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A FENOMENOLOGIA E AS NOÇÕES DE SINTESE PASSSIVA

E DE CUIDADO NO PROCESSO TERAPEUTICO

Prof. Me. Claudemir GOMES 1

Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba

RESUMO: Este artigo inicialmente apresenta o método fenomenológico com enfase na abordagem essencialista
de Husserl ao referir-se sobre as noções de redução eidética e a transcendental, sobre os atos da percepção e dos
níveis de consciência, o conceito de sintese passiva. E, ao se referir sobre a noção do cuidado no processo
terapêutico, utilizar-se-á a enfase na abordagem existencialista de Heidegger. Diversas foram as inspirações
teóricas utilizadas neste artigo: as contribuições teóricas de Angela Ales Bello, os pensamentos humanistas de
Amatuzzi, dos ensinamentos de Boof sobre o Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra, do pensador
Fernandes em seu artigo sobre o cuidado da fenomenologia à Fenomenologia do Cuidado, de Ana Maria Feijoo
nos desafios da clínica psicológica: tutela e escolha e dos acadêmiucos Guilherme Nogueira e Larissa Rodrigues
Moreira quanto ao roteiro teórico do conceito de cuidado, da UFG.

Palavras-Chave: Fenomenologia. Husserl. Sintese passiva. Cuidado. Terapeuta.

INTRODUÇÃO

Pensar a questão da metodologia fenomenológica é um trabalho árduo e necessário,


pois a ascensão deste modo de pensamento é notória e tem invadido os meios acadêmicos no
Brasil. Pouco se sabe e se tem acesso ao que Husserl escreveu. Sabe-se que grande parte de
seus escritos permanecem em seus cadernos de rascunhos e que alguns poucos foram
publicados e, destes, menos de dez foram traduzidos na língua nacional. Todavia, muitos
artigos e livros foram escritos sobre Husserl e seu discípulo Heidegger. Neste artigo busca-se
a realização de uma pequena contribuição teórica, delimitado por sua natureza. Faz-se
pequenos comentários de alguns conceitos necessários à compreensão de seu pensamento, e
de algum modo uteis à classe discente dos cursos de psicologia que ministram conteúdos
sobre a fenomenologia essencialista e existencialista. De caráter descritivo, o artigo não se
preocupa em problematizar conceitos ou ideias, mas apenas preocupa-se com a elaboração
clara de seu sentido buscando com isso a aprendizagem e a sua utilização nos territórios da
psicologia aplicada.

_____________

1
– Prof. Me. Claudemir Gomes. Docente II e Supervisor Clínico do Curso de Psicologia da Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba.

Endereço eletrônico: gomespsi41@gmail.com


2 DESENVOLVIMENTO

2.1 O pensamento essencialista de Husserl

Em seu livro: Introdução à Fenomenologia, Bello descreve o modo como pensava


Edmundo Husserl. E sobre ele Miguel Mahfoud, afirma:

“Temos à mão uma verdadeira Introdução à Fenomenologia. Fiel ao rigor


metodológico, típico da fenomenologia essencialista. Nesse livro, a Profa. Bello nos
convida a percorrer o inteiro percurso husserliano. Magistralmente, somos pro-
vocados, na contemporaneidade, a atentar ao que nos está à volta e à própria
experiência interna. E, com surpresa, advertimos que, aqui, experiência vívida e
reflexão sistemática podem efetivamente não estarem cindidas. A novidade é que
não se apresenta apenas discursivamente uma tal possibilidade de unidade, mas
somos conduzidos a reconhecer a vivência - através do método interrogativo
husserliano - com surpreendente simplicidade de forma que a introdução ao campo
fenomenológico, tão sofisticado, começa a nos parecer familiar, começamos a nos
sentir em casa, porque começamos a atentar ao mundo mais conscientes dos
próprios recursos e do próprio eu (...) ( BELLO, 2006, p.11).

Na apresentação que faz sobre o tema a Profa. Bello discorre sobre a posição teórica
de Husserl e a definição que ele dá aos conceitos de fenômeno, de fenomenologia, da
metodologia essencialista que conjuga a redução eidética e a redução transcendental, sobre os
atos da percepção e dos níveis de consciência. Sobre essa posição teórica, a Profa. Bello diz
que a grande dificuldade que existe em quem se dispõe a estudar a fenomenologia
essencialista de Husserl, está no fato de que Edmundo Husserl nunca chegou a escrever uma
obra apresentando todo o seu percurso investigativo. Sobre esse aspecto, ela diz:

Seus livros são resultado de compilações de esboços de aulas ou de suas anotações


pessoais. Muito de sua vasta obra, até hoje, não chegou à publicação. Como sua
análise é muito detalhada, atentando com rigor para cada aspecto, ele nunca chegou
a formular uma síntese geral e isso dificulta conhecer o pensamento husserliano.
(BELLO, 2006, p.13).

Com a intenção de contribuir com a explicitação investigativa, em todo o arco do pro-


cesso metodológico, a Profª Bello apresenta, no seu livro, uma lista dos mais interessantes
temas da fenomenologia, da qual, este artigo, seleciona apenas três, por sua conveniência de
pauta, sendo eles: O que é o fenômeno e a fenomenologia enquanto método? O que é a
consciência e a descrição das estruturas universais? O que representa a síntese passiva como
fase anterior à percepção? Neste primeiro ponto de discussão, a Profª Bello formula a
questão: O que é o fenômeno e a fenomenologia? E, para respondê-las se vale do
conhecimento das palavras gregas que afirmam que:
Fenômeno é aquilo que se mostra; não somente aquilo que aparece ou parece e
“logia” que deriva da palavra logos, que para os gregos tinha muitos significados,
tais como: palavra, pensamento. Vamos tomar logos como pensamento, como
capacidade de refletir. Tomemos, então, fenomenologia como reflexão sobre um
fenômeno ou sobre aquilo que se mostra. A Fenomenologia começou como uma
escola filosófica cujo pai e mestre é E. Husserl. O seu inicio sistemático se deu na
Alemanha, em fins do século XIX,e na primeira metade do século XX. (BELLO,
2006, p.17-8)

Ao tomar-se espontaneamente a definição de fenômeno como aquilo que se mostra e


não somente aquilo que aparece ou parece, ocorre, sem que se queira, o entendimento do
conceito em uma situação passível de erros, pois dá-se a crença de que as coisas se mostram a
nós à maneira como acontecia no antigo sistema filosófico do realismo platônico, na teoria da
reminiscência. A compreensão que a Fenomenologia de Husserl sugere não é esta, pois as
coisas quando se revelam a nós não o fazem como quem instigasse um determinado
comportamento, mas sim mediante a compreensão que se dá no sentido de que as:

“coisas se mostram a nós porque somos nós quem buscamos o seu significado. Todas
as coisas que se mostram a nós, tratamos como fenômenos, porque conseguimos
compreender o sentido. Entretanto o fato de se mostrarem não nos interessa tanto,
mas, sim, compreender o que são, isto é, o seu sentido”. (BELLO, 2006, p.19)

Esse é o detalhe mais importante que se revela no fenômeno: o seu sentido. Esta é a
meta das pessoas que buscam o significado ou o sentido daquilo que se mostra. É a missão de
quem pensa nos dias de hoje: buscar o sentido das coisas, tanto de ordem física quanto de
caráter cultural, religioso etc, que se mostram a nós.

O nosso problema é: o que é que se mostra e como se mostra. Quando dizemos que
alguma coisa se mostra, dizemos que ela se mostra a nós, ao ser humano, à pessoa
humana. Isso tem grande importância (...) mais do que dizer “as coisas se mostram”,
precisamos dizer que “percebemos, estamos voltados para elas”, principalmente para
aquilo que aparece no mundo físico. (BELLO, 2006, p.19)

E, implicado nessa discussão metodológica, se apresenta, no esforço compreensivo da


fenomenologia essencialista de Husserl, um quê de positivismo superior ou de cientificismo.
O rigor da análise que Husserl emprega na discriminação do sentido e de seus atos
constitutivos o faz fazer ciência e a acreditar na essência como pressuposto a priori do
comportamento. Nesse sentido, afirma a Profª Bello:

(...) para compreender o sentido, nós devemos fazer uma série de operações, pois
nem sempre compreendemos tudo imediatamente, que consiste em identificar o
sentido, os fenômenos, de tudo aquilo que se manifesta a nós. . (BELLO, 2006,
p.19)
Sobre o método fenomenológico Husserl diz que ele é um caminho formado de duas
etapas: na primeira, a busca do sentido dos fenômenos: a redução eidética, e na segunda, a
redução transcendental, que tratará como é o sujeito que busca o sentido. As duas etapas
falam da compreensão do sentido das coisas. É óbvio que para algumas coisas, a apreensão
do sentido não é complicada, pois este se revela na própria função da coisa enquanto objeto.
Todavia, para tantas outras, cresce, e muito, a complexidade da apreensão do sentido. Nesse
sentido, Bello cita a fala de Husserl sobre esse tema, dizendo:

Husserl afirma que para o ser humano é muito importante compreender o sentido
das coisas, mas nem todas as coisas são imediatamente compreensíveis. De qualquer
modo, compreender o sentido das coisas é uma possibilidade humana. Como o que
nos interessa é o sentido das coisas, deixamos de lado tudo aquilo, que não é o
sentido do que queremos compreender, e buscamos, principalmente, o sentido.
(BELLO, 2006, p.21)

Nesse aspecto, compreende-se a Redução Eidética como o processo de contenção dos


processos cognitivos e/ou mentalistas que se apresentam espontaneamente no exercício
interferindo na busca compreensiva. É a necessária redução, a busca do caráter mínimo, a
discriminação deliberada sobre o que importa saber e sobre o que não se faz relevante saber.
É a opção pela busca do sentido, e não dos fatos que aparecem junto às coisas. Mas como
identificar o sentido? Daí a necessidade de se reduzir o que aparece, o que se deixa ver, para
sentir o que dá sentido àquilo que aparece, e que se mostra a nós. Sobre a Redução
Eidética, a profª Bello afirma:

Nós intuímos o sentido das coisas, e para tratar desse tema, usamos a palavra, de
origem latina, essência, portanto captamos a essência pelo sentido. Husserl usa
também a palavra grega eidos (de onde vem a nossa palavra ideia, que neste caso
não significa tanto um produto da mente, mas sentido), aquilo que se capta, que se
intui. Façamos uma experiência semelhante às que Husserl propõe: alguém bate a
mão sobre a mesa, identifico logo que é um som. Todos nós identificamos esse som.
Como o fazemos? Imediatamente, intuitivamente. Escutamos qualquer coisa e
dizemos “é um som”. Sempre o fazemos assim (.,.) somos capazes de intuir, isto é,
colocar em perspectiva a essência, o sentido da coisa. Esse é um exemplo de uma
coisa física, porém alguém poderia dizer “sinto ódio” ou “sinto dor” e nós sabemos
do que se trata, podemos até fazer uma análise para explicar qual o sentido pois
sabemos, imediatamente, qual é a experiência de ódio ou de dor e até poderíamos
nos dedicar a fazer uma análise para compreendê-las melhor, justamente por já
conseguirmos partir de um ponto essencial (...) Husserl afirma que o que nos
interessa é o sentido das coisas, é o sentido do que queremos compreender e
buscamos, principalmente, o sentido. (BELLO, 2006, p.22-3).
A Redução Transcendental, a segunda etapa do processo, se configura como básica
para responder por que o ser humano busca o sentido. Esse é o lugar da análise do homem, a
reflexão sobre o sujeito que reflete. A redução fenomenológica permite ao homem dizer quem
ele é. A novidade de Husserl, diz Bello, é que a análise do sujeito humano se constitui no
ponto de partida de sua investigação. Aqui começa uma análise do ser humano ou do sujeito.
Para dar um exemplo dessa categoria de reflexão, Bello (2006, p.27), destaca o seguinte
exemplo:

Na segunda etapa do método fenomenológico, é, justamente, sobre o sujeito que se


faz uma reflexão. Refletimos dizendo quem somos nós (...) Para realizar a análise do
sujeito faremos um exercício, comecemos por dizer que estamos diante de um copo
d’água. Vemos, sobre a mesa, o copo que antes já estava lá, podíamos vê-lo, mas não
tínhamos prestado atenção nele. Esta é uma coisa interessante que apresenta dois
níveis. Antes víamos os copos-, mas não fazíamos uma reflexão, talvez porque não
estivéssemos com sede. Agora, tenho sede e começo a prestar atenção. Estamos
refletindo um pouco sobre o tema do “ver o copo”. Antes estávamos cônscios,
sabíamos ter visto o copo sem ter feito uma reflexão a respeito. Todos nós tínhamos
já uma experiência perceptiva do copo, que estava em nós, dentro de nós, mas o
copo, fora. Porém, no momento em que tivemos uma experiência perceptiva do copo,
ele estava também dentro de nós. De que modo estava dentro? Nós sabíamos que o
copo existia, portanto estar dentro significa saber que o copo existe. Enquanto
estávamos vivendo o ato perceptivo (o ato de ver o copo), poderíamos perguntar do
que esse ato era formado. Sabemos que esse ato perceptivo era formado pelo ver o
copo e também pelo copo, ali, diante dos olhos. Enquanto coisa física, enquanto
existente, onde estava o copo? Estava fora. Porém, enquanto visto, onde estava?
Dentro. Temos aí, o ato de ver, e enquanto vivemos o ato, estamos vivendo o copo -
visto dentro de nós (...) Agora, estamos entrando no território do ser humano, no
território do conhecimento, da consciência que um ser humano pode ter das coisas -
frequentemente estudado pela Filosofia, e continuando temos caminhos que também
são estudados pela Psicologia.
Nesse sentido puramente essencialista, é que Husserl se vale dos estudos feitos sobre a
Percepção na perspectiva de compreender melhor como se dá o conhecimento humano.
Chega até mesmo a afirmar que é, por meio da percepção, que se entra em contato com o
mundo físico que é percebido através das sensações. A percepção é uma porta, uma forma de
ingresso, uma passagem para o sujeito, ou seja, uma compreensão de como o ser humano é
feito. Na análise feita sobre o copo, falou-se da percepção como um ato que se está vivendo,
porém, nem todo ato que se vive, que se pode identificar, é de caráter psicológico, por isso a
análise se torna muito refinada e requer uma atenção especial. Desse modo, vai-se construindo
a maneira essencialista husserliano de pensar o conhecimento como um dispositivo na
formação do humano. Bello (2006, p.31) utiliza, nessa construção, os conceitos da visão e a
do tato qualificando-os como sensações que são vividas por nós, pois as registramos por meio
da nossa capacidade de dar-nos contas de algo que acontece conosco. Adentrando em um
terreno de muita complexidade teórica, Bello se permite, por inspiração metodológica, fazer
uma comparação entre os atos da percepção – o dar-nos conta – e o ato da consciência de
algo. Esse é um terreno perigoso e complexo porque a ultima coisa que se poderia pensar
nesse momento é o da produção de um paralelismo sem nexo, criando para a consciência um
território e uma função complementar. Quando Bello sugere a comparação isso se faz para
dizer que a consciência não existe em si, mas que é simultaneamente um dispositivo que
acontece no processo da percepção, como quem emerge para agregar ao objeto da intenção o
seu equivalente e significado, deixando-os logo em seguida ao encargo do pensamento, e que
esse sim é o caminho de acesso ao ser, ao sujeito do conhecimento. Bello ainda destaca a
compreensão da junção entre os conceitos citados da consciência e da percepção afirmando
que isso só acontece pela capacidade que o ser humano tem de saber o que faz. E de que isso é
uma condição superior, quando comparada aos animais, sobre tudo quando favorecida pelo
imenso desenvolvimento do humano. Ales Bello (2006, p.32) cita Husserl sobre esta questão:

Aqui está a novidade, pois Husserl diz que o ser humano tem a capacidade de ter
consciência de ter realizado esses atos, enquanto ele está vivendo esses atos, sabe
que os está realizando. Sabe que está realizando esses atos na relação com algo que
está vendo ou tocando (...) ver e tocar são vivências, e se são vivências, quer dizer
que são registradas por nós e delas temos consciência. Ter consciência dos atos que
são por nós registrados são vivências. Consciência, neste caso, não quer dizer que a
cada momento nós temos que dizer “agora estamos vendo, agora estamos tocando”.
Consciência significa que, enquanto nós olhamos, nos damos conta de que estamos
vendo, ou que, enquanto tocamos, nos damos conta de tocar.
E sobre isso, Bello (2006, p.33-4), destaca os níveis de consciência perguntando
sobre esse novo ato, que é o refletir, e de que tipo é essa vivência. Para tanto, sugere a
existência de dois tipos de consciência: a de primeiro grau, que acontece nos atos
perceptivos com ênfase nos processos corpóreos e psicológicos, e a consciência de segundo
grau produzida nos atos reflexivos com ênfase nos processos psicológicos e espirituais.
Numa rápida comparação, entre um cão e um gato que se veem e se tocam, sabe-se
que eles possuem a consciência do primeiro grau – a perceptiva, que é corpórea e
psicológica, pois eles são capazes de sentir, mas que não possuem a consciência do segundo
grau – a reflexiva, pois esse grau apenas pertence ao homem porque tem a capacidade de se
dar conta do que está vivendo. Ele sabe que sabe, sente que sente, sabe que está vivendo.
Para ampliar a noção do essencialismo husserliano, Bello (2006, p.33-4) ilustra a
noção dos atos perceptivos como pressuposto à consciência que temos de sermos corpo,
psique e espírito. Assim descreve Bello:

Voltemos ao copo de nosso experimento. Nós o vemos, o sentimos, o utilizamos,


por quê? Porque temos sede. Que tipo de ato é a sede? É um impulso. Nós sentimos
alguma coisa interiormente, que nos impulsiona a pegar o copo e a beber. Esse
impulso, não é o ato de beber, ou o ato de tocar, e nem o ato de refletir, é um outro
ato. Em geral, o impulso em direção a alguma coisa é registrado por nós, pois temos
consciência do impulso e queremos vivê-lo. E o que fazemos? Buscamos alcançar o
copo. Pode ser que alguém próximo do mesmo copo d’água tenha o mesmo impulso
de beber, mas não chega a pegar o copo sobre a mesa. Por quê? Existe um controle
muito semelhante ao ato da reflexão (É justo não poder beber?). Podemos dizer que
existe uma regra social ligada a um controle, trata-se de um ato que não é o do ver
ou o de tocar, nem o do impulso que mais se assemelha ao ato de refletir. Todos
esses atos que identificamos têm características diversas, qualidades diversas.
Podemos pensar que existe uma dimensão do ter consciência (não uma dimensão
física) sob a qual nós registramos: é um setting de registro dos atos. De quais atos?
De todos os que nós estamos realizando, atos que são ligados ao mundo externo e ao
mundo interno. Retomemos toda a análise feita na dimensão do ver e do tocar, o
objeto é externo, mas o impulso de ir beber é interno. Agora, onde nós percebemos o
ato interno, o impulso e o ato externo perceptivo? Sempre nessa dimensão da
consciência. A consciência é a dimensão com a qual nós registramos os atos. O
registro é um terreno novo, e ao identificarmos nesse terreno os atos vividos por nós,
percebemos que tudo aquilo que vivemos passa através desse terreno.

Todavia, Bello, no sentido da ampliação compreensiva dos atos, identifica outros atos
que não são de caráter psíquico, como o impulso de beber, nem de caráter corpóreo porque o
corpo nos manda a mensagem de beber, mas não pegamos o copo. Portanto, podemos
controlar o nosso corpo e a nossa psique. Diz ela:
Estamos registrando o ato de controle, mas este não é de ordem psíquica nem de
ordem corpórea, e nos faz entrar numa outra esfera a que os fenomenólogos chamam
de esfera do espírito (...) que é a parte que reflete, decide, avalia, e está ligada aos
atos da compreensão, da decisão, da reflexão, do pensar, que é assim chamada de
espírito. Examinando os atos, a começar pelo registro dos atos podemos chegar à
estrutura do ser humano. Somos corpo-psique-espírito, como dimensão. (BELLO,
2006, p.39)

É desse modo que se pode entender a metodologia de Husserl, o seu jeito essencialista
de pensar. Sua decisão em fazer ciência está justamente neste processo onde se busca saber
como o mundo se tornou um modo de ser em nós. Como o fora se tornou dentro. Qual é a sua
história? Quando e como acontece isso? A implicação revolucionária disso na tessitura e na
constituição do humano. Sabe-se que a maior preocupação é com a essência, em ser ela ou
não o elemento captador e formatador interno das possibilidades compreensivas do fora (?),
em saber como se dá o humano e a partir de que ele é tecido, constituído, produzido, ou seja:
qual é sua essência, do que ele é feito? Por isso a sua determinação com a busca do sentido,
pois essa é a materialidade com a qual se descobre do que é feito o homem e não
simplesmente pelo fato dele existir. Sua ideia é que se deve colocar entre parênteses a
existência dos fatos. O copo diante de mim é um fato, mas não interessa tanto que ele esteja
aqui, e sim o que ele é, o problema do sentido. (BELLO, 2006, p.93). É óbvio dizer que
Husserl não nega a existência das coisas ou dos fatos, mas se que se refere à existência como
fato positivista. Porque ele não diz que não existe, apenas não quer levar em consideração a
existência como factualidade. Quem vai afirmar a existência, como pressuposto da essência, é
Heidegger.

2.2 A Síntese Passiva

A profª Bello ao comentar o tema de referência, cita Husserl na melhor definição de


síntese passiva, dizendo:
Tomamos o sentido dos atos, falamos da percepção, de atos que já temos
consciência. São atos dos quais nós somos cônscios ainda que não tenhamos feito
uma reflexão sobre eles. Entretanto, Husserl diz que existe um caminho anterior à
percepção, que ele chama de síntese passiva. Ou seja, nós reunimos elementos sem
nos darmos conta de que o estamos fazendo. Podemos dizer, por exemplo, que
tínhamos a percepção do copo, mas para isso tivemos de exercitar algumas
operações anteriormente (a distinção entre um objeto e outro, entre o copo e a
toalha...). Trata-se de operações que estabelecem continuidade e descontinuidade,
homogeneidade e heterogeneidade. Para apreender o objeto em sua unidade deve-
mos estabelecer relações de continuidade e de descontinuidade, de homogeneidade
consigo mesmo e de heterogeneidade para com outros objetos (...) Não nos damos
conta de operar tudo isso precedentemente à percepção, pois são operações que
cumprimos num nível passivo, somos afetados por elas antes que façamos qualquer
coisa. Há um artigo significativo de Husserl sobre a síntese passiva' em que ele fala
sobre a existência de níveis mais profundos, e que à consciência aparece somente a
percepção do já constituído, ela registra os níveis mais altos desses processos (...)
Quando Husserl trata dos níveis passivos, não está dizendo que os vivemos
passivamente. Analiticamente compreendemos que já demos aqueles passos,
tornaram-se nossos, não pudemos deixar de fazê-los, e é a essa passividade a que
Husserl se refere. Quando conseguimos descrever o processo, sabemos o que
operamos no nível passivo. Esse é um ponto sutil no trabalho de análise de Husserl.
Considerando todo o arco do processo reflexivo husserliano, podemos dizer que
entramos no nível da consciência através da percepção, mas existe também um nível
passivo, que pode ser objeto de uma “escavação’”2. (BELLO, 2006, p.57-61)
Husserl afirma como quem sugere que existe um caminho anterior à percepção, que
ele chama de síntese passiva. Ou seja, nós reunimos elementos sem nos darmos conta de que
o estamos fazendo. Essas afirmações bastam para que se reconheça a complexidade do
humano em sua função de manter-se presente ou ligado à vida. A vida como legado antigo da
inteligência do organismo que teceu e formatou no corpo a sua própria história. Que esse
corpo, que é novo por ser contemporâneo de si mesmo, tem o tamanho da própria história da
vida no mundo, pois nele se encontram inscritos todos os processos da funcionalidade e da
constituição, inventando órgãos e procedimentos para dar conta de sua própria manutenção e
preservação no tempo e nos espaços onde se encontrava a vida. Um corpo que aprendeu a
imaginar, que buscou nas suas tessituras nervosas a quantidade certa de energia para que se
pudesse prender o estímulo ao corpo e, assim fazendo, conseguisse mantê-lo suspenso tanto
no seu sentido ou significado quanto na sua imagem. Síntese passiva é o repertório dessa
historicidade do corpo. Dos sentidos tomados das vivências nas situações e nas circunstâncias
e de tudo quanto se fez cenário. Tem-se no corpo um abundante arquivo de tudo quanto se fez
circunstância e que tocou e formou os sentidos e deu a esses a competência da identificação e
reconhecimento. Figura e fundo, cenário e personagem, ator e palco, tudo está registrado com
a devida discriminação das partes que compõem esse todo. É síntese passiva, é sentido da
complementaridade, como quem monta um cenário consequente e correspondente ao objeto
tomado pela consciência, pois como diz Husserl: para apreender o objeto em sua unidade
devemos estabelecer relações de continuidade e de descontinuidade, de homogeneidade
consigo mesmo e de heterogeneidade para com outros objetos.
Entretanto, a melhor expressão da implicação da Síntese Passiva no cotidiano está na
expressão que Husserl usa para comentá-la: não nos damos conta de operar tudo isso
precedentemente à percepção, pois são operações que cumprimos num nível passivo, somos
afetados por elas antes que façamos qualquer coisa.
Esse último comentário de que somos afetados por elas antes que façamos qualquer
coisa dá a natureza mais complexa deste conceito. Pois a partir dele é possível de se fazer
vários desdobramentos conceituais indicando ao corpo a sua primazia na produção dos
sentidos tomados pelo próprio corpo. É o triunfo da essência sobre a existência. O
comportamento, nesse modo de pensar, seria a representação daquilo que o corpo pode fazer e
fez a partir do que lhe tocou os sentidos e que pedia processamento. A síntese passiva seria
como um cenário que dá sentido ao personagem e o faz existir em seu sentido maior, mais
pleno, até mesmo porque o personagem é antes de tudo uma síntese que o corpo, em si
mesmo, se mostrou competente tanto na produção quanto na representação.
Esse conceito pode ser aplicado em diversos contextos. Na aplicação que a psicologia
faz de seus conteúdos para entender as relações humanas, que identifica-se com a
psicoterapia, entende-se por síntese passiva a possibilidade que o corpo tem de sentir e
compreender o outro a partir de seus relatos e demandas. Pois toda compreensão acontece
antes no corpo e por meio dele pode ser sentido e depois pensado. Por que o homem é capaz
de sentir alguma coisa a partir das situações que constituem o relato de uma outra pessoa? A
síntese passiva, que antes de tudo é o próprio corpo em sua historicidade, é extensiva ao que
fala e ao que ouve. Ela produz o sentido em sua condição homogênea, pois os corpos trazem
as mesmas bases orgânicas de registro das situações vividas e de seus sentidos equivalentes..

2.3 A questão do cuidado no processo terapêutico

Quando se diz que o terapeuta deva ser um profissional do cuidado, diz-se de um


pleonasmo, pois terapeuta e cuidado se equivalem em suas naturezas. E quem é o terapeuta se
não alguém que se tornou um ser humano pleno. Capaz de cuidar de si, do seu cuidado, do
cuidado do outro, do outro e do lugar onde se insere. Esse lugar pode ser tanto a sua casa
quanto o mundo representado em cada circunstância e situação. Um destaque se faz na ação
cuidadora que o homem exerce: ele é alguém que busca proteger sempre o mais fraco, o mais
necessitado, o mais frágil, o incapaz, o inocente... Daí ter-se tantas leis que disciplinam e
punem a ação de tantos que não se ajustam a esse princípio sobre os outros. O ser humano
tem em sua raiz primordial o cuidado e este é quem o norteia durante a sua vida, não é ele
que tem o cuidado, mas é o cuidado que o tem (BOFF, 1999)3. Nesse sentido, o cuidado deve
ser visto como uma atitude de responsabilização e de envolvimento afetivo com o ente. Nesse
aspecto, podem-se distinguir dois modos de cuidado: ocupação (Besorgen) e preocupação
(Fürsorge), que, segundo Heidegger, assim se caracterizam:

O primeiro modo refere-se ao cuidado no mundo e relacionado com o mundo dos


entes simplesmente dados, sua expressão está no ser-aí ao relacionar-se com outras
pessoas. A preocupação seria o cuidado com os seres deste mundo que se
relacionam constantemente, é o cuidar propriamente dito, direcionado à existência
do outro e não a uma coisa de que se ocupa (HEIDEGGER, 2001)4.
Comentando sucintamente a contribuição de Heidegger pode-se dizer que a
preocupação pode ser dividida em dois modos: substituição e anteposição. Na substituição o
ser se coloca no lugar do outro e tende a substituí-lo, e assim irá resolvendo os obstáculos e as
dificuldades dele. Nesse processo, destaca Fernandes, é retirado do outro a sua
responsabilidade, colocando-o à parte e, assim, realizando por ele o que ele não pode ou
consegue fazer sozinho. Na anteposição o outro se antepõe ao ser, colocando-se a sua frente
para devolvê-lo ao cuidado de si mesmo e deixando-o diante das suas próprias possibilidades
existências; nessa situação o outro é remetido para a responsabilidade do ser, ajudando este a
tornar-se, em seu cuidado, compreensível para si mesmo e livre para o seu cuidado, para suas
ocupações. (FERNANDES, 2011)5

Nesse sentido a clínica psicológica “devolve ao homem o cuidado por sua


existência, ou seja, à sua própria tutela” e no exercício da clínica fenomenológico-
existencial o clínico acolhe o outro como ele se mostra, suspendendo todos os
esclarecimentos prévios, inclusive diagnósticos (FREJOO e PROTASIO, 2010).

3 CONCLUSÃO

Este artigo acadêmico teve como finalidade a explicitação de conceitos que são
utilizados no cotidiano das aulas dos cursos de psicologia da Faculdade da Fundação
Educacional Araçatuba. Ele buscou caracterizar o método fenomenológico em seus principais
conceitos de aplicação à psicologia, sendo eles: o conceito de fenômeno, de fenomenologia,
das técnicas redutivas Eidética e Transcendental, do conceito de percepção e de consciência.
Em seu segundo ponto, procurou descrever as noções de Husserl sobre a síntese passiva e de
suas implicações no trabalho terapêutico. Para encerrar o texto descreve algumas noções sobre
o lugar do terapeuta no processo do cuidado, indicando suas características principais.
_____________________

1
Cf. HUSSF.RL, E. Lcziotti st/lia sinlesi passim. Traduzione di V. Costa. Milano: Guerini, 1993. (Originais de 1918-
1926 publicados em 1966). Cf. também GHIGI, N. A hilética na fenomenologia: a propósito de alguns escritos de
Angela Ales Bello. Memorandum, 4, p. 48-60,2003. Disponível em:
<http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos04/gh igi01.htm>.
2
Sobre o método husserliano de “escavação fenomenológica”, cf. ALES BELLO, A. Culturas e religiões: uma leitura
fenomenológica. Tradução de A. Angonese. Bauru: Edusc, 1998; Cf. também ALES BELLO, A. Fenomenologia e ciências
humanas: psicologia, história e religião. Organização e tradução de M. Mahfoud e M. Massimi. Bauru: Edusp, 2004.
3
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis-RJ: Vozes,1999.
4
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
5
FERNANDES, Marcos Aurélio. Do cuidado da fenomenologia à Fenomenologia do Cuidado.In: PEIXOTO, Adão José;
HOLANDA, Adriano Furtado. Fenomenologia do Cuidado e do Cuidar - Perspectivas Multidisciplinares. Curitiba:
Juruá Editora, 2011. p. 17-32.
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FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de; PROTASIO, Myriam Moreira. Os desafios da clínica psicológica: tutela e escolha.
Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 16, n. 2, p.167-172, dez.2010.
REFERÊNCIAS UTILIZADAS NO TEXTO

BELLO, Angela Ales. Introdução à Fenomenologia. Tradução: Ir. Jacinta Turolo Garcia e Miguel
Mahfoud. Bauru-SP : Edusc, 2006. 108p. (Coleção Filosofia e Politica).
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes,1999.
FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de; PROTASIO, Myriam Moreira. Os desafios da clínica psicológica: tutela
e escolha. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 16, n. 2, p.167-172, dez. 2010.
FERNANDES, Marcos Aurélio. Do cuidado da fenomenologia à Fenomenologia do Cuidado.In: PEIXOTO,
Adão José; HOLANDA, Adriano Furtado. Fenomenologia do Cuidado e do Cuidar - Perspectivas
Multidisciplinares. Curitiba: Juruá Editora, 2011. p. 17-32.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2001.

Prof. Me. Claudemir Gomes – 25/11/2014


O MÉTODO FENOMENOLÓGICO ESSENCIALISTA DE HUSSERL NA VISÃO DE
ANGELA ALES BELLO

Prof. Me. Claudemir Gomes 1

RESUMO: Este artigo toma a possibilidade de utilizar-se das contribuições teóricas de Angela Ales Bello, em
seu livro Introdução à fenomenologia, para compreender o percurso de Husserl em sua produção filosófica onde
define o que ele entende por buscar os sentidos sobre as coisas. O livro de Ales Bello é uma rota segura, pois é
uma fonte preciosíssima dado a sua inteligência, o caráter didático de sua exposição e sua proximidade com
Husserl. Fala-se dos atos psiquicos, dos atos espirituais enquanto classificação compreensiva do pensamento.
Discute-se a elaboração e construção do mundo enquanto um modo singular do ser humano existir nele, traçando
o fora e o dentro como a simetria imprenscíndivel do dispositivo da construção do humano. Destaca-se, na
análise, o valor conceitual dos termos essência e existência como produtores de linhas de pesquisa e de produção
teórica. A partir disso, esboça-se a fenomenologia essencialista de Husserl com a participação de suas discipulas
Edith Stein e Angela Ales Bello, bem como sugere o princípio do caminho sistemático da fenomenologia
existencialista de Heidegger com Merleau Ponty, Sartre, Albert Camus, Gabriel Marcel, entre outros discípulos.

Palavras-Chave: Fenomenologia. Fenomenologia Essencialista. Husserl.

INTRODUÇÃO
Angela Ales Bello é autora de livros que falam de Edmundo Husserl. Escreve com
clareza e em tom coloquial. Essa forma de escrever fez com que suas obras tenham tido
grande receptividade no Brasil, havendo já várias publicações brasileiras que se tornaram
referência. Nesse livro, que traz o título: Introdução à Fenomenologia, (Coleção Filosofia e
Política), Ales Bello procura descrever metodologicamente o modo como pensava Edmundo
Husserl. Introdução à Fenomenologia é um livro cujo texto se fez a partir do curso ministrado
pela Professora Angela Ales Bello na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru (SP), no
ano de 2004, vindo a professora da Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. O livro foi
editado por Miguel Mahfoud e Silvio Motta Maximino. Ales Bello, ao proferir suas pAles
Bellotras na USC–Bauru-SP, fonte editorial e origem textual do livro, mostrou profundo
conhecimento e compreensão do pensamento husserliano, focando criativamente os
elementos mais singulares que caracterizavam o grande mestre.
Enquanto pensadora mantém a sua posição intelectual no exercício da articulação da.
_____________
1 – Prof. Me. Claudemir Gomes. Docente do Curso de Psicologia da Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba. Endereço eletrônico:
gomespsi41@gmail.com
pesquisa entre os diversos grupos e as diversas universidades brasileiras, onde se vê que vêm
frutificando o seu pensamento, a partir de suas visitas acadêmicas ao Brasil. O livro foi
gerado nesse ambiente de tessitura de relações, na convivência preciosa entre professores e
alunos. Miguel Mahfoud, ao encerrar a sua apresentação da edição de 2006, afirma que:

“Temos à mão uma verdadeira Introdução à Fenomenologia. Fiel ao rigor


metodológico, típico da fenomenologia. A Prof. Angela Ales Bello nos convida a
percorrer o inteiro percurso husserliano. Magistralmente, somos provocados, na
contemporaneidade, a atentar ao que nos está à volta e à própria experiência interna.
E, com surpresa, advertimos que, aqui, experiência vívida e reflexão sistemática
podem efetivamente não estarem cindidas. A novidade é que não se apresenta
apenas discursivamente uma tal possibilidade de unidade, mas somos conduzidos a
reconhecer a vivência - através do método interrogativo husserliano - com
surpreendente simplicidade de forma que a introdução ao campo fenomenológico,
tão sofisticado, começa a nos parecer familiar, começamos a nos sentir em casa,
porque começamos a atentar ao mundo mais conscientes dos próprios recursos e do
próprio eu (...) e, no mesmo texto ainda, o prof. Mahfoud agradece aos
pesquisadores do Programa de Iniciação Científica do LAPS - Laboratório de
Análise de Processos em Subjetividade, da Faculdade de Psicologia da UFMG, que
trabalharam com cuidado evidente na transcrição e textualização das gravações do
curso original, possibilitando que o presente volume seja uma realidade boa para
muitos”. ALES BELLO, 2006, p.11.

DESENVOLVIMENTO
Na apresentação que faz sobre o tema, a Profa. Ales Bello diz que a grande
dificuldade que existe em quem se dispõe a estudar a fenomenologia essencialista de Husserl,
está no fato de que Edmundo Husserl nunca chegou a escrever uma obra apresentando todo o
seu percurso investigativo. Sobre esse aspecto, diz:

(...) a cada obra sublinha certo aspecto do percurso integral, num caminho
analítico, partindo de um esquema geral. Passo a passo, ele vai chegando a
uma consciência completa das diversas vivências, e continuamente se
pergunta: “Qual é o significado do ato que estou operando?”, e ao mesmo
tempo: “Qual é a formação que permite tais atos?” Seus livros são resultado
de compilações de esboços de aulas ou de suas anotações pessoais. Muito de
sua vasta obra, até hoje, não chegou à publicação. Como sua análise é muito
detalhada, atentando com rigor para cada aspecto, ele nunca chegou a
formular uma síntese geral e isso dificulta conhecer o pensamento
husserliano. ALES BELLO, 2006, p.13.

Com a intenção de contribuir com a explicitação e apresentação do processo


investigativo, em todo o arco do processo metodológico, empreendido pelo fundador da
Fenomenologia, Ales Bello apresenta, no sumário de seu livro, uma ordem de pauta onde não
apenas busca descrever os temas mais relevantes, mas sim analisar o pensamento de Husserl.
Para tanto, ela inicia a sua tarefa inquirindo do seu leitor as compreensões necessárias sobre o
que é fenômeno e fenomenologia? A partir dai apresenta a fenomenologia como método. O
tema da consciência é visto junto com a descrição das estruturas universais. Em seguida
oferece, com muito jeito um primoroso texto onde fala da síntese passiva como fase anterior à
percepção. Introduz o conceito da entropatia como capacidade que o homem tem de conhecer
o seu semelhante, definindo-a como a conjunção privilegiada do Eu, do outro e do nós. O
tema da intersubjetividade é cuidadosamente analisado como dispositivo de formação das
modalidades de associação e de organização da pessoa. A análise das vivências, é a proposta
que Ales Bello sugere, a partir das compreensões de Husserl, para um fundamento das
ciências; Na exposição do método fenomenológico husserliano e do existencialismo ela
aprimora a sua intenção de discriminar competentemente as diferenças existentes entre Mestre
e Discípulo, destacando suas teses e enriquecendo com isso o método fenomenológico com
dois grandes pensadores, produzindo cada um centenas de novos discípulos. Para finalizar a
brilhante discussão do livro, Ales Bello surpreende a todos com a sua sensibilidade criativa,
colocando sobre a temática da busca religiosa novos conceitos e idéias que não apenas
humanizam o sentido da compreensão do sagrado, mas que oferece novos caminhos para
ainda se acreditar.
Em seu primeiro ponto de discussão, Ales Bello logo formula a questão: O que é o
fenômeno e fenomenologia? E, para respondê-las se vale do conhecimento das palavras
gregas que afirmam ser:

Fenômeno é aquilo que se mostra;não somente aquilo que aparece ou parece e


“Logia” que deriva da palavra logos, que para os gregos tinha muitos significados,
tais como: palavra, pensamento. Vamos tomar logos como pensamento, como
capacidade de refletir. Tomemos, então, fenomenologia como reflexão sobre um
fenômeno ou sobre aquilo que se mostra. A Fenomenologia começou como uma
escola filosófica cujo pai e mestre é E. Husserl. O seu inicio sistemático se deu na
Alemanha, em fins do século XIX,e na primeira metade do século XX. (ALES
BELLO, 2006, p.17-8)

Ao tomar-se a definição de fenômeno como aquilo que se mostra e não somente aquilo
que aparece ou parece, logo se é levado ou conduzido para a um entendimento passível de
erros, pois se passa a acreditar que as coisas se mostram a nós à maneira como acontecia no
realismo platônico, na metodologia da reminiscência. A compreensão que a Fenomenologia
sugere não é esta, pois as coisas quando se revelam a nós não o fazem como quem instigasse
um determinado comportamento, mas sim mediante a compreensão que se dá no sentido de
que as:

“coisas se mostram a nós porque somos nós quem buscamos o seu significado. Todas
as coisas que se mostram a nós, pois tratamos como fenômenos, porque conseguimos
compreender o sentido. Entretanto o fato de se mostrarem não nos interessa tanto,
mas, sim, compreender o que são, isto é, o seu sentido”. (ALES BELLO, 2006, p.19)

E esse é o detalhe que se revela no fenômeno: o seu sentido. E esta é a meta enquanto
pessoas que buscam o significado ou o sentido daquilo que se mostra. Essa é a missão da
filosofia nos dias de hoje: buscar o sentido das coisas, tanto de ordem física quanto de caráter
cultural, religioso etc, que se mostram a nós.

O nosso problema é: o que é que se mostra e como se mostra. Quando dizemos que
alguma coisa se mostra, dizemos que ela se mostra a nós, ao ser humano, à pessoa
humana. Isso tem grande importância. Em toda a história da filosofia sempre se deu
muita importância ao ser humano, àquele a quem o fenômeno se mostra. As coisas
se mostram a nós. Nós é que buscamos o significado, o sentido daquilo que se
mostra. Num primeiro momento, podemos pensar que aquilo que se mostra esteja
ligado ao mundo físico diante de nós, mas do que dizer “as coisas se mostram”,
precisamos dizer que “percebemos, estamos voltados para elas”, principalmente para
aquilo que aparece no mundo físico. (ALES BELLO, 2006, p.19)
E, implicado nessa discussão metodológica, já se apresenta, no esforço compreensivo
da fenomenologia essencialista de Husserl, um quê de positivismo ou de cientificismo. O
rigor da análise que Husserl emprega na discriminação do sentido e de seus atos constitutivos
o faz fazer ciência e acreditar na essência como pressuposto a priori do comportamento. Diz
Ales Bello assim nesse sentido:

Então, para compreender o sentido, nós devemos fazer uma série de operações, pois
nem sempre compreendemos tudo imediatamente, que consiste em identificar o
sentido, os fenômenos, de tudo aquilo que se manifesta a nós. . (BELLO, 2006,
p.19)

A discussão que se segue, neste segundo ponto, é sobre a questão da fenomenologia


como método que, segundo Husserl, apud Ales Bello ( 2006, p.21), o método é um caminho
formado de duas etapas: na primeira, a busca do sentido dos fenômenos: a redução eidética, e
na segunda, a redução transcendental, que tratará como é o sujeito que busca o sentido.
As duas etapas falam da compreensão do sentido das coisas. É óbvio que para algumas
coisas, a apreensão do sentido não é complicada, pois este se revela na própria função da
coisa enquanto objeto. Todavia, para tantas outras, cresce, e muito, a complexidade da
apreensão do sentido. Ales Bello destaca a fala de Husserl sobre esse tema, dizendo:
Husserl afirma que para o ser humano é muito importante compreender o sentido
das coisas, mas nem todas as coisas são imediatamente compreensíveis. De qualquer
modo, compreender o sentido das coisas é uma possibilidade humana. Como o que
nos interessa é o sentido das coisas, deixamos de lado tudo aquilo, que não é o
sentido do que queremos compreender, e buscamos, principalmente, o sentido.
Husserl diz, por exemplo, que não interessa o fato de existir, mas o sentido desse
fato. Este é um ponto muito importante: existem os fatos? Certamente, existem. Mas
não nos interessa os fatos enquanto fatos, interessamo-nos pelo sentido deles. Por
isso posso também “colocar entre parênteses” a existência dos fatos para
compreender sua essência. Esse é um argumento para quem diz que importantes são
os fatos. Certo, importantes são os fatos, mas o que são fatos? É este o ponto. E aqui
está toda uma polêmica com outra corrente filosófica contemporânea a Husserl, o
Positivismo’. O Positivismo considera muito importante os fatos, sobretudo
assumidos como tais pelas ciências físicas. No entanto, Husserl diz que os fatos
existem e são fatos. Mas o que são? Por exemplo, a ciência física olha a natureza,
dá-se conta dos fotos da natureza, mas o que são esses fatos? Ou ainda, as ciências
sociais olham a sociedade, mas o que é a sociedade? Qual é seu sentido? Fazemos
tantas análises da sociedade sem saber do quê se trata. Não basta dizer que existem,
e esta é uma das polêmicas de Husserl no confronto com o Positivismo, mas também
com todas as ciências da natureza e as ciências humanas. A mentalidade positivista
está ainda muito presente em nossos dias, ainda que não a chamemos assim. (ALES
BELLO, 2006, p.23-4)
No entanto, basta a ciência física para resolver essa questão? Bastam as ciências
humanas para dizer o que é o ser humano? Não bastam. Elas descrevem alguns aspectos do
ser humano, assim como as ciências da natureza descrevem alguns outros. Mas a questão do
sentido é um problema de fundo de toda a história da filosofia ocidental, pois a filosofia é a
busca do sentido, e não dos aspectos do objeto. Estes devem ser examinados, ninguém diria
que não, mas é necessário ir mais fundo, escavar mais, em diferentes níveis. Por essas razões,
Husserl, no seu tempo, polemizava contra o Positivismo. A intuição do sentido é o primeiro
passo do caminho e revela ser possível captar o sentido. E, nessa maneira de pensar, inicia o
que se chama de fenomenologia essencialista de Husserl: a procura que o homem faz sobre o
sentido das coisas e de suas implicações metodológicas.
A redução transcendental, nesse ponto, é básica para responder por que o ser humano
busca o sentido. Esse é o lugar da análise do homem, a reflexão sobre o sujeito reflete. A
redução fenomenológica permite ao homem dizer quem ele é. A novidade de Husserl, diz
Ales Bello, é que a análise do sujeito humano se constitui no ponto de partida de sua
investigação. Para dar um exemplo dessa categoria de reflexão, Ales Bello (2006, p.27),
destaca o seguinte exemplo:

Para realizar a análise do sujeito faremos um exercício, comecemos por dizer que
estamos diante de um copo d’água. Vemos, sobre a mesa, o copo que antes já estava
lá, podíamos vê-lo, mas não tínhamos prestado atenção nele. Esta é uma coisa
interessante que apresenta dois níveis. Antes víamos os copos, mas não fazíamos
uma reflexão, talvez porque não estivéssemos com sede. Agora, tenho sede e
começo a prestar atenção. Estamos refletindo um pouco sobre o tema do “ver o
copo”. Antes estávamos cônscios, sabíamos ter visto o copo sem ter feito uma
reflexão a respeito. Todos nós tínhamos já uma experiência perceptiva do copo, que
estava em nós, dentro de nós, mas o copo, fora. Porém, no momento em que tivemos
uma experiência perceptiva do copo, ele estava também dentro de nós. De que modo
estava dentro? Nós sabíamos que o copo existia, portanto estar dentro significa saber
que o copo existe.

Nesse sentido puramente essencialista, é que Husserl se vale dos estudos feitos sobre a
percepção na perspectiva de compreender melhor como se dá o conhecimento humano. Chega
até mesmo a afirmar que é, por meio da percepção, que se entra em contato com o mundo
físico que é percebido através das sensações. A percepção é uma porta, uma forma de
ingresso, uma passagem para o sujeito, ou seja, uma compreensão de como o ser humano é
feito. Na análise feita sobre o copo, falou-se da percepção como um ato que se está vivendo,
porém, nem todo ato que se vive, que se pode identificar, é de caráter psicológico, por isso a
análise se torna muito refinada e requer uma atenção especial. Para comentar o exemplo
acima Ales Bello (2006 p. 27), diz que:
(...) enquanto estávamos vivendo o ato perceptivo (o ato de ver o copo), poderíamos
perguntar do que esse ato era formado. Sabemos que esse ato perceptivo era
formado pelo ver o copo e também pelo copo, ali, diante dos olhos. Enquanto coisa
física, enquanto existente, onde estava o copo? Estava fora. Porém, enquanto visto,
onde estava? Dentro. Temos aí, o ato de ver, e enquanto vivemos o ato, estamos
vivendo o copo-visto dentro de nós.

Desse modo, vai-se construindo a maneira essencialista husserliano de pensar o


conhecimento na formação do humano. Ales Bello (2006, p.31) utiliza, nessa construção, os
conceitos da visão e a do tato qualificando-os como sensações que são vividas por nós, pois as
registramos por meio da nossa capacidade de dar-nos contas de algo que acontece conosco.
Adentrando em um terreno de muita complexidade teórica, Ales Bello se permite, por
inspiração metodológica, fazer uma comparação entre os atos da percepção – o dar-nos conta
– e o ato da consciência de algo. Esse é um terreno perigoso e complexo porque a ultima coisa
que se poderia pensar nesse momento é o da produção de um paralelismo sem nexo, criando
para a consciência um território e uma função complementar. Quando Ales Bello sugere a
comparação isso se faz para dizer que a consciência não existe em si, mas que é
simultaneamente um tipo de imagem que é produzida pelo processo da percepção, e que esse
sim é o caminho de acesso ao ser, ao sujeito do conhecimento. Ales Bello ainda destaca a
compreensão da junção entre os conceitos citados da consciência e da percepção afirmando
que isso só acontece pela capacidade que o ser humano tem de saber o que faz. E de que isso é
uma condição superior, quando comparada aos animais, sobre tudo quando favorecida pelo
imenso desenvolvimento do humano. Ales Bello (2006, p.32) cita Husserl sobre esta questão:

Aqui está a novidade, pois Husserl diz que o ser humano tem a capacidade de ter
consciência de ter realizado esses atos, enquanto ele está vivendo esses atos, sabe
que os está realizando. Sabe que está realizando esses atos na relação com algo que
está vendo ou tocando (...) ver e tocar são vivências, e se são vivências, quer dizer
que são registradas por nós e delas temos consciência. Ter consciência dos atos que
são por nós registrados são vivências. Consciência, neste caso, não quer dizer que a
cada momento nós temos que dizer “agora estamos vendo, agora estamos tocando”.
Consciência significa que, enquanto nós olhamos, nos damos conta de que estamos
vendo, ou que, enquanto tocamos, nos damos conta de tocar.
E sobre isso, Ales Bello (2006, p.33-4), destaca os níveis de consciência perguntando
sobre esse novo ato, que é o refletir, e de que tipo é essa vivência. Para tanto, sugere a
existência de dois tipos: a consciência de primeiro grau, que acontece nos atos perceptivos
com ênfase nos processos corpóreos e psicológicos, e a consciência de segundo grau
produzida nos atos reflexivos com ênfase nos processos psicológicos e espirituais.
Numa rápida comparação, entre um cão e um gato que se veem e se tocam, sabe-se
que eles possuem a consciência do primeiro grau – a perceptiva, que é corpórea e psicológica,
pois eles são capazes de sentir, mas que não possuem a consciência do segundo grau – a
reflexiva, pois esse grau apenas pertence ao homem porque tem a capacidade de se dar conta
do que está vivendo. Ele sabe que sabe, sente que sente, sabe que está vivendo.
Para ampliar a noção do essencialismo husserliano, Ales Bello (2006, p.33-4) ilustra a
noção dos atos perceptivos como pressuposto à consciência que temos de sermos corpo,
psique e espírito.

Voltemos ao copo de nosso experimento. Nós o vemos, o sentimos, o utilizamos,


por quê? Porque temos sede. Que tipo de ato é a sede? E um impulso. Nós sentimos
alguma coisa interiormente, que nos impulsiona a pegar o copo e a beber. Esse
impulso, não é o ato de beber, ou o ato de tocar, e nem o ato de refletir, é um outro
ato. Em geral, o impulso em direção a alguma coisa é registrado por nós, pois temos
consciência do impulso e queremos vivê-lo. E o que fazemos? Buscamos alcançar o
copo. Pode ser que alguém próximo do mesmo copo d’água tenha o mesmo impulso
de beber, mas não chega a pegar o copo sobre a mesa. Por quê? Existe um contro le
muito semelhante ao ato da reflexão (É justo não poder beber?). Podemos dizer que
existe uma regra social ligada a um controle, trata-se de um ato que não é o do ver
ou o de tocar, nem o do impulso que mais se assemelha ao ato de refletir. Todos
esses atos que identificamos têm características diversas, qualidades diversas.
Podemos pensar que existe uma dimensão do ter consciência (não uma dimensão
física) sob a qual nós registramos: é um setting de registro dos atos. De quais atos?
De todos os que nós estamos realizando, atos que são ligados ao mundo externo e ao
mundo interno. Retomemos toda a análise feita na dimensão do ver e do tocar, o
objeto é externo, mas o impulso de ir beber é interno. Agora, onde nós percebemos o
ato interno, o impulso e o ato externo perceptivo? Sempre nessa dimensão da
consciência. A consciência é a dimensão com a qual nós registramos os atos. O
registro é um terreno novo, e ao identificarmos nesse terreno os atos vividos por nós,
percebemos que tudo aquilo que vivemos passa através desse terreno.

Todavia, Ales Bello (2006, p.39), no sentido da ampliação compreensiva dos atos,
identifica outros atos que não são de caráter psíquico, como o impulso de beber, nem de cará-
ter corpóreo porque o corpo nos manda a mensagem de beber, mas não pegamos o copo.
Portanto, podemos controlar o nosso corpo e a nossa psique. Diz ela:
Estamos registrando o ato de controle, mas este não é de ordem psíquica
nem de ordem corpórea, e nos faz entrar numa outra esfera a que os
fenomenólogos chamam de esfera do espírito (...) que é a parte que reflete,
decide, avalia, e está ligada aos atos da compreensão, da decisão, da
reflexão, do pensar, que é assim chamada de espírito. Examinando os atos,
a começar pelo registro dos atos podemos chegar à estrutura do ser humano.
Somos corpo-psique-espírito, como dimensão.

É desse modo que se pode entender a metodologia de Husserl, o seu jeito essencialista
de pensar. Sua decisão em fazer ciência está justamente neste processo onde se busca saber
como o mundo se tornou um modo de ser em nós. Como o fora se tornou dentro. Quando e
como acontece isso? A implicação disso na constituição do humano. Sabe-se que a sua maior
preocupação é com a essência, em ser ela ou não o elemento captador e formatador interno
das possibilidades compreensivas do fora (?), em saber como se dá o humano e a partir de que
ele é tecido, constituído, produzido, ou seja: qual é sua essência, do que ele é feito? Por isso a
sua determinação com a busca do sentido, pois essa é a materialidade com a qual se descobre
do que é feito o homem e não simplesmente pelo fato dele existir. Sua ideia é que se deve
colocar entre parênteses a existência dos fatos. O copo diante de mim é um fato, mas não
interessa tanto que ele esteja aqui, e sim o que ele é, o problema do sentido. (ALES
BELLO, 2006, p.93). É óbvio dizer que Husserl não nega a existência das coisas ou dos
fatos, mas se referia à existência como fato positivista. Porque ele não diz que não existe,
apenas não quer levar em consideração a existência como factualidade. Quem vai afirmar a
existência como pressuposto da essência é Heidegger. E sobre isso, Husserl diz, apud Ales
Bello, (2006, p.94) :
“Se vocês, positivistas, me dizem que as coisas existem como fato, como objeto da
ciência, este aspecto de existência não me interessa, porque me interessa
compreender o sentido.” Poderíamos perguntar qual o sentido e a resposta seria que
o sentido de todos os fenômenos, que estão interativamente sendo analisados e
também os detalhes internos ao sujeito referentes àqueles fenômenos, as vivências.
Heidegger, Merleau-Ponty, e Sartre admitiram que há um fenômeno da existência
humana e se interessaram por examiná-lo como fenômeno, mas sem adentrá-lo, sem
examinar a dimensão dos atos. Essa é uma diferença fundamental. Quem aceita a
dimensão dos atos é Edith Stein, que se interessa pela estrutura do sujeito,
reconduzível à realidade transcendental (atos de consciência), e, através dos atos
conquistados, vem depois, a existência das coisas. Todas as coisas existem; eu
existo, os outros existem, as comunidades existem, porém Husserl não trabalha
sobre o plano da existência, mas do sentido, do significado das coisas que existem.
Heidegger, que é discípulo de Husserl, muda esta visão, interessando-se pelo fenô-
meno da existência humana ao qual denomina Daisen.
Desta maneira, com a introdução do conceito da existência, Heidegger cria o
existencialismo enquanto uma abordagem que se preocupa com o ser diante da realidade e da
circunstância. Nesta feita não se discutirá sobre a essencialidade do ser como pressuposto da
existência, mas será invertida a questão tomando Heidegger a compreensão de que a
essencialidade será, por consequência, a soma das vivências do ser nas suas determinações
sobre o que fazer da vida. O dasein será o grande indicativo do ser-aí. Do ser aí frente a
circunstância. Do impasse do ser que, necessariamente, deverá decidir por sua escolha a
fazer : ou se joga na circunstância transformando-a em realidade ou em não se jogar e privar-
se da experiência, definindo assim uma escolha decidida pela alienação. Sabe-se que do ponto
de vista histórico, essas filosofias nasceram da análise da existência, constituindo o
Existencialismo,embora Husserl não fosse um existencialista.
Para finalizar esse pequeno estudo, que apenas se concentrou na compreensão do
essencialismo enquanto elemento qualificador da abordagem fenomenológica, mais uma vez
utiliza-se a compreensão que Ales Bello (2006, p.95) faz sobre o tema:

Num certo sentido, os existencialistas entram na questão dos atos, mas não seguem a
análise de Husserl sobre a subjetividade, é neste ponto que se separam. A questão
mais importante é a de como vamos examinar o ser humano. Husserl vai ao interior,
aos atos, às vivências para conhecer o sujeito que apreende o fenômeno, para poder
conhecer as características do que está fora (não factualmente), mas conforme foi
apreendido pelo sujeito, faz uma análise do ponto de vista do espírito. Os
existencialistas, interessados nessa existência do ser humano, permanecem fora.

CONCLUSÃO
Fica claro, depois do exposto, que os dois modos de se pensar o homem, tanto o
essencialismo quanto o existencialismo se valem da mesma compreensão do ser humano
enquanto fenômeno. Se um olha para fora o outro olha para dentro. Se um coloca o homem
implicado no dasein, onde o ser-aí deve decidir para ser, o outro coloca o homem como algo
que a natureza teceu, sob inspiração do sagrado ou não( ?), que o fez corpo, e que neste se
congrega todo legado dos muitos milhares de anos de evolução. O existencialismo afirma que
as vivências são experiências tomadas pelo corpo que decidiu ser, que se jogou na
circustância, que se fez mundo. O essencialismo define a vivência como a capacidade que o
homem tem de registrar o que acontece com ele e disso ter consciência. Do lado
existencialista, preocupado com a existência enquanto objeto de sua análise, compreende-se o
homem de várias maneiras : a) que, o ser, não é/existe em si mesmo, e que quando aparece se
desfaz ; b) que o ser humano é incomensurável ; c) é comparado às águas do rio que nunca
passam duas vezes em um mesmo lugar. Sendo assim, d) é insustentável a qualquer apreensão
que se destine, qualquer categorização que se aplique, e que, por não ser classificável, não
pode ser idêntico, mas apenas semelhante na diferença. De outro lado, o essencialismo, por
não concordar com tudo isso, evoca a compreensão do que é feito o homem, e para tanto
recorre aos atos, aos processos, à busca dos sentidos, ao entendimento de um corpo que
aprimorou seu jeito de ser corpo, pela natureza de sua inerente necessidade de interagir com o
mundo em todas as suas categorias. Pela busca da compreensão do que se chama essência. Do
que é fundamental à existência humana. Da vida enquanto fenômeno.
Desse ponto de vista, a questão mais importante é a de “como vamos examinar o ser
humano. Husserl vai ao interior, aos atos, às vivências para conhecer o sujeito que apreende
o fenômeno, para poder conhecer as características do que está fora (não factualmente), mas
conforme foi apreendido pelo sujeito, faz uma análise do ponto de vista do espírito. Os
existencialistas, interessados nessa existência do ser humano, permanecem fora”. ALES
BELLO (2006, p.95)

REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA UTILIZADA

BELLO, Angela Ales. Introdução à Fenomenologia. Tradução: Ir. Jacinta Turolo Garcia e
Miguel Mahfoud. Bauru-SP : Edusc, 2006. 108p. (Coleção Filosofia e Politica).
PROF. ME. CLAUDEMIR GOMES

Artigo :

O MÉTODO FENOMENOLÓGICO ESSENCIALISTA DE HUSSERL NA VISÃO DE


ANGELA ALES BELLO
Faculdade da Fundação Educacional Araçatuba
Araçatuba-SP
Junho/2014

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