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O MUNDO À DISTÂNCIA DE UM CLIQUE

PARA ONDE QUER VIAJAR?

ENTREVISTA

TIAGO SALAZAR, O ANDARILHO


MARCADO PELAS PALAVRAS
AGOSTINHO MENDES — 5 DE AGOSTO DE 2011 PARTILHAR:     

Tiago Salazar e os livros

Tiago Salazar e os livros, uma das suas paixões.

Tiago Salazar, 39 anos, escritor, jornalista, viajante e andarilho pro ssional. Escreve desde que se conhece, fez
parte da equipa fundadora da revista “Blue Travel”, liderou a rubrica “Escapadas” do jornal Correio da Manhã e
colabora com diversos títulos da imprensa portuguesa. Acaba de publicar o seu quarto livro de viagens –
“Endereço desconhecido” –, faz televisão, workshops de escrita de viagem e lidera viagens literárias a Istambul
e Praga. Tiago não é um escritor e viajante qualquer: há uma aura e misticidade que nos contagia através das
suas estórias e do amor que sente pelas viagens. Vamos então conhecê-lo um pouco melhor.

P São aproximadamente 20 anos de viagens, caminhos, encontros e desencontros. Como é que isto
tudo começou? Como é que surgiram as viagens na tua vida?
R Eu acho que comecei a viajar no quarto da minha avó. É uma coisa um bocado pessoana – viajar no quarto
-, mas será porventura a génese de tudo. Foi no quarto que li os primeiros livros de Júlio Verne – talvez um dos
maiores escritores de viagens –, do Mark Twain com as “Aventuras de Huckleberry Finn” ou do Robert Ballantyne
com as “As aventuras de um rapaz nas orestas do amazonas”. Foi também naquele espaço que comecei a
desenhar bandeiras pelas paredes e depois um mapa-mundo; com o decorrer do tempo acho que um
verdadeiro atlas que perdurou ao longo dos anos (risos). Foi o jornalismo que me pro ssionalizou nas viagens,
mas foram os livros e as narrativas de viagem que me abriram o mundo como eu gosto de o ver.

P E qual foi a primeira viagem física?


R A minha primeira viagem foi feita aos 18 anos e graças ao Partido Comunista Português, pois tive a
oportunidade de acompanhar uma comitiva que viajou até à União Soviética de então. Foi uma viagem
interessantíssima, não só por estar na companhia de um grupo de velhos bolcheviques, mas sobretudo pelo
momento em que decorreu: estávamos no ano de 1991 e em plena Perestroika. Mas o melhor ainda estava
para vir, pois a tentativa de golpe de estado contra o Gorbatchov, também conhecido pelo “golpe de Agosto”,
ocorreu precisamente durante a nossa visita. Foi um momento extraordinário e na altura, com alguma
imaginação à mistura, pensei que iria assistir a um momento histórico como John Reed tinha assistido durante
revolução de Outubro de 1917.

P Mas este não foi também um momento histórico?


R Momento histórico foi, agora a pujança da revolução de Outubro é que não é minimamente comparável.
Aquilo foi emocionante e não posso esconder que a presença de blindados nas ruas povoaram o meu
imaginário de repórter, mas foi mais a circunstância acidental de estar no sítio e na hora certa. Embora tenha
saído para a rua com o objectivo de fazer qualquer coisa, apenas escrevi uma crónica “mal amanhada” e à qual
não chamo de jornalismo de viagem.

P Numa única frase consegues de nir o que é viajar?


R “Viajar é Ver”, como dizia a escritora So a de Mello Breyner. Ver no sentido não só de demorarmos
su cientemente o olhar numa coisa mas, também até onde nos for possível, sermos nós parte dessa coisa.
Sem qualquer tipo de presunção, eu compreendo muito bem o sentido da frase, sobretudo pelo sítio onde
ocorreu: uma esplanada na cidade de Veneza. E digo isto porque, na minha mania de ócio e contemplação, as
esplanadas são para mim dos sítios preferidos para escrever e ver.

P Depois de tantas viagens, pessoas e experiências, o que é que ainda te consegue surpreender?
R As pessoas! Eu acho que as pessoas são sempre surpreendentes. São a massa mutante que no fundo
justi ca que um lugar exista, ou não, prolongue-se, ou não. É nas pessoas que está o apogeu e a decadência
dos povos ou das civilizações. Os monumentos podem ser sujeitos a restauro, já as pessoas não. As gentes
passam por um processo evolutivo que por vezes acaba por ntar os teus próprios preconceitos.

P Sendo então as pessoas um elemento fundamental das viagens, sem elas não viajaríamos?
R Claro que viajaríamos! Num deserto, por exemplo, podemos estar sós, sem pessoas e numa atitude
introspectiva. Já subindo uma montanha, às tantas são os teus passos que contam… Se queres alcançar o cume
do Evereste, não há guia de alta montanha que te leve até lá: estamos a falar de zonas de morte onde muitas
vezes só dependes de ti.

P Lembras-te com frequência das pessoas que encontraste, das estórias que te contaram e das
experiências de vida que partilharam? Dás contigo a relembrar-te destas coisas?
R Dou e é curioso que na minha escrita há uma espécie de revisitação assídua do que há dentro desses
“indígenas”. Não no sentido satirizante da questão, como é habitual no Pulido Valente, mas com um profundo
respeito por todas essas gentes que me ajudaram nas minhas viagens. Sobretudo aquilo que me interessa
relembrar é a memória acidental e não a provocada; aquela que nos leva à viagem interior e nos provoca
aquela sacudidela.

P Mas há alguma pessoa ou estória de que te lembres mais frequentemente?


R Eu não sou um homem de preconceitos e suspeito sempre das grandes verdades ou ditados. Já encontrei
pessoas que não passam de um bando de “bunch of buskers” – um bando de pseudo – hippies – e que se estão
nas tintas para a sociedade. Mas eis quando encontrei um rastafári a viver numa casa feita de uma árvore, no
meio da oresta Hondurenha. Dentro daquela casa, quase de druida, estava um lósofo como eu imagino o
Agostinho da Silva. Num ambiente enigmático, fantasioso e a colar o inusitado estilo Fellini, aquele homem foi
capaz de me presentear com uma conversa sobre loso a, sociologia e politica… discernida, lúcida e de uma
consistência inquietante. É uma estória difícil de esquecer!

P São estas experiências e estórias que te fazem acreditar que vale a pena, sempre… viajar?
R O “sempre” é um dos verbos que nunca se esgota. Enquanto houver máquina do tempo… enquanto houver
cosmos… não há como pará-la. Podemos andar mais, ou menos, mas em algum momento vamos chegar à
conclusão que tudo são etapas do mesmo caminho. Não importa os quilómetros percorridos, porque o que
interessa é o que nós fazemos do que nos acontece nas viagens. Eu não me importo nada em regressar quatro
ou cinco vezes ao mesmo lugar, até passar pela mesma experiência, se isso foi algo que me apaixonou.

P Há por aí um conjunto de pseudo-viajantes que vivem obcecados com a ideia de coleccionar países.
És crítico desta perseguição meio tresloucada?
R Eu não me revejo nesse tipo de viajante. Conheci o José Megre, que esteve em todos os países à excepção do
Iraque, mas não concordo com a ideia que defendia e que tem a ver com necessidade e importância do peso
dos quilómetros. Para o Megre, ter lastro su ciente enquanto viajante, signi cava “fazer quilómetros”. Hoje,
reconheço que posso ter de os fazer pro ssionalmente, mas tudo o que for demasiado fast parece-me redutor
e perdido. Eu gosto da sensação de perder tempo para o poder ganhar.

P Continuas a viajar de mochila às costas numa atitude backpacker?


R Olha que aí eu sou crítico. Eu não acho que um backpacker seja de longe o viajante realista da viagem como
ela é. O mochileiro é o indivíduo que não tem grandes posses nanceiras e que viaja de mochila às costas para
poupar dinheiro. Também há os de atitude, mas esses serão uma minoria. Eu não viajo de mochila e não sou
nada contra o conforto, aliás, devo até reconhecer que fui muito pouco mochileiro.

P Habitualmente preparas as tuas viagens de forma a estabeleceres um plano prévio ou abraças a


aventura e deixas que o instinto faça o resto?
R Eu gostava que o instinto fosse o o condutor das minhas viagens, mas infelizmente nem sempre pode ser
assim. Quando se trabalha com uma logística muito apertada, como é o caso da televisão, é de todo impossível
darmo-nos a esses luxos. Na presença de “two roads diverging” não posso escolher no local e momento qual o
caminho a seguir ou o que melhor me pode fazer gozar a vida. Contudo, e quando há possibilidade para tal,
gosto de tornar presente a frase “não se encontra o que se procura mas o que se encontra.”

P Consegues isolar o episódio ou situação que positivamente mais te marcou em todas as tuas
viagens?
R O episódio aconteceu durante a viagem do transiberiano e é uma estória que poderia estar num livro da
Lonely Planet, chamado “The kindness of stangers”, com prefácio do Delai Lama e que tem por tema central a
generosidade. Na dita viagem, por incúria e falta de pro ssionalismo do guia, aconteceu perder o comboio em
pleno coração da Sibéria. Foi um momento terrível, onde de repente cais em ti e apercebes-te que estás
completamente “lixado”. Sem dinheiro, cartões… absolutamente nada, vês-te sem maneira de continuar a
viagem e literalmente a precisar dos outros. Depois, é claro que aparecem os taxistas dispostos a ganhar um
ano de trabalho com uns obscenos 1500 dólares, que foi o que nos chegaram a pedir, para interceptar o
comboio. Foi um engano de uma hora que me custou uns anos de vida! Mas eis que no meio daquela usura,
gula e ganância, há um “gajo” que com alguma violência me agarra num braço e me en a literalmente num
velho Lada, ronceiro e a cheirar a gás. E fomos… cinco horas de estepe a custo zero, pelos caminhos mais
improváveis e inesperados. Aquilo foi a viagem mais inacreditável da minha vida! A minha mulher cantava,
riamos sem saber porquê, en m, aquilo era outra vez Fellini! E o que é isto? Generosidade em estado puro!

P Terá sido este momento meio agridoce também o mais negativo das tuas viagens?
R Verdadeiramente negativo nesta viagem foi a falta de pro ssionalismo do guia que me convidou a mim e à
minha mulher a fazer aquela viagem. Ainda por cima tentou dar a volta ao texto e tirar dividendos de um
convite, que fruto da sua incúria e incompetência, nos provocou um grande dissabor momentâneo, mas
também um momento de apologia. Efectivamente, aquele indigente oportunista e merceeiro das viagens,
conseguiu criar-me no mesmo dia as emoções mais dispares e de sabor agridoce. Do lado trágico da história
humana, felizmente nunca assisti a momentos que lhe estivessem associados. Já estive em países que foram
alvo de tsunamis ou terramotos, mas não fui protagonista dos episódios.

P Há alguma viagem que nunca zeste e que seguramente nunca farás?


R Para grande pena minha, acho que nunca irei visitar a biblioteca do Vaticano. É das viagens que temo que
nunca vá poder fazer, mas que mais gostaria de fazer. Nem que fosse para perceber até que ponto a história
da igreja é mentirosa.

Tiago Salazar no Studio Astol

Workshop no Studio Astol

P Mas achas que é mentirosa?


R Acho que é uma história sinistra e sinuosa por dogma. Tanto se encobriu e tanto se encapotou, que se
criaram imensos mitos e especulações. O que é de facto verdade? Eu acredito no Cristo como um iniciado e um
personagem maior da história da humanidade, um viajante no sentido do peregrino e que também passou por
uma profunda viagem interior.

P E qual é a viagem que não poderás deixar de fazer um dia?


R A da Patagónia, que espero fazer já no próximo ano.

P Achas que viajar pode ser ou tornar-se um vício?


R O vício pelo Golf, do qual fui praticante e instrutor, é uma boa resposta. Embora seja um desporto de difícil
execução, são raras as pessoas que pegam num taco e não gostam da sensação e efeito que aquilo tem sobre
elas. A prática acaba por tornar-se viciante e exigir uma entrega equivalente ao que exige uma arte. Se
traçarmos um paralelo entre o Golf e as viagens, porque viajar também é uma arte, apercebes-te que está tudo
lá: a entrega, a libertação do preconceito, o acto amoroso e o vicio pela relação corpo a corpo entre as pessoas.

P Valorizas as viagens acompanhado, seja pela família ou amigos, ou achas que há momentos em que
as viagens devem ser feitas só?
R Curiosamente acabei de regressar de uma viagem à Normandia onde fui fazer um tratamento a um ouvido.
Fui fazer uma coisa que simbolicamente tinha que fazer sozinho. Por norma, eu não viajo com os meus amigos
mas às vezes calha trabalhar pro ssionalmente com fotógrafos que são também amigos. Já com a família, e
não sendo verdade a maior parte das vezes, imagino-me a viajar longamente, perpetuamente, com a minha
mulher e os meus lhos. No fundo tudo são circunstâncias intrínsecas a cada situação e digo isto sem
melancolias ou qualquer espécie de fatalismo. Cada situação é uma situação e o mundo não é nada justo:
podemos é ir com olhos de quem gosta do lado bonito das coisas e da vida.

P Mas achas que o mundo é assim tão injusto?


R O mundo tem muita injustiça e quase tem que ter esse contra ponto. Haverá sempre o preto e o branco; o
Judas e o Brutus. As coisas não se conseguem anular umas às outras e a história não é para car empedernida,
quieta ou sossegada, no seu fausto perpétuo.

P Revisitar um lugar já te trouxe alguma vez um amargo de boca?


R Em parte acho que a Rússia. Após quase duas décadas, regressei ao que outrora foi a União Soviética e
encontrei um país deformado pelos piores vícios. Moscovo, por exemplo, tornou-se mais papista que o “Tio
Sam”, num sentido oligarca, prepotente e viscoso da questão. No entanto, é das cidades mais belas do
mundo… Monumental como quase nenhuma outra.

P Tens quatro livros editados, uma extensa experiência como jornalista e um caminho sempre ligado
às letras. A escrita apareceu naturalmente ou como consequência das viagens?
R A escrita antes de o ser já o era. Eu aprendi a ler e escrever antes de ir para a escola. A relação com o texto
e os livros talvez se possa confundir com a minha própria existência, pois esteve sempre presente. Eu não me
lembro muito bem das circunstâncias, mas parece que aos oito anos até escrevi um romance.

P Um romance na verdadeira acepção da palavra?


R Sim! Não sei onde é que o texto foi parar ou quantas páginas teria, mas a minha avó fala-me muitas vezes
disso. Um dia acho que vou voltar ao estilo, mas quando o zer tem que ser bem feito. Eu acho que o mercado
está cheio de romances desonestos.

P Mas é uma ambição que persegues?


R É uma expressão que me interessa. Há estórias maravilhosas nas minhas viagens que poderiam dar
excelentes romances. Acho que até já houve uma que deu azo a um romance escrito por uma personagem
minha conhecida (risos).

P A escrita é uma coisa que te apaixona incessantemente?


R Eu ponho a escrita, o amor e o Yoga em planos de igualdade na minha vida: como se fossem parte do
mesmo mantra. No dia em que as palavras me soam como mantras, acho que consegui escrever alguma coisa
de interessante. A escrita é respiração, é o cio na medida em que há lavoura… há labuta…

P É como se fosse o ar que tens de respirar senão sucumbes?


R É a nossa forma de expressão e comunicação. Para quê fazer o caminho inverso? Escrever é a melhor forma
de falar comigo próprio e de “limpar a cabeça”. Escrita é respiração… faz bem à pele e à alma… é um banho de
vida! É maravilhoso encontrarmos na escrita pontes de entendimento e vermos que os outros nos lêem com
prazer.

P Há uns anos, um fotógrafo português, que infelizmente já não está entre nós – Gérard Castello-Lopes
-, disse estar em total desacordo com a frase: uma imagem vale por mais de 1000 palavras. Achas que uma
história de viagem pode valer por mais de 1000 imagens?
R Eu quero-te dizer que sim. Eu amo a fotogra a, respeito-a e adoraria saber fotografar. Mas isso é quase
como dizer que o Saramago é melhor que o Lobo Antunes; como ter que escolher entre a voz e a guitarra no
fado. Há casamentos perfeitos e no caso da escrita de viagem, acho que a fotogra a e o texto são um desses
casos. Muitas estórias cariam seguramente empobrecidas sem as fotogra as que as acompanham.

P Acabas de publicar o teu quarto livro – “Endereço desconhecido”. É um livro muito diferente dos
anteriores? O que é que os leitores lá podem encontrar?
R Vão encontrar uma economia de palavras. O livro nasceu no programa de televisão homónimo e é baseado
em diários de viagem, guiões e investigações que fui fazendo. Há uma componente histórica forte e, talvez pela
primeira vez, a disposição do texto e diálogo está mais próximo da narrativa. O Tiago está lá na mesma, mas o
texto é mais visual… mais cinematográ co… mais veloz.

P Este foi o teu primeiro programa de televisão. Como é que correu a experiência?
R Foram todas as emoções que haja no cardápio ligadas à adrenalina. Comecei por só ter três dias disponíveis
para gravar o primeiro programa da minha vida, em lugar dos sete previstos – o vulcão islandês quis dar o seu
contributo para e me obrigar a fazer quatro escalas antes de chegar a Malta. Depois, logo no primeiro take, o
realizador dá voz de acção e eu co a olhar para a câmara a pensar – “tirem-me deste lme” (risos). Estamos a
falar de um timing, de uma exactidão, de um rigor de palavras, que na escrita vou conseguido naturalmente,
mas que ali contribuíram para um bloqueio petri cante.

P Tu que habitualmente estás habituado a “falar para folhas de papel”, foi muito diferente falar para
uma câmara de televisão?
R Quando escrevemos ou falamos para uma entrevista, mesmo tendo um gravador pelo meio, as coisas são
naturais e espontâneas. Já em televisão, e fazendo uma ponte com a musica, é necessário saber e memorizar a
pauta, ter noção das notas, sentir e sobretudo conseguir interpretar. É isto que conta na hora de falar para
uma câmara de televisão. Mais do que a massa de texto construída para aquela fala, o importante é como
soam as coisas… É preciso soar a verdade!

P Vai haver uma segunda série do programa, desta vez toda gravada no Brasil. Queres falar-nos um
pouco sobre isso?
R Vamos fazer a série toda naquele país, porque o Brasil é um continente; porque há uma a nidade mesmo
com o “desacordo ortográ co”; porque é o país mais visitado pelos portugueses; porque é o país das simpatias,
dos amores, dos afectos ou que toda a gente acha que conhece. Eu vou tentar provar, até a mim próprio, que
não conhecemos patavina. Durante pouco mais de três meses vamos passar por nove estados e em muitos
casos as pessoas que me lêem, vão ver que aquelas personagens ou objectos existem mesmo. O embaixador
de Fernando Noronha, que tem um calhau chamado “o tesão” existe… o calhau que está no quintal existe…
(risos). Nesse episódio faço questão de lmar o calhau e esfrega-lo em louvor à tesão deste mundo (risos).
P Os locais já estão todos de nidos?
R Estão e não há como escapar a isso. Antes de sair de Portugal a logística tem que estar toda preparada. Vou
começar no Rio Grande do Sul e acabar no Rio de Janeiro, mas em ecrã o programa vai acabar na Amazónia.
Seria impossível fazer coincidir o calendário de exibição com o das gravações, porque as condições climatéricas
seriam adversas e impossíveis. Vamos passar pelo Pantanal, Belém, Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro,
Pernambuco, Goiás, Mato Grosso, Amazónia… Vai ser maravilhoso e espero acabar a série a jogar à bola com o
Chico Buarque.

P E após a conclusão deste projecto, há já outros na calha?


R Tenho um livro para lançar ainda este ano… Ainda não sei quando, pois só regresso em Dezembro da
segunda fase de gravações. Vamos ver… Talvez antes do Natal…

P Mas já está preparado?


R Está escrito e os desenhos são do maravilhoso cartoonista Vasco de Castro. O livro chama-se “O Baú
Contador de Histórias” e é uma primeira incursão na cção. Embora seja um livro onde já ando a trabalhar há
perto de uma década, não é nada de muito volumoso.

P Que conselho podes dar às pessoas que se sentem amedrontadas, com um espírito onde abunda a
descon ança e que se inquietam com o que podem encontrar durante uma viagem?
R Eu diria que é preciso ir, nem que seja só pela curiosidade de vermos o que há por esse mundo fora. Depois
há o património e as relíquias portuguesas das quais falamos sempre com tanta nostalgia do que já fomos: o
legado que deixamos em quase todo o mundo é qualquer coisa de extraordinário e maravilhoso. O português
é um viajante natural… é uma questão geográ ca… é empurrado para isso.

P Estará isso marcado no nosso genoma?


R Acho que sim! É uma condição e uma inevitabilidade. Isto sempre foi a sina do português, seja por
necessidade ou aventura. Sempre houve aqui uma certa dose de loucura, ousadia e pioneirismo no desbravar
de novos mundos.

PALAVRAS-CHAVE:
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