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RESUMO

Texto: CANCLINI, Néstor García. Das utopias ao mercado. In: __________. Culturas Híbridas:
estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.

Responsável pelo resumo: Patrícia Danza Greco

Segundo Canclini, quatro movimentos básicos constituem a modernidade: projeto


emancipador (práticas simbólicas como mercados autônomos, racionalização da vida social e 3
crescente individualismo), projeto expansivo (expansão do conhecimento que, no capitalismo, se
traduz como descobrimentos científicos e desenvolvimento industrial), projeto renovador
(perseguição incessante por melhoramento e por inovação e necessidade de reformulação de
signos de distinção que o consumo massificado desgasta) e projeto democratizador (educação,
difusão da arte e do conhecimento especializado como necessários para alcançar evolução racional
e moral).

A imaginação emancipada?
Canclini analisa as contradições entre esses projetos. A primeira é como construir espaços de
saber e de criação que se desenvolvam com autonomia se as práticas de mercado tornam os bens
artísticos seus dependentes? Canclini retoma o pensamento de diversos autores, como Habermas,
Bourdieu e Becker. O primeiro diz que a arte deve continuar suas experimentações autônomas e
reaproximar essa forma de cultura especializada à práxis diária, para que essa não se empobreça a
partir da repetição de tradições.
Bourdieu e Becker já acham que a cultura moderna se distancia de todo o período anterior
por ser um espaço autônomo dentro da estrutura social. Bourdieu ainda acrescenta que a arte, a
partir da formação de campos específicos de gosto e de conhecimento, serve de distinção social. O
consumo nesse caso seria uma forma de instaurar e comunicar as diferenças, sobretudo no que
tange à arte.
Canclini diz que é preciso aprofundar esse pensamento de Bourdieu para entender a dialética
existente entre divulgação e distinção. Como entender a distinção quando os museus recebem
milhões de visitantes e as obras literárias clássicas são consumidas em supermercados?
Becker explica que por vezes os trabalhos artísticos possuem conhecimentos e convenções
fixados em oposição ao saber comum. Dessa forma, seria possível criar uma distinção entre, por
exemplo, o público assíduo e que pode colaborar ativamente como coautor da obra e aquele que é
ocasional. No entanto, ele também menciona os artistas que incorporam em suas obras as formas
ordinárias e comuns de representação do real. Dessa forma, ele evidencia que os mundos da arte
são múltiplos, não se separando de maneira absoluta entre eles e nem em relação à vida social.
Em termos de conflitos de integrantes do mundo da arte, a obra de Bourdieu auxilia muito
mais. Para ele, todo campo cultura é essencialmente um campo de luta pela apropriação do
capital simbólico.

Acabaram as vanguardas artísticas, ficam os rituais de inovação.


Canclini começa esse item dizendo que as vanguardas são a forma paradigmática da
modernidade, embora algumas tenham nascido tentando ser contrárias a isso (Gauguin indo para o
Taiti por exemplo). Elas estavam entusiasmadas com a liberdade individual e experimental e, em
vários casos, a liberdade estética se uniu à responsabilidade ética (como o Surrealismo e a
Bauhaus).
No entanto, Canclini mostra como esses gestos de ruptura dos artistas, por não se
transformarem em intervenções eficazes nos processos sociais, acabaram por virar ritos. Assim,
embora as vanguardas buscassem romper com as convenções, a sua própria ruptura tornou-se
uma convenção, sobretudo após a incorporação progressiva delas aos museus. E os próprios
museus também tornaram-se ritos, ao sacralizar o espaço e os objetos, diferenciando os grupos
sociais entre aqueles capazes de entender a cerimônia e os que não conseguem fazer parte dela.
Uma consequência das vanguardas que permanece hoje na arte é a necessidade de buscar
sempre o novo. Uma espécie de “rito de entrada”, já que o artista hoje, para pertencer ao mundo
da arte, não pode repetir o que já foi feito: para estar na história da arte tem que estar saindo dela
incessantemente. E esse tipo de arte exclui o espectador que não queira fazer da sua participação
uma experiência inovadora também. Os artistas, ao aceitarem o mercado artístico e os museus
como ritos de entrada e a inovação incessante como a maneira moderna de fazer arte, submeteram
as suas obras a um enquadramento que os limita e controla. 3
No entanto, Canclini se pergunta por que existe também uma atração por referenciais do
passado. A resposta é muito densa para explorar nesse capítulo, pois diz respeito às necessidades
culturais de conferir significado ao presente e às necessidades políticas de legitimar a hegemonia
atual por meio da valorização do patrimônio histórico.

A arte culta já não é mais um comércio de minorias


Canclini começa esse item dizendo que uma pesquisa de Annie Verger sobre a revista
Connaissance des Arts mostra que no início existiam eram entrevistados muitos artistas,
historiadores e críticos de arte, diretores de galerias e conservadores de museus. Com o passar do
tempo, os artistas foram sumindo e passaram a ser entrevistados colecionadores, conservadores de
museus tradicionais e marchands.
Sobretudo nos Estados Unidos, grandes empresas e corporações se interessam em financiar
exposições de grande repercussão, usando-as como publicidade. Isso é mais um motivo que faz
interrogar onde estaria a autonomia do campo artístico diante desses jogos entre comércio,
publicidade e turismo. Onde estaria a renovação das estéticas e a comunicação com o público?
Lembrando que o valor exorbitante das obras de arte estabelecido pelo mercado inviabiliza até
mesmo os museus de pedirem emprestadas, para apresentar ao público, obras que estão sob a
posse de colecionadores, em função do seguro para esses trabalhos ser altíssimo. Como seria
possível então manter a premissa da modernidade de expandir e democratizar as grandes criações
culturais?
Assim, a autonomia dos campos culturais não se dissolve no capitalismo, mas se subordina
às suas leis de maneira imperiosa. E assim o que seria dito “culto” acaba se relacionando com os
gostos populares, já que os empresários têm cada vez mais valorizado questões como custo de
produção e eficiência de alcance ao invés do julgamento de profissionais especializados sobre o
valor estético ou não daquelas obras, que nada mais são do que mercadorias para os seus
negociadores.

A Estética Moderna como Ideologia para Consumidores


Ao final do capítulo, Canclini mostra como aquilo que se acreditava existir no que era
moderno, ou seja, autonomia, ausência de necessidade prática da arte, originalidade e artistas
atormentados e isolados, é mais uma ideologia assumida pelo público de massa do que por aqueles
que estão no meio e que sabem como a questão do mercado funciona.
Ele destaca ainda haver uma diminuição da criatividade e da força da arte no fim desse
século. Não é à toa que museus adotam o recurso de grandes mostras retrospectivas. A arte
contemporânea já não gera tendências ou grandes personalidades. Assim, o impulso inovador e
expansionista da modernidade pode estar chegando ao seu limite, e talvez isso possa servir para se
descobrir novas formas de inovação que não seja a procura incessante pelo desconhecido.