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EM DEFESA DE UM CERTO IDEAL?

Setembro de 1918. Fim da primeira guerra mundial. O armistício data de


novembro deste mesmo ano. Freud discursa no V Congresso Internacional de
Psicanálise, em Budapeste, diante de uma plateia que contava com representantes
dos governos da Alemanha, da Áustria e da Hungria, portanto, uma audiência
especialmente eleita. Na Viena de Freud, irá se propagar com força cada vez mais
expressiva a ideologia política social-democrata, com a qual ele estava de acordo. A
reforma do governo visa, sobretudo, a criação de um estado de justiça social,
mediante ampliação de dispositivos públicos de serviços e trabalho. O artigo de
1919 é a transcrição do discurso de Freud naquela ocasião. Seu tom
eminentemente político é inequivocamente enquadrado pela preocupação de situar
o lugar da psicanálise no pós-guerra, e ainda, sua participação na vida pública, sob
novos moldes de organização social: “sinto-me estimulado a rever o estado da
nossa terapia, à qual, enfim, devemos a nossa posição na sociedade humana,
para observar em que direções ela poderia se desenvolver” (p. 191). Freud lança
com isso, observa, o redator da mais recente tradução para o português, uma
espécie de desafio e profecia para o futuro da análise. Mas estamos também diante
de um gesto político bem definido que consiste em tomar posição contra o
dogmatismo que precocemente se instalara entre alguns de seus discípulos, o que a
ameaça a necessária abertura à inovação que Freud prevê para sua ciência. Nisso,
a peculiar inquietação de Freud em torno de uma situação que, em seus termos,
pertence ao futuro, cito-o: “para amplas camadas da população que sofrem muito
profundamente com as neuroses, por ora nada podemos fazer” (p. 201). De onde a
suposição que mediante uma organização dos praticantes de psicanálise, fosse
possível ampliar numericamente seus representantes, de tal sorte que assim se
alargasse o campo de oferta de tratamento às camadas mais pobres da população:
“em algum momento, a consciência da população acordará e a alertará para o fato
de que o pobre tem o mesmo direito à assistência anímica que ele já tem agora à
assistência cirúrgica, que salva vidas” (p. 201). Acrescenta, em seguida: “esses
tratamentos serão gratuitos; pode ser que leve muito tempo até que o Estado
perceba esses deveres como sendo urgentes” (p. 201). Tratamento gratuito,
garantido pelo estado, portanto. Podemos entrever no discurso de Freud, e aqui
recorro ao trabalho monumental de Elizabeth Danto, uma ideologia modernista de
transformação social. Por trás dessas declarações, como de todos os projetos de
Freud, subjaz uma tensão entre a teoria psicológica e a prática terapêutica. Se por
um lado, a teoria guarda ainda a pretensão de ser a-histórica, uma ciência fática por
excelência, a prática clínica de Freud estava de acordo com a ideologia que
predominava em Viena depois da primeira guerra mundial, portanto, um
compromisso no discurso político, conscientemente ou não. E para isso, deve
concorrer o esforço do praticante, ainda que necessário fosse conformar a técnica
às novas condições.
Freud sabia muito bem que uma prática clínica não é nunca a aplicação
asséptica de uma técnica pura e simplesmente, mas sim, o exercício de um ofício
em que se imbricam uma ética e uma tomada política de posição não sem alguns
ideais. Uma tal concepção não imputa prejuízo algum à nossa adesão a
advertência freudiana quanto ao risco de uma análise ortopédica, que operária sob
a intromissão dos ideais do terapeuta ou de uma determinada organização social.
Em outros termos, há ideais e ideais, e a pergunta que cabe é que ideal convém
conservar. Aliás, cabe mesmo reintroduzir aqui outra pergunta, que noutra ocasião
ouvi de uma colega psicanalista que há muitos anos se dedica a prática institucional
da psicanálise com crianças na França e que aqui reformulo da seguinte maneira:
haveria vida humana possível sem algum ideal? Seria mesmo possível tocar a vida
sem o anteparo simbólico, mas também imaginário, em certa medida, de algum
ideal? E ainda, haveria disjunção entre o próprio estabelecimento e a manutenção
do laço social cuja base é o discurso, liame entre falantes, conquanto seja o laço
social algo em favor do que uma análise deve concorrer, e o plano dos ideais? Creio
que não.

Caberia falar de uma utilidade pública da psicanálise? Ou ainda, de uma


utilidade social da escuta psicanalítica? Sem excluir, evidentemente, aquilo em que
inevitavelmente culmina o trabalho analítico, isto é, o sexual, entendido como
componente que não se presta a uma apropriação instrumental, ou seja, elemento
que não tem qualquer serventia [posto que encontra seu fim em si, na consumação
da satisfação sexual, em lugar de ser meio para outra coisa]. Disso não se exclui,
contudo, que do cálculo do gozo, para falar em termos lacanianos, uma análise não
permita extrair um certo ‘valor de uso’, com acréscimo de um saber.
Gostaria de encerrar, lançando uma pista que nos é dada por Lacan em sua
Alocução sobre as psicoses da criança (1967), na seguinte marginália, cito: “de fato,
parece que corríamos o risco de esquecer, no campo de nossa função [a de
psicanalista], que há uma ética na base dele e que, por conseguinte, diga-se o que
se disser, e aliás sem minha aprovação, sobre a finalidade do homem, é no que
concerne a uma formação passível de ser qualificada de humana que está nosso
principal tormento. Toda formação humana tem, por essência, e não por acaso, de
refrear o gozo” (p. 362).