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Velocidade

de Escape
direção e texto
Ana Vitorino
Carlos Costa
João Martins

cenografia
Inês de Carvalho
sonoplastia
João Martins
desenho de luz
Pedro Correia
vídeo
Nuno Barbosa
coordenação de montagem
Zé Diogo Cunha
coordenação de produção
Teresa Camarinha

interpretação e cocriação
Mafalda Banquart
Pedro Carreira
Tiago Araújo

coprodução
Visões Úteis
TNSJ

dur. aprox. 1:00


M/14 anos

Teatro Carlos Alberto


16­‑18 março 2018
sex 21:00
sáb 19:00
dom 16:00

estreia

O TNSJ É MEMBRO DA
Guardar para deitar fora
Jorge Louraço Figueira*

1. Das várias histórias a uso para ‑saídos das escolas, que incluiu já a Erva A frase final é dirigida, subtilmente,
interpretar este espetáculo, talvez a mais Daninha, A Turma, a Porta 27, o Teatro ao público. A essa provocação cada
saborosa seja a da tentativa de encontrar Anémico e, atualmente, o Cão à Chuva. um responderá à sua maneira, findo o
quem queira ficar com o arquivo de Paulo Além disso, a partir deste ano, os Visões espetáculo, fora do papel de espectador,
Lisboa, mentor e fundador dos Visões têm também um programa de apoio imaginando o que faria.
Úteis, desaparecido prematuramente em a criadores veteranos, que começará
1996. São cinco caixas depositadas no em breve, com Mário Moutinho como 2. O Jogo do Preferias faz lembrar o
arquivo do grupo, como um sinal do que primeiro parceiro. teste da máquina Voight­‑Kampff, famoso
pode vir a ser: ficarem reduzidos a um Nos últimos trabalhos, encontramo­‑los pelo menos entre os fãs do filme Blade
conjunto de caixas, numa estante alheia, a tentar lidar precisamente com tudo Runner, adaptado a partir de uma obra
que nem a família nem os municípios de isso. A transmissão da herança foi tratada de Philip K. Dick. O teste consiste numa
origem, nem ninguém, perfilha. O arquivo diretamente num espetáculo muito série de perguntas, criadas para distinguir
dos Visões começa, de facto, não em 1994, recente, Teoria 5S, uma espécie de autómatos de pessoas pelas suas
com a fundação do grupo, mas um pouco prequela deste, com atores da geração reações às hipóteses apresentadas. Estes
antes, nessa espécie de pré­‑história, anterior em palco (Óscar Branco e Jorge autómatos, aqui chamados replicantes,
correspondente aos anos em que os Paupério) e um gigantesco arquivo de são tão perfeitos que chegam a enganar
membros do grupo trabalharam no teatro dezenas de caixas em cena. Em Velocidade o próprio criador. Logo na cena inicial,
universitário, em Coimbra, no CITAC, com de Escape, a questão da reprodução um funcionário da empresa que cria os
o encenador brasileiro. O arquivo dentro social é retomada, desta feita com atores replicantes aplica o teste a um suspeito.
do arquivo é, na verdade, do grupo que mais novos (Mafalda Banquart e Tiago A pergunta é a seguinte: “Está num
Paulo Lisboa trouxe para Portugal. Cada Araújo), e o património reduzido a uma deserto, sozinho, e de repente olha para
vez que entram no escritório ou na sala caixa. Pedro Carreira, menos presente nos baixo e vê uma tartaruga. Baixa­‑se e
de ensaios está lá esse arquivo morto, últimos anos, regressou ao grupo para vira a tartaruga de costas para cima.
como um corpo estranho e familiar ao esta produção, encarnando uma figura a A barriga dela fica a queimar ao sol e ela
mesmo tempo. Para terminar a anedota da quem cabe decidir o que fazer com essa balança as pernas, tentando virar­‑se,
dificuldade de se livrarem de um arquivo última caixa. mas não consegue sem a sua ajuda. Vai
alter­‑ego, só falta o nome do outro grupo: Dentro da caixa há outra caixa. Na ajudar ou não?” O replicante nem sequer
Companhia Absurda. Velocidade de primeira, está escrito “Para guardar”. consegue imaginar a situação em abstrato
Escape é uma tentativa de tratar do futuro Na segunda, pode ler­‑se “Para deitar fora”. e interrompe de imediato o entrevistador
antes que o futuro trate de nós. O que fazer? O dilema não é apresentado para perguntar de que deserto se trata.
Os vinte e tal anos do grupo deixam­‑no de início. Até chegar a esse momento, a Como é que ele chegou a esse deserto?
a meio caminho dos quarenta e tal anos personagem principal, a que realmente Não faz sentido divagar sobre um dilema
que nos separam do 25 de Abril, isto é, dos vive o dilema de abrir ou não abrir as ético, a menos que seja numa situação
pactos e conciliações que forjaram o atual caixas, vai ensaiando paradoxos com dois concreta, parece pensar o androide.
estado das coisas – tanto no meio artístico convidados, na esperança de obter uma Quando a pergunta é sobre a mãe, que
como, por exemplo, no Serviço Nacional resposta. Com o pretexto de passarem não tem, então o indivíduo dá o jogo por
de Saúde. Tendo nascido no seio do teatro uns momentos agradáveis, a personagem perdido. A resposta são dois disparos de
universitário e crescido numa época de Pedro retira do bolso um cartão e lê, pistola sobre o entrevistador. A resposta
desenvolvimento de políticas públicas, por exemplo, a seguinte frase: – “Vocês verbal, na verdade, pouco importa. Para
o grupo é hoje em dia uma instituição, preferiam… só poder usar vinte palavras saber se dada pessoa é muito, pouco
estando ligado a várias organizações, a vida toda ou nunca poder repetir cada ou nada humana conta mais a reação.
nacionais e internacionais, para palavra depois de a usar?” E como este, Quando confrontado com uma situação
desenvolver a sua atividade. Sobreviverá inúmeros dilemas menores, conduzindo hipotética, o pragmático androide
aos seus fundadores. Os Visões têm, ao dilema central, serão apresentados, reafirma o seu contexto imediato, não
pois, uma noção muito clara do seu papel até que os convidados percam a paciência. especula. Ao contrário, as personagens
na passagem de testemunho dos mais Não é caso para menos. Os dilemas são de Velocidade de Escape refletem o mais
velhos aos mais novos. Se estes eram impossíveis de desfazer, porque a saída que podem sobre as consequências da
temas em que ninguém pensava há vinte é sempre má. O objetivo do jogo é jogar, sua escolha, precisamente na condição
anos, agora, já com filhos, e cada vez mais não é solucionar problema algum. Na de ela não ter consequências imediatas.
caixas na sede, a imagem é incontornável. tentativa de responder ao dilema posto As suas circunstâncias concretas são
Tanto mais que, das companhias fundadas pela caixa dupla (guardar ou deitar fora ignoradas, para poderem continuar a
no Porto nesses meados da década de o que quer que lá esteja), revelam­‑se os jogar, em vez de fazerem alguma coisa.
1990, só os Visões restam. jogadores, não tal como são, mas como Talvez a personagem central de Velocidade
Talvez por isso, o grupo tenha, desde poderiam ser, eventualmente, conforme de Escape não queira realmente decidir,
há anos, um programa de apoio a novos as hipóteses admitidas. O espetáculo nem agir, mas antes continuar na dúvida, a
coletivos, constituídos por artistas recém­ inclui os espectadores no jogo, também. refletir continuamente, e por isso tenha
tantos cartões do Jogo do Preferias no prevalecem protocolos informais que novo tempo, os Peer Gynt convertem­‑se
bolso. De facto, quem age são os dois sustentam a relação, o principal dos quais voluntariamente, às vezes festivamente,
convidados, quando se cansam de brincar é a promessa de pagamento. Em função sem tempo para mais, em moeda de
e se vão embora, tal como quem age é o disso, os Visões regularam todo o processo troca. Essa é a ameaça que paira sobre
androide que mata ou o androide que foge. de produção segundo os preceitos mais os membros dos Visões Úteis, na crise da
Como age o público quando colocado habituais, cumprindo à letra cada norma meia­‑idade, quando se perguntam o que
perante semelhantes dilemas? (O leitor legal ou princípio de gestão. Com a verdade fazer com o passado. A mesma ameaça
pode fazer o teste e ficar a saber se é um nos enganam: a descrição do processo de paira sobre um país cuja democracia vive
replicante em www.bfi.org.uk/are­‑you­‑a­ trabalho experimentado nesta produção há algum tempo na mesma crise, tendo mais
‑replicant.) é autêntica, mas irónica. A eficiência e a ou menos a mesma idade: o que guardar
As respostas aos testes dão resultados produtividade anunciadas são uma paródia e o que deitar fora? Em que se transformará
falsos, no fim de contas. A história da da formalização burocrática e gestionária o país se derreter o passado?
máquina Voight­‑Kampff mostra que a dos apoios e do trabalho a que os Visões, De Peer Gynt a Blade Runner, o
humanidade está, como se sabe, tanto como outras entidades, das mais diversas espectador usará as fábulas que bem
nos atos como nas palavras. Revelam­‑se áreas, são obrigados. O método é seguido entender para descodificar a mensagem,
tão humanos os androides que lutam com suficiente distância para nos fazer se a houver, conforme quiser. Velocidade
pela sobrevivência como as várias lembrar que esses processos são e devem de Escape é um jogo simbólico que se
personagens cínicas do filme. Na peça, ser apenas instrumentos, não fins em si aplica à vida de cada um, ou não. Há
os dois convidados vão respondendo aos mesmos. Uma fábrica, mas nem tanto. a possibilidade de o espetáculo estar
dilemas como os androides respondem relacionado não só com a vida pessoal,
ao teste, com a diferença – em relação ao 3. Outra história, reutilizada: quando era mas também com a vida coletiva. Este
androide da cena inicial de Blade Runner criança, Peer Gynt, o protagonista da peça espetáculo é um simulacro concentrado
– de jogarem mais pacientemente o jogo homónima de Ibsen, brincava com uma – e irónico – da realidade mediada pelos
do anfitrião. Ao inverter a história, é este velha concha de fundir estanho e fingia órgãos de comunicação e pelas redes
último, absorto no seu dilema maior, que era um fundidor: “Derretia os botões sociais. Podemos colocar a hipótese
indiferente ao contexto imediato, que se velhos, punha na forma e moldava botões de a caixa dupla ter coisas comuns ao
revela mais autómato que os autómatos. novos” – conta a mãe quando encontra a grupo, aos espectadores do Porto, aos
Os dilemas do anfitrião de Velocidade velha concha. Um dia, pediu estanho ao pai. portugueses, que são para guardar e para
de Escape têm a forma genérica do impasse. “Qual estanho!”, respondeu o pai, apesar deitar fora. E talvez estas coisas façam
Para os convidados, porém, a forma é a do de estar tão embriagado que não distinguia sentido umas nas outras, mesmo tendo
contrato que se pode romper a qualquer um metal do outro: “Dou­‑te é uma moeda escalas diferentes. Como seria um Jogo
momento. Aceitando essas condições, de prata, para todos saberem que és o filho do Preferias aplicado a um país inteiro?
o convidado é reduzido a uma coisa, da de Jan Gynt!” Por isso é que o cobrador “Preferias ter eleições manipuladas ou não
qual o anfitrião espera um desempenho. de almas aparece a Peer na forma de um ter eleições?” Se colocarmos a hipótese de
Estes convidados, à primeira vista, não têm fundidor de botões, que vem reciclar a caixa dupla representar uma coisa comum
passado nem futuro, nem idiossincrasia. a alma pecadora, aliás, meio­‑pecadora: aos portugueses, o que seria? O Governo?
Seguem o protocolo, seja ele qual for. “Pois, nunca foste competitivo em matéria “Guardar para deitar fora – a paz, o pão,
São como papel­‑moeda, leve e facilmente de virtudes, nem competente em termos habitação, saúde, educação”? A chamada
cambiável. Têm o destino determinado por de pecados. Ficaste no meio do caminho, Geringonça será fundida a breve trecho?
quem os possui. O impasse do anfitrião em não és uma coisa nem outra.” As ordens que No final de Blade Runner, dois dos androides
relação a eles, em particular, decorre do o fundidor recebeu são muito explícitas: salvam­‑se um ao outro por se terem
facto de, apesar de os considerar objetos “Buscar o Peer Gynt, um recém­‑chegado, / apaixonado. Peer Gynt é temporariamente
determinados, esperar que respondam Que fracassou na missão. / É um produto salvo por causa da fé, esperança e amor de
com autonomia, contradição que tem de se falhado / A ser fundido no caldeirão.” Solveig – aos braços de quem o nosso herói
resolver por algum lado. Os convidados hão A história de Peer Gynt ajuda a identificar regressa. Quem salvará a Geringonça se
de responder de vez, quando abandonarem a fungibilidade dos convidados de não os próprios portugueses?
o anfitrião, dando o contrato precário por Velocidade de Escape. Esse cobrador de
findo, tal como o replicante responde com almas já não chega às personagens no fim * Dramaturgo, investigador teatral.
um tiro à pergunta do teste para a qual não da vida, mas sim todos os dias. Quem não
tem resposta certa. Eles não têm nada estiver à altura do desafio é convertido
a perder. noutra coisa, e isto em ritmo diário.
A ironia está no facto de os cúmplices O estado líquido a que se convertem as
do grupo verem imediatamente que os almas é o estado padrão. Gynt adiou a
contratos que são provisórios não são cobrança da alma ao mostrar que tinha um
contratos, mas mera angariação de mão­ valor absoluto, para alguém, e não apenas
‑de­‑obra. Para lá dos protocolos oficiais como meio para atingir um fim. Mas, no
“Teria de estar um céu cinzento…”
Ana Vitorino, Carlos Costa, João Martins

1. Fazer um losango: No início era um integrava notas e mensagens íntimas, velhos, a quem devíamos alguma parte
binómio, como os que tantas vezes mas porque não conseguíamos convencer do que fomos construindo, seja por
surgem na planificação do nosso trabalho, nenhuma instituição (nem sequer a família colaborações passadas seja por tangentes
nascidos de uma vontade de explorar dos protagonistas) da necessidade de o misteriosas e salvadoras. Tivemos por
diferentes vertentes ou perspetivas de salvaguardar. Talvez por isso essas cinco isso a companhia do Óscar Branco e
um mesmo tema, ou diferentes temas caixas IKEA coloridas nos lembrassem do Jorge Paupério, (representando) a
intimamente relacionados, ou diferentes quotidianamente o caráter transitório de geração anterior, bem mais próxima do
dispositivos. O ponto de partida foi a nossa tudo o que fazíamos e a impossibilidade fim da vida do que a nossa, mas nem por
relação com o arquivo, com o lastro que e inutilidade de salvar a nossa memória. isso – ou talvez por isso? – minimamente
criamos ao longo da vida, e que às vezes preocupada com as questões que nos
se torna tão volumoso, tão pesado, que 3. Ligar a estrutura: A verdade é que motivavam. E assim nos fomos habituando
chega a paralisar ou mesmo a substituir a no processo criativo de Teoria 5S não a sessões de trabalho incontroláveis, em
vida. Daqui para uma bifurcação: porque resistimos a convocar a participação de que a todo o tempo tínhamos que parar
confrontarmo­‑nos com o nosso arquivo, engenheiros e gestores que nos visitaram, para mais uma história que aqueles “velhos
olhar para o passado e para o seu papel apontando as gritantes falhas em que artistas” achavam imprescindível contar.
naquilo que somos pede um confronto incorríamos, seja porque não éramos Não admira então que a primeira decisão
com a nossa ideia de futuro, com a nossa capazes de descartar o inútil ou arrumar o – sobre como passar do velho mundo da
projeção do que queremos (ou ainda útil, seja porque nós próprios não seríamos Teoria 5S para o (admirável) mundo novo
podemos vir a) ser. Para se ocupar do as pessoas adequadas ao funcionamento da Velocidade de Escape – fosse descartar
primeiro tema criámos Teoria 5S, uma de uma organização como a nossa. pessoas da cena. Não só descartar o Jorge
coprodução com o Teatro Municipal do Infelizmente, não teremos aprendido Paupério e o Óscar Branco mas, já agora,
Porto que estreámos em novembro de grande coisa, já que a nossa primeira tarefa descartar a Ana Vitorino e o Carlos Costa,
2017, e que foi buscar o seu nome a uma no final da temporada de estreia de Teoria diretores artísticos do VU e intérpretes
conhecida metodologia de organização 5S… foi meter tudo outra vez nos caixotes, habituais. Porque eram demasiado
e produtividade. Para refletir sobre o de modo ainda mais desorganizado, para passado para poder servir bem o futuro
segundo, e agora em coprodução com o começar a preparar Velocidade de Escape. sonhado. E se, para o lugar da Ana e do
Teatro Nacional São João, este Velocidade Certo que tínhamos tido alguma mudança Carlos, ainda fomos resgatar ao arquivo
de Escape, título emprestado da Física, que nas nossas vidas: a gaveta das t­‑shirts mais o Pedro Carreira, para o do Jorge e do
a define como “a velocidade mínima que organizada, os talheres postos na máquina Óscar convidámos a Mafalda Banquart
um objeto sem propulsão precisa para se de lavar de modo mais proficiente, alguns e o Tiago Araújo, como quem abre uma
libertar de um campo gravitacional”. sacos de tralha descartados e pouco janela para fazer sair o cheiro a mofo.
mais. Enfim, a revisitação do passado Assim julgámos poder ficar um pouco
2. Cortar duas varas: Arrancar com não nos tinha deixado mais preparados mais perto do novo mundo… apesar de nos
a habitual fase de pesquisa para a para viver o futuro – e asseguravam­‑nos ensaios a Mafalda e o Tiago nos olharem
primeira das duas criações – Teoria 5S – constantemente que o futuro era já hoje. como nós olhávamos o Jorge e o Óscar,
foi extremamente fácil. Desta vez não A piorar tudo, um particular detalhe de como se achassem que o pensamento
tínhamos de ir residir com cientistas, produção: em vez dos habituais doze meses dos (agora nós) “velhos artistas” se perdia
visitar fábricas, reconstruir histórias entre estreias para palco, agora tínhamos constantemente em mais uma excursão,
familiares ou tentar comunicar com a apenas quatro meses, pelo que a nossa mais uma memória, mais uma história.
CIA; nem sequer precisávamos de sair metodologia de trabalho estava condenada
das nossas instalações na Fábrica Social ao fracasso; com ela nunca seríamos 5. Prender uma chave: E pronto, com
porque tínhamos ali tudo: vinte anos de suficientemente proficientes, competitivos, esta equipa renovada, teríamos apenas
acumulação de textos, notas, cadernos, rápidos para entregar o trabalho que nos de ser eficientes, seguindo os conselhos
cartazes, programas, K7 áudio e VHS, DVD tinha sido adjudicado; para mais estando de engenheiros e encenadores, que nos
e, sobretudo, um imenso desentendimento nós no Porto, onde hoje se adjudica arte a diziam que acumulávamos demasiadas
acerca da importância relativa do que torto e a direito, para alavancar tudo e mais camadas no nosso trabalho, seja nas
tinha acontecido e, pior, acerca do que alguma coisa. Ou avançávamos para um prateleiras dos arrumos – os primeiros –
efetivamente tinha acontecido. Aliás, mundo novo ou seríamos arquivados, pior seja na construção dos espetáculos
até tínhamos, numa excentricidade ainda, descartados; ou evoluíamos ou nos – os segundos. E não haveria de ser
quase barroca, um arquivo dentro do extinguíamos. difícil, pensámos, tanto mais que a
nosso arquivo: o da Companhia Absurda, novíssima minuta de contrato/ajuste
coletivo brasileiro radicado em Portugal no 4. Atar o fio condutor: Em Teoria 5S – direto da Entidade Pública adjudicante
início dos anos 90 e muito ligado à génese e porque no nosso arquivo encontrámos do espetáculo afirmava que caso não o
do VU; e neste arquivo­‑dentro­‑do­‑arquivo imensas pessoas –, decidimos que não concluíssemos, alguém o concluiria por
agudizavam­‑se as inquietações do arquivo podíamos avançar (para a cena) sem nós. Quem? Não sabíamos, mas se alguém
VU, não só porque aquele também a colaboração de companheiros mais o podia acabar então nós também teríamos
ficha técnica TNSJ de ser capazes, certo? Fundamental era trabalho para designar este ambiente leve,
produção executiva substituir o caráter moroso, dialogado, de aparente libertação, a linguagem que
Eunice Basto
complexo, atomizado e cheio de excursões nele se usa (contida, eficaz, sem o ónus de
direção de palco
Emanuel Pina dos processos criativos anteriores, que excursões, imprecisões e redundâncias),
adjunto do diretor de palco levava a uma excessiva acumulação de a atitude correspondente (agradável,
Filipe Silva camadas e sentidos; substituí­‑lo por algo flexível, não comprometida). Um lugar onde
direção de cena ninguém se define pelo que possui. Onde
mais rápido que permitisse produzir em
Cátia Esteves
luz menos tempo, que transportasse em si a idade não nos torna necessariamente
Filipe Pinheiro (coordenação), a simplicidade, leveza e acerto do mundo diferentes. Um lugar fácil, onde se cultiva
Adão Gonçalves, Alexandre Vieira, pretendido em cena. E então fizemos o encontro afável, onde não há julgamentos
José Rodrigues, Nuno Gonçalves, também as nossas subadjudicações e de valor. O tempo é todo ele aproveitado,
Rui M. Simão
ajustes diretos de Cenografia/Figurinos/ de tal modo que não precisamos de pensar
maquinaria
Filipe Silva (coordenação), Adereços, Desenho de Luz, Música e Vídeo, nele. Não se desperdiça tempo. Nem
Adélio Pêra, António Quaresma, substituindo os intermináveis blogues gestos. Nem palavras. Não se criam laços.
Carlos Barbosa, Joaquim Marques, internos e reuniões e conversas por quatro Não se perde nada. Aqui podemos estar
Jorge Silva, Lídio Pontes, Paulo Ferreira agradavelmente juntos apesar de nunca
convites/contratos escritos, apenas com
som
António Bica a informação essencial, e draconianos nos termos visto antes. E não nos voltarmos
vídeo quanto a prazos e confidencialidade: a ver nunca mais. O ambiente à nossa volta
Fernando Costa obrigando à entrega de propostas antes do é o que comprovadamente mais estimula a
início dos ensaios e impedindo os artistas diversão, o convívio, o raciocínio, a fantasia,
apoios TNSJ
convidados (colaboradores habituais adaptando­‑se à medida do que precisamos
do VU) de comunicarem entre si até à ou desejamos a cada momento. Aqui já não
apoios à divulgação entrega individual de propostas; todos cabem resquícios inúteis do passado. O que
eles em relação bilateral com o conceito ficou no arquivo, morreu no arquivo. E se
do espetáculo e dando origem ao universo alguma coisa tiver sobrado, se algum lastro
dentro do qual este se desenvolve; num fio se tiver esgueirado e estiver escondido nas
da navalha que arriscava a substituição da sombras, podemos ser sugados de volta à
autoria pela interpretação de tendências Terra, e perdermo­‑nos para sempre!
agradecimentos TNSJ ou algoritmos.
Câmara Municipal do Porto
8. Esperar pelo momento certo: Arquivo
Polícia de Segurança Pública
Mr. Piano/Pianos Rui Macedo 6. Desenrolar e correr: As regras não se e Libertação, “Lado A” e “Lado B”, a geração
ficaram por aqui, porque não seria justo que mais velha e a geração mais nova… foi tudo
O Visões Úteis é uma estrutura os diretores e autores do texto escapassem isto um jogo? Uma experiência conceptual?
financiada por à pressão e não fossem, também eles, Não. Partimos da bifurcação – entender
obrigados a libertar­‑se do modo como o nosso passado ao lidar com o arquivo /
se tinham habituado a fazer as coisas… perceber o que queremos para desenhar
agradecimentos Visões Úteis Determinámos um tempo limite para a o nosso futuro – porque é nela que estamos.
Leonor Quinta, José Reis, Hernâni duração do espetáculo, não o usual “era Nós, os da “meia­‑idade”, somos vítimas
bom que rondasse o tempo x” mas um primeiras desta ansiedade existencialista,
Visões Úteis
Fábrica Social assertivo “será inferior a uma hora”. Uma deste balanço de tudo o que não fizemos
Rua da Fábrica Social, s/n obrigação desenhada para nos manter em e do terror de começarmos a sentir que
4000­‑201 Porto linha com o carácter leve e conciso do novo “já não somos deste tempo”. E muitas
T 22 200 61 44 mundo que queríamos criar. Definimos a vezes tentamos contornar este desnorte
mail@visoesuteis.pt · www.visoesuteis.pt
facebook.com/visoesuteis.teatro
estrutura narrativa, atribuindo um tempo lançando histericamente mão das teorias
twitter.com/visoesuteis preciso a cada uma das suas partes. da moda, de espiritualidades empacotadas,
De seguida, impedimo­‑nos de adotar o de minimalismos radicais. Ou adotamos
Teatro Carlos Alberto nosso característico método de levantar a estratégia contrária, a de olhar com
Rua das Oliveiras, 43
material e partir para a sala de ensaios, desprezo paternalista para o que já não
4050­‑449 Porto
T 22 340 19 00 desenvolvendo livremente as ideias em conhecemos enquanto douramos as nossas
www.tnsj.pt · geral@tnsj.pt improvisações com os atores, para depois memórias, glorificando os nossos hábitos e
voltar “à mesa” e começar a escrever. os pertences de outra era, porque “no nosso
Edição Obrigámo­‑nos a começar por escrever. tempo é que era” e “o que é que eles sabem
Departamento de Edições do TNSJ
coordenação João Luís Pereira
Cenas concretas, modos de ser­‑em­‑cena, agora?”. Em vez de simplesmente vivermos,
fotografia João Tuna operacionalizações da estrutura narrativa. hoje diferentes de ontem diferentes de
design gráfico Dobra Quando os atores chegaram, os limites amanhã, mas sempre parte integrante e
impressão Multitema estavam traçados e eram rígidos. Para nós, definidora de todos esses presentes. É um
os “antigos”, de uma rigidez assombrosa. enigma, é uma metáfora, é um simulacro?
Não é permitido filmar, gravar ou
fotografar durante o espetáculo. É uma história, ora extremamente simples,
O uso de telemóveis ou relógios com 7. Correr mais depressa: Assim chegámos ora extremamente complexa.
sinal sonoro é incómodo, tanto para os ao universo Escapeano. O adjetivo foi
intérpretes como para os espectadores. sendo cunhado ao longo do processo de

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