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SEEU - Processo: 0401846-72.2020.8.07.

0015 - Assinado digitalmente por LEILA CURY:310981


[846.1] OUTRAS DECISÕES - Decisão em 20/08/2020

Documento assinado digitalmente, conforme MP nº 2.200-2/2001, Lei nº 11.419/2006, resolução do Projudi, do TJPR/OE
PODER JUDICIÁRIO DO DISTRITO FEDERAL
CIRCUNSCRIÇÃO JUDICIÁRIA DE BRASÍLIA
VARA DE EXECUÇÕES PENAIS DO DISTRITO FEDERAL - SEEU
FÓRUM PROFESSOR JÚLIO FABBRINI MIRABETE, SRTVS - QD. 701 - LOTE 8R , . - BLOCO N, 2º ANDAR, SALA
205 - BRASÍLIA/DF - CEP: 70.340-000 - Fone: 6131031511 - E-mail: vep@tjdft.jus.br

Autos nº. 0401846-72.2020.8.07.0015

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Processo: 0401846-72.2020.8.07.0015
Classe Processual: Pedido de Providências
Assunto Principal: Jurisdição e Competência
Data da Infração: Data da infração não informada
Polo Ativo(s): Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
Polo Passivo(s): SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DO DISTRITO FEDERAL

Trata-se de novo pedido formulado pelo Ministério Público, requerendo a prorrogação, no mínimo
até o dia 10/09/2020, das suspensões das saídas temporárias, saídas quinzenais, trabalho externo, saídas
terapêuticas e saídas especiais das pessoas em cumprimento de pena privativa de liberdade e medida de
segurança no Distrito Federal.

Pleiteia novo agendamento das saídas (temporárias, terapêuticas e especiais) para após o fim da
crise epidemiológica e pelo restabelecimento do trabalho externo também após a superação da pandemia,
com a devida compensação, no caso específico do trabalho externo, através do reconhecimento da
remição ficta, objetivando a compatibilização entre os direitos do preso e os interesses sociais. (Mov.
836.1)

A Defensoria Pública, por seu turno, ratificou a manifestação precedente contida no Mov.771.1 no
bojo da qual requereu permissão de entrada de um visitante por custodiado durante a vigência das
medidas de proteção da saúde coletiva em razão da pandemia de COVID-19; antecipação da progressão
ao regime aberto dos apenados que cumpram o requisito objetivo até o final do ano de 2020; e, ainda, a
juntada aos autos de relatório das unidades prisionais, indicando os critérios de seleção/agendamento das
visitas virtuais, a quantidade de visitas realizadas e a suficiência, ou não, da quantidade de equipamentos.
(Mov 840.1)

Relatei. DECIDO.

Em consulta ao DEPEN verifiquei que dos 27 Estados da Federação apenas o Acre, Amapá,
Amazonas, Pará, Alagoas, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Espírito Santo estão em processo paulatino
de retorno das visitas presenciais, ainda com várias restrições e retomando, de forma igualmente gradativa
e ainda restritiva, as atividades externas outrora praticadas pelas pessoas privadas de liberdade.

Não por acaso, naqueles Estados da Federação a flexibilização das medidas de suspensão teve por
norte a inexistência de adversidades epidemiológicas dentre a população extramuros, justamente aquela
que integra a lista de visitantes ou com as quais as pessoas privadas de liberdade, vale dizer a população
intramuros, terá contato ao retomar os benefícios externos.

O cenário do Distrito Federal, contudo, diverge daquele vivenciado nos 09 (nove) Estados da
Federação citados em linhas volvidas, pois aqui as adversidades epidemiológicas estão retratadas nos
altos índices de contaminados e de óbitos ocorridos em desfavor da população extramuros.

Destarte, basta a simples consulta aos sites de notícias para facilmente localizar matérias que
reproduzem as informações oficiais relacionadas a pandemia da COVID-19 e seus efeitos nefastos sobre a
população candanga, conforme os exemplos que seguem, litteris:

https://www.correiobrasiliense.com.br/cidades-df/2020/8/4868119-ceilandia-vive-drama-com-o-novo-coronavirus.ht
(destaquei).
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https://www.metroples.com/distrito-deferal/df-teve-a-semana-covid-19-mais-mortal-desde-o-inicio-da-pandemia
(destaquei).

https://www.metroples.com/colunas-blogs/grande-angular/com-66-mortes-df-bate-recorde-diario-e-supera-2-mil-obit
(destaquei).

https://www.metropoles.com/distrito-federal/com-30-mortes-e-460-casos-novos-de-covid-19-df-chega-a-139-195-19

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(destaquei).

https://www.metropoles.com/colunas-blogs/grande-angular/covid-19-com-mais-55-mortes-df-registra-2-097-obitos-e
(destaquei).

https://www.correiobrasiliense.com.br/cidades-df/2020/08/4869423-covis-19-df-confirma-1-435-novos-casos-e-55-m
(destaquei).

https://www.metropoles.com/colunas-blogs/grande-angular/ibaneis-suspende-retorno-das-aulas-nas-escolas-publicas-
(destaquei)

Não é demais relembrar que no bojo da última decisão que proferi há um mês prorrogando a
suspensão dos benefícios externos até a presente data (mov.775.1), ressaltei que o Excelentíssimo Senhor
Governador do DF havia recém flexibilizado as regras que outrora havia imposto à sociedade brasiliense,
porém desde logo deixei expresso que a partir da flexibilização teria havido considerável aumento do
número de infectados e de óbitos, bem como sensível redução dos leitos de UTI e as matérias jornalísticas
acima transcritas confirmam que o cenário piorou, e muito.

De acordo com o Boletim Epidemiológico nº 170 da SES/DF, até 19/08/2020 o Distrito Federal
conta com 124.843 (cento e vinte a quatro mil oitocentos e quarenta e três) casos confirmados de
COVID-19 e 1.969 (mil novecentos e sessenta e nove) óbitos causados pela referida doença, entre
residentes do DF, sendo certo que naquelas reportagens acima citadas referido número é acrescido da
população residente nas cidades do entorno e que aqui buscaram tratamento e acabaram vindo a óbito, o
que justifica a divulgação acima de dois mil óbitos.

E a situação enfrentada pela sociedade brasiliense tanto piorou que na data de ontem Sua
Excelência o Governador do DF, que tem envidado esforços na gestão da crise provocada pela pandemia
da COVID-19, em acolhimento a sugestão conjunta entre os Secretários de Educação e de saúde,
suspendeu o retorno das aulas nas escolas públicas do DF por tempo indeterminado, pois, segundo
declarou à imprensa “tomamos todas as providências para o retorno. Mesmo assim, chegada a hora do
início, e como os números ainda são preocupantes, nossa decisão vai ser a de suspender as aulas
presenciais por tempo indeterminado” (destaquei).

De qualquer forma, deixei igualmente expresso na decisão pretérita que as medidas adotadas pelo
Governo do DF em relação à sociedade extramuros não poderiam (e não podem) ser equiparadas ou
destinadas àquela que vive intramuros, porque as respectivas situações fáticas, jurídicas e logísticas não
são iguais. E, sendo desiguais, não haveria método comparativo.

É de se ver que as pessoas que não estão em conflito com a Lei Penal têm a opção de, mesmo com
a liberação das atividades externas, não saírem de suas casas, faculdade da qual não dispõem as pessoas
presas, que devem se submeter aos cronogramas de atividades dos presídios, sob pena de cometimento de
falta disciplinar.

No que se refere ao sistema penitenciário, foi juntados nestes autos, pelo Ministério Público,
parecer da Coordenação de Atenção Primária à Saúde, cujo conteúdo revela que “ainda não houve
mudança significativa no cenário atual em relação à manifestação anterior memo 50 43178940,
(ocupação de leitos hospitalares e de UTI, a reabertura do comércio, previsão do retorno às aulas,
situação do transporte público, etc)” (destaquei).

Diante desse quadro, a equipe de saúde prisional emitiu parecer conclusivo no sentido de que
a flexibilização das medidas restritivas ora impostas para o sistema prisional, não é aconselhável
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a flexibilização das medidas restritivas ora impostas para o sistema prisional, não é aconselhável
nesse momento, não sendo demais lembrar, inclusive, que na penitenciária feminina o vírus recém
iniciou circulação, na medida em que há apenas 15 mulheres infectadas (destas, 5 recuperadas)
frente a população carcerária de 633 mulheres.

Além do mais, dentro das ATPs, masculina e feminina, que funcionam dentro da
penitenciária feminina, sequer há vírus circulante.

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As sucessivas prorrogações das suspensões dos benefícios externos que venho determinando desde
a madrugada do dia 20 para 21 de março de 2020 foram todas lastreadas em recomendação técnica da
Secretaria de Estado de Saúde do DF; recomendações praticamente unânimes das autoridades médicas e
sanitárias de âmbito federal e internacional; Decretos editados pelo Chefe do Poder Executivo local
relativos a medidas restritivas impostas a toda sociedade; e recomendações de respeitados membros da
comunidade científica que rechaçaram o relaxamento das medidas restritivas adotadas e, ao mesmo
tempo, apontaram para o distanciamento social como uma das medidas mais eficazes para frear a
propagação do vírus SARS Cov-2 e os números acima explicitados, repito, comprovam o acerto das
decisões que proferi.

A VEP/DF considera que a atividade laborativa lícita é um direito consagrado no Ordenamento


Jurídico Pátrio com reflexos processuais e pessoais positivos e, exatamente por isso, contribui para a
ressocialização.

E, justamente por ter firme entendimento nesse sentido, reconheceu a remição ficta em favor de
todas as pessoas presas do DF que tiveram o benefício do trabalho externo suspenso em razão da
pandemia e, ainda, solicitou ao Excelentíssimo Senhor Governador do DF que mantivesse o pagamento
daqueles que recebiam remuneração pela FUNAP.

Além do mais, ao contrário do que tem sido propalado publicamente, a suspensão, excepcional e
temporária, do usufruto dos benefícios externos não alterou as respectivas situações processuais dos
presos em regime semiaberto, que continuaram (e continuam) cumprindo suas penas nas unidades
prisionais correspondentes ao respectivo regime de cumprimento de pena e continuam remindo
fictamente, a exceção daqueles que já foram beneficiados com a concessão de prisão domiciliar, inclusive
na modalidade antecipada.

Afigura-se necessário ressaltar novamente que no dia 12 de março de 2020, quando a OMS
reconheceu a pandemia da COVID-19, o sistema penitenciário do DF contava com 16.376 presos
para 7.582 vagas e, na presente data, o sistema penitenciário do DF conta com 14859 presos para
8.749 vagas, portanto, nesses cinco meses de crise conseguiu criar 1.167 vagas, as quais estão na
iminência de aumentar mais ainda com a entrega prevista para o mês de setembro do corrente ano
de todos os blocos do CDP II ainda em construção.

Observando as experiências internacionais, a VEP/DF adotou as primeiras providências visando a


contenção da COVID-19 no sistema prisional a partir do dia 29/02/2020 (sábado), quando o Governo do
DF decretou estado de emergência na área da saúde, época em que o vírus denominado SARS Cov-2
ainda era uma epidemia e, desde então, já começou a traçar estratégias para conter o seu avanço.

Não se deve olvidar que a COVID-19 é uma doença com elevadas taxas de transmissão e
letalidade, cujos efeitos e as formas de tratamento ainda são desconhecidos e as autoridades sanitárias e
cientistas ainda se debruçam sobre essas questões, em busca da compreensão total acerca do tema e,
principalmente, da cura.

Desde o dia 20 de março de 2020, quando proferi a primeira decisão de suspensão de benefícios
externos até a presente data, a VEP/DF progrediu 2.623 (duas mil, seiscentas e vinte e três) pessoas para o
regime aberto, inclusive na modalidade antecipada e, ainda, foram concedidas 111 (cento e onze) de
prisões domiciliares humanitárias para homens e mulheres presos, além de terem sido expedidos 117
(cento e dezessete) alvarás por outros motivos, tudo isso apenas no âmbito deste Juízo.
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Além disso, analisando individualmente as cartas de guia recebidas dos Juízos Criminais, esta
VEP postergou o início do cumprimento da pena para data posterior à cessação da pandemia, deixando de
determinar, portanto, a prisão de 152 (cento e cinquenta e duas) pessoas.

Relativamente ao CPP, onde são alocados presos em cumprimento de pena no regime semiaberto,
com benefícios externos deferidos por este Juízo, houve considerável redução da população carcerária,
pois nele havia 1.568 pessoas presas na data em que suspendi o usufruto dos benefícios externos e, na
atualidade, há 1.028 custodiados, fato decorrido, sem sombra de dúvidas, da análise ininterrupta e

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individual dos processos de execução de cada sentenciado realizada pela VEP/DF, culminando com a
concessão de um grande número de progressões ao regime aberto, inclusive de forma antecipada,
exatamente como previsto da Recomendação 62 do CNJ.

Além do mais, a VEP/DF manteve a análise diária dos pedidos de livramento condicional,
comutação e indulto, e os casos deferidos também certamente impactaram na redução da população
carcerária, além das homologações das remições fictas pelo trabalho e estudo.

Segundo informações contidas no relatório situacional expedido pela SEAPE, até as 16h de
19/08/2020, havia 2070 casos de Covid-19 no sistema penitenciário do DF, sendo 294 policiais penais,
dos quais 286 já recuperados; e 1776 presos, dos quais 1665 devidamente recuperados.

Atualmente, não há policiais penais e nem pessoas presas internados.

Lamentavelmente, o sistema prisional contabiliza 05 óbitos, dos quais 04 são de pessoas presas e
01 de policial penal.

Dados oficiais indicam que a densidade demográfica no sistema penitenciário do DF é de 1.328,52


hab/km2, três vezes maior que a das demais regiões administrativas do DF, que é de 444,66 hab/km²,
fator indicativo de que a taxa de letalidade da COVID-19 intramuros seria bem maior ou, no mínimo,
semelhante àquela existente em relação à população extramuros e ocorre exatamente o inverso, pois,
enquanto a taxa de letalidade no DF é de 1,4%, entre a população privada de liberdade é de 0,35%.

No contexto dos números que ora trago à colação, não posso deixar de destacar a relevante
pesquisa de vigilância em saúde que está sendo desenvolvida nos presídios locais por equipe técnica do
Ministério da Saúde, programa de treinamento em epidemiologia aplicado aos serviços do sistema único
de saúde – EPISUS, consolidado há cerca de 20 anos, que está monitorando diariamente o curso do vírus
no sistema prisional e orientando as diretrizes a serem seguidas.

No dia 18/08/2020 foram apresentados a este Juízo os dados da segunda e última fase da pesquisa
realizada e a conclusão técnica apresentada indicou ser necessário “manter os protocolos de
biossegurança, a fim de mitigar o risco de contágio para outras populações”.(destaquei)

Como decorrência, os profissionais de saúde foram taxativos em contraindicar que as visitas


presenciais ou a fruição dos benefícios externos sejam retomados neste momento, sob risco de o
descontrole da proliferação da doença nas regiões administrativas do DF e, ainda de cidades do
entorno - parte dos visitantes residem em municípios próximos de Goiás e Minas Gerais e realizam
seus deslocamentos utilizando transporte coletivo dentro do qual sabidamente não há plano de
distanciamento - venha a atingir o sistema prisional e eventualmente venha a provocar a temida
“segunda onda”.

A eloquência dos números aponta na direção segura de que todas as medidas protetivas adotadas
no sistema penitenciário do DF como, por exemplo, o incremento da assistência à saúde, com especial
atenção à busca ativa de novos casos, aliada ao monitoramento integral dos pacientes que testaram
positivo, ainda na fase inicial, além do efetivo incremento das medidas de higiene pessoal e dos espaços
coletivos, foram determinantes para os resultados que vêm sendo alcançados.

Justamente para poupar a saúde coletiva, proteger as pessoas privadas de liberdade e seus
respectivos familiares, venho determinando a suspensão das saidinhas, do trabalho externo, das saídas
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temporárias e das saídas terapêuticas e os números acima explicitados comprovam o acerto da decisão.

Isso porque a ideia não é somente cuidar para que os custodiados não “peguem” COVID-19, mas
para que também não transmitam a doença a seus familiares; para que sejam resguardados como
população vulnerável; e para que que os hospitais não sejam superlotados e o sistema de saúde colapsado.

Faz-se necessário ressaltar, mais uma vez, que a situação de calamidade atualmente vivenciada em
diversos países ao redor do mundo, onde a realidade do DF está inserida, demandou a adoção de medidas

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drásticas, emergenciais e temporárias, porque o direito à integridade física, à saúde e à própria vida das
pessoas presas devem se sobrepor a outras garantias individuais, por mais relevantes que também o sejam,
sobretudo quando se trata de população vulnerável, integralmente sob a tutela estatal, como o público
penitenciário.

Ressalto mais uma vez que a VEP/DF continua não ignorando a relevância do trabalho para a
ressocialização da pessoa condenada, bem como reconhece que a atividade laborativa lícita é um direito
consagrado no Ordenamento Jurídico Pátrio com reflexos processuais e pessoais positivos.

O entendimento deste Juízo está em plena sintonia com o entendimento da 5ª Turma do STJ, cujos
Ministros integrantes decidiram no bojo do AgRG no HC 580.495/SC, que não há constrangimento ilegal
na suspensão temporária do trabalho externo, nem direito automático à prisão domiciliar, visto que a
suspensão temporária de benefícios vai de encontro às ações públicas para proteção da saúde da
população carcerária, verbis:

"AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE


RECURSO PRÓPRIO. EXECUÇÃO PROVISÓRIA DE SENTENÇA.
SUSPENSÃO TEMPORÁRIA DE TRABALHO EXTERNO EM VIRTUDE DA
PANDEMIA: LEGALIDADE. PRISÃO DOMICILIAR EM RAZÃO DA
PANDEMIA CAUSADA PELO COVID-19 – PACIENTE QUE NÃO SE
INSERE NO GRUPO DE RISCO. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. O
Superior Tribunal de Justiça, alinhando-se à nova jurisprudência da Corte
Suprema, também passou a restringir as hipóteses de cabimento do habeas
corpus, não admitindo que o remédio constitucional seja utilizado em
substituição ao recurso ou ação cabível, ressalvadas as situações em que, à vista
da flagrante ilegalidade do ato apontado como coator, em prejuízo da liberdade
do paciente, seja cogente a concessão, de ofício, da ordem de habeas corpus.
(AgRg no HC 437.522/PR, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA,
julgado em 07/06/2018, DJe 15/06/2018) 2. A suspensão temporária do trabalho
externo no regime semiaberto estabelecida na Portaria n. 7/2020 do Juízo de 1º
grau atende a recomendações oriundas tanto do Poder Executivo (Decreto n. 515,
de 17 de março 2020, do Governo do Estado de Santa Catarina, que declara
situação de emergência em todo território catarinense e limita o ingresso nas
unidades prisionais do Estado às pessoas indispensáveis ao seu funcionamento)
quanto do Conselho Nacional de Justiça, com o intuito de prevenir a proliferação
do contágio pela pandemia de COVID-19. 3. Considerando que a vedação do
ingresso de pessoas nas Unidades Prisionais devido à pandemia visa a proteger,
de modo eficiente, a integridade física dos apenados, seria incongruente permitir
que os executados deixassem o presídio para realizar trabalho externo e a ele
retornassem diariamente, enquanto o restante da população é solicitada a
permanecer em isolamento em suas residências. 4. A recomendação contida na
Resolução n. 62, de 18 de março de 2020, do CNJ não implica automática
substituição da prisão decorrente da sentença condenatória pela domiciliar. É
necessário que o eventual beneficiário do instituto demonstre: a) sua inequívoca
adequação no chamado grupo de vulneráveis da COVID-19; b) a impossibilidade
de receber tratamento no estabelecimento prisional em que se encontra; e c) risco
real de que o estabelecimento em que se encontra, e que o segrega do convívio
social, cause mais risco do que o ambiente em que a sociedade está inserida,
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inocorrente na espécie. 5. No caso concreto, em que pese o paciente se encontrar
em regime semiaberto, com previsão de progressão para agosto deste ano,
cometeu crime hediondo (tráfico de drogas) e não está inserido no quadro de
risco previsto na Recomendação n. 62/2020 - CNJ, nem em outras normas
protetivas contra o novo coronavírus. Ademais, pelo menos até a data da decisão
de 1º grau, não havia notícia de contágio do vírus no Complexo Penitenciário do
Vale do Itajaí. 6. Agravo regimental a que se nega provimento."(destaquei).

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Outrossim, diversamente do que se tem afirmado, as decisões proferidas por este Juízo
prorrogando a suspensão dos benefícios externos não provocou (e não provoca) ruptura de acesso às
pessoas privadas de liberdade por parte de seus familiares ou Advogados, em especial porque os dados
coletados por este Juízo entre o dia 20/3/2020 até o dia 19/08/2020 indicam que, no período, foram
realizados 9.944 atendimentos por Advogados (entre presenciais e virtuais) e 4.278 visitas virtuais.

Destaco que as visitas virtuais foram iniciadas no dia 09/7/2020, com ampliação paulatina da
PFDF para as demais unidades prisionais, com excelente repercussão entre policiais penais e custodiados,
conforme constatei durante inspeções presenciais que realizei dentro dos presídios.

Outrossim, no período de 15/6/2020 a 19/08/2020 foram realizadas 1.3784 audiências judiciais por
videoconferência, mediante uso da plataforma virtual denominada Cisco Webex e 128 audiências
presenciais, frutos dos esforços envidados pela Alta Administração do ETJDFT, cuja excelência na
atuação trará reflexos positivos para a consolidação da situação processual dos apenados, afinal, a
realização de tais atos processuais finda por propiciar a análise para eventual concessão dos benefícios
externos previstos na LEP.

Além disso, a SEAPE vem disponibilizando a entrega de sacolas e dinheiro em favor das pessoas
privadas de liberdade por seus familiares e, ainda, instituiu o correio virtual, para troca de comunicação
entre eles no período da pandemia.

Por tudo o que foi dito, entendo que o pleito formulado pelo Ministério Público guarda estreita
consonância com as ações que vêm sendo adotadas em âmbito global com base em critérios
exclusivamente técnicos.

E são exatamente as recomendações técnicas apresentadas perante este Juízo por profissionais da
saúde e da segurança, no intuito de preservar vidas e a manutenção da ordem no sistema prisional, que
foram por mim acolhidas em decisões pretéritas, que ora revejo para o fim de tornar a acolher o pedido
ministerial.

Quanto a análise do pedido defensivo no sentido da permissão de entrada de um visitante por


custodiado durante a vigência das medidas de proteção da saúde coletiva em razão da pandemia de
COVID-19 entendo que resta prejudicada diante de toda a argumentação acima expendida e, ainda, diante
do fato de que há recurso que interpuseram a respeito do tema, ainda pendente de decisão.

No que tange ao pedido de antecipação da progressão ao regime aberto em favor dos apenados que
cumpram o requisito objetivo até o final do ano de 2020, entendo que a concessão é descabida neste
momento processual, pois ainda vige a decisão no bojo da qual determinei a sua concessão a todos os
presos e presas que tiverem o requisito objetivo a vencer até 15 de novembro do corrente ano e que
preencham o requisito subjetivo.

Além do mais, os números acima expostos, especialmente aqueles relativos ao CPP comprovam
que a concessão da prisão domiciliar humanitária ainda em andamento, vem sendo eficaz no controle da
superlotação.

Por fim, no que tange ao pedido de juntada aos autos de relatório das unidades prisionais,
indicando os critérios de seleção/agendamento das visitas virtuais, a quantidade de visitas realizadas e a
suficiência, ou não, da quantidade de equipamentos, nesta data determinei à SEAPE que se manifeste
quanto ao pleito formulado pela Defensoria Pública que contempla as referidas questões.
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Ante o exposto, atenta à necessidade precípua de manutenção das regras de afastamento e
isolamento social em razão da pandemia de COVID-19, nos moldes sugeridos pela equipe de saúde
prisional, acolho o pedido do Ministério Público e PRORROGO ATÉ O DIA 10/09/2020, as
medidas determinadas na decisão de Mov. 51.1, Capítulo IX, itens 1 a 5.

SUSPENDO, a 6ª saída temporária do ano de 2020, prevista para o período de 07/08/2020 a


10/08/2020, com previsão de edição novo calendário, com reposição desses dias, com o retorno dos

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benefícios externos.

Deixo de acolher os pleitos defensivos pelos motivos acima consignados.

RESSALTO QUE ESTÁ EM PLANEJAMENTO O RETORNO DOS BENEFÍCIOS


EXTERNOS A PARTIR DO DIA 14 DE SETEMBRO DE 2020 E O RETORNO DAS VISITAS
PRESENCIAIS A PARTIR DE 16/09/2020, DESDE QUE NAS RESPECTIVAS DATAS AS
ADVERSIDADES EPIDEMIOLÓGICAS ORA EXISTENTES, NÃO MAIS SUBSISTAM.

Comuniquem a Presidência e a Corregedoria do TJDFT, o GMF/DF, a OAB/DF, o Conselho da


Comunidade da Execução Penal, o CDPDDH.

Cientifique-se o Ministério Público e a Defensoria Pública.

Intimem a SEAPE, a fim de que apresente a este Juízo, até o dia 04/09/2020, o plano de
contingência para retomada das visitas presenciais e para o retorno da fruição dos benefícios externos.

BRASÍLIA, 20 de agosto de 2020.

Leila Cury

Juíza de Direito

BRASÍLIA, 20 de agosto de 2020.

Leila Cury

Juíza de Direito