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José Luiz Fiorin*

FIORIN, José Luiz. Língua, discurso e política. Alea [online]. 2009, vol.11, n.1, pp. 148-165.

Commons

Programa de Pos-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras,


Unversidade Federal do Rio de Janeiro

Av. Horácio Macedo, 2151


Cidade Universitária

Introdução

Para discutir a questão das relações entre língua, discurso e política, é preciso
primeiro saber o que é política. Os universos discursivos historicamente
determinados fornecem categorias que permitem fazer um uso intuitivo desse
termo: por exemplo, fala-se em greve política em oposição a uma greve
reivindicativa; fala-se em Comissão Parlamentar de Inquérito política, quando se
diz ou se insinua que sua motivação não é o exercício do poder fiscalizador do
parlamento, mas é o jogo eleitoral. Nesse sentido, pode-se dizer que política diz
respeito à obtenção, ao exercício e à conservação do poder governamental. Esse é
um dos significados que Aristóteles dá à palavra: "... como foi possível um dado
governo, qual foi sua origem e como, uma vez constituído, pôde sobreviver o maior
tempo possível."*2 A política concerne à esfera do Estado em oposição ao domínio
privado.

Entretanto, a questão não é tão simples assim. Sua definição passa a tornar-se
mais fluida no momento em que começam a ser elevadas a essa categoria certas
práticas que não faziam parte da definição tradicional da palavra: fala-se em
política do corpo, politizar a sexualidade, política de cotas, política de ação
afirmativa etc. Ademais, depois de Foucault,*3 sabe-se que o poder não é uno, mas
múltiplo. Ele não tem um lugar demarcado na tópica social, mas está por toda
parte: nas instituições, no ensino, nas relações familiares, nos grupos de colegas,
nos movimentos sociais, na arte, nos espetáculos, na imprensa... Por toda parte,
há vozes autorizadas, chefes, igrejas, dogmas, excomunhões, sumos sacerdotes,
pequenos ditadores, opressores... Ele não tem um tempo, mas perpassa toda a
História. Assim, a política diz respeito ao poder, ou melhor, aos poderes. Isso
permite incorporar à política não só o que está dentro do campo da aceitabilidade
tradicional desse termo, mas também todas as relações de poder que se exercem
na vida cotidiana.

A questão das relações entre língua, discurso e política pode ser tratada de vários
ângulos:

a) a natureza intrinsecamente política da linguagem e de suas manifestações, as


línguas;

b) as relações de poder entre os discursos e sua dimensão política;

c) as relações de poder entre as línguas e a dimensão política de seu uso;

d) as políticas linguísticas.

Neste texto, trataremos apenas dos dois primeiros itens.


A natureza intrinsecamente política da linguagem

A linguagem é a capacidade de os seres humanos comunicarem-se por meio de um


sistema de signos. Essa faculdade corporifica-se em línguas, sistemas de signos
utilizados por diferentes comunidades linguísticas. Como dizia Saussure, a língua
"não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial
dela, indubitavelmente".*4 A língua "é, ao mesmo tempo, um produto social da
faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo
corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos".*5 Para
Saussure, a língua é "um princípio de classificação".*6 O discurso é a atividade
verbal social.

A chamada hipótese Sapir-Whorf mostra que a língua modela a representação do


mundo de cada falante. Fundamentando-se em ideias de Sapir,*7 Whorf*8 nota que
as categorias fundamentais do pensamento, como tempo, espaço, sujeito, objeto,
são diferentes de uma língua para outra. As línguas, tanto no léxico, quanto na
gramática, categorizam o mundo.1 As partes do discurso das línguas indo-
europeias, que opõem o agente à ação, as coisas às relações, os objetos às
propriedades, impõem ao falante uma reificação do mundo, que é visto como um
conjunto de coisas. Já uma língua, como o hopi, por exemplo, vê a realidade como
uma soma de processos. Whorf formula, então, o princípio da relatividade
linguística: há tantas maneiras de representar o mundo, de categorizar a realidade
quantas são as línguas existentes. Nenhum falante pode escapar à organização e
classificação dos dados estabelecidas por uma língua. O mundo é um fluxo
caleidoscópico de impressões, que são organizadas pelo sistema linguístico.

Foge aos propósitos deste trabalho uma discussão minuciosa dessa hipótese. O que
é certo é que a língua é produto do meio social e, uma vez constituída, tem um
papel ativo no processo de conhecimento e comportamento do homem. A língua
não é uma nomenclatura, que se apõe a uma realidade pré-categorizada, ela é que
classifica a realidade. Tomemos um exemplo: em português, chama-se posse a
investidura, por exemplo, na Presidência da República; em inglês, inauguration; em
francês, investiture. A palavra portuguesa dá ideia de assenhorear-se de alguma
coisa, de domínio; a inglesa indica apenas começo; a francesa diz respeito ao
recebimento da uma função. Esses termos têm, sem dúvida, relação com a maneira
como concebemos o poder do Estado.

A língua desenvolve-se historicamente e, uma vez constituída, impõe aos falantes


uma maneira de organizar o mundo. Quando Wilhelm von Stock traduzia Antero de
Quental para o alemão, escreveu ao poeta português sobre a dificuldade de verter
para o alemão o soneto Mors-Amor, porque as duas figuras alegóricas - o Amor e a
Morte - têm gêneros diferentes nas duas línguas (o amor/Die Liebe - a morte/der
Tod). Responde Antero que "esse é um caso interessante de influência da língua
sobre a imaginação", pois representam a morte como mulher os falantes de uma
língua em que a palavra para designá-la é feminina e como homem aqueles que
falam um idioma em que o termo é masculino.*9

Carolina Michaelis de Vasconcelos, a propósito do mesmo assunto, comentou que


os falantes do alemão representam a morte como um cavaleiro esquelético,
montado em fogoso corcel.*10

Nenhum desses autores relacionou a imposição de uma maneira de ordenar o


mundo à questão do poder. Roland Barthes, na sua aula inaugural no Collège de
France, no entanto, o fez (1980). Com isso, demonstrou a natureza
intrinsecamente política das línguas.

O semiólogo francês mostra que o "objeto em que se inscreve o poder é a


linguagem ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua".*11 O
poder reside na língua, porque ela é uma classificação e "toda classificação é
opressiva".*12 A partir daí, Barthes formulou uma ideia, que é repetida sem cessar:
"A língua, como desempenho de toda a linguagem, não é reacionária, nem
progressista; ela é simplesmente fascista, pois o fascismo não é impedir de dizer, é
obrigar a dizer".*13 Com efeito, a língua, na medida em que é uma categorização do
mundo, uma maneira de vê-lo, obriga-nos a representar a realidade com suas
categorias, só se pode falar com elas. Se disséssemos que a língua é reacionária ou
progressista, estaríamos afirmando que ela é um lugar de poder e um de
contrapoder. No entanto, só pode haver liberdade fora da linguagem e, ao mesmo
tempo, ela é um lugar fechado, que não nos permite situarmo-nos no seu
exterior.*14 Se a língua é o lugar da submissão do indivíduo, de sua sujeição, então
é o lugar por excelência da inscrição do poder. Em português, os seres são
classificados em masculinos ou femininos. O genérico é expresso obrigatoriamente
pelo masculino. Não posso expressá-lo pelo feminino nem tenho uma categoria
genérica distinta do masculino. Homem é "ser humano do sexo masculino" e
também "ser humano em geral", enquanto mulher é apenas "ser humano do sexo
feminino". Em latim e grego, havia uma palavra para o "ser humano" (homo e
ánthropos), uma para o "ser humano do sexo masculino (uir e anér) e uma para o
"ser humano do sexo feminino" (mulier e guiné). A mesma coisa acontece em
romeno: om, bǎrbat, femei. Em romeno, pode-se referir a uma terceira pessoa
usando um pronome que indica respeito por ela (dînsul) ou um pronome que é
neutro do ponto de vista da reverência (el). Em português, sempre nos referimos a
uma terceira pessoa de forma neutra, nem respeitosa nem desrespeitosa. Em
romeno, há dois termos para designar o trabalho: muncǎ e lucrare. O primeiro
surge nas regiões em que vigia o trabalho servil e vem de um termo que indicava
uma forma de tortura; o segundo aparece nas regiões em que o trabalho era livre.
Para designar o trabalho forçado, somos obrigados sempre a utilizar o primeiro:
muncǎ silnicǎ. O signo é um estereótipo, porque é uma abstração, ele deixa de fora
determinados elementos de significação que poderiam nele figurar. Só percebo o
que nele figura, só falo com o que nele está presente. Poderíamos continuar
desfiando exemplos de como a língua nos obriga a dizer. No entanto, bastam esses
para mostrar que ela é um espaço de poder de tal forma coercitivo que não nos
permite colocarmo-nos fora dela e, ao mesmo tempo, obriga-nos a falar, a
representar, a simbolizar com suas categorias.

As relações de poder entre os discursos e sua dimensão


política

Para Barthes, no entanto, há a possibilidade de "trapacear a língua".*15 Trapaceia-


se a língua no exercício da atividade verbal, ou seja, no nível do discurso. Barthes
considera que a literatura é a trapaça por excelência da linguagem, é "o logro
magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, numa revolução permanente da
linguagem".*16 Entretanto, o próprio Barthes diz que, quando fala em literatura, tem
em mira o texto, ou seja, o "tecido de significantes que constitui a obra" e,
portanto, literatura é sinônimo aqui de texto, de escritura.*17 Antes de pensar na
literatura como o lugar que "permite ouvir a língua fora do poder", sigamos a
sugestão de Barthes e pensemos no discurso em geral.
Bakhtin mostra que o dialogismo é é o modo de funcionamento real da linguagem
e, portanto, é seu princípio constitutivo.

Os homens não têm acesso direto à realidade, pois nossa relação com ela é sempre
mediada pela linguagem. Afirma Bakhtin que "não se pode realmente ter a
experiência do dado puro".*18 Isso quer dizer que o real se apresenta para nós
semioticamente, o que implica que nosso discurso não se relaciona diretamente
com as coisas, mas com outros discursos, que semiotizam o mundo. Essa relação
entre os discursos é o dialogismo. Se não temos relação com as coisas, mas com os
discursos que lhes dão sentido, o dialogismo é o modo de funcionamento real da
linguagem, uma vez que

[...] todo discurso concreto (enunciação) encontra aquele objeto para o qual está
voltado, sempre, por assim dizer, desacreditado, contestado, avaliado, envolvido
por sua névoa escura ou, pelo contrário, iluminado pelos discursos de outrem que
já falara sobre ele. O objeto está amarrado e penetrado por ideias gerais, por
pontos de vista, por apreciações de outros e por entonações. Orientado para o seu
objeto, o discurso penetra neste meio dialogicamente perturbado e tenso de
discursos de outrem, de julgamentos e de entonações. Ele se entrelaça com eles
em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando
com terceiros; e tudo isso pode formar substancialmente o discurso, penetrar em
todos os seus estratos semânticos, tornar complexa a sua expressão, influenciar
todo o seu aspecto estilístico.*19

Como não existe objeto que não seja cercado, envolto, embebido em discurso, todo
discurso dialoga com outros discursos, toda palavra é cercada de outras palavras.*20

Como nota Faraco, um dos significados da palavra diálogo é o que remete a


"solução de conflitos", "entendimento", "promoção de consenso"; no entanto, o
dialogismo é tanto convergência, quanto divergência; é tanto acordo, quanto
desacordo; é tanto adesão, quanto recusa; é tanto complemento, quanto
embate.*21 Prossegue ainda Faraco, mostrando que, na verdade, "o Círculo de
Bakhtin entende as relações dialógicas como espaços de tensão entre os
enunciados", pois, "mesmo a responsividade caracterizada pela adesão
incondicional ao dizer de outrem se faz no ponto de tensão deste dizer com outros
dizeres (outras vozes sociais)".*22 Isso significa que, do ponto de vista constitutivo,
o dialogismo "deve ser entendido como um espaço de luta entre as vozes
sociais".*23 Assim, pode-se dizer que, constitutivamente, a relação dialógica é
contraditória.

No "simpósio universal",*24 que poderíamos interpretar como uma formação social


específica, definida pelo presente de seus múltiplos enunciados contraditórios, pelo
passado discursivo, a tradição de que é depositária, e pelo futuro discursivo, suas
utopias e seus objetivos, atuam forças centrípetas e centrífugas. Aquelas buscam
impor uma centralização enunciativa no plurilinguismo da realidade; estas
procuram minar, principalmente, por intermédio da derrisão e do riso, essa
tendência centralizadora.*25 As ditaduras são centrípetas; as democracias
centrífugas.

Como observa Faraco, Bakhtin, com os conceitos de forças centrípetas e forças


centrífugas, "aponta para a existência de jogos de poder entre as vozes que
circulam socialmente".*26 Isso significa que, para o autor russo, não há uma
neutralidade na circulação de vozes. Ao contrário, ela tem uma dimensão política.
As vozes não circulam fora do exercício do poder; não se diz o que se quer, quando
se quer, como se quer. Não se trata apenas da atuação do campo tradicional da
política, ou seja, a esfera do Estado, estão em causa todas as relações de poder,
que se exercem desde as relações do dia a dia até o exercício do poder do Estado.
Não podemos dirigir-nos, com determinadas fórmulas empregadas na intimidade, a
uma autoridade, a uma pessoa mais velha, a alguém a quem não conhecemos.
Certos assuntos são tabus: alguns se admitem numa grande intimidade; outros não
são tolerados em hipótese alguma, são até capitulados no Código Penal.

A utopia bakhtiniana é "a resistência a qualquer processo centrípeto,


centralizador";*27 o dialogismo incessante é "a única forma de preservar a liberdade
do ser humano e do seu inacabamento; uma relação, portanto, em que o outro
nunca é reificado; em que os sujeitos não se fundem, mas cada um preserva sua
própria posição de extraespacialidade e excesso de visão e a compreensão daí
advinda".*28 A singularidade do sujeito ocorre na "interação viva das vozes sociais"
e, por isso, ele é social e singular.*29

As instituições sociais tornam-se lugares do poder, ao colocar-se fora da utopia


bakhtiniana de resistência a qualquer processo centrípeto, transformando seu
discurso, que é sempre particular, um dentre os que constituem o mesmo campo
discursivo, em discurso universal. Nesse momento, ele é o discurso do poder e,
como diz Barthes, "engendra o erro" e, por conseguinte, a culpabilidade.*30 Aí
surgem dogmas, hereges, fiéis... Isso é feito não só pelas igrejas, mas também
pelos partidos, pelas escolas, pela imprensa... Não se pode criticar, não se pode
duvidar, não se pode dissentir... Pode-se apenas aceitar e repetir. Aparecem todas
as formas de silenciamento. É notável que, mesmo na universidade, que trabalha
com a ciência, que apresenta sempre modelos parciais e provisórios de explicação
da realidade, uma teoria científica passa a ser vista como "a" verdade.

De um lado, a censura pode, claramente, proibir de dizer. Na ditadura brasileira de


1964, os jornais e revistas estavam sob censura e, por isso, não podiam noticiar
certos fatos, como a demissão do ministro da Agricultura, Cirne Lima ou uma
epidemia de meningite. Essa é a forma mais brutal e evidente de silenciamento.
Também, nesse caso, pode-se trapacear, desvelando o ato censório, como fez o
jornal O Estado de S. Paulo, que, no período em que esteve sob censura, publicava
trechos de Os Lusíadas ou receitas de cozinha, no lugar das notícias proibidas. Há
outra forma de silenciamento, que é aquela que procura apagar o passado,
reescrevê-lo, como no exemplo da célebre foto em que Trotsky aparecia ao lado de
Lênin e em que, no período stalinista, a figura do primeiro foi apagada. Mas há uma
forma mais sutil de silenciamento, é aquela que impede que certos discursos sejam
proferidos, é aquela que impede a derrisão e o riso, é aquela que sacraliza certos
temas: é o que ocorreu com a caricatura de Maomé publicada por um jornal
dinamarquês, é o que faz todos os dias o discurso politicamente correto, é o que
buscam fazer certas tendências políticas. É proibido criticar, não se pode senão
reproduzir uma determinada vulgata. Há um silenciamento ainda mais pernicioso, é
aquele que reduz seres humanos ao silêncio, por não dominarem certas práticas de
linguagem: por exemplo, a escrita, certos discursos, certos modos de dizer... No
conto Famigerado, de Guimarães Rosa, o jagunço Damázio está silenciado, porque
não pertence a um dado universo de discurso: "Não há como que as grandezas
machas duma pessoa instruída";*31 "Lá, e por estes meios de caminho, não tem
ninguém ciente, nem tem o legítimo - o livro que aprende as palavras...".*32 Ele não
sabe se o termo famigerado é positivo ou negativo, se é "desaforado", "caçoável",
"farsância", "nome de ofensa", "de arrenegar"*33 e vai perguntar ao médico, que lhe
mente, dizendo que famigerado é "importante", "que merece louvor e respeito".

O silenciamento, no entanto, não é apenas explícito, como nos casos arrolados. Ele
também é constitutivo do discurso. Com efeito, as relações dialógicas determinam
um ponto de vista na interpretação dos fatos e acontecimentos, que silencia ou
pode silenciar outros. Não temos acesso direto à realidade, ele sempre vem
mediado pela linguagem, que não é neutra. Estamos em lugares discursivos
diferentes se, ao discutir a os acontecimentos bélicos na faixa de Gaza, dissermos
que um soldado israelense foi apanhado, sequestrado ou capturado pelos militantes
do Hamas; que os que pertencem a este movimento são terroristas, militantes ou
soldados; que a entrada do exército de Israel em Gaza é uma invasão ou uma
resposta a um ataque. A mesma coisa acontece, se, ao discutir o problema da
moradia, dissermos que os sem-teto invadiram ou ocuparam um prédio vazio. Um
artigo escrito por Ethan Broner mostra, com clareza, como cada espaço discursivo
põe em evidência certos sentidos para os mesmos termos e apaga outros:

Entre os israelenses, "sionismo" está envolto numa espécie de brilho celestial,


sugerindo sacrifício e nobreza. Mas no restante do Oriente Médio, "sionismo"
representa roubo, opressão, racismo. O muro que cruza a Cisjordânia é uma
"muralha" para os palestinos e uma "cerca" para Israel. O conflito de 1948, que
criou Israel, é a "Guerra da Independência" para uns, a "Catástrofe" para outros.*34

O dialogismo constitutivo funda o que Maingueneau vai chamar uma


interincompreensão generalizada, dado que cada discurso considera o sistema
semântico do Outro em termos de categorias negativas do seu próprio discurso. Ler
as categorias do Outro como categorias negativas do Um não pode ser atribuído à
má fé, mas ao modo de constituição das formações discursivas.*35 O modo conflitual
de constituição do discurso implica a tradução do outro como negatividade,
silenciando, assim, sua positividade. Há um texto de Castelo Branco em que esse
desentendimento recíproco fica evidenciado.

Nessa estranha linguagem, aqueles que desejam o desenvolvimento econômico, na


moldura de uma sociedade democrática, pregando a cooperação entre as classes e
não a luta de classes, e aberto à cooperação internacional para evitar a repressão
do consumidor, são chamados "reacionários" e "entreguistas"; os que almejam
implantar o totalitarismo de esquerda, muito menos benéfico à grande massa
trabalhadora do que à oligarquia burocrática do partido, se intitulam "forças
populares de vanguarda", quando não pretendem, com trágica ironia, ser paladinos
da "democracia popular". Alguns empresários que exploram o nacionalismo para
proteger a sua ineficiência e preservar posições de monopólio, não hesitando para
isso em apoiar e financiar a esquerda subversiva, passam a ser membros da
"burguesia nacional progressista"; enquanto que outros, preocupados em absorver
recursos e tecnologia externa, para reforçar nossa poupança e acelerar o
desenvolvimento econômico, são acusados de "alienados" e "antinacionais". A
agressão e a infiltração para acorrentar os indivíduos e nações ao serviço da causa
comunista passam a ser descritas como "guerras de libertação nacional"; enquanto
os países que preferem resistir a essa subjugação, para decidirem o seu próprio
destino, estão arrolados como "vassalos do imperialismo ocidental". E que dizer da
suprema deturpação semântica, segundo a qual os que desejam subordinar o nosso
sistema de vida e escravizar nossas instituições a ideologias estranhas passam a
ser proprietários e árbitros do "nacionalismo"? [...]
Pois, meus caros amigos, não basta combater a subversão institucional e a
corrupção moral: é necessário, também, combater a corrupção semântica, que
distorce a realidade dos fatos e procura nos impedir a visão objetiva e racional de
nossos deveres e de nossa responsabilidade.*36

Tendo levado em consideração todos esses processos de silenciamento, pode-se


dizer com Guimarães Rosa que o silêncio constitui o enunciador: "O senhor sabe o
que o silêncio é? É a gente mesmo, demais."*37

O discurso tem também uma dimensão política na construção da consciência das


pessoas.*38
A consciência constrói-se na comunicação social, ou seja, na sociedade, na História.
Por isso, os conteúdos que a formam e a manifestam são semióticos. A apreensão
do mundo é sempre situada historicamente, porque o sujeito está sempre em
relação com outro(s). O sujeito vai constituindo-se discursivamente, apreendendo
as vozes sociais que constituem a realidade em que está imerso, e, ao mesmo
tempo, suas inter-relações dialógicas. Como a realidade é heterogênea, o sujeito
não absorve apenas uma voz social, mas várias, que estão em relações diversas
entre si. Portanto, o sujeito é constitutivamente dialógico. Seu mundo interior é
constituído de diferentes vozes em relações de concordância ou discordância. Além
disso, como está sempre em relação com o outro, o mundo exterior não está nunca
acabado, fechado, mas em constante vir a ser. Por isso, a consciência vai
alterando-se.

Nesse processo de construção da consciência, as vozes são assimiladas de


diferentes maneiras. Há vozes que são incorporadas como a voz de autoridade. É
aquela a que se adere de modo incondicional, que é assimilada como uma massa
compacta e, por isso, é centrípeta, impermeável, resistente a impregnar-se de
outras vozes, a relativizar-se. Pode ser a voz da Igreja, do Partido, do grupo de que
se participa etc.*39

Outras vozes são assimiladas como posições de sentido internamente persuasivas.


São vistas como uma entre outras. Por isso, são centrífugas, permeáveis à
impregnação por outras vozes, à hibridização, e abrem-se incessantemente à
mudança.*40

Sendo a consciência sociossemiótica, ou seja, formada de discursos sociais, o que


significa que seu conteúdo é sígnico, cada indivíduo tem uma história particular de
constituição de seu mundo interior, pois ele é resultante do embate e das inter-
relações desses dois tipos de vozes. Quanto mais a consciência for formada de
vozes de autoridade, mais ela será monológica, ptolomaica.*41 Quanto mais for
constituída de vozes internamente persuasivas, mais será dialógica, galileana.*42

Bakhtin qualifica de ptolomaica a consciência mais rígida, mais organizada em torno


de um centro fixo, como era o sistema planetário de Ptolomeu, em que a Terra era
fixa. Já galileana é a consciência mais aberta, mais móvel, não organizada em
torno de um centro fixo, como é o sistema de Galileu, em que a Terra se move.

O mundo interior é a dialogização da heterogeneidade de vozes sociais. Os


enunciados, construídos pelo sujeito, são constitutivamente ideológicos, pois são
uma resposta ativa às vozes interiorizadas. Por isso, eles nunca são expressão de
uma consciência individual, descolada da realidade social, uma vez que ela é
formada pela incorporação das vozes sociais em circulação na sociedade. Mas, ao
mesmo tempo, o sujeito não é completamente assujeitado, pois ele participa do
diálogo de vozes de uma forma particular, porque a história da constituição de sua
consciência é singular. O sujeito é integralmente social e integralmente singular.
Ele é um evento único, porque responde às condições objetivas do diálogo social de
uma maneira específica, interage concretamente com as vozes sociais de um modo
único. A realidade é centrífuga, o que significa que ela permite a constituição de
sujeitos distintos, porque não organizados em torno de um centro único.

A consciência ptolomaica é aquela que não contesta o poder. A galileana é aquela


que pode combater os poderes.

Para Roland Barthes, a literatura é o discurso em que melhor se contesta a língua,


em que se mais desvia a língua, a partir de seu interior mesmo. Isso se faz "não
pela mensagem de que ela é instrumento, mas pelo jogo de palavras de que ela é
teatro".*43 Na literatura, exerce-se um deslocamento que incide sobre a própria
língua. Com efeito, quando, por exemplo, se homologam categorias da expressão a
categorias do conteúdo, como nas aliterações, assonâncias, ritmos, rimas etc., põe-
se em causa o princípio da arbitrariedade do signo, restituindo-lhe uma motivação.

Guimarães Rosa, em inúmeras passagens de sua obra, coloca em xeque as normas


de formação de palavras em português, produzindo um deslocamento da
morfologia do idioma.

Deslocam-se os sentidos das palavras, jogando-se com eles. Glauco Mattoso


reproduz um poema de Bráulio Tavares:

Eu quero é a orgia!
A safadeza!
A indecência!

Deixo pros padres


E pros militares
A continência.*44

O poema joga com os dois sentidos da palavra continência: "castidade" e


"saudação militar", para se posicionar contra os comportamentos contidos, as
hierarquias, as normas de decência, preconizando um mundo de liberdade.

Esses deslocamentos operam em todos os níveis e dimensões da língua.

Para Barthes, há três forças que atuam na literatura: máthesis (conhecimento),


mímesis (representação), semiósis (significação).*45

A literatura é uma forma de conhecimento (máthesis), mas no sentido de que ela


assume todos os saberes: as ciências, a política, a religião, a filosofia... Desse
ponto de vista, a literatura é sempre realista. Ela não fixa nenhum conhecimento,
não fetichiza nenhum. Trabalha nos interstícios dos diferentes saberes, fazendo
emergir "saberes possíveis, insuspeitos, irrealizados". Ela desconfia de todos os
conhecimentos. Por isso, o saber que ela mobiliza não é completo nem
derradeiro.*46 Seria muito cômodo exemplificar com um autor, como Júlio Verne,
que imaginou, por exemplo, aparelhos que seriam inventados muito depois de ele
ter escrito. Em Paris do século XX,*47 obra de sua juventude (escrita em 1863, mas
publicada somente em 1994), ele imagina a capital francesa em 1969 e antecipa os
desenvolvimentos futuros do motor a explosão, do telégrafo fotográfico (fax) e
ainda do trem de ferro subterrâneo (metrô). Ou ainda com O presidente negro ou o
choque das raças: romance americano de 2228, de Monteiro Lobato,*48 em que se
fala da eleição de um presidente negro nos Estados Unidos. Melhor para perceber
os interstícios em que trabalha a literatura é a visão irônica de Machado sobre a
História, que contrasta com o objetivismo cientificista, que era o ideal das ciências
humanas no século XIX. Apresenta uma concepção não realista da História, porque,
de um lado, afasta-se da poética aristotélica da verossimilhança; de outro, não
compartilha das visões historicistas que presidem ao romance do século XIX. A
história é uma "eterna loureira", sujeita a releituras e reinterpretações:

[...] Suetônio deu-nos um Cláudio, que era um simplório, - ou uma "abóbora",


como lhe chamou Sêneca, e um Tito, que mereceu ser as delícias de Roma. Veio
modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois césares, o
delicioso, o verdadeiro delicioso, foi o "abóbora" de Sêneca. E tu, madama Lucrécia,
flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a Messalina católica, apareceu um
Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lírio,
também não ficaste pântano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio.
Viva, pois, a história, a volúvel história que dá para tudo.*49

Mas a literatura não incorpora apenas os saberes sobre o mundo, opera também
com os saberes sobre a linguagem. Ela não utiliza a linguagem, mas encena-a.*50
Por isso, trabalha com a diversidade dos socioletos, com a variação, com a
mudança, com o dilaceramento da linguagem.

Por encenar a linguagem, ao contrário dos outros discursos, que, constituídos nas
relações dialógicas, silenciam o seu contrário, deixando-o ver apenas no seu
avesso, a literatura desvela um espaço discursivo, expondo suas contradições. Érico
Veríssimo, em O senhor embaixador,*51 conta, entre outras, a história de Pablo
Ortega, primeiro secretário de embaixada da República de Sacramento, ilha do
Caribe, governada despoticamente por um ditador militar, o generalíssimo
Juventino Carrera, apoiado pela oligarquia rural e por duas grandes companhias
norte-americanas. Ele, apesar de ser filho de uma das famílias da oligarquia rural, é
contra o estado de coisas em seu país. Quando eclode uma revolução de esquerda,
ele vai para Sacramento para lutar ao lado dos insurgentes. Quando estes tomam o
poder, recomeçam as mesmas arbitrariedades que existiam sob a ditadura de
direita. Ele então se oferece para defender um compadre do antigo ditador, Gabriel
Heliodoro Alvarado, o embaixador a que se refere o título da obra. Essa atitude
deixa-o em má situação perante o poder revolucionário que se instalara na ilha.
Érico, nesse romance, mostra que o poder é onipresente. Feita uma revolução para
acabar com ele e implantar um regime de liberdade, ele reaparece com as mesmas
arbitrariedades e com a mesma linguagem, só que agora com o sinal invertido. Ao
encenar um espaço discursivo do campo político, Érico tematiza o mal-estar dos
intelectuais, que devem sempre lutar contra o(s) poder(es). Não se apresenta o
discurso da revolução em oposição ao discurso da manutenção da ordem instituída.
Opera-se um deslocamento semântico, que desvela a ideia de que todo poder tem
como suprema finalidade conservar-se no poder. Por isso, ele abandona os ideais
de liberdade com que se instalara.

O discurso da ciência e o de literatura são antípodas. Enquanto aquele busca


ocultar a dimensão da enunciação (por isso, é um discurso em terceira pessoa) e,
por conseguinte, o enunciador; este expõe "o lugar e a energia do sujeito, quiçá
sua falta".*52

A literatura é representação do real (mímesis). No entanto, essa representação é


impossível, porque a ordem da linguagem é diferente da ordem do mundo. A
literatura utiliza expedientes verbais, ora para representar a realidade, ora para
mostrar a inadequação entre a linguagem e o mundo.*53 Quando a obra de arte não
se vê como representação do mundo, mas como linguagem, como semiótica,
apresenta-se explicitamente como poiese. Tem consciência de que a ordem da
linguagem e a ordem do mundo não são perfeitamente homólogas. Por isso, a
linguagem não é representação transparente de uma realidade, mas é criação de
diferentes realidades, de diversos pontos de vista sobre o real. Mostra-nos, por
conseguinte, a relatividade da verdade, a possibilidade de que a realidade seja
outra. Nada há fixo, imutável, verdadeiro. A verossimilhança, nesse tipo de
contrato, é uma construção interna à obra e não uma adequação ao referente,
como pretendem as obras que desejam representar o mundo. Nesse caso, a
literatura desloca os discursos estereotipados dos diferentes campos, como a
ciência, a política etc., que têm como supremo anelo adequar-se perfeitamente à
realidade, e transporta-se para outro lugar, o da linguagem, revelando suas
trapaças e suas artimanhas.
A literatura é também significação (semiósis). Nesse caso, joga com os signos,
criando sempre uma heteronomia das coisas.*54 Por isso, a arte tem sempre uma
função subversiva. Denuncia o poder, mostra não apenas o que existe, mas
também fala do que nunca existiu, apontando para a possibilidade de sua
existência. Indica que a realidade não é única, mas uma entre tantas que poderiam
existir. Ela não é destino e pode ser alterada. A linguagem assinala que também
outra ordem da linguagem é possível, ela implode "regras, coerções, opressões,
repressões"*55 dos discursos sociais das diferentes instituições. O discurso literário
"empurra para outro lugar, um lugar inclassificado, atópico, por assim dizer, longe
dos tópoi da cultura", transporta-nos para longe do "mundo dos casos idênticos".*56

As línguas, a partir dos discursos, podem adquirir uma dimensão explicitamente


política, seja no léxico, seja na gramática. George Orwell, em sua distopia,
intitulada 1984, mostra que, na Oceania, foi criada uma língua oficial, a Novilíngua:

O objetivo da Novilíngua não era apenas oferecer um meio de expressão para a


cosmovisão e para os hábitos mentais próprios dos devotos de Ingsoc, mas
também impossibilitar outras formas de pensamento. O que se pretendia era que,
tão logo a Novilíngua fosse adotada definitivamente e a Anticlíngua esquecida,
qualquer pensamento herético, isto é, divergente dos princípios do Ingsoc, fosse
literalmente impensável, ou pelo menos até o limite em que o pensamento depende
de palavras.*57

As ideias de Orwell baseiam-se na hipótese Sapir-Whorf. Embora Orwell fosse um


mau linguista, pois muitas de suas noções sobre uma língua não têm consistência,
não deixam de ser curiosas as características gramaticais, fonéticas e lexicais da
Novilíngua expostas no romance.*58

Todas as propriedades da Novilíngua convergem para a redução do número de


palavras e para a eliminação da polissemia e da conotação. Dessa maneira, não se
podem pensar determinadas realidades e o controle sobre os indivíduos é total:

Haveria muitos crimes e erros que estariam além da capacidade do homem de


cometê-los, simplesmente pelo fato de que eles não tinham nomes e, portanto,
eram inimagináveis. E se esperava que, com o passar do tempo, as características
que distinguiam a Novilíngua se tornassem cada vez mais pronunciadas; o número
de palavras diminuiria, seus significados se tornariam cada vez mais restritos e a
possibilidade de utilizar palavras de maneira imprópria se tornaria cada vez
menor.*59

A Novilíngua, assim como todas as línguas, tem uma dimensão política: a de


construir o real e de torná-lo dizível. No entanto, essa língua é criada
explicitamente por motivações políticas.

Não mais no domínio da ficção, Victor Klemperer, filólogo e especialista em


Literatura Francesa do século XVII, escreve, em seu diário, de 1933 a 1945,
observações sobre a semântica nazista, ou, segundo ele, as transformações que os
nazistas impõem na língua alemã. Em 1947, ele toma de seu diário as passagens
concernentes ao discurso nazista e publica-as com o título LTI: Lingua Tertii Imperii
(1996). Klemperer era professor na Universidade de Dresden e foi destituído por
ser de origem judaica e designado para trabalhar numa fábrica. Era casado com
uma mulher considerada "ariana" e, por isso, não foi enviado a um campo de
concentração.

Embora Klemperer afirme que vai mostrar em sua obra as transformações que os
nazistas impõem na língua alemã, como não distingue língua e discurso, a maioria
de suas observações diz respeito muito mais ao discurso nazista do que à língua
alemã em sentido estrito. Vejamos alguns exemplos.

Certos termos, conotados negativamente, tornam-se positivos ou vice-versa, o que


indica uma inversão de valores, como ocorre, por exemplo, com a palavra
fanático.*60 Ampliam-se ou restringem-se os significados de determinadas palavras:
por exemplo, heroísmo é utilizado apenas em sua acepção militar.*61 Termos do
domínio esportivo e militar são bastante usadas*62 e invadem os outros campos
semânticos, o da política, o da economia, o do ensino etc. Outros termos têm seu
sentido radicalmente modificado (por exemplo, Abgewandert, "emigrado", passa a
significar "deportado").*63 Usam-se eufemismos para travestir o significado real: por
exemplo, solução final.

Criam-se neologismos: Untermenschentum, "sub-humanidade",*64 entjuden,


"desjudaizar".*65 Seu sentido metafórico dá-lhes uma carga emotiva muito
significativa. Muitos desses termos têm acentos míticos: Volkskörper, "corpo
popular"; aufnorden, "tornar mais nórdico"; "arisieren, "arianizar".*66 Como em
alemão a composição é bastante produtiva, torna-se fácil produzir neologismos com
o acréscimo de um radical. Muitos neologismos são criados com os radicais Welt,
"mundial"; Gross, "grande"*67 e Volk, "povo", um dos termos fortes do nazismo.*68

Não se usam modalidades que exprimem a possibilidade, a dúvida, a interrogação,


mas somente os modos assertivos. Os discursos têm um caráter religioso.

Outras características são a recorrência dos superlativos; a germanização dos


nomes de lugares e dos prenomes; a utilização da ironia, das aspas; a multiplicação
das abreviaturas e siglas, para indicar a organização perfeita de tudo;*69 as
repetições.*70

A política no sentido mais amplo (quaisquer relações de poder) determina a


organização discursiva e sua circulação e pode, às vezes, deixar marcas na língua,
principalmente no léxico. Além disso, certos usos linguísticos servem para marcar
exclusões e pertenças.

A Bíblia já conta um episódio desses. A palavra hebraica shibolet, "espiga", tinha


uma variação dialetal sibolet. A tribo de Galaad estava em guerra com a de Efraim.
Para identificar os efraimitas, pedia-se que a pessoa pronunciasse essa palavra.
Quem dissesse sibolet era morto. Foram eliminados 42.000 efraimitas.*71

Até hoje o termo shibolet nomeia uma maneira de pronunciar uma palavra, que
identifica a origem de quem a diz. A fonologia torna-se letal. A diferença linguística
é o lugar onde reside o ódio ao outro, é o lugar da discriminação, do preconceito.

Certas pronúncias são estigmatizadas, determinadas variedades são consideradas


inaceitáveis. Tudo isso serve para classificar, para selecionar, para excluir, para
condenar.

As regras do "bom" uso da língua são relações de poder. Elas obrigam a recalcar, a
renegar uma língua primeira (por exemplo, os descendentes de alemães ou
italianos no Brasil deviam eliminar seu sotaque ou certos decalques de sua língua
primeira) ou uma variedade primeira da língua (as variedades populares ou
regionais do português), que são objeto de gozações, reprimendas ou punições.
Essa sanção a línguas ou variedades pode produzir uma resignação, ou seja, a
aceitação de uma "inferioridade", ou uma revolta ativa, isto é, a reafirmação com
orgulho de uma determinada origem ou de um dado falar. Cabe observar, no
entanto, que, no Brasil, pode haver uma revolta ativa em relação a um falar
regional, mas jamais a um falar social, o que significa que os estratos sociais se
marcam negativamente de maneira muito forte em nosso país.

Muitas vezes certos usos são prescritos e outros, interditos. O fascismo italiano
proibiu o uso do pronome de tratamento lei, que indica certa distância, e
determinou o uso dos pronomes que indicavam maior proximidade, pois todos os
italianos pertenciam à mesma "comunidade".*72 No período da ditadura de
Ceaucescu foi proibido o uso dos pronomes de tratamento. As pessoas deveriam
trata-se por tovarăş "camarada", "companheiro".

Conclusão

Barthes diz que o "objeto em que se inscreve o poder é a linguagem ou, para ser
mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua".*73 Explica ainda, com base nas
ideias de Foucault, que o poder é múltiplo, é onipresente, atravessa toda a História.
Como vimos, são múltiplas as maneiras pela qual o poder se inscreve na
linguagem. Sua natureza é intrinsecamente política, porque ela sujeita os que a
falam a sua ordem. Os silenciamentos operados pelo discurso manifestam uma
relação de poder. Os discursos que circulam no espaço social são submetidos à
ordem do poder, não são todos equivalentes. Os usos linguísticos podem ser o
espaço da pertença, mas também da exclusão, da separação e até da eliminação
do outro. Por isso, a língua não é um instrumento neutro de comunicação, mas é
atravessada pela política, pelo poder, pelos poderes. A literatura, pelos
deslocamentos que produz, é uma forma de trapacear a língua, desvelando os
poderes nela inscritos.

RESUMO

Este trabalho, depois de discutir o sentido da palavra política, mostra que há quatro
possíveis abordagens para a questão das relações entre língua, discurso e política:
a) a natureza intrinsecamente política da linguagem e das línguas; b) as relações
de poder entre os discursos e sua dimensão política; c) as relações de poder entre
as línguas e a dimensão política de seu uso; d) as políticas linguísticas. Este texto
desenvolve apenas os dois primeiros itens. A linguagem e as línguas têm uma
natureza intrinsecamente política, porque sujeitam os falantes a sua ordem. Os
silenciamentos operados pelo discurso manifestam uma relação de poder. A
circulação dos discursos no espaço social está também submetida à ordem do
poder. Os usos linguísticos podem ser o espaço da pertença, mas também da
exclusão, da separação e até da eliminação do outro. Por isso, a língua não é um
instrumento neutro de comunicação, mas é atravessada pela política, pelo poder,
pelos poderes. A literatura, pelos deslocamentos que produz, é uma forma de
trapacear a língua, desvelando os poderes nela inscritos.

Palavras-chave: poderes; silenciamentos; circulação dos discursos; preconceito


linguístico; deslocamentos linguísticos.
LAEL/PUC-SP

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico – o que é, como se faz. 15 ed. Loyola: São
Paulo, 2002

Marcos Bagno, mineiro de Cataguases, é autor de livros infantis, juvenis e, além


disso, já escreveu um livro de contos, A invenção das horas, ganhador do IV Prêmio
Bienal Nestlé de Literatura em 1988. Em o Preconceito Lingüístico – O que é, como
se faz - publicado em 1999 pela editora Loyola, Bagno traz uma discussão sobre as
implicações sociais da língua. Ele já havia discutido em seu livro A língua de Eulália,
Novela Sociolingüísticaa forma preconceituosa com que a língua é tratada na escola
e na sociedade e, no Preconceito Lingüístico, retoma essa discussão.

Na edição mais atual de seu livro (15ª), encontrei algumas modificações


significativas em comparação com a primeira edição. Segundo o autor, essas
mudanças devem-se à vontade de manter o livro sempre atualizado, sintonizado
com a evolução e a maneira de ver as coisas; com as críticas, sugestões e
comentários que o trabalho recebe. Dentre as mudanças, destaco o acréscimo de
um capítulo final - O Preconceito contra a lingüística e os lingüistas, o anexo de
uma carta de Bagno à Revista Veja, e a história da capa do livro.

Bagno recusa a noção simplista que separa o uso da língua em " certo" e " errado" ,
dedicando-se a uma pesquisa mais profunda e refinada dos fenômenos do
português falado e escrito no Brasil.

Ao mesmo tempo, convida o leitor a fazer um passeio pela mitologia do preconceito


lingüístico, a fim de combater esse preconceito no nosso dia-a-dia, na atividade
pedagógica de professores em geral e, particularmente, de professores de língua
portuguesa. Para isso. O autor analisa oito mitos inseridos no primeiro capítulo do
livro A mitologia do preconceito lingüístico.

No Mito nº 1 – A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade


surpreendente, em que o autor fala da diversidade do português falado no Brasil e
destaca a importância de as escolas e todas as demais instituições voltadas para a
educação e a cultura abandonarem esse mito da unidade do português no Brasil e
passarem a reconhecer a verdadeira diversidade lingüística de nosso país Qualquer
manifestação lingüística que escape desse triângulo escola-gramática-dicionário é
considerada, sob a ótica do preconceito lingüístico, " errada" , como Bagno discute
no Mito nº 4 – As pessoas sem instrução falam tudo errado.

No Mito nº 2 – Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem


português, o autor faz uma longa análise levando em conta a história desses dois
países e desmistifica mais esse preconceito. Quanto ao ensino do português no
Brasil, questão também abordada no Mito nº 3 - Português é muito difícil, o
problema é que as regras gramaticais consideradas " certas" são aquelas usadas
em Portugal, e como o ensino de língua sempre se baseou na norma gramatical
portuguesa, as regras que aprendemos na escola, em boa parte não correspondem
à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso achamos que
português é uma língua difícil. O mito, Brasileiro não sabe português afeta o ensino
da língua estrangeira, pois é comum escutar professores dizer: os alunos já não
sabem português, imagine se vão conseguir aprender outra língua, fazendo a velha
confusão entre a língua e a gramática normativa.

Bagno, no Mito nº 5 – O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o


Maranhão, diz ser este um mito sem nenhuma fundamentação científica, uma vez
que nenhuma variedade, nacional, regional ou local seja intrinsecamente "
melhor" , " mais pura" , " mais bonita" , " mais correta" do que outra.

Mais um preconceito analisado é a tendência muito forte, no ensino da língua, de


obrigar o aluno a pronunciar " do jeito que se escreve" , como se fosse a única
maneira de falar português, Mito nº 6 – O certo é falar assim porque se escreve
assim.

Mito nº 7 – É preciso saber gramática para falar e escrever bem. Segundo o autor,
é difícil encontrar alguém que não concorde com esse mito. Que se invalida, entre
outras razões, pelo simples fato de que se fosse verdade, todos os gramáticos
seriam grandes escritores, e os bons escritores seriam especialistas em gramática.
A gramática, na visão do autor, passou a ser um instrumento de poder e de
controle.

O último Mito – O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social,


que fecha o circuito mitológico, tem muito a ver com o primeiro, pois ambos tocam
em sérias questões sociais. Bagno diz que o domínio da norma culta nada vai
adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos
plenamente e que não basta ensinar a norma culta a uma criança pobre para que
ela " suba na vida" Precisa haver um reconhecimento da variação lingüística,
porque segundo o autor, o mero domínio da norma culta não é uma fórmula mágica
que, de um momento para outro, vai resolver todos os problemas de um indivíduo
carente.

No capítulo II O círculo vicioso do preconceito lingüístico, o autor explica que os


mitos analisados no capítulo I são perpetuados em nossa sociedade por um
mecanismo de círculo vicioso do preconceito lingüístico e demonstra como o
procedimento de muitos profissionais colabora para a manutenção da prática de
exclusão.

No Capítulo III A desconstrução do preconceito lingüístico Bagno discute a ruptura


do circuito vicioso do preconceito lingüístico, afirmando que a norma culta é
reservada, por questões de ordem política, econômicas, sociais e culturais, a
poucas pessoas no Brasil.

Discute, por exemplo, a mudança de atitude do professor que deve refletir-se na


não-aceitação de dogmas, na adoção de uma nova postura (crítica) em relação a
seu próprio objeto de trabalho: a norma culta. Essa mudança, do ponto de vista
teórico, poderia ser simbolizada numa troca de sílabas: ao invés de rePEtir alguma
coisa,o professor deveria reFLEtir sobre ela.

Neste mesmo capítulo o autor discorre sobre o que é ensinar o português; o que é
erro; a paranóia ortográfica (procurar imediatamente erros na produção de um
aluno). Reconhece que o preconceito lingüístico está aí, firme e forte, e que
mudanças só acontecerão quando houver uma transformação radical do tipo de
sociedade em que estamos inseridos.

No último capítulo ( IV) O preconceito contra a lingüística e os lingüistas, Bagno


discute o ensino da gramática tradicional. Sua crítica diz respeito aos conceitos da
gramática tradicional, estabelecidos há mais de 2.300 anos. Levanta novamente a
questão das mudanças, reconhecendo que o novo assusta, subverte as certezas e
compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes.
SILVA F.L. da & MOURA, H.M de M. (orgs.) (2000) O Direito à Fala.
A Questão do Preconceito Lingüístico. Florianópolis: Insular, 128p.

Resenhado por/by Edair Maria GORSKI


(Universidade Federal de Santa Catarina)

PALAVRAS-CHAVE: Preconceito lingüístico; Ideologia; Poder; Diversidade.

KEY-WORDS: Linguistic prejudice; Ideology; Power; Diversity.

Trata-se de uma coletânea organizada em torno de um assunto polêmico e bastante


atual: o preconceito lingüístico. Basta acompanhar, por exemplo, as inúmeras preleções
de cunho normativista (observadas em diversos âmbitos) centradas no que é "certo" e
"errado" na língua e a conseqüente avaliação social que atribui prestígio ou estigma às
diferentes falas, ou as discussões travadas em torno da linguagem politicamente correta,
para se constatar o caráter polêmico do tema. Por outro lado, a atualidade do assunto é
visível na recorrência com que tem sido abordado sob diferentes ângulos, conforme
atestam algumas publicações, como a de Bagno (1999), o documento sobre Definição
da Política Lingüística no Brasil resultante de ampla discussão entre os lingüistas e
publicado no Boletim da ABRALIN, 23 (1999); o Boletim da ALAB 4-4 (2000) sobre o
Projeto de Lei contra os Estrangeirismos, bem como matérias em jornais a exemplo de
Faraco (2001) na Folha de S.Paulo, entre outras.

Objetivando estender o debate a um público mais amplo, numa linguagem acessível e


"sem o peso da argumentação acadêmica", como bem apontam os organizadores na
introdução do livro, O direito à fala surge oportunamente num momento em que se
testemunha o sucesso de "novos gramáticos mediatizados" e em que ganha "nova
relevância o poder simbólico da linguagem" (p.10). Contendo dez trabalhos que
refletem com seriedade diferentes leituras do preconceito lingüístico, a obra se propõe
intervencionista, colocando, de maneira instigante, resultados da pesquisa em diversas
áreas da linguagem a serviço do direito à expressão, com respeito às falas que os grupos
construíram ao longo da história. Os organizadores apresentam, com elegância, o
conjunto dos artigos, tecendo a trama que interliga os diferentes textos, recobertos por
uma mesma temática que pode ser resumida como: crítica à idéia de unidade nacional
alicerçada numa língua idealizada pura e única.

No artigo de abertura, intitulado A prosa de Lima Barreto: o que quer essa língua?,
Cláudio Cruz, num estilo leve e despojado, refere-se aos, assim chamados por ele, "três
moleques do Segundo Reinado" – Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto
(p.20), reunidos pela característica comum de, negros, terem sido apadrinhados por
famílias nobres e, conseqüentemente, terem tido acesso a uma formação superior. Não
obstante esse traço de aproximação, o autor opõe Lima Barreto aos demais escritores,
em razão do uso peculiar que aquele faz da língua portuguesa, considerado à época
como incorreto, e só mais tarde visto como inserido, com estilo, no contexto cultural,
por buscar falar a língua do povo e não retratar a linguagem dominante do período. Esse
fato particulariza a obra do romancista, caracterizando-a como de "militância literária"
lingüística, daí sua importância no que se refere à questão do preconceito lingüístico.
Cruz convoca o leitor a, sem demora, procurar entender a questão da língua na obra do
autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha e de Triste Fim de Policarpo
Quaresma (cujo conjunto parece trazer "uma espécie de bomba-relógio que só agora
começa a ser detonada"), especialmente nesse momento em que, conforme vislumbra o
ensaista, presenciamos o início da implosão da idéia de um espaço literário nacional e
único, quando outras línguas buscam expressão dentro da língua oficial, quando "a
ilusão de uma nação coesa e unificada deixa de existir" (p.20).

Para escrever o segundo artigo, Os Aldrovandos Cantagalos e o preconceito lingüístico,


José Luiz Fiorin se inspira em um personagem de Monteiro Lobato do conto O
colocador de pronomes, o qual, vivendo em busca de erros gramaticais, deixa de
perceber as belezas da linguagem. A língua como resultado de um processo histórico é o
pano de fundo para a caracterização do preconceito lingüístico como fruto da
"intolerância em relação à variação e à mudança" (p.27), preconceito que a própria
escola e os gramáticos tratam de difundir. O autor focaliza fatos da mídia em que a
diversidade lingüística é ridicularizada e, com bastante pertinência, examina trechos de
uma entrevista de Pasquale Cipro Neto dada à revista VEJA (setembro de 1997), nos
quais o professor de gramática corrobora muitos preconceitos lingüísticos partindo da
concepção equivocada de que a língua é homogênea e estática. Aproveitando "deixas"
de Pasquale na matéria, o autor discorre sobre diferenças entre a fala e a escrita e entre o
português brasileiro e o europeu, e discute comentários equivocados como os seguintes:
do ponto de vista da norma culta, a melhor fala é a do Rio de Janeiro e a pior é a de São
Paulo; é idiota quem usa palavras em inglês no lugar de palavras equivalentes em
português; em termos lingüísticos "estamos nivelados por baixo" (p.34); e a "pérola"
final: o comentário do referido professor, por ocasião de um conhecido comercial da
cadeia McDonalds, de que não teria feito publicidade dos lanches mas sim divulgado a
língua portuguesa... Por fim, considerando amplamente a diversidade lingüística,
desqualifica com veemência a opinião dos guardiões da língua, de que "os lingüistas
estão destruindo o idioma, porque para eles vale tudo" (p.35).

Tratando, na seqüência, de Estrangeirismos: empréstimo ou ameaça?, Pedro Garcez e


Ana Zilles atribuem ao empréstimo, tido como fenômeno constante no contato entre
comunidades lingüísticas, marca de identidade alienígena com valores simbólicos por
vezes conflitantes. Os autores organizam didaticamente o texto em torno das seguintes
seções: Legitimidade e pureza; Anglicismos: A força do desejo; Diligências legislativas;
Preconceito e exclusão; Diversidade invisível e vida social da linguagem. De início, a
partir do exame de uma série de palavras e expressões, demonstram não ser tarefa
simples identificar o que seria português puro e como algo deixa de ser um
estrangeirismo e se incorpora à língua da comunidade. A seguir, os autores argumentam
que a aversão ao estrangeirismo é devida, especialmente, à presença da indústria
simbólica norte-americana, portanto os empréstimos não seriam, na realidade,
necessários, mas desejados face aos apelos da máquina capitalista globalizante. Na
seção seguinte, trazem à tona a posição ideológica que sustenta os projetos de lei contra
os estrangeirismos, destacando, com propriedade, o fato de que se apagam as diferenças
internas aos grupos quando um elemento externo paira como ameaça comum, o que
acaba por legitimar a concepção de que "a língua da nação se restringe à língua do
poder, à norma escrita, socialmente controlável, cujos limites são definidos pelas classes
dominantes" (p.46). Ao abordarem a questão do preconceito e da exclusão, os autores
dão visibilidade a uma série de equívocos, dentre os quais destaco: o de que a escrita é a
essência da linguagem; o que ignora a diversidade lingüística e os processos de variação
e mudança; e o que prevê a existência de uma língua pura. Por fim, Garcez e Zilles
tratam de questões como a atitude frente à língua de poder e a competição pelo acesso
aos bens sociais, concluindo que a "chave invisível, mas legitimada, das práticas
excludentes" é a ideologia lingüística de que somos um país monolíngüe (p.51).

A denúncia do papel da mídia na formação e na divulgação de preconceitos lingüísticos,


mediante análise de cenas da novela Escrava Isaura (Rede Globo, 1976), baseada no
romance de Bernardo Guimarães, e do filme americano No coração de Clara – ambos
tratando de questões raciais, é a tônica do texto de Fábio Lopes da Silva: Dois casos de
preconceito lingüístico na mídia. Em ambos os casos, o pretenso anti-racismo retratado
pelo o quê se esvazia no como é lingüisticamente expresso. Na novela, o autor centra a
atenção na forma como os personagens da Casa Grande se expressam, isto é, no tipo de
construções gramaticais eleitas para representar a fala dos brancos (incluindo entre esses
a escrava 'mocinha' Isaura) – emoldurada por "todos os ss e rr da norma gramatical", e a
fala dos demais escravos – estilo "Tio Barnabé" (p.55); e destaca, como efeito induzido,
a reprodução do mito de uma língua perfeita e intocada, tomado como realidade
histórica, o que, segundo uma avaliação perspicaz do autor, leva as novelas de época a
provocarem um prejuízo cultural. O autor projeta uma associação bastante interessante
entre a chamada corrupção da língua e "uma espécie de vírus lingüístico que, na época
da escravidão, permanecia confinado e controlado..." (p.57). No filme, é recortada uma
cena em que o garoto branco, dignificando a língua materna da governanta negra,
dirige-se a ela em patuá jamaicano, legendado em português como "num vô fazê isso",
episódio que reproduz um preconceito generalizado: o de que construções como essa se
restringem a determinada camada sócio-demográfica, donde o autor conclui que
"atribuímos a nós mesmos uma língua perfeitamente imaginária" (p.61).

No quinto artigo da coletânea, Edwiges Morato aborda As afasias entre o normal e o


patológico: da questão (neuro)lingüística à questão social, distribuindo o tema em
quatro seções: As afasias entre o normal e o patológico; O processo de patologização da
linguagem e dos falantes; A origem das "significações intoleráveis"; e O afásico entre o
preconceito lingüístico-cognitivo e a negligência social. Na primeira seção, a autora
tematiza o preconceito contra os que apresentam alterações em suas diferentes formas
de uso da linguagem em decorrência de lesão cerebral adquirida, enfatizando que a
afasia não é apenas uma questão de saúde, ou uma questão lingüística, ou cognitiva,
mas é também uma questão social; nesse sentido, considera que os limites entre a
normalidade e a patologia estão vinculados à "vontade de verdade" (Foucault, 1977) de
uma época, ou seja, à mentalidade e ao discurso científico vigente em uma certa
sociedade. Em seguida, discorre sobre o processo de patologização, argumentando que
existe um continuum sem fronteiras rígidas entre o normal e o patológico e que as
doenças devem ser entendidas como a perturbação de um equilíbrio. A autora critica
condutas médico-terapêuticas que se voltam para a "superação" do distúrbio de
linguagem tido como um déficit (em decorrência de uma visão idealizada de linguagem
como poder racionalizante da mente), ponderando que o afásico, mesmo perdendo a
palavra, "não perde necessariamente sua capacidade discursiva" (p.70). Na seção
seguinte, a autora comenta que, numa concepção normativa de cognição e de
linguagem, fatos como digressões, lapsos, hesitações, etc. são caracterizados como
"significações intoleráveis" e tidos como "sintomas" em quadros de afasia, muitos deles
assim rotulados por razões ideológicas e não por razões lingüísticas ou cognitivas. O
que explica o surgimento das "significações intoleráveis" é a noção de linguagem como
instrumento de acesso aos processos cognitivos internos, cuja função primordial é a
comunicação à qual seríamos levados por um princípio natural de cooperação.
Encerrando o texto, Morato apresenta uma ação exemplar contra o estigma e a exclusão
social impostos ao afásico: a criação do Centro de Convivência de Afásicos
(IEL/Unicamp), lugar onde se desmedicaliza a afasia e se enxerga "o páthos como
constitutivo do normal" (p.74).

O artigo seguinte, A língua popular tem razões que os gramáticos desconhecem, é


assinado por Heronides Moura. O autor inicia o texto questionando os motivos que
levam à escolha da norma culta como a representativa e "correta" da língua, e aponta,
como uma das razões pelo preconceito contra a fala das classes populares, a dicotomia
arraigada em nossa cultura, decorrente da correlação entre pensamento e linguagem, que
opõe a "racionalidade da classe educada" à "espontaneidade pré-racional do povo"
(p.76): a língua popular seria criativa, espontânea mas às vezes ilógica; a língua culta
seria a melhor expressão da racionalidade e da cultura – oposição que reflete a
"normatização social promovida pelo Estado brasileiro" (p.77). Moura ilustra muito
bem sua linha de raciocínio com uma análise criteriosa de formas de representar a
comparação em português, contrapondo ao padrão normativo 'tão/tanto... quanto' e
'...como', as expressões'que nem' e 'que só', tidas como de uso popular e possivelmente
condenadas pelos normativistas pelo aparente ilogicismo presente nelas. A partir de um
princípio básico da interpretação segundo o qual os interlocutores levam em conta não
só o sentido inicial das expressões mas também a intenção do falante, o autor demonstra
que a forma 'que nem' ('o aluno é esperto que nem o professor') simultaneamente
compara e formula um julgamento sobre o termo comparado. A construção seria
barrada como contradição lógica se analisada apenas quanto ao sentido inicial; mas esse
uso deve ser interpretado como hiperbólico, cumprindo a função comunicativa de
enfatizar que o julgamento recai sobre o termo comparado e não sobre o comparante. Já
a expressão 'que só' ('o aluno é feio que só o professor') ressalta não só o julgamento
feito sobre o termo comparado, mas também o caráter prototípico do termo com o qual
se compara (no caso, o professor seria tido como um exemplo de feiúra, propriedade
que é projetada sobre o aluno). Por fim, na construção elíptica ('o aluno é feio que só'), a
elipse do termo comparante é inicialmente interpretada como de um protótipo, mas a
construção acaba se congelando e funcionando como um advérbio que intensifica a
propriedade comparada (= muito feio). O autor demonstra, assim, o perfeito
funcionamento comunicativo dessas construções, que são solenemente ignoradas pelos
gramáticos tradicionais.

Abordando a relação entre o Estado e a língua, no texto Brasileiro fala português:


monolingüismo e preconceito lingüístico, Gilvan Müller de Oliveira enfatiza os
seguintes fatos, subjacentes à concepção de que no Brasil se fala uma única língua:
preconceito, desconhecimento da realidade e projeto político de construir um país
monolíngüe. O autor coloca muito bem a questão de que ideologicamente produziu-se
no Brasil o conhecimento de que se fala o português e o desconhecimento de que muitas
outras línguas são faladas (por volta de 200 idiomas atualmente, sendo 170 línguas
autóctones e 30 línguas alóctones). Müller de Oliveira traça um percurso histórico
ricamente documentado do plurilingüismo no Brasil, da política homogeinizadora e
repressiva de imposição do português como a única língua legítima e da conseqüente
redução do número de línguas por um processo conhecido como "deslocamento
lingüístico" (p.84). Esse processo envolveu ações como (i) a de civilizar os índios
mediante a imposição da língua portuguesa e o "assassinato" especialmente da língua
geral na Colônia (o que ocasionou uma verdadeira "guerra de línguas" (Calvet, 1999a));
e, posteriormente, (ii) a de nacionalizar o ensino no Estado Novo, com repressão
violenta às línguas alóctones, especialmente o alemão e o italia no no sul do Brasil. O
que o autor avalia como um dos fatos mais trágicos é que poucas vozes representativas
se opuseram ao processo de homogeneização, em defesa de uma sociedade
culturalmente pluralista. Evidenciando o fato de que somos hoje um país pluricultural e
multilíngüe, seja pela variedade dialetal, seja pela diversidade de línguas faladas no
território, Müller de Oliveira critica o espaço reduzido que ocupam na universidade
tanto pesquisas sobre plurilingüismo, como projetos de uma política de garantia dos
direitos lingüísticos às populações não falantes de português, e conclui defendendo, com
certa dose de ousadia, a idéia de uma redefinição do "conceito de nacionalidade,
tornando-o plural e aberto à diversidade" (p.91).

Quem assina o artigo seguinte é Kanavillil Rajagopalan. Após fundamentar certos


argumentos que têm circulado contra a linguagem politicamente correta, o autor de
Sobre o porquê de tanto ódio contra a linguagem "politicamente correta" conduz uma
reflexão em outra direção, evidenciando situações em que a linguagem tem, sim,
impacto sobre as coisas e os acontecimentos. O autor vale-se, inicialmente, de algumas
críticas feitas por Possenti (1995), tais como a de que o problema não está na linguagem
propriamente dita, mas tem méritos políticos e que é um equívoco pensar que uma
substituição de palavras com diferentes conotações ideológicas poderia influenciar na
diminuição dos preconceitos, e coloca a descoberto a concepção de linguagem e de
mundo que recobre crenças generalizadas como a de que a linguagem serve de
roupagem do pensamento, a primeira sujeita a todo tipo de desgaste, o último não; e a
de que a linguagem pode nos enganar (veja-se o uso da linguagem figurada). A posição
que daí se segue é: de que adianta mudar a linguagem se o pensamento é o mesmo?
Contra-argumentando, o autor enfraquece a noção saussureana de arbitrariedade do
signo ao afirmar que a grande maioria dos objetos que se nos apresentam "está presente
em nossa consciência junto com a imagem que cada um deles adquiriu ao longo dos
tempos" (p.99). Rajagopalan respalda sua idéia no mundo do marketing, em que todo
objeto é no fundo um "produto", isto é, um objeto produzido de forma tal que é
impossível recuperá-lo em sua "pureza", pois os conhecemos ligados ao seu modo de
apresentação; especialmente no princípio norteador do marketing de que é possível
transformar o produto e não apenas a sua imagem. Ao refletir sobre a prática de
determinados usos lingüísticos à luz do mundo do marketing, o autor mobiliza o leitor a
acreditar que ao trocar as palavras trocam-se também as coisas. Então concluímos com
ele: uma das maneiras mais eficazes (não a única!) de combater os preconceitos sociais
é monitorar a linguagem e exercer controle sobre a fala, pois "intervir na linguagem
significa intervir no mundo" (p.102).

Focalizando o caráter idealizado do português oficial que privilegia a escrita padrão,


Marco Rocha e Juliana Pereira escrevem O uso de corpora na elaboração de trabalhos
de referência: uma vacina contra o preconceito, argumentando que trabalhos de
referência tais como gramáticas e dicionários não cumprem adequadamente sua função
em virtude de discriminação da língua falada. Na seção subseqüente à introdução, os
autores falam sobre as abordagens com base em corpus, discorrendo sobre as
características ideais do mesmo: amostragem representativa, tamanho, formato legível
por computador e uma referência padrão, pressupondo-se a disponibilidade do material
para a comunidade lingüística em geral. A seguir, tratam do uso do corpus contra o
preconceito lingüístico, dando relevo ao papel auxiliar que a abordagem proposta pode
desempenhar na elaboração de trabalhos de referência. Como evidência, apresentam o
perfil de uso do verbo dar, com base na freqüência de ocorrências desse item lexical
num corpus específico, verificando-se que grande parte desses usos corresponde a
construções do tipo 'Dá só uma aguardadazinha...', uso este não contemplado num
dicionário da língua portuguesa, por exemplo, a despeito de sua recorrência na fala, o
que se caracteriza como um reflexo sintomático de preconceito. Uma regra léxico-
gramatical de formação de sintagmas verbais que permitiria a produção de inúmeras
combinações similares é, então, apresentada pelos autores. Concluindo, propõem que a
noção de freqüência seja "parte integrante dos critérios de seleção de usos a serem
incluídos nos trabalhos de referência", a despeito do prestígio social dos mesmos
(p.110).

O artigo que encerra a coletânea, Língua estrangeira: direito ou privilégio?, é de autoria


de Josalba Vieira e Heronides Moura. Ao analisarem duas situações prototípicas de
plurilingüismo, apoiados em documentos oficiais que legislam sobre os direitos do
cidadão a uma educação bilíngüe, os autores chamam a atenção para preconceitos, por
vezes camuflados, presentes em situações de aprendizado e de uso de línguas
estrangeiras. As situações examinadas são jocosamente identificadas como: O
monoglota orgulhoso e o provinciano cosmopolita; e O poliglota esnobe e o poliglota
ignorante. Ambos os casos são relacionados à metáfora do "sistema gravitacional"
(Calvet, 1999b), que explica a estruturação das línguas entre si, de acordo com cada
momento histórico, em termos de língua hipercentral, supercentral, central e periférica.
Haveria, de um lado, uma correspondência entre a situação do provinciano cosmopolita
e a dos falantes da língua mais importante de cada período histórico; e, de outro lado,
entre a situação do poliglota e a dos falantes das demais línguas, resultando a avaliação
de "ignorante" ou "esnobe" do lugar ocupado por tais línguas no sistema gravitacional.
Falantes poliglotas de línguas tidas como periféricas, por exemplo, não costumam ser
valorizados pelo fato de serem plurilíngües (nem por eles próprios!); já aqueles que
falam línguas situadas em níveis mais próximos ao centro gravitacional, portanto de
maior prestígio, tenderiam ao protótipo do poliglota esnobe, isto é, daquele que usa uma
língua estrangeira com a intenção de marcar diferença cultural e não para interagir. Os
autores discutem amplamente o preconceito que perpassa essas diferentes situações
lingüísticas, ilustrando-as com relatos de casos reais e concluem dizendo que "lutar
contra os diversos tipos de preconceito lingüístico ligados ao uso de línguas estrangeiras
não é uma tarefa fácil, mas saber identificá-los é um passo importante" (p.124). Nesse
sentido, o artigo cumpre perfeitamente seu papel.

Em suma, a diversidade de abordagens críticas em torno de uma temática comum


prende a atenção do leitor, seja pela escolha instigante e feliz dos fenômenos
lingüísticos analisados (numa obra literária, num filme, numa novela de televisão, no
marketing, num projeto de lei, na fala de um professor de gramática, na fala de um
poliglota, na fala de um afásico, enfim, na fala do povo...), seja pelo tratamento
criterioso dispensado por cada autor ao texto. Acredito que o livro deve atender
plenamente seu propósito, merecendo ser lido, divulgado e discutido.