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e

EU e' TIJ de Martin Buber é considerado


um dos maio~ livros escritos no século XX,
numa lista elaborada pelo filósofo Mortimer
Jerome Adler e publicada na "Revista Time" de 7
de março de 1977. Suas obras filosóficas têm
influenciado várias das Ciências Humanas como
a Psiquiatria a Psicologia, a Educação.
Ocupando lugar preponderante na filosofia da
Existência, EU e TIJ representa, sem dúvida, o
estágio mais completo e maduro da filosofia do
diálogo de Martin Buber. Pode-se dizer que a
principal intuição de Buber foi exatamente o
sentido do conceito de relação para significar
aquilo que, de essencial, acontece entre ser-..·., .... :JiiEJml[
humanos e entre o homem e Deus. ::::l

MARTIN BUBER
Introdução e tradução
~EWTON AQUILES VON ZUBEN

.~
~ 1ft.
E DJTORA
CENTAURO tt~~~~~~~~~
JI I
MARTIN BUBER

Eu e Tu
TRADUÇÃO DO ALEMÃO, INTRODUÇÃO E
NOTAS POR

NEWTON AQUILES VON ZUBEN


Professor na Faculdade de Educação
da Uliicamp.

6ª EDIÇÃO REVISTA
2003

'ht
CENTAURO
EDITORA
Traduzido do original alemão
Ich und Du, 8~ ed. Lambert Schneicler, Heiclelberg, 1974

Dados I~ternacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
I

Buber, Martin, 1878-1965. CONTEUDO


Eu e tu I Martin Buber ; tradução do alemão,
introdução e notas por Newton Aquiles Von
Zuben, -- 8. ed. -- São Paulo : Centauro, 2001.

Título original: Ich und Du.

INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . V
1. Deus - Conhecimento 2. Relacionismo 3. Vida
I. Von Zuben, Newton Aquiles. II. Titulo. 1. Dados Biográficos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XI
2. Características do Pensamento . . . . . . . . . . . . . . . XV
3. Influências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXII
· 4. EU e TU, De uma Ontologia da Relaçio a uma
Antropologia do Inter-humano . . . . . . . . . . . . . . . XL

PR]MElltAPARTE .. . . .... .. .. ... . .. . . . .. .. .. . .. 1


I
lol-4235 CDD-181. 3 SEGUNDA PARTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia judaica 181.3
TERCElltAPARTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

POST-SCRIPTUM. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
Nenhuma parte desta obra pode ser duplicada ou reproduzida
sem autorização expressa dos editores. NOTAS DO TRADUTOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157

GLOSSÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169

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Tel: 3976-2399 - Telefax: 3975-2203 - São Paulo - SP
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Impresso no Brasil
INTRODUÇÃO

O paradoxo é a paixão do pensamento: o


pensador sem paradoxo é como um amante
sem paixão, um sujeito medíocre. Martin
Buber, por ter assumido o paradoxo tanto em
sua vida como em suas obras, se apresenta
como um dos grandes pensadores de nossa
época. Sua mensagem antropológica constitui,
sem dúvida, um marco essencial dentro das
ciências humanas e da filosofia. A dimensão
hermenêutica de sua obra sobre a Bíblia e so..-
bre o Juda{smo faz de Buber um dos pilares
que ainda sustentam toda a evolução contem..-
porânea da reflexão teológica. Notável. e de
relevante importância, foi o seu trabalho de
tradução da Bíblia para o alemão, empreendi..-
mento este iniciado em colaboração com seu
amigo Franz Rosenzweig e finalizado após a
morte deste em 1929. Mais particularmente, a
sua filosofia do diálogo, obra-prima de um
verdadeiro profeta da relação (do encontro),
situa-se como uma relevante contribuição no
âmbito das ciências humanas em geral. e da
antropologia filosófica. Seus extensos e profcn..-
dos estudos sobre o Hassidismo projetaram
v
psiquiatria, psicologia, educação, sociologia e
Buber ao mundo intelectual do Ocidente como toda uma corrente da filosofia contemporânea
exímio escritor e como o revelador desta cor~ que se preocupa com o sentido da existência
rente da mística judaica. humana em todas as suas manifestações. A
Entretanto, devemos reconhecer que a mensagem buberiana evoca no pensamento
vasta produção de Buber ainda permanece des~ contemporâneo uma notâvel nostalgia do hu~
conhecida ein nosso meio. A nosso ver, a a tua~ mano. Sua voz ecoa exatamente numa época
lidade de Martin Buber se fundamenta num que paulatina e inexoravelmente se deixa to~
duplo aspecto: primeiramente no vigor com mar por um esquecimento sistemâtico daquilo
que suas reflexões tornam possíveis novas refie~ que é mais característico no homem: a sua hu~
xões. Embora pertencentes ao passado, elas manidade. Sendo assim, a obra de Buber é fun~
"provocam" a ponto de exercer fascínio sobre damental para a abordagem da questão antro~
aqueles que com elas se deparam; em· segundo pológica.
lugar, no comprometimento deste pensamento Esta mensagem humana, fornecida ao
com a realidade concreta, com a experiência homem contemporâneo caracteriza~se por uma
vivida. Pensamento e reflexão assinaram um exigência de revisão de nossas perspectivas
pacto indestrutível com a praxis, com a situação sobre o sentido da existência humana. A nos~
concreta da existência. Martin Buber repre~ talgia que envolve uma conversão propõe um
senta um dos exemplos do verdadeiro vínculo projeto de existência a ser realizado e não uma
de responsabilidade entre reflexão e ação, entre simples volta a um passado distante numa pos~
praxis e logos. Para ele a experiência existen- tura de mero saudosismo romântico. A afirma,.~,
cial de presença ao mundo ilumina as reflexões. ção do humano não é um objeto de anâlises
A fonte de seu pensamento é sua vida; sua objetivas, exatas, infalíveis, mas sim um pro~·
existência é a manifestação concreta de suas jeto. que envolve o risco supremo da própria 1
convicções. situação humana ·da reflexão.
A crescente presença das idéias de Martin Não raras vezes o pensamento de Buber
Buber se faz sentir de um modo bastante mar~ sofreu interpretações ambíguas, e até mesmo
cante nos mais diversos domínios da cultura errôneas, que poderi~m facilmente ser evitadas
moderna. Seus estudos sobre a Bíblia e o Ju~ se se tivesse observado uma certa postura de
daísmo tiveram uma influência decisiva na abordagem exigida pela profundidade da obra
teologia contemporânea, sobretudo na teologia Martin Buber não é um pensador qualquer, não
protestante .. Suas obras filosóficas têm influen~ é um autor no meio de outros perfazendo um
ciado vârias das chamadas ciências humanas: sistema de pensamento filosófico ou teológico.
VI VII
Há muita verdade na auto-caracterização de ços ontológicos aparecem necessariamente en..
Buber como "atypischer Mensch" (homem atí- trelaçados com reflexões práticas. Este apro..
picQ). Como não se trata de uma construção fundamento filosófico anseia sem cessar um
sistematicamente elaborada, sua obra exige ambiente de busca de um efetivo engajamento.
uma abordagem cuidadosa e criteriosa: os Sua_filo~ofia do diálogo --- da relação --- PC?~ to .
aventureiros à busca de soluções rápidas e central de -toàâ- a sua· reflexão tanto, no campo
receitas para crises existenciais poderão decep.. da filosofia ou dos ensaios soore religião, polí-
cionar-se logo nas primeiras páginas, desenco.. tica, sociologia e educação, atingiu sua expres-
rajados pelas ruelas austeras de um pensamen- são madura em EU E TU graças à fonte repre..
to que várias vezes se manifesta por conceitos, sentada pelo Hassidismo e sua mensagem. Na
frases e passagens obscuros. mística hassídica Buber encontrou não .só o
Nossa intenção aqui é introduzir as prin- princípio, mas a luz e o molde para a sua refie..
cipais idéias de Buber ao leitor que o desco-- xão. Podemos mesmo afirmar que a compreen..
nhece ou o conhece através de breves citações. são de EU E TU será completa quando for ]e..
Não se trata de um trabalho exaustivo sobre o vada em consideração toda a influência da
pensamento de Buber ·ou sobre a sua filosofia. mistica em geral (Budismo, Taoísmo, a mística
Trata-se de uma introdução à leitura de EU E alemã, a mística judaica) e mais especifica..
TU que ora apresentamos em tradução portu:.. mente do Hassidismo.
guesa. No entanto, como a nosso ver EU E TU No entanto, Buber não pode ser conside-
é a chave de todas as outras obras de Buber, rado um representante de um misticismo irra-
acreditamos que o leitor, após o conhecimento cional. Senão, como articular tal qualificação
deste livro, poderá mais facilmente abordar com sua obra EU E TU que traz reflexões reli-
qualquer estudo deste grande pensador. giosas profundamente ligadas a uma ontologia?
A essência do pensamento buberiano re- Além do mais. a dimensão ontológica de sua
vela-se, talvez mais do que a maioria dos ou- reflexão não nos permite afirmar que estamos
tros pensadores, estruturada como um círculo. diante de um sistema filosófico "pronto" do
Isto decorre do sentido que Buber deu ao com- mesmo modo como podemos dizer que a filoso-
prometimento da reflexão com a ~xistência fia de Hegel se apresenta como um sistema.
concreta, ao vínculo da praxis e do logos. Tal Entretanto, podemos, em nossa preocupação
comprometimento é uma das características de refletir criticamente sobre o pensamento de
principais do pensamento de Buber. No pró.. Buber, destacar temas ou conceitos mais impor-
prio nível da reflexão, pelo fato de a filosofia tantes e centrais contidos na obra e que servem
ser um desvelamento progressivo, seus esfor- de estrutura conceituai para a abordagem de
VIII
IX
outros pontos da doutrina ou das idéias que 1) DADOS BIOGRAFICOS
seriam, neste caso, consequências do tema
essencial. Martin Buber nasceu em Viena aos 8 de
· Esquematicamente, a obra de Buber pode fevereiro de 1878. Após o divórcio de seus pais,
apresentar~se sbb três facetas: Judaimo, onto~ partiu para Lemberg, na Galícia, cidade onde
' logia e antropologia. Cada uma delas se liga às moravam seus avós paternos. Buber passou
outras de um modo circular. A renovação, pro~ assim sua primeira infância com seu avô Salo-
jeto que Buber propõe ao Judaísmo, implica mão Buber, grande autoridade da Haskalah.
uma ontologia da relação que, por sua vez, tem Junto desta família o jovem Buber teve a chan-
suas consequências em vários campos, . tais ce de experimentar a união harmoniosa entre
como educação e política. Podemos abordar a tradição judaica autêntica e o espírito liberal
essas facetas de um modo cronológico ou lógico. da Haskalah. A atmosfera era propícia para
Dentro desta última perspectiva, a ontologia da uma piedade sadia e para um profundo respeito
relação (da palavra como diálogo) está pre- pelo estudo. Teve aí a oportunidade de apren~
sente como fundamento de todos os outros te~ der o hebreu, de ler os textos bíblicos e de
mas, seja de um modo retrospectivo nas suas tomar contato com a tradição judaica. Aos 14
concepções sobre o Judaismo e na hermenêuti~ anos voltou a morar com o pai. Matriculou~se
ca do Hassidismo, seja de um modo prospectivo no ginásio polonês de Lemberg. A filosofia, sob
na sua tradução da Bíblia, na sua antropologia a forma de dois livros, marcou sua primeira e
filosófica, em seus estudos sobre educação ou influente presença na vida de Buber entre seus
política, orientados para uma ética do interhu~ 15 e 17 anos. Nesta época, como ele mesmo
rr.ano. O fato primordial do pensamento de\ nos relata, o seu espírito estava tomado por
Buber é a relação, o diálogo na atitude exis-) idéias de tempo e de espaço. Em sua obra "O
tendal do face~a~face. problema do homem" ele faz alusão a uma ex-
Nesta introdução propomos ao leitor algu~ periência que exerceu profunda influência so·
mas considerações sobre os dados biográficos bre sua vida - "Um constrangimento, que não
de Buber, algumas características de seu pen~ podia explicar, tinha se apoderado de mim: eu
sarnento e de sua vida, as principais idéias que tentava, sem cessar, imaginar os limites do es.-
o influenciaram (aqui destacaremos a mística paço. ou senão a inexistência de um limite, um
hassídica) e finalmente fazemos algumas re~ tempo que começa e que termina sem começo
flexões sobre o sentido de EU E TU no conjun~ nem fim. Um era tão impossível quanto o ou-
to da obra. tro; um deixava tão pouca esperança quanto o
outro; contudo, falavam~nos que não havia
*
X XI
opção senão escolhendo um ou outro de tais ter um concepção diferente do tempo e da eter-
absurdos. Sob forte tensão, eu vacilava entre nidade.
um ,e outro, e acreditava que iria enlouquecer, Em 1896 Buber entrou para a Universi-
e este perigo tanto me ameaçava que eu pensa- dade de Viena, matriculando-se no curso de
va seriamente em escapar da confusão por meio Filosofia e História da Arte. Mais do que em
do suicídio". Foi então que lhe caiu às mãos qualquer lugar, encontrava-se em Viena o
o livro "Prolegômenos" de Kant, onde encon- exemplo típico de uma cultura aberta a toda
t~ou uma re~~osta para sua indagação. Nesse l sorte de influências, oriundas de todos os qua-
hvro ele venficou que o espaço e o tempo não ,- drantes do mundo intelectual. Encontravam-se
são nada mais que formas através das quais ) aí elementos eslavos, judeus e românicos. A
efetuamos a percepção das coisas e que elas I recém-formada escola vienense era neo-romãn~
em nada afetam o ser das coisas existentes. , tica e o lirismo ou o diálogo lírico estava aí
Descobriu também que tais formas entram, de J presente em sua forma de criação e expressão.
algumas maneira, na constituição de nossos Toda a atmosfera da intensa vida social e cul-
sentidos. :É tão impossível dizer que o mundo tural de Viena contribuiu para tornar Buber
é infinito no espaço e. no tempo, quanto dizer um devoto da literatura, da filosofia, da arte
que é finito, pois "nem um nem outro pode e do teatro. Isso contribuiu de algum modo para
ser contido na experiência" e nenhum pode ser que ele esquecesse suas raízes judaicas. Não
encontrado no mundo. "Eu podia", diz Buber, foi senão mais tarde. no final de seus cursos
"dizer a mim mesmo que o Ser mesmo está universitários, que a consciência da força e
subtraído tanto ao infinito quanto ao finito profundidade da tradição judaica ressurgiu.
espacial e temporal, pois que não faz senão Em 1901 entrou na Universidade de Berlim
aparecer no espaço e no tempo, e não se esgota onde foi aluno de Dilthey e G. Simmel. Em
a si mesmo nesta sua aparência. Eu começava Leipzig e Zurich dedicou-se ao estudo da psi..
então a perceber que há o eterno, muito dife... quatria e da sociologia. Em 1904 recebeu, em
rente do infinito, e que, não obstante, pode ha- Berlim, o título de doutor em Filosofia.
ver uma comunicação entre eu, homem, e o Em Berlim entrou em contato com uma
eterno". (O problema do homem) . Outro livro comunidade fundada pelos irmãos H. e J. Hart,
lido por Buber foi "Assim falava Zaratustra". a "Neue Gemeinschaft", que representava um
de Nietzche~ Buber se empolgou tanto com a oásis para a jovem geração: aí os jovens po..
mensagem de Zaratustra que resolveu traduzi- diam se expressar livremente. A comunidade
lo para o polonês. A visão nietzscheana do apresentava um desejo ardente de novos tem..
tempo como eterno retorno impediu Buber de pos: o lema era viver mais profundamente a
XII XIII
humanidade do homem. Foi aí que Buber tra~ Bíblia. Juda{smo e Hassidismo; estudos políti-
vou amizade com Gustav Landauer, persona~ cos, sociológicos e filosóficos.
gem este que o influenciou profundamente
Buber morreu em Jerusalém a 13 de junhv
· .Buber era um membro ativo no seio da. co-
de 1965.
mu~Idade universitária. Os jovens se reuniam
amiUde: para ~iscutir em conjunto os problemas
que mais lhes Interessavam. As reuniões se rea-
*
2) CARACTERíSTICAS DO PEN-
lizavam à ma.n~ria de seminários nos quais cada
SAMENTO
um dos participantes tinha a chance de expor
um trabalho que seria discutido por todos. "É necessário ter conhecido Martin Buber
Buber fez aí duas exposições: uma sobre Jakob pessoalmente para se compreender num instan-
Boehme .e outra intitulada "Antiga e nova co- te a filosofia do encontro, esta síntese do evento
munidade" onde afirmou "nós não queremos a e da eternidade". Nestas palavra de Bachelard
revolução, nós somos a revolução". vemos a convicção profunda de alguém que
Participante ativo dos primeiros Congres- acredita na necessidade de se encarar com se-
sos do movimento sionista, Buber foi escolhido riedade tal obra e tal vida, ligadas por um
9
1 secretário. Alguns anos mais tarde chefia vínculo inquebrantável. A impressão que a pre-
uma revolta de cisão no seio do movimento sença de Buber causava no seu interlocutor nos
por discordar da orientação do presidente ~ é relatada por G. Marcel: "Fiquei profunda-
fundador Theodor Herzl. mente impressionado, desde o início, com a
.. De 1916 ~ 1924 Buber foi editor do jornal grandeza autêntica de tal homem que me pare·
DER JUDE . Em 1923 foi nomeado profes- cia realmente comparável aos grandes patriar-
sor de. His~ória das Religiões e Ética Judaica, cas do Antigo Testamento". Marcel emprega
na Umversidade de Frankfurt. A cadeira, única o termo "plenitude" para caracterizar a perso-
na Alemanha, foi posteriormente substituída nalidade e a existência de Buber, cuja magna•
p~r Hi~tó:ia das Religiões. De 1933, quando nimidade surpreendia desde o primeiro encontro.
f01 destitutdo do cargo pelos nazistas, até 1938 Olhar profundo que parecia tocar a intimidade\
Buber permaneceu em Heppenheim. Em 1938 de seu interlocutor, e que, contudo, sabia aco•
aceitou o convite da Universidade Hebraica de lher na simplicidade ·e na fugacidade de um \
J.erusalé~, para lá ensinar Sociologia. Buber diálogo. Uma presença autêntica emanava de )
tmha entao 60 anos. Esse período foi de inten- sua pessoa, e a profundeza de seu semblante 1
sa atividade intelectual. Suas pesquisas se apro- residia na presença a si mesmo. Exatamente \
fundaram em diversas áreas: estudos sobre a por esta presença a si mesmo é que ele podia
XIV XV
*' tornar-se presente aos outros, acolhendo-os in... tos políticos ou diplomáticos~ O jovem Buber,
condicionalmente em sua alteridade. A aber... liderando um pequeno grupo, defendeu uma
tura e a disponibilidade com relação ao outro concepção mais ampla do sionismo: uma con-
encontravam em Buber um suporte: a zona de cepção que fosse, em sua essência, um esforço
silêncio, na qual se inscreve a confiança no de libertação e purificação interior e um meio
outro. O olhar encontra rapidamente o calor e de elevar o nível social e cultural das massas
a gratuidade da resposta. Quem ouve se não é judaicas. Esta firmeza de atitude demonstrava
para responder? Tal disponibilidade lhe fora uma vida interior muito madura e consciente,
inspirada, desde a juventude, pela vida das baseada numa compreensão bastante aguda do
comunidades hassídicas que havia visitado du- sentido de liberdade pessoal. Somente tal vida
rante a estadia na casa de seu avô, Salomon interior poderia lhe dar forças para enfrentar
Buber. Nesta época a semente do Tu já havia as dificuldades inerentes à sua própria exis-
sido lançada: o lugar dos outros é indispensá- tência, dificuldades estas provindas da marca
vel· para a nossa realização existencial. que a circunstância histórica impingia não só a
A plenitude citada por Marcel não seria ele mas a muitos outros, a ponto de torná-los
verídica se acaso não soubéssemos descobrir, ao pessoas diferentes, pois eram judeus. Isto, ao
lado da· amabilidade do acolhimento e da aber- invés de lhe ser desfavorável ou um motivo de
tura aos outros, a firmeza de sua personalidade, desdém, enriqueceu sua exper"iência ao reve-
quando se tratava de defender um ponto de lar-lhe a verdadeira origem de seu poder cria-
vista considerado como certo. Tal firmeza era dor.
logo orientada para uma constante procura do Outra característica marcante desta perso.-
verdadeiro, em meio às múltiplas verdades. nalidade-e deste espidtº~ fi_l9sóf!~o. foi~ uma~
Esta plenitude no diálogo caracterizava a pró· grande fé_ no ht~..map_Q. Ele vivia ·ardentemente
pria postura intelectual de Buber, pois ele nun- o "Menschensein" e pôde superar todas as suas
ca se desligava do mundo, .e suas idéias nunca dificuldades, buscando uma solução para o
eram excogitadas numa reclusão acadêmica. problema existencial do homem atual. Ele havia
Ele viveu plenamente as tarefas do mundo tais entendido a voz que o interpelava, e ao mesmo
como elas se lhe apresentavam. Desde os pri· tempo desejava que todos os homens tentassem
meiros anos de sua formação intelectual vemos responder a ela. Buber nunca quis figurar como
Buber à frente de grupos estudantis. Dentro o porta-voz de um sistema filosófico. Via sua
do movimento sionista com o qual se unira, ele missão como uma resposta à vocação que havia
entrou em conflito com os seus dirigentes pois recebido: a de levar os homens a descobrir~
estes só se mostravam interessados em assun~ a realidade vital de suas existências e a abrt-
XVI XVII
rem os olhos para a situação concreta que esta~ entação decisiva, eu falava às vezes sobre mi-
vam vivendo. Como Sócrates, ele ajudava, com nha posição a meus amigos; ela era semelhante
sua presença, o "parto dos espíritos" nos ho- a uma 'estreita aresta'. Desejava exprimir com
. mens. Seu esforço foi sempre sustentado pela isso que não me coioco numa larga e alta pla-
esperança de atingir o fim, pois sem a espe.. nície de um sistema feito de proposições segu-
rança não se encontrará o inesperado, inaces~ ras quanto ao Absoluto, mas sobre uma senda
sível e não-encontrável, como já afirmava estreita de um rochedo, entre dois abismos,
Heráclito. ·
onde não existe segurança alguma de ciência
. Buber não se deixa etiquetar por qualquer enunciável. mas onde existe a certeza do en...
Sistema doutrinário conhecido. Qualificações contro com aquilo que está encoberto". (O
como místico, existencialista ou personalista problema do homem, pág. 92 da tradução fran..
nada mais fazem do que desvirtuar o sentido cesa) . Esta afirmação revela, talvez melhor
de sua vida e de sua obra. Aliás, ele mesmo
se qualificou como "atypischer Mensch". O que qualquer outra, o significado e o valor da
maior compromisso de sua reflexão é com a vida e do pensamento de Buber. Nela podemos
experiência concreta, com a vida. Ele aliou, encontrar não somente a "santa insegurança"
com rara felicidade, a postura e as virtudes de mencionada em sua obra ··Daniel" ( 1913),
um homem atual (de seu tempo, do século XX) mas também todo vigor e profundeza poética
com as raízes profundas do Juda{smo primitivo. e filosófica de EU E TU Esta "estreita aresta"
Em realidade, ele encarnava o sábio e o pro- não é uma solução de tranqüilidade que se
feta tentando simplesmente advertir os homens torna um refúgio para os espíritos pusilânimes;
a respeito de sua situação. Não se tratava de não é, de forma alguma, uma posição de faci..
receitas tradicionalmente conhecidas ou impe- lidade que tende a transcender a existência real
rativos inadiáveis, mas um apelo aos homens eivada de paradoxos e contradições, ignoran..
para que vivessem sua humanidade mais pro- do-os simplesmente a fim de escapar das situa...
fundamente, movidos pela nostalgia do huma- ções delicadas e embaraçosas provocadas por
no. eles. Tal "aresta" onde Buber se coloca, é an...
tes de mais nada o vislumbre da união para..
* doxal da plenitude, superando as soluções de
compromisso daquilo que geralmente .é ent~n...
"Durante a primeira guerra mundial de- di do como dilemas ou alternativas: ortentaçao...
pois que meus próprios pensamentos sob;e as ...atualização, Eu...Tu Eu-Isso, dependênci~:liber...
coisas mais elevadas haviam tomado uma ori- dade, bem-mal, unidade... dualidade. A umao dos
XVIII XIX
~o~tr~rios permanece um mistério na profunda fletem a intuição primitiva e o mesmo "elan"
Intimidade do diálogo. Diálogo é plenitude. de uma renovação em profundidade do Judais-
/ De ~ato, "diálogo" é uma categoria que mo apresentado primeiramente em seus "En-
.· pode servir de via de acesso à compreensão da saios sobre o Judaísmo", publicados em 1909.
\ obra .de Buber. "Diálogo" foi o tipo de com- Não se pode falar propriamente de condi-
\ promisso de relação que a vida e a obra deste cionamento de um dos temas sobre os outros.
(autor selaram entre si. O modo pelo qual Buber os relaciona ao longo
Apesar da vida de Buber ostentar profun- de suas reflexões, fazendo-os como que equi-
d.a~ mar:_as de divisões, de contrastes, de opo- fundamentantes," é a principal característica de
siçoes, nao é sob esta categoria de ruptura que seu filosofar. Mesmo tratando dos mais diver..-
devemos abordá-Ia. Pode parecer uma divisão sos temas em qualquer dos campos, separada..-
a. distinção existente entre dois períodos de su~ mente, percebemos neles a presença marcante
VIda, o primeiro até 1938 (período alemão) e da unidade que subjaz a todos eles. Por isso
? segundo, de 1938 até a sua morte (período aquele que deseja ouvir o que Buber tem a dizer,
Israelense~. Eles, em verdade, estão estreita- não poderá nunca operar qualquer cisão entre
ment~4 umdos .. Sem dúvida, Buber conheceu uma obra e outra. S conveniente completar o
expenenci~s drásticas de profunda ruptura, estudo de EU E TU pela leitura de outros
mas sua VIda permanece única, plenamente vol- escritos tanto de cunho filosófico, ensaios que
tada para uma aspiração: o humano. Em cada compõem sua antropologia filosófica, ou p. ex.
aspect~ de_ ~ua vida e de sua obra, seja o as- "Caminhos de utopia" e outros escritos de
pecto ftlosofico seja o aspecto religioso 0 p t· cunho político e social, assim como os ensaios
fc . I f '
~ o ou o existencia , um ator único os centra-
o I-
e obras consagrados ao Judaísmo.
liza numa mensagem vivida: o diálogo EU E Ademais, é notável em Buber o sentido
TU, publicado em 1923, no período 'alemão, profundo de diálogo que ele estabelece entre
fundamenta suas obras posteriores, mesmo as sua própria vida e a sua reflexão. Ambas fir ...
datadas do período israelense, e que versavam mam um pacto de profundo e mútuo compro..-
sobre educação, sociologia, política e principal- misso. São auto-determinantes. Para Buber,
mente sua antropologia filosófica. Estas últimas porém, o conteúdo vivido da experiência huma..-
n~da mais são que explicitações ou manifesta- na, em todas as suas manifestações, vale mais
çoes. enriquecidas por outras experiências exis- que qualquer sistematização conceituai. . .
tenciais da filosofia do diálogo de EU E TU Assim o "diálogo" (a relação dialógtc~)
Por outro lado, os seus estudos sobre Judaism~ não é uma categoria à qual ele chegou por_ Vt~s
e sobre o Hassidismo, no segundo período, re- de raciocínio dedutivo, mas, como ele propr10
xx XZI
qualificou em EU E TU. o encontro é essencial... mos, para o plano empírito, somente como
mente um evento e como tal ele "acontece". simples ilustração para a retidão das teorias.
Sem dúvida Buber foi profundamente marcado Estas não mantêm para eles um vínculo pro-
· por aquilo que. quando ainda criança em visita fundo com a praxis ou, se houver tal vínculo.
a uma comunidade hassídica, acontecia entre o ele é mais uma imposição de normas e orien-
hassid, sequioso de palavras de conforto e ori... tações que nunca surtem efeito, pois simples-
entação, e o tsadik, o guia da comunidade, que mente ignoram o sentido profundo da_ ~raxis.
confortava seus hassidim com palavras. Do Esta nada tem a dizer. Buber. ao contrano. ra-
mesmo modo foi singular para ele a experiência dica a gênese e o desenvolvimento de sua re-
na adolescência quando, em casa de seu avô. flexão na riqueza e na força vital de sua expe-
brincava com seu cavalo favorito até que em riência concreta. Em Buber reflexão e ação
dado momento "algo aconteceu", algo "foi (logos e praxis) foram intimamente relaciona-
dito" a ele e ele respondeu ao apelo; o diálogo das.
acontecera. A fonte de onde brotou o dialógico Embora Buber não deixe claro as suas
era pois profundamente vivenciaL concreta. referências filosóficas e históricas e não se preo-
existencial. cupe com sua inclusão no seio de um sistema
ou de um contexto histórico-filosófico, numa
introdução parece-nos interessante não omitir a
* sua situação dando uma referência ao clima
3) INFLUÊNCIAS. onde seu pensamento se desenvolveu. as influ-
a) Considerações gerais ências que sofreu e o molde no qual seu pensa-
Martin Buber é mais um pensador do que mento tomou força. Devemos retificar em part~
um filósofo acadêmico ou um teólogo profissio- a afirmação de que Buber não deixa claro, em
nal. A vitalidade de seu pensamento toma sua seus escritos. as referências às influências por
força no sentido da concretude existencial da ele sofridas. Ele afirmou com clareza a sua dí-
experiência de presença ao mundo. A obra é vida para com Feuerbach quando diz qu: dele
inexoravelmente unida à vida. A grande dife- recebeu um impulso decisivo com relaçao ao
rença entre Buber e grande parte dos filósofos sentido do Eu e do Tu e, de um modo geral.
profissionais repousa no sentido que é atribu{do no que diz respeito à questão antropológica.
à relação entre uma questão teórica e a praxis. (Cfr. "O problema do homem", pág. 46 da
A uma questão qualquer os filósofos respondem tradução francesa). _ .
através da exposição de posições teóricas. ape- Distinguiremos dois tipos de influen~tas .e
lando para a experiência existencial ou, diga- experiências que gravitam ativamente na mtm-
xxiii
XXII
ção criadora de Buber. No primeiro, de ordem prias palavras, disse ele que recebeu, como já
filosófica. incluiremos algumas personalidades afirmamos, de Feuerbach um impulso decisivo
que estiveram presentes na reflexão de Buber e para a construção de sua filosofia do diálogo.
· o clima ou movimento filosófico dentro do qual Primordial no pensamento de Feuerbach sobre
se situam Buber e sua obra. No segundo, englo~ o conhecimento do homem é que ele considera
baremos, de modo geral, o misticismo - budis~ este como o objeto mais importante da filosofia.
ta, o taolsta e o judaico - mais particularmente Ele não vê o homem enquanto indivíduo, mas
a mística hassídica. como a relação entre o eu e o tu. No parágrafo
Vários fatores provocaram em Buber a 59 de sua obra Princípios da Filosofia do Fu~
nostalgia do humano. Muitas influências de turo Feurbach afirma: "O homem, individual~
força variada serviram como provocação, outras mente não possui a natureza humana em si
como "elan" para a reflexão, outras como su~ mesmo nem como ser moral nem como ser
porte ou como clima. Não nos é possível, no pensante. A natureza do homem não é contida
âmbito desta introdução, um estudo minucioso somente na comunidade, na unidade do homem
dessas influências, embora reconheçamos sua com o homem, mas numa unidade que repousa
importância. Podemos,. no entanto, enumerá~las , exclusivamente sobre a realidade da diferença
e consagrar um momento para aquela que foi entre eu e tu". Feuerbach rejeita a filosofia da·
pelo menos bastante significativa ao seu pensa~ identidade absoluta pois esta leva a uma nega~
mento e que a nosso ver contribuiu decisiva- ção das distinções imediatas (isto está bem
mente para a compreensão do sentido da men~ claro no parágrafo 56 da mesma obra).
sagem por ele legada - aquela que tê-lo-ia Feurbach estabelece a distinção entre eu e tu' \.
.despertado para a procura incansável do "pa- como uma forma de rejeição ao idealismo./'
raíso perdido": a nostalgia do humano. Tal Buber, retomando a intuição de Feurbach, diri~
influência foi o Hassidismo. Um estudo mi~ giu seu interesse para a relação entre os seres
nudoso e profundo sobre as influências sofri~ humanos. A maior crítica que Buber apresentou
das por Buber pode ser encontrado na notável à tese de F euerbach diz respeito à substituição,
obra de Hans Kohn: Martin Buber sein W erk feita por Feuerbach, da relação com Deus pela
und seine Zeit (Martin Buber sua obra e seu relação eu e tu. Buber ainda criticou o método
tempo). postulativo de Feuerbach - segundo Buber,
este método impediu que Feuerbach levasse
* adiante suas intuições e suas afirmações.
Talvez Feuerbach seja um dos autores É patente certa afinidade entre. ~?ber e
mais citados na obra de Buber. Em suas pró~ Kant. Há íntima relação entre as Ideias de
XXV
XXIV
. B~ber e o princípio kantiano no plano da moral: dores. De um modo particular, foram as con-
nao devemos tratar nosso semelhante simples- cepções de Landauer .sobre o conceito de co-
mente como meio, mas também como um fim· munidade que chamaram a atenção• de Buber.
·nos diversos tipos de relação Eu-Tu, o home~ Além disso, ambos estavam interessados no
· é considerado como fim e não como meio. Há estudo da mística. Foi a primeira edição moder-
sem dúvida vários modos através dos ·quais na dos escritos de Mestre Eckart, editada por
trato meu Tu como um meio (eu peço sua aju- Landauer, que levou Buber a estudar o pensa-
da, eu solicito uma informação), assim como há mento místico alemão. O método de Buber na
diversas maneiras pelas quais sou tratado como coleta e na compilação dos contos hassídicos
meio. O encontro onde a totalidade do homem bastante se assemelha com o método empregado
está presente e onde existe total reciprocidade por Landauer na sua edição e interpretação da
é um dos modos de Eu-Tu. E errado catalogar obra do Mestre Eckart.
todos os outros modos de Eu-Tu. que não co-
nhecem a total reciprocidade, como modos de Se quiséssemos inserir Buber dentro de
EU•ISSO. uma corrente do pensamento filosófico talvez
Tanto a obra como o estilo de Nietzsche pudéssemos optar pela Filosofia da Vida ( "Le-
marcaram profundamente o pensamento de bensphilosophie"). Neste ponto é marcante a
Buber. Como já vimos, o próprio Buber relata influência de seu mestre Dilthey. Do mesmo
a impressão causada pelo livro Assim falava modo, muitas das afirmações, passagens ou
Zaratustra, ainda na sua fase de adolescência. conceitos utilizados por Buber permitem apro-
Merecem especial destaque os seus mestres ximá-lo de um certo "intuicionismo". Porém,
mais próximos Dilthey e Simmel. Franz Ro- estas duas correntes não poderiam ser toma·
senzweig, líder da Academia Judaica Livre de das aqui no seu sentido técnico ou como é
Frankfurt e amigo íntimo do autor esteve tam- usualmente empregado na história da filosofia.
bém presente nas reflexões de Buber, sobre- Avançamos esta afirmação com todo o cuidado,
tudo através da obra "Der Stern der Erloesung'' pois qualquer precipitação ao generalizar acar•
(A estrela da Redenção) , publicada em 1921. retaria em erro histórico - Buber não se filia
Gustav Landauer também exerceu influ... a movimento filosófico algum, ainda que possa·
ência sobre Buber. A amizade com Landauer mos, com cuidado, aproximá-lo de uma corrente
proporcionou significativa riqueza de idéias para ou de um método. Sem dúvida alguma, Buber
Buher. Desde o primeiro encontro em Berlin é tributário de uma época; várias vezes ele deve
por volta de 1900 até a morte de Landauer em pagar um certo preço pela própria situação
1922, uma grande amizade uniu os dois pensa- histórica que vivenciou.
XXVI XXVII
manecendo na praia contemplando as espumas
De modo geral, não é difícil constatar que das ondas. Deve-se correr o risco, é necessário
as obras de Buber revelam um profundo com- atirar-se na água e nadar". ( Cfr. O problema
promisso com a vida. A vida é realizada e con- do homem, página 18 da tradução france~a) ·
firmada somente na concretude do "cada-dia". V árias afirmações de Buber permitem
Segundo Buber, o projeto da filosofia é expli- aproximá-lo do intuicionismo. Este deve ser
citar a concretude vivida da existência humana entendido como uma participação. na concretud.e
a partir do próprio interior da vida. Percebe-se da vida em oposição ao conhecimento concei-
que este pacto com a existência concreta levou tuai prÓprio de um espectador alienado~. con-
Buber a uma postura um tanto cética frente aos cretude do fluxo existencial. Buber cnbca a
sistemas filosóficos. Tal atitude de reserva e de teoria Bergsoniana da intuição, pois vê .nel~ ~m
certo ceticismo era comum na tradição da "Le- certo perigo. Com efeito, no. ato da I~tm~a,?,
bensphilosophie". O trecho de uma das impor• pode-se ser subjugado pelo a.to da . mtmçao
tantes obras de Buber a que aludimos há pouco, sem, com isso, atingir a verdadeira realidade do
onde ele falava da "estreita aresta", denota esta objeto intuído que se coloca aquém do mo•
atitude cética não só para com os sistemas filo- mento de presença, momento este em que se
sóficos mas também para com a atitude filosó- realiza a intuição. Podemos dize~ simple~ e d:-
fica de um modo geral. Para Buber, a filosofia liberadamente (o âmbito desta mtroduçao nao
e o filosofar são primordialmente atos de abs- nos permite aprofundar tais a~irm.açõ~s) ~ue
tração. Esta afirmação implica uma crítica à Buber se aproxima da perspectr~a mtmc10msta
maneira de abordar a realidade, na medida em na medida em que distingue radicalment~ du~s
que estes atos de abstração nos separam da atitudes de situação no mundo, dand~ pnma_:ta
concretude da existência vivida. Abordando o à atitude pré-cognitiva e pré-reflexiva ( nao-
'sentido do estudo da existência humana (do conceitual) existente entre o homem e _o e~ te
conhecimento antropológico), Buber é suficien- que se lhe defronta no evento da relaçao dia·
temente claro em estabelecer a distinção entre ~gica. .
a abstração e o conhecimento antropológico, Por fim notemos que vários conceitos utt..-
opondo entre si os dois modos de abordagem. lizados por Buber e cujo sentido se aproxima
Aquela nos sepz:-a da vida enquanto que este daquele dado pelo intuicionismo d~correm tam..-
tenta abordar o fluxo concreto da vida ·partindo bém da influência exercida por Dtlthey.
de seu interior. A abordagem própria à antro-
pologia filosófica deve ser realizada como um *
O interesse que norteou Buber ~ara 0 es-
ato vital. "Aí não se conhecerá". diz Buber tudo das fontes da mística e dos ensmamentos
referindo-se à abordagem antropológica, "per- XXIX

XXVIII
judaicos teve sua origem num sentimento pro- mo filosófico. Enquanto Kierke.gaard rejeitava
fundo de carência de fundamento de sua pró- o racionalismo filosófico a partir da afirmação
pria existência. Esta procura de raízes o con- da fé religiosa, Nietzsche o fazia a partir da
. duziu para aquilo que, sob diversas formas, criatividade humana.
podemos chamar de "auto-afirmação judaica". De uma fase mística Buber passou por
O primeiro passo foi sua participação, ainda uma fase existencial cujo principal exemplo é
nos tempos de universidade no movimento sio- Daniel, obra publicada em 1913. A união com
nista. Porém, logo em seguida, ele liderou o o Absoluto já não era mais procurada por ser
movimento de oposição contra a facção políticél ilusória, ela não opera a união no interior da
(:Omandada por Theodor Herzl, radicalizando a existênica individual: nela o próprio ser não é
dsão no seio da instituçião. A fundação de um Ievarlo à sua verdadeira integração e a separa-
estado político não deveria ser senão uma fase ção interior permanece. O próprio conceito de
do renascimento judaico. unidade será visto posteriormente como uma
Foi ainda o descontentamento consigo falha na sua abordagem valorativa da existên-
mesmo que o conduziu ao estudo da mística cia humana. EU E TU contém severas críticas à
judaica, estudando os místicos alemães Mestre proposta mística da unidade. Esta categoria
Eckart e Angelus Silesius. Encontrou-se assim será substituída pela categoria da relação que
com a mística hassídica cuja vitalidade operou é fundamental para a compreensão do sentido
uma transformação em seu pensamento. 'De da existência humana. "No princípio é a rela-
um intelectual alemão à procura de raízes ju- ção". A relação, o diálogo, será o testemunho
daicas Buber passou a ser um pensador cujo originário e o testemunho final da existência
espírito era profundamente judaico. A paixão humana.
pelo humano encontrava raízes na sua lealdade
para com o seu povo. *
Exatamente nesta época, quando aprofun- b) O HASSIDISMO
dava seus contatos com o Hassidismo, lhe so- Buber é conhecido tanto pela sua filosofia
breveio um novo tipo de estímulo intelectual: do diálogo como pelos seus estudos sobre o
as primeiras traduções das obras de Kierke- Hassidismo, sobretudo pela sua obra ..Die
gaard. O teor da mensagem soava-lhe como Erzaehlungen der Chassidim", que apareceu
uma exigência de que toda a filosofia deveria em tradução portuguesa sob o título "Histórias
ser centrada na existência concreta do indivíduo. do Rabi". (Editora Perspectiva)
/ Embora diferentes em suas manifestações, EmbOT'a não encarasse sua tarefa como um
.· Kierkegaard e Nietzsche rejeitavam o idealis- empreendimento hermenêutico e histórico, Bu-
XXX XXXI
b~r legou ao Ocidente uma das tradições reli-
giOsas de grande riqueza mística e espiritual. alegria elevada dos hassidim, es~a lenda é. me-
O assíduo contato e a intimidade que manteve, tal precioso, embora por vezes Impuro, mistu-
· durante anos, com este movimento da mística rado à escória." (Idem pág. 13) .
hassíd!ca representaram para Buber mais do que Contrariamente a algumas críticas que lhe
uma simples influência, o clima ou o molde do foram dirigidas, Buber não utiliza a massa in-
seu pensamento. forme das lendas como um veículo de suas
próprias idéias a respeito. da mística h~s~ídica.
Diz Buber que um dos aspectos mais vitais
do movimento hassídico é o fato de que os Os personagens principais - os tzadikim -
não são meros porta-vozes daquilo que Buber
hassidim contavam entre si histórias sobre seus
pretensamente havia colocado em suas bocas,
líderes, os tzadikim. Grandes coisas haviam
presenciado, participando delas e a eles cum- ou no entusiasmo dos que reletavam - os has•
pr~~ relatá-las, testemunhá-las. "A palavra sidim - para o bem de sua causa, ou de sua
utilizada para narrá-las é mais que mero dis- filosofia do diálogo, ou de suas idéias sobre
curso: transmite às gerações vindouras o que Deus, religião ou mística. Buber nos ~arra o
de fato ocorreu, pois a própria narrativa passa que ele ouviu e não o que ele nos quena fal~.
O metal precioso de que fala Buber, poderia
a ser acontecimento, recebendo consagração de
um ato sagrado" (dr. Histórias do Rabi pa' g ser melhor entendido como pedra preciosa, um
11). • . diamante que deverá ser lapidado. O fato de
que ele não acrescenta nada em seu relato ~des­
Não se trata de uma mera coletânea ela-
borada por Buber, pois, como ele mesmo afir- tas histórias, não significa que Buber no-las
deu como encontrou, ou que nos relatou tudo
ma, "o que os hassidim narravam em louvor de
o que encontrou; ele atingiu a perfeição através
seus mestres não podia ser enquadrado em
qualquer molde literário já formado ou em for- da lapidação, do esmero. Ele próprio diz que
mação" ... "O ritmo interno dos hassidim é por "História do Rabi" por exemplo, contém um
demais acelerado para a forma calma de nar.. décimo de tudo o que foi coletado. Este livro,
rativa popular, queriam dizer muito mais do em bela tradução, vai nos mostrando pedras
que ela podia conter. (Idem" pág. 12). Buber preciosas, uma após as outras, sem haver esta-
entendeu sua tarefa como uma sorte de "in- belecimento de hierarquia entre elas. Tod~s
formação" - no sentido de dar formas - des- revelam o sentido religioso e humano da exis•
tas lendas que os hassidim contavam sobre seus tência concreta dos tzadikim dentro de uma
tzadikim. E mais, "devido ao elemento sagrado tradição religiosa viva e cheia de piedade.
que a enforma devido à vida dos tzadikim e à Herman Hesse, referindo-se a esta obra
de Buber, afirmou em carta datada de 1950:
XXXII
XXXIII
"Buber, como nenhum outro autor vivo, enri- de proclamar isto a2 mundo". ("i\;!e~ Ca~i~~o
queceu .fl literatura universal com um genuíno para o Hassidismo , pág. 89 de Hmwezse ) •
tesouro .
No juda(smo da diáspora sempre houve
· Pode-se afirmar que Buber encontrou-se comunidades cujos membros se chamavam
duas vezes com o Hassidismo. A primeira, em "hassid" (piedoso, devoto). O Hassidismo
sua infância, quando acompanhou o pai durante surgiu na Polonia, no século XVIII. Caracte-
uma visita a uma comunidade hassídica de rizava-se por um esforço de renovação da mís-
Sadagora na GALfCIA ( Polônia). Nesta oca- tica judaica. Um traço comum a todas ess~~
sião misturavam-se a espontaneidade de uma comunidades hassídicas é que por sua santi-
criança aberta ao mundo, que vive todas as dade, piedade e união com Deus, aspiravam a
experiências e permanece nelas, e uma comuni- uma vida santificada aqui na terra. Esta nova
dade que ainda retratava a primitiva comuni- manifestação do judafsmo é uma vida nova, na
dade dos primeiros discípulos do Baal-Schen- qual o antigo e o tradicional são aceit?s. e se m~s­
-Tov. Em seu trabalho "Meu caminho para 0 tram transfigurados na simples e cottdtana exis-
H~ssidismo", Buber, relatando aquele encontro, tência de cada um, para lhe proporcionar uma
a~Irmou que recebeu tudo como criança, isto é, nova luz. Com o Hassidismo aparece um novo
~ao como pensamento mas como imagem e sen- sentido de piedade. A manifestação deste es-
timento.
pírito de renovação se concretizava na pessoa
As recordações deste encontro desvanece- do tzadik, o mestre, o líder da comunidade. O
ram através dos anos até que à procura de raí- fundador do movimento foi Rabi Israel ben
zes e de sua auto-afirmação encontrou-se com 0 Eliezer, apelidado de Baal-Shen-Tov, o pos.-
movimento sionista que representou um retorno suidor do bom N orne ( 1700-1760) . Ele e seus
ao judaísmo na vida de Buber. Foi então que discípulos se dedicaram à uma vida de ferv~r.
um livro, Testamento de Israel B.aal-Schen-Tov alegria e piedade. Representavam uma reaç~o ·
caiu-lhe às mãos e sua leitura fê-lo experimen- contra o rabinismo tradicional, na sua tendêncta
tar a alma hassídica; nessa época ele vislum.. legalista e intelectual; enfatizavam a simplici.-
b~ou o significado primitivo de ser judeu. "Eu dade, a devoção de cada dia, na concretud~
VI~ a_be~to a mim", diz Buber, "o judaísmo como de cada momento e na santificação de cad,a
religiosidade, como piedade. como Hassidismo. ação. Esta ênfase na piedade e no amor de
As i~agens de minha infância, a lembrança do Deus tem suas raízes nos Profetas e nos Salmos.
tzadik e de sua comunidade me iluminaram e Se quisermos situar o Hassidismo no co~..
me levantaram, e reconheci a idéia do homem texto do Juda(smo pós-bíblico, podemos const..
perfeito. Ao mesmo tempo descobri a vocàção derã-lo, segundo M. Friedman, como o encon.-
XXXIV xxxv
tro de três correntes: a lei judaica apresentada
na Halakhah talmúdica; a lenda judaica ex.- real do homem com Deus tem não só seu lugar,
pr:ssa na Haggadah: e a tradição mística ju.- mas também seu objeto no mundo. Deus se di..
. da1ca ou Kabbalah. O Hassidismo não admite rige diretamente ao homem por meio ,de~tas
divisão entre ética e religião. Não há distinção coisas e destes seres que Ele coloca na sua v1da:
0 homem responde pelo modo pelo qual ele se
entre a relação direta com Deus e a relação
com o companheiro. Ademais, a ética não se conduz em relação a estas coisas e seres en-
limita a uma ação ou a uma regra determinada. viados de Deus" ( Prefácio de Livros H assí-
No Hassidismo a Kabbalah se tornou ethos dicos, dr. tradução francesa do prefácio na
afirma Buber: este movimento não reteve d~ revista Dieu vivant, 1945, p. 18).
Kabbalah senão o necessário para a fundamen- O Hassidismo retoma o ensinamento de
tação teológica de uma vida inspirada na res- Israel e lhe dá uma expressão prática. Já que
ponsabilidade de cada indivíd,uo pela parte do 0 mundo é a "morada" de Deus, ele se torna
mundo que lhe foi confiada. por isso - do ponto de vista religioso ~. um
Buber resumiu assim o sentido da mensa- sacramento (idem). Para Buber, o Hass1d1smo\
gem hassídica: Deus pode ser contemplado em denunciou e afastou o perigo da separação e~: ', .
cad:a coisa, e ating1do em cada ação pura. "O tre a "vida em D eus " e a " VI'd a no mu ndo · 1
ensmamento hassídico é essencialmente uma Buber considera, aliás, esta separação como o
orientação para uma vida de fervor, em alegria pecado original e a doença infantil de toda
ent~siástica" (Histórias do Rabi, p. 20). Este "religião". Ele "eliminou efetivamente ~ muro
ensmamento não é uma teoria que existe inde- que dividia o sagrado e o profano, en~1~ando
pendentemente de sua realização. mas é a a executar toda ação profana como santificada.
complementação teórica de vidas realmente O Hassidismo realiza uma união a~tên~!ca .e
vividas por tzadikim e hassidim. Vê-se um concreta. "Sem resvalar para o pante1smo , d1z
novo tipo de relação entre o mundo e Deus, Buber", "que aniquila ou debilita o_ valor dos
que não é simplesmente pantefsta, pois não há valores - a reciprocidade da relaçao entre o 1 ,•
absorção de um pelo outro. A imanência de humano e o divino, a realidade do Eu e do Tu;'· li '
Deus não implica absorção do mundo por Deus. que não cessa mesmo à beira da eternidade -
Pelo contrário, ao afirmar esta relação, a dou- o hassidismo tornou manif7stas: e~ to~o~ os
trina hassídica pode ser qualificada de panen- seres e todas as coisas, as 1rrad1açoes d1vmas,
tefsta, isto é, longe de uma identificação entre as ardentes centelhas divinas, e ensinou con;to
Deus e mundo ela signifi.ca e afirma a realidade se aproximar delas, como lidar c~m el~s e, mal~,
do mundo como mundo-em-Deus. "O comércio como elevá-las, redimi-las e reata-las a sua rao
primeira" (Histórias do Rabi, pág· 21 ) ·
XXXVI
XXXVII
Hassidismo ensina a todos a presença do Deus A verdadeira relação com o tzadik susten•
no mundo. tará o hassid em sua busca de realização. O
Como será o homem responsável pela ta- tzadik é o amparador do corpo e da alma. A
refa de realizar Deus no mundo? "Se diriges grande tarefa do tzadik é faciltiar aos se~s
a força integral de tua paixão ao destino uni- hassidim a relação imediata com Deus ~ nao
versal de Deus, se fizeres aquilo que tens a substituí-la. Ele deverá orientar o hass1~. em
fazer, seja o que fõr, simultaneamente com toda sua tensão, em seu ir-em-direção-a-De~s: U!?
tua força e com essa intenção sagrada, a dos princípios fundamentais do hass1d1smo ,
Kavaná, reune Deus e a Schehiná, eternidade diz Buber, "é que o tzadik e o povo dep:ndem
e tempo. Para tanto não precisas ser erudito, um do outro ... " Sobre sua inter-relaçao re-
nem sábio: nada é necessário exceto uma pousa a realidade hassídi~a: "Aqui tocamos
alma humana, unida em si e dirigida indivisa- aquela base vital do hass1~1smo, da qual se
mente para o seu alvo divino" (Idem, p. 22). esgalha a vida entre entus~asmadores e ent.u-
O Hassidismo concretizou profundamente, siasmados. A relação entre o tzadik e seus dis-
como nos mostram as "Histórias do Rabi". três cípulos é tão somente a... sua mai~ inte~sa con·
virtudes que se torn~ram essenciais para a rea- centração. Nesta relaçao, a rec1proc1dade se
lização da tarefa de cada um: o amor, a alegria desenvolve no sentido da máxima clareza. O
e a humildade. Foi pelo amor que o mundo foi mestre ajuda os discípulos a se encontrarem e,
criado e é através dele que será levado à per- nas horas de depressão, os discípulos ajudam
feição. O temor de Deus é somente uma porta 0
mestre a reencontrar... se. O mestre inflama as
que leva ao amor de Deus, que ocupa lugar almas dos discípulos; e eles o rodeiam e ilumi...
central na relação entre Deus e o homem. Deus nam. O discípulo pergunta e, pela forma de
é amor, é a capacidade de amar, é a mais pro- sua pergunta, evoca, sem o saber, uma resposta
funda participação do homem em Deus. no espírito do mestre, a qual não teria nascido
A alegria entusiástica provém do reconhe... sem essa pergunta". (Histórias do rabi, p. 25) ·
cimento da presença de Deus em todas as coi- A vitalidade do fervor religioso, o ensina•
sas. A humildade é a procura constante do mento completado pela prática cotidiana e
verdadeiro si-mesmo que atinge sua perfeição concreta: um novo tipo de relação com Deus,
como parte de um todo, de uma comunidade. de "serviço" a Deus através do mundo: um
Todas as virtudes atingem sua perfeição pela profundo espírito de comunidade: o amor como
oração no sentido mais lato de qualquer ação elemento fundamental: a inter-relação, no au...
santificada em qualquer momento do dia ou da têntico inter-humano do tzadik e seus hassadim
noite. formando a comunidade; a alegria entusiástica:
XXXIX
XXXVIII
o novo sentido do mundo e das relações do
h_?mem com o mundo; a transposição da divi.. mente uma fenomenologia da palavra. mas é
sao entre o sagrado e o profano, tais são ai.. tambéDl. e sobretudo uma ontologia da relação.
gumas das principais facetas do ensinamento Podemos dizer que a principal intuição de
hassídico que marcaram decisivamente 0 pen... Buber foi exatamente o sentido de conceito de
samento e a vida de Buber. relação para designar aquilo que, de essencial,
A intimidade de Buber com o hassidismo acontece entre seres humanos e entre o Ho-
r~pousa sobre uma inefável relação de simpa.. mem e Deus.
~1a. Ela produziu um vínculo de autopatia, isto A reflexão inicial de EU E TU apresen~a
e, se Buber delapidou as "histórias.. auxilian.. a palavra como sendo dialógica. A categ~r1a
do-as a se manifestarem mais claramente, do primordial da dialogicidade da palavra e o
mesmo modo, a mensagem do hassidismo fe.. ~Mais do que u_ma_ análise. objetiva da
.cundou e provocou o pensamento de Buber. estrutura lógica ou seruantlca da lmguagem, o
Talvez se pudesse falar de remodelágem mú.. que faria da palavra um simples d~do, Buber
tua. O Hassidismo foi o farol convidativo de.. desenvolve uma verdadeira ontologia da pala-
cisivo e provocador de uma tomada de ~ons.. vra atribuindo a ela, como alavra falante o
ciência da tarefa e do sentido da existência sentido de porta ora e ser. ~ ~tr?vés _?el~
humana no mundo. que g __lmmem s.e.Jntrad.uz_na ex1sten~- ~-e.
,Qhomem que conduz a palavra, mas e ela que
0 mantém no ser. Para Buber a palavra. profe..
* rfda é uma atitude efetiva. eficaz e atuahzadora
4) EU E TU, DE UMA ONTOLOGIA do ser ão homem. Ela é um ato do homem atra-
DA RELAÇÃO A UMA AN... se
vés do qual ele faz homem e se situa no_ mun-
TROPOLOGIA DO INTER-HU.. do com os outros~ A intenção de Buber e des-
MANO. vendar o sentido existencial da palavra qu~,
EU E TU representa, sem dúvida o está... pela intencionalidade que a anima, é o princí~10
gio mais completo e maduro da filosofia' do diá ... ontológico do homem c~m~ ~er ~!a-Jogai e d~?'"
logo de Martin Buber. Ele a considerava como pessoal. As palavras-prmctpto ( Grundwor.t )
sua obra mais importante: obra na qual apresen... são duas intencionalidades dinâmicas que ms..
to~!, de modo mais completo e profundo, sua tauram uma direção entre dois polos, entre duas
grande contribuição à filosofia. EU E TU não consciências vividas. .
é sim~lesmente uma descrição fenomenológica Na verdade EU E TU pode ser co~stde:
das atitudes~omem no mundo ou simples.. rada a obra mais importante de Buber n?o Jo
~-
pelo vigor do pensamento ou pela atuahda e
XL
XLI
de sua mensagem, mas também pelo fato de que O fato primitivo para Buber é a rel~ção.
ela se situa no centro ou no começo de toda a O escopo último é aprese~t~r uma ontol~g~a ~a
obra: é a chave ou a via de acesso a todos os existência humana, explicitando a ex1stencia
. outros escritos pertinentes aos mais diversos dialógica ou a vida em di~logo. ~s princip?is
domínios onde se manifestou a atividade refle- categorias desta vida em ~~alogo sao ~s se~um­
xiva de Buber. Obra de maturidade, EU E TU tes: palavra, relação, d~alogo, reciprocidade
t~ve consequências diretas nas suas obras poste- como ação totalizadora, subjetividade, pessoa,
riores sobre antropologia filosófica, educação, responsabilidade, decisão-liberdade, inter·huma-
política. sociologia, bem como nos seus estudos no.
e exegeses da Bíblia e sobre o Hassidismo ou Mais do que uma metafísica ou ma teolo-
o Judaismo. Todas as influências de filósofos gia sistemática, EU E TU é u~a reflexão ~o~re
ou de correntes filosóficas, do pensamento mís- a existência humana. A questao antropolog1ca
tico em geral, do Budismo, Taoismo, da mística do sentido da existência interpelou Buber.
judaica e do Hassidismo se encontram nesta Tudo 0 mais está integrado a esta questão. Por
monumental reflexão, verdadeira obra-prima exemplo, a problemática de Deus, ponto impor•
da primeira metade do século. A mensagem de tante nas obras de Buber, é integrada na ques•
EU E TU, em cada um de suas três etapas, tão da pessoa humana, ~ de relação. Assim,
apresenta temas que ainda hoje provocam e Deus será o Tu ao qual o homem pode falar
fecundam nossa reflexão. e nunca algo sobre o qual ele discorrerá sis:
A base de EU E TU não é constitulda temática e dogmaticamente. Q Tu eterno e
por conceitos abstratos mas é a própria expe- aquele que nunca poderá ser mn 1SSO. Sobre a
riência existencial se revelando. Buber efetua questão de Deus, a intuição fundamer:tal de
uma verdadeira fenomenologia da relação, cujo- Buber é entender o novo tipo de relaçao que
princípio ontológico é a manifestação do ser ao 0
homem pode ter com Ele, porque para o ho..-
homem que o intui imediatamente pela contem- mem não importa talvez o que Deus é em sua
essência, mas sim o que Deus é em relação a
plação. A palavra, como ~tad= de ser i~ ele homem. Deus é, pois, Aquele com o qual
lugar onde o ser ·se instam:;; cOillO z;evei;Ção.
homem pode estabelecer uma relação inter..-
~--E.~~~r~. ~.J?riJ!cípiQ--. f!!llQªmento da exis- 0
pessoal. Buber encaminha o problema de Deus,
tência humana. A palavra-princípio alia-se à
categoria ontológica do "entre" ( "zwischen") ultrapassando a dicotomia sagrado-profano,
objetivando instaurar o evento dia-pessoal da através da realidade da existência humana.
relação. A palavra como diá-logo é o funda-
me_!?:!~-on_tqlógi<;Q 9oJ~ter -humano. * XLIII
XLII
hU E TU s'e apresenta em três partes. Se-
gundo um antigo t>rojeto de Buber abandonado fundas influências para a abordagem da
log~ no início, EU \E TU representava o primeiro existênria humana. Não se pode mais prescindir
. capitulo ou a pri~eira parte de uma obra em destas reflexões em qualquer perspectiva que
cinco partes. Esta ·primeira parte, EU E TU, se tome do humano, seja na antropologia fil.o-
Buber a subdividiu nos seguintes tópicos: 1. sófica ou em ciências humanas. Se a sua afir-
Palavra; 2. História; 3. Deus. mação da existência humana co~o. ser de rela-
A ontologia da relação será o fundamentol ção não é original- aliás o proprio B~~er re-
para uma antropoloqia que se encaminha para conheceu ter recebido o impulso decisivo de
uma ética do inter.humano. Diz-se então que o Feuerbach, - o mesmo não se pode dizer no
homem é um ente de relação ou que a relação :gue se refere à distinção que ele esta~el:ceu
lhe é es$encial ou fundamento de sua existên- e'ntre as duas-atitrldes do homem e os dOis tipos
cia. Com isso assistimos ao encontro do pensa-~ ~ mundo a elas correspondentes. De qualquer
mento de Buber com a tradição fenomenoló- f&ma, sua penetrante e vigorosa reflexão e o
gica, na medida em que grande parte dos filó- modo profético com que lança sua me?s~ge~
sofos que a ela pertencem partem também deste baseada nestes dois princípios da existenc1a
princípio do homem como ser situado no mundo humana - o dialó_giço__ ~onológico - e
com o outro. O maior mérito que cabe. a Martm sobretudo ácoerência e intimidaOeentre EU E
Buber está no fato de ter acentuado de um TU e o restante de sua vasta obra, colocam-no
modo claro, radical e definitivo as duas atitu- em um lugar inquestionavelmente singular na
des distintas do homem face ao mundo ou História da Filosofia e do pensamento contem-
diante do ser. As atitudes, como veremos adi.;. porâneo. Todos aqueles que abo~dara~ os ~es­
ante, se traduzem pela palavra-princípio Eu-Tu mos temas, fundamentais em filosofia, nao o
e pela palavra-princípio Eu-Isso. A primeira é fizeram com tão grande profundidade e beleza
um ato essencial do homem, atitude de encon- de linguagem.
tro entre dois parceiros na reciprocidade e na
confirmação mútua. A segunda é a experiência *
O mundo é múltiplo para o homem e as
e a utilização, atitude objetivante. Uma é a I
atitude cognoscitiva e a outra atitude ontoló- \ atitudes que este pode apresentar são Il!ú~ti­
~a ~ plas. A atitude é um ato essencial ou ontolc;>g1co
O sentido que Buber atribuiu ao conceito em virtude da palavra proferida. Cªd~ atitu_~~
de re~ação,. aliado à radical distinç~o ontológi- é atualizada por .11ma das pa}a_yras_-_princ!p!Q,
co-existencial, é uma aquisição que terá pro- Eu-Tu ou. Eu~í_s$Q, A palavra-princípio, ?~a
ve-~--proferida-, fundamenta um modo de existir.
XLIV
XLV
Ela é uma palavra originária, fundamental, portadora de ser. o homem que a profere existe
"Grundwort". O homem, como já foi dito, é um autenticamente graças a ela. Existir como EU
. ser de relação. Podemos nos referir aqui ao ou proferir a palavra princípio é uma e mesma
conceito de intencionalidade como ele é enten- coisa. A própria condição de existência como
dido na fenomenologia. A relação não é uma ser-no-mundo é a palavra como diá-logo. Há
propriedade do homem, assim como a intencio- uma distinção radical entre as duas palavras...
nalidade não significa algo que esteja na cons-
ciência, mas sim algo que está entre a consci-
-princípio. 0 EU de uma palavra-princípio
diferente do EU da outra. Isso não significa que

ência e o mundo ou o objeto. Sendo assim, a existem dois "Eus" mas sim a existência de
relação é também um evento que acontece entre uma dupla possibilidade de existir como homem.
o homem e o ente que se lhe defronta. Não é A estrutura toda é dual. Há dois mundos, duas
o homem que é o condutor da palavra mas é relações. Chamamos relação para Eu...Tu e re...
esta que o conduz e o instaura no ser. Notemos lacionamento para Eu ... Jsso. Tu e Isso são duas
aqui nítidas reminiscências judaicas sobre o fontes onde a eficácia da palavra se desenvolve
sentido dado à palavra que não é logos (razão) , constituindo a existência humana. As torrentes
mas dabar. A atitude de abertura do homem e caudalosas que brotam do Isso, das coisas, pro...
a doação originária do ser formam a estrutura vêm de um modo convergente da fonte primor...
da relação EU-SER. "A essência do ser se co- dial que é o Tu. O Tu é primordal e conse...
munica no fenômeno", diz Buber. A contempla- quentemente o Isso é posterior ao Tu. "No prin...
ção é a atitude que instaura a presença ime- cípio é relação". A abordagem reflexiva, cog ...
diata do homem-Eu ao mundo. noscitiva de objetos, do Isso, só poderá ser
Dentre as múltiplas atitudes que o homem levada a efeito na medida em que passa pelo
pode apresentar diante do mundo, Buber des- lugar ontológico do encontro de duas pessoas.
taca duas que são as duas possibilidades do Não constitui novidade o que muitos filósofos
EU revelar-se como humano. Em face da doa- contemporâneos afirmam sobre a prioridade da
ção do ser no fenômeno, o homem, EU, profere relação ontológica sobre a relação cognoscitiva
a palavra-princípio. Em outros termos o ho- do homem com o mundo. Sem dúvida, tanto
mem pode atender ao apelo do ser. Tal decisão estes filósofos como o próprio Buber souberam
é essencialmente passiva e ativa, ela é uma ati- estar atentos e se enriquecer da mesma fonte.
tude de aceitação ou de recusa. Estas duas O fenômeno da relação foi descrito por
atitudes, repetimos, são atualizadas pelas pala.. Buber com o emprego de vários termos: diálo...
vras-princípio proferidas. Ser EU significa pro- go, relação essencial, encontro. Devemos estar
ferir uma das duas palavras. Sendo a palavra atentos ao sentido de cada um deles. Por exem-
XLVI XLVII
di ão de existência, já que não h~ Eu em -~
plo, encontro e relação não são a mesma coisa.
cJ'b encontro é algo atual, um evento que acon- in~ependente· em outros termos o st-mesmo nÊ~
é substância ,mas relação. O Eu se torna u
J
~ece atualmente. A relação engloba o encontro. . t de do Tu. Isto não significa que de~u
. Ela abre a possibilidade da latência; ela possi- em vtr u 1 Eu lhe devo a minha relaçao
bilita um encontro dialógico sempre novo. Mes- a ele o meu ugar. 1 .. .
1 El , meu Tu somente na re açao, po~s,
mo durante o relacionamento Eu-Isso o homeDjl,- a e e. e el .. iste assim como o Eu nªo
9'uardaria a possibilidade de uma nova relaçãç# fora dela, e e nao ex 1 , .. "~ falso dizer que
"Bezieliung", é uma possibilidade de atualiza- existe a não ser na r~ açlao.f'rma Buber. Nem
ção do encontro dialógico, "Begegnung". encontro é reverstve , a t Tu
o . - . E do outro nem seu
O dialógico é· para Buber a forma expli- meu Tu é tdenttco ao uA do outro eu
. eu Eu pessoa
ativa do fenômeno do interhumano. lnterhu- é idênttco ao m · h este Tu. porém o
de que eu ten o •
mano implica a presença ao evento de encontro devo o fato _ que d eve aqUl. ser entendido como E
útuo. Presença significa presentificar e ser meu E u .. E T eu 0 devo ao ato
presentificado. Reciprocidade é a .marca defi- o Eu da relaç~o u- u -. ual eu digo Tu".
nitiva da atualização do fenômeno da relação. de dizer Tu, nao à .~essoa ~9~ em The phylo-
O "entre" é assim considerado como a catego- ( Replies to my Crtttcs, p. . , Schilpp.
ria ontológica onde é possível a aceitação e a sophy of Martin Buber. Edttado por
confirmação ontológica dos dois polos envol- P. A. e Friedman, M.) ·
vidos no evento da relação. " ntre" o "inter-valo" é o lugar de re-
O e
As duas palavras-princípio instauram dois
modos de existência: a relação ontológica
velação da palavra pro en
'
T
f ·d
. t rvalo existe entre Eu e u e e~ re. , u
1 ser Este
pe o t . E e
Eu-Tu e a experiência objetivante Eu-Isso. Esta mi e N- ha' conhecimento de um mdtvtduo,
sso. ao 1 f d em
diferença antropológica se fundamenta no con- mas este relacionamento Eu- sso un a-~e a
ceito de totalidade que determina a relação ·t . , lise no inter e dia-pessoal. H a um
ontológica Eu-Tu. "A palavra-princípio só pode u ttma ana E T para
• ·a ontológica entre o u e o u h
- ... .1"

ser proferida pelo ser na sua totalidade". conlVe.........1 C d' Bac e-


conhecimento do mundo. omo tz
As duas palavras-princípio ao se atualiza- fard, coisas infinitas como o céu, a ~lor~::r:
rem não só estabelecem dois modos de ser-no- _ encontram seu nome senao .
-mundo, mas também imprimem uma diferença a 1uz nao . · - dta..
, coração amante. A co.-parttctpaça.0 .
no estatuto ontológico do outro. No entanto. o de um . . d extsbr e
1 1 , 0 fundamento onto1ogJ.Co o
fundamento cabe à palavra-princípio Eu-Tu. .. oga e ... A reensão do ser
Segundo Buber o Tu ou a relação são originá- de suas manifestaçoes. comp. 1 eixo
é tributária desta participação dtaloga no
rios. O Tu se apresenta ao Eu como sua con-
XLIX
XLVIII
Eu~Tu envoltos na vibração recíproca do face- ·O Eu de Eu-Isso usa a palavra para conhecer ·
~a~face.
o mundo, para impor~se diante dele, ordená~lo,
. _ Buber estabelece, como vimos, uma distin~ estruturá-lo, vencê~lo, transformá-lo. Este mun~
çao entre. as duas palavras~princípio. Para que do nada mais é que objeto de uso e experiên~
o evento Instaurado pela palavra~princípio Eu- cia.
~Tu seja dialógico é necessário o elemento de O problema da totalidade permanece no
totalidade. Totalidade não é simples soma dos centro das preocupações de Buber em relação
elementos da estruturà relacional. Esta totali- à questão antropológica. Tal preocupação se
dade se vincula à totalidade do próprio partici-· coaduna com a sua concepção da tarefa filosó~
pante do evento. Esta totalidade do Eu que fica, a saber, a reflexão sobre questões reais -
profere a palavra~princípio deve ser entendida aquelas que envolvem um compromisso atual
como um ato totalif!:ador, uma con-centração em com a totalidade da pessoa em todas as suas
todo o seu ser. O homem está apto ao encontro manifestações. As categorias da totalidade e do
na medida em que ele é totalidade que age. Mais "entre" são fundamentais na antropologia filo-
que a independência do todo, como evento sófica de Buber. Se EU E TU nos revela odiá-
relacional. único, Buber entende a totalidade logo como fundamento da existência humana,
como independência da própria relação em face se a questão antropológica deverá ser abordada
dos componentes desta estrutura. Porém esta como um ato vital de procura do sentido da
independência não é absoluta, mas relativa: existência humana, então trata~se de perscrutar
cada elemento da estrutura considerado isola~ o dialógico no ser humano. O "entre" permitirá,
damente é pura abstração. O evento "acontece" como chave epistemológica, abordar o homem
em virtude do encontro "entre" o Eu e o Tu na na sua dialogicidade; e só no encontro dialógico
reciprocidade da ação totalizadora. A totalida~ e-qileSe revela a totalidade do bom~. A ênfase
de presente no Eu-Tu não é simplesmente a sobre a totalidade acarreta, como corolário, a
soma d.as sensações internas do eu psicológico. rejeição da afirmação da racionalidade da ra~
A totalidade precede ontologicamente a separa~ zão como característica distintiva do homem.
ção. A palavra Eu~Tu precede a palavra Eu-
-Isso. Eu~Isso é proferido pelo Eu como sujeito *
~e experiênc!a ..e _utilização de alguma coisa. A
contemplaçao e anterior ao conhe,cimento. A
intel~gência, o conhecimento conceituai que
~na~ts~ um dado ou um objeto é posterior à
mtmçao do ser. Eu-Isso é posterior ao Eu-Tu.
L
A atitude do Eu pode ser o ato essencial relação dialógica estão na "presença" o Eu1
que revela a palavra proferida com a totalidade como pessoa e o Tu como outro. J
. do ser, ou ~ntã~ uma postura noética, objeti-
~ante. Na pnme1ra, o Eu é uma pessoa e 0 outrQ
e o Tu; na segunda, o Eu é um sujeito de expe- *
~ia, de conh~mento e o ser que se lhe de- Há diversos modos de existência Eu-Isso.
fronta um objeto._A es~do tipo de En, Buber os resume em dois conceitos: experiên-
.'[tíber. chama de ser egótico, isto é. aquele que cia ( "Erfahrung") e a utilização ou uso ( "Ge-
se relaciona CQ__nsigo mesmo ou\ o homem gue- brauchen" ) . A experiência estabelece um con-
entr~!!!. ~~!élS_ª<>. ~~m o seu si-mesmo_._ Eu-Tue tacto na estrutura do relacionamento, de certo
~u-Isso tra~uzem diferentes modos de apreen- modo unidirecional entre um Eu, ser egótico,
sao da reahdade, ao mesmo tempo que instau- e um objeto manipulável.
ram ~ma d~ferença ontológica no outro pÓlo da Este relacionamento se caracteriza por
relaçao, seJa como Tu seja como Isso~ A con- uma coerência no espaço e no tempo; ele é
templação ( "Schauung") é a doação- do ser coordenável e submetido à ordem temporal.
como Tu ao Eu, pessoa, que o aceita. A inteli- O relacionamento implica que os entes, coisas
gência, o conhecimento, a experiência é a apre- que são objetos, se confinam com outros obje-
en.são do ser como objeto. Na contemplação, a tos. O relacionamento define as coisas como
atitude não é cognoscitiva mas ontológica. N 0 U_!ll_ª- soma de partes.
conhecimento ou na experiência a atitude não O mundo do Isso, ordenado e coerente, é
é presença do ser que se revela na contempla- indispensável para a existência humanél; ele é
ção, é um tornar-se presente ao ser e com o ser. um dos lugares onde nós podemos nos enten..
Em suma. existem dois modos de presença, der com os outros. Buber o chama de reino dos
Sendo originários, a relação Eu-Tu e o conceito verbos transitivos. Ele é essencial na vida hu-
de presença recebem seu sentido autêntico na mana, mas não pode ser o sustentáculo onto-
d?açã~~t.!· No encontro dialó- lógico do interhumano.
g•co acontece uma reciproca presentificação do A afirmação da primazia do diálogo no
Eu e do Tu. No relacionamento Eu-Isso se 0 qual o sentido mais profundo da existência
Isso está presente ao Eu não podemos dizer humana é revelado não nos deve levar à con-
que o Eu está na presença do Isso. A alteri- clusão de que a atitude Eu-Isso seja algo de
dade essencial se instaura somente na relação negativo, inferior ou um mal. Ao contrário, ela
Eu-Tu; no relacionamento Eu-Isso o outro não é uma das atitudes do homem face ao mundo,
é encontrado como outro em sua alteridade. Na graças à qual podemos compreender todas as
LII Lili
aquisições da atividade científica e tecnológica . imediata. Então, na presença, na proximidade
da história da humanidade. Em si o Eu-Isso não que une os semelhantes, o Eu, pessoa, encontra
.
é um mal; ele se torna fonte de mal , na medida o Tu. Buber distingue três esferas onde acon-
en:t que o homem deixa subjugar-se por esta
atitude, absorvido em seus propósitos, movido
pelo interesse de pautar todos os valores de
!~~:~~ªr:~r~!::d~~~;~~~~~~~---~-~~a_e _ ~:!~
cias espiri!'l!ª~~__Q__çri.tétio_<fe_maiO!' Y:ªlor r~_:j
sua existência unicamente pelos valores ine- pousa · · . Assim a rel~ç~o
rentes a esta atitude, deixando, enfim, fenecer e maior valor existencial é o encontro dtalo-
o poder de decisão e responsabilidade, de dis· gico, a relação inter• humana onde a invocação
ponibilidade para o encontro com o outro, com . encontra sua verdadeira e plena resposta. De-
o mundo e com Deus. A diferença entre as vemos estar alertas ao equívoco de atribuir ao
as atitudes não é ética mas ontológica. Não se Tu, em Buber, o significado simplista de pessoa
deve distingui-Ias em termos de autenticidade e ao Isso o significado de coisa, objeto. Eu-Tu
ou inautenticidade. Enquanto h~t1~duas não é exclusivamente a relação interhumana. Há
~.Quando, por esta razão, muitas maneiras de Eu-Tu e o Tu pode ser
a relação perde o ~eu sentido de construtora qualquer ser que esteja presente no face-a-face:
do engajamento responsável para com a ver- homem, Deus, uma obra de arte, uma pedra,
dade do inter... humano, aí então, o Eu-Isso é uma flor, uma peça musical. Assim como o Isso
destruição do si-mesmo, e o homem se torna pode ser qualquer ser que é considerad~ u?I
arbitrário e submetido à fatalidade. objeto de uso, de conhecimento, de expenencta
"Se o homem não pode viver sem o Issó.\ de um Eu. EU E TU não aceita a distinção fa-
não se pode esquecer que aquele que vive s~ miliar entre coisas e pessoas. Devemos estar
com o Isso não é homem", atentos também a uma outra distinção familiar
que não é aceita por Buber. Trat~-se da ~tribui•
ção de certas atitudes a determmados tipos de
* humanos e outras atitudes que só alguns seres
Quando a decisão vital do homem percebe humanos pocfem ter. O homem pelo simples fato
o sopro do espírito entre ele e o parceiro da de ser humano pode tomar qualquer uma das
relação, acontece a conversão, advém a respos- duas atitudes. Eu-Tu não é reservado às pes•
ta, surge o Tu. Não existe nenhum meio ou soas mais "poderosas", de maior pode~ de
conteúdo, nenhum interesse interposto nesta , acesso à cultura, - aos sábios ou a?s a:t1stas.
doação do Tu e na aceitação do Eu. A doação :a errado também afirmar que o c1~nbsta só
gratuita do Tu, o Eu responde pela aceitação poderia tomar, por exemplo, o homem como
LV
LIV
objeto de seu estudo e investigação, adotando projeto ou perspectiva sobre o mundo. Assim
uma atitude Eu~Isso, já que esta é uma exi.- para ele o mundo se converte no campo de
gência metodológica interna de sua ciência. Tal nossa experiência e deixa de ser um objeto de
·distinção entre pessoas mais aptas a tomar tal pensamento, (idem 178). O Eu não é, repeti...
atitude - Eu~Tu ou Eu~ Isso - que outras não mos, uma realidade em si, mas relacional. ~­
tem fundamento já que se trata de duas atitu~ se pode falé!_L~Il!-É~-~~I:ILtn\lnQ.o, -~~l!!J~so __ot~:
des vitais que não representam dois tipos de -sem o Tu. Se o Eu decxde~se por uma ou por
posturas estanques que alguns homens pudes... oatrailtitude .. significa que é o fenômeno da
sem tomar e outros não. Não são, ademais, doi~ relação Homem~Mundo como um todo que de...
estados de ser, mas dois modos de ser, de exis.- fine a possibilidade do Eu decidir. Do Eu de...
tência pessoal que o homem deve tomar inces... pende a decisão, não de tomar uma atitude mas
santemente, quer uma quer outra, num ritmo · de tomar tal atitude, pois ele não é, senão
constante. quando decide tomar tal atitude diante do
As duas atitudes são reversíveis e conver... mundo. A iniciativa e o fundamento pertencem
tíveis em virtude da decisão do homem como ao ser como Tu. O Tu se oferece (não é pra..
Eu e do significado do que acontece entre o o
curado) _ao_gncontro e ~-~d~c:í4~~~~~~!!.~:Jo.
Eu e o mundo. A decisão do Eu não significa TêmosJ então,o-escOlller e o ser~esc::.:lhido, na
criação ou constituição do outro. Buber, denun... mútua ação do face~a~face. Parece difícil a
cia e rejeita o Eu como substância. Encontra... explicação deste paradoxo de realidades inde~
remos duas décadas mais tarde a mesma de... pendentes e equifundamentantes. Buber afir...
núncia contra o "ego cogito" do solipsismo que o Tu é inefável, ele não pode ser objeti.-
cartesiano feita por Merleau.-Ponty. Tanto na vado - abordado através de expressões ex...
Estrutura do Comportamento como na Feno.. plicativas, esclarecedoras e por isso mesmo re...
menologia da Percepção Merleau... Ponty rejeita dutoras a uma realidade que ele, por natureza,
a noção de consciência como função universal não pode ser.
da organização da experiência; ele apresenta a É de suma importância, para a filosofia do
consciência como uma rede de intenções signi~ outro de Buber, a irredutibilidade do Tu a um
ficativas "único modo possível de unir a cons.. obj eto que minha atitude determina e experi.-
ciência e a ação" (Estrutura do Comportamento, encia, sobre o qual poç:le falar e enunciar julzo~s
186~188). Para Merleau~Ponty o sujeito não é predicativos. Em hipótese alguma o outro P?de
pura interioridad~. mas é abertura ao outro, ser um objeto. Se isto acontecer, e aí esta o
s~ída para o outro (Fenomenologia da Percep.. destino do homem, o Tu já não é mais senão
çao, 478). O cogito não é mais constituinte mas um Isso, uma soma de qualidades, útil a um
LVI
LVII
propósito realizável. O Tu não pode ser repre~
sentado, já que a apresentação aqui é essen~ jacente que as une como que num fluxo ~ons~
cialmente presença, instante único do diálogo; tante de latência e patência: é a nostalgia do
a representação sugere de algum modo a inde~ T A duas atitudes, segundo Buber, se atua~
pendência do sujeito com relação ao represen~ li:~m :ucessivamente em um ritmo constante.
ta do. Não podem ser tomadas simultaneame~te. Os
instantes fugazes de relação entre~eiam dna
A relação atual (atuante) envolve simulj ida do homem os inúmeros e pro onga os
taneamente passividade e espontaneida~
afirmação de Buber é clara: "Ieh werde am
~omentos de relacionamento Eu~Isso. A pre..-
sença d o T u - S UbJ"acente no fluxo constante
Du" "t.Q!_no~me Eua relação com o ~O ~ Eu ,. .Tu e no relacionamento
E 1
tu orienta a atualização do-Eu-~ pela sua
d a reIaçao E Ju. . sso,
.-
e mesmo durante o relacionamento u. . sso..
aceitação, exerce sua ação na presentificação evoca. . nos a 1"d..
e1a de "campo de presença ·a
~Õ]íiie_. _lieste ,ey~ntQ. é-o s~~ Tu. ue se refere Merleau. . Pont~ n~ F:nomenologla
No Tu, finitude e ilimitação se confundem. da Percepção. A própria existencta huma~a na
A temporalidade é a presença da atitude trans~ sua um"dade e multiplicidade .de aspectos te esta da
cendente. A presença instaura também a fini~ ·~
expertencia . de "tra~nsito" no rttmo constan~ e d s
tude. Neste evento da relação finitude e trans~ atitudes. Este fato se refere à construçao o
cendência se relacionam dialeticamente, pois mundo do Tu em concordânci~ c~~ o mundo
minha _abertura ao outro, que é :Bletl-Xu~ do Isso na existência de cada mdtvt~uo ....
ao tem o meu ser como finito, isto é, Buber propõe ao homem a reahzaçao ~a
re~al. Esta m1 u e nao e imitação no vida dialógica, uma existência fundada no dia...
- sentido de ob~jetivação (oposição própria ao logo. Para esta tarefa sobressai de. ~ovo ~ sen~
mundo do Isso), mas é a própria relação dia~ tido profundo da categoria a que Ja aludtmo~;
lógica na medida em que o Eu se vincula onto~ "entre". Uma das manifestações antropo o
logicamente ao Tu, sem que ambos percam sua ;icas mais concretas da existência da es~:"~
realidade e atualidade. Tal , atualidade, diz "entre" é 0 fenômeno da resposta. Neste n~
Buber, supõe ação e paixão, ou atividade e palavra e praxis se ·con fun dem, ts · to ~·
· no mveé1
espontaneidade, uma autêntica alteração pois o do dialógico,. ou em outros termos d;a~~?g~:e"
_Eu age J)_9bre o Tu e o Tu, s -e--Eu. dia~praxis J. á que existe uma inter. . açao en ~ ~
As relações Eú~Tu, embora não apresen~ '
Eu e Tu Resposta po de ser amor. 0 amor nao
tem coerência no espaço e no tempo, não estão é algo possuído pelo E u como se fosse
. . . umossui·
sen..-
simplesmente no ar; desligadas. Há algo sub~ timento. Os sentimentos, .? homem, ~~t~e doi~
LVIII
porém, o amor é algo que acontece
LIX
seres humanos além d E
esfera "entre"' os do'o Du e aquém do Tu na. O problema de Deus aparece mais clara-
Is. o mesmo d "
ver dadeira comunidade - mo o a mente na terceira parte de EU E TU, cujo títu-
nao nasce do f t d lo título poderia ser até mesmo "O Tu eterno".
,que as pessoas têm sentimentos u . ao e
as outras (embora e] _ mas para com Porém, só compreendemos clar~­
nascer sem isso) ela :a~ao ~os~a, na ':'erdade, cepções de Buber sobre o Tu eterno após uma
estarem todos em rela - ce. e u~s COisas: de correta compreensão das duas primeiras partes
centro vivo e de estareçao VI~da e mutua com um e do Post-scriptum escrito em 1957 quando
em re1açao - viva e mút m ..um as umas às ou tras Buber esclarece alguns pontos que haviam sus-
ua.
O f enômeno da rPc::n. - citado controvérsias.
relação Que ~Q§ta e essencial à Um dos pontos mais notáveis é, a nosso
· m ouve se não ·
~experiência dere_ceb ~para responder? ver, a extrema fidelidade desta concepção para
....Ja é o âmago çlo "entr::. a a avra e r:s ~n?ê... com a intuição central de seu pensamento e a
pela reciprocidacf If ~ çu_ª_~eyeJ~çao VIVI a extrema coerência desta concepção com as
um víncui e. . sta expenencia vivrcía de conseqüências que dela resultaram. Como,
o numa s1tuaçã d 1
encerra para Bube f o- e ape o e resposta atualmente, nossa época se caracteriza mais por
hilidade em seus dor· o en?meno da responsa... um ec~ipse de Deus, a preocupação de Buber
IS sentidos· p · ·
resposta e, segundo ·.. n~e1ro, como voltava-se principalmente para o esclarecimento
res ond p ' como a obngação" de
~ er. ara Buber a responsabilidad do diálogo com Deus a fim de torná-lo de novo
proJeto do homem na hi'st. . d . e como possível para o homem contemporâneo. Assim,
• 1 rea] e essencial da 'dor1ah e VIVer
nive . num a reflexão sobre a palavra, o seu sentido na
posta ao a e] d . . v~ a umana e a res... existência humana, o sentido e a tarefa que a
dade trans%endend dia]o~Ico]. A responsabiJi... própria história reserva a este mundo do homem
níve] m . 1 •o o mve mora], para um desenharam o clima no qual a relação absoluta
dade. ais amp o' e o nome e't·Ico d a reciproci- entraria em cena, aó mesmo tempo que exigiam
- Podemos resumi · . . para a sua própria condição de possibilidade.
ticas do mundo do Tr as pr~ncip?Is caracterís ... a relação com o Tu eterno. Trata-se de uma
· cidade, ~- ~ em: ~ed1atez, recipra... "conversa com Deus". Como já dissemos, a
P aço---e-- . t 1atalid.acie,._coerêncja nn es... problemática de Deus é considerada a partir
no empo a fuga 'd d ~-­
A reciprocidade' CI a e e a inobjetivação da existência humana, pois, a palavra de Deus
permanece co - ·
va1orativo das diver _ mo o parametro se faz presente. na história do homem. "A pa-
f erentes esferas quesas re1açoes Eu..T d'
B h d' . . u nas l- lavra de Deus", diz o Post-scriptum, "penetra
u er IstmgUiu,
todo evento da vida de cada um de 11ós, assim
* como cada evento do mundo que nos envolve,
LX
LXI
tudo o que é biográfico, tudo o que é histórico Um dos pontos cruciais que suscitou maior
transformando...o, para você e para mim, em controvérsia foi o conceito de reciprocidade
mensagem e exigência". A princpial implicação presente na relação do homem com o Tu eterno.
· da concepção buberiana sobre o Tu eterno é Pergunta... se se é possível. compará...}~ co~ _a
que· não nos interessa saber nada sobre Deus, reciprocidade que caracteriza a relaçao dtalo-
Tu eterno, para que possamos entrar em con- gica no nível humano em qualquer uma das três
tato com Ele e falar com Ele. E mais, não é esferas. Buber acrescentou alguns esclareci-
Deus em si que interessa ao homem, mas é a mentos no Post...scriptum. Ele afirma que para
relação entre ele e Deus que é profundamente entendermos a diferença no tocante a esta ques-
significativa. Buber tenta exprimir a unidade tão não se deve fazer apelo à distinção entre
. que ele vê entre Deus, o homem e o mundo. o raciocinai e o irracional mas sim compreender ·
Não se trata de uma união mística, mas de uma a distinção entre a razão que se desliga das
comunhão. Sem dúvida, Deus é o totalmente outras forças da pessoa humana, declarando...se
outro, mas Ele é o totalmente mesmo, o total- soberana. e a razão que participa da totalidade
mente presente. A revolução buberiana, se aqui e da unidade da pessoa humana, trabalhando
couber este termo, deixa de lado a perspectiva e se exprimindo a si mesma dentro desta to...
metafísica que vê uma dupla ordem de seres: talidade.
o imanente e o transcendente. Tais categorias Sendo, para Buber, a realidade hull_lana
empregadas na compreensão da concepção a via de acesso para a problemática de Deus,
buberiana são ineficazes e mesmo sem sentido. as suas concepções sobre o Tu eterno e o sen,..
O significado desta absoluta alteridade e da tido da relação pura são; mais que uma "teo,..
absoluta presença na esfera do encontro com. logia" ou uma filosofia da religião, um verda...
o Tu eterno tem seu correspondente no sentido deiro humanismo. Não teria sido esta a justifi,..
da independência e da relação na esfera huma... cativa da atribuição, em 1963, do prêmio Eras,..
na. Há como que úm paralelismo entre a esfera mo pela Academia Holandesa de Amsterdã?
humana e a esfera do encontro com o Tu eter... Mais que um humanismo com aparência de um
no. Não podemos, porém, prolongar este para... idealismo moral, o humanismo buberiano é on,..
lelismo. Os dois tipos de relação dialógicas são tológico, Sua mensagem é a tarefa atribuída
diferentes num ponto. Se o Tu pode se tornar ao homem: realizar o "divino" no mundo,
um Isso na esfera humana, o Tu eterno, sendo tomar possível uma teofania, ultrapassando ~
a alteridade absoluta, não pode, em termos dogmatismo e o espírito objetivante das re!t'"'
ontológicos, ser reduzido a um Isso. giões estabelecidas pela religiosidade da exts ...
LXII LXIII
tência concreta. Sem dúvida, há forte influência ticas afirmam a absorção na unidade. Buber as
do Hassidismo sobre Buber nesta proposta da denuncia por negarem a própria dualidade Eu
responsabilidade do homem em realizar e ins- e Tu e por se tratar. além dis~o: de ~ma f.alsa
taúrar o divino no mundo. unidade. Em seu êxtase, o m1sbco nao atmge
O humanismo buberiano nos permtie tam- a unidade verdadeira.com o divino, mas conhece
bém efetuar uma leitura humanista de Buber. a sua própria unidade. As segundas místicas,
"O homem não é então", como afirma R. M!s- do aniqullamento do Eu na divindade e ~o
rahi, "somente o fim ético de uma doutri~ Si--mesmo, são também rejeitadas pela ne·gaçao
ontológica, mas o começo desta doutrina e de . da verdadeira dualidade na relação Eu--Tu
todo o pensamento ulterior" (Martin Buber eterno. O exemplo a que Buber se refere é a
página 48). A palavra, a relação, a reciproci-l fórmula dos U panishads.
dade são atos do homem. É no humano que Em suma, o misticismo tradicional é de--
devemos encontrar a raiz e o fundamento da 1 nunciado por Buber por negar ao _Eu a_ rea-
ontologia do face--a--face. .__.-/ lidade que lhe é essencial na relaçao. N ao ~e
Esta ênfase dada ao humano, ao ser da trata do Eu do egótico, mas do Eu da relaçao
relação, nos permite .entender a severa crítica Eu--Tu.
que Buber endereçou às místicas tradicionais. Falar de Deus é reduzi--lo a um objeto
na medida em que estas levam Çt uma negação comparável a outros objetos e que pode ~er
do Eu, ou do si--mesmo que é absorvido pela usado ou explorado, seja em nome de um sis--
divindade. "A doutrina da dependência não tema dogmático ou de mera religião. Aliás, a
deixa ao Eu, que sustenta o arco universal da propósito de religião, convém notar, de passa-
relação pura, senão uma realidade tão vã e gem. uma afirmação feita por .~uber numa en-
débil, a ponto de não mais se acreditar que ela trevista à rádio BBC em 1961. Devo confessar
seja capaz de sustentar algo: uma destas dou-- que não gosto muito de religião e fico muito
trinas da absorção faz desapare-cer este arco contente que esta palavra não se encontra na
no momento de sua perfeição: a outra consi-- Bíblia" (transcrito por R. G. Smith em sua
dera-o uma quimera a ser superada" (EU E obra Martin Buber, pág. 33).
TU, pág. 98). Nós podemos fal~r com Deus, o.. que
Para Buber, o Eu ·é o suporte e o funda-- significa voltar--se para Ele. O tema da co~-­
mento da relação pura e absoluta. Buber nega versão" é importante em EU E TU. Conversao
as místicas do êxtase e as místicas do aniquila- implica uma mudança radical. O apelo bub~~
mento de si mesmo. Ambas negam este poder riano extrapola o campo religioso. Buber Ja
de suporte próprio do Eu. As primeiras mís- diagnosticava, em 1923, uma tendência da so-
LXV
LXIV
ciedade contemporânea (que ele eh d gências mais amplas encontravam respostas
.. d ") amou e
oente. de contribuir para uma degradação mais amplas.
do, s~nttdo do hum~no. A confiança na força Os três elementos - homem, Deus, mun-
~o dta~ogo, do Tu nao desvirtuou este diagnós- do - foram sendo paulatinamente abordados
tico onentando-o para um pessimismo A sob diversos prismas. Assim o sentido do mundo
t" · d . oron-
r~no, a vi a do homem pode, pela conversão, humano (apresentado na segunda parte de EU
onentar-se para o caminho de uma nova era, E TU) será explicitado com reflexões desen-
graças a um novo sentido de comunidade volvidas em: Distância originária e relação, A
.Este otimismo permitiu que EU E TU. so- questão do indivíduo, Elementos do lnterhu-
brevtve~se•. por. dezenas de anos, às críticas, às mano e nos estudos dedicados à educação como
contr?versias, as ideologias, às teologias, aos Sobre a Educ.ação e Sobre a Formação do ca-
entustasmos, movimentos e doutrinas. ráter. Do mesmo modo o significado da verda-
deira comunidade, da sociedade e da política
em relação à existência concreta dos indivíduos
* será aprofundado em Caminhos de Utopia, A
A existência e a reflexão de Buber foram importância e os limites do princípio político e
nort~adas por uma questão fundamental. cujo vários outros. O diálogo com o Tu Eterno
sentido e alcance foi se ampliando C (apresentado na terceira parte de EU E TU)
K·terkegaar d• Buber sentiu a exigência · de pro-
orno receberá explicitações em vários trabalhos entre
curar uma solução ao problema no qual estava os quais podemos destacar Eclipse de Deus.
mergulhada a humanidade, uma ruptura entre Diante da urgência em fazer descobrir ao
o _home~ e Deus. A tarefa a que Buber se im- homem contemporâneo a verdadeira história da
pos, fo~ ~ de b~scar um meio para recuperar humanidade ou o diálogo entre a Terra e o
a relaçao entre homem. Deus e 0 mundo, tor- Céu, Buber empreendeu a tarefa de traduzir
nando de novo possível o diálogo entre Deus a Bíblia hebrai.ca para o alemão; a fim de tor...
e. o h~~em. Não vemos em Buber uma ordem ná-la mais compreensível aos leitores, Buber
Sistemattca e preconcebida para abordar este elaborou extensos trabalhos de exegese con ...
proble~a. Ao contrário, o esforço por ele em- c,retizados: em: A Fé dos profetas, Dois tipos
pr~endtdo no sentido de elucidar esta questão, de fé. Revelação e Fé e muitos outros.
fot se dese~vo1vendo à medida da ocorrência A sua ontologia da relação terá conse-
dos acontecimentos, numa espécie de contínuo qüências diretas sobre a educação e sobre a
r~começo: Seus escritos respondiam a exigên- antropologia filosófica. Buber continua respon-
Cias ocaswnais e específicas; outras vezes, exi- dendo ao apelo incessante que o humano lhe
Lxvr LXVII
lançava. A sua resposta era a responsabilidade seu povo de realizar topicamente a verdadeira
histórica que ele próprio descobriu em sua obra utopia. O seu socialismo utópico repousava
e !llanifestava na sua própria existência. sobre uma verdadeira metafísica da amizade.
do encontro dialógico.
A nostalgia do humano, nele provocada por
situações de profunda crise no mundo dos ho-
mens onde a controvérsia e cisões imperavam, *
aliava-se a uma profunda esperança no poder A profunda esperança e fé no homem I
de relação, na força do diálogo que faria do ho- presentes em sua obra e em sua vida, incentiva- '
mem uma pessoa livre e responsável diante de ram Buber a lançar, exatamente através da
seu destino. EU E TU provocou outros escri- obra e da vida, um apelo que se concretizou
tos no âmbito da antropologia filosófica: "Dis~ como uma voz. um diálogo, um testamento le-
tância originária e relação". "O que é comum gado a todos nós que estamos realmente preo- ·
a todos". "A palavra que deve ser proferida". cupados com a sorte do homem.
"Culpa e sentimento de culpa". "A cura atra- Assim, diante da imensidão da obra e da
vés do encontro". No campo da educação Bu- riqueza existencial deste mestre torna-se difí..
ber aplicou e explicitou a filosofia do diálogo. cil, para muitos, compreender exatamente a sua
Podemos ler: "Sobre a Educação", ··Sobre a
afirmação: "não tenho ensinamentos a trans-
formação do caráter", ··Discursos sobre a Edu-
mitir. . . Tomo aquele que me ouve pela mão
cação".
e o levo até a janela. Abro-a e aponto para
Em seu ensaio ''Sobre a Educação" Buber fora. Não tenho ensinamento algum, mas con-
afirma que "com a criança o gênero humano duzo um diálogo".
começa _a cada instante". Realmente está no Poderíamos cercear o vigor deste homem
seio do próprio ser do homem o poder de sem- se o qualificássemos de "existencialista", com-
pre recomeçar. Ao lado do "instinto de autor", parando-o aos grandes filósofos e pensadores
como denomina a necessidade de sempre estar como Kierkegaard, Nietzche, Heidegger, Jas-
na origem de cada coisa, Buber distingue em pers. Se o âmago do existencialismo ou da filo-
cada homem a necessidade de diálogo. Esta sofia da existência se revela de um lado como
dupla necessidade de relação e criação se fun- protesto e denúncia contra sistemas, abstrações
damenta nas duas palavras-princípio. .
e conceitos e de outro como a a f1rmaçao .. e a
No âmbito da política, o âmago da men- exigência de compromisso com a concretude e
sagem buberiana baseava-se no desejo de co- .. com o desafio da existência concreta de cada
munidade, apresentando a possibilidade para o um. talvez todos esses filósofos tenham falhado
LXIX
LXVIII
no seu intento, não dialogando com o desafio nhecer uma existência curta. Por outro lado.
da existência - em ásperos monólogos se en- aquilo que foi demasiadamente compreendido
clausuraram na aridez de seus sistemas, teses não suscita retiscências; o espanto ou admira-
e 'abstrações. Poderíamos concluir, .como afirma ção não deixa mistério algum a ser desvendado.
o professor W. Kaufmann, que na realidade Há obras que perduram alguns anos, algu-
só existiu um existencialista que não foi exa.- mas sobrevivem seu autor, outras ressuscitam
tamente existencialista, e sim, Martin Buber. anos depois, outras ainda são lançadas defini ...
tivamente na magnificência da imortalidade.
* EU E TU foi revelada em alemão. Várias
outras revelações se sucederam, tornando...a
Resta-nos agora apresentar ao leitor ai ... largamente conhecida.
gumas ponderações gerais sobre a obra EU E O encanto de seu mistério continua fasci ...
TU como um todo, que ele eventualmente de... nando muitos leitores. Tem-se a impressão de
seja conhecer. Quais são as características de que Buber manifestou propositadamente suas
EU E TU e qual a postura que ela exige para idéias através de um discurso obscuro e às
sua compreensão? _ vezes enigmático, empregando expressões ar...
O estilo de Buber muitas vezes se apre- caisas e mesmo forjando neologismos que não
senta como obscuro. Em muitos trechos, por são facilmente compreendidos numa primeira
motivos de prazer estético diante de expressões leitura, obrigando o leitor a ter uma postura
belas e ricas, o sentido chega a ser ofuscado. determinada diante da obra. O livro não deve
A construção e o ritmo são brilhantes, o que ser considerado como um mero meio de comu...
às vezes dificulta a compreensão de várias nicação, um objeto de prazer estético, de expe...
passagens se quisermos efetuar somente uma riência, mas um verdadeiro Tu com o qual se·
leitura. Como o mistério e a profundidade nos estabelece um diálogo genuíno. Não é um livro
fascinam, a tentativa de simplesmente compre... para ser lido mas, diríamos, para ser "ouvido".
ender o que Buber tem a nos dizer desvia o O próprio Buber, segundo afirmam aque...
nosso desejo de criticá-lo ou mesmo em nos les que o conheceram pessoalmente estava mais
perguntar se o que ele afirma é verdadeiro ou preocupado. em suas palestras, conferências e
não. cursos em estabelecer imediatamente laços in ...
A aceitação ou a consagração não revelam timos de genuíno diálogo do que em transmitir
necessariamente a for~a e o poder interno de uma doutrina. Ele desejava mostrar a cada
uma obra. Obras que já nascem grandes e sio interlocutor o caminho para sua existência. Nã.o
anunciadas como a última palavra, podem co... caminhos que levam a parte alguma mas cam1 ...
LXX LXXI
nhos que extgtam a destruição das distâncias
Nossa maneira de compreender as pala-
através da encarnação do Eu-Tu. O caminho
não é traçado a partir de um mundo conceituai vras foi como que embrutecida pelo u.so, to~­
nando-nos insensíveis para o seu sentido prt·
de abstrações, inócuo e vazio. Ele surge de
mordial Então em certo sentido elas nos cho-
experiência vivida na concretude existencial de
cam, c~mo a verdade nos incomoda às vezes,
cada ser humano. Não é um constructo teórico pelo brilho de sua luz.
forjado para o bem de uma causa, de uma dou- Todo EU E TU fala de encontro, pretende
trina polemizante, mas é um verdadeiro "exis- ser um diálogo e por isso padece com as ins.u-
tencial".
ficiências aparentes decorrentes de um est~o
Milhares de leitores já consagraram a obra enigmático: como o próprio diálogo, que nao
através das décadas porque seu mistério não pode ser impessoal, mas interpessoal, acontece
lhes causou pessimismo ou derrota diante do num clima de mistério.
incompreensível - ela velava uma riqueza Seria tão estranho, podemos nos pergun-
insondável. S neste sentido que o estilo da obra tar, aproximar o caráter enigmático de certas
a revela e ao mesmo tempo a oculta. passagens ou o estilo de Buber em EU E TU
Talvez seja exàgero afirmar que caminhos e a observação que Heidegger fez em su~ pe-
como o que nos apresentou Buber, e que EU E culiar interpretação dos fragmentos dos pre-so-
TU hoje nos mostra, levam a este ressurgimento cráticos dizendo que a associação de pa~avr~s,
de aspirações profundas provindas de recô11... aparentemente sem articulação entre st, nao
ditos do humano, que se manifestam hoje atra- representa um estágio primitivo e obscuro que
vés das "voltas", por exemplo, à mística oriental ainda não atingiu a perfeição atual de ~oss~
ou ao cristianismo primitivo. língua mas denota uma densidade que Ja fot
· EU E TU nos revela, como também a tra- perdida atualmente?
dução buberiana da Bíblia, uma faceta impor.. Apesar do estilo, muitas vezes, parecer
tante do pensamento de Buber: a preocupação romântico e o jogo de palavras atingirem um
em captar o sentido originário das palavras: máximo grau de perfeição e beleza: intr_?d~zi·
Como tradutor, ele foi um verdadeiro intérprete veis, a mensagem profunda é anb-romanb~a.
da Bíblia. Talvez a estranheza com que foi Suas expressões recusam qualquer afetaçao.
recebida sua tradução revele aquela força de Por exemplo, a força extraordinária que Bub~r
"indicação" de que nos fala Heráclito em seu confere ao conceito de "presença" é res~o~sa­
fragmento 93. "O deus, cujo oráculo está em vel pela mudança de perspectiva em topt~~s
Delfos, não fala nem esconde, ele indica". como Deus, encontro, liberdade, responsabth-
dade.
LXXII
LXXIII
O encontro entre Deus e o homem não se mação, acharia, neste livro, campo para uma
realiza em lugar ou tempo determinados, mas crítica arrazadora. Se ao contrário, estivermos
a.contece aqui e agora, na presença; cada lugar atentos e dispostos a ouvir, dialogar, então
é lugar, cada tempo é tempo. Os gregos enfa.. veremos que a questão antropológica nos con-
tizavam e glorificavam a visão. Lemos em He-- fronta, nos provoca, nos arrebata para o sen--
ráclito, no fragmento tOla .. "Os olhos são me-- tido do paradoxal.
lhores testemunhas que os ouvidos". Os seus Esta tarefa que empreendemos, fornecendo
deuses eram representados visualmente através EU E TU em português. apresentou dificulda--
de belas imagens. Os hebreus não visualizavam des para nós, pois estivemos conscientes da lite..
o seu Deus. Ele era invisível. Ele só podia ser ral impossibilidade de traduzi--lo. Nossa preten--
ouvido. Vimos a ênfase da afirmação de Buber. são em reler Buber foi tentar ouvir dele o que
Não se pode falar Dele. mas falar com Ele. ainda quer nos dizer. 54 anos após sua primeira
Ele não é um objeto de observação ou culto; publicação, esta obra permanece atual e atuante.
Ele só pode ser encontrado na presença que a Estivemos menos preocupados com a beleza de
cada vez é única e insubstituível. Ele é um Tu estilo ou com a exatidão dos termos no verná--
atemporal, um Tu eterno. culo, do que com a fidelidade ao pensamento e
O modo como Buber apresenta EU E TU, com a responsabilidade para -:om a palavra do
como ele nos fala, lança a nós um desafio: qual autor; deixamos, na medida do possível, as pró--
é o modo pelo qual vamos entrar em contato prias palavras manifestarem sua intenção.
com a obra? Como dissemos, o conteúdo enig-- Cremos não nos ter dado a ocasião de encarar
mático de certas passagens nos faz compreen-- o livro como um objeto diante do qual qualquer
der ·que estamos diante de um livro que não liberdade é possível; não nos é lícito manipu--
pode ser lido só uma vez. É um estilo provo- lá--lo. Ele está aí, nos confronta e confronto não
cador que exige atenção e talvez duas ou três é batalha onde pode haver vencedor e vencido.
leituras. Devemos ouvir o que ele tem a nos Embora não possa haver coincidência entre as
dizer em vez de procurar um conteúdo progra-- duas manifestações, do original e da tradução,
mático ou sistemático que apresenta fórmulas acreditamos ter havido proximidade. Em vez de
estereotipadas através de jargões modísticos, um conjunto de idéias e conceitos EU E TU é
soluções fáceis e imeJiatas para o "mal de uma voz que nos chama para ajudá--la a s~
nosso século". Se alguém considerar EU E TU revelar. Para além da obra escrita, a palavra e
como um ensaio filosófico no sentido técnico referencial na medida em que faz apelo ao
do termo, tentando rever a falsidade ou a ve-- locutor ou escritor. Tal é o caráter de comuni-
rificabilidade de um argumento ou de uma afir-- cabilidade do discurso. Ao confrontar a obra
LXXV
LXXIV
escrita, podemos retornar àquilo que foi su- zer não pode ser dito senão do modo que esta-
presso, que era a experiência existencial con- mos acostumados dizer. Ou, retomando as pa-
creta como evento. A existência concreta deve lavras de Benveniste, o "intentado" do discurso
ser compreendida, isto é, comunicada. Buber adere ao significado de nossa língua. Na tra-
operou uma redução à ordem do discurso para dução~ aparentemente, acontece o mesmo. Será
poder nô~la comunicar. O discurso apresenta que aqui o que realmente o autor quis dizer
um caráter dialético, isto é, ele é um evento no texto não é inseparável das palavras origi-
que tem sentido, ou então, um evento que de nais e, por isso mesmo, intraduzível? Nossa
algum modo se suprime no sentido. O evento consciência histórica, porém, afirma o contrário
é compreendido como sentido. ao postular a possibilidade de tradução de
Traduzir um texto envolve peripécias e qualquer texto. O pensamento enquanto "que-
dificuldades; a tradução não deixa de ser de rer~dizer", mesmo investido na linguagem, deve
algum modo uma interpretação. Todo problema conservar certa distância que lhe possibilita
da tradução é implicado na relação entre o des~investir~se para se re~investir de um modo
"mesmo" sentido e o outro "idioma". ou na diferente. Cremos poder retomar a aproximação
transposição de um mesmo sentido de um idio- que opera Gadamer da interpretação e da exe-
ma em um outro. O mesmo paradoxo encon- cução de uma peça musical. A interpretação é,
tramos na experiência da leitura já que esta é para ele, quando executada, ao mesmo tempo
uma experiência de reinvestimento ou de reins.. única e diferente. E, no entanto, é sempre o
crição do "mesmo" texto através de um "outro"
mesmo texto ao qual é possível voltar como o
meio. Ler, portanto, é produzir um novo evento
do discurso que pretende ter o mesmo sentido "mesmo" de todas as interpretações que são
em outro idioma. Aqui o que faz o papel de "outras". Do mesmo modo, é sempre a "mesma"
"outro idioma" são opiniões e perspectivas do peça musical que se manifesta através de diver-
leitor ou do tradutor. Podemos, assim, aproxi- sas execuções que são sempre "outras". Daí
mar a tradução da interpretação. Compreender decorre a dificuldade de se tentar eliminar a
é, de certo modo, vencer as diferenças existentes interpretação subjetiva; tal eliminação acarre-
entre dois códigos. Interpretar é aproximar~se taria a possibilidade de uma execução perfeita,
das coisas que a linguagem nomeia apesar das a verdadeiramente única.
diferenças das línguas. A tradução seria a Diante de tal problema, confessamos a
experiência inversa da fala. Quando falamos, dificuldade de traduzir a riqueza de sentido de
acreditamos que a palavra exata ~ a da nossa inúmeros conceitos, de muitas palavras forja-
língua, sentimos que aquilo que desejamos di~ das, neologismos pouco usados e sobretudo de
LXXVI LXXVII
jogos de palavras muito frequentes em EU E
TU. Então como traduzir o intraduzível? Con.,
to~namos em parte a dificuldade com algumas
notas. Mesmo que para o leitor seja mais con-
fortável a leitura das notas ao pé da página.
preferimos colocá~ Ias no fim, sacrificando o
conforto em benefício da leitura e estudo do
texto sem interrupções.
*
A nossa tradução foi elaborada a partir
da 8" edição de 1974, apresentada pela Editora
Lambert Schneider. Os números à margem re-
ferem-se às páginas do original desta edição.
Nosso mais profundo agradecimento diri-
gimos ao senhor Rafael Buber, filho de Martin
Buber que, através de uma carta a nós endere- PRIMEIRA PARTE
i :
!' çada, amavelmente permitiu que EU E TU fos ...
se mais divulgado em nosso. meio. A ele nossa
especial homenagem e cordial respeito. A Edi--
tora Cortez e Moraes acatou com otimismo nos--
sa_ iniciativa em empreender tal tarefa; a ela
também agradecemos.
Nossos agradecimentos ao colega prof.
Fernando José de Almeida da PUCSP pelo
seu trabalho de revisão gramatical; ao colega
e amigo prof. Dr. Pedro Goergen da Faculdade
de Educação da Unicamp pelas suas observa-
ções criteriosas sobre inúmeras passagens e
conceitos. A Célia, companheira dedicada, que
esteve sempre "presente" em nosso diálogo
com Buber e que colaborou na revtsão geral.
nosso carinho.
Unicamp, fevereiro de 1977.
LXXVIII
O mundo é duplo para o homem, segundo 9
a dualidade de sua atitude.
A atitude do homem é dupla de acordo com
a dualidade das palavras-princípio que ele pode
proferir.
As palavras-princípio não são vocábulos
isolados mas pares de vocábulos.
Uma palavra-princípio é o par EU•TU. A
outra é o par EU-ISSO no qual, sem que seja
alterada a palavra-princípio, pode-se substituir
ISSO por ELE OU ELA.
Deste modo, o EU do homem é também
duplo.
Pois, o EU da palavra-princípio EU•TU é
diferente daquele da palavra-princípio EU-ISSO.

*
As palavras-princípio não exprimem algo
que pudesse existir fora delas, mas uma vez
proferidas elas fundamentam uma existência.
As palavras-princípio são proferidas pelo
ser. 1
Se se diz TU profere-se também o EU da
palavra-princípio EU•TU.
Se se diz ISSO profere-se também o EU da
palavra-princípio EU·ISSO.
A palavra-princípio EU•TU só pode ser pro-
ferida pelo ser na sua totalidade.
3
IO A palavra-princípio EU-Isso não pode O reino do TU tem, porém, outro funda-
jamais ser proferida pelo ser em sua totalidade. mento.
*
Aquele que diz TU não tem cois~ algu~a
Não há EU em si, mas apenas o EU da por objeto. Pois, onde há uma coisa ha tambem
palavra-princípio EU-TU e o EU da palavra-prin ...
cípio EU-ISSO. outra coisa: cada ISSO é limitado por ~ut~o !sso;
0 Isso só existe na medida em que e hm1tado
Quando o homem diz EU, ele quer dizer um
por outro Isso. Na medida em qu: se profer~ o
dos dois. O EU ao qual ele se refere está pre-
TU, coisa alguma existe. O TU nao se confma
sente quando ele diz EU. Do mesmo modo quan-
do ele profere TU ou ISSO, o EU de uma ou outra a nada. • ...
palavra-princípio está presente. Quem diz TU não possui coisa alguma, nao 11
Ser EU, ou proferir a palavra EU são uma possui nada. Ele permanece em relação.
SÓ e mesma coisa. Proferir EU ou proferir uma
das palavras-princípio são uma só ou a mesma
coisa. *
Aquele que profere uma palavra-princípio Afirma-se que o homem experiencia o seu
penetra nela e aí permanece. mundo. 2 O que isso significa? O homem
explora a superfície das coisas e as experiencia.
Ele adquire delas um saber sobre a sua n~­
* tureza e sua constituição, isto é, uma ex~eri­
A vida do ser humano não se restringe ência. Ele experiencia o que é próprio às COisas.
apenas ao âmbito dos verbos transitivos. Ela Porém, o homem não se aproxima do
não se limita somente às atividades que têm mundo somente através de experiências.
algo por objeto. Eu percebo alguma coisa. Eu Estas lhe apresentam apenas um mundo
experimento alguma coisa, ou represento alguma constitu{do por Isso, ISSO e ISSO, de Ele, Ele e
coisa, eu quero alguma coisa, ou sinto alguma Ela, de Ela e Isso.
coisa, eu penso em alguma coisa. A vida do ser Eu experiencio alguma coisa. •
humano não consiste unicamente nisto ou em Se acrescentarmos experiencias internas as
algo semelhante. externas, nada será alterado, de acordo. codm
Tudo isso e o que se assemelha a isso . . ... que prove· m do anseio . o
uma fugaz d1sbnçao
fundam o domínio do ISSO. gênero humano em tornar menos agudo o mis-
5
té~io da morte .. Coisas internas, coisas externas, hra como que aquém da linguagem. As cria--
cotsas entre cmsas!
turas movem--se diante de nós sem possibilidade
Eu experiencio uma coisa. de vir até nós e o TU que lhes endereçamos de--
· E, por outro lado, se acrescentarmos ex~ para--se com o limiar da palavra.
per.~ências "secretas" às experiências "manifes-- A segunda é a vida com os homens. Nesta
tas • nada será alterado de acordo com aquela esfera a relação é manifesta e explícita: pode--
sabedoria autoconfiante que apreende nas coi-- mos endereçar e receber o TU.
sas um compartimento fechado, reservado aos A terceira é a vida com os seres espirituais.
iniciados cuja chave ela possui. Oh! Mistério Aí a relação, ainda que envolta em nuvens, se
sem segredo. Oh! Amontoado de informações! revela, silenciosa mas gerando a ·linguagem.
Isso, Isso, Isso! Nós proferimos, de todo nosso ser, a palavra...
princípio sem que nossos lábios possam pro--
* nunciá--la.
Mas como podemos incluir o inefável no 13
12 O experimentador não participa do mun-- reino das palavras--princípio?
do: a experiência se realiza "nele" e não entre Em cada uma das esferas, graças a tudo
ele e o mundo.
aquilo que se nos torna presente, nós vislum--
O mundo não toma parte da experiência. bramos a orla do TU eterno, nós sentimos em
Ele se deixa experienciar, mas ele nada cada TU um sopro provindo dele, nós o invo--
tem a ver com isso, pois, ele nada faz com isso camos à maneira própria de cada esfera.
e nada disso o atinge.

* *
Eu considero uma árvore.
O mundo como experiência diz respeito à Posso apreendê--Ia como uma imagem .
. ~ palavra--princípio EU--Isso. A palavra--princípio Coluna rígida sob o impacto da luz, ou o ver ...
l EU--TU fundamenta o mundo da relação. dor resplandecente repleto de suavidade pelo
azul prateado que lhe serve de fundo.
* Posso senti--la como movimento: filamento
fluente de vasos unidos a um núcleo palpi--
O mundo da relação se realiza em três tante, sucção de raízes, respiração das folhas,
esferas. A primeira é a vida com a natureza. permuta incessante de terra e ar, e mesmo o
Nesta esfera a relação realiza--se numa penum ... próprio desenvolvimento obscuro.
6
7
A árvore não é uma impressão, um jogo
E~posso classificá-la numa especie e de minha representação ou um valor emotivo.
observa-la como exemplar de um tipo de es- 3
Ela se apresenta "em pessoa" diante de
trutura e de vida. mim e tem a!go a ver comigo e, eu, se bem que
. Eu posso dominar tão radicalmente sua de modo diferente, tenho algo a ver com ela.
presença e sua forma que não reconheço mais ' Que ninguém tente debilitar o sentido da
nela senão a expressão de uma lei - de leis se- relação: relação é reciprocidade.
~undo as quais um contínuo conflito de forças
Teria então a árvore uma consciência se-
e semp~e- solucionado ou de leis que regem a melhante à nossa? Não posso experienciar isso.
composiçao e a decomposição das substâncias. Mas quereis novamente decompor o indec~m­
Eu posso volatilizá-la e eternizá-la, tor-
ponível só porque a experiência parece ter si_do
n.ando-a um número, uma mera relação numé-
riCa.
bem sucedida convosco? Não é a alma d~ ar:
vore ou sua dríade que se apresenta a mim, e
11 A árvore permanece, em todas estas pers-
pe.:tivas, .o meu objeto tem seu espaço e seu ela mesma.
tempo, mantém sua natureza e sua composição. \',

Entretanto pode acontecer que simultanea- * 15


mente, por vontade ·própria e por uma graça, O homem não é uma coisa entre coisas ou
ao observar a árvore, eu seja levado a entrar formado por coisas quando, estando eu presente
- em relação com ela; ela já não é mais um ISSO.
diante dele, que já é meu TU, endereço-lhe a
' A força de sua exclusividade apoderou-se de
)llim. palavra-princípio. . .
Ele não é um simples ELE ou ELA limitado
Não devo renunciar a nenhum dos modos
por outros ELES ou ELAS, um ponto inscrito na
de minha consideração. De nada devo abs-
trair-me para vê-la, não há nenhum conheci- rede do universo de espaço e tempo.
Ele não é uma qualidade, um modo de
mento do qual devo me esquecer. Ao contrário
i~agem e movimento, espécie e exémplar, lei ~ ser, experienciável, descritível, um feixe f.lá~ido
numero estão ind~ssoluvelmente unidos nessa de qualidades definidas. Ele é TU, sem hmites,
relação. sem costuras, preenchendo todo o horizont_.e·
Isto não significa que nada mais existe a nao
Tudo o que pertence à árvore, sua forma
ser ele, mas que tudo o mais vive em sua l~z.
seu mecanismo, sua cor e suas substâncias qui~
Assim como a melodia não se compoe de
micas, sua "conversação" com os elementos do
sons, nem os versos de vocáculos ou a estátua
mundo e com as estrelas, tudo está inclufdo
de linhas - a sua unidade só poderia ser re-
numa totalidade.
9
8
duzida a uma multiplicidade por um retalha...
mento ou um dilaceramento - assim também Eis a eterna origem da art.e: uma forma
o homem a quem eu digo Tu. Posso extrair a defronta-se com o homem e anseia tornar-se
. cor de seus cabelos, o matiz de suas palavras uma obra por meio dele. Ela não é um produto
ou de sua bondade; devo fazer isso .sem cessar. de seu espírito, mas uma aparição ~ue se lhe
porém ele já não é mais meu TU. · apresenta exigindo dele um poder eflcaz. Tra-
Assim como a prece não se situa no tempo ta--se de um ato essencial do homem: se ele a
mas o tempo na prece, e assim como a oferta realiza, proferindo de todo o seu ser a palavra:
não se localiza no espaço mas o espaço na . • • EU..TU a· forma que lhe aparece, at
prmctpto
oferta - e quem alterar essa relação suprimirá então brota a força eficaz e a obra surge..
a atualidade•, do mesmo modo o homem a Esta ação engloba uma oferta e um rtsco:
quem digo .TU não encontro em algum tempo Uma oferta: a infinita possibilidade q~e sera
ou lugar. Eu posso situá-lo, sou, aliás, obrigado imolada no altar da forma. Tudo aqmlo <!-ue
a fazê-lo constantemente, mas então, ele não é ainda há pouco se mantinha em .perspecbv~
mais um TU e sim um ELE ou ELA, um Isso. deverá ser eliminado, pois, nada dtsso .P?jeda
Enquanto o universo do TU se desdobra penetrar na obra; assim exige a exclustvt a e
sobre minha cabeça, os ventos da causalidade própria do "face--a--face". Um risco: a palavra-
16 prostram-se a meus calcanhares e o turbilhão da princípio não pode ser proferida senão p~lo ser
fatalidade se coagula. em sua totall.dade• isto é • aquele que
. a· tssoh se 17
Eu não experiencio o homem a quem digo entrega não deve ocultar nada de st, pms a o ra
TU. Eu entro em relação com ele no santuário
não tolera como a árvore ou o homem, que eu
da palavra-princípio. Somente quando saio daí descanse entrando no mundo do ISSO. É ela que
posso experienciá-lo novamente. A experiência domina; se eu não a servir corretamente ela se
é distanciamento do TU. desestrutura ou ela me desestrutura.
A relação pode perdurar mesmo quando o Eu não posso experienciar ou descrever a
homem a quem digo TU não o percebe em sua forma que vem ao meu encontro; só posso a~ua­
experiência, pois o TU é mais do que aquilo de lizá-la. E, no entanto, eu a contemplo no brilho
que o Isso possa estar ciente. O TU é mais ope- fulgurante do face-a-face, mais resplandecente
rante e acontece-lhe mais do que aquilo que o que toda clareza do mundo empírico, não como
Isso possa saber. Aí não há lugar para fraudes: uma coisa no meio de coisas inferiores ou como
aqui se encontra o berço da verdadeira vida. um produto de minha imaginação ma~ .c?modo
presente. s S e for suh met'da
1 ao crtterto.. • ...
a
objetividade, a forma não está realmente j ? 1

10
* entretanto, o que é mais presente do que e a.
11
.
Eu estou numa autêntica relação com ela; pois todas as ações parciais, bem. como. ~os ~enti­
ela atua sobre mim assim como eu atuo sobre mentos de ação, baseados em sua hm1taçao -
ela. deve assemelhar-se a uma passividade.
· Fazer é criar, inventar é encontrar. Dar A palavra-princípio EU-TU só pode ser
forma é descobrir. Ao realizar eu descubro. proferida pelo ser na sua totalidade. A uniã?
Eu conduzo a forma para o mundo do ISSO. A e a fusão em um ser total não pode. ser reah-
obra criada é uma coisa entre coisas, experi- zada por mim e nem pode se: efetlvada s~~
enciável e descritível como uma soma de qua- mim. O EU se realiza na relaçao com o TU, e
lidades. Porém àquele que contempla com recep- tornando EU que digo TU.
tividade ela pode amiúde tornar-se presente em Toda vida atual é encontro.
pessoa.

* *
A relação com o TU é imediata. Entre o
Que experiência pode-se então ter do EU e o TU não se interpõe nenhum jogo de con-
TU?
ceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia; e
Nenhuma, pois não se pode experien- a própria memória se transforma no momento
ciá-lo. em que passa dos detalhes à totalidade. E~tre
O que se sabe então a respeito do Tu? 19
EU e 0 TU não há fim algum, nenhuma avtdez
18 Somente tudo, pois, não se sabe, a seu ou antecipação;. e a própria aspiração se trans~
respeito, nada de parcial. forma no momento em que passa do sonho a
realidade. Todo meio é obstáculo. Somente na
* medida em que todos os meios são abolidos,
acontece o encontro.
O TU ~ncontra-se comigo por graça; não
é através de uma procura que é encontrado.
Mas endereçar-lhe a palavra-princípio é um *
ato de meu ser, meu ato essencial. Diante da imediatez da relação, todos os
O TU encontra-se comigo. Mas sou eu meios tornam-se sem significado. Não importa
quem entra em relação imediata como ele. Tal também que. meu TU seja ou possa se to_rnar.
é a relação, o ser escolhido e o escolher, ao justamente em virtude de meu ato essencta.l.: o
mesmo tempo ação e paixão. Com efeito, a ação ISSO de outros EUS ("um objeto de ex perten-
do ser em sua totalidade como suspensão de cia geral"). Com efeito. a verdadeira demar-

12 13
c~ção, sem dúvida flutuante e vibrante, não se
Situa entre a experiência e a não-experiência, O essencial é vivido na presença, as obje-
tividades no passado.
nem entre o dado e o não-dado, nem outro o
mundo do ser e o mundo do valor, mas em todos
os domínios entre o TU e o ISSO; entre a p~­
sença e o objeto. *
Não se supera esta dualidade fundamental
pela invocação de um "mundo de idéias", como
* um terceiro elemento acima de quaisquer con-
tradições. Pois, eu estou falando, na verdade,
O presente, não no sentido de instante
pontual que não designa senão o término cons- do homem atual, de ti e de mim, de nossa vida
tituído em pensamento, no tempo "expirado" e de nosso mundo e não de um EU em si ou de
um ser em si. Para este homem atual o limite
ou a aparência de uma parada nesta evolução,
atravessa também o mundo das idéias.
mas o mstante atual e plenamente presente, dá-
-se s?mente quando existe presença, encontro, Sem dúvida, alguém· que se contenta, no
relaçao. Somente na medida em que o TU se mundo das coisas, em experienciá-las e utiJi..
torna presente a presença se instaura. zá-las erigiu um anexo e uma super-estrutura
de idéias, nos quais encontra um refúgio e uma
20 O EU da palavra-princípio EU Isso, o EU,
, tranqüilidade diante da tentação do na~a: D~­ 21
portanto, com o qual nenhum TU está face-a .. posita na soleira a vestimenta da. quobdmnet-
face presente em pessoa, mas que é cercado por dade medíocre, envolve-se em hnho puro e
uma multiplicidade de "conteúdos" tem só pas- reconforta-se na contemplação do ente originá-
sado, e de forma alguma presente. Em outras rio ~u do dever-ser, no qual sua vida não. terá
palavras, na medida em que o homem se satis- parte alguma. Poderá, mesmo, sentir-se bem
faz com as coisas que experiencia e utiliza ele em proclamá-lo.
vive no passado e seu instante é privad~ de Mas a humanidade reduzida a um ISSO,
presença. Ele só tem diante de si objetos e tal como se pode imaginar, postular ou procl~­
estes são fatos do passado. ' mar nada tem em comum com uma humam-
Presença não é algo fugaz e passageiro, dad~ verdadeiramente encarnada à qual um
mas o que aguarda e permanece diante de nós homem diz verdadeiramente TU. A ficção por
?bjeto não é duração, mas estagnação, parada: mais nobre que seja, não passa de um f~ti~~e;
~ter~upção, enrigecimento. desvinculação, au- o mais sublime modo de pensar, se for fictt~Io,
sencJa de relação, ausência de presença. é um vício. As idéias tão pouco reinam acxma
de nossas cabeças como habitam em nossas
H
15
cabeças; elas caminham entre nós e se dirigem
para nós. Infeliz aquele que deixa de proferir a é um. Os sentimentos, nós os possuímos, o amor
palavra-princípio, miserável, porém, aquele que acontece. Os sentimentos residem no ho~e~
em vez de fazê-lo diretamente utiliza um con- mas o homem habita em seu amor. Isto nao e
ceito ou um palavreado como se fosse 0 seu simples metáfora mas a realidade. O amor não
nome. está ligado ao EU de tal modo qu~ o TU fosse
considerado um conteúdo, um objeto: ele se
realiza entre o EU e o TU. Aquele que desco-
* nhece Ísso e o desconhece na totalidade de seu
A relação imediata implica numa ação
sobre o que se está face-a-face; isto está mani-
.
ser não ~onhece o amor, mesmo que . atribua.
ao amor os sentimentos que vivencta, expen-
festo por um dos três exemplos citados ante- menta, percebe, exprime. O amor é uma força
riormente: o ato essencial da arte determina o cósmica. 6 Aquele que habita e contempla no
processo pelo qual a forma se tornará obra. O amor, os homens se desligam do seu emaranha-
face-a-face se realiza através do encontro; ele do confuso próprio das coisas; bons e maus,
penetra no mundo . das coisas para continuar sábios e tolos, belos e feios, uns após outros,
atuando indefinidamente, para tornar-se inces- tornam-se para ele atuais, tornam-se TU, isto
santemente um Isso, mas também para tornar-se é seres desprendidos, livres, únicos, ele os en-
novamente um TU irradiando felicidade e calor.
c~ntra cada um face-a-face. A exclusividade
ressurge sempre de um modo maravilhoso; e
A arte "se encarna": seu corpo emerge da tor-
então ele pode agir, ajudar, curar, educar, ele-
rente da presença, fora do tempo e do espaço,
para a margem da existência. var, salvar. Amor é responsabilidade de um EU
para com um TU: nisto consiste a igualdade 23
22
O sentido da ação não é tão evidente daqueles que amam, igualdade que não pode
quando se trata da relação com o TU humano. consistir em um sentimento qualquer, igualdade
~ ato essencial que instaura aqui a imediatez, que vai do menor, ao maior do mais feliz e ~e­
e comumente interpretado em termos de senti- guro, daquele cuja vida está encerrada na vida
mentos e, por isso mesmo, desconhecido. Os de um ser amado, até aquele crucificado duran-
sentimentos acompanham o fato metafísico e te sua vida na cruz do mundo por ter podido e
metapsíquico do amor, mas não o constituem: ousado algo inacreditável: amar os homens.
aliás estes se~t~mentos .que o acompanham po- O sentido da ação no terceiro exemplo,
dem ser de vanas qualidades. O sentimento de aquele da criatura e sua visão, pe~manece. no
Jesus para com o possesso é diferente do senti- mistério. Acredite na simples magta da :VIda,
mento para com o discípulo-amado; mas o amor no serviço no universo e lhe será esclarecido 0
16 \
17
que significa cada espera, cada olhar da cria- humano da possibilidade em dizer..Tu. Se acon..
tura.
tece ao homem não poder proferir ao seu par..
Qualquer palavra seria falsa; mas veja: os ceiro a palavra..princípio que encerra uma acei..
·entes vivem em torno de você, mas ao se apro- tação do ser ao qual ele se dirige, ou, en~o.
ximar de qualquer um deles você atinge sem- se ele deve renunciar a si ou ao outro, 1sto
pre o Ser. " significa que ele ,?tinge o limite no_ q~al o
"entrar..em-relação reconhece sua propr1a re...
* latividade, limite esse que só poderá ser aboli..
do por esta mesma relatividade.
Relação é reciprocidade. Meu TU atua Porém aquele que experimenta imediata...
sobre mim assim como eu atuo sobre ele. Nos- mente o ódio está mais próximo da relação do
sos alunos nos formam, nossas obras nos edifi- que aquele que não sente nem amor e nem ódio.
cam. O "mau" se torna revelador no momento
em que a palavra-princípio sagrada o atinge.
Quanto aprendemos com as crianças e com os *
Todavia, a grande melancolia de nosso
animais! Nós vivemos no fluxo torrencial da
destino é que cada TU em nosso mundo deve
reciprocidade universal, irremediavelmente en-
cerrados nela. tornar..se irremediavelmente um ISSO. Por mais
exclusiva que tenha sido a sua presença na
relação imediata, tão logo esta tenha deixado de
* atuar ou tenha sido impregnada por meios, o
TU se torna um objeto entre objetos, talvez o
- Falas do amor como se fosse a única mais nobre, mas ainda um deles, submisso à
relação entre humanos; entretanto podes fazer
medida e à limitação. A atualização da obra
a .escolha de um único exemplo, visto que
existe também o ódio? em certo sentido envolve uma desatualização
em outro sentido. A contemplação autêntica é
- Enquanto o amor for cego, isto é,, breve; o ser natural que acaba de se revelar a
enquanto ele não vir a totalidade do ser, ele mim no segredo da ação mútua, ~ torna de
não será inclufdo verdadeiramente no reino da novo descritível, decomponível, classificável,
palavra-princípio da relação. O ódio por sua um simples ponto de interseção de vários ci..
24 própria essência permanece cego; não se pode elos de leis. E o próprio amor não pode perma... 25
'odiar senão uma parte de um ser. Aquele que, necer na relação imediata; ele dura mas numa
1 _ vendo um ser na sua totalidade, deve recusá-lo,
alternância de atualidade e de latência. O ho--
· não está mais no reino do ódio, mas no limite- mem que, agora mesmo era único e incondicio--
\
18
19
nado, não somente à mão, mas somente pre-
sente, que não podia ser experienciado mas so- nossa expressão: "bem longe" o Zulu emprega
mente tocado, torna-se de novo um ELE ou ELA, uma palavra-frase que significa,"lá onde al.guém
· uma soma de qualidades, uma quantidade com grita: Oh! mãe estou perdido! . E o habitante
forma. Agora eu posso, de novo, extrair dele da Terra do Fogo sobrepuja nossa sabed~ria
o colorido de seus cabelos, de sua voz ou4 de analítica com uma palavra-frase de sete sila-
-
sua bondade;
.- . porém enquanto eu fizer isso, ele
nao e mais meu TU ou não se transformou
bas, sujo sentido exato é o seguinte: "Obser-
va-se um ao outro, cada um aguardando que o
ainda novamente em meu TU. outro se ofereça a realizar aquilo que ambos
desejam mas não querem fazer". ~s. pesso~s
C?d~ TU, ~es~e mundo é condenado, pela tanto substantivas quanto pronommais, estao
sua propria essencia, a tornar-se uma coisa ou
então, a sempre retornar à coisidade. Em 'ter- ainda encerradas como em um baixo relevo,
m~s objetivos poder-se-ia afirmar que cada sem independência completa. Não importa ~s­
Coisa no mundo pode ou antes ou depois de sua tes produtos da decomposição e d~ ~e~~xao,
obj~tivação aparecer a um EU como seu TU. mas, sim, a verdadeira unidade ongmar1a, a
Por~m esta _Iin~uagem objetivamente não capta relação de vida.
senao uma mfima parte da verdadeira vida. Ao encontrarmos alguém, nós o saudamos,
>O Isso é a crisálida, o ru a borboleta. Po- desejando-lhe o bem ou assegurando-lhe a
rém, não co~~ se fossem sempre estados que nossa dedicação ou recomendando-o a Deus.
se alternam nitidamente, mas, amiúde, são pro- Porém, quão mediatas e desgast~~as .s~o est~s
cessos que se entrelaçam confusamente numa formas (o que se sente ainda no Heil (Ola)
profunda dualidade. daquela força originária ra~iante?) se c~mpa~
radas àquela saudação r~~acional s~~pre JOVe~
*
No começo é a relação. e autêntica dos Cafres: Eu o veJo . - ou a
sua variante americana, a expressão, embora
.. Consideremos a linguagem dos "primiti- ridícula, sublime: "cheire-me" .
vos • isto é, daqueles povos que permanece-
r~ carente~ de objetos e cuja vida foi cons~ Pode-se supor, que as relações e os con-
~1da num ambito restrito de atos fortemente ceitos e também a representação de pessoas e
coisa; se desligaram dos eventos de relação e
ncos de presença. O núcleo dessas linguagens,
as pala~r~s-frase, as formas primitivas pre- de estados de relação. As impressões e as e~o­
-gramabca,Is. de cujo desabrochamento surgi- ções elementares, que despertaram o espm!o 27
26 do "homem natural", são derivadas de feno-
ram as multtplas .categorias verbais, exprimem
em geral a totalidade de uma relação. Para menos de relação, pela vivência de .um face-~­
-face, por estados de relação, pela v1da na reci-
20 \
21
procidade. Ele não pensa na lua que ele vê to- Ela foi definida como um poder supra-sensíve)
das as noites, até o dia em que, no sono ou na e sobre~natural, categorias modernas que não
vigília, ela se dirige para ele em pessoa e se traduzem autenticamente o pensamento primi-
.aproxima dele, enfeitiça~o com gestos ou Jhe tivo. Os limites de seu mundo são traçados pela
proporciona algo, ao tocá~lo, agradável ou de- sua vivência corporal, à qual pertence "natu-
sagradável. O que ele conserva desse fato não ralmente" a visita aos mortos, visto que admitir
é a imagem ótica de um disco ambulante e riem o supra~sensível como dado real, lhe parece
a imagem de um ser demoníaco que, de algum absurdo. Os fenômenos, aos quais ele atribui
modo, lhe pertencesse, mas primeiramente a "poder místico", são todos fenômenos elemen.-
imagem dinâmica, a imagem excitante daquela tares de relação, sobretudo aqueles sobre os
força lunar irradiante que perpassa o corpo. A quais ele medita, porque comovem seu corpo e
imagem pessoal da lua e de sua força atuante deixam nele uma impressão de emoção. Não só
se definirá somente aos poucos. Somente então a lua e <> morto que o visitam durante a noite,
a lembrança daquilo que ele recebeu de um trazendo-lhe dor ou prazer, possuem aquele
modo inconsciente, noite após noites, começa a poder, mas também o sol que o queima, o ani·
reavivar, permitindo~lhe apresentar e obJetivar mal selvagem que urra, uiva diante dele, o che.-
o autor e o portador daquela ação. Somente fe cujo olhar o domina e o c·hamane, cujo canto
agora o TU, originalmente inexperienciável, só o impele com força à caça. O Mana é este po-
agora recebido, torna~se um ELE ou ELA. der atuante, que transformou a pessoa lunar, lá
. Este caráter original de relação do apare- no espaço celeste, em um TU que agita o san..
Cimento de todos os seres cuja ação oerd'.lra gue. O Mana é o poder que permanece na
por muito tempo, faz com que seja melh~r com~ memória como traço da pessoa lunar, uma vez
pre.:_nd~do um elemento da vida primitiva. que que a imagem objetiva se separou da imagem
a C1enc1a moderna estudou muito e sobre o qual emotiva, embora ele mesmo nunca apareça se..
ela discorreu largamente ,embora ele ainda não não no autor e portador de um poder. O Mana
seja muito bem entendido. Trata~se deste poder é aquilo em virtude do que, uma vez possuído,
cheio de mistério, cuja idéia se encontra, sob di~ por exemplo, em uma pedra mágica, se pode
versos aspectos, na crença ou na ciência, (estas agir. A "idéia de mundo" dos primitivos é má..
duas, aliás, são aqui uma só) de muitos povos gica, não pelo fato de ter como centro o poder
28 primitivos. É o Mana, o O renda, de onde par- mágico do homem, mas porque este poder é uni.- 29
te um caminho até o sentido originário do camente uma variedade particular do poder má..
Brahman ou ainda a Dynamis, a "Charis" dos gico universal da qual provém toda ação essen-
Papiros mágicos ou das Cartas Apostólicas. . cial. A causalidade dP sua idéia de mundo não
\
22 23
é um contínuo, mas é um cintilar sempre reno- que seja, de um sujeito de experiência. O EU
vado, uma emanação e uma ação do poder, é surge da decomposição das vivências primor...
um movimento vulcânico sem continuidade. O diais, provém das palavras originais vitais, o
'Mana é uma abstração primitiva, talvez até mais Eu ...atuando ...Tu e Tu ...atuando ...Eu, ' após a subs...
primitiva do que o número, porém não mais so- tantivação e a hipóstase do particípio. ,
brenatural. A lembrança capaz de aprendiza-
gem classifica os grandes eventos de '"relação. *
-Assim se manifesta, na história intelectual
as comoções fundamentais. De um lado, aquilo do primitivo, a diferença fundamental, entr.e
que é mais importante para o instinto de con- as duas palavras-princípio. Já no evento pn·
servação e o que é mais notável para instinto mordial de relação, ele profere a palavra...prin...
de conhecimento, precisamente tudo que "atua", cípio EU-TU de um modo natural, anterior a
se evidencia mais claramente sobressai-se, tor- qualquer forma, sem ter... se conhecido como EU.
na-se autônomo. De outro lado, o que é menos enquanto que a palavra...princípio EU-IS~ tor-
importante, o incomum, o TU mutável das vi- na-se possível, através desse conhecimento,
vências recuam, permanecem isolados na me- através da separação do EU.
mória, se objetivam paulatinamente, encerran- A primeira palavra-princípio EU...TU de...
do-se, aos poucos, em grupos e gêneros. Final- compõe-se de fato, em um ~l! e _um TU: mas
mente. em terceiro lugar. lúgubre em sua sepá- não proveio de sua justapos1çao, e antenor ao
ração, às vezes mais fantasmagórico que o morto EU. A segunda, o EU ...JSSO, surgiu da justapo-
e a luta, mas sempre nitidamente incontestável, sição do EU e Isso, é posteriol'_ ao EU.
irrompe o outro, o parceiro "sempre o mesmo"~ O EU está inclu{do no evento primordial
O EU.
da relação, através da exclusividade desse
A consciência do EU está tão pouco ape- evento. Neste evento, por sua própria natureza.
gada ao domínio primitivo do instinto de auto- tomam parte somente dois parceiros na sua to-
... conservação, como aquele dos outros instintos· tal atualidade, o homem e aquilo que ~ con-
isso ~ão significa que o EU tenta perpetuar... se: fronta. Assim o mundo se torna um s1ste~a
mas e o corpo que nada sabe ainda de um EU. dual, e o homem já sente aí aquela emoção cos-
Não é o EU mas sim o corpo que deseja fazer mica do EU, mesmo sem ter ainda dele conhe-
coisas, utensílios, jogos, ser o inventor. Não se cimento. d .
Por outro lado, o EU não está ain a m~e­ 31
reconhece um COGNOsco ERGO SUM, 8 mesmo
30 rido no fato natural que traduz a palavra-prin-
numa forma mais ingênua, no conhecimento
primitivo, nem a concepção, por mais infantil cípio EU-ISSO. onde o experienciar é centrado n~
EU egocêntrico. Este fato é um modo pelo qua
24 \
25
. Mas na vida consciente,
o corpo do homem, como portador de suas sen- também um proc:sso. olução humana como
0 que ressurge e uma ev
sações se distingue de seu meio ambiente. O , . írito se manifesta no tempo
corpo, nesta sua particularidade, aprende a se ser cosmtco. 0 esp h-produto da na-
como um produto ou um su 1 de
conhecer e a se distinguir, porém, esta distinção . ele que a envo ve
tureza e. no entanto, e
'permanece ao nível de simples contigüidade não
podendo assim, perceber o caráter. mesmo im~ maneira a-te~p_oraldas duas palavras-princi-
plícito, da egoidade.10 A opostçao · diversas épo..
. ·meros nomes nas
Entretanto, no momento em que o EU da pio receb eu mu , sua verdade anô-
cas e mundos·• mas ela
. _e na
relação se pôs em evidência e se tornou exis- nima, inerente à Cnaçao.
tente na sua separação, ele se dilui e se fun-
cionaliza de um modo estranho, no fato natural *
Então acreditas em. umd ?paraíso na era
do corpo que se distingue do seu meio ambiente
e deste modo descobre a egoidade. Somente rimitiva da humamda ~· dú·
então pode surgir o ato {:Onsciente do EU, a ~la poderá ter sido um mferno e sem o
, remontar no curs
primeira forma da palavra-princípio EU-ISSO, a vida aquela a qua1 eu pofsso d medo de an-
primeira experiência egocêntrica: o EU que se '. , . , cheia de uror, e ' f .
da h tstorta, e ld d mas irreal não ot.
distanciou, aparece então como o portador de , t· de dor crue a e, . .
gus ta, • 1 - d homem prtmt..
suas sensações das quais o meio ambiente é o As vivências t~~::t:çd~ce: complacências;
obj~to. Sem dúvida isto acontece sob forma pri- tivo não eram cer . b ente real..
mitiva e não sob forma teorético-cognitiva, po- . lh iolêncta so re um
mas é ~e o~ a vd ue a solicitude fantástica
rém, a proposição: "eu vejo a árvore" é profe- mente vtvenctado, o q f D primeira, parte
rida de tal modo que ela não exprime mais uma para com num · eros sem ace. a d somente o
relação entre o homem-Eu e a árvore-Tu, mas um caminho para Deus, da segun a,
estabelece a percepção da árvore-objeto pelo caminho que leva ao nada.
homem-consciência. A frase erigiu a barreira
entre sujeito e objeto: a palavra-princípio EU· * a pudés· 33
-Isso. a palavra da separação, foi pronunciada. A vida do primitivo, mesm? sed nos re..
semos desvendar inteiramente, ~o prodi:l de um
32 -
*
Então esta melancolia de nosso destino
'd d homem pnmo
presentar a vt a 0 senta exclusiva-
modo simbólico: ela nos apre 1 • o temporal
teria sido um processo surgido numa época mente breves esboços s~br~ ~ reÂç~riança nos
pré-histórica1 d duas palavras- prmctpto.
- Sem dúvida um processo, mas na me- p~!sta informações mais completas.
dida em que a vida consciente do homem é 27
26 '
Aquilo de que nós, de um modo inequivo~
\. 7"'i:

camente daro, nos apercebemos, é que a reali~ desliga deste mundo para a vida pessoal, e so~
dade espiritual das palavras~princípio provém mente, nas horas obscuras, em que nós fugimos
de. uma realidade natural: a da pal~vra~princí~ dela (o mesmo acontece, sem dúvida, todas as
pot EU~Tu, de um vínculo natural; 11 a palavra~ noites ao homem são) , é que nós nos reaproxi~
~princípio EU~Isso. do fato natural de distin~ mamos novamente. Esta separação não acontece,
guir~se de seu meio. entretanto, de um modo brusco e catastrófico,
análogo àquele que nos separou de nossa mãe
A vida pré~natal das crianças é um puro corporal. A criança tem um prazo para substituir
víncul.o natural, um afluxo de um para outro, a ligação natural, que a unia ao universo, por
uma mter-ação corporal na qual o horizonte uma ligação espiritual, isto é, a relação. Ela sai
vital do ente em devir parece estar inscrito de das trevas candentes e do caos e se dirige para
um modo singular no horizonte do ente que o a criação clara e fria. Mas ela não a possui ain~
carrega, e entretanto, parece também não estar da; ela deve antes de tudo esclarecê~la, fazen~
aí inscrito, pois não é somente no seio de sua do~a para si mesma uma realidade; ela deve con~
mãe humana que ele repousa. Este vínculo é tão templar o seu mundo, escutá~lo, senti~lo, mani...
cósmico que se tem a impressão de estar diante pulá~lo. A criação revela a sua essência como
de uma interpretação imperfeita de uma ins~ forma no encontro. Ela não se derrama aos
crição primitiva, quando se lê numa Jin.. sentidos que a aguardam, mas ela se eleva ao
guagem mítica judaica que o homem conheceu encontro daqueles que a sabem buscar. Tudo
o universo no seio materno, mas que ao nascer o que será representado diante do homem adt~l ...
tudo caiu no esquecimento. E este vínculo per- to, como objetos habituais, deve ser c~nquts ...
manece nele como uma imagem secreta de seu tado, solicitado pelo homem em formaçao num
desejo. Não como se sua· nostalgia significasse inesgotável esforço, pois coisa alguma ~ parte
um a~seio de volta, como prescrevem aqueles de uma experiência, nada se revela senao pela
~ue veem no espírito, por el~s confudido com o força atuante na reciprocidade do face~a... face.
mtele~t?, ~m simplt.:s parasita da natureza. Ao Como o primitivo, a criança vive de um sonho
c?nt1~arto, e a nostalgia da procura do vínculo a outro (para ela grande parte da vigília é
cosmtco do ser que se desabrocha ao espírito ainda um sono) no clarão e no contra~clarão do
com seu TU verdadeiro.
encontro.
34 Cada criança em desenvolvimento, como
todo ente em formação, repousa no seio da A originalidade da aspiração de r~lação 35
grande mãe, isto é, do mundo primordial indi~ já aparece claramente desde o estado mats pre...
ferenciado e que precede toda forma. Ela se coce e obscuro. Antes de poder perceber alguma
' coisa isolada, os tímidos olhares procuram no
28
29
espaço obscuro algo de indefinido; e em mo- relação com ele. Ao contrári~, o ~instinto de re .. -:-
mentos em que, aparentemente não 'há necessi- lação é primordial, como a mao concava na q~al ,
dade de alimento, é sem finalidade, ao que pa- 0
seu oponente, possa se adaptar. Em s~g~~da/
rece, que as suaves e pequeninas mãos gesti- acontece a relação, ainda uma forma pn~lltiva -,
culam, procuram algo de indefinido no vazio. e não-verbal do dizer-TU. A transformaçao .em
Afirmar que se trata de um gesto animal, é .
COISa e,
, entretanto • um produto ·~ posterior,
. .
- ,
nada exprimir. Pois estes olhares, na verdade, provi'ndo da dissociação das expenencias
. . 1 Pri"'
do J
depois de minuciosas tentativas, se fixarão em mordiais, da separação dos parceiros vmcu a s
um arabesco vermelho de um tapete e dele não .....- fenômeno semelhante ao surgimento d? EU.
se desprenderão até que a essência do verme- · · · · a relação • como categoria do
N 0 prmCipio e
lho se lhes tenha revelado. Estes movimentos ente como disposição, como forma a ser r:a-
em contato com um ursinho de pelúcia, toma- lizacla, modelo da alma; o a priori da relaçao:
rão uma força sensível e precisa e tomarão co- o TU inato.
nhecimento carinhoso e inesquecível de um Quando se vive numa relação reali~a-se,
corpo completo. Nestes dois fatos, não se neste TU encontrado, a presença do TU_ mato.
trata de uma experiência de um objeto mas de Fundamentando-se no a priori da relaçao, po-
um confronto, que sem dúvida, se passa na de-se acolher na exclusividade este TU, con ..
"fantasia", com um parceiro vivo e atuante. siderado como um parceiro; em suma, pode-se
endereçar-lhe a palavra-princípio.
.
\ ((Esta "fantasia" não é de modo algum, uma
~ "animação": ela é o instinto de tudo transformar
l' em TU, o instinto de relação que, quando o
O TU inato atua bem cedo, na necessida-
de de conta to (necessidade de início, tá til, e
parceiro se apresentar em imagem e simboJi.. em seguida, um contato visual ·com outro ente~·
camente e não no face-a-face, vivo e atuante-~ de tal modo que ele express~. cada ve~. mais
ele lhe empresta vida e ação tirando de sua claramente, a reciprocidade e a ternura .. ~o­
própria plenitude) . Suaves e inarticulados gri.. rém, desta mesma necessidade provém o. ms~m­
tos ressoam, ainda, sem sentido no vazio; mas, to de autor· e aparece posteriormente ( mst~nto
um belo dia, de repente, eles se transformarão de produzir coisas por síntese, ou, quando ISSO
em diálogo. Com quê? Talvez com a chaleira que não é possível, por análise, decompondo, ~.epa­
está fervendo, mas é um diálogo. Muitos movi- rando) de tal maneira que ~e produz ~~a per-
mentos, chamados reflexos, são um instrumen.. som·f·Icaçao . · 1O
- " das coi·sas feitas ' um dmlogo.
to indispensável à pessoa na construção de seu desenvolvimento da alma na criança é mdiso ~.. 37
mundo. Não é verdade que a criança percebe velmente ligado ao desenvolvimento ~a nosta ..
36 primeiramente um objeto, e, só então-...entra em gia do TU, às realizações e de.cepçoes deste
31
30
anseio, ao jogo de suas experiências e à serie~ tornado o Isso de um EU, um objeto de uma
dade trágica de sua perplexidade. A verda~ percepção ou experiência sem ligação como será
dE;ira compreensão destes fenômenos, prejudi~ doravante, ·mas ele se tornou, de algum modo,
cada por cada tentativa de restringi~la a um um ISSO em si, por hora inobservável aguardan..
âmbito mais estrito, só pode ser atingida, na me- do o ressurgimento de um evento de relação.
dida em que, quando observados e examinados, Sem dúvida, o corpo que se transforma em
for levada em consideração sua origem cósmica corpo humano12 se distingue em seu ambiente
e meta~cósmica, a saber, a saída do mundo pri- na medida que se sente portador de suas im..
mordial indiviso, não formado ainda, de onde o pressões e como executor de seus impulsos, mas
indivíduo físico já se desligou pelo nascimento, somente ao nível de uma radical separação entre
mas não ainda o indivíduo corporal, integral, o EU e o objeto. Então, o EU desligado se en-
atualizado que só pode realizar esta passagem contra transformado. Reduzido da plenitude
gradualmente, à medida que entra nas relações. substancial à realidade funcional e unidimen~
sional de um sujeito de experiência e utilização,
*
O homem se torna EU na relação com o TU. aborda todo "Isso em si .. , apodera-se dele e se
O face~a-face aparece e se desvanece, os even~ associa a ele para formar outra palavra~princí­
tos de relação se condensam e se dissimulam e pio. O homem transformado em EU que pro--
é ~esta alternância que a consciência do par.:. nuncia o "Eu~Isso .. coloca~se diante das coisas
ce1ro, que permanece o mesmo, que a consciência em vez de confrontar-se com elas no fluxo da
do EU se esclarece e aumenta cada vez mais. De ação recíproca. Curvado sobre cada uma de..
fato, ainda ela aparece somente envolta na tra~ las, com uma lupa objetivante que olha de per..
ma das relações~ na relação com o TU, como to, ou ordenando-as num panorama através de
consciência gradativa daquilo que tende para 0 um telescópio objetivante de um olhar distante,
TU sem ser ainda o TU. Mas, essa consciência / ele as isola ao considerá-las, sem sentimento
do EU emerge com força crescente, até que, um algum de exclusividade, ou ele as agrupa sem
dado momento, a ligação se desfaz e o próprio sentimento algum de universalidade. No pri..
EU se encontra, por um instante diante de si, meiro caso, ele só poderia encontrá-lo na
separado, como se fosse um TU, para tão logo relação, no segundo, só a partir dela. So--
retomar a posse de si e daí em diante, no seu mente agora, ele experiencia as coisas como so- 39
estado de ser consciente entrar em relações. ma de qualidades. Sem dúvida, qualidades re..
38 Somente, então, pode a outra palavra~prin... ferentes ao TU de cada evento de relação foram
cípio constituir~se. Sem dúvida, o TU Q.a relação acumuladas em sua memória mas, somente
desvaneceu-se muitas vezes sem, com isso, ter~se agora, as coisas se compõem de suas qualidades:
32 33
ele só pode atingir o núcleo poderoso, revelado
a ele no TU, englobando todas as qualidades, 1 rimeira parte d a ver dade -- . funda . . ..
isto é, a substância, na medida em que procura qua, a P . ... fragmento muttl:_o
na lembrança da relação conservada em estado mental, não sena s~r:ao u.;nifica a ordem do
·de sonho, de imagem ou de pensamento segun- mundo ordenado nao Sl sem motivo apa.-
do a característica própria deste homem. De m'!!!4Q. Há dmomentos
-- do mun emd oqusee, apresenta como
fato, somente agora ele ordena as coisas em rente, a or em t"' tom do qual o
presente. Percebe:se~~n i~decifrável.
0 0
uma conexão espacio-temporal-causal; somente Tais mo.-
agora, ele determina a cada uma o seu lugar, a mundo ordenado e. n - também os mais
- ·mortms mas sao h
sua evolução, a sua mensurablidade, a sua con ... mentos sao 1 - , e ode conservar nen um
dição. O TU se revela. no espaço, mas, precisa- fugazes. Deles nao s p tida a sua força
.d em contra par
mente, no face ...a ... face exclusivo no gual tudo o conteu o, ~as:. conhecimento do homem,
mais aparece como cenário, a partir do qual integra a cnaçao e o enetram no mundo
ele emerge mas que não pode ser nem as irradiações d.e sua f?r~=s~antemente. Tal é a
seu limite nem sua medida. Ele se revela, no ordenado, f~n~~~~o...o ~:1 a história da espécie.
tempo, mas no sentido de um evento plenamen... história do mdlVl uo, homem pois sua
O mundo é duplo para o
te realizado, que não é uma simples parte de
uma série fixa e bem organizada, mas sim o atitude é dupla. de si as coisas
tempo que se vive em um "instante", cuja Ele percebe o ser em tornocoisa~· ele per.-
dimensão puramente intensiva não se define simplesmente e os entes como redor ' os fatos
. to em seu ,
senão por ele mesmo. O TJ.I se manifesta como cebe o aconteClmen anta fatos coisas
aquele que simultaneamenft! exerce e recebe a simplesmente e as açl?desdenqu fatos co~postos
ação, sem estar no entanto, inserjdo numa ca... t de qua 1 a es,
compos as . . eridas numa rede espa.-
deia de causalidades, pois, na sua ação recí- de momentos, cmsas dms 1 coisas e fatos
proca com o Eu, ele é o princípio e o fim d~ f ma re e tempera, ,
cial, e atos nu . e fatos mensura.-
evento da _relação. Eis uma verdade funda... \ limitados por outras cmsas . , ndo bem
-
veis e comparav.els · entre s1 um mu
, d Este mundo
mental do mundo humano: somente o Isso pode
d mundo separa o.
ser ordenado. As coisas não são c1assificáveis ordena o e um , t onto· ele apresen.-
senão na medida em que, deixando de ser nos ... inspira confiança, ate ~er o p ~strutura que
so TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não ta densidade e duraçao,. nu~re ode ser sem-
conhece nenhum sistema de coordenadas. pode ser abrangida ~ela Vlsta, oth:S fechados e 41
pre retomado, repetido cob t . ele está aí,
40 Porém, tendo chegado até aqui, se faz ne ... experienciado com olhos a e~eos,encolhido em
cessário afirmar também outro aspet:to sem o J·unto à tua pele, se tu o confsen sE, le é teu obje...
34 tua alma, se tu ass1m · 0 pre eres.

35
to, permanecendo assim segundo tua vontade vem sem ser chamado e desaparece quando se
e ~o entanto, ele permanece totalmente alhei~ tenta retê~lo. Ele é confuso, se tu quiseres es~
'
seJa fora de ti ou dentro de ti. Tu o percebes clarecê~lo,ele escapa. Ele vem a ti para buscar~
fazes ~ele tua "verdade", ele se deixa toma; te; porém se ele não te alcança, se ele não te
mas na? se entrega a ti. Ele é o único objeto encontra, se dissipa; ele virá novamente, sem
a respeito do qual tu te podes "entender" com dúvida, mas transformado. Ele não está fora
o outro. Mesmo que ele se apresente de um de ti. Ele repousa no âmago de teu ser, de tal
modo diferente a cada um, ele esta pronto a modo que, se te referes a ele como "alma de
ser para ambos um objeto comum, mas nele minha alma", não dizes npda de excessivo.
tu n:o podes te encontrar com o outro. Sem ele Guarda~te, no entanto, da tentativa de trans~
!u na o podes subsistir, tu te conservas graças feri~lo para a tua alma, TU o aniquilarias. Ele
a s_ua segurança mas se te reaborveres nele, é teu presente, e somente na medida em que
seras sepultado no nada.
tiveres como tal é que terás a presença; podes
Por outro lado, o homem encontra 0 Ser fazer dele teu objeto, experienciá~lo e utilizá~lo.
e o devir como aquilo que o confronta mas sem~ aliás, deves proceder assim continuamente, mas,
pre como uma presença e cada coisa ele a en~ então, não terás mais presença alguma. Entre
·Cor:tra somente enquanto presença; aquilo que ele e ti existe a reciprocidade da doação; tu
esta presente se descobre a ele no aconteci~ lhe dizes Tu, e te entregas a ele; ele te diz TU
mento e o que acontece, se apresenta a ele co~ e se entrega a ti. Não podes entender~te com
mo .Ser. Nada mais lhe está presente a não ninguém a respeito dele, és solitário no face~a~
ser Isso, m~s isso enquanto mundano. Medida ~face com ele, mas ele te ensina a encontrar o
e compar~çao desaparecem. Depende de ti que outro e a manter o seu encontro. E. através da
parte .do Incomensurável se tornará atualidade benevolência de sua chegada e da melancolia
para ti. Os encontros não se ordenam de odo de sua partida, ele te conduz até o TU no qual
a for~ar um .mundo, mas cada um dos enc ~ se encontram as linhas, apesar de paralelas,
tros e para ti um símbolo indicador da ordem de todas as relações. Ele não te ajuda a conser..
dodmundo. Os encontros não são inter~relacio~ var~te em vida ele dá, porém, o pressentimento
na os entre si, mas cada um te garante o vín~ da eternidade,
·cuJo c~m ~ m~ndo. O mundo que assim te apa~
rece nao mspira confiança, pois ele se revela
cada vez de um modo e, por isso, não podes *
42 lembrar~te dele. Ele não é denso, pois nele, O mundo do Isso é coerente no espaço e
tudo penetra tudo; ele não tem durãça- 0 , pots,
.
no tempo.
36
37
enquanto não se tem em mente outra coisa se~
O mundo do TU não tem coerência nem no
espaço nem no tempo. não experienciar e utilizar.
43 Cada TU, após o término do evento da· re~ Não se pode viver unicamente no prese~~ "
. lação deve necessariamente se transformar em te; ele poderia consumir algu~n: se nao ~stl~
vesse previsto que ele seria raptda e .radtca~~
ISSO.
mente superado. Pode~se, no entanto, vtver um~
Cada Isso pode, se entrar no evento da re~
camente no pasado, é somente nele que uma
lação, tornar~se um TU.
existência pode ser realizada. Bast~ . con_:;agrar
Estes são os dois privilégios fundamen~ cada instante à experiência e à utlhzaçao que
tais do mundo do Isso. Eles impelem o homem a de não se consumirá mais. .
considerar o mundo do ISSO como o mundo no E com toda a seriedade da verdade, ouça:
qual se deve viver, no qual se pode viver, o homem não pode viver sem o ISSO, mas aquele
mundo que oferece toda espécie de atrações e 0
que vive somente com o ISSO não é homem.
estímulos de atividades e conhecimentos. '
No interior desta crônica forte e salutar os
momentos de encontro com o TU se maniÊes~ *
tam como episódios singulares, lírico~dramáti~
cos, sem dúvida, de um encanto sedutor, mas
que, no entanto, nos induzem perigosamente a
ex!remos que debilitam a solidez já provada, e
d:txam atrás deles mais questões que satisfa~
çoes, abalando nossa segurança. Eles são não
só inquieta_ntes, mas indispensáveis. Já que de~
vemos, apos estes momentos, voltar ao "mun~
do", por _que não permanecer nele? Por que não
chamar a ordem o que está diante de nós, no
face-a~face, e não remetê~lo ao mundo dos oh~
· jetos? Já que não se pode deixar de dizer u,
alguma vez, ao pai, à esposa, ou ao com a~
nhe~ro por que não dizer TU pensando Isso? p o~
d~zt~ .o som TU através dos órgãos vocais, ão
stg~If~c~ d: modo algum proferir a palavra~
~pnnc1p1o tao pouco tranqüilizadora: sussurrar
do fundo da alma um TU amoroso 'é inofensivo
39
38
SEGUNDA PARTE
t,

A história do indivíduo e a história do gê~ 47


nero humano, embora possam separar~se uma
da outra, estão de acordo em todo o caso em
um ponto: ambas manifestam um crescimento
progressivo do mundo do Isso.
Coloca~se em dúvida este fato no caso da
história da espêcie; acentua~se que, na gênese
das civilizações sucessivas encontra~se um es-
tado de primitividade que, embora com colo-
ridos diversos, é, no entanto, estruturada de
modo idêntico. E segundo este estado primitivo
tais civilizações iniciam com um pequeno mundo
de ohjetos. Com isso não seria a vida da espécie
mas a de cada civilização em particular que
corresponderia à vida do indivíduo. Porém, se
se observar aquelas civilizações que aparecem
isoladas, nota~se que aquelas que receberam
historicamente a influência de outras civiliza~
ções adotaram o seu mundo do Isso em um es~
tado bem determinado, intermediário entre seu
estado primitivo e seu estado de pleno desen-
volvimento. Isto acontece seja através da assimi-
lação direta de civilizações contemporâneas,
como no caso da Grécia e Egito, seja através
da assimilação indireta de civilizações passa-
das, como no caso da cristandade medieval,
herdeira da civilização grega. Elas ampliam o
seu mundo do Isso não unicamente através de
sua própria experiência, mas também graças à
43
afluência de expenencias de outrem; somente vida substituir cada vez mais a experiência di...
então, com este crescimento, realiza~se o desa~ reta 'pela experiência indireta ou pela "aqui~
brochamento decisivo e seu poder de descaber~ sição de conhecimentos"; ele pode reduzir cada
ta. Por enquanto faz~se abstração da contribui ... vez mais a utilização, transformando~a em
ção importante para isso, da contemplação e dos "aplicação" especializada; não obstante seja in...
atos que são atribuídos ao mundo do Tu. dispensável que essa capacidade se desenvolva
48 Pode... se dizer com isso que, em geral, o de geração em geração. É nisto que se pensa
mundo do Isso de uma determinada civilização, qúando se f~la de u~ . des~nvolvim:nto pro~
'é mais extenso do que o da precedente, e, ape ... gressivo da vida espmtual . Com tsto, com
49
sar de algumas paradas e retrocessos aparen ... efeito, a gente se torna culpado do verdad~ir~
tes, pode~se perceber claramente na história pecado verbal contra o Espírito; pois esta Vl"'
um aumento progressivo do mudo do Isso. Fun~ da espiritual'' representa geralmente um _o?s ...
damenalmente não importa aqui, se a "imagem táculo Rara uma vida do homem no Esp.tr1to;
do mundo" de uma determinada civilização res... ela é, quanto muito, a matéria que, depois de
salte mais um caráter de finitude ou de infini... vencida e modelada, a vida do Espírito deve
tude ou melhor de não... finitude; na realidade, consumir. É um obstáculo, pois a capacidade
um mundo "finito". pode muito bem incluir de experimentação e de utilização se d.esen...
maior número de partes, de coisas, de fenôme ... volve no homem freqüentemente, em detnmen...
nos do que um mundo "infinito". É necessário to de sua força~de...relação, único poder, aliás,
também observar que se trata de comparar não que lhe permite viver no Espírito.
somente a extensão dos conhecimentos da na...
tureza mas também a proporção tanto das dife...
renças sociais como das realizações técnicas; es... *
tes dois últimos aspectos tendem a ampliar o O espírito 1 em sua manifestação humana
mundo dos objetos. é a resposta do homem a seu Tu. O hom~m
O contato originário do homem com o fala diversas línguas - língua verba_I.. Im:
mundo do Isso impli.ca a experiência que., sept gua da arte, da ação - mas o esptr1to ·e
cessar, constituía este mundo e a utilização que o um, e este espírito é a resposta ao Tu que .se
conduz a seus múltiplos fins, visando a c,0nser... revela dos mistérios, e que do seio dest~ mts"'
var, a facilitar, a equipar a vida-buníâna. A tério o chama. O espírito é palavra. Ass1m co...
medida em que se amplia o mundo do Isso, mo a fala se torna palavra primeiramente no
deve progredir também a capacidade.._ de expe... cérebro do homem e em seguida som em sua
rimentar e utilizar. O indivíduo pode, sem dú""' laringe - ambos não são, aliás, senão reflexos
15
11
do verdadeiro fenômeno, já que, na verdade
trou a resposta - o objeto deve consumir-se
não é a linguagem que se encontra no homem,
para se tornar presença, retorna.r .ao elemento
mas o homem se encontra na linguagem e fala
de onde veio para ser visto e VIVIdo pelo ho-
do seio da linguagem - assim também acon-
mem como presente.
tece com toda palavra e com todo espírito. O
espírito não está no Eu, mas entre o Eu e o O homem que se conformou com o mundo
Tu. Ele não é comparável ao sangue que cir- do Isso como algo a ser experimentado e a
cula em ti mas ao ar que respiras. O homem vive ser utili,zado, faz malograr a realizaç~o .deste
no Espírito na medida em que pode responder destino: em lugar de liberar o que esta hgado
a seu Tu. Ele é capaz disso quando entra na a este mundo ele o reprime: em lugar de con-
relação com todo o seu ser. Somente em vir- templá-lo ele o observa, 2 em lugar de acolhê-lo
tude de seu poder de relação que o homem serve-se dele.
pode viver no espírito. Primeiramente o conhecimento: é na con- 51

50 Mas é aqui que se levanta, com toda a templação de um face-a-face, que o ser se re-
sua força, a fatalidade do fenômeno da rela- vela a quem o quer conhecer. O que. o homem
ção. Quanto mais poderosa é a resposta, mais viu pode considerá-lo como um objeto, com-
ela enlaça o Tu, tanto mais o reduz a um ob- pará-lo com outros objetos, ordenar em classes
jeto. Somente o silêncio diante do Tu o si- de objetos, descrever e decompor objetivamen-
lêncio de todas as línguas, a espera sil~nciosa te, porque nada pode ser integr~do na soma
da palavr~ não formulada, indiferenciada, pré- de conhecimento, senão na qualidade de um
verbal, deixa ao Tu sua liberdade, estabelece- Isso. Na contemplação, porém, não se tratava
-se ~om ele na retensão onde o espírito não se de coisa entre coisas, de um processo entre pro..-
man1festa mas está presente. Toda resposta cessos era exclusivamente a presença. O ser
amarra o Tu ao mundo do Isso. Tal é a me- não se' comunica na lei deduzida depois de apa..-
lancoli~ do ~ornem, tal é também sua grande- recer 0 fenômeno mas sim no fenômeno mesmo.
za. Pois, assim, surgem no seio dos seres vivos Pensar o .geral significa somente desenrolar o
o conhecimento, a obra, a imagem e o modelo. novelo do fenômeno que foi contemplado no
particular, isto é, na reciprocidade do face..-a-
Tudo, porém, que deste modo se trans-
...face. E agora isso foi incluído na forma de
formou em Isso, tudo o que se consolidou em
Isso do conhecimento conceituai. Quem o ex-
coisa entre coisas, recebeu por ~tido o des-
tino de se transformar continuamelite:--sempre trair daí e o contemplar de novo na pre~ença,
realiza no sentido daquele ato de conhecimen-
de novo - tal foi o sentido da hrn:a em que
to como algo que é atual e operante entre os
o espírito se apoderou do homem e lhe mos-
homens. Há outro modo de conhecer quando
46
47
se constata: "eis como acontece, eis como isso Em terceiro lugar, existe o ato puro, a ação
se ch.~ma, como a coisa é construída, eis seu sem arbitrariedade. É um domínio acima do es-
lugar ; nesse caso se toma como Isso aquilo pírito do conhecimento e do espírito da arte, t,
· que se tornou Isso, experimenta-se e utiliza-se porque aí o homem corporal e efêmero não é
como Isso, serve-se dele entre outros meios para obrigado a gravar sua marca em uma matéria
a ~arefa de se "orientar" no mundo e em se... mais durável que ele, mas ele mesmo sobrevive
gutda para conquistá-lo.
a ela enquanto imagem, e eleva-se ao céu es-
A.con tece o mesmo com a arte: é na con ... trelado do espírito cercado pela música de sua
templação de um face ...a ... face que a forma se palavra viva. É aí que o Tu provindo de um
:evela ao artista. Ele a fixa numa imagem. A profundo mistério aparece ao homem, lhe fala
Imagem não habita em um mundo de deuses do seio das trevas e é aí que o homem lhe res-
mas neste vasto mundo dos homens Se d · pondeu com sua vida. Aqui, muitas vezes, a
'd I " " . m u-
52 vt a e a está aí e, ainda que nenhum olhar palavra tornou-se vida e esta vida é ensina-
hu?I?no a procure; mas ela dorme. O poeta mento, quer ela tenha cumprido a lei quer a
cht~es conta- que os homens não apreciavam tenha transgredido - estas duas circunstâncias 53
ouv~r a cançao que ele tocava em sua flauta são, na verdade, necessárias para que o espírito
de Jade. Tocou-a, então, aos deuses e estes a não morra sobre a terra. Assim, ela permanece
escutaram; desde então também os homens para a posteridade, para instruí-la, não a res-
escutaram
. a canção·• ele desceu po·ts d os d euses peito do que é ou deve ser, mas sobre a ma-
ate o~ homens até aqueles cuja imagem não neira de como se vive no espírito, na face do
podena se prescindir. Como em· um sonho Tu. E isso significa que ela mesma está pronta.
ele procura o encontro com o homem a fim d~ a qualquer momento, ii tornar-se para a poste-
~uebrar o encanto e abraçar a forma por um ridade um Tu e lhe abrir o mundo do Tu. Ou
ms~ant: atemporal. Em seguida ele veio e ex- antes, não, ela não está pronta, mas ela se di·
penenct?u aquilo que deveria ser experiencia- rige para sempre aos homens e os interpela.
d~: asstm ~sso é feito, assim é expresso, tais Estes, porém, indiferentes e incapazes para tal
sao as qualidades da imagem e, em suma, ual contato vivo que lhe abriria o mundo, estão bem
o lugar que lhe cabe. q
informados. Eles aprisionaram a pessoa na his-
Não que a inteligência científica e estética tória e seus ensinamentos nas bibliote.cas; eles
'
não tenham papel algum a ~esempenhar: mas codificaram indiferentemente o cumprimento ou
ela deve realizar fielmente su~ e mergu- a violação das leis, e são pródigos na auto-ve-
lhar na verdade superinteligível da relação que neração ou mesmo na auto-adoração sempre
envolve todo inteligível. bem camuflada com psicologia, como é próprio
48 49
do homem moderno. Oh! semblante solitário
tro das emoções vibra diante do olhar interes.-
como um astro na escuridão. Oh! dedo vivo
colocado sobre uma fronte insensível. sado; aí o homem usufrui sua ternura, seu ódio,
seu prazer e sua dor, quando esta não é muito t,
Oh! ruídos de passos cambaleantes. violenta. Aí a gente se sente em casa, se estira
na cadeira de balanço.
* As instituições são um fórum complexo, os
sentimentos são um recinto fechado mas rico
O_ aperfeiçoamento da função de experi.- em variações.
mentaçao e de utilização realiza.-se, geralmen.- Na verdade, a delimitação, entre ambos,
te, no homem em detrimento de seu poder de está sempre ameaçada, pois os sentimentos ca.-
relação.
prichosos, penetram, às vezes, nas mais sólidas
Mas como procede com os seres vivos que instituições; todavia, com um pouco de boa
o rodeiam, esse mesmo homem que transfor.- vontade, chega.-se sempre a restabelecê.-la.
mou o espírito para torná.-lo instrumento de É nas regiões da vida, assim chamadas
prazer?
54 pessoais, que a delimitação segura é mais di.-
_ Submisso à palavra.-princípio da separa... fícil. No matrimônio, por exemplo, é, às vezes,
çao, afastando o EU do ISSO, dividiu sua vida difícil de se realizar ainda que afinal se con.-
com homens em duas "zonas" daramente de... siga. Esta demarcação se realiza perfeitamente
li~i~adas: as instituições e os sentimentos. 0 0 ... nos âmbitos da, assim chamada, vida pública.
mm10 do ISSO e domínio do EU. Considere--se, p. ex.: com que segurança na
As instituições são o "fora", onde se está vida dos pa"rtidos bem como nos grupos que
para toda sorte de finalidades, onde se traba.- se julgam acima dos partidos, e nos seus "mo.- 55
lha, se faz negócios, se exerce influência se vimentos", se alternam as assembléias revolu.-
faz emprendimentos, concorrências, onde' se cionárias com a pequena rotina dos negócios
organiz_a, adqtinistra, exerce uma função, se ...- regular como um mecanismo ou desenvolto
prega: e a estrutura mais ou menos ordenada e como um organismo.
aproximadamente correta na qual se desenvól... Mas o ISSO desvinculado das instituições
ve, com o concurso múltiplo de cabeças huma ... é um Golem 3 e o EU separado dos sentimentos é
nas e membros humanos, o curso dos aconteci ... um alma.-pássaro 4 que volita. Ambos desco.-
mentos. \ nhecem o homem: aquelas, somente um
. Os sentimentos são 0 ~.... onde se exemplar: estes, somente um objeto; nenhuma
VIve e se descansa das instituições. Aí o espec.- conhece a pessoa, a comunidade. Ambos desco.-
nhecem a presença; aquelas, as instituições,
50
51
mesmo as mais modernas, conhecem somente 0 livre sentimento e resolvem viver juntas. Mas
passado estagnado, o ser acabado; os sentimen- isso não é assim; a verdadeira comunidade não
tos,_ mesmo os mais duradouros, não conhecem nasce do fato de que as pessoas têm sentimen- r,
se~ao o instante fugaz, aquilo que ainda não tos umas para com· as outras (embora ela não
existe. Ambos não têm acesso à vida atual As possa, na verdade, nascer sem isso) , ela nasce
instituições não geram a vida pública, os s~nti­ de duas coisas: de estarem todos em relação
mentos não criam a vida pessoal. viva e mútua com um centro vivo e de estarem
Com dor crescente, e em número cada vez unidos uns aos outros em uma relação viva e
maior, sentem os homens que as instituições não .recíproca. A segunda resulta da primeira; po-
g:ra.m a vi?a pública. É daí que provém a an- rém não é dada imediatamente com a primeira.
g~sba sequiosa deste sé.culo. Que os sentimentos A relação viva e recíproca implica sentimentos,
nao geram a vida pessoal, poucas pessoas o mas não provém deles. A comunidade edifica-se
compre~ndem ainda, pois, parece que é neles sobre a relação viva e recíproca, todavia o ver-
que reside o que se tem de mais pessoal. Quan- dadeiro construtor é o centro ativo e vivo.
do .se ~prende, como o homem moderno, a dar Mesmo as instituições da chamada vida
mmta Importância aos seus próprios sentimen- pessoal não podem ser renovadas por um livre
tc:s, o d:sespero em comprovar sua irrealidade, sentimento (ainda que não possam ser reno-
nao sera melhor esclarecimento, pois este de- vadas sem ele). O matrimónio por exemplo,
sesp~ro é também um sentimento e como tal nunca se regenerará senão através daquilo que
nos mteressa. sempre fundamentou o verdadeiro matrimónio:
56
. . ~s _homens que sofrem com o fato de as o fato de que dois seres humanos se revelam o 57
mstitmçoes não produzirem vida pública algu- TU um ao outro. É sobre esse fundamento que
ma lembram-se de um meio: dever-se-ia torná- o TU, que não é o EU para nenhum dos dois,·
-Ia ~ais flexíveis graças aos sentimentos, dis- edifica o matrimónio. Este é o fato metafísico
solve-!as ou fragmentá-las; dever-se-ia mesmo e metapsíquico do amor, do qual os sentimen-
';';-?ova-las pelos sentimentos inoculando-lhes a tos são apenas acessório. Aquele que deseja
hberdade de sentimento". Se, por exemplo. renovar o matrimónio por outro meio não é
o Estado automatizado ag~pa cidadãos totai- essencialmente diferente daquele que quer abo-
mente estranhos uns aos o tros, sem fundar ou li-lo, ambos declaram que não conhecem mais
favorecer uma vivência c m-o-outro, deve-se o fato. Na verdade, se se desejar despojar do
substituir isto por uma co unidade de am erotismo tão falado em nossa época, tudo o
E---sta comum'd a de de amor de florescer quan-or.
que se refere ao EU, portanto, todo contato no
do pessoas se agrupam pela manifestaÇào de um qual um não está presente ao outro, e nem se
52 53
presentifica a ele, mas onde cada um se limita
a fruir a si mesmo através do outro o que res~ e em seu desenvolvimento presente, possam se
taria? ' basear a não ser na renúncia altiva a toda
"imediatez" ou até mesmo em uma recusa ca..- r,
· A verdadeira vida pública e a verdadeira tegórica e resoluta de toda instância "estranha"
vida pessoal são duas formas de ligação. Para não provinda da mesma região? E se for o EU
que possam nascer e perdurar são necessários da experiência e da utilização que domina aqui,
sentimentos como conteúdo mutável; por outro o EU que utiliza os bens e serviços na econo...
Jado são necessárias instituições como forma mia. as opiniões e tendências na política, não é,
durável; poré-m estes dois fatores reunidos não _de fato, a esta soberania ilimitada que se deve
geram ainda a vida humana, é necessário um a ampla e sólida estrutura das grandes cria.-
terceiro que é a presença central do TU ou ções "objetivas" nestes dois domínios? E mais,
ainda, para dizê-lo com toda a verdade, ~ TU a grandeza produtiva do estadista e do econo-
central acolhido no presente. mista dirigentes não consiste no fato de que
eles encaram os homens com os quais devem
* tratar, não como portadores do TU inacessível
à experiência, mas como núcleos de realiza..
A palavra-princípio EU-Isso não tem nada ções e tendências a serem avaliadas e utiliza·
mal em si porque: a matéria não tem nada de das conforme as suas capacidades específicas?
mal em si mesma. O que existe de mal é o Seu mundo não se desabaria sobre eles, se em
fat.o de a matéria pretender ser aquilo que
existe. Se o homem permitir, o mundo do Isso,
vez de somar Ele + +Ele Ele a fim de cons..-
tituir um ISSO, tentassem adicionar TU e TU e TU 59
no seu contínuo crescimento, o invade e seu que não daria jamais senão Tu? Isso não ~ig ..
próprio EU perde a sua atualidade, até que o nifica trocar o domínio formador por um dile-
pesadelo sobre ele e o fantasma no seu inte- tantismo de procedimento sumários, e a razão,
rior sussurram um ao outro ,confessando sua com seu poder de clareza, por uma exaltação
58 perdição.
obnubilada? E se nós voltarmos o olhar dos
dirigentes aos dirigidos, o próprio desenvolvi..
* mento das formas modernas de trabalho e de
propriedade não destruiria quase todo vestígio
Mas, a vida col iva do homem moderno de vida no face ..a ... face da relação pl~na de sen..-
está engolfada neces ariamente no mundo do
tido? Seria absurdo querer inverter este desen ..
Isso? É P.ossível imag ar que as duas partes,
volvimento - mas admitindo a possibilidade
a economia e o Estado, a sua extertsão atual deste absurdo - destruir..-se..-ia o extraordiná..
54
55
rio instrumento de precisão dessa civilização, o
único que torna possível a vida da humanidade momento em que ela se desliga do ser presente;
multiplicada ao infinito. a inclinação que está ligada ao ser presente e
determinada por ele é o plasma da vida em
- Orador, discursas muito tarde! Ainda comum, e a inclinação separada é sua destrui-
há pouco. terias podido crer em teu discurso, ção. A economia, habitáculo da vontade de
agora já não podes mais. Pois, há um instante, utilizar e o Estado, habitáculo da vontade de
vistes, como eu, que o Estado não é mais con- dominar, participam da vida enquanto partici-
duzido; os responsáveis pelo aquecimento pam do espírito. Se renegam o espírito, é a pró--
amontoam ainda o carvão, os chefes, entretan-- pria vida que renegam. A vida, na verdade,
to, apenas simulam conduzir máquinas desen-- não se apressa em levar a cabo sua tarefa, e
freadas. E neste instante, enquanto falas, po- em um bom momento_, se crê estar vendo um
des, como eu, ouvir que o mecanismo da eco- organismo mover-se quando ~á há muito te~ ..
nomia começa a vibrar, zumbir, de maneira in- po é um mecanismo que se agtta. De nada adi~
sólita. Os contra-mestres te sorriem com ar de antará introduzir no processo uma dose de es-
superioridade, mas têm a morte no coração.
pontaneidade. A flexibilidade da e~onomia d~ri­
~les te dizem que . adaptam a maquinária às gida ou do Estado organizado nao compensa
Circunstâncias; sabes, porém, que nada mais po-
0 fato de estarem sob a dependência do espí-
dem fazer do que adaptar-se ao aparelho en- rito que pronuncia o Tu e nenhuma excitação
~uanto ainda é possível. Seus porta-vozes te periférica poderia substituir a relação viva com
mformam que a economia recolhe a herança do o núcleo centraL As estruturas da vida humana
Estado, sabes, porém, que nada mais há para em comum extraem a própria vida da plenitude
herdar a não ser a tirania do ISSO crescente sob da força de relação que lhes penetra por todas
60
a qual o EU, cada vez mais incapaz de domina- as suas partes e sua forma encarnada eles a 61
ção, sonha ainda que é seu mestre. devem à ligação desta força ao espírito. O es-
A vida coletiva do homem não pode, como tadista ou o economista, tributário do espírito,
ele mesmo, prescindir do mundo do ISSO, sobre 0 não age como diletante. Ele sabe muito be~
qual paira a presença do TU, como o espírito que não pode tratar os homens com os quais
pairava sobre as águas. A vontade de utiliza- tem algo a ver, simplesmente como portadores
ção e a vontade de ~o inação do homem agem do Tu, sem prejudicar a sua obra. Ele ousa
~aturai : legitimam te enquanto permanecem fazê-lo mas não às cegas; ele ousa até o ponto
hgadas a vontade h mana de relação e susten- em que o espírito o inspira; e o espíri.to, de
tadas por ela. Nã há má inclinatão até 0 fato, lhe inspira o limite. O risco que fana ma-
lograr uma obra isolada, obtém êxito naquela
56 .
57
sobre a qual paira a presença do Tu. Ele não Tu, o espírito que responde, permaneça vivo e
se exalta mas serve à verdade que, sendo su- atual e que os seus vestígios presentes na vida
pra-racional, não repudia a razão mas a encerra coletiva do homem, sejam subordinados ao Es- r.
efn seu seio. Ele realiza na vida em comum exa- tado e à economia ou operem livremente: que
tamente aquilo que, na vida pessoal, faz o aquilo que ainda permanece na vida pessoal
homem que, sentindo-se incapaz de atualizar o do homem se reincorpore novamente à vida co-
Tu em sua pureza, tenta, no entanto, cada dia, mum, eis o que é decisivo. Dividir a vida co-
colocá-lo à prova do Isso (conforme a norma letiva em regiões independentes, às quais per-
e a medida de cada dia, traçando quotidiana- tenceria também a "vida espiritual", isso não
mente o limite e sempre o descobrindo) . Do deveria ser feito. Isso significaria abandonar de-
mesmo modo, o trabalho e a propriedade não finitivamente à tirania as regiões submergidas
podem ser resgatados por si mesmos mas pelo no mundo do Isso e despojar o espírito de toda
espírito. Somente a presença do espírito pode realidade. Com efeito, quando o espírito age
infundir em todo trabalho, sentido e alegria, livremente na vida, ele não é mais espírito "em
e, em toda propriedade, respeito e dedicação, si" mas espírito no mundo, graças a seu poder
não de um modo pleno., mas satisfatoriamente. de penetrar no mundo e transformá-lo. O es-
Todo produto do trabalho, todo conteúdo da pírito não está "consigo" a não ser no face-a-
propriedade, embora permaneçam no mundo do -face com o mundo que se lhe abre, mundo ao
Isso ao qual pertencem, somente o espírito pode qual ele se doa, que ele liberta e pelo qual é
transfigurá-los em confrontadores e numa re- libertado. A espiritualidade esparsa, debilita..
presentação do Tu. Não há retrocesso, mesmo da, degenerada, impregnada de contradições,
no momento de maior necessidade, neste mo- que hoje representa o espírito, poderá realizar
mento precisamente, há um "mais-além" insus- esta libertação somente na medida em que atin...
peito. gir novamente a essência do espírito, a facul..
62 Pouco importa que o Estado regulamente dade de dizer Tu.
a economia ou a economia comande o Estado.
enquanto um e outro não são transformados. *
Importa, sem dúvida, que as instituições .do O mundo do Isso é o reino absoluto da 63
Estado se tornem mais 1· res e as da economia causalidade. Cada fenômeno "físico" percep...
mais justas, não poré para a questão da vida tível pelos sentidos e cada fenômeno psíq~~co
atual que é colocada aqui. Por si mesmas, tais pré-existente ou que se encontra na expenen...
instit~ições não pod m . t~rnar-se pem livres cia própria, passa necessariamente por cau~ado
nem JUStas. Que o sptrtto que pronuncia o e causador. Não se excetuam daí os fenome ...

58 59
sua exigenda; não existem mais que dois na
n_os ~os quais se pode atribuir um caráter de simultaneidade, o outro e o um, a ilusão e a
fmahdade, como parte integrante do conjunto missão. Só então. porém, começa a minha atua- r,
do mun.do do Isso: tal conjunto tol~ra uma lização. Pois a decisão não consiste em atuali-
teleologia somente se esta foi inserida como zar o um e deixar o outro estendido como mas-
contra-partida pardal da causalidade e se não sa extinta que, camada por camada, aviltaria a
lhe prejudicar a completa continuidade. minha alma. Entretanto, somente aquele que
O reino absoluto da causalidade no mun- orienta, no fazer do Um, a força do Outro,
do do Isso, embora seja de importância funda- aql-tele que deixa entrar na atualização do es-
m_ental para a ordenação científica da natureza colhido a paixão intacta do que foi repudiado,
nao aflige o homem que não está limitado ao somente aquele que "serve a Deus com o mau
mundo do Isso e que pode sempre evadir-se instinto" se decide e decide o acontecimento.
para o mundo da relação. Aí o Eu e 0 Tu se Se alguém compreendeu isso, sabe também que,
de!ronta~ um .com o outro livremente, numa de fato, isso é chamado justo, a direção justa
açao r~ctproca que não está ligada a nenhuma para a qual alguém se dirige e se decide; se
cau~ahdade e não possui dela o menor matiz; houvesse um demônio não seria aquele que se
aqm o homem encontra a garantia da liberdade decidiu contra Deus, mas o que, desde toda a
de seu ser e do Ser. Somente aquele que co- eternidade jamais tomou uma decisão.
nhece a relação e a presença do Tu, está apto A causalidade não oprime o homem ao
a t~~ar. u~a decisão. Aquele que toma uma qual é garantida a liberdade. Ele sabe que sua
dectsao e hvre pois se apresenta diante da Fa- vida mortal é, por sua própria essência, uma
ce. oscilação entre o Tu e o Isso, e ele per.cebe o
~is aqui toda a substância ígnea de minha sentido desta oscilação. Basta-lhe saber que
c~p~ctdade de vontade em um formidável tur- pode, a todo momento, ultrapasar o umbral do
bllhao, todo o meu possível girando como um santuário, onde ele não poderia permanecer. 65
m~nd.o e~ formação, como uma massa confusa E mais ainda: a obrigação de deixá-lo logo de-
e m~Is~oluvel, eis os olhares sedutores das po- pois incessantemente, lhe está intimamente li-
te~ciahdades flamejando de todas as partes: 0 gada ao sentido e ao destino desta vida. É ali,
~mverso como tentação, e eu, nascido em um no umbral que se acende nele a resposta sem-
64 mstante, as duas mãos ·mersas numa fornalha pre nova, o Espírito; é aqui, nas regiões pro-
para apanhar o que aí s esconde e me procura: fanas e indigentes, que a centelha deve se con-
meu a~o. Pr~nto! eu o tenho. E logo a ameaça firmar. O que aqui se .chama necessidade não o
do. abismo e proscrita, a multiplicidade difusa apavora, pois, lá no santuário ele conheceu a
deixa de fazer valer a ·gualdade cintilante de verdadeira, isto é, o destino.
61
60
Destino e liberdade juraram fidelidade rígido, fantasma surgido do pântano, oprime o
mútua. Somente o homem que atualiza a liber~ homem. Nele o homem, contentando~se com um
dade encontra o destino. Quando eu descubro mundo de objetos~ que não lhe podem mais tor... t,
a' ação que me requer, é aí, nesse movimento nar. . . se presença, sucumbe. Então, a causalida~
de minha liberdade que se me revela o mis~ de fugaz, intensifica. . . se até tornar . . . se uma fata . . .
tério. Mas o mistério se revela a mim não só lidade opressora e esmagadora.
quando não posso realizar esta ação como eu
Toda grande civilização comum a vários
pretend!a. mas também até na própria resis~
povos repousa sobre um evento originário de en...
tência. Aquele que se esquece de toda causali~ -
contro, sobre uma resposta ao Tu como acon~
da de e toma uma decisão do fundo de seu ser,
teceu nas origens; ela se fundamenta sobre um
àquele que se despoja dos bens e da vestimen~
ato essencial do Espírito. Este ato, reforçado
ta para se apresentar despido diante da Face, a pela energia numa mesma direção das gera. .
este homem livre, o destino aparece como ré~ ções posteriores instaura no espírito uma con~
plica de sua liberdade. Ele não é o seu limite cepção particular do cosmos: somente através
mas o complemento; liberdade e destino unem... deste ato é que o cosmos do homem se torna
... se mutuamente para dar sentido; e neste sen~ de novo possível. Somente assim pode o homem,
tido o destino, até há pouco olhar severo sua~ de uma alma confiante, reconstruir sempre de
viza...se como se fosse a própria graça. novo ·numa concepção particular do espaço,
Não, o homem portador de centelha que casas de Deus e casas do homem, preencher o
retorn~ ao mundo do Isso não é oprimido pela tempo agitado com novos hinos e cantos e dar
necessidade causal. E, em épocas em que a uma forma a comunidade dos homens. Porém,
vida é sã, a confiança se propaga a todo povo somente na medida em que ele possui este ato
através de homens do espírito; todos, mesmo essencial, realizando, suportando~o em sua pró...
os mais tolos, conheceram de alguma maneira pria vida, somente quando ele mesmo entra na
seja por natureza, ou um modo intuitivo ou relação, então torna~se livre, e, portanto, cria... ~
obscuro, o encontro, a presença; todos de ai~ dor. No momento em que uma civilização não 1
gum modo pressentiram o Tu; agora o espírito tem mais como ponto central um fenômeno de
é para eles a garantia. · relação, incessantemente renovado, ela se en: ·.
rijece, tornando~se um mundo de Isso que e,
66 Entretanto, em é ocas mórbidas, acontece
trespassado somente de quando em quando por '67
que o mundo do Iss , não sendo mais penetra~
ações eruptivas e fulgurantes de espíritos so...
do e fecundado pel s eflúvios vivif}cantes do litários. A partir de então, a causalidade fu-
mundo do Tu, não p ssando de algo isolado e gaz se intentifica não podendo jamais pertur-
62
63
homem a seu Tu, acontecimento que determi-
bar a compreensão do universo, tornando~se fa~ na o destino. Por força deste ato essencial e
talidade opressora e esmagadora. O destino sá~ central, uma civilização entregue a sua irradia~ r,
bio e soberano que, harmonizado com a pie~ ção pode ser substitu{da por uma outra a menos
nltude de sentido do universo, reinava sobre que ela mesma se regenere.
toda causalidade primitiva, transmudado agora O mal de que sofre nosso século não se
num absurdo demonismo, caiu nesta causalida~ assemelha a nenhum outro. Mas pertence à
de O próprio Kharma que os ancestrais conce~ mesma espécie daqueles males de todos os sé-
biam como uma disposição benéfica - uma vez culos. A história das civilizações não é um
que tudo o que nos acontece nesta vida nos ele~ estádio constante no qual os corredores, um
va para esferas superiores em uma existência ui~ após o outro tenham que percorrer com coragem
terior - se revela agora como uma tirania, pois, e inconscientemente, o mesmo ciclo mortal. Um
as ações de uma vida anterior que permanecem caminho inominada conduz através de suas
inconscientes, nos encerram numa prisão da ascensões e declínios. Não um caminho de pro-
qual, na vida presente, não podemos escapar. gresso e de evolução; mas uma ~escida em e~­
Lá, onde se curvava a lei plena de sentido de piral através do mundo subterraneo do es~I~
um céu, de cujo arco luminoso pendia o fuso rito e, também, uma ascensão para, por assim
da necessidade, reina agora o poder absurdo dizer, à região tão íntima, tão sutil, tão com~
e opressor dos planetas. Então bastava iden~ plkada que não se pode mais avançar, nem so~
tificar~me a "Dike", à "senda" celestial que é bretudo recuar; onde há apenas a inaudita con~
também a imagem da nossa, para habitar na versão: a ruptura. Será necessário ir até o fim
plenitude do destino; - agora não importa o deste caminho? Até a prova das últimas tre~
que façamos, o Heimarmene, 5 estranho ao vas? Porém, onde está o perigo, ali cresce tam~
espírito, nos oprime, colocando sobre nossas bém a força salvadora.
nucas todo o peso da massa inerte do universo. O pensamento biologista e o pensamento
O desejo, elan impetuoso de redenção permane~ historicista de nosso tempo. por mais diferentes
ce, em última análise, a despeito de numerosas que possam pare.cer um ao .outro, co!aboram
tentativas, insatisfeito, até que o acalme aquele para formar uma fé na fatalidade ~ats ten~z
que ensina a escapar do ciclo dos renascimentos e angustiante do que todas as antenores. Nao
é mais o poder Kharma6 nem o poder dos as-
ou alguém que sal~e; almas, subjugadas por
poderes terrenos, I ando-as para a ·liberdade tros que rege inexoravelmente a sorte dos ho-
68 mens. Inúmeros poderes reinvidicam este do-
dos filhos de Deu ,. Tal obra se realiza quando
mínio, porém; se se examina mais detidamen~e, 69
um novo fenômeno de relação se 1torna subs- a maior parte dos contemporâneos acredita
tância, quando uma nova resposta é dada pelo
65
64
num amálgama destas forças do mesmo modo tino será um erro, pois, o destino não é uma
que os romanos de época posterior acreditavam campânula voltada sobre o mundo dos homens;
nu!ll amálgama de deuses. A própria natureza ninguém o encontra, senão aquele que parte da (,

da pretensão facilita este amálgama. Quer se liberdade. O dogma do curso inelutável das
trate da "lei vital" de uma luta universal na coisas não deixa, porém, lugar à liberdade, nem
qual cada um deve combater ou renunci~r à para a sua revelação mais concreta, aquela
vida; quer se trate da "lei psíquica" de uma cuja força serena modifica a face da terra: a
concepção da pessoa psíquica unicamente ba~ conversão. 8 Este dogma desconhece o homem
seada em instintos utilitários, inatos; quer se que pode vencer a luta universal pela conver~
trate de "lei social", de um processo social ine~ são; aquele que rompe, pela conversão, as amar-
vitável onde vontade e consciência são meros ·ras dos impulsos de utilização; aquele que se
epifenômenos; ou da "lei cultural" de um dever liberta pela conversão do fascínio da sua elas~
inalterável e constante de uma gênese e de um se; aquele que, mediante a conversão, pode re-
ocaso dos quadros históricos; sob todas estas volver, rejuvenescer, transformar quadros his-
formas e outras mais o que significa é que o tóricos os mais seguros. O dogma do decurso
homem está ligado a .um dever inevitável con~ não te deixa no tabuleiro senão uma opção:
tra o qual ele não lutaria senão no seu delírio. observares as regras ou te retirares; aquele, po~
A consagração dos mistérios libertava da coa~ rém, que realiza a conversão derruba todas as
. "', ção dos astros; o sacrifício bramânico, acampa;. peças. Este dogma te permite, em todo caso,
, \ nhado do conhecimento, libertava do poder do submeteres tua vida ao determinismo e, "perma-
1
Kharma; em ambos prefigurava~se a redenção. neceres livre" na alma. Aquele, porém, que rea-
r O ídolo não tolera a fé na libertação. E uma liza a conversão considera esta liberdade como
<, loucura imaginar a liberdade; não se tem senão
a mais vergonhosa servidão. .!
a escolha entre uma escravidão voluntária ou A única coisa que pode vir a ser fatal
uma escravidão desesperada e rebelde. Embora, /
ao homem, é crer na fatalidade, pois esta cren-
essas leis invoquem a evolução teleológica e o ça impede o movimento da conversão.
dever orgânico, o fundamento que, efetivamen~
te, todas elas têm,, é a obsessão pelo decurso A crença na fatalidade é falsa desde o
princípio. , Todo esquema do decurso consiste
das coisas, isto é, a sa i ade ilimitada. O
somente em ordenar como história o nada~mais~
dogma do decurso ogressivo 7 é a abdicação
~senão~passado, os acontecimentos isolados do
do homem face ao crescimento do mundo do
mundo, a objetividade. A presença do Tu •. o
Isso. A~sim, o nome do destino ser~ mal em~ que nasce do vínculo são inacessíveis a esta
70 pregado; assim atribuir~se a ele o nome de des- concepção, que ignora a realidade do Espírito;
66
67
este ~s~uema não apresenta valor algum para zio pela proccra da subjetividade perdida? Co-
o espmto. A profecia baseada na objetividade mo con!-.eceria profundamente a liberdade
te;n valor apenas para quem ignora a presença. aquele que vive no arbitrário? (,

Aquele que é subjugado pelo mundo do Isso Assim como liberdade e destino estão in-
71
é obrigado a ver no decurso inalterável uma terligados, assim também o estão, o arbitrário
verdade que esclarece a confusão. Na verdade e a fatalidade. Porém liberdade e destino são
tal dogma deixa subjugar~se mais profunda .. comprometidos mutuamente para instaurarem
mente ainda ao mundo do Isso. Porém, o mundo juntos o sentido; o arbitrário e a fatalidade,
do Tu não é fechado. Aquele que na unidade fantasma da alma e pesadelo do mundo, tole~
de seu ser se dirige a ele, conhecerá profun~ ram-se vivendo um ao lado do outro, mas es~
~ame~te a liberdade. E tornar~se livre signi~ · quivando-se, sem ligação e sem atrito, no
fi.ca libertar-se da crença na servidão. absurdo, até que, em determinado momento, os
olhares distanciados se reencontram e irrompe
*
Assim como é possível dominar um incubo deles a confissão de mútua perdição. Quanta
chamando-o pelo seu verdadeiro nome assim espiritualidade eloqüente e engenhosa é dis~
também o mundo do Isso~ que, ainda há' pouco, pensada, hoje, senão para impedir ao menos
esmagava com sua força espantosa a fraca para dissimular este fato!
força do homem, é constrangido. a submeter-se O homem livre é aquele cujo querer é
à~uele. que_ o conhece em seu ser, isto é, a par- isento de arbitrário. Ele .crê na atualidade, isto
tlc~lanza~ao e alienação daquilo a partir de é, ele acredita no vínculo real que une a duali-
•CUJa plemtude próxima e irradiante cada Tu dade real do Eu e do Tu crê no destino e tam...
terreno_ se oferece ao encontro, aquilo que pa- bém que ela tem necessidade dele; ela não o
receu as vezes grande e assustador como a conduz em inteiras, mas o espera; o homem de~
deusa-mãe, mas sempre maternal. ve ir ao seu encontro mas não sabe ainda onde
Mas como poderia ser capaz de interpe- ela está. O homem livre deve ir a ela com todo
lar ? ~ncubo pelo seu nome, aquele que, no o seu ser, disso ele sabe. Não acontecerá aquilo
seu mtlmo leva um fantasma, isto é, o Eu ca~ que a sua resolução imagina, mas o que acon-
rente de atuaHdad ? o a força de relação teceu, não acontecerá senão na medida em que
sepultada pode ressurgir m um ente cujos ele resolver querer aquilo que ele pode querer.
escombros são permanenteménte pisoteados por Ser-lhe~á necessário sacrificar aquele pequeno
um fantasma vigoroso? querer, escravo, regido pelas coisas e pelos ins~
72 Como poderia recolher~se um ser que está tintos, em favor do grande querer que se afasta
cónstantemente perseguido em 11m campo va- do "SPr-determinado" para ir ao destino. Ele
68 69
73 não intervém mais, mas nem por isso permite ele vê também o homem livre. aliás, ele não pode
que ~conteça pura e simplesmente. Ele espreita vê~lo de modo diferente. Porém, o homem livre
aquilo que por si mesmo se desenvolve o ca~ não tem, aqui, uma finaldade e, lá, os meios
mlnho do ser no mundo: não para se deixar le~
(,
para obtê~lo: ele possui somente um objetivo e
var por ele, mas para atualizá~lo como ele de~ sempre um: a resolução de ir de encontro a
seja ser atualizado pelo homem de quem ele seu destino. Tomada essa resolução pode lhe
necessita, por meio do espírito humano e do acontecer de, às vezes, renová~la a cada etapa
ato humano, com a vida do homem e com a decisiva do caminho: mas deixará de acreditar
morte do homem. Ele crê, disse eu, o que equi~ na sua própria vida antes de crer que a reso~
vale dizer: ele se oferece ao encontro. Iução de seu grande querer é insuficiente e que
O homem que vive no arbitrário não crê e deve mantê~la por todos os meios. Ele crê: ele
não se oferece ao encontro. Ele desconhece 0 se oferece ao encontro. Mas o homem arbitrá~
vinculo: ele só conhece o mundo febril do "lá rio, incrédulo até a medula, não pode perceber
fora~· e seu prazer febril do qual ele sabe se senão incredibilidade e arbitrário, escolha de
servir. Basta dar ao poder de utilização um no~ fins e invenção de meios. O seu mundo é pri~
me antigo para ele tomar lugar entre os deuses. vado de oferta e graça, de encontro e de pre~
Quando este homem diz Tu, ele pensa "Tu, sença, entravado nos fins e nos meios. Este
meu poder de utilização" e o que ele chama mundo não pode ser diferente, o seu nome é
como seu destino, nada mais é do que equi~ fatalidade. Assim, em sua auto~suficiência ele
parar e sancionar o seu poder de utilização. é engolfado simples e inextrincavelmente pelo
Na verdade, ele não tem destino mas somente irreal e ele sabe disso sempre que sobre si se
~m ser~determinado pelas coisas e pelos ins~ concentra e é por isso mesmo que ele empenha
tmtos, e isto é realizado com um sentimento o melhor de sua espiritualidade para impedir,
de independência que é justamente o arbitrá~ ou, ao menos, ocultar esta lembrança.
rio. Ele não tem o grande querer, este é subs~ Mas se a lembrança de sua decadência,
tituído pelo arbitrário. Ele é totalmente inapto de seu Eu inatural e de seu Eu atuól, permitir
10
à oferta ainda que possa vir a falar dela; tu o alcançar a raiz profunda que o homem chama
reconheces pelo fato de ele nunca se tornar con~ desespero e de onde brotam a autodestruição e
creto. ~le ~ntervém, ..co~stantemente e sempre, a regeneração, isto já seria o início da con~
com aJmahdade ôê"Clêix_ar que as coisas acon~ versão.
teçam . Como se poderia~te diz ele, deixar de
auxiliar o destino, deixar de empregar os meios *
Segundo relata o Brahmana dos cem ca~
75
acessíveis exigidos para esse fim? É assim que minhos, um dia deuses e demônios disputavam
I
70 71
entre si. Então os demônios disseram: "a quem e quando em ambos os casos é o Eu que ver~
poderíamos apresentar nossa oferta"? E depu~ dadeiramente se tem em mente, é do mesmo
seram todas as oferendas nas próprias bocas. Eu de cuja auto~consciência se fala em ambos t,
Os deuses, porém, depuseram as oferendas ca~ os casos? ~
da um na boca do outro. E então Pradshapati, O Eu da palavra~princípio EU~Tu é dife~ 76
o Espírito primordial, entregou~se aos deuses. rente do Eu do palavra~princípio Eu~Isso.
O Eu da palavra~princípio Eu~Isso apa~
* rece como egótico10 e toma consciência de si
como sujeito (de experiência e de utilização)
Compreende~se que o mundo do Isso aban~
clonado a si mesmo - isto é, privado do con~ O Eu da palavra~princípio Eu~Tu a~ar~~e
tato do tornar~se Tu, aliena~se tornando~se um como pessoa e se conscientiza como subJebvt~
incubo; como é possível, no entanto, que, como da de (sem genitivo dela dependente) . ·
dizes, o Eu do homem perca a sua atualidade? - O egótico aparece na medida em que se
Quer ele viva na relação ou fora dela, o Eu ga~ distingue de outros egóticos.
rante~se a si mesmo na sua consciência de si; é
A pessoa aparece no momento em que en~
o fio de ouro ao qual vêm se ordenar os esta~ tra em relação com outras pessoas.
dos intermitentes. Qt.ie eu diga: "eu te vejo,. O primeiro é a forma espiritual da di~~~
ou "eu vejo a árvore" este meu ver pode não renciação natural, a segunda é a forma espm~
ser igualmente atual em ambos os casos, mas tual do vínculo natural.
o que é igualmente atual nos dois casos, é o Eu. A finalidade da separação é o experien~
ciar e o utilizar, cuja finaldade é, por sua vez,
- Senão vejamos, verifiquemos se é as~
"a vida", isto é, o contínuo morrer no decurso
sim. A forma lingüística não prova nada; muitos
Tu proferidos são, fundamentalmente, Isso, ao da vida humana.
A finalidade da relação é o seu próprio
qual se diz Tu, somente por hábito ou sem pen~
sar. E muitos Isso expressos significam, no ser, ou seja, o contato com o Tu. Pois, no c~n~
tato com cada Tu, toca~nos um sopro da vtda
fundo, um Tu de cuja pusença se ,guarda,
mesmo estando distante, n fundo de seu ser. eterna.
uma lembrança; assim em i úmeros casos o Eu Quem está na relação participa ~e um~
é apenas um pronome indispensável, apenas atualidade, quer dizer, de um ser que nao esta
uma.. abreviação necessária de "este aqui que unicamente nele nem unicamente fora dele. T ~
fala . Mas e a consciência de si? Quando, nu~ da atualidade é um agir do qual eu participo
ma frase se emprega o verdadeiro Tu da re~ sem poder dele me apropriar. Onde ~ão há p~r~
lação e, em outra, o Isso de uma experiência, ticipação não há atualidade. Onde ha aproprta~
I 73
72
ção de si não há atualidade. A participação é o egõtico se afasta dos outros, ele se distancia
tanto mais perfeita, quanto o contato do Tu é do Ser.
mais imediato. Com isso não se quer dizer que a pessoa 18
77 · O Eu é atual através de sua participação "renuncie" ao seu modo de ser específico, mas
na .atualidade. Ele se torna mais atual quanto somente isso: este não é somente o seu ponto
mais completa é a participação. de vista, mas a forma necessária e significa...
Mas o Eu que se separa do evento de re... tiva de ser. Ao contrário, o e gótico se delicia
lação em direção da separação, consciente des ... com seu modo... de... ser específico que ele ima ...
ta separação, não perde sua atualidade. A parti... ginou ser o seu. Pois, para ele, conhecer...se
cipação permanece nele, conservada como po... significa fundamentalmente sobretudo estabe-
tencialidade vi'va; ou então, em outro termo lecer uma manifestação efetiva de si e que seja
capaz de iludí...lo cada vez mais profundamente;
usado quando se trata da mais elevada rela...
ção e que pode ser aplicado a todas as rela... e pela contemplação e veneração desta mani...
ções, "a semente permanece nele". É este o festação procura uma aparência de conhecimen...
domínio da subjetividade, onde o Eu toma to de seu próprio modo... de... ser, enquanto que
consciência simultaneamente tanto de seu vín- o seu verdadeiro conhecimento poderia levar
culo quanto de sua ·separação. A autêntica ao suicídio ou à regeneração.
subjetividade só pode ser comprendida de um A pessoa contempla... se o seu si...mes!?"o, e~... ,.
modo dinâmico, como a vibração de um Eu no quanto que o egótico ocupa...se com o seu meu :
seio de sua verdade solitária. É aqui. também, minha espécie, minha raça, meu agir, meu gê... _/
o lugar onde irrompe e cresce o desejo de uma nio.
relação cada vez mais elevada e absoluta, o O egótico não só não participa como tam...
desejo de uma participação total com o Ser. bém não conquista atualidade alguma. Ele se
Na subjetividade amadurece a substância espi... contrapõe ao outro e procura, pela experiência
ritual da pessoa. e pela utilização, apoderar... se do máximo que
A pessoa toma consciência dr::s·orno par... lhe é possível. Tal é a sua dinâmica: o pôr...se
ticipante do ser, como um ser...c , como um à parte e a tomada de posse; ambas operações
ente. O egótico toma consciênc·a de si como se passam no Isso, no que não é atual. O su...
um ente-que...é...assim e não... de...ohtro...modo. A jeito,. tal como ele se reconhece, pode apod:...
pessoa diz: "Eu sou", o egótico diz: "eu sou as ... rar...se de tudo quanto queira, que daí ele nao
sim". "Conhece-te a ti mesmo" para a pessoa obterá substância alguma, ele permanece com~
significa: conhece...te como ser; para o egótico: um ponto, funcional, o experimentador, o uti...
conhece o teu modo de ser. Na mldida em que lizador, e nada mais. Todo o seu modo de ser
75
74
múltiplo ou sua ambiciosa "individualidade"
não podem lhe proporcionar substância alguma. Que distante é o Eu do egotista! Ele pode
inspirar profunda compaixão, quando sai de uma
Não há duas espécies de homem; há, to~
dàvia, dois pólos do humano. boca trágica impelida a calar a sua auto-con-
79 tradição. Ele pode induzir ao medo, quando
Homem algum é puramente pessoa, e ne~ provém de uma boca caótica que representa a
nhum é puramente egótico; nenhum é inteira~ contradição de um modo selvagem despreo-
mente atual e nenhum totalmente carente de cupado e sem suspeita. Quando ele provém de
atualidade. Cada um vive no seio de um du- uma boca fútil e hipócrita é penoso e repug-
plo Eu. Há homens entretanto, cuja dimensão nante. 80
de pessoa é tão determinante que se podem Aquele que profere o Eu separado, co~
chamar de pessoas, e outros cuja dimensão de inicial maiúscula, desvela a desonra do espt-
egotismo é tão preponderante que se pode atri- rito universal, que foi rebaixado até não ser
buir-lhes o nome de egótico. Entre aqueles e
mais que uma espiritualidade.
estes se desenrola a verdadeira história.
Porém, como soa de um modo autêntico
Quanto mais o homem e a humanidade são
e belo, o Eu tão vivo e enérgico de Sócrates! :É
dominados pelo egótico, mais profundamente o o Eu do diálogo infinito e o ar de diálogo que
Eu é atirado na inatualidade. Nestas épocas, o envolve em todos os caminhos até diante de
a pessoa leva, no homem, na humanidade, uma seus juízes e nos últimos instantes da prisão.
existência subterrânea e velada e, de algum Este Eu vivia na relação com os homens, re-
modo, ilegítima - até o momento em que ela lação que se encontrava no diálogo. Ele acre..
será chamada.
ditava na atualidade dos homens e ia em sua
direção. Assim, ele permaneceu com. eles ~a
* verdadeira a tua li da de e esta não o detxa mats.
A sua solidão não pode ser considerada aban..
O homem é tanto mais uma pessoa quanto dono e quando o mundo humano permanece
mais intenso é o Eu da palavra-princípio Eu- silencioso ele ouve o Demônio dizer Tu.
-Tu, na dualidade humana de seu/~ Que som belo e autêntico tem o Eu de
. O seu dizer-Eu - portanto, o que ele quer Goethe! :É o Eu de uma intimidade pura com
dtzer ao pronunciar Eu - decide seu lugar a Natureza; ela se ofere a ele e lhe fala cons-
e para onde leva seu caminho. A palavra "Eu" tantemente, ela lhe revela seus segredos sem,
é o verdadeiro "shibbolet" 12 da humanidade. entretanto, trair os seus mistérios. Este Eu crê
Então escute! na natureza e fala à rosa "Então és Tu?" e
se une a ela numa mesma atualidade. Quando
76
77
o Eu se volta sohre si mesmo, 0 espírito do
atual permanece com ele, a visão do Sol per~ Mas o que acontecerá, se a missão de um
manece no olhar feliz que se recorda de sua homem exige que ele só conheça o vínculo com
natureza solar e a amizade dos elementos sua causa, e então desconheça qualquer rela-
acompanha o homem até o silêncio da morte e ção atual com um Tu e a presentificação do
do devir. Tu, de modo que tudo aquilo que o envolve se
torne um Isso, um Isso útil à sua causa? Que 82
81
As~_im, ressoa através dos tempos o di~ tal o dizer-Eu de Napoleão? Não é ele legí-
zer~Eu adequado, verdadeiro, puro" das pes~ timo? Este fenômeno do experienciar e do uti-
soas que estão vinculados, das pessoas socráti~ lizar não é uma pessoa?
cas e goetheanas.
Na realidade, o mestre do século, ignorou
. E. para apresentar, antecipadamente uma a dimensão do Tu. Isso ficou bem caracteri-
Imagem do reino da relação absoluta, quão po~ zado quando se afirmou que todos os seres
dero~o é o dizer~Eu de Jesus, como um ver~ eram para ele valore.12 Ele que, em um sen-
dadeiro poder de dominação, e quão legítimo, tido benévolo, comparou com Pedro aqueles
co~o uma evidência! Afinal, ele é 0 Eu dare~ seus seguidores que o renegaram após sua que-
laçao absoluta, na qual o homem atribui a seu da, a ninguém poderia renegar, pois, não havia
Tu o ~o~e de_ Pai, de tal modo que, ele mes~ pessoa alguma a quem reconhecesse como ser
mo, nao e senao o Filho, nada mais que filho. presente. Para multidões, ele era o Tu demo~
Quando ele profere Eu, ele só pode ter em níaco, aquele que não responde, aquele que
mente o Eu da palavra~princípio sagrada que responde ao Tu com um Isso, aquele que, na
~e tornou absoluta para ele. Se, por acaso, 0 dimensão pessoal responde ficticiamente; aquele
Isolamento o toca, a ligação é mais forte, e é que somente responde na sua esfera, no âmbito
somente do seio desta ligação, que ela fala aos de sua causa e somente por seus atos. Tal é o
outros. Em vão, procurais reduzir este Eu a limite histórico e elementar onde a palavra~
~princípio da ligação perde sua realidade, seu
um _mero po?er em si ou este Tu a algo que
hab~ta em nos e uma vez mais procurar desa~ caráter de reciprocidade: é o Tu demoníaco,
tuahzar o atual, a relação presente,-~ Eu para o qual nenhum ente pode tornar~se um
Tu.
e Tu, subsistem. Cada um pode dizer Tu
sendo assim um Eu, cada um pode dizer Pai: Este terceiro tipo de Eu, ao lado da pessoa
sendo assim Filho: a atualidade permanece.' e do egótico, que não é nem o homem livre nem
o homem do arbitrário, nem se situa entre eles,
existe, postado de uma maneira fatal, nas gran~
* \ des épocas do destino; todos se entusiasmam
78
79
ardentemente por ele, enquanto que ele próprio podia considerar o seu Eu, que só agora se
p~rmanece em um fogo gélido; aquele ao qual revelava. Este Eu, que ora emerge, não é
milhares de relações se dirigem, mas da qual simplesmente sujeito, mas também não atinge ,,
nenhuma provém; ele não participa ~e nenhuma a subjetividade; livre do encanto que o envol-
atualidade, mas ele é como uma atualidade da via, mas não redimido, ele se expressa nestes
qual todas participam intensamente. termos terríveis, ao mesmo tempo legítimos e
_ Na verdade, ele não vê os entes que es- ilegítimos: "O Universo nos contempla!" e
tao em sua volta, senão como máquinas capazes finalmente mergulha novamente no mistério.
de diversas realizações, que devem ser avalia- Quem ousaria afirmar que esse homem,
das e utilizadas para o bem de sua causa. As- depois de tal carreira e de tal queda, tenha
sim, também ele se vê a si mesmo, (ele deve compreendido sua missão terrível e monstruosa,
apenas por à prova seu próprio poder de rea- ou então que ele a tenha entendido mal? O que
83
lização, através de experiências renovadas in- é certo é que a época, cujo senhor e modelo 84
cessantemente, sem no entanto experimentar o
foi o homem demoníaco e carente de presença,
próprio limite) . Ele próprio usa a si mesmo co-
mo um Isso. não o compreendeu. Ela desconhece que neste
homem reinava não o ardor e o prazer de po-
E mais, seu dizer-Eu carece de vivacida- der, mas a missão fatal e o dever a cumprir.
de, de energia e plenitude; e com mais razão A época se entusiasma com a altivez soberana
ele não procura, (como o egotista moderno), desta fronte, mas não suspeita que sinais estão
passar por tal. Ele não fala de si mas " a partir aí inscritos, como as cifras no mostrador de
de si". Falado ou escrito, o seu Eu é, nada
um relógio. Ela se aplica a imitar este olhar
mais nada menos, que o indispensável sujeito dirigido para os seres, sem notar o que, nele,
gramatical de uma frase de suas constatações e
é necessidade ou coação e confunde o rigor
de suas ordens; ele não possui subjetividade,
mas ele nada tem a ver com a c9~ que objetivo deste Eu com a agitação da consciên-
se ocupa de seu modo de ser e, c~;;;-~;i·;) ra- cia de si. A palavra Eu permanece o "Shibb~­
zão, ele não se ilude com sua auto-manifesta- leth" da humanidade. Napoleão o proferiU
ção. "Eu sou o relógio que existe sem se co-- sem o poder de relação, mas ele o pronunciou
nhecer". Assim, ele próprio manifestou a sua como o Eu do ato da execução. Quem se es-
fatalidade, a atualidade deste fenômeno e a força em repeti-lo, denuncia a impossibilidade
inatualidade de seu Eu, na época em que ele, de salvação de sua própria autocontradição.
expulso de sua causa, podia e devia, afinal,
pensar sobre si e falai\ de si, e somente agora
80
*
81
O que é autocontradição?
seu âmago profundo, a direção com o conheci ...
Quando o homem não põe à prova, no mento não amado da profundeza, a autêntica
mundo, o a priori da re-lação, efetivando e atua... direção que pela oferta, leva até a conversão.
liza_ndo o Tu inato no Tu que ele encontra, Mas ele repudia este conhecimento: o sol arti...
entao ele se introverte. Ele se manifesta ao con ... ficial da noite 13 não pode suportar o que é
~ato _com o Eu não natural, impossível objeto, "místico'. Ele chama para si o pensamento no
Isto e, ele se desvela ali onde não há lugar pa... qual ele, com razão, confiou profundamente:
ra a revelação. Assim instaura... se um con... tal pensamento deve remediar tudo. Não é a
fronto consigo mesmo que não pode ser relação, grande arte do pensamento o fato de pintar
presença, reciprocidade fecunda mas somente uma imagem do mundo cheia de confiança e
autocontradição. O homem pode tentar inter... digna de fé? Assim fala o homem aos seus pen~
pretá...la como uma relação, por exemplo, uma samentos: "veja este monstro terrível estirado
relação religiosa para escapar do horror de ser aí com seus olhos cruéis, não é, por acaso, o
85 seu espectro; ele deverá sem cessar descobrir mesmo com o qual eu brinquei outrora? Lem...
~ f~lsidade desta interpretação. Aqui se situa 0 bras como eles me sorriam com estes mesmos
limite da v~da .. Aqui,~o irrealizado refugia... se olhos, que eram tão bons?" E vê, meu Eu mise... 86
numa aparencia dem te de realização; por ora rável, quero confessar...te francamente: ele é
ele tateia, de um lad para o outro, nos labi... vazio, e tudo o que sempre faço por experiên ...
rintos, onde se perde \cada vez mais. cia e utilização não penetra no fundo de sua
caverna. Não queres reconciliar...nos novamen ...
* te, ele e eu, de tal maneira que ele se libere e
eu me restabeleça?"
As vezes, quando o homem estremece na
E o pensamento dócil e habilidoso pinta,
alienação entre o Eu e o mundo, ocorre...Jhe 0
com sua rapidez bem conhecida, uma, ou antes,
pensamento de que al.go deva ser feito. Como
duas séries de imagens sobre as paredes da
quando repousas, na pior hora no meio da noite
direita e da esquerda. De um lado está o uni...
atormentado por um pesadeloJ estando acorda~
verso, (ou antes acontece o universo, visto que
do, quando os baluartes desmoronam...se e os as imagens do mundo do pensamento são au...
abismos vociferam e percebes no fundo do teu
tênticas cinematografias). A minúscula Terra
ser, que a vida subsiste e que deves voltar ao emerge do turbilhão dos astros, e, do fervilha ...
seu encalço; mas como? Assim é o homem ~os mento sobre a terra, emerge 0 pequeno homem,
instantes de recordação, horrorizado, p/n a ... e assim a história o transporta através dos tem...
tivo, desorientado. E, talvez, conheça ainda, no
pos, para que ele reconstrua com persistência
82
83
os formigueiros das civilizações, que ela ani..
quila. Abaixo desta série de imagens está es...
crito: "Um e Todo". Do outro lado surge a
alma. Uma fiandeira tece a órbita de todos os
astros, a vida de todas as criaturas e toda a
história universal; tudo isso é um fio da mes...
ma tessitura e não se chama niais, doravante,
astros, criaturas e mundo mas sensações, repre...
sentações ou até vivências e estados da alma.
E logo abaixo desta série de imagens lê..se:
"Um e Todo".
Doravante, quando o homem estremece_
na alienação e o mundo o angustia, ele levanta
o olhar (para a direita ou para a esquerda, pou..
co importa) e avista um}l imagem. Então, ele
vê que o Eu está con~·o no mundo e que, na TERCEIRA PARTE
verdade não há Eu, , por isso, o mundo não
pode prejudicá..lo, e, então ele se tranqüiliza;
ou, então, ele vê que o mundo está contido no
87 Eu, e que, afinal, não há mundo, e, por isso,
ele também não pode prejudicar o Eu, o que
tranqüiliza também. E uma outra vez, quando
o homem se estremece na alienação e o seu Eu
o aterroriza, ele levanta os olhos e vê uma ima..
gem, pouco importa qual: ou o Eu vazio está
·totalmente repleto de mundo ou submerso na
torrente do mundo, e ele se tranqüiliza.
Porém, chega um momento, que, aliás,
está próximo, em que o homem que estreme.ce
levanta os olhos e vê, num só relance, as duas
imagens de uma vez. E então um tremor mais
profundo se apodera ~le.
84
As linhas de todas as relações, se prolon... 91
gadas, entrecruzam... se no Tu eterno.
Cada Tu individualizado é uma perspectiva
para ele. Através de cada Tu individualizado
a palavra-princípio invoca o Tu eterno. Da me...
diação do Tu de todos os seres, sur.ge não só
a realização das relações para com eles mas tam...
bém a não realização. O Tu inato realiza...se em
cada uma delas, sem, no entanto, consumar--se
em nenhuma. Ele só se consuma plenamente na
relação imediata para com o Tu que, pela sua
própria essencia, não pode tornar... se Isso.
Os homens têm invocado o seu Tu eterno
sob vários nomes. Quando cantavam aquele que
era assim chamado, pensavam sempre no Tu:
os primeiros mitos foram cantos de louvor. Os
nomes entraram, éntão, na linguagem do Isso;
um impulso cada vez mais poderoso levou os
homens a pensarem no seu Tu Eterno e falar
dele como de um Isso. Todos os nomes de Deus
permanecem, no entanto. santificados, pois, não
se fala somente sobre Deus, mas também se fala
com Ele.
Muitos quiseram admoestar que o nome de
Deus fosse usado corretamente, pois ele estava
demasiadamente mal empregado. E, certamen...
te, é o nome mais densamente pesado de todos
os nomes humanos. E por esta razão, é o mais
imperecível e indispensável. E que importam as
87
divagações errôneas a respeito da essência de mas a nossa; não é a graça mas a vontade. A
Deus e das obras de Deus (aliás, só houve e graça nos diz respeito, na medida em que nós
haverá afirmações erradas sobre isso) em vista avançamos para ela e aguardamos a sua pre-
da Verdade Una de que todos os homens que sença; ela não é nosso objeto.
invocaram a Deus, tinham em mente Ele mes~ O Tu se apresenta a mim. Eu, porém, entro 93
mo? Pois. aquele que, proferindo a palavra em uma relação imediata com ele. Assim, a re-
Deus, quer significar realmente Tu, não impor~ lação é, ao mesmo tempo, escolher e ser esco-
ta de que ilusão esteja tomado, invoca o verda~ lhido, passividade e atividade. Do mesmo modo,
deiro Tu de sua vida, o qual não pode ser limi~ uma ação do ser em sua totalidade como su~
92 tado por nenhum outro e com o qual ele está pressão de todàs as ações parciais, e, por con~
em uma relação que engloba todas as outras. seguinte. de todas as sensações de ação (as que
Mas também invoca Deus, aquele que abo~ não são fundamentadas senão em sua limitação
mina esr;eme e crê estar sem Deus quando recíproca) , deve tornar~se necessariamente se~
invoca, c m o impulso de todo o ser, o Tu de melhante a uma passividade.
sua vid , como aquele que não pode ser limi-
tado por nenhum outro. Esta é a atividade do homem que atingiu
~
'
a totalidade, a atividade que se chamou o fa~
* zer~nada, onde nada mais isolado, nada parcial
se move no homem e, também ~ada dele inter-
Quando, seguindo nosso caminho, encon-
tramos um homem que, seguindo o seu cami- · vém no mundo; onde é o homem total, encerrado
nho, vem ao nosso encontro, temos conhecimen- e repousado em sua totalidade que atua; onde o
to somente de nossa parte do caminho, e não da homem tornou~se uma totalidade atuante. Ter
sua, pois esta nós vivenciamos somente no en- conquistado a firmeza nesta disposição, significa
contro. estar preparado para o encontro supremo.
Do evento perfeito da relação conhecemos. Para tanto não é necessário o.despojar~se
por tê~ la vivido, a nossa saída, a nossa parte do do mundo sensível como um mundo de apa-
caminho. A outra nos acontece, nós não a co- rência. Não há mundo aparente, só existe o
nhecemos. Ela acontece para nós no encontro. mundo que, sem dúvida, se nos revela duplo,
É, na verdade, uma presunção de nossa parte, visto que nossa atitude é dupla. Só deve ser
falar sobre ela como se fosse de algo aléJ;n do quebrado o encanto da separação. Não é ne-
encontro. cessária, também, a "superação da experiênci~
O que deve nos ocupar, aquilo pelo que sensível"; cada experiência, mesmo a ma1s
nós devemos nos interessar, não é a outra part~ espiritual, não poderia nos fornecer senão um
88 89
Isso. Não é preciso, também dirigir-se a um geiro. confuso e perigoso da relação, em dire-
mundo de idéias e valores que não nos pode ção ao ter das coisas.
tornar-se presente. Nada disso é necessário.
Pode-se dizer o que é preciso? Porém não no
sentido de uma prescrição. Nada do que algum *
dia foi inventado e imaginado nas épocas do Toda relação atual com um ser presente
espírito humano em matéria de prescrições, de no mundo é exclusiva. O seu Tu é destacado,
preparação, de prática ou meditação, tem algo posto à parte, o único existente diante de nós.
91: Ele enche o horizonte, não como se nada mais
a ver com o fato originariamente simples do 95
encontro. Qualquer que seja o proveito no existisse, mas tudo o mais vive na sua luz.
conhecimento ou a eficácia de tal ou tal ativi- Enquanto dura a presença da relação sua am-
dade, nada disso interfere naquilo de que é plidão universal é incontestável. Porém, desde
aqu · tado. Esta realidade diz respeito ac que um Tu se torna um Isso a amplidão uni-
ndo do Isso e não impele a dar nenhum versal da relação parece uma injustiça para com
p sso, o passo que nos faria sair dele. Não o mundo e sua exclusividade como uma exclu-
são do universo.
sã prescrições que nos ensinam a saída. Isso
só se pode demonstrar, na medida em que se Na relação com Deus, a exclusividade
estabelece um círculo que exclui tudo o que absoluta e a inclusividade absoluta se identifi-
não é esta saída do mundo do Isso. Então tor- cam. Aquele que entra na relação absoluta não
na-se patente, a única coisa que importa: a se preocupa com nada mais isolado, nem com
perfeita aceitação da presença. coisas ou entes., nem com a terra ou com o céu.
pois tudo está incluído na relação. Entrar na
Naturalmente, quanto mais longe o ho- relação pura não significa prescindir de tudo.
mem adentrou-se no isolamento, tanto mais a mas sim ver tudo no Tu: não é renunciar ao
aceitação implica um risco mais pesado, uma mundo mas sim proporcionar-lhe fundamenta-
conversão mais fundamental; não se trata de ção. Afastar o olhar do mundo não auxilia a
algo como a renúncia do Eu, como o misticismo ida para Deus: olhar fixamente nele também não
supõe geralmente: o Eu sendo indispensável faz aproximar de Deus, porém, aquele que
a cada relação o é também para a relação mais contempla o mundo em Deus, está na presença
elevada, a qual só pode acontecer entre Eu e Tu: d'Ele. "Aqui o mundo, lá Deus" tal é uma
não se trata da renúncia do Eu mas do falso linguagem do Isso; assim como "Deus no mun-
instinto da auto-afirmação que impele o homem do" é outra linguagem do Isso. Porém, nada
a fugir do mundo incerto, inconsistente, pa~a- abandonar, ao contrário, incluir tudo, o mundo

90 \ 91
na sua totalidade, no Tu, atribuir ao mundo o afastasse de seu próprio caminho a fim de pro..
seu direito e sua verdade, não compreender curar Deus; mesmo que houvesse conquistado
nada fora de Deus mas apreender tudo nele, isso toda sabedoria da solidão e todo o poder de
é a relação perfeita.
concentração, não o encontraria. Ao contrário.
Não se encontra Deus permanecendo no é antes como alguém que anda pelo seu cami-
mundo, e tão pouco encontra-se Deus ausen~ nho e deseja que este seja o caminho certo:
tando-se dele: Aquele que, com todo o seu ser, no poder de seu desejo se manifesta a sua
vai de encontro ao seu Tu e lhe oferece todo aspiração. Cada evento de relação é uma etapa
ser do mundo encontra-o, Ele que não se pode que lhe possibilita um olhar sobre a relaçã9
procurar. completa: assim, em todas as relações, ele não
96 Sem dúvida Deus é o "totalmente Outro", toma parte da relação completa, mas também
Ele · orém o totalmente mesmo, o totalmente · toma parte, por estar pronto. Ele vai pelo seu
pr sente. Sem dúvida, ele é o "mysterium tre- caminho estando pronto e não procurando': por
endum" cuja aparição nos subjuga, mas Ele isso ele possui a serenidade para com as coisas
é também o mistério da evidência que me é e o modo de tocá-las que é para elas uma ajuda.
mais próximo do que o meu próprio Eu. Porém, quando ele encontra a relação com-
Na medida em que tu sondas a vida das pleta, o seu coração não se afasta das coisas,
coi.sas ~ a natureza da relatividade, chegas até mesmo que tudo agora venha ao seu encontro 97
o msoluvel; se negas a vida das coisas e da de uma só vez. Ele abençoa todas as celas que
relatividade, deparas com o nada; se santificas o abrigaram e todas nas quais ele se hospedará.
a vida, encontras o Deus vivo. Pois este achado não é o fim do caminho mas
o seu eterno centro.
É um achado sem que se tivesse procura..
* do: uma descoberta daquilo que é primordial,
O sentido-de-Tu do homem que experi~ originário. O sentido do Tu que não pode ser
menta, através das relações com o Tu indivi- saciado, até que ele tenha encontrado o Tu
dual, a decepção do tornar-se Isso, este sen~ infinito, que lhe estava presente desde o co-
tido aspira atingir o seu Tu Eterno, além de meço: bastou somente que esta presença se lhe
todas aquelas relações sem, contudo, negá-las. tornasse totalmente atual, de uma atualidade
Não como se se procurasse uma coisa; na ver.. da vida santificada do mundo.
dade, não há uma procura de Deus, pois, não Não significa que Deus possa ser dedu-
há nada onde não se possa encontrá-lo. Quão zido de alguma coisa, por exemplo, da natu-
insensato e sem esperança seria aquele que se reza como o seu autor ou da história, como
92 93
seu guia ou então do sujeito, como 0 si~ mesmo estas, mas total com realização e unificação
que nele se reflete. Não que exista um "dado" delas, é relativizada do ponto de vista psico-
qualquer que fosse dele deduzido, mas signi~ lógico, na medida cm que é reduzida a um
fica o existente diante de nós, na sua imediatez, sentimento delimitado que é realçado.
sua proximidade e duração, que sõ pode ser Do ponto de vista da alma, a relação per-
legitimamente invocado, mas não evocado. feita só pode ser concebida como bi~?lar, co-
mo uma "coincidentia oppositorum • como
união dos sentimentos contrários. Sem dúvida,
* um dos pólos - reprimido pela atitude fun- (t

Pretende~ se ver, como elemento essencial damentalmente religiosa da pessoa - de.sa-


na relação com Deus, um sentimento chamado parece à consciência retrospectiv~ e só pod~rá
"sentimento de dependência" ou mais clara~ ser lembrada na profundeza mats pura e Im•
)IIêfite;-em termos mais recentes, o sentimento parcial da introspecção.
de criatura. Por mais correto que seja fazer Sim, sem dúvida, na relação pura, tu te
realçar e definir este elemento, acentuando~o sentiste inteiram~nte dependente como nunca
de um modo exclusivo, se desconhece o caráter em alguma outra foste capaz de te sentir -
da relação perfeita. e também inteiramente livre como nunca e em
98 O que já foi dito a respeito do amor, vale nenhum lugar: criatura e criador. O que. pos... 99
aqui com maior razão: os sentimentos simples~ suias, então, não era mais um destes sentimen-
mente acompanham o fato da relação, que não tos limitado pelo outro, mas ambos sem reserva
se realiza na alma, mas entre o Eu e o Tu. e juntos.
Por mais que se queira conceber o sentimento Que necessitas de Deus, mais do que
como essencial, ele permanece submisso ao tudo, sempre o sabes em teu coração: porém,
dinamismo da alma, onde um é ultrapassado, não sabes também que Deus necessita de ti,
superado, abolido pelo outro; diferenciando~se de ti na plenitude de sua eternidade? Como
da relação, o sentimento baseia~se nunca es~ existiria o homem se Deus não tivesse neces..
cala. Mas, antes de tudo,. cada sentimento tem sidade Dele como tu existirias? Necessitas de
seu lugar no seio de uma tensão de polaridade; Deus para ~xistir e Deus tem necessidade de ti
ele toma sua cor e seu sentido não somente em pata aquilo que, justamente, é o sentido de .tua
si próprio, mas também em seu polo ~osto; vida. Os ensinamentos e poemas tentam dtzer
cada sentimento é condicionado pelo s u con~ mais e o fazem demasiadamente: que tristd e
trário. A relação absoluia que, na re idade, pedante verborréia que fala do "Deus em . e..
engloba todas as relativas e não é pareia como vir"; que, de fato haja um devir de Deus vtvo,
95
94
sabemos, certamente em nosso coração. O palavra-princípio sagrada que significa ação
mundo não é um jogo divino; ele é um destino mútua. Eles proferem Tu e o ouvem.
di'-:ino. O fato de que exista o mundo, que o
ho~em, a pessoa humana exista, que eu e tu
Querer ver a relação pura como uma de-
pendência é querer desatualizar um dos susten-
..
existamos tem um sentido divino. táculos da relação e por isso mesmo, ela pró.-
A criação - ela se realiza em nós ela pria.
penetra em nós pelo ardor, nos transf~rma
pelo seu brilho, nós estremecemos, desvanece.-
*
O mesmo ocorre, do outro lado, quando
mos, submetemo-nos. Nós nos associamos a se vê, como elemento essencial no ato religioso,
ela, encontramos nela o criador, nós nos ofe.. a absorção e a descida no si mesmo, seja li.-
/~a ela como auxiliares e companheiros. vrando o si mesmo de todo condkionamento
Dois grandes servidores percorrem os da egoidade, seja concebendo-o como o único
tempos: a pre.ce e a oferta. Aquele que ora ar.. que pensa e que é. O primeiro destes tidos de
repende-se em um sentimento de dependência consideração supõe que Deus venha integrar-se
sem reserva e sabe - de um modo incompreen- no ser livre do eu ou que este venha a reali-
sível - que atua sobre Deus, mesmo sabendo zar-se em Deus; o segundo tipo julga que o
que nada exige de Deus; pois, quando não as- ser livre do eu se coloque imediatamente em
pira a nada para si, ele vê a sua ação brilhar na si mesmo como se fora na Unidade divina. O 101
chama suprema. E aquele que apresenta a primeiro tipo implica, portanto que, em um mo.-
oferta? Não posso menosprezá-lo este correto mento supremo, o dizer-Tu deixa de existir já
servidor do passado que julgava qu~. eus dese.. que a dualidade é aholida; o segundo que não
100 java o perfume de seu holocausto; et' sabia de há verdade no dizer-Tu, pois já não há mais,
um modo insano, porém forte, que e podia e na realidade, dualidade. Se o primeiro tipo de
que se devia oferecer a Deus; isso mbém sabe consideração crê na unificação do divino e do
aquele que oferece a Deus sua vontade humilde humano, o segundo acredita na identidade ?o
~ fim de encontrá-lo e~ sua grande vontade. divino e do humano. Ambos afirmam um alem
Tua vontade seja feita é tudo o que ele diz, do Eu e do Tu, que no primeiro caso é um
más a verdade completa para ele: "através de além em devir - por exemplo no êxtase - e
mim, de quem necessitas". Em que a prece e a o outro, um além que existe e que se revel~ ~
oferta diferem de toda magia? Esta pretende por exemplo, na contemplação de si ..do suJeito
agir, sem entrar na relação, e pratica seus arti.- pensante. Ambos suprimem a relaçao; ~e um
fícios no ~a~io; a prece e·~ oferta, porém, co.- modo dinâmico no primeiro, onde o Eu e abo-
locam-se diante da Face , na realização da lido pelo Tu, que agora não é mais Tu mas o
96 97
ser Único: de um modo estático, por assim di- aquilo que pertence ao si não é para ser com...
zer, no segundo tiP.O, onde o Eu absorvido no preendido nem na verdade nem na atualidade".
Si...mesmo, .conhece... se como o único existente. O começo e o fim deste dois caminhos de...
A doutrina da dependência não deixa ao Eu, vem ser considerados separadamente.
que sustenta o arco universal da relação pura, Que a invocação do "somos um' é infun ...
senão uma realidade, tão vã e débil a pontQ. dada, torna... se claro para quem ler imparcial...
de não acreditar mais que ela seja capaz de mente, parágrafo por parágrafo, o Evangelho
sustentar algo: enquanto que uma doutrina da segundo João. É, sem dúvida, o Evangelho da
absorção cteixa desaparecer este arco no mo ... relação pura. Há mais verdade aqui do que na
mento de s:Jperfeição, a outra considera...o fórmula familiar dos versos místicos: "Eu sou
uma quimera a ser superada. tu e tu és eu". O Pai e o Filho consubstanciais
.- podemos afirmar: Deus e o Homem con ...
As doutrin s da absorção redamam para substanciais, constituem o par indestrutível-
si as grandes fórmulas da identificação ,. . . ., uma mente atual, os dois suportes da relação pri ...
delas sobretudo invoca a palavra de São João: mordial, que vinda de Deus ao homem se chama
"Eu e o Pai somos um" ,1 a outra invoca a dou ... missão e mandamento, indo do homem a Deus
trina de Sandilya "O que envolve tudo é o se chama contemplação e escuta e entre os dois
meu si mesmo no fundo do coração'; .2 se ·chama conhecimento e amor. É nesta rela-
102 Os caminhos destas sentenças se opõem ção que o filho, embora o Pai habite ~ o~er~
frontalmente. A primeira, (após uma emana ... nele, se inclina diante daquele que é matar
que ele e ora. São vãs todas as tentativas mo ... 103
ção subterrânea), jorra da vida miticamente
grande de uma pessoa e se realiza em doutrina. dernas em interpretar esta realidade originária
A outra emerge no interior de uma do=t ·na e do diálogo como um relacionamento do Eu ao
·Culmina (provisoriamente) na vida mifcamen ... Si ... mesm~ ou algo semelhante, um fenômeno
te grande de uma pessoa. Por este aminho, fechado no qual a interioridade do homem se ...
transforma...se o caráter da sentença. b Cristo ria auto-suficiente; tais tentativas pertencem à
da tradição joanina, o Verbo que uma vez se história insondável da desatualização.
encarnou, conc!uz ao Cristo de Mestre Eckart, ,. . . ., E a mística? Ela relata como se pode
que Deus engendra eternamente na alma vivenciar a unidade sem dualidade. Pode ... se
humana. A fórmula da coroação de si mesmo duvidar da exatidão de seu relato?
nos Upanishads: "Eis aqui o atual, o Si ...mes- .- Conheço não somente um, mas dois
mo, tu o és", conduz mais rapidamente à fór ... eventos onde se perde a consciência da dua ...
mula budista da deposição: "Um Si ... mesmo e lidade. A mística os confunde, às vezes, em

98
99
sua linguagem, como também eu os confundi e, em uma das partes, abandonado à perdição?'
outrora. De que serve à minha alma poder ser de novo
. Um destes eventos é o da alma que ai~ afastada deste mundo, se esse mundo perma...
cança a unidade. Não se trata de algo que se nece necessária e totalmente apartado da uni-
passa entre Deus e o homem, mas algo que dade? Para que este "prazer de Deus" em uma
ocorre no homem. As forças se concentram em vida dividida em dois? Se este momento ce~
um núcleo, tudo o que tenta desviá-las é do- lestial de abundante riqueza nada tem em co-
minado, o ser permanece em si mesmo e re"' mum com o meu pobre momento terrestre, o
jubila, .como iz Paracelso, em sua exaltação. que me importa, pois devo continuar vivendo
Para o home este é o instante decisivo. Sem sobre a terra, devo ainda viver com toda a se~
e~te, o home nã<:> é apto para a obra do espí~ riedade? Eis como se deve compreender os
n_t~. Com el dectde no seu íntimo, se isso sig- mestres que renunciaram às delícias do êxtase
mftca prep ação ou satisfação. O homem con- da "unificação" Tal unificação não era uma
centrado a unidade pode entrar em relação .- unificação. Eu os compraria com os homens que,
somente agora plenamente possível ..- com 0 na paixão do Eros realizado, são de tal modo
mistério e a salvação._ Mas, ele pode também transportados pelo milagre do abraço que a
saborear a felicidade da concentração e voltar consciência do Eu e do Tu cede lugar, neles, ao
à dispersão, sem acatar a tarefa suprema. Em sentimento de uma unidade que não dura e não
nos~o caminho tudo é decisão: voluntária, pres- pode durar. O que o vidente extasiado chama
sentida, secreta: esta decisão, no âmago de unificação, é a dinâmica extasiada da relação:
104 nosso ser, é a mais originariamente secreta e a não é uma unidade surgida no instante do tem~ 105
que nos determina mais poderosamente. po universal na qual viriam fundir-se o Eu e o
O outro evento é aquele insondável~i~ Tu, mas é o dinamismo da própria relação que,
do ato de relação pelo qual se percebe qu a colocando-se diante dos sustentadores desta
dualidade se torna unidade: (o um e 0 um relação, firmemente postos um diante do outro,
unidos, aí a nudez brilha na nudez) 3 O e pode confundi-la com o sentimento do vidente
Tu desaparecem, a humanidade que, há pouco extasiado. Aqui existe, então, um transborda~
estava na presença d~ .divindade, se submerge mento marginal do ato de relação. A própria
nela; aparecem a glortftcação, a divinização e a relação, sua unidade vital é sentida com tal
unidade. Porém, quando a}'duém iluminado e veemência que os seus componentes parecem
esgotado, voltar à miséria das coisas terres... empalidecer diante dela, e que pela sua exis-
tres e refletir com coração advertido sobre os tência, o Eu e o Tu, entre os quais ela se ins..
dois eventos, o ser não lhe apareceria dividido titui, serão esquecidos. Trata-se, aqui, de um
100 101
destes fenômenos que encontramos nas mar- com uma coisa, ele nada tem em comum: a
gens, onde a atualidade se amplia e se dilui. atualidade; ela é obrigada, então, a rebaixá-la
Porém, maior que estas oscilações enigmáticas a um mundo de aparência. E na medida em que
da ·margem do ser é a realidade central da esta dourtina contém uma indicação para se
hora quotidiana e terrena onde um raio lumi~ aprofundar no verdadeiro ser, ela não conduz
noso, sobre um galho, te faz pressentir o Tu à atualidade vivida,. mas para o aniquilamento,
eterno. onde não reina consciência alguma, de onde
Aqui, se coloca a exigência de outra dou~ não surge lembrança alguma.· O homem que
trina da absorção, segundo a qual o universo emerge deste aniquilamento, pode reconhecer a
e o si-m mo são idênticos de tal modo que experiência através da expressão-limite da
nenhum izer-Tu pode garantir uma última não-dualidade, sem, no entanto, poder chamá~
atualidad . -Ia unidade.
A ópria doutrina contém a resposta a Queremos, todavia, tomar um cuidado sa...
esta exi ência. Um Upanishad conta como o grado do bem sagrado de nossa atualidade
príncipe dos deuses, lndra, foi ao encontro de que nos é para esta vida e, talvez para nenhu...
Pradshapati, o espírito criador, para aprender ma outra vida mais próxima da verdade.
com ele a encontrar e conhecer o si-mesmo. Na atualidade vivida não há unidade do
Ele permanece um século na escola; despedido ~er. A atualidade é somente ação; sua força e
duas vezes com informações insuficientes até profundidade são as desta ação. E mais, só
que, finalmente, o justo lhe foi revelado: há atualidade "interior" na medida em que
"Quando se dorme em sono profundo e sem houver ação mútua. A atualidade mais forte 107
106 sonhos, tal é o si-mesmo, tal é o imortal, o e profunda ê aquela onde tudo se dirige à
certo, o universal". lndra se retira, mas, logo ação, o homem na sua totalidade, sem reserva,
um escrúpulo se apodera dele; ele se vol e e o Deus que tudo envolve, o Eu unificado e o
pergunta: "Em tal estado, ó Sublime, nin uém Tu ilimitado.
sabe algo sobre o si-mesmo: "Isso sou u" e O Eu unificado, pois. já falei sobre isso
não: "isso são os entes". Ele caiu no ani uila~ a atualidade vivida implica a unificação da
mento. Não vejo aí nenhum proveito. g, de alma, a concentração de forças em um núcleo,
fato, assim, Senhor, responde Pradshapati. o instante decisivo para o homem. Mas, isso
Na medida em que está doutrina contém não é, como aquela absorção, uma abstração
uma afirmação sobre o verdadeiro ser, não da pessoa atual. A absorção não quer conser-
importa qual seja o seu conteúdo de verdade var senão o que é puro. autêntico, durável e se
- que não podemos descobrir nesta vida - desfazer de tudo o mais; a concentração não

102 103
considera o instintivo como impuro, assim como não subsiste. Esta recusa, este "nobre silêncio"
não considera o sensível como superfidal e o pode ser interpretado de dois mo?os: um t~ó..
emotivo como fugaz; tudo deve ser incluído, rico, porque a perfeição escapa as categ_o~1as
integrado. Ela não deseja o si mesmo abstrato, do pensamento e do discurso: o outro prãt1co,
mas o homem inteiro, integral. Ela quer a atua~ porque a revelação de sua essência não basta
lidade, ela é a atualidade. para fundamentar uma verdadeira vida de sal-
vação. As duas interpretações se completam
A doutrina da absorção exige e promete a como verdade: aquele que faz do ente um ob·
entrada no uno pensante, "naquele que pensa jeto de uma proposição, leva-o para o mundo
o mundo", no sujeito puro. Porém, na realidade da divisão' para a antítese do mundo do Isso
vivida, não há pensante sem pensado, e mais, - no qual não existe vida de salvação. "Oh!
a ui o pensante depende tanto do pensado co~ monge, quando a opinião de que a alma e o
mo este daquele. Um sujeito que dispensa um corpo são essencialmente idênt~cos prevalece.
objet anula a sua própria atualidade. Não há não pode haver vida de salvaçao: ?h! mon~e,
pensa te em si senão no pensamento do qual quando a opinião de que a alma e uma c~1sa
ele é produto e o objeto, como um conceito~ e 0 corpo outra prevalece, não pode, tambem,
-limit isento de qualquer representação. As- haver vida de salvação. "No mistério contem~
sim, ele existe, na determinação antecipadora piado, como !!-a realid~d: vi_vida .o ~u: r~ina não
da morte, à qual se pode comparar um sono é o "é assim nem o nao e ass1m nao e nem o
profundo quase tão impenetrável quanto ela. ser nem o não-ser, mas o assim-e-de-outro mo· 109
108 Finalmente, existe na mensagem da doutrina do 0 ser-e-o-não-ser, o indissolúvel. Apresen:
sobre um estado de absorção que se assemelha ta;·se indiviso em face do mistério indiviso e
a um estado de sono profundo, por natureza. condição originária de salvação. g evid~nte
sem consciência e sem memória. São estes os que Buda foi um daqueles que reconheceu 1sso.
cincos mais altos do mundo do Isso. Deve-se Como todos os verdadeiros mestres, . ele quer
respeitar o sublime poder de ignorar e rec~he­ ensinar não uma doutrina mas o -cammh~: Ele
cê-lo respeitosamente como aquilo que, no má- não contesta senão uma única afirm~çao,_ a
ximo, se pode vivenciar mas que não se ode dos "insensatos", para os quais não ha açao,
viver. nem ato, nem força; pode-s_e segui: o ca~i~ho.
Buda, o "perfeito", e o qúe aperfeiçoa não Ele arrisca uma só afirmaçao, porem, dec1s1va:
fala. Ele se recusa a opinar sobre se a unida~ "Há ó monges, um ser que não nasceu, que
de existe ou se não existe; ele não diz se aquele não ~e transformou, que não foi cric:do o~ f~~...
que passou por todas as provações da absorção mado" Se este ser não existisse, nao ex1stma
subsiste, depois da morte, na unidade, ou se ele fim al~um. Ele existe, e o caminho tem uma
finaldade.
105
104
É at-é aqui que podemos, permanecendo formas" que longe de ser uma ilusão, é o mundo
fieis à verdade de nosso encontro, seguir Bu~ autêntico (apesar dos paradoxos subjetivistas
da; um passo mais, seríamos infiéis à a1:uali- da intuição que para nós fazem parte dele). Seu ~,
dade de nossa vida. Pois, a verdade e a atuali~ caminho é também uma abstração e quando ele
dade, que nós não tiramos de nós mesmos mas fala por exemplo. de tomar consciência dos pro~
que nos são dadas e repartidas, nos ensinam cessas de nosso corpo. ele quer dizer com isso
que, se este fim é somente um entre outros, quase o c-ontrário do conhecimento certo de nos~
não pode ser o nosso; se for o fim ele é falsa- so corpo. E ele não conduz o ser unificado mais
mente fixado. E mais: se for um fim entre ou~ adiante até o supremo dizer~Tu que lhe é ofe..
tros, o caminho pode conduzir até ele; se for o reciclo. Sua decisão, no âmago do ser. parece (j

fim, o caminho somente conduz mais perto dele. levar à supressão da possibilidade de dizer~Tu.
Buda designa como o fim a "abolição da Buda conhece o dizer~Tu ao homem - is-
dor", isto é, do devir, da morte: a redenção do to patenteia~se pelo trato com os discípulos,
círculo dos nascimentos. "Não há volta à vida" trato esse que, embora fortemente superior. é
tal é a fórmula daquele que se libertou do de~ imediato - porém ele não o ensina; pois o sim..
sejo de existência e, com iso, do dever~tornar~ pies confronto face~a~face de um ser com ou~
~se~continuamente. 5 Ignoramos se há regresso; tro é estranho a este amor que se chama "en.. 111
nós não prologamos, para além desta vda, as cerrar indistintamente em seu seio tudo o que
11 O linhas da dimensão de tempo na qual vivemos se tornou". Sem dúvida, ele conhece também, no
e não tentamos descobrir o que deseja revelar~ âmago de seu silêncio o dizer..-Tu par~ o prin;,
~se a nós em seu tempo e segundo sua lei. Se cípio primeiro, para além de todos os deuses
soubéssemos que há um regresso, nós não pro~ que ele trata como discípulos; o seu ato proveio
curaríamos de modo algum, escapar dele, po~ de um fenômeno de relação que se tornou subs..-
rém em vez de aspirar à existência bruta, dese~ tancial, ato este que é também uma resposta ao
jaríamos poder proferir, em cada existê~cia, se~ Tu; mas ele não diz nada.
gundo seu modo e sua língua, o Eu et~rno do Os seus seguidores em todas as nações, o
efêmero e o Tu eterno do imortal. 1
1\ "Grande Veículo" 6 o renegaram majestosamen..-
Não sabemos se Buda leva a bom termo a te. Eles invocaram sob o nome de Buda, o Tu
libertação da necessidade~de~renascimentÓ. Cer~
eterno dos homens. Eles o aguardam como ao
tamente conduz a um fim in~rmediário que nos
Buda futuro, o último desta época, aquele que
interessa também: à unificação da alma. Po~
deve realizar o amor.
rém, para nos conduzir a ele, não só ele nos
conserva afastados da "floresta de opiniões', o Toda doutrina da absorção repousa sob a
que é necessário, mas também da "ilusão das ilusão gigantesca do espírito humano, voltado

106 107
para si mesmo, de que ele existe no interior do uma "redução" a uma realidade anterior:
homem. Na verdade ele existe a partir do h o~ aquele que não respeita as últimas unidades,
mem, entre o homem e o que não é o homem. anula o sentido que é apreensível mas não com-
Na· medida em que o espírito voltado sobre si preensível.
renuncia a este seu sentido, ao sentido da re~ O nascimento e a abolição do mundo não
lação, ele é obrigado a colocar no homem estão em mim; mas não estão também fora de
aquilo que não é o homem, ele é obrigado a mim; eles simplesmente não são mas aconte•
reduzir o mundo e Deus a um estado de alma. cem sempre e seu acontecimento não só se so- ·
Esta é a ilusão psíquica do espírito. lidariza com minha vida, com minha decisão,
"Eu anuncio, ó amigo, diz Buda, que este com minha obra, com meu serviço, mas tam·
alto corpo de asceta, dotado de sensibilidade, hém dependem de mim, de minha vida, de mi..
habita não só o mundo, o nascimento, a abolição nha decisão de minha obra e de meu serviÇ<?·
do mundo mas também o caminho que leva a Não depende, porém, do fato de eu "afirmar''

) essa abolição do mundo".


Isso é verdadeiro, porém, em última aná~
lise não é mais verdadeiro.
Sem dúvida o mundo "habita" em mim en~
quanto representação, do mesmo modo que
ou "negar" o mundo em minha alma, mas do
fato de eu transformar em vida minha atitude
de alma diante do mundo, uma vida que atua
no mundo, uma vida atual; e numa vida atual
podem cruzar~se caminhos que provêm de ati•
habito nele enquanto coisa. Mas isso não im~ tudes de alma bem diferentes. Porém, aquele
plica que ele esteja em mim, assim como não que se contenta em vivenciar sua atitude, e ~ 113
estou realmente nele. Ele e eu nos incluímos mente realizá~la em sua alma, pode ser bem riCO
mutuamente. A contradição mental inerente em pensamentos, mas é sem mundo, e to?os os
ao vínculo com o Isso é abolida pelo vínculo jogos, as artes, a embriaguês, ;>s e~tusiasmos
com o Tu que não me separa do mundo senão e mistérios que nele se passam nao atmgem nem
para ligar~me a ele. mesmo a pele do mundo. Enquanto alguém se
Trago em mim o sentido do si~mesmo que liberta somente em seu si..mesmo, não pode fa•
não integra com o mundo. O sentido do ser, zer nem bem nem mal ao mundo, não importa
que não pode ser integrado na representação, ao mundo. Somente aquele que crê no mun?o
o mundo o leva em si. O s~ntido do ser não pode ter algo a ver com o mundo. Se ele se arris-
é, porém, um "querer" pensável, mas é a pró~ ca nele não permanece privado de Deus. Se
pria mundanidade do mundo, assim como o sen~ amamos' o mundo atu.al, que não quer deixar
· ..se
tido do si~mesmo não é um sujeito cognoscente, abolir , realmente , em todos os seus horrores,
d o
mas a total egoidade do Eu. Não cabe aqui se ousarmos enlaçá~lo com os braços e noss
109
108
espírito, então nossas mãos encontrarão as sentido da situação. O sentido da situação é,
mãos que sur .:>rtam o mundo. de um lado, que ela deve ser vivida com todas
Nada S.!i sobre um "mundo" e sobre uma as suas antinomias, e, de outro, que ela só pode
"vida no mundo" que separe alguém de Deus; ser vivida sem cessar, sempre nova, imprevi::l-1
o que assim se denomina é a vida com o mundo sível, inimaginável, impossível de ser prescrita.
do Isso, que se tornou estranho, que é experi~ Uma comparação entre as antinomias re~
enciado e utilizado. Aquele que verdadeira~ ligiosas e as antinomias filosóficas poderá es~
mente vai ao encontro do mundo vai ao en~ clarecer isso. Kant pode relativizar a antinomia
contro de Deus. :É necessário se recolher e filosófica entre a necessidade e a liberdade
sair de si, realmente os dois, o "um~e~outro' atribuindo aquela ao mundo fenomenal e esta
que é a unidade. ao mundo do ser, de tal modo que os dois pos~
Deus envolve o universo mas não é o Uni~ tulados cessem de se opor frontalmente, e
verso; do mesmo modo Deus abarca o meu si~ mais, perfaçam um compromisso, assim como os
~mesmo e não o é. Por causa deste querer ine~ mundos, nos quais eles são válidos. Porém se
fável, posso dizer Tu em minha língua, como eu penso a necessidade e a liberdade, não em um
cada um pode proferi~lo na sua; em virtude universo de pensamento, mas na atualidade de
deste querer, existe o Eu e o Tu, o diálogo, a minha presença~diante~de~Deus; se eu sei que
língua, o espírito cujo ato originário é a lin~ "estou entregue em suas mãos" e que aos mes~
guagem. enfim, desde toda a eternidade, a Pa~ mo tempo "tudo depende de mim". então não
lavra. posso tentar escapar ao paradoxo que tenho
para viver, consignando aos dois princípios in-
* conciliáveis dois domínios separados. Não devo
então recorrer a nenhum artifício teológico a 115
1H A situação "religiosa" do homem, sua fim de facilitar uma reconciliação conceituai;
existência na presença é caracterizada por an~ devo obrigar~me a vivê~los simultaneamente e
tinomias essenciais e insolúveis. O fato de se~
se são vividos, eles são um.
rem insolúveis constitui a essência destas an~
tinomias. Quem admite a tese e rejeita a antí~
tese, altera o sentido da situação. Tentar *
pensar uma síntese é destruir 6 sentiClo da si~ Os olhos do animal têm o poder de uma
tuação. Esforçar~se em relativizar estas· anti~ grande linguagem. Por si próprios, sem o au~
nomias é abolir o sentido da situação. Querer xílio de sons e gestos, mais eloqüentes quando
resolver os conflitos destas antinomias com estão absortos inteiramente em seu olhar, eles
outra coisa a não ser a vida, é pecar contra o desvendam o mistério no seu encobrimento na~

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tural, isto é, na ansiedade do devir. Somente o o Eu; por "Isto.. deve-se representar o fluxo
animal conhece este estado do mistério somen- do olhar humano em toda atualidade de sua
te e,Ie pode revelá-lo para nós - mistêrio este força de relação) . O olhar do animal, esta ex-
que somente deixa abrir-se e não revelar-se. A pressão de ansiedade apenas abriu-se enorme-
linguagem na qual isso acontece é o que ela mente e já se apagava. Meu olhar era perse..
exprime: a ansiedade, a emoção da criatura verante mas não era mais o fluxo do olhar hu-
colocada entre o reino da segurança vegetal e mano.
o reino da aventura espiritual. Esta linguagem A rotação do eixo universal que inaugura
é o balbucio da natureza, sob o primeiro en.. o evento da relação havia sucedido quase ime- ,,
volvimento do espírito, antes que ela se aban- diatamente outra, que coloca um fim nela.
done a ele para sua aventura cósmica que cha- Há pouco, o mundo do Isso nos envolvia, o
mamos homem. Todavia, discurso nenhum re- mundo do Tu havia emanado das profundezas
petirá o que este balbucio pode comunicar. no instante de um olhar e agora já caiu de novo
Olho às vezes nos olhos dum gato do.. no mundo do Isso.
méstico. O animal doméstico não recebeu algo
Relato este pequeno acontecimento que
de nós, como às vezes imaginamos, o dom do
olhar verdadeiramente "eloqüente .. , mas so- me aconteceu algumas vezes por causa da lin-
mente - ao preço da ingenuidade elementar guagem desta aurora e ocaso, quase impercep-
- a faculdade de nô-lo endereçar. a nós que tíveis do sol espiritual Em nenhum outro, senti
não somos animais. Mas, por isso, ele tomou em tão profundamente a efemeridade da atuali-
116 si, em sua aurora e ainda em seu alvorecer, não dade de todas as relações com os seres, a me-
sei que ar de espanto e interrogação que, são lancolia sublime de nosso destino, a volta fatal 117
totalmente ausentes no primitivo, apesar de sua do Tu individualizado ao Isso. Pois, caso con-
ansiedade. É incontestável que o olhar deste trário entre a manhã e a noite deste aconteci•
gato, iluminado pelo bafejo de meu olhar de mento, havia um dia, por mais breve que fosse;
início me pergunta: "É possível que tu te mas, aí, a manhã e o anoitecer se fundiam um
ocupes de mim? O que desejas realmente de no outro, a luz do Tu apenas aparecia e já se
mim é outra coisa do que simples passa-tempo? desvanecia. O peso do mundo do Isso havia
Interessas-te por mim? Existo para você, existo? sido realmente tirado de mim e do animal, no
O que vem de ti para mim? O que hã em torno espaço de um olhar? Eu podia, em todo caso,
de mim? o que me acontece? O que é isto? (Eu lembrar-me ainda, mas o animal havia recaído
aqui é uma perífrase para uma palavra que não do balbucio de seu olhar à ansiedade muda e
temos, pela qual se designaria a si mesmo sem quase sem lembranças.
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· Como é poderosa a continuidade do mun.- às vezes, Voi. O vidente do Paradiso, quando
do do Isso! e como são frãgeis as aparições do diz Colui, usa um terno impróprio - por ne.-
Tu! cessidade poética - e sabe disso. Que se in.-
' Tantas coisas nunca chegam a romper a voque Deus como um Ele ou como um Isso é
crosta da realidade material. Oh! débil pedaço sempre uma alegoria. Ao dizermos Tu para Ele /1

de mica cuja visão me deu certa vez, por pri.- é o sentido mortal tornando palavra a verdade
meiro. a entender que o Eu não é algo que inquebrantãvel do mundo.
existe "em mim' - e todavia, é somente em
mim que me uni a ti; foi somente em mim e
não entre ti e mim que o evento se sucedeu
* (]

outrora. Porém, quando um ente vivo surge Toda relação atual no mundo é exclusiva: 119
dentre as coisas e se torna um ser para mim o outro penetra nela e vinga a sua exclusão.
e se volta para mim na proximidade e na pala.. Somente na relação com Deus a exclusividade e
vra, quão inevitavelmente breve o instante no a inclusividade absolutas se unem numa uni.-
qual este ser nada mais é do que um Tu! Não dade, onde tudo é englobado.
é a relação que necessariamente se debilita, Toda relação atual no mundo repousa
mas a atualidade de sua imediatez. O próprio sobre a individuação: esta é a sua delícia pois,
amor não pode persistir na imediatez da rela.- só assim é permitido o conhecimento mútuo da.-
ção: ele dura, porém numa alternância de atua.- queles que são diferentes: ela é também o seu
lidade e de latência. Cada Tu no mundo é obri- limite pois, assim impede tanto o perfeito reco.-
gado por sua própria natureza, a se tornar uma nhecer como o perfeito ser.-reconhecido. Na re-
coisa para nós ou de voltar sempre ao estado lação perfeita, o meu Tu engloba o meu si.-
de coisa. -mesmo, sem no entanto, ser o si..mesmo: o meu
118 Somente em uma relação que tudo envo}.. reconhecimento limitado se expande na pos..
ve, a própria latência é atualidade. Somente sibilidade ilimitada de set reconhecido.
um Tu, por essência, não deixa de ser um Tu Toda relação atual no mundo realiza.-se
para nós. Quem conhece Deus, conhece, sem numa permuta de atualidade e latência, todo
dúvida, o distanciamento de Dfus, e o tormen.. Tu individual deve transformar.-se em crisãlida
to da seca que ameaça o coração angustiado, do Isso para que as asas cresçam novamente.
mas não a ausência de presença. Nós- é que Mas, na verdadeira relação, a latência não é
não estamos sempre presentes. mais que a pausa da atualidade onde o Tu
O amante da Vita Nuova diz, exata e permanece presente. O Tu eterno é, segundo
justamente, o mais das vezes Ella e, somente sua essência, um Tu: é nossa natureza que nos

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obriga a inseri-lo no mundo do Isso e na lin- forma primordial metacósmica inerente ao mun..
guagem do Isso. do como totalidade em seu vínculo com aquilo
que não é mundo, dualidade cuja forma hu..
mana é a dualidade de atitudes, das palavras..
* ..princípio e dos aspectos do mundo. Este duplp
O mundo do Isso é coerente no espaço e movimento por força do destino, se desdobra
no tempo. no tempo e está encerrado por graça, na cria..
O mundo do Tu não tem coerência nem no ção intemporal, que inconcebivelmente, é ao
espaço nem no tempo. mesmo tempo liberação e preservação, liber-
Sua coerência ele a possui no centro onde tação e ligação. O nosso conhecimento a res- /j

as linhas prolongadas das relações se cortam: peito da dualidade silencia diante do paradoxo
no Tu eterno. do mistério originário.
No grande privilégio da relação pura, os
privilégios do mundo do Isso são abolidos. A
continuidade do mundo do Tu é assegurado
*
graças a esse privilégio: os momentos isolados São três as esferas nas quais o mundo da
das relações se unem para uma vida ele vínculo relação se constroi.
no mundo. Este privilégio confere ao mundo A primeira é a vida com a natureza onde
do Tu seu poder formador: o espírito é apto a relação permanece no limiar da linguagem.
a penetrar nele e transformá-lo. Graças a este A segunda esfera é a vida com os homens
privilégio não somos abandonados à estranheza onde a relação toma forma de linguagem.
do mundo, nem à desatualização do Eu e à A terceira é a vida com os seres espiri..
tirania de fantasmas. A conversão consiste em tuais onde a relação embora sem linguagem
reconhecer novamente o centro e a ele voltar- gera a linguagem.
-se novamente.,. Neste ato essencial ressurge a Em cada uma destas esferas, em cada ato
força de relação do homem, a onda de todas de relação, através de tudo o que se nos torna
as relações se espalha em torrentes vivas e re- presente, vislumbramos á orla do Tu eterno,
" 120 nova nosso mundo. em cada uma percebemos um sopro dele, em
Talvez não só o nossO', pois, podemos cada Tu nós nos dirigimos ao Tu eterno. se- 121
pressentir o duplo movimento - de um lado o gundo o modo específico a cada esfera. Todas
distanciamento da fonte primordial gráças ao as esferas são inclu{das nele, mas ele não estâ
qual o Todo, c universo se mantém no devir. incluído em nenhuma.
de outro lado. a volta para a fonte primordia1 Através delas irradia-se uma presença
graças à qual o universo se redime - como a única.
117
116
Não podemos desligá,..Jas da presença. .gem encontra sua resposta. Somente aqui, a
Da vida com a natureza podemos extrair palavra~princípio é dada e recebida da mesma
o mundo "físico", o mundo da consistência; da forma, a palavra da invocação e .a palavra da
vida com os homens, o mundo "psíquico" e da resposta vivem numa mesma lingua, o Eu e o
afetibilidade; da vida com os seres espirituais, Tu não estão simplesmente na relação mas tam-
o mundo "noético", o da validade. Todas as bém na firme integridade. 7 Aqui, e somerfte
esferas perdem então sua transparência e por• aqui, há realmente o contemplar e o ser-con-
tanto o seu sentido; cada uma tornou-se utili- templado, o reconhecer e o ser-reconhecido, o
zável e opaca, e permanece opaca mesmo que amar e o ser-amado.
nós lhes atribuamos nomes brilhantes como É esta a entrada principal em cuja aber-
Cosmos, Eros, Logos. Na verdade, não há tura abrangente incluem-se as duas portas la-
Cosmos para o homem senão quando o universo terais.
se torna uma moradia com terra sagrada, na "Quando um homem está intimamente uni·
qual ele apresenta a sua oferta; não há Eros do a sua mulher, estão envolvidos pelo sopro
para ele, senão quando os seres se lhe tornam das colinas eternas".
imagens do eterno e a comunidade com eles A relação com o ser humano é a verda,..
torna-se revelação; não há Logos para ele se- deira imagem da relação com Deus, na qual a
não quando ele se dirige ao mistério através da verdadeira invocação participa da verdadeira
obra e do serviço no espírito. resposta. Só que na resposta de Deus tudo, o
O silêncio imperativo da forma que apa• Todo se revela como uma linguagem.
rece, a linguagem amante, o mutismo anuncia•
dor da criatura: todas são portas na presença *
Porém, a solidão não é ela também uma
da Palavra.
Porém, quando o encontro perfeito deve porta? Não se revela, às vezes, no mais silen,..
realizar-se, estas três portas se reunem em um cioso isolamento, uma visão inesperada? O ifl."'
portal que é o da vida atual, e então não sabes tercâmbio consigo mesmo não pode transfor,.. 123
mais por qual delas entraste. mar-se misteriosamente em um intercâmbio
com o mistério? E mais, não é aquele que não
é submetido a nenhum ser, o único digno
* de se encontrar com o Ser? "Vem, oh! So·
122 Entre as três esferas uma se destaca: é litário, para o solitário", exclama Simeon,
vida com os homens. Aqui a linguagem se com.. o Novo Teólogo para o seu Deus.
pleta como seqüência no discurso e na réplica. - Há dois tipos de solidão, segundo
Somente aqui, a palavra explicitada na lingua- aquilo de que ela se afasta. Se solidão significa
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afastar-se do comércio com as coisas de expe- ele. Mas, embora Deus nos envolva e habite em
riências e utilização, então ela é sempre ne- nós, jamais o possuímos em nós. E podemos fa-
cessária. não só para a relação suprema mas lar com ele somente na medida em que nada
sobretudo para o ato de relação. Porém se se mais falar em nós.
compreender a solidão como ausência de re-
lação, não é aquele que abandonou os seres
que será acolhido por Deus, mas aquele que foi
*
Um filósofo moderno acha que cada ho-
deixado pelos seres aos quais ele endereçava mem crê necessariamente seja em Deus, seja
o Tu verdadeiro. Permanece preso a alguns em "ídolos', isto é, em algum bem finito - sua (j
dentre os seres somente aquele que cobiça uti- nação, sua arte, no poder, no saber, no dinheiro,
l~zá-l_?s; aquele que vive no poder da presenti- no "constante triunfo com mulher" - um bem
ficaçao só pode estar ligado a eles. Só aquele que se lhe torna absoluto e que se interpõe en-
que está vinculado com os seres está pronto tre Deus e ele e que hasta somente demonstrar-
para o encontro com Deus. Pois, somente ele, -lhe a qualidade relativa deste bem para "des--
leva ao encontro da atualidade de Deus uma truir" os ídolos e para o ato religioso voltar,
atualidade humana. por si mesmo, ao ohjeto adequado.
Ademais, há dois tipos de solidão segundo Esta concepção supõe que o contato do
aquilo a que elas se propõem. Se a solidão é o homem com os bens finitos que ele "idolatra"
lugar onde se realiza a purificação como se é, em última análise, da mesma natureza que
faz necessária para aquele que está vinculado o contato com Deus e só difere quanto ao oh-
antes de penetrar no Santo dos Santos, mas jeto; neste caso, a simples substituição do ohje-
necessária também no meio de suas provaçõés to falso pelo autêntico poderia salvar o pecador.
entre a queda inevitável e a subida para com- H as o contato de um homem com "algo espe-
provação, então. é para a solidão que somos cial" que usurpou o trono supremo dos valores
feitos. Porém, se a solidão é uma fortaleza da de sua vida e desalojou a eternidade, é orien..
separação, onde o homem mantém um diálogo tado sempre para o experienciar e o utilizar de 125
consigo mesmo. não com o intuito de por-se à um Isso, de uma Coisa, ou de um objeto de
prova e de dominar-se em vista do que o es- prazer. Pois, somente tal contato pode obstruir
pera, mas para desfrutar a complexão de sua a perspectiva sobre Deus pela interposição
alma, tal é a verdadeira decadência do espírito opaca do mudo do Isso; a relação que profere
na espiritualidade. Tal decadência pode .au- o Tu abre sempre de novo esta perspectiva.
12-t mentar até o último abismo onde o homem ilu- Aquele que é dominado pelo ídolo, que ele quer
dido imagina possuir em si Deus e falar com ganhar, possuir e reter, que é possuído pela
120 121
vontade de posse, não tem outro caminho para Tu ao dinheiro? E o que deve ele fazer com
Deus senão a conversão que é uma mudança, Deus, se ele não sabe dizer Tu? Ele não pode
não somente quanto ao fim, mas também quanto servir a dois senhores, mesmo que seja um após
ao tipo de movimento. Cura-se o possesso reve- o outro, ele deve, antes de tudo, aprender a
lando-lhe e ensinando-Jhe o verdadeiro vínculo servir diferentemente.
e não orientando para Deus sua obsessão. Se al-
guém permanece no estado de posse, o que O convertido, graças à substituição, tem um
significa o fato de, em vez de invocar o nome fantasma que ele chama Deus. Porém, Deús a
eterna presença não se deixa possuir. Infeliz o
de um demônio ou de um ser disfarçado em
demônio, se invocar o nome de Deus? Signi· possesso que crê possuir Deus!
fica que, com isso, ele blasfema. ~ blasfêmia
quanqp alguém depois que o idolo saiu atrás
do altar, pretende apresentar a Deus a oferta
*
~pia sobre o altar profanado. Afirma-se que o homem "religioso" é aque..
le que não necessita estar em relação com o
Quando um homem ama uma mulher de mundo ou com os seres, porque o estado de vi..
tal modo que ele a torna presente em sua vida, da social, determinado do exterior, é ultrapas..
o Tu do olhar dela lhe permite vislumbrar um sado por uma força que só agiria do interior.
raio do Tu eterno. Mas aquele que é ávido de Confunde-se assim ,sob o conceito de social.
"triunfos sempre renovados" - apresentareis duas coisas fundamentalmente diferentes: a
a esta cobiça um fantasma de eternidade? comunidade, que se edifica pela relação, e a
Quem se consagra ao serviço de um povo, no massa de unidades humanas sem relação entre
ardor de um imenso destino, se ele quiser de- si, isto é, a ausência de relação, que se tomou
votar-se a ele, pensa em Deus. Porém àquele evidente no homem moderno. Porém, o claro
para o qual a nação é um ídolo, a cujo serviço edifício da comunidade para a qual pode-se
ele queria tudo submeter, porque nesta imagem ser libertado da masmorra da sociabilidade é
ele exalta sua própria imagem, acreditais que obra da mesma força que atua na relação do 127
126 basta que o façais se desgostar para que ele veja
homem com Deus. Todavia, esta relação não
a verdade? E o que significa que alg~u· que é uma relação entre outras; ela é a relação to-
trata o dinheiro - o não-ser encarnado "como tal na qual todas as torrentes desaguam sem,
se fosse Deus?" Que hã de comum ent avo- com isso, se esgotar. Mar e rios - quem de-
lúpia de apoderar-se de um tesouro e onser- seja aqui distinguir e traçar limites? Não ~á
vá-lo com alegria na presença daquele que se senão um fluxo do Eu para o Tu, cada vez mats
torna presente? Pode o servo de Mamon dizer ilimitado, uma maré única e sem limites da vi-
122 123
da atual. Não se pode dividir a vida entre uma
relação atual com Deus e um contato inatual de da. Isto significa dizer que Deus não teria
Eu-Isso com o mundo; não se pode orar ver- criado senão um mundo aparente e o homem
dadeiramente a Deus e utilizar o mundo. Aquele como um ser para a vertigem. Sem dúvida,
que só conhece o mundo como algo que se uti- aquele que se apresenta diante da Face, ultra..
liza vai conhecer Deus do mesmo modo. Sua passou o dever e a falta, não porque tenha se
prece é um modo de se desobrigar: ela cai no afastado do mundo, mas pelo contrário, porque
ouvido do nada. Tal homem é o homem sem realmente dele se aproximou. Não se tem de..
Deus, e não o "ateu •• que, do fundo da noite ver e culpa senão para com os estranhos:~ para
e da nostalgia da janela de seu quarto, invoca com familiares tem-se afeição e ternura. Para
o inominado. quem se apresenta diante da Face, o mundo s6
se toma realmente presente, à luz da eterni-
Afirma-se ainda que o homem religioso dade, na plenitude da presença; ele pode então,
se apresenta diante de Deus como o Indivíduo, de um só impulso, proferir o Tu a todos, ao
como o único, separado, porque ele ultrapassou ser de todos os seres. Não há mais aí a tensão
também o estado do homem "moral" que ainda entre o mundo e Deus, mas somente a atuaJi..
está inserido no dever. e na obrigação do mun- dade única. Tal homem não se libertou da
do. O homem moral ainda está sobrecarregado responsabilidade, ele permutou a tormenta de
com a responsabilidade de todos atos dos ho- uma responsabilidade finita, que procura resul-
mens de ação, po~s ainda está totalmente deter- tados pelo poder do elan de uma responsabi..
minado pelo estado de tensão entre o ser e o lidade infinita, a força de assumir com amor a
dever-ser e que, em sua abnegação grotesca e responsabilidade por todos os acontecimentos
sem esperança, atira, aos poucos, o seu coração inexploráveis do mundo o estar-inserido-no--
no abismo infinito entre os dois. O "religioso", -mundo diante da Face de Deus Sem dúvida, ele
porém, livrou-se daquela tensão e elevou-se renunc1ou para sempre às avaliações morais. O
àquela outra entre Deus e o mundo: aí impera a "mau" é aquele por quem ele se sente profun..
lei de excluir a inquietude da responsabilidade damente responsável, aquele que é o mais ca..
128
e também a lei do que-exige-de-si-mesmo. Não rente de seu amor: porém deverá ele exercitar
há mais vontade próp., mas só o conf~mar-se o decidir-se nas profundezas da espontaneida-
com o que é disposto; aí, todo dever fu âamen- de, até a morte; ele deverá sempre realizar o
ta-se no absoluto, e o mundo, se ele ubsiste calmo decidir..se..sempre no agir corretamente.
ainda, perdeu o seu valor. Deve-se dese enhar O agir, então, não será em vão: ele é intencio-
o seu papel nele, por assim dizer, se~ compro- nal, é uma missão, tem..se neceSISidade dele, ele
misso, visto que toda atividade se reduz ao na- pertence à criação; porém, este fazer não impõe
124
125
mais ao mundo, cresce nele como se fosse o O homem recebe e o que ele recebe não
não..fazer. é um "conteúdo" mas uma presença, uma
presença que é uma força. Esta presença
e esta força encerram três fatos, que embora
* indivisos, podemos encará..}os separadamente.
Em primeiro lugar, toda a plenitude da ver..
O que é o eterno: o fenômeno primordial dadeira reciprocidade, do fato de ser acolhido,
presente no aqui e agora que nós chamamos Re.. de estar vinculado; sem que se possa, 'de ai..
velação? É o fenômeno pelo qual o homem não gum modo, dizer como é feito aquilo a que se
sai do momento do encontro supremo do mes.. está ligado e sem que esta ligação nos facilite
mo modo como entrou. O momento do encontro a vida - ela nos torna a vida mais pesada,
não é "vivência" que surge na alma receptiva e porém mais pesada de sentido. Apresenta..se
se re:tiza perfeitamente; algo aí acontece no então o segundo ponto: é a inefável confirma..
homem. As vezes parece um sopro, às vezes, ção do sentido. Este sentido é garantido. Nada,
como se fora uma luta, pouco importa: acon.. nada mais pode ser sem sentido. A questão do
tece. Ao sair do ato essencial da relação pura, sentido da vida não se coloca mais. Porém se
o homem tem em seu ser um mais, um acréscimo ela se colocasse, não precisaria ser respondida.
sobre o qual ele nada sabia antes e cuja ori.. Não sabes demonstrar o sentido e não sabes de..
gem ele não saberia caracterizar corretamente. finf..}o, para ele não possuis nem fà'rmula nem
Não importa como a concepção científica do imagem e, no entanto, ele é para ti mais certo
mundo, em seu esforço legítimo em estabele.. que os dados de teus sentidos. O que tem ele
cer uma causalidade sem lacuna, classifica a a ver conosco então? O que exige de nós este
proveniência da novidade; quanto a nós, a quem sentido revelado mas oculto? Ele não é inter..
importa a verdadeira consideração do atual, pretado - isso não nos é possível - ele só
não basta aqui um subconsciente ou qualquer quer que o realizemos. É este o terceiro ponto:
outro mecanismo psíquico. A verdade é que não se trata do sentido de uma "outra vida",
recebemos algo que não possuíamos antes e o mas de nossa vida, não de um "além", mas
recebemos de tal modo que sabemos q'IJe isto deste nosso mundo, e ele quer que nós o colo..
nos foi dado. Em linguagem bíblica: "A~eles quemos à prova, nesta vida, neste mundo. Em.. 131
que esperam em Deus receberão a forç em hora este sentido possa ser concebido, ele não
troca". E, como diz Nietzche, fiel à realid de pode, no entanto, ser experienciado; ele não
130 até em sua descrição: "Toma-se sem pergun~ pode ser experienciado mas pode ser realizado,
tar quem dá" .S e é isso o que solicita de nós. A garantia não
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deseja permanecer fechada dentro de mim. ela nós uma simples obrigação, é um poder, um
quer nascer no mundo por meu intermédío. Po-- dever absoluto. 9
rém, assim como o sentido não se deixa transmi- T ai é a revelação eterna, presente aqui e
tir nem ser formulado em uma teoria válida e agora. Não conheço nenhuma revelação e não
aceitável por todos, a sua colocação à prova creio em nenhuma que não seja, em seu fe-
na ação não pode ser formulada em obrigações nômeno originário, semelhante a esta. Eu não
válidas, não é prescrita, não é consignada em acredito em uma auto-denominação ou em uma
nenhuma tábua que pudesse erigir-se acima de auto-definição de Deus diante do homem. A
todos as cabeças. Cada um só pode pôr à pro- palavra da revelação é esta: "eu sou 't'resente
va o sentido recebido com a unicidade de seu como aquele que sou presente" .10 O que se
ser e na unicidade de sua vida. Assim como revela é o que se revela. O ente está presente,
nenh'ttma prescrição pode conduzir-nos ao en~ nada mais. A fonte eterna de força brota, o
'contro, do mesmo modo nenhuma nos faz dele eterno toque nos aguarda, a voz eterna ressoa,
sair. Somente a aceitação da presença é exi- nada mais.
gida não só para ir-para-ele, mas também, em
um novo sentido, para sair-dele. Assim como
s; ~hega ao encontro, com um simples Tu nos *
labios, do mesmo modo, se é enviado ao mundo O Tu eterno não pode, por essência, tor-
com o Tu nos lábios. nar-se um Isso, pois ele não pode reduzir-se a
I uma medida ou a um limite mesmo que seja
~quilo diante do que vivemos, aquilo no
à medida do incomensurável, ao limite do ili-
q~e vivemos, a partir do qual e para o qual
VIvemos, o mistério, permaneceu como era an- mitado. Por essência ele não pode ser conce-
bido como uma soma infinita de qualidades,
tes. Ele se nos tornou presente e se nos reve-
nem como uma soma de qualidades elevadas à
!?u em sua pr~sença como a salvação; nós o
transcendência. Não pode tornar-se um Isso,
reconhecemos sem, no entanto, termos dele
porque não pode ser encontrado nem no mun-
um conhecimento que diminuísse ou atenuase
do, nem fora do mundo porque ele não pode
para nós o seu caráter misterioso. Nós nos
ser experienciado nem pensado; nós pecamos
aproximamos de Deus mas não adianta~os na
contra Ele, o Ser, quando dizemos: "Eu creio 133
decifragem, no desvelam.ento do Ser. Sen*mos que ele é"; além disso, "Ele" é uma metáfora,
132 a salvação mas não a solução. O que rec he-
mas "Tu" não é uma metáfora.
mos não podemos levar aos outros dize do:
isto deve ser conhecido, isto deve ser feito. Só E, no entanto, fazemos, conforme nossa
podemos ir e pôr à prova. E isso não é para própria essência, do Tu eterno um Isso, um

128 129
algo, reduzimo.-lo sempre a uma coisa. Não por rança a sua vida, em cada ponto, em cada mo.-
capricho. A história reificada de Deus, a pas.- mento.
sa~em do Deus.-coisa através das religiões e seus Tão intensa é sua sede de continuidade
construtos laterais, através de suas inspirações que o homem não se satisfaz com o ritmo vital
e trevas, seja em momentos de enaltecimento da relação pura onde se alternam atualidade e
ou menosprezo da vida~ o distanciamento ou a latência, onde é nossa força de relação que di.-
volta ao Deus vivo; as transformações de pre.- minui, por isso, a presença, e não a presença
sença, de forma, de objetivação, de conceitua.- originária. Ele aspiJja à extensão temporal, a
ção, de dissolução, de renovação, é um caminho, duração. Deus se torna um objeto de fé. cJri..
tudo isso é o caminho. ginariamente a fé completa, no tempo, os atos
De onde provém o conhecimento explícito e de relação e, gradualmente, ela os substitui. Em
a prltica ordenada das religiões? A presença e a lugar do ritmo essencial e sempre renovado do
força da revelação, (pois, todas as religiões in.- recolhimento e da expansão, estabelece.-se uma
vocam necessariamente algum tipo de revelação, estabilidade em torno de um Isso no qual se
seja pela palavra, seja por um evento natural crê. A confiança obstinada do lutador que
ou psíquico - não há, em suma. corretamente conhece a distância e a aproximação de Deus
falando, senão religiões reveladas) então, a pre.- se transforma cada vez mais completamente na
sença e a força que o homem recebe na reve.. segurança do usufrutuário persuadido de que
lé\ção, como se transformaram em "conteúdo"? nada pode lhe acontecer. pois ele crê que existe
Alguém que não permite algo lhe suceder.
A explicação tem dois aspectos. O aspec..
to exterior, psíquico, nós o conhecemos, ao con.- Também não satisfazem a sede de continui.-
siderarmos o homem em si, isolado da História; dade do homem, a estrutura vital da relação
o aspecto interior. efetivo, o fenômeno origi.. pura, a "solidão" do Eu em presença do Tu, a
nário das religiões quando recolocamos o ho.- lei segundo a qual o homem, embora possa en..
mem na História. Os dois ·aspectos estão inter.. cerrar o mundo no encontro, não pode ir para
ligados. Deus e encontrá.-lo senão como pessoa. Ele de.-
seja a extensão espacial, a representação na
134 O homem aspira posuir Deus~,le aspira qual a comunidade dos fiéis se une com seu
por uma continuidade da posse de eus no es.. Deus. Deus se torna deste modo, um objeto de
paço e no tempo. Ele não se conte ta com a culto. O culto, também completa, originaria.- 135
inefável confirmação do sentido, ele uer vê.-la mente, os atos de relação, na medida em que
difundida como um contínuo, sem in rrupção insere a oração viva, o dizer.-Tu imediato em
espacio.-temporal que lhe forneça uma segu.. um conjunto espacial de grande poder de ima-
130 131
ginação e o entrelaça à vida de sentido. Ele se vão de todos os "Eus" ao centro, formarem um
torna. também, aos poucos, o seu substituto na círculo. Não é a periferia, isto é, a comunida.-
me4ida em que a prece pessoal não é mais sus.- de que é dada primeiro, mas os raios, a con.-
tentada pela prece comunitária mas é reprimida formidade da relação com o centro. Somente
por ela e, então, uina vez que o ato essencial ela garante a verdadeira consistência da co..
não se sujeita a nenhuma regra, cede o lugar munidade.
à devoção regulamentada. Somente quando duas coisa.s,surgem - o
Mas, na verdade, a relação pura não pode vínculo temporal numa vida rel:cional de sal.. "
atingir a estabilidade espacio.-temporal, senão vação e o vínculo espocial na comunidade uni.-
na medida que ela se encarna na substância da a seu centro - e somente enquanto elas
inteira da vida. Ela não pode ser preservada, existem, só então um cosmos humano pode sur-
só po!e ser posta à prova na ação, ela só pode gir e permanecer em torno do altar invisível,
ser realizada, efetivada na vida. O homem só edificado no espírito com a substância univer.-
pode corresponder à relação com Deus, da qual sal do :Éon.
ele se tornou participante, se ele, na medida de O encontro com Deus não acontece ao
suas forças, à medida de cada dia, atualiza homem para que ele se ocupe de Deus, mas
Deus no mundo. Ai reside a única certeza para ele coloque à prova o sentido na ação no
da continuidade. A verdadeira garantia da mundo. Toda revelação é vocação e missão.
continuidade consiste no fato de que a relação Mas o homem, cada vez mais em vez de atingir
pura pode realizar.-se transformando os seres a atualização, realiza uma volta ao revelador,
em Tu, elevando.-os ao Tu, de modo que nele, ele quer se ocupar de Deus e não do mundo.
ressoe a palavra.-princípio sagrada. Assim, o Só que nenhum Tu vem ao encontro dele,
tempo da vida floresce em uma plenitude de o ensimesmado. Ele não pode estabelecer
atualidade, e a vida humana, embora não deva na cois1dade senão um Deus.-Isso, senão crer
nem possa libertar.-se do contato com o Isso, que conhece Deus como um Isso e falar dele.
é de tal modo impregnada de relação que Assim como o homem egomaníaco, em vez de
adquire nela uma estabilidade radiante, irra.- viver diretamente alguma coisa, seja uma per.-
diante. Os momentos da suprema relação não cepção ou uma inclinação, reflete sobre o seu
são relâmpagos nas trevas, mas como a lua Eu que percebe e que sente inclinação e por
que se levanta, em uma clara noite estrela~.E isso malogra a verdade do fenômeno, do mesmo
136 assim, a garantia autêntica de estabilidad no modo, o homem ávido de Deus (que de resto 137
espaço, consiste no fato de que as relações os pode estar de acordo com o egomaníaco numa
homens com seu verdadeiro Tu, os raios q mesma alma) em vez de deixar agir sobre si

132 133
a graça, reflete sobre aquele que concede este revelações silenciosas que se passam em todo
dom e assim não atinge nem um nem outro. tempo e lugar. As revelações poderosas que
Na experiência da vocação. Deus é para estão na origem das grandes comunidades, nos
ti a' presença. Aquele que, em missão, percorre movimentos de transição das etapas da huma-
o caminho, tem Deus diante de si; quanto mais nidade, nada mais são do que eterna revelação.
fiel o cumprimento da missão, mais intensa e A revelação, no entanto, não é derramada so-
constante a proximidade. Ele não pode, sem bre o mundo através de seu destinatário, como
dúvida, ocupar-se de Deus, mas pode entreter- se o fosse através de um funil: ela chega a ele,
-se com ele. A reflexão ao contrário, faz de ela o toma em sua totalidade, em todo o seu
Deus um objeto. O seu movimento, que apa- modo de ser e se am~lgama a ele. Também o
rentemente o faz dirigir-se para o fundamento homem, que é a "boca", é exatamente a boca e
origi~rio, não passa, na verdade, de um as- não um porta-voz, não é um instrumento, mas
pecto do movimento universal de afastamento. um órgão que soa segundo suas próprias leis e
Do mesmo modo o movimento, que aparente- soar é transformar.
mente realiza aquele que cumpre sua missão, Hã todavia, uma diferença qualitativa en-
ao afastar-se dele, pertence, na realidade, ao tre as etapas da história. Há uma maturação do
movimento universal de aproximação. tempo, onde o elemento verdadeiro do espírito
Pois estes dois movimentos fundamentais, humano, oprimido e soterrado, amadurece para
~etacósmicos: a expansão para o próprio ser a disposição, sob tal pressão e em tal tensão
e a conversã.o para o vínculo, encontram sua que, ele só espera um toque daquele cujo con-
mais alta forma humana, a verdadeira forma tato produz o surgimento. A revelação, que aí
espiritual de seu confronto e de sua conciliação, se produz envolve na totalidade de sua cons-
de sua composição e separação11 na história do tituição, ela o funde e imprime nele uma forma,
contato humano com Deus. Na conversão, o uma nova forma de Deus no mundo.
Verbo nasce sobre a .:erra, na expansão, ele se
~ assim pois, que, ao longo do caminho
transforma e se encerra na crisálida da religião,
da História, através das transformações do
em uma nova conversão, ele renasce com asas
elemento humano, são chamados à forma di-
renovadas.
vina sempre novos domínios do mundo e do
Aqui não reina o arbitrário; embora o mo- espírito. Esferas sempre novas tornam-se o
vimento para o Isso vá, às vezes, tão longe a
lugar da teofania. O que aqui atua não é mais
ponto de oprimir e ameaçar, sufocar o movi-
o poder próprio do homem, também não é a pura 139
mento de retorno ao Tu.
138 passagem de Deus, é uma mistura de divino
As poderosas. revelações que as eligiões e humano. Aquele a quem na revelação, foi
invocam, se assemelham fundamentalm nte às
134 135
confiada uma missão, leva em seus olhos uma ~lo profundamente; a vida diante da Face é
im~gem de Deus - por mais supra sensível que a vida na atualidade única, o úni-co .. objecti-
SeJ~· el~ leva nos olhos de seu espírito, nesta vam" verdadeiro; e o homem que se projeta pa~
força vtsual de seu espírito não é de modo ra este fim quer, antes que o falso e ilusório obje~
algum, metafórico, mas plenamente real. O tivo tenha perturbado a sua verdade, refugiar~
espírito, por sua vez, responde também atra~ ~se naquele que é realmente. Enquanto, o subje~
vés de uma visão, através de uma visão for~ tivismo absorve Deus na alma, o objetivismo
madora. Embora nós, terrestres, não perceba~ faz dele um objeto; este é uma falsa segurança
mos jamais Deus sem o mundo, mas só o mundo aquele uma falsa libertação; ambos são desvios
em Deus, ao percebermos, criamos eternamente do caminho da atualidade, ambos são tentativas
a forma de Deus. de substituição da atualidade.
.
A forma também é uma mistura de Tu e Deus é próximo de suas formas, enquanto
Isso; ela pode solidificar~se em um objeto de fé o homem não as afasta d'Ele. Porém, quando
e de culto; porém em virtude da essência da o movimento de expansão das religiões difi~
relação que subsiste nela, ela se transforma culta o movimento de conversão e afasta a
sempre em presença. Deus é próximo de suas forma de Deus, apaga a face da forma, seus
formas, enquanto o homem não se afasta delas. lábios desfalecem, suas mãos caem, Deus não
Na verdadeira prece, o culto e a fé se unem e a conhece mais e a morada universal, construí~
se purificam para a relação viva. O fato de a da em volta de seu altar, o cosmos humano cai
~erd~deira prece permanecer viva nas religiões em ruínas. Que o homem, diante de sua ver~
e o smal de sua verdadeira vida; enquanto vi~ dade destruída, não veja mais o que aí aconte~
vem nela, elas permanecem vivas. A degene~ ceu é próprio do acontecimento.
ração das religiões significa a degeneração da · Aconteceu a decomposição da Palavra.
prec:_ n~las. Na medida em que o poder de
r7laçao e cada vez mais encoberto pela objeti~ A Palavra está presente na revelação, ela
vtdade, torna~se cada vez mais difícil de nelas age na vida da forma e seu valor está no reino
pronunciar o Tu com o ser total e indiviso, e 0 da forma morta.
homem, para poder fazê~lo, deve finalmente Tal é a ida e a vinda da Palavra eterna
sair de sua falsa segurança para a aventura do e eternamente presente na história.
infinito, sair da comunidade reunida somente As épocas nas quais a palavra está pre~ 141
sob a cúpuléJ do templo e não sob o firm?-en~ sente, são aquelas onde se renova o contato do
to para projetar~se para a última solidão. tri~ Eu e do mundo. As épocas onde reina a Pa~
140 buir este anseio ao subjetivismo é descon ecê~ lavra ativa sio aquelas nas quais perdura o
136 137
acordo entre o Eu e o Mundo. As épocas nas
quais a Palavra se torna válida são aquelas
nas quais se realizam a desatualização, a alie-
nac;ão entre o Eu e o Mundo, a fatalidade do
devir - até que sobrevenha o grande tremor
e a suspensão do alento na obscuridade, e o
silêncio preparador.
A estrada não é, por~m. circular. Ela é o
caminho. Em cada novo Eon, a fatalidade se
torna mais opressora, a conversão mais assola-
dora. E a teofania se torna cada vez mais pró..
xima,. ela se aproxima sempre mais da esfera
entre seres. se aproxima do reino que se oculta
no meio de nós, no "entre". A história é uma
aproximação misteriosa. Cada espiral do ca-
minho nos conduz igualmente a uma perdição POST..SCRIPTUM
mais profunda e a unia conversão mais origi-
nária. Porém o evento que do lado do mundo
se chama conversão, do lado de Deus, se chama
redenção.

138
-1-

Quando, (há mais de 40 anos), eu esbo.. 145


cei pela primeira vez este livro, o que me im..
peliu a fazê,...lo foi uma necessidade interior.
Uma visão que, desde minha juventude, apa-
reoia sem cessar, para logo em seguida se es-
vaecer, atingiria uma claridade constante que
possuía, tão evidentemente, um caráter supra-
pessoal, que eu compreendi imediatamente que
meu dever era ser seu testemunho. No entanto,
logo após ter-me convencido da dignidade de,
"'pelo meu serviço, tomar a palavra e de ter sen-
tido no direito de dar a este livro sua forma de-
finitiva, constatei que deveria ser completado
em vários pontos, independente do texto já
formulado ( 1 ) . Assim, apareceram alguns escri...
tos menores ( 2) cuja finalidade era, quer escla--
recer melhor aquela visão, por meio de exemplos,
quer explicá-la, para que objeções pudessem ser
refutadas, ou ainda de criticar certas concepções
(1) - Publicado em 1923.
(2) -Zwiesprache (Diálogo) 1930.
Die Frage an die Einzelnen (A questão ao individuo) 1936.
Ueber da Erzierische (Sobre a função educadora) 1926.
Em Buber, M. Conferências sobre Educação, Heidelberg,
Lambert Schneider, 1962.
Das Problem des Menschen (0 Problema do homem) (Em
hebraico 1943) Heidelberg, Lambert Schneider, 1961.
To!Jos os títulos reunidos em: Martin Buber, Werke Erste
Band: Schriften zur Philosophie (M. Buber - Obras, Pri-
meiro Volume: Escritos sobre Filosofia). München, Heidelberg,
1961.
141
que, embora tenham trazido importantes escla~
recimentos, não conseguiram apreender o sen~ diz esta obra, nós podemos nos encontrar em
relação Eu~Tu não somente com outros ho~
tido central daquilo que era mais essencial para
mens, mas também com os entes ou coisas que, 147
mim; a saber, os vínculos íntimo entre a relação
146 com Deus e a relação com o homem. Mais tar~ na natureza, vêm ao nosso encontro, em que
se fundamenta a diferença entre aqueles e es~
de, melhores esclarecimentos foram acrescen~
tas? Ou então, de um modo mais preciso: se
~d.os, uns, relativos aos fundamentos antropo~ esta relação implica uma reciprocidade abran-
log1cos ( 3) , outros, relativos às implicações so~
gendo efetivamente os dois parceiros, o Eu e o
ciológicas ( 4) . V erificou~se, todavia, que isso
Tu, como pode a relação com aquilo, que é
ainda não esclarecia tudo de um modo suficiente simples natureza, ser entendida como uma re-
Os leitores incessantemente dirigiam~se a mi~ lação deste tipo? Ou mais exatamente: se de-
para p~rguntar sobre o sentido de tal passagem vemos admitir que seres ou .coisas da natureza
ou de tal outra. Durante muito tempo eu res~ nos quais encontramos nosso Tu, nos conce-
p~mdi a ~ada um deles, mas logo notei que dem uma certa espécie de reciprocidade, de que
nao podena atender todas as exigências e ade~ espécie é esta reciprocidade e o que nos per-
-?Iais, não. devo limitar as relações dialógicas mite atribuir este conceito tão fundamental?
aqueles leitores que se decidiram a falar. Tal~
vez haja, justamente dentre os silenciosos, A esta questão não existe, aparentemen-
aqueles que merecem uma atenção especial. As~ te uma resposta uniforme. Aqui em vez de
sim resolvi responder publicamente, primeira~ to~ar a natureza como um todo, como de há~
mente a algumas questões essenciais que se re~ bito se faz, devemos considerar seus diversos
lacionam em certo sentido. domínios. O homem outrora, "domou" os ani-
mais e é ainda capaz de exercer este singular
poder. Ele os atrai em sua atmosfera e os leva
-2- a aceitá-lo, ele, o estranho, de um modo ele-
mentar, a atendê-lo. Ele obtém da parte deles
Eis, como poderia ser formulada, com al-
uma reação ativa e muitas vezes suprenden~e
guma precisão, a primeira questão: se, como
às suas solicitações e apelos, reação esta que e,
(3) - Urdístanz und Beziehung (Distância original e
relação 1950.
geralmente, tanto mais intensa e direta quant_o
Heidelberg, Lambert Schneider, 1960. mais a sua posição, com relação a eles, é um di-
(4) - Eleme'Tifl;e des Zwíschenmensohlichen (Elementos do
Interhumano) 1954.
zer-Tu autêntico. Pois os animais, como as
Em M. Buber - Das Dialogische Prinzip (0 Princípio
.crianças sabem discernir se as manifestações de
Dialógico) Heidelberg. Lambert Schneider 1962. Obras. ternura são dissimuladas ou não, são autênticas
Primeiro Volume 1962.
ou não. Um contato semelhante se produz
142
143
também, às vezes, entre o homem e o animal sarnento nos dificultam reconhecer que, aqui.
fora do âmbito da domesticação: aí trata--se de algo suscitado pela nossa atitude, algo que vem
homens que trazem, no fundo do seu ser, a vir- do Ser, se desperta e brilha diante de nós. Nesta
148 tualiélade de um contato com o animal não co-- esfera, o essencial é nos entregar livremente à 149
mo se fossem, em certo sentido, pessoas "ani-- atualidade que se nos oferece. A esta vasta
mais" mas antes, pessoas dotadas de uma espi-- esfera que se estende das pedras às estrelas,
ritualidade elementar. atribuo o nome de pré.-limiar, isto é, último
O animal não é duplo, como o homem; a grau antes do limiar.
dualidade das "palavras--princípios" Eu--Tu e
Eu--Isso lhe é estranha, embora ele possa muito
bem dirigir sua atenção a um outro ser quanto -3-
contemplar objetos. Podemos sempre afirmar
que, nesse caso, a dualidade é latente. Esta Mas, então, apresenta--se a questão sobre a
esfera considerada como dizer tu que emana de esfera que poderia ser chamada, para empre--
nós em direção à criatura, pode ser chamada gar a mesma imagem, a esfera do "supra--li.-
limiar da mutualidade.. miar", aquela além da porta, a esfera que cobre
O mesmo não se aplica aos domínios da a porta: a esfera do espírito. Aqui, também se
natureza, aos quais falta a espontaneidade que faz necessária a distinção entre dois setores;
temos em comum com o animal. A planta, como entretanto a divisão aqui operada, é mais pro--
a concebemos, não pode reagir à nossa ação funda que aquela no seio da natureza. Ela é
sobre ela, não pode "retribuir". Isto não sig... a ..separação entre aquilo que, de um lado, no
nifica, no entanto, que não participamos de que se refere ao espírito, já se manifestou no
nenhuma espécie de reciprocidade. Embora mundo e tornou.-se perceptível aos nossos sen.-
não exista aí ação ou atitude de um indivíduo, tidos; e, de outro lado, aquilo que ainda não
existe, sem dúvida, uma reciprocidade do pró- se incorporou no mundo, mas que, no entanto,
prio ser, uma reciprocidade que não é senão o está pronto a se encarnar tornando.-se presença
Ser. Aquela totalidade viva e a unidade da para nós. Esta distinção é fundamentada no
árvore, que se recusam ao olhar mais perscruta-- fato de eu poder, por assim dizer, te mostrar,
dor daquele que só se limita a explorar mas meu leitor, aquilo que de espiritual já foi reali.-
que se ofereeem àquele que diz Tu, estão pre-- zado, sem no entanto, poder mostrar.-te a
sentes quando o homem está presente; ele per-- outra. Posso chamar tua atenção sobre as obras
mite à árvore manifestá--las e, pelo fato de ser, do espírito que existem efetivamente, ou sobre
a árvore as manifesta. Nossos hábitos de pen..- uma coisa ou ser da natureza que existem
Iff ) 145
atualmente e também sobre algo que te é atual derá mais realizar aquilo que poderia, enquanto
ou virtualmente acessível. Não é possível, no considerar a sentença como um objeto; não
entaJ?.tO, indicar~te algo que ainda não se incor~ poderá isolar nem seu conteúdo nem seu ritmo; 151
porou no mundo. Quando ainda me pergun... não acolherá senão a totalidade indivisível de
tam, onde. no âmbito desta região, se encontra uma fala. 1
a mutualidade, não posso senão fazer indireta... Porém, isto é ainda ligado a uma pessOél,
150 mente alusão a determinados fenômenos, im- à manifestação em cada caso, da pessoa em
possíveis de serem descritos, na vida do homem, sua palavra. Ora, o que quero dizer não se
ao qual o Espírito se revelou como encontro. limita a uma contínua presença de uma existên-
E, finalmente, se o modo indireto se revela cia pessoal em palavras. Para isso, deverei
insuficiente, nada me resta senão apelar, meu apelar agora para um exemplo que não esteja
leitor, 1>ara o testemunho de teus próprios se~ afetado de nenhum elemento pessoal. Escolho
gredos, que embora estejam, quem sabe, soter~ um exemplo, que evocará, em muitos de nós,
rados, podem ainda ser atingidos. intensas lembranças. Trata-se da coluna dóri-
Voltemos, então à primeira região, aquela ca, onde ela se revela a um homem capaz de
denominada dos "entes à mão" pois, aqui, pode~ se entregar à sua contemplação e disposto a
mos tomar apoio sobre exemplos. dedicar~se a isto. A mim ela se apresentou pela
Aquele que questiona torna presente a si primeira vez em Siracusa, em um muro de uma
mesmo uma das sentenças de um mestre morto Igreja, onde, outrora, fora incrustrada. Miste-
há milháres de anos e tenta acolher esta sen~ riosa medida originária revelando-se de um
tença, na medida do possível, pelo sentido do modo tão sóbrio e tão desprendido, que nela
ouvido, como se o Mestre estivesse presente não havia sequer detalhes a serem considera-
pronunciando~a pessoalmente. Para tanto, deve dos ou objeto de prazer. Eu era capaz de reali~
voltar~se com todo o seu ser. para aquele que zar aquilo que deveria ser feito, a saber, tomar
a profere e que não existe, isto é, a atitude que posição e manter esta atitude em face da forma
deve tomar para com este homem, ao mesmo espiritual, desta realidade que, passada pelo
tempo vivo e morto, deve ser aquela que eu sentido e pelas mãos do homem, encarnou-se
chamo o dizer~ Tu. Caso consiga (a vontade e graças a eles. O conceito de mutualidade desa-
o esforço, na verdade, não bastam, mas pode parece aqui? Ou ele mergulha novamente nas
retomar sem cessar, a tarefa) , perceberá, de trevas ou então ele se transforma em um estado
' .
concreto de coisas, um estado que recusa termi-
início talvez indistintamente, uma voz idêntica
àquelas cujo som encontraremos em outras nantemente a conceitualização, mas que é claro
dentre as sentenças do Mestre. Agora, não po~ e autêntico.
147
146
J
Nesta perspectiva, poderemos também con~ venientes de uma ordem exterior àquela para
siderar a outra região, aquela daquilo que "não a qual, em nossas considerações sobre a ordem
está à mão", aquela do contato com os "seres dos seres, reconhecemos espontaneidade e
espirituais", a da origem da palavra e da Forma. consciência, como se algo ocorresse do mes~
152 Espírito tornado verbo, espírito tornado mo modo sob forma de resposta e apelo no
forma. Aquele que foi tocado pelo espírito e mundo humano no qual vivemos? O que aqui
não se impermeabiliza à sua presença, sabe, em se disse ·sobre isso, teria outro valor do que uma
um ou outro grau sobre o fato fundamental. metáfora de "personificação'? Não haveria aqui
Tais coisas não germinam e não se desenvol~ o perigo de um "misticismo" problemático, que
vem no mundo dos homens sem serem semea~ apaga os limites determinados, que são neces~
das; sabe que elas nascem do encontro do sariamente traçados por todo conhecimento
Homem com o Outro. Não de encontro com racional?
idéias platônicas (que, aliás, não tenho conhe~ A estrutura clara e sólida da relação Eu~
cimento direto e nas quais não posso ver o ser) ~Tu, familiar a todo aquele de coração aberto
mas encontro com o Espírito, que nos envolve e que possui coragem para aí se engajar, n~o
e -que penetra em nós. Aqui, mais uma vez, é de natureza mística. Para compreendê~la,
lembro~me da estranha confissão de Nietzche, devemos, às vezes, nos desligar de nossos há~
abordando o fenômeno da "inspiração", acon~ bitos de pensamentos, sem, no entanto, renun...
selhando que se receba sem perguntar que~ ciar às normas originais que determinaram o
oferece. Certo, não se perguntará, mas nem por modo próprio de o homem pensar aquilo que é
isso não se deixa de agradecer. atual. Como no reino da natureza, do mesmo
Peca aquele que tenta apoderar~se do modo, a ação que se exerce sobre nós no reino
espírito quando .conhece o seu sopro, ou que do espírito - do espírito que se prolonga na
tenta descobrir sua natureza. Porém, é uma mensagem e na obra, do -espírito que aspira
infidelidade para com ele atribuir~se a si este tornar-se mensagem e obra - deve ser com-
preendida como uma ação que provém do Ser.
-4-
-5-
Reconsideremos conjuntamente o que foi
dito a respeito dos encontros com o elemento Na questão seguinte não se trata mais de
natural e daqueles com o elemento espiritual. limiar. pré-limiar ou supra-limiar da mutuaJi...
153 Temos o direito - poder~se~ia perguntar dade, mas da própria mutualidade como porta
- de falar de "resposta" ou de "apelo" pro~ de entrada de nossa existência.
148 149
/
Pergunta-se: o que se passa na relação compreendê-lo como uma totalidade e afirmá-lo
entre os homens? Realiza-se sempre numa re- nesta sua totalidade. Isto só se lhe toma pos-
ciprocidade total? Pode ela, deve ela sempre sível, no entanto. na medida em que ele o en-
154 realfzar-se assim? Não depende ela, como aliás, contra, cada vez, como seu parceiro em uma
tudo o que é humano, das limitações de nossa situação bipolar. E, para que sua mfluência
deficiência e não está submissa às restrições sobre ele tenha unidade e sentido, ele deve
das leis internas de nossa existência com o experienciar esta situação, a cada manifestação 155
outro? e em todos os seus momentos, não só de seu
O primeiro destes dois obstáculos é bem .lado, mas também do lado de seu parceiro:
conhecido. Desde o próprio olhar com que vês ele deve exercitar o tipo de realização que eu
cada dia o teu "próximo" que te admira com chamo envolvimento. Entretanto, se acontecer
olhos espantados como se fosses um estranho, com isso, de ele despertar também no discípulo
ele que no entanto, carece de ti. até a tristeza a relação Eu-Tu, de tal modo que este o apre-
dos santos, que não cessam de apresentar a enda e o confirme igualmente como esta pessoa
, grande. oferenda - tudo te diz que a plena determinada, a relação específica educativa
mutuahdade não é inerente à existência em poderia não ter consistência se o discípulo, de
comum entre os homens. Ela é um dom ao qual sua parte, experimentasse o envolvimento, isto
deve-se estar sempre receptivo e que nunca se é, se ele experiendasse na situação comum, a
tem como algo assegurado. parte própria do educador. Do fato de a rela-
Há, no entanto, diversas relações Eu-Tu ção Eu-Tu terminar ou de ela tomar um caráter
~ue, por sua própria natureza, não podem rea- totalmente diferente de uma amizade, fica clara
hzar-se na plena mutualidade, se ela deve con- uma coisa: a mutualidade não pode ser plena-
servar a sua caractérística própria. mente atingida na relação educativa como tal.
Uma relação deste gênero, eu caracterizei, Outro exemplo, não menos instrutivo para
em outro lugar, 5 como a relação do autêntico as restrições da mutualidade, encontramos na
educador ao seu discípulo. Para auxiliar a relação entre o autêntico psicoterapeuta e seu
realização das melhores possibilidades existen- paciente. Se ele se limita em "analisá-lo", isto
ciais do aluno, o professor deve apreendê-lo é, em trazer à luz de seu microcosmos fatores
como esta pessoa bem determinada em sua inconscientes, e através desta libertação, apli-
potencialiqade e atualidade, mais explicita- car as energias transformadas a atividades
mente, ele não deve ver nele uma simples soma conscientes da vida. ele pode trazer algumas
de qualidades, tendências e obstáculos, ele deve melhoras. Na melhor das hipóteses, ele pode
(5) - Ver nota 2 acima. auxiliar uma alma difusa e estruturalmente

150 151
I
pobre a, de algum modo, se concentrar e se existe em virtude de uma mutualidade que não
ordenar. Porém, aquilo que lhe incumbe, em pode tornar~se total.
última análise, a saber, a regeneração de um
centro atrofiado da pessoa, não será realizado.
156 Só poderá realizar isso quem, com um grande -6-
olhar de médico, apreender a unidade latente
e soterrada da alma sofredora, o que só será Com referência a isso, só mais uma ques- 157
conseguido através da atitude interpessoal de tão pode ser abordada: é necessário que assim
parceiros e não através da consideração e es~ seja pois ela é, incomparavelmente, a mais
tudo de um' objeto. Para o terapeuta favorecer importante. Perguntar~se-ia: como pode o Tu
de um modo coerente a libertação e a atualiza~ eterno ser, na relação, ao mesmo tempo exclu-
ção d9quela unidade, em uma nova harmonia sivo e inclusivo? Como o encontro Eu-Tu do
d·a pessoa com o mundo~ ele deve estar, assim homem com Deus, encontro que exige um mo~
como o educador, não somente aqui no seu polo vimento absoluto em direção a Ele e do qual
da relação bipolar, mas também. no outro polo, nada pode desviar, pode englobar todas as
com todo o seu poder de presentificação e ex~ outras relações Eu~Tu deste homem e ofere-
perienciar o efeito de sua própria ação. Porém, cê-las a Ele?
de novo, a relação específica de .. cura" termi~ Note-se bem, a questão não se aplica a
naria no momento em que o paciente lembrasse Deus, mas unicamente à nossa relação com
e conseguisse praticar, de sua parte, o envolvi- Ele. Eu devo, no entanto, para responder,
mento experienciando assim o evento no lado falar dele. Na verdade nossa relação com Ele
do médico. O curar como o educar não é transcende, como tal, todas as oposições, por-
possível, senão àquele que vive no face-a~face, que ele, como tal, as transcende.
sem contudo deixar-se absorver. Sem dúvida, podemos somente falar sobre
A limitação normativa da mutualidade o que Deus é em sua relação coi_JJ o homem.
seria demonstrada de um modo mais claro, sem E, mais, isso só poderia ser dito de um modo
dúvida, no exemplo, do orientador de consci- paradoxal; ou mais exatamente, por um emprego
ência, pois aí, um envolvimento por parte de paradoxal de um conceito: ainda mais clara~
seu parceiro
. .,.. violaria a autenticidade sacral de mente, pela ligação paradoxal entre um con..
sua m1ssao. ceito nominal e um "adjectum" que se contra..
Todo vínculo Eu- Tu~ no seio de uma re- diz com o conteúdo que usualmente lhe atribui..
lação, que se especifica como uma ação com mos. Esta contradição se justifica na medida
finalidade exercida por um lado sobre o outro, em que se re.conhece que é indispensável de-

152 153
signar o objeto por esta noção e que a designa~ qual tem origem o que chamamos Espírito; a
ção só pode ser justificada assim e não de outro naturalidade - que consiste no que chamamos
modo. O conteúdo do conceito sofre- uma ex~ natureza .- e, em terceiro lugar, o atributo da
tensão transformadora - o mesmo acontece, personalidade. Dela, deste atributo, nasce o
porém, com cada conceito que nós, impelidos meu ser~pessoal, e o ser~pessoal de to~os os
158 por realidade de fé, tomamos à imanência e homens assim como daqueles outros atnbutos
aplicamos à ação da transcendência. origina~, tanto o meu ser~espiritual como meu 159
A relação com Deus como pessoa 2 é ser~natural e o de todos os homens. E, somente
indispensável para quem, como eu, não entende este terceiro atributo da personalidade se n~s
por "Deus" um princípio, embora místicos como revela diretamente em sua qualidade de atr1~
mestre Eckart, às vezes assemelham~no ao Ser; buto.
para "'aquele que, como eu, não identifica Porém, agora no que diz respeito a~ con~
"Deus" com uma idéia, embora filósofos como teúdo universalmente conhecido do conceito de
Platão, possam, às vezes, tê~lo concebido como Pessoa,. se anuncia a contradição. Não ~ert~~~
tal; para quem, sobretudo, como eu, entende ce à essência da pessoa o fato de sua md1v~~
por "Deus" .- não importa o que seja além dualidade embora existindo em si, ser relatl~
disso - aquele que entra numa relação ime~ vizada n~ totalidade do Ser pela ~luralidade
diata conosco homens, através de atos criado~ de outras individualidades? Mas, ev1dentemen...
res, reveladores e libertadores 3 possibilitan~ te isso não se aplicaria a Deus. A esta con~
d~nos, com isso, a entrar em uma relação ime~ tr~dição contrapõe~se a designação paradoxal
diata com Ele. Este fundamento e este sentido de Deus como pessoa absoluta, isto é, uma
de nossa existência constituem, a cada vez, uma pessoa não passível de relativização. Deus
mutualidade que só pode existir entre pessoas. entra na relação imediata conosco como pes.soa
Embora o conceito de personalidade seja, sem absoluta. A contradição desaparece em um n1vel
dúvida, incapaz de definir a essência de Deus,
superior de consideração.
é possível e necessário, no entanto, dizer que
ele é também uma Pessoa. Se eu quisesse tra~ Deus .- podemos agora afirmar - trans..-
duzir o que se deve entender com isso, excep~ mite sua absoluticidade à relação que Ele ~s~a~
cionalmente, em uma linguagem filosófica, a de belece com o homem. O homem que se dirlg
Spinoza, por exemplo, deveria dizer que, dos a Ele não tem necessidade de se afastar de
inumeráveis atributos de Deus, não só dois, nenhuma outra relação Eu~Tu: ele as condf.z
como entende Spinoza, mas três nos são para legitimamente a Ele e as deixa que se trans 1~
nós homens, conhecidos: a espiritualidade, da gurem na "face de Deus".
155
154
. Todavia, deve-se, acima de tudo, evitar
Interpretar o diálogo com Deus, o diálogo,
sobre o qual eu falei neste livro e em quase to-
d.ds que o seguiram, como algo que ocorresse
Simplesmente à parte ou acima do quotidiano. NOTAS DO TRADUTOR
160
A palavra de Deus aos homens penetra todo
evento da vida de cada um de nós, assim como
cada evento do mundo que nos envolve, tudo NOTAS DA PRIMEIRA PARTE

o que é biográfico e tudo o que é histórico, 1 - WESEN. A tradução mais correta é essência. Mestre
transformando-o para você e para mim, em Eckart foi o primeiro a introduzir este conceito na filosofia
mensagem. e exigência. A palavra pessoal torna alemã para traduzir essência. Trata-se de um termo que Buber
emprega muito freqüentemente atribuindo-lhe um sentido
c?pa.; _e extge, evento após evento, situação após profundo. Nem sempre achamos um termo para traduzir, para
Situaç~o, da pessoa humana firmeza e decisão. exaurir toda a riqueza de sentido atribuído em cada passa-
gem. As vezes Buber empregou o substantivo Wesenheit,
Acreditamos muitas vezes, que nada há a per- forma rara em alemão. Geralmente Wesen significa para
ceb~r, mas obstruímos há muito tempo; nossos Buber, em EU E TU, se1·, natureza. Raramente lemos essência.
OUVIdos. Porém, acreditamos que o sentido mais rico tenha algo a ver,
em Buber, com o antigo alemão wesan sein. Por esta razão,
A existência da ~utualidade entre Deus e em várias passagens preferimos traduzir wesen por ser pre-
o homem. é- in~emonstrável, do mesmo modo sente, pois, sendo presen,ça e presente conceitos centrais no
pensamento de Buber, o ser no sentido mais profundo é o
que. a existencta de Deus é indemonstrável. ser na relação que exige a totalidade de presença. O pró-
Porem, aquele que tenta falar dEle dá seu tes- prio parâmetro que Buber utiliza para estabelecer o maior
ou menor valor para uma relação EU-TU, a reciprocidade,
temunho e invoca o testemunho daquele a se baseia numa presença mais completa ou menos completa
quem Ele fala, seja um testemunho presente dos integrantes do evento da relação. Assim, nesta passagem:
ou futuro. "A palavra-princípio EU-TU só pode ser proferida pelo ser
na sua totalidade" (mit dem ganzem Wesen). A vida de re-
lação é para Buber a vida atual de presença. Então não é
Jerusalém, outubro, 1957. só enquanto ser que o homem se dispõe ao evento de relação
mas como ser na sua totalidade de presença, como ser pre-
sente. Outras vezes, diante da dificuldade de traduzir toda
a riqueza do pensamento de Buber conservamos o sentido
mais comum "essência". Assim na passagem mais adiante:
"Wesenheiten werden in der Gegenwart gelebt" (o que é
essencial é vivido no presente) é um:<~, frase um tanto desnor-
teante, pois, como é que seres, Gssências, serão vividos?
Podem ser vividos: E mais. "Wesenheiten" no plural é mais
raro ainda. Denota algo abstrato e geral. Mesmo que tivés-
semos encontrado erlebt (vivenciar, experienciar) em vez de
gelebt, não deixaria de ser um tanto embaraçante, pois
"erleben" e "Erlebnis" ainda se aproximam do contexto da
Erfharung, experiência própria do mundo do ISSO. Optamos
156
157
pela tradução "o essencial", pois é abstrato e geral como quis todas as passagens onde aparece o termo, com wirken atuar
Buber e se aproxima de sua intenção principal que é vida e Werk obra. Numa tentativa de permanecer o mais fiel
de relação com a vida essencial, a vida de presença, presente possível ao contexto de EU E TU, optamos por uma tra-
aqui e agora. Aquele que está presente em um evento de dução que nos parece ser mais próxima ao sentido que Buber
relação. dialógica é essencial, pois proferiu a palavra-princípio lhe deu, a saber, atualidade para Wirklichkeit, atual para
com todo o seu ser. Isto se torna menos embaraçante com wirkZich e atuar para wirken. Além disso podemos associá-los
a segunda parte da frase na passagem citada: "Gegenstaen- à presença e presente no sentido buberiano. De fato, mais
dlichkeiten in der Vergangenheit" (as objetlvidades no pas- adiante Buber irá afirmar que "Toda vida atual é encontro".
sado). O objeto (Gegenstand) já está cristalizado no mundo A autenticidade da vida enquanto atual é ser vida de
do ISSO. Gegenstand não pode ser "wesen" para empregarmos encontro (Begegnung), assim como a autenticidade do
uma linguagem bem simples, pois carece de "presença", pelo encontro só é atingida numa vida de atualidade, de presença
menos enquanto objeto. Ora, se não podemos afirmar, a efetiva, atuante, visto que o autêntico encontro implica uma
rigor, que um objeto não tem essência, pelo menos, podemos "presentificação" (Vergegenwaertigung) mútua do EU e do
dizer que ele não é um "ser presente", pois, como dissemos, TU e uma Wechselwirkung uma ação mútua, uma atuação
ele carece de presença. recíproca. Deixamos o termo realidade e real quando Buber
emprega especificamente Realitaet e real.
2 - ~FAHREN. O substantivo é Erfahrung. No mesmo
parágrafo Buber emprega também o verbo "befahren" cuja 5 - GEGENWAERTIGE.
tradução literal poderia ser "caminhar na superfície". Ambos Gegenwart significa presença e presente. 1!l um dos termos
se relacionam com "fahren" andar, VIaJar. Traduzimos chaves em EU E TU. Presente como oposto ao passado e
befahren por «explorar a superfície", pois cremos ser a ao futuro e presente como "em presença de". O presente
intenção de Buber indicar que a experiência é uma ida inten- como momento presente transcende de algum modo o puro
cional que permanece na supeJ;"fície das coisas.- instante unidimensional na intersecção de duas facções do
tempo. O presente em Buber evoca-nos o "instante" kier-
3 - ER LEIBT MIR GEGENUEBER. kegaardiano que é decisivo e pleno de eternidade; ele é a
"Leib" significa corpo; o verbo leiben poderia ser tradu- plenitude dos tempos. Na primeira Parte de EU E TU Buber
zido por encorporar. No texto Buber distingue Leib e Koerper. emprega o substantivo abstrato Gegenwaertigkeit que pode
Leib é o corpo humano na sua manifestação concreta exis- ser traduzido por presentidade.
tencial como corpo vivido. Poderíamos associar esta distinção
àquela que fez Scheler entre corpo percebido que ele chama 6 - LIEBE IST EIN WELTHAFTES WIRKEN.
Koerper e corpo experienciado que ele chama Leib. Esta Haft é um sufixo utilizado para adjetivos e haftigkeit
mesma distinção é operada por Biswanger. Gegenueber é um para substantivos. Pode significar propriedade ou o fato de
termo abundantemente utilizado por Buber. Gegenueber pa- ter como também a expressão "algo como". Buber o emprega
rece ter sido forjado para traduzir o "vis-à-vis" francês. As mais neste segundo sentido como que dando a entender
vezes Buber o emprega como substantivo. Neste caso optamos que os conceitos são Incapazes de atingir o rigor de sentido
pelo termo parceiro. Em outras passagens traduzimos por de uma idéia. Welthaft é uma delas. Inúmeras são as pala-
face-a-face e confronto. Na presente frase optamos por uma vras que Buber forjou com os sufixos haft e haftigkeit.
tradução que se aproxima a nosso ver do sentido que Buber
quis exprimir. Em peBsoa é uma expressão talvez imprópria 7 - MANA.
em se tratando de uma árvore. Mas quer significar que não Há vários sentido!" para a palavra Mana. Oscila entre
se trata apenas de uma massa inerte e compacta que se uma noção de força Impessoal universal e uma personalidade
posta simplesmente diante do homem, mas é a árvore que de caráter sacro ou divino. Para os Algonqulnos (índios do
pode integrar o evento de relação e portanto ser um TU Canadá) o Mana recebe o nome de "manitu"; para os
para o homem num momento de verdadeira presença. Iroqueses, o nome de "orenda" e "brahman" para os povos
da India antiga. O Mana é o aspecto positivo do oculto
4 - WIRKLIOHKEIT, wirklich, verwirklichen, entwir- enquanto que o "tabu" é o aspecto negativo. O oculto como
klichen são termos freqüentemente utilizados por Buber. Ele Mana é carregado de um poder milagroso. O termo exprime
os associa de um modo bastante nítido e praticamente em a idéia religiosa elementar de força sacra! (Impropriamente

158 159
de fluído) independente das concepções e crenças animísticas deve apresentar ao homem contemporâneo uma direção em
como a forma mais simples de religiosidade. Codrington n~ sua vida concreta. Esta posição exigiu de Buber uma ati-
sua o~ra "'!h~ Melanesians" afirma que o Mana é uma força, tude hermenêutica em sua tradução que tentava redescobrir
uma mfluenc1a de ordem imaterial e, em certo sentido. o sentido original dos termos (Grundschrift). Embora admi-
sobrenatural, que se revela, no entanto, por uma força física tisse que o resultado deste trabalho hermenêutico de decifrar
ou. P?~ um poder de superioridade que o homem possui. o~ a própria palavra por uma nova leitura (Buber chamava o
pru~:utlvos, desconhecendo as causas físicas e naturais dos texto de palimpsesto) pudesse aparecer paradoxal e, até
fenomenos da natureza, visto que seus conhecimentos não mesmo, vexatório para o homem moderno. Ele afirmava tam..
atingiram o estágio capaz de conceber uma causa geral capaz bém que, o paradoxo e o vexame podem conduzir à instrução.
de. pro~u;ir. algo do nada, recorrem à hipótese de um con- O texto bíblico estabelece uma relação entre espírito e vida.
ce!t~ ~mam1co q_ue é o Mana. Não é fácil do se definir com "Ruah" significa espírito e vento. Lemos no Gênese 1:2 "o
prec1sao o que e o Mana, pois é de natureza material e ao espírito de Deus pairava sobre as águas". Deus não se res-
~~smo tempo invisível e intocável; sem ser espiritual par- tringe a um reino natural ou espiritual mas é origem dos
ticipa d~ natureza espiritual. lll uma espécie de fluído material dois. O espírito, "RUAH", se relaciona à vida e não ao
desprovido de inteligência pessoal mas capaz de receber e intelecto. "Ruah" significa sopro, o sopro do céu sob a forma
rep:~cutir a .impressão de todas as idéias e de todos os de vento e o sopro sob forma de espírito. Para o primitivo,
es~lr~t?s..,(Samtyves - La Force Magique: du mana des os dois sentidos são inseparáveis pois ele sente e interpreta
r:~~tifs au dynamisme scientifique, págs. 2()-22. Paris, o entusiasmo que se apodera dele, a ação irresistível do
espírito nele como o vento da tempestade se apodera de tudo.
O ~spírito, "RUAH", não está sobre Moisés pois a Voz esta-
8 - Em latim no original. beleceu com ele uma conversa de pessoa à pessoa. Moisés
é o depositário do espírito que nada mais é do que o fato de
9 - ICH-WIRKEND-DU UND DU-WIRKEND-ICH. ser admitido em uma relação dialógica com a divindade. :a:
10 - ICHHAFTIGKEIT. curioso notar, como nos lembra Buber, a diferença de inter-
locução que se estabelece entre Moisés e Deus de um lado,
11 - VERBUNDENHEIT. Trata-se de um termo utilizado e Deus e os Profetas, de outro lado. Enquanto Deus se faz
~or Buber nas três partes do livro. llJ pouco comum na conhecer aos profetas "em visão", a Moisés Ele se manifesta
linguagem corrente. :a: de difícil tradução. De um certo modo visualmente e não em enigmas. Os profetas têm visões que
Buber nos fornece um paradigma nesta passagem. Optamos devem ser primeiramente decifradas, enquanto que, para
pelo terz:no vínculo. T:ata~se de uma determinada relação Moisés, é na realidade visual que a vontade de Deus se
entre do1s seres q~e nao e mera juxtaposição, nem relação mostra. Aos primeiros Deus fala "em sonho", para Moisés
c~usal, ~em ~onexao; o termo associação se aproxima, mas Ele fala "boca-a-boca" e Moisés lhe responde. Este cantata
amda nao atmge o grau de intimidade que é verificado na exprime. como diz Buber, uma comunicação que é ainda mais
":Verbundenheit" como a emprega Buber. Associação além íntima que o "face-a-face" (Exodo 33:11). Em uma emissão
d1sso, se aproxima de "socius" e este ainda não é o "prÓximo" do sopro, do hálito, a Palavra é soprada por Deus e inspi-
~u~a proximidade de presença. Vínculo denota uma relação rada pelo homem. (Ver M. Buber - Die Schrift und ihre
mhma entre dois seres. Verdeutschung, 167).
Em EU E TU vemos vislumbrar também este sentido do
12 - DER ZUM LEIB REIFENDE KOERPER. espírito como força geradora do dia-logo, a palavra entre
Ve1· nota 6 desta pm·te. os dois estabelecendo o inter-valo entre o Eu e o Tu na
intimidade e na presença do evento do face-a-face. Buber
afirma que o espírito é a resposta do homem a seu Tu. A
resposta instaura o diálogo, a inter-ação onde o EU confirma
NOTAS DA SEGUNDA PARTE o TU em seu ser e é por ele confirmado. O EU exerce uma
ação, atua sobre o TU e este atua sobre o EU. Neste
1 - GEIST. Espírito. Espírito evoca-nos aqui 0 sentido encontro se estabelece a alteridade na medida em que existe
a~ri~uírlo ao conceito no contexto bíblico. Para Buber, a uma alter-ação mútua. Podemos, então, relacionar aqui o
B1bha (por ele traduzida com a colaboração de F. Rosenzweig) sentido que é dado na interpretação buberiana à Palavra

160 161
9 - OPFER. A Tradução do termo alemão Opfer por 13 - DER ELEKTRISCIIE SONNE. :S: uma expreuão
sacrifício não exprime toda a riqueza do hebraico Qorban. curiosa. Segundo Buber o homem do qual se fala aqui colocou
Cremos poder relacionar o termo empregado por Buber em no teto uma forte luz elétrica, como um pequeno sol que pode
EU E TU a saber Opfel' com a tradução que ele utilizou ser uma defesa contra os tormentos de um sonho em estado
em uma passagem bíblica - Darnahung - pois este evoca de vigília e também -um símbolo para os pensamentos que
melhor a riqueza do sentido da raiz hebraica qarab, "estar ele invoca. Assim a LA.mpada elétrica seria o "sol elétrico"
próximo" no sentido de "aproxima1·". Na verdade, este con- ou o "sol artificial da noite".
ceito implica a existência de dois seres. Um deles, tentando
diminuir a distância que os separa, se aproxima (qarab)
através de um qorban. Diante da dificuldade de encontrar-
mos um termo com a mesma riqueza de sentido, preferimos NOTAS DA TERCEIRA PARTE
o termo oferta com a conotação de presente que se oferece
a alguém. A oferta - qorban - é aquilo que me proporciona 1 - Evangelho de S. João 10:30.
a proximidade na presença. O homem oferece seu presente,
sua oferta para poder aproximar-se da presença de Deus. 2 - Khandogya Upanishad m U,4.
Podemos notar também, que em outro contexto Buber
escolhel.llt para a tradução de todas as formas derivadas da 3 - Afirmação de :Mestre Eckart.
raiz - ya'ad - formas correspondentes do gegenwaertigsein.
Fiel ao sentido rico do ya'ad, Buber traduz a tenda na qual 4 - SCHIEDLICHKEIT.
Deus se faz presença, se faz presente, por "Zelt der Gegen-
wart". Em sua obra "Koenigtum Gottes" (0 reino de Deus) 5 - I:M:MER-WIEDER -WERDEN-:MUESSEN.
Buber fala da "das Zelt der goettlichen Begegnung oder
Gegenwaertigung" (tenda do _encontro ou da presentificação 6 - "GRANDE VEICULO". E a tradução do :Maha.yana.
de Deus). Assim cremos que o termo escolhido oferta no o Grande veículo é um ramo do Budismo formado por virias
sentido de presente se aproxima da intenção manifestada no seitas sincréticas que se encontram sobretudo no Tlbet, no
texto, isto é, de um encontro onde se quer estar na presença Nepal, China e Japão. Sua língua se baseia em cA.nones do
de Deus. A oferenda, aquilo que é oferecido, relembra a sânscrito acredita em um ou vários deuses; apregoa o ideal
vontade constante de renovar sempre este "encontro". bodhisattva da compaixão e da salvação universal. Ao lado
do "Grande Veículo" existe o "Pequeno Veiculo", Hynayana,
10 - EIGENWESEN. Literalmente poderia ser traduzido que é um ramo menor e mais ~onservador do Budtsmo
por ser próprio. E um termo inusitado, mesmo em alemão, Aliás dominante principalmente no Ceila.o, Burma, Tailandla e
Buber aprecia muito forjar palavras' não se importando com Cambodja. Adota a escrita Pali, que é utilizada tanto como
o uso ou o sentido que possam ter na linguagem comum. linguagem escolar como linguagem litúrgica.
Em uma carta ao tradutor da primeira edição inglesa de
EU E TU Buber recusou o termo individualidade. Como 7 - REDLICHKEIT. Pode ser traduzido por honestidade,
Buber estabelece uma distinção entre Eigenwesen e Person, o integridade. Possui a mesma raiz de reàen falar, Beàe fala,
tradutor recorreu aos conceitos já consagrados na linguagem discurso.
filosófica de pessoa e indivíduo. No contexto Eigenwesen é
o EU da palavra-princípio EU-ISSO enquanto que Person 8 - Referência a Nietsche, ECCE HOMO 3• parte onde
é o EU da palavra-princípio EU-TU. Eigenwesen se refere discute o "Assim fala Zaratustra".
à relação homem com o seu "'si-mesmo". Preferimos então a
expressão ser egótico ou simplesmente o termo "egótico", 9 - Wir koennen nur gehen und bewaehren. Und aucb
embora se trate de um termo pouco comum. Mais adiante dies "sollen" wir nicht - wir koennen - wir muessen.
Buber utiliza o termo Eigenmensch que traduzimos por
egotista. 10- Das Wort der Offenbarung ist: Ich bin da ala der
11 - SCHIBBOLETH. Marco Distintivo. icb da bin.
Esta é a tradução de "EHYEH ASHER EHYEH''.
12 - Valore no original. Cremos que se deve compreender a principal preocupação da

164 165
~nterpr;ta?ão bub~riana da palavra !la revelação como uma depois que pesquisas foram feitas na direção que ela indica,
1mportânc1a espec1al- dada ao conceito de "presença". Deus sem que permaneçam contradições. A meu conhecimento foi
assegura a Moisés que estará com ele. Por duas vezes Deus Bernard Dhum que a formulou há várias décadas, em um
come.ça por EHYEH-eu serei presente. Não se deve perder curso inédito da Universidade. de Goettingen. Talvez este
d~ v~ta a questão central que é uma situação de diálogo. nome não seja senão um prolongamento de hu (ele) assim
Aí nao se trata do homem mas de Deus, do nome divino. como outras tribos árabes chamavam Deus "o uno, o ine-
Para o. homem no estado de pensamento mágico, 0 nome fável". O grito, prossegue Buber, dos derviches: Ya.-hu se
verda~e1:o de uma pessoa não é a simples denominação mas traduz por "Oh! Ele". E em um dos hinos mais importantes
a essencta mesma da pessoa, de certo modo destilada de sua de um místico persa Djelaleddin Rumi pode-se ler: "é o Uno
realidade embora permaneça presente neste nome. A pessoa que procuro, é o Uno que eu vejo, é o Uno que eu chamo.
mesma é inacessível, oferece resistência. Porém através do ELE o primeiro, ELE o último, ELE é o exterior, ELE é o
nome ela se torna acessível. O nome verdadeiro, porém. pode interior. Não conheço mais ninguém senão Ya.-hu (Oh! ELE)
ser diferente daquele que é geralmente conhecido. Este enco- e Ya-man-hu (Oh! Ele que é)". A forma originária do grito
bre, vela aquele. O nome verdadeiro pode diferenciar-se do pode ter sido Ya.-huva, se for permitido ver no árabe huva
nome comum pela pronúncia. À questão a respeito de seu a forma semítica primitiva do pronome "ele" que em hebráico
nome, Deus responde a Moisés: Ehyeh asher Ehyeh. A tra- se diz hu (Cfr. M. Buber MOISE (tradução francesa nas
duçã~ ~ais comum é: "Eu sou aquele que sou" significando páginas 71 e 72). Então de uma vocalização, de uma excla-
com 1sso que EHYEH se designa como o existente, o eter- mação pronunciada no êxtase, meia-interrogação, meio-pro-
namente existente, aquele que persiste imutavelmente em nome proveniente do fonema primitivo Ya.-hu aparece uma
_seu ser. Não se pode, entretanto, afirma Buber, tirar do forma verbal precisa. de acordo com regras gramaticais que,
verbo, na linguagem bíblica, o sentido da existência pura. na terceira pessoa (h.avah é idêntco a hayah) significa a
Além diss~ esta interpretação deixa transpar_ecer um tipo mesma coisa que EHYEH anuncia na primeira pessoa.
de abstraçao que normalmente não se manifestava em. uma "YHVH é aquele que será, que estará aí", isto é, aquele que
época de vitalidade religiosa ·em expansão. Buber o entende estará presente não importa onde ou quando, mas a cada
no seu sentido profundo de «ser presente". Ademais podemos momento do presente e em cada lugar onde alguém estiver
perguntar: seria a intenção do narrador de mostrar que presente. Enquanto a exclamação primitiva saudava o Deus
Deus, em um momento memorável em que anuncia a liber- escondido, a forma verbal é sua manifestação. Assim lemos
tação de seu povo, desejava conservar e acentuar sua dis- no Exodo: 3:14: "EHYEH, 'eu sou presente', 'eu serei pre-
tância em vez de apresentar claramente sua proximidade sua sente' me envia a vós" e logo c:lepois: "YHVH o Deus de
presença? Então, que força e sentido manifesta a ~lara vossos pais me envia a vós". Podemos pois compreender
intenção dos dois "EHYEH", como se lê em Exodo 3:12? "Eu como Buber entende a palavra da Revelação EHYEH ASHER
serei, eu estarei presente" de modo absoluto e não como em EHYEH como "lch bin da als der ich da bin". Acreditamos
outras passagens "Eu serei presente em tua boca", "Eu poder assim nos aproximar da riqueza de sentido que Buber
estarei junto de ti", "Eu não necessito ser invocado pois tentou captar na palavra da Revelação traduzindo-a "Eu sou
serei presente junto a vós" Por trás destas palavras, afirma presente como aquele que sou presente".
Buber, percebe-se a resposta verdadeira endereçada aos adep- 11 - Vemos aqui clara alusão aos fragmentos 8, 17 e 21
to~ da mB;gia .egípcia e àqueles que foram tocados pela técnica de Empédocles. No seu fragmento 8 Empédocles afirma:
magica: e inutil tentar invocar o nome de Deus. Com efeito "Dir-te-ei ainda uma outra coisa: não há nascimento para
no Eg~to os mágicos ameaçavam os deuses que não queriam nenhuma das coisas mortais; não há fim na morte funesta;
cumprtr suas ordens. suas vontades e acatar seus desejos há somente mistura e dissociação dos elementos compostos.
dizendo~lhes que atirariam seus nomes aos demônios e extrai~ Nascimento nada mais é que um nome dado pelos homens
riam suas bocas de suas cabeças. Se no Egito a religião nada a este fato".
mais era do que regras de magia, no diálogo da "Sarça
ardente" a religião é desmagificada.
NOTAS DO POST-SCRIPTUM
Além disso o nome de Deus se transforma como afirma
Buber: "Dentre todas as suposições relativas ao emprego do 1 - GESPROCHENHEIT. :S: um substantivo abstrato
n?m.e YHVH pelos Hebreus nas épocas que precedem sua forjado por Buber que significa algo que é falado. Diante da
h1storia, uma somente permite tornar t~do isso inteligível, dificuldade de tradução daquilo que exatamente quer dizer

166 167
Buber, preferimos um termo que pode se aproximar do seu
significado, fala. A fala como mensagem e como manifestação
concreta desta mensagem através da palavra.
2 - PESSOA. Não se trata de saber o que Deus é em Iii
mesmb mas o que Ele é na relação com o homem. Deus não
é pessoa em sua essência mas em sua relação com o homem. GLOSSARIO
Buber escolhe um caminho radical para a compreensão do
ser de Deus em termos de seu sentido para o homem, ao
mesmo tempo que empreende uma compreensão do homem
em termos de seu ser-com-Deus. Mais adiante Buber emprega Abhaengigkeit sentimento de dependência
o termo Personha{Ugkeit, assim como Naturhaftigkeit e Ablauf decurso
Geistl>.ajtigkeit. face, semblante
Angessicht
3 - lN SCHAFFENDEN, OFFENBARENDEN, ERLO-
ESENDEN AKTEN ... relação
Beziehung
Criação, Revelação e Redenção. Estes três termos encer- colocar à prova, comprovar
ram o núcleo da interpretação buberiana da palavra de Deus Bewaerung
que é o •ímbolo do encontro dlalógico. Tudo na escritura é Begegnung encontro
genuinamente fala (Gesprochenheit) afirma Buber em sua Estado de ser consciente ou de ter
Bewusstheit
ob~a "Die Schrift und ihre Verdeutschung", pág. 56. A Bíblia consciência
é a incessante proclamação de uma mensagem (Botscha.ft) explorar a superfície
Befahren
e a realidade desta proclamação é sempre assumida e está destino
sempre presente. Os três pontos essenciais no diálogo entre Bcstimmung
a "terra e o céu" são a criação, a revelação e a redenção. A Besinnung lembrança
Bíblia encontra as gerações pela exigência de ser reconhecida
como a verdadeira história do mundo, isto é, o fato de o Dinghaftigkeit coisidade
mundo ter um começo e um fim. A criação é a origem e a Daszwischen entre
redenção o fim. A revelação entretanto, não se apresenta
como um ponto fixo, datado entre os dois. Mesmo a revelação Erleben vivenciar
no Sinai não é este ponto intermediário, mas antes uma
Erfahren experienciar. E r f a h run g - conheci-
contínua escuta e uma tomada de consciência no momento mento prático
presente de sua atualização. O importante é a apropriação experiência interior ou vivida, vi-
pelo homem do evento bíblico no momento, no instante pre- Erlebnis
vência
sente, pois, para Buber, o encontro existencial é central e
não está sujeito ao condicionamento histórico. :S: interessante Eigenmenschen egotista
relembrar, mesmo que rapidamente, uma faceta da mensagem ser egotico ou simplesmente egótico
Eigenwesen
hassídica. sobre a redenção. O Hassidismo reage contra o
modo messiânico de se distinguir um homem do outro, ou Gegenseitigkelt reciprocidade
uma época de outras ou uma ação de outras. A força para GE:ist espírito. ver nota
cooperar na redenção foi atribuída a todos os homens indis- presença, presente
tintamente. :S: pela santificação sem preferência de tudo o Gegenwart
autômato. pedaço de argila animado
que se faz, do ato de levar Deus ao longo da vida, a consa- f';oh:m
gração de nosso vinculo com o mundo que pode realizar-se Gegenuebcr face-a-face, parceiro
a redenção. Foi tal ensinamento de um vínculo Inseparável
entre o mundo e o homem que exerceu uma influência mar- Heilsleben vida de salvação
cante sobre Buber a ponto de este afirmar que o destino
inevitável do homem é amar o mundo, pois, não é em um Ichhaftigkeit egoidade
pretenso "além" do mundo, mas no seu "interior" que o Ichbezogenheit egocentrlcidade
homem pode encontrar o divino.
169
168
Koerper corpo físico, corpo percebido
Leib corpo vivido
Machtwille
, vontade de poder
0IJfer oferta
Punkthaftigkeit unidimensionalidade
Realitaet realidade
real real
Redlichkeit integridade
Rede fala
Schauen contemplar
Scheinwelt mundo de aparência
Seelenvog't!I "alma-pássaro". ver nota
,Umkehr conversão
Unterredung conversação
Umfassung envolvimento
Verhaeltnis contato
Verbundenbeit vinculo
Verhaltenheit retenção
Vergegenwaertigen presentificar
Vergegenwaertigung presentifléação
Verwirklichen atualizar
Vereinigung unificação
Verfremdung alienação
Versenkung absorção
Vorhnnden "à mão". Heidegger explorou mais o
sentido de vorhanden ou Vorhan-
denheit
Wesen traduzimos por ser, natureza, essên-
cia e no sentido mais rico em EU
E TU por ser presente
Wirklich atual
Wirklichkeit atualidade
Wirklichen atuar
Werk obra
Weisung ensinamento e também direção. li: a
IMPRESSÃO E ACABAMENTO
tradução de Torah.
Artcolor Ltda
Tal.: (011) 3873.33n
170

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