativo e
em Paris. Dois ai?-_~~- antes el_e tinha publicado um estudo...s_al;Jre a mortali- administrativo, são, sobretudo, as externas às residê-ncias da população e
dade em cJiferentes regiões -de Paris, e assinal_açlq lJffiª __tçi~ç[~~~fit~id-a se originam, principalmente, da negligência da drenagem". Assim, por
entre pobreza e doenç.a.____ --- -- definição, o problema da saúde pública se reorientou e passou a ser
Chadwick e seus colaboradores usaram o inquérito para concentrar a considerado mais de Engenharia do que de I\1ediêina. Desde então, a
aten_ção sobre a necessidade de uma reforma sanitária e enfatizar a impor- imundície deixou de ser um assunto apenas partiCular, e se ergueu ao
tância de um estudo sistemático de problemas de saúde como fundamen- nível de um importante inimigo da saúde comunitária.
to da ação administrativa. Na visão de Chadwick, havia necessidade de um órgão administrativo
De início, os inquéritos empreendidos pela Comissão da Lei dos para empreender um programa preventivo, aplicando o conhecimento e
Pobr~s se limitaram a Londres. Em 1839, no entanto, o governo instruiu a as técnicas da Engenharia de uma maneira eficiente e consistente. No
Comissão a que examinasse a saúde da população trabalhadora em toda a Relatório ele afirmou sua opinião de maneira crua, sem lenitivos: "As
Inglaterra e no País de Gales; um pouco mais tarde a investigação se grandes medidas preventivas", escreveu, "drenagem, limpeza das ruas e
estend~u à Escócia. Nos três anos seguintes, reuniu-se um grande volu- das casas, através de suprimento d'água e de melhor sistema de esgotos e,
me de mformação na Grã-Bretanha. Os vários distritos da Lei dos Pobres em especial, a introdução de modos mais baratos e mais eficientes de
en:iaram r~latórios detalhados, que serviram de fundamento para o rela- retnover da cidade todos os refugos nocivos, são operações para as quais
t6no, publicado em 1842, sobre as condições sanitárias da população devemos buscar ajuda na ciência da Engenharia Civil e não no médico.
trabalhadora. O relatório final da pesquisa apareceu em três volumes, Este fez seu trabalho ao indicar que a doença resulta da negligência de
se~do o vol~me sinótico, com o sumário dos achados e os passos para a medidas administrativas apropriadas, e ao aliviar o sofrimento das víti-
açao remed1adora, de Chadwick. mas". É claro, no entanto, que Chadwick reconhecia a necessidade de
Esse documento não é obra de amador. Cheio de detalhes vívidos um médico para assinalar a posição, a natureza e o curso da infecção em
a~er~a das condições existentes, contém um esforço sério, distrito a uma determinada área. E, seguindo esse raciocínio, sugeriu, no Relatório,
d1stnto, para relacionar essas condições com variações nas taxas de mor- a non1eação de ''de. um funcionário médico distrital, independente da
talidade e com níveis econômicos. No relatório se expunha, ainda, com prática privada, e com a segurança de qualificações e responsabilidades
clareza dogmática, uma teoria epidemiológica ajustada a muitos dos fatos espec1a1s, para dar início às medidas sanitárias e reclamar a execução
conhecidos. Desse solo nasceram os princípios sobre os quais a reforrrli da lei".
sanitária e a ação comunitária em saúde, na Grã-Bretanha e nos Estados
Ut:i~os e, _em menor extensão, no continente, se sustentaram pelO~ A COMISSÃO DA SAÚDE DAS CIDADES. A conseqüência imediata do
proxnnos cmqüenta ou sessenta anos. Para os primeiros trabalhadores da relatório de Chadwick foi a criação, por Sir Robert Peel, em 1843, de uma
Saúde Pública, esses princípios se constituíam na lei e no evangelho do Comissão Real para Investigação da Situação das Cidades Grandes e dps
trabalho comunitário. Em sua maior parte, eles continuam tão válidos Distritos Populosos" 15• O relatód'o da Comissão representou, para a Saú-
_ _ _ _ _ _ _ _como quando foram enuncJados. Em verdade, todo programa de saúde de Pública, o mesmo que o relatório da Lei dos Pobres, de 1834, para a
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assistência pública. E coube a Chadv,rick, como antes, o papel principal e, em particular, com a população trabalhadora, crescia. As revelações das ;1
nessa obra. Ele rascunhou a maior parte do primeiro relatório da Comis- décadas de 1830 e 1840 levaram diferentes grupos a agir, e, através de
são da Saúde das Cidades, e as proposições administrativas e operacio- legislação limitada, alguns até receberam o reconhecimento oficial. Entre .
nais, no segundo relatório, também foram suas. A Comissão desnudou, esses grupos voluntários estavam a Associação :t\1etropolitana para a :t\1e-
para todos que desejassem ver, as apavorantes condições existentes. lhoria das Moradias das Classes lndustriosas 16 e a Sociedade para a Me-
l\1ostrava-se que superpopulação e congestão, pobreza, crime, insalubri- lhoria da Condição das Classes Trabalhadoras", fundadas, respectiva-
dade e mortalidade alta, em geral conviviam. mente, em 1R41 e 1844, e interessadas em oferecer melhores moradias
Por essa época, esses fatos não eram inteiramente novos. Em 1840, um aos pobres. Outro era a Associação para a Promoção da Limpeza entre os
Comitê Especial da Saí1de das Cidades tinha dirigido a primeira investi .. Pobres 1B; que instalou banheiros modelares no distrito leste de Londres.
gação geral, pública, do assunto, e lançado um relatório que repercutiu Havia ainda as organizações dedicadas à reforma sanitária, cujos objetivos
com a força da novidade. Em verdade, tinha sido um prelúdio ao relatório estavam em disseminar conhecimentos sobre condições urbanas e organi-
de Chadwick, e suas recomendações antecipavam as da Comissão. O zar a opinião pública para apoiar a ação legislativa etn favor da saúde
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Comitê Especial propunha a nomeação de corpos de saúde permanentes pública. A mais significativa· era a Associação da Saúde das Cidades ,
em todas as comunidades urbanas acima de um certo tamanho, a nomea- fundada em 1844 por Southwood Smith, com Chadwick pairando ao
ção, em cidades grandes, de um inspetor- para impor o cumprimento fundo. Graças a membros como Lorde Ashley (mais tarde Conde de
das regras sanitárias-, a aprovação de um ato de sistema de esgotos em Shaftesbury), Robert A. Slaney- em larga medida o responsável pelo
geral e de um ato para regular todas as construções futuras. Sugeria, ainda, Comitê Especial de 1840 - o Marquês de Normanby, e outros, esse
uma atenção especial à necessidade de um abastecimento de água amplo, grupo exercia uma influência especial.
à inspeção e à regulamentação das hospedarias comuns, ao problema dos Os grupos usavam, e desenvolviam, a abordagem e os métodos intro-
cemitérios congestionados em áreas populosas e ao de recursos públicos duzidos pelos reformadores do século XVIII (veja pág. 121). Ern Stl~
para o banho dos pobres. atuação se incluíam o e_sclaçeciJ11~1}.!9-~-ª..foçnlação da-opinião públi~!E_ ~
Depois de uma investigação exaustiva, a Comissão Real apresentou empenilo- para a-tf~ir a atenção d!J _governo e assim chegar à -legislação
dois relatórios ao parlamento- o primeiro em 27 de junho de 1844 e o remediadora. Ao lon~o do século XIX, os sanitaristas uSar-:_gJ:..~$..~-~ . a.Eõ'ida-
segundo em 3 de fevereiro de 1845- com recomendações a se incluírem gem, ail)da hõje-··pãrt~ integral A~--ª_ç~()__Comuni!ária em s~úde. ESses
em uma nova legislação. Teve muita importância a proposta de conferir esforços representam, em essência,~ os primeiros ·r~pos de· educação em
ao governo nacional o poder de investigar e supervisionar a execução de saúde e organização comunitárias. E· importante 'assinalar que esses as-
todas as medidas gerais para regulamentar a situação sanitária de comuni- pectos da prática corrente da Saúde Pública se origiparam nos primórdios
dades urbanas maiores. Essa proposta implicava a aceitação, pelo governo do movimento pela reforma sanitária.
central, de sua responsabilidade pela saúde pública, e na criação de um Em 1846, Lorde Lincoln tinha enviado à Câmara dos Comuns um
novo departamento governamental. A Comissão propôs, ainda, que em projeto de lei para melhorar as condições sanitárias das comunidades
cada localidade as providências necessárias para drenagem, pavimenta- urbanas. Mas, em virtude da renúncia do primeiro-ministro e das críticas
ção, limpeza e amplo suprimento de água coubessem a um único órgão das Associações da Saúde das Cidades, a votação do projeto tinha sido
administrativo. Recomendava-se também uma nova legislação regulado- adiada. Um ano depois, o Visconde hiforpeth, louvando-se nas recomen-
ra das larguras de edificações e ruas. dações da Comissão da Saí1de das Cidades, enviou novo projeto. De novo
En1bora as revelações da Comissão tivessem alarmado o público, o nada se realizou, em virtude da oposição daqueles cujos interesses pe-
governo não agiu rapidamente para melhorar as condições. A legislação cuniários podiam ser afetados, e também de falhas da proposta. Enquan-
necessária à execução das recomendações da Comissão se atrasou, em to isso, a pressão das circunstâncias estava obrigando o governo a ceder e
parte por razões políticas imediatas, e em parte porque a necessidade de a aprovar algumas medidas legislativas 1nais limitadas. Nessa época, o
manter a propriedade inviolada impunha limites à extensão da reforma. cartismo20 agitava a Inglaterra, e o espectro de um levante proletário
Enquanto isso, por toda a nação a preocupação com a saúde das cidades lançava un1a sombra ominosa sobre a mentalidade da classe média, assim
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agindo como argumento persuasivo em favor de algum grau de reforma. pela ausência de uma repartição central, a qual se pudessem dirigir em
Então, effi 1846, Liverpool, cujas condições sanitárias se mostravam busca de orientação e auxílio. A criação do Conselho Geral de Saúde
muito ruins, viu-se confrontada por um influxo de hordas de irlandeses resolveu essa carência.
famintos e doentes. Compelida pela emergência a procurar poderes maio- Como o Ato da Saúde Pl1blica tinha poderes por cinco anos, o Conselho
res, a municipalidade conseguiu fazer com que o Parlamento aprovasse o estava limitado a um mandato experimental, com essa duração. Em vista
Ato Sanitário de Liverpool, a primeira medida sanitária abrangente a ser da orientação benthamita de Chadwick, e de sua experiência com a
votada na Inglaterra. Esse Ato deu ao Conselho da cidade o poder de Comissão da Lei dos Pobres, esta serviu de modelo para a criação, em
nomear um h1édico da Saúde Pública, um Engenheiro J'v1unicipâ.l e um 1848, do Conselho. Infelizmente, tanto na estrutura quanto no pessoal, o
Inspetor de Incômodos. Outras medidas legislativas relacionadas com a Conselho de Saúde ficou parecido demais com a Comissão, que, desacre-
melhoria urbana então aprovadas foram o Ato da Remoção de Incômodos ditada, tinha sido substituída um ano antes, e, em conseqüência, atraiu
e de Prevenção de Doenças 21 , de 1846, o Ato dos Banhos e Lavanderias 22, para si a hostilidade acumulada em volta da Lei dos Pobres.
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do mesmo ano, e o Ato das Cláusulas de Melhoria das Cidades 23, de 1847. Tinha-se chegado à votação final do Ato de Saúde Pública através dos ;.j·'···''
Essas medidas compõem um prelúdio ao Ato da Saúde Pública, de 1848. métodos usuais do compromisso político. O Parlamento, assim, o aprovou ,, ..
Ao mesmo tempo, Southwood Smith e sua Associação da Saúde das sob uma forma emasculada. Em sua maior parte, o ato era permissivo e
Cidades promoviam uma campanha educacional estrênua para levar uma não se estendia a Londres. O Conselho Geral de Saúde tinha poderes
opinião pública a exercer pressão sobre o governo. Imbuído de zelo para estabelecer conselhos locais de saúde- atendendo a uma petição de
ardoroso pela reforma social, e do desejo de fazer, Smith se dirigiu não menos de dez por cento dos pagadores de impostos, ou, compulsoria-
diretamente ao povo inglês para exigir ação. Em seu panfleto Comunica- mente, quando a taxa média de mortalidade, em uma área, em um
ção às Classes Trabalhadoras do Reino Unido sobre seu Dever quanto ao Estado período de sete anos, ultrapassasse 23 por 1.000. Concedia-se autoridade
Atual da Questão Sanitána 24 (1847), declarou que "para cada uma das vidas aos conselhos locais para cuidar do abastecimento de água, do sistema de
das quinze mil pessoas que pereceram nos últimos vinte e cinco anos, e esgotos, do controle dos comércios ofensivos, da provisão e da regulamen-
que poderiam ter sido salvas .... são responsáveis aqueles cuja função é a tação de cemitérios, e de alguns outros assuntos. Para desempenhar essas
de intervir e se empenhar para conter a calamidade- aqueles que têrh o funções, cada departamento podia designar um oficial de saúde, que
poder de salvar mas não Ousam. l\1as a apatia deles é uma razão adicional devia ser um médico legalmente qualificado, e também um inspetor de
para que vocês se levantem- que uma· voz venha de suas ruas, vielas, incômodos, um agrimensor, um tesoureiro e um escriturário. O Depar-
becos .... Isso alarmará o ouvido do público e atrairá a atenção da legis- tamento Central tinha, ainda, alguns poderes gerais para promover inqué-
latura"_ ritos e investigações sobre as condições sanitárias de distritOs deter-
Esse apelo de Smith foi um dos fatores que influenciou o governo a minados.
levar adiante o projeto de Lorde tv1orpeth. Também Oimpulsionou um
outro propagandista, tão ou mais poderoso: a epidemia de cólera de 1848. SAI O SR. CHADW1CK. A criação do Conselho Geral de Saúde é um
À proporção que o ano avançava, a preocupação com a saúde pública grande marco na história da Saúde Pública. A despeito de sua breve
aumentava; pelo verão, o cólera se aproximava lentamente de Londres, existência e de suas insuficiências, o Conselho realizou muito. Chadwick,
em junho devastava tv1oscou, e em setembro tinha alcançado Paris e Shaftesbury e Southwood Smith foram nomeados e tentaram resolver,
Hamburgo. Na história da Saúde Pública, as epidemias ocupam um lugar com vigor e zelo, diffceis problemas. O relatório de suas atividades, de
de relevo entre as situações precipitantes de ações no interesse da saúde 1848 a 1854, é um testemunho da energia, da determinação e da inteli-
comunitária. A Inglaterra não fugiu à regra; no último dia de agosto o Ato gência com os quais trabalharam.
da Saúde Pública recebeu o assentimento real. Podem-se mencionar várias realizações do Conselho. Em 1851, o Parla-
mento aprovou os primeiros atos das Casas de Alojamento das Classes
O CONSELHO GERAL DE SAÚDE. Os esforços anteriores das autorida- Trabalhadoras25 e o Ato das Casas de Alojainento Comum 26 , apresentados
des locais para melhorar as condições sanitárias tinham sido impedidos por Shaftesbury. Como resultado do trabalho missionário do Conselho,
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instalaram-se em numerosas comunidades sistemas de esgotos e de abas- companhias de água, porque nós as desnudamos, e criamos um método
tecimento de água. Mais significativa que tudo, talvez, foi a criação da de abastecimento que as substituiu completamente; os Comissários dos
função de Médico de Saúde Pública. Em 1848, a cidade de Londres- Esgotos, pois nossos planos e princípios eram o reverso dos seus; eles nos
seguindo o exemplo de Liverpool ao nomear W. H. Duncan (1805-1863) odiavam com ódio puro."
-designou John Simon (1816-1904). E durante os trinta anos seguintes, Uma idéia do ponto de vista e da têmpera da oposição se evidencia no
uma série de municipalidades maiores, seguindo as disposições do Ato da comentário do The Times, que inicialmente tinha apoiado o Ato da Saí1de
Saíide P1'1blica- de 1848-- indicou médicos para essas posições; Leeds, Pública e agora liderava a condenação do Conselho. "Esculápio e Quí-
em 1.866; 1\.fanchester, em 1868; Birmingham, em 1872; Newcastle, en1 ron"28, publicou, "nas figuras de I'vfr. Chadwick e do Dr. Southwood
1873. Entre esses homens encontravam-se alguns líderes da Saúde P(Ibli- Smith, foram depostos e nós preferimos nos arriscar ao cólera, e ao resto, a
ca da última parte do século XIX, como John Simon27 . nos impingirem a saúde".
Desde o início, as atividades do Conselho de Saúde encontraram a O desaparecimento do Primeiro Conselho de Saúde relegou Chadwick
resistência de interesses estabelecidos. l\1esmo as propostas mais ele- ao segundo plano. Com apenas cinqüenta e quatro anos, ele se viu
mentares, como a de melhoria da drenagem e do abastecimento de água, constrangido a abrir mão de sua carreira na administração pública. Embo-
recebiam oposição, em nome das sagradas propriedade e liberdade. Hou- ra no curso de sua longa vida tenha podido assistir a realização de muitas
ve esforço em se ganhar apoio para as atividades do Conselho, Chadvirick de suas idéias, não participou mais, de maneira ativa, do processo.
emitiu instruções à equipe do campo sobre o modo de conquistar amigos I
e influenciar pessoas nas comunidades locais. Com o passar do tempo, "QUE ESTRANHAS AS VIAS DO PARADOXO!". Não temos a intenção
porém, o Conselho ficou mais e mais impopular. Pisaram-se em muitos de continuar a examinar, em detalhes, a evolução da Saúde Pública,
calos e a oposição de indivíduos e grupos contrariados se tornou crescen- embora venhamos, mais tarde, a considerar alguns de seus eventos mais
temente mais vigorosa. A forte tendência centralizadora do Conselho, em significativos. O importante é sabermos que as mudanças iniciadas nos
grande parte devida à influênci2: de Chadwick, jogou álcool na fogueira. decênios de 1830 e de 1840 se acentuaram, e foram levadas adiante,
Em uma época enl que ainda se defendia, por toda parte, o governo local, depois de 1848. Ao mesmo tempo, vieram para primeiro plano novas
com suas múltiplas autoridades, qualquer tentativa de diminuir a liberda- coi:-rentes de pensamento e de prática, algumas latentes, outras em res-
de local estava condenada a despertar antagonismo. posta a novos problemas. As duas tendências, a do laissez-jaire e a do
- 1--·Em 1854, a onda de críticas subiu tanto que o Parlamento, apesar dos controle- presentes no pensamento de Bentham e aplicadas por Chad-
esforços dos comissários, se recusou a renovar o Ato da Saúde Pública. wick à assistência pública e à Saúde Pública- persistiram ao longo do
Assim, o primeiro Conselho Nacional de Saúde chegou ao fim. Shaftes- século, na teoria e na prática. I'vfas sua ênfase e sua importância relativas
bury descreveu, de modo claro, a natureza da oposição e as razões da se inclinaram, cada vez mais, para o lado do controle social.
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derrota. "Os agentes parlamentares são nossos inimigos jurados", ele "Que estranhas as vias do paradoxal", comentou Si r 'Villiam Gilbert •
escreveu, "porque nós reduzimos despesas, e, conseqüentemente, seus A processo algum esse comentário é mais pertinente do que ao desenvol-
honorários, a limites razoáveis; também os engenheiros civis, porque nós vimento da ação sobre a saúde pública. Esse paradoxo tem duas faces,
selecionamos homens capazes, que puseram em prática novos princípios, urna, médica, a outra, social e política.
e por um salário menor, o Colégio de I\1édicos, e todos os seus dependen- A primeira diz respeito ao papel da Medicina na melhoria da saúde
tes, por causa de nossa ação independente e de nosso sucesso singular ao pública. Uma análise objetiva do início da reforma sanitária na Inglaterra,
lidar com o cólera, quando sustentamos, e provamos, que muitos médicos em meados do século XIX, leva à conclusão de que a Medicina desempe-
aa Lei dos Pobres sabiam mais que todos os vistosos e elegantes doutores nhou um papel secundário nesse processo. Não veio da profissão médica
de Londres; todos os conselhos de Administradores, porque expusemos o impulso P.ara a reforma sanitária, embora alguns médicos tivessem sido
seu egoísmo, sua crueldade, sua relutância em atender e aliviar o sofri- importantes ao chamar a atenção para os problemas comunitários de
mento ~o pobre nos dias das epidemias; também no Tesouro (onde os insalubridade. Ademais, o conhecimento médico pouco podia contribuir,
subalternos odiavam Chadwick, com um rancor antigo, retribuído); as realmente, para a solução do grande problema da propagação das doenças
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transmissíveis (ver pág. 222). Os contagionistas combatiam os anticonta- por esgotamento imperfeito ou alimento estragado, eran1 um problema
gionistas, mas essa amarga controvérsia pouco influía sobre a legislação e da- 'COTilUnidade inteira. Crescia, também, a consciência de que seu·s
a administração da Saúde Pública. Em verdade, é digno de nota que o custos representavam uma forma de desperdício social eliminável. "A
programa dos reformadores sanitários se assentasse, em muito, sobre uma iiegli·gêiicia sanitária", d6'Clarou John Simon, em 1858, "é uma falsa
estrutura de teorias erradas, e que se chegasse a soluções certas pelas }JarClinônia. A febre e o cólera são artigoS caros, e se devem às residêndas
razões erradas, na maioria das vezes. Em termos gerais, os fundadores da imu_ndas e à água tirada da vala, que não custam nada; a viuvez e a or-
moderna Saúde; Ptiblica, aceitando certos postulados de política econômi- fandade tornam dispendioso sancionar a existência de locais de trabalho
ca e social, estabeleceram formas institucionais que serviriam para suple- mal ventilados e ocupações desnecessariamente fatais. A força física de
mentar, mais tarde, um conhecimento médico mais acurado e efetivo, uma nação está entre os principais fatores de sua prosperidade".
como a supervisão de serviços locais por uma autoridade central, e ·a Ninguém fez mais para incutir essa lição em seus conterrâneos do que
criação da função de médico de Saúde Pública. William Farr (1807-1883), nomeado, em 1838, compilador de sumários,
A análise dessas instituições conduz diretamente ao âmago do parado- no Escritório do Registrador Geral. Seus relatórios estatísticos forneceram
xo político e social. É um fenômeno notável, na História moderna, que a a munição usada nas campanhas, de meados, fins do século XIX, contra a
introdução da liberdade econôtnica, longe de dispensar a necessidade de doença, na casa, na fábrica e na comunidade como um todo. Uma carta, -r-
;"-' ·r
intervenção, controle e regulação do governo, tenha levado, finalmente, a escrita por Joseph Chamberlain no início dos anos de 1880, mostra que, 1~
um aumento enorme nas funções administrativas do Estado. As décadas afinal, se aprendeu a lição. Descrevendo a melhoria da saúde em Bir- -'1;.-
de 1830 e de 1840 assistiram a um furor de atividade legislativa para abolir mingham, ele escreveu: " ... Quais são os fatos? Uma economia de sete por
regulações restritivas e obrigações sociais anteriore;s à Revolução Indus- milhar na taxa de mortalidade- 2.800 vidas por ano, na cidade. E como
trial. Mas, mesmo quando se rejeitavam certas formas de controle social, para cada pessoa que morre existen1 cinco adoentadas, deve haver uma
outras já as substituíam. diminuição de 14.000 casos de enfermidades, com todas as suas perdas de
Com a Revolução Industrial ainda na infância, Robert Owen30 tinha dinheiro, dor e tristeza".
antevisto a necessidade de ação do Estado para frear algumas das conse- Ao _mesmo tempo, enquanto a organização do mercado de trabalho,
qüências da liberdade econômica. "A difusão geral de manufaturas em um permitida pela nova lei dos Pobres, se manteve relativamente intacta, a
país", ele escreveu em 1851, "gera um novo caráter em seus habitantes; e legislação protecionista aperfeiçoou as condições de trabalho ~m mi~as e
como esse caráter se molda fundando-se um princípio mu~to desfavorável fábricas e mitigou a dureza do sistema inicial do /aissez-faire. Essa legisla-
à felicidade individual ou geral, produzirá os males mais lamentáveis e ção não era extensiva, no entanto, a ponto de paralisar o sistema. Em
permanentes, a não ser que essa tendência seja neutralizada pela interfe- verdade, se comparada ao estigma da Lei dos Pobres e seus asilos, a vida
rência e pela direção legislativas"_ nas fábricas representava um mal menor. Não obstante, essas leis ajuda-
A advertência de Owen logo se concretizou. E, enquanto a nova Lei ram a minar a filosofia social predominante. Outross-im, a nova classe de
dos Pobres criava um sistema de incentivos trabalhistas para a nova classe trabp.lhadores industriais levou a sério as implicações democráticas do
de trabalhadores fabris, leis sanitárias e leis fabris iançavam as fundações liberalismo sobre os direitos e a dignidade do homem. E reconhecendo a
para a autoridade centralizada promover a saúde e o bem-estar humanos. efic~cia da ~olidariedade de grupo, os trabalhadores se organizaram em
Assim, a questão sanitária serviu como um eixo, em torno do qual se sindicatos e partidos políticos, se recusaram a competir uns com os outros
visualizam, em vários estágios de modificação, as doutrinas da liberdade e começaram a agir para se assegurarem vários serviços sociais, entre eles
econômica e do liberalismo político. Essa transformação não se deveu os de saúde.
apenas ao crescimento do sentimentO I1Umanitário ou da consciência
soCiãT.. AlegisfaÇão sobre saúde e higiene resultou de uma variedade de DOIS PASSOS À FRENTE, UM PASSO ATRÁS. Olhando-se para trás,
'forças-no"interiOr da ofd"effi ecCnlô~Ca-~SOCiã:L Resultou menos de uma essas tendências históricas parecem claras e diretas . .IVlas o processo do
j:i"ieocüJYã:Çãó-pelo bem-e~star do pobre do q11e pela crescente compreen- qual emergiram não foi muito suave. O _gue a.P_tlryce como um avanço
---
são, a partir de 1850, de que as doenças endêmicas e epidêmicas, causad~§
~---~-
con~~ª"n~~._igp_~_L...a_q .l9D:g9 qe_ yá~iª-~--çl~Ç_:ia..as:;~lim.exa~e mais mit;uCTc);;
182 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 183
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s~-- (CYe1a conlo__ n1udªq_ç-ª_$ J1~ita.ntes, graduais, expedientes ad hoc e Governo Local, em 1871, e a aprovação do Ato da Saúde Pública, em
compromissos resulta~1tes de amargas campanhas contra males esp~ci~ 1875.
ficas. As comunidades se empenharam em remediar deficiências sanitá- Em seguida à queda de Chadwick e seus colegas, em 1854, se restabe-
rias, gritantes e particulares, sem levar muito em consideracão seu rela- leceu o Conselho Geral de Saúde, sobre uma estrutura anual. O Conselho
cionamento com outras carências. Cont_udQ, o fio de contin~idade não é funcionou até 1858, quando suas funções médicas passaram, graças ao Ato
uma ilusão, um artefato do historiador, mas uma realidade na-~cid~- da de Saúde Pública daquele ano, para o Conselho Privado. Durante esse
circunstância -de qu-C,-dúfantc a p.1aior parte do século XIX, os sanitarista~ período, houve vários avanços importantes. En1 1855, nomeou-se John
confrontaram, em substância, os mesmos problemas. As mesmas caracte- Simon funcionário médico, assalariado, do Departamento, o primeiro
rísticas indesejáyeis das comunidades urbanas, reVeladas pelas clássicâ.s médico, em uma longa linhagem, a ocupaf esse cargo, de início no
investigaç?es das décadas de 1830 e 1840, continuavam expostas trin:- Conselho Privado, depois no Conselho do Governo Local e, afinal, no
ta anos depois. Com o acúi"nulO da experiência e do conheCimento, QS. Ministério da Saúde. No mesmo ano, o Conselho garantiu a aprovação de
sanitaristas continu~Vam a: pregílr as mesmas razões para a reforma e a um projeto de lei que reconhecia, pela primeira vez, a existência de
insistir em remédios _si.~ilares. Em suma, as doutrinas da reforma sanitá~~ necessidades comuns a uma grande área urbana, isto é, a Londres en-
ria continuaram inalteradas. porque as condições a que se referiam pér~-a- · quanto metrópole. Essa medida instituiu o Conselho Metropolitano de
neceram, em essência, as mesmas. 1 Obras como a repartição encarret?;ada de atender a essas necessidades.
-- - (
Em 1858, com a extinção do Conselho Geral de Saúde, a supervisão da
EPPUR, SI Jl1U01TE 31 • Nas mentes dos sanitaristas desse período, ques- saúde pública passou para o Conselho Privado, onde permaneceu até
tões de saneamento e de doenças epidêmicas eclipsavam tudo o mais. 1871.
No entanto, sem instrumentos administrativos eficientes ficava difícil O departamento médico do Conselho Privado recebeu autorização
usar mesmo o conhecimento existente. Com o Ato das Corporações para investigar assuntos relativos à saúde, e preparar relatórios para o
Municipais, de 1835, pretendeu-se diminuir a fragilidade do governo Parlamento. O posto de funcionário médico foi confirmado e John Simon
local. :Mas, se a organização dos municípios ganhou em democracia, a mantido. Nesse cargo, ele preparou uma série de relatórios anuais- pa-
eficácia de suas regulamentações para a melhoria da comunidade e para a ra os anos de 1858 a 1871- que refletem o estado da saúde pública na
saúde comunitária quase não aumentou. Primeiro, porque a legislação Grã-Bretanha. Entre os problemas com que Simon lidou se incll,-1íam
sanitária era demasiadamente permissiva. Concediam-se poderes às auto- cólera, diarréias, disenterias, difteria, tuberculose, doenças ocupacio-
ridades locais, mas não havia nenhuma obrigação de cumprimento, e nem nais dos pulmões, dietas das famílias das classes trabalhadoras, higiene
todas autoridades se interessavam em cumpri-las. Em conseqüência, dos hospitais e habitação. Simon olhava a saúde da comunidade de um
as benfeitorias locais continuaram a se realizar de modo fragmentário. ponto de vista amplo, e levou em conta fatores como moradias conges-
Quando novas necessidades se faziam sentir, com muita freqüência se tionadas, condições de trabalho em fábricas e minas, emprego de mães,
as enfrentava por uma sucessão de expedientes ad hoc, que deixavam a nutrição pobre, todo o complexo desfavorável de fatores que, em ver-
situação intocada muito mais do que a corrigiam. Esse processo resultou, dade, caracterizavam a comunidade industrial urbana do século XIX.
em meados e fins do século XIX, em uma miscelânea de autoridades, Embora limitado pela falta de uma equipe, Simon lançou urna luz pene~
cada uma com um conjunto diferente de fronteiras locais, cada uma trante sobre o quadro lúgubre e sombrio da saúde con1unitária na Ingla-
responsável por um número muito limitado de funções. terra vitoriana.
Embora as municipalidades nem chegassem a pensar em assumir Finalmente, a partir de 1869 se deram os próximos passos para se
problemas de saúde comunitária, ocorreram mudanças suficientes para tentar resolver os problemas administrativos da Saúde Pública. Naquele
produzir benefícios úteis, embora modestos. Por várias razões. Uma foi ano, nomeou-se uma Comissão Real para estudar a administração sani-
a evolução lenta, hesitante, mas incessante, de um departamento cen- tária da Inglaterra. Em um relatório de 1871, a Comissão recomendou a
tral de saúde. Sobressaem três marcos nesse processo: o estabelecimen- criação de um departamento que juntasse a adtninistração da Lei dos
to do Conselho Geral de Saúde, em 1848; a criação do Conselho do Pobres e a da Saúde Pública; todas as funções de saúde exercidas por
O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 185
184 UMA l-IISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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agências do governo dever-se-iam transferir para esse Departamento: O de instituir comitês para investigar a drenagem, a venda de carne insa-
primeiro fruto desse relatório veio com a criação, no mesmo ano, do lubre, a adulteração de alimentos, e a relação entre fenômenos meteo-
Conselho do Governo Local, sob cuja égide o Conselho da Lei dos Po- rológicos e o estado. da saúde pública. A Associação se fazia ouvir, era
bres e o Departamento Médico do Conselho Privado se puseram. A consultada por departamentos do governo.
Comissão também propôs a consolidação de toda a legislação da Saúde Com o passar do tempo, o efeito dessas influências apareceu. Um
Pública, e a uniformização das repartições sanitárias locais. A aprovação estudo realizado em 1879 mostrou, por exemplo, que uma grande parte
do Ato da Saúde Pública, em 1875, efetivou essas adaptações e pela das maiores comunidades urbanas já dispunham de supritnento consrante
primeira vez deu alguma aparência de ordem, em escala nacional, à de água, adequado em quantidade e, possivelmente menos, em qualida-
administração da Saúde Pública inglesa. O Ato dividiu o país inteiro em_ de. Porém, ainda restava muito por fazer. Ao findar-se o terceiro quartel
distritos sanitários, urbanos e rurais, sujeitos à sup_~_rvisão do Consell~o do século XIX, no entanto, o trabalho administrativo essencial estava
do Governo Local. Tanto quanto possível, as autoridades locais existen- completo. Com a aprovação do Ato da Saúde Pública, de 1875, a legisla-
tes se adaptaram ao novo padrão. Onde existisse, o conselho municipal ção sanitária .chegou a uma virtual paralisação, de muitos anos. A seguir
passava a ser a autoridade sanitária local, e o mesmo aconteceu com os veio um período de consolidação e os sanitaristas se concentraram em
conselhos locais de comissários de melhorias. Ao mesmo tempo, ca·da aperfeiçoar as condições sanitárias em algumas áreas. O movimento da
distrito passou a ser obrigado a ter um médico de Saúde Pública. Pela reforma sanitária tinha lançado as sementes. De 1875 até o encerramento
primeira vez surgiu um sistema de administração local capaz de se haver do século, o fruto amadureceu e começou a ser colhido.
com os problemas de saúde comunitária.
As melhorias durante esse período não resultaram apenas da crjação de O URBANISMO E AS ORlGENS DA SAÚDE PÚBLICA Al\IIERICANA NO
um aparelho administrativo mais adequado. Um segundo fator residiu na SÉCULO XIX. Com o crescimento do movimento da reforma sanitária na
existência de um grupo alerta e militante, de profissionais e leigos, que Inglaterra, e a criação do Conselho Geral de Saúde, em 1848, a liderança
tinham identificado a natureza dos vários problemas da vida urbana e na teoria e na prática da Saúde Pública passou às mãos dos britânicos. O
estavam ansiosos por vê-los corrigidos. As várias Associações de Saúde impacto desse processo chegou à Europa e à América, e, em graus
das Cidades, por exemplo, que rapidamente tinham sido esquecidas em variáveis, França, Bélgica, Prússia e outros Estados continentais sentiram
seguida à aprovação do Ato da Saúde Pública (em 1848), reviveram em seus efeitos. Mas em nenhuma parte mais do que nos Estados Unidos.
diversos lugares e se empenharam em angariar apoio público para me- Também nos Estados Unidos ~s epidemias estiveram entre as circuns-
lhorias sanitárias. Assim se fundou, em 1852, a Associação Sanitária de tâncias prec1pitadora~ ri iras - s no interesse da saúdeCorríuni-
Manchester e Salford. tária. Quando_as epidemias ocorriarri:, as autori a governo procu a-
Podem-se ajuntar a esses grupos os primeiros sanitaristas profissionais, vam_ conselhos médicos. Havia confusão quanto às causas e ao modo de
em particular os médicos-sanitaristas. Cerca de cem anos antes em 1856.- transmissão das doenças, mas o controle se sustentava sobre a quarentena
·os primeifos médicos-sanitaristas de Londres tinham dado p~ssos par~ e o saneamento ambiental. Em 1795, por exemplo, o governador de Nova
formar uma associação profissional. O Ato de Gerenciamento da I\1etró-· York recorreu à Sociedade f\1édica do estado por causa de mna epidemia
pole, de 1855, havia tornado compulsória sua nomeação para os vários presente na parte superior da cidade de Nova York. Nomeou-se um
distritos de Londres; e em 1856 estavam nomeados quarenta e oito. Em comitê, que no ano seguinte publicou um relatório. O relatório continha,
maio de 1856 a Associação Metropolitana de Médicos-Sanitaristas se- em suma, recomendações relativas ao saneamento ambiental, mais espe-
instituiu. Com o crescimento do número desses funcionários, fora de cificamente a assuntos como "a acumulação de imundícies nas ruas",
Londres, eles começaram a aderir à Associação, que, em 1 73, se trans- obstrução de valas de drenagem da água, drenagem de áreas de baixada,
formou na Sociedade dos Médicos-Sanitaristas. John Sim o foi o primei- melhoria das encostas do cais e dos rios, para evitar-se o acúmulo de
ro presidente da Associação e permaneceu nessa posição té 1861. Em refugos, e poluição do ar por estabelecimentos como matadouros e fábri-
seguida ao Ato da Saúde Pública, de 187?, ~~esceu n1pi<;iam nte o número cas de sabão. Não era possível, no entanto, efetivar essas propostas, pois
desses médicos. Um dos primeiros atos da A~sociaÇãO I\1et politana foi õ-·- não existia nenhuma organização de saúde permanente no governo muni-
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186 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA ........................................................................................................................
cipal. Em verdade, um dos problemas na gê.nese e no desenvolvimento Não obstante, a máquina ad~inistrativa continuava muito ineficie~1te.
da Saúde Pública~ em Nova York e em outras cidades americanas, durante Primeiro, porque esses cargos eram muito almejados e interesses polít~cos
o século XIX, e também na Inglaterra, era a necessidade de se criar um influíram em seu preenchimento. E depois, porque a divisão da autond~­
mecanismo administrativo para a supervisão e a regulação da saúde da de agravava essa situação, pois, além dos três funcionários da Saúde, havta
comunidade. ainda um Conselho de Saúde, consultivo, que recomendava ao Conselho
Durante as três primeiras décadas do século XIX, as cidades america- Comum medidas relativas a problemas sanitários. Essas condições pouco
nas cresceram constante, c, por vezes, cspctaculanncntc. Em geral, as estimulavam o crescimento de uma administração eficiente da Saúde
condições sociais se mostravam favoráveis, e os problemas, como o pau- Pública. Em condições sociais favoráveis, conseguia-se tolerar a ineficiên-
perismo, não eram agudos. Como reflexo dessa situação, a administração cia resultante. :t\1as a intromissão prolongada de elementos perturbadores
da Saúde Pública tinha uma organização simples e um objetivo limitado. nesse contexto instável levou a que se revelasse, con1 muita clareza, a
Entre 1800 e 1830, apenas cinco das cidades grandes criaram Conselhos inadequação desses mecanismos. .
de Saúde. E mesmo em 1875 muitas comunidades urbanas grandes não Nesse tempo, mudanças profundas na vida econômica e soctal de
possuíam Departamentos de Saúde. várias comunidades européias punham en1 movimento uma onda de
A cidade de Nova York ilustra bem o caráter da organização da Saúde migração que viria a perturbar a situação prevalecente nos Estados Uni-
Pública da época. Em 1798 atingiu a cidade uma epidemia de febre ama- dos durante as três primeiras décadas do século. O terrível choque ?rodu-
rela, que deixou 1.600 mortos. Até então a municipalidade não tinha auto- zido pelo influxo inesperado de enxames de imigrantes empobrecidos se
ridade para editar regulamentações sanitárias. IVIas a legislatura estadual fez sentir primeiro em cidades costeiras, como Nova York e Boston. Os
reconhecia a necessidade de se enfrentarem essas emergências e conce- recursos inadequados diante da complexidade crescente de problemas
deu à cidade autorização para votar suas próprias leis sanitárias. Uma como moradia, suprimento de água, esgotamento e dre~agem dep;e~sa
administração de Saúde Pública permanente, porém, só começou a existir trouxeram à luz toda uma linhagem de males. Sua mats caractensnca
na década seguinte. Podemos datar esse início em 26 de março de 1804, expressão era o cortiço urbano. .
quando da nomeação de John Pintard para Inspetor Sanitário da Cidade. Com o crescimento da imigração e da população, a moradta passou a ser
De 1810 a 1838 os inspetores sanitários formaram um ramo do Depar- um problema premente. Havia carência de bairros para os P?bres e, co-
tamento de Polícia. O Inspetor Sanitário da Cidade dividia com dois 1110 na Grã-Bretanha os recém-chegados encontraram abngo nas zo-

outros funcionários -os Funcionários da Saúde .e o Médico Residente- nas mais velhas da cidade -em casas particulares, em velhos armazéns,
a responsabilidade de lidar diariamente com assuntos de saúde e de em cervejarias ou em qualquer prédio com quatro paredes e um teto.
assegurar o cumprimento das várias leis e regulamentações. O primeiro, Graças ao desenvolvimento do transporte urbano barato: as_ pes~oas
nomeado pelo estado, cuidava da aplicação da quarentena nos navios que de maior renda se mudavam para outros distritos, na penfena, e tsso
entrassem no porto. O outro era um funcionário municipal e tinha a facilitou o processo de ocupação da cidade. Nas seções mais velhas da
função de ficar atento aos casos de doenças comunicáveis no interior da cidade, em geral não se construíram novas acomodações, para os gru-
cidade. As áreas de ação do Inspetor Sanitário incluíam a administração pos de menor renda, até 1850, quando o adven~o dos prédi~s d~ at:ar-
sanitária, o. saneamento ambiental, em particular no controle das epide- tamentos de aluguel substituiu, nas cidades matares, as hab1taçoes Im-
mias, e a coleta da estatística vital. provisadas e outras moradias provisórias. O prédio de apa:tamentos era,
Alguns desses funcionários estavam capacitados par~ resolver proble- em sua origem, uma habitação múltipla destinada a servu como mor~­
mas de saúde comunitária. Sucessivos inspetores reconheceram o valor dia, barata, para trabalhadores. Mas logo se tornou sinônimo de _corti-
de estatísticas vitais acuradas e Cornelius B. Archer, Inspetor da Cidade ço, pois ao longo do século XIX houve, sempre, gente e~ ~emasta. Os
·em 1845 e 1846, conseguiu a aprovação de uma lei que obrigava ao banheiros eram n1uito inadequados e, afora os bares, não extsttam espaços
registro de nascimentos. Thomas K. Downing, inspetor de 1852 a 1854, de lazer. Não é de se admirar que a doença, o crime e a imoralidade se
,, conseguiu aprovar, em 1853, um Ato de Registro de Nascimentos, Casa- tenham tornado problemas dos bairros dos cortiços. Para um grande
mentos e !\!fortes, aperfeiçoado. número de pessoas, a vida na cidade se revelava sórdida e insalubre. Não
188 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA 189
......................................................................................................................... O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO
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se podia subestimar o significado dessa situação para a comunidade como por algun~a pessoa ligada ao proprietário, em um contrato de vários anos, a
um todo. uma soma vantajosa. Assim, o proprietário se vê livre do grande problema
Entrementes, contatos com a Europa proporcionavam conhecimento próprio às mudanças dos inquilinos e ao recolhimento dos aluguéis ....
sobre os acontecimentos em outras partes do mundo. Enfrentando, nos para acolher um nümero maior de famílias, esses cortiços são divididos
cortiços, condições similares às da Grã-Bretanha e da França, os america- em pequenos apartamentos, tão numerosos quanto o permite a decência
nos se deixavam influenciar por pontos de vista e métodos já usados .... Esses cubículos, pois não merecem outro nome, são então alugados aos
naqueles países. Entre 1830 e 1870, os estudos pioneiros de Villcnné, em pobres, por uma semana, ou por mês, quase sempre exigindo-se o paga-
Paris, e os notáveis relatórios de Chad1vick, Smith e outros reformadores n~ento antecipado do aluguel..."
sanitários, na Inglaterra, encontraram paralelo, na América, em uma série Esse estudo já contém, em essência, os princípios e objetivos que
de inquéritos igualmente valiosos. Como na Inglaterra, pern~eavam o viriam a caracterizar o movimento da reforma sanitária americana pelos
movimento inicial da Saúde Pública o espírito da reforma social e uma próximos trinta anos. Em resumo, primeiro "de que existe um grande
concepção ampla. Em 1837, o médico Benjamin V"- McCready, em seu volume de enfermidades, incapacidade física e mortalidade prematura
estudo pioneiro sobre a I\1edicina Ocupacional, já tinha chamado a aten- entre as classes mais pobres"; em segundo "que essas enfermidades são,
ção para o aparecimento de cortiços em Nova York. Ele se interessaVa não em g'rande medida, desnecessárias, pois resultam de causas que-podem
apenas pelas condições de trabalho nas lojas e fábricas, mas também pelas ser evitadas"; em terceiro, "que esses males físicos produzem males
miseráveis condições de vida dos trabalhadores. Estávamos, porém, ainda morais de grande magnitude e em grande número, que, se considerados
no início da revolução industrial americana e da rápida expansão da apenas de um ponto de vista pecuniário, deveriam levar o governo e os
população. indivíduos a pensar nos melhores meios de aliviá-los e preveni-los"; e
Em 1805, estimava-se a população de Nova York em 75.770 habitan- quarto, "de sugerir meios de aliviar esses males e de prevenir sua ocorrên-
tes. Em 1820 era de 123.000 e subiu para 515.000 em 1850. Por essa época cia em tão grande extensão''.
de crise muito aguda, não foi acidental a publicação, em 1845- por John O conceito de n~orte evitável ocupã. uma posição central nesse progra-
C. Griscom -,do primeiro estudo penetrante sobre problemas de saúde ma. Foi mediante o estudo das associações entre condições de vida e a
da comunidade. Griscom, um clínico, tinha sido Inspetor da Cidade do maior ou menor esperança de vida que se conquistaram as mais notáveis
Departamento de Saúde de Nova York e a seu relatório formal de fim de vitórias na reforma sanitária. No geral, aceitava-se, quanto à causação das
ano ele anexou "Uma Visão Sumária da Condição Sanitária da Cidade" 32• doenç.as, a teoria dos miasmas, ou da imundície. !\1as, a despeito da
Três anos depois, expandiu esse suplemento em um pequeno livro, ausência de conhecimento relativo. aos organismos microbianos como
intitulado A Co11dição Sanitária da População Trabalhadora de Nova York''. nzateries morbi34, era possível enfrentar os problemas de saúde da comuni-
A influência de Chadwick é clara já no título da pesquisa de Griscom, cujo daqe, como o estavam fazendo os ingleses no mesmo tempo. Também
trabalho Southwood Smith e Chadwick conheciam. A análise da econo- aqui a abordagem estatística serviu de intrumento inestimável, e a Esta-
mia dos bairros pobres, da década de 1840, e de sua relação com as tística Vital assumiu um novo significado social.
condições sanitárias da população, ilustram a largueza da visão de Gris- Com freqüência, a catástrofe precede, e evidencia com nitidez, a
com quanto aos problemas de saúde comunitária. É também interessante necessidade de mudança social. Na América, no século XIX e, em espe-
que hoje ainda se encontre, com diferenças menores, nas áreas urbanas cial, durante esse período, epi-demias recorrentes de várias doenças co-
habitadas por grupos étnicos desprivilegiados, como porto-riquenhos e municáveis- febre amarela, cólera, varíola, febre tifóide e tifo exante-
negros, o mesmo sistema. mático- supriram o elemento catastrófico. Embora se reconhecesse que
"Penso que se deva considerar o sistema de inquilinato", escreveu a pobreza terrível, a habitação inadequada e os arredores insalubres
Griscom, "ao qual grande número dos pobres está sujeito, uma das cobrassem seus tributos em enfermidades e vidas, cada invasão ou irrup-
principais causas do modo desamparado e nocivo em que vivem. A base ção de doença epidêmica imprimia esse conhecimento, dramaticamente,
desses males é a sujeição do inquilino às inflições e extorsões impiedosas na opinião pública. Assim, a necessidade de uma administração de Saúde
do sublocador. Uma casa, ou uma fileira, ou uma quadra de casas, é alugada Pública efetiva adquiriu uma urgência apavorante.
190 O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 191
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Com o crescimento das comunidades urbanas e a deterioração das Ao mesmo tempo, em lvlassachusetts, eventos se moviam ao longo de
condições sanitárias, a urgência de uma reforma sanitária se tornou cada linhas similares para produzir o mais famoso dos primeiros documentos
vez mais nítida. Os interessados em manter o stattt quo, no entanto, se da Saúde Pública nos Estados Unidos, o Relatório Shattuck. Publicado em
opunham aos esforços para alterar-se a situação. A fim de se alcançar algo 1850 pela Comissão Sanitária de 1\1assachusetts, o Refatórt."o era obra de
concreto, era preciso mobilizar as forças da comunidade para o controle Lemuel Sbattuck (1793-1859) 35 , de Boston, um livreiro e editor. Original-
das doenças e a melhoria da saúde. Assim, criaram-se, depois de 1845, mente um professor, em Detroit, ele tinha ganhado interesse por assun-
uma série de associações de saúde voluntárias, seguindo, em grande tos comunitários. E mais tarde, quando membro do comitê das escolas,
parte, o modelo das organizações que tinham funcionado bem na Grã- em Concord, l\1assachusetts, reorganizou o sistema de escolas públicas
Bretanha. Unindo médicos, funcionários públicos e leigos com espírito 1 da cidade. Graças a seu interesse pela genealogia, Shattuck reconhecia o
público, essas organizações se mostraram capazes de criar um terreno am- valor de estatísticas vitais acuradas. Ao estimular a organização da Socie-
plo para a mobilização das forças da comunidade. Imbuídos de um propó- dade Americana de Estatística, em 1839, e garantir a aprovação, em 1842,
Sito moral alto, os membros dessas associações se consideravam "alistados da lei que instituiu o registro da Estatística Vital em todo o estado, ele
e~ uma c~uzada contra um mal gigantesco, e crescente". Esses grupos ! materializou essa consciência. A lei serviu como modelo para outros
se mcumbuam de educar o povo quanto às vantagens da higiene, pública i estados. Em 1845, Shattuck publicou um Censo de Boston 36 Essa obra, um
e privada, de pressionar pela reforma administrativa, e de agir para elimi- : prelúdio a seu Re!atório 37 , de 1850, mais famoso, merece consideração por
nar os apartamentos apinhados, mal ventilados, imundos, os suprimentos J seus méritos próprios, pois forneceu o terreno para o registrO preciso da
de água impura, o esgotamento inadequado e o alimento insalubre. i estatística nos Estados Unidos.
O censo revelou uma mortalidade geral alta e mortalidade infantil e
UM LIVREIRO VIRA CRUZADO. A partir de 1840, viveu-se um clima de maternal impressionantes. Doenças comunicáveis, como escarlatina, tifo
agitação constante para tentar resolver problemas de saúde comunitária e exa.ntemático e febre tifóide, difteria, tuberculose, tinham larga vigência.
?ara_ melhorar as condições da vida urbana. Como na Grã-Bretanha, o As condições de vida para os grupos de menor renda eram cruame:nte
mquérito sanitário se revelou o instrumento mais útil. Em 1845, ano em insatisfatórias. Não havia, por fim, qualquer concepção de responsabilida-
que Griscom publicou sua investigação sobre a cidade de Nova York, em de comunitária pelos problemas de saúde pública. Estimulado por esses
outras regiões dos Estados Unidos também se deram passos para levar a achados, e também pelas atividades e idéias dos reformadores sanitários
cabo inquéritos sanitários em comunidades urbanas. contemporâneos, britânicos e franceses, Shattuck articulou a nomeação
O Instituto Nacional, uma eminente corporação científica de 'Vash- de uma comissão, encarregada de realizar um inquérito sanitário em
ington O.C., estimulou um dos mais interessantes desses esforços. Em l\1assachusetts. Shattuck presidiu a Comissão, e escreveu seu relatório.
1845, o departamento médico do Instituto tentou investigar a saúde da Em nossos dias, o Relatório de Shattuck tem merecido excelentes
nação, mas com pouco sucesso. Quando da fundação da Associação ~1é­ críticas e recentemente mereceu uma reimpressão. Mas quando apare-
dica Americana, em 1847, o Instituto insistiu para que estabelecesse um ceu, em 1850, quase não teve nenhum efeito. Em verdade, como Henry
Comitê de Higiene, que pudesse empreender inquéritos sanitários e I. Bowditch mais tarde observou: "Saiu morto das mãos do impressor do
tentasse criar um sistema uniforme de compilação de estatísticas vitais. Estado". Uma de suas principais recomendações- a de que se criasse
Em 1848 a Associação Médica Americana formou o comitê, que se dedi- um Departamento de Saúde, do estado, para atender às condições de
cou, ativamente, em realizar inquéritos em várias partes do país. Entre as saúde urgentes e desoladoras, reveladas pelo Relatório- só se concreti-
primeiras discussões críticas da natureza insalubre dos bairros pobres nas zou dezenove anos depois. O Relatório, não obstante, é um marco impor-
cidades americanas estão as desse comitê. Embora inadequadas, essas tante na evolução da ação em saí1de comunitária, pois delineou uma
investigações revelaram a grande necessidade de uma melhor organiza- estrutura para uma sólida organização da Saúde Pública e fez recomenda-
ção da Saúde Pública. A epidemia do cólera, que irrompeu em 1849 e ções que, em grande parte, se realizaram nos cem anos vindouros.
continuou a atormentar diferentes partes dos Estados Unidos por cerca Shattuck recomendou o .estabelecimento de un1 Departamento Esta-
de dois anos, tornou ainda mais eloqüente essa lição. dual de Saúde, e de departamentos locais em cada cidade. Ademais, ele
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192 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA 193
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~ .............. O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO

estimulou inquéritos sanitários em certas comunidades urbanas e outras sugeriram o valor das reuniões (veja pág. 226). As Convenções Nacionais
localidades. Considerando-se o interesse de Sbattuck em Estatística Vi- se ocupavam da quarentena, e das organizações e regulamentações sani-
tal, suas recomendações detalhadas- entre as quais um censo decenial, tárias da saúde comunitária. Participaram desses encontros muitos dos
nomenclatura uniforme para causas de doenças e morte, e coleta de dados profissionais que viriam a ser a vanguarda da Saúde Pública americana,
segundo idade, sexo, raça, ocupação, situação econômica e lugar de resi- entre os quais os doutores Stephen Smith, Elisha Barris, A. N. Bel! e E.
dência- não surpreendem. Saneamento ambiental, controle de alimen- 1\1. Snow. As convenções, além disso, prepararam o caminho para a
tos e drogas, controle de doenças comunicáveis são considerados e, sa- Associação de Saúde P(Iblica Americana, organizada em 1872.
lienta-se a vacinação contra varíola. O autor faz menção aos cuidados da Realizou-se em Nova York, no entanto, o estudo mais efetivo quanto a
criança sadia, à saúde da criança em idade escolar, e à saúde mental, e resultados. Um comitê da assembléia legislativa do Estado de Nova York,
confere muita atenção à Educação em Saúde. As propostas de Shattuck nomeado em 1858, tinha testemunhado, e relatado, a necessidade de se
quanto ao controle da fumaça, ao alcoolismo, ao planejamento da cidade, reorganizar a administração de saúde municipal. O comitê atribuía a alta
e ao ensino da fvledicina Preventiva nas escolas médicas indicam o longo taxa de mortalidade de Nova York à "superpopulação dos prédios de
alcance do relatório. aluguel, à carência de conhecimento prático sobre o modo de construir
Compreende-se com facilidade a atração que Lemuel ShattucR e seu esses prédios, à deficiência de luz, à ventilação imperfeita, às impurezas
Relatório exerceram sobre o sanitarista .moderno. Ele anteviu parcialmen- na economia doméstica, aos alimentos e bebidas estragados, ao esgota-
te o padrão da organização e da prática da Saúde Pública, nos Estados mento insuficiente (sic), à falta de limpeza das ruas, e dos molhes e cais, à
Unidos, nos últimos cem anos. Em conseqüência, existe a tentação de negligência generalizada de precauções sanitárias e, por fim, à execução
removê-lo do contexto de seu tempo e de seu lugar e transformá-lo em imperfeita das leis existentes e à total ausência de uma polícia sanitária
mito. Lemuel Shattuck, no entanto, era um homem de sua época e de organizada de maneira regular".
sua geração e limitado, em sua prática, pelas tendências políticas e sociais Apesar disso, até a publicação, em 1865, de um relatório minucioso do
de então. Como John Blake o mostrou recentemente, ele desempenhou Conselho de Higiene e Saúde Pública- relativo às condições insalubres
um papel ambíguo quanto ao novo suprimento de água para Boston. Não da cidade - a reforma não se iniciou. O Conselho tinha sido formado,
sabemos como seria, na prática, seu plano, pois ele não se realizou. em 1864, pela Associação dos Cidadãos, um grupo organizado, no início
Shattuck tentou fazer com que as principais recomendações de seu da década de 1860, para pôr em ordem o governo da cidade. Participavam
Relatório se tornassem lei, mas não o con.seguiu.l\1orreu em 1859 e coube do Conselho um grupo de médicos ~minentes, entres os quais \Villard
a outros consumar as ações. Sua grande façanha esteve 7em usar idéias e Parker, Valentine Mott, Edward Delafield, Alonzo Clark, Gurdon Buck,
práticas de seus antecessores, e de seus contemporâneos, e adaptá-las ao Stephen Smith, Elisha Barris e Benry D. Buckley. Esse grupo se decidiu
cenário americano, no interior de um sistema. de organização amplo e a realizar um inquérito sanitário na cidade, e conseguiu a ajuda de uma
coerente. E_, em essência, em formular uma política de saúde completa. série de médicos jovens. Dividiu-se a cidade em vinte e nove distritos e
se designou um médico para cada distrito, como inspetor sanitário. Ela-
borou-se um cronograma para o inquérito, e durante o verão de 1864 se
levou a cabo a investigação. Elisha Barris editou os achados e em 1865,
sob o título Relatório do Conselho de Higiene e Saúde Pública da Associação dos
Cidadãos de Nova York Sobre as Condições Sanitárias da Cidade'', publicou-
se o material. O empreendimento custou ao todo vinte e dois mil dólares,
mas esse dinheiro se mostrou bem gasto. Revelaram-se condições mais
chocantes do que se esperava. Um interesse público generalizado desper-
tou, conseguiu-se a ajuda de líderes comunitários~ como os pastores, e o
assunto passou a ser uma questão política significativa.
E~quanto o Conselho de Higiene reali~ava_o_~1qt~érito, _o~~~~~~ar~_t_a-_ __
O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 195
194 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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menta da Associação dos Cidadãos, o Conselho da Lei, sob a judiciosa ventilação defeituosos, vacinavam contra varíola e dirigia1n inquéritos
direção de Dorman B. Eaton, preparava uma lei da Saúde Pública. Eaton, sanitários.
um advogado de Nova York, em 1859 se interessara por problemas de Em 1874 fez-se um esforço para conter o desperdício de vidas de
saú_de ~omunitária. Em 1864 tinha tentado, sem consegui-lo, fazer 0 crianças, em particular nos prédios de aluguel. Preparou-se, e se distri-
legJs!anvo estadual aprovar uma lei para reorganizar a administração de buiu largamente, um folheto simples sobre cuidados com a criança. No
saúde da municipalidade. Mais tarde, Eaton participaria ativamente na mesmo ano, o Departamento de Saúde também lançou folhetos com a
criação do Conselho Nacional de Saúde. descrição dos modos de difusão da difteria, seus sintomas e as precauções
Em 1_865, a lei chegou ao legislativo e, depois de um- revés inicial, necessárias. Podem-se considerar esses esforços como o começo da Edu-
consegmu a aprovação, no começo de 1866. A 5 de março de 1866 nasceu cação em Saúde Pública, por uma agência institucional, em Nova York.
o Departamento I\1etropolitano de Saúde. Vale a pena anotar, de passa- Em 1874, se organizou, ainda, um corpo de vacinadores e se criou um
gem, que o modelo do Conselho de Higiene era o Co11sei! de Sa!rtbrité laboratório para fazer a vacina antivariólica. O desenvolvimento da Bac-
francês, e que o Departamento I\1etropolitano de Saúde tinha como teriologia I\1édica implicou uma grande mudança de ênfase no programa
padrão o sistema sanitário inglês. de ação em saúde comunitária; a atenção se desviou do controle do am-
Pela nova lei, a administração sanitária da cidade passava às mãOs do biente humano para o controle de doenças comunicáveis específicas.
Departamento de Saúde, com poderes para agir no interior do Distrito A aprovação, em 1866, da Lei de Saúde Metropolitana, de Nova York,
Sanitário Metropolitano do Estado de Nova York. Essa área incluía os significou um grande triunfo e assinala um ponto de viragem na História
condados de Nova York, Kings, Richmond e Westchester, e as cidades de da Saúde Pública, não só na cidade de Nova York mas em todos os
.. Flushing, Jamaica e Newtown, no condado de Queens. Estendeu-se ao Estados Unidos. Um dos primeiros problemas em Saúde Pública era a
·Departamento, ainda, o poder de lançar ordenações, de executá-las e de falta de mecanismos administrativos apropriados. No início do século
servir de juiz de seus próprios atos. O "Departamento consistia de um XIX os servidores públicos eram poucos em número, limitados nas fun-
presidente, indicado pelo prefeito, quatro médicos, na função de comis- ções e escolhidos quase sempre por indicação. A mudança de uma admi-
sários de saúde, um funcionário da saúde dos portos, e quatro comissários nistração improvisada para uma administração eficiente era tão essencial
de polícia. Em 1870, sua organização administrativa se alterou e se criou o ao desenvolvimento de uma sociedade urbana complexa quanto novos
núcleo do atual Departamento de Saúde da Cidade de Nova York. Sua conhecimentos científicos. Em verdade, fundações administrativas sóli-
jurisdição incluía somente a cidade de Nova York, como então se consti- das facilitariam a incorporação, à prática, do novo conhecimento.
tuía, ou seja, os atuais distritos de I\1anhattan e do Bronx. O Departamen- Em Nova York se lançaram, pel3. primeira vez nos Estados Unidos,
to co~preendia quatro escritórios: o Sanitário, o de Licenças Sanitárias, o essas fundações, e se institúiu um exemplo. Segundo Stephen Smith,
de Limpeza das Ruas, e o de Estatística Vital. aquela lei foi "considerada, oficial e judicialmente, a mais completa peça
As atividades do Departamento de Saúde da Cidade de Nova York, nas de legislação sanitária do código civil" e levou à criação de novos e
duas décadas seguintes, refletem a evoluçao do programa de Saúde efetivos Departamentos de Saúde em vários municípios e estados. Em
Pública moderno. Não devemos esquecer que até 1880, e mesmo de- 1855, o estado de Luisiana tinha estabelecido o primeiro Departamemto
pois, a idéia de ser a sujeira a causa das doenças estava firmemente de Saúde Estadual, que não funcionou. Em 1869, Massachusetts enfim
plantada na mentalidade de leigos e de médicos. A tradução dessas idéias adotou as idéias de Lemuel Shattuck e organizou um Departamento de
em conseqüência prática se materializou em medidas específicas, com Saúde apropriado. Entre outros estados seguiram-no, em rápida sucessão:
a intenção, em essência, de eliminar as imundícies e de melhorar o Califórnia, 1870; Distrito de Colúmbia, 1871; Minnesota, 1872; Virgínia,
ambiente físico, em especial o das classes mais pobres. Essa atividade se 1872; Michigan, 1873; Maryland, 1874; Alabama, 1875; Wisconsin, 1876 e
reflete nas várias tarefas executadas pelos inspetores sanitários, médicos lllinois, 1877.
em sua maioria. Eles investigavam surtos de doenças comunicáveis -
como varíola, tifo exantemático, febre tifóide, escarlatina-, inspeciona- UM DEPARTAMENTO NACIONAL DE SAÚDE PREMATURO. Com a
,~~m prédi~~ ~e apartamentos, faziam relatórios sobre encanamento ou criação de Departamentos de Saúde estaduais e municipais, a idéia de
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uma organização nacional de saúde parecia ser a seqüência lógica. Nas Justiça. Tinha como funções reunir informação sobre assuntos de saúde
Convenções Sanitárias realizadas entre 1857 e 1860 havia-se ventilado a pí1blica, aconselhar os departamentos do governo federal e os_ go~ernos
questão de um serviço de quarentena nacional. Na primeira reunião da estaduais, e apresentar ao Congresso um plano de uma orgamzaçao na-
Associação Americãna de Saúde Pública, em 1872, novamente se discutiu cional de saúde, com atenção especial à quarentena. O Departamento
a idéia de um Serviço de Saüde, coordenado. Três anos mais tarde deu-se Nacional de Saúde funcionou até 1883, quando não mais recebeu verbas.
um encontro, em "'ashington D.C., para a avaliação de planos para um Não alcanÇou êxito porque sua estrutura administrativ~ era pouco. á~il e
Departamento de Saúde Federal. Jvfas, em virtude da rivalidade entre os porque despertou o antagonismo dos estados, que ~e!ltlam seus dlfertos
departamentos médicos do Exército, da h-farinha e do Serviço Hospitalar usurpados. Em sua curta vida, no entanto, c~nsegmu m~strar com~ ~~a
dos Fuzileiros Navais40, a reunião não resultou em nada. Solicitou-se agência federal poderia favorecer a ação naciOnal em saude co~1u111tana.
então, a Dorman E. Eaton, de Nova York, o delineamento de uma lei de E indicou ainda a urgência de se resolver o problema das relaçoes entre a
criação de um Departamento Nacional de Saúde. Sua proposta de situar federação e os estados para que a ação em Saúde Pí1blica, em nível
os departamentos médicos dos três serviços em pé 0e igualdade, po- nacional, pudesse ser efetiva. . .
rém, se mostrou inaceitável. Nesse momento, novamente uma epidemia No último quartel do século XIX, era claro que se :mha cnado um
definiu a situação; um grande surto de febre amarela devastava o· vale terreno sólido para o desenvolvimento da Saúde Públr~a nos Estados
do Mississípi em 1878, causando grandes perdas de vidas e levando ao Unidos. Embora houvesse ainda muito trabalho, o ap.erfetçoamento am-
desastre econômico. E o público exigia ação. plo dos programas de saúde e as ricas recompensas armazen~~as em noss.o
Deve-se lembrar que, até 1872, quando se reorganizou o Serviço século só foram possíveis porque alguns problemas .essencrats de orga~t­
Hospitalar dos Fuzileiros Navais, o governo federal não mostrava ne- zação já tinham encontrado solução. No int~rior da estrutura polítrca
nhum interesse por assuntos de saúde pública. Consideravam-se a orga- americana, não havia espaço para uma ação nacwnal antes que_se compre-
nização e a ação para proteger a saúde comunitária responsabilidade local, endesse a impossibilidade de se resolver, em nível local, mUitos proble-
do estado ou da municipalidade. Em geral, a quarentena era uma função mas de saúde e bem-estar. Entrementes, no exterior, na Alemanha e na
do estado. França, se determinava o sentido futuro da ação em saúde comunitária.
No campü"da saúde, continuava em voga a doutrina da soberania do
estado, que viria a dificultar a ação nacional em favor da saúde pública por REVOLUÇÃO SOCIAL, INDUSTRIALISMO E HIGIENE PÚBLICA NA
muitos anos. Sob essas circunstâncias, seria difícil a existência de um FRANÇA. A Revolução, e as necessidades do regime napoleômco,_ tmham
conceito de política nacional de saúde, ou de uma organização capaz de começado a transformar a França de um país agrário em ii:dustnal. JVf~s
materializá-la; essa linha de idéias estava muito à frente de seu tempo e só foi só depois da restauração41 e, em particular, durante o re_ma~o d~ L~rs
se realizaria no século XX. I\1esmo assim, deu-se o primeiro passo, peque- Filipe (1830-1848)41 que a economia francesa cri~u suas pn';'eiraS mdus-
no e vacilante, para a aprovação de um Ato Nacional de Quarentena, trias pesadas e vias férreas. Esse processo economrco rmpos pr~ssoes e
conferindo-se poderes ao médico-chefe do Serviço Hospitalar dos Fuzi- tensões que se prolongaram até a década de 1870 e se refletiram na
leiros Navais para obrigar à quarentena nos portos, desde que isso não evolução da Saúde Pública francesa. Durante esse período, a França
interferisse com leis e normas dos estados; não se; lhe conferiu qualquer enfrentou muitos dos problemas de saúde já encontrados na Inglaterra e
verba para essa finalidade. que, no mesmo tempo, também os Estados Unidos, a Alemanh~ e a
Esse gesto simbólico não podia satisfazer os que exigiam uma ação Bélgica enfrentavam. Como na Inglaterra, a introdução da energia do
efetiva contra futuros surtos epidêffiicos. Em sua próxima sessão, em vapor fez os artífices perderem seus empregos e os levou aos centros
1879, o Congresso finalmente aprovou uma lei, elaborada por Dorman industriais urbanos, em busca de trabalho e salário. A população urbana
Eaton e apoiada: pela Associação Americana de Saí1de Pública, e criou um francesa subiu de quinze por cento, em 1830, para vinte e cinco por_cento,
Departamento Nacional de Saúde. Esse Departamento compreendia em 1846. A falta de habitações apropriadas, o apinhamento e os efertos do
sete médicos e um representante do Exército, um da l\1arinha, um do desemprego periódico se combinavam para fazer da vid~ do tra~a~hador,
Serviço Hospitalar dos Fuzileiros Navais e um do Departamento de e de s1:_1~ _f~mília,_ !-!f!la_y_i_dél~-~g~_t~~-Q~-~:t-! p~_~_!()t~sJ._Q_~_ pg_~o-~~~-~-º--t-~q§, _e,_m=---
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J· ,Í98 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 199
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Nian~l~ester e Liverpool duplicaram em Lille e Ruão e as conseqüências des O"vriers Emp!oyés da11s les Namifactures de Coto11, de Lai11e et de Soie
per~ICIOsas do bairro industrial se impuseram à atenção de médicos, (Quadro do estado físico e moral dos operários empregados nas manufatu-
escntores, economistas e funcionários públicos. "Como pode alguém", ras de algodão, de lã e de seda) mexeu com a opinião pública e levou à lei,
pergunto~ Baudelaire4\ "seja de que partido for, e sejam quais forem os de 1841, que limitava o trabalho das crianças (veja pág. 198). A despeito
preconceltos sobre os quais se criou, não se sensibilizar diante da visão de outras investigações e relatórios de contemporâneos de Villermé, até
dessa multidão doentia que respira a poeira das fábricas, engole a penu- 1848 não se realizou mais nada. Em agosto daquele ano, a Segunda
gem Uo algodão, tem .seus organismos .saturados t:om chumbo branco República 46 deu à luz um Comitê Consultivo em Saúde Pública, ligado ao
mercúrio e todos os venenos necessários à criação de obras de arte ~ :t\1inistério de Agricultura e Comércio. Composto de sete membros, o
d?rme, em meio a vermes, em bairros ·ande a maior e a mais simples das Comitê tinha a função de aconselhar o ministro nos assuntos relativos à
VIrtudes humanas se aloja ao lado dos vícios mais empedernidos e do saúde pública. Em dezembro de 1848, outra lei criou uma rede de
vômito do penitenciário? 11
conselhos locais de Saúde Pública. Em 1836 o governo de Luís Filipe
.. Essas terríveis condições persistiram durante a monarquia de julho4\ e tinha pedido à Academia de I\1edicina um plano para a organização de
so nos anos _de 1840 o governo francês agiu, em nível nacional, para conselhos de salubridade (consei!s de sa!ttbrité} para toda a França. Havia
enfren~ar a situação. Em 1841 se aprovou a primeira peça de legislação um conselho para cada dépmtemeut e para cada an-ondi"ssemf!!zt11• Os mem-
trabalhista na história francesa -uma lei regulando o trabalho infantil em bros dessas corporações eram nomeados- de entre médicos, farmacêuti-
fábricas. Enquanto isso, um grupo vigoroso de sanitaristas estava realizan- cos e veterinários - pelos chefes administrativos do departamento, para
do inquéritos e estudos estatísticos acerca das condições de vida dos um período de quatro anos; o conselho devia reunir-se a cada três meses,
trabalhadores nas comunidades urbanas. Os principais impulsos desse ou sempre que necessário. Tinha função essencialmente consultiva; o
g~upo.. ~rancês n_a~ceram de problemas e pensadores nativos. A experiên- prefeito o consultava mas o conselho não podia, por si mesmo, levar
c:a prauca adqumda, em casa e no exterior, durante as guerras revolucioná- adiante qualquer iniciativa. Esse sistema continuou sob Napoleão III48, e
nas e napoleônicas, tinha alertado muitos médicos franceses para proble- a Terceira República49 o manteve, embora, em geral, não se confiasse em
mas de saúde pública. O fato de a França ser, durante a primeira metade sua eficiência. Ao final do século se apresentaram várias propostas para
d_o sécul~ XIX, o país de teoria política e social mais avançada reforçou elevar o nível de organização da Saúde Pública francesa ao de outros
a1_nda ma1s essa tendência. Afinal, estavámos no tempo de Fourier, Saint- países da Europa ocidental. Durante esse período, no entanto, a maior
Srmon, Comte, Cabet, Buchez, Considérant, Blanc e Proudhon'; e havia contribuição francesa para a Saúde Pública se deu e1n outra área. A saber,
um montante considerável de fertilização cruzada entre Ciência~ Sociais na aplicação da ciência do diagnóstico ao tratamento e ao controle das
e Saúd~ ~úbl~ca. Assim, um espírito de reforma social, e até de revolução, doenças transmissíveis.
embebia mteuamente o movimento francês de Saúde Pública. Socialistas
utópicos, como Cabet e os seguidores de Saint-Simon, escreviam sobre UNIFICAÇÃO NACIONAL E REFORMA SANITÁRIA NA ALEMANHA.
problemas de saúde comunitária e em alguns casos se aventuravam a agir Sob muitos aspectos, o desenvolvimento da Saltde Pública, na Alemanha,
segundo suas teorias. O aparecimento do cólera em Paris, em 1831 levou caminha junto com a experiência da Inglaterra e da França. :f\rlesmo se
os saint:simonistas a criar um serviço médico gratuito, com médic~s que mais tardio, u industrialismo e a expansão urbana, naquele país, r:riaram
p~rtencmm ao grupo. Em 1832, o Globe, jornal de convicção saint-simo- problemas similares. Existia, no entanto, uma diferença significativa: não
msta, propôs que a cidade recebesse sistemas apropriados de água e de havia uma Alemanha unida, mas apenas um conglomerado de Estados
esgotos, e outros recursos, destinados a melhorar as condições sanitárias e germânicos, sendo a Prússia o mais importante e maior. O grande objetivo
a saúde do povo. dos patriotas e liberais alemães era a unificação desses Estados.
A figura 1nais destacada no movimento de Saúde Pública francês desse Desde Paris, a nascente do pensamento avançado, as idéias liberais
período, foi Louis René Villermé (1782-1863), mais bem conhecido pelo alcançaram a Alemanha. Como já vimos, a industrialização, e seus proble-
seu estudo sobre as condições de saúde dos operários têxteis. Esse mas, levaram vários investigadores, na Inglaterra e na França, a estudar a
_________ rela~ri_o, p~l~li<:_ado_~11118_40so~o_título Tabjeattde_t'J1!at Physiqtte et Moral influência da pobreza, da ocupação, da habitação, e de outros fatores,
O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 201.
200 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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sobre a saúde. Essas correntes de pensamento e ação influenciaram os escolher os médicos. Compreendeu-se, no entanto, que não bastava
médicos alemães e, durante o ano revolucionário de 184850 , eles juntaram oferecer assistência, a assistência devia caminhar junto com a profilaxia
forças para assegurar reformas sanitárias. RudolfVirchow, Solomon Neu- social. Em conseqüência, Virchow proclamou, como princípio fundamen-
mann e·RudolfLeubuscher se destacavam nesse grupo. Esses homens se tal a se incluir na constituição de um Estado democrático, o direito do
apegavam a_ certos princípios. No primeiro se considerava a saúde do povo cidadão ao trabalho (a ação do governo provisório francês, de 1.848, ao
assunto de mteresse social direto; a sociedade tem a obrigação de prote- reconhecer o direito ao trabalho, a doutrina do droit au. tr'avai! que, desde
ger e_a:segura: ~saúde de seus membros; no segundo, se afirn~ava que as 1839, Louis Blanc vinha pregando, sem dl1vida influenciou Virchmv).
condiçoes sociais e econômicas exercem um efeito importante sobre a O problema do trabalhador industrial também merecia atenção. Em-
~aúde. e a doença, e que há necessidade de submeter essas relações à bora na Alemanha a industrialização tivesse começado mais tarde do que
mvesttgação científica. Virchow, por exemplo, concebia o alcance da na Inglaterra e na França, e avançasse, durante a primeira metade do
Saúde Pública o mais amplamente possível e indicava como uma de suas século, a passo mais lento, em 1848 não se podia mais subestimar a
pril:c.ipais funções. o estudo das condições de vida dos vários grupoS existência de uma classe assalariada, de um proletariado industrial. Como
soc1a1s ~ a determmação de seus efeitos sobre a saúde; com base nesse naqueles países, uma chacina de inocentes anunciou a industrialização.
conhecimento seria possível agir. Por fim, o princípio conseqüente diz Os sobreviventes à infância eram entregues às clemências da fábrica e da
que os passos para promover a saúde e combater a doença devem ser mina. Para resolver essa situação, Leubuscher propôs um programa de
sociais e médicos. higiene industrial, com ênfase na regulamentação legal das condições de
Um projeto de Lei de Saúde Pública - preparado por Neumann e trabalho. A limitação da jornada de trabalho tinha importância particular.
submetido à ~ociedade de Médicos e Cirurgiões de Berlim a 30 de março Leubuscher advogou a Proibição do trabalho de crianças de menos de
de 1840 - e, talvez, o melhor representante das linhas gerais de um quatorze anos, a redução da jornada em ocupações perigosas, a proteção
programa de ação fundamentado nesses princípios. das mulheres grávidas, o estabelecimento de padrões de ventilação dos
Segund? esse do~umento, a Saúde Pública tem como objetivos o locais de trabalho e a prevenção do envenenamento industrial mediante o
desen:olv1mento sadw, mental e físico, do cidadão; a prevenção de todos uso de materiais atóxicos.
os pengos para a saúde; o controle das doenças. A Saúde Pública tem de Exigiu-se também um licenciamento uniforme de todos os médicos,
c~~dar da so~i~dade como um todo, levando em conta as condições gerais, que os habilitasse a praticar em todos os Estados germânicos; a nomeação
ftstcas e soc1a1s -como o solo, a indústria, os alimentos, a habitação- de médicos para postos públicos, por meio de concursos; e a criação de um
capazes de afetar adversamente a saúde; e tem de proteger cada indiví- Ministério Nacional da Saúde. Revelou-se muito valioso o reconheci-
duo, levando ell?- conta as condições que o impedem de cuidar de sua mento da necessidade imperiosa, na investigação das relações causais
saúde, incl~ídas em duas.categorias principais; condições como a pobreza entre condições sociais e problemas de saúde, de se contar com estatísti-
e. a enfermidade, nas quats o indivíduo tem o direito de requerer assistên- cas de confiança. Neumann se mostrou muito ativo nas discussões a favor
Cia .do Esta.do; e ~ondições nas quais o Estado tem o direito e a obrigação da coleção de dados mais precisos.
de mterfenr na hberdade pessoal do indivíduo - por exemplo, em casos Com a derrota da revolução de 1848, Bismarck51 realizou o que os
d~ doenças transmissíveis e doença mental. A Saúde Pública pode cum- lib~rais não puderam. Na estrutura do processo de unificação levado a
pnr esses deveres ao oferecer pessoal médico em número suficiente e efeito por ele, a organização sanitária evoluiu. IVlas as visões de Virchow e
bem preparado, e ao estabelecer instituições destinadas a promove; 0 dos outros reformadores só vieram a amadurecer mais tarde no século.
bem da saóde pública. Virchow e Neumann,líderes de.1848, permaneceram ativos na política e
Durante a revolução de 1848 levantaram-se vozes exigindo a ação do leais a seus princípios. Nas décadas seguintes a 1848, o amplo programa
governo e se. propuseram muitas medidas, todas constantes do amplo de reforma sanitária se transformou em um programa mais limitado, mas
programa delmeado por Neumann. Um ponto importante estava na assis- realizável. Agiu-se para melhorar as condições de trabalho, em particular
tência médica ao indigente. Virchow e outros fizeram propostas de servi- as de mulheres e crianças (veja pág. 210) e empreenderam-se esforços
ços médicos para os pobres, em que se oferecia, também, a liberdade de para aperfeiçoar a administração sanitária. Em 1867, por exemplo, Lorenz
202 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 203 •
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von Stein, jurista e administrador, abordou, em um tratado de adminis- de submeter todos os aspectos da higiene à análise laboratorial e iniciou
tração pública, os aspectos administrativos da Saúde Pública. Stein as- um trabalho pioneiro sobre a higiene da nutrição, do vestuário, da ventila-
sinalou que a saúde dos indivíduos se torna um assunto de interesse ção, da água e dos esgotos; em 1865, ganhou a primeira cadeira de
público a partir do momento em que os indivíduos estão submetidos a Higiene Experimental en1 lVI unique. Com Pettenkofer, a ciência pene-
condições nocivas sobre as quais não têm controle, e passam a ser um trou no campo da Higiene e da Saüde Pí1blica- como estava também
peso para a sociedade. Nessas circunstâncias, seria dever do governo criar acontecendo na Iviedicina Clínica. Assim, uma nova dimensão se somou
e manter condições capazes de proteger o indivíduo, e restabelecer e ao estudo de problemas de saÍ! de comunitária.
promover sua saúde. A legislação sanitária da Inglaterra influenciou
muito Stein. UMA ERA DE ENTUSIASMO ESTATÍSTICO. Ao longo desse período, os
Durante as décadas de 1860 e 1870 a agitação em favor da reforma da métodos de estudo dos problemas de saúde comunitária se limitavam, em
Saúde P-ública voltou a ser notável. Médicos e leigos organizaram associa- essência, ao empirismo racional, à observação crítica, ao inquérito e, a
ções para trabalhar com esse propósito; várias cidades melhoraram seus partir do final da década de 1820, à análise estatística. Até então, o
abastecimentos de água e sistemas de esgoto; e a Confederação Germâni- sanitarista não dispunha de instrumentos e técnicas comparáveis aos que,
ca do Norte e, depois, o Reichstag 52 do império germânico se ocuparam na 11edicina Clínica, estavam começando a levar a importantes descober-
com problemas de saúde. Com a criação do Segundo Reich53, em seguida tas. Não dispunha de autópsias, microscópios, ou laboratórios e experi-
à guerra franco-prussiana 54, tornou-se possível pensar na criação de uma mentações, à exceção dos que a natureza, por acaso, oferecesse. Em
unidade central de Saúde Pública. Afinal, instalou-se, em 1873, um conseqüência, muitos se agarraram avidamente aos métodos estatísticos e
Escritório de Saúde do Reich, que em 1876 começou a funcionar e os aplicaram com vigor considerável.
representou o início de uma organização unificada da Saúde Pública para De um ponto de vista político, econômico e social, as décadas de 1830
a Alemanha. a 1850 representaram a abertura da era na qual ainda hoje nos encontra-
Por esse período, Virchow se dedicou a estudar problemas de distribui- mos. E, como a todos períodos seminais, exaltações e entusiasmos marca-
ção de esgotos, em especial em Berlim. A fossa e a privad-a externa ainda ram-na. \Nestergaard caracterizou esse tempo, com propriedade, como
dominavam a cena. Além disso, a maioria das pessoas, em Berlim, não uma era de entusiasmo.
dispunha de um abastecimento de água central e a captavam em poços. Por volta de 1830, tinham começado a aparecer, em números crescen-
Graças aos esforços de VirchO"w, introduziram-se o suprimento de água e tes, estudos estatísticos. Relacionados com questões de Saúde Comunitá-
um sistema de esgotos apropriados, saneando-se a maior cidade alemã. Ao ria e Medicina Clínica, logo atraíram ampla atenção profissional e pública.
mesmo tempo, o grande higienista alemão Max von Pettenkofer (1818- As décadas de 1830 a 1870 representam sua maré n1ontante, no conti-
1901)55, desenvolvia, em 1\1unique, esforçoS semelhantes. Em 1873 ele nente europeu, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. C0n1 muito zelo,
discursou para a Sociedade pela Educação Popular sobre o valor da saúde numerosos investigadores estudaram, sob uma larga variedade de cir-
para uma cidade. Suas preleções tinham o intuito de ressaltar a necessida- cunstâncias, os problemas de saúde. Alguns estudos foram empreendidos
de de uma reforma sanitária profunda para a melhoria das condições de no curso de investigações oficiais, outros por cidadãos interessados em
saúde. Pettenkofer fez da Higiene uma ciência experimental, de labora- um problema social ou sanitário específivo. ~vfuitos tinham como objeto a
tório. Mas tinha perfeita consciência de que não apenas o ambiente físico questão da mortalidade diferencial e o efeito sobre a saúde de fatores
mas também o mundo social influenciavam a saúde do homem, de que a como classe econômica e social, ocupação, raça, aprisionamento, intem-
saúde é uma resultante de uma série de fatores. Pettenkofer assinalou ser perança e carência de saneamento.
a saúde pública um assunto de interesse comunitário e as medidas toma-· Na França, Parent-Duchatelet e D'Arcet estudaram o efeito do tabaco
das para ajudar os necessitados benéficas para todos. sobre a saúde dos trabalhadores que o manuseavam. Benoiston de Cha-
Pettenkofer tornou l\1unique uma cidade sadia, como Virchow tinha teauneuf examinou a mortalidade diferencial de ricos e pobres. Já men-
feito de Berlim. A importância de sua obra, porém, se estende para além cionamos os estudos de Villermé sobre a mortalidade diferencial em
_~essa façílJl~1a_lot~~~Y~!_:_ Grande químico e fisiologista, ele teve a primazia vários distritos de Paris, como também seu inquérito sobre a saúde dos
O INDUSTRIALISMO E O MOVIMENTO SANITÁRIO 205
204 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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assunto. Então, em 1837, Poisson6 l publicou seu importanteRecherches sttr
operários têxteis (veja pág. 199). Ele também estudou a duração média la Probabilité des Jugemeuts 60 , em que demonstrou como calcular o erro
d_as doenças, em diferentes idades, com a intenção de aplicar esse conhe- médio de uma diferença entre duas freqüências observadas, operação
Cimento à organização de sociedades de apoio mútuo. importante ao manuseio estatístico de problemas de Saúde Pública. Três
Entre os ingleses, podemos mencionar \Nilliam Farr e \~'illiam A. Guy. anos depois,Jules Gavarret, um aluno de Poisson, publicou seus Principes
Farr, _do _começo ao fim de sua longa e frutífera carreira, deu inúmeras Généraux de Statistique Jl1édica/é' 1, no qual utilizou o trabalho de seu profes-
contnbUJções ao estudo estatístico de problemas de saúde; talvez mere- sor. A despeito de seus méritos, porém, o tratado de Gavarret não recebeu
ç~m atew;ão particular suas numerosas investigações sobre saúde ocupa- a atenção merecida. Dez anos depois do aparecimento desse livro, por
CJonal. exemplo, Guy ainda expressou a opinião de que "as fórmulas dos mate-
Embora não se possa colocar Guy no mesmo nível de Farr ele merece máticos têm uma aplicação muito limitada aos resultados da observação,
ser mais bem conhecido. Professor de l\1edicina Forense na Universidade e que "se aplicadas sem cuidados, podem levar a grandes erros".
d~ L?ndres, estudou de maneira infatigável problemas estatísticos con- Esse padrão de avanço desigual, de desenvolvimento claudicante e
tnbUI:l com freqü_ência para o J onwl do Sociedade de Estat{stica de L 07;dre.f'6 incerto, não era peculiar ao campo da saúde, mas um aspecto de um
(pubhcado a partir de 1838) e participou ativamente do movimento de processo, característico do desenvolvimento, até a metade do século XIX,
~aúd: P_ública inglês. Guy se interessava, em especial, em estudar a de várias ciências biológicas e sociais. Em sua 1-listória da Análise Eco-
r~fluencra ,da ocupaç~o sobre a saúde. Seu testemunho perante a Comis- 1zômica, Joseph A. Schumpeter6z pinta um quadro similar das relações,
sao da _Sau~e das Crdades evidenciou o efeito incapacitante dos riscos durante esse período, entre a economia e a análise estatística. Nessa
ocu_pacronars. Ele estudou padeiros, varredores, impressores, alfaiates e época, porém, se deu, com êxito, o primeiro passo para analisar, mate-
murtos outr~s grupos de trabalhadores. Examinou, também, as causas maticamente, os dados de saúde comunitária compilados por observa-
que levam a ~scolha de um ofício e os efeitos das estações e do clima ção e enumeração. Deu-o Adolpho Quetelet (1796-1874), astrônomo e
s~bre a mortalidade e a duração da vida, na pequena nobreza, na aristocra-
matemático belga.
cra, no clero e nas profissões. O que fez Quetelet? Ele reuniu as tendências e os desenvolvimentos
~~?ora muit~s dessas pesquisas fizessem avançar a causa da reforma estatísticos de seu tempo, organizou-os em uma estrutura sistemática, e
sa~1tana, todas tmham em comum certos defeitos. Jvfuitas tinham como se empenhou em mostrar como utilizá-los, na prática. Quetelet reconhe-
ob_J~to ~opula~ões institucionais, por exemplo pacientes em hospitais, ceu ser a variação uma característica de todos os fenômenos biológicos e
pnswnerros e mternos de hospícios. Em conseqüência, as amostras utili- sociais, e ocorrer em torno da média de um nún1ero de observações.
zadas_:ra~1 muit~ peque~as, ou pouco representativas. A despeito dessas Partindo desse ponto, ele desenvolveu uma metodologia que incluía a
deficrencr~s, porem, é evrdente que a precisão nos resultados estatísticos determinação de médias estatísticas, o estabelecimento dos lin1ites de
estava atramdo atenção crescente. Em sua maior parte, todavia lidava-se variação em torno de uma média, e a investigação das condições sob as
com a questão de maneira empírica. ' quais as variações ocorrem. Ele mostrou, outrossim, corresponder a distri-
l!~ problema estava em decidir quando o número de obsenrações era buição de observações en1 torno de uma média à distribuição de probabi-
s~ftcrentemente grande para se evitar o erro. Diferentes autores usavam lidades em uma curva de probabilidade. A expressão teórica dessa meto-
~rfer:nte~ regras práti~as. Assim, Villermé, em seu estudo sobre os operá- dologia se consumava no conceito, de Quetelet, de homem médio (l'homme
nos textets, calculou a duração provável da vida só onde se havia observa- lllOJ'en). O germe de sua contribuição se encontra e1n Sur l'Homme, publi-
do mais de cem mortes. cado em 1835, e plenan1ente desenvolvida no livro Du SJ'Sttme Social, de
En~uanto os estatísticos médicos ainda andavam às cegas com as
1848.
sol~çoes para o problema da precisão, os matemáticos tinham desenvolvi- Quetelet estava muito preparado para fazer sua importante contribui-
do mst~~mentos para equacioná-lo. A grande obra de Laplace 57 sobre a ção. Durante uma visita a Paris, em 1823 e 1824, ele tinha mantido 1,1m
probabilidade, a Théorie Analytique des Probabilités", tinha aparecido em contato estreito com matemáticos franceses interessados na teoria da
1812. ~~ssa obra, ele chamou a atenção para a importância da teoria da probabilidade, entre os quais Laplace, Fourier e Poisson. l\1Iais tarde,
probablli?_~de __ !~~=-~r_:~~~-~~~~~-õ-~s--~~~-~~~-~--~!~--!~ã~__!_~profundou no
206 UMA HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA
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entrou em relações amistosas com médicos franceses interessados pelo operários fabris associaram a agitação por reforma parlamentar à reivi~d~­
estudo estatístico de problemas de saúde, dos quais os mais importantes cação por menos horas, e melhores condições, de trabalho, e pela prmbl-
eram Villermé e Benoiston de Chateauneuf. Através desses contatos e ção do trabalho de crianças. Começou a luta pela jornada de dez horas e,
influências, e por causa de sua ligação com o manuseio de estatísticas após uma selvagem batalha política, se aprovou o Ato F abril de 1833. Para
oficiais públicas, Quctelet dispunha de dados abundantes. Além disso, profundo desapontamento dos trabalhadores, porém, só o trabalho infan-
como ativo organizador e participante de numerosos congressos de Esta- til recebeu proteção. De fato, os comissários responsáveis pela forma do
tística, ele pôde difundir amplamente suas idéias e sua obra. Por fim, ao ato denunciaram os comitês que reclamavam a jornada de dez horas, sob a
apresentar os resultados de sua análise matemática de modo claro e alegação de que eles "parecem nunca ter pensado que a lei da oferta e da
lúcido, Quetelet conseguiu atingir um grande público; suas numerosas procura se aplica às classes trabalhadoras". Favoreceram, ainda, a legisla-
publicações facilitaram a apreciação geral e a adoção de suas idéias. ção para as crianças mas a consideraram imprópria para mulheres e ho-
O tratamento estatístico de problemas de saúde pública continuou na mens adultos.
segunda metade do século XIX, quando Francis Galton 63 e Karl Pearson64 O ato se estendia a todas as fábricas têxteis, com exceção das de cordão.
começaram a enfrentar o problema das variações correlacionadas e da Proibia-se completamente o emprego de crianças menores de nove anos
assimetria das distribuições de freqüência. Abria-se, assim, o p'eríodo de idade e se determinava não trabalharem as crianças entre nove e treze
mais recente na análise estatística de problemas de saúde. anos mais do que nove horas por dia, ou quarenta e oito horils por semana.
Para pessoas entre treze e dezesseis anos, limitava-se a jornada de traba-
MULHERES E CRIANÇAS PRIMEIRO. Intimamente relacionado com o lho a doze horas por dia, sessenta e nove por semana. Proibia-se também
movimento da saúde urbana estava o clamor por melhoria das condições limpar máquinas em funcionamento, e se exigia de cada dono de fábrica a
de trabalho. Alguns dos males presentes nas primeiras fábricas eram a garantia de duas horas de escola, por dia, para todas as crianças emp:ega-
jornada de trabalho extremamente longa, sob condições insalubres, o das em sua usina. Por fim, e o mais importante, tentava-se, por melO da
e~prego generalizado do trabalho barato de mulheres e crianças, os nomeação de quatro inspetores. assegurar o cumprimento da lei. Os
~crden:es freqüentes devidos a máquinas, a falta de ventilação e o tempo inspetores tinham poderes de entrar em qualquer fábrica a qualquer
msuficrente para as refeições. Pode-se considerar que a reforma fabril se instante, de chamar testemunhas para pedir informação, e até mesmo de
iniciou em 1802, na Inglaterra, com a aprovação do Ato da Saúde e da ditar regulamentações menores. A informação recolhida devia ser usada
Moral dos Aprendizes (veja pág. 167). Essa medida proibia o trabalho na elaboração de relatórios anuais sobre as condições nas fábricas. Nesses
noturno para os aprendizes pobres nas fábricas de algodão, e não era, relatórios, os inspetores não se confinavam, simplesmente, a suas tarefas
estritamente, um Ato Fabril, mas uma extensão da Lei dos Pobres isabe- legais, mas se ocupavam, no sentido mais amplo 1 com a vida social e o
lina relativa aos aprendizes da freguesia; como o governo fosse responsá- bem-estar dos trabalhadores.
vel por essas crianças, viu-se compelido a regular suas condições de Essas atividades, e uma série de catástrofesl atraíram a atenção para as
trabalho. Nas décadas seguintes aprovaram-se novas medidas. Por volta condições nas minas. Parece provável, ainda, que o reconhecimento da
de 1831, passou-se a proibir o trabalho noturno para empregados de necessidade de estudá-las tenha resultado da suspeita de se estar envian-
menos de vinte e um anos, e se estendeu a semana de sessenta e nove do as crianças, proibidas de trabalhar em fábricas 1 para n1inas de carvão.
horas a todos os trabalhadores menores de dezoito anos; deve-se lembrar Em 1840, graças a uma moção de Lorde Ashley, se instalou uma comissão
que essas medidas só se aplicavam aos empregados de fiações de algodão. para investigar o trabalho infantil em minas e fábricas. A comissão consis-
Só em 1833 se aprovou o primeiro Ato Fabril efetivo. E apenas como tia de quatro membros, dois dos quais - Southwood Sn1ith, o médico
subproduto d? conflito amargo entre os interesses industriais e agrários, e ativo na reforma sanitária, e Thomas Tooke, um economista- tinham
a contínua agrtação dos próprios trabalhadores- durante as décadas de participado da Comissão da Fábrica, de 1833. Os dois outros membros-
1830 e de 1840- o movimento pela reforma das fábricas tornou-se parte Leonardo Horner e R. J. Saunders - eram inspetores fabris. Nomearam-
da luta, mais ampla, entre as duas drvisões principais do grupo dominante se vinte subcomissários para trabalhar sob suas ordens. E em 1842 a
________ -~-r~t~_nic~_: -~s ~~~?~~-~-=~~~~--~e terra _e ~-s- ~anufa~?~~~~~_o_ ~~~?2o_~~:r!P~~-~-- Comissão publicou seu primeiro relatório, relativo a minas. Uma série de
---~-
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'~ívidos desenhos de mulheres e crianças ilustrava a evidência do relató- influir sobre a saúde dos trabalhadores na indústria de mineração britâ-
no._Southwood Smith incluiu-os, para que "membros do Parlamento, que mca.
s~ Julgasse~1 _ocupados den~ais p