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Os viajantes e o negro no Rio de Janeiro do século XIX

Rafael Chaves Santos∗

Resumo: Os viajantes alemães que vieram ao Brasil no século XIX produziram relatos a
respeito da população brasileira baseados na ideologia iluminista e, fundamentalmente, no
conceito de Bildung (formação). Estes relatos continuam sendo fontes históricas fundamentais
para a compreensão de nosso passado colonial e imperial e certamente vão contribuir, direta
ou indiretamente, para as construções identitárias veiculadas pela própria elite letrada no
Brasil, após interagirem com estes discursos. O presente artigo os analisa do ponto de vista da
ideologia e das práticas sociais de seus enunciadores.
Palavras -chave : Iluminismo, negros, viajantes, ideologia

Travelers and black people in Rio de Janeiro in the XIX century


Abstract: German travellers that came to Brazil in the XIX century had produced documents
about the brazilian population based on the illuminist ideology and, fundamentally, in the
Bildung concept. These reports are still essential historic sources for the comprehension of our
colonial and imperial past that will certainly contribute, direct or indirectly, to identity
constructions related to our own literate elite in Brazil, after they interact with these speeches.
The present paper analyses them by the ideology point of view and by the social practices of
their enunciators.
Key words : Enlightenment, blacks, travelers, ideology


Mestrando em lingüística aplicada na UFRJ. E-mail: raffer@oi.com.br

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Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar – http://www.urutagua.uem.br/015/15santos.pdf
Nº 15 – abr./mai./jun./jul. 2008 – Quadrimestral – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519-6178

Introdução de um resultado de um processo que


não pode ser atingido apenas pela
No século XIX são incontáveis os atividade metódica da educação; a
viajantes, principalmente europeus, que, “Bildung” pressupõe a atividade
por uma razão ou por outra, espontânea do indivíduo, ocorrendo ao
desembarcaram em nosso país. Dentre longo do processo de auto-
estes encontramos um grande número de aperfeiçoamento.
alemães, os quais, em sua maioria, são O conceito propõe a transformação
cientistas das mais diversas áreas. Na humanista do homem a partir da cultura,
verdade o número de alemães que vêem ao do conhecimento, e, centralmente, a partir
Brasil só é ultrapassado pelo número de da linguagem, um conceito cunhado pela
viajantes ingleses. intelectualidade alemã no sentido da
Estes pesquisadores produzem obras sobre superação dos valores feudais do velho
suas áreas ocupacionais e suas obram, de regime e da introdução de valores
maneira direta ou mesmo indireta, se republicanos, em substituição à violência
referem aos habitantes do Brasil, brancos de massas e à ação política direta, coisa
portugueses ou descendentes, mulatos, então impossível no Império Germânico de
negros e índios, assim como a questões então.
nacionais, como a escravidão. É essencial ter esta noção do significado do
Este artigo terá como foco apenas os termo Bildung para analisar a visão destes
viajantes alemães que no século XIX viajantes alemães, influenciados pelo
vieram ao Rio de Janeiro e que, de alguma Iluminismo, e concluir até que ponto seus
forma, se ocuparam com as questões da discursos são, na verdade, racionais 1 ou
população desta cidade. limitados.
É necessário ressaltar aqui que estes Este artigo, contudo, é apenas uma
viajantes alemães viviam ainda sobre a pequena parte de um projeto de pesquisa
influência do Iluminismo, movimento que mais amplo que pretende discut ir também,
influenciou as mais diversas áreas de a partir da análise de discursos dos
atuação, como por exemplo, a política, viajantes alemães que no século XIX
economia, artes etc. O Iluminismo iniciou- estiveram no Rio de Janeiro, a questão da
se no século XVIII e atingiu seu ápice em formação identitária do Brasil e, desta
1789 com a Revo lução Francesa e, em forma, demonstrar em que medida práticas
cada nação européia apresentou discursivas de então se relacionaram com
características diferenciadas. os discursos nacionais da época, gerando
os discursos da atualidade a respeito da
Na Alemanha, o Iluminismo teve forte
população nacional.
influencia na literatura e na área político-
econômica. Esta influencia sempre foi Esta pesquisa propõe uma análise
regida por um conceito fundamental, que interdisciplinar que aciona as disciplinas da
diferenciou por completo o Iluminismo história e da antropologia e tem como base
alemão dos demais, o conceito de Bildung. a análise crítica do discurso, que entende o
Esta palavra, que tem difícil tradução por texto e sua linguagem como práticas
abranger várias nuances, pode ser de certa sociais e, sem abandonar o contexto,
forma entendida como “formação cultural”
ou nas palavras de Maas (2000, 27):
1
a tendência dos dicionários e do uso O termo racional aqui foi usado em referência à
lingüístico moderno é de atribuir ao razão, pois a época do Iluminismo ficou conhecida
também como a era da razão, onde tudo poderia ser
termo “Bildung” (formação) o sentido
resolvido pelo uso da razão.

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discute a relação existente entre linguagem Burmeister catalogou 800 espécies de


e poder. Segundo Wodak (2003: 19-20) pássaros, 90 espécies de anfíbios, 70 de
a ACD trata de evitar o postulado de mamíferos e aproximadamente 8 mil
uma simples relação determinista entre espécies de insetos. Além disso, publicou
os textos e o social. Tendo em nos anos seguintes 5 obras sobre a viagem:
consideração as intuições de que o Bericht über eine Reise nach Brasilien
discurso se estrutura por dominação, (Relato sobre uma viagem ao Brasil) em
de que todo discurso é um objeto 1853, Landschaftliche Bilder Brasiliens
historicamente produzido e (Imagens paisagísticas do Brasil) no
interpretado, isto é, que se acha situado mesmo ano, Reise nach Brasilien (viagem
no tempo e no espaço, e de que as ao Brasil) também em 1853, Systematische
estruturas de dominação estão
Uebersicht der Thiere Brasiliens -3 Bände
legitimadas pela ideologia de grupos
(Resumo sistemático dos animais do Brasil
poderosos, o complexo enfoque que
defendem os proponentes. em 3 volumes, entre 1854 e 1856, e
Erläuterungen zur Fauna Brasiliens
Para este artigo foram selecionados, (Comentário sobre a fauna brasileira) em
entretanto, apenas dois viajantes. A visão 1856.
destes viajantes foi abordada em relação a
uma parte da população do Brasil de então: Destas cinco obras publicadas sobre a
os negros (escravos). Desta forma, este viagem, a que será utilizada neste artigo é a
artigo limita o seu campo de abordagem a obra Reise nach Brasilien (viagem ao
uma parte da população retratada pelos Brasil) de 1853, onde se encontram relatos
autores, contudo, sem perder, por este do autor sobre a população do Brasil.
motivo, a raiz do pensamento presente Este autor é, sem dúvida, um verdadeiro
nestes autores selecionados. representante da época da razão, pois além
Os viajantes alemães de professor catedrático da universidade de
Halle, foi botânico, zoólogo, geógrafo,
O primeiro viajante escolhido é Carl geólogo, biólogo marinho, palenteólogo,
Hermann Conrad Burmeister, nascido em etc e publicou cerca de 300 trabalhos em
1807 na cidade de Stralsund e falecido em diversas áreas científicas.
1892 em Buenos Aires, um dos mais
importantes representantes desta época e, O segundo viajante escolhido é Ernst
em seu relato, encontramos valiosas Ebel2 , cujas datas de nascimento e morte
informações, o que torna a análise bastante permanecem ocultas para os pesquisadores
significativa. brasileiros. O que se sabe sobre este
viajante é que ele nasceu na cidade de
Alexander Von Humboldt, que se Riga, capital da Letônia, que ficou sobre
impressionou com a obra “Geschichte der influência alemã até fins do século XIX,
Schöpfung” (História da criação) de 1843, quando em 1891 a língua russa foi imposta
escrita por Burmeister, obteve para este como oficial. À época de Ernst Ebel a
junto à universidade de Halle uma maioria da população, cerca de 42,5%,
autorização especial para que ele pudesse falava alemão e, sabe-se que todos os
realizar, então, no ano de 1850 uma registros de nascimento, casamento e
viagem de caráter científico ao Brasil. No
dia 12 de setembro de 1850 iniciou-se a
viagem que só terminaria em 6 de abril de 2
Ernst Ebel é um escritor de língua alemã, porém
1852. não é alemão de nascença. Na pesquisa em
andamento os viajantes utilizados são aqueles que
O resultado desta viagem pode ser fazem uso da Língua alemã, mas não
considerado de extrema relevância, já que necessariamente são alemães.

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mortes foram mantidos em alemão até que podem agradar pelo primor do
1891. estilo e a forma atraente com que são
apresentados, mas não possuem
Em 1824 Ernst Ebel vem ao Brasil a nenhum valor intrínseco, pois estão
princípio como “turista” e escreve uma repletos de erros. Como evitar os erros
espécie de diário para seus amigos. Estes e as inexatidões, quando não se tem
insistem para que Ebel publique suas presente, aos olhos, o objeto de que se
anotações por acharem que elas serviriam deseja traçar a imagem? Aplicam-se ao
como fonte de informações úteis a outros conjunto traços que só convém às
possíveis viajantes que resolvessem visitar partes de um país tão grande como o
o país. Desta forma, Ebel decide por reunir Brasil, se pareçam umas com as outras,
quando cada província apresenta sua
suas breves cartas e, após organizá- las,
particularidade distinta? Assim é que
resolve publicá-las em 1828. O seu livro é se lê em mais de um livro que, em todo
intitulado Rio de Janeiro und seine o Brasil, se encontram fetos
umgebungen im Jahr 1824 (O Rio de arborescentes; exagera-se em geral a
Janeiro e seus arredores em 1824) beleza do país; fala -se de macacos que
Também é interessante relatar que Ernst riem e tagarelam; de pássaros canoros
que chilreiam; de laranjeiras que
Ebel no prefácio de sua obra pede crescem nas florestas; de Agave fatida
desculpas ao leitor por não ser escritor de em cima das árvores; de toda sorte de
profissão e diz que o valor de seu propriedades absurdas atribuídas às
“livrinho”, assim chamado por ele, reside serpentes; fazem-se descrições
no fato de conter somente a verdade, “o exageradas das florestas. O fato é que
tanto quanto nos seja possível, criaturas raramente se encontram reunidas todas
sujeitas a equívocos, vislumbrar essa as coisas agradáveis e interessantes
deusa.” como o imagina um autor sentado em
sua poltrona, depois de haver retirado
Esta temática sobre a verdade das palavras suas descrições de viajantes
ou relatos de viajantes já tinha sido acostumados a representar tudo com
anteriormente polemizada de forma ma is exagerada beleza. (Wied-Neuwied,
objetiva por Maximiano de Wied- 1820, 399)
Neuwied 3 em sua obra Reise nach Com base no que afirma Wied-Neuwied
Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817 torna-se necessário refletir acerca do que é
(Viagem ao Brasil nos anos de 1815 e
relatado por um viajante. Por um lado
1817), na qual este viajante afirma: àquele que esteve em contato com
Faz-se geralmente na Europa uma determinada situação, pode vir já
idéia bastante inexata desses previamente carregado de conceitos e ter
longínquos países. Pode-se atribuir um olhar e opinião direcionados e prontos
esse erro a certos viajantes, que não se sobre algo e; da mesma forma, o fato de
limitam a tratar somente do que viram
não ser um escritor de gabinete, ou seja, ter
e a escritores que fizeram descrições
elaboradas nos gabinetes e compostas vivenciado fatos não torna necessariamente
sobre tema escolhido, com as mais suas palavras verdade, estas são apenas a
interessantes citações de autores visão deste autor (viajante) que podem ou
conhecidos, e arranjados pela fantasia, não ter uma relação direta ou indireta com
sem nenhum conhecimento da matéria, a realidade, que em tese é a sua verdade, a
verdade para seus olhos e que devem ser
3 muito bem analisadas e criticadas por seus
O príncipe Maximilian Alexander Phillip zu
Wied-Neuwied (1782-1867) foi naturalista e leitores.
etnólogo. Esteve no Brasil entre 1815 e 1817. Sua
obra foi publicada em 1820.

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O que devemos levar em conta não é posteriormente vai criticar abertamente


somente se os relatos são ou não fontes com um leque de adjetivos:
fidedignas, mas que são documentos que, O negro, no Brasil, nunca é chamado
como os demais, devem ser tratados por tal, mas sim de ‘preto’, que é o
criticamente e que, em geral, acusam um nome da própria cor. A palavra negro é
alto grau de veracidade subjetiva, isto é, termo carinhoso, especialmente para
descrevem experiências individuais que crianças, sendo freqüente o pai chamar
estão ligadas à personalidade do escritor, o filho de ‘meu negro’. (1853, 72)
ao seu grau de escolarização, ao seu nível Seus modos para com os brancos
social e à vivência que teve neste seu novo sempre me pareceram decentes e
hábitat. respeitosos e nunca notei a mínima
descortesia. O mercado da praia dos
O objetivo maior da pesquisa em
mineiros, onde se vende grande
andamento que é relativizado neste artigo quantidade de gêneros alimentícios, é o
é, portanto, analisar até que ponto estas principal ponto de reunião da gente de
palavras destes viajantes se concretizaram cor. O negro é, em suma, um indivíduo
em realidade (verdades) e foram então de bom humor. (1853, 73)
assimiladas pelos receptores europeus
assim como pelos brasileiros à época. Mas para o leitor mais atento o texto de
Burmeister vai pouco a pouco se
Burmeister e o negro deslocando da eufemização para a
Feitas estas ressalvas preliminares, naturalização 6 do negro.
passemos então a examinar os textos em Embora convencido, por observação
questão, concentrando a analise na questão própria, de que é exata a afirmação da
do negro na visão dos autores. inferioridade física e mental do preto
em relação ao branco e que jamais
O negro é, a vista da grande maioria dos passará de sua posição servil na vida
viajantes alemães, retratado como um ser em comum com este, sempre lhe tive
inferior ao branco (brasileiro 4 ou europeu) grande simpatia, contemplando-o com
e a escravidão, como algo necessário ou interesse, como produto exótico da
até mesmo positivo para este “ser inferior” natureza (1853, 72)
que em sua nação de origem, na visão dos Nesta aproximação do negro com a
viajantes, estaria em condições piores. natureza, Burmeister vai construindo um
Burmeister, se olharmos superficialmente, discurso que justifica a posição inferior do
caracteriza o negro positivamente em negro em relação ao branco na escala
alguns trechos de sua obra. Em alguns social. E deixa clara sua visão da
momentos de seu texto ele nos apresenta inferioridade mental (Bildung) do negro
características positivas e um olhar em relação ao branco, como um ser que
também positivo sobre o negro, podendo nunca vai evoluir intelectualmente. A
enganar um leitor distraído, levando-o até a alternância constante entre a eufemização e
pensar numa espécie de simpatia do autor a naturalização, como representações
para com aquele. Nos trechos abaixo ideológicas, entra, então, em choque
selecionados, vemos o nosso viajante em quando Burmeister se refere à convivência
questão eufemizando 5 o que ele direta com o negro.
Amava-os, se assim posso dizer,
4
O termo branco brasileiro deve ser entendido teoricamente, à distância, enquanto não
como descendente de português ou outra nação
européia , mas aquele que mora no Brasil.
5 6
Eufemização, valorização positiva de instituições, Naturalização, criação social e histórica tratada
ações ou relações. Thompson (1995, 81-9) como acontecimento natural. Idem

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fui forçado a conviver, mas desde que Alguns são extremamente falsos e
tal aconteceu, este sentimento unicamente por meio de contínuos
transformou-se em repugnância. O castigos podem ser conduzidos. Em
preto tem algo de desagradável, que é breve, porém, acostumam-se de tal
menos de seus costumes que de sua forma às punições que perdem o receio
pessoa física. (1853, 73) ao chicote, recalcitrando nos seus erros
e vícios antigos por pura maldade.
Nota-se com clareza que do “amor” (1853, 74)
(amava-os), a simpatia do autor pelo negro,
passou rapidamente a repugnância e logo Burmeister deixa clara sua visão de que o
em seguida o autor nos justifica esta negro, como escravo, deve acima de tudo
mesma repugnância novamente com a ser obediente, e qualifica sua atitude
aproximação do negro à natureza, ou seja, quando não está sobre vigilância de seu
utilizando-se de uma justificativa “natural” ‘dono’ como algo próximo a uma atitude
para isso. Na situação aqui descrita trata-se infantil ou mesmo animalesca, algo que
apenas do cheiro do negro, algo natural a segue a força da natureza, e que para ser
qualquer ser humano, como o próprio autor obtida pode-se recorrer a qualquer tipo de
nos diz, e que no caso do negro é tratado recurso, inclusive, ou principalmente, o
como algo diferenciado. castigo físico, através de chicotadas.
A catinga provém das exalações e da ... se a obediência é devida unicamente
transpiração do corpo, sendo agravada ao medo, fará tudo que lhe passar na
ainda pela falta de asseio da maioria cabeça sempre que não for vigiado.
deles, mas, como não é esta a causa, Em regra, porém, consegue-se menos
nem limpeza, nem banhos adiantam. pela bondade ou mesmo pela
Assemelha-se ao cheiro de suor de camaradagem do que pela severidade
gente comum, porém mais penetrante e (1853, 74)
ascoroso. Há indivíduos que o tem em Em seguida, após falar sobre a obediência
grau mínimo; outros, entretanto
ou desobediência do negro (escravo),
exalam-no de modo a sentir-se a
grande distância (1853, 73) Burmeister refere-se aos momentos em que
os negros se encontram sozinhos e, da
Em outro momento quando Burmeister fala mesma forma, os aproxima da natureza
sobre as habilidades físicas dos negros comparando-os novamente aos macacos.
novamente os aproxima da natureza, ao
Quando entregues a si próprios, os
compará- los a macacos e, da mesma negros têm algo de ridículo, que faz
forma, os desqualifica como seres que pensar na sua inegável aproximação
possam ter traços intelectuais: da natureza do macaco. Falam consigo
Em suas obrigações, não se destacará mesmos, em voz alta enquanto
pelo zelo, mas será sempre pontual; passeiam ou carregam seus
precisa entretanto, ser vigia do para não fardos.(1853, 74)
se tornar preguiçoso. Adquire Se tomarmos como base o pensamento de
facilmente certa agilidade e
Lakoff e Johnson que afirmam que “na
habilidades manuais que fazem
lembrar o dom de imitação do macaco, cultura ocidental, as pessoas se vêem como
mas falta-lhe, por completo o gênio de tendo controle sobre os animais, e é a
invenção e a iniciativa própria.(1853, capacidade especificamente humana de
73) atividade racional que coloca os seres
humanos acima dos outros animais e lhes
E o autor segue na sua qualificação, agora propicia esse controle” (2002, 65),
aberta, sobre os negros e o modo como eles podemos entender onde Burmeister quer
devem ser tratados: colocar o negro no quadro social, ou seja,

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como um ser que deve, por sua claramente a questão da modalidade neste
irracionalidade e incapacidade, ser autor:
controlado pelo branco. Essa tentativa Obwohl ich nach meiner ganzen
constante do autor de aproximar o negro, Erfahrungen mich für die Richtigkeit der
por suas características físicas, seja por sua Ansicht entscheiden muss, dass der
aparência ou mesmo pelo seu cheiro (de schwarze Mensch körperlich wie geistig
suor) ao macaco (natureza - entendida unter dem Weissen steht. (1853, 88)
como algo que o homem controla) leva- nos Neste parágrafo nota-se, primeiramente, a
a concluir que, para ele, o negro é utilização de um verbo modal. O verbo em
definitivamente um ser inferior ao branco questão aqui é o müssen, utilizado na
(europeu) e deve estar não só sob o julgo primeira pessoa do singular, muss,
deste, mas também ser tratado de maneira significando a voz do autor. Este verbo é
diferenciada, ou seja, como ser inferior que comumente traduzido por “ter que” e
é. enfatiza a idéia que algo que foi dito só
Inegável também é, na verdade, notar o pode ser verdade.
quanto Burmeister, por ser um cientista Quando recorremos a um dicionário
renomado, através de seus relatos, monolíngue 7 para buscar o significado
conseguiu que alguns de seus conceitos, no deste verbo vemos as seguintes definições:
caso sobre o negro, fossem assimilados, (1) expressa algo que necessariamente é,
após interagirem com outros de sua época ou (2) expressa algo em que o falante
e que assim, permanecessem na ideologia necessariamente acredita. (2007, 302)
difundida não somente na Alemanha, ou na Outro verbo importante para a análise
Europa, mas também aqui, no Brasil.
presente neste parágrafo é o verbo sich
Antes de concluir, contudo, é preciso se entscheiden (decidir-se por) e, no caso, o
ater ainda à questão do modo de autor decidiu-se pela certeza (Richtigkeit)
construção do texto (estilo) para reafirmar de que o negro é (tem que ser/ muss)
o que foi dito acima. inferior ao branco, não só fisicamente
Segundo Fairclough (2003, 168) “a (körperlich), mas também mentalmente
(geistig).
questão da modalidade pode ser vista como
a questão de quanto às pessoas se Em seguida percebe-se a utilização de
comprometem quando fazem afirmações, palavras que deixam claro que aquela é a
perguntas, demandas ou ofertas.” Essa visão do autor: nach meiner Erfahrungen
questão de estilo se torna complexa para (segundo minha própria observação). Desta
ser analisada quando se trata de um texto maneira ao delimitar que a afirmação é
traduzido, podendo, assim, gerar sua, por ser um homem da razão, um
imperfeições e falsas conclusões, já que em cientista renomado, e utilizar construções
algumas passagens há uma mudança expressivas, ricas de sentido e significado,
significativa no que se refere à modalidade aquilo que afirma (a inferioridade do negro
do texto. Não entro aqui no mérito da em relação ao branco) passa, então, a ser
tradução, ressalto apenas que para esta visto como verdade.
análise será utilizado, então, o texto no
Ebel e o negro
original, ou seja, em alemão.
Ernst Ebel, de outra forma, no que diz
Para, de certa forma, não prolongar demais
respeito à sua descrição do negro é, desde
a análise utilizarei apenas um pequeno o princípio, categórico em afirmar que este
parágrafo que, contudo, exemplifica
7
Ver bibliografia.

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é inferior ao branco e, da mesma forma que O tratamento aqui dispensado aos


Burmeister, o aproxima da natureza. É, escravos é, de modo geral, bom, seus
portanto, importante frisar aqui a senhores sendo severamente proibidos
afirmação de Lakoff e Johnson (2002) de de puni-los com mais de quarenta
chibatadas e, nos casos de crimes
que o homem acreditava que controlava a
graves, devem ser entregues às
natureza e, assim sendo, ele poderia fazer o autoridades. (1828, 44)
que bem entendesse com ela para obter
benefícios. ...vê-los submetidos em sua própria
terra a um arbítrio revoltante e ilegal, a
Logo que chega ao Rio de Janeiro Ebel se ponto de, em comparação, parecer
depara com um enorme número de negros. humano o duro tratamento que sofrem
Sua primeira impressão já qualifica sua às mãos dos europeus enquanto assim
visão do “exótico” e igualmente a for, será contribuir para o bem dos
Burmeister se refere ao cheiro do negro mesmos afastá -los de sua pátria. Já
como algo desagradável: datam aqui de largo tempo, as leis
adotadas em seu favor, graças às quais
Estranha é a sensação do desembarque. os escravos são até certo ponto
Ao invés de brancos só vi negros protegidos do arbítrio de seus
seminus a fazerem um barulho infernal senhores.(1828, 49)
e exalarem um cheiro altamente
ofensivo ao olfato. (1828, 12) Na visão deste viajante, a escravidão não é
entendida ou considerada como um castigo
Porém, o que mais se destaca no relato de ou um ato de privação de liberdade, já que
Ernst Ebel, e que, por um lado, também o negro é aproximado ou mesmo visto
justifica a sua escolha para esta análise, é o como um ser da natureza, qual um macaco,
fato dele abordar, mesmo que não se e que poderia e deveria ser, então, assim
aprofundando no tema, a questão como qualquer elemento da natureza,
econômica da escravidão. Dentre os controlado e subjugado pelo homem
viajantes de língua alemã estudados até (branco) superior. Desta forma é possível
aqui na pesquisa em andamento, apenas concluir porque Ernst Ebel em momento
Ernst Ebel e Ina Binzer 8 abordam esta algum questiona a ausência de liberdade
questão até certo ponto objetivamente. como algo fundamental no que diz respeito
Porém Ina Binzer trata a questão de à escravidão:
maneira mais clara, talvez por ter estado no
Brasil numa outra conjuntura, já após a Há dias fundeou um (navio negreiro)
promulgação de leis relativas à escravidão com 250 negros, na maioria crianças
de dez a quatorze anos que, acocorados
como a Lei do Ventre Livre (1871), e as
nesses galpões em filas de três, pelo
vésperas da abolição (1888). chão assemelham-se mais a macacos,
Ernst Ebel, que esteve no Brasil em 1824, dando mostra, por sinal de bom humor
defende a escravidão, que para ele deveria e satisfação, embora repelentes no
ser mais branda no trato com o escravo, aspecto e depauperados. (1828, 42)
através de dois argumentos. Conquanto, não vá contestar que entre
eles possa haver gênios e os tem
Primeiramente para Ebel a situação do
havido, qual um Toussaint
negro (escravo) no Brasil era infinitamente (Louverture), um Christoph (rei do
melhor do que se ele estivesse em seu país Haiti) etc. nenhum observador de
de origem sob o julgo de um governo espírito aberto poderá negar que esta
arbitrário: raça se encontra como que na meninice
e se caracteriza por uma típica apatia
8
Ina von Binzer esteve no Brasil entre os anos de
1881 e 1882.

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que a inabilita para qualquer alto Em vez de apoiar os desígnios secretos


sentimento moral... (1828, 48) 9 da Inglaterra que, na abolição do
tráfico negreiro, vê o próprio
Remetendo esta última afirmação de Ebel benefício, ao passo que tolera os
ao conceito de Bildung (atividade vergonhosos seqüestros humanos pelos
espontânea do indivíduo ocorrendo ao barbarescos, deveriam as potências
longo do processo de auto- unir-se...(1828, 48)
aperfeiçoamento) é possível perceber que, É certo que o tráfico não terá como
para o autor, o negro não está ainda apto resultado paradeiro imediato, somente
para este desenvolvimento e necessita os escravos sairão um tanto mais caros.
também de muito tempo para esta Com isso não serão servidos os
‘evolução’. E Ebel conclui seu raciocínio ingleses que, já os possuindo em
desta forma: excesso nas suas colônias, visam, com
...nunca pensam no dia seguinte, sendo a total repressão do tráfico, dificultar
incapazes de qualquer vocação aos demais países americanos a
duradoura; na realidade só querem prosperidade de seus estabelecimentos;
comer, dormir e amar. Isto se observa as belas palavras ‘direitos humanos’
sobretudo entre os negros nascidos na são apenas pretexto para seu benefício.
África, mesmo quando chegados (1828, 50)
novos. Os nascidos no país já são mais Por um lado a primeira lei inglesa em
aculturáveis, mas quanto aos relação a escravidão, chamada Lei Bill
primeiros, pouco adianta tratá-los bem, Aberdeen, de 1845, que concedia à
como já disse.(1828, 48)
Marinha Real Britânica poderes de
Para Ebel, como para (quase) todos os apreensão de qualquer navio envolvido no
viajantes europeus, se desenvolver tráfico negreiro em qualquer parte do
significa agir de maneira semelhante aos mundo, foi promulgada somente vinte anos
padrões europeus, ou seja, se ‘europeizar’. após a vinda de Ebel ao Brasil. Por outro,
Desta forma, o negro, que só quer ‘comer, sociedades abolicionistas na Europa já
dormir e amar’, embora seja a mola existiam desde o fim do século XVII,
propulsora do desenvolvimento econômico como a Sociedade abolicionista na
do país, não está pronto para esta Inglaterra (1783) e a Sociedade dos amigos
transformação, para este desenvolvimento nos negros na França (1788). Está claro
‘intelectual’. também que, ao citar Toussaint
L’Ouverture (líder da revolta negra no
O segundo argumento referente à defesa da
Haiti), Ebel tinha em mente o perigo de
escravidão por Ebel é a questão
uma revolta nas proporções ocorridas no
econômica. Para ele o desenvolvimento do
Haiti e defendia então um forte
Brasil está diretamente ligado à escravidão,
abrandamento da escravidão no Brasil.
sem esta o país correria o risco de
Estes fatos, se acrescidos aqui também que
desandar. Segundo o autor, a economia
obras referentes ao fim da escravidão já
nacional dependeria diretamente do
haviam sido publicadas no século anterior,
escravo.
como Riqueza das nações de Adam Smith
(1776), História filosófica e política dos
9 estabelecimentos e do comércio dos
Toussaint Louverture, nascido na então colônia
francesa de Santo Domingo (atual Haiti) entre 1791 europeus nas Índias de Thomas Raynal
e 1794, tornou-se um símbolo da liberdade dos (1770) e também O Espírito das Leis de
negros nas Américas ao se tornar da revolta dos Montesquieu dentre outras, caracterizam
negros que culminou com a independência de sua uma visão limitada de Ebel como um
terra natal. (Henri Christopher, rei do Haiti entre
1804 e 1820).

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Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar – http://www.urutagua.uem.br/015/15santos.pdf
Nº 15 – abr./mai./jun./jul. 2008 – Quadrimestral – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519-6178

representante do século das luzes Referências


(Iluminismo). BURMEISTER, Carl H. C. Viajem ao Brasil pelas
províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais
Relevante se destacar aqui que Ernst Ebel Editora Itatiaia , SP, 1980.
diferentemente de Burmeister, que esteve
no Brasil como pesquisador e retornou ––––––. Reise nach Brasilien durch die Provinzen
von Rio de Janeiro und Minas Gerais. Verlag von
como várias obras prontas para publicar, Georg Reimer, Berlin, 1853
veio ao Brasil como ‘observador’ e não
CASSIRER, Ernst. A filosofia do Iluminismo. 3a.
tinha pretensão de publicar seus escritos. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.
Entretanto ao publicar e, principalmente,
ao tratar da questão econômica da EBEL, Ernst. O Rio de Janeiro e seus arredores em
1824 ; trad. e notas de Joaquim de Sousa Leão
escravidão, que é, na verdade, o seu Filho. São Paulo, Ed. Nacional, 1972.
elemento chave, torna seu texto de uma
FAIRCLOUGH, Norman. El análisis crítico del
importância particular para o entendimento
discurso como método para la investigación en
desta questão, o que, para muitos, passou ciencias sociales. In: WODAK, Ruth; MEYER,
desapercebido, ou talvez tenha sido até Michel (eds.). Métodos de análisis crítico del
mesmo conscientemente omitido. E, da discurso. Barcelona: Gedisa, 2003, p. 179-203.
mesma forma, ao se posicionar de maneira LANGENSCHEIDT, Taschenwörterbuch Deutsch
tolerante perante a escravidão afirmando a als Fremdsprache, Langenscheidt Verlag, Berlin
necessidade desta como algo positivo para 2007
o ser inferior (ao branco), assim como o LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Metáforas da vida
fez Burmeister, demonstra a fragilidade do cotidiana. Campinas: Mercado de Letras. São
discurso e da visão iluminista alemã. Paulo: Educ, 2002

Conclusão MAAS, Wilma Patrícia. O Cânone mínino: o


Bildungsroman na história da literatura. Editora
Os autores e suas obras utilizados nesta UNESP, 2000
análise assim como outros viajantes e suas THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna.
obras são parte da história nacional que Petrópolis: Vozes, 1995
permanece para muitos como uma W IED -NEUWIED, M. de. Viagem ao Brasil nos anos
realidade distante e dialeticamente de 1815 e 1817. Trad. Sussekind de Mendonça,
presente. Distante, pois grande parte destes Edgar e Poppede Figueiredo, Flávio; notas:
textos de viajantes se encontra apenas na Olivério Pinto. São Paulo: Editora Nacional, 1940.
língua materna dos mesmos e são também WODAK, Ruth. De qué trata el análisis crítico del
de difícil localização e acesso, e, ao mesmo discurso. Resumen de su historia, sus conceptos
tempo, presente, pois o conteúdo e fundamentales y sus desarrollos. In: –––; MEYER,
Michel (orgs.). Métodos de Análisis Crítico del
conceitos dos mesmos (a ideologia) foram Discurso. Barcelona: Gedisa, 2003, p. 17-34.
de alguma forma assimilados e são ainda
hoje reproduzidos por parte da população
européia e também brasileira.
Contudo diversas áreas do conhecimento
— história, antropologia, lingüística, entre
outras — começaram recentemente a
(re)tomar estas obras como fonte de
informações fundamentais para o melhor
conhecimento da nossa história, da origem
de nossa população e de ideologias que
permanecem reinantes até hoje.

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