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Cartografia da cena contemporânea: matrizes teóricas e interculturalidade

C artografia da cena contemporânea:


matrizes teóricas e interculturalidade

R enato Cohen

“Se partires um dia ao Guararavacã do tecimentos, pela atuação performática e pela vei-
Guaicuí, culação de multimídia e de novas tecnologias.
faz votos de que o caminho seja longo, Essa nova teatralidade insemina-se num topos
repleto de aventuras, repleto de saber... transcultural que presentifica os dialogismos
nem Minotauros nem Medusas nem a entre signos regionais e universais, entre um su-
escuridão te intimidem;.. posto “centro” primário de cultura e suas peri-
Tem todo o tempo Guararavacã do Guaicuí ferias, entre culturas consagradas e suas bordas.
na mente. As recentes manifestações da cena, das li-
Faz votos que o Caminho seja longo. Estás teraturas e da dança-teatro brasileira, criam o
predestinado a ali chegar. contorno de expressões e eventos que estão, so-
Mas não apresses a viagem nunca”. bretudo, alinhados à uma cultura e zeitgeist con-
(Hibridismo entre o original Ítaca, de temporâneos1 demarcados por uma re-territo-
Konstantinos Kavafis e a obra de Guima- rialização, pelos deslocamentos e pela recontex-
rães Rosa.)
tualização dos conteúdos, com predominância
de cartografias que privilegiem a espacialização
A cena cultural contemporânea: antes que a temporalidade.
um topos transcultural Situando-se numa topografia predomi-

P
nantemente urbana, não cronotópica, constituí-
ode-se falar no estatuto de um teatro con- da por territórios (sites) universais, a cena con-
temporâneo brasileiro que se consolida nos temporânea alude a imagens, fluxos, textos e
anos 80 e 90, formalizando uma cena de- ícones que configuram um topos pós-industrial
marcada por novas escrituras que incor- (pós-moderno) que pode ser situado em Nova
poram a dramaturgia de processo, as hibri- York, São Paulo, Berlim ou em qualquer outra
dizações entre textualidades, imagens e acon- pólis moderna. Um espaço, ao mesmo tempo

Renato Cohen é artista e pesquisador, com investigação nas artes da performance e suas mediações com
tecnologia. Como pesquisador, participa como professor do Programa de Comunicação e Semiótica da
PUC-SP onde coordena o Núcleo de Estudos da Performance. É autor de Performance como linguagem
(1987) e Work in Progress na cena contemporânea (Ed. Perspectiva, 1998).
1 Espírito de época. Utilizo o termo romântico para referenciar o contemporâneo (Cohen, 1998, p. xxiii).

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real e ficcional, que transita tanto pelo topos do guns. Uma cena assentada nas dramaturgias,
“não lugar”, nomeado por Pierre Lévy (1998)2 num logos manifestado pela encenação, pelas
e apropriado tanto pela publicidade quanto pelo continuidades, pelos espaços da representação.
espaço cibercultural, das redes, da universalida- No mundo contemporâneo impõe-se so-
de, da cidadania. bre os modelos de unidade e lógica de ações dra-
Essa cena demarca as passagens contem- máticas, do apogeu e da catarse, e de suas atua-
porâneas do texto ao hipertexto, da interpreta- lizações do século XIX – com a Gesamtkunst-
ção à performance, do corpo físico, em presença, werk (obra de arte total), proposta por Richard
às suas virtualidades, das hibridizações e desdo- Wagner, ou a poética cênica de Gordon Craig
bramentos textuais, pressupondo polimorfismo (que buscam afinal uma unidade através da pre-
de conteúdos e de qualidades cênicas, das ambi- sença de um criador-atuante) – um modelo de
güidades, polissemias de prismas e de recepções. justaposição. Este modelo é amplificado pelas
Esta cena é visível nas montagens dos brasilei- tecnologias em que se operacionalizam os frag-
ros Bia Lessa, Gerald Thomas, Enrique Diaz, mentos, a emissão múltipla, o texto ideogra-
para citar alguns, nas encenações multimidiá- mático, os procedimentos de collage, montagem
ticas dos norte-americanos Wooster Group e e mediação3.
Richard Foreman, nas escrituras intertextuais de As textualidades contemporâneas são as-
Robert Wilson e de Heiner Muller. sentadas na polifonia, na hibridização, na de-
A cena contemporânea já supera os im- formação: nas intertextualidades entre a palavra,
passes da Pós-Modernidade, e se sustenta nas as materialidades e as imagens, nas formas an-
intensidades, nas linhas de subjetivação que in- tes que nos sentidos, nas poéticas desejantes que
corporam a multiplicidade, nas várias vozes en- dão vazão às corporalidades, às expressões do
volvidas nas ações e, também, como linguagem, sujeito nas paisagens do inconsciente e em suas
na legitimação do fragmentário, do informe, do mitologias primordiais. É uma cena que é tri-
assimétrico. Há, sobretudo, uma busca de ex- butária da perspectiva cubista, das vanguardas,
perimentação e de vivificação que é parelha dos das experimentações da arte-performance em
novos estatutos da ciência, da relatividade, da todas as suas derivações, e dos desdobramentos
visão de corpos e campos dinâmicos, que se es- e vivências de cada uma desta “tradições”. É o
tabelecem criando novos contornos para o real. momento conjuntivo de Deleuze, disso e daqui-
Dentro dessa nova ordem a teatralidade lo, duma cena que dá conta da multiplicidade
contemporânea contrapõe-se a um teatro mo- em seu conjunto de manifestações, espetáculos
derno assentado nos gêneros, na interpretação e acontecimentos.
psicológica naturalista, na presença a priori de O encenador Antonio Araújo cria em A-
um dramaturgo-autor, de um diretor-encena- pocalipse 1.11, por exemplo, planos intertex-
dor, de um ator-intérprete, de contextos demar- tuais, hibridizando as mitopoéticas bíblicas e a
cados da cena. Teatro este que é herdeiro do aris- voz dos despossuídos e marginalizados brasilei-
totelismo e de suas atualizações pressupostas por ros. Numa textualidade construída em work in
Stanislavski e mesmo por seus antípodas nas fi- progress por Fernando Bonassi, que incorpora a
guras de Meyerhold, do teatro político brech- dramaturgia dos atores, funde ficção e planos de
tiano, da cena modernista de Pirandello e Lorca, realidade, as ambigüidades entre o espaço mítico
dos primeiros textos de Beckett, para citar al- e o espaço destronado de uma penitenciária.

2 Terminologia formulada por Marc Augé (Antropologia da Supermodernidade, 1998).


3 Ver Silvia Fernandes (Memória e invenção: Gerald Thomas em cena, 1998)

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Num panorama, não exaustivo, compa- taneamente no espaço físico do Museu e da


recem com significação a essa cena autores- Rede (Internet), até trabalhos cênicos com
encenadores como Bia Lessa (Orlando, 1997) pacientes psiquiátricos, como nas montagens
Gerald Thomas (Nowhere Man, 1998; The Ven- de Ueinzz – Viagem a Babel (1998) e Dedálus
triloquist, 1999) Enrique Dias (A Bau A Qu, (1999) com usuários do Hospital Dia “A Casa”.
19974; Melodrama, 1999), Gabriel Vilela, Ulis- Nessa cartografia dos criadores é importante
ses Cruz, Márcio Aurelio e, em trabalhos mais destacar, embora não pertençam à mesma li-
recentes, Renato Cohen (KA, 1998; Dr. Faustus nhagem tanto formal, quanto teórica, o tra-
Liga à Luz, 1999), Antonio Araújo (O Livro de balho de dramaturgos-encenadores como Sér-
Jó, 1998; Apocalipse 1, 11, 1999), Dionísio Ne- gio Carvalho, Luís Alberto de Abreu, Fauzi
to (Perpétua, 1998) a butoísta Maura Baiochi, Arap, entre outros, mais próximos dos proce-
Daniela Thomas, Gilberto Gawronski, Chiqui- dimentos modernistas, com perspectiva polí-
nho Medeiros, entre outros artistas destacados. tica e culturalista.
Teatro que tem ressonância com as experiências A revolução cênica que se estabeleceu no
dos concretistas brasileiros, em suas textuali- teatro contemporâneo coloca no bojo da cena
dades verbivocovisuais5, com a cena dos video- performances que criam outro diálogo com o
makers Eder Santos, Walter Silveira e Lucila campo dos fenômenos, sejam eles existenciais,
Meirelles, com a dança da Cia. de Dança Bur- físicos ou sociais. Essa cena, evidentemente, está
ra, com as instalações performance de Aguillar influenciada pelo teatro da morte de Tadeusz
e Tunga e com a musicalidade do concreto Lívio Kantor, pelo teatro total, multimidiático, de
Tratemberg e do tecno-acústico Wilson Sukors- Robert Wilson, que já com Life & Times of
ki. Essa cena é também atuada por encenadores Joseph Stalin (1973)7 e Einstein on the Beach
de outras gerações: Antunes Filho, no seu re- (1975), juntava sonoridades, tecnologia, perfor-
cente As Troianas (1999) intertextualiza Ésquilo mance, idiossincrasia e onirismo a uma visão
com as guerras balcânicas; José Celso Martinez multifacetada, equiparando paisagens visuais,
Correa carnavaliza e tropicaliza os clássicos em textualidades, atuações, luminescências, numa
suas re-criações Ham-let (1998) e As Bacantes cena de intensidades em que os vários procedi-
(1997-9). mentos criativos trafegam sem as hierarquias
Outra frente fundamental conjuga tra- clássicas texto-ator-narrativa. Está também de-
balhos de ponta que operam uma interlingua- marcada nos planos simultâneos do discurso do
gem, e outros, nomeados num campo da Wooster Group, na escritura disjuntiva de
“cultura das bordas” 6 incluindo-se desde a Samuel Beckett, na dança minimal de Robert
mediação tecnológica como na a exposição Ima- Wilson e Lucinda Childs; e, num leque mais
nência (Casa das Rosas, São Paulo, 1998) que amplo de trabalhos tão distintos como os en-
dispôs oito performers, em tempo real, simul- vironment plásticos de Christo – citados por

4 A partir de conto original de Jorge Luís Borges.


5 O grupo Noigrandes dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari.
6 Termo cunhado por Jerusa Pires Ferreira, do Núcleo de Poéticas da Oralidade, da PUC-SP, no texto
Heterônimos e cultura das bordas: Rubens Luchetti (1990).
7 Essa peça, por causa de censura, foi encenada no Brasil com o título Life & Times of Dave Clark, em
cena que revolucionou o teatro brasileiro. Bob Wilson volta em 1994, na Bienal Internacional de São
Paulo – em curadoria de João Cândido Galvão – com When We Dead Awaken, de Ibsen.

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Gerald Thomas –, nas epifanias visuais de Bill fabulação e por construções psicológicas de per-
Violla e Gary Hill, nas corporalidades e repre- sonagem. Hipertexto que aqui é definido en-
sentações espasmódicas do Tanz-Theatre de Pina quanto superposição de textos incluindo con-
Bausch, no butoh de Kazuo Ohno, de Sankai junto de obra, textos paralelos, memórias, cita-
Juku e de Min Tanaka. ção e exegese. O semiólogo russo Iuri Lotman
Também, são referenciais e fundantes o (1997) nomeia o grande hipertexto da cultura,
teatro primordial de Grotowski, a vertente ét- depositário de historiografia, memória, campo
nica e antropológica de Peter Brook e Barba, os imaginativo e dos arquétipos primários.
movimentos gerativos de Merce Cunninghan, Num imbricamento intenso entre cria-
a desconstrução sonora proposta por John Cage, dor-criatura-obra, a cena dá tessitura às fraturas
as performances agônicas e conceituais de Joseph pós-modernas, estabelecendo um continuum
Beuys e Marina Abramovic – com sucessivas nas descontinuidades, permeando intensamen-
passagens no Brasil. De fato, são retomados, na te as ambigüidades entre arte e vida. Opera-se
gênese dessa cena, experimentos das vanguardas uma nova cena que incorpora a não seqüencia-
históricas – a forma autônoma futurista, a so- lidade, a escritura disjuntiva e a emissão icôni-
noridade dadá, a fluxo automático dos surrea- ca, numa cena de simultaneidades, sincronias,
listas – e da arte performance numa trajetória superposições, amplificadora das relações de
em que os procedimentos do formalismo, da sentido, dos diálogos autor-recepção, fenôme-
arte conceitual, do minimalismo e da mediação no e obra. Flora Sussekind (1995, p. 1)
vão compor as matrizes da cena contemporâ- teorizando a cena de Gerald Thomas e Bia Les-
nea. Lúcio Agra (1997) destaca a importante sa, fala em “corpos sem vozes, vozes sem cor-
replicação que as vanguardas européias vão ter po...”, em procedimentos de disjunção que
no Brasil, na figura de artistas como Hélio enfatizam a dessincronização, o corte temporal
Oiticica, Rogério Sganzela e Wally Salomão, entre corpo e presença, forma e sentido.
entre outros. Nascendo no contexto do pós-estrutura-
Essas referências cênicas à contempora- lismo, sob a égide da desconstrução, essa cena
neidade, tiveram, também, um momento gera- assinala a contemplação do múltiplo, da plura-
tivo original e único no Brasil, nos anos 60, em lidade em contraparte ao logicismo linear aris-
eventos organizados por Ruth Escobar, com a totélico-cartesiano. Em semioses que incorpo-
presença de encenadores como Victor Garcia (O ram o dialogismo com o modelo predominante
Balcão, 1968) e Jerome Savary e, nas colabora- propõe-se uma “Estética da Diferença” com os
ções entre o Grupo Oficina de São Paulo e os dispositivos rizomáticos de Deleuze apontando
grupos Los Lobos (Argentina) e Living Theatre, leituras para a complexidade contemporânea e
de Julien Beck e Judith Malina. estabelecendo contrapartidas ao cânone cênico
Em inseminações próprias do movimen- estruturalista.
to cultural brasileiro, desde o nomeado proce- Os modelos teóricos que consubstanciam
dimento antropofágico – da devoração e re- essa cena passam, portanto, pelos procedimen-
apropriação de conteúdos – por Oswald de tos de intertextualidade, desconstrução e hibri-
Andrade, tem-se lidado, conscientemente, com dização. Privilegiando sincronia e geografia de
as polaridades entre campos de identidade e associações – em detrimento do recurso tempo-
alteridade. Como linguagem contemporânea, ralizador –, a écriture contemporânea externa-se
orquestra-se uma cena polifônica e polissêmica, na jabberwocky criativa, em associações mini-
apoiada na rede, e em narrativas hipertextuais mais de imagem, dissonância e antinomia. Nes-
que se organizam pela performance, por ima- se sentido, quando Krisinski (1997) aponta
gens deslocadas, por desdobramentos e não preponderância, no contemporâneo, do mo-
mais pela lógica aristotélica das ações, pela nólogo em lugar do diálogo, fica claro, pois as

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estruturas monológicas são mais facilmente vias da interatividade em que essa participação
recambiáveis. cresce, interferindo, mediando e criando textos
As novas estruturas textuais perpassam o numa série de manifestações. As novas tecno-
uso do intertexto – enquanto fusão de enun- logias com recursos como Web Art e CD-Rom
ciantes e códigos; a interescritura – onde a me- amplificam essas mediações.
diação tecnológica (rede Internet) possibilita a Ao encenador-orquestrador da polifonia
co-autoria simultânea; o texto síntese ideogra- cênica, na operação dos fluxos intersemióticos,
mático – na fusão das antinomias; o texto par- de partituras de texto, imagem, corporalidades
titura – inscrevendo imagem, deslocamento, e suportes – e não ao dramaturgo – cabe a guia
sonoridades e a escritura em processo que ins- da cena contemporânea. Encarna, nesse senti-
creve temporalidade, incorporando acaso, de- do a função do “homem total do teatro” preco-
rivação e simultaneidade. Na composição do nizada por Edward Gordon Craig.
texto espetacular – em inter-relações de auto- Privilegia-se, na nova cena, o criador – em
ria, encenação e performance – o hipertexto presença – sua voz autoral, em que acumulam-
sígnico estabelece a trama entre o texto lingüís- se as funções de direção, criação da textualização
tico, o texto storyboard – de imagens, e o texto de processo e linkagem da mise-en-scène. Deslo-
partitura – geografia dos deslocamentos espa- cam-se, na verdade, os procedimentos da per-
ço-temporais. formance, em que o criador-atuante partituriza
A nova cena está ancorada em alternân- seu corpo, sua emoção, subjetividade, suas rela-
cias de fluxos semióticos e de suportes, instalan- ções com a escala fenomenal, com o espaço-
do o hipersigno teatral, da mutação, da dester- tempo materiais, para a extensão grupal, a ope-
ritorialização, da pulsação do híbrido: o teatro ração cênico-teatral.
de Gerald Thomas sustenta-se no signo indicial, Nessa direção, os procedimentos narrati-
das alusões, do rastro, das alternâncias corpo, vos contemporâneos – na criação de redes in-
voz, sentido, imagem. terativas – consubstanciam a proposta de uma
O contemporâneo contempla o múltiplo, escritura não seqüencial, corporificando o para-
a fusão, a diluição de gêneros: trágico, lírico, digma da descentralização, formulado por Der-
épico, dramático; epifania, crueldade e paródia rida, para quem o centro é uma função, não
convivem na mesma cena. Thomas e Enrique uma entidade de realidade. Gesta-se, nessa tessi-
Diaz alinham, sem medo, os diversos procedi- tura hipertextual, a grande “memória intera-
mentos cênico-narrativos. tiva”, rizomática, em recursos de proliferação,
Em relação ao contexto intrínseco da ope- mediação e subjetivação. Paul Zumthor (1993)
ração teatral, alteram-se, no contemporâneo, as destaca o caráter nômade da cultura, que se dis-
relações clássicas de vozes e textos matriciadores semina pelas oralizações. Nesse sentido, a cul-
do espetáculo: axiomaticamente estão em jogo tura brasileira é matriz potencial da hibridização
três vozes que agenciam texto, lugar e presença de códigos. Por outro lado, a transmissão das
– a voz do texto autoral, apriorística, a voz do “representações”, no contemporâneo, opera-se
performer/ator, e a voz do encenador, organi- preponderantemente em emissões híbridas con-
zador da mise-en-scène expressiva. No contem- figurando as passagens dos códigos verbais pu-
porâneo, a voz do encenador, que geralmente é ros às emissões intersemióticas. Nessas passagens
o criador, acumulando autoria, ganha prepon- contemporâneas, a atuação transita da interpre-
derância, priorizando-se o work in progress cria- tação (naturalismo) à performance: no Brasil,
tivo, na incorporação de intensidades, poli- Beth Coelho é o emblema desse processo com
fonias, na hibridização dos textos da cultura. sua presença expressionista e formalista, em seu
Insemina-se, de outro lado, uma quarta histrionismo lúgubre. A atuação e as superpo-
voz expressiva – a voz do receptor-autor – por sições cênicas vão desconstruir a organização

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diacrônica: Gerald Thomas, em sua poética cê- kunstwerk polifônica onde matrizes de corpora-
nica opera um tempo bergsoniano, da duração, lidades, gestalt imagéticas promovem o discurso
do cronos alongado, perpetrando janelas, mol- onirista. Enrique Diaz enuncia seu topos de
duras, que corporificam espacializações mór- releitura, seus deslocamentos cênicos. A media-
fico-psíquicas. Os procedimentos de mediação ção redimensiona a presença do performer, seu
vão ser emblemáticos do contemporâneo, agen- entorno, seu environment sígnico. Autoria, per-
ciando-se outras relações entre presença, espa- formance e recepção combinam-se em novos
ço, tempo e representação. À clássica alternância procedimentos de interatividade e sinestesia:
entre presença (real time) e representação (fic- Wilson Sukorski performatiza a voz mediatizada
cionalidade), impõe-se o par deleuziano memó- em vocoder polissonante; a bailarina Ivani San-
ria e atualização. tana (Duchamp, 1999) simula um environment
A relação axiomática da cena corpo-tex- virtual para sua dança; atuações em CD-ROM
to-audiência, enquanto rito, totalização, impli- redispõem rostos, vozes, textualidades, numa
cando interações ao vivo, é deslocada para even- varredura de leit-motiv que promovem outra
tos intermidiáticos onde a telepresença (on line) matriciação sígnica.
espacializa a recepção. O suporte redimensiona O corpo eleva-se à sua dimensão virtual,
a presença, o texto alça-se a hipertexto, a au- cria-se o “corpo estendido”, pós-humano, labo-
diência alcança a dimensão da globalidade. Ins- ratorizado em próteses de suporte. As relações
taura-se o topos da cena expandida, a cena das da physis são redimensionadas na esfera da tec-
vertigens, das simultaneidades, dos paradoxos nologia.
no incremento do uso do suporte e da media- As extensões contemporâneas, promovi-
ção nas intervenções com o real. Gera-se o real das pelos novos suportes, ampliam e prismam a
mediatizado, elevado ao paroxismo pelas novas comunicação espaço-temporal, os depósitos
tecnologias, onde suportes telemáticos, redes de memoriais, a interculturalidade, bem como ma-
ambientes Web (Internet), CD-Rom e hologra- terializam as utopias projetadas nas vanguardas.
mias, simulam outras relações de presença, ima- A tecnologia, pareada aos processos criativos rei-
gem, virtualidade. As diferenças entre culturas tera os processos humanos dando morphos e
são disseminadas nessas recombinações. interface aos processos mentais e sensíveis. Nes-
No contemporâneo tecnologizado as se sentido, a tarefa do performer contemporâ-
alternâncias entre presença e representação são neo é de promover essa extraordinária media-
amplificadas à sua hipérbole, ressoando o já clás- ção buscando mímese e auto-poiesis nos novos
sico paradigma de Derrida da “ausência de pre- suportes espelhos.
sença” O “aqui-agora” ritualístico é deslocado às
montagens disjuntivas propostas pela autoria. A Poéticas da mestiçagem:
fala viva é mediatizada em sincronias de soliló- latinidade e antropofagias
quios, vozes fantasmáticas, autorais que tim-
bram uma galeria de personas e simultaneida- No roteiro de uma produção contemporânea,
des atemporais. apoiada nos dispositivos e linguagens enumera-
Numa re-exacerbação da voz autoral (em dos, cabe discutir qual o polo de identidade da
terceridades estetizadoras) – em detrimento à cultura brasileira, e de que forma se dão as inter-
performance em primeiridade mítica – encena- textualizações de códigos e fontes referenciais.
dores simulam seu verfremdugseffekt produzin- As geografias, a profusão da natureza, e os mo-
do hipnotismo, auratização e o re-encantamen- dos da colonização em seus diversos agencia-
to da linguagem, na sua dimensão autônoma: mentos delineiam um campo único, quase
Bia Lessa – com seu teatro – cria superfícies de monódico, de trocas culturais: os trópicos são o
linguagem, Gerald Thomas propõe uma gesamt- espaço da extensão, das forças tectônicas e solares,

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de uma natureza que se introduz no campo da A cultura brasileira é permeada, portan-


cultura. Herdeira das miscigenações, predomi- to, pelas possibilidades do corpo sensível, do
nantemente entre as culturas índia, afro e euro- corpo andrógino dos deuses, pela erotização,
cêntricas, funda-se aqui uma “cultura da mesti- religiosidade onde totem e tabu estão destrona-
çagem”, do sincretismo, da misturação: um pro- dos. De um ponto de vista cênico podemos de-
cesso, quase de barroquização, como aponta limitar alguns territórios predominantes e os
Haroldo de Campos, pela acumulação de con- modos de intertextualização:
teúdos, que já, pela característica dos coloniza- 1) O território da cena, urbana, univer-
dores e pela inclusividade da cultura afro deu- sal, de um topos transcultural.
se por mecanismos menos sangrentos que na Com os modos de linguagem descritos,
América espanhola. Na fundação de um modo os autores-encenadores promovem um grande
brasileiro, Oswald de Andrade, no seu Mani- intertexto entre os signos regionais e o hiper-
festo Antropofágico, de inspiração surrealista, texto da cultura:
lança o lema: “tupi or not tupi, that is the ques- Em Ka (1998), por exemplo, como dire-
tion...” Propõe o procedimento antropofágico tor, inseminei o texto-anagramático do poeta
da devoração, da apropriação desautorizada e vi- futurista russo Vélimir Khlébnikov com os ri-
olenta do corpo “estrangeiro” como único pro- tuais do xamanismo brasileiro. Os atores-per-
cedimento possível de uma replicação às inva- formers submeteram-se a longos laboratórios
sões. Benedito Nunes8 alinha, curiosamente, rituais para dar vazão a gestos, vocalidades,
esse mecanismo radical às propostas dadaístas performances e indumentárias que se intertex-
(Picabia, na revista Cannibale) e as irrupções da tualizam com a poética original de Khlébnikov.
natureza que se insurge à uma suposta cultura Paisagens quase antípodas da Rússia gelada e do
civilizatória: “abriu-se de Nietzsche e Freud o ca- Brasil tropical são intertextualizadas à luz das
minho que fez do canibalismo o digno de uma mitologias, arqueologias e poéticas delirantes.
síndrome ancestral, ou, para usarmos a lingua- 2) Espetáculos com demarcada signagem
gem de Oswald de Andrade, uma semáfora da da cultura brasileira intertextualizados pelas lin-
condição humana, fincada no delicado inter- guagens contemporâneas.
câmbio de natureza com a cultura”. Artistas como Antonio Nóbrega (com re-
Outro aspecto sincrético da cultura se dá pertórios do Nordeste brasileiro), o Grupo Lu-
pelas religiões e mitopoéticas: as religiões afro – me, de antropologia teatral, que trabalha com a
candomblé, umbanda, quilombo – e os mitos idéia de mimesis cênicas (transpondo, em espe-
primordiais indígenas são fortemente inclusivos, táculo, a fala e o gestual dos povos da floresta
e são posteriormente figurados com imagens amazônica), grupos da Paraíba, estão nesse gru-
medievais européias e cristãs – da santa, da mãe, po com o acento puramente regional e a lin-
dos guerreiros da cruz. Funda-se um modo cul- guagem contemporânea.
tural que incorpora e monta a pluralidade de 3) Eventos mass-media e de cultura
símbolos. No espaço da festa, das ritualizações, globalizada.
se estabelece o território do mythos que vai dar Espetáculos de grande público, que se dis-
corporalidade e enlevo ao espetáculo. Estabele- tanciam da pesquisa de linguagem e da busca
cendo arquês de contorno e contato com o gran- de intertextualização. Como padrão forte, estão
de texto da cultura, a operação mitologizadora as novelas-teatro da Rede Globo, produzidas no
é fundante e gera os planos de imanência da Rio de Janeiro e exportadas para diversos paí-
cultura. ses, inclusive Portugal.

8 Em Catálogo da XXIV Bienal de São Paulo: Núcleo Histórico: Antropofagia e História de Canibalismos.

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Por último, é importante destacar o cur- culturais e colocam essas matrizes numa rede de
so de inúmeras produções de ponta, no Brasil, câmbios que se distingue dos procedimentos
que procuram superar os impasses das trocas imperativos e doutrinários da globalização.

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