Você está na página 1de 14

PSICOLOGIA ESCOLAR

Psicologia Escolar: Teorias Críticas

Páginas 79-103
BOCK, Ana M. B. (2003). Sao Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
PSICOLOGIA DA EnUCA<_;ÁO: CU:MPLICIDADE
IDEOLÓGICA

Ana Mercés Bahía Bock

Psicología e Educacüo sao duas áreas de conhecimento que térn


mantido urna relacáo de colaboracáo tao estreita que, hoje, ternos a
Psicología educacional como urna producáo decorrente deste en­
contro. Mas nem sempre foi assim ...
Enquanto a concepcáo dominante, na educacáo ocidental, foi a
chamada Escola Tradicional, nao houve necessidade de urna Psico­
logia para acompanhar a prática educativa. A Psicología so se tor­
nou necessária quando o Movimento da Escola Nova revolucionou a
educacáo e construiu demandas específicas para a Psicología do
desenvolvimento e da aprendizagem.
Analisar por que a Psicologia se tornou necessária para a edu­
cacáo e como a Psicología respondeu as demandas que lhe foram
feitas, abordando criticamente esta relacao que se estabeleceu entre
Psicología e Educacáo é o objetivo deste capítulo. Nossa posicáo
tern sido de apresentar a cumplicidade ideológica que se estabeleceu
entre Psicologia e Educacáo e que tem caracterizado a prática
educativa atual. Nosso intento nao contribuir para desfazer a rela­
é

cáo entre estas duas áreas, até porque seria impossível, mas contri­
buir para que esta relacáo possa se dar em outros termos e possa­
mos superar conjuntamente, Psicología e Educacáo, as visñes
naturalizantes que ternos descnvolvido.
80 ANA MERCÉS BAHIA BOCK
PSICOlOGIADA EDUcACAo; CUMPUCIDADE IDEOLÓGICA 81
------
A ESCOLA TRADICIONALNÁO PRECISOU DA PSICOLOGlA rigindo seus des vios. Princípios e códigos morais eram construídos,
divulgados e repetidos a exaustáo. Deveriam ser aprendidos a qual­
A Escola Tradicional reúne experiencias e concepcóes pedagó­ quer custo. Para garantir esta meta, vigilantes disciplinares faziam
gicas que caracterizaram e orientararn a educacáo desde o século parte dos agentes educacionais na escola.
XVIIl até o início do século xx. Sao processos educativos que tive­ Disciplina, regras, vigilancia e muito conteúdo escolar caracte­
ram lugar, principalmente, em escolas religiosas. rizavam a escola tradicional. Um aluno dotado de urna natureza
A concepcáo tradicional pensou a educacáo como um trabalho humana corrompida corn a possibilidade de, sendo bem educado,
de desenraizamento do mal natural que caracterizava o ser humano. desenvolver um lado bom desta natureza.
O homem nascia dotado de urna natureza humana dupla: urna parte Para que Psicologia? Nao havia necessidade alguma de qual­
era corrompida (pecado original) e outra era a considerada essencial, quer conhecimento sobre os seres humanos, pois já se conhecia
potencialmente boa e construtiva. A educacáo cabía desenvolver a sua natureza corrompida e já se sabía de seu potencial para criar.
parte essencial da natureza humana, impedindo que a parte corrom­ cooperar, ser honesto, desenvolver relacñes estáveis, respeitar a
pida prosseguisse se manifestando nas pessoas. Para isto, utilizou o autoridade, ser intelectualmente aprimorado e ser dotado de coe­
instrumento básico do saber. O conhecimento era visto como o ünico réncia, rudo que a educacáo deveria promover por meio da discipli­
instrumento capaz de dar ao homem o autocontrole necessário para na e do conhecimento.
que a parte má da natureza humana fosse controlada.
Para a Pedagogia da Escola Tradicional, o aluno aparecia ao
professor como alguém naturalmente corrompido. Suas acóes na A REVOLUí;ÁO DA ESCOLA NOVA
escola demonstravam isto: inquietos, ora curiosos, ora desinteressa­
dos; ora afetuosos, ora agressivos; ora criativos, ora destrutivos;
indisciplinados. se deixados sozínhos, sem regras e sem vigiláncia.
O século XX trouxe muitas transformacóes no mundo. As Gran­
des Guerras trouxeram urna valorizacáo da infancia, tomada como
Perversos, com hábitos indesejáveis, como se apropriar das coisas
o futuro. A escola também responde u a estas novas idéias com a
dos outros indevidamente, masturbar-se, nao respeitarem os mais
proposta da Pedagogía da Escola Nova, que pos no avesso as idéi­
veJhos e autoridades, nao cumprir com as tarefas e responsabilida­
as da escola tradicional. A crianca, agora, era vista como natural­
des. Estes alunos deveriam ser expostos a um modelo aperfeicoado
do humano para poderem desenvolver a natureza humana essencial. mente boa. Sua natureza humana mantinha-se dup1a: urna parte
boa, manifesta desde o nascimento e urna outra corruptível. A es­
Este modelo estava dado pelos professores e alguém escolhido para
dar nome a escoJa e que deveria ser cultuado e seus feitos deveriam cola cabia, agora, manter na crianca a bondade e a espontaneidade
que a caracterizavam.
ser divulgados sempre aos alunos para que pudessem conhecer o
modelo a seguir. Por isto as escolas tradicionais, na sua grande Escola passou a ser espaco de liberdade e de cornunicacáo.
maioria, tém nome de alguém (em geral um homem) considerado Lugar onde a crianca poderia manifestar sua afetividade, expressa
aprimorado pela cultura. como carinho ou agressividade; sua criatividade, expressa como cons­
A escola tradicional estava também fincada sobre um outro prin­ trucáo ou destruicáo: sua liberdade, expressa como obediencia ou
cipio: disciplina e regras firmes para que os alunos pudessem ir COf- rebeldía. Todas as manifestacóes infantis foram tomadas, em seu
natural, como boas e desejáveis. Mas a escola se manteve vigilante;
82 A;\iA MERcts BAHIA BOCK
PSlOOlOGIA DAEouc.4,.\;ÁO; CuMPUCIDADEIDEOLÓGICA 83
--------------------
nao no que diz respeito a disciplina, mas ao que diz respeito ao de­
A Psicologia se desenvolve nao só como conhecimento, mas
senvol vimento psicológico da enanca. Vigilantes disciplinares (hedéis)
também como prática capaz de contribuir no processo educacional:
foram trocados por vigilantes do desenvolvimento (psicólogos e
instrumentos da Psicologia, como os testes, térn urna aplicacáo na
pedagogos). Nada de regras. Regras somente aquelas construídas pelo
escola para formar c1asses mais homogéneas e para avaliar o desen­
grupo da escola, Nenhurna preocupacáo com a disciplina, país na "ba­
volvimento psicológico das criancas; a Psicología Clínica comeca a
gunca" se vía interesse pelo saber, pela construcáo coletiva, pela troca.
atender enancas com dificuldade para o aprendizado; a Psicología
A comunicacáo entre a') criancas era prioridade. O professor
Educacional se desenvolve contribuindo corn saberes que preten­
foi colocado em Jugar modesto e sem forte influencia, afinal era um
dem dinamizar e qualificar o processo educacional.
representante do mundo adulto, visto sempre como um mundo cor­
rompido. O professor passou a ter funcáo de organizador das condi­
~oes de aprendizagem, devendo prover materiais e situacóes para o
A CUMPLICIDADE IDEOlÓGICA
aprendizado. As técnicas pedagógicas se tornaram ati vas. Alunos
em atividade permanente, vivendo a satisfacáo do aprendizado e da
descoberta. A relacáo Psicología e Educacáo deve ser analisada críticamen­
As escolas já nao cultuavam grandes hornens e, portanto, muda­ te, isto é, devemos ser capazes de desvelar o que o discurso e as
ram seus nomes, aproveitando idéias ou símbolos de grupalizacáo, tro­ concepcóes construídas, a partir desta juncáo, ocultaram. A Psicolo­
ca, descoberta, jogos ou termos que fizessem referencia a infáncia. gia fortaleceu nocóes naturalizantes da Pedagogía e contribuiu para
A cultura, como saber, continuou a ser instrumento básico de ocultar a educacáo como processo social. A educacáo fieou conce­
trabalho, mas agora era importante estimular perguntas e nao mais bida como processo cultural de desenvolvimento das potencialidades
fornecer respostas que nao correspondiam a nenhuma delas, como dos indivíduos. Todos os aspectos sociais que cornpñem a educacüo
na escola tradicional. Curiosidade, interesse, rnotivacáo, experiencia ficaram ocultados.
eram palavras importantes do vocabulário escolanovista. A educacáo é processo social, por meio do qual a sociedade
E por que a Escola Nova precisou da Psicologia? ~dulta irnpóe seus modelos, seus valores e suas regras as criancas e
Porque precisava conhecer a enanca e seu desenvolvimento jovens. A educacáo é processo que responde a necessidades de gru­
natural, sem ser corrompido, para poder trabalhar para manté-la as­ pos dominantes na sociedade adulta; a educacáo mantida financei­
é

sim. Era preciso saber como se dá o desenvolvimento natural das ramente pela sociedade e é cobrado dela responder as exigencias
criancas para poder vigiá-Ias deste ponto de vista feitas e as funcóes atribuídas a ela. A educacáo exercida em insti­
é

Com isto, a Pedagogía da Escala Nova se alía a Psicología, que tuicáo que pertence a sociedade e controlada por eIa. Da educa­
é

aparece como a área do saber capaz de fornecer as respostas que a <rao espera-se que prepare os indivíduos para o trabalho e para a
se necessitava. As principais teorias do desenvolvimento sao deste convivencia social, entendida como respeito as regras de conduta e
período. Muita coisa será produzida sobre o desenvolvimento das aos valores rnorais dominantes. A educacño deve utilizar como ins­
criancas: de seu pensamento e inteligencia, de seus afetos e de sua trumento básico de intervencáo mua determinada cultura, tomada
sociabilidade, oferecendo a educacáo uro saber imprescindível ao pelo conjunto social, que controla a educacáo, como a única cultura
seu trabalho. válida. Sao esses parámetros sociais que sao traduzidos em
parámetros pedagógicos e servem para a programacáo de conteúdo
84 ANA MERcts BAHIA Bocx PsICOtOGIA DA EDuCM;.W: CUMI'UClDADEIor:oWGICA
85

escolares, para o estabelecimento de regras, critérios e formas de Mas a Pedagogia e a Psicología que a acompanha no trabalho
avaliacáo e para definicáo de regras disciplinares. educativo insistem em pensar a educacáo como urn proccsso natural
Cabe aqui, antes de prosseguirmos nossa reflexáo, voltarrnos as de desenvolvirncnto de potencialidades existentes nos sujeitos. E,
nossas duas pedagogias - tradicional e nova - para relacioná-las as quando alguém resiste em apresentar estas características, lá estáo
sociedades, nas quais surgiram e se desenvolverarn. A Pedagogía da estes saberes com suas leituras patologizantes para atribuir respon­
Escola Tradicional respondeu a urna sociedade aristocrática hierarquizada sabilidade exclusiva ao educando e a sua família.
e cristalizada. Tudo eslava "no lugar". As diferencas sociais entre no­ E agora, podemos voltar a nossa reflexáo, para desvendar a cumpli­
bres e servos era dada naturalmente, assim, quem nascia nobre morria cidade da Psicologia coro o ocultamento do caráter social da educacáo.
nobre e o mesmo acontecía com os servos. As concepcóes de mundo A Psicologia dominante possui urna concepcáo de homcm que
deste período sao também hierarquizadas e cristalizadas: a Terra o é
parte da nocáo de natureza humana. Segundo esta concepcáo,
centro do universo; a natureza sagrada; a verdade é única e está dada
é
somos dotados de urna natureza que, ao se atualizar, produz as
por revelacáo divina. Ninguém precisa escolher nada porque os destinos capacidades que ternos como humanos: trabalhar, amar, coope­
estilo tracados: cabe a cada um seguir sua própria sina. Ern urna socie­ rar, sermos fIlarais, sermos seres pensantes e falantes e outras
dade onde rudo está pensado como pronto e acabado, a escola e a edu­ mais. O mundo psicológico faz parte desta natureza, portanto,
cacño que neIa acontece só resta REPRODUZIR. Por isso, as regras, está dado como potencialidade. A dinámica e as estruturas do mundo
a disciplina, a autoridade se tomam tao importantes. Por isso, a tarefa psíquico sao universais. o conteúdo varia com as culturas. Por
fundamental da educacáo impor o modelo dominante.
é
pensar assim, fomos capazes de teorizar sobre o desenvolvimento
A Pedagogia da Escola Nova fruto do capitalismo monopolista
é
das enancas desde a Suíca, os EUA, a Europa e os países de Ter­
e responde as necessidades de urna sociedade em permanente mo­ ceiro Mundo. Em todos os lugares, as criancas se descnvolvem em
vimento. Nada sagrado que nao possa ser transformado e vendido
é
um processo de etapas de fases universais. Mudam os conteúdos.
como rnercadoria. Nada deve permanecer estanque, pois só o movi­ As enancas que por qualqucr motivo nao apresentam este desen­
mento permanente da sociedade pode prometer ascensáo a todos e vol virnento seráo tomadas como problemas: retardo, comprome­
pode gerar novas interesses que garantam o movimento permanente timento psíquico, dinámica familiar conflituosa, desestrlltllra~ao
do mercado e da producáo, e portanto a reproducáo do capital. Urna familiar, vítima de violencia familiar, enfim, algum fator perturbou
sociedade como esta precisa de pessoas inquietas, ativas e criativas; o desenvolvimento natural daquela crianca, tornando-a inapta a
homens e mulheres ernpreendedores. A escola se póe a cumprir esta educacáo normal.
funcáo, aproveitando a espontaneidade e criatividade das criancas, Des­ A Psicología desenvol veu instrumentos capazes de captar os
valoriza o modelo adulto, instiga a transformacáo e incentiva o novo. problemas vividos pelos alunos difíceis. A Psicologia e a Pedagogía
A Escola nao neutra e nem desinteressada. A escola trabalha
é
desenvolveram praticas de recuperacño dos alunos que se constitu­
para educar em urna determinada direcáo: a direcáo vitoriosa nas em como problema para a escala.
disputas entre os di versos interesses dos diferentes grupos sociais. Nossas nocóes isolaram o sujeito de seu mundo social. Os ho­
A política educacional é o resultado da disputa de interesses e nego­ mens possuem condicóes para se desenvol verem que estáo dadas
ciacóes que acontecem na sociedade, entre grupos religiosos, em­ pe1a natureza. Se a sociedade nao atrapalhar, ou ao contrárío, forne­
presários, trabalhadores, organizados ou nao em partidos políticos. cer condicóes adequadas para o desenvolvirnento natural sadio, tuda
86 A>.:¡A MsnctsBAJIlA Bocx PslCOLOGL~ DA EDUCA~AO: CUMPLlC1T>ADE IDEOLÓGICA Sí

estará bem. A Psicología nao integrou em seus conceitos a realidade é preciso se comportar. A Psicolugia acolhe, sem acanhamento, o edu­
social; a pensou sempre como algo a parte, como algo fora dos sujeitos cando que a escola encaminha e, sern acanhamento, faz seu diagnós­
e como algo que nada tem a ver diretamente coro suas estruturas e tico, apontando as dificuldades que impedem o aprendizado. Muitos
dinámicas psíquicas. Estas nocóes podem ser evidenciadas nos con­ diagnósticos sao feítos sem que se conheca a escola, a professora, o
eeitos de mundo psíquico e nas teorias que construímos. Mundo psí­ que está sendo ensinado, corno está sendo ensinado; sem que se per­
quico algo abstrato; sua génese nunca está explícita nas teorías, ape­
é
gunte a crianca o que ela sabe sobre seu encaminharnento, sobre as
nas o preenchimento dos eonteúdos é que sao apreciados. O homem suas dificuldades em aprender e suas idéias a respeito da es cola. É
já o que vai ser: esta nocáo está fortemente presente na Psicologia.
é
como se o modelo de diagnóstico e de relatório já estivessem dados e
É com esta nocáo que a Psicología entra em relacáo com a estas questóes nao coubessem nos instrumentos e forrnulários.
Pedagogía para analisar e compreender a educacáo. É com esta A curnplicidade que se afirma aquí, exatarnente esta: a Psicología
é

nocao que a Psicologia contribuí, significativamente, para que a edu­ se tomou cúrnplice da Pedagogía na acusacáo da vítima. E produziu
cacáo e suas instituicóes possam ficar sempre ilesas e isentas da teorías, saberes, instrumentos em profusáo. Ditou formas de relaciona­
crítica ou do fraeasso. O fracasso será sempre dos sujeitos, nunca mento entre a escala e a família e entre professores e alunos; demons­
da didátiea, da estrutura autoritária da escola, de sua desatualizacáo, trou a importancia da motivacáo no aprendizado; mas nao analisou a
do projeto pedagógico ou da política educacional que vigoram. educacáo como um processo social e a escala como urna instituicáo a
A eumplieidade ideológica da Psicología se dá exatamente aí: o servico de interesses sociais. Nao analisou como estas questñes entram
que está estabelecido na sociedade (e dominante naquele momen­
é
também na sala de aula e determinam formas de ensino, formas de
to histórico) deve ser protegido por idéias científicas, fruto de pesqui­ avaliacáo, critérios de avaliacáo e corno determinam o currículo oculto
sa nas Universidades. O pensarnento científico vem como autorida­ promovido cotidianamente na escola,
de para explicar o que se quer esconder. O fracasso da escola, do
processo de ensino-aprcndizagcm, da educacáo, fruto de políticas
educacionais que projetaram a "crise" da escola seráo explicados As CONSEQÜENCIAS DA CUMPl.ICIDADE
pela pobreza, pela falta de apoio que os aJunos tém de suas farnílias,
da desestruturacáo familiar em grupos pobres da populacáo, a pre­ A principal conseqüéncia de qualquer situacáo de cumplid­
senca ou a ausencia de um pai violento, a ausencia freqüente da dade defender os interesses daquele com o qua] se cümplice.
é é

figura materna que trabalha para o sustento da familia, da falta. de Aquí, se dá a mesma situacáo: os interesses das camadas domi­
condicñes para o estudo em suas casas, da falta de interesse para o nantes fica garantido. Mas, porque as camadas dominantes térn
estudo e para a freqüéncia a escola, preferindo o trabalho ou o bico, tanto intercsse em acobertar o processo social que caracteriza a
falta de ambiente culto em suas famílias, a falta de oportunidade de educa9ao?
acesso as normas cultas e as atividades cultas que a sociedade As relacóes sociais e as formas de producáo da vida, no Brasil,
pretensamente oferece a todos. Sao explicacóes que aparecem em térn gerado desigualdades sociais de tamanha monta que somos carn­
relatórios feitos por psicólogos para explicar dificuldades que a cri­ peces de desigualdade no mundo. As diferencas sociais em nosso
anca apresenta no processo educacional, sejam dificuldades de apren­ país sao gritantes. A educacáo divulgada como um processo basea­
é

der o que preciso aprender, sejam dificuldades de se comportar como


é
do e produtor de igualdade social. Todo discurso educacional ,no Brasil ,
88 PSlOOl.OGlADA EDUCACÁO: CUMI'llClDADE lDOOlÓC,1CA 89
------ ._---------

é de igualdade. Todas as criancas sao expostas a um processo idén­ tes e seus alunos váo sendo vistos como pessoas que nao se esfor­
tico, garantido por projetos e currículos iguais em todo o país; os ~am o suficiente; os alunos sao vistos como vándalos, desinterés­
alunos sao tratados de forma igual; estáo submetidos as mesmas sados, indisciplinados, etc ... Os professores como irresponsáveis
regras e as mesmas formas de avaliacao; as condicóes de ensino ou, na melhor das hipóteses, como sacrificados.
sao as mesmas; e, havendo dedicacáo e esforco por parte dos alu­ Mas a educacño, enguanto proposta de producáo de condicóes
nos, todos teráo as mesmas oportunidades sociais. A educacáo é dignas de vida e de igualdade de condicóes para todos, fica intacta e
vista. pela maioria dos brasileiros, como um processo promotor de ilesa. Continua sendo valorizada por todos e todos aqueles que nao
condicóes iguais para que todos possam competir, em "pé de igual­ freqüentam a escola sao desvalorizados e vistos como despreparados.
dade" no mercado. Os instrumentos que ternos, hoje, de avaliacáo, A concepcño de educacáo como acesso a cultura (a única cultura
como o ENEM e o "prováo" sao divulgados como instrumentos que válida na socieclade) continua a vigorar e as populacóes pobres se
buscam qualificar a educacáo para que todos tenham acesso ao que sentem menos competentes e capazes porque nao dorninarn a Cultura
lhe de direito, ou seja, urna educacáo de qualidade. Propostas de
é e lutam para que seu S filhos nao sigam o mesmo caminho; fazem,
discriminacáo positiva, como a reserva de cotas para negros ou para entáo, enorme esforco para que seus filhos freqüentem a escola e se
alunos vindos das escolas públicas. sao vistas com multo receio, pois apropriem da Cultura, podendo concorrer no mercado ern "pé de
poderiarn desigualar o que é igual. As desigualdades sociais sao com­ igualdade" com todos os outros filhos. Iludidos cm relacáo ao papel
preendidas, entáo, como falta de empenho ou dedicacáo a educacáo. da educacáo e o trabalho da escola, as camadas baixas desenvolvem
Chega-se, as vezes, a considerar que os pobres, cm nosso país, tém urna autodesvalorizacáo muito forte, pois as condicóes foram dadas
maiores dificuldades para aproveitar as condicóes educacionais que e seus filhos nao souberam aproveitar, ou, na melhor das hipóteses,
lhe sao oferccidas pelo Estado; mas esse argumento nao tem perrrri­ sao fracos da cabeca,
tido que se leía as condicóes oferecidas como desiguais, apenas que Cabe incluir aquí dados do Censo 20()()6, sobre analfabetismo
outras condicóes sociais geram desigualdade. entre enancas na cidade de Sao Paulo. 32,8% das criancas com 7
Este discurso sobre a educacáo nao pode ser colocado em anos de idade eram analfabetas. No entanto, no Jardim Ángela, bairro
risco: ele garante o papel "neutro" do governo/ Estado e permite da zona sul de Sao Paulo, este índice de 50,8%. Trinta e seis
é

que a política de reducáo de gastos com projetos sociais se desen­ baiITOSde Sao Paulo apresentam taxas superiores da capital e a
volva em surdina. Projetos de privatizacáo da educacáo sao apre­ todos sao bairros pobres da periferia de Sao Paulo. Cabe indicar que
sentados sempre como busca de qualidade. Interessante notar que 73% das criancas do bairro de Moema, com apenas 6 anos de idade,
as escolas públicas foram sucateadas com a política de reducáo de sao alfabetizadas. Índices como este caracterizam os bairros mais
gastos; conseqüentemente, as camadas médias e altas retiraram ricos da cidade. Para caracterizar o que chamamos aqui de mais
seus filhos destas escolas e os colocaram em escolas particulares. ricos e mais pobres, indicamos: no citado Jardim Ángela, a renda
Agora, a privatizacáo é apresentada como oferecimento da mcsma média dos chefes de familia, em reais, é de 568; em Moema, citado
oportunidade para todos. E as escola pública vai sendo esvaziada, entre os bairros ricos da cidade, a renda média dos chefes de fanulia,
restando como alternativa para camadas muito pobres da popula­
<;ao. E a situacáo que caracteriza a escola pública vai sendo lida
Ó Dados do CENSO 2000 obtidos em publicacáo da Folha de Sao Pauio, 2 de janeiro de
como crise, quando, na verdade, urna política. De novo, seus agen-
é 2002, Caderno Cotidiano, página 3, rnatéria intitulada "Analfabetismo evidencia barreira
social" de Antonio Góis e Melissa Diniz.
90 MA MERCÉS BAHIA Bocx
-----_._.----_.---------- ---- PsrCOlOCL\ DA EDUCAC;Ao: CUl\iPU=ADE IDEOLÓGICA

em reais, é de 5576. A renda de Moema é 9,8 vezes maior que a urna realidade individual. Pode-se dizer que a reducáo que a Psicología
renda do Jardim Ángela. contribuí para fazer instrumento básico da construcáo ideológica,
é

Mas dados como estes nao sao debatidos e os índices de analfa­ Esta é a cumplicidade! Oculta-se todo o processo de producáo
betismo sao lidos como falta de empenho ou presenca de urna cultura de desigualdade social para entender as diferencas como produzidas
que nao valoriza a escota, preferindo que seus filhos trabalhem ou pela diferenca na quantidade de esforco que cada um faz, pessoal­
pecam esmolas ao invés de estarem na escola; os índices de baixa mente, para aproveitar pretensas condicóes iguais de educacáo. O
renda sao, por outro lado, lidos como falta de escolarizacáo, Ou seja, a que é completamente social fica tomado como individual. Este o é

escoja fica isenta de responsabilidade pelo analfabetismo e a educa­ instrumento básico de producáo da ideología que acompanha o pro­
~a.ose mantém como a grande forca propulsora da igualdade social. cesso educativo.
Este papel cumprido pela ideología da educacáo como produto­ Bastava aquí, portanto, que tomássemos a cumplicidade ideoló­
fa de igualdade e de condicóes para se obter urna vida digna se torna gica como conseqüéncía suficiente para criticarmos a educacáo e o
fundamental para qualquer governo que nao queira investir em pro­ discurso da Pedagogía e da Psicologia que a acompanham. Mas nao
jetos sociais e que nao queira entender a educacáo como um direito vamos nos contentar corn isto, vamos em busca de outras conseqü­
de todos e investir nela para que se apresente efeti vamente como encías importantes de serem percebidas.
condicáo de qualificacáo da sociedade. A ideologia é urna arma violenta, pois, com seu trabalho de
Como a Psicologia se toma cümplice desta ideología? A Psico­ ocultamento da realidade, vai permitindo que muitas coisas se de­
logia contribuí significativamente, pois o individualismo (a senvolvam e nao sejam cornpreendidas, percebidas, analisadas e
responsabilizacáo do indivíduo pelo seu próprio desenvolvimento) que transformadas. A ideologia é forte arma de seguranca e manu­
caracteriza esta ideología recebe enorme ajuda da Psicología para tencáo social, por isso só interessa a quem quer manter as coisas
se instituir. A idéia de diferencas individuáis, por exemplo, marcando como estáo.
que cada um possui suas características e de ve ser avaliado por isto
e que estas diferencas sao da responsabilidade de cada um, podendo Desconfiai do mais trivial,
ser gratificado ou prejudicado por elas, é urna idéia de peso neste na aparencia singelo.
conjunto ideológico. Outra nocáo é a de um sujeito isolado do mundo E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
social que tem seu desenvolvimento independente de forcas ou con­ Suplicamos expressamente:
dicóes sociais. O desenvolvimento é tomado como um trajeto, quase Niio aceitai o que é de hábito
um destino que o sujeito deve cumprir. As condicóes do meio (note como coisa natural,
que sao tomadas ou entendidas como ambientáis e nao sociais) po­ Pois em tempo de desordem sangrenta,
dem atrapalhar, mas o sujeito pode, pois é dotado desta capacidade, de confusdo organizada,
fazer um esforco para superá-las. O reforce a idéia de indivíduo isola­ de arbitrariedade consciente,
do do meio social, a-histórico, dotado de características universais, da de humanidade desumanizada,
espécie, da natureza humana a qua! pertence, contribui significativa­ nada deve parecer natural,
mente para a ideología da educacáo; mais que isto, um instrumento
é
nada deve parecer impossivel de mudar.
fundamental que reduz a realidade educacional, que é também social, a (. ..)
(A Exceciio e a regra - Bertold Brecht)
ANA MERCf!s BAHIA BOCK PsICOL(JGlA DA Eouc:\¡;:Ao: CU~!PUCIOAIlF. IDEOlÓGICA 93
92

OUTRAS CONSEQÜENCIAS DA CUMPLICIDADE IDEOLÓGICA vivida por seus alunos. Esta situacáo de contradicao vivida e é

significada do ponto de vista da subjetividade de cada aluno e do


próprio professor, desenvolvendo todos eles um descrédito naquilo
Educacño deve ser entendida como esforco de urna sociedade que deveriam acreditar: na educacao. Há uma "falsidade"permanente
para que haja urna apropriacáo, por todos, de toda producáo :u~tu~al, no processo educativo, decorrente do duplo discurso.
garantindo possibilidades para todos de participarem, na ~marmca Outra conseqüéncia decorrente da nocáo naturalizante que ca­
é

social, como agentes de transformacáo permanente da socleda~e: racteriza o discurso ideológico. Examinando melhor: as idéias de igual­
Quando a educacáo é utilizada para acobertar situacóes SOCIalS, dade para todos e de esforco pessoal de cada um estáo bascadas na
ela desvirtua-se e, na prática educativa, vamos assistir a conseqüén­ concepcáo de que somos seres dotados de capacidades inatas, capa­
cías danesas para o processo educacional. Urna delas a oposicáo
é
cidades estas que nos sao dadas pela natureza humana. Assim, há, por
entre o discurso educativo e a prática escolar. O discurso educativo detrás das concepcóes ideológicas da educacáo, nocñes que naturali­
garantirá a igualdade. A prática escolar, em seu currí~ulo ~ult~, zam o homem, pois o véem como dotada de urna esséncia universal,
trabalhará com a desigualdade, a diferenca, os preconceitos e discri­ que o faz homem, que vai, aos poucos se atualizando ou se manifes­
minacóes. Explicando melhor: na prática educativa há u~ conjun~o tando, conforme o homern se desenvolve. Todas as diferencas entre
de experiencias que nao ficam ditas e nem mesmo planejadas. Sao as pessoas ficarn tomada" corno distintas produzidas no decorrer do
carregadas de valores e crencas sociais e sao expressas de forma tempo e do desenvolvimento, geradas pelas distintas formas como cada
espontánea, Chamamos este conjunto de experiencias de currículo urn se engaja e aproveita as condicóes oferecidas pelo meio. Esta
oculto, diferenciando-o do currículo planejado e organizado pelos ór­ naturalizacáo fundamental, na construcáo ideológica, para garantir a
é

gáos competentes, pela escola e pelo professor. O currículo oculto n093.0 de igualdade natural entre os hornens e diferencas individuáis
está nos livros, na faja do professor que explica e exemplifica para o produzidas sob a responsabilidade de cada um.
aluno entender melhor; está nas relacóes entre professores e alunos Esta nocáo tem decorréncias importantes no proccsso educaci­
nos corredores e salas da escola; está na forma como o professor onal. A avaliacáo da producáo é urna delas. Avaliar a todos da mes­
trata as questñes, dúvidas e erros que seus alunos trazem ou corne­ rna forma, sem fazer diferenca, porque todos sao inicialmente iguais
tem; está cm corno o professor lida com o aluno que apresenta e tomados pela Educacáo corno iguais. Os critérios de avaliacáo sao
dificuldades em entender o que está sendo ensinado; em como o apresentados como naturais. Ficam fora do alcance do professor
professor lida COID as situacóes de "indisciplina" (colocada aqui modificá-Ios; eles se referem aos conteúdos ou as habilidades ne­
entre aspa s porque a própria nocáo do que seja disciplinal indisciplina cessárias naquela fase do desenvolvimento. Avaliar é compreendido
já faz parte do currículo oculto). Enfim, sao várias ~~ situacóes como comparar com um modelo, com um padráo natural do desen­
escolares que fogem ao planejamento e ao discurso oficial da edu­ volvimento. O professor nega seu papel ativo no processo de avaliar,
cacao; a estas situacóes estamos chamando de currículo oculto. como conhecer e compreender o processo pedagógico do alu no, para
Assim, o professor fala da igualdade, mas entende e trata seus tornar-se um mero verificador/ auditor do desenvolvimento do aluno.
alunos como desiguais; fala do valor de cada um, mas trata alguns de Outra conseqüéncia a desvalorizacáo do aluno como parceiro
é

seus alunos com descrédito; fala da importancia da educacáo para a em um processo, no qua1 todos os seus componentes estáo em movi­
vida de todos, mas faz previsóes de que alguns ficarño sem ela; fala mento e em transformacáo. Professores e alunos estáo se modi-
da relacáo da escola com a vida, mas nao vincula seu ensino a vida
94 PsrCOLOClA OA EDUCAc;'AO: CUMPUCIDADEIol:OLÓGlCi\ 95

ficando a cada día, a cada momento, a cada aprendizagem. No Outra conseqüéncia importante, de certa forma já apontada, é a
entamo, sao tomados no discurso e na prática ideológica, como maneira como se concebe e se licia COIn o erro. O erro é visto como um
partes separadas e opostas: professor é o que sabe, aluno é o que descarninho, um equívoco, urna saida do trajeto desejado (o destino).
aprende. O pro fes sor se apropria de seu lugar de quern sabe e se Por isso o erro tratado de forma tao severa. O professor risca de
é

recusa a sair dele, deixando de perceber a dialética que se constrói vcrmclho, porque quer impedir que acorra novamente. O eITOnao é

neste espaco: professor sabe e, ao ensinar, deixa de ser o único que visto como um momento do aprendizado, como etapa da experiencia,
sabe, negando-se como professor, O aluno que nao sabe, ao apren­ como condicáo do desenvolvimento de uro aluno autónomo, O erro de­
der, também sabedor como o professor, Ambos, em parceria, redu­
é vería ser tratado como um elemento importante do aprendizado, pois
zem a distancia e a diferenca que há entre eles. O professor que se deveria ser dele que se consegue a apropriacáo, pelo aluno, de sua pró­
pensa o único sabedor e nao quer abandonar este lugar, nao ensina pria experiencia Assim, a avaliacño deveria ser um momento de com­
para que o outro aprenda. Ensina para registrar os momentos e con­ preensáo dos acertos e CITOS;de correcáo de erras, substituindo-os pela
teúdos nao aprendidos. Por isso, é vermelha a caneta que corrige; é aprendizagem do processo vivido. Mas nao, a a valiacáo tem sido muito
zero a nota que se promete (ameaca); o discurso de valorizacáo do
é
rnais auditoria sobre o aluno para verificar se prestou atencáo ao ensino,
professor e de desprezo e descrenca no aluno. O professor nao pode pois se prestou atencáo nao há como errar. O erro tomado como é

conceber seu aluno corno seu parceiro, como quería Paulo Freire, desleixo, descaso, falta de atencáo ou de estudo. Pobres alunos, fadados
porque está impedido pela ideología naturalizadora da educacáo. ao aprenclizado literal, exato, igual ao que ensinado. A educacáo se
é

O professor entende que é uro adulto, por isso um ser humano transforma claramente cm um processo de reproducáo do que se tem
acabado; o alu no, um ser cm desenvolvirnento, por isso inacabado, acumulado, do que se acredita certo e do que está estabelecido.
incompleto. O trabalho do professor completar esse ser em desen­
é
Além desta conseqüéncia ternos outra correlata que é a forma
volvimento. Nao há parceria possfvel. O professor está impedido de de tratar a dificuldade. Claro que situacóes difíceis de vida (pais
entender seu trabalho como um processo de análise do mundo e de alcoolistas, máes que trabalharn o dia todo fora, país ausentes no
apropriacáo de instrumentos que pcrmitem essa análise; um trabalho grupo familiar, país e máes desempregados, falta de conforto e de
que envolve urna dinámica de transformacáo de todas as partes en­ alimento e saúde, falta de um local apropriado para o cstudo, debili­
volvidas, pois aprendizado permanente. O professor conhece bem
é
dade alimentar, falta de estimulacáo, falta de afeto. Enfim, rudo que
os instrumentos para a análise da realidade, mas o aluno conhece­
é tem sido apontado como fatores que geram dificuldades de aprendi­
dor da realidade, porque está imerso nela, porque se constitui nela e zagem) se apresentam na escola como dificuldade de atencáo ou de
com ela, Mas a ideología naturalizadora do humano impede esta vi­ aprendizagem. No entanto, criancas tém vidas vividas e elas vém
sao. O professor sabe, o aluno aprende. Sao partes que se para a escola com as enancas, Os problemas da vida familiar tomam
cornplemenram, mas nao sao parceiras. O aluno nao interfere no forma escolar. Muito bem, até aí todos sabemos. A questáo está ern
projeto do curso, na programacáo da aula, nas formas de avaliacáo, que a neutralidade do ensino e al) condicóes iguais para todos sao
nos exercícios, nas atividades ... O aluno naturalizado chegará sem­ levadas aqui "a ferro e fogo", pois nao se pode pensar em adaptar o
pre com as características universais das quais dotado e cabe ao
é
ensino ou suas condicóes para acolher a enanca com sua vida vivi­
professor contribuir para desenvolvé-las cm urna direcáo certa (o da. A eseola implacável: ensina da mesma forma sempre, deseo­
é

destino!). Nao há o que fazer juntos. nhecendo os alu nos que estáo aprenden do.
PSICOlOGlA DA EDl.JCAt;:ÁO:Ct;MPUClDAllE!nOOLÓ(lICA 97

Em uro país, ande a desigualdade social sua marca principal, e


é
nhadas a psicólogos e pedagogos que desenvolvem esta atividade.
que a maioria da populacáo pobre, quando nao miserável, nao se
é
Passam a trabalhar com as criancas para corrigir suas dificuldades.
pode pensar urna escola igual porque esta igualdade é, na verdade, E os resultados sao bons! Lógico, elas ensinarn agora individualmen­
desigualdade. Explicando melhor: se ternos criancas com vidas vi­ te, considerando a situacño de cada crianca. Adaptam o ensino as
vidas ülu distintas nao podernos pensar cm oferecer o ensino da condicóes da vida vivida de cada um.
mesma forma, principalmente quando a maneira escolhida é ade­ Os psicólogos, novamente, sao chamados e atendem ao pedido:
quada apenas a minoría. A igualdade da educacáo nos aparece, cumplicidade com a ideologia da educacáo. Trabalham para ajudar
claramente, como desigualdade. A escola 6 desigual! Qualquer re­ as enancas a superarem dificuldades que sao suas, individuais. E o
sultado de pesquisa do UNICEF ou do ENEM dernonstra a desigual­ problema que deveria ser Iido como um problema da educacáo, do
dade da escola. Criancas das escalas públicas vilo mal nas provas! ensino, da sociedad e lido como um problema individual. As condi­
é

Os dados do Censo 200Q1 mostram claramente estas diferen­ cóes de vida miseráveis que caracterizam nos so país e que geram
eras: Os estados com Índices altos de alfabetizacáo sao: Distrito Fe­ desigualdade de acesso a cultura que a escola transmite e reforca
deral (94,8%), Santa Catarina (94,3%), Sao Paulo, (93,9%), Río Gran­ nao sao vista'! como um problema da escola e da educacáo, isto
de do Sul (93,9%) e Rio de Janeiro (93,7%); os estados com piores porque a educacáo entende o homem como um ser dotado de urna
índices de alfaberizacáo sao: Alagoas (68,2 %), Piaui (71,5 %), Paraíba natureza humana que se atualiza conforme ele aproveita as oportuni­
(72,4%), Maranháo (73,4%) e Ceará (75,3%). Dois Brasis que se dade do meio. Patologizacáo da pobreza é a contribuicáo da Psicolo­
reproduzem nas grandes capitais como Sao Paulo. Dois Brasis que gia com suas teorias de desenvolvimento (ou melhor, de destino do
se reproduzern nos resultados dos exames de avaliacáo. Os resulta­ humano). A Psicologia deveria ser capaz de denunciar as péssimas
dos do ENEMH - Exame Nacional do Ensino Médio - mostram que condicóes de vida como geradoras de desigualdade que leva alunos
jovens de família com renda de até um salário mínimo tiveram de­ desiguais a escola, escola esta que incrementa esta desigualdade e
sempenho rnédio de 26,01 na parte objetiva do ENEM, enquanto par­ oferece urna ideología que consegue fazer o aluno e sua familia acre­
ticipantes com renda superior a 50 salários tiveram nota de 52,67 (de ditarern que ele o responsável pela sua situacao de fracasso. As­
é

modo geral). A medida que maior a faixa de renda e a escolaridade


é
sirn, acomoda e silencia a pobreza, que agora está, com a ajuda da
dos pais, melhora o resultado dos participantes da prova. Psicología, destinada a ser lida como falta de aproveitamento das
E aí a última e mais danosa conseqüéncia de tuda isto: a oportunidades que o Estado oferece a todos para se desenvolverem.
patologizacáo da pobreza. Nossa sociedade desigual e corn urna Pobres parecem nao fazer esforco para aproveitar o que lhes é dado
maioria muito pobre passa a ver seus membros e alunos como "com pela sociedade. Sao tratados, entáo, como pessoas preguicosas que
dificuldades de aprender". Mecanismos sao criados para se corrigir nao véem a importancia da educacáo e devem, portanto, serem
estas falhas: a psicopedagogia um deles. As enancas sao encami-
é
responsabilizados pelo fracasso a que estáo destinados.
Perverso mecanismo de construcáo de subjetividades fracassa­
, Dados do CENSO 2000 obtidos em publicacño da Folha de Siio Paulo, 2 de janeiro
de 2002. Caderno Cotidiano, página 3, matéria intitul ada "Analfabetismo evidencia das! A escola tem se constituído mais como instrumento de exclusáo
barreira social" de Antonio Góis e Melissa Diniz. do que de producáo de condicóes dignas de vida. Tem produzido nos
& Dados do ENEM obtidos na Folha de Sao Paulo de 12 de novembro de 2002 em alunos sentirnento de fracasso ou de incapacidade, pois repetem séries
matéria intitulada "Resultados do Enem mostram que renda familiar afeta desempenho
dos estudantes". com freqüéncia (os dados indicam média de 15 anos para completar
98 MA MERcts BARIA BOCK PSICOI1)GIA DA EUUCA<;ÁO: CuMPuCIDADE IDEOlÓGICA 99

os oito anos do ensino fundamental) e aprendem pouco. A escola tem urna tentativa de acompanhar e responder a uma instituicáo e a urna
se reduzido, para a populacáo pobre, a um local de exposicáo a infor­ cultura que sempre se apresentam como ruptura em relacáo a vida
macees pouco importantes, ínformacoes que sao transmitidas de for­ vivida pela populacáo pobre brasileira.
ma a nao gcrar aprendizagem. Esta experiencia faz com que esta A Psicología deve romper com a cumplicidade que tem carac­
populacáo, apesar de saber da importancia da escola, nao goste de terizado sua relacao com a educacáo, para se apresentar como um
estar nela e nao veja qualquer proveito nesta experiencia. Desvalori­ conhecimento capaz de dernonstrar e compreender a dimensáo sub­
za-se a escola, mas com sentimento de incapacidade de se manter jetiva da experiencia vivida na escola pelas carnadas pobres. Mas,
nela de maneira proveitosa. Os professores, rnuitas, vezes reforcam para assumir esta tarefa, a Psicologia deve superar a vi sáo
estas idéias, dizendo que "vocé nao sabe aproveitar o que a escola tem naturalizante, que possui, de hornem e de desenvolvimento. Deve
de bom". Completa-se a idéia, avisando: "vocé nao estuda ou aprende, superar a visáo de fenómeno psicológico que tem sido dominante.
por isso nao vai ser nada na vida". É exatamente esta a nocáo subjeti­ Urna visáo de um fenómeno abstrato e dotado de características
va resultante do trabalho escolar: nao ser nada na vida. universais. O fenómeno psicológico foi também naturalizado e tem
sido concebido de forma abstrata, enclausurado no homem, natu­
Precisamos de um ambiente de estímulos vários, onde
ral, descolado da realidade social; algo em nosso corpo, do qual nao
todas as grandes aspiracñes humanas se sintam acor­
ternos muito controle; visto como algo que em determinados mo­
dar, e tenham o encantamento de si mesmas. Há nesse
mentos de crise nos domina sern que tenhamos qualquer possibili­
narcisismo urna virtude extraordinária. O homem gasta
dade de controla-lo; algo que inclui "segredos" que nem mesrno o
de se ver belo. Por que nao se lhe há de proporcionar
próprio sujeito sabe; algo enclausurado em nós que é ou contém um
uma oportunidade para que se sinta assim? Por que há
"verdadeiro eu".
de o mundo ter esse empenho de estar sempre diminuin­
Esta Psicología «tradicional", que desenvolve este tipo de con­
do as criaturas, detendo-as, afligindo-as, fazendo com
cepcáo, se desenvolveu e se fundamentou em concepcóes
que tenham de si mesmas urna impressdo dolorosa de
universalizantes e naturalizantes da subjetividade. Idéias que pensa­
fracasso e incapacidade? (Cecilia Meireles, 2001, p. 48).
vam o homem como um ser natural, dotado de capacidades e carac­
A Psicologia, em alguns estudos, tem trazido a questáo da baixa terísticas da espécie e que, inserido em um meio adequado, poderia
auto-estima que as situacóes de fracasso geram. No cntanto, mais
é ter seu desenvolvimento. O desenvolvimento das capacidades do
do que uma questáo de auto-estima; é urna quesillo de identidade hornem depende do esforco realizado por cada um, no sentido do
social. Estamos querendo dizer que auto-estima éum aspecto de aproveitamento das condicñes do meio.
urna relacao que se mantém consigo próprio. Identidade é a defmi­ Vale ressaltar que, nesta concepcao, a sociedade aparece como
~ao do eu que cada um desenvolve a partir de su as atividades e algo que se contrapóe aos movimentos naturais do humano. A soci­
relacñes na sociedade. Tdentidade um conceito mais abran gente.
é edade é algo oposto aos interesses naturais. O "Mundo externo"
Preferimos utilizar esta nocáo mais abrangente para dizer do resulta­ impede, dificulta o pleno desenvolvimento do "mundo interno". Mun­
do do trabalho escolar. do interno e mundo externo ficaram definitivamente separados em
A Psicología deve se dedicar ao estudo dos resultados subjeti­ nossas teorias psicológicas. A Psicologia, enquanto ciencia do mun­
vos da experiencia escolar. Desta experiencia que se configura como do interno abandona qualquer vínculo mais profundo com a realidade
100 ANA MERcÉS BARIABocx
PslCOLOGIA DA EIlUCAc;:AO: CUMPUClDADE IDEOlÓGICA 101

sociocultural, para pensar o homem iso lado; para estudar o fenóme­ logia e suas intervencóes. O diferente toma-se patológico, pois nao
no psicológico como algo já existente no hornern que independe da segue a natureza humana O incomum merece tratamento, no senti­
relacáo com o mundo cultural para se constituir. do de se resgatar o que natural.
é

A Psicología passa a conceber, entáo, seu objeto como algo em si; Com estas concepcóes dominantes, a Psicología se instalou na
como algo dotado de torcas próprias para se mover (para se puxar do sociedade brasileira para diferenciar e categorizar. Desenvolveu ins­
pantano, como comparamos com a história do Baráo de Munchhausen" ). trumentos adequados para isto e construiu um perfil profissional vol­
A Prática profissional surgiu, entáo, carregada de uma perspec­ tado para as psicoterapias e para os consultorios de psicología.
tiva corretiva e terapéutica. Nao poderia ser outra, pois se o sujeito E preciso adotar concepcóes que compreendam o sujeito como
já o que val ser, dada a natureza humana da qual dotado, a Psico­
é é
se constituindo ao atuar no mundo e nas relacñes sociais.
logía só poderia se constituir enquanto prática profissional corno um
conhecimento e um conjunto técnico que detecta desvios do desen­ Nao nasci, porém, marcado para ser um professor
volvimento humano (em relacáo ao que concebido como natural),
é assim. Vim me tornando desta forma no corpo das tra­
propendo-se como algo que reencaminha, realinha, adapta, cura. É mas, na reflexáo sobre a acáo, na observaciio atenta a
com este olhar curativo que a Psicología se póe a olhar a experiencia outras práticas ou a prática de outros sujeitos, na leitu­
educacional, resultando visóes de desadaptacáo do aluno, de dificul­ ra persistente, crítica, de textos teóricos, nao importa se
dades de aprendizagem, etc. com eles estava de acordo ou nao. É" impossivel ensaiar­
Interessante registrar que os critérios que a Psicologia tem utili­ mas estar sendo deste modo sem urna abertura critica
zado para diagnosticar ou posicionar-se sobre a condicáo das pes­ aos diferentes e as diferencas, com quem e com que é
soas sao todos da moral vigente na sociedade. O que se considera sempre provável aprender.
saúde ou condicao psicológica adequada está direta e íntimamente Urna das condtcáes necessárias para que nos torne­
relacionado as regras morais vigentes na sociedade ocidental mo­ mos um intelectual que nao teme a mudanca é a percep­
derna. No cntanto, a Psicología e os psicólogos nao afinnam ou nao ciio e a aceitacáo de que nao há vida na imobilidade.
se dáo conta desta relacao: naturalizam os critérios que utilizam para De que ruio há progresso na estagnacáo. De que, se
julgar a situacao psicológica dos sujeitos e os afirmam como emana­ sou, na verdade, social e politicamente responsável, nao
dos de urna natureza humana, da qual o homem dotado. é posso me acomodar as estruturas injustas da socieda­
A Psicología se instituiu assim em nossa sociedade moderna de. Ndo posso, traindo a vida, bendizé-las.
como urna ciencia e urna profissáo conservadoras que nao constrói; Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos
nem debate um projeto de transformacáo social, pois se o estado de na prática social de que tomamos parte (Freire. 1993,
saúde ou psicológico ideal natural, nao há por que considerar ne­
é
pp. 87/88).
cessário um projeto de homem e de sociedade que respalde a Psico-
Pensar o homem, como ser histórico e social, que atua de forma
9Ver a discussáo sobre o significado do fenómeno psicológico para os psicólogos cm transformadora sobre o mundo e, ao fazer isso, se transforma tam­
Bock, Ana M.R - Aventuras do Baráo de Munchhausen na Psicología - EDUCI bém, possibilita que a Psicologia contribua para que o educador com­
Ed.Cortez, SP, 1999 eJou Bock, Ana M.B. - Aventuras do Bariio de Munchhausen na
Psicologia da Educaciio, em Tanamachi, H, Proenca, M. c Rocha, M. - Psicología e
preenda a importancia de seu papel na escola, que compreenda a
Educacáo - desafíos teórico-práticos - Ed. Casa do 'Psicólogo, SP, 2000. importáncia do planejamento das situacñes educativas, que compre-
102 ~A MERcts BAHIA Bocx PsrCOlOGlA DA EnUCA<;Ao: CUMPLlCID/\DF.lur.oI..ÓGICA
--_ ....._----------- ---------- 103

enda a importancia de enriquecer o en sino com conteúdos da reali­ gánica de miséria de multas e riqueza de poucos em nos­
dade próxima aos educandos, pois todos esses elementos seráo, sem so pais, visando a um projeto de promocáo de saúde na
dúvida, condicóes de construcáo de um mundo psicológico saudável, Educaciio, o que aparece como prioridade é mudar a
a medida que possibilitam ao aluno ampliar a sua compreensáo do política atual que impiie um quadro da exclusiio da mai­
mundo que o cerca, potencializando sua intervencáo transformadora oria das criancas brasileiras do acesso e permanencia
sobre sua realidade cotidiana na escala. Este fato vem privando essa populaciio do
Além disso, é preciso compreender, com clareza, a dimensáo conhecimento acumulado e sistematizado pela cultura,
política da educacáo, para escapar de pensé-la como algo neutro e tornando-se um grave problema ético pela ausencia de
imparcial. "A educacáo é política. ..", como afirma Charlot (1979) um Direito Básico que é o da Educaciio. Nao é posslvel
porque transmite modelos sociais de comportamento, porque forma ficar indiferente frente a esta realidade tao dramática
a personalidade, porque difunde idéias políticas e porque é encargo {Contini, 2001, pp. 164-165).
da escola, instituicáo social. Estas relacñes e irnbricacóes devem
estar claras para os agentes educacionais, poi s as intencóes e proje­ Basta de indiferenca!
tos sociais existentes para a escola estáo na sala de aula e o profes­
sor deve saber lidar com eles, deve percebe-los em seu discurso,
deve enxergá-los nos livros didáticos e práticas escolares.

Quando um educador ou uma educadora nega (com REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ou sem intencao) aos alunos a compreensiio das condi­
r,¡oesculturais, históricas e sociais de producdo da Co­ BOCK, A. M. B. Aventuras do Bardo de Munchhausen na Psicologia _
nhecimento, termina por reforcar a mitificacáo e a sen­ Cortez Ed/ EDUC, SP, 1999.
sacdo de perplexidade, impoténcia e incapacidade BOCK, A. M. B. Aventuras do Bardo de Munchhausen na Psicologia da
cognitiva (Cortel/a, 1998, p. 102). Educacáo, em Ianamachi, H, Proenca, M e Rocha, M. - Psicologia
e Educacáo - desafios teórico-prúticos - Ed. Casa do Psicólogo, SP,
Os psicólogos também, como agentes educacionais nao podem 2(0).
se manter ingenuos. Basta de ingenuidade!
CHARLOT, B_ A Mistijica<;(wPedagógica -Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1979.
Promover saúde tem sido apresentado como objetivo para a prá­
tica dos psicólogos nas escolas, Nao se pode, no entanto, esquecer CONTINI, M. de L. J. O psicólogo e a prumo<;ao de saúde na educacáo -
Ed. Casa do Psicólogo, SP, 200 l.
que esta busca tem duas dimensóes importantes, como afirma Contini
(2001), a ética e a política. A dimensáo ética CORTELLA, M. S. A escala e o conheci mento - fundamentos
epistemológicos e políticos - Cortez Ed., SP, 1998 .
...se compiie pela solidariedade ao outro e com o
FRElRE, P. Politica e Educar-ao - Ed. Cortez, SP, 1993.
outro ...A outra e a dimensáo política do compromisso
com a transformaciio social" Ao direcionar estas duas MEIRELES, C. Crónicas de educaciio - Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira,
2001.
dimensiies, ética e política, frente a realidade tao anta-