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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


Disciplinas Interdepartamentais da FFLCH
Atividades de Estágio: português e literaturas em língua portuguesa
Prof. Dr. Erwin Torralbo Gimenez

O gênero dramático e a Ópera do Malandro


em cena na sala de aula

Ana Carolina de Assis Perfeito, nº USP 6833379


Danielle Camara Silva, nº USP 8027602
José Mariano, nº USP 8022750
Leonardo Cavalcante Mendes, nº USP 8024978
Luana da Silva Araujo, nº USP 9333189

SÃO PAULO
2018
O gênero dramático e a Ópera do Malandro em cena na sala de aula

▪ Resumo
Plano de aula que tem como objetivo, a partir de um trabalho inicial com as características do
gênero dramático, possibilitar a leitura e a compreensão da peça a Ópera do Malandro, de
Chico Buarque de Holanda.

▪ Público-alvo e disciplina
Ensino Médio; Língua Portuguesa; Literatura; Artes.

▪ Conteúdo
1. Gênero dramático, suas modalidades (Tragédia, Comédia, Farsa, Auto, Musical) e suas
especificidades (tempo, espaço, narrador, diálogos, didascália, roteiro, cenário, plateia);
2. A figura do malandro na cultura popular brasileira;
3. Peça A Ópera do Malandro (1978), de Chico Buarque de Holanda;
4. Filme A Ópera do Malandro (1985), de Ruy Guerra;

▪ Expectativas
O aluno deve ser capaz de identificar um texto do gênero dramático;
Conhecer os elementos e a linguagem que compõem o teatro;
Conhecer a obra Ópera do Malandro, sendo capaz de relacionar seus elementos com os vistos
nas aulas anteriores e reconhecer sua relevância dentro do contexto histórico e social
brasileiro;
Aproximar-se da temática do malandro na cultura popular brasileira, sendo capaz de
identificar as características desse tipo de personagem;
Espera-se que o aluno seja capaz de ler um texto teatral, interpretá-lo e produzir textos desse
gênero;
Compreender que um texto escrito pode gerar e se relacionar com diferentes tipos de arte,
como a música, o cinema e as artes plásticas. Espera-se que o aluno saiba reconhecer as
semelhanças e as diferenças entre esses diferentes gêneros quando elas tratam um objeto
semelhante, como o caso da obra analisada.
▪ Desenvolvimento

Aula 1: O gênero dramático


O que é o gênero dramático?
Modalidades: Tragédia, Comédia, Farsa, Auto, Musical.

O professor iniciará a aula anunciando o trabalho com o gênero dramático. Em um


primeiro momento, serão colocadas questões como “vocês já foram ao teatro?”, “vocês já
leram alguma peça teatral?”, “quais peças vocês assistiram ou leram?”. O professor será o
mediador de uma conversa, incentivando os alunos a compartilharem seus conhecimentos,
suas impressões e suas experiências relacionadas ao teatro, visando favorecer a descoberta de
identificações prévias dos alunos com o gênero ou, simplesmente, tornar o assunto presente na
sala de aula.
Em um segundo momento, o professor realizará uma breve exposição sobre o gênero
dramático, ressaltando que sua principal característica é ser um texto que é escrito para ser
encenado em um palco por atores, e que, portanto, é composto principalmente por diálogos.
Ele poderá abordar o uso contemporâneo da palavra “dramático”, perguntando aos alunos
qual a concepção que eles têm desse termo (espera-se que os alunos falem sobre “uma pessoa
dramática” como alguém que é exagerado em seus sentimentos), para introduzir a origem da
palavra, que vem do grego e significa “ação”. Além disso, ele poderá abordar aspectos
históricos, falando sobre a origem religiosa do gênero, que começou com a encenação em
cultos para as divindades gregas.
Depois dessa pequena introdução, ele irá anunciar aos alunos as modalidades do gênero
dramático e pedir aos alunos que pensem em características ou temas que se relacionem com
cada uma delas: tragédia, comédia, farsa, auto e musical. Recomenda-se que o professor as
escreva na lousa, para que elas fiquem visíveis para os alunos durante o desenvolvimento da
atividade seguinte e ele, nesse momento, dar algumas pistas para ajudá-los.
Os alunos serão divididos em cinco grupos. Cada grupo receberá um trecho de uma
peça teatral, a ser selecionado pelo professor, que pertença a uma das cinco modalidades, sem
mencionar o nome da peça ou de seu autor. A tarefa dos alunos será a de ler os trechos e
identificar características ou temas no texto que permitam a classificação das peças nas
modalidades do gênero dramático.
Após a discussão e o levantamento, os alunos receberão uma folha contendo todos os
trechos trabalhados pelos grupos, agora identificados com o nome da peça e do autor. Cada
grupo deverá dizer qual é o seu trecho e justificar sua classificação. O professor deverá
aproveitar esse momento para ressaltar características importantes que definem cada
modalidade e fazer outros comentários, se achar pertinente. Também é recomendado que o
professor entregue um esquema que resuma cada modalidade, ou, caso a escola possua um
projetor, que ele exiba slides com as informações.

Aula 2: A linguagem do teatro


As especificidades do gênero
Termos: tempo, espaço, narrador, diálogos, didascália, roteiro, cenário, plateia.

Nesta aula, é solicitado aos professores que se trabalhe as características específicas do


teatro e da arte narrativa. Para isso, sugere-se o aproveitamento do uso do recurso de
montagem de grupos da aula anterior para que se desenvolva, também em grupo, um processo
de análise de um texto teatral. Poderão ser usados novos textos ou até mesmo os textos
utilizados na primeira aula. No entanto, a abordagem deverá ser distinta. Cada grupo será
encarregado de verificar um aspecto formal específico do texto escolhido. São eles: tempo,
espaço, narrador, diálogos, didascália, roteiro, cenário e plateia. Os textos são de livre escolha
dos professores, porém, deve-se ressaltar a importância do levantamento de passagens de
obras nas quais esses recursos possam ser explorados.
Antes das alunas e alunos começarem a discussão, é importante a realização de uma
breve explicação desses aspectos formais. De forma sucinta, o professor deverá demonstrar o
que cada grupo deve se ater ao analisar o texto. Na questão temporal, solicitar aos alunos que
verifiquem como as ações se passam na peça: há pulos temporais ou todas as ações acontecem
de uma vez só? Há “flashbacks”, retornos temporais ou suspensão temporal na narrativa?; no
contexto do espaço é importante deixar claro aos alunos que verifiquem em que local o evento
está acontecendo e se há algum indício de características que revelem como esse espaço é
estruturado; na questão do narrador, é essencial que o professor mostre que os alunos devem
verificar se o narrador é onisciente, se também é um personagem, quais são os momentos que
o narrador aparece na peça; nos diálogos, é necessário instigar os alunos a perceberem e
pesquisarem as formas como os diálogos são realizados, se há perguntas, monólogos, diálogos
sobrepostos, etc; no contexto da didascália, é importante que perceber se há algum tipo de
marcação de indicações aos atores durante o texto; no cenário, os alunos devem verificar
como o espaço é narrado no texto e como o cenário poderia ser montado a partir do que é
relatado na peça; por fim, é necessário verificar se o público participa da peça e como o
próprio público é articulado para dentro da obra, se os atores entram em contato com quem
assiste a peça e tentar entender os motivos para isso acontecer.
Essa explicitação deve ser breve, em torno de 10 a 15 minutos. Durante a conversa, o
professor passará pelos grupos trazendo explicações e soluções rápidas de dúvidas. O grupo
deve discutir entre si durante 20 minutos e apresentar o resultado para sala, ou seja,
demonstrar quais foram os aspectos encontrados nos textos; além disso, os deverão expor
também a qual gênero dramático eles acreditam que a peça pertença a partir do trecho.
O planejamento é uma tentativa de desconstrução usual do método formal da relação
ensino-aprendizagem. O professor, em todas as etapas, trabalharia como um mediador,
buscando levar o debate para que os próprios alunos compreendam cada uma das
características estético-formais do texto. Para isso, é bem importante trazer um material
próximo ao aluno ou que dialogue com o universo em que o aluno se encontra. Além disso, o
professor pode ficar a vontade para propor outras dinâmicas no momento do debate que
envolvam audiovisual, música, etc.

Aula 3
Contextualização histórica da peça A Ópera do Malandro
Inspirações: Ópera dos Mendigos, John Gay e Ópera dos Três Vinténs, de Bertold Brecht

Esta aula visa introduzir os alunos no ambiente da obra que será trabalhada. Além de
apresentar o enredo, veremos em que contexto os acontecimentos estão inseridos. Escrita
durante a ditadura militar, a narrativa de a Ópera do Malandro se passa durante outra
ditadura, o Estado Novo de Getúlio Vargas, momento de centralização do poder,
nacionalismo e autoritarismo. Também está presente a chegada de imigrantes, sobretudo
fugindo da guerra, como as trabalhadoras polonesas, citadas por Duran “as polacas que são
ótimas, são saudáveis, mas andam mal-acostumadas e fazem exigências absurdas”. As
referidas exigências nos lembram que nesse período também tem origem a consolidação das
leis trabalhistas, assunto presente na obra e que deve ser discutido na aula. O propósito não é
revisar o conteúdo da disciplina de história, mas compreender como o espetáculo se amarra e
critica essa sociedade, marcada pela falta de honestidade e por ações que utilizam o sistema
público para alcançar objetivos pessoais.
Chico Buarque empresta das obras A Ópera do Mendigo (1728), de John Gay e de A
Ópera dos Três Vinténs (1928) de Bertolt Brecht a tematização do malandro, adaptando as
personagens para a Lapa da década de 1940. Em um ambiente repleto de contrabando,
corrupção, prostituição e vigaristas de todas as formas. O texto de Gay satiriza as autoridades,
políticas e policiais, na Inglaterra do século XVIII. Sua ópera em três atos traz diálogos
falados, e não cantados, alternando com canções populares de sua própria autoria. Essa
estrutura é posteriormente recuperada por Brecht e por Chico Buarque. A Ópera do Malandro
também recebe influência do enredo de A Ópera de Três Vinténs, pois em ambas há um
conflito originado do casamento do protagonista marginal e a filha de um chefe do crime.
O malandro, no contexto dessas três obras, é uma personagem que sobrevive por meio do
aproveitamento do sistema que o cerca. Esse papel será analisado de forma mais detalhada na
aula seguinte.

Aula 4
O malandro na cultura popular brasileira e introdução à obra.

Nesta aula, pretendemos levantar a discussão da figura do “malandro” na cultura


popular brasileira, a imagem que se forma no imaginário dos alunos. Para início de conversa,
questionar os malandros que eles conhecem, seja próximo de seu convívio pessoal ou na
literatura/filmes e quais atitudes enxergam nessas pessoas para considerá-las assim.
Para ilustrar um pouco a discussão, vamos usar um personagem bastante conhecido: o
Zé Carioca. Trata-se de um personagem da Disney inspirado no estereótipo do malandro
carioca, um papagaio que é alérgico ao trabalho, criativo para conseguir o que deseja sem
pagar, bom em fugir dos cobradores, ou seja, está sempre procurando viver bem à custa de sua
astúcia, usando o seu “jeitinho brasileiro”. Esse personagem será um contraponto aos que
aparecem na peça. Algumas questões a serem discutidas: há semelhança de personalidade? A
imagem de ambos (na forma de vestir, falar, etc) são as mesmas? Quais diferenças podem ser
apontadas entre os dois?
Para ambientar o aluno antes da leitura da obra, faremos uma introdução apresentando
um pouco os personagens principais que dão vida à peça: nome, representatividade (principal
ou secundário, etc), contexto na história, etc. Além disso, é necessário explicar um pouco o
pano de fundo que norteia a peça, por exemplo, a prostituição, contrabando e jogatinas. Aqui,
já podemos incitar algumas reflexões para os alunos terem em conta durante a leitura: há
paralelos que podem ser feitos com temas atuais? A tensão entre “ordem e desordem”, “certo
e errado”, apontada por Antonio Cândido, em “Dialética da Malandragem”, 1970, sobre outro
malandro na análise de Memórias de um Sargento de Milícias, pode ser observada na obra?
Aulas 5, 6 e 7 - Leitura da peça

A leitura da peça será realizada (e interpretada) pelos alunos. Seria interessante poder
utilizar outro local que não a sala de aula, para que seja possível delimitar uma plateia, onde
os alunos poderiam se sentar em semicírculo, e um palco. Caso não seja possível, o professor
poderá organizar a sala antes do início da atividade, buscando adaptar o espaço disponível.
Antes de iniciar a leitura, é necessário dividir os papéis entre os alunos. É possível que o
próprio professor ou os alunos escolham ou que se realize um sorteio. Como há vinte
personagens ao todo, faltarão personagens para alguns alunos, portanto, estes ficarão
responsáveis pelas vozes da Passeata e do Coro.
Também é importante, antes de iniciar a leitura do texto, que o professor incentive os
alunos a trabalhar com a oralidade e a corporalidade, buscando traduzir os sentimentos do
personagem, respeitando as pausas e seguindo o ritmo da cena.
Recomenda-se, caso seja possível, que o professor reproduza as músicas quando elas
forem indicadas no texto.

Divisão:
Aula 5: Preparação e Leitura do Ato 1
Aula 6: Leitura do Ato 2 (cenas 1, 2 e 3)
Aula 7: Leitura do Ato 2 (cenas 4, 5, 6 e 7)

Lista de personagens:
1. Barrabás 2. Ben 3. Chaves 4. Dorinha 5. Dóris 6. Fichinh, 7. General 8. Geni
9. João Alegre 10. Johnny 11. Juiz 12. Jussara 13. Lúcia 14. Max 15. Mimi
16. Phillip 17. Produtor/Duran 18. Shirley 19. Teresinha 20. Vitória
21. Passeata (todos que não estão em cena), 22. Coro (todos que não estão em cena)

Aparição dos personagens por atos/cenas:

Introdução
Produtor, Vitória, João Alegre
1º ato
CENA 1 - Duran, Fichinha, Vitória, Geni
CENA 2 - Teresinha, Max, Johnny, Barrabás, Phillip, Ben, General, Geni, Chaves, Juiz
CENA 3 - Duran, Vitória, Teresinha, Dorinha, Shirley, Mimi, Doris
2º ato
CENA 1 - Max, Barrabás, Teresinha, Ben, Geni, Johnny, Phillip
CENA 2 - Max, Dorinha, Mimi, Fichinha, Geni, Shirley, Jussara, Vitória, Ben, Johnny,
Phillip, Dóris, General
CENA 3 - Max, Chaves, Juiz, Barrabás, Lúcia, Teresinha
CENA 4 - Duran, Vitória, Chaves, Geni
CENA 5 - Barrabás, Max, Teresinha
CENA 6 - Duran, Chaves
CENA 7 - Vitória, Duran/Produtor, João Alegre, Passeata (todos que não estão em cena),
Lúcia, Teresinha, Ben, Max, Shirley, Jussara, Mimi, General, Phillip, Dóris, Johnny,
Fichinha, Barrabás, Geni, Coro (todos), Chaves

Aula 8
Trilha sonora e Filme

Na oitava e última aula destinada à peça, devemos tratar da adaptação às telas A ópera
do malandro, filme de 1985 dirigido por Ruy Guerra. É preciso, no entanto, ficar atento à
duração limite da aula, uma vez que não será possível reproduzir o filme integralmente e
trabalhar a trilha sonora. Sendo assim, de modo a utilizar o filme como recurso didático
importante para auxiliá-los no entendimento da obra e complementar os pontos trabalhados
nas aulas anteriores, o professor precisará preparar previamente os trechos escolhidos, uma
vez que dispomos de apenas uma aula para reprodução do filme.
O professor deverá começar, de forma breve, relembrando aspectos importantes para
compreensão da obra e que foram trabalhados nas primeiras aulas. Dentre os trechos
escolhidos, seria importante haver cenas que possibilitem trabalhar também a trilha sonora;
seria interessante, portanto, que o professor eleja uma das músicas e leve a letra impressa para
que os alunos acompanhem. É preciso ter controle do tempo disponível, de forma que a
reprodução das cenas não ultrapasse 30 minutos da aula e para que ao final consigamos ainda
debater, de forma breve, os pontos levantados no começo da aula.
Nos minutos finais, o professor deverá mediar e uma atividade de dinâmica entre a
turma, de forma que falem sobre as cenas reproduzidas e consigam relaciona-las ao conteúdo
visto nas aulas sobre a peça. Para finalizar a aula, o professor poderá reproduzir, uma última
vez, a música “A volta do malandro”.
▪ Avaliação
Para a avaliação, o professor deverá dispor de duas notas, sendo elas: participação nos debates
estabelecidos entre a turma, leitura e presença nas aulas expositivas e entrega de um trabalho
final pré-estabelecido na primeira aula que consiste na maior nota deste módulo do bimestre.
O trabalho deverá conter no máximo duas páginas e ser feito em grupo, sendo os alunos
responsáveis por escolher uma cena da peça e relacioná-la aos aspectos estudados, tais como
gênero dramático e o contexto social e histórico do Brasil.

▪ Bibliografia

HOLANDA, Chico Buarque de. Ópera do Malandro.


______. A volta do malandro. Trilha sonora do filme: Ópera do Malandro. Produção:
Homero Ferreira, Antônio Foguete, Carlinhos Vergueiro, Vinícius França. Polygram/Philips.
1986 (37 minutos).
CÂNDIDO, Antonio. Dialética da malandragem (caracterização das memórias de um
sargento de milícias). Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 8, 1970. São Paulo, 1970,
pp. 67-89. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/69638 > Acesso em:
16 nov. 2018
MACKSEN, Luiz. Ao compasso (e descompasso) do malandro. 1978. Disponível em: <
http://www.chicobuarque.com.br/critica/crit_opera_compasso.htm > Acesso em: 16 nov. 2018

Ópera do Malandro (filme). Direção: Ruy Guerra. 1985. Disponível em: <
https://www.youtube.com/watch?v=q-KT_pE2-rY&t=1s > Acesso em: 16 nov. 2018

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