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PSICOLOGIA SOCIAL

Invenção das massas: psicologia entre o controle e a resistência

Prof. Me. Márcio Barra Valente


PSICOLOGIA UNAMA ALCINDO CACELA
INTRODUÇÃO
• Europa (Século XVIII).
• Emergência do Estado Moderno e o problema das cidades e das populações.
• Ascenção do Capitalismo liberal*.
• Liberalismo, Direitos e controle dos indivíduos/grupos.

• “Direito à igualdade aliado à garantia que o Estado deveria dar às expressões das
diferenças caraterísticas pessoais. O indivíduos é, assim, alvo e efeito privilegiado
das intervenção e investimentos da sociedade burguesa”
(BARROS; JOSEPHSON, 2013, p. 501)
CAPITALISMO LIBERAL
• Fases do Capitalismo
• Primeira Fase - Capitalismo Comercial ou Pré-Capitalismo: Essa fase estende-se do século XVI ao
XVIII, iniciando-se com as Grandes Navegações e Expansões Marítimas Europeias. O acúmulo de
riqueza era gerado através do comércio de especiarias e matérias-primas não encontradas em solo
europeu.
• Segunda Fase - Capitalismo Industrial: Inicia-se com a Revolução Industrial. O acúmulo de riqueza
provinha do comércio de produtos industrializados das fábricas europeias. Enorme capacidade de
transformação da natureza, por meio da utilização cada vez mais de maquinas movidas a vapor,
gerando uma grande produção onde a multiplicação dos lucros era cada vez maior.
• Terceira Fase - Capitalismo Monopolista-Financeiro: Iniciada no século XX (após término da Segunda
Guerra Mundial) e estendendo-se até os dias de hoje. Uma das consequências mais importantes do
crescimento acelerado da economia Capitalista foi brutal processo de centralização dos capitais.
Várias empresas surgiram e cresceram rapidamente: Indústrias, Bancos, Corretoras de Valores, Casas
Comerciais e etc. A acirrada concorrência favoreceu as grandes empresas, levando a fusões e
incorporações que resultaram a parti dos fins do século XIX, na monopolização de muitos setores da
economia.
• https://www.sohistoria.com.br/ef2/capitalismo/
INTRODUÇÃO
• Emergência de condições de constituição de um modo-padrão de experimentar as
relações no mundo (EUROPEIA - COLONIZAÇÕES)
• Exercício de um poder que se exerce como incitação a um modo de viver que
individualiza, a experiência subjetiva da e na modernidade é do Modo-indivíduo.
• Tecnologias sociais que tornam o corpo do indivíduo individual (MAS não todos os
corpos, pois os corpos das mulheres permanecem na fronteira entre
individual/coletivo, conforme as conveniências das elites).
• Medicina moderna; Sociologias; as Ciências PSI (Psiquiatrias, Psicanálises,
Psicologias); Políticas Estatísticas e outras
• “Cria-se uma estrutura de vigilância contínua e anônima, fixando e regulando os
movimentos e ações de cada um ” (BARROS; JOSEPHSON, 2013, p. 501).
INTRODUÇÃO
• “Sociedade , entendida como soma dos indivíduos, comporia um
todo que deveria funcionar para viabilizar tais interesses
individuais” (BARROS; JOSEPHSON, 2013, p. 502).
• Fabricas. Homogeneização do tempo e dos espaços. Produção. Parte/todos como
estratégia de criar a ilusão comunitárias entre os indivíduos (ideologias de grupo,
identidades nacionais, religiões e afins).
• Nascimento da biopolítica, isto é, um conjunto de estratégias que operam a partir
da medicina social e outras ciências da saúde/social, tendo como o intuído fazer
emergir o individuo corpo enquanto corpo coletivo e produtivo.
Medicina social e controle das populações
• Grandes Cidades da Europa e aumento das populações
Revoltas de camadas populares; desemprego e ausência de oportunidades de
trabalho assalariado; criminalidade; pobreza e miséria; problemas sanitários,
doenças, escassez de moradias, falta de comida...
Medicina Social emerge com o objetivo de explicar e prever o aparecimento das
agitações dos pobres no início do século XIX na Europa. Conhecimento que
subsidiaria os mecanismos estatais de repressão das agitações/agitadores e
agitadoras.
TURBAS – expressão usada para nomear os movimentos ingleses e franceses
(mais tarde serão os socialistas e comunistas ou apenas taxados assim) que
reivindicavam melhores condições de trabalho.
Medicina social e controle das populações
• As turbas “passaram a causar pânico, pois eram vistas como capazes de atos
desenfreados e considerados irracionais. Sobre elas essa medicina investirá seu
olhar, numa tentativa de não mais esquadrinhar apenas os corpos dos indivíduos,
mas o corpo das populações, dos grandes grupos que organizados ou não, lutavam
por direitos até então não reconhecidos” (BARROS; JOSEPHSON, 2013, p. 503).
• O Estado desempenha o papel de orquestrador-produtor da operação biopolítica,
a partir de diferentes tecnologias de saber e poder, as quais agregam médicos,
psiquiatras, sociólogos, psicanalistas, psicólogos, policias e exércitos. Todos
sempre terão como principio ocultador a defesa da higiene e da saúde.
• Luta e resistência.
A invenção das massas e sua criminalização
• Assim, entre 1837 e 1948, na Europa inglesa e francesa, ocorrem
insurreições operarias (operários; liga comunista), marcadas pelas
lutas entre burgueses republicanos e proletários socialistas.
• IMPORTANTE -Comuna de Paris, primeiro governo operário da
história europeia, fundado em 1871 na França como forma de
resistência contra as elites que queriam o retorno do regime
monárquico: mudanças e permanências.
• Desde modo, o século XIX foi marcado pelos movimentos de massa
que surpreenderam as elites e os administradores dos Estados, não
sendo mais compreendidas menos como “agrupamento de
indivíduos” e mais como “coletividades”. Posto poderem funcionar
de modo organizado e não apenas como as turbas.
• Neste sentido, as elites e seus intelectuais passam a pensar de outro
modo a relação entre individuo e o grupo. Nasce assim a “massa”
como um problema político, filosófico e científico – controle e
criminalização.
Os intelectuais e as massas humanas
• Gabriel Tarde (1843-1904)
• Delito como algo influenciado pelo meio – “delito de
grupo”.
• Pessoas agrupadas não são grupos sociais. É preciso um
elemento agregador – língua, classe, educação,
nacionalidade etc. – que potencialize um agrupamento
em agrupamento social.
• Multidão como agrupamento social (líder)
• Periculosidade (natureza criminosa e não ato).
• Multidão irracional. Publico racional
• Quando uma opinião se propaga, ela produz efeitos de
similitude de pensamento, assim, de individual se torna
um fato coletivo.
Os intelectuais e as massas humanas
• Gustavo Le Bom (1984-1913):
• Multidão como agrupamento de muitas pessoas que se
influenciam mutuamente, sendo composta por elementos
heterogêneos. Por isso, formam como se um “corpo vivo”.
• Comunicação entre as emoções e opiniões, reforçada pela
simpatia e imitação. Automatismo de contágio emocional.
• Na multidão perdemos o autocontrole, podemos, portanto,
atuar de modo impulsivo, irracional e até mesmo bestial.
• Massas possuíam uma “natureza feminina” (pensamento
machista da época).
• Massas poderiam ser conduzidas por líderes, sendo eles, em
sua maioria, neuróticos, exaltados e quase loucos.
Os intelectuais e as massas humanas
• Sigmund Freud (1856-1939):
• Psicologia das massas do autor tem como objetivo
explicar o fato de que, sob determinadas condições, os
homens se comportam de forma totalmente diferente de
sua forma usual.
• Porque na multidão nós nos comportamento de modo
não apenas diferente, mas totalmente diferente do
modo comum a nós?
• Na massa as pessoas se fundem emocionalmente. Mas
diferente de Le Bom, Freud argumenta dois fatores:
sugestão reciproca e prestigio do líder;
Os intelectuais e as massas humanas
• sugestão reciproca – cada sujeito projeta sobre os
outros e sobre o líder a idealização do que cada ego
individual estruturou para si próprio (identificação
libidinal – amor e ódio).
• prestigio do líder – a multidão projeto no líder aquilo
que deseja para si (amor ou ódio), portanto,
identificação e relações libidinais;
• Libido - energia afetiva que possibilita a relação de
tudo o que é suscetível de ser compreendido como
objeto amoroso (e de ódio). Identificação marcada pela
relação libidinosa objetal (pulsão sexual) em direcional
ao mundo e seus objetos (humanos e não humanos).
Os intelectuais e as massas humanas
• A relação, então, entre a multidão e o líder é
baseada identificação libidinal.
• Entretanto, Freud “retira as massas do lugar de
impotência [descontrole e irracionalidade] e deixa
transparecer sua potencia, não mais subserviente
aos desejos do líder, visto que são indivíduos que o
forjam e a ele outorgam poder” (BARROS;
JOSEPHSON, 2013, p. 512-513).
Os intelectuais e as massas humanas
• Wilhelm Reich (1897-1957)
• Reich considerava as neuroses como fruto da repressão moral e social imposta
às pulsões sexuais (energia libidinal, sexo e orgasmos).
• Repressões sustentadas pela Igreja, Estado e família, figuras autoritárias,
patriarcais e conservadoras (submissão das mulheres)
• Reich viu a ascensão e queda do regime Nazifascista. A partir disso elabora a
tese que de “as massas não foram iludidas, elas não se enganaram e não foi
por desconhecimento que aceitaram o fascismo. Tampouco credita a expressão
do fascismo a uma política ou projeto econômico estatal falidos: naquele
momento e naquelas circunstancias, as massas desejavam o fascismo”.
• O fascismo, de alguma maneira, representava a moral repressora da família
patriarcal, autoritária e nacional, presente nas estrutura psicológica que
organizava as elites, as classes medias e o proletariado alemão.
• Nazifascismo fazia sentido dada a tradição autoritária e cotidiana presente nas
relações familiares e grupais da época.
FITA BRANCA
• Às vésperas da Primeira Guerra Mundial
estranhos fatos assustam os moradores de uma
pequena vila alemã que vive sob as ordens de um
médico, um barão e um pastor. Sem sinais
suspeitos, os incidentes parecem ser um ritual de
punição e um jovem professor tenta desvendar os
mistérios (Alemanha - 2009).

• https://www.youtube.com/watch?v=I0wbigsxWZs
As massas humanas e sua força
• Os movimentos das massas, no século XIX, se constituíram como contraponto
fundamental e de resistência as crueldades das elites, dos sistemas colonialistas e
do capitalismos, assim como do modo de subjetivação individualizante.
• O fato das massas serem percebidas, em linhas gerais, como irresponsáveis,
incontroláveis mostra o caráter desestabilizador delas. Por isso, sua criminalização
e estigmatização (até hoje) promovida pelas elites e seus funcionários,
conscientes ou não conscientes disso.
• Importância de compreender e mapear os movimentos de massa, assim como de
grupos, quanto a sua importância questionamento e disrupção frente aos
processos de dominação, repressão e violência seculares.
As massas humanas e sua força
• Os saberes PSIS sempre foram compromissados com as elites ou parte delas. No
início do século XIX, as Psicologias e Psicanálises tornaram-se, apesar das
vontades individuais distintas, aliadas em torno das estratégias para o controle
das massas e da ordem social vigente, higienista e civilizatória.
• Entretanto, o passado das psicologias e psicanálises, especialmente, aquilo que foi
feito por alguns grupos a partir delas, não determina sua atualidade nem seu
futuro. Embora condicione ambas até nossa atualidade.
• Por isso, tal situação convoque os novos psicólogos e psicólogas, assim como
psicanalistas, a se posicionarem diante dos opressores e seus esquemas de
dominação política, simbólica e do pensamento.