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REFLEXÕES SOBRE UMA COMUNIDADE RIBEIRINHA ATINGIDA PELA

CHEIA1

ELIANE MARTINEZ DE SOUZA ZANFERRARI


elianezanferrari@hotmail.com

ALLAN ROBERT RAMALHO MORAIS


allanrrmorais@hotmail.com

INTRODUÇÃO

O presente artigo se tratará sobre a compreensão a partir dos desdobramentos da


cheia ocorrida entre o final de 2013 e no meio do ano de 2014, no Rio Madeira, que
afetou não só a cidade, como também os distritos que fazem parte do município de
Porto Velho. Em especial, trataremos sobre o distrito de Nazaré e as consequências no
que se refere à interação do homem-espaço no pós-enchente.
A cultura dos ribeirinhos é influenciada pelo rio porque é seu referencial, seu
mundo, sua vida, podem até conhecer o urbano2 porém não os atrai, pelo contrário os
impulsionam a amar mais ainda suas origens (DARDEL, 2011 pag. 27).
As organizações sociais da Amazônia são muitas, porém são os ribeirinhos, as
comunidades encontradas às margens do rio Madeira em Porto Velho que trata este
artigo. Uma das comunidades ribeirinhas do município de Porto Velho é as do Distrito
de Nazaré, localizada às margens do Rio Madeira, que é o ponto central de estudo deste
trabalho, pois foram afetadas diretamente pela cheia de 2013/2014.

1Artigo produzido no Grupo de Estudos e Pesquisa em Geografia GEPGÊNERO, a partir de pesquisas


realizadas no Distrito de Nazaré em 05/2015, apresentado ao Programa de Mestrado em Geografia Unir-
RO, pelos discentes: Allan Robert Ramalho Morais e Eliane Martinez de Souza Zanferrari.
2
Trata-se de espaços que para o homem diferem em qualidade e significado. A vila encontra seu sentido
no trabalho nos campos, que impõem ao homem seu ritmo lento e seguro (DARDEL, 2011 pg. 27).
Devido às cheias de 2014 os moradores de Nazaré saíram compulsoriamente de suas casas.
OBJETIVO

O objetivo deste é observar os impactos na população do Distrito de Nazaré,


decorrentes da cheia do Rio Madeira em 2013/2014, contribuindo para ampliar o campo
de estudo da interação entre homem-espaço no pós-fenômeno natural e compreender a
comunidade diante de conceitos de espaço a partir da observação do fenômeno pós-
enchente que afetou a comunidade.
A geografia se refere à inserção do homem-no-mundo, de modo que não pode
lidar apenas com aspectos objetivos ligados a um espaço geometrizado. Ela pressupõe
um campo de estudos próprio que se refere à existência humana na Terra, a partir de um
objeto fenomenologicamente determinado: o "espaço geográfico", que tem como
elemento essencial a "geograficidade", definida como uma "geografia vivida em ato" a
partir da exploração do mundo e das ligações de cada homem com sua terra (DARDEL,
2011).

METODOLOGIA

Em maio de 2015 ocorreu uma visita ao distrito de Nazaré por pesquisadores da


Universidade Federal de Rondônia do curso de Mestrado em Geografia, onde foi
possível coletar dados através de diálogos e observação da comunidade. Em todo
período da pesquisa deste artigo, foi feito levantamentos bibliográficos acerca de dados
correspondentes as enchentes do rio Madeira, bem como coleta de informações de
revistas e reportagens do meio eletrônico porque possuem dados em tempo real,
agilizando as informações necessárias entre os anos de 2013 a 2015.
Nazaré é um distrito da cidade de Porto Velho, com cerca de 150 km da cidade,
localizada entre as áreas de influência de duas Unidades de Conservação: a Reserva
Extrativista do Cuniã e a Floresta Estadual de Rendimento Sustentável Rio Madeira. O
Distrito está divido pelas comunidades da margem direita, sendo as principais, Bom
Será, Nova Esperança, Santa Catarina e Conceição do Galera e da margem esquerda
pelas comunidades Lago do Cuniã, Boa Vitória, Nazaré, Tira Fogo e Papagaios.
A região está inserida dentro do um complexo de terras firmes e de várzeas e
outrora era uma grande produtora de produtos extrativistas com a borracha, castanha,
sova, madeira, peles de animais silvestres entre outros produtos. A via de acesso se dá
através do Rio Madeira pelas embarcações convencionais, chamados de barco de linha
ou “recreio”, ou ainda de pequenas embarcações como as voadeiras com motor de popa
40 hp.
As residências são construídas de madeira cerrada, com aproximadamente 48 m².
Nos últimos dez anos aumentou bastante a quantidade de residências em alvenaria com
três a quatro cômodos. Existe um largo espaço gramado que serve de praça pública, rua
beirando o rio e outra margeando o “furo”, um canal que liga o rio a região dos lagos.
As casas seguem a linha do rio e em ambas as margens do canal. Essa comunidade é
encontrada às margens do Rio Madeira e foi afetada diretamente pela cheia de
2013/2014.
Conforme supracitado, o distrito foi atingido pelo fenômeno da cheia, que foi
ocasionada pelo grande volume de chuvas nos anos de 2013/2014 no rio Madeira, nos
estados de Rondônia e Amazonas, localizados na região Norte do país (AMAZÔNIA
REAL, 2015). Um dos distritos de Porto Velho localizados no Baixo Madeira mais
afetados foi Nazaré com mais de 90% das famílias retiradas do local. Cerca de 30 mil
pessoas foram atingidas pela enchente. Diante desta situação, várias comunidades
ribeirinhas foram afetadas, desabrigando centenas de famílias, interditando estradas,
isolando comunidades, provocando a saída compulsória dos moradores ribeirinhos de
sua localidade.
De acordo com informações do médico D. R. S., nos últimos dias (05 e 06 de
agosto de 2014), foram diagnosticados nove casos de malária na localidade de Nazaré.
No mês, segundo ele, foram diagnosticados oitenta casos. Além disso, nas comunidades
de Conceição da Galera e de Santa Catarina, ambas no distrito de Nazaré, foram
indicados que os índices de casos de malária aumentaram consideravelmente.
No distrito de Nazaré localiza-se a Escola Municipal Manoel Maciel Nunes e a
Escola Estadual Professor Francisco Desmoret Passos. Apesar de o distrito ter sido em
sua grande parte coberto pelas águas do Rio Madeira, nenhuma das duas escolas chegou
a ser atingida, todavia foram utilizadas como abrigo para as famílias atingidas pela
cheia.
Em Nazaré, a maioria dos ribeirinhos foram transferidos em abrigos na capital
Porto Velho (cerca de 90%), mas como lá existe uma parte mais alta, algumas famílias
puderam se acomodar nessas áreas, como por exemplo nas escolas supracitadas, que não
chegaram a ser atingidas pelas águas.

Imagem 01 – Imagens aéreas do Distrito de Nazaré atingida pela cheia. J.P./


Defesa Civil, abril de 2014.

Esses lugares, por sua vez, possuem um conjunto de sensações emotivas,


porquanto podem ser considerados seguros e/ou protegidos, relação direta com suas
casas, seu refúgio, o único lugar com o qual se quer estabelecer algum tipo de relação
afetiva, uma relação real totalmente enraizada, ao ponto de retornar sem nenhuma
dúvida para suas casas em Nazaré, mesmo com os evidentes sinais marcados das cheias
nas paredes das suas casas como mostra a imagem 02:
Imagem 02- Marcas da cheia histórica 2014, pode se observar o nível das águas
alcançado pelas linhas deixadas nas paredes. E. M. Z. , Maio de 2015.

As marcas deixadas pelas águas, nas paredes das casas, nas vegetações, nas mais
diferentes formas e locais da comunidade permite um olhar diferenciado nessa
perspectiva; o homem constrói referenciais afetivos com o lugar que é desenvolvido ao
longo da vida, a partir da convivência. Assim, o espaço passa de uma base material da
sua existência para um espaço carregado de sentido (BOLLNOW, 2007).

Figura 02: – Visão de Nazaré, à direita registro da enchente na parede da casa, mais
a frente, vida que segue à beira do rio, E. M. Z./ Maio de 2015.
Observa-se que o espaço está relacionado com a visão e a percepção do sujeito.
Nesta concepção é essencial destacar que a presença do homem enquanto sujeito, que
percebe este mundo, como um ser inserido no mundo, implicaria no estar próximo,
mantendo relações com os objetos e os outros sujeitos na representação do espaço.
Tudo se reporta às relações do ser que pensa o seu espaço, caracterizando o poder
do sujeito sobre a natureza, que acaba originando a mesma. O espaço tornou-se
concebido pela consciência do sujeito que percebe as coisas por via da compreensão.

RESULTADOS PRELIMINARES

Na visita à Nazaré em Maio de 2014, constatamos que partes dos moradores voltaram
e auxiliaram na retirada da lama que cobriam suas casas, escolas, unidades de saúde e
instruídos para o uso das águas dos poços. Apesar da situação difícil, foi unânime a
posição entre os ribeirinhos de Nazaré de que não querem deixar a região. Muitos
nasceram e vivem a vida toda nessas regiões. Questionados sobre a mudança para novas
áreas que a Prefeitura e o Governo do Estado de Rondônia estão adquirindo, eles estão
relutantes em se mudar porque seriam deslocados para áreas distantes de onde
tradicionalmente estavam acostumados a viver.
Desta forma é possível compreender o regresso da comunidade ao distrito de
Nazaré. Não eram muitos, porem era o suficiente para resgatar as tradições locais que são
importantes para a comunidade. Seus recursos estavam parcialmente perdidos, como relata
o conferente de um barco de passageiros que percorre os distritos do médio e baixo
Madeira, M.F.N, que confirma a redução do poder aquisitivo da população da região
“As cargas de hortifrutigranjeiros reduziram drasticamente, assim como o número de
passageiros” (AMAZONIA REAL, 2015).
Fica evidente nesta população ribeirinha, o grande apego ao lugar devido a
manifesta vontade de regressar ao local de sua comunidade. Diante disso, depois de
algum tempo, alguns regressam as suas casas, em número reduzido, porém com o
objetivo de restabelecer a comunidade em um parâmetro mais próximo possível do que
era antes deste acontecimento.
Oliveira (2004) aponta que o meio ambiente pode ser tanto o espaço que se
apresenta por características naturais e construídas, quanto é:

“(...) o lugar, que é a sensação de aconchego, de finitude, de lar, de


família. Tudo isso é meio ambiente, resultante da experiência
emocional e afetiva. Nós colorimos o nosso meio ambiente com as
mais diversas cores. Ora vivas e alegres, ora tristes e desbotadas. Daí
em nossa visão ambiental desenvolvemos um elo afetivo profundo,
indissociável, que Tuan, com base em Bachelard, denominou de
topofilia”. (OLIVEIRA, 2004, p. 22).

Esses espaços são locais de encontros, trocam sentimentos, contatos físicos,


prazeres, identidades, que refletem a topofilia que o autor Tuan (1980) revela ser o elo
efetivo entre a pessoa, o lugar e o ambiente físico que se encontram; esses processos
mentais estão ligados aos sentimentos, às formas de representações e percepções que as
populações têm acerca do lugar onde moravam.
O modo de vida dos ribeirinhos é determinado pelo ritmo das águas. Em relação
constante com a natureza, os ribeirinhos têm nas matas e nas águas toda simbologia
expressa na sua cultura, diante de um espaço único, crítico e de muitas interpretações. A
relação homem e natureza que iluminam e refletem a cultura desse povo, conforme
Silva (2000) cita:
“(...) temos definição de “ribeirinho”a população constituinte que
possui um modo de vida peculiar que as distingue das demais
populações do meio rural ou urbano, que possua sua cosmovisão
marcada pela presença das águas. Para estas populações, o rio, o
lago e o igarapé não são apenas elementos do cenário ou paisagem,
mas algo do modo de se viver do homem. Dessa forma, quando
estabelecemos nossa conceituação, temos claro que nem todas as
populações humanas que vivem ás margens dos rios são consideradas
populações ribeirinhas”. (Silva, 2000).
Pelo fato dos ribeirinhos de Nazaré ter suas vidas pautadas pela presença das
águas, de manterem sua subsistência naquele local, de prezar pela organização e
desenvolvimento do seu espaço e do apego ao local em que vivem, é compreensível que
ao serem retirados do local aonde nasceram e cresceram, retornem sem delongas, pois
por mais difícil que a situação esteja, sempre vão procurar se reerguerem e continuar
suas vidas no seu espaço de origem. Isto é o apego, a topofilia descrita por Tuam
(1980), isso é o que os move, independentemente do aconteça, os ribeirinhos de Nazaré
dificilmente abandonariam seu local, mesmo em meio a fenômenos naturais.

REFERENCIAS BILIOGRÁFICAS

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ZANFERRARI, Eliane M.S.; (E.M.Z.); Créditos das imagens, Distrito de Nazaré, Maio
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