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ARTIGO

“A humanidade de Pedro na longa estrada com o mestre Jesus”

ELIZABETH MARQUES MARÇAL – 7019433

Artigo de Conclusão de Curso


apresentado ao Colegiado de Curso com
vistas à obtenção de grau De Pós
Graduação em Aconselhamento Pastoral
da Faculdade de Teologia da Igreja
Metodista, Universidade Metodista de
São Paulo, sob a orientação da Prof.(a).
Danielle Lucy Bosio Frederico

São Bernardo Do Campo – Fevereiro 2020


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Resumo

Este artigo tratará referente a questão de como pode um homem de Deus, santo
ser pecador.

Serão abordados e analisados temas como santidade, humanidade e


pecaminosidade dentro de vertentes da visão católica e evangélica.

Após a definição do que é ser santo e de quem pode ser tornar uma pessoa santa,
será mostrado estes dois lados tanto santo e pecador do discípulo Pedro em meio a sua
caminhada com o Senhor Jesus.

Palavras-chave: santidade, humanidade, pecaminosidade, discípulo Pedro,


Jesus.

Resume

This article will deal with the question of how a holy man of God can be a sinner.

Themes such as holiness, humanity and sinfulness will be addressed and


analyzed within the Catholic and Evangelical view.

After defining what it is to be holy and who it can be to become a holy person,
these two sides will be shown both holy and sinful of the disciple Peter in the midst of his
walk with the Lord Jesus.

Keywords: holiness, humanity, sinfulness, disciple Peter, Jesus.

Introdução

Quando se pensa nos discípulos/apóstolos de Jesus, se olha para a grandeza


desses nomes e automaticamente há um certo poder, status neles; de certa forma até se
romantiza estes nomes e os torna em super-heróis bíblicos.

“A figura do santo mártir antigo continua viva na literatura e nas práticas


cultuais, e permanece um modelo, reatualizado no decorrer dos séculos
principalmente na pessoa dos novos evangelizadores ou das vítimas de
conflitos político-eclesiásticos.” (ANDRADE, S., 2008, p. 3).

E realmente estes discípulos foram capazes de atos grandiosos e inspiradores


para qualquer cristão, de qualquer época. Os chamam de “homens de Deus, ou “homens
santos” e esses modelos são refletidos no contexto das nossas igrejas, onde se percebe
que se é esperado da liderança da igreja e até daqueles que se convertem uma “santidade”
que é impossível de se alcançar, uma santidade onde a pessoa não pode mais errar;
3

baseando-se e usando como respaldo a passagem bíblica de 1 Pe 1.16 "Sejam santos,


porque eu sou santo". Mas será que se é interpretado corretamente esses versículos?

Será que Cristo esperava tal santidade dos seus discípulos? E se errassem como
Jesus lidava com tudo isso? (Com a humanidade, erros e pecados dos seus discípulos).

Como será visto no decorrer do trabalho há uma visão de que para ser eleito a
“homem santo” e “homem de Deus” se passa por uma análise geral de sua vida onde não
cabe os erros e pecados, mais do que isso, tais erros e pecados até poderia colocar em
xeque se eles (discípulos) eram verdadeiros “homens de Deus” ou “homens santos”, mas
será analisado duas vertentes existentes referente ao assunto.

Ao longo da caminhada com o Mestre Jesus os próprios discípulos reconheciam


em sua humanidade a existência de uma natureza pecaminosa que os levavam a tomar
decisões mesquinhas e egoístas que muitas vezes não tinham nada a ver com ações de um
“homem santo” veja o exemplo da passagem de Pedro em Lucas 5.4-11:

“E, quando acabou de falar, disse a Simão: faze-te ao mar alto, e lançai as
vossas redes para pescar. E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo
trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, porque mandas, lançarei a
rede. E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-
se-lhes a rede. E fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco,
para que os fossem ajudar. E foram e encheram ambos os barcos, de maneira
tal que quase iam a pique. E, vendo isso Simão Pedro, prostrou-se aos pés de
Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, por que sou um homem
pecador. Pois que o espanto se apoderara dele e de todos os que com ele
estavam, por causa da pesca que haviam feito, e, de igual modo, também de
Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse
Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante, serás pescador de homens. E,
levando os barcos para terra, deixaram tudo e o seguiram.”

Percebe-se que Pedro reconhece que é pecador, mas a partir do momento da


pesca maravilhosa ele decide seguir a Jesus, e assim como será mostrado no decorrer
deste artigo, Pedro inicia sua caminhada de “santificação com Cristo”.

É nesta caminhada de Pedro com Cristo que será analisado como Cristo lidava
com aqueles que caminha com Ele e de que forma se poderá aplicar isso no
aconselhamento pastoral.

1. Primeira seção: Santidade

Como mencionado na introdução será que é interpretado corretamente o que é


ser uma pessoa santa?

A cultura de hoje reconhece os discípulos como verdadeiros “homens de Deus”


e também como “homens santos”, esses modelos são refletidos no contexto das igrejas
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atuais. É esperado da liderança da igreja e até daqueles que se convertem uma “santidade”
que é impossível de se alcançar, uma santidade onde a pessoa não pode mais errar, como
lidar com a questão da santidade dentro do aconselhamento pastoral?

Uma das bases para tais atendimentos e acompanhamentos dentro do


aconselhamento pastoral é a Bíblia e os ensinamentos de Cristo. Será que Jesus ensinava
e esperava dos seus discípulos tal santidade a ponto de não se errar mais?

Será que todos tem o mesmo conceito sobre santidade ou será que há olhares
diferentes para o mesmo tema?

Andrade, S., fala de dois olhares: um dos devotos (leigos, pessoas comuns) e
outro da instituição (Líderes da igreja católica que interpretavam as Escrituras).

“Minha proposta consiste em apresentar dois olhares sobre a santidade,


especificamente a figura do santo mártir, apontando para o aspecto das
histórias narradas acerca da trajetória do tornar-se santo, a partir do olhar da
instituição e seus objetivos e, do santo, a partir do olhar do devoto.”
(ANDRADE, S., 2008, p. 3)

Ao longo destes dois séculos de cristianismo realmente se adquiriu vários


conceitos de santidade e isto não foi só mencionado pelo autor Andrade S., mas o autor
Silva também tem a mesma proposta de duas visões sobre o assunto:

O reconhecimento da santidade, nas religiões, depende dos critérios com que


se analisa o fenômeno. Assim sendo, as religiões ou igrejas possuem vários
conceitos de santidade, porém predomina, em todas elas, um aspecto mais
institucional e outro mais popular, de acordo com o olhar de quem a reconhece.
A devoção popular com frequência, é paralela e, não raro, conflitante com a
proposta da religião oficial. (SILVA, 2011, p. 2)

Que conceitos são estes sobre santidade que tanto o autor Andrade, S., como o
autor Silva mencionam?

Antes de avançar é necessário compreender o que é santidade?

Segundo o autor Silva “Santidade designa o atributo divino, de que só Deus é


santo, e designa aquilo que se aproxima da divindade e está, portanto, separado do
profano”. (SCHLESINGER; PORTO, 1995, p. 2294-5 apud SILVA, 2011, p. 1)

Conforme mencionado só Deus é santo e aquele ou aquilo que se aproxima de


Deus está santificado, isto é separado do profano, mas como pode o homem se aproximar
de Deus e se tornar um homem santo e/ou santificado? Quem é responsável por tornar o
homem santo?”
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Andrade, S., menciona que ser santo estava atrelado a análise de uma vida
especial, com testemunho de fé a ponto de entregar sua vida como mártir, veja seu
comentário:

Na cristandade, os primeiros santos eram os mártires. Desde a primeira geração


de cristãos, alguns dos seguidores de Jesus Cristo eram vistos como especiais
por terem dado a vida como testemunho de sua fé. Assim, antes do final do
primeiro século da cristandade, o termo santo era reservado somente ao mártir.
(ANDRADE, S., 2008, p. 5).

Então se percebe que para uma pessoa tornar-se santo, a sua vida seria analisada
e também seria necessário ter morrido pelo evangelho de Cristo. Segundo Andrade, S.,
esta analise era feita por autoridades eclesiásticas e depois o papa declara se tal pessoa
pode ser considerado santo ou não.

... na tradição cristã, o santo é alguém cuja santidade é reconhecida como


excepcional por outros cristãos e para a Igreja católica proclamar alguém como
santo, a vida da pessoa deve ser investigada pelas devidas autoridades
eclesiásticas; seus escritos e sua conduta são escrutinados; são chamadas
testemunhas para depor sobre sua virtude heroica; os milagres operados
postumamente por sua intercessão devem ser provados. Só então, a partir daí,
o papa declara por sua santidade ou não. A Igreja católica arroga para si a
capacidade divinamente orientada, de discernir, de tempos em tempos, se esta
ou aquela pessoa está entre os eleitos. (ANDRADE, S., 2008, p. 6).

Acima temos como a figura dos primeiros santos foram aparecendo na igreja
cristã (católica). Dentro deste ponto de vista nem todos poderiam ser “homens santos”.

Veja agora uma outra perspectiva no que diz a respeito ao ser santo e
consequentemente, a santidade.

O autor Horton explica e define o que é ser santo e/ou santificado inicialmente
pela análise hermenêutica da palavra santo na língua hebraica:

...A palavra hebraica qadash, frequentemente traduzida por "ser santo", tem a
ideia básica de separação do uso comum para a dedicação a Deus e ao seu
serviço. E encontrada na Bíblia como verbo ("estar separado", "ser
consagrado") e também como adjetivo (heb. Qadosh "sagrado", "santo",
"dedicado" [objeto, lugar, pessoa etc.), quer se aplique a qualidade ao próprio
Deus, quer a lugares, objetos, pessoas ou datas santificadas por Ele (ou para
Ele). (HORTON, 2006, p. 412).

E também faz a mesma analise hermenêutica da palavra santo na língua grega:

Os dois termos gregos cruciais para o estudo da santificação no Novo


Testamento são hagiazo (e seus cognatos) katharizo (e seus cognatos).
Hagiazo equivale aproximadamente à palavra hebraica qadash e quase sempre
serve como tradução desta, na Septuaginta. Significa “santificar, separar,
purificar, dedicar ou consagrar", bem como "tratar como santo". (HORTON,
2006, p. 419).
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O autor Horton menciona o seu conceito sobre santidade e também do ser santo
através da hermenêutica das palavras tanto no hebraico quanto no grego, chegando à
conclusão que ser santo é ser ou estar separado, isto é consagrado a Deus ou ao seu uso.
O Autor Andrade, C., também fez a mesma analise a partir do grego, do latim e hebraico:

... a doutrina da santificação pode ser definida como o ensino, cujo principal
objetivo é levar o crente a separar-se do mundo, para consagrar-se inteiramente
a Deus. O substantivo feminino “santificação” provém do verbo latino
eclesiástico sanctificare que, numa primeira instância, significa “fazer santo”.
Já na instância seguinte, pode significar também separar algo ou alguém para
o uso sagrado. Se formos ao grego do Novo Testamento, constaremos que a
palavra “santificação” provém do substantivo hagiasmos, que, por sua vez,
procede do verbo hagiazo. De acordo com o Léxico de Thayer, o verbo hagiazo
significa “reconhecer como venerável; honrar; separar algo das coisas profanas
para dedicá-lo a Deus; consagrar; purificar tanto externa quanto
cerimonialmente”. Tanto no grego, como no latim, o significado e a demanda
da santificação não mudam. Se nesta língua somos chamados a separar-nos do
mundo, naquela somos intimados a consagrar-nos inteiramente a Deus e ao seu
serviço. Na língua hebraica, há também uma palavra específica para
santificação. O vocábulo kadosh remete-nos ao mesmo sentido de santidade,
separação e pureza, que encontramos no latim e no grego. (ANDRADE, C.,
2018, p.65)

Os cristãos evangélicos participam deste mesmo entendimento de Horton e


Andrade C. mencionado acima, entendendo que ser uma pessoa santa é ser uma pessoa
separada. O que até aqui pode se enquadrar no olhar e/ou ponto de vista abordado
inicialmente.

O que difere é quem pode ser santo e/ou santificado, conforme mencionado
acima para ser santo no primeiro ponto de vista, e que faz parte da visão católica, se é
necessário passar por uma análise feita pela liderança da igreja católica e somente após
aprovação deles alguém se torna santo, mas veja o comentário de Andrade C.:

Não podemos confundir santidade com santificação. No exato instante em que


aceitamos Jesus, somos imediatamente elevados à posição de santos; sendo já
santos, estamos entre os demais santos. Isso não significa, porém, que o
processo de nossa santificação haja se completado ali. Posto que a santificação
é um processo, e não um ato, tem início ali, ao pé da cruz, uma ação longa e
continuada que, levada a efeito pela Palavra de Deus, conduzir-nos-á à estatura
de varões perfeitos, segundo o modelo que há Jesus Cristo. (ANDRADE, C.,
2018, p. 66).

Na passagem de Lucas 5.4-11 Pedro reconhece ser pecador e quando diz a Cristo
“ausenta-te de mim porque sou pecador” coloca Cristo em oposição a sua condição de
pecador deixando claro a santidade de Cristo. Quando Pedro deixa a sua vida e passa a
seguir a Cristo demonstra que o processo de santificação se iniciou ali, se enquadrando
como os conceitos mencionados por Andrade C. que diz que no exato momento que
aceitamos a Cristo se é elevado a posição de santo, Pedro não largaria tudo pra seguir a
Cristo se não o tivesse aceitado em sua vida.
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Além desta passagem do milagre da pesca e o reconhecimento de Pedro e sua


condição de pecador há também a passagem de Mateus16.13-19:

“Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos:


Quem os homens dizem que o Filho do homem é? Eles responderam: Alguns
dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos
profetas. E vocês? perguntou ele. Quem vocês dizem que eu sou? Simão Pedro
respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Respondeu Jesus: Feliz é
você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou
sangue, mas por meu Pai que está nos céus. E eu lhe digo que você é Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão
vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra
terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos
céus".

Nesta passagem há Pedro reconhecendo a Jesus como Cristo filho de Deus e este
discernimento foi dado pelo próprio Deus, aqui também se percebe o processo de
santificação porque Pedro consegue ouvir a Deus. Conforme mencionado por Silva
(2011, p. 1) “Santidade designa o atributo divino, de que só Deus é santo, e designa aquilo
que se aproxima da divindade...” Pedro não conseguiria ouvir uma revelação de Deus
caso estivesse distante do mesmo, por isso percebe-se que Pedro já estava em processo
de santificação.

Para avançar será aceito a proposta dos autores Horton e Andrade C.


mencionados acima que entendem que ser um “homem santo” é ser um homem separado
e consagrado a Deus, que aceitou a Cristo e o evangelho tornando-se santo por imputação1
e não por atos, os atos farão parte do processo de santificação que o acompanhará por
toda a sua vida.

Segundo Andrade C. a pessoa aceita a Cristo, isto é, a partir do momento que


passa a crer em Cristo e no evangelho, se torna uma pessoa santa e a partir deste momento
estará em processo de santificação de forma contínua e enquanto estiver neste mundo. Ele
continua:

Como dito, a santidade deve ser vista como um posicionamento e não como
um processo devidamente encerrado. Que agora somos santos, não há dúvida.
Todavia, isso não significa que já estejamos plenamente santificados. Seremos
constrangidos, durante a nossa peregrinação à Cidade Celeste, a buscar os
meios da graça, a fim de alcançarmos a perfeição: oração, leitura da Bíblia,
jejuns, frequência aos cultos e disciplina espiritual. Enquanto estivermos neste
mundo, soar-nos-á aos ouvidos a exortação apostólica: “Segui a paz com todos
e a santificação, sem a qual ninguém verá o SENHOR” (Hb 12.14).
(ANDRADE, C., 2018, p. 66).

1 Significado de "Imputação". Imputar algo a uma pessoa significa pôr esse algo em sua conta
(creditar) ou contá-la entre as coisas que lhe pertencem – ser-lhe creditado, e o que lhe é imputado passa a
ser legalmente seu; é-lhe contado como sua possessão. Imputar significa contar, creditar, atribuir. (Steele;
Thomas, 1996).
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Esta visão de Andrade C. é também a mesma visão aceita pelos cristãos


evangélicos de que o processo de santificação dura enquanto se estiver neste mundo ou
até a volta de Cristo baseando-se no versículo bíblico de 1Co 15.49-54:

“Assim como tivemos a imagem do homem terreno, teremos também a


imagem do homem celestial. Irmãos, eu lhes declaro que carne e sangue não
podem herdar o Reino de Deus, nem o que é perecível pode herdar o
imperecível. Eis que eu lhes digo um mistério: nem todos dormiremos, mas
todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao
som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão
incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que
é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista
de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de
incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a
palavra que está escrita: "A morte foi destruída pela vitória".”

Como mencionado nesta seção a santificação é um processo contínuo e na


próxima seção será tratado se dentro desse processo de santificação, a natureza
pecaminosa, que faz parte da humanidade de todos seres humanos, ainda pode levar a
pessoa a pecar.

Segunda seção: Humanidade

No aconselhamento pastoral a maioria dos atendimentos e aconselhamentos


serão praticados com aqueles que a partir deste pensamento e conceitos aceitos acima são
reconhecidos como homens santos e mulheres santas porque a maioria destas pessoas já
aceitaram a Cristo como seu salvador. Mas uma pessoa santa peca?

Santidade inicialmente parece se opor a humanidade, que traz consigo a natureza


pecaminosa.

Segundo Berti, (2010, p. 7), “A natureza humana foi corrompida por inteiro.
Todos os aspectos do homem foram pervertidos a ponto de deteriorar com o passar do
tempo.”

Em toda humanidade, e na completude do homem, há uma inclinação que


herdamos desde Adão para praticar o mal contra Deus, que também é conhecida como
pecaminosidade, afetando tanto as motivações quanto as ações.

Este pecado que está intrínseco desde Adão e é conhecido como pecado original.
O autor Pearlman, explica:

Pecado inerente. Ou “pecado original”. O efeito da queda arraigou-se tão


profundamente na natureza humana que Adão, como pai da raça, transmitiu a
seus descendentes a tendência ou inclinação para pecar (Sl 51.5). Esse
impedimento espiritual e moral, sob o qual os homens nascem, é conhecido
como pecado original. Os atos pecaminosos que se seguem durante a idade de
9

plena responsabilidade do homem são conhecidos como “pecado atual”.


(PEARLMAN, 2006, p.141).

É interessante que o pecado não anula a consciência do homem e seus atos são
estúpidos conforme nos fala Paulo em Rm 7.15-17: “Porque nem mesmo compreendo o
meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço
o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu,
mas o pecado que habita em mim”. É estupido porque a consequência do pecado traz
danos e rouba a felicidade, mas mesmo assim se executa aquilo que é mal, perverso e
destrutivo e por se ter consciência de tudo isso o pecado também é estúpido. Silva faz
uma analise sobre o pecado a partir deste texto bíblico e com a hermenêutica da palavra
no grego:

Aliás, a própria palavra “pecado” (ἁµαρτία = hamartia) em Romanos 7 tem o


sentido de “princípio ou causa do pecado”. Nos versos 17 e 20 o sentido
explícito é de “inclinação para pecar, propensão pecaminosa”. Mesmo
convertido, salvo em Cristo, o apóstolo, reconhecia-se como pecador por causa
dessa propensão carnal que nele habitava. Não um praticante contumaz do
pecado, mas alguém cuja natureza pecaminosa, corrompida, ainda não havia
sido retirada, o que ocorreria apenas por ocasião da ressurreição dos justos na
volta do Senhor (I Cor 15:49-54; I Tess. 4:13-17). (SILVA, 2004, p. 47).

O autor Horton também comenta a respeito do pecado e seu poder:

O ensino bíblico a respeito do pecado apresenta nitidamente duas face: a


depravação abissal da humanidade e a sobrepujante glória de Deus. A sombra
do pecado está sobre cada aspecto da existência humana. Fora de nós, o pecado
é um inimigo que seduz; por dentro compele-nos ao mal, como parte de nossa
natureza caída. Nesta vida, o pecado é um intimamente conhecido, ainda que
permaneça estranho e misterioso. Promete a liberdade, mas escraviza,
produzindo desejos que não podem ser satisfeitos. Quanto mais nos debatemos
para escapar ao seu domínio, tanto mais inextrincavelmente nos enlaça.
(HORTON, 2006, p. 263)

Entender que a natureza pecaminosa faz parte de todo ser humano e também que
o crente em Cristo Jesus pode ao mesmo tempo ter a sua natureza pecaminosa, estar santo
e sempre estar em busca da sua santificação é confuso e ainda parece contraditório, mas
veja como o autor Pereira nos esclarece isso:

Como é sabido, no conhecimento bíblico há duas vertentes básicas para a


palavra santo. Portanto, temos que refletir um pouco mais sobre a questão da
santidade bíblica. Santidade é qualidade de santo. A santidade de Deus é
entendida como pureza absoluta. Somente Ele é absolutamente Santo. Porém,
a santidade humana perpassa pela inquestionável limitação de nossa
humanidade. Poderemos ser santos/as, porém impuros/as, limitados/as e
falhos/as. É Deus quem nos santifica; entretanto, não nos torna puros/as.
Daí, entendemos que santidade como pureza é uma utopia, embora a pureza
deva sempre ser buscada. Na busca de santidade, rumo à utopia, nunca seremos
absolutamente santos/as, enquanto humanos aqui neste mundo, mas sempre,
pela divina graça, seremos santificados. Crescendo em santificação, num
processo de aperfeiçoamento, nunca seremos perfeitos/as; mas, pelo infinito
10

amor de Deus em Jesus Cristo, seremos sempre aperfeiçoados/as. Há, na


convivência com a graça, o aprimoramento do nosso ser.
Assim, pelos caminhos da santificação, do aperfeiçoamento, há o
aprimoramento que é a reconstrução do ser pela bondade e misericórdia de
Deus. Diante da pureza e santidade do Senhor, o ser se curva e reconhece suas
limitações. Toma consciência de sua pequenez e se prostra humildemente
perante a glória eterna. Então, entendemos nossa dependência, nossa própria
incapacidade. É aí que descobrimos também o/a outro/a, o nosso semelhante,
tão limitado quanto nós mesmos. (PEREIRA, 2004, p.71).

Santidade no sentido de perfeição é uma utopia, algo impossível de se alcançar.


Ser santo não torna uma pessoa perfeita, sua natureza pecaminosa continua a existir por
mais que passe a possuir uma nova natureza, esta não substitui a antiga natureza
pecaminosa, ela só recebe um golpe relevante, mas tal golpe não tem o poder de destruí-
la.

Assim, seres humanos são falhos e limitados (isto é, pecadores), porém sempre
caminhando para santificação e aperfeiçoamento. Assim, a perfeição dos crentes é obra
do plano da redenção, que considera perfeito pela fé ao que crê em Jesus e este o santifica
e aperfeiçoa.

Essa ideia do ideal da perfeição para a igreja encontra-se em várias passagens


como Dt 18:13 “perfeito serás, como o Senhor teu Deus”; ou Mt 5.48 “...sejam perfeitos
como perfeito é o Pai celestial de vocês”, mas é preciso lembrar que a perfeição do crente
é atribuída a uma imputação, como na frase “perfeitos em Cristo”, (Cl. 1.28 “nós o
proclamamos advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, a fim de que
apresentemos todo homem perfeito em Cristo” e 2.10 “e, por estarem Nele, que é o cabeça
de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude”).

Conforme o pensamento dos autores acima fica claro que os cristãos, mesmo
após sua conversão ainda sofrem a influência do pecado, mas do que isso o pecado está
intrínseco na natureza do homem, sendo assim, faz parte dos seres humanos mesmo após
se tornarem santos.

Em 1 João1.8-10 diz “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a


nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel
e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos
que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está
em nós.”. João deixa claro aqui que há condenação para aqueles que afirmam que não
pecam, em 1 João 1.10 que também não se pode negar o ato de “cometer” pecado.

Embora os cristãos tenham sido fundamentalmente libertos do poder do pecado


por meio de Cristo, de modo algum estão isentos de sua influência. De fato,
um efeito colateral perverso de ser reconciliado com Deus pode ser uma falsa
autoconfiança que os leva a agir como se estivessem imunes ao erro e ao viés
de auto interesse... Ainda que tenham sido libertos da necessidade de se
defenderem, os cristãos, dentre todas as pessoas, devem estar conscientes da
11

resistência pecaminosa que a mente humana tem à verdade (bem como das
limitações da mente humana, por causa da finitude dos seres humanos).
(JOHNSON, p. 6)

Sendo assim, até quando se quer fazer o correto pode-se estar equivocado. Veja
o contexto abaixo que também demonstra exatamente essa humanidade com tal natureza
pecaminosa demonstrando assim a limitação do discípulo Pedro:

Mateus 17
1
Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu
irmão, e os conduziu em particular a um alto monte,
2
E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e
as suas vestes se tornaram brancas como a luz.
3
E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele.
4
E Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui;
se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, um para Moisés, e
um para Elias.

Ao analisar Mateus 17, Pedro tem a sua visão limitada e olha só pra aquilo que
os seus olhos alcançava.

Quando Pedro decidiu fazer 3 Tabernáculos (cabanas) no monte, Mt 17.4,


provavelmente ele estava abismado por ver Jesus transfigurado, ouvir Moisés, Elias e a
voz do próprio Deus, talvez levou-o a pensar que não estava ali a toa e com certeza quis
servir ao mestre, a todos que ali estavam, as suas intenções com certeza foram as melhores
naquele momento, dignas de um “homem santo”.

Mas a Bíblia relata que enquanto o mestre estava no Monte, enquanto Pedro,
João e Tiago estavam no monte, os problemas lá embaixo com os outros discípulos
continuavam, os discípulos não conseguiam libertar um jovem Mt 17.16, “... o trouxe aos
teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo.” provavelmente tentavam de tudo e nada
dava certo e se perguntavam, aonde estavam errando com aquele sentimento de frustação
os assolando, uma coisa era certa, com certeza queriam e ansiavam pela volta do mestre,
Jesus precisava voltar!

Enquanto isso Pedro só conseguia enxergar aquele momento, enxergava só seu


próprio umbigo. Isso faz parte da humanidade egoísta, pecaminosa, focar somente em
seus problemas e quanto aos problemas do próximo simplesmente são minimizamos ou
nem se dá conta, geralmente são ignorados porque só o próprio mundo importa.

Naquele momento Pedro com certeza não estava nem lembrando que havia um
outro mundo que não era o seu, o que importava era tudo aquilo que estava vivenciando,
provavelmente nem se lembrava que haviam pessoas que precisavam da presença do
mestre, Pedro simplesmente e com certeza não queria que aquele momento tão grandioso
acabasse.
12

Ao fazer a análise do texto acima e das ações do discípulo Pedro, ele não fez
premeditando o mal, sua visão realmente era limitada e conforme todo aprendizado do
curso de aconselhamento pastoral, se percebe que se faz necessário respeitar aquilo que
o outro já conhece e o que teve de experiências para a partir daí orientar e aconselhar para
que ele próprio analise suas ações de um âmbito maior, menos limitado, e ele próprio
tenha seus horizontes ampliados, e assim conseguir lidar com as suas situações adversas,
enxergando o mundo ao seu redor e outras necessidades além das suas.

É exatamente isso que se percebe ao longo da caminhada com o mestre Jesus,


ele conseguia de forma simples mostrar as pessoas as suas limitações, as suas ações
egoístas, mostrar que isto era o esperado de atos que compõe a humanidade de todos nós,
Jesus mostrava que as melhores ações ainda eram limitadas, egoístas, más (Jo 3.19) e
automaticamente humanas, mas Jesus também mostrava que a humanidade não impedia
de se andar com Ele, de se andar em santidade.

Jesus sabia exatamente quem eram seus discípulos, mesmo assim Jesus decidiu
escolher aqueles doze discípulos. Ele poderia ter escolhido os melhores da sua sociedade,
mas Jesus:

...Não escolheu um único rabino. Não escolheu um escriba. Não escolheu um


fariseu. Não escolheu um saduceu. Não escolheu um sacerdote. Nenhum dos
homens selecionados por ele vinha de uma instituição religiosa. A escolha dos
doze apóstolos foi um julgamento contra o Judaísmo institucionalizado.
(MACARTHUR, 2004, p.22)

Muitas vezes se olha para os discípulos/apóstolos de Jesus com a grandeza


desses nomes e automaticamente há um certo poder, status neles; de certa forma até se
romantiza estes nomes que são transformados em super-heróis bíblicos, mas Cristo sabia
que os discípulos na verdade eram o oposto de tudo isso, conforme o comentário de
Macarthur:

...Homens perfeitamente comuns. Nenhum deles era conhecido como um


grande estudioso ou erudito. Não tinham o currículo de grande oradores ou
teólogos. Na verdade, no que se refere às instituições religiosas da época de
Jesus, eram excluídos. Não se destacavam por seus talentos naturais ou
aptidões intelectuais. Pelo contrário todos eles estavam sujeitos a cometer
erros, ter atitudes equivocadas, lapsos na fé e terríveis fracassos... Até Jesus
comentou que eram lentos para aprender e um tanto obtusos nas coisas
espirituais (Lc 24.25). (MACARTHUR, 2004, p.12)

Antes da escolha dos seus discípulos Jesus se recolhe um dia antes e passa a
noite orando, Lc 6.13: “E, quando amanheceu, chamou a si os seus discípulos”. Jesus
sabia que eram humanos e sem as habilidades esperada para tão grande obra, mas Jesus
não estava iludido quanto a eles, afinal passou a noite orando buscando em Deus esta
seleção. O mais importante Jesus estava disposto a dedicar todo o seu tempo restante de
vida aqui na terra para assim ensinar, treinar e transformar tais homens naquilo que
precisava que eles fossem, de discípulos a apóstolos, como o autor Price menciona abaixo:
13

Ilude-se quem pensa terem sido ideais e modelares as pessoas que Jesus
ensinou, mesmo incluindo-se os doze apóstolos. Caracteres bíblicos
muitíssimos distanciados de nós, temos que concebê-los em nossa imaginação.
Certo foram muito humanos como nós, com essas imperfeições e fraquezas
naturais à criatura humana, pois que esta é sempre a mesma em todas as épocas.
Embora mudem as condições ambientais, a natureza humana em sua essência
é sempre a mesma.
Este grupo de pessoas com que Jesus lidou estava mui longe da perfeição,
quando Jesus iniciou sua obra junto deles. Mesmo ao contemplar sua obra,
ainda eram imperfeitos. Eram – caracteres ideais apenas em embrião. Eram
santos apenas em estágio de fabricação. Preenchiam muito bem um dos três
requisitos que George A. Coe sugere para o ensino — a imaturidade. Assim
tinham eles que caminhar muito e muito, com muita paciência, para se
tornarem cristãos crescidos e maduros. Na longa estrada do aprendizado,
experimentariam muitas decepções e desânimos. Somente alguém que tivesse
uma alentadora visão do futuro, movido do infinito amor e paciência, e de
persistente energia e perseverança, se aventuraria a tomar como alunos este
grupo de pessoas e fazer deles o que o Mestre Jesus fez. (PRICE, 1980, p. 17)

É interessante que nessa preparação dos discípulos de Cristo eles caminhariam


com Cristo e passariam por um processo de santificação. Segundo o autor Price Jesus
sabia que seus discípulos eram santos apenas em estágio de fabricação, com isso o autor
quis mencionar este processo de santificação que acontece ao longo da vida de uma
pessoa quando se torna cristã e os discípulos quando foram escolhidos por Cristo estavam
neste início, pode se dizer que Jesus sabia que eles tinham desejos e vontades, paixões
comuns de uma natureza pecaminosa e por isso errariam e pecariam. Jesus também nunca
ensinou que se deveria reprimir os desejos, sempre mostrou que havia uma outra forma,
um outro caminho, uma saída.

Jesus não ensina a reprimir os desejos, mas chama para entrar numa caminhada
na qual os desejos são absorvidos pela esperança. Não desaparecem, mas
deixam de ser preocupação, motivo de tristeza, de desespero e de cobiça. No
passado, certa espiritualidade exaltou o sacrifício, a privação. Mas a privação
não é o mais importante da mensagem de Jesus. Quem está na caminhada, de
fato vai sofrer muitas privações, mas que não são sentidas como privações.
Veja-se o exemplo de São Paulo. Tudo é por ele estimado como um bem,
porque a Esperança é mais forte e absorve tudo, numa alegria superior. Jesus
não defendeu a privação ou diminuição do discípulo, como se a alegria de
tomar parte na construção do Reino fizesse com que os desejos se apagassem
ou relativizassem, de tal modo que deixariam de orientar a vida (COMBLIN,
2004, p. 34)

Jesus decidiu escolher os doze e caminhar com eles para que em cada situação
houvesse um ensinamento, uma aprendizagem, que até hoje motivam e orientam pessoas
em suas caminhadas.

No aconselhamento pastoral, através de situações adversas, erros e pecados,


sempre se há um ensinamento que pode ser aplicado. Jesus ensina que acreditava naqueles
que ninguém acreditava e talvez seja esta situação da maioria dos aconselhamentos, não
se vê homens santos em potencial, mas como Cristo acreditou e avançou com o seu meio
14

de trabalhar, que era através do ensino, mesmo que ainda os seus discípulos fossem
ignorantes, imaturos, lentos no aprender e sempre deixando a sua natureza pecaminosa
falar mais alto, Jesus sempre avançava em sua caminhada e ensinamentos, crendo que
seria possível transformar aqueles homens.

Em meio a esses ensinamentos Jesus escolhe doze discípulos e destes doze Jesus
escolheu um, que nos parece que o próprio Cristo o treinou para liderar:

O nome de Pedro é mencionado mais do que qualquer outro nome nos


evangelhos, exceto de Jesus. Ninguém fala com tanta frequência quanto ele e
nem o Senhor dirige-se tantas vezes a outro como a Pedro. Nenhum discípulo
é repreendido com tanta frequência quanto Pedro e nenhum discípulo censura
o Senhor, exceto Pedro (Mt. 16.22). (MACARTHUR, 2004, p.49).

A última seção deste artigo mostrará tanto a santidade do apóstolo Pedro quanto
sua natureza pecaminosa durante a caminhada com Jesus. É tão interessante que durante
esta caminhada com Jesus Cristo será visto que os atos do apóstolo Pedro geram confusão
de pensamentos e sentimentos porque os mesmos atos podem ser julgados como atos de
fé, coragem e heroísmo como podem ser julgados como atos pecaminosos e vergonhosos.
Dentro desta situação o conselheiro pode também aprender que precisa saber analisar a
situação não se deixando levar demasiadamente por julgamentos que nada acrescentarão
ou ajudarão o aconselhando, por isso será acompanhado como Jesus lidava com tudo isto,
para se tirar ensinamentos preciosos que poderão ser aplicados nos aconselhamentos
pastorais.

3. Terceira seção: Caminhando com Jesus

Jesus tinha discípulos mais próximos e Pedro era um desses, Pedro como
mencionado acima sempre foi o que mais se destacou, veja o comentário de Macarthur:

Nos relatos do Evangelhos, Pedro faz mais perguntas do que todos os outros
apóstolos juntos. Normalmente, era Pedro que pedia para o Senhor explicar
suas palavras mais difíceis (Mt 15.15; Lc 12.41). Foi Pedro quem perguntou
quantas vezes deveria perdoar (Mt 18.21). Foi Pedro quem perguntou qual
recompensa dos discípulos por terem deixado tudo para seguir a Jesus (Mt
19.27). Foi Pedro quem perguntou sobre a figueira que secou (Mc 11.21). Foi
Pedro quem fez perguntas sobre Cristo ressuscitado (Jo 21.20-22). Ele sempre
queria saber mais, entender melhor. Esse tipo de curiosidade é um elemento
fundamental do verdadeiro líder.
Mt16.13... foi nesse momento que Pedro falou, mais alto que o resto...v.16...
Pedro foi ousado e categórico. Essa é uma característica essencial dos grandes
líderes. Às vezes, ele teve que voltar atrás, retirar o que havia dito, retratar-se
ou ser repreendido. Mas o fato de estar sempre disposto a agarrar as
oportunidades com unhas e dentes marcava-o como um verdadeiro líder.
(MACARTHUR, 2004, p.51)
15

Jesus o chamava de Pedro2, Cefas, imaginamos que Jesus o chamava assim


porque acreditava que um dia seu discípulo teria as características de uma rocha, seria
inabalável. Jesus tem esse poder de acreditar nas pessoas mais do que elas mesmas.

O tempo todo o evangelho mostra Pedro tanto em sua santidade de homem de


Deus, discípulo e apóstolo quanto mostra a sua humanidade, com visões egoístas, as suas
falhas, os seus desejos e automaticamente os seus pecados.

Mas muitas vezes se romantiza e torna o personagem Pedro em um super herói


ou o torna em um vilão como na passagem de Mt 14.22-33 com Jesus andando sobre as
águas, muitas vezes se é focado na falta de fé de Pedro que o fez afundar (v.30), mas qual
pessoa se atiraria ao mar agitado? Quem teria essa coragem de pular em direção ao mestre
como Pedro fez, todos os outros ainda estavam confusos achando que Jesus era um
fantasma, com certeza ainda lutando para se manter no barco são e salvo. Aqui é um
exemplo que podemos exaltar a Pedro pela sua coragem por ter descido para caminhar
sobre o mar ou condená-lo por ter afundado. Mas Jesus em sua caminhada com Pedro
sempre estava disposto a estender a mão (v.31) quando este sucumbia em meio as suas
situações ou aos seus medos e aflições.

Outra passagem que achamos os dois lados de Pedro é Mt 16.17-23:

“Simão Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Respondeu


Jesus: "Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado
por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus. E eu lhe digo que
você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades3
não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você
ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido
desligado nos céus"... Desde aquele momento Jesus começou a explicar aos
seus discípulos que era necessário que ele fosse para Jerusalém e sofresse
muitas coisas nas mãos dos líderes religiosos, dos chefes dos sacerdotes e dos
mestres da lei, e fosse morto e ressuscitasse no terceiro dia. Então Pedro,
chamando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: "Nunca, Senhor! Isso
nunca te acontecerá!" Jesus virou-se e disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás!
Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas
nas dos homens”

Em um momento Pedro é elogiado no outro chamado de Satanás. Olha a


confusão que deveria estar a cabeça de Pedro, uns minutos atrás ouviu de Cristo que
receberia as chaves do reino do céus, com certeza se sentiu honrado e até mesmo
reconhecido por tudo que fez e largou para seguir a Cristo e agora sabendo pela boca do
mestre que foi usado por Satanás, com certeza estava muito confuso. MACARTHUR,

2
“Pedro” era uma espécie de apelido. Significava “rocha” (petros é a palavra grega para “um
pedaço de rocha, pedra”). O termo equivalente no aramaico é cephas

3
Portas do inferno
16

(2004, p.55), comenta: “Sem querer Pedro estava querendo dissuadir Cristo justamente
daquilo que era seu propósito aqui na terra.”

Com essa passagem de Mateus 16.22 “Então Pedro, chamando-o à parte,


começou a repreendê-lo, dizendo: "Nunca, Senhor! Isso nunca te acontecerá!” fica nítido
a humanidade de Pedro, mas uma vez Cristo corrige Pedro, e o corrige de forma diferente,
de forma que não repreendia a nenhum dos seus discípulos, pare e pense o momento que
Pedro ouviu de Cristo arreda-te de mim Satanás, Pedro só queria o bem de Cristo, quem
pensaria diferente de Pedro?

Ao pensar que um grande amigo, um parente ou irmão estaria prestes a sofrer


grande dores, passaria por uma emboscada injusta, com certeza se faria o máximo para
defendê-lo e ajudá-lo a se livrar dessa situação. Pedro também não queria que Jesus
sofresse, Pedro só queria resguardar o mestre e com certeza nessa passagem aprendeu que
mesmo que os motivos sejam bons, são limitados e ainda assim pode não ser a vontade
do mestre, aprendeu que em tudo se precisa prestar atenção no que o mestre diz, analisar
o que ele diz e mesmo sem entender no momento, respeitar, se preparar e obedecer, muitas
vezes se sofre demasiadamente em meio a situações difíceis, porque não se ouve o mestre,
porque não há preparo conforme as suas orientações, assim como Deus passava a sua
palavra e as suas orientações aos profetas, Pedro teria que aguardar as orientações e até
revelações de Deus para agir.

Pedro pôde aprender ainda mais, que mesmo estando diante do filho de Deus,
caminhando com o filho de Deus, mesmo assim, Satanás ainda podia usá-lo, Cristo
mostrou que mesmo estando seguindo-o e ouvindo-o, mesmo já estando em santidade,
ainda podia ser conduzidos por Satanás e ainda cheio de boas razões, porque o desejo de
Pedro era livrar a Jesus da morte.

Trazendo isso para os dias de hoje, imagine um membro ouvindo do seu mestre
e pastor que está sendo usado por Satanás, nunca aceitaria a correção, diria que seu líder
que está endemoniado, com certeza sairia da igreja. Pedro também deve ter tido
pensamentos de revolta, mas ele não estava falando só com um líder, estava falando com
o Messias conforme tinha acabado de reconhece-lo como tal. Restava a Pedro, só tentar
analisar e entender tudo que estava acontecendo e pelo que os relatos nos mostram que
toda essa confusão na cabeça de Pedro continuou até se passarem os 40 dias de
ensinamentos do mestre pós ressurreição e ser capacitado pelo Espirito Santo.

Pedro nesse episódio também, com certeza, relembrou as promessas que Cristo
havia acabado de fazer e com certeza, sabia que em meio aos seus erros, que em meio a
palavras duras, estava em processo de preparação para ser um líder, precisava ser
submisso ao Senhor, Cristo o ensinou que se é preciso estar sempre submisso a Ele, que
é a cabeça da igreja, é Ele quem vai direcionar todo o corpo, um líder na igreja só tem
sucesso sendo submisso a Cristo. Em 1 Pedro 2.13-14 vemos que Pedro entendeu essa
17

submissão, veja: “Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os
homens”.

Em várias passagens há Pedro em situações que alguns olham como atos


heroicos e outros com atos dignos de um vilão veja a passagem de Lc 22.49-52:

“Ao verem o que ia acontecer, os que estavam com Jesus lhe disseram:
"Senhor, atacaremos com espadas? " E um deles feriu o servo do sumo
sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. Jesus, porém, respondeu: "Basta! "
E tocando na orelha do homem, ele o curou. Então Jesus disse aos chefes dos
sacerdotes, aos oficiais da guarda do templo e aos líderes religiosos que tinham
vindo procurá-lo: "Estou eu chefiando alguma rebelião, para que vocês tenham
vindo com espadas e varas?”

Havia com certeza muitos soldados com o sumo sacerdote tanto os que fazia a
defesa e guarda do templo como os soldados romanos, Pedro ao atacar o servo do sumo
sacerdote provavelmente tinha dois pensamentos, pensava: vamos morrer todos, mas
pelos menos vamos morrer lutando, ou poderia ter pensado, lembrando que os judeus
esperavam um rei como Davi, alguém que com certeza subjugaria os seus inimigos, até
deve ter se lembrando das histórias do Antigo Testamento onde Deus sempre lutava ao
lado do seu povo garantindo a vitória, com certeza imaginava que algum poder
sobrenatural os ajudariam a vencer, de qualquer forma, se foi pra morrer dignamente ou
esperando vencer ele teve muita coragem, no momento Pedro tomou a decisão pela
impulsividade da velha criatura, ainda não tinha deixado os ensinamentos de Cristo os
conduzirem.

E Jesus até nos momentos mais difíceis de sua vida aqui na Terra, teve
compaixão, ele teve compaixão do servo que com certeza não teria dele, Jesus não só teve
compaixão, Jesus cura Malco e continua seus ensinamentos relembrando a Pedro da lei,
Mt 26.52 “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada
morrerão.” e da condenação de a seguir, porque pela lei todos são condenados. Talvez
essas palavras tenham ecoado no coração de Pedro e se lembrando das Palavras de
salvação que só eram proferidas pelo mestre, ainda tinha seus inimigos que o viram ser
repreendido pelo mestre, com certeza se sentiu humilhado e com tanta confusão em sua
mente e em sua volta, realmente só restava fugir. Mas Pedro vacilava sempre em dois
pensamentos, porque todos fugiram, só ele e João tiveram a coragem de ir até aonde o
mestre estava.

Pedro mesmo com medo, confuso, muito confuso, somente ele e provavelmente
4
João , foram os únicos dos discípulos que seguiram a Jesus até a casa do Sumo sacerdote
Jo 18.15, Pedro estava próximo o suficiente para Jesus olhar para ele quando o galo
cantou, (Lc 22.61), esse versículo fala que Pedro lembrou-se da palavra do seu mestre,

4
porque João é quem relata essa passagem e lá fala ele e um outro discípulo. João 18.15
18

que o negaria, Pedro só negou Jesus porque estava bem próximo, os outros não o fizeram
porque tinham fugido. Pedro não havia abandonado a Cristo completamente. Mas nesta
passagem na maioria das vezes só é lembrado da traição de Pedro e que ele negou a Jesus.

Pedro depois de tantos erros, com certeza ele mesmo achava que não nasceu pra
ser discípulo de Cristo e decide voltar a sua velha vida de pescador, quantos não desistem
dos seus sonhos, muitos até desistem de si mesmos (como Judas Iscariostes), mas Cristo
mais uma vez em meio a sua caminhada com o discípulo Pedro ensina e vai além do
imaginado.

Ainda não era a hora de chamar Pedro por este nome, ele ainda não está
preparado para ser a pedra firme, inabalável como o nome diz, Jesus após sua ressureição,
quando percebe que Pedro não consegue avançar mais, pelo contrário retrocede para sua
vida de pescador, o chama 3x seguida de Simão e o pergunta se o ama:

Jo 21.15-17 “Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão,


filho de João, você me ama realmente mais do que estes? " Disse ele: "Sim,
Senhor, tu sabes que te amo". Disse Jesus: "Cuide dos meus cordeiros".
Novamente Jesus disse: "Simão, filho de João, você realmente me ama? " Ele
respondeu: "Sim, Senhor tu sabes que te amo". Disse Jesus: "Pastoreie as
minhas ovelhas". Pela terceira vez, ele lhe disse: "Simão, filho de João, você
me ama? " Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez
"Você me ama? " e lhe disse: "Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te
amo". Disse-lhe Jesus: "Cuide das minhas ovelhas.”

Imagine que cada vez que Pedro ouvia a pergunta de Cristo em sua cabeça devia
passar um filme de todas as suas ações de pecador, desobediência, traidor que até então
não demonstrava esse amor, mas Pedro também provavelmente lembrou-se das palavras
de salvação e das promessas de Cristo e a partir daquele momento demonstrou que estava
disposto não só a amar, mas a provar seu amor para com Cristo.

Considerações finais

Com certeza este Pedro que escreveu a epístola já era um novo Pedro que
conseguia ter domínio próprio, pensar antes de tomar suas decisões, permitia agora que o
Espírito Santo o orientasse e guiasse, conforme 1 Pe 5.5-6 “Da mesma forma jovens,
sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque "Deus
se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes". Portanto, humilhem-se
debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte em tempo devido”

Pedro também aprendeu a amar. Em 1 Pedro 4.8 ele diz: “Sobretudo, amem-se
sinceramente uns aos outros, porque o amor perdoa muitíssimos pecados”. Com certeza
Pedro sabia o que era ser um pecador e se lembrava de Cristo o perguntando se o amava,
agora conseguia entender perfeitamente o significado do amor, partindo do exemplo do
amor de Cristo.
19

Pedro com certeza quando Cristo falou que Satanás queria o peneirar como trigo,
(Lc. 22.31-32 “Simão, Simão, Satanás pediu vocês para peneirá-los como trigo. Mas eu
orei por você, para que a sua fé não desfaleça. E quando você se converter, fortaleça os
seus irmãos.”) ele deve ter pensado no peneirar do trigo, que se fazia para purificar o
trigo, separar o que prestava do que não prestava, mas não deve ter entendido como se
daria isso em sua vida. Provavelmente se Pedro não tivesse passado pelo episódio da
negação de Cristo com certeza ele não teria aprendido tantas lições e principalmente a ter
compaixão do outros, isso aconteceu por ter errado tão grandemente.

Pedro nos mostra nessa passagem acima que mais tarde entendeu tudo o que
passou, entendeu que Satanás realmente estava ao derredor querendo devorar a quem
pudesse, inclusive e principalmente os servos do Senhor, 1 Pe 5.8-10:

Sejam sóbrios e vigiem. O diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão,
rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe, permanecendo
firmes na fé, sabendo que os irmãos que vocês têm em todo o mundo estão
passando pelos mesmos sofrimentos. O Deus de toda a graça, que os chamou
para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido durante pouco
de tempo, os restaurará, os confirmará, lhes dará forças e os porá sobre firmes
alicerces”

Ele sabia o quanto era dolorido passar pelas batalhas com Satanás, mas Pedro dá
a receita de como passar por tudo isso, a duras penas e de forma muito dolorida, aprendeu,
“resisti-lhes firme na fé”, a fé em Cristo, a fé nos ensinamentos de Cristo, lembrando-se
sempre que Jesus lhe dava uma nova oportunidade o que a lei não fazia jamais. Pedro
ainda dizia mais, todo esse sofrimento os fortaleceria (1 Pe 5.9-10) é fato que Pedro não
falava por falar, Pedro orientava como Jesus o ensinou em meio sua caminhada com o
mestre, com certeza era lembrando das palavras de Cristo que Pedro chegou ao fundo do
poço mas conseguiu sair de lá.

João 21.18-19, mostra que o chamado de Pedro, a partir daquele momento que
confessou amar a Cristo, seria de sofrer por Cristo, mas ninguém quer sofrer, Pedro
também não queria sofrer por nada, com certeza Pedro foi colocando tudo no lugar, Pedro
estava capacitado por Cristo, Pedro agora entendia e compreendia tudo que eles haviam
passado, vivido, Pedro sabia que suas experiencias tão dolorosas poderiam ajudar e até
salvar outras pessoas, assim como Jesus que já tinha dado a maior prova de amor para
com ele demonstrando que seu amor existia apesar dele ser pecador, apesar dele vacilar
em seu amor, Jesus, Deus nunca vacilava e sempre estava ali o aguardando de novo e de
novo...

Depois de tudo que Pedro viveu, se não tivesse os ensinamentos de Jesus em sua
mente e coração e ele só tivesse a lei, talvez sua única solução fosse a mesma de Judas,
mas agora ele conhecia Jesus que o amava, agora havia uma saída, havia sempre uma
nova oportunidade, e o medo dos sofrimentos não superava aquela alegria de vencer,
principalmente de vencer a si mesmo, aquela alegria de compartilhar que há uma solução,
20

que há uma saída mesmo em meio a tanto sofrimento, mesmo quando você está no fundo
do poço, mesmo quando você sabe que foi você quem errou.

Agora estava capacitado, tinha o poder e força através do Espírito Santo e de


todas experiencias que vivenciou com Cristo, assim poderia cumprir seu chamado. Após
o dia de pentecoste se encheu de coragem e forças necessárias para em poucos dias depois
pregar na mesma Jerusalém, diante dos mesmos que mataram a Cristo, com iniciativa,
poder e veemência, conforme Atos 4.18-20 “Então, chamando-os novamente, ordenaram-
lhes que não falassem nem ensinassem em nome de Jesus. Mas Pedro e João responderam:
"Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não
a Deus. Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos".” E ele se posiciona
novamente em Atos 5.29 “Pedro e os outros apóstolos responderam: "É preciso obedecer
antes a Deus do que aos homens!”.

Pedro cheio do Espírito Santo, com uma coragem sobrenatural, fala da onde veio
toda essa fé, força e coragem em 1 Pe 1.3-7, “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo! Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança
viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que
jamais poderá perecer, macular-se ou perder o seu valor. Herança guardada nos céus para
vocês que, mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até chegar à salvação prestes
a ser revelada no último tempo. Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de
tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique
comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo
que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus
Cristo for revelado”.

Ele pregou no Pentecostes e três mil pessoas foram salvas (at 2.14-41). Ele e
João curaram um homem coxo (At 3.1-10). Era tão poderoso que pessoas
foram curadas em sua sombra (At 5.15-16). Dorcas foi ressuscitado dentre os
mortos por ele (At 9.36-42) apresentou o evangelho aos gentios. (At 10).
Escreveu duas epístolas, 1 e 2 Pedro, nas quais colocou algumas das mesmas
lições que havia aprendido do Senhor sobre um caráter verdadeiro.
(MACARTHUR, 2004, p.67)

Claro que Pedro continuou sendo um homem com tudo aquilo que compõe um
ser humano, isto é, errava, pecava, mas mesmo assim era um “homem santo”, porque
agora estava sensível ao Espírito Santo, ouvia sua voz e correção. Veja o Episódio com
Paulo em Gálatas 2, Paulo o repreende porque ele estava em comunhão com os irmãos
gentios, mas quando os judaizantes argumentaram que os gentios teriam que se
circuncidarem para serem salvos, ele já não mais sentava-se com os gentios Gl 2.12-13
fala que todos fizeram como Pedro, porque Pedro era o apóstolo que tinha estado com
Cristo, Pedro era o líder. Veja Gl 2.12-13

“Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios.
Quando, porém, eles chegaram, afastou-se e separou-se dos gentios, temendo
21

os que eram da circuncisão. Os demais judeus também se uniram a ele nessa


hipocrisia, de modo que até Barnabé se deixou levar”.

Paulo com certeza se colocando no lugar dos gentios, sentindo a dor e


humilhação que eles estavam sofrendo, repreende a Pedro na frente de todos. Fico
pensando que Pedro poderia pensar e até mesmo dizer, quem é você Paulo? Eu estava
com Cristo, eu caminhei com ele durante todo seu ministério aqui na Terra e você aonde
estava? Poderia até acusa-lo de perseguir a igreja, mas Pedro já estava firmado na rocha
e logo após no Concílio dos líderes da igreja em Jerusalém, Pedro defende o evangelho
da graça, porque ele sabia que através da lei estava condenado, mas só teve direito a uma
nova chance, só achou uma saída através do evangelho da graça, aquele evangelho que
Cristo o ensinou dia após dia durante sua caminhada aqui na Terra, veja At 15.7-14:

“Depois de muita discussão, Pedro levantou-se e dirigiu-se a eles: "Irmãos,


vocês sabem que há muito tempo Deus me escolheu dentre vocês para que os
gentios ouvissem de meus lábios a mensagem do evangelho e cressem. Deus,
que conhece os corações, demonstrou que os aceitou, dando-lhes o Espírito
Santo, como antes nos tinha concedido. Ele não fez distinção alguma entre nós
e eles, visto que purificou os seus corações pela fé. Então, por que agora vocês
estão querendo tentar a Deus, impondo sobre os discípulos um jugo que nem
nós nem nossos antepassados conseguimos suportar? De modo nenhum!
Cremos que somos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus, assim como eles
também". Toda a assembleia ficou em silêncio, enquanto ouvia Barnabé e
Paulo falando de todos os sinais e maravilhas que, por meio deles, Deus fizera
entre os gentios. Quando terminaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse:
"Irmãos, ouçam-me. Simão nos expôs como Deus, no princípio, voltou-se para
os gentios a fim de reunir dentre as nações um povo para o seu nome.”

Aqui ele chega a defender o ministério do apostolo Paulo que lançou em sua face
os seus pecados. Pedro agora permitia que sua nova natureza o guiasse. Ações dignas de
um “homem santo”, que erra sim, mas reconhece seus erros e ouve a voz do Espírito
Santo quando o corrige. Ele já tinha sido corrigido por Cristo por diversas vezes,
correções com certeza mais doloridas, Paulo o corrigindo não era nada difícil de aceitar.

Humanidade e santidade, inicialmente parece que uma se opõe a outra, mas


como vimos neste trabalho é sim possível uma pessoa santa ainda errar, porque tudo isso
faz parte da humanidade: as fraquezas, falhas e pecados e ao mesmo tempo se pode andar
em santidade e ser um “homem santo”.

Assim como Jesus persistiu naqueles homens, homens sem nada atrativo,
homens simples, fica o aprendizado que também se pode persistir e acompanhar esta
caminhada para assim se aprender mais sobre o cristianismo, sobre Cristo que até hoje é
motivo de estudos, reconhecido com um líder importante para o cristianismo e assim
aplicar nos atendimentos e acompanhamentos dentro do aconselhamento pastoral.

Na passagem Mt 14.22-33 de Jesus andando sobre o mar, Cristo socorreu a Pedro


quando ele afundou. Na passagem Mt 16.17-23 Pedro é elogiado e repreendido por Cristo.
Na passagem de Lc 22.49-52 Pedro corta a orelha de Malco e Jesus dá um basta em suas
22

ações desenfreadas. Na passagem de Lucas 22.31-34 Jesus vê que as ações de Pedro não
condiz com aquilo que ele diz e prevê que Ele vai negá-lo como acontece em Jo 18.10-
11. Em Jo 21.15-17 Jesus mostra que sempre há um saída, uma nova oportunidade.

No aconselhamento pastoral será preciso ter sempre posicionamentos firmes


para elogiar, chamar atenção, mostrar o que pode acontecer se continuar no caminho que
está se andando, mas sempre será necessário perdoar como Cristo, avançar e mostra uma
saída e que sempre há uma nova oportunidade.

Neste caminhar junto e aconselhar, estar ao lado em momentos difíceis, não


condenar quando se erra, mas também não se omitir, sempre se posicionar, direcionar e
ensinar torna-se possível ver a transformação de um homem pecador em um homem santo
andando em processo de santificação. A importância de entender realmente o que é ser
um homem santo não gera expectativas inalcançáveis nem nos conselheiros nem nos
aconselhandos.

Referências bibliográficas

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Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Corrigida. Rio de Janeiro.
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