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ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

CAMPOS DE ATUAÇÃO, LETRAMENTOS

E GÊNEROS NA BNCC

Jacqueline P. Barbosa

(IEL/UNICAMP)

Roxane Rojo

(IEL/UNICAMP)

Desde o final da década de 1990, os documentos curriculares da Área

de Linguagens se orientam por uma concepção enunciativo-discursiva

que se traduz em uma concepção de ensino-aprendizagem de Língua

Portuguesa articulada em tomo das práticas de linguagem - leitura, escu­

ta, escrita, fala e análise linguística - tomando o texto como unidade de

trabalho, o que se mantém na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Enfatizando a mudança que tal perspectiva representou/representa

para o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, Barbosa (no prelo)

vai considerar que:

o foco deixa de ser o sistema abstrato da língua ou as habili­

dades comunicativas e os usos da linguagem, em uma pers­

pectiva mais instrumental, e passa a ser as situações de uso da

linguagem ou, mais do que isso, as práticas sociais de uso da

linguagem. Tal proposição vincula-se a um só tempo a duas

mudanças paradigmáticas: a primeira diz respeito ao desloca­

mento que se deu na própria ciência de origem - de enfoques

estruturalistas, centrados na forma, no sistema, na estrutura,

para abordagens enunciativas, discursivas, que partem das con-

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GÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
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outro, pautado pelas teorias críticas e pós-críticas, orientado por uma


<lições de produção em direção aos elementos linguísticos; que

postulam a consideração desses elementos à luz das condições perspectiva crítica, inclusiva, não-adaptativa, que inclui a compreensão

de produção. A segunda mudança paradigmática diz respeito das razões das desigualdades sociais e de estigmas sociais, culturais,

à concepção de currículo. Não se trata mais de propor objetos étnicos, de gênero, de orientação sexual, dentre outros, e comprometido
de ensino a partir do que a ciência de referência determina ou
com a transformação da realidade. Por mais que, por conta dos conflitos
do que a tradição das disciplinas consagrou, mas de pensar nas
mundiais contemporâneos, sobretudo os bélicos, e do avanço do estado
necessidades de aprendizagem colocadas pelas práticas sociais
1
de direito, se possa observar uma (aparente) zona de intersecção entre
e por condições para delas participar.

o ideário e as pautas desses dois projetos (por exemplo, a defesa das

liberdades individuais e o discurso pró-cidadania), suas finalidades são


Em termos de mudança na orientação de concepção curricular O

distintas e muitas vezes cercadas por disputas semânticas e discursivas,


deslocamento de ênfase do polo do ensino (objetivos de ensino e conte­
como quando do uso do termo "cidadania".
údos ad�in�os dos construtos das disciplinas) para o polo da aprendiza­

gem (obJe�tvos de aprendizagem, expectativa de aprendizagem, direitos A BNCC é, claro, atravessada por essa disputa, tendo sido produzida

de �prend1zagem, habilidades/competências), ainda que celebrado por ao longo de dois governos: iniciada no Governo Dilma e finalizada, pós

muitos educadores, não representa um uníssono. A leitura das necessi­ golpe parlamentar, no Governo Temer. A consideração dos direitos de

dades de aprendizagem colocadas depende de pelo menos duas outras aprendizagem/expectativas de aprendizagem, que figura até a segunda

iefinições: pro�eto ed�cativo e concepção do objeto, no caso, língua/ versão do documento, cedeu lugar às habilidades e competências.

mguagem. Tais defimções, é claro, vão impactar nos letramentos e


Não é escopo do presente texto discutir as diferentes concepções
gênero.s c_onsid�rados. Grosso modo, pode-se afirmar que, com graus
que os termos competência e habilidades encerram, mas é inevitável a
de vanaçao, dois projetos educativos principais' disputaram O cenário
aproximação dos termos com o ideário das organizações internacionais
�du,c�cional .nas últimas três ou quatro décadas: um mais afinado com O
- OCDE e afins-, e com a organização das matrizes de avaliações de
1dea�10 neoliberal, economicista, voltado para a oferta de mão de obra
sistema, que podem ser vistas como instrumentos desse ideário. Não
3
qualificada (capital humano) e orientado pelas definições da OCDE e
se trata de ser contra as avaliações de sistema, mas de questionar suas

A� ��rs�cctiva� de pnrticipuçii? é que podem variar; incluindo um viés mais u l i l i t á r l o prag-


concepções, seus usos e a forma como atravessam o cotidiano escolar
1'.1at1co, adaptatlvo - pura l\111c1011ar bem cm sociedade>- que muitos 11805 cio termo •·n' 11· b
e se sobrepõem ao currículo (documento e, sobretudo, ao currículo em
tismo" encerram 'll� ui . . l' · ' · 11 c­
"I •( . . , , , • 11,1 persi _cc rva murs ampla. crítica, cldadã, que certos usos do termo
e rnmentus pretendem recobrir, ação )4. A exemplo de outros países, uma inversão foi promovida desde
2 Ndos . ú l � r n o s q�atro imos, ussistlmos a uma irucnsificação do upoio a um outro tipo de projeto

e .l'.tn� vo, a lv11 do dos ultraconservadores. Retrocedendo a urna conccpção tradicional e ;,nf·
a década de 1990 no Brasil: primeiro, se definiram os descritores e as

v�ca ( e cu:rfcu 1o, pr�vê o tolhimento da liberdade d • expressão, ti proibição dr, tratamentn

matrizes de avaliação e, depois, o currículo. A publicação da BNCC


�e certas Lemátl.cas e a rcvlsão tk: narnulvas históricas. sob alegação de que 8 ideologia da

�sc!11erda é dominnnte na escola e devo ser combatido e de que certos assuntos são de lórum prevê a possibilidade de subversão dessa relação, mas isso só ocorrerá
��•.mt �1,vc;1<101 ser uarudos ".º âmbito lamlllar, ,\ priuctpal rcssonâu in dessa J)�rspectiva , 0

p���f � ;)cln .n�! tido, que, n.111.cs de querer. expurgar do escola as ideologias (como se isso fosse
efetivamente se a apropriação do documento levar em conta os eixos
. ss ' e , preren e �unm11r que e sua seja hcgomõnicu. abe destacar o papel desses u JóS
estruturantes das habilidades - as práticas de linguagem contextualizadas
��nn�cllrvod�1.·csl11a rctã1mda du ON • , de CJU(1lt1m:r menção á iguuldadc de gêuero iclelllid�d ! d�

.,� er ou a tir entaç o sexual. - ·


pelos campos de atuação.
3 Ao discutir
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. . ,• cn 1 rc· po l l tices.
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e pesquisa no campo de Lct1·rn11c1110 Slrect ( 2 0 1 1 )

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trunsl�ru;u11 a 0( D l � e m uma agência do pollti�n. hegemõnicn. com aurorldadc 111:indiul.' "1\,,


educação atrelado ao "projeto da terceira era colonial" (MOSS, apud STREET, 2 0 1 4 , p. 198)
cm_.:,�r_nco 11111,1 novu forma do govcrnança cdueacíoual mundinl. baseada nu !níl uên ·ia J.�
e o tipo de colonização que supõe/mantém.
ª?cn rus (de cooperação) ínrernaclonais - globalizm;il<l de clma ,,ar; buixo" r"C)SS· 'd
S l ' R E. E T 2 0 1 4 ) 1 9 8 ) S t · l l · e '" M , " , H p l l 4 Cf., a esse respeito, Freitas ( 2 0 1 4 ) .
• , • 1 · , ice l estaca n inda I pndroniz.
. aç: o que implica e.�sc m o delo de

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Talvez por conta da disputa de projetos mencionada acima, o uso


No caso da área de Linguagens, isso reafirma a ênfase nas práticas
desses termos tenha sido mais alargado e contextualizado.
sociais de uso das linguagens. Não se trata de reduzir práticas a habilida­

Competência, na BNCC, é definida como


des, ou seja, tomar as práticas de linguagem - leitura, produção de texto,

fala e escuta - como habilidades, algo comum em algumas propostas de

a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), ensino, sobretudo de Língua estrangeira. Mas trata-se de considerar as

habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes


habilidades a partir das práticas, atravessadas/constituídas por gêneros
e valores para resolver demandas complexas da vida cotidia­
do discurso e contextualizadas pelas esferas de atividade humana. Na
na, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho
formulação do verbete Esferas ou campos de atividade humana do Glos­
(BRASIL, 2 0 1 8 , p. 8).

sário do CEALE, Rojo vai articular as esferas de atividades, as práticas

sociais e os gêneros do discurso, articulação a partir da qual as habilidades


Essa definição mais clássica de competência, relacionada à resolu­
definidas devem se compreendidas:
ção de demandas/problemas complexos, com uma definição difusa de

cidadania, é acompanhada de um "compromisso" com a transformação


As esferas ou campos de atividade humana ou de circulação
da sociedade:
dos discursos - já que toda atividade humana se entretece de

discursos - são a instância organizadora da produção, circu­

Ao definir essas competências, a BNCC reconhece que a "edu­


lação, recepção dos textos/enunciados em gêneros de discurso

cação deve afirmar valores e estimular ações que contribuam


específicos em nossa sociedade. Os gêneros discursivos inte­

para a transformação da sociedade, tomando-a mais humana,


gram as práticas sociais e são por elas gerados e formatados.

socialmente justa e, também, voltada para a preservação da


Leandro Konder, em seu texto "A dialética e o marxismo",

natureza" (BRASIL, 2 0 1 3 ) , mostrando-se também alinhada


define as práticas sociais ("práxis") como a "atividade do

à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).


sujeito que de algum modo aproveita algum conhecimento
(BRASIL, 2 0 1 8 , p. 8).
ao interferir no mundo, transformando-o e se transformando

a si mesmo". Nessa perspectiva, as práticas sociais são ações

Já as habilidades, elas expressam as aprendizagens essenciais que racionais, convocam responsabilidade social, envolvendo uma

ética (valores).
devem ser asseguradas aos alunos nos diferentes contextos escolares

sendo compostas por: ' Max Weber vai distinguir esferas de atividade/ação/atuação

humana e esferas de valores. Para Weber, a sociedade é for­

mada por "indivíduos" e "esferas" bem nítidas; existem os


verbo(s) que explicita(m) o(s) processo/s) cognitivo(s)'
indivíduos e as estruturas sociais criadas pelos indivíduos em
cnvoJvido(s) na habilidade· complemento do(s) vcrbo(s), que
interação social (esferas). Weber trata as esferas de atuação
explicita o(s) objcto(s) de conhecimento mobiJizado(s) na
humana como esferas de valor (isto é, regidas por diferentes
habilidade o modificadores d (s) verbo( ) ou do complemento
éticas). O que são essas "esferas"? São os campos das ativi­
do(s) verbo(s), que explicitam o contexto e/ou uma maiores­
dades humanas centrais que organizam as ações humanas em
pecificação da aprendizagem esperada. (BRAS[L, 2 0 1 8 , p.29).
sociedade, por meio dos discursos e práticas.

(. . . )

Note-se que o processo cognitivo não vale por si só, mas sempre Assim sendo, os gêneros de discurso servem ao funcionamento

supõe conhecimentos e é contextualizado. das suas esferas de origem, com suas éticas específicas: íntima,

cotidiana, dos negócios, jornalística, publicitária, jurídica,

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e as DCNEM/Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação


política, sindical, do trabalho, artística, literária, do entrete­

nimento, científica, acadêmica, escolar e assim por diante. Básica, de 2 0 1 3 - e com as contribuições da pesquisa acadêmica e de

(ROJO, 2014, pp. 1 0 8 - 1 0 9 ) currículos estaduais, levando em conta fundamentos básicos do ensino das

Linguagens que, ao longo de mais de três décadas, tem se comprometido

Isso significa que as habilidades estão (ou devem estar) também com uma formação voltada a possibilitar uma participação mais plena

relacionadas a atividades, gêneros, ética e valores e a alguma perspectiva do jovem em formação nas diferentes práticas sociais que envolvem o

de intervenção na realidade. uso das linguagens e/ou são por elas constituídas.

Por essa razão, a leitura da BNCC não pode se restringir aos qua­
Como indicam as DCNEM,
dros de habilidades nem tampouco partir deles, sob o risco de operar o
Além de uma seleção criteriosa de sabe­
reducionismo comentado anteriormente. Tampouco se deve construir,
res, em termos de quantidade, pertinência e
de forma descontextualizada, independente das atividades da esfera, um
relevância, e de sua equilibrada distribuição ao
quadro de gênero por ano, procedimento que serve antes à objetificação
longo dos tempos de organização escolar, vale
do gênero, seu afastamento das práticas e sua redução à forma, já tão
possibilitar ao estudante as condições para o
questionada por autores como Fiorin (2006), Faraco (2009) , Brait e
desenvolvimento da capacidade de busca autô­
Pistori (2012), Barbosa (2012 e 2 0 1 9 , no prelo).
noma do conhecimento e formas de garantir sua
Deriva daí a necessidade de refletir sobre os letramentos e gêneros
apropriação. Isso significa ter acesso a diversas
contemplados nos campos de atuação considerados pela BNCC.
fontes, d e condições para buscar e analisar

Antes, porém, cabe uma contextualização do documento em relação novas r eferências e novos conhecimentos, de

às práticas de linguagem contemporâneas, que vão apontar para a ne­ adquirir as habilidades mínimas necessárias à

cessidade de consideração dos novos e multiletramentos. Por seu caráter utilização adequada das novas tecnologias da

interdisciplinar, será considerada aqui a parte do documento destinada ao informação e da comunicação, assim como de

Ensino Médio, que supõe continuidades e aprofundamentos em relação d ominar rocedimentos básicos de investigação
p

ao Ensino Fundamental, nível esse que também será considerado de e d e produção de c onhecimentos c ientíficos. É

forma complementar. precisamente no aprender a aprender que deve

se entrar o esforço da ação pedagógica,


c para

1 . A BNCC DA ÁREA DE LINGUAGENS E AS PRÁTICAS DE q ue, m ais qu e ac umular conteúdos, o estudante

LINGUAGEM CONTEMPORÂNEAS desenvolva a capacidade de aprender, de pes­

q uisar e d e bu scar e (re )construir conhecimen­

A BNCC da Área de Linguagens e suas Tecnologias busca con­ tos. (BRASIL, 2 0 1 3 , p .181, nfase adicionada)
ê

solidar e ampliar as aprendizagens previstas na BNCC de Ensino Fun­

damental, apontando competências e habilidades a serem exercitadas e

constituídas no Ensino Médio, em diálogo com um conjunto de docu­ Dess e m odo, a rea de
Á L ngui agens e suas Tecnologias toma a

mentos e orientações oficiais - tais como a Lei nº 1 3 . 4 1 5 , de 02/2017, seu cargo a c onstrução de conhecimentos de/sobre diversas linguagens

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cas visam à participação qualificada no mundo da produção


(visuais, sonoras, verbais, corporais), em diferentes mídias, buscando
cultural, do trabalho, do entretenimento, da vida pessoal e,

estimular a vivência, pelos estudantes, de experiências significativas


principalmente, da vida pública, por meio de argumentação,

com práticas de linguagem situadas, nas diferentes esferas/campos de formulação e avaliação de propostas e tomada de decisões

atividade humana', orientadas pela ética e pelo bem comum.

Dando continuidade à perspectiva investigativa e de abstração

No Ensino Fundamental, a BNCC busca "garantir aos estudantes a adotada no Ensino Fundamental, a pesquisa e a produção

ampliação das práticas de linguagem e dos repertórios, a diversificação colaborativa precisam ser o modo privilegiado de tratar os

conhecimentos e discursos abordados no Ensino Médio. Par­


dos campos nos quais atuam, a análise das manifestações artísticas, cor­
ticulannente na área de Linguagens e suas Tecnologias, mais
porais e linguísticas e de como essas manifestações constituem a vida
do que uma investigação centrada no desvendamento dos
social em diferentes culturas" (BRASIL, 2 0 1 8 , pp. 481-482).
sistemas de signos em si, trata-se de assegurar um conjunto

de iniciativas para qualificar as intervenções por meio das


No Ensino Médio, a Área de Linguagens e suas Tecnologias busca
práticas de linguagem. A produção de respostas diversas para
"propiciar oportunidades para a consolidação e a ampliação das habi­
o mesmo problema, a relação entre as soluções propostas e a
lidades de uso e de reflexão sobre as linguagens" (BRASIL, 2 0 1 8 , p.
diversidade de contextos e a compreensão dos valores éticos

482), através das práticas de linguagem em campos de atuação diversos, e estéticos que permeiam essas decisões devem se tornar foco

vinculados com o enriquecimento cultural próprio, as práticas cidadãs, das atividades pedagógicas.

o trabalho e a continuação dos estudos. Gradativamente para alguns e já Para isso, é fundamental que sejam garantidas aos estudantes

oportunidades de experienciar fazeres cada vez mais próximos


em realidade para outros (j á que, em nosso país, muitos dos estudantes
das práticas da vida acadêmica, profissional, pública, cultural
cursam o Ensino Médio mais velhos do que a idade regular), os estudantes
e pessoal e situações que demandem a articulação de conhe­
vão ingressando em espaços sociais que exigem exercício da autonomia,
cimentos, o planejamento de ações, a auto-organização e a

a capacidade de fazer escolhas e se responsabilizar por elas. Ao longo


negociação em relação a metas. Tais oportunidades também

do Ensino Médio, já poderão votar e entrarão em novas categorias de devem ser orientadas para a criação e o encontro com o inu­

classificação etária, tanto em programas culturais como em aspectos sitado, com vistas a ampliar os horizontes éticos e estéticos

dos estudantes. (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 486, ênfase adicionada)


jurídicos do exercício da cidadania.

Tal entrada no mundo exige que a escola de Ensino Médio crie


Ao explorarem as possibilidades expressivas das diversas linguagens
espaços ainda maiores para que
(visuais, sonoras, verbais, corporais), em relação a diferentes estéticas,

espera-se, pois, que os jovens realizem reflexões que envolvam o exer­


os jovens aprendam a tomar e sustentar decisões, fazer escolhas

cício de análise de elementos discursivas, composicionais e formais de


e assumir posições conscientes e reflexivas, balizados pelos

valores da sociedade democrática e do estado de direito. Exi­ enunciados nas diferentes semioses - visuais (imagens estáticas e em

gem ainda possibilitar aos estudantes condições tanto para o movimento), sonoras, verbais (oral e escrita), corporais/gestuais/cênicas.

adensamento de seus conhecimentos, alcançando maior nível


A atividade teórico-reflexiva é vista como um recurso para potencializar
de teorização e análise crítica, quanto para o exercício contínuo
uma atitude responsiva crítica (apreciação e réplica), a criação, a com­
de práticas discursivas em diversas linguagens. Essas práti-
preensão dos modos de se expressar e de participar no mundo.
5 Na llNC � o uso/conhcclrncnte das diferentes linguagens é destacado explicitamente nas com­

pct:rlcius 3. 4 � 7 e as tecnologias digitlliS de informação e comunicação (TDlC) são abordadas

na compcrência 5, além de rc ·l:l:Jercm 111�111:iio na competência 2.

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Por efeito das novas tecnologias da informação e da comunicação 8,


novos letramentos dentre outras denominações que procuram designar
(TDIC), os textos e discursos atuais, mesmo nos impressos, organizam-se
novas práticas sociais e de linguagem", em geral relacionadas a Web
de maneira multissemiótica, valendo-se de várias linguagens para signi­
2. O, em que o que está em questão não é simplesmente a presença da

ficar. Uma semiose é um sistema de signos em sua organização própria


tecnologia e de uma diversidade de linguagens e mídias, mas um novo
e os textos/discursos atuais incorporam diferentes sistemas de signos em 9
ethos que precisa ser considerado pela escola.
sua constituição, constituindo objetos multissemióticos6: textos verbais

em diferentes modalidades (oral, escrita) combinam-se com textos visuais A primeira geração da Internet (Web 1 . 0 ) principalmente dava in­

também em diferentes modalidades (imagens estáticas e em movimento), formação unidirecional (de um para muitos), como na cultura impressa

sonoros (modais, tonais, seriais)? e corporais/gestuais/cênicos. ou de massa. Com o aparecimento de sites de rede social, como Orkut e

Facebook, a Web tomou-se cada vez mais interativa. Nesta chamada Web
O cinema talvez tenha sido a primeira mídia a combinar em textos
2 . 0 (segunda geração da rede mundial de computadores), são principal­
complexos, progressivamente, todos esses sistemas de signos (corporali­
mente os usuários que produzem conteúdos em pastagens e publicações,
dade/gesto em cena com imagem em movimento, música, fala e legenda/
em redes sociais interativas como Facebook, Twitter, Tumblr, Google+,
créditos escritos), processo esse que foi intensificado de muitas e novas
na Wikipedia, em redes de mídia como You'Iube, Flickr, Instagram etc.
maneiras no mundo digital.

À medida que as pessoas se familiarizaram com a Web 2.0, foi possível a

Assim, a BNCC (p. 487) também prioriza


marcação e etiquetagem semântica de conteúdos dos usuários, o que abre

caminho para a Web 3.0, a dita intemet "inteligente". Por um processo de

propostas de trabalho que potencializem aos estudantes o


"aprendizagem" contínua por meio da etiquetagem, a Web 3 . 0 pretende
acesso a saberes sobre o mundo digital e a práticas da cultura
antecipar o que o usuário gosta ou detesta, suas necessidades e seus in­
digital [ . . . ] , j á que, direta ou indiretamente, impactam seu dia
teresses, de maneira a oferecer em tempo real conteúdos e mercadorias
a dia nos vários campos de atuação social e despertam seu
customizados e mapear seus interesses. Os efeitos dessa "inteligência"
interesse e sua identificação com as TDIC. Sua utilização na

escola não só possibilita maior apropriação técnica e crítica


já começam a se fazer sentir em diferentes sites, inclusive ou principal­

desses recursos, como também é determinante para uma apren­ mente nas redes sociais. Hoje, cogita-se a Web 4.0 que, segundo alguns

dizagem significativa e autônoma pelos estudantes. estudiosos, será como um gigantesco sistema operacional inteligente e

dinâmico, incluíndo a "intemet das coisas", que irá suportar as interações

Além disso, sua utilização facilita o diálogo com e sobre o mundo dos indivíduos e das coisas, utilizando os dados disponíveis, instantâneos

globalizado e transcultural e põe em cena as mestiçagens linguísticas, ou históricos, para propor ou suportar a tomada de decisão, com base

culturais, étnicas e sociais, características deste início de século. num complexo sistema de inteligência artificial, que operará com base

Nessa perspectiva, na BNCC (p. 487), "para além da cultura do


8 "As práticas de leitura e produção de textos que são construídos a partir d� diferentes li�gua­

impresso (ou da palavra escrita), que deve continuar tendo centralidade gens ou scmioscs são consideradas práticas de multiletramentos, na mcd.1da em que exigem

lctramentos em diversas linguagens, como a v i s u a l , sonora, verbal (escrita e oral), gestual/


na escola, é preciso considerar a cultura digital, os multiletramentos, os
corporal. Já os novos le1ramentos remetem a um conjunto de práticas específicas da mídia

digital que operam a partir de uma nova mentalidade, regida por uma ética diferente."

9 Segundo a Wikipedio, "ethos, na Sociologia, é uma espécie de síntese dos costumes de _um

6 povo. O termo indica, de maneira geral, os traços característicos de um grupo, do ponto de vista
Alguns a�tor�s va_Jem-se do t:nno "multimodalidade" para designar esse fenómeno.
7 social e cultural, que o diferencia de outros. Seria assim, um valor de identidade social. f:thos
De �aneira s11n�ht1cada, � musica modal privilegia o ritmo; a tonal, a melodia e a harmonia e
que significa o modo de ser, o caráter. Isso indica o comportamento do homem dando ongcm
a sena! descontrn] esses sistemas anteriores, por meio de tecnologias cletrônicas e digitais.
a palavra ética." (Disponível cm: http://pt.wikipcdia.org/wiki/Ethos. Acesso cm: 2 1 / 0 7 / 2 0 1 4 . )

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ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

em tecnologias móveis e ubíquas, como smartphones, relógios, óculos


que constituem a multissemiose, devem ser considerados nas práticas de
e mesmo chips implantados.
letramentos contemporâneas.

Contemplando essas mudanças tecnológicas, a BNCC avança para


Porque as condições de produção e circulação são bem mais com­
além dos textos escritos e impressos, incorporando gêneros e práticas
plexas, o acesso não se dá da mesma forma para todos ( o que pode ser
do mundo digital e relacionados a habilidades ligadas à Web 2.0 e 3 . 0 .
fonte de desigualdade). Romper com isso (ou minimizar essa situação),
Vejamos:
então, é um dos compromissos das políticas educacionais nos diferentes

níveis e instâncias. A abundância de informações e produções requerem


Não são somente novos gêneros que surgem ou se transformam
outras habilidades e critérios de curadoria e de apreciação ética e esté­
(como post, tweet, meme, mashup, playlist comentada, reporta­
tica, que podem não ser desenvolvidos/aprendidos somente a partir_ da
gem multimidiática, relato multimidiático, vlog, videominuto,
experiência cotidiana. Apesar do potencial participativo e colaborativo
political remix, tutoriais em vídeo, dentre outros), mas novas

ações, procedimentos e atividades (curtir, comentar, redistri­ (que deve ser explorado pela escola), não é rara a profusão de discursos

buir, compartilhar, taguear, seguir/ser seguido, remixar, curar, de ódio e de notícias falsas (as fake news ), que intensificam o fenômeno

colecionar/descolecionar, colaborar etc.) que supõem o desen­


da pós-verdade nas mais variadas instâncias da intemet. A exortaç�o à

volvimento de outras habilidades. Não se trata de substituição


novidade, à instantaneidade e ao capital social (quantos likes as publica­
ou de simples convivência de mídias, mas de levar em conta
ções/produções terão), não raro trazem a superficialidade, a banalização
como a coexistência e a convergência das mídias transforma as
e a perda de sentido dos registros (fotos, vídeos, áudios etc.). Não é por­
próprias mídias, seus usos e potencializa novas possibilidades

de construção de sentidos. que grande parte dos jovens participam de alguma forma das práticas da

Merece destaque o fato de que, ao alterar o fluxo de comunica­ cultura digital que o fazem de forma ética, estética e crítica.

ção de um para muitos - como na TV, rádio e mídia impressa


A consideração da cultura digital também se justifica pela própria
- para de muitos para muitos, as possibilidades advindas das
relação da escola com as temporalidades. A escola tem que dar conta de
tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC)

permitem que todos sejam produtores em potencial, imbricando várias temporalidades: do passado, na medida em que é responsável por

mais ainda as práticas de leitura e produção (e de consumo ensinar o patrimônio humano em termos de conhecimentos construídos

e circulação/recepção ). Não só é possível para qualquer um (sendo que parte considerável de informações relativas a esses conhe­

redistribuir ou comentar notícias, artigos de opinião, pastagens


cimentos estão disponíveis na intemet e a questão é como acessá-la,
em vlogs, machinemas, AMVs e outros textos, mas também es­
organizá-la, tratá-la, analisá-la, transformá-la em conhecimento); do
crever ou performar e publicar textos e enunciados variados, o
futuro, na medida em que deve intencionalmente construir seus process?s
que potencializa a participação. (BRASIL, 2 0 1 8 , pp. 487-488)

educativos a fim de formar pessoas autônomas, éticas e responsáveis,

capazes de serem protagonistas de seu projeto de vida, respondendo aos


Para tanto, a escola precisa possibilitar o contato com larga varie­
desafios da sociedade de seu tempo; e do presente, na medida em que
dade de enunciados, em práticas diversas de uso das línguas e das outras
precisa fazer sentido para os jovens, em suas diversidades de culturas e
semioses, tais como as linguagens visuais, corporais/gestuais e sonoras.
grupalidades, contextualizando os conhecimentos e acolhendo questões
Nas sociedades tecnológicas contemporâneas, essa diversidade de enun­
pessoais e sociais colocadas pelo presente, dando espaço para suas nar­
ciados e práticas se amplia, colocando novos desafios à escola. Nesse
rativas, angústias e expectativas e para as formas de expressão e práticas
sentido, os textos que articulam o verbal, o visual, o gestual, o sonoro,
socioculturais juvenis, que nem sempre estão ancoradas somente no

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GÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
GÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAl'IOS

presente e nas próprias culturas juvenis, mas antecipam o que circulará


Na BNCC, os componentes da Área de Linguagens e suas Tecnolo­
em outras esferas em um futuro próximo.
gias apresentam muitas interseções e possibilidades de articulação, tanto

Dessa forma, considerar as culturas juvenis na escola não é só intra-área como com as outras áreas de conhecimento. Deste modo, a

aco�her e dialogar com as diferentes grupalidades ou identidades ju­ área, na medida em que se volta para as práticas de linguagens em cir­

vems, compreendendo suas manifestações nos diferentes espaços da culação na vida social, propõe que os campos de atuação social sejam
1 1 •

es��la, suas marcas corporais, seus discursos e estéticas próprios, suas um dos seus principais eixos organizadores Como vimos, as esferas

pr�h�as da cultura corporal, suas produções nas diferentes linguagens ou campos de atividade humana ou de circulação dos discursos - já que

artísticas, mas também as formas de expressão e práticas socioculturais toda atividade humana, seja qual for sua materialidade, se entretece

q�e atravessam essas várias grupalidades. Nesse sentido, alguns dos como enunciados e discursos - são a instância organizadora da produ­

discursos e enunciados, ações, procedimentos e atividades já menciona­ ção, circulação, recepção dos textos/discursos na vida social e por isso

dos são também considerados na BNCC, além daqueles que transitam, apresentam-se como um organizador potente também para as reflexões

por exemplo, no universo dos games, na cultura de fãs e nas formas e aprendizagens escolares sobre eles.

de participação juvenis.

O tratamento das práticas sociais que envolvem o uso de diferen­


l i Essa 6 uma novidade da ilNCC cm tcnnos da organização da área. Se a consideração das csfc­
tes linguagens em situações variadas, visando a apropriação e reflexão
ras/campos de utlvidade não é estranha ao omponciuc Língua Portuguesa nc111 no du L111gu.i

críticas, integra todos os componentes da Área de Linguagens e suas lnglcs», provavclmcmc ,, ;cja pura os componcntcs Art • e l:duc,1ção Fisi�t e ,1 vislumbre de

po. sibllidades de pràtlcas que articulem saberes e pcrspcctivas dos diferentes componentes
Tecnologias. Para todas as linguagens, trata-se de possibilitar a partici­ ou que possam ensejar pràticas Inter ou transdisciplinarcs demanda o d cs c n v ul v i m c n io (l sssu

pr posi\:ilo gcuérlca, novas ubordagons tcôrlco-rnctodolôgicas, discussões com ()S pro fossares,
pação em práticas de produção e recepção de discursos que sempre se
ações de lorrnução, dentre o u t ra s neccssldades. Em rclm)ílo 1
) 111·1Iculaçíl(1 dcsahcres e perspcc­

pautam pelas considerações do contexto de produção articulado com tivas dos diferentes componentes no contexto da csferujornullstico-mldiática, pode-se dar lui
O
ao .1011111li.smo cultural, ao que u _grande mídin não comcmpla cm termos nrtlsücos 1.1 e u l t u ra i s
funcionamento das semioses nos enunciados/produções, cuja análise (e �s ruzões disso) e ; eventual neeessldade ou posslbltidud • de divulgações dus produções

artisticas e cuhurals locais cm publicações variadas zines, k•gs, podcasts, playllsts eic.>,
deve se reverter para o incremento das situações de uso. Ou seja, os
.:is prá!iCHS cs p o rt i v as privllcglndns pelu rnldla ( i nclus iv e com relação i\ desigualdade entre

c?mponentes se integram na medida em que trabalham com práticas e géneros, cm termos de cobertura (e ünanciarncnto). os padrões corpornis vcículaüos, uos

distúrhius alimentares contemporâneos, f1 promoçãu de saúde, ,\ i 11<lústrio do f:itncs� etc. l)i­


discursos viabilizados por diferentes linguagens (verbal, visual, sonora, Icrerues ternas ll questões ccntrcversos rclacioundos fJOS diferentes componentes poderiam ser

objeto de discussão cm tcxtosjornnllsticos va ri a d os ou oqjch> de estudo e pesquis11 (campo dHs


corpor�l/gestual!, que, em suas especificidades, garantem a construção
prátlcas de esiudo e pesquisa) ou a ind a poderiam fomentar rcivlndicações cm termos de ações

de sentidos de circulação social, por meio da formação de leitores/pro­ de p o l l t i ca pública ou de garmuías legais (CHmpn da v i da pública), Em relação no campo etc

ntuação dn vida p ú b l i c a , cahcrin nindn reivindicar espaços pi1111 práticas ·sn< rtlvas e tlü cultura
dutores de textos (produsuários'") na perspectiva dos multiletramentos corporal, cq11ipt11110111os.:: espaços culturais bem como o participação ela comunidade na sun
, . '
gcstilo, cnrudoria e orga11i7.açl10. 11 uure t1ulm., p'os�ihilill11dt:S. No entupo artlstico; 111.!m ele outras
em p�aticas de recepção e produção de sentidos nas diferentes linguagens
articulações possíveis na linhu do destacado 1111s ouuos c:11111:111s. a ccnsidci 1çi!o dn · diferent ·s
em diversos campos de atuação. mnrlalidadcs Artísticas reclama cm especial 11n, tratamento intcrdisciplinur nu ahordngcm dns

Hnguugeus/difcrcntc« . isremns s e m l ó t i c o s , sempre conícxtuallzada ro-r dlfcrcrucs cstétlcas

s ó cl o hlstoricarnerue constiruídns. Asstm, por excrnp]o, 11111 e pcttlculo de Pina Uauch pode ser

analisado a partir da pcrspectiva da dança (o que já supõe a consideração da música), do teatro,

da performance, mas também da pcrspectiva do movimento, contemplado pela Educação Física.


10 O me smo tratamento pode/deve ser da d o à análise do verbal, de imagens, proeluçõcs sonoras
Tcrn�o uUI.ii�do p()n alguns nulores pura ressaltar > füt, de que, no fruto com os textos ílghais
de diferentes naturezas, gestua li d a des em diferentes produções midiáticas e hipcnnidiáticas
m111t1sscm16ttr-0�. arcccpç,1o e procluçfi�J de textos/discursos 11![ se dill\ de mencíra scpnratla,
8 1 presentes nos tcxtosjornalistico-midiáticos contcmporânt:-<>S. lss(l c.�igc o 1..ksenv11lvimento das
cada urna se'. tcm�o: �nw 11a era cio unpresso, mas silo atividades combinadas e concornl­
ciências de base, algo que está na agenda de diferentes li;()rl,1s �c111ióLicas ..Vou relacionadas
'.ªnte�.•.ms (ln\llcas digitais: duí n cmnbin(lÇFío de lermos pr,;,dutor/uswirio proposta por alguns
aos estudos dos novos e multilctram e ntos e da cu l tura digiutl e que prccis.1 si.:r objeto de ações
autores (p1odusuárlo - Bruns, 2009). prnclutor/consu111iclor (prostltnitlur - Gur .ia- r ·
1111
2 0 1 2 ) ; lc1tnrlnutor (lauto1· - R�jo, JO 1 �). an •
de formação docente, sob o risco de ser s i m p lesment e desconsiderado no âmbito elo currículo

cm ação.

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285

..
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

tempos dados para lazer, práticas das culturas corporais, práticas cul­
2. CAMPOS DE ATUAÇÃO, LETRAMENTOS E GÉNEROS

turais, experiências estéticas, participação social e atuação em âmbito

local e global etc., na direção de fomentar escol has de estilos de vida


O componente de Língua Portuguesa contextualiza as práticas de
saudáveis e sustentáveis, que contemplem um engajamento consciente,
linguagem e as habilidades considerando os campos abaixo elencados,
critico e ético com as questões coletivas e abertura para experiências
se�do que, no Ensino Médio, esses campos são supostos também para
estéticas significativas, o que supõe aprendizagens e habilidades também
a Area de Linguagens:
relacionadas a outros campos de atuação.

No âmbito desse campo, muitos géneros e letramentos podem ser

ENSINO FUNDAMENTAL
contemplados. A consideração de áreas e focos de interesses e afinidades
ENSINO MÉDIO

Anos iniciais Anos finais dos jovens abre espaço para que se possa ter em conta diversas práticas

sociais e formas de expressão das culturas juvenis, produções e vozes,


Campo da vida cotidiana Campo da vida pessoal

em geral, desconsideradas pelos currículos. A menção à ampliação das


Campo artístico-literário Campo artístico-l iterário Campo artístico-literário
referências e experiências culturais dá margem à consideração de dife­

Campo das práticas de estudo Campo das práticas de Campo das práticas de rentes letramentos. Novos e multiletramentos são também considerados

e pesquisa estudo e pesquisa estudo e pesquisa


nas práticas e na seleção de géneros multimodais, na intersecção com o

Campo jornalístico-mi- Campo j o r n a l í s t i c o - m i - campo artístico literário. Ao mesmo tempo, os letramentos valorizados

diático diático
são também contemplados nas situações de reflexão e discussão sobre
Campo da vida pública

Campo de atuação a vida Campo de atuação a vida a condição juvenil, sobre o trabalho na contemporaneidade, numa zona

pública pública
de intersecção com os campos da vida pública, jornalístico midiático e

das práticas de estudo e pesquisa.

1. Campo da vida pessoal: No contexto do Ensino Médio, trata-se


2. Campo de atuação na vida pública, em que circulam os dis­
de possibilitar uma reflexão sobre as condições que cercam a vida con­
cursos/textos normativos, legais, jurídicos, que regulam a convivência
temporânea e a condição juvenil no Brasil e no mundo e sobre os temas
em sociedade e permitem a consciência de direitos e a formação de uma
e questões que afetam o jovem, propiciando vivências, experiências,
ética da responsabilidade, assim como discursos/textos propositivos e
análises críticas e aprendizagens que possam se constituir como suporte
reivindicatórios (petições, manifestos etc .), que permitem a participação
para os processos de construção de identidade e de projetos de vida para
ativa na vida pública, pautada pela ética.
os jovens, por meio do mapeamento e resgate de suas trajetórias pessoais,

de seus campos de interesses, afinidades, antipatias, angústias, temores Para além dos letramentos valorizados que atravessam práticas

etc., que possibilite uma ampliação de referências e experiências cultu­ institucionalizadas de participação, a BNCC prevê que outras formas de

rais diversas e do conhecimento sobre si, tendo em vista a coletividade participação sejam consideradas:

e as questões contemporâneas e a forma como repercutem no Brasil e

(EM13LP24) Analisar formas não institucionalizadas de par­


no mundo. A construção de projetos de vida, envolve não só reflexões/
ticipação social, sobretudo as vinculadas a manifestações ar­
definições em termos de vida afetiva, família, estudo, trabalho, mas em
tísticas, produções culturais, intervenções urbanas e formas de
termos de saúde, bem-estar, relação com o meio ambiente, espaços e

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ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
GÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

de pesquisa, curadoria de informação, tratamento �a informaç�o/dos


expressão típica das culturas juvenis que pretendam expor uma

problemática ou promover uma reflexão/ação, posicionando­ dados e divulgação/socialização dos resultados. Aqui, tanto os g�neros

se em relação a essas produções e manifestações. (BRASIL, considerados para leitura/consulta como para produção são ampha�os.

2 0 1 8 , p. 5 1 4 )
Para além dos gêneros já consagrados relacionados à divulgação cien­

tífica - palestra, seminário, artigo de divulgação científica, verbete ,de

Assim, ao lado de gêneros já consagrados na escola, como debate e enciclopédia, reportagem, texto didático etc. - são considerados tambem

projeto de intervenção social, formas de participação digital são conside­ videoaula relato multimidiático de campo, documentário, infográfico,
' " ,..,
radas e gêneros como political remix e meme são sugeridos. Afinal, um cartografia animada, vlogs e podcasts de diferentes naturezas, gene�os

cartaz com palavras de ordem em uma manifestação contra a exploração multissemióticos, textos hipermidiáticos, que suponham colaboraçao,

capitalista não deixa de expressar um ponto de vista relevante sobre a próprios da cultura digital e das culturas juvenis" (BRASIL, 2 0 1 8 , P· 1 4 1 ).

questão, mas um grupo de pessoas fantasiadas de zumbis possibilita

outras articulações e pode chamar mais atenção e render mais selfies e


Não raro, as fontes de consulta e de estudo dos jovens hoje não são
12

viralizações. Ao lado das formas de mobilização mais consagradas,


mais os livros didáticos e as enciclopédias, mas os aplicativos/plataforma
ligadas a partidos e agremiações, mobilizações transmídias (Jenkins,
de ensino (com suas videoaulas e atividades), videoaulas, vlo�� científi­
2 0 1 6 ) , mais horizontalizadas e mais participativas ganham espaço. Isso
cos, que amplia a necessidade de desenvolvimento de hab1hdad:s de
0
não significa necessariamente consciência política (daí a pertinência
curadoria e coloca outras habilidades em circulação. Novamente, nao se
de que o currículo as contemple, de alguma maneira), mas a expansão
trata de uma relação de substituição, mas de ampliação, de potenciali­
das formas de produzir e construir sentidos aumentam, potencialmente,
zação de fontes, referências e possibilidades de fazer sentidos. Segundo
a possibilidade de mobilização e de expansão da consciência política.
a BNCC (p. 69):

3. Campo das práticas de estudo e pesquisa: Abrange a pesquisa, Como resultado de um trabalho de pesquisa sobre produções

culturais, é possível, por exemplo, supor a produção de �m


recepção, apreciação, análise, aplicação e produção de discursos/textos
ensaio e de um vídeo-minuto. No primeiro caso, um maior
expositivos, analíticos e argumentativos, que circulam tanto na esfera
aprofundamento teórico-conceituai sobre o objeto parece
escolar como na acadêmica e de pesquisa, assim como no jornalismo
necessário, e certas habilidades analíticas estariam mais em
de divulgação científica, cujo domínio é vital para aumentar a reflexão
evidência. No segundo caso, ainda que um nível de análise

sobre as linguagens, a construção do conhecimento científico e para o possa/tenha que existir, as habilidades mobilizadas estariam

desenvolvimento de uma autonomia relativa aos processos de aprendi­ mais ligadas à síntese e percepção das potencialidades e for­

zagem (por vezes referida como "aprender a aprender") . mas de construir sentido das diferentes linguagens. Ambas

as habilidades são importantes. Compreender uma palestra

Atitudes, procedimentos e habilidades de estudo articulam-se com


é importante, assim como ser capaz de atribuir diferentes

procedimentos de pesquisa. Ganham destaque a progressão das apren­ sentidos a um gif o meme. Da mesma forma que fazer uma

dizagens relativas às práticas de pesquisa: recorte do problema/questão comunicação oral adequada e saber produzir gifs e memes

significativos também podem sê-lo.


12 Refürc11do a 111110 s l t u a ç ü n comcnradu 1wr Jenklns (2016) relacionada às manifestações de

2011 nos P.LJA llg:1dus fl<I mo i111c11lo Occupy Wa/1 Street: "The zombie had emerge as onc

ol' mnuy key syrnhols ui' thc Occupy movcmeru -standing in for 'undcad corporations' that

werc sucking Lhe lifcblood ol'thc 99 percent, s 1111 ss exccutives who had lost thcir humanity

ln p111·suit ofeapitul'', (füNKIN . 201(>. p. 1 )

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ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

No Ensino Médio, a própria linguagem é colocada como objeto de


4. Campo jornalístico/midiático, em que circulam os discursos/
pesquisa. Não somente os sistemas semióticos variados, à luz de esté­
textos da mídia informativa (impressa, televisiva, radiofônica e digital),
ticas específicas, como já destacado, mas também os conhecimentos e
a ótica das forças sociais em confronto e o discurso publicitário, que per­
conceituações consagradas:
mite construir urna consciência crítica e seletiva em relação à produção

e circulação de informações, posicionamentos e induções ao consumo.


Cabe também ampliar a compreensão dos jovens sobre a

linguagem e a língua, vistas como objetos de pesquisa. Dessa


Talvez esse seja o campo que mais transformações tenha sofrido e
forma, contribui-se para a compreensão, de procedimentos

de investigação da área e para o entendimento de que os co­ que mais demandas traga para escola atualmente. Em tempos em que a

nhecimentos sobre as línguas e as linguagens são construções desinformação é uma ameaça à democracia e em que a imprensa sofre

humanas situadas sócio historicamente. Sendo assim, elas são


ataques constantes e é frequentemente desautorizada, cabe urna defesa
passíveis de interpretação e mudança, não se constituindo em
crítica da grande rnídia, que reconheça seu papel da cobertura de fatos,
verdades únicas e imutáveis( . . . ) e contribuindo para o desen­
mas que desvele seus interesses, e também toma-se fundamental o de­
volvimento (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 5 1 6 ) .

senvolvimento de habilidades relativas à curadoria de informação e a

ampliação de possibilidades e canais de informação, contemplada em


As perspectivas de estudo sobre a língua e a linguagem, bem como
habilidades corno:
as variedades consideradas, devem ser ampliadas e problematizadas:

(EM 1 3 LP3 7) Conhecer e analisar diferentes projetos edito rias -


No Ensino Médio, aprofundam-se também a análise e a
institucionais, p rivados, públ icos, nanciados, independentes etc.
fi

reflexão sobre a língua, no que diz respeito à contraposição


-, de orma a ampliar o repertório de escolhas
f p ossíveis de fontes
entre uma perspectiva prescritiva única, que segue os moldes
de informação e opinião, reconhecendo o papel da mí dia plural
da abordagem tradicional da gramática, e a perspectiva de
para a consolidação da democracia ( BRASIL, 2018, p. 521 ).
descrição de vários usos da língua.

Ainda que continue em jogo a aprendizagem da norma­

padrão, em função de situações e gêneros que a requeiram,


No campo jomalístico-rnidiático, parte considerável das habilidades

outras variedades devem ter espaço e devem ser legitimadas. focam a relação dos gêneros com atividades e características da esfera,

A perspectiva de abordagem do português brasileiro também supondo a análise dos agentes, diferentes interesses, conflitos e questões

deve estar presente, assim como a reflexão sobre as razões de


contemporâneas:
sua ainda pouca presença nos materiais didáticos e nas escolas

brasileiras (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 504).


( E F69 LP 01 ) D iferenciar i
l b erdade de expressão de discursos

de ódio, posicionando-se contrariamente a esse tipo de discurso

Na esteir a dessas considerações caberia também propor uma pro­


e vislumbrando p ossi b i li dades de enúncia quando
d fo r o caso

blematização acerca dos letramentos tradicionalmente considerados (BRAS IL , 20 1 8 , p. 1 4 1 ) .

pela escola, que, se por um lado, servem a um ideal democratizante de

' London Group-· GN LJ vai ressaltar a importância da consideração dos diferentes letramentos:
possibilitar acesso e aos conhecimentos e ao patrimônio imaterial, por
"The role ofpcdagogy is to develop an epistcmology ofpluralism that providcs access with�ut

outro, acabam por ignorar (e, em muitos casos, silenciar) muitas vozes '3. pcoplc having to crase or lcav_c bchind �i�c�ent subjecrivitics" (�NL, 2000, p . 1 8 ) . Para ale1_1�

das questões que dizem respeito às subjet ividades, a ep1stemolo?ia do pl�ral1smo, no q�c �1z

13 respeito à m u lti m od a l id a de e à diversidade cultural, possibilitaria a ampliação de referencias


Ao destacar o papel da Pedagogia dos Multiletramentos, o Grupo de Nova Londres (The New
e po t e n c iali za as p ossib il idades de construção ele sentidos.

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ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

( E F 8 9 L P 0 1 ) Analisar os interesses que movem o campo


(EM 13LP40) Analisara fenômeno da pós-verdade =discutindo
jornalístico, os efeitos das novas tecnologias no campo e as
as condições e os mecanismos de disseminação de fake news

condições que fazem da informação uma mercadoria, de for­


e também exemplos, causas e consequências desse fenômeno

ma a poder desenvolver uma atitude crítica frente aos textos


e da prevalência de crenças e opiniões sobre fatos -, de forma
jornalísticos (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 1 7 7 ) .
a adotar atitude crítica em relação ao fenômeno e desenvolver

uma postura flexível que permita rever crenças e opiniões


(EF08LP01) Identificar e comparar as várias editorias de
quando fatos apurados as contradisserem.
jornais impressos e digitais e de sites noticiosos, de forma a

refletir sobre os tipos de fato que são noticiados e comentados,


(EM 1 3 LP4 l ) Analisar os processos humanos e automáticos de

as escolhas sobre o que noticiar e o que não noticiar e o desta­


curadoria que operam nas redes sociais e outros domínios da
que/enfoque dado e a fidedignidade da informação (BRASIL,
internet, comparando os feeds de diferentes páginas de redes
2 0 1 8 , p. 177).
sociais e discutindo os efeitos desses modelos de curadoria, de

forma a ampliar as possibilidades de trato com o diferente e


(EF09LPO 1) Analisar o fenômeno da disseminação de no­
minimizar o efeito bolha e a manipulação de terceiros (BRA­
tícias falsas nas redes sociais e desenvolver estratégias para
SIL, 2 0 1 8 , p. 5 2 1 ) .
reconhecê-las, a partir da verificação/avaliação do veículo,

fonte, data e local da publicação, autoria, URL, da análise da


Além dos gêneros tradicionalmente trabalhados pela escola, outros
formatação, da comparação de diferentes fontes, da consulta

a sites de curadoria que atestam a fidedignidade do relato dos relacionados aos novos e multiletramentos são contemplados e a condição

fatos e denunciam boatos etc. (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 177). de consumidor/produtor é destacada:

(EF09LP02) Analisar e comentar a cobertura da imprensa


(EF69LP06) Produzir e publicar notícias, fotodenúncias,

sobre fatos de relevância social, comparando diferentes enfo­


fotorreportagens, reportagens, reportagens multimidiáticas,

ques por meio do uso de ferramentas de curadoria (BRASIL,


infográficos, podcasts noticiosos, entrevistas, cartas de leitor,
2 0 1 8 , p. 177).
comentários, artigos de opinião de interesse local ou global,

textos de apresentação e apreciação de produção cultural - re­

(EM13LP39) Usar procedimentos de checagem de fatos noti­


senhas e outros próprios das formas de expressão das culturas

ciados e fotos publicadas (verificar/avaliar veículo, fonte, data


juvenis, tais como vlogs e podcasts culturais, gameplay, deto­

e local da publicação, autoria, URL, formatação; comparar


nado etc.- e cartazes, anúncios, propagandas, spots, j ingles de

diferentes fontes; consultar ferramentas e sites checadores


campanhas sociais, dentre outros em várias mídias", vivencian­

etc.), de forma a combater a proliferação de notícias falsas


do de forma significativa o papel de repórter, de comentador,
14).

(fake news
de analista, de crítico, de editor ou articulista, de booktuber,

14
A propósitodus/uke11ew�·. seu traramento rwdc se dor 1 1 0 iimbito da , ·ploraçilu do gôn�ro m)I[ ia, de vlogger (vlogueiro) etc., como forma de compreender as

ºº."� cleslaqu� pum a qucsl?o da fldedlgnidade da infonnaçã ou pode se dar, de íorma 1nab
condições de produção que envolvem a circulação desses textos
c1�1l1ca, o partir da sua �on 1dcrn�'Yo como ur.n outro gcni.:ro do dis mrso. Alguns pesquisadores

vem ;_1po111amlo para a incoerência da d1:nommaçlio.fnke new.l': SC l: •:1i1k1/', não pode ser "news ':
objetivo: desacreditar/desmoralizar/prejudicar alguém, alguma instituição ou partido, confundir
�� é lals,1, níl.n pode. ser notfcia . Outros destucam que noueíns lulsas cxlstinun lesde sempre.
ou víralizar desinformação para fazer preponderar sua narrativa dos fatos ou enfraquecer o
la certo que 11n1lrccL�Ocs e Inverdades sempre forom publicadas por várias razões - folia de:
adversário; conteúdo temático: relatos de inverdades tidas corno ocorridas, cm função de certos
Hpt_iro lil'. adequadn de ratos, ãnsiu de dar a notlcía primeiro, (listorçõcs/cxagerns por ·onta do

interesses; construção composicional e estilo próximos da notícia, por se pretender passar por
esld� de 11nprc:J.':"ª (�cnsaciormlista) etc. Mas esse bomburdcio de nou ·ia� thlsns que virallza cm
verdade, ainda que, cm alguns casos, as diferenças em relação à diagramação/cdição, denunciem
11111 rnmo untes írnposstvcl é um l e u ômcno recente. Nesse sentido, é CfLtC podemos íular de um

a falsidade do texto.
11ov11 género, (!UI! surg • cm (lc1c1mirmclas condições de produção do oa111po-<llsput::i adrr.i<la

1 5 A leitura e análise de textos e produções pertencentes a esses gêneros está contemplada em


de grupos opostos polarizados e extremos, que rompem o cJ o m l n j o l111 ética para se contrapor;
outras habilidades.

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293
GÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
GÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAJ,JOS

e poder participar e vislumbrar possibilidades de participação


(EM I 3LP4 7) Participar de eventos (saraus, competições orais,

nas práticas de linguagem do campo jornalístico e do campo


audições, mostras, festivais, feiras culturais e literárias, rodas

midiático de forma ética e responsável, levando-se em consi­


e clubes de leitura, cooperativas culturais, jograis, repentes,

deração o contexto da Web 2.0, que amplia a possibilidade de


slams etc.), inclusive para socializar obras da própria autoria

circulação desses textos e "funde" os papéis de leitor e autor,


(poemas, contos e suas variedades, roteiros e microrroteiros,

de consumidor e produtor (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 143)


videominutos, playlists comentadas de música etc.) e/ou in­

terpretar obras de outros, inserindo-se nas diferentes práticas

Note-se que a referência às praticas sociais é feita de forma direta - culturais de seu tempo (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 525).

"vivenciando de forma significativa o papel de repórter, de comentador,


(EM13LP49) Perceber as peculiaridades estruturais e estilís­
de analista, de crítico, de editor ou articulista, de booktuber, de vlogger
ticas de diferentes gêneros literários (a apreensão pessoal do
(vlogueiro) etc." - seja em contextos em prol da comunidade, seja em
cotidiano nas crônicas, a manifestação livre e subjetiva do eu
situações envolvendo contextos mais globais , o que supõe uma trabalho
lírico diante do mundo nos poemas, a múltipla perspectiva

com os gêneros para além da exploração da sua construção composicional da vida humana e social dos romances, a dimensão política e

e de sua marcas linguísticas: é preciso, por exemplo, trabalhar com técni­ social de textos da literatura marginal e da periferia etc.) para

cas básicas de apuração de fatos, o que também contribui para fomentar experimentar os diferentes ângulos de apreensão do indivíduo

e do mundo pela literatura (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 525).


o jornalismo participativo e o jornalismo comunitário.

Conhecimentos consagrados relativos aos movimentos estéticos,


5. Campo artístico, espaço de circulação das manifestações ar­
obras e autores à exploração da linguagem literária e de elementos da
tísticas em geral, que permite reconhecer, valorizar, fruir e produzir
narrativa continuam presentes - até para que se p ossa , sobretudo no en­
tais manifestações, com base em critérios estéticos e no exercício da
sino médio, contribuir com a formação de um leitor mais crítico, menos
s ensi bi lida d e .

subserviente à indústria editorial, que p ossa aceder a camadas de leitura

Novamente aqui, trata-se de contemplar tanto os letramentos tra­ diversas e exercer mais plenamente seu "direito à litera tura"-, mas a

dicionalmente valorizados p e l a escola, como os letramentos ligados a


partir do contato efetivo com as obras. Mas também são contemplados

práticas culturais e gêneros de menor pr e stígio:


obras e autores contemporâneos. Além do cânone e dos cl á ssicos, o

best-seller, a literatura marginal, o nanoconto, o microroteiro, dentre

Diversificar, ao longo do Ensino Médio, produções das cul­


outros, são considerados. De igual forma, outras produções envolvendo
turas juvenis contemporâneas (slams, vídeos de diferentes
diferentes mídias e linguagens são também consideradas.
tipos, playlists comentadas, raps e outros gêneros musicais

etc.), minicontos, nanocontos, best-sellers, literaturas juvenis Além disso, para além das rodas de conversas e produções de textos

brasileira e estrangeira, incluindo entre elas a literatura africana valorizados, como resenhas, práticas contemporâneas de compartilha­

de língua portuguesa, a afro-brasileira, a latino-americana etc.,


mento e produções responsivas que ampliam as repercussões das obras
obras da tradição popular (versos, cordéis, cirandas, canções
lidas/ produções assistidas ou ouvidas são previstas:
em geral, contos folclóricos de matrizes europeias, africanas,

indígenas etc.) que possam aproximar os estudantes de culturas


(EF69LP46) Participar de práticas de compartilhamento de
que subjazem na formação identitária de grupos de diferentes
leitura/recepção de obras literárias/manifestações artísticas,
regiões do Brasil (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 524).
como rodas de leitura, clubes de leitura, eventos de contação

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L
ÜÊNEROS DE TEXTO!D!SCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS l'RÁTICAS E DESAl'lOS

de histórias, de leituras dramáticas, de apresentações teatrais


consideração dos diferentes letramentos, explicitando um dos pontos de
musicais e de filmes, cineclubes, festivais de vídeo, saraus, sla�
tensão: "The role of pedagogy is to develop an epistemology of plura­
ms, canais de booktubers, redes sociais temáticas (de leitores
lism that provides access without people having to erase or leave behind
de cinéfilos, de música etc.), dentre outros, tecendo, quando

possível, comentários de ordem estética e afetiva e justifican­ different subjectivities" (COPE e KALANTZIS, 2000, p . 1 8 ) . Para além

�o su_as apreciações, escrevendo comentários e resenhas para das questões que dizem respeito às subjetividades, a "epistemologia do

Jornais, blogs e redes sociais e utilizando formas de expressão pluralismo", considerando a exploração da multimodalidade e da diver­

das cul�ras juvenis, tais como, vlogs e podcasts culturais (lite­


sidade cultural, possibilitaria a ampliação de referências e potencialíza
ratu�a, cmem�, teatro, música), playlists comentadas,Jaefzcs,
as possibilidades de construção de sentidos.Mas, mais do que isso, é
fa�zmes, e-zines, fanvídeos, fanclipes, posts em Janpages,
preciso considerar que os gêneros conformam de alguma maneira nossa
trailer honesto, vídeo-minuto, dentre outras possibilidades

de práticas de apreciação e de manifestação da cultura de fãs


maneira de olhar o mundo" e limitar o trabalho escolar à exploração

(BRASIL, 2 0 1 8 , p. 157). dos gêneros tradicionalmente considerados pela escola é deixar de lado

muitas perspectivas de olhar, nuances e conflitos; é privilegiar certas

(EM13LP53) Produzir apresentações e comentários apreciati­


narrativas e invisibilizar outras.
vos e críticos sobre livros, filmes, discos, canções, espetáculos

�e t�a�ro e dança, exposições etc. (resenhas, vlogs e podcasts


A questão é que, como já destacado, o tratamento contextualizado

hteranos e artísticos, playlists comentadas, fanzines, e-zines das práticas de linguagens (e letramentos) nos campos de atuação, de

etc.) (BRASIL, 2 0 1 8 , p. 526).


onde derivam conhecimentos e conteúdos (inclusive a escolha dos gê­

neros do discurso), aprendizagens e habilidades tende a ser ignorado


(��13LP54)_ Criar obras autorais, em diferentes gêneros e
na construção e implementação dos currículos e o que se têm, muitas
mídias - mediante seleção e apropriação de recursos textuais e
vezes, é sua redução a um quadro de gêneros e habilidades por ano que
expressivos do repertório artístico-, e/ou produções derivadas

(paródias, estilizações, fanfics, fanclipes etc.), como forma


reitera os gêneros e letramentos valorizados e, por força de lei, a criação

de dialogar crítica e/ou subjetivamente com O


texto literário de espaços apartados do restante do currículo (tais como oficinas de di­

(BRASIL, 2 0 1 8 , p. 526).
ferentes tipos) para a consideração dos gêneros relacionados às práticas

contemporâneas de linguagem e aos letramentos vemaculares.

Como se pode perceber, em maior ou menor grau, em todos os

campos de atuação previstos pela BNCC, são considerados diferentes

letramentos � dominantes, vemaculares, valorizados, estigmatizados,

novos e m�ltiletrament�s -, gêneros tradicionalmente valorizados pela

escol� e generos a partir dos quais práticas de linguagem contemporâ­

n�as t�m lugar e, consequentemente, diferentes vozes são consideradas,

diversidade essa que deve ser mantida e ampliada na construção dos

currículos locais.
16 Analisando a crítica que Mcdvcdcv faz aos formalistas relativa à redução do gênero a seus

aspcctos formais, afirmando que isso os impedia de apreender o real significado do gêncro,

Faraco (2009), sempre destacando que os gêneros não podem ser abstraídos da SLLa esfera
Ao destacar o papel da Pedagogia dos Multiletramentos Grupo
O
de circulação, vai considerar que "desse modo os gêncros constituem agregados de meios de

de Nova Londres vai, em outros termos, ressaltar a impo�ância da orientação coletiva frente à realidade; constituem, cm outros termos, meios de conhecimento

situado. São modos e meios sócio-históricos de visualização e conceitualização da realidade"

(pp. J 3 0 - 1 3 1 ).

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ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS
ÜÊNEROS DE TEXTO/DISCURSO: NOVAS PRÁTICAS E DESAFIOS

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