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DOCÊNCIA

BIOQUÍMICA EM
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Bibliotecário responsável: Rodrigo Pereira CRB 1/2167
Portal Educação

P842b Bioquímica / Portal Educação. - Campo Grande: Portal Educação, 2012.

82p. : il.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-8241-287-9

1. Bioquímica. I. Portal Educação. II. Título.

CDD 574.192
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO A BIOQUÍMICA .................................................................................................4

2 NOÇÕES GERAIS DE QUÍMICA ORGÂNICA...........................................................................5


2
3 ÁGUA ........................................................................................................................................11

4 AMINOÁCIDOS E PROTEÍNAS................................................................................................15

5 ENZIMAS ..................................................................................................................................24

6 CARBOIDRATOS .....................................................................................................................31

7 LIPÍDEOS ..................................................................................................................................35

8 ÁCIDOS NUCLEICOS...............................................................................................................39

9 CICLO DE KREBS ....................................................................................................................46

10 CADEIA RESPIRATÓRIA .........................................................................................................53

10.1 TRANSPORTE DE ELÉTRONS ................................................................................................53

10.2 FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA...................................................................................................55

11 METABOLISMO DE LIPÍDEOS ................................................................................................64

12 CASO CLÍNICO: HIPERLIPIDEMIA .........................................................................................67

13 METABOLISMO DOS ÁCIDOS NUCLEICOS ..........................................................................68

14 CASO CLÍNICO: GOTA ............................................................................................................71

15 METABOLISMO DE PROTEÍNAS ............................................................................................72

16 CABOLISMO DE AMINOÁCIDOS ............................................................................................77

17 CICLO DA UREIA .....................................................................................................................79


18 CASO CLÍNICO: INTOXICAÇÃO POR AMÔNIA .....................................................................81

REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 82

3
1 INTRODUÇÃO A BIOQUÍMICA

Prezado aluno, saudações! Esta é a primeira aula do nosso curso de Bioquímica,


denominado Biomoléculas e Metabolismo, dedicado à exposição teórica dos seguintes itens da 4
ementa da disciplina:

 Noções Gerais de Química Orgânica;


 Propriedades do carbono;
 Funções orgânicas;
 Biomoléculas;
 Água;
 Propriedades da água e sua importância biológica;
 Aminoácidos e proteínas;
 Definição, classificação, propriedades e importância biológica dos aminoácidos;
 Definição de peptídeos e ligação peptídica;
 Peptídeos de importância biológica;
 Proteínas: definição, níveis de organização, classificação e importância biológica.

Os dois primeiros itens são introdutórios e necessários para uma completa


compreensão do conteúdo abordado neste curso. São a partir dos conceitos apresentados nesta
primeira aula que você irá entender o comportamento de cada classe de compostos envolvido
nos processos bioquímicos, assim como os ciclos e os metabolismos em si. O terceiro item já
inicia nossos estudos em biomoléculas, apresentando a primeira classe que veremos: os
aminoácidos e as proteínas. Boa aula!
2 NOÇÕES GERAIS DE QUÍMICA ORGÂNICA

A bioquímica é uma ciência que visa estudar as formas e as funções biológicas a partir
de termos químicos. E dentre os elementos químicos presentes nos organismos vivos o carbono 5
é o que permite uma maior versatilidade de ligações, o que poderia explicar o porquê de termos
evoluído utilizando este elemento químico para a formação de moléculas de diferentes tamanhos
e formas.

As biomoléculas são formadas a partir da ligação covalente entre átomos de carbonos,


formando cadeias lineares, ramificadas e/ou estruturas cíclicas. A esta cadeia carbônica podem
ser adicionados “grupos funcionais”, compostos por outros átomos, por exemplo, o oxigênio e o
nitrogênio, que conferem propriedades químicas específicas às moléculas.

A estrutura do carbono, unidade fundamental dos compostos orgânicos, começou a ser


estudada no final do século XIX por Archibald Scott Couper e Friedrich August Kekulé, e suas
propriedades hoje são descritas pelos postulados de Couper-Kekulé:

1) O átomo de carbono é tetravalente: isso significa que o carbono pode


formar até quatro ligações covalentes, possibilitando uma grande
variedade de compostos derivados dele. Os quatro pares eletrônicos
disponíveis no carbono permitem que essas ligações sejam realizadas
com diversos outros elementos:

2) As quatro valências do carbono são iguais: isso significa que se, por exemplo, temos um
carbono ligado a um átomo de cloro, temos o composto clorometano independente de
qual seja a posição do cloro:
3) Encadeamento: essa ligação direta entre átomos de carbono permite formar as cadeias
carbônicas, que são a base para a formação de uma variedade de compostos orgânicos,
6
como o composto da figura abaixo:

Agora que você já conhece um pouco mais sobre o carbono, vamos passar às funções
orgânicas. O nome “funções” é dado para compostos que possuem estrutura química
semelhante, apresentando como consequência comportamento químico também semelhante.

Neste curso apresentaremos as 11 principais funções orgânicas, começando pelos


hidrocarbonetos, que são as estruturas mais simples existentes, constituídas somente por
átomos de C e de H. Muitos combustíveis têm em sua composição os hidrocarbonetos. Outras
funções são a dos alcoóis, que são as cadeias de hidrocarbonetos ligadas a uma ou mais
hidroxilas (OH), a dos fenóis, que também apresentam o OH, porém ligados a uma cadeia
carbônica fechada, dita aromática, e a dos éteres, que é composta por moléculas contendo um
átomo de O que liga duas cadeias carbônicas.

Estes compostos estão representados na tabela abaixo:

Função Orgânica Exemplo

Hidrocarbonetos octano
Alcoóis octanol

Fenóis hidroxibenzeno

Éteres metoxietano

Continuando nossa apresentação sobre as funções orgânicas, temos os ácidos


carboxílicos, que são cadeias carbônicas ligados ao grupo COOH, chamado de grupo
carboxílico. Muito semelhante a eles são os ésteres, que onde o H do grupo carboxílico é
substituído por uma cadeia carbônica, as cetonas, que possuem o grupo OH substituído por
uma cadeia carbônica, e os aldeídos, que possuem o grupo OH substituídos por um H, como
abaixo:

Função Orgânica Exemplo

Ácidos carboxílicos ácido etanoico

Ésteres etanoato de etila

Cetonas 2-propanona

Aldeídos pentanal
Ainda temos as amidas, que diferem do ácido carboxílico pela substituição do grupo
OH por N, as aminas, que apresentam de uma a três cadeias carbônicas ligadas pelo N, e os
haletos orgânicos, que são compostos contendo um halogênio (cloro, bromo e iodo):

8
Função Orgânica Exemplo

Amidas etanamida

Aminas etilmetilpropanamina

Haletos Cloreto de fenila

Agora que você já conhece as principais funções orgânicas, faremos alguns


comentários para que você possa conhecer um pouco mais sobre algumas delas. Os
hidrocarbonetos apresentam uma propriedade comum: eles se oxidam facilmente liberando calor
e por isso são utilizados muitas vezes como combustíveis. São formados a grandes pressões no
interior da Terra (abaixo de 150 km de profundidade) e depois são trazidos para zonas de menor
pressão pelos processos geológicos, sendo acumulados na forma de petróleo, gás natural e
carvão.

Os aldeídos são irritantes quando apresentam peso molecular baixo. Os de maior peso
molecular (que apresentam entre oito e 12 átomos de carbono) são muito utilizados na indústria
de cosméticos para fabricação de perfumes. Já os ácidos carboxílicos, de odor característico,
são utilizados pelos cães, que apresentam olfato bastante aguçado, para o reconhecimento de
pessoas pelo cheiro, já que o metabolismo entre os indivíduos se difere em alguns aspectos,
produzindo uma composição diferente de ácidos carboxílicos para cada indivíduo.

Para finalizar estas apresentações, os ésteres são muito utilizados na produção de


flavorizantes em refrescos, doces e xaropes, além do seu uso na produção de sabões,
medicamentos, perfumes, biocombustíveis entre outras inúmeras aplicações. O acetato de amila,
por exemplo, é utilizado como essência de banana. Na natureza são encontrados em óleos e 9
gorduras, nas essências de frutas, de madeiras e de flores, nas ceras (carnaúba e de abelhas) e
nos fosfatídeos (em ovos e no cérebro).

Passamos agora a outro tópico importante: as biomoléculas! Estas são os compostos


químicos apresentados anteriormente, com uma diferença fundamental, são sintetizadas pelos
seres vivos. As biomoléculas compõem a estrutura e participam do funcionamento dos
organismos. De agora em diante até o final do Módulo 2 vamos estudar as definições,
nomenclaturas, propriedades e importâncias biológicas de cada classe de biomoléculas, para
podermos entender ao final do curso como estas participam dos processos metabólicos que
ocorrem no ser humano.

As biomoléculas são formadas a partir de “unidades monoméricas”, que são


compostos mais simples que se juntam para formar as macromoléculas. Mas você pode estar se
perguntando: existem milhares de tipos de moléculas diferentes, e agora? E eu tenho uma boa
notícia. Existem milhares de tipos de moléculas diferentes, mas acontece que elas vão se
organizando nestas unidades monoméricas que eu citei acima, resultando em compostos de
propriedades similares, facilitando o entendimento dos processos bioquímicos.

Assim, a gente irá estudar, por exemplo, as proteínas, que são compostas por apenas
20 tipos de aminoácidos, e também os ácidos nucleicos, compostos por oito nucleotídeos, além
dos polissacarídeos, formados a partir de oito tipos de açúcares. E vamos começar pela principal
biomolécula no nosso organismo: a água.
FIGURA 1 - ESQUEMA DE PROTEÍNA

10

Fonte: AREADETREINO, 2011


3 ÁGUA

Você lembra quando comentei que as biomoléculas são sintetizadas pelos seres
vivos? Então, toda regra tem uma exceção e a água é a exceção desta regra. Ela não é 11
sintetizada pelos organismos e está disponível para adquirirmos pela alimentação, mas é
classificada como biomolécula pela sua importância para nós. Todos os indivíduos possuem a
água em sua constituição, e na maioria dos casos ela é responsável por 70% do peso dos
organismos.

É a partir dela e de suas propriedades que as estruturas biológicas e as reações


bioquímicas ocorrem e são essas propriedades que vamos estudar nas próximas páginas. As
ligações de hidrogênio entre as moléculas de água são as responsáveis por suas propriedades e
embora sejam ligações consideradas “fracas” quando comparadas às ligações covalentes, em
conjunto elas são fundamentais para a manutenção das estruturas tridimensionais das
biomoléculas.

Tecnicamente as ligações de hidrogênio podem ser descritas como as ligações


formadas entre um grupo fracamente ácido (dito “doador) como, por exemplo, o N-H ou o O-H e
um grupo carregando um par de elétrons não compartilhado (fracamente básico, ou “receptor”),
como um N ou O. A figura abaixo ilustra uma ligação de hidrogênio entre moléculas de água:

(as moléculas de água estão representadas em azul e as ligações de hidrogênio em vermelho)


Dica: talvez você já tenha lido sobre essas ligações sob o nome “ponte de hidrogênio”,
porém o termo recomendado pela IUPAC (União Internacional de Química Pura e Aplicada, da
sigla em inglês) é “ligação de hidrogênio”. Uma das consequências das ligações de hidrogênio
são os altos pontos de fusão e de ebulição da água em relação aos outros solventes comuns, já
que devido à estrutura tetraédrica da água, cada molécula realiza em torno de três a quatro
ligações de hidrogênio com outras moléculas, o que exige uma alta energia térmica para quebrar
12
essas ligações.

Biologicamente essas ligações são muito importantes por possibilitar à água o seu uso
como solvente, por exemplo, na diluição dos açúcares, devido aos efeitos estabilizantes das
ligações de hidrogênio entre os grupos hidroxila ou o oxigênio da carbonila dos açúcares e as
moléculas polares da água. A água, devido a sua polaridade e às atrações
eletrostáticas/ligações de hidrogênio, dissolve ainda sais, ácidos carboxílicos ionizados, aminas
protonadas, ésteres de fosfato ou anidridos, funções orgânicas que estudamos anteriormente e
vimos estar presente nas biomoléculas.

As interações fracas também são muito importantes para manter a estrutura, e


consequentemente as funções das biomoléculas, já que em conjunto elas possuem um efeito
cumulativo significante e mantém as moléculas em seus estados ideais para funcionamento
mesmo com quebras e formações de novas ligações, já que estas ocorrem de maneira aleatória
e rompimentos simultâneos de ligações fracas são improváveis.

Quanto maior a possibilidade de interações fracas, mais estável é a macromolécula


(por exemplo: proteínas, DNA e RNA), sendo que a forma tridimensional destas é determinada
justamente por essas ligações fracas, responsáveis também pela ligação entre antígenos-
anticorpos, hormônios, neurotransmissores e receptores. Para muitas proteínas, as moléculas de
água ligadas a elas são essenciais para suas funções.

Olha só a importância das ligações de hidrogênio e da água em nosso organismo.


Como eu disse anteriormente, é partir dela e de suas propriedades que as estruturas biológicas
e as reações bioquímicas ocorrem. O que me faz lembrar outra propriedade muito importante da
água: a sua fraca ionização, formando íons hidrogênio (H+) e hidróxido (OH-), segundo a
equação:
Dica: prótons livres como indicado na equação acima não existem em solução, os íons
hidrogênio formados na água são imediatamente hidratados a íons hidroxônios (H 3O+), devido às
13
ligações de hidrogênio presentes. Biologicamente essa ionização da água é importante por
permitir uma mobilidade iônica entre as moléculas, mobilidade esta presente nas reações de
transferência de prótons.

Quantitativamente, por meio de medidas de condutividade elétrica, podemos definir a


constante de equilíbrio da reação acima (Keq) como 1,8x10-16 M a 25oC e a concentração de H+
como 10-7 M, valores importantes (principalmente este último) quando vamos calcular o pH das
soluções, já que a escala de pH é baseada no produto iônico da água.

O pH é dito neutro se possuir valor 7, sendo que valores maiores de pH caracterizam


soluções alcalinas e pH com valores menores soluções ácidas, sendo que este valor não foi
obtido por acaso ou por conveniência, e sim a partir de cálculos envolvendo o valor do produto
iônico da água a 25oC. Mas você pode estar pensando: em nosso organismo diversas reações
ocorrem, logo elas podem alterar o pH do meio, isso não seria perigoso para a vida? E a
resposta que eu te trago: Sim, seria perigoso, mas essas alterações bruscas não ocorrem por
causa dos tampões.

Os tampões são sistemas aquosos que tendem a resistir às alterações no pH quando


pequenas quantidades de ácido ou base são adicionadas. Ele é composto por um ácido fraco
(doador de prótons) e sua base conjugada (aceptor de prótons). Quando um ácido um uma base
fraca entra em contato com o tampão reage com os ácidos e bases presentes, resultando em
duas reações reversíveis que entram em equilíbrio, tendo como resultado apenas uma pequena
alteração na razão das concentrações relativas do ácido fraco e sua base conjugada e, portanto,
uma pequena alterações do pH, compatível com os processos fisiológicos.

Toda equação de dissolução apresenta um valor de K a característico, e a relação entre


ele, o pH e a concentração de determinado tampão é definida pela equação de Henderson-
Hasselbalch:
Essa é uma equação que vale a pena ser memorizada, pois possibilita calcular o pH de
uma mistura de ácido-base conjugada, muito importante no preparo de tampões (uma rotina para
14
quem trabalha na área bioquímica). A seguir daremos um exemplo da aplicação da equação de
Henderson-Hasselbalch. Tente repetir o exercício sem olhar a resposta para fixar a equação e a
forma de preparo de tampões:

Exercício: Calcule o pH de uma mistura de 0,10 M de ácido acético e 0,20 M de acetato de


sódio, sabendo que o pKa do ácido acético é 4,76.

Resposta:

pH = pKa + log [A-/HA]

pH = 4,76 + log [acetato/ácido acético]

pH = 4,76 + log (0,20/0,10)

ph = 5,1

Um mecanismo importante do sistema tamponante ocorre durante a respiração. O


tampão bicarbonato é efetivo em pH próximo a 7,4 e envolve três equilíbrios reversíveis entre o
CO2 gasoso nos pulmões e o bicarbonato (HCO3-) no plasma sanguíneo. Esse tampão aberto é
o responsável por manter a homeostasia e a vida por intermédio da respiração.

Agora que você já entendeu a importância da água para nossa sobrevivência e tem em
mente que é ela o solvente utilizado durante as reações metabólicas em muitos processos
bioquímicos, podemos seguir nossos estudos em biomoléculas, e para finalizar este primeiro
módulos, vamos estudar os aminoácidos e as proteínas.
4 AMINOÁCIDOS E PROTEÍNAS

Em geral, um aminoácido é uma estrutura química que contém um grupo amina e um


grupo carboxila, sendo diferenciados por radicais substituintes (R) característicos:

15

FIGURA 2 – AMINOÁCIDOS E PROTEÍNAS

FONTE: QUINTEIRO, H. R. G., 2011

Assim, por exemplo, quando o grupamento R é igual a um grupo –CH3, este


aminoácido é chamado alanina, já se o grupamento R for igual a um grupo –CH2OH é
denominado serina, e assim para todos os outros aminoácidos existentes e descobertos até
hoje. Falando em descoberta, o primeiro aminoácido descrito foi a asparagina (em 1806) e o
último a treonina (em 1938).

Atualmente são descritos 20 aminoácidos principais que formam por meio de ligações
entre si (estudaremos elas mais para frente neste módulo) uma diversidade incontável de
compostos de diversos tamanhos e formas, incluindo enzimas, hormônios, anticorpos,
transportadores, fibras musculares, proteína do cristalino do olho, penas, teia de aranha, chifre
do rinoceronte, proteínas do leite, antibióticos, venenos de cogumelos e mais uma infinidade de
compostos.

Algumas convenções de nomenclatura definiram os aminoácidos em abreviações de


três letras e em símbolos de uma letra. Assim, o aminoácido alanina citado anteriormente é
representado pelo conjunto de letras Ala e/ou pelo símbolo A, já a serina é representada pelo
conjunto de letras Ser e/ou pelo símbolo S. A tabela na página seguinte apresenta todos os 20
aminoácidos mais comuns encontrados em nosso organismo como constituintes de proteínas.

FIGURA 3 - AMINOÁCIDOS
16

FONTE: SOARES, H. F., 2011


Uma curiosidade interessante é sobre a quiralidade envolvendo o C central dos
aminoácidos, que poderia levar à formação de D-isômeros ou L-isômeros, porém na natureza
somente a forma L dos aminoácidos é encontrada como ativa, já que os sítios enzimáticos são
assimétricos. Não entraremos em detalhes neste curso, mas se você tiver curiosidade, vale a
pena uma busca pela internet em torno dos conceitos de quiralidade.

A tabela que você acabou de ver apresenta a classificação dos aminoácidos quanto à 17
natureza do seu grupamento R, esta classificação é dita “quanto ao substituinte”, havendo os
aminoácidos apolares, polares neutros (ou não carregados), ácidos e básicos. Outra
classificação é a dita “nutricional” e envolve a essencialidade dos aminoácidos para nós,
havendo os não essenciais (que nosso organismo consegue sintetizar): alanina, asparagina,
ácido aspártico, ácido glutâmico e serina; aminoácidos essenciais (que devem ser ingeridos por
meio da alimentação, já que não conseguimos sintetizar em nosso corpo): fenilalanina,
isoleucina, leucina, lisina, metionina, treonina, triptofano, histidina e valina; e ainda os
aminoácidos condicionalmente essenciais (é necessário obtê-los pela alimentação, porém
somente para determinadas situações fisiológicas): arginina, cisteína, glicina, glutamina, prolina
e tirosina.

Existe uma classificação menos comum que é determinada quanto ao destino do


aminoácido após sua metabolização (excreção do grupamento amina). Os de destino cetogênico
são os que formam alcoóis, que vão para qualquer fase do ciclo de Krebs. Os aminoácidos
leucina e lisina são exclusivamente cetogênicos. Já outro grupo é o dos aminoácidos de destino
glicogênico, quando o álcool resultante da quebra dos aminoácidos vai para a via glicolítica.

Os aminoácidos fenilalanina, triptofano, isoleucina e tirosina são tanto cetogênicos


quanto glicogênicos, e os outros 14 restantes são exclusivamente glicogênicos. Porém, não fique
preocupado agora com essa classificação, você compreenderá melhor quando estudarmos
essas vias metabólicas nos próximos módulos.

Eu já comentei um pouquinho sobre a quiralidade anteriormente e além desta


propriedade de atividade óptica dos aminoácidos (com exceção da glicina), os aminoácidos
podem ser definidos como incolores e a maioria de sabor adocicado quanto às suas
propriedades organolépticas. Já fisicamente, as propriedades dos aminoácidos englobam sua
solubilidade em água variável e todas se encontram na forma sólida nas condições normais de
temperatura e pressão (CNTP).

Quimicamente os aminoácidos podem ser definidos como anfóteros, já que possuem


na molécula um grupamento de característica ácida (-COOH) e um grupamento de característica
básica (-NH2), o que os tornam muito interessantes por reagirem tanto com ácidos quanto com
bases para formar sais orgânicos. 18

Para finalizar nosso conteúdo de aminoácidos, vale ressaltar que estes 20 aminoácidos
apresentados (ditos α-aminoácidos) não são os únicos presentes na natureza. Mais de 700
aminoácidos já foram descritos, muitos sem ainda ter um papel biológico definido. Alguns são
simplesmente derivados dos aminoácidos que estudamos, outros possuem estruturas incomum,
alguns ainda são até tóxicos para alguns organismos (a azasserina, por exemplo, é utilizada
como antibiótico).

Quanto à importância biológica dos aminoácidos, além da sua participação na


composição de todos os produtos descritos anteriormente, temos também as funções
especializadas dos aminoácidos. Essas incluem a utilização dos aminoácidos como mensageiros
químicos na comunicação entre células. Por exemplo, a glicina, o GABA e a dopamina são
neurotransmissores, já a histamina é um potente mediador local em reações alérgicas, e a
tiroxina é um hormônio tireóideo, que contém iodo e que geralmente estimula o metabolismo em
vertebrados.

Alguns aminoácidos são importantes como intermediários em vários processos


metabólicos, entre eles a citrulina e a ornitina, intermediários na biossíntese da ureia, a
homocisteína, um intermediário do metabolismo dos aminoácidos e a S-adenossilmetionina, um
reagente biológico para metilações. Os aminoácidos podem reagir entre si, unindo-se por
ligações ditas peptídicas. A reação para esta formação é chamada de “condensação” ou
“desidratação”, já que libera uma molécula de água após o grupo carboxila de um aminoácido se
ligar ao grupo amino de outro aminoácido, formando uma amida com ligação covalente C-N,
segundo a equação química abaixo:
19
Fonte: CASTRO, F. F., 2011

Vemos na figura acima a ligação entre dois aminoácidos, mas repare que as
extremidades dos aminoácidos ainda podem reagir com outros aminoácidos, formando cadeias
de tamanhos variados, desde muito pequenos com dois ou três milhares de resíduos de
aminoácidos até grandes cadeias. Essas ligações são muito estáveis, tendo meia-vida média de
sete anos nas condições intracelulares e, por convenção, o terminal amino é sempre
representado à esquerda, de onde começamos a dar o nome para a cadeia de aminoácidos.

Quanto à nomenclatura, dois aminoácidos unidos pela ligação peptídica são ditos
dipeptídeos, três aminoácidos nas mesmas condições formam um tripeptídeo, e assim segue até
que alguns aminoácidos unidos passam a ser chamados de oligopeptídeos. Muitos aminoácidos
unidos formam um polipeptídeo, e embora muitas vezes os termos se confundam, quando o
peso molecular do composto ultrapassa os 10.000 Da, temos uma proteína.

Muitos peptídeos apresentam importante biológica e isso independe de seu tamanho.


O aspartame, um conhecido adoçante artificial, por exemplo, é formado pelo dipeptídeo L-
aspartil-L-fenilalanil metil éster. Alguns hormônios são peptídeos pequenos também, e mesmo
em concentrações muito baixas exercem seus efeitos, por exemplo, a ocitocina, que contém
nove resíduos de aminoácidos e é responsável por estimular as contrações uterinas durante o
parto.

Ainda, alguns polipeptídeos pequenos (ou oligopeptídeos) também possuem


importância biológica, como o glucagon, um hormônio pancreático, composto por 29 resíduos e a
corticotropina, um hormônio de 30 resíduos de aminoácidos da glândula hipofisária anterior que
estimula o córtex adrenal. Em geral, os peptídeos não ultrapassam 2.000 resíduos de
aminoácidos (e aqui já temos uma proteína!), mas a titina, uma constituinte do músculo de
vertebrados chega a 27.000 resíduos.

Quanto às proteínas, além do peso molecular citado anteriormente, podemos dizer que
elas sempre possuem mais de 20 aminoácidos. Uma grande parte delas são completamente
sintetizada no citosol das nossas células pela tradução do RNA, e após sua síntese são
destinadas ao local em que exercerá sua função por intermédio de “sinais” de reconhecimento 20
pela célula. Do ponto de vista estrutural são as biomoléculas mais importantes para o organismo
e sua importância já era reconhecida desde o começo dos estudos com proteínas, conforme
podemos notar pela frase do químico sueco Jöns Jacob Berzelius em uma carta ao também
químico Gerardus Johannes Mulderm, em 1838:

A palavra proteína que proponho a você... gostaria que derivasse de proteios, porque
ela parece ser a substância principal ou primitiva da nutrição animal que as plantas
preparam para os herbívoros, e que esses depois fornecem aos carnívoros (Jöns
Jacob Berzelius,1838).

Dependendo dos tipos de aminoácidos que constituem a proteína, assim como do


tamanho da cadeia, temos uma configuração espacial desta cadeia, e assim podemos dividir,
didaticamente, nos níveis de organização das proteínas em estruturas: primária, secundária,
terciária e quaternária.

- Estrutura primária: Esse nível é composto pela sequência dos aminoácidos ao longo
da cadeia polipeptídica. Assim, embora o primeiro e mais simples nível de organização seja
também o mais importante, pois as características químicas e físicas de cada resíduo de
aminoácido utilizado contribuirão para toda a organização espacial final da proteína. Esta
sequência é determinada geneticamente e é representada por meio das ligações peptídicas
entre os resíduos de aminoácidos, conforme vimos anteriormente.

- Estrutura secundária: Como as ligações peptídicas podem sofrer rotações afim de


minimizar a energia em contato com o meio em que se encontram, os aminoácidos próximos
entre si sofrem um arranjo espacial, resultando nas estruturas secundárias. Muitas vezes os
arranjos secundários ocorrem de forma regular, isto é, os ângulos das ligações se repetem ao
longo de um segmento da proteína, resultando em estruturas cilíndricas estabilizadas por
ligações de hidrogênio entre os resíduos de aminoácidos (α-hélice) ou em estruturas achatadas
e rígidas por ligações de hidrogênio entre regiões vizinhas (folha β-pregueada). Uma ilustração
destas duas possibilidades de estrutura secundária das proteínas é apresentada a seguir.
21

- Estrutura terciária: Ligações de hidrogênio e pontes dissulfeto, além de interações


hidrofóbicas e eletrostáticas, estabilizam as estruturas secundárias resultando em um
enrolamento desta. Esta estrutura é o dobramento final da proteína, sendo caracterizada por
ligações entre regiões de longa distância entre os aminoácidos (lembre-se que na estrutura
secundária as ligações ocorrem a curta distância). Como as sequências de aminoácidos são
diferentes, as proteínas apresentam estruturas terciárias diferentes, responsáveis por diferentes
efeitos biológicos.

- Estrutura quaternária: Esta estrutura é menos comum, mas ocorrem quando a


proteína é composta por mais de uma cadeia polipeptídica, unidas entre si pelas ligações
químicas citadas anteriormente, podendo resultar em funções diferentes para a estrutura
resultante. Um exemplo clássico de estrutura quaternária é a hemoglobina, formada por quatro
cadeias polipeptídicas.

FIGURA 4 – ESTRUTURA QUATERNÁRIA

FONTE: NELSON & COX, 2006


As proteínas podem conter em sua composição outros compostos que não
aminoácidos. Caso isso ocorra a proteína é dita conjugada e o radical não peptídico dela é dito
grupo prostético. Exemplos deste caso são as metaloproteínas, que contém metal em sua
composição, hemeproteínas, lipoproteínas, glicoproteínas, dentre outras.

Outra classificação das proteínas se dá pelo número de cadeias polipeptídicas, sendo


monoméricas quando formadas por apenas uma cadeia ou oligoméricas quando formadas por 22
mais de uma cadeia (em geral são proteínas estruturais e de funções mais complexas em nosso
organismo).

As proteínas podem, ainda, ser classificadas em fibrosas ou globulares de acordo com


sua forma. As primeiras são insolúveis em água, possuem peso molecular elevado e geralmente
são formadas por longas moléculas mais ou menos retilíneas e paralelas ao eixo das fibras.
Temos nesse grupo as proteínas de estrutura, como o colágeno, a queratina e a miosina.

Uma proteína interessante deste grupo é a tubulina, que embora apresente múltiplas
subunidades globulares, classifica-se como fibrosa pela sua disposição helicoidal. Já as
proteínas globulares são mais ou menos esféricas, espacialmente mais complexas, geralmente
solúveis no meio aquoso e incluem as proteínas ativas, como as enzimas e os transportadores.

Quanto à importância biológica das proteínas, poderíamos ficar discutindo durante


muitas páginas todas as contribuições que temos por esta classe de biomoléculas. Mas vou
apenas citar alguns exemplos que mostram a participação das proteínas em nosso corpo para
ilustrar sua importância.

As proteínas podem desempenhar funções hormonais, especificamente em algum


órgão ou estrutura, como a insulina, que retira a glicose em excesso do sangue. Podem ainda
participar das funções de defesa do organismo, como os anticorpos, especializados no
reconhecimento e neutralização de vírus, bactérias e substâncias exógenas. Outras proteínas de
defesa são o fibrinogênio e a trombina, responsáveis pela coagulação sanguínea em caso de
cortes e ferimentos.

As proteínas também estão presentes na nutrição, exercendo função energética e


fornecendo aminoácidos. Deficientes proteicas nutricionais podem levar a um desequilíbrio
homeostático e na infância à deficiência no crescimento. O recomendado por nutricionistas é a
ingestão diária de 0,8 a 0,9 gramas de proteínas por kg do nosso corpo na fase adulta. As
enzimas também são proteínas importantes que atuam nas reações químicas e serão abordadas
em um tópico, no próximo módulo.

Além destas funções, as proteínas ainda são encontradas no transporte dos gases
(principalmente do oxigênio), como por exemplo, a hemoglobina e a hemocianina, e no
armazenamento, como a ferritina, localizada no fígado e responsável pela reserva do ferro. Para 23
finalizar o tópico sobre Aminoácidos e Proteínas falaremos sobre a desnaturação das proteínas,
que é a perda da sua estrutura secundária e/ou terciária, ou seja, seu arranjo tridimensional,
fazendo com que sua atividade biológica seja perdida na maioria dos casos.

A desnaturação não rompe as ligações peptídicas (lembra que estas são muito fortes e
podem sobreviver por anos no nosso organismo?) e pode ser causada pelo aumento da
temperatura (de importância relevante quando temos febres altas), extremos de pH, solventes
orgânicos (por exemplo, a acetona ou o etanol), solutos (ureia), exposição a detergentes e
agitações vigorosas (estas últimas de maior aplicação em laboratórios de pesquisa e análises
clínicas). A renaturação pode ocorrer caso o meio volte à sua composição anterior, como visto
para a ribonuclease, porém nem sempre isso acontece.
5 ENZIMAS

Começaremos esse módulo pelas enzimas devido à sua proximidade com as


proteínas, que estudamos no módulo anterior. Por definição, as enzimas são os catalisadores 24
das reações bioquímicas dos sistemas biológicos. E qual a importância dessa catálise?
Explicaremos por meio de um exemplo bem simples. Utilizamos o açúcar (sacarose) para gerar
energia para todas nossas atividades diárias. Essa energia é gerada com a conversão do açúcar
em CO2 e H2O na presença de oxigênio.

Mas não vemos o açúcar se transformar em CO2 e H2O quando o compramos no


mercado. Essa reação é termodinamicamente favorável, porém é muita lenta. E aí entram os
catalisadores, com a função de aumentar a velocidade das reações (por intermédio da
diminuição da energia de ativação necessária para que a reação ocorra), possibilitando o
aproveitamento destas em uma escala de tempo útil para a manutenção da nossa vida.

Em geral as enzimas são proteínas altamente especializadas, com exceção de um


pequeno grupo de enzimas que são compostas por moléculas de RNA catalítico. O estudo das
enzimas é de grande importância prática, seja na área da saúde (quando algumas deficiências
genéticas podem levar às alterações enzimáticas, comprometendo funções vitais) ou na indústria
(farmacêutica e alimentícia, em que algumas enzimas são utilizadas na produção de antibióticos
em larga escala), havendo uma área de estudo específica para esta classe de biomoléculas: a
enzimologia.

Vamos começar a estudar as enzimas por meio da sua nomenclatura, para facilitar
futuramente, quando alguns termos mais técnicos forem utilizados. A nomenclatura das enzimas
é normatizada pelo NC-IUBMB (Comitê de Nomenclatura da União Internacional de Bioquímica e
Biologia Molecular) e é dividida em seis classes, segundo a natureza das reações químicas que
elas catalisam. Estas classes foram organizadas no formato de tabela para facilitar a
visualização. Não é necessário memorizá-las, mas é interessante conhecê-las.
Classe da Enzima Função enzimática

1. Oxidorredutase Reações de oxidorredução, transferindo prótons (H+) ou hidretos (H-)

2. Transferase Reações com transferência de grupos químicos funcionais


25
Reações de hidrólise, utilizando a água como receptor de grupos
3. Hidrolase
químicos funcionais

4. Liase Reações envolvendo ligações duplas

5. Isomerase Reações de transformação de uma molécula em seu isômero

Reações com formação de ligação química, utilizando o ATP como


6. Ligase
fornecedor de energia

Ainda, as enzimas são subdivididas em outras categorias, sendo identificadas por um


número denominado EC. Por exemplo, a EC 3.5.1.5. é a urease (e pertence à classe 3 –
hidrolase). Dica: Repare que geralmente as enzimas terminam pelo sufixo –ase adicionado ao
nome do substrato ou da ação que exerce. Assim, a urease catalisa a hidrólise da ureia.

Caso você tenha interesse, existe uma base de dados muito interessante para
nomenclatura e classificação enzimática. O site chama-se BRENDA (http://www.brenda-
enzymes.org) e traz a nomenclatura, os números EC, dados físicos e funcionais, propriedades
moleculares e dados sobre a estrutura de cada enzima para diversos organismos. Vale à pena
conferir.

Devido à sua natureza proteica, devemos considerar alguns fatores que podem afetar
o funcionamento das enzimas. O primeiro deles é a temperatura, que pode desnaturar a enzima
por intermédio da alteração da sua estrutura terciária por afetar as ligações fracas que a
mantém, alterando o sítio ativo, que é o local onde as moléculas (substratos) se ligam à enzima
para que a reação ocorra.
Outro fator importante é o pH do meio, que em valores extremos pode exercer o
mesmo efeito da temperatura sobre as enzimas. Geralmente a faixa de trabalho destas é em pH
entre 5 e 9, e leves alterações podem afetar a ligação do substrato à enzima (por exemplo,
ionizando-o) ou afetar o sítio de ligação. Aqui entra a importância dos tampões que estudamos
no último módulo, você se lembra deles?

Ainda, a atividade enzimática pode ser afetada pela ausência de cofatores. Os 26


cofatores são moléculas não proteicas que se ligam às enzimas para que estas exerçam suas
funções catalíticas. Assim, a anidrase carbônica, por exemplo, necessita de moléculas de zinco
para atuar (logo, o zinco é o cofator desta enzima, e sua ausência pode afetar o funcionamento
enzimático).

FIGURA 5 – ANIDRASE CARBÔNICA

FONTE: SERBIOLOGIA, 2011

Este é um esquema da anidrase carbônica, mostrando o zinco atuando como cofator –


esfera clara central. Esta enzima é importante no transporte de CO2 e no controle do pH
sanguíneo. Outros fatores que afetam o funcionamento das enzimas são a concentração do
substrato e da própria enzima. Como são os dois componentes principais da reação enzimática,
alterações em suas concentrações levam a mudanças na velocidade da reação enzimática,
descrita por diferentes modelos matemáticos, sendo o principal deles a Equação de Michaelis-
Menten:
Nesta equação, o v é a velocidade da reação, definida pela multiplicação entre a
velocidade máxima da reação e a concentração do substrato, dividida pela somatória da 27
concentração do substrato e da constante Km (denominada constante de Michaelis), que é a
constante de dissociação do complexo substrato-enzima, medindo, portanto, a estabilidade deste
complexo. Essa equação descreve um gráfico em hipérbole retangular:

A equação e o gráfico de Michaelis-Menten são muito utilizados nos estudos de


cinética enzimática por representar a grande maioria das enzimas e são muito importantes na
elucidação do mecanismo catalítico enzimático. Voltando aos fatores que afetam o
funcionamento das enzimas, temos a inibição enzimática, que pode ser ocasionada por
moléculas que se ligam às enzimas, alterando a ligação destas com os substratos ou o número
de enzimas disponíveis e, consequentemente, reduzindo a atividade enzimática.

A maioria dos inibidores são substâncias muito parecidas com os substratos, mas que
não reagem da mesma forma frente às enzimas. Essa inibição pode ser “competitiva”,
“incompetitiva” ou “não competitiva”. Vale à pena aprofundarmos um pouco mais nestes
mecanismos de inibição, já que a partir de dados de inibição enzimática podemos obter
informações quanto à natureza da química e da conformação do sítio de ligação ao substrato,
além da importância desta área no desenvolvimento de quimioterápicos (por meio do bloqueio da
ação de enzimas específicas).

O inibidor é competitivo quando compete diretamente com o substrato pelo sítio de


ligação da enzima. Normalmente possui estrutura muito semelhante com o substrato, mas
pequenas diferenças provocam diferentes tipos de interações com o sítio de ação, fazendo com
que a ligação enzima-substrato não seja reativa. Logo, um inibidor competitivo atua reduzindo a 28
concentração de enzima livre disponível para se ligar ao substrato.

Essa ligação do inibidor com a enzima pode ser temporária (reversível) ou irreversível.
Neste último caso o inibidor é dito inativador da enzima, por inativar a ação desta
definitivamente. Um exemplo de inibição competitiva é a reação entre o metotrexato (inibidor) e a
succinato-desidrogenase, uma enzima do ciclo do ácido ciclo (nos próximos módulos
estudaremos os metabolismos).

Já na inibição incompetitiva o inibidor liga-se ao complexo enzima-substrato, e não à


enzima livre. Este inibidor não possui, necessariamente, uma semelhança estrutural com o
substrato, e afeta a afinidade entre este e a enzima. A terceira forma de inibição é a “mista” ou
“não competitiva”, em que o inibidor liga-se tanto à enzima quanto ao complexo enzima-
substrato. Na prática estes mecanismos de ação são mais importantes para enzimas que
possuem vários substratos e são importantes em experimentos bioquímicos.

FIGURA 6 – MENCANISMO DE AÇÃO INIBITÓRIO COMPETITIVO

Mecanismo de ação inibitório competitivo, onde uma molécula representada em vermelho se liga à
enzima (em roxo), impedindo o substrato (em azul) de formar o complexo enzima-substrato e dar
sequência à reação enzimática, formando os produtos de interesse ao organismo.

FONTE: CORREIA, J. 2011


Esta figura ilustra o mecanismo de ação inibitório competitivo, em que uma molécula
representada em vermelho se liga à enzima (em roxo), impedindo o substrato (em azul) de
formar o complexo enzima-substrato e dar sequência à reação enzimática, formando os produtos
de interesse ao organismo. Embora todas as enzimas tenham sua importância biológica em
nossas vidas, algumas merecem destaque. Uma delas é a glutationa e suas enzimas
relacionadas, que possuem papel central na biotransformação e eliminação de compostos
29
exógenos e na defesa das células contra o estresse oxidativo.

(Glutationa)

Você se lembra da nossa conversa sobre as proteínas? Repare nesta molécula as


duas ligações peptídicas. Trata-se de um tripeptídeo, que devido às suas atividades catalíticas e
reações com recuperação da forma inicial molecular pode ser classificado como enzima. Vamos
finalizar esta primeira parte de nossos estudos falando um pouco sobre as vitaminas.

Elas atuam no nosso organismo como precursoras de coenzimas. As coenzimas


possuem mecanismo semelhante aos cofatores. Em geral, as enzimas não são muito adaptadas
para catalisarem reações de oxidorredução. As coenzimas facilitam essas reações, porém
diferentemente das enzimas têm suas estruturas químicas modificadas após a reação.

Por definição, as vitaminas são compostos orgânicos presentes nos alimentos e


embora essenciais para o correto funcionamento do organismo, podem levar a doenças em caso
de falta ou excesso. Ainda, não podem ser digeridas pelo ser humano em quantidades
apreciáveis.
Podem ser classificadas em lipossolúveis ou hidrossolúveis de acordo com suas
solubilidades em água e são representadas por letras ou letras e números. Assim, o ácido
ascórbico também é chamado de vitamina C e/ou ácido fólico de vitamina B9. As vitaminas
lipossolúveis são as vitaminas A, D, E e K (memorize isto), e não são precursoras de coenzimas.
Todas as outras são hidrossolúveis e seguem o que foi dito nos parágrafos anteriores.

Curiosidade: Acredita-se que nossos antepassados tivessem a capacidade de 30


sintetizar as vitaminas, assim como as plantas e alguns microrganismos ainda as produzem.
Porém, com a evolução as vitaminas passaram a estar presentes nas dietas, tendo sido perdida
a maquinaria celular para suas sínteses (com exceção da vitamina D).

(Estrutura química da vitamina C)


6 CARBOIDRATOS

Os carboidratos (hidratos de carbono) são as biomoléculas mais abundantes na


natureza. Muitas vezes são chamados de açúcares ou sacarídeos e são definidos pela sua 31
composição química característica: carbono, hidrogênio e oxigênio, embora algumas vezes
possam apresentar nitrogênio, fósforo ou enxofre em suas moléculas.

Duas principais funções são relacionadas aos carboidratos. A primeira é a energética,


em que as moléculas são convertidas em energia para os trabalhos celulares, armazenada em
nosso organismo sob a forma de ATP. O carboidrato pode ser armazenado para posterior
utilização. Nas plantas este processo ocorre nos amiloplastos e a forma armazenada é o amido.
Já nos animais armazena-se o glicogênio no fígado e nos músculos.

Outra função importante dos carboidratos é a estrutural, em que polímeros insolúveis


funcionam como elementos estruturais e de proteção nas paredes celulares bacterianas e
vegetais e nos tecidos conjuntivos de animais. Ainda atuam como lubrificante e participam do
processo de reconhecido e coesão entre células, participam da composição dos ácidos nucleicos
e quando covalentemente ligados a proteínas ou lipídeos podem atuar na sinalização para
determinação da localização intracelular ou destino metabólico de compostos.

Os monossacarídeos são as unidades básicas dos carboidratos e é o número de


unidades que define a classificação do carboidrato. Assim, temos os monossacarídeos, os
dissacarídeos, os oligossacarídeos e os polissacarídeos. Outra classificação é quanto ao produto
de hidrólise do carboidrato, que é classificado em holosídeo quando a hidrólise gera somente
monossacarídeos (ex.: rafinose) ou heterosídeo quando a hidrólise gera monossacarídeos e
outros compostos.

Vamos agora estudar um pouco mais sobre as propriedades dos carboidratos, de


acordo com a classificação pelo número de monossacarídeos, a nomenclatura e a importância
biológica de alguns carboidratos. Os monossacarídeos são os carboidratos mais simples e são
compostos por aldeídos ou cetonas contendo grupos hidroxila na molécula. As moléculas
possuem de três a sete átomos de carbono, que muitas vezes pode ser quiral. Comumente,
quando a molécula possui mais de cinco átomos de carbono ocorre ciclização na estrutura
química. Os monossacarídeos podem ser classificados de acordo com a natureza química de
seus grupos carbonila e o número de átomos de carbono.

Assim, se o grupo carbonila é um aldeído o açúcar é uma aldose e se o grupo


carbonila é uma cetona o açúcar é uma cetose. Já de acordo com o número de carbonos, temos
trioses, tetroses, pentoses e assim sucessivamente. Os monossacarídeos são compostos 32
incolores, sólidos cristalinos, naturalmente solúveis em água e a maior parte deles possui sabor
doce. A quiralidade destas biomoléculas pode ser representada pelas fórmulas de projeção de
Fischer (vale à pena buscar textos explicativos sobre este assunto) e os D-carboidratos são mais
abundantes na natureza do que os L-carboidratos.

A tabela abaixo mostra a estrutura de alguns monossacarídeos, suas classificações,


principal importância biológica e estruturas químicas:

Carboidrato Classificação Importância biológica Estrutura química

composto intermediário da
gliceraldeído triose
glicólise

matéria-prima para a síntese


desoxirribose pentose
do DNA

Utilizada para a obtenção de


Glicose Hexose
energia

Os dissacarídeos são formados pela ligação covalente entre dois monossacarídeos,


ligação esta denominada O-glicosídica. Esta ligação é um análogo em carboidratos da ligação
peptídica em proteínas e pode ser hidrolisada por enzimas denominadas glicosidases. Abaixo
está uma tabela contendo alguns dissacarídeos disponíveis na dieta humana:
Carboidrato Constituintes Importância biológica Estrutura química

função energética; encontrada


sacarose glicose + frutose na beterraba e na cana de
açúcar

função energética; encontrada


lactose glicose + galactose
no leite 33

função energética; encontrada


maltose glicose + glicose
em vegetais

Quanto à nomenclatura dos dissacarídeos, primeiro escreve-se a configuração do


monossacarídeo à esquerda, seguido do seu nome. Indica-se então entre parênteses os átomos
de carbono que estão fazendo parte da ligação glicosídica e depois a configuração e o nome da
segunda unidade monomérica. Assim, a maltose também pode ser denominada α-D-
glicopiranosil-(14)-β-D-glicopiranose, onde os termos “pirano” são utilizados para indicar que o
anel possui 6 átomos de carbono (o termo seria “furano” caso o anel possuísse 5 átomos de
carbono).

Uma propriedade importante em grande parte dos carboidratos é a capacidade de


serem oxidados por íons cúpricos (Cu2+) e férricos (Fe3+). Os açúcares que apresentam esta
propriedade são ditos redutores e não formam glicosídeos, devido à facilidade com que os
grupos aldeídos presentes na molécula reduzem agentes oxidantes fracos.

Quanto aos polissacarídeos, também denominados glicanos, diferem entre si de


acordo com a natureza das unidades monossacarídicas, os tipos de ligações glicosídicas, o
comprimento das cadeias e o grau de ramificação destas. Assim, quando o polissacarídeo é
composto por apenas um único tipo de unidade monomérica ele é dito homopolissacarídeo, e
quando possui mais de um tipo, heteropolissacarídeo.

Os homopolissacarídeos mais importantes são o amido e o glicogênio, utilizados para


o armazenamento de energia pelas células, e a celulose e a quitina, utilizados na composição da
estrutura das paredes celulares vegetais e de exoesqueletos de animais, respectivamente.
(amido) (glicogênio) 34

(celulose) (quitina)

Repare que diferente das proteínas e dos ácidos nucleicos, os polissacarídeos formam
polímeros lineares e também ramificados, já que as ligações glicosídicas podem ser feitas com
qualquer hidroxila dos monossacarídeos. Mas, felizmente para nossa compreensão, a maioria é
linear e os poucos polissacarídeos ramificados apresentam formas bem definidas.

Dentre os heteropolissacarídeos, temos como exemplo os glicosaminoglicanos,


compostos por monossacarídeos ligados ao ácido urônico ou sulfato, e os peptideoglicanos, que
são monossacarídeos ligados a peptídeos. Os primeiros fazem parte da lubrificação nas
articulações e como matriz extracelular no tecido conjuntivo, já os segundos atuam
estruturalmente no envoltório celular de bactérias.
7 LIPÍDEOS

Outra classe importante dentro das biomoléculas é a dos lipídeos. O termo lipídeo vem
do grego lipos, que significa gordura, e embora seja uma classe que engloba compostos 35
quimicamente muito diferentes envolvendo C, H e O, todos possuem uma propriedade em
comum: são insolúveis em água.

O sistema oficial para nomenclatura não é muito utilizado, mas, basicamente, o número
de átomos de carbono é indicado pelo seu prefixo grego, assim um lipídeo com 12 C tem seu
nome iniciado em –dodeca e um com 14 C, –tetradeca. Os sufixos dos lipídeos saturados (sem
ligações duplas) têm sufixo –anoico e dos insaturados, –enoico. Por exemplo, o ácido linoleico é
oficialmente denominado 9(Z),12(Z)-octadecadienoico.

Dentro da classificação dos lipídeos temos, principalmente, os ácidos graxos, os


triacilgliceróis, os glicerofosfolipídeos e os esfingolipídeos. Vale à pena conhecermos um pouco
mais sobre cada uma dessas classes devido às importantes funções que elas desempenham em
nosso organismo. Os ácidos graxos são derivados dos hidrocarbonetos e apresentam como
característica o baixo estado de oxidação (são compostos muito reduzidos).

Apresentam de 4 a 36 átomos de carbono, que podem estar em cadeias ramificadas


ou não. Devido à rotação relativamente livre das ligações C–C, os ácidos graxos saturados são
altamente flexíveis, podendo adotar diferentes conformações. Como são insolúveis em água,
circulam no sangue ligados a um transportador proteico, a albumina. Estes compostos são muito
importantes na constituição das membranas celulares e suas propriedades de flexibilidade e
fluidez são fundamentais para as propriedades das membranas.
FIGURA 7 – ÁCIDO GRAXO

36

Os triacilgliceróis são triésteres de ácidos graxos e glicerol encontrados em gorduras e


óleos (que são uma mistura complexa de triacilgliceróis). Embora não participam da composição
das membranas celulares, esta classe é a mais abundante dentro dos lipídeos e são importantes
como reserva de energia para os animais, principalmente nos adipócitos (células especializadas
no armazenamento de gorduras).

Os glicerofosfolipídeos são moléculas anfifílicas, ou seja, possuem “caudas” alifáticas


apolares e “cabeças” polares (derivadas de alcoóis). São os principais constituintes das
membranas celulares, formando a bicamada lipídica, característica das membranas animais.
Outra classe importante é a dos esfingolipídeos, também importantes para as membranas
celulares. Os compostos dessa classe não apresentam o glicerol em sua estrutura e além da
“cabeça” polar, possuem duas “caudas” apolares.

Curiosidade: o médico e químico Johann Thudichum é o descobridor dos


esfingolipídeos e deu esse nome para este grupo em homenagem às esfinges gregas, já que
não fazia ideia das funções biológicas destes ácidos graxos. Hoje sabemos que, na superfície
celular, são muito importantes como sítios de reconhecimento biológico.
(exemplo de triacilglicerol)
37

(exemplo de esfingolipídeo)

A participação desses compostos em membranas celulares resulta de uma


propriedade interessante dos lipídeos. Como alguns grupos apresentam moléculas anfifílicas, e
como vimos anteriormente, nosso corpo é constituído por uma grande porcentagem aquosa, os
lipídeos interagem entre si formando micelas e bicamadas, para eliminar contatos desfavoráveis
energeticamente entre a água e as “caudas” apolares destes compostos.

As micelas tendem a ser formadas quando os compostos apresentam uma única


“cauda”. Já as bicamadas se formam com glicerofosfolipídeos e esfingolipídeos. Quando essa
junção de compostos químicos apolares envolve um conteúdo interno, por exemplo, de algum
solvente, o composto resultado é dito lipossomo, que é uma ferramenta importante no
carreamento de compostos, por exemplo, fármacos.

Embora temos visto lipídeos como componentes de armazenamento e estrutura


celular, muitos lipídeos possuem a importante função biológica de atuar como sinais, cofatores e
pigmentos. Exemplos são os hormônios e os fatores de crescimento. Os hormônios são
constituídos, em sua maioria, pelos lipídeos da classe dos esteroides. Já as classes dos
fosfatidilinositóis e alguns derivados da esfingosina são importantes para a função de sinalização
intracelular.

Para sinalização entre células próximas são utilizados os compostos da classe dos
eicosanoides, como as prostaglandinas, os tromboxanos e os leucotrienos. Estas classes não 38
serão vistas em detalhes neste curso já que o foco é em bioquímica. Os estudos dos
eicosanoides, por exemplo, se enquadram melhor dentro da farmacologia. Já as membranas
biológicas são amplamente estudadas dentro de outras áreas da biologia.

Como você pode ver, a bioquímica muitas vezes é uma área multidisciplinar, e por isso
recomendo que você sempre possa dar uma lida e uma estudada em outros assuntos da área
biológica e da saúde, para que cada vez mais seus conhecimentos em bioquímica se
solidifiquem. Dito isso, vamos à última classe de biomoléculas deste curso: os ácidos nucleicos.
8 ÁCIDOS NUCLEICOS

Vamos começar nossos estudos em ácidos nucleicos por meio da definição deles.
Ácidos nucleicos são macromoléculas formadas por nucleotídeos, que por sua vez são ésteres 39
de fosfato de um açúcar de cinco carbonos contendo uma base nitrogenada. Esta base
nitrogenada pode vir de uma pirimidina (formando as bases citosina, uracila e timina) ou de uma
purina (formando a guanina e a adenina).

FIGURA 8 – ESTRUTURA BÁSICA DO NUCLEOTÍDEO

Fonte: COCEDUCAÇÃO, 2011

Os ácidos nucleicos são classificados quanto ao açúcar que contêm. Assim, quando o
açúcar é uma ribose o ácido nucleico resultante é o RNA. Já quando o açúcar é uma
desoxirribose o ácido nucleico resultante é o DNA. O DNA é muito conhecido por suas funções
de armazenamento e transmissão de informações biológicas. Já o RNA possui mais funções e
podem ser divididos em várias classes.

O RNA ribossômico (rRNA) são estruturas complexas responsáveis pela síntese de


proteínas dentro dos ribossomos. Já o RNA mensageiro (mRNA) atua como intermediário,
transportando as informações genéticas do gene para os ribossomos. Temos também o RNA
transportador (tRNA), que traduz a informação contida no mRNA em uma sequência de
aminoácidos.

Ainda, os ácidos nucleicos podem desempenhar outras funções, como a de


transportadores de energia, cofatores enzimáticos e mensageiros químicos, participando de
processos de regulação biológica. Vale à pena estudarmos um pouco mais os processos de
replicação, transcrição e tradução, também conhecidos como “expressão gênica”, que consiste 40
em entender como uma molécula de DNA pode gerar RNAs e as proteínas de nosso organismo.

Importante: O termo transcrição é utilizado para a produção do RNA a partir do DNA, já


o termo tradução é dado para a produção das proteínas a partir do RNA. Temos ainda a
replicação (ou duplicação), que é a formação da molécula de DNA a partir dela mesma. Assim:

FIGURA 9 – TRANSCIRÇÃO E TRADUÇÃO

FONTE: TURMA DO MÁRIO, 2011

A estrutura do DNA envolve a participação de duas metades (denominadas fitas)


complementares. Essas duas fitas são torcidas uma em volta da outra formando a dupla hélice
de DNA. Para que ocorra a divisão celular as fitas se separam e cada uma serve de molde para
que a célula sintetize outra fita complementar, gerando duas moléculas de DNA idênticas que
vão cada uma para uma célula-filha durante o processo de divisão celular.

O interessante é que a célula possui uma maquinaria eficiente de correção de erros.


Assim, quando alguma fita sofre uma lesão, a célula consegue pode reparar este erro e
continuar a produzir RNA de forma eficiente, garantindo a continuidade das informações contidas
no DNA. Para a produção do RNA, durante o processo de transcrição, algumas enzimas atuam
separando as duas fitas de DNA para que nucleotídeos complementares possam se ligar aos
moldes das fitas.

A seleção de qual nucleotídeo vai se ligar é feita pela enzima RNA-polimerase e segue
uma exigência: a base nitrogenada guanina (G) sempre é ligada com uma citosina (C) e vice- 41
versa; já a base nitrogenada adenina (A) pode ser ligada à base timina (T), caso a molécula
resultante seja o DNA (durante a replicação) ou à base uracila (U), caso a molécula resultante
seja o RNA (durante a transcrição).

Outra diferença interessante entre a replicação e a transcrição é que durante esta


segunda as fitas de DNA não se separam totalmente. Assim, durante todo o processo existe um
complexo DNA-RNA-DNA e somente uma fita é transcrita por vez. Embora a transcrição seja um
processo relativamente simples, existe uma vasta maquinaria complexa de controle preciso
durante todo o processo.

Ainda, em eucariotos, a maioria do RNA transcrito pelo DNA passa por modificações
pós-transcricionais extensas para se tornar funcional. Essas modificações envolvem a adição de
uma “cabeça” contendo 7-metilguanosina e uma “cauda” de ácido poliadenílico, além de um
splicing gênico, em que algumas regiões denominadas íntrons são removidas do RNA e as
regiões restantes, denominadas éxons, são religadas nas suas ordens originais, formando o
RNA maduro.

FIGURA 10

FONTE: NEHMI, 2011


O processo de tradução ocorre nos ribossomos (organelas contendo dois terços de
rRNA e um terço de proteínas). Em uma primeira etapa o tRNA leva os aminoácidos ao
ribossomo para formar uma proteína. O mRNA que está lá não se liga diretamente aos
aminoácidos e sim ao tRNA (que está covalentemente ligado a um aminoácido).

Um conceito importante para continuarmos a falar sobre a tradução é o de códon e


anticódon. Um códon é uma sequência de três bases nitrogenadas de mRNA que codificam para 42
um aminoácido. Já o anticódon é a sequência de três bases nitrogenadas complementares de
tRNA complementar ao códon.

Por exemplo, o aminoácido valina é reconhecido pelo códon guanina-uracila-(outra


base nitrogenada qualquer) (GUU, GUC, GUA e GUG). Já o aminoácido tirosina é reconhecido
pelos códons UAU e UAC. Três códons estão reservados para o processo de parada de
tradução: UAA, UAG e UGA, e um códon está reservado para o processo de início da tradução
(e também para a codificação da metionina): AUG. Em conjunto, todas as sequências são
conhecidas como o “código genético”.

Voltando ao processo de tradução nos ribossomos, o mRNA é passado através do


ribossomo, e cada um dos códons, na sua vez, liga-se ao tRNA correspondente (seguindo o
mesmo processo de ligação descrito anteriormente: G–C, C–G, A–U e A–T. Quando isto ocorre
o resíduo de aminoácido forma uma ligação peptídica com o resíduo anterior (lembra-se das
ligações peptídicas?) e a cadeia vai crescendo, formando a cadeia polipeptídica (estrutura
primária), que após se desligar dos ribossomos forma ligações fracas que dão origem às
estruturas secundárias e terciárias das proteínas por meio de processos de modificações pós-
traducionais.
FIGURA 11

43

FONTE: GUIA DA BIO, 2011

Uma função interessante dos ácidos nucleicos é a participação nos mecanismos de


sinalização que possuímos. Nossas células produzem diferentes respostas a partir do ambiente,
por intermédio de hormônios ou outros sinais químicos extracelulares. Após a interação destes
sinais (ditos mensageiros primários) com a superfície celular, por meio de receptores proteicos e
lipídicos, ocorre a produção de mensageiros secundários dentro das células, que por sua vez
são responsáveis por alterações adaptativas no interior da célula.

Na maioria das vezes esse mensageiro secundário é um nucleotídeo, sendo que o


mais comum é o AMP cíclico (cAMP) (adenosina 3’,5’-monofosfato cíclico), que é formato a partir
do ATP por meio de uma enzima presente na membrana interna das células, a adenilil ciclase.
Outro composto que também possui essa função de mensageiro secundário é o cGMP.

Para finalizar este módulo e nossos estudos em biomoléculas, é interessante saber um


pouco sobre as considerações sociais, éticas e legais envolvendo principalmente a manipulação
dos ácidos nucleicos. Com a descoberta da estrutura do DNA, a área da engenharia genética
passou a se desenvolver e hoje a ciência é capaz de manipular o DNA de maneira complexa,
incluindo sua síntese, modificações estruturais e incorporação em organismos vivos.
As discussões éticas surgiram quando pesquisadores visualizaram a possibilidade de
inclusão de genes tóxicos em bactérias inofensivas ao ser humano, gerando patógenos mortais.
E essas discussões geraram dois grandes grupos de pesquisadores e mesmo dentro da
sociedade: o daqueles que acreditavam em enormes benefícios potenciais das pesquisas nesta
área de DNA recombinante, desde que precauções de segurança fossem criadas e o grupo dos
que acreditavam em potenciais riscos aos seres humanos e/ou ao ambiente, a ponto de não
44
concordarem com a continuidade das pesquisas nesta área sob qualquer circunstância.

O primeiro ponto de vista prevaleceu e algumas leis foram criadas para aqueles que
trabalham com a manipulação genética. Alguns experimentos perigosos foram proibidos, outros
necessitavam de exigências de contenções de organismos geneticamente modificados, tanto
física quanto biologicamente.

Até o momento não há organismos vivos alterados geneticamente que apresentam


riscos descritos à nossa saúde e muitas vezes as técnicas de DNA recombinante têm ajudado a
eliminar riscos causados por outros patógenos (especialmente os virais, como no caso do vírus
da AIDS).

Porém, algumas discussões devem ser pensadas, como por exemplo: se conseguimos
alterar funções complexas do nosso organismo, afetando, por exemplo, nossas capacidades
físicas ou de inteligência, quais alterações seriam desejáveis? Sob quais circunstâncias
deveriam ser feitas? Quem deveria decidir se elas deveriam ser realizadas?

Ainda, a clonagem animal e vegetal já é realizada. Deveríamos clonar seres humanos


com características desejáveis? Poderíamos utilizar informações genéticas para avaliar a
capacidade individual para determinados cargos e funções? Essas questões devem ser sempre
repensadas e uma área foi criada justamente para tratar delas. É um ramo da filosofia
denominado bioética. Um filme muito interessante que trata desse tema é o “Gattaca –
Experiência Genética”, de 1997.

Conhecer as biomoléculas e estudar seus funcionamentos permite que você esteja


sempre à frente destas discussões que guiam nossa sociedade, permitindo que você seja um
agente ativo em nosso processo evolutivo, pense nisso! Finalizamos nossos estudos em
biomoléculas. A partir do próximo módulo estudaremos o metabolismo e a bioenergética dentro
da área bioquímica. Até lá!!
Agora iniciaremos os itens mais importantes do metabolismo. O tema é um pouco mais
pesado que os anteriores, porém de muita importância. Ele conecta todas às vias metabólicas e
faz-nos compreender o processo de respiração celular, com consumo de O2 e produção de
energia na forma de ATP. Reler esta aula algumas vezes irá colaborar para que os novos termos
utilizados sejam assimilados e você possa raciocinar bioquimicamente, resolvendo todos os
problemas bioquímicos que lhe forem apresentados. Vamos seguir os seguintes itens da ementa
45
da disciplina:

1 Ciclo de Krebs;
a. Definição, regulação e importância biológica.

2 Cadeia Respiratória;
b Definição, regulação e importância biológica.

Aproveite essa aula, e reestude-a sempre que achar necessário. Os conceitos


apresentados aqui são centrais para o entendimento de toda a integração entre as vias
metabólicas. Boa aula!
9 CICLO DE KREBS

O ciclo de Krebs, também chamado de ciclo do ácido cítrico é a via metabólica central
do nosso organismo, sendo responsável por grande parte da oxidação de carboidratos, ácidos
46
graxos e aminoácidos, além da produção de diversos precursores biossintéticos, ou seja, esta
via é anfibólica, porque atua tanto como catabólica quanto como anabólica.

Em resumo, o ciclo do ácido cítrico oxida o grupamento acetila da molécula acetil-CoA


formando CO2 e conservando a energia livre liberada por meio da formação de ATP (trifosfato de
adenosina). Vamos então estudar cada passo dessa via, seus mecanismos de regulação e a
forma de produção da acetil-CoA (que faz um link entre esta e as demais vias metabólicas).

O ciclo de Krebs é uma via cíclica e é dividido em oito etapas, com o ponto de partida
na formação do citrato a partir da condensação do acetil-CoA com o oxaloacetato catalisado pelo
citrato sintase. Essa enzima forma o intermediário citroil-CoA em seu sítio ativo, que então é
clivado em citrato e CoA, e primeiro se liga ao oxaloacetato, alterando sua conformação para
disponibilizar o sítio ativo do segundo substrato (o acetil-CoA), ou seja, um mecanismo de ajuste
induzido.

A segunda etapa desta via é a transformação reversível do citrato em isocitrato pela


enzima aconitase. Esta enzima contém um centro ferro-enxofre, forma um intermediário cis-
aconitato e promove a adição de uma molécula de água, que pode gerar o isocitrato ou então o
citrato. Embora somente 10 % dos produtos sejam o isocitrato, ele é rapidamente consumido na
próxima etapa do ciclo e, logo, a reação é deslocada para a formação dele.

O isocitrato é então oxidado a α-cetoglutarato e CO2 pela isocitrato desidrogenase, que


é uma enzima dependente de NAD+ e Mn2+. Outra oxidação ocorre para formar a succinil-CoA e
CO2 a partir do α-cetoglutarato pelo complexo da α-cetoglutarato desidrogenase. Nesta reação,
o NAD+ atua como receptor de elétrons e o CoA como carreador do grupo succinil.
A quinta etapa desta via é a conversão do succinil-CoA em succinato. Essa reação
ocorre por meio da enzima succinil-CoA sintetase, sendo que a energia liberada é utilizada na
ligação de anidrido fosfórico para formar ATP ou GTP. Embora o ATP e o GTP sejam
energeticamente equivalentes, a enzima nucleosídio difosfato quinase pode liberar o grupo
fosfato terminal do GTP para formar ATP, sendo esta a forma preferencial de conservação da
energia.
47
Na sexta etapa o succinato é oxidado a fumarato pela flavoproteína succinato
desidrogenase, firmamente ligada à membrana mitocondrial interna. Além de grupamentos ferro-
enxofre, esta enzima utilizada FAD para realizar a oxidação. Os elétrons retirados do succinato
possuem como receptor final o O2, formando 3 ATPs para cada 4 elétrons transferidos.

O fumarato é então hidratado a malato pela enzima fumarase, e na oitava e última


etapa do ciclo o malato é oxidado a oxaloacetato pela malato desidrogenase, enzima ligada ao
NAD+. O oxaloacetato formado é então rapidamente removido pela primeira enzima do ciclo
(citrato sintase), fechando o ciclo do ácido cítrico.

A figura abaixo, retirada do site Wikipédia, ilustra a via acima exposta:

FIGURA 13

FONTE: Wikipédia, 2011


Vamos agora reunir as informações contidas em uma volta do ciclo de Krebs:

 1 grupo acetila gera 2 moléculas de CO2;


 3 moléculas de NAD+ são reduzidas a NADH;
 1 molécula de FAD é reduzida a FADH2;
48
 1 grupo ATP é produzido.

Os 8 elétrons envolvidos das reações acima passam para a cadeia de transporte de


elétrons (que vamos estudar ainda neste módulo) reduzindo 2 moléculas de O2 a H2O. Ao total,
após todas as transferências de elétrons, temos um saldo de 12 moléculas de ATP.

Mas e o acetil-CoA inicial, de onde ele veio? Lembra-se do piruvato formado pela
glicólise? É ele, por intermédio do complexo da piruvato desidrogenase (PDH) que gera o acetil-
CoA. Este complexo é importante, também, por ser um modelo multienzimático onde os
intermediários químicos permanecem ligados às superfícies das enzimas até que o produto final
seja obtido.

Ainda, este complexo, localizado na mitocôndria, utiliza cinco cofatores, sendo que
quatro deles são derivados de vitaminas, e mostra como a combinação da regulação por
modificação covalente e por alosterismo resultam em um controle mais preciso das vias. Este
complexo é importante de ser estudado também por outro motivo: ele é muito semelhante ao
complexo da α-cetoglutarato desidrogenase que vimos anteriormente, refletindo uma origem
evolucionária comum.

Resumindo, a reação de descarboxilação oxidativa realizada pelo PDH envolve a


remoção do grupo carboxila do piruvato por meio da formação de CO 2, e os dois carbonos
restantes tornam-se o grupo acetil que se liga à CoA para formar o acetil-CoA que entra no ciclo
do ácido cítrico.

Vamos entender melhor como ocorre esse processo:


O PDH é constituído por três enzimas: piruvato desidrogenase (E1), diidrolipoil
transacetilase (E2) e diidrolipoil desidrogenase (E3). Estas enzimas estão presentes em várias
cópias no complexo, que em mamíferos pode ser observado em microscópio eletrônico, pois
contém cerca de 50 nm de diâmetro.

A E1 catalisa a descarboxilação do piruvato, produzindo hidroxietil-TPP e em seguida,


o grupamento hidroxietil é oxidado em um grupamento acetil. A E 2 é responsável por catalisar a 49
ligação do grupamento acetil com a CoA, formando o acetil-CoA. A E3 regenera o lipoato ligado à
E2 e que participa do processo anterior, passando os elétrons para o FAD e depois para o NAD+.

FIGURA 14 - ESQUEMA 3D DO COMPLEXO ENZIMÁTICO PDH

FONTE: EICN, 2011

Lembre-se da referência da participação de cinco co-enzimas? São elas: TPP (tiamina


pirofosfato), FAD (flavina adenina dinucleotídeo), CoA (coenzima-A), NAD (nicotinamida adenina
dinucleotídeo) e lipoato, sendo as quatro primeiras formadas a partir de vitaminas obtidas por
intermédio da alimentação.
Agora que você já sabe de onde vem o acetil-CoA que entra no ciclo de ácido cítrico e
consegue fazer um link entre a glicólise (glicosepiruvato), PDH (piruvatoacetil-CoA) e o
ciclo de Krebs, estudarão um pouco mais a regulação desta via.

Um ponto importante de controle é o complexo enzimático da piruvato desidrogenase.


Os produtos ATP, acetil-CoA e NADH inibem fortemente este complexo por meio de alosterismo,
impedindo a conversão do piruvato em acetil-CoA (que daria início ao ciclo do ácido cítrico). Já o 50
acúmulo de AMP, CoA e NAD+ são ativadores alostéricos deste complexo enzimático.

Porém, não é só a modificação alostérica que ocorre. Em mamíferos também ocorre à


regulação por modificações covalentes em uma subunidade da enzima E 1. Duas proteínas estão
presentes neste complexo para realizar esse tipo de controle. Uma proteína quinase específica
inativa a E1 por fosforilação, já uma proteína fosfoproteína fosfatase específica hidrolisa o
grupamento fosfato, ativando E1, sendo que a quinase é ativada de maneira alostérica pelo ATP.

Após o início do ciclo de Krebs, três passos são importantes para a regulação deste
ciclo, sendo que três fatores controlam a velocidade do fluxo por meio do ciclo: quantidade de
substratos, acúmulo de produtos e inibição alostérica retroativa das primeiras enzimas do ciclo.

As três enzimas que participam do controle são: citrato sintase, isocitrato


desidrogenase e α-cetoglutarato desidrogenase. A regulação delas se dá pelo acúmulo ou
disponibilidade dos substratos, NADH para as reações de desidrogenação e ATP para as duas
primeiras, sendo que a disponibilidade de Ca2+ nos músculos atua ativando a citrato sintase e a
α-cetoglutarato desidrogenase, assim como o complexo da piruvato desidrogenase.

A velocidade da glicólise está sempre coordenada à velocidade do ciclo de Krebs, não


só pela concentração de citrato, mas também pela inibição por ATP e NADH, comum a ambas
as vias. O citrato é um importante inibidor alostérico da fosforilação da frutose-6-fosfato pela
fosfofrutoquinase-1 na via glicolítica.

Para finalizarmos nossos estudos sobre o Ciclo de Krebs vamos ver um pouco mais
sobre a importância biológica deste ciclo. Já havíamos visto que esta via é anfibólica, ou seja, ao
mesmo tempo em que possui sua função catabólica, de degradação e conservação de energia,
também é utilizada por outras vias, por intermédio de seus intermediários, como matéria-prima
para a construção de outros compostos.
Assim como os intermediários do ciclo de ácido cítrico são utilizados por outras vias,
eles também devem ser repostos, afinal, a função catabólica desta via não pode ser
interrompida. Assim, as vias que interagem com o ciclo de Krebs são:

 Gliconeogênese: nós já estudamos a biossíntese da glicose no módulo anterior


51
e vimos à utilização do oxaloacetato como matéria-prima, você se lembra? Mas tenha sempre
em mente que o oxaloacetato é transportado da mitocôndria para o citoplasma na forma de
malato;

 Biossíntese de lipídeos: este ciclo será estudado no próximo módulo, mas posso
adiantar que é um ciclo que necessita de acetil-CoA, que também não atravessa a membrana
mitocondrial. Logo, o citrato, que pode atravessar a membrana, é degradado pela ação da ATP-
citrato-liase para fornecer o acetil-CoA citosólico;

 Biossíntese de aminoácidos: outro ciclo que veremos no próximo módulo,


utilizada o ciclo de Krebs por duas formas. A primeira é por meio do α-cetoglutarato, que é
convertido em glutamato por uma reação de aminação redutiva que envolve NAD + ou NADP+ por
intermédio da enzima glutamato-desidrogenase. A segunda é a transaminação do oxaloacetato
gerando glutamato;

 Biossíntese de porfirinas: esta via utiliza o succinil-CoA como matéria-prima;

 Oxidação completa de aminoácidos: esta via fornece acetil-CoA ao ciclo de


Krebs, após a transformação dos aminoácidos em fosfoenolpiruvato, piruvato e finalmente em
acetil-CoA, porém necessita de intermediários deste ciclo.

Outras reações participam da reposição de intermediários do ciclo do ácido cítrico,


sendo a principal delas a produção de oxaloacetato pela piruvato-carboxilase. O ativador desta
enzima é o acetil-CoA, e logo, quando esse está em excesso à enzima é ativada para produzir
oxaloacetato e iniciar o ciclo. Quando o acetil-CoA está presente em quantidades reduzidas e o
oxaloacetato está em excesso, este é transportado para fora da mitocôndria na forma de malato,
dando continuidade por meio da via da gliconeogênese.

Outras vias que participam da produção de intermediários do ciclo de Krebs são:

52
 Oxidação de ácidos graxos com número ímpar de carbono: geram succinil-CoA;

 Degradação dos aminoácidos isoleucina, metionina e valina: também geram


succinil-CoA;

 Transaminação e desaminação de aminoácidos: conforme visto geram


oxaloacetato e também α-cetoglutarato.

Nota-se que o ciclo de Krebs é a via central nas nossas células, interagindo com
praticamente todas as demais vias. Ainda, seus produtos reduzidos, NADH e FADH2 são
reoxidados pela cadeia de transporte de elétrons, que será estudada a seguir, ao mesmo tempo
em que ocorre a fosforilação oxidativa, e a energia livre liberada é acoplada à biossíntese de
ATP. Além disso, os intermediários do ciclo são utilizados na biossíntese de muitos constituintes
celulares vitais.
10 CADEIA RESPIRATÓRIA

A cadeia respiratória, composta pela fosforilação oxidativa e pelo transporte de


elétrons, é o estágio final da produção de energia em nosso organismo, com todas as etapas 53
oxidativas na degradação de carboidratos, gorduras e aminoácidos convergindo para ela, onde a
energia livre é convertida em ATP.

Resumidamente, a fosforilação oxidativa envolve a redução do O2 a H2O com elétrons


provindos do NADH e FADH2 e o processo ocorre nas mitocôndrias. Então, iniciaremos o estudo
do transporte de elétrons para, em seguida, estudarmos a fosforilação oxidativa. Embora estas
duas vias estejam rigidamente acopladas, a divisão será feita para que a aprendizagem possua
uma melhor didática. Ao final deste módulo você irá entender como o processo de respiração
celular funciona.

10.1 TRANSPORTE DE ELÉTRONS

A energia livre do transporte de elétrons do NADH e do FADH2 para o O2, via centros
redox ligados a proteínas, está acoplada à síntese de ATP. Estudaremos um pouco mais esse
processo.

Termodinamicamente, a oxidação do NADH é uma reação altamente exergônica, e


acoplada à síntese de ATP é termodinamicamente eficiente. O acoplamento ocorre por uma
cadeia transportadora de elétrons onde estes passam por quatro complexos proteicos contendo
centros redox, e não para o O2 diretamente, por meio da fosforilação oxidativa, gerando
aproximadamente 3 ATPs para cada NADH ou aproximadamente 2 ATPs para cada FADH 2.
Os elétrons são transportados dos complexos I e II para o complexo III pela coenzima
Q (CoQ, também denominada ubiquinona) e do complexo III para o complexo IV por meio do
citocromo c, disponibilizando energia livre para a produção de ATP.

O complexo I, que possui o formato de um L, é também chamado de NADH-


desidrogenase e é responsável por transmitir elétrons do NADH para a CoQ. É um complexo
contendo uma molécula de flavina mononucleotídeo e entre seis e sete centros ferro-enxofre, 54
todos apresentando atividade redox.

Já o complexo II, succinato:coenzimaQ-oxidorredutase, contém a enzima succinato-


desidrogenase, já vista no ciclo de Krebs, além de outras três subunidades, responsáveis por
transmitir elétrons do succinato para a CoQ. Embora essa transferência de elétrons não possua
energia livre suficiente para gerar a síntese de ATP, é importante pela entrada de elétrons de
alto potencial na cadeia de transporte de elétrons.

Outras enzimas também podem sintetizar e introduzir elétrons acionando a fosforilação


oxidativa: a gliceroil-3-fosfato desidrogenase e a ETF: ubiquinona-oxidorredutase, essa última
participante da oxidação dos ácidos graxos.

Após a passagem dos elétrons, seja pelo NADH ou pelo succinato, para a CoQ, o
complexo III (coenzimaQ:citocromo c-oxidorredutase) irá transferi-los para o citocromo c. Este
complexo possui quatro cofatores redox, sendo dois núcleos heme do tipo b, um núcleo heme do
tipo c e um centro ferro-enxofre.

O termo citocromo é dado para proteínas que contém grupamentos heme capazes de
alternar reversivelmente seus estados de oxidação Fe(II) e Fe(III) durante o transporte de
elétrons. Assim, por intermédio deste mecanismo, o citocromo c, uma proteína periférica de
membrana, liga-se alternadamente ao complexo III e IV com a função de transferência de
elétrons entre eles.

O último complexo, denominado IV (citocromo c oxidase, ou COX) é a enzima terminal


da cadeia de transporte de elétrons que reduz os quatro elétrons presentes em uma molécula de
O2 formando H2O. A COX de eucariotos é um dímero composto por 8 a 13 subunidades, e a
entrada dos quatro elétrons nela é praticamente simultânea.
Embora muitas pesquisas estivessem sendo realizadas na área, alguns pesquisadores
ainda questionam detalhes desta via, sendo que atualmente ela ainda é um tema de
investigação e discussão no meio científico.

A figura a seguir, do site Construindo Conhecimento, é bem ilustrativa quanto ao


processo de transporte de elétrons pela cadeia transportadora:

55

FIGURA - 15

FONTE: CONSTRUINDO CONHECIMENT (2011)

10.2 FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA

A fosforilação oxidativa é a responsável pela síntese do ATP e é catalisada pela


enzima ATP-sintase transladadora de prótons (ou complexo V). Embora seja impulsionada pelo
transporte de elétrons, faz-se necessário o acoplamento de energia para que a energia livre
liberada pelo transporte de elétrons seja conservada para utilização por este complexo.

Várias hipóteses foram formuladas para explicar o acoplamento:

 Acoplamento químico: esta hipótese foi formulada em 1953 por Edward Slater 56
sugerindo que o transporte de elétrons produziria intermediários reativos, que ao quebrarem
induziriam a fosforilação oxidativa. Porém, apesar dos esforços, nenhum experimento foi capaz
de identificar quais seriam esses intermediários, levando ao abandono desta hipótese;

 Acoplamento conformacional: foi desenvolvida em 1964 por Paul Boyer e diz


que o transporte de elétrons é responsável por gerar estados conformacionais “ativados” das
proteínas da membrana mitocondrial interna. Ao voltarem aos seus estados naturais, estas
proteínas iriam transferir a energia ao ATP. Embora alguns dados demonstraram que este é um
mecanismo que de certa forma pode contribuir para o processo, a falta de evidências
experimentais também levou esta hipótese ao abandono;

 Quimiosmose: Peter Mitchell formulou esta hipótese em 1961 e, embora


considerada controversa por alguns pesquisadores, é a que mais possui evidências
experimentais até o presente momento. Segundo ela, a energia livre é conservada pelo
bombeamento de prótons da matriz mitocondrial para o espaço intermembranas, criando um
gradiente eletroquímico de prótons que é, então, aproveitado para a produção de ATP.
Algumas observações sustentam esta última hipótese: a membrana mitocondrial
interna deve estar íntegra para ocorrer a fosforilação oxidativa, a membrana mitocondrial interna
é impermeável a íons (caso fosse permeável o gradiente eletroquímico se desfaria), o gradiente
eletroquímico é mensurável, compostos que deixam a membrana permeável “desacoplam” o
transporte de elétrons da fosforilação oxidativa, já uma acidez externa estimula a síntese de
ATPs.

O transporte de elétrons funciona a partir da matriz mitocondrial (região de baixa


concentração de prótons (H+) e potencial elétrico negativo para o espaço intermembranas em
contato com o citosol, região de alta concentração de prótons e potencial elétrico positivo. A
energia resultante é denominada força próton-motriz. Existem dois mecanismos sugeridos para
explicar o acoplamento da energia livre do transporte de elétrons ao transporte ativo de prótons:

 Mecanismo da alça redox: segundo este mecanismo, os centros, redox da


cadeia respiratória estão arranjados na membrana de forma que a redução envolveria
simultaneamente a aceitação de elétrons e prótons por um carreador. A reoxidação deste centro
por meio de um segundo carreador liberaria prótons no lado citosólico transferindo elétrons para 57
o lado da matriz. Porém, este mecanismo necessita de pelo menos três carreadores de H+ + e-, e
só temos dois conhecidos até hoje. Logo, sugere-se que este mecanismo ocorra com a junção
do mecanismo abaixo:

 Mecanismo de bombeamento de prótons: por este modelo a transferência de


elétrons resulta em alterações conformacionais no complexo IV. Estas alterações exporiam a
saída de prótons alternadamente entre os lados interno e externo da membrana.
Deve-se sempre ter em mente que os prótons são transportados por meio de ligações
ao longo de cadeias de grupos unidos por ligações de hidrogênio. Tal arranjo pode envolver a
participação de moléculas de água internas, que não aparecem nos equipamentos modernos,
como o raio-X, dificultando a elucidação exata do mecanismo de acoplamento.

Agora que entendemos um pouco das hipóteses sobre o acoplamento entre o


transporte de elétrons e a fosforilação oxidativa, vamos estudar o processo de geração de ATPs.

Já sabemos que a energia livre do gradiente eletroquímico de prótons por meio da


membrana mitocondrial é utilizada para a síntese de ATP pela ATP-sintase transladora de
prótons. Esta enzima possui duas unidades funcionais: F0 e F1. A proteína F0 é insolúvel em
água e contém oito subunidades, que contém um canal de translado de prótons. Já a F1 é
solúvel em água e composta de cinco subunidades. A subunidade F1 isoladamente não é capaz
de gerar ATP, e logo, sempre deve estar associada à subunidade F 0. A seguir está uma figura
desta enzima para facilitar as explicações posteriores.
FIGURA - 16

58

FONTE: RODRIGUES, G. O. B. (2011)

A F1 é composta por três subunidades α e três subunidades β (em verde na figura),


sendo estas últimas os sítios catalíticos. Além disso, contém uma subunidade γ (em azul na
figura) responsável pela junção entre F1 e F0, e 1 subunidade δ e 1 subunidade ε enroladas ao
redor da subunidade γ (em vermelho na figura). A F0 contém três subunidades denominadas a, b
e c formando um anel de ligação à F1, além de diversas outras subunidades de funções
desconhecidas.

A síntese do ATP pode ser dividida em três etapas:

 Translado de prótons, realizado pela F0;

 Formação da ligação fosfoanidrido do ATP, realizada pela F1;

 Acoplamento da dissipação do gradiente de prótons com a síntese de ATP,


realizada pela interação entre F0 e F1.
O mecanismo de síntese do ATP mais aceito até hoje foi proposto por Boyer e
assemelha-se à hipótese de acoplamento conformacional da fosforilação oxidativa, porém em
razão do translado de prótons e não pela transferência direta de elétrons conforme proposto
anteriormente.

A proposta é de que a F1 é composta de 3 protômeros: L (de ligação fraca ao


substrato), T (de ligação forte ao substrato) e O (que não se liga ao substrato). A formação do 59
ATP ocorreria da seguinte maneira:

1. Ligação do ADP e do Pi (fosfato) ao sítio de ligação no estado L;

2. Uma alteração conformacional a partir da ligação anterior mudaria o sítio L para o T,


catalisando a formação do ATP. Porém, outras duas subunidades também seriam alteradas,
convertendo o sítio T em O e o sítio O em L;

3. Uma unidade em sítio T transfere o ATP formado para outra subunidade em sítio O.

Esse mecanismo sugere que as alterações nas ligações são consequência da rotação
das subunidades α e β em F1. Logo, veja novamente a figura da enzima e imagine o processo da
seguinte maneira: a subunidade γ funciona como uma base fixa e giratória dentro das
subunidades α e β, sobre a qual as subunidades α e β giram em uma rotação livre captando
ADP e Pi e liberando ATP.

Como consequência a F0 também giraria estimulada por prótons que entrariam em um


canal hidrofílico entre as subunidades a e c, ligando-se a esta última. O anel c então giraria até
que a subunidade alcançaria um segundo canal hidrofílico que se abre para o lado de dentro,
liberando o próton.
FIGURA - 17

60

FONTE: BIOBIORADICAISLIVRES (2011)

Como dito, o transporte de elétrons e a fosforilação oxidativa estão firmemente


acoplados, devido à impermeabilidade da membrana mitocondrial interna à passagem de
prótons. Porém, alguns compostos são capazes de “desacoplar” este processo, por exemplo, o
2,4-dinitrofenol (DNF) e o carbonilcianeto-p-trifluorometoxifenil-hidrazona (FCCP).

Todo o processo descrito é denominado cadeia respiratória, pois envolve o uso do


oxigênio obtido pela respiração para a geração de energia. É esse processo que nos mantém
vivos. Os desacopladores químicos, em altas concentrações podem nos levar à morte por não
permitir o uso de oxigênio, interrompendo a respiração celular e a produção energética
necessária para a manutenção de nossas funções vitais.

O mecanismo de ação destes compostos é o aumento da permeabilidade da


membrana, que passaria a dissipar o gradiente eletroquímico de prótons, não ocorrendo a
síntese de ATP. Este processo gera calor e é uma função fisiológica encontrada no tecido
adiposo marrom (presente no pescoço e na parte superior do dorso).

Este tecido possui o composto termogenina. Os ácidos graxos livres (que possuem
concentração controlada pelo hormônio noradrenalina) ativam este composto, que desacopla o
sistema gerando calor e funcionando como uma termogênese sem tremores. Outros
desacopladores biológicos vêm sendo descritos no tecido adiposo branco e no músculo, porém
não se conhece ainda bem suas funções, embora haja sugestões do envolvimento de
termogênese induzida pela dieta.

Para finalizarmos este módulo vamos estudar um pouco o controle da produção de


ATP. Precisamos diariamente de uma alta quantidade de ATP, entretanto nem sempre de
maneira constante. Por exemplo, enquanto dormimos consumimos menos ATP. Porém, as vias
que produzem ATP estão sob controle coordenado, o que faz com que o ATP nunca seja 61
produzido mais rapidamente do que o necessário.

Como já vimos, as poucas reações irreversíveis constituem potenciais pontos de


controle das vias e são catalisadas por enzimas regulatórias sob controle alostérico. Na
fosforilação oxidativa a reação da citocromo c-oxidase, último passo da cadeia de transporte de
elétrons, é irreversível e, logo, um dos pontos de regulação importantes desta via.

Inicialmente o controle desta enzima ocorre pela concentração de seu substrato, o


citocromo c reduzido (c2+). Porém, esse está em equilíbrio com o restante do sistema acoplado.
Sua concentração depende, portanto do NADH e do ADP. Este tipo de controle é denominado
controle do aceptor.

Vamos agora para um exemplo prático. Se você está em repouso, a hidrólise do ATP
não é necessária em altas quantidades, logo, a concentração do citocromo c reduzido é baixa e
a fosforilação oxidativa é mínima. Já se você pratica atividades físicas, ocorre aumento da
hidrólise do ATP em ADP + Pi, aumentando a concentração de citocromo c reduzido e,
consequentemente, aumento na velocidade de transporte de elétrons e na fosforilação oxidativa
acoplada.

Vimos que a respiração celular ocorre em três etapas: na primeira os combustíveis


orgânicos (por exemplo, glicose) são oxidados formando moléculas de dois carbonos, o grupo
acetil do acetil-CoA; na segunda, este grupo entra no ciclo do ácido cítrico que o oxida
enzimaticamente a CO2, conservando a energia na forma de NADH e FADH2; na terceira etapa
estes cofatores reduzidos são oxidases, gerando prótons e elétrons, que são conduzidos por
meio da cadeia transportadora de elétrons até o O 2 (aceptor final de elétrons). Durante esta
etapa a energia é conservada na forma de ATP por intermédio da fosforilação oxidativa.
Como o ATP e o NADH são comuns a todas estas vias e são pontos de controle,
tornam-se necessário haver outros tipos de controle para integrar todas estas vias. Isso acontece
com a regulação de cada um dos pontos de controle da glicólise (hexoquinase, fosfofrutoquinase
e piruvatoquinase) e do ciclo de Krebs (piruvato desidrogenase, citrato sintase, isocitrato
desidrogenase e α-cetoglutarato desidrogenase) por meio de nucleotídeos de adenina e/ou
NADH.
62
Além disso, outros metabólitos também participam do controle, como por exemplo, o
citrato, que inibe a glicólise. O citrato inibe a PFK. Quando ocorre superprodução de ATP o ciclo
do ácido cítrico diminui sua velocidade nas reações com a isocitrato-desidrogenase (ativada por
ADP) e da α-cetoglutarato desidrogenase (inibida por ATP), aumentando a concentração de
citrato, que deixa a mitocôndria por um sistema transportador específico e restringe a quebra dos
carboidratos pela inibição da PFK.

Outro processo de inibição da glicólise é a oxidação de ácidos graxos, que geram


acetil-CoA. Este composto entra no ciclo de Krebs aumentando a concentração de citrato
gerado. Enquanto o citrato inibe a PFK, o acetil-CoA inibe o complexo da piruvato
desidrogenase, levando ambos a um aumento da glicose-6-fosfato, que inibe a hexoquinase.
Esse processo, embora não seja um ciclo, é denominado Ciclo de Randle e permite que os
ácidos graxos sejam utilizados como principal combustível para o metabolismo oxidativo no
músculo cardíaco, conservando a glicose para uso em áreas que a necessitam, como o cérebro.

A aula de hoje foi meio pesada, mas é o ponto central e chave do metabolismo em
bioquímica. Por isso, recomendo a releitura e uma dedicação maior nesta etapa, que integra
tudo o que vimos até agora e os tópicos do próximo módulo. Assim, até aqui você já possui uma
visão bem abrangente da bioquímica e é capaz de raciocinar em bioquímica para qualquer
desafio proposto. Qualquer dúvida não hesite em perguntar e busque maiores informações. Com
o tempo você vai se impressionar com a riqueza de detalhes que todas estas vias podem te
oferecer.

Prezado aluno, saudações!


Hoje finalizamos nosso curso apresentando algumas vias importantes, porém ainda
não totalmente esclarecidas pelos pesquisadores. Os temas de hoje são mais gerais (já que
detalhes das vias ainda não são conhecidos), mas não deixam de ser importantes para nosso
conhecimento global sobre as vias metabólicas. Vamos seguir os seguintes itens da ementa da
disciplina:

63

12) Metabolismo de Lipídeos:


b. Metabolismo do colesterol e frações;
c. Caso clínico: hiperlipidemia.

13) Metabolismo de Ácidos Nucleicos:


a. Formação e degradação das bases nitrogenadas;
b. Caso clínico: gota.

14) Metabolismo de Proteínas

15) Catabolismo de Aminoácidos:


a. Aminoácidos glicogênicos e cetogênicos.

16) Ciclo da Ureia:


a. Caso clínico: intoxicação por amônia.
11 METABOLISMO DE LIPÍDEOS

Dentre as diferentes vias de lipídeos existentes em nosso organismo, vamos estudar


neste curso a do colesterol, já que este é um lipídeo de grande importância fisiológica e clínica.
64
Quando em altos índices, está associado a doenças do sistema cardiovascular e derrames. Já
fisiologicamente, participa da estrutura das membranas celulares, é precursor dos hormônios
esteroides e dos ácidos biliares.

FIGURA 18 - ESTRUTURA QUÍMICA DO COLESTEROL

FONTE: O AUTOR, 2011

Quando vemos a estrutura química do colesterol pensamos: Nossa! Esta via de


biossíntese deve ser bem complicada, olha quantos carbonos ele possui! Porém, todos os
átomos de carbono do colesterol são derivados do acetato. As unidades formadoras do
colesterol são os isoprenos, unidades formadoras também dos outros lipídeos em vias
semelhantes à que vamos estudar.

A biossíntese do colesterol ocorre em quatro etapas. A primeira é a síntese do


mevalonato a partir do acetato. Durante esta etapa duas moléculas de acetil-CoA condensam-se
formando acetoacetil-CoA, que por junção com outra molécula de acetil-CoA forma HMG-CoA,
reações estas catalisadas pelas enzimas tiolase e HMG-CoA sintase, respectivamente. O HMG-
CoA então é reduzido a mevalonato pela enzima HMG-CoA redutase com a doação de dois
elétrons provindos de NADPHs.

A segunda etapa desta via é a conversão do mevalonato em duas unidades de


isopreno ativadas, através da transferência de três moléculas de ATP para o mevalonato. Em
seguida, na terceira etapa, seis unidades de isopreno ativadas condensam-se para formar o 65
esqualeno, que na quarta etapa é convertido em um núcleo esteróide cíclico com quatro anéis, o
lanosterol, que após uma série de aproximadamente 20 reações forma o colesterol.

Esta biossíntese ocorre em maior proporção no fígado, e em seguida, o colesterol é


transportado para todo o organismo na forma de colesterol biliar, ácido biliar ou éster de
colesterol, através das lipoproteínas plasmáticas. Dependendo da composição, as lipoproteínas
podem ser divididas em quilomícrons, VLDL, LDL e HDL (os populares “colesterois ruins” e o
“colesterol bom”). Através de receptores de superfície específicos, o colesterol entra nas células
por endocitose.

A biossíntese e o transporte do colesterol devem estar bem regulados para que este
não se acumule nas veias e artérias levando aos problemas cardiovasculares. Esta regulação se
dá por três mecanismos. O primeiro é a regulação da HMG-CoA redutase (tanto a curto quanto
em longo prazo), o segundo é a regulação da velocidade de síntese do receptor de LDL (que são
reconhecidos pelas células para a endocitose do colesterol), e o terceiro é a regulação da taxa
de esterificação pela enzima ACAT.

O esquema abaixo resume a biossíntese do colesterol:


FIGURA 19 - BIOSSÍNTESE DO COLESTEROL

66

FONTE: WAGNER FONTES, 2011.


12 CASO CLÍNICO: HIPERLIPIDEMIA

Muitas vezes ouvimos este termo, mas que doença é esta? O que conhecemos sobre
ela hoje? A hiperlipidemia é a concentração elevada de lipídeos (por exemplo, o colesterol) no
sangue. Este quadro pode levar ao acúmulo patológico de colesterol nas paredes dos vasos
67
sanguíneos, obstruindo-os, caracterizando a doença aterosclerose.

Existem diferentes tipos de hiperlipidemias, incluindo a hipercolesterolemia e a


hipertrigliceridemia. Geralmente o termo hiperlipidemia é mais corretamente reservado ao
aumento na concentração das lipoproteínas plasmáticas, causadas por fatores ambientais e/ou
genéticos. Existem, também, diferentes classificações para as hipercolesterolemias, de acordo
com a(s) lipoproteína(s) atingida(s).

Um exemplo de hiperlipidemia é a remanescente ou do tipo III, que está associada a


doenças cardiovasculares periféricas. O diagnóstico definitivo exige a análise de isoformas da
apoE, que não é reconhecida pelos receptores lipoproteicos, levando ao acúmulo de VLDL.

Segue esquema do acúmulo de lipídeos nos vasos sanguíneos, interrompendo o fluxo


sanguíneo e levando a diversas doenças cardiovasculares.

FIGURA 20 - ACÚMULO DE LIPÍDEOS NOS VASOS SANGUÍNEOS

FONTE: ANA ALICE & CRISTINA, 2011.


13 METABOLISMO DOS ÁCIDOS NUCLEICOS

Nos módulos anteriores já vimos a importância dos nucleotídeos: eles estão presentes
em todas as células no DNA e no RNA, o ATP e o GTP transportam energia química, compõem 68
os cofatores NAD, FAD, CoA, dentre outros, atuam como mensageiros celulares (ex.: cAMP) e,
ainda, participam de vias biossintéticas como intermediários ativados (ex.: UDP-glicose). Dois
tipos de vias são responsáveis pela formação das bases nitrogenadas: as vias “de novo” e as
vias de “recuperação”.

A via “de novo” das purinas incluem como precursores o AMP e o GMP, que contém as
bases purínicas adenina e guanina, respectivamente. Em uma primeira etapa, a glutamina doa
um grupo amino a uma molécula de fosforribosilpirofosfato (PRPP), formando o anel purínico.

A segunda etapa consiste da adição de três átomos do aminoácido glicina (2 C e 1 N),


através do consumo de uma molécula de ATP. Outro nitrogênio é doado por outra molécula de
glicina em uma terceira etapa, seguido da desidratação e fechamento do anel de cinco membros
da purina ocorrendo à liberação do 5-aminoimidazol ribonucleotídeo (etapas 4 e 5).

A sexta etapa é composta pela adição de um grupo carboxila pela enzima AIR
carboxilase. As duas etapas seguintes resultam na transferência de um grupo amino do
aspartato para o anel de imidazol. Então, o carbono final é fornecido através do N10-
formiltetraidrofolato, fechando o segundo anel e liberando os dois anéis fundidos do núcleo
purínico:

(adenina e guanina)
Para formação dos nucleotídeos pirimidínicos são utilizados o aspartato, o PRPP e o
carbamoil fosfato. Neste caso, o anel de seis membros é produzido antes da ribose 5-fosfato. A
primeira etapa envolve a reação do carbamoil fosfato com o aspartato por meio da enzima
aspartato transcarbamoilase. Em seguida, a diidrorotase atua removendo uma molécula de água
para fechar o anel pirimidínico.

A oxidação do composto formado leva à liberação do orotato, através da transferência 69


de elétrons para o NAD+. Todas estas etapas iniciais envolvem enzimas que estão atuando em
conexão através de complexos multienzimáticos. A cadeia lateral do nucleotídeo provém do
PRPP e é ligada ao orotato formando orotidilato, que é descarboxilado e fosforilado, gerando o
UTP. A enzima citidilato sintetase possui a capacidade de produzir o CTP através da UTP por
um processo que consome ATP e glutamina.

(citosina e uracila)

A regulação destas vias se dá por inibição por meio de retroalimentação. Os


nucleotídeos formados são então convertidos em nucleosídios trifosfato através das enzimas
nucleosídio monofosfato quinases, em etapas que incluem a formação de nucleosídios
monofosfato e difosfato. Após outras reações ocorre a formação dos desoxirribonucleotídeos,
unidades estruturais do DNA, sendo que a formação de timina envolve apenas
desoxirribonucleotídeos. O precursor desta reação é o dUMP e a enzima participante é a
timidilato sintase.
As purinas e as pirimidinas são degradadas formando ácido úrico e ureia,
respectivamente. O grupo fosfato é perdido através da 5´-nucleotidase. O adenilato forma
adenosina, que por ação da adenosina desaminase forma inosina, que é hidrolisada liberando D-
ribose e hipoxantina. A hipoxantina é oxidada para xantina e ácido úrico através da xantina
oxidase. Um processo semelhante ocorre para o GMP. Já as pirimidinas são degradadas
formando NH4+, e consequentemente a síntese de ureia é ativada.
70
Após a degradação as células podem aproveitar as purinas livres para produzir
nucleotídeos através da “recuperação”. Muitas vezes essa reação ocorre em uma única etapa
através da enzima adenosina fosforribosiltransferase (o mesmo processo vale para a guanina e
a hipoxantina).
14 CASO CLÍNICO: GOTA

A gota é uma doença das articulações causada por elevadas concentrações de ácido
úrico no sangue e nos tecidos dos seres humanos. A concentração elevada de ácido úrico pode 71
formar cristais de urato de sódio, que se depositam nas articulações inflamando-as e tornando-
as doloridas. O ácido úrico também pode ser depositado nos túbulos renais, afetando os rins.

Esta doença ocorre predominantemente no sexo masculino, e embora a causa não


seja totalmente conhecida, envolve uma excreção diminuída de urato. Alguns casos já foram
relacionados a fatores genéticos, como deficiências genéticas para a codificação de enzimas que
atuam no metabolismo das purinas.

Terapias farmacêuticas e nutricionais devem ser seguidas para o tratamento da gota,


diminuindo a ingestão de nucleotídios, presentes, por exemplo, no fígado. O alopurinol,
medicamento utilizado durante o tratamento, atua pela inibição da enzima xantina oxidase,
diminuindo a conversão das purinas em ácido úrico e aumentando a conversão em xantina e
hipoxantina, mais solúveis e menos propícios a acumularem nas articulações.
15 METABOLISMO DE PROTEÍNAS

O metabolismo das proteínas é a via biossintética mais complexa do ser humano, e


vem sendo um desafio nas pesquisas científicas em bioquímica. Cerca de 90 % da energia 72
química utilizada para todas as vias bioquímicas é reservada ao metabolismo das proteínas, que
envolve mais de 100 enzimas entre a síntese, destinação e degradação.

Já vimos no segundo módulo deste curso como funciona o código genético. Agora
iremos focar no processo de iniciação, alongamento e terminação da síntese proteica, que
envolve a ativação de precursores antes da síntese e o processamento após a síntese.

A biossíntese das proteínas envolve cinco etapas. Na primeira, ocorre a ativação dos
aminoácidos. O grupo carboxila do aminoácido deve estar ativado para que ocorra a ligação
peptídica e deve sempre existir um elo entre cada aminoácido e a informação contida no mRNA.
Logo, esta primeira etapa envolve a ligação do aminoácido a um tRNA, ocorre no citosol e
envolve a participação de enzimas do tipo aminoacil-tRNA sintetases.

A segunda etapa é chamada de iniciação, onde o mRNA liga-se à menor das


subunidades ribossômicas e ao aminoacil-tRNA de iniciação. Em seguida, liga-se à subunidade
maior, formando o complexo de iniciação, pareando o aminoacil-tRNA com o códon UAG.

A terceira etapa, o alongamento, é formada pela ligação de outros aminoácidos e


requer a participação de proteínas conhecidas como fatores de alongamento, e assim como as
etapas anteriores, envolve a participação de GTP. A quarta etapa é a terminação e liberação,
sinalizada por um códon de terminação. A quinta e última etapa é o enovelamento e
processamento pós-tradução, para que a proteína obtenha sua forma tridimensional
biologicamente ativa.

Este processo todo envolve revisões e regulações para que a proteína seja sintetizada
corretamente. Como você já viu anteriormente este tópico, focaremos agora no endereçamento e
degradação das proteínas.
O processo de endereçamento de proteínas é complexo e não muito bem esclarecido
pela ciência. Imagina que possuímos muitas estruturas, muitos compartimentos, muitas
organelas, muitas funções específicas em cada célula do nosso corpo e todas estas funções
necessitam de proteínas e enzimas diferentes, todas elas (com poucas exceções) sintetizadas
pelos ribossomos no citosol conforme vimos anteriormente.

De uma forma resumida, as proteínas que exercem funções no citosol permanecem 73


nele após sua síntese. As proteínas que serão secretadas, que vão fazer parte da membrana
celular ou que vão para lisossomos compartilham as etapas iniciais de uma via que começa no
retículo endoplasmático. Já as que vão para as mitocôndrias ou para o núcleo possuem
mecanismos separados.

O conceito mais importante do endereçamento é o da sequência sinalizadora. Esta é


uma sequência curta de aminoácidos que direciona a proteína para seu local de ação, e em
seguida é removida para que a proteína possa se tornar ativa e exercer sua função. Esta
sinalização também é utilizada para a degradação seletiva das proteínas após seu uso.

Uma das vias mais estudadas de endereçamento envolve a translocação da proteína


para dentro do retículo endoplasmático após sua síntese por meio de sequências sinalizadoras
no terminal amino. Estas sequências diferem de acordo com a proteína, mas possuem algumas
características em comum:

 Possuem entre 10 e 15 resíduos de aminoácidos hidrofóbicos;

 Possuem pelo menos 1 resíduo carregado positivamente, em geral próximo ao


terminal amino e anterior aos aminoácidos hidrofóbicos;

 Possuem uma sequência polar no terminal carboxila, geralmente de cadeias


curtas (ex.: alanina) e próximas a um sítio de clivagem.
Agora vamos voltar ao processo de síntese, onde tudo se inicia. No começo os
ribossomos estão livres sintetizando as proteínas. A sequência sinalizadora costuma ser a
primeira a aparecer, fazendo com que ela e o ribossomo que está sintetizando sejam ligados a
uma partícula de reconhecimento de sinalização (PRS), que se liga a uma molécula de GTP
interrompendo a síntese após cerca de 70 resíduos de aminoácidos.

O GTP ligado à PRS direciona o ribossomo contendo o mRNA e a proteína incompleta


para receptores de PRS que estão localizados no retículo endoplasmático, fazendo que a
proteína incompleta se junte ao complexo de translocação do peptídeo. A PRS separa-se do
ribossomo através da hidrólise da molécula de GTP, e o alongamento da proteína continua, com 74
o auxílio de moléculas de ATP, fazendo que toda a estrutura proteica vá para dentro do retículo
endoplasmático.

Por fim, a sequência sinalizadora é removida por uma enzima peptidase de sinalização
dentro do retículo endoplasmático e o ribossomo é então liberado e reciclado. Este processo,
embora descrito para o endereçamento de proteínas ao retículo endoplasmático, contém
fundamentos do endereçamento para os outros locais da célula, através de outras enzimas e
sequências.

FIGURA 21 - ESQUEMA DO ENDEREÇAMENTO

FONTE: PRODABI DA UFMG, 2011.


Após a remoção da sequência sinalizadora as proteínas são enolevadas, formam as
ligações dissulfeto que auxiliam na sua estrutura tridimensional e, muitas vezes, são glicosiladas
formando as glicoproteínas (através de resíduos de Asn). Estas são ditas proteínas N-
glicosiladas e embora a primeira etapa do processo de glicosilação seja comum, diferentes vias
podem resultar na formação das glicoproteínas.

Outra forma de glicosilação de proteínas é a construção de proteínas O-ligadas, 75


através do complexo de Golgi. As proteínas que estão no citosol podem chegar ao complexo de
Golgi ou as proteínas N-glicosiladas são transportadas para o complexo de Golgi através de
vesículas transportadoras para serem modificadas.

Por um mecanismo ainda não muito bem esclarecido, o complexo de Golgi distribui as
proteínas e as endereça para seu destino final, onde desempenharão suas funções. A ciência
que estuda estas vias é a bioquímica de glicoconjugados e é uma ciência muito recente.

O processo mais bem conhecido até o momento é o transporte de hidrolases para os


lisossomos. Uma hidrolase é reconhecida pelo complexo de Golgi através de uma
fosfotransferase, responsável pela adição de fosfato aos resíduos de manose presentes no
oligossacarídeo da hidrolase (uma glicoproteína). Os resíduos de manose-6-fosfato em
oligossacarídeos N-ligados são responsáveis por direcionar as proteínas ao lisossomo.

Uma particularidade do endereçamento envolve o transporte de proteínas para o


núcleo. A comunicação entre o núcleo e o citosol ocorre por poros nucleares, e o transporte das
proteínas para o núcleo envolve a passagem de subunidades pequenas das proteínas através
destes poros, para serem montadas já dentro do núcleo. A sequência de sinalização para estes
casos é denominada SLN (sequência de localização nuclear) e não é removida após a chegada
da proteína. Em geral, essas sequências contêm entre quatro a oito aminoácidos básicos
consecutivos (ex.: Arg e Lys) e podem ser encontradas em qualquer parte da cadeia primária de
aminoácidos. O transporte para o núcleo ocorre com o auxílio de proteínas ditas importinas α e
β.

Outra forma de obter proteínas é através da importação exterior à célula. Essa forma
de obtenção de proteínas ocorre por receptores localizados nas membranas celulares, e
exemplos biológicos incluem a importação do LDL, transferrina e hormônios. O processo é
chamado de endocitose e é explorado por alguns vírus para poderem entrar na célula e usar a
maquinaria celular para sua multiplicação.

Vamos agora estudar a degradação das proteínas. Este processo é responsável pela
reciclagem dos aminoácidos e por não deixar nosso organismo formar proteínas anormais ou
não desejáveis. Os sistemas de degradação estão localizados no citoplasma e são dependentes
de ATP. Outros processos de degradação podem ocorrer nos lisossomos. 76

A via dependente de ATP envolve a proteína ubiquitina, que se liga de forma covalente
aos resíduos de Met da proteína a ser degradada através da catálise realizada por três enzimas
separadas (E1, E2 e E3). O complexo de degradação é conhecido por proteassomo 26S e
envolve o processo de desenovelamento de proteínas ubiquitinadas.

O mau funcionamento da via da ubiquitinação está relacionado ao desenvolvimento de


tumores, além da suspeita de participação em doenças renais, asma, Alzheimer, Parkinson,
fibrose cística, síndrome de Liddle e muitas outras. Isso mostra o quanto à degradação das
proteínas é um processo tão importante quanto suas sínteses, e assim como o endereçamento
de proteínas, é uma área da ciência ainda pouco conhecida.

FIGURA 22 - ESQUEMA DA UBIQUITINA

FONTE: WIKIPEDIA, 2011.


16 CABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

A degradação dos aminoácidos é importante para fornecer intermediários e


precursores do ciclo do ácido cítrico, sendo então metabolizados a CO2 e H2O ou utilizados na 77
gliconeogênese. Estes intermediários são: piruvato, α-cetoglutarato, succinil-CoA, fumarato,
oxaloacetato, acetil-CoA e acetoacetato. De acordo com a via catabólica, os aminoácidos podem
ser divididos em glicogênicos e cetogênicos.

 Aminoácidos glicogênicos: são precursores da glicose, ou seja, se degradam em


um dos cinco primeiros intermediários citados acima.

 Aminoácidos cetogênicos: podem ser convertidos em ácidos graxos ou corpos


cetônicos, sendo degradados a acetil-CoA ou acetoacetato.

Existem cinco aminoácidos que são ditos glicocetogênicos, pois podem atuar das duas
maneiras: triptofano, fenilalanina, tirosina, treonina e isoleucina.

Os aminoácidos alanina, cisteína, glicina, serina e treonina são degradados produzindo


piruvato. O triptofano, por ser degradado produzindo alanina, pode ser incluído neste grupo. A
alanina sofre uma reação de transaminação com o α-cetoglutarato liberando o piruvato. A
cisteína é degradada por meio de duas etapas: remoção do átomo de enxofre e transaminação.
A serina é convertida em piruvato pela ação da serina desidratase.

Já a glicina possui três vias de degradação, sendo que somente a via da conversão da
glicina em serina pela adição de um grupo hidroximetila pela serina hidroximetiltransferase leva à
produção do piruvato. A treonina possui duas vias de degradação, a via que leva ao piruvato
envolve a conversão da treonina em glicina em dois passos pela ação da enzima treonina
desidrogenase.
O acetil-CoA é o produto final da degradação dos aminoácidos triptofano, lisina,
fenilalanina, tirosina, leucina, isoleucina e treonina. Alguns destes aminoácidos resultam em
acetoacetil-CoA, que então é convertido a acetil-CoA. Muitas das reações envolvidas nestas vias
são semelhantes às etapas de oxidação de ácidos graxos.

Em especial, dois aminoácidos devem ser destacados para esta via catabólica. O
primeiro é o triptofano, que durante sua degradação produz precursores importantes para a 78
biossíntese de diferentes biomoléculas, como o NAD e a serotonina. O segundo é a fenilalanina,
já que defeitos genéticos em seu processo de degradação levam a doenças hereditárias como a
fenilcetonúria e retardo mental, além de ser precursora dos hormônios adrenalina, noradrenalina
e dopamina, e do pigmento melanina.

Os aminoácidos prolina, glutamato, glutamina, arginina e histidina são convertidos a α-


cetoglutarato. Já a metionina, a isoleucina, a treonina e a valina são degradadas produzindo
succinil-CoA, através de reações de transaminação e descarboxilação.

Em geral o processo catabólico é realizado no fígado, porém isto não ocorre para os
aminoácidos leucina, isoleucina e valina, já que estes possuem cadeias laterais ramificadas. A
oxidação destes três aminoácidos ocorre no tecido muscular, no adiposo, no renal e no cerebral.
Estes órgãos possuem uma aminotransferase específica não disponível no fígado. O conjunto
enzimático que participa destas reações é chamado de complexo da desidrogenase dos α-
cetoácidos de cadeia lateral ramificada, regulado por modificações covalentes de acordo com o
conteúdo de aminoácidos presente na nossa dieta.

O oxaloacetato é formado pela degradação dos aminoácidos asparagina e aspartato. A


asparagina é convertida em aspartato pela ação da asparaginase, e o aspartato sofre uma
reação de transaminação com o α-cetoglutarato para produzir o oxaloacetato (e glutamato).

Todos os processos citados também geram NADH e FADH2.


17 CICLO DA UREIA

Nós já estudamos anteriormente a excreção do nitrogênio através da forma de ácido


úrico, principal forma para aves e répteis. Em organismos aquáticos, que podem utilizar grandes 79
quantidades de água para a excreção, a forma predominante é a amônia. Outra forma de
excreção do nitrogênio é através da ureia, principal forma de excreção nos vertebrados.

A ureia é sintetizada no fígado e secretada na corrente sanguínea, sendo


posteriormente captada nos rins e excretada pela urina. O ciclo da ureia foi o primeiro a ser
entendido pelos bioquímicos, em 1932 por Kurt Henseleit e Hans Krebs (o mesmo que
descreveu o ciclo do ácido cítrico, ou ciclo de Krebs, em 1937).

O ciclo da ureia pode ser dividido em cinco reações:

 O fornecimento do primeiro átomo de nitrogênio da ureia ocorre com a formação


do carbamoilfosfato através da carbamoilfosfato-sintetase, que teoricamente não seria um
componente do ciclo da ureia, já que é responsável pela produção do precursor
carbamoilfosfato, este sim, componente do ciclo. Essa reação envolve três passos e podem
ocorrer sob duas formas, ambas em etapas irreversíveis, sendo o passo limitante do ciclo da
ureia.

 O grupo carbamoil do carbamoilfosfato é então transferido para a ornitina,


produzindo citrulina pela ornitina-transcarbamoilase. Esta reação ocorre na mitocôndria e a
ornitina entra nesta organela por meio de um transportador específico. A citrulina produzida é
exportada para o citosol, onde o ciclo é continuado.

 O grupo ureído da citrulina é condensado com um grupo amino do aspartato


através da argininosuccinato sintetase, fornecendo o segundo átomo de nitrogênio da ureia.
 A enzima argininossuccinase elimina a arginina ligada ao esqueleto do
aspartato, que forma fumarato (que segue outras vias para formar oxaloacetato). A arginina
liberada é o precursor da ureia.

 A arginina é então hidrolisada na última etapa do ciclo catalisada pela arginase,


produzindo ureia e regenerando a ornitina, que retorna para a mitocôndria, dando continuidade
ao ciclo.
80

Todo o processo é energeticamente custoso e o ATP utilizado provém da oxidação do


acetil-CoA pela degradação dos esqueletos de carbono dos aminoácidos.

FIGURA 24 – O CICLO DA UREIA

FONTE: DAANVANALTEN, 2011.

A regulação deste ciclo envolve a ativação alostérica por N-acetilglutamato, sintetizado


a partir de glutamato e acetil-CoA pela enzima N-acetilglutamato sintase seguido de um
processo de hidrólise. As demais etapas da via são controladas pela concentração do substrato
disponível.
18 CASO CLÍNICO: INTOXICAÇÃO POR AMÔNIA

Como vimos anteriormente, a amônia é a principal forma de excreção do nitrogênio no


ambiente aquático. Porém, em seres humanos uma exposição a altas concentrações de amônia 81
pode levar ao quadro de intoxicação.

Essa exposição pode ocorrer por inalação de produtos de limpeza, ou mesmo o


contato destes com a pele, inalação durante a aplicação de fertilizantes em áreas agrícolas e
ingestão de água e alimentos contaminados com amônia (usada, por exemplo, como
estabilizante em alguns alimentos).

A intoxicação por amônia pode levar a quadros de irritação nos olhos e no nariz,
queimaduras na pele e corrosão da boca, garganta e estômago. Por isso, evite campos com
fertilizantes, mantenha a casa sempre arejada e proteja-se durante a utilização de materiais de
limpeza.

Aqui termina nosso curso de Bioquímica – Biomoléculas e Metabolismo. Espero que


você tenha aprendido bastante. Em caso de dúvida não hesite em contatar nossos tutores.
Tenho certeza que você já possui as ferramentas necessárias para conseguir se aprofundar em
temas específicos da bioquímica que possam estar envolvidos em seu ambiente de estudo ou de
trabalho.
REFERÊNCIAS

ALUNOS ONLINE . Disponível em: <http://www.alunosonline.com.br/quimica>. Acesso em: 18


jul. 2011.

82
BRENDA. Disponível em: <http://brenda-enzymes.org>. Acesso em: 18 jul 2011.

CONSTRUINDO CONHECIMENTO. Disponível em:


<http://fisioterapiafateci20082.blogspot.com/2009/06/cadeia-transportadora-de-eletrons.html>.
Acesso em: 18 jul 2011.

EICN. Disponível em: <http://www.eicn.ucla.edu/projects#hpdc>. Acesso em: 18 jul 2011.

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HUBER, P. C.; ALMEIRA, W. P.; de FÁTIMA, A. Glutationa e enzimas relacionadas: papel


biológico e importância em processos patológicos. Química Nova, v. 31, n. 5, p. 1170-1179,
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JUNIOR, W. E. F. Carboidratos: estrutura, propriedades e funções. Disponível em:


<http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc29/03-CCD-2907.pdf>. Acesso em: 18 jul. 2011;
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NELSON, D. L.; COX, M. M. Lehninger. Princípios de Bioquímica. Sarvier Editora de Livros


Médicos LTDA., 4. ed. ISBN: 85-7378-166-1, 2006.

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