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Lucas 7.36-50
Auxílio Homilético

01/07/2001

Prédica: Lucas 7.36-50


Leituras: 2 Samuel 11.26-12.10,13-15 e Gálatas 2.11-16,19-21
Autora: Vera Maria Immich
Data Litúrgica: 4º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação:1/07/2001
Proclamar Libertação – Volume: XXVI

1. Introdução

O texto do Evangelho de Lucas 7.36-50 já foi amplamente trabalhado no PL VIII pelo pastor Otto Porzel
Filho e no PL XIV pelo pastor Martin N. Dreher. Sugerimos consultar estes subsídios para um maior
enriquecimento sobre os vários aspectos que o texto em questão nos apresenta e permite.

2. Aspectos teológicos

Uma mulher pecadora ama Jesus

O texto de Lc 7. 36-50 nos apresenta a face misericordiosa de Deus para com a mulher pecadora,
possivelmente uma prostituta. É uma mulher considerada impura, sem nome e com o rótulo a pecadora. Esta
mulher é uma das três principais personagens do texto em questão, ao lado de Jesus e Simão.

Simão, um fariseu, convida Jesus para jantar em sua casa, e, como era costume na época, jantares que
homenageavam eram públicos. Portanto, outras pessoas faziam-se presentes para acompanhar o evento. A
motivação de Simão ao convidar Jesus pode ser por estar interessado nele, por desejar ouvi-lo e talvez até
mesmo testá-lo.

Como a notícia do jantar havia se espalhado, uma mulher pecadora dirige-se à casa de Simão com um vaso
de precioso alabastro, um precioso unguento que, conforme alguns exegetas, tinha um valor estimado em
300 denários (Mc 14.5), equivalente, na época, ao salário anual de um diarista. Este dado nos remete ao falo
daquela mulher ler dinheiro em suas mãos, coisa rara na época.

Ao ler o texto, podemos observar que a mulher se dirige àquele jantar com uma intencionalidade bastante
clara: ela deseja aproximar-se de Jesus e tocá-lo de uma forma que nenhuma outra mulher, e ainda impura,
jamais ousaria fazê-lo. Ela prossegue com determinação, coragem e talvez o conhecimento prévio de que
Jesus não a rejeitaria. Ela parece muito certa daquilo que deseja: suplicar, homenagear e celebrar. Ela percebe
e reconhece em Jesus alguém capaz de acolhê-la e aceitar seu amor, sua homenagem, sua súplica. O gesto da
mulher mostra uma confiança muito grande.

No texto em questão, vemos um Jesus muito receptivo: aceita um jantar em sua homenagem e também que
uma mulher ritualize os seus sentimentos, tocando-o com grande liberdade.

Esse texto nos mostra um Jesus que não teme tornar-se impuro pelo toque da mulher e não coloca como
pressuposto que ela desista da sua vida de pecadora para receber o perdão de Deus. O desenrolar do texto
fala da misericórdia de Deus para com esta pecadora e não menciona sua conversão como pressuposto ou
con-sequência do perdão.

Jesus aceita o gesto de amor da mulher sem medo da reação dos presentes. Na verdade, ele aproveita o
episódio para falar do amor do Pai por aquela mulher que nem sequer fala. Ela apenas faz. Aproxima-se de
Jesus e, com suas lágrimas, rega seus pés. As lágrimas demonstram a situação de necessidade e de

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indignidade daquela mulher. Ela nada expressa com palavras, apenas ama profundamente aquele que pode
interromper sua exclusão social.

A mulher não unge a cabeça de Jesus, o que seria mais comum na época. Ela unge seus pés num sinal de
extrema humildade e honra para com aquele a quem se dedica. Lava os pés de Jesus com as suas lágrimas de
dor, seca-os com os seus irreverentes cabelos soltos (atitude não aceita na época) e unge com um caríssimo
óleo. Sua atitude dispensa palavras. Mostra uma mulher forte e irreverente em busca de dignidade.

Jesus aceita a homenagem que, inclusive, é apontada por muitos comentaristas como erótica. Ele aprova e
defende o seu comportamento perante Simão e os demais presentes; ressignifica aquela homenagem e dá
sentido ao contato com uma mulher considerada impura; transforma aquele momento numa oportunidade
para revelar o amor do Pai pela pecadora e pelos fariseus.

Ao pensamento de Simão Jesus responde com o exemplo do credor que tinha dois devedores e os perdoa,
pois não conseguiam pagá-lo. A pergunta é: qual dos devedores o amará mais? Com a pergunta acima Jesus
compara uma porção de dinheiro com uma porção de amor e revela o amor do Pai para com os seus. Ele
confirma que aquela que muito o ama muito sofre e também experimentará o perdão do Pai. Ela é uma
pecadora diante de Deus, mas alcançada pela graça dele: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque
ela muito amou. Diante da reação incrédula dos presentes, Jesus dirige-se à mulher silenciosa e diz: A tua fé
te salvou; vai em paz.

O texto nos ensina que a pessoa que ama Jesus de maneira incondicional recebe dele amor incondicional, ou
seja: o amor e o perdão de Deus são do tamanho da angústia daquela mulher, da sua necessidade e busca; são
do tamanho do desprendimento e do amor dela e por isso proporcionam a paz que ela buscava.

3. Sugestões para a pregação

O amor provoca o perdão

Embora o texto bíblico contraponha o perdão e amor ilimitado de Deus à ignorância farisaica, representada
por Simão, o/a pregador/ a deve tomar todo o cuidado para não fazer uma abordagem anti-semita.

Deve-se evitar a polarização da situação da pobre mulher pecadora versus a observância farisaica da lei, pois
ambos, mulher e Simão, carecem da graça de Deus e da revelação de Jesus. Não se deve ignorar que a
liberdade que Simão tem para convidar Jesus para cear com ele demonstra uma certa intimidade. Demonstra
também curiosidade e até mesmo o desejo de testar Jesus. No entanto, antes de julgar Simão e todos os
demais judeus, devemos nos colocar no lugar deles. Antes de julgar seria importante nos perguntar se
também nós não agiríamos da mesma forma! Ou até mesmo nos dias de hoje não procedemos assim,
testando Jesus e as manifestações do seu poder?

A pregação deve ser no sentido de denunciar a situação de exclusão e marginalização da mulher sem nome,
sem voz e pecadora. Deve concentrar-se na acolhida de Jesus, na transformação do fato ocorrido em ensino e
evangelização e no perdão concedido sem pressupostos.

Não é possível anunciar o amor que provoca perdão sem estar com os olhos brilhando de alegria e gratidão
por sentir-se um/a pecador/a alcançado/a pela graça de Deus, que não discrimina e não coloca pressupostos,
mas transforma por meio do amor. E interessante explorar a permissão de Jesus para o contato físico com
uma mulher pecadora. Ele permite a intimidade com Simão e também com a mulher anônima.

Na ilustração da pregação, pode-se contar a seguinte história:

Um condutor de burro é perguntado sobre o que ele teria feito de bom. Responde dizendo que, em certa
ocasião, alugou um burro a uma mulher que, andando, começou a chorar. Neste momento teria lhe
perguntado: O que há contigo? Ela respondeu: Meu marido foi preso, e eu quero ver o que é possível fazer
para libertá-lo (ela quer entregar-se à prostituição, a fim de usar aquela renda para pagar a fiança). Então eu
vendi meu burro velho e lhe dei o dinheiro da venda. Ele disse: Isto é teu, liberta teu marido, e não peca (L.
Schottroff, p. 132).
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Antes de contar a história, sugiro que o pregador ou a pregadora instigue a comunidade a observar onde se
percebe claramente a intenção do condutor do burro de impedir o pecado. Esta pequena história nos mostra a
prostituição desde a sua condição social e como único meio de promover a dignidade (pagar a fiança) do
marido preso. O ponto alto dessa história é o compromisso do homem de impedir a prostituição, sem causar
problemas à mulher. Ele oferece alternativas de solucionar as dificuldades dela sem se prostituir.

No texto bíblico, Jesus rompe com a exclusão provocada pelo pecado e despede a mulher em paz,
reconhecendo que foi sua fé que a salvou. Já naquela época e também nos nossos dias, a mulher que é
perdoada por Jesus representa toda a humanidade alcançada pela graça de Deus. Portanto, o texto é oportuno
para trabalhar o perdão: perdão de Jesus para com esta mulher, perdão de Deus para conosco e o nosso
perdão para com o próximo.

4. Subsídios litúrgicos

Invocação da Trindade: Amado Deus, em ti nós vivemos, nos movemos e existimos. Jesus, libertador de
homens e mulheres, contigo caminhamos pelas trilhas do amor. Espírito criador, em ti somos um. Deus,
trindade do amor, nós te buscamos na dança da vida e te invocamos neste momento de culto. Vem, sê nosso
convidado. Amém!

Glorificação:

1 - Senhor Jesus, que quiseste ser igual a nós em tudo, menos no pecado, tende piedade de nós;
2 - Senhor Jesus, que nos chamaste à perfeição da caridade, santifica-nos sempre mais;
3 - Senhor Jesus, que nos mandaste ser sal da terra e luz do mundo, ilumina a nossa vida;
4 - Senhor Jesus, que vieste ao mundo para servir e não para ser servido, ensina-nos a te servir alegremente
em nosso irmão e irmã.
Porque cremos, desejamos louvar a Deus, cantando o Glória...

Oração final: Eterno e generoso Deus, nosso protetor e acolhedor! Em ti nos refugiamos e a ti suplicamos:
tem piedade de nossa pequena fé e de nossa limitada confiança em ti. Permite que nos acheguemos a ti e que
celebremos a vida eternizada pelo teu sacrifício remidor. Dá-nos a gratidão eterna pelo teu amor renovado
por nós. (Seguem as intercessões e o Pai-nosso). Amém!

Bênção.

Como estiveres, Deus te guarde,


Como pensas, Deus te use,
Onde te encontrares, Deus te ilumine,
Com quem estejas, Deus te guie,
No que fizeres, Deus te ampare,
Em todos os teus passos, Deus te abençoe!

Bibliografia

FIORENZA, Elisabety S. As origens cristãs a partir da mulher : uma nova hermenêutica. São Paulo :
Paulinas, 1992.
QUERÉ, France. As mulheres no Evangelho. São Paulo : Paulinas, 1984.
SCHOTTROFF, Luise. Mulheres no Novo Testamento : exegese numa perspectiva feminista. São Paulo :
Paulinas, 1995.

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