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Teologia
Ética Cristã
Revisão: Pr. Edilson J. P. Araujo

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Objetivo
O curso livre de Teologia do Instituto Pedra Viva visa a formação integral do estudante,
especializando alunos para exercerem ministérios em suas igrejas locais, incentivando
o aperfeiçoamento do aluno na área acadêmica, estimulando o diálogo entre a igreja e a sociedade.

Metodologia
O Instituto Pedra viva trabalha com a metodologia do Ensino à distância, EAD, que é uma
alternativa de estudo para os irmãos, vocacionados ou que queiram aprimorar seu conhecimento
Bíblico para um ministério eclesiástico especifico (pastoral, missionário, educador cristão, entre
outros), que não têm possibilidade de assistir aulas no modelo convencional (presencial), seja por
falta de tempo, seja pela distância das instituições de ensino ou por qualquer outro motivo.
A Educação a Distância do Instituto Pedra Viva oferece ao aluno a possibilidade de ser o principal
responsável pelo seu desenvolvimento. Essa automotivação, garantida pela flexibilidade nos horários
das aulas e a possibilidade em tirar dúvidas através de e-mails e comunicação on-line faz do
aprendizado uma experiência única. O curso de Teologia EAD do Instituto Pedra Viva vem para
facilitar o estudo do aluno mantendo sempre a qualidade de ensino.

Processo de Ensino
O curso de Teologia oferecido pelo Instituto Pedra Viva é mediado por tecnologias em que
alunos e professores não precisam frequentar o mesmo ambiente para que sejam feitas as aulas. Mais
que uma ferramenta de ensino/aprendizado, a metodologia EAD desenvolve o senso de autonomia do
aluno, proporcionando uma experiência de automotivação e conforto fundamentais para os dias de
hoje, o que exige disciplina e dedicação do Aluno (a) no processo de aprendizagem. O processo de
ensino se dá por meio de vídeo aulas que poderão ser assistidas pelo aluno em qualquer lugar e a
qualquer hora. O material didático e matérias extras serão disponibilizados on-line, através do Portal
do Aluno. Neste espaço os estudantes terão acesso a todas as aulas de seu módulo, materiais e
avaliações, além disso o aluno terá a oportunidade de participar de fóruns virtuais interagindo com os
outros alunos e com os professores/tutores. Para tirar dúvidas os alunos podem enviar suas perguntas
por e-mail ou conversar através de uma caixa de diálogo.
Os materiais de estudo disponibilizados incluem:

 Material de Leitura: Neste material, o aluno encontra os fundamentos teóricos que lhe
darão suporte para a compreensão dos conceitos inerentes à disciplina em estudo.

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 Aulas Conceituais: São aulas produzidas e gravadas pelos professores autores do
material de leitura.

Processo de Avaliação
As avaliações serão de critério de cada professor. A matéria terá pelo menos duas avaliações
com datas estipuladas previamente tendo um prazo entre três a cinco dias para serem entregues os
trabalhos e/ou serem respondidas as questões da avaliação. As avaliações serão postadas ás 00:00 da
data inicial e serão retiradas do ar ás 23:59 do dia final, em caso de atraso da postagem, esse horário
poderá ser prorrogado. Se por algum motivo a avaliação do aluno for entregue duas vezes, apenas o
primeiro envio será considerado. As participações dos debates semanais (Fórum) será a base para a
terceira nota parcial. A média final para a aprovação do aluno na matéria é igual a 7.

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Ética Cristã
ÉTICA

ORIGEM DA PALAVRA:
Ethos (grego) = Costume, hábito, disposição.
Mos (latim) = vontade, costume, uso, regra.
Daí temos que Ética é a disposição ou vontade de se seguir bons costumes ou hábitos.

DEFINIÇÕES:
1. Ética Geral: O estudo das fontes, princípios, juízos de apreciação das práticas
susceptíveis a qualificação do moralmente certo ou errado, e da prática do que é certo ou errado à luz
da natureza e da razão.

2. Ética Cristã: A ciência que trata das fontes, princípios e prática do que é certo ou
errado, do bom ou ruim á luz das Escrituras Sagradas, da natureza e da razão.

3. Psicologia: A ciência que trata sobre a mente humana em qualquer dos seus
aspectos.

4. Filosofia: A ciência que se ocupa da lógica, estética, metafísica e da sabedoria.

5. Religião: É o culto ou veneração a Deus ou às divindades expresso em forma de


adoração.

6. Ideologia: A maneira de pensar ou o conteúdo do pensamento organizado e


característico de um indivíduo ou classe.

7. Intuição Moral: A sabedoria inata ou instintiva no campo da moral.

8. Consciência: A faculdade de distinguir o bem do que é moralmente mal, ou senso


do conhecimento do certo e do errado.

INTRODUÇÃO

A ética é uma característica inerente a toda ação humana e, por esta razão, é um elemento vital
na produção da realidade social. Todo homem possui um senso ético, uma espécie de "consciência
moral", estando constantemente avaliando e julgando suas ações para saber se são boas ou más, certas
ou erradas, justas ou injustas.

Existem sempre comportamentos humanos classificáveis sob a ótica do certo e errado, do bem
e do mal. Embora relacionadas com o agir individual, essas classificações sempre têm relação com
as matrizes culturais que prevalecem em determinadas sociedades e contextos históricos.

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A ética está relacionada à opção, ao desejo de realizar a vida, mantendo, com os outros,
relações justas e aceitáveis. Via de regra está fundamentada nas ideias de bem e virtude, enquanto
valores perseguidos por todo ser humano e cujo alcance se traduz numa existência plena e feliz.

O estudo da ética talvez tenha se iniciado com filósofos gregos há 25 séculos atrás. Hoje em
dia, seu campo de atuação ultrapassa os limites da filosofia e inúmeros outros pesquisadores do
conhecimento dedicam-se ao seu estudo. Sociólogos, psicólogos, biólogos e muitos outros
profissionais desenvolvem trabalhos no campo da ética.

Ao iniciar um trabalho que envolve a ética como objeto de estudo, consideramos importante,
como ponto de partida, estudar o conceito de ética, estabelecendo seu campo de aplicação e fazendo
uma pequena abordagem das doutrinas éticas que consideramos mais importantes para o nosso
trabalho.

1. ÉTICA GERAL

1.1. PROBLEMAS MORAIS E PROBLEMAS ÉTICOS

A ética não é algo superposto à conduta humana, pois todas as nossas atividades envolvem
uma carga moral. Ideias sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o permitido e o proibido definem a
nossa realidade.

Em nossas relações cotidianas estamos sempre diante de problemas do tipo: Devo sempre
dizer a verdade ou existem ocasiões em que posso mentir? Será que é correto tomar tal atitude? Devo
ajudar um amigo em perigo, mesmo correndo risco de vida? Existe alguma ocasião em que seria
correto atravessar um sinal de trânsito vermelho?

Os soldados que matam numa guerra, podem ser moralmente condenados por seus crimes ou
estão apenas cumprindo ordens?

Essas perguntas nos colocam diante de problemas práticos, que aparecem nas relações reais,
efetivas entre indivíduos. São problemas cujas soluções, via de regra, não envolvem apenas a pessoa
que os propõe, mas também outra ou outras pessoas que poderão sofrer as consequências das decisões
e ações, consequências que poderão muitas vezes afetar uma comunidade inteira.

O homem é um ser-no-mundo, que só realiza sua existência no encontro com outros homens,
sendo que, todas as suas ações e decisões afetam as outras pessoas. Nesta convivência, nesta
coexistência, naturalmente têm que existir regras que coordenem e harmonizem esta relação. Estas
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regras, dentro de um grupo qualquer, indicam os limites em relação aos quais podemos medir as
nossas possibilidades e as limitações a que devemos nos submeter. São os códigos culturais que nos
obrigam, mas ao mesmo tempo nos protegem.

Diante dos dilemas da vida, temos a tendência de conduzir nossas ações de forma quase que
instintiva, automática, fazendo uso de alguma "fórmula" ou "receita" presente em nosso meio social,
de normas que julgamos mais adequadas de serem cumpridas, por terem sido aceitas intimamente e
reconhecidas como válidas e obrigatórias. Fazemos uso de normas, praticamos determinados atos e,
muitas vezes, nos servimos de determinados argumentos para tomar decisões, justificar nossas ações
e nos sentirmos dentro da normalidade.

As normas de que estamos falando têm relação como o que chamamos de valores morais. São
os meios pelos quais os valores morais de um grupo social são manifestos e acabam adquirindo um
caráter normativo e obrigatório. A palavra moral tem sua origem no latim "mos"/"mores", que
significa "costumes", no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. Notar que a
expressão "bons costumes" é usada como sendo sinônimo de moral ou moralidade.

A moral pode então ser entendida como o conjunto das práticas cristalizadas pelos costumes
e convenções histórico-sociais. Cada sociedade tem sido caracterizada por seus conjuntos de normas,
valores e regras. São as prescrições e proibições do tipo "não matarás", "não roubarás", de
cumprimento obrigatório. Muitas vezes essas práticas são até mesmo incompatíveis com os avanços
e conhecimentos das ciências naturais e sociais.

Quando os valores e costumes estabelecidos numa determinada sociedade são bem aceitos,
não há muita necessidade de reflexão sobre eles. Mas, quando surgem questionamentos sobre a
validade de certos costumes ou valores consolidados pela prática, surge a necessidade de fundamentá-
los teoricamente, ou, para os que discordam deles, criticá-los. Adolfo Sánchez VASQUEZ coloca
isso de forma muito clara:

“A este comportamento prático-moral, que já se encontra nas formas mais primitivas de


comunidade, sucede posteriormente - muitos milênios depois - a reflexão sobre ele. Os homens não
só agem moralmente (isto é, enfrentam determinados problemas nas suas relações mútuas, tomam
decisões e realizam certos atos para resolvê-los e, ao mesmo tempo, julgam ou avaliam de uma ou de
outra maneira estas decisões e estes atos), mas também refletem sobre esse comportamento prático e
o tomam como objeto da sua reflexão e de seu pensamento. Dá-se assim a passagem do plano da
prática moral para o da teoria moral; ou, em outras palavras, da moral efetiva, vivida, para a moral

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reflexa. Quando se verifica esta passagem, que coincide com os inícios do pensamento filosófico, já
estamos propriamente na esfera dos problemas teóricos-morais ou éticos. ”

Como podemos entender então o conceito de ética? A ética, tantas vezes interpretada como
sinônimo de moral, aparece exatamente na hora em que estamos sentindo a necessidade de aprofundar
a moral. Geralmente a ética apoia-se em outras áreas do conhecimento como a antropologia e a
história para analisar o conteúdo da moral. Seria o tratamento teórico em torno da moral e da
moralidade.

Uma disciplina originária da filosofia, há muito discutida pelos filósofos de todas as épocas e
que se estende a outros campos do saber como teologia, ciências e direito.

1.2. DEFINIÇÃO DE ÉTICA

A ética seria então uma espécie de teoria sobre a prática moral, uma reflexão teórica que
analisa e critica os fundamentos e princípios que regem um determinado sistema moral. O dicionário
Abbagnado, entre outras considerações nos diz que a ética é "em geral, a ciência da conduta” e
Sanchez VASQUEZ amplia a definição afirmando que "a ética é a teoria ou ciência do
comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de
comportamento humano."

A ética estuda a responsabilidade do ato moral, ou seja, a decisão de agir numa situação
concreta é um problema prático-moral, mas investigar se a pessoa pôde escolher entre duas ou mais
alternativas de ação e agir de acordo com sua decisão é um problema teórico-ético.

A ética pode também contribuir para fundamentar ou justificar certa forma de comportamento
moral. Assim, se a ética revela uma relação entre o comportamento moral e as necessidades e os
interesses sociais, ela nos ajudará a situar no devido lugar a moral efetiva, real, do grupo social. Por
outro lado, ela nos permite exercitar uma forma de questionamento, onde nos colocamos diante do
dilema entre "o que é" e o "que deveria ser", imunizando-nos contra a simplória assimilação dos
valores e normas vigentes na sociedade e abrindo em nossas almas a possibilidade de desconfiarmos
de que os valores morais vigentes podem estar encobrindo interesses que não correspondem às
próprias causas geradoras da moral.

Sendo a ética uma ciência, devemos evitar a tentação de reduzi-la ao campo exclusivamente
normativo. Seu valor está, também, naquilo que explica e não simplesmente no fato de prescrever ou
recomendar com vistas à ação em situações concretas.
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A ética também não tem caráter exclusivamente descritivo pois visa investigar e explicar o
comportamento moral, traço inerente da experiência humana.

1.3. DOUTRINAS ÉTICAS

Para facilitar o estudo das doutrinas éticas, ou teorias acerca da moral, preferimos dividi-las
nos seguintes segmentos, correlacionados historicamente: ética grega, ética cristã medieval, ética
moderna e ética contemporânea.

Sendo assim, vamos partir do princípio que a história da ética teve sua origem, pelo menos
sob o ponto de vista formal, na antiguidade grega, através de Aristóteles (384 - 322 a.C.) e suas idéias
sobre a ética e as virtudes éticas.

Na Grécia, porém, mesmo antes de Aristóteles, já é possível identificar traços de uma


abordagem com base filosófica para os problemas morais e até entre os filósofos conhecidos como
pré-socráticos encontramos reflexões de caráter ético, quando buscavam entender as razões do
comportamento humano.

Sócrates (470-399 a.C.) considerou o problema ético individual como o problema filosófico
central e a ética como sendo a disciplina em torno da qual deveriam girar todas as reflexões
filosóficas. Para ele ninguém pratica voluntariamente o mal. Somente o ignorante não é virtuoso, ou
seja, só age mal, quem desconhece o bem, pois todo homem quando fica sabendo o que é bem,
reconhece-o racionalmente como tal e necessariamente passa a praticá-lo. Ao praticar o bem, o
homem sente-se dono de si e consequentemente é feliz.

A virtude seria o conhecimento das causas e dos fins das ações fundadas em valores morais
identificados pela inteligência e que impelem o homem a agir virtuosamente em direção ao bem.

Platão (427-347 a.C.) ao examinar a ideia do Bem a luz da sua teoria das ideias, subordinou
sua ética à metafísica. Sua metafísica era a do dualismo entre o mundo sensível e o mundo das ideias
permanentes, eternas, perfeitas e imutáveis, que constituíam a verdadeira realidade e tendo como
cume a idéia do Bem, divindade, artífice ou demiurgo do mundo.

Para Platão a alma - princípio que anima ou move o homem - se divide em três partes: razão,
vontade (ou ânimo) e apetite (ou desejos). As virtudes são função desta alma, as quais são
determinadas pela natureza da alma e pela divisão de suas partes. Na verdade, ele estava propondo
uma ética das virtudes, que seriam função da alma.

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Pela razão, faculdade superior e característica do homem, a alma se elevaria mediante a
contemplação ao mundo das ideias. Seu fim último é purificar ou libertar-se da matéria para
contemplar o que realmente é e, acima de tudo, a ideia do Bem.

Para alcançar a purificação é necessário praticar as várias virtudes que cada parte da alma
possui. Para Platão cada parte da alma possui um ideal ou uma virtude que devem ser desenvolvidos
para seu funcionamento perfeito. A razão deve aspirar à sabedoria, a vontade deve aspirar à coragem
e os desejos devem ser controlados para atingir a temperança.

Cada uma das partes da alma, com suas respectivas virtudes, estava relacionada com uma
parte do corpo. A razão se manifesta na cabeça, a vontade no peito e o desejo baixo-ventre. Somente
quando as três partes do homem puderem agir como um todo é que temos o indivíduo harmônico.

A harmonia entre essas virtudes constituía uma quarta virtude: a justiça.

Platão de certa forma criou uma "pedagogia" para o desenvolvimento das virtudes. Na escola
as crianças primeiramente têm de aprender a controlar seus desejos desenvolvendo a temperança,
depois incrementar a coragem para, por fim, atingir a sabedoria.

A ética de Platão está relacionada intimamente com sua filosofia política, porque para ele, a
polis (cidade estado) é o terreno próprio para a vida moral. Assim ele buscou um estado ideal, um
estado-modelo, utópico, que era constituído exatamente como o ser humano. Assim, como o corpo
possui cabeça, peito e baixo-ventre, também o estado deveria possuir, respectivamente, governantes,
sentinelas e trabalhadores. O bom estado é sempre dirigido pela razão.

CORPO ALMA VIRTUDE ESTADO

Cabeça Razão Sabedoria Governantes

Peito Vontade Coragem Sentinelas

Baixo-ventre Desejo Temperança Trabalhadores

A ética platônica exerceu grande influência no pensamento religioso e moral do ocidente,


como teremos oportunidade de ver mais adiante.

Aristóteles (384-322 a.C.), não só organizou a ética como disciplina filosófica mas, além
disso, formulou a maior parte dos problemas que mais tarde iriam se ocupar os filósofos morais:
relação entre as normas e os bens, entre a ética individual e a social, relações entre a vida teórica e

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prática, classificação das virtudes, etc. Sua concepção ética privilegia as virtudes (justiça, caridade e
generosidade), tidas como propensas tanto a provocar um sentimento de realização pessoal àquele
que age quanto simultaneamente beneficiar a sociedade em que vive. A ética aristotélica busca
valorizar a harmonia entre a moralidade e a natureza humana, concebendo a humanidade como parte
da ordem natural do mundo, sendo, portanto, uma ética conhecida como naturalista.

Segundo Aristóteles, toda a atividade humana, em qualquer campo, tende a um fim que é, por
sua vez um bem: o Bem Supremo ou Sumo Bem, que seria resultado do exercício perfeito da razão,
função própria do homem. Assim sendo, o homem virtuoso é aquele capaz de deliberar e escolher o
que é mais adequado para si e para os outros, movido por uma sabedoria prática em busca do
equilíbrio entre o excesso e a deficiência.

A Ética de Aristóteles - assim como a de Platão - está unida à sua filosofia política, já que
para ele a comunidade social e política é o meio necessário para o exercício da moral. Somente nela
pode realizar-se o ideal da vida teórica na qual se baseia a felicidade. O homem moral só pode viver
na cidade e é, portanto, social.

O estoicismo e o epicurismo surgem no processo de decadência e de ruína do antigo mundo


greco-romano.

Para Epicuro (341-270 a.C) o prazer é um bem e como tal o objetivo de uma vida feliz. Estava
lançada então a ideia de hedonismo que é uma concepção ética que assume o prazer como princípio
e fundamento da vida moral. Mas, existem muitos prazeres, e nem todos são igualmente bons. É
preciso escolher entre eles os mais duradouros e estáveis, para isso é necessário a posse de uma virtude
sem a qual é impossível a escolha. Essa virtude é a prudência, através da qual podemos selecionar
aqueles prazeres que não nos trazem a dor ou perturbações. Os melhores prazeres não são os corporais
- fugazes e imediatos - mas os espirituais, porque contribuem para a paz da alma.

Para os estoicos (por exemplo, Zenão, Sêneca e Marco Aurélio) o homem é feliz quando aceita
seu destino com imperturbabilidade e resignação. O universo é um todo ordenado e harmonioso onde
os sucessos resultam do cumprimento da lei natural racional e perfeita. O bem supremo é viver de
acordo com a natureza, aceitar a ordem universal compreendida pela razão, sem se deixar levar por
paixões, afetos interiores ou pelas coisas exteriores. O homem virtuoso é aquele que enfrenta seus
desejos com moderação aceitando seu destino. O estóico é um cidadão do cosmo não mais da pólis.

Agostinho (354-430) e Tomás de Aquino (1226-1274) refletem, respectivamente, idéias de


Platão e Aristóteles.
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A purificação da alma, em Platão, e sua ascensão libertadora até elevar-se ao mundo das idéias
tem correspondência na elevação ascética até Deus exposta por Agostinho.

A ética de Tomás de Aquino tem muitos pontos de coincidência com Aristóteles e como
aquela busca através de contemplação e de conhecimento alcançar o fim último, que para ele era
Deus.

A história da ética complica-se a partir do Renascimento Europeu e podemos chamar de ética


moderna às diversas tendências que prevaleceram desde o século XVI até o início do século XIX.
Não é fácil sistematizar as diversas doutrinas éticas que surgiram neste período, tamanha sua
diversidade, mas podemos encontrar uma tendência antropocêntrica.

O italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) provoca uma revolução na ética ao romper com a
moral cristã, que impõe os valores espirituais como superiores aos políticos, quando defendeu a
adoção de uma moral própria em relação ao Estado. O que importa são os resultados e não a ação
política em si, sendo legítimos os usos da violência contra os que se opõe aos interesses estatais. A
obra de Maquiavel influenciou outros pensadores modernos como o inglês Thomas Hobbes e Baruch
de Epinosa, extremamente “realistas e humanistas” no que se refere à ética.

O homem afirma-se em todos os campos, da ciência às artes. Descartes (1596-1650) esboça


com muita clareza esta tendência de basear a filosofia no homem, que passa a ser o centro de tudo,
da política, da arte, e também da moral. Vemos então o aparecimento de uma ética antropocêntrica.

Thomas Hobbes (1588-1679) consegue sistematizar esta ética do desejo, que existe em cada
ser, de própria conservação como sendo o fundamento da moral e do direito. Para Hobbes, a vida do
homem no estado de natureza - sem leis nem governo - era "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e
curta", uma vez que os homens são por índole agressivos, autocentrados, insociáveis e obcecados por
um "desejo de ganho imediato".

Para Hobbes, indivíduos que decidem viver em sociedade não são melhores ou menos egoístas
do que os selvagens: são apenas mais clarividentes, percebendo que, se cooperarem, podem ser mais
ricos e mais felizes. Seu bom comportamento deriva do seu egoísmo. Em outras palavras, o que leva
dois homens pré-históricos a se unirem numa caçada a um tigre dente-de-sabre, é o fato de que, juntos,
têm mais chances de matá-lo sem se ferirem.

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Baruch de Espinosa (1632-1677) afirmava que os homens tendem naturalmente a pensar
apenas em si mesmos, que em seus desejos e opiniões as pessoas são sempre conduzidas por suas
paixões, as quais nunca levam em conta o futuro ou as outras pessoas.

“Uma vez que a Razão não pede nada que seja contra a Natureza, ela pede, por conseguinte,
que cada um se ame a si mesmo, procure o que lhe é útil, mas o que lhe é útil de verdade; deseje tudo
o que conduz, de fato, o homem a uma maior perfeição; e, de uma maneira geral, que cada um se
esforce por conservar o seu ser, tanto quanto lhe é possível. Isto é tão necessariamente verdadeiro
como o todo ser maior que a sua parte. ” (ESPINOSA, 1973, p.244).

Jonh Locke (1632-1704) atrela a tendência à conservação e satisfação à uma concepção de


"felicidade pública". Dizia Locke:

“Como Deus estabeleceu um liame indissolúvel entre a virtude e a felicidade pública, e tornou
a prática da virtude necessária à conservação da sociedade humana e visivelmente vantajosa para
todos os que precisam tratar com as pessoas de bem, ninguém se deve maravilhar se cada um não só
aprovar essas regras, mas igualmente recomendá-las aos outros, estando persuadido de que, se as
observarem, lhe advirão vantagens a ele próprio. ” (Ensaio, I, 2, 6)

David Hume (1711-1776) seguindo essa linha nos coloca que o fundamento da moral é a
utilidade, ou seja, é boa ação aquela que proporciona "felicidade e satisfação" à sociedade. A utilidade
agrada porque responde a uma necessidade ou tendência natural que inclina o homem a promover a
felicidade dos seus semelhantes.

Ao invés de limitar os desejos humanos àqueles determinados apenas pelo interesse pessoal
(comida, dinheiro, glória, etc.), Hume percebeu que muitas das nossas paixões estão baseadas no que
ele chamava de simpatia - a capacidade de sentir em si mesmo os sofrimentos e até mesmo as alegrias
de outrem.

Essa visão do ser humano como criatura simpática tornava impossível traçar, à maneira de
Hobbes, uma nítida linha divisória entre o interesse pessoal e o interesse alheio, uma vez que agora é
possível encarar o interesse alheio como se ele fosse um interesse pessoal. Hume estava propondo
uma espécie de razão emocional para o comportamento altruísta.

Para Jean Jaques Rousseau (1712-1778) o homem é bom por natureza e seu espírito pode
sofrer um aprimoramento quase ilimitado.

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Talvez a expressão maior da ética moderna tenha sido o filósofo alemão Immannuel Kant
(1724-1804). A preocupação maior da ética de Kant era estabelecer a regra da conduta na substância
racional do homem. Ele fez do conceito de dever ponto central da moralidade. Hoje em dia chamamos
a ética centrada no dever de deontologia.

Kant dizia que a única coisa que se pode afirmar que seja boa em si mesma é a "boa vontade"
ou boa intenção, aquilo que se põe livremente de acordo com o dever. O conhecimento do dever seria
consequência da percepção, pelo homem, de que é um ser racional e como tal está obrigado a obedecer
ao que Kant chamava de "imperativo categórico", que é a necessidade de respeitar todos os seres
racionais na qualidade de "fins em si mesmo". É o reconhecimento da existência de outros homens
(seres racionais) e a exigência de comportar-se diante deles a partir desse reconhecimento.

Deve-se então tratar a humanidade na própria pessoa como na do próximo sempre como um
fim e nunca só como um meio.

A ética kantiana busca, sempre na razão, formas de procedimentos práticos que possam ser
universalizáveis, isto é, um ato moralmente bom é aquele que pode ser universalizável, de tal modo
que os princípios que eu sigo possam valer para todos.

"Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei
universal." (KANT, 1984, p.129)

Friedrich Hegel (1770-1831) pode ser considerado como sendo o mais importante filósofo do
idealismo alemão pós-kantiano. Para ele, a vida ética ou moral dos indivíduos, enquanto seres
históricos e culturais, é determinada pelas relações sociais que mediatizam as relações pessoais
intersubjetivas. Hegel dessa forma transforma a ética em uma filosofia do direito. Ele a divide em
ética subjetiva (ou pessoal) e em ética objetiva (ou social). A primeira é uma consciência de dever e
a segunda é formada pelos costumes, pelas leis e normas de uma sociedade. O Estado, para Hegel,
reúne esses dois aspectos numa "totalidade ética".

Assim, a vontade individual subjetiva é também determinada por uma vontade objetiva,
impessoal, coletiva, social e pública que cria as diversas instituições sociais. Além disso, essa vontade
regula e normatiza as condutas individuais através de um conjunto de valores e costumes vigentes em
uma determinada sociedade em uma determinada época.

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O ideal ético estava numa vida livre dentro de um Estado livre, um Estado de Direito que
preservasse os direitos dos homens e lhes cobrasse seus deveres, onde a consciência moral e as leis
do direito não estivessem nem separadas e nem em contradição.

Dessa maneira, a vida ética consiste na interiorização dos valores, normas e leis de uma
sociedade, condensadas na vontade objetiva cultural, por um sujeito moral que as aceita livre e
espontaneamente através de sua vontade subjetiva individual. A vontade pessoal resulta da aceitação
harmoniosa da vontade coletiva de uma cultura.

O alemão Karl Marx (1818-1883) também via a moral como uma espécie de "superestrutura
ideológica", cumprindo uma função social que, via de regra, servia para sacramentar as relações e
condições de existência de acordo com os interesses da classe dominante. Numa sociedade dividida
por classes antagônicas a moral sempre terá um caráter de classe.

Até hoje existem diferentes morais de classe e inclusive numa mesma sociedade podem
coexistir várias morais, já que cada classe assume uma moral particular. Assim, enquanto não se
verificarem as condições reais para uma moral universal, válida para toda a sociedade, não pode
existir um sistema moral válido para todos os tempos e todas as sociedades.

Para Marx, sempre que se tentou construir semelhante sistema no passado estava-se tentando
imprimir um caráter universal a interesses particulares.

Os homens necessitam da moral como necessitam da produção e cada moral cumpre sua
função social de acordo com a estrutura social vigente.

Torna-se necessária então uma nova moral que não seja o reflexo de relações sociais alienadas,
para regular as relações entre os indivíduos, tanto em vista das transformações da velha sociedade
como para garantir a harmonia da emergente sociedade socialista.

Uma outra visão nos é apresentada no pensamento de Nietzsche (1844-1900), que é um crítico
veemente e mordaz a toda moral e ética existentes. Para este filósofo, a vida é vontade de poder,
princípio último de todos os valores; o bem é tudo que favorece a força vital do homem, é tudo o que
intensifica e exalta no homem o sentimento de poder, a vontade de poder e o próprio poder. O mal é
tudo que vem da fraqueza. Nietzsche anunciou o super-homem, capaz de quebrar a tábua dos valores
transmutando-os a todos.

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Uma outra corrente dentro da ética é o utilitarismo, segundo o qual o objetivo da moral é o de
proporcionar o máximo de felicidade ao maior número de pessoas.

Para John Stuart Mill (1806-1873), representante da ética utilitarista, a felicidade reside na
busca do máximo prazer e do mínimo de dor. O Bem consiste na maior felicidade e a virtude é um
meio de se atingir essa felicidade, fundamento de toda filosofia moral.

Da idéia de bem como sendo o que traz vantagens para muitos se deduziu até mesmo uma
matemática ou cálculo moral. Estas tendências aparecem em muitas formulações éticas,
principalmente numa corrente conhecida como pragmatismo.

O pragmatismo, como doutrina ética, parece estar muito ligado ao pensamento anglo-saxão,
tendo se desenvolvido muito nos países de fala inglesa, particularmente nos Estados Unidos, no
último quarto do século passado.

Seus principais expoentes são o filósofo e psicólogo William James (1842-1910) e o filósofo
educador John Dewey. O pragmatismo deixa de lado as questões teóricas de fundo, afastando-se dos
problemas abstratos da velha metafísica e dedicando-se às questões práticas vistas sob uma ótica
utilitária.

Procura identificar a verdade com o útil, como aquilo que melhor ajuda a viver e conviver. O
Bom é algo que conduz a obtenção eficaz de uma finalidade, fim esse que nos conduz a um êxito.

Dessa forma os valores, princípios e normas perdem seu conteúdo objetivo e o bem passa a
ser aquilo que ajuda o homem em suas atividades práticas, variando conforme cada situação.

O pragmatismo pode bem ser o reflexo do progresso científico e tecnológico alcançado pelos
Estados Unidos no apogeu de sua fase capitalista onde o "espírito de empresa", o "american way of
life", criaram solo fértil para a mercantilização das várias atividades humanas.

O pragmatismo é a redução do comportamento moral a atos que conduzam apenas ao êxito


pessoal, transformando-o numa variante utilitarista marcada apenas pelo egoísmo, rejeitando a
existência de valores ou normas objetivas. Um traço muito comum em nossa sociedade capitalista é
a busca da vantagem particular, onde o bom é o que ajuda meu progresso e o meu sucesso particular.

Henri Bergson (1859-1941) distinguiu uma moral fechada e uma moral aberta. A fechada é o
conjunto do que é permitido e do que é proibido para os indivíduos de uma sociedade, tendo em vista
a auto conservação da mesma. Ela é imposta aos indivíduos e tem como finalidade tornar a vida em
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comum possível e útil a todos. "Ela corresponde no mundo humano ao que é instinto em certas
sociedades animais, isto é, tende ao fim de conservar as próprias sociedades."

Do outro lado encontramos a moral aberta, nascida de um impulso criador supra-racional. É


a moral do amor, da liberdade e da humanidade universal, que resulta de uma emoção criadora.
Enquanto tal, torna possível a criação de novos valores e de novas condutas em substituição àquelas
vigentes segundo a moral fechada.

Na filosofia contemporânea, os princípios do liberalismo influenciaram bastante o conceito


de ética, que ganha fortes traços de moral utilitarista. Os indivíduos devem buscar a felicidade e, para
isso, fazer as melhores escolhas entre as alternativas existentes. Para o filósofo inglês Bertrand Russel
(1872-1970) a ética é subjetiva. Não contém afirmações verdadeiras ou falsas. É a expressão dos
desejos de um grupo. Mas Russel diz que o homem deve reprimir certos desejos e reforçar outros, se
pretende atingir a felicidade ou o equilíbrio.

Jurgem Habermas, filósofo alemão nascido em 1924, é professor da Universidade de


Frankfurt. Sua obra pretende ser uma revisão e uma atualização do marxismo, capaz de dar conta das
características do capitalismo avançado da sociedade industrial contemporânea. Faz uma critica à
racionalidade dessa sociedade, caracterizando-a em termos de uma "razão instrumental", que visa
apenas estabelecer os meios para se alcançar um fim determinado. Segundo sua análise, o
desenvolvimento técnico e a ciência voltada apenas para a aplicação técnica acarretam na perda do
próprio bem, que estaria submetido às regras de dominação técnica do mundo natural.

É necessário então a recuperação da dimensão humana, de uma racionalidade não-


instrumental, baseada no "agir comunicativo" entre sujeitos livres, de caráter emancipador em relação
à dominação técnica.

Habermas busca uma teoria geral da verdade, segundo a qual o critério da verdade é o
consenso dos que argumentam e defende a idéia de que argumentar é uma tarefa eminentemente
comunicativa. Por isso, o "discurso intersubjetivo" é o lugar próprio para a argumentação.

Somente se poderia aceitar como critério de verdade aquele consenso que se estabelece sob
condições ideais, que Habermas chama de "situação ideal de fala". Ou seja, a razão é definida
pragmaticamente de tal modo que um consenso é racional quando é estabelecido numa condição ideal
de fala. Para que isso seja possível, definiu uma série de regras básicas, cuja observação é condição
para que se possa falar de um discurso verdadeiro.

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John Rawls, em sua "Teoria da Justiça" (1971) afirma que a justiça não é um resultado de
interesses, por públicos que sejam. Ele fala de uma justiça distributiva partindo de um "estado inicial"
por meio do qual se pode assegurar que os acordos básicos a que se chega num contrato social sejam
justos e eqüitativos.

A justiça é entendida como eqüidade por ser eqüitativa em relação a uma posição original que
está baseada em dois princípios: a) cumpre assegurar para cada pessoa numa sociedade, direitos iguais
numa liberdade compatível com a liberdade dos outros; b) deve haver uma distribuição de bens
econômicos e sociais de modo que toda desigualdade resulte vantajosa para cada um, podendo além
disso ter cada um acesso, sem obstáculos, a qualquer posição ou cargo.

A concepção geral de sua teoria afirma que, todos os bens sociais primários - liberdade e
oportunidade, rendimentos e riquezas, e as bases de respeito a si mesmo devem ser igualmente
distribuídas, a menos que uma distribuição desigual desses bens seja vantajosa para os menos
favorecidos.

2. ÉTICA CRISTÃ

A ética cristã é o sistema de valores morais associados ao Cristianismo histórico e que retira
dele a sustentação teológica e filosófica de seus preceitos.

Como as demais éticas já mencionadas acima, a ética cristã opera a partir de diversos
pressupostos e conceitos, que estão revelados nas Escrituras Sagradas pelo único Deus verdadeiro.
São estes:

1. A existência de um único Deus verdadeiro, criador dos céus e da terra. A ética cristã parte
do conceito de que o Deus que se revela nas Escrituras Sagradas é o único Deus verdadeiro e que,
sendo o criador do mundo e da humanidade, deve ser reconhecido e crido como tal e a sua vontade
respeitada e obedecida.

2. A humanidade está num estado decaído, diferente daquele em que foi criada. A ética cristã
leva em conta, na sistematização e sintetização dos deveres morais e práticos das pessoas, que as
mesmas são incapazes por si próprias de reconhecer a vontade de Deus e muito menos de obedecê-
la. Isso se deve ao fato de que a humanidade vive hoje em estado de afastamento de Deus, provocado
inicialmente pela desobediência do primeiro casal. A ética cristã não tem ilusões utópicas acerca da
"bondade inerente" de cada pessoa ou da intuição moral positiva de cada uma para decidir por si
própria o que é certo e o que é errado. Cegada pelo pecado, a humanidade caminha sem rumo moral,
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cada um fazendo o que bem parece aos seus olhos. As normas propostas pela ética cristã pressupõem
a regeneração espiritual do homem e a assistência do Espírito Santo, para que o mesmo venha a
conduzir-se eticamente diante do Criador.

3. O homem não é moralmente neutro, mas inclinado a tomar decisões contrárias a Deus, ao
próximo. Esse pressuposto é uma implicação inevitável do anterior. As pessoas, no estado natural em
que se encontram (em contraste ao estado de regeneração) são movidas intuitivamente, acima de tudo,
pela cobiça e pelo egoísmo, seguindo muito naturalmente (e inconscientemente) sistemas de valores
descritos acima como humanísticos ou naturalísticos. Por si sós, as pessoas são incapazes de seguir
até mesmo os padrões que escolhem para si, violando diariamente os próprios princípios de conduta
que consideram corretos.

4. Deus revelou-se à humanidade. Essa pressuposição é fundamental para a ética cristã, pois
é dessa revelação que ela tira seus conceitos acerca do mundo, da humanidade e especialmente do
que é certo e do que é errado. A ética cristã reconhece que Deus se revela como Criador através da
sua imagem em nós. Cada pessoa traz, como criatura de Deus, resquícios dessa imagem, agora
deformada pelo egoísmo e desejos de autonomia e independência de Deus. A consciência das pessoas,
embora frequentemente ignorada e suprimida, reflete por vezes lampejos dos valores divinos. Deus
também se revela através das coisas criadas. O mundo que nos cerca é um testemunho vivo da
divindade, poder e sabedoria de Deus, muito mais do que o resultado de milhões de anos de evolução
cega. Entretanto é através de sua revelação especial nas Escrituras que Deus nos faz saber acerca de
si próprio, de nós mesmos (pois é nosso Criador), do mundo que nos cerca, dos seus planos a nosso
respeito e da maneira como deveríamos nos portar no mundo que criou.

Assim, muito embora a ética cristã se utilize do bom senso comum às pessoas, depende
primariamente das Escrituras na elaboração dos padrões morais e espirituais que devem reger nossa
conduta neste mundo. Ela considera que a Bíblia traz todo o conhecimento de que precisamos para
servir a Deus de forma agradável e para vivermos alegres e satisfeitos no mundo presente. A Escritura
é suficiente a esse respeito. Evidentemente não encontraremos nas Escrituras indicações diretas sobre
problemas tipicamente modernos como a eutanásia, a AIDS, clonagem de seres humanos ou questões
relacionadas com a bioética. Entretanto, ali encontraremos os princípios teóricos que regem diferentes
áreas da vida humana. É na interação com esses princípios e com os problemas de cada geração, que
a ética cristã atualiza-se e contextualiza-se, sem jamais abandonar os valores permanentes e
transcendentes revelados nas Escrituras.

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É precisamente por basear-se na revelação que o Criador nos deu, (A bíblia) que a ética cristã
se estende a todas as dimensões da realidade. Ela pronuncia-se sobre questões individuais, religiosas,
sociais, políticas, ecológicas e econômicas. Desde que Deus exerce sua autoridade sobre todas as
dimensões da existência humana, suas demandas nos alcançam onde nos acharmos – inclusive e
principalmente no ambiente de trabalho, onde exercemos o mandato divino de explorarmos o mundo
criado e ganharmos o nosso pão.

É nas Escrituras Sagradas, portanto, que encontramos o padrão moral revelado por Deus. Os
Dez Mandamentos e o Sermão do Monte proferido por Jesus são os exemplos mais conhecidos.
Entretanto, mais do que simplesmente um livro de regras morais, as Escrituras são para os cristãos a
revelação do que Deus fez para que o homem pudesse vir a conhecê-lo, amá-lo e alegremente
obedecê-lo. A mensagem das Escrituras é fundamentalmente de reconciliação com Deus mediante
Jesus Cristo. A ética cristã fundamenta-se na obra realizada de Cristo e é uma expressão de gratidão,
muito mais do que um esforço para merecer as benesses divinas.

A ética cristã, em resumo, é o conjunto de valores morais total e unicamente baseado nas
Escrituras Sagradas, pelo qual o homem deve regular sua conduta neste mundo, diante de Deus, do
próximo e de si mesmo. Não é um conjunto de regras pelas quais o homem poderá chegar a Deus –
mas é a norma de conduta pela qual poderá agradar a Deus que já o redimiu. Por ser baseada na
revelação divina, acredita em valores morais absolutos, que são a vontade de Deus para todos os
homens, de todas as culturas e em todas as épocas.

3. RESUMO DAS POSIÇÕES FILOSÓFICAS EXISTENTES SOBRE A MORAL

3.1. Antinomismo (Não há normas)

Há quem pense que a verdade sobre a questão ética é que não existe norma. Não há uma lei
moral objetiva que guie ações humanas. Pensa-se que as normas morais são apenas questões
emocionais, ou que são tão subjetivas que não podem realmente ser aplicadas.

Portanto, para quem pensa assim: mentir não é certo ou errado. Pode ser satisfatório ou não
de forma pessoal, social ou nacionalista. Porém não pode ser declarado moralmente bom ou mal.
Uma outra forma de Antinomismo é a linha conhecida como Emotivismo. Seu maior expoente foi
A.J.Ayer. Afirmou que era necessário restringir as questões metafísicas, por não poder ser inferidas
legitimamente. Esta posição diz que se há coisas como Deus, existência ou substância, não há
possibilidade de se fazer declaração significativa cognitiva sobre isso. Considera-se, então, que as

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declarações éticas não são cognitivas, mas sim emotivas. Tratam apenas do sentimento de quem fala.
Não há, portanto, normas universais válidas.

Quadro de avaliação do Antinomismo

Pontos Positivos Pontos Negativos

A ética é vista como de responsabilidade Se cada ser humano sente e pratica o que
individual. A pessoa não tem sua sente ser o certo, então chegamos ao caos.
responsabilidade alienada ao grupo. Não é possível algo como uma sociedade. É,
então, subjetivismo exagerado.
O “outro” é visto como “pessoa” e não como Mesmo que apresente o favorecimento do
“coisa”. Se quero agir bem devo escolher a relacionamento interpessoal, não resolve
minha ação em prol de meu próximo. O conflitos morais. Afinal não há padrões.
relacionamento humano é concreto e não Então, por exemplo, quando ocorrerem
abstrato conflitos de valores na sociedade, como se
resolverá? A liberdade pessoal não resolve
casos de conflitos entre uma ética de
egoísmo com uma outra de altruísmo, ou
uma ética de amor com uma de ódio.
De fato, muito do que as pessoas dizem que Como não há razão, o que resta é o “sem
“deve” ou “deveria” ser o certo tem base sentido”, “o absurdo”. Isto pode parecer
puramente emocional. Devemos avaliar poético para alguém, mas o “paradoxo”
nossas razões. puramente existencial não leva a nada. Dizer
que “deve praticar-se o bem” seria o mesmo
que dizer que “deve-se praticar o mal”.

3.2. Generalismo (Não há normas universais)

O Generalismo defende que realmente não existem regras universais, porém pensam ser
possível estabelecer regras morais que tenham uma aplicação geral. Procuram responder à pergunta:
o que trará o bem para a maior quantidade possível de pessoas? Assim a ação de alguém não é julgada
pelo fato de ser boa ou má. Quem quebra uma regra assume o risco de fazer algo que trará prejuízos
sociais. O julgamento se dá em virtude da análise dos resultados (que podem ser absolutos) e não da
universalidade da norma.

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Quadro de avaliação do Generalismo

Pontos Positivos Pontos Negativos

Reconhece a necessidade da existência de Não é possível manter um grupo de normas


normas, a fim de que haja orientação para o consistentes que podem entrar em conflito
fim proveitoso. Essas normas são retiradas consigo mesmas. É preciso algo maior,
da experiência humana como um todo. absoluto, para julgar o conflito. As normas
relativas não ficam sozinhas, pois são
relativas a alguma coisa que não seja
relativa.
Apesar de reconhecer casos isolados em que Nunca atinge uma norma universal. Como
as normas possam ser quebradas, em geral sua consideração é extrínseca, revela a
evitam a quebra das normas. necessidade de normas absolutas. Por isso
sempre aparece casos excepcionais
inexplicáveis. Como julgar as exceções?
Talvez devessem apelar para um código
absoluto intrinsecamente.

3.3. Situacionismo (Há uma só norma universal)

Esta linha de pensamento defende que há apenas uma lei universal: o amor. Está situada entre
o legalismo (leis para tudo) e o antinomismo (nenhuma lei). O grande defensor do Situacionismo é
Joseph Fletcher. Para ele só o mandamento do amor é categoricamente bom. Devemos fazer apenas
o que seja a coisa amorosa. No caso da mentira, por exemplo, só estamos obrigados a contar a verdade
se a situação demonstrar que é a melhor coisa a fazer. No caso de um terrorista perguntar onde estão
as armas para que ele cometa um assassinato, nosso dever pode ser “mentir”. Para o situacionista as
outras regras morais podem ser úteis, mas não inquebráveis.

Quadro de avaliação do Situacionismo

Pontos Positivos Pontos Negativos

Devemos reconhecer o fato que Fletcher O amor exige conteúdo. Se a obrigação de


procurou firmar uma ética normativa. Trata- amar é apenas normativa, em muitas
se de um absolutismo: o amor. Ninguém situações a pessoa não saberá o que fazer. A

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deve odiar ou ser indiferente para com outro frase “façam a coisa amorosa” se torna mero
ser humano. chavão.
Não deixa dilemas abertos entre duas normas Fletcher apenas propôs uma única norma.
éticas. Não há dois absolutos. Só um. Falta provar que há somente uma regra
universal... Ele quis, na verdade, fugir do
legalismo, porém uma pessoa pode ser
legalista em sua intransigência de seguir uma
regra apenas.
Distingue as circunstâncias em que o juízo Se o significado do amor depende das
ético está sendo avaliado. circunstâncias, então tal significado é
relativo à situação e, assim, não é um
absoluto. E além do mais: a circunstância
passa a determinar a norma, ao invés da
norma ser o determinante da circunstância.
Afinal, quem é o universal?

3.4. Absolutismo Não-Conflitante (Há muitas normas universais não-conflitantes)

Crê que há uma pluralidade de normas e que não há conflitos entre elas. Cada norma abarca
sua própria área de experiência humana e nunca entra em conflito real com outra norma absoluta.
Talvez os dois maiores expoentes desse pensamento sejam Platão (quando fala em Formas
Universais) e Emanuel Kant. (com seu Imperativo Categórico).

Quadro de avaliação do Absolutismo não-conflitante

Pontos Positivos Pontos Negativos

Procurar salvar os absolutos morais e Os conflitos entre princípios realmente


reconciliar o conflito de princípios. acontecem muitas vezes na vida prática. E é
preciso pensar no fato de que há normas que
são mais elevadas que outras. Supor que
todos os valores são iguais é errôneo. Por
exemplo: as pessoas são mais valiosas que as
coisas. Não se pode negligenciar questões de
fato importantes em valorização do que é
trivial.

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3.5. Absolutismo Ideal (Há muitas normas universais conflitantes)

Existem muitas normas e nenhuma delas deve ser quebrada por ter caráter universal. Se
tivéssemos o direito de quebrar alguma regra em ocasião especial, já ficaria, dizem os absolutistas,
claro que não se trata de uma regra moral absoluta. Idealmente não há conflito entre as regras, pois
cada uma possui sua própria esfera de ação. A mentira se relaciona com a esfera da verdade, o roubo
com a esfera da propriedade, o adultério com o relacionamento do casamento. Então os conflitos entre
as normas que observamos na prática resultam da depravação humana. O homem se corrompeu e o
mundo das relações morais ficou corrompido também. É possível que se o homem não tivesse pecado,
não existiriam os conflitos morais. Diante de um conflito moral, tendo em vista a degradação humana
o mal é inevitável, fazer o menor dos males pode ser desculpável ou perdoável, porém deve a pessoa
infratora pedir misericórdia por sua ação idealmente errônea.

Quadro de avaliação do Absolutismo ideal

Pontos Positivos Pontos Negativos

Procura manter uma base segura para a Por não haver conflito, a ética se torna
conduta humana. Trata de dar resposta para simplificada, mas sabemos que a realidade
as questões éticas conflitantes. da vida não é assim. A vida é tão complexa
que os relacionamentos constantemente
coincidem entre si.
Ilumina a questão da natureza da O conceito de “depravação da humanidade”
responsabilidade; ninguém pode ser não pode significar que a pessoa não está
considerado culpado por algo que não tinha livre para não pecar. Seria como se Deus
condições de fazer. Afirmar que deve não exigisse do homem que ele fizesse o que
subentende que pode. Porém um homem Deus sabe que ele não pode fazer, e ainda os
pode ser considerado culpado por não se culpasse por isso. Deus estaria forçando os
apresentar disponível a fazer uso da graça homens a pecarem só para perdoá-los depois.
divina que o capacitaria a fazer o que precisa
ser feito.
Não busca trabalhar com exceções. Os A questão do legalismo se evidencia na jaez
absolutos definitivamente não devem ser destes absolutos. Se alguém escolhe a
quebrados. Se o forem, existe culpa. Deve-se melhor das alternativas, deveria ser
buscar a misericórdia. justificado e não considerado conservador de
um mal. Se já obedeceu as exigências de uma
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lei superior, por que deve o homem ainda
assim ater-se à letra da lei?

3.6. Hierarquismo (Há normas universais hierarquicamente ordenadas)

Quando as normas colidirem, deve-se preterir a norma inferior para resguardar a superior.
Não é que a pessoa torna-se desculpável, mas que tem isenção da norma inferior diante do dever
superior. Os bens menores cedem lugar aos bens maiores. A escala de valores obedece à seguinte
ordem:

a) as Pessoas são mais valiosas do que as Coisas, “as pessoas devem ser tratadas como fins, mas
nunca como meios” (Kant);

b) a Pessoa Infinita é mais valiosa que a Pessoa finita; assim, sempre que houver a escolha entre Deus
e qualquer indivíduo deve-se logicamente dar preferência a Deus, que é a fonte de todo o bem;

c) uma Pessoa completa é mais valiosa que uma Pessoa incompleta;

d) uma Pessoa real tem mais valor do que uma Pessoa em potencial; o ser plenamente humano é
melhor do que ter a potencialidade de tornar-se humano. O médico quando diante da escolha entre a
vida da mãe e a vida do feto, deve escolher a mãe;

e) uma Pessoa em potencial é mais valiosa do que Coisa real. Manipulação genética que pode afetar
a futura personalidade da pessoa é moralmente errada. A pessoa em potencial é de um valor tão grande
que não deve ser sacrificada por nenhuma coisa do mundo;

f) muitas Pessoas são mais valiosas do que poucas Pessoas. Se uma pessoa tem valor intrínseco, duas
pessoas têm mais valor que uma, e assim por diante.

g) Atos Pessoais que promovam a personalidade são melhores do que os Atos que não a promovem.

Quadro de avaliação do Hierarquismo ético

Pontos Negativos Respostas

É preciso que se determine qual a base para Trata do amor como o princípio melhor, em
a hierarquia de valores. Por que alguém oposição ao ódio. Concebe escala para tipos
de amor mais elevados. Isto é auto-intuitivo.

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deveria aceitar a disposição citada? Qual a Porém para os cristãos, a Escritura Sagrada é
base para a inferior e para a superior? a base.
Como uma norma pode ser transcendida e Trata da norma inferior como transcendida
ainda ser considerada universal? Não ao invés de “quebrada”. Assim, não trabalha
significa que simplesmente não é um bem com exceções, mas com licença em prol do
absoluto? bem superior.

ÉTICA, SEXO E CASAMENTO

O sexo é .um dos relacionamentos interpessoais no qual os indivíduos se engajam. É uma das
forças mais poderosas do mundo, porém uma das mais pervertidas. Talvez uma das razões para sua
perversão seja seu poder. Se o poder tende a corromper, neste caso um grande poder tende a
corromper grandemente. Do outro lado, boa parte do abuso do sexo talvez resulte de um mal-
entendimento acerca dele. Qual é o ponto de vista cristão, acerca do sexo?

O que as Escrituras realmente ensinam acerca da atividade sexual? Em síntese, a Bíblia diz
três coisas acerca do sexo: o sexo é bom, o sexo é poderoso, e, portanto, o sexo precisa ser controlado.
Na realidade, as primeiríssimas referências ao sexo dão a entender todos estes fatores.

1. A natureza do sexo

O sexo é intrinsecamente bom; não é mau. As Escrituras declaram que "Criou Deus, pois, o
homem à sua imagem... homem e mulher os criou" (Gn.1.27). E depois de acabar: "Viu Deus tudo
quanto fizera, e eis que era muito bom" (v.31). O sexo é bom. Deus o fez, e de alguma maneira, reflete
a Sua bondade. Talvez seja por causa do poder criador do sexo que se assemelha a um aspecto do Ser
de Deus. Ou talvez esteja na força dele de realizar o vínculo mais forte de unidade e unicidade. Seja
qual for a maneira pela qual devamos entender que o sexo é bom, fica claro que, fundamentalmente,
o sexo é bom porque Deus o fez e o declarou bom.

1.1. O sexo é essencialmente bom

O sexo é bom em si mesmo e por si mesmo porque faz parte da criação de Deus.
Diferentemente de muitas filosofias não cristãs (das variedades gnósticas e platônicas), a Bíblia
declara que a matéria e o universo físico (inclusive o corpo do homem e os órgãos do corpo) são bons.
O sexo era uma parte integrante desta criação muito boa. A Bíblia confirma este ponto de vista
dizendo; "Tudo que Deus criou é bom..." (l Tm.4.4). Se o sexo parecer impuro a alguns, estamos
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lembrados que "todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada
é puro" (Tt.1.15).

Falando especificamente acerca do sexo, o escritor da Epistola aos Hebreus declarou: "Digno
de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula" (Hb.13.4). O casamento é um
estado honroso. O casamento dificilmente poderia ser considerado honroso a não ser que o sexo fosse
bom, pois o sexo é parte integrante do casamento. O sexo é tão sagrado que é usado na Escritura para
ilustrar a união mais íntima que se pode ter com Deus. Paulo escreveu: "Eis por que deixará o homem
a seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este
mistério, mas eu me refiro a Cristo e à Igreja" (Ef.5.31, 32).

A bondade intrínseca do sexo pode ser deduzida, também, do fato de que Deus ordenou a
união sexual. Deus disse ao primeiro casal: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra..."
(Gn.1.28), mandamento este que a raça está cumprindo muito bem! Quando Eva teve seu primeiro
filho, declarou: "Adquiri um varão com o auxílio do Senhor" (Gn.4.1), reconhecendo, assim, a
aprovação de Deus do processo sexual. Decerto, a julgar pelas numerosas referências no decurso das
Escrituras à bênção dos filhos (cf. SI.127.4, 5; Pv.17.6), Deus julga que o sexo é bom.

1.2. O sexo é poderoso

Não somente o sexo é essencialmente bom como também é muito poderoso. Isto foi
subentendido no fato de que podia ser usado para "multiplicar" as pessoas e "encher" a terra (Gn.1.28).
O poder do sexo não somente é dramaticamente demonstrado na sua capacidade de fazer o homem e
a mulher "uma só carne", mas, sim, pelo tipo de criatura que está produzindo. Os filhos dos pais
humanos são gerados à imagem e semelhança de Deus. Adão foi feito à imagem e semelhança de
Deus, e "gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem..." (Gn.5.3; Tg.3.9).

Quando a natureza da criatura humana produzida através do sexo é plenamente apreciada,


provavelmente não seja exagero considerar o sexo um dos poderes mais relevantes do mundo. Quando
um espermatozoide masculino e um óvulo feminino unem-se, um ser humano está sendo feito. Todas
as demais condições sendo certas, o resultado daquela concepção será uma criatura que tanto se
assemelha a Deus quanto O representa na terra. Sem decidir aqui a questão acerca do embrião ou feto,
ainda não nascido, ser verdadeiramente humano, é um fato indisputável que, dadas as circunstâncias
apropriadas, certamente se tornará uma criatura imortal. Os seres humanos são pessoas imortais, que
nunca morrem. Viverão para sempre.

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Decerto, este não é nenhum poder comum que é dado aos filhos dos homens, que é capaz de
transmitir para o mundo uma pessoa imortal, feita à semelhança do próprio Deus. O sexo humano,
portanto, não somente é bom por natureza, mas também é grande no seu poder. É grande, tanto em
virtude de quanto pode produzir, como também em virtude do tipo de criatura que é o produto, uma
pessoa que nunca morre.

1.3. O sexo precisa ser controlado

É óbvio que qualquer coisa tão poderosa quanto o sexo precisa ser controlada. A única posição
razoável que se pode adotar a respeito de qualquer força tão poderosa como o sexo é que ele deve ser
controlado ou regulado. Deve haver maneira de canalizar e dirigir o poder do sexo para o bem dos
homens. Porque se o poder do sexo não for aproveitado para propósitos bons, então seu abuso pode
ameaçar a destruição da humanidade.

Conforme a Bíblia, o meio ordenado por Deus de dirigir e regular o poder bom e grande do
sexo é chamado casamento. "Por isso deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornando-se
os dois uma só carne" (Gn.2.24). Jesus acrescentou: "De modo que já não são mais dois, porém uma
só carne. Portanto, o que Deus juntou não o separe o homem" (Mt.19.6). Ou seja, o casamento, que
junta o homem e a mulher num relacionamento sem igual e permanente, é o canal estabelecido por
Deus a fim de regular o poder do sexo.

Naturalmente, o sexo não é somente o poder para procriar; também é um poder para o prazer.
Mas seja qual for o tipo de poder do sexo, deve ser controlado. Nenhum prazer deve ser deixado
desenfreado. O estupro e os crimes sexuais sadísticos não podem ser justificados meramente porque
trazem prazer a quem assim abusou. Alguns prazeres danificam a si mesmos e/ou aos outros.

Por exemplo, os prazeres que alguns obtêm de serem cruéis, ou injustos, ou odiosos não são
prazeres bons. Além disto, nem todos os prazeres são igualmente bons; alguns são superiores aos
outros. Logo, não se pode justificar um exercício descontrolado do sexo meramente pelo motivo dele
dar prazer. Todos os prazeres devem ser controlados, e há satisfações espirituais superiores aos meros
prazeres físicos do sexo. Segundo as Escrituras, o canal para controlar o poder do prazer das relações
sexuais (bem como seu poder procriador) é o casamento. Esta conclusão está amplamente apoiada
por um estudo da função do sexo dentro das Escrituras.

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2. A função do sexo

No que diz respeito à Bíblia, não há papel algum para as relações sexuais antes do casamento.
Na realidade, é um pecado que a Bíblia chama de fornicação (cf. Gl.5.19; l Co.6.18). A primeira
referência ao casamento declara que o homem e a mulher ficam sendo "uma só carne" (Gn.2.24), o
que dá a entender que o casamento ocorre quando dois corpos são juntados. Que a relação sexual é
usada como referente ao casamento fica sendo ainda mais claro pela maneira comum de descrever o
ato como sendo um homem "deitando-se" com uma mulher. Moisés ordenou: "Se um homem for
achado deitado com uma mulher que tem marido, então ambos morrerão..." (Dt.22.22). O Novo
Testamento confirma isto, ainda mais, pelo uso das palavras "matrimônio" e "leito nupcial" em
paralelo (Hb.13:4). Neste sentido, não há relações sexuais lícitas antes do casamento.

2.1. A função do sexo no casamento idealizado por Deus (monogâmico)

Há, ao menos, três funções básicas do sexo no casamento: levar a efeito uma unidade íntima
sem igual entre duas pessoas; fornecer êxtase ou prazer para as pessoas envolvidas neste
relacionamento sem igual; e levar a efeito uma multiplicidade de pessoas no mundo por meio de ter
filhos. Respectivamente, as três funções básicas do sexo no casamento são a unificação, a recreação,
e a procriação.

Primeiramente, o casamento visa trazer dois seres humanos à unificação mais estreita possível.
"Os dois se tornarão urna só carne" é repetido uma vez após outra na Escritura (Gn.2.24; Mt.19.5; l
Co.6.16; Ef.5.31). Tão sem igual é esta união conjugal levada a efeito pelo sexo, que a Bíblia a usa
para ilustrar a união que o crente tem com Cristo (Ef.5.32). É a natureza única, de um só
relacionamento do seu tipo, que exige que o homem mantenha relações sexuais com uma só mulher.
Não é realmente possível ter dois relacionamentos de um tipo único ao mesmo tempo. O casamento
– na realidade, o casamento monógamo – é a única maneira controlada para manter um
relacionamento continuamente único entre o marido e a esposa. Na poligamia, há sempre os ciúmes
e a questão de quem é a esposa "predileta." Realmente, não é possível ter duas esposas "prediletas"
no mesmo sentido. Logo, é possível para um homem ter um relacionamento sem igual com uma só
esposa. O casamento monógamo é o ideal divino para atingir este relacionamento entre duas pessoas.

A segunda função do sexo no casamento é recreacional. As relações sexuais são literalmente


uma re-criação da grande felicidade da união nupcial original. É uma lembrança sacramental da
alegria do seu primeiro amor. A união sexual é a reunião feliz daqueles que foram feitos um só pelo
casamento. Quanto a isto, as funções recreacionais e reunificacionais do casamento são inseparáveis.

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Porque o prazer real do sexo é aquele que é obtido da reafirmação e do reforço da união sem igual
que o casamento efetuou no início. Destarte, a tentativa de ter o prazer do sexo sem o relacionamento
igual e permanente do casamento é ilusório. A alegria verdadeira vem somente com a união
verdadeira, e a união verdadeira somente vem se houver um relacionamento sem igual e permanente
entre duas pessoas do sexo oposto (l Tm.4.3; 6.17).

O terceiro papel do sexo no casamento é a procriação. O fruto da união no matrimonio é a


multiplicidade da prole. É lógico, os filhos são o resultado natural, porém não necessário, do
casamento. Quando os filhos resultam do casamento, são uma razão adicional para manter o
casamento com um relacionamento sem igual e permanente entre os pais. Os filhos precisam da
disciplina amorosa (Pv.22.15; Ef.6.4; Cl.3.31). Precisam da união e da segurança fornecidas pelo
casamento feliz dos seus pais. Nem a poligamia, nem o divórcio, nem a anonimidade, nem a
comunidade de pais têm se revelado fatores fortalecedores nas personalidades dos filhos.

Uma palavra de resumo agora é necessária. A função do sexo dentro do casamento é tríplice:
a unificação, a recreação, e a procriação. Todos estes papéis demonstram a necessidade da fidelidade
conjugal. Sempre que o relacionamento sem igual do casamento é quebrado pelas relações sexuais
extra-conjugais, a pessoa não somente destruiu a união sem igual do casamento como também
diminuiu a possibilidade do prazer verdadeiro, sem falar do enfraquecimento da base da estabilidade
para quaisquer filhos desta união.

2.2. A visão bíblica do sexo fora do casamento

Tendo em mente os propósitos do casamento, podemos compreender mais facilmente as


proibições fortes na Escritura acerca das relações extraconjugais ilícitas. O adultério, a fornicação, a
prostituição, a sodomia (a homossexualidade) são todos fortemente condenados. Cada um destes
pecados, da sua própria maneira, viola um relacionamento interpessoal divinamente instituído.

O adultério e a prostituição são errados por duas razões básicas: “são casamentos múltiplos”.
Em primeiro lugar, são tentativas para levar a efeito muitos relacionamentos intimíssimos ao mesmo
tempo. Em cada caso, a alguém está enganando a pessoa a quem realmente mais ama e,
provavelmente, mentindo a quem não ama. A razão porque a fornicação é errada, é porque visa ser
apenas uma união temporária, ao passo que Deus deseja que a união sexual seja duradoura e
permanente (Mt.19.6). Não há maneira de assegurar o máximo prazer numa união conjugal a não ser
que se ache dentro do contexto de um compromisso mútuo vitalício do amor.

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A Bíblia é enfática: "Não adulterarás" (Êx.20.14). No Antigo Testamento os adúlteros deviam
ser executados (Lv.20.10). O Novo Testamento também é enfaticamente contra o adultério. Jesus o
pronunciou errado até mesmo nos seus motivos mais básicos (Mt.5.27, 28). Paulo o chamava uma
obra má da carne (Gl.5.19), e João teve visão da presença de adúlteros no lago do fogo (Ap.21.8). A
palavra "fornicação" é frequentemente usada na Escritura para relações sexuais ilícitas fora do
casamento, embora o modo geral de entender é que ela subentende que pelo menos um membro do
relacionamento não era casado. Os apóstolos conclamavam todos os cristãos a abster-se da fornicação
(também chamada incastidade) (At.15.20). Paulo disse que o corpo não é para a prostituição e que o
homem deve fugir dela (l Co.6.13, 18). Os efésios foram informados de que a prostituição nem sequer
deveria ser mencionada entre eles (5.3).

A homossexualidade não está na mesma classe dos pecados heterossexuais do adultério, da


prostituição e da fornicação. A homossexualidade é diferente destes três porque não ocorre nenhuma
relação sexual no sentido rigoroso da expressão, e nenhum nascimento pode resultar dela. Mesmo
assim, a homossexualidade no sentido de sexualmente estimular e manipular uma pessoa do mesmo
sexo é especificamente proibida na Escritura. No Antigo Testamento, este pecado era chamado
sodomia, segundo o nome da cidade iníqua, Sodoma, que foi destruída por causa desta perversidade
(Gn.19.5-8, 24). Mais tarde, a lei de Moisés proibiu qualquer "sodomita" de fazer parte da
comunidade de Israel (Dt.23.17), Mais tarde, durante as reformas, o rei Asa, "tirou da terra os
prostitutos-cultuais..." (l Rs.15.12). Há muitas referências aos pecados de Sodoma (cf. Is.3.9;
Ez.16.46). O Novo Testamento é igualmente claro sobre o assunto. Romanos, capítulo um, fala da
homossexualidade como sendo aquilo que mudou "o modo natural de suas relações íntimas, por outro
contrário à natureza" (v.26). É uma "torpeza" que resulta de paixões vis (v.27). Noutra passagem,
Paulo escreveu: "Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados,
nem sodomitas... herdarão o reino de Deus" (l Co.6.9).

Estas todas são perversões do uso apropriado do sexo. Atos heterossexuais são errados fora
do casamento porque estabelecem um relacionamento de marido e esposa entre aqueles que não são
marido e esposa. Os atos homossexuais são errados porque estabelecem um relacionamento sem igual
de marido e mulher entre os que não podem ser marido e mulher, por serem do mesmo sexo.

3. Os casamentos múltiplos mencionados na Bíblia

Há pouca questão de que a poligamia era permitida por Deus nos tempos bíblicos. Até alguns
dos grandes santos tinham várias esposas (cf. Abraão, Davi, Salomão). O problema verdadeiro não é
se Deus permitiu a poligamia, mas se Ele a planejou. Ou seja: a poligamia, como o divórcio, era algo

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que Deus tolerou, mas realmente não desejou? Há bastante evidência, mesmo dentro do Antigo
Testamento, que a poligamia não era o ideal de Deus para o homem.

Que a monogamia era Seu ideal para o homem fica óbvio de várias perspectivas: Deus fez
uma só pessoa para Adão (Gn.2.18ss.), estabelecendo, assim, o precedente ideal para a raça; a
poligamia é mencionada pela primeira vez como parte da civilização cainita ímpia (Gn.4.23); Deus
claramente proibiu os reis de Israel (os líderes eram as pessoas que se tomavam polígamos) dizendo:
"Tão pouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração se não desvie" (Dt.17.17); os santos
que se tomaram polígamos arcaram com as conseqüências de tais atos: l Rs.11.1, 3 diz: "Salomão
amou muitas mulheres estrangeiras... Tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e
suas mulheres lhe perverteram o coração."; o maior polígamo do Antigo Testamento, Salomão, deu
testemunho do fato de que tinha um só verdadeiro amor, para quem escreveu Cantares. Este livro é a
maior repreensão contra a poligamia, escrita pelo maior polígamo. Até mesmo Salomão com suas
1.000 esposas somente tinha um amor verdadeiro; a poligamia usualmente está situada no contexto
do pecado no Antigo Testamento: o casamento de Abraão com Hagar era claramente um ato carnal
de descrença (Gn.16.1-2); Davi não estava num ponto alto espiritual quando acrescentou Abigail e
Ainoã como esposas (l Sm.25.42, 43), nem Jacó quando se casou com Lia e Raquel (Gn.29.23, 28).

O Novo Testamento preceitua a monogamia como condição prévia para os líderes da Igreja.
"É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher..." (l Tm.3.2),
escreveu o apóstolo. A monogamia não somente era exigida para os líderes da igreja como também
era recomendada para todos os homens. Paulo escreveu: "Mas por causa da impureza, cada um tenha
a sua própria esposa e cada uma o seu próprio marido" (l Co.7.2). Há outros argumentos contra a
poligamia, tais como o número relativamente igual de homens e mulheres no mundo, que daria a
entender que uma só mulher é feita para um só homem.

4. A questão do divórcio

Os casos de poligamia mencionados não fornecem uma exceção ao princípio moral de que o
sexo deve ser um relacionamento pessoal, único e permanente entre um homem e uma mulher? Além
disto, o caso justificável do divórcio (quando o cônjuge foi infiel), mencionado por Jesus (Mt.19.9)
fornece uma exceção à moralidade do vínculo matrimonial? De um ponto de vista bíblico e
hierárquico, a resposta às duas perguntas é "Não".

Não há exceções à singularidade do relacionamento conjugal (um homem para uma mulher).
Semelhantemente, não há exceções legítimas à permanência do vínculo conjugal (o divórcio como

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tal é errado); há apenas algumas obrigações transcendentes que podem intervir. Ou seja: alguns
deveres são superiores a outros.

4.1. O divórcio e o cristão em geral

O divórcio não é uma exceção à ética bíblica: "Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o
homem" (Mt.19.6). Mesmo assim, a regra bíblica não é: "O divórcio é sempre errado." A regra é esta:
"Um relacionamento permanente, contínuo e sem igual é sempre certo." Noutras palavras, as
Escrituras estão interessadas na permanência do casamento. A regra é conservar em andamento um
relacionamento de amor, sem igual, custe o que custar, posto que não importe na perpetuação de um
mal, ou de um bem menor ao invés de um bem maior.

A referência de Jesus à fornicação ou à incastidade como motivo para separação é um exemplo


típico. Se um parceiro rompeu o relacionamento conjugal sem igual, ao juntar-se sexualmente a outra
pessoa, logo, tanto a permanência quanto a qualidade sem igual do vínculo foram quebradas. Em
semelhante caso, onde não há possibilidade de restaurar e perpetuar um relacionamento com
relevância permanente, a separação pode ser melhor, não gerando, entretanto, direito a um novo
casamento.

Em l Coríntios 7 parece que Paulo está desenvolvendo ainda mais os fundamentos legítimos
para terminar um casamento, ao incluir a indisposição do cônjuge descrente de continuar em
andamento o contrato depois do outro ter-se tornado cristão. "Mas, se o descrente quiser apartar-se,
que se aparte; em tais casos não fica sujeito à servidão, nem o irmão, nem a irmã (aos seus votos de
casamento)" (v.15).

Sob quais responsabilidades superiores, pois, são justificados o divórcio ou a separação?


Quando Deus nunca os juntou num relacionamento de amor sem igual desde o início, e quando não
há esperança de que ocorrerá no futuro (Mt.19.6); quando o relacionamento sem igual é
irreparavelmente quebrado pela infidelidade (Mt.19.9); e quando um dos parceiros "morre", isto é,
quando existe uma separação física permanente. Esta pode ser uma morte física real ou seu
equivalente, como um soldado "perdido em combate" pode, no decurso de um prazo, ser pronunciado
legalmente "morto" e sua esposa pode ficar livre para um novo casamento. Até a perda de um
astronauta no espaço pode qualificar sua esposa para um novo casamento. Estas não são exceções à
permanência do casamento, porque um casamento permanente depende de haver duas pessoas
dispostas a continuar este relacionamento sem igual.

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A fidelidade sexual está baseada no relacionamento altamente pessoal, sem igual, e
permanente, que as relações sexuais estabelecem entre duas pessoas do sexo oposto. Deus fez o sexo
como algo bom, e deu o bom canal através do qual deve ser exercido, o comprometimento vitalício
chamado casamento. Somente o relacionamento monógamo exemplifica perfeitamente este
relacionamento sem igual (um só do seu tipo). Nenhum homem pode ter dois relacionamentos
conjugais do tipo sem igual ao mesmo tempo.

O compromisso conjugal é vitalício. O casamento não somente é um relacionamento único


como também é permanente. O que Deus ajuntou, o homem não deve separar. Isto não quer dizer que
Deus juntou todos aqueles que se juntaram a si mesmos.

4.2. O divórcio e o pastor

Pode um homem divorciado ser pastor? Não. Eis aqui dez motivos o impedem:

1. Ele não é exemplo dos fiéis. Em I Tm.4.12, Paulo exorta a Timóteo para que seja "...o
exemplo dos fiéis..." O homem que está no segundo, e em até alguns casos, terceiro ou mais
casamentos, não pode ser exemplo dos fiéis, por não ser esta a vontade de Deus para o seu povo: Ele
odeia o divórcio (Ml.2.16). Os jovens de tal Igreja estariam automaticamente, levantando a
possibilidade de seus futuros casamentos, se não derem certo "como o do pastor", considerar o
divórcio como uma opção, e ainda Deus estaria “abençoando-os” após algumas “tribulações”
Desastroso exemplo seria também para os que entrarão ou já estão no ministério pastoral. O
cristianismo verdadeiro não segue o lema de "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Paulo
disse "sede meus imitadores como eu sou de Cristo"(I Co.3.15). O ministério pastoral não é para
qualquer um, mas para os que tem condições morais de dar exemplo.

2. Ele não é irrepreensível. Em I Tm.3.2 temos as qualificações para o pastor: "Convém, pois,
que o bispo seja irrepreensível..." A palavra traduzida por irrepreensível usada no texto acima é no
grego "anepleptos". Ela aparece três vezes no Novo Testamento, a saber: I Tm.3.2, 5.7 e 6.14. O
significado é sempre o de alguém de quem não se pode falar nada contra, sem mancha, sem culpa
inacusável. Independentemente de ser ou não o causador do divórcio (se é que existe tal condição), o
homem que passou por esta experiência não se encaixa nas exigências bíblicas e será usado pelo diabo
para escandalizar e envergonhar o Evangelho. Existe "pastor" que se casou em rebeldia contra os
conselhos dos pais, de amigos e até de seus pastores, atraindo maldições a si. Tal flagrante violação
da vontade de Deus tornou tal crente o único responsável pela falência do seu próprio casamento,
desqualificando-o de uma vez por todas, para o exercício do pastorado.

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3. Ele não é marido de uma mulher. “Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido
de uma mulher..." (I Tm.3.2). A expressão "marido de uma mulher" significa muito mais do que o
leitor superficial possa imaginar. O ensino é que a mulher com quem o bispo é casado, é a sua primeira
e única. Não tem nada a ver com a condenação de relacionamentos simultâneos, o que seria adultério.
A condenação da poligamia seria um absurdo tão redundante e flagrante que Paulo não precisaria se
referir para uma pessoa especial como o bispo. O que está em jogo é a conduta ilibada e irrepreensível
do pastor no seu relacionamento singular com a sua primeira esposa. A ênfase em I Tm.3.1 sobre a
vida conjugal do pastor é tão flagrante, que a mesma palavra que é usada para expressar a unicidade
da mulher da sua vida, é usada também em todas as vezes no Novo Testamento para expressar que
marido e mulher se tornam uma só carne. O homem que se divorcia e se casa com outra mulher não
reverte o se tornar uma só carne com a primeira, portanto ele não é mais marido de uma só mulher
nem na singularidade nem na ordem numeral e nem mesmo se voltasse para a primeira.

4. Ele não tem autoridade para exortar nem aconselhar. O divorciado não pode pregar numa
Igreja como pastor, muito menos aconselhar os casais crentes sobre família, porque a sua não é mais
exemplo. Se tentar aconselhar estará sendo hipócrita, se não aconselhar estará sendo omisso com o
ministério mutilado. Não tem jeito, o cristianismo não funciona segundo palavras vazias, mas com
exemplo de vida. Mesmo que o homem não tenha se casado novamente, a situação de separação da
primeira esposa já o desqualifica para o pastorado.

5. Ele contradiz a própria palavra que prega por exercer, em rebeldia, uma posição para a qual
Deus não o permitiu. Quando o pastor sobe ao púlpito para pregar, ele não pode expressar as suas
opiniões. Ele tem que entregar uma mensagem que não é a sua. Ele tem que pregar a Palavra de Deus
em obediência a Cristo. Se o pregador está em rebeldia no seu viver, ele está desqualificado para
pregar. Suas palavras são vazias e sem unção. Não importa o que a Igreja pense, o tamanho da
congregação, ou quantas conversões acontecem: o seu líder nessas condições está sem a bênção do
Senhor, não importando os "sinais externos": os resultados não autenticam a fonte (I Co.3.13-15).

6. Ele seria um desastre espiritual a médio e longo prazo para a Igreja imatura que o aceitar.
Não se pode colocar o pecado em compartimentos. Quando ele entra na Igreja sob a forma de omissão
e rebeldia contra a palavra de Deus, qual fermento, espalha-se para vários outros setores. Com o
pecado não se brinca. A tendência do homem é o pecado, principalmente na área de família e sexo.
Na Igreja isto também se verifica. Se a liderança não tem os padrões de Deus, a degeneração dos
crentes é certa. Os líderes cristãos não podem ser egoístas, buscando seus interesses a curto prazo
nem status de liderança para encobrir pecados pessoais. Se os padrões são decadentes, pode esperar
que os crentes que se desenvolveram dentro do ambiente de tolerância com o pecado serão cada vez
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mais decadentes, frios e finalmente apóstatas. Veja as advertências do Senhor às sete Igrejas do
Apocalipse. A Igreja local, muito menos “ordens de pastores”, não têm autoridade para aceitar um
pastor divorciado.

7. Ele desonra o gesto nobre de ex-pastores que abandonaram o ministério por fracassarem no
casamento. Infelizmente, há diversos casos de pastores que, apesar de terem o chamado de Deus para
o ministério, tiveram a dignidade e a nobreza de abandoná-lo após se desqualificarem devido ao
divórcio, separação ou conduta. Quando alguém insiste em permanecer no ministério nessas
condições está desonrando a Deus e a esses homens dignos que entenderam que não era mais a
vontade de Deus a sua liderança sobre o Seu povo. Quando alguém assim permanece no ministério,
na verdade está se julgando muito importante e indispensável para o trabalho de Deus (Lc.17.10).

8. Ele destruiu o modelo de compromisso eterno e indissolúvel entre Cristo e a Igreja. O


relacionamento eterno entre Cristo e os salvos, é comparado com o do marido e esposa, cujo
compromisso não é para ser quebrado (Ef.5.22-33).

9. Ele não pode celebrar nenhum casamento. Até que a morte os separe (Rm.7.2-4, I Co.7.39)?
Como pode um pastor proferir os votos conjugais para um casal de noivos, se ele mesmo não os
cumpriu na sua vida?

10. Ele está contribuindo para a degeneração dos padrões familiares das gerações seguintes.
Se pastores, tendo suas famílias dentro dos padrões bíblicos, já sofrem com a desintegração de várias
famílias, imagine se do púlpito vem o péssimo exemplo do fracasso conjugal. Nesse caso os
fundamentos da família estão abalados para as gerações seguintes (Sl.11.3).

5. Considerações sobre algumas práticas sexuais

A Bíblia não limita, não restringe e nem prescreve formas de carícias e de prática sexual entre
pessoas casadas, dentro do casamento. Dos casados, porém, se espera que eles se respeitem e se amem
mutuamente. Dentro desses princípios, nenhuma parte sujeitará a outra a fazer o que não quer, o que
lhe desagrade, o que não lhe dá prazer e o que a possa machucar.

Desde que observado o padrão de Deus para o casamento, podemos admitir que esse assunto
se situa na esfera da liberdade cristã, ou seja, o casal cristão tem liberdade para decidir se deve ou não
praticar determinadas formas de carícias, lembrando-nos, também, do princípio de intimidade e
privacidade. Casais cristãos devem agradecer a Deus por ele lhes conceder, através do sexo, uma
maravilhosa e prazerosa forma de relacionamento, e não só um meio de reprodução. E, por ser objeto
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de agradecimento e de louvor a Deus, o sexo deve ser praticado como expressão do amor conjugal
entre pessoas casadas, na certeza de que nada poderá substituir o ato conjugal tradicional.

6. Considerações finais sobre a questão sexual

Há um consenso na ética cristã de que:

1. Por certo Deus destinou o ser humano a buscar a realização sexual com outros seres vivos. A
necrofilia, ou atração sexual por cadáveres, fere esse padrão;
2. Deus destinou o ser humano à realização sexual com outro ser da mesma espécie. A zoofilia,
ou atração sexual por irracionais, fere esse padrão;
3. Deus destinou o ser humano à realização com o sexo oposto. O homossexualismo, ou atração
pelo mesmo sexo, fere esse padrão;
4. Deus destinou o ser humano a se realizar sexualmente por livre manifestação de vontade. O
estupro, ou relações sexuais à força, ferem esse padrão;
5. Deus destinou o ser humano à realização sexual por amor. A prostituição, ou relação sexual
mediante remuneração ou recompensa, fere esse padrão;
6. Deus destinou o ser humano a relacionamentos estáveis, que crescem e se aprofundam. A
fornicação, ou relacionamentos sexuais efêmeros e sucessivos, ferem esse padrão;
7. Deus concebeu a atividade sexual como um ato de comunicação interpessoal. A masturbação,
ou auto-realização sexual solitária, quando opção permanente de um egoísmo sexual, fere esse
padrão;
8. Deus deixou ao ser humano a incumbência e a capacidade de reprodução da espécie. Ele é a
fonte da vida e condena a morte. O aborto, ou destruição do ser enquanto ainda no útero, fere
esse padrão;
9. Destinou Deus o ser humano a fazer da atividade sexual um ato construtivo de afeto. O
sadismo, ou prazer em fazer sofrer, e o masoquismo, ou prazer no sofrer, com suas agressões
e mutilações, ferem esse padrão;
10. Destinou Deus o ser humano à integração da sua sexualidade com equilíbrio, dentro de uma
pluralidade de atividades e interesses. A lascívia, sexocentrismo, sexomania ou obsessão
sexual, ferem esse padrão.

Encerramos este estudo com uma afirmação de fé: talvez muitos de nós tenhamos em nosso
passado algum pecado, de ordem sexual ou não, do qual nos envergonhamos. Mas podemos confiar
na promessa de Deus em Sua Palavra: "Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes

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santificados, mas fostes justificados, em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus
(I Co.6.11).

A ÉTICA EM RELAÇÃO AO ABORTO

Momento da concepção ou fecundação 06 Semanas 11


Semanas 17 Semanas 24 Semanas

O feto em seu começo é uma pessoa. A infusão da alma no ser gerado, conforme acreditamos,
dá-se na hora da concepção. De início, façamos uma pequena diferenciação entre controle de
natalidade e aborto.

O controle da natalidade é, essencialmente, uma tentativa para prevenir que mais vida ocorra.
O aborto é uma tentativa de tirar uma vida depois dela ter começado a desenvolver-se, o que é uma
questão muito mais séria. O controle da natalidade não é o assassinato (isto é, tirar uma vida humana),
mas o que se diz acerca do aborto? É assassinato? O que a Bíblia tem a dizer sobre este assunto?

1. Em geral, o aborto é assassinato

Um nenê não nascido é humano. Conforme a lei de Moisés, matar um nenê não nascido era
considerado um delito capital. "Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que
aborte, porém sem maior dano, será obrigado a indenizar..." (Êx.21.22). Alguns entendem este abortar
como expelir, por para fora, ou seja, um nascimento forçosamente antecipado. Sendo assim, no aborto
onde a criança nascesse, porém não morresse nem a mãe e nem a criança, aplicava-se uma multa.

No caso de matar um nenê, uma criança, ou adulto (no caso a mãe), era exigida mais do que
uma indenização - exigia-se a vida do assassino (Êx.21.23). Aparentemente, o nenê não nascido era
considerado plenamente humano e, portanto, causar sua morte era considerado assassinato (i.e., tirar
uma vida humana inocente).

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Um nenê não nascido não é sub-humano. Se um embrião não é plenamente humano, o que é,
então? É sub-humano? Pode ser tratado como um apêndice — uma extensão descartável do corpo da
mãe? A resposta a isto é "não." Um nenê não nascido é uma obra de DEUS que aumenta enquanto se
desenvolve. O salmista escreveu: "Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha
mãe... as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram
encobertos, quando no oculto fui formado, e entretecido como nas profundezas da terra" (SI.139:13-
15). Talvez não se deva dar ênfase demasiada a esta descrição poética de um embrião, mas parece
razoável concluir que há uma grande diferença entre um nenê não nascido e um apêndice. O primeiro
pode tornar-se um ser humano completo, o outro não pode. O embrião humano é potencialmente um
ser humano, e um apêndice não o é. O primeiro tem diante dele a imortalidade na imagem e
semelhança de Deus; o último é meramente um tecido descartável do corpo humano. Realmente,
CRISTO foi o Deus-homem a partir da concepção (Lc.1.31,32).

O aborto realmente é assassinato O assassinato é uma atividade, iniciada pelo homem, de tirar
uma vida humana real. O aborto artificial é um processo iniciado pelo homem, que resulta em tirar
uma vida humana em potencial. Semelhante aborto é assassinato, porque o embrião é plenamente
humano em crescimento, é uma pessoa sub-desenvolvida. Mediante o aborto, a vida humana é
destruída antes do nascimento. A pergunta é esta: uma vida humana deve, em qualquer ocasião, ser
freada antes de realmente ter uma oportunidade para começar?

O aborto é mais sério do que o controle da natalidade. O controle da natalidade pode ser
considerado essencialmente errado porque previne alguma vida de ocorrer. O aborto, do outro lado,
tira uma vida sub-desenvolvida depois dela ter ocorrido. Visto que DEUS é o Autor da vida, é uma
coisa séria esmagar uma vida que Ele permitiu iniciar-se. A pessoa precisa ter uma boa razão para
extinguir aquilo que DEUS acendeu e mesmo assim temer a DEUS e não cometer tal loucura. O
embrião humano se desenvolverá numa pessoa imortal. Há implicações sérias no ato de um homem
que golpeia um ato de DEUS, o de dar inicio a uma vida. Ao gerar filhos, os pais estão servindo como
canal mediante o qual DEUS cria vida. É errado, naturalmente, bloquear o canal completamente, de
modo que nenhuma vida possa passar (como no controle completo da natalidade da raça inteira). Uma
vez que o fluxo da vida começou, pode ser marcantemente errado apagá-lo sem lhe dar a mínima
chance de desenvolver-se. A concepção é um argumento, à primeira vista, de dar à pessoa ainda não
desenvolvida uma oportunidade de desenvolver-se.

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2. Quando o aborto pode ser justificado

É uma responsabilidade séria tirar a vida de um ser humano em potencial. As únicas circunstâncias
moralmente justificáveis para o aborto são aquelas em que há um principio moral superior que possa
ser cumprido.

2.1. O aborto por razões terapêuticas

Quando é um caso nítido de, ou tirar a vida do nenê não nascido, ou deixar a mãe morrer,
exige-se o aborto. Uma vida real (a mãe) é de maior valor intrínseco do que uma vida potencial (nenê
não nascido).

A mãe é um ser humano plenamente desenvolvido capaz de gerar outro ser; o nenê é um ser
humano não-desenvolvido incapaz de gerar outra vida ainda. Um ser humano realmente desenvolvido
é melhor do que um que tem o potencial para a plena humanidade, mas ainda não se desenvolveu. Ser
plenamente humano é um valor superior à mera possibilidade de tomar-se plenamente humano.
Porque o que é, tem mais valor do que o que pode ser. Assim como a flor tem mais valor do que a
semente que germina (uma flor em potencial), assim também a mãe tem mais valor do que o embrião.
Ela já é um sujeito maduro, livre e autônomo, ao passo que o nenê não nascido somente tem o
potencial para se tomar tal.

Pode ser levantada aqui a questão de se alguns seres humanos em potencial são mais valiosos
do que alguns seres humanos reais. Poderíamos ser tentados a concordar que uma vida humana
potencialmente boa é melhor do que uma vida humana realmente má, se pudéssemos ter certeza, de
antemão, que o nenê acabaria sendo bom. Mas isto exigiria um tipo de onisciência que somente Deus
possui. Logo, somente Deus poderia fazer uma decisão baseada num conhecimento completo do fim
ou dos resultados. Ou seja: somente Deus poderia usar eficazmente um cálculo utilitarista. Os homens
finitos devem contentar-se com as conseqüências imediatas, baseadas nos valores intrínsecos,
conforme os vêem. Nesta base, uma vida real (quer seja má, quer não) é de mais valor do que uma
vida em potencial. Além disto, Deus não julga o valor de uma vida individual por aquilo que um
homem faz com ela (seja o bem, seja o mal), mas, sim, por aquilo que ela é.

O valor intrínseco maior de uma mãe não deve ser determinado por aquilo que ela faz, mas,
sim, por aquilo que ela é. E a humanidade real da mãe é de maior valor do que o potencial do nenê
não nascido.

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2.2. O Aborto por razões eugênicas

O que se diz de abortos por razões eugênicas? É certo em qualquer hipótese tirar a vida de um
embrião porque nascerá deformado, retardado ou sub-humano? Neste caso, mais uma vez, é
necessário proceder com cuidado. Sempre é uma coisa séria tirar a vida de um ser humano em
potencial. Sempre deve haver uma razão moral superior para apagar uma vida antes de desabrochar.

Há várias razões eugênicas pelas quais abortos têm sido recomendados por alguns, tais como
o mongolismo, outros por deformações devidas à talidomida ou males semelhantes, e alguns, por
retardamento ou outras deformidades devidas ao sarampo, ou a outras causas. Estes são motivos
legítimos para um aborto? Os cristãos diferem entre suas respostas a estas situações. No entanto, do
ponto de vista da ética hierárquica, o princípio básico é o seguinte: o aborto eugênico é requerido
somente quando as indicações claras são de que a vida será sub-humana, e não simplesmente porque
talvez venha a ser uma pessoa deformada. Alguns podem pensar que o mongolismo seja um motivo
justificável para o aborto, mas a talidomida não é. Seres humanos deformados, e até mesmos seres
humanos retardados, ainda são humanos. Os defeitos não destroem a humanidade da pessoa. Na
realidade, freqüentemente ressaltam as características verdadeiramente humanas tanto nos
defeituosos quanto naqueles que trabalham com eles.

Outro fator, às vezes olvidado, na questão de se um embrião deve ter licença para viver é o
direito do não nascido. O feto potencialmente humano tem um direito moral à vida, mesmo que a
vida venha a ser de alguma maneira defeituosa? Como é que as crianças e os adultos mutilados e
retardados se sentem acerca da questão de outra pessoa decidir seu destino antes de nascerem? A
resposta parece clara: uma vida humana, defeituosa ou não, vale a pena ser vivida, e qualquer pessoa
que toma sobre si o resolver de antemão, em prol de outrem, que a vida deste não deve receber a
oportunidade de desenvolver-se está ocupada num ato ético sério. Evidentemente, há casos, como dos
anencéfalos, em que o aborto pode ser justificável, entre alguns outros.

2.3. O aborto na concepção sem consentimento

Uma mãe deve ser forçada a dar à luz uma criança concebida pelo estupro? Há uma obrigação
moral de gerar uma criança sem consentimento? Isto levanta a questão inteira do dever moral da
maternidade. Alguém pode ser forçada a ser uma mãe contra sua vontade? Sua madre é mero utensílio
para a tirania das forças externas da vida? Esta é uma pergunta delicada, que envolve uma resposta
delicada.

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Pode ser considerado que o nascimento não é moralmente necessitado sem o consentimento.
Será que uma mulher deve ser forçada a levar na madre uma criança que ela não consentiu em ter
relações sexuais? Uma intrusão violenta na madre de uma mulher traz consigo um direito moral de
nascimento para o embrião? A mãe tem o direito de recusar que o corpo dela seja usado como objeto
da intrusão sexual? Mas o que se diz do direito de a criança nascer a despeito do modo maligno
segundo o qual foi concebida? Neste caso, o direito da vida potencial (o embrião) é eclipsado pelo
direito da vida real da mãe? Comumente, os direitos à vida, à saúde, e à autodeterminação – i.e., os
direitos à personalidade – da mãe plenamente humana tomam precedência sobre o direito do embrião
potencialmente humano.

No entendimento geral, uma pessoa potencialmente humana não recebe um direito de


nascimento mediante a violação de uma pessoa plenamente humana, a não ser que seu consentimento
seja dado subseqüentemente. No caso da mãe ser cristã, onde fica sua responsabilidade quanto à vida
que está em seu interior? O perdão ao estrupador (inimigo), como fica? O que a criança tem a ver
com a maneira como foi gerada?

2.4. O aborto na concepção mediante o incesto

A concepção incestuosa pode envolver o estupro e as conseqüências eugênicas e, portanto,


pode providenciar uma base ainda mais firme para um aborto justificável. Por qualquer dos motivos
isoladamente, parece que nenhuma obrigação moral possa ser imposta sobre uma moça para levar a
termo sua gravidez incestuosa. Sua personalidade foi violada e a personalidade potencial do nenê não
nascido pode ser seriamente danificada por defeitos eugênicos também.

Alguns males devem ser extirpados pela raiz. Deixar um mal desabrochar em nome de um
bem em potencial (o embrião) parece um modo insuficiente de lidar com o mal, especialmente quando
o bem em potencial (o embrião) pode acabar sendo outra forma do mal. O incesto pode ser errado
nos dois lados: na concepção e nas suas conseqüências. No caso da mãe ser cristã, onde fica sua
responsabilidade quanto à vida que está em seu interior? O perdão ao pai como fica? O que a criança
tem a ver com a maneira como foi gerada? Deus deve estar no controle.

3. Quando o aborto não é justificável

Agora que algumas das circunstâncias segundo as quais um aborto pode ser exigido foram
discutidas, as situações nas quais não é certo devem ser discutidas. Como regra geral, o aborto não é
justificado. Somente sob a pressão de uma responsabilidade ética sobrepujante, tais como aquelas que
foram discutidas supra, pode ser (não necessariamente é) justificável tal ato. Como regra geral, o
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aborto é errado, e a lista que se segue dá alguns exemplos específicos para ilustrar a regra de que o
aborto, como tal, é errado, a não ser que seja realizado visando um principio ético superior, tendo
Deus no controle sempre.

3.1. O aborto não é justificável depois da viabilidade

A primeira consideração a ser feita, e a mais básica, é que nenhum aborto é justificável, como
tal, depois do feto se tomar viável, isto é, depois do nascimento ser possível. Nesta altura, já não seria
sequer uma questão de aborto (tirar uma vida potencialmente humana) mas, sim, matar uma vida
humana real. Tirar a vida de um feto viável sem justificativa ética superior seria assassinato. Desde a
concepção, e no decurso das oito primeiras semanas, o não nascido é chamado um embrião. A partir
deste tempo, é chamado de feto. A partir de cerca de seis meses, é possível dar à luz um nenê que
pode viver e respirar sozinho, e que pode desenvolver-se num ser humano maduro.

Qualquer aborto justificável que deve ser realizado, deve ocorrer antes deste ponto de
viabilidade, para ser qualificado como aborto. A partir deste ponto, qualquer ato alegadamente
justificável de tirar a vida teria de ser classificado como eutanásia, que é uma questão ética ainda mais
séria.

Na realidade, desde a concepção o não nascido tem valor emergente à medida em que se
desenvolve. Agora, sabe-se que o não nascido recebe a totalidade da sua potencialidade genética,
RNA e DNA, na ocasião da concepção. Já no fim de quatro semanas, um sistema cardiovascular
incipiente começa a funcionar. Com oito semanas, a atividade elétrica do cérebro pode ser lida, e a
maioria das formações dos órgãos essenciais estão presentes. E dentro de dez semanas o feto é capaz
de movimento espontâneo. Em muitos Estados, a lei requer uma certidão de nascimento para um feto
de vinte semanas. Com isso fica evidente que cada ponto de progresso realiza um valor aumentado
até que, finalmente, o pleno valor humano é atingido.

3.2. O aborto por causa de crianças não desejadas não é justificável

O simples fato de que uma mãe não deseja o nenê não é motivo suficiente para apagar uma
vida humana em potencial. Os caprichos ou desejos pessoais de uma mãe não tomam precedência
sobre o valor do embrião ou do seu direito de viver. O princípio articulado por Fletcher na sua ética
situacional de que nenhum nenê não planejado ou não desejado deve nascer, em qualquer hipótese,
está certamente errado. Entre outras coisas, se for assim, então provavelmente boa parte (senão a
maioria) da raça humana nunca teria nascido.

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O não nascido tem um direito à vida, quer sua vida tenha sido humanamente planejada ou
desejada naquela ocasião, quer não. Além disto, muitos filhos que não eram desejados inicialmente
vieram a ser benquistos, ou pelos seus pais, ou por outra pessoa. Por que a criança "não planejada"
não pode receber a oportunidade de nascer e de ser amada por alguém? Se alguém consentir em ter
relações sexuais, deve aceitar as consequências que advêm das relações, como a geração de filhos.
Quando alguém escolhe ter relações ou consente nelas, está implicitamente consentindo em ter
filhos. Visto que o casamento é consentimento automático para ter relações sexuais (l Co.7.3ss),
segue-se que os filhos concebidos são automaticamente determinados, quer sejam desejados, quer
não. E visto que até mesmo o meretrício é um casamento aos olhos de Deus (l Co.6.16), logo, os
filhos que nascem da fornicação também são determinados, quer sejam desejados, quer não.

Em síntese, qualquer filho nascido das relações sexuais, entre partes que consentem, é
implicitamente determinado, e, como tal, tem o direito de viver. O aborto não resolve o problema dos
filhos não desejados; pelo contrário, complica o problema. Dois erros não perfazem um acerto.

3.3. O aborto para o controle da população não é justificável

Outro abuso contemporâneo do aborto é um tipo de método de controle de natalidade "depois


do fato". Em termos francos: uma vez que a concepção ocorreu, é tarde demais para resolver que não
deveria ter sido feito. Há algumas decisões morais na vida que levam a uma só direção, e as ações
sexuais que levam à concepção é uma delas. Quando um homem resolve ter relações sexuais que
possam resultar na procriação, é tarde demais decidir que não quer a criança, depois de ter ocorrido a
concepção.

O ponto da moralidade estava no consentimento às relações. Tirar uma vida em potencial não
é moralmente justificável, simplesmente porque a pessoa não quer sofrer as conseqüências sociais ou
físicas que advém das suas próprias escolhas livres. Há ao menos um meio natural inquestionável
para o controle de natalidade (abstenção sexual em período fértil), sem chegar-se ao aborto. Deus deu
ao homem o mundo inteiro, portanto ele mesmo deve saber quantos seres humanos devem habitar
nele, e não o homem deve decidir isto.

3.4. O aborto por causa de deformação prevista não é justificável

O argumento em prol do aborto pela razão da deformidade prevista é insuficiente. Em primeiro


lugar, a porcentagem de possibilidade de deformidade não é tão alta como às vezes é antecipada. Por
exemplo, quase metade dos nenês que nascem com defeitos os têm em grau menor, que não precisam

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de tratamento médico algum. Dos defeitos sérios, metade não se tornam aparentes, a não ser depois
do nascimento, o que é tarde demais para um aborto.

Além disto, em cerca de metade dos casos em que as crianças nascem com defeitos sérios, os
defeitos podem ser corrigidos ou compensados de modo satisfatório mediante operações ou ajudas
artificiais. Mesmo no caso da rubéola, há uma chance de 80/85% de nascer uma criança normal, se a
mãe foi afetada pela enfermidade depois do primeiro mês.

A segunda razão, e a mais básica, contra o aborto em razão da mera deformidade, é que uma
criança deformada é plenamente humana e capaz de relacionamentos interpessoais. A deformidade
normalmente não destrói a humanidade da pessoa. Logo, o aborto artificial de um feto deformado,
mesmo nos poucos casos em que isto possa ser sabido, com certeza, de antemão, é tirar o que pode
tornar-se uma vida plenamente humana. Os defeituosos são humanos e têm o direito de viver. O
aborto impede, de antemão, este direito.

A ÉTICA E A PENA CAPITAL

Muita controvérsia tem surgido em tomo da pena capital. De um lado, tem sido saudada como
sendo divinamente instituída e socialmente necessária. Do outro lado, tem sido rotulada de bárbara e
anticristã. É moralmente correto, em qualquer caso, tirar a vida de outro ser humano por razões
sociais? Tirar a vida deve ser usado como penalidade em alguma ocasião? O que as Escrituras dizem
sobre o assunto?

1. A base bíblica para a pena capital

Há várias passagens diferentes da Escritura que ensinam que Deus instituiu a pena capital para
certos crimes sociais hediondos. Estas passagens se acham nos dois Testamentos.

1.1. O Antigo Testamento e a pena capital

A primeira referência à pena capital acha-se em Gênesis 9.6. Noé e sua família sobreviveram
ao grande dilúvio, que foi precipitado pela maldade e pela violência daquela civilização antediluviana
(cf. Gn.6.11). Quando Noé saiu da arca, Deus lhe deu a seguinte injunção: "Se alguém derramar o
sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a Sua
imagem." O assassinato é errado porque é matar a imagem e semelhança de Deus, e quem tirar a vida
dos outros homens deve ter sua vida tirada pelas mãos dos homens.

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Os antediluvianos tinham enchido o mundo com violência e derramamento de sangue. Pelo
uso da pena capital os homens deveriam abafar a violência e restaurar a ordem da justiça. Deus
instituiu a ordem e a paz sociais e deu ao governo a autoridade sobre a vida para garantir à humanidade
estes benefícios. Sob a lei mosaica a pena capital foi continuada e até mesmo expandida. O princípio
básico era "vida por vida, olho por olho, dente por dente" (Êx.21.25).

A pena capital era usada para outros crimes além do assassinato. O adúltero e a adúltera
deviam ser igualmente apedrejados até morrerem (Lv.20:10). Na realidade, até mesmo um filho
teimoso e rebelde, que recusava a correção, devia ser morto, pelo mesmo método, às mãos dos
cidadãos (Dt.21.8ss.). Mediante a direção de Deus, Acã e sua família foram apedrejados por
desobedecerem ao mandamento de Deus no sentido de não tomar despojos da batalha de Jericó
(Js.7.1, 26).

Há indicações de que Deus delegou a autoridade sobre a vida para as nações fora de Israel no
Antigo Testamento. Declara-se que governantes humanos em geral são estabelecidos por Deus. Tanto
Nabucodonosor (Dn.4.17) quanto Ciro (Is.44.28) receberam autoridade da parte de Deus sobre as
vidas humanas. De fato, há indicações noutras partes do Antigo Testamento, no sentido de que o
governo humano em geral recebe tal autoridade da parte de Deus para resistir ao mal no mundo,
conforme foi declarado em Gn.9.6.

1.2. O Novo Testamento e a pena capital

O Novo Testamento pressupõe o mesmo conceito básico sobre a pena capital que aparece no
Antigo Testamento. Os governantes são instituídos por Deus; pela autoridade divina, recebem a
espada bem como a coroa (cf. Rm.13.1-2). Paulo notou sobre o governante "... não é sem motivo que
ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal" (v.4).

Às vezes, passa despercebido que Jesus reafirmou o princípio da pena capital no Seu Sermão
da Montanha. "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para
cumprir." Continuando, Jesus acrescentou: "Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não matarás;' e: 'Quem
matar estará sujeito a julgamento (pela pena capital).' Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem
motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento" (Mt.5.21, 22). De acordo com Flávio
Josefo (Antiguidades IV, 8, 6, e 14), o Sinédrio ou Concílio dos Setenta, tinha o poder para pronunciar
a sentença da morte, e, às vezes, o exercia, conforme fica manifesto no caso de Estevão (At.7.59) e
na execução de Tiago (At.12.1, 2). Verdade é que, naquele tempo, Roma tirara o direito legal dos
judeus de aplicarem a pena capital. Isto não significa, no entanto, que os judeus tinham aberto mão

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da sua crença de que Deus lhes dera esta autoridade e, portanto, que poderiam exercê-la quando
pensavam que conseguiriam fazê-lo impunemente.

Em outra passagem, Jesus reconheceu a autoridade dada por Deus sobre a vida humana que
os governantes humanos possuíam. Pilatos disse a Jesus: "Não sabes que eu tenho autoridade para te
soltar, e autoridade para te crucificar?" Jesus respondeu: "Nenhuma autoridade terias sobre mim, se
de cima não te fosse dada" (Jo.19.11). A implicação aqui é que Pilatos realmente possuía autoridade
divinamente derivada sobre a vida humana. Aliás, exerceu-a (Jesus foi sentenciado à morte) e Ele
submeteu-Se a ela.

Resumindo: há dados bíblicos amplos, dos dois Testamentos, que mostram que Deus ordenou,
e os homens exerciam a pena capital para delitos específicos. A pena de morte é instituída por Deus,
através dos homens, contra os culpados. Logo, a pergunta, de uma perspectiva rigorosamente bíblica,
não é se a pena capital era ou é autorizada por Deus para os homens, mas quando e por quê. Mas
antes da discussão da aplicação e da base lógica da pena capital, é apropriado dizer uma palavra sobre
algumas objeções à pena de morte.

2. Algumas objeções à pena de morte

Várias objeções à pena de morte têm sido oferecidas por aqueles que se opõem a ela. Três
destas são dignas de comentários, de um ponto de vista bíblico.

2.1. O caso de Caim

Miutas vezes é argumentado que a pena capital não era a intenção de Deus desde o início,
conforme pode ser deduzido da intervenção de Deus para poupar Caim dela. Quando Caim matou seu
irmão, Abel, Deus explicitamente proibiu qualquer pessoa de matar Caim por sua vez. Disse: "Assim
qualquer que matar Caim será vingado sete vezes" (Gn.4.15).
O que é facilmente olvidado nesta isenção óbvia da pena capital é que a passagem claramente
subentende a validez da pena capital.

O caso de Caim era especial. Quem teria executado a sentença? O irmão dele estava morto.
Decerto Deus não iria chamar o pai para executar seu filho remanescente. Nesta situação, o próprio
Deus, pessoalmente, comutou a sentença da morte. No entanto, quando Deus suspendeu a pena da
morte de Caim, a Bíblia claramente indica que esta não seria a regra.

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Vários fatores apoiam esta conclusão. Primeiramente, o próprio Senhor disse: "A voz do
sangue de teu irmão clama da terra a mim" (Gn.4.10). Clama para quê? Para a justiça, sem dúvida. O
princípio bíblico é que somente outra vida pode satisfazer a justiça de uma vida perdida (cf. Lv.17.11;
Hb.9.22). Em segundo lugar, o temor de Caim de que alguém no futuro o mataria demonstra que a
pena capital era sua própria expectativa natural. "Quem comigo se encontrar me matará," exclamou.
(Gn.4.14). A pessoa naturalmente prevê a perda da sua própria vida como consequência de tirar a
vida de outrem. Em terceiro lugar, a resposta de Deus a Caim subentende a pena capital: "Assim
qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes." Isto, sem dúvida, significa que a pena capital
seria usada contra qualquer pessoa que matasse a Caim.

Destarte, de modo contrário àquilo que talvez pareça na superfície, o caso de Caim é a
"exceção" que comprova a regra. Desde o princípio, era a intenção de Deus de que os crimes capitais
recebessem penas capitais.

2.2. Jesus e a mulher adúltera

Jesus não demonstrou seu desdém para com a pena capital, ao recusar-Se a aplicar a sentença
vétero-testamentária da morte a uma mulher apanhada em adultério? Cristo não lhe disse: "Vai e não
peques mais" (Jo.8.11)? Moisés ordenou a pena capital para os adúlteros; Jesus os perdoava. Não é,
portanto, mais cristão acabar com a pena capital e exercer o amor que perdoa?

Na realidade, nada há nesta passagem contra a pena capital. Jesus declarou que nunca quebrou
a lei de Moisés (Mt.5.17) e não há prova aqui que o fez. Moisés ordenara a morte somente se houvesse
duas ou três testemunhas oculares (Nm.35.30). Não havia ninguém aqui que alegasse (no fim) ser
testemunha ocular, ou que quisesse levar adiante as acusações. Depois de todos eles terem saído,
Jesus perguntou explicitamente a ela: "Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? ninguém te
condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor" (v.10-11). Na base de "falta de testemunhas," nenhuma
sentença foi exigida. A mulher enfrentou seu processo corretamente diante do Salvador.

2.3. A cruz de Cristo e a graça perdoadora

Há outro argumento, mais sofisticado, contra a pena capital, que alega que, tendo em vista a
cruz de Cristo e a graça perdoadora, agora (nos tempos neo-testamentários) é anticristão distribuir a
justiça como se Deus não tivesse dado perdão a todos os homens. Esta objeção sustenta que a pena
capital é baseada num conceito sub-cristão ou pré-cristão da justiça, que é transcendido por uma
moralidade neo-testamentária da graça.

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Deus não deseja castigar os homens, muito menos com a pena capital; pelo contrário, Deus
quer perdoar os homens através de Cristo. Todos os nossos crimes foram pregados à Sua cruz
(Ef.2.15, 16). A lei foi cumprida por Cristo, no preceito e na penalidade (Mt.5.17; Gl.3.13). Visto que
a justiça de Deus foi satisfeita pelo sacrifício de Cristo, não há necessidade dos homens pagarem a
penalidade pelos seus pecados. Deus oferece o perdão a todos e por tudo.

Basicamente, esta objeção à pena capital é baseada num entendimento errôneo da graça.
Perdoar um pecado não rescinde automaticamente os resultados daquele pecado. Um bêbado que
confessa seu pecado não tem direito algum de esperar que Deus tire sua ressaca. Um motorista
estorvado que danifica seu próprio corpo não deve esperar a saúde e integridade física anteriores à
trombada, imediatamente ao confessar. A graça de Deus cuida da penalidade eterna do pecado do
homem, mas nem sempre das consequências imediatas. "Não vos enganeis," escreveu Paulo: "de
Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará" (Gl.6.7). Isto se aplica
ao cristão. Quando os santos de Corinto abusaram da Ceia do Senhor, Deus os visitou com doenças
e até mesmo com a morte (l Co.11.30). Se o perdão do pecado também significasse a eliminação de
todas as suas consequências, decerto os homens pecariam mais a fim de que a graça abundasse.

Faz parte da graça de Deus que Ele nos ensina a não pecarmos mais. Realmente, a evidência
mais clara de que Deus não elimina automaticamente os resultados terrenos dos pecados que Ele
perdoa é o fato de que até mesmo os cristãos morrem. Tomar-se um cristão não cancela esta
consequência do pecado. Até mesmo os melhores cristãos morrem como resultado do pecado –
pecado perdoado. Se a cruz não elimina automaticamente as consequências terrenas imediatas e
sociais do pecado da pessoa, logo, a objeção à pena capital baseada nesta premissa cai por terra.

Na realidade, há uma implicação mais séria a esta objeção inteira que precisa ser examinada.
Há um tipo radical de dispensacionalismo subentendido no argumento de que o sistema divino da
justiça moral não é o mesmo nos dois Testamentos. Cristo não aboliu a lei moral do Antigo
Testamento. Cada um dos Dez mandamentos é reafirmado no Novo Testamento. Mesmo debaixo da
graça, é errado assassinar, mentir, furtar, adulterar. Quando o Novo Testamento declara que o cristão
não está debaixo da lei, mas, sim, debaixo da graça, significa que a codificação e aplicação
peculiarmente mosaicas à nação de Israel, dos princípios morais e cerimoniais de Deus, foram
cumpridas por Cristo. Isto, no entanto, não significa que as normas éticas incorporadas nos Dez
Mandamentos são abolidas pela cruz. A mesma lei moral básica da justiça divina de Deus está em
vigor tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

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Nem Deus, nem a lei moral, que reflete Sua natureza, mudaram. E, quanto a isto, nem o plano
divino da graça mudou-se de um Testamento para outro. No Antigo Testamento, os homens eram
salvos pela graça mediante a fé exatamente como no Novo Testamento (cf. Rm.4.6-7; Hb.11.6). Paulo
declarou enfaticamente que há um só Evangelho, pronunciando o anátema mesmo a um anjo que
viesse pregar um evangelho diferente (Gl.1.6-9). Mas naquela mesma Epístola escreveu que este
Evangelho fora pregado a Abraão (3.8). Há uma só lei moral para os dois Testamentos, e há somente
um plano de graça salvadora. Qualquer objeção à pena capital baseada numa mudança dispensacional,
ou na justiça de Deus, ou na Sua graça está biblicamente numa base muito duvidosa.

3. A base lógica para a pena capital

Algumas das objeções sociais à pena capital baseiam-se não tanto no uso quanto no abuso do
poder da pena capital. Mas o fato de que erros serão feitos por seres humanos falíveis na aplicação
deste castigo não é um bom argumento para aboli-lo completamente. Os médicos cometem erros
fatais e assim também os políticos, mas estes erros não são boas razões por acabar com a prática da
medicina ou do governo.

O abuso do casamento mediante um divórcio injustificado não quer dizer que a instituição do
casamento não é divinamente estabelecida. Muitos indivíduos cometem erros fatais, mas seu
julgamento falível não elimina a necessidade dos homens exercerem bom juízo ao aplicarem a justiça
social e moral. Naturalmente, a pena capital não deve ser executada em alguém que não recebeu um
processo jurídico correto e cuja culpa não esteja além de toda a dúvida razoável. De outro lado, aquele
cujo crime é tão hediondo, que exige a pena capital, não deve ser poupado mediante a alegação falaz
que é injusta ou contrária à graça. É injusto não distribuir a justiça quando a injustiça clama por ela.

A administração da justiça é outra questão. O que é de interesse na ética normativa não é a


aplicação (ou aplicação errônea) da justiça, mas, sim, o próprio princípio da justiça, que às vezes
exige a pena capital. Uma das implicações por detrás de algumas objeções sociais à pena capital é
que é desumano ou injusto castigar os homens desta maneira pelo seu delito. A ação social para os
criminosos não deve ser penal, mas, sim, reformadora, argumenta-se. O conceito do castigo é sub-
cristão ou bárbaro. Os homens civilizados devem procurar reconciliar os homens, puni-los. Não há
lugar para um castigo tão grosseiro entre homens civilizados, diz-se. Reconhecendo-se a verdade de
que, sempre que possível, os homens devem ser reformados, há algumas inconsistências estranhas
nos argumentos supra contra a pena capital.

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Primeiramente, pressupõe-se um tipo bíblico de justiça para dizer que o conceito bíblico da
pena capital é injusto. O padrão da justiça que exige a pena capital não pode ser usado para negar o
que o padrão exige. Segundo, há uma estranha mudança lógica no chamar a pena capital de desumana.
Foi a desumanidade, na forma do crime, que exigiu as consequências capitais. O ato desumano foi
realizado pelo criminoso no ato do assassinato, não contra o criminoso na pena capital. O fato da
questão é que a própria pena capital pode ser um ato muito humanitário. Pode ser um tipo de
misericórdia à sociedade para garantir que este criminoso não repetirá o crime que cometeu.

O alívio social em saber que os homens estão livres dos sanguinários é uma dádiva de
misericórdia para o restante da humanidade. Que tipo de humanitarismo pervertido é este, que tem
mais solicitude com a vida de um único homem culpado, do que com as vidas de muitos homens
inocentes? Em nome da misericórdia para os homens em geral, poder-se-ia apresentar uma petição
forte a favor da pena capital por certos crimes que têm probabilidade de serem repetidos. Além disto,
pode ser argumentado que a irreformabilidade de certos criminosos é uma das razões para a pena
capital. O Antigo Testamento, por este motivo, exigia a execução de um filho rebelde e incorrigível
(Dt.21.18).

Quando se calcula a enormidade da tristeza e da morte que podem ser trazidas sobre homens
inocentes por um só ser humano incorrigível, talvez haja mais bom-senso na lei de Moisés do que a
justiça social contemporânea indulgente está disposta a reconhecer. A irreformabilidade, no entanto,
não é a única razão para a pena capital. Na realidade, provavelmente não é a razão básica. A justiça
é a razão primária para a pena capital.

A pena capital obviamente não pretende reformar o criminoso; é um castigo. Naturalmente,


um subproduto da pena capital pode ser dissuadir os outros de cometerem o mal. Isto, porém, está
aberto a dúvidas. Visto que para todos os fins práticos, um criminoso contemporâneo que está para
cometer um assassinato não tem qualquer razão real para esperar vir a ser punido com a morte, é
provavelmente impossível fazer um teste social verdadeiro de se a ameaça real da pena capital
dissuadiria o criminoso. Parece, porém, que a Bíblia subentende que o castigo visa dissuadir os
malfeitores (cf. Rm.13.3).

Devemos ter em mente, é claro, as diversas qualificações de assassinatos. A razão primária


para a pena capital, no entanto, é que a justiça a exige. Uma ordem justa é perturbada por
determinados tipos de assassinato, e somente a morte do assassino pode restaurar aquela justiça. A
restituição não é possível pelo assassinato, e a reforma pode, na melhor das hipóteses, apenas garantir

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que o mesmo ato, pelo mesmo homem, não ocorrerá outra vez. Deus pode perdoá-lo, mas até mesmo
Deus não impede as consequências terrenas do pecado.

Quando os homens já não creem em Deus nem numa lei moral imutável, segue-se que
nenhuma penalidade deve ser incorrida por transgredir uma lei que não existe. Juntamente com esta
distorção contemporânea da justiça, há um conceito anêmico do amor. Um Deus amoroso não
castigaria pessoa alguma, pensa-se de modo vão. Conclui-se, daí, que um pai amoroso não deve
disciplinar seu filho. Não admira que os homens não entendem a necessidade da pena capital; não
vêem a necessidade de qualquer tipo de castigo. Deixam de ver que os pais amorosos castigam seus
filhos (Pv.13.24) e que um Deus amoroso disciplina Seus filhos (Hb.12.5, 6).

Na realidade, quase o inverso da mentalidade moderna é o caso. A Bíblia ensina que o castigo
apropriado é prova de amor. O amor está na disciplina. A falta de correção é uma indicação da falta
de verdadeira solicitude para com os teimosos. Uma consideração final deve ser feita em resposta à
alegada desumanidade da pena capital. A pena capital, contrariamente àquilo que alguns assim-
chamados humanistas nos levariam a crer, realmente subentende mais consideração para com o
indivíduo. O homem individual é a imagem de Deus, e por isso é errado matá-lo (Gn.9.6). O homem
é tão valioso como indivíduo, que qualquer pessoa que interfere indevidamente com seu direito
sagrado de viver, em certos casos, deve enfrentar as consequências de perder sua própria vida.

4. O hierarquismo em relação a tirar outras vidas

O problema de quando e porque é certo tirar outras vidas não é fácil. A tensão é resolvível, no
entanto, quando é aplicada uma ética hierárquica. Matar é justificável quando muitas vidas podem ser
salvas, quando menos são sacrificadas, ou quando vidas completas são preservadas em preferência às
incompletas, ou quando uma vida real é preferida a uma vida em potencial. Os princípios básicos por
detrás destas conclusões são:

1. As pessoas são mais valiosas do que as coisas;

2. Muitas vidas são mais valiosas que menos vidas;

3. Pessoas reais são mais valiosas do que pessoas em potencial;

4. Pessoas completas são mais valiosas do que pessoas incompletas.

É por causa do valor intrínseco das pessoas que o assassinato é errado. E é porque o assassinato
é um grave delito contra o valor intrínseco da outra pessoa, e da Pessoa de Deus que o ser humano
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reflete, que a penalidade é tão grande. O castigo capital não é impessoal ou anti-humano. É pró-
humano. Ao remover o anti-humano, vindica-se o valor da pessoa individual. A esta altura fica mais
simples ver a aplicabilidade de outro princípio do hierarquismo, o que promove o interpessoal é mais
valioso do que aquilo que não o promove.

É por isso que a pena capital para Eichmann (um dos responsáveis diretos pelo Holocausto na
Segunda Guerra Mundial) foi um ato muito pessoal. A sentença de morte para quem foi o cérebro por
detrás do plano para aniquilar uma raça é uma maneira eminentemente apropriada de trazer esta
carreira eminentemente anti-pessoal a um fim justo. Castigar o impessoal e o anti-pessoal não é
impessoal em si mesmo. Pelo contrário, é uma vindicação do valor intrínseco de cada pessoa.

Não castigar o anti-pessoal é um ato impessoal. Recusar-se a intervir com a justiça quando o
valor intrínseco de pessoas inocentes é violado é uma ética altamente impessoal. A pena capital,
aplicada com justiça, pode ser uma expressão de uma ética muito centralizada na pessoa.

Em síntese, a pena capital é requerida nos crimes capitais para proteger o valor intrínseco do
direito de viver das pessoas individuais. Além disto, a sentença da morte pode ser justificada em
crimes menos do que capitais, quando as vidas de mais pessoas inocentes estão em jogo se o homem
mau viver. Fora dos crimes capitais ou atividades que decerto levariam à morte dos homens inocentes,
o Estado não tem nenhum direito divino de exercer a pena da morte. É uma responsabilidade séria
para um governo carregar a espada, e deve tomar cuidado para não fazê-lo em vão.

5. A aplicação da pena capital

Não sou favorável a aplicação da pena capital hoje, em nosso país. Não porque não tenha
respaldo bíblico nos preceitos morais do Antigo e do Novo Testamento, conforme vimos até aqui.
Tem, sim. Mas porque sua administração ou aplicação, na realidade dos nossos sistemas judiciários
modernos, que sofrem influências estranhas à Justiça e ao Direito, como é público e notório, pode
resultar em injustiças irreparáveis, condenando-se diversos inocentes, e deixando livres os
verdadeiros culpados.

Imaginemos o que ocorreria em nosso País, onde se clama pela reforma do Judiciário, pela
sua falta de estrutura, morosidade, e decisões que muitas vezes chocam a sociedade. No caso do índio
que foi queimado vivo por rapazes de pais ricos, a justiça entendeu que eles não tinham a intenção de
matar, só de fazer brincadeira. Enquanto isso, um ladrão de galinha, ou um transgressor primário
muitas vezes é condenado.

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Alega-se que os juízes baseiam-se nos autos, nos fatos objetivos. Certamente. Mas a justiça
humana no Brasil, considerada cega para fazer juízo sem ver a quem, é também muito falha e
demorada. Quem tiver condições de constituir um excelente advogado, mestre do Direito, certamente
terá muito mais condições de ser livre de uma condenação, ou de ter sua pena atenuada, mesmo em
casos de crimes hediondos, do que um cidadão pobre, que cometa o mesmo tipo de crime, que
precisará recorrer à justiça gratuita.

ÉTICA, EUTANÁSIA E SUICÍDIO

O que o cristão deve fazer a um homem preso, sem esperança, num avião em chamas que
implora para ser fuzilado? A maioria das pessoas humanitárias mataria a tiros um cavalo preso num
celeiro em chamas. Por que um homem não pode ser tratado de modo semelhante quanto um animal
num caso assim? Ou, quando um nenê monstruosamente deformado nasce, e repentinamente para de
respirar, o médico está moralmente obrigado a ressuscitá-lo? Não seria mais misericordioso deixá-lo
morrer? Outro caso: digamos que um homem com uma doença incurável está sendo mantido vivo
somente com uma máquina. Se a tomada for desligada, morrerá; se viver, será apenas artificialmente
num tipo de existência "vegetativa". Qual é a obrigação moral do médico? Estas situações e muitas
outras como elas focalizam o problema ético de tirar a vida. Quando, e se, tirar uma vida é moralmente
justificável?

1. Nem sempre tirar uma vida é assassinato

Antes desses casos serem examinados em particular, será bom estabelecer um princípio geral
que será a base da nossa conclusão. É este: nem sempre tirar uma vida é assassinato. O mandamento
bíblico interpretado significa "Não cometerás assassinato" (Êx.20.13). Há vários casos na Escritura
em que tirar vidas não é considerado moralmente errado. Por exemplo, tirar vidas numa guerra justa
contra um agressor mau (Gn.14.14-15). Além disto, havia o homicídio acidental do seu próximo
(Dt.19.4, 5) pelo qual o homem não era tido por culpado. Finalmente, havia a pena capital instituída
por Deus através de Noé (Gn.9:6) e repetida por Moisés (Dt.19:21).

A partir destas ilustrações podemos deduzir duas diferenças entre o assassinato e tirar
justificavelmente uma vida. Primeiramente, a vida não deve ser tirada intencionalmente. Se, pois, por
acidente, um homem matasse um vizinho a quem não odiava, não seria tido por culpado pela lei. Em
segundo lugar, nem sequer todos os casos de tirar uma vida intencionalmente são assassinatos, a não
ser que o ato fosse praticado sem justa causa. Tirar as vidas de nenês inocentes não é uma justa causa
(cf. Êx.1.16ss.), nem matar o irmão com ira (Gn.4.8,10). No entanto, matar um homem em autodefesa,

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ou na defesa da pátria, pode ser uma justa causa. Noutras palavras, a proibição contra tirar as vidas
de pessoas inocentes não exclui a justiça de tirar a vida de um assassino culpado. Nem a proibição de
matar seu vizinho pacífico proíbe necessariamente atirar no seu vizinho que está a ponto de atacar teu
filho. Há ocasiões em que tirar a vida de outro ser humano é justificado a fim de proteger os inocentes.

É tanto anti-biblico quanto irrealista categorizar todo ato de tirar uma vida como sendo
moralmente errado. Pelo contrário, às vezes é moralmente necessário. O tiranocídio, ou o assassinato
de um ditador que tomou sobre si o papel de Deus, pode ser um ato misericordioso em prol de massas
de homens oprimidos. Na realidade, poderia ser melhor do que uma guerra contra aquele ditador em
que mais vidas seriam perdidas.

2. Morrer misericordiosamente não é o mesmo que matar misericordiosamente

Outra distinção que deve ser feita é entre tirar uma vida e deixar a pessoa morrer. O primeiro
ato pode ser errado, ao passo que o último, na mesma situação, não precisa ser errado. Por exemplo,
retirar o medicamento de um paciente terminal e deixá-lo morrer naturalmente não precisa ser um
mal moral. Em alguns casos, quando o indivíduo e/ ou os entes queridos consentem, esta pode ser a
coisa mais misericordiosa a se fazer. Realmente, se uma doença é incurável e o indivíduo estiver
sendo mantido vivo somente por uma máquina, neste caso desligar a tomada pode ser um ato de
misericórdia.

Isto não quer dizer que um médico deva dar remédios ou fazer uma operação para apressar a
morte; isto poderia, muito provavelmente, ser assassinato. Mas esta posição realmente subentende
que permitir misericordiosamente a morte do sofredor é moralmente certo, ao passo que precipitar
sua morte não o é. Os remédios devem ser dados para aliviar o sofrimento, mas não para apressar a
morte. Se, porém, a falta de remédios ou da máquina pode diminuir o sofrimento ao permitir que a
morte ocorra mais cedo, então por que se deve ficar moralmente obrigado a perpetuar o sofrimento
do paciente por meios artificiais?

Em síntese, matar envolve tirar a vida de outra pessoa, ao passo que a morte natural não o
envolve; é meramente deixar a pessoa morrer. O homem é responsável por aquele ato, mas Deus é
responsável por este. Mas não há uma responsabilidade moral de preservar uma vida se houver
qualquer possibilidade, por quaisquer meios que forem (naturais ou artificiais)? Impedir a morte de
quem já está sofrendo pode ser, realmente, perpetuar o sofrimento.

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3. A obrigação é perpetuar a vida que é humana

A objeção de que milagres acontecem até mesmo em supostos "casos incuráveis", às vezes é
levantada contra a permissão para as eutanásias. Por que não conservar a pessoa viva e orar por um
milagre? Ou, talvez, uma cura seja descoberta pelos cientistas se o indivíduo puder ser conservado
com vida por tempo suficiente. Na tentativa de responder a esta pergunta, é necessário indicar que a
pessoa deve ser conservada com vida enquanto houver qualquer razão para se ter esperança (médica
ou sobrenatural), de que possa sarar ao ponto de ter uma vida humana relevante.

Quando, no entanto, amplas oportunidades tenham sido dadas tanto para a ação sobrenatural
de Deus quanto à ciência médica para curarem a enfermidade, mas parece certo, além de qualquer
dúvida razoável, que este paciente terá uma existência pouco melhor do que a de um "vegetal," pode-
se concluir que Deus quer que tenha uma morte natural. O princípio moral básico por detrás desta
conclusão é que a pessoa não deve perpetuar uma desumanidade enquanto aguarda futilmente um
milagre.

A obrigação dos seres humanos no sentido de perpetuarem a vida não significa que se deve
ser obrigado a perpetuá-la se já não é uma vida humana em qualquer sentido relevante da palavra.
Aliás, é moralmente errado perpetuar uma desumanidade. Se um nenê monstruosamente deformado
morre naturalmente, deve ser considerado um ato de misericórdia divina. O médico não deve sentir-
se moralmente obrigado a reavivar um monstro ou um "vegetal" humano. Assim como o mandamento
moral é não tirar uma vida humana, assim também o dever da pessoa é apenas perpetuar uma vida
humana. Noutras palavras, não é mais maligno desligar a tomada de uma máquina que está
sustentando artificialmente a vida que é sub-humana, ou pós-humana, e que não tem possibilidade
alguma de ser verdadeiramente humana, do que é abortar um pré-humano que não se tomará humano.
O dever moral é duplo; perpetuar o humano e proibir o desumano.

4. A eutanásia é justificável em qualquer caso?

Mas vamos, antes, a uma consideração fundamental de definição: o que é eutanásia? A palavra
significa “boa morte”. A eutanásia ativa envolve a intervenção direta, com ou sem o consentimento
da pessoa, levando-a à morte. Em razão disso, portanto, que é preciso diferenciar entre tirar a vida e
deixar alguém morrer (ou deixar de manter artificialmente vivo), como vimos acima.

Até agora tem sido argumentado que permitir a morte misericordiosa é justificável. Mas o que
se diz acerca do matar por misericórdia (a eutanásia)? Há ocasiões em que é correto tirar
artificialmente uma vida humana que não está morrendo naturalmente? Tirar a vida de um pré-
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humano (humano em potencial) é justificável se se pode salvar um ser humano, como no caso de
aborto para salvar uma mãe. Além disto, deixar a vida de um sub-humano esgotar-se (sem, porém,
tirar aquela vida) pode ser justificado como um ato de misericórdia (como na morte misericordiosa
— também chamada eutanásia). Mas pode o ato de tirar a
própria vida de outro ser humano ser justificado como um ato de misericórdia? Não é difícil ver que:

1. Tirar uma vida é uma questão muito mais séria do que deixar uma pessoa morrer
naturalmente; e que

2. Tirar uma vida pré-humana ou sub-humana (ou pós-humana) é menos sério do que tirar
uma vida plenamente humana. É uma coisa muito séria tirar uma vida plenamente humana. Não é, no
entanto, meramente uma questão de seriedade, mas sim, da justificação de tirar uma vida.

Quando o matar por misericórdia é justificado, se é que é justificado nalgum tempo? Para
quem seria misericordioso?

4.1. Matar como um ato de misericórdia aos outros

É sempre errado matar outro ser humano como tal. Há, porém, circunstâncias sobrepujantes
que podem isentar a pessoa deste dever. Há ocasiões em que é um ato de misericórdia a muitas pessoas
sacrificar uma só. Quantos pais ficariam de lado e deixariam um assassino estrangular seus filhos sem
resistir, se pudessem fazê-lo? Numa sociedade que está preocupada com a misericórdia para o
assassino culpado, ficamos perguntando o que aconteceu à misericórdia para a multidão inocente.

É um conceito distorcido da misericórdia preocupar-se mais com a proteção da vida de quem


não teve consideração pelas vidas dos outros, do que com a proteção das massas que têm consideração
apropriada com a vida alheia. Em nome da misericórdia para as massas, decerto há justificativa para
matar um franco atirador que está fuzilando cidadãos inocentes. Uma guerra justa é a eutanásia numa
escala maior. Pois o que torna a guerra justa é o fato de proteger os inocentes contra a agressão
sangrenta dos culpados. É uma tentativa de preservar as muitas vidas virtuosas da destruição mediante
ordens de uns poucos homens maus.

4.2. Matar como um ato de misericórdia para o indivíduo

O que se diz do homem desesperançosamente preso num avião em chamas? Ou do paciente


que implorar que o médico lhe dê o golpe de misericórdia? É correio, em qualquer ocasião, ceder aos

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desejos dos sofredores no sentido de serem apagadas com seu sofrimento? Talvez uma resposta "não"
pareça demasiadamente categórica, mas este é o tipo de resposta indicado pela Escritura.

Naturalmente, a pessoa é moralmente obrigada a fazer tudo quanto é possível para aliviar o
sofrimento, sem tirar uma vida, no que diz respeito a uma vida humana individual. Mesmo assim,
nunca é um ato de misericórdia ao indivíduo como tal tirar a sua vida quando é verdadeiramente
humana. A vida humana tem valor intrínseco e não deve ser tirada por outro ser humano mesmo que
a vítima o peça. Somente Deus detém o direito de dar e de tirar a vida. Ele é o Único que é soberano
sobre toda a existência. Tirar a vida de outro ser humano é ser um cúmplice ao pedido do outro
homem. É ser cúmplice no crime de ajudar alguém no seu próprio suicídio. Onde houver vida humana,
ali há esperança para aquela vida. É uma questão ética muito mais séria tirar uma vida humana (como
no matar por misericórdia) do que deixar partir uma vida sub-humana (como na morte misericordiosa
justificável).

Mas é certo olhar um homem sofrer, sem procurar aliviar sua agonia? Não, claro que não. Mas
há muitos meios, excluindo a morte, para aliviar o sofrimento. A Bíblia recomenda drogas para este
propósito. "Dai bebida forte aos que perecem e vinho aos amargurados de espírito" (Pv.31.6). Pode-
se atirar um tranquilizante, mas não uma bala de fuzil, num homem preso num avião em chamas.
Mesmo no caso de drogas não serem disponíveis, deve-se usar todos os métodos, menos tirar a vida,
para aliviar o sofrimento. O corpo tem um limiar natural de dor. Os homens caem na inconsciência
antes de sofrerem indevidamente. No caso de incêndio, os homens usualmente morrem pela fumaça
antes das chamas consumi-los. Torná-lo inconsciente com um golpe ou precipitar a inconsciência
para aliviar seu sofrimento seria justificável, mas tirar sua vida, simplesmente porque está sofrendo,
ou simplesmente porque pede, não o é.

Nem sequer é correto iniciar a morte simplesmente porque a pessoa a prevê. Suicidar-se, ou
ajudar alguém a fazê-lo não são justificados simplesmente porque a pessoa deseja a morte. O desejo
do cristão pela morte (cf. Fp.1.23) pode levá-lo a enfrentar a morte sem temor, mas nunca deve levá-
lo a, descuidadosa, ou egoisticamente, tirar sua própria vida. Nem deve levá-lo a pedir que outro o
ajude nisto. O cristão deve dar as boas-vindas à morte da mão de Deus, mas não deve forçar a mão
que a traz.

5. A ética em relação ao suicídio

Segundo alguns filósofos existencialistas contemporâneos, o suicídio é o maior problema


filosófico. A vida é absurda, uma bolha vazia no mar do nada, e é uma questão séria quanto à sua

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continuação ou não. Cebes perguntou a Sócrates por que, se a morte era tão bem-aventurada, o homem
não poderia ser seu benfeitor. O materialista romano, Lucrécio, argumentava que a morte era nada, e,
seguindo ele, alguns concluíram que o suicídio é uma opção viável para a levar a efeito a felicidade
desta condição de nada.

Outros filósofos notáveis, tais como Schopenhauer soaram notas pessimistas, que mais do que
flertam com o suicídio. E, a julgar pelo número crescente de suicídios e tentativas de suicídios pelos
homens contemporâneos, o suicídio é uma opção viva para um número considerável de pessoas.
Naturalmente, a questão ética não é aquilo que os homens estão fazendo, mas, sim, o que devem
fazer. Daí a pergunta aqui não é porque os homens se suicidam, mas se devem fazê-lo, e quando.

5.1. O suicídio para si mesmo

Há duas razões dominantes para o suicídio, ou tirar a própria vida: pode ser feito para si
mesmo, ou pode ser feito em prol dos outros. O primeiro será chamado suicídio egoísta. Em qualquer
ocasião, é moralmente certo tirar a própria vida nos seus próprios
interesses? Ou, ainda mais basicamente, tirar a própria vida é, em qualquer tempo, realmente do
interesse da pessoa?

5.2. O suicídio para si mesmo não pode ser justificado filosoficamente

A despeito da tentativa fútil dos estóicos de justificar o suicídio, e a despeito da propensidade


pessimista de Schopenhauer a ele, faltam ao suicídio sadios fundamentos filosóficos. Talvez a melhor
evidência para esta conclusão venha dos filósofos existencialistas contemporâneos que consideram
que a questão do suicídio é a mais básica, e cuja filosofia lhes dá mais razão para cometê-lo. Entre
aqueles existencialistas ateus há uma forte rejeição do suicídio. O suicídio, diz Sartre, é errado porque
é um ato de liberdade que destrói todos os atos futuros de liberdade. É uma afirmação do ser mediante
a qual a pessoa finalmente nega seu ser. Ou, nas palavras corriqueiras, o suicídio é um ato do vivente
que destrói a sua vida.

Definir o suicídio desta maneira ressalta precisamente quão irracional o ato realmente é. É um
ato arrazoado que destruiria o raciocínio da pessoa. Como tal, o suicídio é uma ação absurda do
raciocínio, porque é a "razão" que se destrói a si mesma ao afirmar a si mesma. Na realidade, não há
nenhuma razão verdadeira para o suicídio. É um ato antirracional ao qual falta uma verdadeira base
lógica.

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5.3. O suicídio para si mesmo não pode ser justificado eticamente

A imoralidade do suicídio pode ser vista pela análise do seu alegado motivo. Segundo aqueles
que têm sido tentados pelo suicídio, ou os que o tentaram, o suicídio tem para eles mesmos, parecido
ser a melhor saída da sua situação. Quão paradoxal, porém, é que alguém conclua para si que a melhor
coisa que pode fazer para si mesmo é destruir a si mesmo. Como pode a melhor coisa para si mesmo
ser o ato final contra si mesmo?

Quando um homem se suicida, fá-lo contra sua vontade básica para viver. O suicídio é baseado
no desejo do homem de ser aliviado do tipo (miserável) de existência que tem ou que considera ter,
a despeito do fato de que tenha vontade da existência propriamente dita. Conforme disse Agostinho,
o suicídio é um fracasso da coragem. É o "escapismo" existencial. Expressado de modo breve, o
suicídio não é um problema filosófico de modo algum; é um problema moral. Ou seja: os homens
não tentam o suicídio porque é a coisa mais razoável para fazer, mas sim, porque é a saída "fácil" do
seu problema. E quando alguém pensa que a saída mais fácil da sua situação é atacar-se a si mesmo
fatalmente, ao invés de atacar o problema, neste caso tem um problema moral.

Em resumo, não há maneira de suicidar-se para si mesmo, visto que o suicídio é o ato mais
básico contra si mesmo, que pode ser cometido. Logo, o suicídio pelo alegado motivo moral de
interesse-próprio é excluído. O suicídio egoísta, como outras formas do egoísmo, não visa realmente
aos melhores interesses da pessoa. Mesmo assim, alguém talvez argumente que o suicídio, como a
eutanásia, possa ser justificado se a pessoa chegou a uma etapa sub-humana ou "vegetativa" da
existência. Por que não atirar em si mesmo para evitar a continuação da sua própria desumanidade?
Se é moralmente certo ser o benfeitor da misericórdia para outro "vegetal" humano, então por que
não para si mesmo? A razão é bem simples: ninguém capaz de fazer um raciocínio que o leve à
conclusão de que deve terminar sua vida, perdeu a sua humanidade. Pode ter perdido sua saúde mental
(ou parte dela), mas ainda é humano. E se ainda é suficientemente humano para raciocinar (embora
erroneamente) que a melhor coisa que pode fazer em prol da sua vida é terminá-la, logo, ainda não é
sub-humano.

Segue-se daí que, porque, não é sub-humano, não há justificativa para praticar a eutanásia em
si mesmo, porque a eutanásia é justificada somente quando mais vidas humanas podem ser salvas por
ela. A eutanásia de si mesmo é uma contradição em termos, porque o ato final contra si mesmo não
pode, ao mesmo tempo, ser um ato em prol de si mesmo. No que diz respeito às Escrituras, o suicídio
se classifica na proibição do assassinato. É pelo menos tão errado tirar ilicitamente sua própria vida
quanto o de tirar a vida de outra pessoa. O suicídio, também, não significa, necessariamente, ódio

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contra si mesmo, mas pode significar, também, excesso de amor-próprio. O suicídio é errado porque
é o assassinato de um ser humano feito à imagem e semelhança de Deus, ainda que este indivíduo
seja a própria pessoa.

5.4. O suicídio em prol dos outros

Visto que o suicídio egoísta é errado, falta perguntar se o suicídio sacrificial é certo em algum
caso. Ou seja: é certo, em algum caso, tirar sua própria vida por amor à conservação de outras vidas?

5.5. O assim-chamado suicídio "sacrificial" não é justificável

Há uma imensa diferença entre entregar sua vida, permitindo-se morrer, e tirar a própria vida.
Tirar a própria vida é errado. Ainda assim, há casos em que entregar sua vida em prol de outros
homens não é moralmente certo. Paulo deu a entender que seria possível entregar seu próprio corpo
para ser queimado e ainda lhe faltar o amor verdadeiro (l Co.13.3). Em outras palavras, nem toda
morte "pelos outros" é, realmente, em prol dos outros. Pode ser uma tentativa para atrair a atenção a
si mesmo, ou gratificar alguma outra necessidade egoísta.

O suicídio pode ser um teste de sinceridade da pessoa, mas a sinceridade não é prova alguma
da moralidade. Os homens podem odiar sinceramente, bem como amar sinceramente. Os homens
podem fazer sinceramente aquilo que desejam fazer, ao invés daquilo que devem fazer. Que futilidade
quando um homem prova sua sinceridade pela sua própria causa egoísta mediante o suicídio. Pode
ser admirável sacrificar sua vida por uma causa, mas não é necessariamente moral.

Se, pois, a causa da pessoa é vã, seu sacrifício também é vão, quer seja o sacrifício supremo,
quer não. Além disto, sacrificar sua vida deliberadamente por um animal, ou por objetos não pessoais
(riquezas ou o que for), não é moralmente certo. As pessoas são mais valiosas do que as coisas. As
pessoas são de valor intrínseco; as coisas têm valor instrumental para pessoas. O homem é um fim,
mas animais e coisas são meios para fins humanos. Logo, o suicídio sacrificial em prol de um objeto
não-humano é errado, porque sacrifica o valor superior (uma vida humana), em prol da vida inferior
(uma vida sub-humana).

6. Determinado tipo de entrega sacrificial é justificável

Nem toda entrega sacrificial da vida é errada, lembrando-nos do quanto isso difere de tirar a
própria vida. Conforme nota a Bíblia, alguns até mesmo ousam morrer por bons homens (Rm.5.7). A
história, especialmente a história militar, contém muitos exemplos de homens dispostos a morrer

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pelos outros. A história da morte de Sansão parece ser uma de um suicídio divinamente aprovado
(Jz.16.30), embora a grande diferença em relação ao suicídio é que não havia a razão principal de
tirar a própria vida.

Paulo indicou sua disposição de sacrificar sua vida por Cristo (Fp.1.23). No entanto, a prova
real de que a entrega sacrificial está moralmente certa é a morte de Cristo que veio "... dar a sua vida
em resgate por muitos" (Mc.10.45). Jesus disse: "Eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a
tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo.10.18). Decerto este é o exemplo supremo
do sacrifício supremo. Foi em vista disto que João escreveu: "Nisto conhecemos o amor, em que
Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos" (l Jo.3.16).

Realmente, é à luz da cruz de Cristo que a forma mais alta do amor é revelada. "Ninguém tem
maior amor do que este," disse Jesus, "de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos"
(Jo.15.13). Este tipo de entrega sacrificial não somente não é imoral; é o ato moral mais alto possível.
Vai além das exigências da lei moral, que exige que a pessoa ame seu próximo como a si mesmo. A
entrega sacrificial verdadeira é mais do que isso; é amar aos outros mais do que a si mesmo. Não há
amor maior: o deixar sua própria vida, de modo intencional, porém justificável.

ÉTICA E LIDERANÇA ESPIRITUAL-PASTORAL

Há quem pense que moralidade significa algum tipo de empecilho para que o ser humano
desfrute de suas vontades. O pastor ou líder, ao lidar com suas ovelhas ou liderados, precisa ensiná-
los a ter uma postura correta em relação à moralidade. Moralidade não é uma cerca ou bloqueio para
nossos impulsos. É sim uma ajuda para que haja felicidade pessoal e coletiva. As regras morais nos
ajudam a funcionarmos bem, como seres racionais que somos.

1. As três partes da moralidade

a) Justiça e harmonia entre os homens; b) harmonização no interior de cada um; c) o objetivo


geral da vida humana (o fim para o qual foi o homem criado). As conseqüências de uma má conduta
entre os homens são conhecidas, e já vimos algumas. Podemos citar, como ênfase: guerra, pobreza,
fraude, mentiras, trabalhos de péssima qualidade. Por causa dessas condutas desastrosas é que os
povos concordam, ao menos em teoria, que os homens devem ser honestos, amáveis e servidores uns
dos outros.

Por haver acordo nesta área é que muitos começam suas normas de conduta a partir deste
primeiro nível, mas ao menos que tratemos do segundo ponto – a arrumação dentro de cada ser
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humano – acabaremos apenas nos enganando uns aos outros. De que vale dizer, diz Lewis, como
dirigir os navios para que não haja colisões se, de fato, eles são umas banheiras velhas que
simplesmente não podem ser dirigidas? Para que serve traçar no papel regras de comportamento
social se sabemos que a nossa avidez, covardia, mau gênio e presunção nos impedem de guardá-las?

A moralidade dentro do indivíduo é fundamental porque não podemos tornar os homens


honestos por meio de leis. Ou ele é mudado por dentro ou irá sempre dar um jeito de burlar a lei.
Porém esse ainda não é o ponto em que devemos parar. Ainda a terceira consideração se faz realmente
necessária. Há quem pense que uma coisa só estará errada se ferir a outro ser humano, mas se não for
esse o caso estará correta. Ou seja, pensa-se que apenas não se deve prejudicar aos outros, mas o que
se faz com a própria vida é problema apenas pessoal. Por isso é preciso pensar: somos nós mesmos
os donos de nossas vidas ou se o corpo, a mente, o ar, o tempo, a própria energia vital pertence ao
Criador?

O Cristianismo ainda traz outro fator complicador. Informa-nos que os seres humanos
possuem uma vida que sobrevive à morte física, que terá que enfrentar a eternidade. Se isto é
verdadeiro, então há muitas coisas que deveríamos nos preocupar seriamente, e que não seria
relevante se fôssemos viver apenas algumas dezenas de anos.

A inveja e o orgulho, por exemplo, crescem gradativamente, mas nós não percebemos bem
essa gradação por nossas vidas serem tão breves. Não damos conta de que são problemas que
precisam ser tratados. Porém, se pensarmos que a vida sobrevive além túmulo, o que seria de nosso
orgulho e inveja numa gradação de um milhão de anos, por exemplo? Seria de fato um inferno. Ainda,
se o homem só vive algumas décadas, de fato a sociedade ou a nação que sobrevive centenas de anos
é mais importante que ele. Porém se o homem seguirá pela eternidade, então é ele mais importante
que a civilização, por ela representar apenas um momento em comparação a ele.

Assim a moralidade precisa lidar com as relações entre os homens, o conteúdo de cada
indivíduo e as relações do homem com o Poder que o criou. Há acordo no primeiro nível, há
desacordos no segundo, e no último nível é que surgem as principais diferenças entre o Cristianismo
e as religiões não-cristãs.

2. Virtudes cardeais

Virtude é a disposição constante de praticar o bem e evitar o mal. Os pensadores antigos


reconheciam sete virtudes básicas. Prudência, Temperança, Justiça, Fortaleza, Fé, Esperança e Amor.
As quatro primeiras eram muito valorizadas pela cultura grega. Platão cria que elas até estavam na
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constituição natural da alma: a Prudência corresponderia ao poder e à graça do intelecto; a
Temperança corresponderia a sentimentos corretos humanos; a Fortaleza (também chamada de
constância) corresponderia à vontade humana; a Justiça corresponderia à maior das virtudes sociais,
devendo regular toda a conduta humana, pública ou privada.

O Cristianismo adicionou a essas quatro o último grupo de três (da tríade paulina de I
Co.13.13). Ao primeiro grupo chamaram Virtudes Cardeais, porque a palavra cardeal significa
primeiramente eixo, ou dobradiça de uma porta. E pensava-se que todo homem íntegro reconheceria
essas virtudes tão básicas à existência feliz. Ao segundo grupo chamou Virtudes Sobrenaturais ou
Teológicas porque se reconhecia que eram dadas por Deus no dinamismo da Graça.

A Prudência é o bom senso, é se dar ao trabalho de considerar o que se está fazendo e qual a
consequência. Muitos cristãos, lamentavelmente, esqueceram-se da Prudência. Pensam que basta
apenas serem obedientes, bonzinhos, não importando se são tolos. Porém a tolice não edifica
ninguém, apenas depõe contra o Cristianismo.

O argumento de muitos é que precisamos ser como “crianças”. Porém, embora Cristo tenha
dito isto (Mt.18.3-5), não se referia a sermos crianças no entendimento, visto que o apóstolo Paulo
destaca bem nitidamente este fato em I Co.14.20 dizendo: “Irmãos, não sejais meninos no
entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento”. A Prudência foi valorizada
por Cristo quando disse: “Sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mt.10.16).
Jesus quer que tenhamos coração de menino, mas a cabeça de adulto. Assim, devemos investigar em
que estamos nos metendo, qual o propósito de quem elaborou, qual a ideologia que domina o evento,
se a teologia procede, quais as consequências a curto, médio e longo prazo.

Temos necessidade urgente de avaliarmos a ética que rege o nosso comportamento, para
sabermos se pelo menos estamos seguindo as virtudes mais básicas a qualquer ser humano sensato.
É triste ter que retroceder e dizer “foi uma tolice! ” A leitura das palavras de Jesus em Lc.14.28-30
talvez seja aqui uma boa exortação: “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta
primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que,
depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a
escarnecer dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pode acabar”.

Temperança tem a ver com o uso conveniente dos prazeres. Um homem que faz do futebol ou
de seus negócios o centro de sua vida, ou uma mulher que só pensa em se vestir bem ou no cuidado
com seu cachorro está sendo tão intemperante quanto quem se embriaga todas as noites. De fato, não

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fica tão aparente. “Futebol-mania”, “trabalhomania”, “vaidade-mania” não fazem ninguém cair no
meio da rua, mas, como diz a Escritura “Deus não se engana com as aparências”.

A Bíblia diz claramente para que “o bispo seja... temperante, sóbrio, modesto” (I Tm.3.2), e
para que as “mulheres... sejam... temperantes e fiéis” (I Tm.3.11), e “aos homens idosos, que sejam
temperantes” (Cl.4.6). Um bom sinônimo de Temperança é o “Domínio Próprio” ou “Domínio de
Si”. Tal equilíbrio é importante para o bem viver. O estudante pode analisar com proveito os seguintes
textos: Gl.5.23; II Tm.3.3; Tt.1.8; II Pe.1.6.

A Justiça tem sido muito bem definida por Lewis. Diz ele: “significa muito mais do que o que
acontece nos tribunais. É aquilo a que nos referimos quando dizemos que determinado procedimento
“é certo”; inclui honestidade, reciprocidade, veracidade, fidelidade aos compromissos, todo esse lado
da vida”. A Bíblia tem como um de seus objetivos a nossa instrução em justiça (cf. II Tm.3.16-17).
Os atributos de Justiça que pertencem a Deus podem ser produzidos nos homens através do fruto do
Espírito (Gl.5.22-23). Porém a rebeldia e a carnalidade humana podem impedir a sua manifestação
(Gl.5.19-21).

Assim como na Justiça somos companheiros de Deus, associado aos seus propósitos, a
Injustiça nos associa aos propósitos do espírito do mal (Ef.6.11 e seguintes; ver também Rm.8.5-8).
Deus espera que estejamos dispostos a sermos seus instrumentos de Justiça. Diz Is.1.17: “Aprendei a
fazer bem; praticai o que é reto, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, tratai a causa das viúvas”.

A Fortaleza inclui dois aspectos da coragem: a que é capaz de enfrentar um perigo e a que é
capaz de suportar o sofrimento. Temos hoje um termo pouco utilizado, mas que traduz bem para
nossos dias o que os sábios queriam dizer por Fortaleza. Trata-se da “pertinácia”, a qualidade, caráter
ou ação de quem é muito tenaz, obstinado, persistente. Os militares chamam de pertinaz ao soldado
que enfrenta perigos, dificuldades ou barreiras, mas executa a sua missão. É a qualidade de quem tem
“fibra”.

Sem a Fortaleza nenhuma das outras virtudes pode ser praticada. É importante observamos
que praticar um ato virtuoso não significa cultivar a virtude. Virtuoso é quem é treinado, preparado,
acostumado, apto a praticar as virtudes. Por isso, o interesse de Deus não é apenas na ação em si, não
é simplesmente na obediência a uma série de regras. Deus quer mesmo é pessoas com determinadas
qualidades, com uma estrutura forjada para Ele. Deus quer para Si, para estar com Ele no Céu, pessoas
cuja qualidade é o resultado da vida oferecida por Ele aqui.

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Evidentemente, a prática de tais virtudes exige de nós, em diversas ocasiões, a prática do
perdão. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
(Mt.6.12). “Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vossa Pai vos não
perdoará as vossas ofensas” (v.15). Não há como disfarçar o texto bíblico. Se não perdoarmos, não
seremos perdoados. O conselho lúcido é que comecemos a perdoar logo. E é bom começarmos pelo
mais fácil: perdoar os pais, os filhos, o cônjuge, os irmãos, os amigos. Depois podemos passar para
os estranhos, os difíceis, e até para os inimigos.

Muita gente não compreende como amar os inimigos. Basta compreendermos o primeiro nível
da exigência “amar a si mesmo”. Como eu me amo? Não é por ser uma boa pessoa, porque sei que
não o sou. Não é porque sou agradável, porque também sei o quanto, às vezes, sou desagradável.
Quantas ações erradas... Quantas coisas eu falei, fiz, associei-me e que hoje me arrependo. No entanto,
eu me amo. Então amar a si mesmo não significa ter que pensar bem de si mesmo ou ignorar os erros,
ou fazer de conta que tudo está bem.

Da mesma forma que o amor a si mesmo, amar aos inimigos não significa concordar com o
que eles fazem, ou fazer de conta que no fundo eles são bons. Mas sim não permitir que o valor
intrínseco do ser humano seja desprezado ou anulado por nós porque discordamos das ações dos
outros. Esse é o sentido pelo qual ouvimos tantas vezes em nossas Igrejas a máxima que “Deus
despreza o pecado e não o pecador”! A questão implícita é que devemos discordar do ódio, da
crueldade, da traição, da maledicência e de outras tantas coisas reprováveis que vemos por aí. Porém
devemos desejar a cura de quem age dessa forma. Se estiver ao nosso alcance até ajudar ao ser
humano inimigo a deixar a inimizade e toda torpeza advinda dela.

Amar ao inimigo não significa suspender a pena. Não indica que não se deve punir a injustiça.
Tanto que para o amor a si mesmo também é dever apresentar-se para pagar pelo erro cometido. Davi
nos diz na Bíblia que enquanto ele se calou os ossos de seu corpo envelheceram (Sl.32.3). E a culpa
encoberta envelhece mesmo, e até mata. Porém não deve o cristão punir com o prazer de ver o outro
sofrer. Tal sentimento está divorciado do cristianismo. O ressentimento e a vingança devem ser
arrancados de nossos corações. A Justiça é nobre, mas o rancor é vil.

Quem ama deseja o bem e se responsabiliza pelo certo, pelo ético, mas não encobre o mal,
quer vê-lo extirpado, vencido e superado. O próprio Deus nos ama assim e quer o melhor para nós.
Para todos nós. E ao final, é certo, todo o mal será julgado e, tenha certeza, será o que de mais amoroso
e justo o Reto Juiz fará.

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3. Orgulho: o grande pecado

“O mais completo estado de alma anti-Deus é o orgulho” (Lewis). A comparação é o que nos
torna orgulhosos. O prazer de estar acima é a raiz do orgulhoso. A ganância pode levar alguém a
querer ter dinheiro para comprar uma casa melhor, um carro belíssimo ou a promover uma festa a
cada dia. Porém o que faz um empresário, que já possui um lucro elevadíssimo, ficar ansioso para
ganhar ainda o dobro?

Decerto não é a ganância por maiores prazeres. O que ele ganha dá para obter todos os bens
que ele deseja e que possa usufruir. Porém é o orgulho que movimenta sua ansiedade. O orgulho o
faz desejar ser mais rico do que outro que também é rico e desejar ter o poder para manipular outros
como queira. Nessa variante conseqüente do orgulho, temos a avareza.

Existe certa cumplicidade afável entre os que se entregam à devassidão, mas quem se entrega
ao orgulho está sempre solitário, porque o outro será sempre seu rival. O orgulho significa inimizade,
e não apenas entre os homens, mas é inimizade contra Deus. Lewis disse que, como o orgulhoso está
sempre olhando os outros de cima para baixo, não poderá ver Deus. Então ele pergunta como pode
haver pessoas que se dizem religiosas e são tão orgulhosas. A sua resposta é: “Em muitos casos pode
ser que adorem a um Deus imaginário. Teoricamente admitem que nada seja em relação a esse Deus
fantasma, mas estão sempre a imaginar que em tudo são por Ele aprovadas, e que por Ele são
consideradas muito melhores do que as pessoas comuns. Ou, então, tributam um mínimo de
humildade imaginária a esse Deus, e tiram disso um máximo de orgulho em relação a seus
semelhantes. Creio que era nessa gente que Cristo pensava, ao dizer que alguns pregariam em seu
nome e em seu nome expulsariam demônios, apenas para que lhes seja dito no fim do mundo que Ele
nunca os conheceu”.

O orgulho é o “pai” de todos os pecados. Ele é o maior dos males. Aqui surge uma questão
ética da mais alta importância sobre o tipo da mensagem que pregamos em nossos púlpitos e do ensino
que ministramos nos cursos bíblicos e escolas dominicais. É que pastores e professores apelam para
o orgulho de seus ouvintes a fim de que vençam seus bloqueios interiores. Dizem eles: “Você é Filho
do Rei! Você é um Príncipe ou uma Princesa! Você como Filho de Deus é Deus também! Você sabe,
você pode, você tem!” E pelo orgulho muitas pessoas têm vencido na vida. Ninguém quer ser o dedão
do pé do corpo de Cristo, mas muitos “nasceram” para cabeça (será?).

Por incentivarem seu orgulho próprio é que “muita gente tem vencido a covardia, a luxúria e
o mau gênio, aprendendo a pensar que essas coisas não condizem com a sua dignidade, ou seja, é por

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orgulho que procedem”. E Lewis continua: “O demônio ri. Ele fica muito contente ao ver alguém
casto, corajoso e controlado, contanto que esteja construindo na pessoa a ditadura do orgulho. É como
no caso de que ele ficaria muito contente por ver alguém curado de um resfriado, se lhe fosse possível
dar em troca o câncer. Porque o orgulho é um câncer espiritual: devora toda a possibilidade de amor,
de contentamento ou até mesmo de senso comum”.

4. Virtudes teológicas

Vimos quando consideramos as Virtudes Cardeais, que existem também certas Virtudes
Teológicas que o apóstolo Paulo enfatizou. O texto de I Co 13.13 diz: “Agora, pois, permanecem a
Fé, a Esperança e o Amor, estes três, mas o maior destes é o Amor”. O Amor. Sem dúvida há
concordância cristã, e até na maioria das religiões, de que o amor é a primeira das virtudes. O amor é
a origem e o fator controlador das demais virtudes (cf. Gl 5.22). Esta ênfase está registrada em I
Jo.4.7-8: “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é
nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”.
A leitura do restante do capítulo (versos de 9 a 21) é por demais instrutiva.

Amar alguém não é o mesmo que gostar de alguém. O gosto apenas indica nossa preferência
pessoal. Gostar não é uma virtude, nem tão pouco um vício. É um fato. É bem verdade que o gosto,
ou afeição natural, ajuda em muito o cumprimento da lei cristã do amor. Por isso devemos estimular
nossas afeições, investir nelas, gostar o mais que seja possível (assim como devemos estimular nosso
gosto pela alimentação sadia, pela compreensão das coisas ou pelos exercícios físicos). Não porque
o “gosto” em si seja o alvo, mas porque é um tremendo auxílio para se chegar ao alvo.

Mas é importante percebermos que o amor deve estar direcionado ao próximo para o seu bem,
e não apenas pela mera satisfação. Não são poucos os pais que estragam a educação de seus filhos
concedendo qualquer coisa que eles desejam. Satisfazem os impulsos “à custa da felicidade real do
seu filho no futuro”. Como é terrível um adulto mimado, melindroso, cheio de vontades. Uma pessoa
mimada tem a tendência de pensar que a declaração de Jesus dizendo “pedireis tudo o que quiserdes,
e vos será feito” seja uma liberação ampla, geral e irrestrita. Um ato irresponsável, não ponderado,
sujeito à vaidade e desejos intempestivos humanos.

O motivo pelo qual a Teologia da Prosperidade e da Confissão Positiva tem obtido tanto
sucesso na conquista de adeptos, erroneamente tem sido atribuído às crises financeiras e ao
desemprego. O motivo real é que os pais perderam os parâmetros na educação de seus filhos. A
educação não contempla mais os limites, a personalidade sadia, mas sim a ética do prazer. O

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hedonismo está de volta e poucos o percebem. Para essa sociedade que se diz pós-moderna, o
importante não é o certo, o verdadeiro, o bom. Hoje as pessoas buscam o prazer. É considerado bom
aquilo que dá prazer. Se a vontade do indivíduo for autenticada, se seu impulso for valorizado, se o
instante prazeroso for vivido em plenitude então nada mais importa.

É por essa razão que homens e mulheres abandonam a relação sólida do casamento e se lançam
em aventuras amorosas. Minoram os riscos, torcem as interpretações lógicas, despreza filhos,
respeito, vergonha. Tudo por uma experiência prazerosa que autentica sua vontade em meio às
frustrações constantes de não ver seus mimos satisfeitos a todo o instante, conforme seus pais
temerariamente o supriram.

Amar é virtude porque não corresponde apenas ao campo dos sentimentos, mas muito mais
porque pertence ao campo da vontade. Não há virtude alguma em gostar ou não, mas há virtude em
querer, escolher e praticar o melhor para o outro.

A Fé. Existem, na Bíblia, pelo menos três formas de concebermos a fé pessoal: a fé salvadora,
que leva a pessoa a confiar nas provisões divinas em Cristo Jesus para sua salvação; a fé sustentadora,
que permite o apego a Deus na caminhada da vida diária; não mais a salvação é o seu objeto, mas o
relacionamento confiante de que seguindo com Deus haverá segurança e sentido; a fé servidora, que
manifesta uma estruturação na pessoa, reconhecendo-se capaz de servir a Deus e ao próximo; assim,
supera seus limites e cumpre cabalmente o ministério espiritual reconhecido em si como dom.
Hebreus 11.1 e seus exemplos seguintes nos mostram que a fé é que nos leva a reconhecer a realidade
espiritual e a envolver-nos nela.

É vital entendermos que ter fé em Cristo significa confiar nele integralmente. As pessoas que
dizem que tem fé em Deus, mas não dão atenção às suas Palavras, na realidade apenas
sentimentalmente se ligam ao conceito ‘Deus’. Sua fé é vazia. Ter fé em Deus significa valorizar tudo
o que vem Dele.

A Esperança. Há quem diga que a esperança é uma espécie de fuga da realidade. Que voltar
os olhos para os céus significa o mesmo que alienar-se da terra. Há, inclusive, quem ainda sustente
que esta esperança é o que entorpece a alma, chamada pelos antigos marxistas de “ópio”. Porém basta
olharmos para a Bíblia ou para a própria História do Cristianismo e constataremos que as pessoas que
mais falaram sobre o Céu, que mais enfatizaram o mundo vindouro, que mais trataram do tema
esperança foram as que mais fizeram ou que mais se deram pelo próximo.

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Poderíamos citar em ordem cronológica, apenas para estimularmos a lembrança: o patriarca
Abraão, José do Egito, o legislador Moisés, os profetas do Antigo Testamento, João Batista, o Senhor
Jesus acima de todos, o Apóstolo João, os pais da Igreja... E todo autêntico movimento de renovação
espiritual possuiu pelo menos quatro ênfases: a) denúncia e rejeição do pecado, b) pregação poderosa
falando das realidades do Céu e do Inferno futuros, c) valorização do serviço cristão e do ministério
leigo, d) vida abundante caracterizada por reforma social (valorização do trabalho e da vida familiar,
da comunhão e do amor, abandono de vícios, interesse humano, etc.) – todos baseados, também, na
esperança.

A Esperança como virtude, longe de iludir e de fantasiar, enche o cristão de vigor e alegria,
capacitando-o para a ação evangélica e infundindo-lhe a tenacidade necessária para vencer as lutas e
provas. É nosso dever seguirmos adiante, não limitados às circunstâncias, mas esperando novos céus
e nova terra. Decisivo é o argumento de Rm 5.1-5: “Sendo pois justificados pela fé, tenhamos paz
com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na
qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também
nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a
experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus
está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.”

5. Pessoas boas ou homens novos

Hans Küng iniciando a abordagem de seu tema no primeiro capítulo de seu livro “Ser
Cristão” (da Editora Imago) diz assim: “Por que se deve ser cristão? Por que não bastaria ser
homem, homem autêntico? Por que, ao ser-homem, acrescentar o ser-cristão? Ser cristão seria mais
do que ser homem?...” Esta é de fato uma boa pergunta. Já temos observado que Deus não está
interessado em atos isolados de bondade do ser humano.

Também já compreendemos que atos isolados não caracterizam uma pessoa virtuosa.
Qualquer pessoa é capaz de, por exemplo, ter uma boa idéia para que um jogador da seleção
brasileira de futebol faça uma melhor jogada, ou mesmo qualquer indivíduo é capaz de em campo
dar um bom passe, de repente, para que a jogada em andamento chegue ao gol. Porém, é
completamente diferente ser um jogador profissional. Ter os músculos, nervos e sentidos treinados
para o bom desempenho na execução de uma partida de futebol. Isso exige muito investimento em
alimentação, condicionamento, instrução, disciplina, etc.

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Porém, na vida espiritual não basta o treinamento. É preciso ser um tipo diferente de ser para
que o treinamento faça o efeito necessário. Você pode pensar que uma pessoa é boa (é um verdadeiro
exemplo), mas quando vai olhar de perto verifica que não é um herói de verdade. Segundo a Bíblia,
ninguém é realmente bom, a não ser Deus. E a experiência humana tem comprovado essa realidade.
Veja a experiência narrada em Mc.10.17-31. Jesus permitiu que fosse evidenciada a hipocrisia do
jovem de qualidade. Ele guardava os mandamentos, mas confiava nas riquezas sobre todas as coisas,
até sobre a palavra de Jesus sobre a sua salvação, e não conseguia admitir viver sem sua prosperidade
pessoal. No fundo não era um herói, não estava realmente interessado em Deus, nem nos necessitados,
mas apenas em seu autoconceito orgulhoso.

Assim, Deus fala na Bíblia sobre o novo nascimento. Precisamos abandonar a natureza antiga,
velha, cansada, incapaz de ceder e de amar. Precisamos renascer. Eis alguns textos que precisamos
nos lembrar: Jo.3.3: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que
não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus ”. Jo.3.6: “O que é nascido da carne é carne, e o
que é nascido do Espírito é espírito”. I Jo.3.9: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado;
porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus”. I Jo.5.1: “Todo
aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus...” Então, é eticamente errado que as pregações
evangélicas contemplem apenas a “bondade humana”. Temos ouvido muitos sermões de auto-ajuda:
precisamos pregar que não basta ao pecador procurar ser bom, é preciso “nascer de novo”.

6. Comportamento do líder cristão

Convém mencionarmos, embora apenas de passagem, dado a brevidade exigida neste


material, alguns deveres básicos e imprescindíveis a serem cumpridos por quem possui liderança
espiritual. Se você é um líder e procura não envergonhar a Cristo considere atentamente esses aspectos
e desenvolva uma ética saudável.

6.1. Respeito, sigilo, acompanhamento

Respeito. Cabe ao líder respeitar todas as pessoas, independente de quem seja, de quais
opiniões tenham (favoráveis ou contra as idéias do líder), da idade, sexo, posição ou partido. Todo
ser humano deve ser respeitado. Mesmo quem não se dá ao respeito. O líder deve manter sua
sobriedade e atenção para com todos. É importante que o líder saiba que o respeito é algo tão estrutural
à pessoa que até a legislação humana considera isso ponto passivo; quanto mais deve o líder cristão
respeitar a todos.

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Cabe ao líder cristão ter altos padrões morais. Jesus disse que “se a vossa justiça não exceder
a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt.5.20) e ainda “sede vós,
pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt.5.48).

Sigilo. Muito conhecido é o sigilo profissional, o dever ético que impede a divulgação de
assuntos confidenciais ligados à profissão. Porém, existe também o sigilo confessional: o dever a que
está sujeita a autoridade religiosa de não revelar aquilo que ouve em confissão. Pelo exercício natural
do ministério, o líder cristão entra constantemente em contato com informações confidenciais,
íntimas, particulares que não devem ser divulgadas. O caráter do aconselhado para com o conselheiro
é essencialmente de confiança, e essa relação não deve ser quebrada, sob pena de o conselheiro deixar
de estar apto como líder.

Toda informação advinda de confissão, orientação para decisão, pedido de oração, súplica por
consolo, ensino ou admoestação não deve ser divulgada, ou mencionada fora da díade conselheiro-
aconselhado. Só utilize experiência de gabinete como ilustração em público se o dono da experiência
concordar, se estiver fora do contexto em que se possa fazer ligação entre a experiência e o sujeito.
Nada é mais triste para uma pessoa do que sentir-se usada, traída, ou envergonhada. Perde-se a
confiança no líder e a pessoa se sente insegura e frágil. A Bíblia diz: “Como dente quebrado, e pé
deslocado, é a confiança no desleal, no tempo da angústia.” (Pv.25.19).

Acompanhamento. É importante que o líder entenda que as pessoas o procuram para serem
ajudadas. Ora, essa ajuda muitas vezes ultrapassa apenas um único atendimento. Normalmente se faz
necessário acompanhar o progresso espiritual da pessoa. E o líder tem obrigação ministerial de
acompanhar seus liderados. Procure saber se os problemas estão se resolvendo, se há necessidade de
alguma ajuda ou apoio. Não abandone um aconselhado.

6.2. Responsabilidade em dar o melhor de si

Gosto muito de ler o livro “O Pastor Aprovado” (de Richard Baxter, da Ed. PES). Baxter tem
umas frases interessantes. Diz ele “Poderia o servo preguiçoso esperar boa recompensa?”; também
diz que precisamos “aumentar o nosso conhecimento da verdade. Sempre há muita coisa das
Escrituras que nos é desconhecida”. Quando fala dos pecados dos pastores diz ele que “não são
plenamente dedicados a Deus” e que “não se dão totalmente à bendita obra que se incumbiram de
realizar”.

Porém há uma passagem que selecionei especialmente da página 53 e início da 54 para nosso
interesse aqui: “... precisamos olhar por nós mesmos para que não estejamos despreparados para as
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grandes tarefas que nos incumbimos de levar cabo. É preciso que não seja um bebê no conhecimento
aquele que quer ensinar aos homens as coisas misteriosas que necessitam saber para assegurar-se da
salvação. Ah, que qualificações são necessárias ao homem que tem sobre si a responsabilidade que
temos! Quantas dificuldades da teologia precisam ser compreendidas! Que pontos essenciais da fé
são obrigatoriamente necessários conhecer! Quantos textos obscuros das Escrituras têm que ser
explicados! Quantos deveres precisam ser cumpridos, deveres nos quais poderemos falhar, se não
compreendermos claramente o seu teor, o seu propósito e o seu contexto! Quantos pecados devemos
evitar, o que não poderá ser feito sem compreensão e perspicácia! Quantas tentações sorrateiras e
sutis precisamos expor perante os olhos do nosso povo – a fim de que se possa escapar delas! Quantos
opressivos e intrincados problemas de consciência temos que resolver quase todos os dias! Tanto
trabalho assim, e tal tipo de labor poderá ser realizado por homens imaturos e incompetentes?”

O ministro de Deus tem a responsabilidade e o dever, dado a grandiosidade da obra e sua


importância e constância, de dar o melhor de si: II Tm.2.15: “Procura apresentar-te a Deus aprovado,
como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”. Fp.1.9-11:
“E peço isto: que a vossa caridade abunde mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para
que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo;
cheios de frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus”. Cl.2.2: “Para que
os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em caridade, e enriquecidos da plenitude da
inteligência, para conhecimento do mistério de Deus, Cristo”.

6.3. Atualização do líder

Um dos deveres do líder é buscar a atualização de seus conhecimentos. É importante que ele
esteja em dia com as questões que estão sendo discutidas, revistas ou melhoradas. O líder não deve
se fechar a questionamentos, não pode assumir a postura orgulhosa de que já sabe o suficiente.
Discernir as épocas diferentes, as mudanças, as tendências, as mentalidades, é dever do líder.

O conhecimento básico testado permanece: a Bíblia, a fé, a teologia, a filosofia, a ética. Porém
é preciso adaptá-lo às novas necessidades. E todo o processo de modernização precisa ser avaliado.
Muitas vezes a atualização envolve passar da potência ao ato; por isso, para alguns, a atualização
envolverá sair da teoria e partir para a prática.

Precisamos ouvir as críticas e as acusações às nossas posturas e escolhas. Ponderarmos, então,


sobre cada ponto. Orarmos a respeito. E buscarmos, então, uma resposta coerente (admitindo ou
rechaçando os argumentos, edificando novidades ou sobreedificando adicionais). Porém é dever do

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líder o estudo constante, e estar em dia com sua atualização. Pv.3.7: “Não sejas sábio a teus próprios
olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal”. II Tm.4.13: “Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu
vá”. I Tm.4.16a: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina...”

6.4. Moral pessoal

Em I Tm.3 encontramos alistados deveres essenciais para os bispos e diáconos. Observe que
esses deveres são mencionados como semelhantes, e de fato o são. Veja, ao final, o resumo sobre a
ética pastoral.

6.5. Metodologia das seitas x metodologia cristã

As religiões não-cristãs e as seitas heréticas são normalmente chamadas pela designação geral
de “seitas”. Elas obtiveram grande crescimento no século XX. Hoje, constituem uma parcela
considerável da sociedade. Por isso a sua influência se faz sentir. Não é de admirar que muitos líderes
impressionados com o rápido crescimento das seitas procurem avaliar os métodos usados por elas
para o seu proselitismo e, algumas vezes, até se utilizem de tais métodos.

Porém, devemos tomar o cuidado para que não estejamos apenas angariando adeptos, ao invés
de conduzindo almas a Cristo. É conhecido que seitas utilizam-se de posicionamentos antiéticos em
seu afã de aumentar o número de membros arrolados e de prender seus adeptos em suas organizações.
Vejamos alguns:

a. Não permitem a avaliação racional dos fatos. Os líderes (a cúpula da organização)


interpretam os fatos para seus membros e exigem (de uma forma ou de outra) a submissão ao que foi
decidido, normalmente invocando sua autoridade e direito. Alienam, assim, o indivíduo de seu direito
de compreensão e liberdade. Com o tempo, a mente do adepto fica cada vez mais fechada para a razão
e suas dúvidas são recalcadas.

b. No discurso, valorizam a Bíblia, mas na prática induzem a considerar-se a experiência


pessoal superior a tudo. “Provar” é a palavra chave da ideologia oferecida. As sensações se tornam o
alvo da experiência. A desestruturação emocional facilmente é confundida com o “quebrantamento
espiritual”. Por isso, as seitas procuram sempre levar o adepto a ter experiências de choro compulsivo,
gargalhadas incontroláveis, esgotamento físico ou psíquico.

c. Infundir culpa ou suscitá-la afetadamente é método importante para as seitas controladoras


da psique. Todos têm, devido a nossa própria finitude e pecaminosidade, muitas experiências de

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fracassos. É interessante que quando nossa memória é instada a lembrar problemas ou pecados, os
mesmos assuntos vêm à tona: problema com os pais, frieza sexual, traição, crises de fé, fugas,
agressividade, furtos, solidão depressiva, melancolia, medo. Os padrões variam, mas os assuntos são
os mesmos. É muito fácil sermos conduzidos de encontro a tantas frustrações como indivíduos,
cristãos ou como Igreja. As seitas trabalham fazendo essas memórias e experiências parecerem
maiores do que são e levando o adepto a sentir de perto sua culpa por ser imperfeito. Culpado e
dolorido, o adepto se agarrará à sua tábua de salvação: a emoção do remorso e a autoridade da
experiência ou do líder perdoador.

d. Intolerância a pensamentos contrários. Toda seita infunde em seus adeptos esse sentimento.
Dizem que a experiência que apresentam é a visão de Deus e qualquer pessoa que se apresentar
contrária estará automaticamente contrária a Deus. Desta forma vemos os adeptos reagindo com
severidade e agressividade contra qualquer questionador ou opositor. Amigos, familiares, pessoas
que antes da experiência catártica ou conversional eram consideradas boas e importantes passam a
ser desconsideradas e afastadas. Nenhum raciocínio alheio é aceito. A experiência do novo adepto
excluirá tudo e todos, em sua ânsia de manter a excitação que sentiu (porém esse esforço pela
excitação é inútil e a pessoa só terá mesmo a autoridade de seu líder flutuando como única bóia salva-
vidas no oceano do dogmatismo).

e. A guerra contra o mal é um elemento importante. Dificilmente uma seita quer fazer de seus
membros melhores pessoas. Ela deseja fazer deles guerreiros. Soldados de prontidão que não
descansem, que não sejam descontraídos, que estejam envolvidos em perceber o mal e atacar, fazendo
novos adeptos. Mensagens, músicas, orações, tudo irá se referir a preparar a pessoa contra a
conspiração do mal.

f. O sentimento de superioridade é um excelente ingrediente para o adepto continuar isolado


em sua posição contrária à razão e a todos. A seita ensina que o adepto tem a verdade, tem a revelação,
é ele um privilegiado por ter sido retirado de uma realidade de hipocrisia, de pecado, de engano para
a segurança da “nova visão”, da “nova unção”, do “novo mover”. O adepto, então, passa a ver os
outros como incompletos, pobres, cristãos de segunda classe em comparação com ele e seu grupo.

g. Orgulho e soberba. Os movimentos heréticos têm a tendência de trabalhar retirando a


autoridade dos pastores e líderes antigos. Para isso, leva o novo adepto a aceitar-se como um líder.
Ele não precisa do treinamento que seu pastor tem, porque ele tem a experiência e está dentro de um
sistema que ele mesmo pode “pastorear” e angariar seus próprios adeptos e liderados em nome da
nova visão. Agora ele é o líder.

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h. Um último destaque que quero citar das seitas é a institucionalização. Toda seita gosta de
ressaltar como é vital a sua própria organização. Ela é sempre vista como imprescindível para que
tudo entre na visão que Deus quer. Sem ela, tudo estará perdido, o mal dominará. O adepto se prende
a tais apelos emocionais e permanece até que seja realmente desiludido.

O líder cristão deve analisar com cuidado as posições que está para assumir, as técnicas,
métodos e enfoques de suas mensagens e atitudes. Ter cuidado com os programas e “novas” visões a
ele oferecidas. É importante perceber que, utilizando das metodologias das seitas, teremos adeptos,
prosélitos, fanáticos, acólitos e não irmãos em Cristo. Deus livre a todos nós desse mal.

6.6. Visão ministerial x visão empresarial

Outra tentação para o líder cristão é a apropriação completa da visão empresarial. Na


motivação de ver a obra crescer e de querer organizar melhor os trabalhos ou preparar adequadamente
os liderados, há quem assuma que a Igreja é uma empresa e, como tal, deve ser administrada. Também
há quem trate sua Igreja como uma empresa, mas não se dê conta disso.

A visão de que a Igreja é o Corpo de Cristo, o sentido de família, a unidade da fé, a preferência
em honra uns aos outros, a comunhão dos santos, a valorização dos dons e ministérios, a simplicidade
da criança, não devem nos abandonar nem por um instante. O dever do líder é espelhar em sua própria
comunidade cristã os conceitos doutrinários que estão expostos nas páginas da Bíblia. Qualquer outra
fórmula de sucesso deve ser submissa a tal princípio.

Contudo, já travamos contato com ministérios cristãos que nos assustam com a eficiência
febril do mundo dos negócios. Gráficos de produtividade, controle rigoroso de pessoal, pirâmides de
crescimento, marketing agressivo, hierarquia de rede, etc. O utilizar-se de recursos modernos em prol
do Evangelho é uma coisa, porém mutilar a Igreja de sua vocação espiritual é outra. Muito cuidado
devemos ter para que a Igreja represente a Cristo na terra. Nosso afã pela melhoria do trabalho não
deve ofuscar a simplicidade do Evangelho.

6.7. Liderança natural x liderança espiritual.

Temos verificado a importância de buscarmos discernir o que seja uma Metodologia Cristã.
Decerto que temos muitos recursos ao nosso redor e os poderes de nossa personalidade conseguem
muitos resultados positivos, porém é preciso entender que a Igreja de Cristo é uma entidade espiritual
e não meramente o fruto do querer e empenho humano. Jesus disse: “edificarei a minha igreja”
(Mt.16.18). Ela é, então, o fruto do querer e empenho divino. Somos cooperadores de Deus.
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As potencialidades naturais devem contribuir com as dádivas espirituais na Igreja e não
suprimi-las. A ética da liderança cristã precisa levar em conta os dons ofertados à Igreja e os
ministérios distribuídos nela. Rm.12.6-8 mostra a fluência singela que permite a participação de todos
no ministério cristão: “De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é
profecia, seja ela segundo a medida da fé, se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja
dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse Dom em exortar; o que reparte, faça-o com
liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria”.

Se considerarmos com cuidado, veremos que realmente não é qualquer liderança natural que
bem realizará os ministérios eclesiásticos. A vocação espiritual da Igreja de Cristo necessita ser
contemplada por indivíduos que sejam impulsionados e capacitados pelo próprio Cristo mediante
o fruto e os dons do Espírito. Cabe ao líder compreender essa complexidade e buscar os recursos
próprios para sua atividade sobrenatural.

7. Questões éticas genéricas

7.1. Obedecer a regulamentos; organização; coerência

Vimos sobre a obediência às autoridades constituídas. Depreende-se dessa questão o fato que
os regulamentos e regimentos internos de instituições e eventos devem ser obedecidos. A organização
faz parte da necessidade da natureza. Observamos na existência dos átomos, moléculas, células,
planetas, sistemas solares, ou na vida dos insetos, animais e no mundo vegetal perfeita organização.
Deus, o Criador, colocou tudo em ordem. Os seres humanos também possuem organização
maravilhosa estruturando sua vida biológica, pessoal, social e espiritual.

A quebra da coerência sempre traz prejuízos a nós mesmos ou aos nossos semelhantes,
envolvidos na mesma circunstância. Portanto, é contrário à ética atrapalhar o andamento dos
trabalhos, quebrando os regulamentos lógicos que nutrem toda a organização. Horários, quantidade
de pessoas, e equilíbrio são coisas fundamentais.

7.2. Amizade verdadeira

Uma necessidade humana são as amizades. Porém a amizade precisa ser mais valorizada pelas
pessoas. Muitas vezes chamamos nas Igrejas o próximo de irmão, não porque o tenhamos como um
parente num relacionamento de amor fraterno, mas simplesmente porque não sabemos o seu nome.
Precisamos investir mais na amizade, aceitarmos mais uns aos outros, buscarmos mais as coisas em
comum do que destacarmos as diferenças pessoais.
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Precisamos nos preparar para ouvirmos também de nosso amigo a verdade que ele tem a nosso
respeito sem nos melindrarmos. Procure ouvir o que o outro quer lhe falar, sem demonstrar logo sua
conclusão não pensada. Lembre-se: "Não toma prazer o tolo no entendimento, senão em que se
descubra o seu coração" (Pv.18.2). O amigo está presente nas horas tristes, apoiando, e nas alegres
valorizando a alegria do outro: "Em todo o tempo ama o amigo, e na angústia nasce o irmão"
(Pv.17.17). Porém, existe um limite para a amizade. Diz a Bíblia: "Retira o teu pé da casa do leu
próximo, para que se não enfade de ti, e te aborreça'' (Pv.25.17). A ética deve alcançar nosso
relacionamento integral na sociedade.

7.3. Relacionamento interdenominacional e lidando com o não-crente

Basicamente a palavra para definir o relacionamento interdenominacional é a separação, no


contexto da Igreja local. Deve haver respeito pelo próximo, pelas suas convicções, pela sua maneira
de ser e de pensar, pelas suas experiências tão diversas das nossas. Mas é necessário entender,
segundo os ensinamentos neo-testamentários, que não devemos estar associados com aqueles que
ensinam doutrinas diversas daquelas que encontramos nas Escrituras, nem relacionamento espiritual
com os que pregam um outro evangelho. Significa que devemos amar as pessoas, sem, no entanto,
aprovar seus desvios de fé.

O não-crente tem direito ao mesmo tratamento respeitoso. Ele tem valor intrínseco como ser
humano. Cristo o valorizou a tal ponto (e a nós também) de morrer por ele. Pregar a Palavra exige
modéstia e bom trato! Devemos respeitar o que o outro sabe sobre religião e dialogar com ele na base
do amor num diálogo inteligente que glorifique a Cristo. O uso do jargão evangélico é uma barreira
cultural que se assemelha a um dialeto estranho para o não-crente. O evangeliquês é tal que parece
até que estamos excluindo a pessoa da conversação que travamos. Vocábulos como “varão”,
“bênção”, “Palavra”, etc., parecem gíria excludente do não douto. O respeito e interesse no
entendimento do outro é mais questão de boa ética do que de conhecimento transcultural.

7.4. Brincadeiras não devem ferir ou envergonhar

A ética nas brincadeiras é bem tratada na Bíblia. Nossa alegria deve ser em Cristo, portanto
seja descontraído, mas não permita que isso lhe dê motivo para deixar de agir como um cristão
(Fp.4.4). Nas brincadeiras, conserve linguagem sadia e não palavras e idéias constrangedoras e
inconvenientes (Ef.5.4). Que o nosso direito de brincar não seja a causa de magoar e machucar aos
outros. Muitas das chamadas brincadeiras de mau-gosto acabam, muitas vezes, quase que destruindo

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amizades e encontros sadios. Cuidando, também, com brincadeiras que podem destruir o patrimônio
alheio: roupas, calçados, livros, óculos, lentes de contato, carro, etc. (ver Pv.26.18-19).

Pode ser errado brincar ressaltando o defeito ou as diferenças dos outros, se isso for uma forma
de ferir os sentimentos: raquitismo, obesidade, gagueira, regionalismo, pouca instrução, idade elevada
ou menos idade que os outros presentes, etc.

7.5. Não deixar de responder: solicitações, pedidos de intercessão, conselhos, cartas

Um grande erro, principalmente para o líder evangélico, é deixar de responder a solicitações


das pessoas que confiam em nós. Quando nos pedem para orarmos por alguma causa especial e
dizemos que vamos interceder, mas não o fazemos, estamos, na realidade, mentindo. Outros nos
pedem para procurarmos oportunidades de emprego, casas para alugarem, parentes que estão doentes
e tantas outras coisas. Deixar de responder essas coisas, se nos comprometemos com elas, é faltarmos
com a confiança depositada. O mesmo acontece com relação às cartas ou e-mails que recebemos...

Uma solução prática é realizarmos o que nos foi pedido imediatamente. Se for um pedido de
oração, diga "vamos fazer isso agora?" e procede já a oração. Se você lembrar de interceder depois,
melhor. Se não, já atendeu ao pedido. Esta regra pode e deve ser usada para não sermos lideres
faltosos com a confiança a nós depositada.

8. Resumo específico sobre ética pastoral

8.1. Ética pastoral na família

A família, a igreja e o ministério sãos as bases de apoio do pastor. Entretanto, tudo começa na
família. Com base na Bíblia, vemos a ética do pastor para com a família:

1) Governar bem a sua casa (I Tm.3.4,5);

2) Marido de uma só mulher (I Tm.3.2; Tt.1.6); dar tempo, amor, intimidade, companheirismo e
afeto à esposa para fechar a porta às armadilhas do adultério, da infidelidade;

3) Instrutor e exemplo para os filhos (I Tm.3.4; Tt.1.16);

4) A mulher do pastor deve ser: honesta, não maldizente, sóbria, fiel em tudo (I Tm.3.11). O
pastor é o líder. Deve orientar a esposa nesse sentido.

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8.2. Ética pastoral nas finanças

1) Fidelidade na entrega do dízimo. O pastor deve dar o exemplo (Ml.3.10; Tg.2.12);

2) Fidelidade na administração dos dízimos e ofertas da Igreja (III Jo.5; At.20.33; I Tm.6.10; II
Pe.2.3);

3) O obreiro é digno do seu salário e não do tesouro da Igreja (Lc.10.7; I Tm.5.18);

4) Ter cuidado com as dívidas. Não gastar além de sua renda. Ser pontual nos pagamentos dos
compromissos financeiros;

5) Não ter amor ao dinheiro, e jamais admitindo que o fator financeiro seja mais importante na
aceitação de um trabalho ministerial;

8.3. Ética pastoral geral

Não há pastor perfeito. Um planta, outro rega, e outro colhe, mas Deus é que dá o crescimento à
obra.

8.4. Relacionamento com antecessor

1) Mostrar cortesia e respeito ao seu antecessor;

2) Não ter ciúme do seu antecessor, ao saber que a Igreja tem por ele amor e consideração;

3) Só se referir ao ministério do antecessor, no púlpito, se for em relação a coisas positivas;

4) Não criticar o antigo pastor, mesmo que ele tenha falhado;

5) Dar honra e consideração ao obreiro que o antecedeu; quando oportuno, convidá-lo para estar
presente à Igreja, para orar ou para pregar, se isso for possível nos padrões bíblicos;

8.5. Relacionamento com o sucessor

1) Não criticar o sucessor; se possível, fazer elogios ao mesmo, se não, evitar comentários
desabonadores a seu respeito (logo ele vai saber);

2) Não criticar os métodos de trabalho do sucessor;

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3) Preparar a Igreja para receber o novo pastor, orando por ele;

4) Ao deixar o pastorado, não interferir na administração do sucessor;

5) Só aceitar pregar ou realizar qualquer cerimônia a seu convite, ou com sua aprovação;

6) Não subestimar o sucessor por não ter conhecimentos ou cursos que possui;

7) Não deixar dívidas para o sucessor pagar, exceto se lhe der conhecimento, por compromissos
aprovados pela Igreja.

8.6. Relacionamento com os colegas de ministério

1) Não criticar os colegas, sem amor e sem conhecimento de fatos a seu respeito;

2) Ter respeito e consideração aos colegas idosos, doentes, ect.;

3) Não desconsiderar colegas por motivos sociais, econômicos ou raciais;

4) Só discordar dos colegas com elegância, respeito e amor;

5) Cooperar com os colegas sempre que possível;

6) Não fazer proselitismo na Igreja dirigida por outro colega;

7) Não dar apoio a membros disciplinados por um colega, a menos que seja resolvida sua situação
disciplinar;

8) Só pregar ou realizar cerimônia em Igreja dirigida por outro colega, a seu convite ou com sua
aprovação;

9) Receber, de bom grado, o conselho de um colega, quando isso for necessário;

10) Não passar adiante notícia desabonadora a um colega sem estar certo da veracidade do fato.
Se a notícia for verdadeira, não agir como mexeriqueiro;

11) Não ter inveja do ministério fecundo do colega; orar por ele que Deus o continue abençoando;

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8.7. Relacionamento com a Igreja a em que serve

1) Usar conscientemente o tempo do seu pastorado; não se ausentar excessivamente para atender
compromissos ou viagens; a Igreja o mantém para que a sirva com amor e dedicação;

2) Esforçar-se para dar à Igreja o melhor alimento espiritual de que ela necessita, tomando tempo
para orar e preparar mensagens edificantes;

3) Zelar pela doutrina, tendo equilíbrio nos usos, costumes e normas defendidos pela Igreja;

4) Ao exortar, fazê-lo sempre com “longanimidade e doutrina”;

5) Zelar pela evangelização, buscando o crescimento da Igreja;

6) Dar atenção especial aos novos convertidos, propiciando-lhes a necessária assistência de que
necessitem em seu discipulado;

7) Zelar pela vida espiritual das crianças, dos adolescentes e jovens, dos adultos, não fazendo
discriminação por causa de faixa etária;

8) Respeitar todos os lares em que entrar;

9) Só visitar uma pessoa do sexo feminino, se estiver acompanhado de sua esposa; ou se for
senhora casada, se o esposo desta estiver em casa;

10) Sob nenhuma circunstância, revelar segredos que lhe forem confiados;

11) No aconselhamento, ter o cuidado para não envolver-se emocional ou sentimentalmente com
a pessoa aconselhada;

12) Ser equânime no tratamento com os membros da Igreja, jamais fazendo acepção de pessoas,
seja por receber presentes delas, seja por entregarem dízimos ou ofertas generosas;

13) Não se afastar para viagem ou outro motivo, sem dar conhecimento prévio à Igreja;

14) Não assumir compromissos financeiros pela Igreja sem sua autorização;

15) Não utilizar o dinheiro da Igreja em benefícios pessoais, sem a autorização da mesma, mesmo
que seja para repô-lo depois;

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16) Não envolver-se nem envolver a Igreja com candidatos ou partidos políticos.

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