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9/30/2016 desobedecendo: A SOCIEDADE MUNDIAL DE CONTROLE (Michael Hardt)

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desobedecendo
Porque estamos em todas as partes empenhad@s nas atividades formadoras do tempo vivo, do fazer vivo,
visíveis ou invisíveis, com voz ou sem voz, pela dignidade de não falar pel@s outr@s, mas tecendo o comum das
resistências e da insubordinação, desobedecendo...

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A SOCIEDADE MUNDIAL DE
CONTROLE (Michael Hardt)

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De:  
HARDT, Michael. A sociedade mundial de controle. In: Alliez , Éric . Gilles Deleuze: uma vida Foto por Sandra Marques
filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.

kissingcoppers
p.357▼
A SOCIEDADE MUNDIAL DE CONTROLE
Michael Hardt (1996)

[Tradução de Maria Cristina Franco Ferraz]

Deleuze nos diz que a sociedade em que vivemos hoje é a sociedade de controle, termo que
toma emprestado do mundo paranóico de um William Burroughs. Ao propor esta visão, ele
afirma seguir Michel Foucault, mas devo reconhecer que é difícil encontrar, onde quer que
seja na obra de Foucault – em livros, artigos ou entrevistas –, uma formulação clara da
passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle. De fato, ao anunciar tal
passagem, Deleuze formula, após a morte de Foucault, uma idéia que não encontrou  
expressamente formulada na obra de Foucault. Foto de um trabalho de Banksy
A formulação dessa idéia por Deleuze, no entanto, é bastante exígua: o artigo mal passa de [http://www.banksy.co.uk/menu.html/]
cinco páginas. Ele nos diz muito poucas coisas concretas sobre a sociedade de controle. Ele
constata que as instituições que constituíam a sociedade disciplinar – escola, família, hospital,
prisão, fábrica, etc – estão, todas elas e em todos os lugares, em crise. Os muros das
Links
instituições estão desmoronando de tal maneira que suas lógicas disciplinares não se tornam A Navalha de Dalí
ineficazes mas se encontram, antes, generalizadas como formas fluidas através de todo o
As palavras e as coisas (Blog da Adriana
campo social. O “espaço estriado” das instituições da sociedade disciplinar dá lugar ao Amaral)
“espaço liso” da sociedade de controle. Ou, para retomar a bela imagem de Deleuze, os
Baixa Cultura: Jornalismo e Cultura Livre
túneis estruturais da toupeira estão sendo substituídos pelas ondulações infinitas da serpente.
Blog "som do roque"
Enquanto a sociedade disciplinar forjava moldagens fixas, distintas, a sociedade de controle
funciona por redes flexíveis moduláveis, “como uma moldagem auto­deformante que mudasse Blog da Talita
continuamente, a cada instante, ou como um peneira cujas malhas mudassem de um ponto a Blog do Antonio Arles
outro”1.
Blog do Sérgio Amadeu
O que Deleuze nos propõe é, de fato, uma simples imagem dessa passagem, uma imagem
CMI ­ Centro de Mídia Independente
sem dúvida bela e poética, mas não suficientemente articulada para nos permitir compreender
essa nova forma de Catatau
Cineclube Lanterninha Aurélio
1 Pourparlers, Paris, Minuit, 1990, p.242.
Colectivo Situaciones

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Coletivo Sabotagem
358▼
Cooperação sem mando (diretório de arquivos)
sociedade. Para fazer isso, pretendo relacioná­la a uma série de outras passagens que foram
propostas para caracterizar a sociedade contemporânea. Pretendo, portanto, tentar Cultura Digital

desenvolver a natureza dessa passagem, estabelecendo sua relação com a passagem da Cátedra Experimental Sobre Producción de
sociedade moderna à sociedade pós­moderna, tal como expressa na obra de autores como Subjetividad

Fredric Jameson, mas também com o “fim da história” descrito por Francis Fukuyama e com Cátedra Experimental Sobre Producción de
as novas formas de racismo em nossas sociedades, segundo Étienne Balibar e outros
racis Subjetividad_Blog

autores. Mas, sobretudo, pretendo situar a formação de que fala Deleuze em termos de dois DESOBEDIENTE
processos que Toni Negri e eu tentamos elaborar ao longo dos últimos anos: qualificamos o De mau humor
primeiro desses processos de enfraquecimento da sociedade civil, o que, assim como a
Desobedecendo
passagem à sociedade de controle, remete ao declínio das funções medidoras das
instituições sociais; com o segundo, ocorre a passagem do imperialismo, produzido, Dialógica

inicialmente pelos Estados­nação europeus, ao império, à nova ordem mundial, que se Diego Silva ­ Músico
entende hoje em torno dos Estados Unidos, com as instituições transnacionais e o mercado Dinero Gratis
mundial. Dito de outro modo, quando falo de império entendo uma forma jurídica e uma forma
E É BEM BOM
de poder bastante diferente dos velhos imperialismos europeus. Por um lado, segundo a
tradição antiga, o império é o poder universal, a ordem mundial, que talvez se realize hoje ESC Atelier Occupato

pela primeira vez. Por outro, o império é a forma de poder que tem por objetivo a natureza El poder de las redes
humana, portanto o bio­poder. O que gostaria de sugerir é que a forma social tomada por esse Elias Maroso
novo Império é a sociedade de controle mundial.
Escritos de Amauri Ferreira

NÃO HÁ MAIS FORA Felipe Hickmann ­ Músico

A passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle se caracteriza, inicialmente, Flujos antagonistas
pelo desmoronamento dos muros que definiam as instituições. Haverá, portanto, cada vez GRAMMATICA DELLA MOLTITUDINE
menos distinções entre o dentro e o fora. Trata­se, efetivamente, de um elemento de mudança
GUAIKURU
geral na maneira pela qual o poder marca o espaço, na passagem da modernidade à pós­
modernidade. A soberania moderna sempre foi concebida em termos de território – real ou Gambiarra: sobre o circuito cultural

imaginário – e da relação desse território com seu fora. É assim que os primeiros teóricos Generation Online
modernos da sociedade, de Hobbes a Rousseau, compreendiam a ordem civil como um Global Project
espaço limitado e interior que se opõe à ordem exterior da natureza, ou que dela se distingue.
Global Voice
O espaço circunscrito da ordem civil, seu lugar, se define por sua separação dos espaços
La place des chaussettes ­ Christian Marazzi
LaVaca
359▼ Macondo Lugar
exteriores da natureza. De modo análogo, os teóricos da psicologia moderna compreenderam
Manifesto de apoio às lutas dos pobres:
as pulsões, as paixões, os instintos e o inconsciente metaforicamente, em termos espaciais, expressões multitudinárias
como um fora no âmbito do espírito humano, como um prolongamento da natureza bem no
Maria Frô
fundo de nós. A soberania do indivíduo repousa, aqui, em uma relação dialética entre a ordem
natural das pulsões e a ordem civil da razão ou da consciência. Por fim, os diversos discursos Mobiliza Cultura

da antroposofia moderna sobre as sociedades primitivas funcionam, freqüentemente, como o Mídia Tática
fora que define as fronteiras do mundo civil. O processo de modernização repousa nesses Música.Cinema.Arte.Cultura. Santa Maria. RS
diferentes contextos, na interiorização do fora da civilização da natureza.
O Pensador da Aldeia
No mundo pós­moderno, entretanto, essa dialética entre dentro e fora, entre ordem civil e
ordem natural chegou ao fim. Como diz Fredric Jameson: “O pós­modernismo é o que se O biscoito fino e a massa_blog do Idelber
Avelar
obtém quando o processo de modernização e a natureza desapareceram para sempre”2 É
claro que ainda temos florestas, gafanhotos e tempestades em nosso mundo, e ainda temos a Observatório do Direito à Comunicação

idéia de que nosso psiquismo se submete à ação de instintos e paixões, mas não temos Olagário Schmitt, grande poeta!!
natureza no sentido que essas forças e esses fenômenos não são mais entendidos como fora, Olho da Rua
tampouco percebidos como originais e independentes do artifício da ordem civil. Em um
Otávio Segala ­ Músico
mundo pós­moderno, todos os fenômenos e forças são artificiais, ou, como dizem alguns,
fazem parte da história. A dialética moderna do fora e do dentro foi substituída por um jogo de Outras Palvras

graus e intensidades, de hibridismo, e artificialidade. Papopoético ­ Movimento Pelada Poética
Em segundo, lugar, o fora também entrou em declínio do ponto de vista de uma dialética Petições e Manifestos: expressões
moderna bastante diferente, que definia a relação entre o público e o privado na teoria política multitudinárias
liberal. Os espaços públicos da sociedade moderna, que constituem o lugar da vida política Quadrado dos loucos
liberal, tendem a desaparecer no mundo pós­moderno. Segundo a tradição liberal, o indivíduo
RED RENTA BASICA
moderno que está em casa, em seus espaços privados, considera o público como o seu fora.
O fora é o lugar próprio da política, em que a ação do indivíduo fica exposta ao olhar dos RIZOMA.NET

outros e em que ela procura ser reconhecida. Ora, no processo da pós­modernização, esses Rede Universidade Nômade
espaços públicos se vêem cada vez mais privatizados. A paisagem urbana não é mais a do Revista DeriveApprodi
espaço público, do
Revista Eletrônica Cultural DIVERSOS AFINS
Revista Global Brasil

2 F. Jameson, Postmadernism, or the cultural logic of late capitalism, Duke, Duke University Revista Literária digital do Coletivo
Press, 1991, p. IX. Cardamomo
Revista Posse
Revista Vacarme
360▼
SITUACIONES
encontro casual e do agrupamento de todos, mas dos espaços fechados das galerias
comerciais, das auto­estradas e dos condomínios com entrada privativa. A arquitetura e o SMalt

urbanismo de certas megalópolis, como Los Angeles e São Paulo, tenderam a limitar o Sala Dobradiça: O espaço­suporte ­ de
acesso público e a interação, criando, antes, uma série de espaços interiores protegidos e paredes latentes

isolados. Poderíamos igualmente observar que o subúrbio parisiense se tornou uma série de Serpica Naro ­ community dedicata alla moda
espaços amorfos e não­definidos que favorecem o isolamento, em detrimento de qualquer autoprodotta

interação ou comunicação. O espaço público foi a tal ponto privatizado que já não é mais Superfícies Úmidas (Alessandra Giovanella)
possível compreender a organização social em termos da dialética espaços privados/espaços TOTAL VANDAL
públicos, ou dentro/fora. O lugar da atividade política liberal moderna desapareceu, e, assim,
Território Independente ­ Santa Maria RS

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9/30/2016 desobedecendo: A SOCIEDADE MUNDIAL DE CONTROLE (Michael Hardt)
a partir dessa perspectiva, nossa sociedade imperial pós­moderna se caracteriza por um Textos de Luis Mattini
déficit do político. De fato, O lugar da política foi desrealizado.
Textos de Raúl Zibechi
Sob esse aspecto, a análise da sociedade do espetáculo, efetuada por Guy Debord há trinta
anos, parece mais apropriada e mais premente do que nunca. Na sociedade pós­moderna, o Tinta Limón Ediciones
espetáculo é um lugar virtual ou, mais exatamente, um não­lugar da política. O espetáculo é Traficantes de Sueños (Colecciones)
simultaneamente, unificado e difuso, de tal modo que é impossível distinguir um dentro de um Traficantes de Sueños (Editorial)
fora – o natural do social, o privado do público. A noção liberal do público como o lugar do
Um Que Tenha
fora, onde agimos sob o olhar dos outros, tornou­se ao mesmo tempo universalizada (pois
somos hoje permanentemente colocados sob olhar dos outros, sob a observação das Universidad Nomada
câmeras de vigilância) e sublimada, ou desrealizada, nos espaços virtuais do espetáculo. O Usina ­ Núcleo de Estudos e Práticas
fim do fora é, assim, o fim da política liberal. Micropolíticas
Enfim, na perspectiva do império, ou da ordem mundial atual, é ainda em um terceiro sentido WU MING
que não há mais um fora, em um sentido propriamente militar. Quando Francis Fukuyama YOMANGO
afirma que a passagem histórica que estamos vivendo se define pelo fim da história, ele quer
biblioteca virtual revolucionária
dizer que a era dos conflitos principais terminou; dito de outro modo, a potência soberana não
mais afrontará seu Outro, não mais será confrontada com seu fora, mas, antes, estenderá cartas rizomáticas
progressivamente suas fronteiras até enlaçar todo o planeta com seu domínio próprio. A trezentos ­ o início de uma multidão
história das guerras imperialistas, inter­imperialistas e anti­imperialistas se fechou. O fim
dessa história introduziu o reino da paz. Só que na realidade, entramos na era dos conflitos
menores e interiores. Cada guerra imperial é uma guerra civil, uma ação de polícia, de Los Resistindo
Angeles e a ilha de Granada até Mogadício e Sarajevo. De fato, a

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separação das tarefas entre os aparelhos exterior e interior do poder (entre exército e polícia,
entre CIA e FBI) torna­se cada vez mais vaga e mal determinada.  
Em nossas próprias palavras, o fim da história de que fala Fukuyama marca o fim da crise que Criança na Palestina
está no centro da modernidade, com a idéia do conflito coerente – tendo função de definição –
que foi o fundamento e a razão de ser da soberania moderna. A história terminou
precisamente e, apenas, na medida em que é concebida em termos hegelianos – como o
About Me
movimento de uma dialética de contradições com o jogo de negações e de superações desobediente
absolutas. Os pares que definiam o conflito moderno se embaralharam. O Outro que podia Santa Maria, Rio Grande do
limitar um Eu soberano se estilhaçou, tornou­se indistinto, de modo que não há mais um fora Sul, Brazil
para circunscrever o lugar da soberania. Ao passo que, durante a Guerra Fria, numa versão Agitador cultural, integrante
exagerada da crise da modernidade, todo inimigo imaginável dos clubes de jardinagem para da rede de ativistas Rede
senhoras e dos filmes hollywoodianos até os movimentos de liberação nacional podia ser Universidade Nômade. Botequeiro, um dos
identificado como comunista, ou seja, como expressão do inimigo unificado. O fora, era o que coordenadores do espaço multiuso Boteco do
Rosário.
dava coerência à crise do mundo moderno e imperialista. Atualmente, é cada vez mais difícil
para os ideólogos dos Estados Unidos nomear o inimigo, ou melhor: parece que há, em todos View my complete profile
os lugares, inimigos menores e imperceptíveis. O fim da crise da modernidade engendrou
uma proliferação de crises menores e mal definidas na sociedade imperial de controle, ou,
Blog Archive
como preferimos dizer, gerou uma oni­crise.
Convém lembrar, aqui, que o mercado capitalista é uma máquina que sempre foi de encontro ►  2012 (1)
a qualquer divisão entre o dentro e o fora. O mercado capitalista é contrariado pelas
►  2010 (4)
exclusões e prospera incluindo, em sua esfera, efetivos sempre crescentes. O lucro só pode
ser gerado pelo contato, pelo compromisso, pela troca e pelo comércio. A realização do ►  2009 (16)
mercado mundial constituiria o ponto de chegada dessa tendência. Em sua forma ideal, não ►  2008 (7)
há um fora do mercado mundial: o planeta inteiro é seu domínio. Poderíamos utilizar a forma
▼  2007 (7)
do mercado mundial como modelo para compreender a forma da soberania imperial em sua
▼  July (1)
totalidade. Da mesma maneira, talvez, com que Foucault reconheceu no panóptico o
diagrama do poder moderno e da sociedade disciplinar, o mercado mundial poderia fornecer A SOCIEDADE MUNDIAL DE
CONTROLE (Michael Hardt)
uma arquitetura de diagrama (mesmo não sendo arquitetura) para o poder imperial e a
sociedade de controle. ►  May (2)
O espaço estriado da modernidade constrói um lugar perpetua­
►  April (4)

►  2005 (6)
362▼
mente fundado em um jogo dialético com o fora e a ele submetido. O espaço da soberania
imperial, ao contrário, é liso. Poderia parecer isento das divisões binárias das fronteiras Prof. Dr.
modernas, ou de qualquer estria, mas na realidade é atravessado, em todos os sentidos, por Giuseppe
tantas linhas de fissura que apenas aparentemente constitui um espaço uniforme. Neste Cocco fala
sentido, à crise claramente definida da modernidade se substitui uma oni­crise na estrutura
sobre
imperial. Nesse espaço liso do império, não há o lugar do poder: ele está em todos os lugares
Trabalho e
e em nenhum deles. O império é uma u­topia, ou, antes, um não­lugar.
Capitalismo
O RACISMO IMPERIAL
RACIS Cognitivo
O fim do fora, que caracteriza a passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle,
revela certamente uma de suas faces nas configurações que combinam racismo e alteridade
racis
em nossas sociedades. De início, devemos salientar que se tornou cada vez mais difícil
identificar os procedimentos gerais do racismo. Com efeito, ouvimos, incessantemente os
racis
políticos, a mídia e até mesmo os historiadores· afirmarem que o racismo recuou
racis
progressivamente nas sociedades modernas, desde o fim da escravidão até os conflitos de
descolonização e os movimentos pelos direitos civis. Certas práticas tradicionais e específicas
do racismo entraram, sem dúvida alguma, em declínio e seríamos tentados a identificar no fim
racis
das leis do apartheid na África do Sul a clausura simbólica de toda uma época de segregação
racial. No entanto, em nossa perspectiva, é evidente que o racismo não recuou, mas, ao
racis
contrário, de fato aumentou no mundo contemporâneo, tanto em extensão como em
intensidade. Ele só parece ter declinado por ter mudado de forma e de estratégias. Se

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9/30/2016 desobedecendo: A SOCIEDADE MUNDIAL DE CONTROLE (Michael Hardt)
tomamos como paradigmas dos racismos modernos as divisões maniqueístas entre dentro e
racis
fora e as práticas de exclusão (na África do Sul, na cidade colonial, no Sul dos Estados
Unidos ou na Palestina), devemos agora colocar a seguinte questão: qual é a forma e quais
são as estratégias do racismo na sociedade imperial de controle de hoje?
racis
Vários analistas descrevem essa passagem como um deslizamento, na forma dominante de
teoria do racismo, de uma teoria racista fundada na biologia para uma teoria racista baseada
racis racis racis
na cultura. A teoria racista dominante na modernidade e as práticas de segregação que a
racis
acompanham concentram­se em diferenças biológicas essenciais entre as raças. O sangue e
os genes constituiriam, por detrás das diferenças de cor dá pele, a verdadeira substância da
diferença racial.

363▼
Concebem­se assim, pelo menos implicitamente, os povos dominados como diferentes dos
humanos, como pertencentes a uma ordem de seres diferente, de outra natureza. De fato,
vêm­nos à lembrança vários exemplos de discurso colonialista que descrevem os índios
utilizando­se de qualificativos animais, como não sendo completamente humanos. Tais teorias
racis
racistas modernas, fundadas na biologia, subentendem uma diferença ontológica, tendem
para tal diferença entendida como uma ruptura necessária, eterna e imutável na ordem dos
seres. Em reação a essa posição teórica, o anti­racismo moderno toma posição contra a
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noção do essencialismo biológico, afirmando enfaticamente que as diferenças entre as raças
são, antes, constituídas pelas forças sociais e culturais. Esses teóricos anti­racistas modernos
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operam a partir da crença de que o construtivismo social deve nos liberar da camisa­de­força
do determinismo biológico: se nossas diferenças são determinadas social e culturalmente,
então todos os seres humanos são, em princípio, iguais e pertencem à mesma ordem
ontológica, à mesma natureza.
No entanto, a passagem ao império, à sociedade de controle, à pós­modernidade, acarretou
um deslizamento na direção dominante da teoria racista, de maneira que as diferenças
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biológicas, como representação­chave do ódio e do medo raciais, foram submetidas por
significantes sociológicos e culturais. Desse modo, a teoria racista imperial surpreende, pela
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retaguarda, o anti­racismo moderno, e de fato coopta e alista seus argumentos. A teoria
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racista imperial concorda em dizer que as raças não constituem unidades biológicas isoláveis
e que não se poderia dividir a natureza em raças humanas diferentes. Ela reconhece
igualmente que o comportamento dos indivíduos, suas capacidades e aptidões não são nem o
produto de seu sangue nem mesmo de seus genes, mas se devem ao fato de pertencerem a
diferentes culturas historicamente determinadas3. Assim, as diferenças não seriam fixadas
nem imutáveis, mas efeitos contingentes da história social. A teoria racista pós­moderna e a
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teoria anti­racista moderna dizem, com efeito, em grande parte a mesma coisa, e é difícil
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diferenciá­las nesse aspecto. Na verdade, é precisamente porque se supõe que essa
argumentação relativista e cultura lista seja necessariamente anti­racista que a ideologia
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dominante de toda nossa sociedade parece hoje hostil

3 Cf. E. Balibar e I Wallerstein, Race, nation, classe, Paris, Découverte, 1988.

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ao racismo e que a teoria racista pós­moderna aparentemente não é racista de forma alguma.
racis racis racis
Deveríamos entretanto examinar mais de perto o modo de funcionamento da teoria racista racis
imperial. Étienne Balibar caracteriza esse novo racismo como diferencialista, racismo sem
racis racis
raça, ou, mais precisamente, racismo que não mais se apóia em um conceito biológico de
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raça. Se a biologia, como fundamento e sustentação do racismo, foi abandonada, a cultura é
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levada a preencher o papel que a biologia ocupava. Estamos habituados a pensar que a
natureza e a biologia são fixas e imutáveis, enquanto a cultura é maleável e fluida: as culturas
podem mudar na história e se misturar, gerando híbridos infinitamente. Há, no entanto, um
limite para a flexibilidade das culturas na teoria racista pós­moderna. Em última análise, as
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diferenças entre as culturas e as tradições são insuperáveis. Segundo a teoria racista pós­
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moderna, seria vão, e até mesmo perigoso, permitir ou impor uma mistura de culturas: servos
e croatas, hutus e tutsis, afro­americanos e coreano­americanos devem permanecer
separados. A posição cultural não é menos “essencialista”, enquanto teoria da diferença
social, do que uma posição biológica, ou, pelo menos, ela estabelece uma base teórica
igualmente forte para a separação e a segregação sociais. Trata­se de uma posição teórica de
um pluralismo indiscutível: todas as identidades são, em princípio, iguais. Esse pluralismo
aceita todas as diferenças em nossas identidades, sob a condição de concordarmos em agir
tendo por base essas diferenças de identidade, preservando­as, assim, como indicadores
talvez contingentes, mas totalmente sólidos, de separação social. A substituição teórica da
raça ou da biologia pela cultura encontra­se, assim, paradoxalmente metamorfoseada em
teoria da preservação da raça. Esse deslizamento para a teoria racista mostra­nos como a
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teoria imperial e pós­moderna da sociedade de controle pode adotar aquilo que geralmente se
concebe como uma posição anti­racista – ou seja, como uma posição pluralista contra todos
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os indicadores necessários da exclusão racial –, conservando ao mesmo tempo um sólido
princípio de separação social.
Nesse estágio, devemos observar cuidadosamente que a teoria racista imperial da sociedade
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de controle é uma teoria da segregação; e não da hierarquia. Enquanto a teoria racista
racis
moderna estabelece, como condição fundamental que torna necessária a segregação, uma
hierarquia entre as raças, a teoria imperial não opina a respeito da superioridade ou da
inferioridade inerentes a raças ou grupos étnicos

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9/30/2016 desobedecendo: A SOCIEDADE MUNDIAL DE CONTROLE (Michael Hardt)

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diferentes. Ela considera isso pura contingência, uma questão prática. Em outras palavras, a
hierarquia entre as raças não é entendida como causa, mas como efeito das circunstâncias
sociais. Por exemplo, os alunos afro­americanos de determinada região têm, nos testes de
aptidão escolar, resultados em geral mais fracos do que os alunos de origem asiática. A teoria
imperial não enxerga, aí, o resultado de uma inferioridade racial necessária, mas de
diferenças culturais: a cultura dos americanos de origem asiática atribui à educação uma
importância maior, encoraja os alunos a estudar em grupo, e assim por diante. A hierarquia
entre diferentes raças só é determinada a posteriori, como efeito de suas culturas, ou seja, a
partir de sua performance. Segundo a teoria imperial, a hegemonia e a submissão das raças
não é uma questão teórica, mas advêm de uma livre competição, de uma espécie de lei do
mercado da meritocracia cultural.
A prática racista, sem dúvida alguma, não corresponde necessariamente à teoria racista. A
racis racis
partir do que acabamos de ver, no entanto, é claro que a prática racista, na sociedade de
racis
controle, viu­se privada de um suporte central: ela não mais dispõe de uma teoria da
superioridade racial, entendida como fundadora das práticas modernas de exclusão racial.
Ora, segundo Gilles Deleuze e Félix Guattari:

“O racismo europeu [...] nunca procedeu por exclusão, nem por atribuição de
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alguém designado como Outro. [...] O racismo procede por determinação das
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distâncias de desvio, em função do rosto homem branco, que pretende integrar,
em
ondas cada vez mais excêntricas e retardadas, os traços que não lhe são
conformes. [...] Do ponto de vista do racismo, não há exterior, não há pessoas
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do fora”.4

De fato, Deleuze e Guattari nos levam, portanto, a conceber a prática racista não em termos
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de exclusão, mas enquanto estratégia de inclusão diferencial. Nenhuma identidade é
designada como Outro, ninguém i: excluído do campo, não há fora. Se não estamos
inteiramente convencidos de que, como pretendem Deleuze e Guattari, esse foi sempre o
caso, essa é, certamente, uma excelente' descrição da condição da sociedade de controle.
Pois assim como a teoria racista pós­
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4 Mille plateaux, Paris, Minuit, 1980, p.218.

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moderna não pode colocar, como ponto de partida, diferenças essenciais entre as raças
humanas, a prática racista imperial não pode começar por uma exclusão do Outro racial. O
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próprio da dominação branca é de engajar inicialmente o contato com a alteridade para, em
seguida, submeter as diferenças, segundo os graus de afastamento do elemento branco. Isso
nada tem a ver com a xenofobia, que é o ódio e o medo face ao bárbaro desconhecido. É um
ódio nascido da proximidade, e que se desenvolve a partir dos graus de diferença em relação
ao vizinho.
Isso não significa que nossas sociedades estejam completamente, isentas de exclusão racial;
elas são seguramente percorridas por numerosas linhas constituindo obstáculos raciais, em
todas as paisagens urbanas, no mundo inteiro. O que é importa é, portanto, que a exclusão
racial geralmente aparece como resultado da inclusão diferencial. Hoje seria um erro colocar,
como paradigma da hierarquia racial, as leis do apartheid sul­africano ou o código
segregacionista que existia no Sul dos Estados Unidos. A diferença não está inscrita no texto
das leis, e a imposição da alteridade não chega ao ponto de designar alguém como Outro. O
império não pensa as diferenças em termos absolutos: ele jamais coloca as diferenças raciais
como diferença de natureza, mas sempre como diferença de grau; ele jamais as coloca como
necessárias, mas sempre como acidentais. A submissão é efetuada nos regimes de práticas
cotidianas mais móveis e flexíveis, mas que criam hierarquias racionais não menos estáveis e
brutais.
A forma e as estratégias adotadas pelo racismo pós­moderno contribuem para evidenciar, de
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maneira mais geral, o contraste entre soberania moderna e soberania imperial. O racismo
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colonial, o racismo da soberania moderna, começa por empurrar a diferença até o extremo; a
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seguir, em um segundo momento, ele recupera o Outro como fundamento negativo do Eu. A
construção moderna de um povo se encontra estreitamente implicada nessa operação. Um
povo não se define somente em termos de passado comum e desejos ou potencial comuns, e
sim, antes de mais nada, em uma relação dialética com seu Outro, seu fora. Um povo – quer
seja diaspórico ou não – se define sempre em termos de um lugar, seja ele virtual ou real. Já
a ordem. imperial nada tem a ver com essa dialética. Na sociedade de controle, o racismo
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imperial ou diferencial integra os outros em sua ordem e, em seguida, orquestra tais
diferenças em um sistema de controle. As noções fixas e biológicas dos povos tendem, pois, a
se dissolver em uma

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multiplicidade fluida e amorfa, atravessada, sem dúvida alguma, por linhas de conflito e de
antagonismo, sem que nenhuma delas apareça como fronteira fixa e eterna. A superfície da
sociedade imperial desloca­se continuamente, de tal forma que ela desestabiliza qualquer

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noção de lugar. O momento central do racismo moderno se produz em sua fronteira, na
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antítese global entre dentro e fora. Como afirmou W. E. B. Du Bois, há quase cem anos, o
problema do século XX é o problema da barreira da cor. Mas, o racismo imperial, pensando
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talvez antecipadamente no próximo século, repousa, antes, no jogo das diferenças e na
gestão de microconflitualidades em uma zona de contínua expansão.
É claro que há muitas pessoas em todo o mundo para as quais o relativismo racial do império
e seu movimento primeiro de inclusão universal são, por si só, ameaçadores. Estar fora
oferece certa proteção, certa autonomia. Nesse sentido, pode­se ver na emergência de
diversos discursos da diferença, racial ou étnica, essencial ou original, uma reação de defesa
contra a inclusão imperial. Tanto o confucionismo em expansão na China como os
fundamentalismos religiosos nos Estados Unidos e no mundo árabe fundam, a seu modo, a
identidade do grupo em origens antigas e, em última instância, como incomensurável em
relação ao mundo exterior. É assim que se habituou a compreender os conflitos étnicos em
Ruanda, nos Bálcãs e mesmo no Oriente Médio como o ressurgimento de alteridades antigas,
irrefreáveis e irreconciliáveis. Mas, em nosso ponto de vista, tais diferenças e conflitos não
poderiam ser compreendidos no contexto de origens perdidas na noite dos tempos; é preciso,
ao contrário, recolocá­los na configuração imperial de hoje. O império sempre aceita as
diferenças raciais e étnicas que encontra, e sabe utilizá­las; mantém­se à distância, observa
esses conflitos e intervém quando um ajuste se faz necessário. Toda tentativa de permanecer
outro, com relação ao império, é vã. O império se nutre de alteridade, relativizando e gerindo­
a.

DA GERAÇÃO E CORRUPÇÃO DA SUBJETIVIDADE
O fim do fora, ou a ausência gradual de distinção entre dentro e fora, na passagem da
sociedade disciplinar para a sociedade de controle, tem importantes implicações para a forma
da produção social da subjetividade. Uma das teses centrais mais comuns nas análises
institucionais de Deleuze e Guattari, Foucault, Althusser e outros, é que a subjetividade não é
originária, dada a priori, mas se forma pelo

368▼
menos até um certo ponto, no campo das forças sociais. As subjetividades que interagem no
plano social são substancialmente criadas pela sociedade. Nesse sentido, tais análises
institucionais gradativamente esvaziaram de seu conteúdo qualquer noção de subjetividade
pré­social para enraizar firmemente a produção da subjetividade no funcionamento das
principais instituições sociais, tais como a prisão, a família, a fábrica e a escola. Deve­se
enfocar dois aspectos desse processo de produção. De início, não se considera a
subjetividade como algo fixo ou dado. É um processo de constante engendramento. Quando
você é cumprimentado pelo seu chefe na oficina, ou é chamado no corredor pelo diretor do
colégio, uma subjetividade se forma. As práticas materiais oferecidas ao sujeito no contexto
da instituição – quer se trate de ajoelhar­se para rezar ou de trocar centenas de fraldas
formam o processo de produção de sua própria subjetividade. De maneira reflexiva, o sujeito
é, portanto, submetido à ação, engendrado através de seus próprios atos. Em seguida, as
instituições fornecem sobretudo um lugar discreto (o lar, a capela, a sala de aula, a oficina)
onde se opera a produção da subjetividade. As diversas instituições da sociedade moderna
deveriam ser consideradas como um arquipélago de fábricas de subjetividade. No decurso de
uma vida, um indivíduo entra nessas diversas instituições (da escola à caserna e à fábrica) e
delas saem de maneira linear, por elas formado. Cada instituição tem suas regras e lógicas de
subjetivação: “A escola nos diz: ‘Você não está mais na sua família’; e o exército diz: ‘Você
não está mais na escola’5 Em contrapartida, no lado de dentro dos muros de cada instituição,
o indivíduo está pelo menos parcialmente protegido das forças das outras instituições – no
convento, em princípio se está em segurança em relação ao aparelho da família; em casa, em
princípio se está fora do alcance da disciplina da fábrica. A relação entre dentro e fora é
central para o funcionamento das instituições modernas; com efeito, o lugar claramente
delimitado das instituições se reflete na forma regular e fixada das subjetividades produzidas.
Na passagem para a sociedade de controle, o primeiro aspecto da condição disciplinar
moderna ainda é válido, certamente, quer dizer, as subjetividades continuam a ser produzidas
na fábrica social. De fato, as instituições sociais produzem subjetividade mais intensamen­

5 Idem p. 254.

369▼
te do que nunca. Poderíamos dizer que o pós­modernismo é o que obtemos quando a teoria
moderna do construtivismo social é levada ao extremo e toda subjetividade é reconhecida
como artificial. A passagem não é, portanto, de oposição mas de intensificação. Como
dissemos acima, a crise contemporânea das instituições significa que os espaços fechados
que definiam o espaço limitado das instituições deixaram de existir; de maneira que a lógica
que funcionava outrora principalmente no interior dos muros institucionais se estende, hoje, a
todo campo social. Caberia, no entanto, observar que esta oni­crise das instituições varia
muito de acordo com o caso. Por exemplo, nos Estados Unidos, a proporção da população
implicada em uma família de tipo nuclear decresce constantemente, enquanto a proporção da
população carcerária cresce de maneira constante. Mas pode­se também dizer dessas duas
instituições, família nuclear e prisão, que ambas estão igualmente em crise em todos os
lugares, no sentido de que o lugar de sua efetividade é cada vez mais indefinido. Os muros
das instituições desabam; de modo que se torna impossível distinguir fora e dentro. Não se
deveria pensar que a crise da família nuclear tenha acarretado um declínio das forças
patriarcais; pelo contrário, os discursos e as práticas que invocam os “valores da família”
parecem investir todo o campo social. A crise da prisão significa igualmente que as lógicas e

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técnicas carcerárias se estenderam, progressivamente, a outros campos da sociedade. A
produção da subjetividade na sociedade imperial de controle tende a não se limitar a lugares
específicos. Continuamos ainda em família, na escola, na prisão, e assim por diante. Portanto,
no colapso generalizado, o funcionamento das instituições é, ao mesmo tempo, mais intensivo
e mais disseminado. Assim como o capitalismo, quanto mais elas se desregram melhor elas
funcionam. De fato, começa­se a saber que a máquina capitalista só funciona se esfacelando.
Suas lógicas percorrem superfícies sociais ondulantes, em ondas de intensidade. A não­
definição do lugar da produção corresponde à indeterminação da forma das subjetividades
produzidas. As instituições sociais de controle no. império poderiam, portanto, ser percebidas
em um processo fluido de engendramento e de corrupção da subjetividade.
O controle é, assim, uma intensificação e uma generalização da disciplina, em que as
fronteiras das instituições foram ultrapassadas, tornadas permeáveis, de forma que não há
mais distinção entre fora e dentro. Dever­se­ia reconhecer que os aparelhos ideológicos de
Esta­

370▼
do também operam na sociedade de controle, e talvez com mais intensidade e flexibilidade do
que Althusser jamais imaginou.
Tal passagem não se restringe apenas aos países economicamente mais avançados e
poderosos, mas tende a se generalizar no mundo inteiro, em diferentes graus. A apologia da
administração colonial visava à criação de instituições sociais e políticas nas colônias. As
formas não­coloniais de dominação contemporânea implicam igualmente a exportação de
instituições. O projeto de modernização política nos países subdesenvolvidos ou dependentes
tem como finalidade principal estabelecer um conjunto estável de instituições que estão
constituindo a espinha dorsal de uma nova sociedade civil. É necessário lembrar que os
regimes disciplinares necessários para estabelecer o sistema taylorista mundial de produção
exigiram a existência de toda uma gama de instituições sociais e políticas. Não é difícil
apontar exemplos dessa exportação, direta, individualizada, de instituições (que apenas
indicam um processo mais geral e difuso), em que instituições­mães dos Estados Unidos e da
Europa adotam e protegem instituições ainda balbucíantes: sindicatos oficiais, como a AFL,
formam e estimulam sucursais estrangeiras; economistas do mundo desenvolvido contribuem:
para a criação de instituições financeiras e ensinam a responsabilidade fiscal; e até mesmo
parlamentos e o Congresso dos Estado Unidos ensinam as formas e os procedimentos de
governo. Em suma, enquanto no processo de modernização os países mais poderosos
exportavam, para os países dependentes, formas institucionais, no atual processo de pós­
modernização o que se exporta é a crise geral das instituições. A estrutura institucional do
império é como um programa de computador que conteria um vírus, de forma que ele
modularia e corromperia continuamente as formas institucionais que o cercam. Devemos
esquecer qualquer noção de seqüência linear de formas pelas quais cada sociedade deveria
passar – do suposto “estágio primitivo” até a “civilização” –, como se, atualmente, as
sociedades da América Latina ou da África pudessem tomar a forma que a sociedade
européia tinha há cem anos. Cada formação social contemporânea está ligada a todas as
outras, como parte do projeto imperial. Aqueles que hoje exigem com veemência uma nova
constituição da sociedade civil, como meio de transição para se sair dos Estados socialistas
ou de regimes de ditadura, são simplesmente nostálgicos de um estádio anterior da sociedade
capitalista e estão presos ao sonho de uma modernização política que de fato não era assim
tão cor­de­rosa quando ainda tinha

371▼
certa efetividade. Mas pouco importa: a pós­modernização imperial faz disso tudo,
irrevogavelmente, algo do passado. Tendencialmente, a sociedade de controle está, em todos
os lugares, na ordem do dia.

CONCLUSÕES
Gostaria de propor três hipóteses em relação à sociedades de controle – três hipóteses
embrionárias, mas que talvez possam contribuir para o debate. Primeira hipótese. A
sociedade de controle (imperial ou pós­moderna) se caracteriza pela corrupção. Já a
sociedade moderna, como se sabe, se caracterizava pela crise, ou seja, por uma contradição
bipolar e uma divisão maniqueísta. Pensem, se quiserem, na Guerra fria ou no modelo
moderno do racismo. A sociedade de controle, ao contrário, não se organiza em torno de um
racis
conflito central, mas em uma rede flexível de microconflitualidades. As contradições, na
sociedade imperial, são múltiplas, e proliferam em todos os lugares. Os espaços dessa
sociedade são impuros, híbridos. O conceito que a caracteriza, portanto, não é o de crise,
mas o de oni­crise ou, como prefiro dizer, de corrupção.
Não se deve dar aqui um sentido nem moral nem apocalíptico ao conceito de corrupção. É
preciso concebê­lo à maneira de Aristóteles, como o processo inverso ao da geração, como
um devir dos corpos, um momento no vaivém da formação e deformação das subjetividades.
É necessário pensá­lo, portanto, segundo sua etimologia latina: com­rumpere, esfacelar­se.
Se a máquina capitalista só funciona se esfacelando, como bem dizem Deleuze e Guattari, a
sociedade de controle também se esfacela e só funciona se esfacelando. Eis sua corrupção.
Segunda hipótese. A sociedade de controle representa uma etapa posterior em direção a uma
sociedade propriamente capitalista, no sentido de que ela propõe uma forma de soberania ou
uma forma de governo que tende para o campo de imanência. Ora, parece­me que, na época
moderna, sempre houve um conflito entre a transcendência da soberania e a imanência do
capitalismo. O conceito de soberania moderna sempre marcou uma transcendência, ou seja,
uma superioridade e uma distância entre o poder (do Estado por exemplo) e as potências da

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9/30/2016 desobedecendo: A SOCIEDADE MUNDIAL DE CONTROLE (Michael Hardt)
sociedade. Até mesmo a noção de instituição na sociedade disciplinar, com sua
territorialização e estriamento do espaço social, indicava uma certa distância, uma certa
transcendência em relação às forças sociais imanentes. Já o capitalismo não é uma forma
transcendente. Segunde Deleuze e Guattari: “o capitalismo define um campo

372▼
de imanência e não pára de preencher esse campo. Mas esse campo desterritorializado se
encontra determinado por uma axiomática [...]”6. O desmoronamento dos muros das
instituições que caracteriza a passagem para a sociedade de controle constitui uma
passagem para o campo de imanência, para uma nova axiomática social, talvez mais
adequada a uma soberania propriamente capitalista. Mais uma vez, como o próprio
capitalismo, a sociedade de controle só funciona se esfacelando. Com a sociedade de
controle, chegamos, enfim, a uma forma de sociedade propriamente capitalista, que a
terminologia de Marx denomina a sociedade da subsunção real.
Terceira e última hipótese. Não se pode pensar a sociedade de controle sem se pensar o
mercado mundial. O mercado mundial, segundo Marx, é o ponto de partida e o ponto de
chegada do capitalismo. Com a sociedade de controle, chegamos finalmente a esse ponto, o
ponto de chegada do capitalismo. Como o mercado mundial, ela é uma forma que não tem
fora, fronteiras, ou então possui limites fluidos e móveis. Para retomar o título de minha
exposição, a sociedade de controle já é, de modo imediato, uma sociedade mundial de
controle.

6 L'anti­ Œdipe, Paris, Minuit, 1973, p.298.
HARDT, Michael. A sociedade mundial de controle. In: Alliez , Éric . Gilles Deleuze: uma vida
filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.

Postado por desobediente às 9:17 PM 
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