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CUCHE, Denys. Cultura e Identidade.

In: A Noção de Cultura nas Ciências


Sociais. Bauru : EDUSC, 1999.

O sexto capítulo, intitulado Cultura e Identidade, da obra A Noção de Cultura


nas Ciências Sociais, da autoria de Denys Cuche trata de percepções acerca da
identidade, bem como algumas questões que se referem à mesma.

Denys Cuche apresenta-nos inicialmente duas perspectivas distintas sobre o


conceito de identidade cultural, a primeira diz respeito à concepção objetivista e a
segunda, subjetivista.

De acordo com o autor, a ótica objetivista da concepção de identidade cultural,


concebe a identidade como algo que se define a partir de fundamentos determinados (ou
até mesmo predeterminados), como religião, genealogia, língua, a cultura e etc. As
ênfases são ora colocadas sobre a heditariedade biológica, ora sobre a cultura, que
considera uma imposição da identidade ao individuo pelo grupo cultural de origem.
Essa perspectiva, em suas ênfases, vê a identidade cultural como algo inato,
preexistente, definitivo ou ainda imposto ao individuo.

Já a abordagem subjetivista, volta-se para o sentimento de pertença, para a


vinculação ou identificação a certa coletividade. Para os “subjetivistas”, a identidade
cultural é algo que carrega em si a liberdade de identificação, ou seja, o individuo é livre
para se identificar, para escolher identificações e ainda, concebem às identidades uma
natureza variante.

No que diz respeito às concepções objetivistas e subjetivistas, o autor destaca


que elas se abstém do contexto das interações em que as identidades foram formadas e
apresenta-nos uma abordagem relacional sobre o conceito.

Frederik Barth foi quem, pioneiramente, deu ao conceito de identidade uma


abordagem relacional, considerando-a como uma construção do social, que se dá dentro
de contextos sociais, onde se estabelecem determinadas relações entre as coletividades.
De acordo com Barth, a identidade se constitui numa relação de oposição entre grupos,
de maneira que, sendo produto desta relação, a identidade deve ser compreendida de
acordo com o contexto das relações entre os diferentes grupos que interagem e
diferenciam-se.
Nesse momento, a identidade passa a ser entendida por um viés dinâmico, não
mais como algo inato e permanente, mas decorrente das “trocas sociais” entre o sujeito
ou membros de um grupo, numa relação estreita entre identificação e alteridade.

A identidade é também algo presente em lutas sociais, sendo até mesmo motivo
destes conflitos, considerando o poder, autoridade e dominação. Um grupo em relação
de dominação com outro grupo tem autoridade e poder para impelir definições tanto a si
mesmos quanto ao grupo dominado, neste caso podendo levar a identidade negativa. Por
isso, nos explica Bourdieu:

“Somente os que dispõem de autoridade legítima, ou seja, de


autoridade conferida pelo poder, podem impor suas próprias
definições de si mesmos e dos outros. O conjunto de definições de
identidade funciona como um sistema de classificação que fixa as
respectivas posições de cada grupo.” (BOURDIEU apud CUCHE,
1980, p.186)

Denys Cuche discorre também sobre a identidade e sua relação com o Estado
moderno afirmando que, após a constituição do modelo de Estado-Nação, a identidade
tornou-se “um assunto de Estado.” Isto acontece porque o Estado torna-se uma espécie
de regulador das identidades, transformando-as em uma só, seja pelo fato de legitimar
apenas uma definida como nacional ou ainda, somente uma identidade padronizada e
legitimada mesmo que existam múltiplas identidades em seu interior. Este regulador das
identidades é cada vez mais rígido e faz com que seus membros fiquem cada vez mais
aprisionados à mono-identificação imposta por ele, gerando diversos conflitos e reações
à esta ação.

Considerando a identidade como uma construção do social e a complexidade


inerente à ela, uma única definição se torna dificultosa. O contexto das relações onde as
identidades se formam é marcado pela diversidade, fazendo com que ela possa carregar
consigo um caráter multidimensional.

É o que ocorre com o fenômeno da identidade mista, que pode acontecer quando
o individuo está em contato com diversas culturas, ou melhor, com várias referencias
com as quais ele possa se identificar em determinado contexto relacional. Com isto, o
sujeito constrói sua identidade com uma espécie de síntese dessas referencias e
vinculações presentes no ambiente social do qual faz parte.
A identidade pode estar também vinculada a estratégias. Seu caráter dinâmico e
multidimensional permite que ela possua grande variabilidade, recorrentes
reformulações e seja até mesmo manipulada. A estratégia de identidade, considerada
sobre esse prisma, é vista como um meio para atingir determinados objetivos. Dessa
forma, os atores sociais constroem, desconstroem, reinventam e deslocam suas
identidades de acordo com cada situação específica, seja para burlar a discriminação,
para reivindicar algo ou ainda proteger sua própria vida.

“A identidade não existe em si mesma, independentemente das


estratégias de afirmação dos atores sociais que são ao mesmo tempo o
produto e o suporte das lutas sociais e políticas.” (BELL apud
CUCHE, 1975, p. 197)

Por fim, é tratada neste capítulo a questão das fronteiras da identidade, de acordo
com as concepções de Frederik Barth. Para Barth, na identificação é definida a divisa
entre “eles” e “nós”, de maneira que fique estabelecida uma fronteira simbólica. O que
faz com que essa fronteira exista, é a diferenciação e traços específicos ao delimitar
determinada identidade. Esta percepção de identidade mostra-nos a distinção entre
cultura e identidade, ou seja, o individuo pode fazer parte de certa cultura e, contudo
não partilhar de uma identidade particular.

“A identidade etno-cultural usa a cultura, mas raramente toda a


cultura. Uma mesma cultura pode ser instrumentalizada de modo
diferente e até oposto nas diversas estratégias de identificação.” (p.
201)

Dessa forma, as fronteiras da identidade podem frequentemente se transformar,


pois dependem das interações sociais e das mudanças sociais, econômicas e políticas. O
estudo dessas transformações nas fronteiras é de suma importância na análise das
identidades, para que se possa compreender a suas constantes variações.