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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

RESENHA DA 1ª PARTE DA OBRA “FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO”


PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 13. ed. São Paulo: Companhia das Letras,
1973.

SÃO PAULO
2019
Vida Social

Organização Social

Prado Jr. inicia a abordagem por meio da menção à escravidão no Ocidente, que se
mistura com um instituto servil na América, isto é, um misto entre mundo antigo e moderno,
sendo o primeiro referente à representação do escravo enquanto resultante do processo
evolutivo natural que possui raízes em um passado remoto, enquanto a escravidão
moderna é tecida enquanto desvinculada de qualquer passado ou tradição. Prado Jr, no
entanto, traz a contribuição do escravo preto ou índio à formação brasileira enquanto
passiva, em função de sua presença e difusão de sangue. Nesse sentido, o estigma da raça
negra (ou do mulato escuro) mostra-se indelével, perpassando um sentido de discriminação
de classes voltada à cor da pele, situação que se reflete nos usos e costumes legais.
Ademais, refere-se ao contato entre senhores e escravos enquanto um papel
paternal e protetor daqueles em relação a estes. Por outro lado, o papel central da
escravidão na economia mostra-se evidente, apesar de que há necessidade de distinguir
entre atividades produtivas e serviço doméstico. Outros dois aspectos que se pode trazer
são: o crescimento populacional e a ausência de ocupações normais e estáveis, o que
implicou em marginalização de uma grande quantidade de indivíduos; e o papel da Igreja e
seu respectivo clero responsável por uma segunda esfera administrativa, presente nas
dependências do grande domínio.
Enfatiza-se o uso de duas fontes: Luís dos Santos Vilhena, na obra “Recopilação de
notícias soteropolitanas e brasílicas contidas em XX cartas, publicada pela Imprensa Oficial
do Estado da Bahia em 1927; e John Luccock, em “Notes on Rio de Janeiro and the
southern parts of Brazil, taken from 1808 to 1819”, publicada em Londres na data de 1820.

Administração

Prado Jr. observa que o funcionamento da administração dava-se de modo uno, em


que evidentemente havia divisão do trabalho, afinal os representantes do Estado não
poderiam desenvolver atividades em outras áreas sem que aumentasse o poder
excessivamente. Nesse sentido, há a formulação de códigos (Ordenações) que, apesar de
não darem conta de tantos aspectos como os códigos modernos, permitia uma certa
sistematicidade. Entre os ocupantes de cargos, o “governador” apresenta-se como uma
figura híbrida, encarregado das armas, da justiça e da administração em geral. Por outro
lado, basicamente é possível estender os demais órgãos da administração nos setores
militar, geral e fazendário, havendo, o funcionamento, a divisão entre órgãos inferiores e
superiores (instâncias de recursos).
Paralela e concomitantemente, a Igreja, por conta do padroado, nunca deteve
autonomia e independência no Brasil, havendo proeminência do poder real sobre esta.
Além do mais, Prado Jr. ressalta que as atividades essenciais do Estado eram lamentáveis
na medida em que apresentava uma justiça custosa e morosa, além de inacessível pela
população em geral, além de que apresentava, entre outros aspectos, precariedade na
segurança pública. Por fim, observamos que a expulsão dos jesuítas implicará em um
desfalque na colônia de um dos únicos elementos que eram passíveis de promover
atividade social válida.
Entre as fontes dignas de maior ênfase, a “Obras” de João Francisco Lisboa, tomo II,
publicado em 1901, em Lisboa, em razão da ênfase dada ao papel normativa no tocante à
Administração.

Vida social e política

Não é possível deixar de enfatizar o papel da escravidão na análise de Prado Jr.,


distinguindo-se, primordialmente, o papel do escravo e do negro. Este, visto como detentor
de um baixo nível de cultura, não foi capaz de superar a condição de dominado,
diferentemente do que ocorreu no mundo antigo. No que concerne à família, observa-se
que a irregularidade dos costumes sexuais, a escravidão, a instabilidade e a insegurança
econômicas foram motivações que se opunham à constituição da família em sua expressão
sólida; nesse viés, o senhor da casa-grande é a minoria que detém o privilégio enquanto
filho rico da sociedade colonial, sendo, talvez nesse sentido, o casamento uma situação
excepcional.
O panorama traçado da sociedade colonial é o da incoerência e da instabilidade no
povoamento, permeado de pobreza e miséria, além de uma dissolução dos costumes, sem
contar com a inércia e corrupção dos dirigentes (sejam leigos ou eclesiásticos). Quanto ao
povoamento, a incorporação dita apressada de raças e culturas tão diferentes, pautadas no
trabalho servil e na dispersão do povoamento, fundamentam a colonização. Logra-se,
portanto, que o sistema colonial não é uma criação arbitrária e ao acaso, mas incutida de
raízes profundas que a monarquia portuguesa não se imiscui.
Alude-se, também, ao conflito tolhido pela insolvabilidade crônica dos débitos
comerciais da colônia, que fora motivada pela crise do açúcar, no século XVIII, que só faz
mostrar a debilidade da economia e a respectiva má estruturação e condução, diante de um
mercado exterior precário e incerto. Traz Prado Jr. a questão relativa à etnia, isto é, por
conta do escravo preto e, em menor medida, o indígena, responsável por um efeito moral
que acaba por golpear o que melhor haveria a colônia a oferecer.
Enfatiza-se, em relação às fontes, a obra de Nina Rodrigues, “Os africanos no
Brasil”, publicada em São Paulo pela Companhia Editora Nacional, no tocante à presença
dos negros; e o traçado de José Veríssimo, no tocante aos indígenas, “Populações
indígenas e mestiças da Amazônia; sua linguagem, suas crenças e seus costumes”,
publicada an RIHB, nº 50.