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Contextualização dos estudos de mobilidade da população nas Ciências Humanas

Márcio Roberto Ghizzo


Márcio Mendes Rocha
2008
No decorrer da História, os homens sempre se deslocaram fisicamente. Impelidos por razões
diversas – causas atrativas e/ou repulsivas – sempre estiveram em constante movimentação.
Fugindo das guerras, conflitos civis ou escassez de recursos naturais e atraídos pelas melhores
condições de vida, o ser humano sempre se deslocou. Entretanto, a partir de épocas mais
recentes, a Mobilidade Física da população se efetiva principalmente por meio da relação
capital e trabalho e este processo também tem representado para o trabalhador uma condição
vital. O indivíduo trabalhador, submisso ao capital e desprovido de outros bens, encontra, como
única forma de sobrevivência, a venda do único bem de que dispõe: a sua força de trabalho.
(p.102)
Estas abordagens mostraram que os motivos que levavam o indivíduo a realizar a mobilidade
física eram de caráter endógeno, em favorecimento de uma decisão pessoal e subjetiva, uma
“liberdade individual”. Esta metodologia, que dominou os estudos afins até a década de 70,
considerava o fenômeno migratório como uma decisão pessoal, não pressionada ou produzida
pela conjuntura espacial geoeconômica. De uma forma geral, a abordagem neoclássica possui
uma característica individualista. Nesta corrente de análise, foram relevantes os trabalhos de E.
G. Ravenstein (1885), Everett Lee (1966) e M. P. Todaro (1969), os quais fizeram uso desta
metodologia, fazendo-se valer das condições histórico-estatísticas de outrora. (p.102)
Observa-se que as “Leis de Migração” de Raveinstein associam, de forma direta, as atividades
econômicas aos deslocamentos populacionais no continente europeu, enfatizando-se a questão
do trabalho. Este processo era uma busca incessante de equilíbrio entre a oferta e a demanda
pela mão-de-obra. Raveinstein centrava sua análise na busca pela compreensão das correntes e
contra-correntes migratórias, nas quais a “falta de braços” de certo lugar seria suprida pela
abundância de outro lugar. Por esta questão é que Ravenstein parte do princípio de que a
migração tende a ocasionar o equilíbrio entre a oferta e a demanda de mão-de- obra. (p.102)
Neste período, trabalho de significância realizou Lee (1966), o qual ofereceu para os estudos de
mobilidade da população um novo paradigma, onde sua proposição envolvia um conjunto de
fatores negativos e positivos nas áreas de origem e destino dos migrantes, um conjunto de
obstáculos intervenientes, entendidos como a distância a ser percorrida e uma série de fatores
pessoais. Lee partia da idéia de que a decisão do indivíduo em migrar estava vinculada a um
raciocínio. (p.103)
O trabalho desenvolvido por Lee foi de suma importância, formulando modelos os quais sempre
tiveram por base o contexto social e econômico, enfatizando-se a questão do trabalho. Esta, por
sua vez, correspondia às mudanças ocorridas nas estruturas econômicas dos países,
principalmente aqueles em desenvolvimento, onde a modernização dos setores produtivos
provocou transformações estruturais nas relações de trabalho. A principal conseqüência destas
inovações refletiu, e ainda reflete, na ordem da mobilidade do trabalho, quando a mão-de-obra
rural – trabalho tradicional – se desloca para o espaço urbano –trabalho moderno – realizando a
mobilidade denominada êxodo-rural. A utilização contemporânea dos termos “fatores de
atração” e “fatores de expulsão” pela literatura especializada em assuntos de população, é
também devida aos estudos de Lee. Sobre a Mobilidade Física dos trabalhadores do espaço rural
para o urbano, conceituou-se ainda aquele que foi designado como “Modelo de Todaro”.
Segundo este modelo,
a premissa básica é que os migrantes avaliam as várias oportunidades
que lhe são abertas no mercado de trabalho, tais como entre o setor
rural e o urbano, e escolhem a que maximiza os ganhos “esperados”
com a migração. Estes ganhos são medidos, primeiro, pela diferença
em renda real entre o trabalho rural e o urbano e, segundo, pela
probabilidade de um novo migrante obter emprego urbano. (p.103)
Para Todaro, o desempenho econômico, que países desenvolvidos como Estados Unidos e os da
Europa Ocidental conheceram, esteve diretamente relacionado a esta transferência de mão-de-
obra das áreas rurais para as urbanas. Na visão de Todaro, o setor rural dominado pelas
atividades agrícolas e o setor urbano como espaço de desenvolvimento industrial
determinaram por uma redistribuição da mão-de-obra, o que aconteceu de forma gradual da
primeira para a segunda espacialidade, através do êxodo rural. (p.104)
Portanto, a migração possui uma feição econômica, fruto de uma decisão subjetiva e racional do
indivíduo – no caso, o trabalhador. Esta racionalidade do trabalhador, através da qual o mesmo
optaria pela decisão entre realizar ou não a mobilidade do campo para a cidade, correspondia a
uma análise de caráter econômico entre pontos positivos e negativos deste deslocamento a ser
realizado. Trata-se, em outras palavras, de avaliar a diferença entre os benefícios e o custo desta
migração com as rendas rurais médias. Neste caso, o trabalhador rural, candidato à migração,
leva em conta as probabilidades e riscos de se empregar imediatamente ou não, ou ainda se
temporariamente não vai ocupar um sub-emprego no mercado de trabalho moderno. O
trabalhador analisa a proporção de quantos indivíduos conseguem alcançar o objetivo inicial. A
decisão de migrar, ou não, depende do diferencial do salário rural/urbano, mais a probabilidade
de alcançar, ou não, o emprego, além do tempo necessário para que isto se concretize. (p.104)
O modelo de Todaro considera a mobilidade um meio de ajustamento propício para o mercado
de trabalho. Desta forma, o trabalhador rural deixa o campo e se desloca para a cidade se
houver vantagem material neste processo, o que se concretiza, conforme já comentado, diante
da comparação salarial e de uma avaliação entre o custo e possibilidade de encontrar emprego.
Entende-se ser plausível mencionar que principalmente os estudos neoclássicos
privilegiaram o caráter quantitativo de análise, fazendo uso da Demografia como
instrumento de trabalho, não considerando as diversas ordens de fatores que interferem na
decisão de se deslocar. (p.104)
Jean Paul de Gaudemar, teórico marxista dos estudos de Mobilidade da Força de Trabalho,
entende que os estudos neoclássicos procuraram validar o conceito de equilíbrio geral, através
do qual o indivíduo realiza um deslocamento individual, com a finalidade de maximizar ganhos
e minimizar gastos. Para ele “...estudar a variação do preço dos serviços segundo o estado da
oferta e da procura – é o caminho seguido pela Teoria Neoclássica da Mobilidade.” (p.104)
Os estudos neomarxistas procuram abarcar a responsabilidade de explicar o fenômeno da
mobilidade sob o enfoque do materialismo histórico. Trata-se de uma visão crítica da
mobilidade, enquanto meio de sobrevivência, imposta pelo capital ao trabalhador quando aquele
se apropria do único bem de que este dispõe: a sua força de trabalho. (p.105)
Sabemos que a mobilidade do homem sobre a superfície terrestre remonta sua pré-história.
Entretanto, nunca foi tão relevante como após o advento da Revolução Industrial. Por esta
razão, podemos afirmar que, embora a Mobilidade Humana seja um fato presente na história do
homem, foi com a introdução das relações capitalistas de produção no espaço geográfico que
este fenômeno se acentuou. A mobilidade encontrou seu índice mais representativo quando as
relações capitalistas foram introduzidas no espaço agrário, levando a expropriação da terra aos
pequenos proprietários rurais. Este fato foi sentido de forma mais redundante pelos pequenos
produtores rurais, os quais passaram a se proletarizar no espaço urbano. Na ótica neomarxista, o
deslocamento exercido pelos trabalhadores para um outro espaço que não seja o seu é
denominado de “Mobilidade Forçada”, pois estes indivíduos estarão sempre sujeitos ao capital e
este deslocamento não parte uma decisão subjetiva, mas é impelido por causas externas.
Esta forma de mobilidade, vista a partir do sistema de produção
capitalista, é regida por uma lógica própria, onde capital e trabalho se
articulam dando a forma de uma mobilidade da força de trabalho,
determinada pela luta de classes e pela exploração capitalista do
trabalho, portanto, é uma “mobilidade forçada”. (p.105)

Esta mobilidade é assim denominada porque a força de trabalho do indivíduo se sujeita ao


capital e se torna mercadoria. O consumo desta mercadoria pelo capitalista gera a produção de
valor no mercado e, desta forma, (re) produz o capital. Segundo Becker (1997), a Mobilidade do
Trabalho engloba duas dimensões: a espacial e a social, ou horizontal e vertical,
respectivamente. No primeiro caso, a mobilidade do trabalho é entendida como a capacidade da
força de trabalho se dinamizar em vastas extensões, no caso o espaço geográfico, e possuir uma
ordem econômica. Em outras palavras, o trabalho se dinamiza espacialmente para consolidar o
mercado de trabalho. No segundo caso, a Mobilidade Social estaria relacionada à hierarquia do
trabalho, tendo como gênese a manufatura e, posteriormente, a grande indústria. A Mobilidade
Social é também denominada vertical pois ocorreria entre setores da produção e/ou entre as
funções do processo produtivo desempenhado pelo trabalhador. (p.105)
É o caso, por exemplo, de muitos migrantes que, desprovidos de formas de sustentação,
realizam uma reemigração, direcionando-se para outras regiões em busca do primeiro objetivo.
Quando escasseiam seus recursos e se depara diante da falta de perspectiva, o indivíduo
encontra, como única alternativa, a volta para seu espaço de origem, o que configura uma
contra-migração. A questão da mobilidade assume uma forma vital para o homem e encontra,
na questão do mercado de trabalho, a sua principal causa. Entretanto, se este é o principal
motivo que leva as pessoas a realizarem a migração, não é o único ou exclusivo. A decisão de
migrar, seja para um único indivíduo, seja para uma família ou um grupo todo, é uma decisão
difícil. (p.105)
Estudos voltados para a questão da mobilidade comprovam que a decisão de concretizar este ato
reside muito mais nas causas de repulsão que nas de atração. Entretanto, elas se entrelaçam,
formando uma conjuntura em que a mobilidade seja a única saída para as pessoas. Na maioria
das vezes, a mobilidade é incentivada por uma ideologia, instigada no indivíduo através de uma
fantasia irreal. Mas, em todo o caso, este indivíduo parte motivado pela esperança, pelo desejo
de mudar de vida, de ser melhor, de encontrar um trabalho ou condições que lhe proporcionem
uma ascensão social. (p.107)
... uma causa de partida não é em si mesma suficiente, deve haver
também algo para atrair os migrantes. O fator de atração pode ser real
ou imaginário, e é também nisso que se fundem os aspectos
psicológicos e econômicos; a atração da cidade pode corresponder a
uma realidade, significando menos trabalho árduo, salários mais
regulares e melhor padrão de vida, mas quase sempre acontece ser isso
simples miragem e a verdadeira situação ser, simplesmente, outra
forma de luta contra a pobreza. (p.107)

Esta visão é ainda compartilhada por outros autores, os quais entendem que a primeira razão
para que um indivíduo realize a migração reside em questões sócio-econômicas. Em outras
palavras, a questão do (des)emprego é ocasionada principalmente pela formação de um
excessivo exército de reserva, o qual é condicionado por transformações nas estruturas de
trabalho. As condições que se estabelecem nestes casos – desemprego, trabalhos informais e
sub-empregos – são motivos que repulsam aquela população a procurar outras e melhores
formas de viverem suas vidas. (p.107)
No que se refere às classes que executam a mobilidade, aquela que o faz de modo mais
significativo é a mais afetada pelas transformações históricas do sistema econômico, ou seja, a
dos trabalhadores. Este fato confirma em não ser a atração, mas a repulsão o principal fator que
leva os trabalhadores a executarem a Mobilidade do Trabalho. O estar desprovido dos meios
necessários para garantir a sobrevivência estimula o trabalhador a se sujeitar às imposições do
capital. (p.107)
Atualmente, além da causa do trabalho, outros fatores têm encontrado relevância entre os
motivos de Mobilidade Física. Dentre estes, a busca pela melhor qualidade de vida, encontrada
principalmente nas cidades-médias brasileiras, tem merecido destaque. Esta qualidade de vida
vincula-se à questão de as pessoas terem acesso a melhores equipamentos urbanos, além da
busca pela aquisição da casa própria, pois o que muitas vezes é impossível em algumas cidades,
em outras, a probabilidade de se realizar é maior. É o que verificamos, por exemplo, entre as
pessoas que habitavam cidades grandes ou médias, mas acabaram se mudando para as cidades
vizinhas, onde este sonho pôde (ou poderá) ser concretizado. Desta forma é que se viabiliza a
constituição da maioria das cidades-dormitório ou cidades-satélite da rede urbana brasileira. No
caso destes estudos, faz-se referência principalmente à mobilidade com escala de tempo longa,
definitiva. (p.108)
É o caso, por exemplo, da mobilidade do lazer. Este tipo de mobilidade abrange especialmente
as viagens de férias, as quais assumem escalas espaço-temporais variáveis. Outro tipo de
mobilidade que, embora seja manipulada pelo capital mas não necessariamente seja instigada
por razões repulsivas, é a “Mobilidade do Consumo”, um movimento da população de seu
habitat até um local de consumo de mercadorias que tende a se realizar movido por questões
econômicas, sociais e culturais. Esta mobilidade acontece espacialmente segundo a Teoria das
Localidades Centrais de Christaller (1933). (p.108)
Verón considera as mobilidades com duração inferior a seis meses como temporárias, enquanto
as de duração igual ou superior a seis meses são consideradas definitivas. Nota-se que a maioria
dos autores não estipula quantidade de tempo para referir-se a esta questão, pois um marco
temporal rígido leva a uma interpretação reducionista da problemática populacional, pois os
fatores determinantes das motivações são múltiplos e hierarquicamente diferenciados conforme
o caso. Quanto às principais espacializações, contextualizaremos alguns tipos de migrações
internas. Destas, o êxodo-rural é o exemplo mais expressivo deste fenômeno. Conseqüência de
transformações estruturais nos setores econômicos, o êxodo-rural reside na transferência de
mão-de-obra do setor rural – tradicional – para o urbano – moderno. Além da repulsão imposta
pela modernização do campo, o êxodo-rural também pode ser incentivado pela atração e pelo
desejo de que os trabalhadores rurais alcancem salários mais elevados, mais bem remunerados,
mas também pela necessidade de se completar os estudos dos filhos ou ainda a busca por uma
vida mais prazerosa, com maiores entretenimentos. (p.108)
Gaudemar destaca que este tipo de mobilidade é lucrativo para a economia urbana,
principalmente para o centro metropolitano. Embora haja uma intensificação dos problemas
sociais, o setor econômico é beneficiado, pois o êxodo rural instiga, no indivíduo, não apenas
uma mudança espacial de emprego, mas também uma possível mudança de profissão, tornando-
o muitas vezes um “proletário industrial”. (p.108)
Uma outra mobilidade interna relevante é a inter-urbana, motivada, entre outros fatores, pelas
oportunidades daqueles que já alcançaram sua posição no mercado de trabalho. Diante de
melhores oportunidades, muitos trabalhadores qualificados optam por novos deslocamentos
físicos em busca de melhores remunerações e condições de trabalho. É fato comum a
quantidade de profissionais que partem para outras cidades para ocupar posições hierárquicas
superiores no mercado de trabalho. Também como migração inter-urbana encontramos a
micromobilidade – ou mobilidade pendular – entre cidades-periféricas e cidades-pólo, o que
acontece em caráter temporário, normalmente diário, perfazendo um constante fluxo e refluxo
de indivíduos que se deslocam entre cidades, seja para fins de trabalho, de consumo ou de lazer.
Este tipo de mobilidade deriva, na maioria das vezes, do êxodo-rural, pois sobre esta população
“podemos dizer que foram expulsos do campo para a cidade e da cidade, se dirigem, num
movimento centrífugo, para o espaço urbano periférico.” O alto custo de vida nos maiores
centros inibe muitas famílias, as quais se deslocam para estas cidades-periféricas com o intuito
de minimizar seus custos de moradia. Como as cidades maiores oferecem maior gama de oferta
de trabalho, bem como bens de consumo e serviços, a mobilidade diária passa a ser alternativa
de vida para estas pessoas. (p.109)
No que se refere à mobilidade do consumo, gostaríamos de salientar que, devido à relatividade
que na contemporaneidade foi estabelecida entre tempo e tecnologia, incrementada
principalmente com os avanços do meio-técnico e do meio-técnico-científico-informacional,
esta ordem de mobilidade pôde se realizar em diversas escalas, desde as realizadas nas redes
urbanas, até aquelas que se concretizam numa espacialidade internacional, mesmo que numa
temporalidade relativamente curta. Embora neste trabalho privilegiamos o primeiro caso, vale
ressaltar, por exemplo, o caso dos sacoleiros do Brasil que se direcionam para o Paraguai para
realizar suas compras, ou ainda de países vizinhos que se direcionam para espacialidades
específicas do território brasileiro, como os shoppings atacadistas de confecções da cidade de
Maringá e de Cianorte, também para este fim. Pela discussão empreendida, podemos afirmar
que as imposições capitalistas sobre as relações de produção passaram por transformações no
tempo e no espaço. Entretanto, na lógica do sistema, todo o contexto das relações de produção
ainda permanece favorecendo os mesmos interesses pré-estabelecidos. Na busca incessante por
uma maximização de seus lucros, o sistema procura legitimar formas desta reprodução. A
mobilidade, em todas suas contextualizações tem sido, no bojo das Ciências Humanas, uma das
formas de sujeitar a população a seus interesses. É neste sentido que, sob a égide capitalista, não
só a questão do trabalho, mas também a social, a do lazer e a do consumo têm sido motivadas
implícita ou explicitamente. (p.110)
Privilegiando os estudos espaciais, enfatizamos a questão da Mobilidade da força-do-trabalho,
mas também da mobilidade do lazer e do consumo. São mobilidades físicas que acontecem no
espaço geográfico segundo a hegemonia do sistema econômico vigente. Também abordamos a
mobilidade social, que permitiu eliminar dúvidas quano ao uso desta terminologia. (p.110)

A MIGRAÇÃO SOB DIVERSOS CONTEXTOS (2011)

Karla Rosário Brumes

Márcia da Silva

Os desafios encontrados tanto por estudiosos na definição não só do conceito, mas também
dos processos que a questão migratória envolve têm gerado alguns impasses quanto à
formulação da teoria das migrações. As discussões não devem ser pensadas no sentido de
redimensioná-las apenas conceitualmente, mas também no sentido de compreender quais são
os meios mais adequados para as pessoas se moverem no território e como lhes garantir o
pleno direito de locomoção. A análise das migrações deve abordar mais do que o estudo
das questões dos desequilíbrios regionais de oferta de emprego, devem também analisar a
decisão pessoal do sujeito na migração. (p.1)

De início podemos traçar dois vieses de abordagens teóricas sobre o tema migração: um
onde a tendência tradicional dá ênfase a questões econômicas como principal motivo e
causa dos deslocamentos populacionais; e outro, mais recente, que aborda as teorias
sociais, como pro exemplo as redes sociais. (p.1)

As migrações, no Brasil, tiveram um caráter acentuadamente compulsório e os migrantes


foram vistos como sujeitos expropriados e, por isso, forçados a uma peregrinação
constante na busca de trabalho, renda e melhores condições de vida. Não se pode negar,
entretanto, que há casos em que pessoas, grupos e famílias se deslocam por outros
motivos, como o turismo, o comércio e as visitas e permanecem nos lugares diferentes de
suas origens. (p.2)

Analisada num contexto de sistema econômico de espoliação, a migração proporciona


aumento máximo dos lucros das empresas privadas e condena à itinerância constante
parte da população, geralmente excluída. A priori, a lógica do capital se transforma no
centro da sociedade sendo necessário que exista um migrante para que o sistema produza.
Esta estrutura necessita, portanto, de trabalhadores circulando de um lado para o outro,
funcionando como um exército de reserva, pronto a aceitar uma árdua sobrevivência.
Neste contexto e em linhas gerais, a migração não parece ser um fenômeno natural e
espontâneo, mas sim provocado por estruturas muitas vezes injustas ligadas a contextos
econômicos, políticos, sociais e ideológicos. (p.2)

Enfoques teóricos e metodológicos que levam em conta análises microanalíticas, história de


família, estudos de ciclo vital etc., ganham força na tentativa de explicar a existência de
continuidades nos fluxos migratórios que parecem ter vida própria e que continuam
mesmo quando as causas que lhes deram origem desaparecem frente à incapacidade de
estudos clássicos sobre migrações darem respostas a perguntas sobre as dinâmicas
migratórias. (p.2)

Neste contexto teórico as análises sobre migrações implicam em abordagens que estudam
apenas as relações dos migrantes no lugar e de forma isolada. Com a diferenciação crescente
dos lugares é preciso que as abordagens geográficas dos espaços migratórios sejam
capazes de captar os fluxos sócio-espaciais de forma mais abrangente e detalhada. (p.2)

Os campos de enfrentamento de posições políticas e metodológicas a respeito da migração


compõem a chamada política migratória que não se restringe à intervenção sobre um fato
empiricamente observado, mas se estende à própria construção do conceito de migração.
(p.3)

A mobilidade da força de trabalho, outra linha de análise sobre migrações, fundamenta-


se especialmente na teoria marxista do trabalho, que leva em consideração a relação
capital/trabalho e a produção e reprodução ampliada dessa relação. (p.3)

Assim, enquanto o enfoque neoclássico analisa os reflexos das correntes migratórias


tendo na migração um agente de transformação, na mobilidade da força de trabalho a
análise recai sobre as formas concretas de mobilidade da força. Na visão neoclássica,
portanto, os problemas estruturais são os possíveis causadores dos deslocamentos e na
mobilidade da força de trabalho os enfoques recaem no processo de acumulação
capitalista (SALIM, 1992). (p.3)

A mobilidade se liga à produtividade e à expansão física do capital, apresentando-se como


condição e consequência do desenvolvimento das forças produtivas. As teorias
neoclássicas e da mobilidade da força de trabalho, chamadas de análises clássicas, não
permitem que muitas particularidades sejam apreendidas nos contextos migratórios, pois,
não adentram além elementos que não derivam dos contextos das dinâmicas do capital.
Um ponto limitante dessas análises está no fato das mesmas colocarem a migração como
fator impulsionador da diminuição de desigualdades regionais.
Para Menezes (2001; 2002), Salim (1992) e Ferreira (1986) é notório
o fato de que, em muitos casos, a inserção de fluxos migratórios
desestruturou os locais de chegada e também os de partida, uma vez
que há o aumento do número de habitantes de algumas localidades e
esvaziamento de outras, levando a desestruturação de estruturas
produtivas ou pirâmides etárias. (BRUMER, SILVA, 2011, p.4)

Tais contextos valorizam um migrante que passa a ser um sujeito importante no


processo mediante as suas escolhas individuais. As contribuições clássicas do período entre
de 1970 e 1980, que foram elaboradas num momento em que o mito do
desenvolvimento da economia e da sociedade brasileira se fazia presente, devem aqui ser
pensadas.

Sorre (1984) afirma que a Geografia traz reflexões a respeito das migrações ao analisar
questões como a circulação, a distribuição e a formação dos territórios, por exemplo.
Rossini (1997) considera as análises que tragam para a discussão o uso dos recursos
técnicos científicos e a informatização colocada à disposição da humanidade, posto
conferirem maior à interpretação do espaço, da sociedade e dos fluxos migratórios.
Porém, essas análises, de acordo com Patarra (1992), Paviani (1993) e Pacheco (1998)
desconsideram os vários fatores imperantes nas estruturas nas quais os fluxos migratórios se
inserem. (p.4)

“o impulso migratório raramente é um fato simples, pois amplia-se num acúmulo de


necessidades, desejos, sofrimentos e esperanças” (DEMARTTINE e TRUZZI, 2005, p. 32).
(p.5)

O processo migratório não é algo mecânico que ocorre apenas entre um pólo de expulsão e
outro de atração. Ele se desenvolve num contexto social historicamente determinado.
Sampaio (1985, p. 33) refere-se à migração, neste sentido:

[...] como um processo social resultante de mudanças estruturais de um determinado país,


que provocam o deslocamento horizontal de pessoas de algumas classes sociais, que, por
razões diversas, deixam o seu município de nascimento e vão fixar residência noutro.
(p.5)
Neste sentido a introdução da discussão de redes como fator de análise do fenômeno
migratório, por exemplo, pode possibilitar a compreensão de outras características
importantes do processo, como as determinações culturais e sociais, é necessário que a
análise incorpore elementos que até então eram desconsiderados ou ao menos
considerados relevantes nos estudos migratórios. (p.5)
As migrações no Brasil podem ser analisadas por meio de vários aspectos. As
transformações ocasionadas pela passagem da sociedade rural para urbana, por exemplo, é
um deles, pois levou a impactos que tiveram repercussão, sobretudo, na transformação da
estrutura social brasileira. Diante disso a migração, ao longo das décadas, passou a ser vista,
pelos migrantes, como uma forma que os levaria efetivamente a uma mobilidade social.
(p.5)
Nos anos de 1960 e de 1970, a concentração da atividade industrial urbana e o estímulo à
modernização da agricultura foram fenômenos que caminharam juntos produzindo fluxos
migratórios de grande magnitude, direcionados para os espaços urbanos. Também neste
período a mobilidade espacial de longas distâncias, como a da do Planalto Central com a
construção de Brasília (1960) e a Fronteira Amazônica, foram incentivadas oficialmente pelo
Estado. (p.6)
Já nos anos de 1980, considerados por alguns como a „década perdida‟ devido a crise
econômica de 1981 a 1983 e outros elementos de cunho econômico, com respaldos
recorrentes de cunho social, o quadro até então favorável à mobilidade estrutural e, por
extensão, às perspectivas de mobilidade social ascendentes mudou completamente no país.
(p.6)

Segundo Jannuzzi (2000), os estudos sobre migração subestimavam os fluxos, em especial os


deslocamentos criados pelo processo sócio-econômico e, por isso, fatores estruturais foram
importantes para explicar apenas a intensa mobilidade populacional e não a mobilidade
social no Brasil. Bacha & Klein (1986), Salim (1992), Baltar, Dedecca e Henrique (apud
MATTOSO, 1997), ao analisarem a mobilidade social no interior da sociedade brasileira,
questionaram sua efetiva ocorrência. Segundo estes autores a „mobilidade social‟ não foi
acompanhada de melhoria nas condições de vida e nem diminuiu as desigualdades
sociais da classe trabalhadora, especialmente aquela oriunda do campo

. A inserção, por meio da migração, no modo de vida urbano não garantiu aos migrantes
ocupação adequada e renda suficiente para garantia de sobrevivência.

Baltar, Dedecca, Henrique (apud MATTOSO, 1997, p. 89) afirmam que:


[...] apesar de o desenvolvimento econômico ter gerado amplas e novas oportunidades
ocupacionais, em especial nas atividades urbanas e que possibilitaram uma expressiva
mobilidade social ascendente.

A mobilidade social tida como consequência da intensa migração rural-urbano vivenciada


no país, nos últimos 50 anos, mais do que qualquer ascensão ligada à mudança social da
população, é uma mudança territorial, já que ao final desse período o Brasil se
transformou em um país intensamente urbano, sendo que de 1940 a 2000 a urbanização
passou de 31% para cerca de 81%. (p.7)
Segundo Becker (1997), as políticas eram formuladas para áreas de acelerada imigração
urbana, mesmo sabendo-se que tanto áreas urbanas como rurais vinham apresentando
progressiva decadência nas condições de vida de suas populações. (p.7)
O fato é que a migração não é fator preponderante para a mudança na escala social da
maior parte dos migrantes, uma vez que a mobilidade social é muito pequena ou nula
diante do quadro no qual se estabelecerão. (p.7)

Quando pensamos nos enfoques atribuídos ao fenômeno das migrações ao longo do


tempo, chegamos à conclusão de que há predomínio de uma dinâmica macro-estrutural.
É dela que decorre grande parte das chamadas „teorias neoclássicas‟ em que a migração
seria a responsável pela melhoria de vida ou „bem estar‟ do migrante e seu grupo. No
entanto, compreender a migração apenas por este viés é colocar e imaginar um
migrante que é reprimido e entregue a determinadas estruturas condicionantes. (p.9)
Sabe-se que a estrutura social brasileira passou por profundas mudanças no período de
industrialização com início na década de 30 e final na década de 70. A rápida transição da
sociedade tipicamente rural e agrária em sociedade urbana e industrial gerou profundas
alterações na estrutura social.
Se antes a mão-de-obra estava concentrada nas ocupações rurais de produção
tradicional, com o processo de modernização da produção passaram a predominar as
ocupações urbanas industriais, juntamente com a expansão das ocupações do comércio
e de prestação de serviços.

Grande parte dos trabalhadores que preencheram essas ocupações foram os emigrantes de
origem em regiões com baixo desenvolvimento econômico para as regiões de destino
concentradoras de desenvolvimento econômico.

Para entender a participação dos migrantes na estrutura social, um dos objetivos da pesquisa
de doutorado, optou-se por empregar a metodologia da mobilidade social. Sabe-se que
grande parte da mobilidade social no contexto do processo de industrialização foi
resultado da mobilidade estrutural – mobilidade de posições sociais, predominantemente
ascendente, por efeito do desenvolvimento econômico, do emprego de tecnologia no sistema
produtivo e mudanças demográficas. Após a década de 80 a mobilidade estrutural perdeu
força e passou a prevalecer a mobilidade gerada pela competição por vagas já
existentes no mercado de trabalho. A redução do efeito da mobilidade estrutural não
significou que o mercado de trabalho brasileiro se tornou menos igual em termos de
oportunidade de ascensão social ao fim do processo de industrialização. O que se
observou foi o progressivo aumento das oportunidades de mobilidade, porém em menor
intensidade. Na década de 1980 o aumento das oportunidades de mobilidade esteve
relacionado à diminuição das desigualdades educacionais. Na década de 1990 as
oportunidades de mobilidade aumentam mais por efeitos da redução de características
herdadas, como a origem social, que por efeito da educação, ainda importante (Torche e
Ribeiro, 2010). (p.3)
Faz-se importante, dentro dos estudos das desigualdades sociais no Brasil, investigações que
dizem sobre os efeitos da migração interna na formação da estrutura social a partir do
regime de mobilidade social. Faz-se necessário tratar o fenômeno migratório além dos
processos de urbanização e industrialização. Com base neste problema de pesquisa, o sentido
de migração adotado neste texto será de um comportamento racional adaptativo (Goldthorpe,
2000). Isto é, a migração como ação orientada para ascensão social e, conseqüentemente,
melhoria das condições de vida. (p.3)
MOBILIDADE SOCIAL E MIGRAÇÃO INTERNA NO BRASIL
Daniel Biagioni

Estudos das desigualdades são geralmente associadas mais diretamente à distribuição de


renda e seus determinantes individuais. Em geral, este é o foco principal dos estudos
propriamente econômicos da desigualdade. Já a sociologia, além de atentar à distribuição de
renda e seus determinantes estruturais, possui amplo desenvolvimento em estudos do
processo de aquisição de posições ocupacionais. Ao estudar a ocupação compreende-se uma
série de outras características individuais que estão associadas às condições de vida como
salário, educação, proteção social, identificação política entre outras. (p.4)
As posições ocupacionais são um conjunto de ocupações agregadas segundo critérios
substantivos que as caracteriza no mercado de trabalho. O conjunto das posições sociais
representa a estrutura social. Existem duas abordagens de estudos da desigualdade das
posições sociais. A abordagem de realização de status sócio-econômico, cujas posições
compõem uma hierarquia de agregados ocupacionais – estratos sociais – definidos pela
média entre a renda (status econômico) e educação (status social). Assim, a estrutura
social definida pelo conjunto de estratos sociais se assemelha a uma pirâmide hierárquica
de status (Blau e Duncan, 1967). Há também a perspectiva estrutural de classes sociais.
Diferentemente dos estratos, as classes sociais não compõem uma hierarquia e os critérios
para agregar as ocupações são estritamente teóricos a partir da reprodução desigual da
divisão social do trabalho. As teorias marxista e weberiana contribuíram decisivamente
para o avanço desta perspectiva (Wright, 2005). (p.4)
O campo de estudos da mobilidade social trata de entender a dinâmica da estrutura de
posições sociais no intuito de identificar os padrões de desigualdades duráveis em uma
sociedade. A dinâmica da estrutura social pode ser analisada de duas formas. Na mobilidade
intergeracional busca-se comparar posições sociais entre gerações (pai e filho). Ela permite
analisar as mudanças na estrutura social em contextos geracionais distintos como também
avaliar quais as características que estão associadas à transmissão da posição social. Na
mobilidade intrageracional é analisado o desempenho da carreira de um mesmo
indivíduo salientando as características mais associadas a sua atual posição social.
Independente se intergeracional ou intrageracional, o aspecto temporal das desigualdades
de posições sociais é o elemento central de análise da mobilidade, ressaltando as
reproduções e descontinuidades de desigualdade da estrutura social. (p.5)
Por migração entende-se não meramente o fenômeno demográfico de mudança do local de
residência de um individuo ou família. Entende-se, sim, o processo social de deslocamento de
população em contexto histórico específico e em período e território delimitados que
definem o próprio fenômeno. O conjunto dos deslocamentos individuais caracteriza o
fluxo migratório. (p.6)
A migração é um fator exógeno do regime de mobilidade social que modificou fortemente a
estrutura social, principalmente pelo processo de urbanização.

A trajetória de um fluxo migratório é definida segundo sua origem e destino. Os desequilíbrios


econômicos regionais são os principais fatores que levam ao surgimento das trajetórias
migratórias. Portanto, a migração é essencialmente entendida neste texto como o
deslocamento da força de trabalho em busca de melhoria de inserção no mercado de
trabalho e de condições de vida. Se por um lado há na origem migratória excedente de
trabalhadores oferecendo sua mão-de-obra, do outro há no destino a necessidade (ou
não) de mão-de-obra para geração de capital. Assim, diferentes trajetórias migratórias
podem ser encontradas dentro de um mesmo contexto histórico de desequilíbrios
econômicos regionais. (p.6)

Duas abordagens teóricas sobre as migrações internas são as mais importantes nos estudos
nacionais. A abordagem econômica neoclássica tem como elemento central de análise a
decisão racional dos indivíduos se deslocarem. A racionalidade implica em avaliar os custos e
oportunidades de migrar, em curto ou longo prazo, comparando as chances de melhor
inserção no mercado de trabalho (melhores retornos salariais, contrato de trabalho entre
outros) com base nas informações de oferta de trabalho na origem e de destino migratório,
considerando o próprio estoque de capital humano (principalmente o nível educacional e
experiência no mercado de trabalho). Se o indivíduo opte por migrar, os custos e
oportunidades avaliados são suficientemente fortes para romper a inércia de permanecer
na origem, considerada, portanto, menos favorável para suas condições de vida. O fluxo
migratório é, neste sentido, o conjunto das decisões de migrar para um destino com
melhores expectativas de condições de vida. Este abordagem influenciou estudos da
emigração do campo para as cidades como aspecto importante da formação da mão-de-
obra disponível para a produção manufatureira a partir da década de 50, quando se iniciou o
período de industrialização pesada. O determinante dos fluxos migratórios é entendido a
partir das diferenças do dinamismo econômico entre setores – rural e urbano – que geraram
forças de atração e expulsão de população até o ponto de equilíbrio entre salário e mão-
de-obra. A importância maior da abordagem econômica neoclássica foi sistematizar essas
forças por meio de indicares que permitissem operacionalizar os fluxos e compreender as suas
conseqüências no mercado de trabalho (Lee, 1980). (p.8)
A abordagem histórico-estrutural faz a crítica da racionalidade econômica da decisão de
migrar e ressalta a necessidade de contextualizar historicamente as mudanças estruturais das
sociedades. O processo social de deslocamento de população é o objetivo do estudo das
migrações internas e não as conseqüências do movimento das atividades produtivas como o
descolamento da mão-de-obra posto pela teoria neoclássica. Assim, para entender o processo
migratório duas dimensões devem ser consideradas: a origem e o destino migratório. Na
abordagem da economia neoclássica os fatores e atração e expulsão estava ligados
basicamente ao destino migratório. Na abordagem histórico-estrutural a origem é
dimensão fundamental para o entendimento do processo igratório (Lopes, 1973). (p.8)
Os fatores de expulsão definem as áreas de origem dos fluxos migratórios. Já os fatores de
atração determinam a orientação destes fluxos e as áreas que se destinam. Pensar o fluxo
migratório sem considerar a origem e o destino como partes do mesmo fenômeno é deixar de
entender as especificidades do processo como um todo, reduzindo a migração a uma equação
de eficácia salarial e da capacidade da economia em absorver a população. Faz-se necessário
considerar, portanto, os mecanismos que puseram em movimento os fluxos migratórios
a partir da origem e suas conseqüências para a economia urbana, principalmente do local
de destino. (p.9)
Ao contrário da abordagem econômica neoclássica que tem o indivíduo como unidade de
análise da migração, a abordagem histórico-estrutural tem a classe social. A classe social em
movimento gera um fluxo com certa duração e que possui um trajeto específico que engloba
as especificidades da estrutura social de origem e destino. Faz-se possível, portanto,
descrever o movimento dos fluxos segundo o processo social que seja estruturante das
sociedades. Ou seja, o contexto sócio-econômico que leva a expulsão de população na
área de origem leva a transformações estruturais nas áreas de destino. A migração, por sua
vez, pode levar a transformações estruturais também a origem. A relação entre a
origem e o destino migratório evidencia o processo social completo de deslocamento da
população. (p.9)
Para o estudo da migração interna como um fator exógeno ao regime de mobilidade
social utiliza-se as noções de fluxo oriundo da abordagem econômica neoclássica e a
noção de trajetória dos fluxos migratórios e classes sociais oriundo da abordagem histórico-
estrutural. Os fluxos são empregados para quantificar o deslocamento de população; as
trajetórias são empregadas para identificar a origem e destino migratório, assim como os
contextos sociais de deslocamento; as classes sociais que é a variável dependente do estudo
da mobilidade social. (p.9)
Considerando a transmissão inter e intrageracional de vantagens, a educação é a
característica adquirida mais importante para a definição do destino ocupacional. (p.9)
A migração não se trata de uma característica cumulativa ou associada, mas um fator exógeno
da estrutura social, como já apontado. Migrar em si não se constitui em uma característica
importante para a entrada no mercado de trabalho, mas permite aos indivíduos encontrar
uma estrutura social que oferece maiores possibilidade de competição por ocupações a
partir do próprio estoque de capital humano. Os migrantes tendem a conseguir melhores
resultados de inserção ocupacional em relação aos não-migrantes, pois buscam na mobilidade
espacial um contexto de mercado de trabalho que permita melhor aproveitamento de suas
características individuais. Ou seja, o migrante busca um contexto de competição por vagas
na estrutura social que ofereça maiores oportunidades de ascensão social e qualidade de
vida. (p.11)
As desigualdades de oportunidades de mobilidade social refletem a desigualdades de
condições sociais. As desigualdades de condições podem ser: (1) recursos individuais
como as características adquiridas ou; (2) gerado por aspectos institucionais, como
políticas públicas, que influam no aumento ou redução dos recursos. A migração procura
no destino social aumentar os efeitos dos recursos previamente incorporados,
aumentando as oportunidades de ascensão social. Ou seja, o migrante busca ativamente no
mercado de trabalho de destino melhores oportunidades de inserção social em relação às
oportunidades que tinha na origem. Migrar, neste sentido, não se trata de um recurso
em si, mas na busca de inserção social em um contexto social mais favorável a conquista
de melhores condições de vida com base em seu estoque de recursos. Esta busca é, portanto,
um comportamento racional adaptativo. Os aspectos institucionais, particularmente o
Estado e mercado, também influem na dinâmica migratória por gerar desequilíbrios
regionais do desenvolvimento econômico e, conseqüentemente, forças de atração e expulsão
de populacional (Cano, 2007: cap. 5). (p.6)

RETRATOS DA MOBILIDADE ESPACIAL NO BRASIL: OS CENSOS DEMOGRÁFICOS COMO FONTE


DE DADOS

José Marcos Pinto da Cunha, 2012

Nossa história demográfica mostra que a migração, em suas diferentes modalidades,


esteve presente em todas as fases do processo de desenvolvimento econômico/social e
ocupação territorial no país. Desde a imigração estrangeira, incluindo o triste período do
tráfico de escravos, principalmente no século XIX, passando pelo amplamente conhecido
e discutido êxodo rural dos anos 1950, 1960 e 1970, até os dias de hoje,

José Marcos Pinto da Cunha, 2012


Como lembram Wunsch e Termote 2 mobilidade espacial refere-se à “habilidade” de se
mover no espaço, fenômeno que pode envolver tanto a migração, considerada a mudança
de lugar de residência, como os movimentos diários, entre os quais os mais conhecidos são os
pendulares. (p.3)
Zelinsky 7 apresenta a noção de “mobilidade territorial”, considerando que o termo “is
comprehensive, combine conventional (that is, residential)migration with what, for lack of a
better designation, can be called ‘circulation’”. (p.4)
uma maneira ela sendo um fenômeno demográfico e por outra, sendo um processo
social.

De nossa parte, preferimos pensar a migração a partir de duas perspectivas: por um lado,
como fenômeno demográfico; e, por outro, enquanto processo social. Mesmo tendo em conta
que tal separação tende a ser artificial, uma vez que pelo menos os demógrafos, de maneira
geral, não estabelecem a separação destas duas dimensões, não há como negar que,
entendida como componente do crescimento demográfico, a migração não apresenta
qualquer problema quanto à sua definição: será considerado desta forma qualquer
movimento que modifique o tamanho e a estrutura da população. (p.6)
De qualquer forma, uma característica tem balizado todas estas definições e impõe
novamente uma grande dificuldade para estabelecer a noção de migração, em particular na
atualidade: a mudança de residência. De fato, como mostram Domenach e Picouet 12 é cada
vez mais difícil definir o que seria uma mudança permanente ou não de domicílio, o que
colocaria em xeque, portanto, qualquer definição como as anteriormente mencionadas. Essa
questão também poderia ser constatada no texto de Bilsborrow: “In fact, the use of the term
permanent should be avoided, as neither the migration is permanent…nor is the residence;
indeed, the lack of permanence is inherent in the definition of migration itself”. (p.6)
Já do ponto de vista do fenômeno como processo social, certamente a compreensão e o
conceito do que seria migração deveriam sofrer forte interferência em função da forma
como os concebemos – a construção do objeto −, sobretudo como aspectos constituintes de
dinâmica socioespacial. (p.6)
Obviamente, as dificuldades conceituais e, sobretudo, operacionais para a realização de
estudos tendo como ponto de vista o “espaço de vida” tornam esta opção um desafio muito
maior. Assim, o que poderíamos compreender como migração a partir de um ponto de vista
poderia não sê-lo a partir de outro.

É bem verdade que espaço e tempo são centrais em sua definição, mas várias questões
se coloca: que espaço (ou escala espacial) seria relevante para ser considerado? Que tempo ou
período seria o ideal para uma adequada análise da migração? Seria realmente possível falar
sobre um caráter definitivo da mudança domiciliar? No cenário contemporâneo das migrações,
substituir a ideia de definitivo por residência usual, como tem sido feito, seria suficiente para
resolver os problemas de captação de dados sobre migração? (p.8)
O que se percebe, portanto, é que, se no passado, particularmente nos países em
desenvolvimento como o Brasil, quando a migração de mais longa distância era a que ditava o
compasso do fenômeno, talvez fosse mais fácil pensar a migração a partir de categorias mais
herméticas como origem/destino, urbano/rural, industrial/não industrial, etc., hoje a questão
se coloca de forma mais complexa.

Em outras palavras, se no passado a complexidade e a diversidade das formas de mobilidade


espacial da população eram ofuscadas pelas grandes tendências históricas da migração no
Brasil, em particular a migração rural-urbana, e até mesmo pela falta de dados, hoje elas se
manifestam com toda força, não apenas reproduzindo alguns aspectos já observáveis nas
décadas anteriores, mas também apresentando novas feições, fenômenos, condicionantes
e consequências.

Segundo Martins, sendo a migração uma consequência esperada para se garantir a busca de
meios de sobrevivência na sociedade moderna, o interesse maior deveria ser com o “não
migrante”. (p.8)
Migração ou mobilidade espacial da população? Seja lá qual for o termo mais
adequado (não se pretende aqui estabelecer qualquer tipo de consenso), o mais
importante a ser considerado por aqueles que se preocupam ou se interessam por este
tema é o fato que esse fenômeno, complexo em função de suas múltiplas facetas, requer não
apenas constantes e mais intensos esforços teóricos, mas também muito cuidado e habilidade
no uso dos dados normalmente disponíveis, particularmente aqueles derivados dos Censos
Demográficos e das PNADs. (p.9)
“A migração, fenômeno complexo essencialmente social e com determinações múltiplas,
apresenta interações peculiares com as heterogeneidades de uma formação histórico-social
concreta. Assim, diante da pluralidade das relações sociais ou dos diversos contextos sociais
onde se verificam processos de mudança, a migração tende a assumir feições próprias,
diferenciadas e com implicações distintas para os indivíduos ou grupos sociais que a compõem
e a caracterizam” (p.2)

“Todavia, colocações desta natureza incorrem no risco de uma visão multifária, muitas vezes
contraditória, de migração”. (p.2)

Migração: o fato e a controvérsia teórica

Celso Amorim Salim

“Apesar dessas colocações, a migração, por ser componente demográfico relacionado às


condições históricas das mudanças – social, econômica, estrutural, etc – constitui importante
mecanismo de reprodução ou alteração numérica da sociedade.

A unidade dos discursos sobre a migração não se dá sequer na definição do seu conceito
básico. Se a migração é o objeto explícito e unificador sobre o qual se discursa, permitindo até
mesmo indexar todo um conjunto particular do conhecimento científico, sua concepção
impõe-se como um “gargalo”, quando intentamos inventar todas a definições e perspectivas
teórico-metodológicas da literatura especializada. Segundo Vainer (1984:9), em certo sentido
verifica-se que, por trás da aparente unidade dos vários discursos sobre o conceito migração,
parece não haver qualquer unidade plausível. Aliás, possivelmente, “a unidade desses
discursos está fundada menos naquilo que dizem (...) que naquilo que omitem” (Ibid,.10).”
(p.3)

“Diante disso, deparamos com um quadro caótico irredutível. Entretanto, tal situação não tem
constituído um óbice à produção científica sobre migração, servindo até de estímulo ao
aprofundamento dos debates, como ocorre com a busca da “unidade conceitual” de um tema
que, na realidade, é pleno de antagonismos e não apresenta unidade conceptiva. Neste
sentido, Vainer (Ibid.:10) conclui que

“cada discurso mostra-se extremamente cioso em demarcar sua


especificidade ao definir um objeto que lhe é próprio – a sua
migração dos outros – mas isto não impede que as polêmicas se
estabeleçam, que as correntes de opinião se estruturem, que as
políticas sejam formuladas, propostas, contestadas”. (Grifos no
original).

Adotar tal definição, para os objetivos deste trabalho, significa apresentar a migração como
fenômeno de mobilidade espacial de

Temos portanto, três elementos que irão constituir a migração: a distância do deslocamento, o
tempo de permanência ou residência e o local de origem e destino do fluxo como etapa
migratória única e/ou última. (p.4)

Mas a migração não se reduz à transferência de um contigente humano que, em determinado


período, desloca-se entre duas regiões e muda de residência de forma permanente. Uma
definição mais criteriosa teria que incluir outras possiblidades como, por exemplo, a migração
de retorno dos naturais às suas áreas de origem e abranger também as migrações temporárias.
Especificamente, as últimas, apesar de não explicitadas nas estatísticas censais, são tão
importantes quanto as permanentes e podem até ser mais expressivas, sob aspecto numérico
ou sócio-economico. (p.4)

As teorias atuais sobre a migração geralmente indicam como sua causa motora principal a
desigualdade econômica, social regional, etc. À migração caberia o papel de superar, diminuir
ou mesmo acentuar tal desigualdade, segundo dos diversos contextos em que ela ocorre.
Entretanto, veremos que mesmo as interpretações são divergentes e conflitantes. (p.4)

Dependendo de cada enfoque teórico, a discordância fundamental pode se verificar na


explicação da origem do desiquilíbrio, na abordagem metodológica nos pressupostos
ideológicos e, principalmente, na interpretação dos fatores que determinam a migração ou das
consequências que ela produz. (p.4)

Até mesmo o simples inventário ou a indexação das principais correntes ou linhas teóricas
sobre migração, organizando-as em sistemas lógicos unificados, gera controvérsias entre os
estudiosos, impedindo o estabelecimento de uma classificação que seja universalmente aceita
e que resulte em melhor compreensão científica do tema. (p.5)

Neste sentido é que propomos a classificação das diversas correntes teóricas em três troncos
principais:

Os modelos neoclássicos contemporâneos (p.5)

Para este tronco teórico, os movimentos populacionais correspondem à mobilidade geográfica


dos trabalhadores. Esta, por sua vez, surge de desequilíbrios espaciais dos “fatores de
produção”: terra, capital e recursos naturais. A assimetria na distribuição dos fatores, por
determinar retornos diferenciados, influencia a direção e magnitude dos fluxos migratórios (cf.
Wood, 1982: 300 – 1).

A migração, vista como fenômeno positivo, possibilita a transferência de excedentes


populacionais de um setor para outro. Observa-se, via de regra, uma concepção dualista da
economia, como aquela que ve na emigração de áreas rurais não-desenvolvidas uma condição
de satisfação da demanda crescente de mão-de –obra pelo setor industrial emergente, como
descrita por Lewis (1954).
Os processos agregados não seriam, neste esboço, outra coisa senão um “caso especial da
teoria microeconômica da escolha do consumidor”, tal como coloca Shaw, citado por Wood.
Além disso, os fluxos, enquanto soma de indivíduos, podem ser interpretados face à
expectativa de renda futura esperada e não de renda efetiva, onde os custos e retorno são
considerados (Sjaastad, 1962), ou face à segmentação do mercado de trabalho urbano nos
países em desenvolvimento, propiciada pelo surgimento de um setor modrno, que limita a
decisão do indivíduo à probabilidade de encontrar emprego, como demonstra Harris e Todaro
(1970). (p.6)

O enfoque teórico da migração como fator de equilíbrio remete ás condições de mercado toda
a variabilidade do comportamento econômico. Deste modo, é a desigual dotação de recursos
ou de “fatores de produção” nos diversos subespaços que, ao provocar diferenciação na
relação capital/trabalho, altera os níveis de produtividade do trabalho, acelerando a migração.
(p.6)

A força de trabalho, considerada capital humano, caracteriza-se também como um dos fatores
de produção de mobilidade extremada e, especificamente, tem oferta determinada pelos
níveis de salário vigentes e demanda definida por sua produtividade marginal.
Consequentemente, os diferenciais de salário, na espacialidade heterogênea, configuram-se
como fator básico da migração. (p.6)

A concepção neoclássica traz implícita, assim, a ideia de recusa da imperfeição causada pela
desigualdade estrutural e de aceitação tácita das variações conjunturais, além, é claro, da
propensão “natural” da força de trabalho ao movimento, logo que a diferenciação social se
manifeste a nível do espaço, como destaca Gaudemar (1977:178-4).

Não obstante a “tirania do espaço”, lembrada por Wood (1982), verifica-se, linearmente a
marcha inexorável para a homogeneidade, a indiferenciação progressiva, com a eliminação ad
hoc da desigualdade que o qualifica. Enfim, a igualização ou o equilíbrio é inexorável, ainda
que a estrutura social permaneça, em sua essência, inalterada. (p.7)

Em resumo, na ótica neoclássica, os estudos de migração pressupõem o cálculo racional e a


livre decisão dos indivíduos, ou seja, a mesma lógica locacional das firmas. Esta é a razão do
livre trânsito de corpos no espaço: o movimento dirime a heterogeneidade espacial e propicia
o equilíbrio, no sentido da igualdade possível. Assim, a mobilidade espacial de trabalho é, em
sua acepção geral, trazida simplesmente

“como fluxo reequilibrante, quer em matéria de salários, quer em


matéria de emprego para os modelos com fins macroeconômicos,
quer maximizando o lucro individual tirado da migração pelos
modelos de comportamento” (...) (Gaudemar, op. Cit: 155)

Após inventariar os modelos neoclássicos mais significativos, através do modelo de diferença


ou de convergência, Gaudemar classifica-se em função dos fluxos de ajustamento (estáticos) e
dos fluxos de crescimento com oferta de trabalho de elasticidade infinita (dinâmicos). Por sua
vez, os modelos estáticos se subdividem em função das seguintes variáveis: i) níveis de salários;
ii) ganhos de produtividade, e iii) salário e produtividade. Já os modelos dinâmicos são
considerados em termos de i)produtividade, ii) procura de trabalho; e iii) diferenças salariais.
(p.8)

A análise histórico-estrutural
Diferentemente da concepção anterior e renraizado na tradição do materialismo histórico,
este tronco teórico vê a migração não como ato soberano do indivíduo ou soma de escolhas
individuais, mas como fenômeno – relação? Processo? – social,

Mesmo que alguns estudos combinem unidades de análise a níveis individual e agregado, a
migração, cujo motor é a desigualdade regional, processa-se geralmente para redimensiona-la,
muitas vezes no sentido de uma desigualdade ainda maior a nível d regiões, grupos sociais, etc.
como resultado e condição da própria estratégia do desenvolvimento do capital, a migração
seria também elemento importante de sua concentração espacial. (p.8)

A migração é fenômeno social cujos determinantes e consequências remetem a outros


fenômenos sociais historicamente determinados e que se relacionam a processos de mudança
estrutural em uma formação social particular (Cf. Balan, 1978:58-9)

Nega-se, portanto, a visão dualista da sociedade, ao se analisar, dialeticamente, os seus nexos


causais. O foco de análise é redirecionado para as contradições no âmbito das relações sociais
de produção, do desenvolvimento das forças produtivas e dos mecanismos subjacentes de
dominação. (p.8)

Wood (ibid.: 301) fala-nos de uma “variedade de modelos”, como a “teoria da dependência”, o
“colonialismo interno”, a relação “centro-periferia” e a “acumulação global”. Raczynski
(1983:866-7), por sua vez, resume esta abordagem de acordo com os três primeiros modelos
listados por Wood. (p.9)

De qualquer forma, constituem ponto comum implícito nesta subdivisão modelar as causas
estruturais, relacionadas à desigualdade regional e que estigmatizam sobretudo os países de
industrialização tardia, como os latino-americanos. Outras características ou elementos desta
abordagem podem ser assim apresentados:

- caracterização da migração segundo as “propriedades estruturais” da área geográfica no qual


se insere, sem identificar o “impacto diferencial dos condicionantes estruturais” sobre a
população a nível sócio-econômico, demográfico e espacial (áreas de origem e destino, por
exemplo); assim como “as vinculações e intermediações entre ambos os níveis, o macro e o
micro social”;

- tendência predominante de dimensionar a migração pelo aspecto econômico – modos de


produção, relação de produção, mecanismos de exploração, etc – sem relacioná-la com outros
processo macrossociais importantes, como os “de natureza social e cultural”, que também
incidem em graus diversos sobre ela;

- tentativa recene de analisar outros tipos de migração, além da permanente rural-urbana,


como as migrações temporárias e estacionais, “com diferentes implicações para os lugares de
origem e destino e para as famílias afetadas por ela”. Além disso, busca-se também estudar o
papel das migrações em termos de mercados regionais de trabalho.

-definição das classes sociais a partir das relações de produção e concepção de estrutura de
classe como mecanismo de exploração que assegura a desigual repartição do produto social.
Neste caso, a análise dialética da mudança social explicita “os mecanismos que perpetuam a
estrutura de dominação, assim como as tendências contraditórias, enraizados em várias
ideologias e interesses criados pelo desenvolvimento de uma estrutura dada, que conduz à sua
transformação” (Wood: 1982: 302);

- determinação da mobilidade do trabalho por fatores estruturais, que incidem sobre as


condições de distribuição espacial da demanda e, portanto, sobre o recrutamento e a
remuneração. A migração redistribui a força de trabalho segundo as necessidades específicas
do processo de acumulação, em contextos históricos concretos. Assim, o migrante é
concebido simultaneamente como integrante do exército industrial da ativa e da reserva e, via
de regra, resulta de transformações nas relações sociais de produção nas áreas de origem;

- análise a nível agregado dos fluxos e conversão a esse nível da conduta migratória individual.
O indivíduo e o grupo social não atuam de forma autônoma, mas submetidos aos influxos de
causas estruturais. Deste modo, determinam a migração em geral. (p.10)

Obviamente, outras possibilidades poderiam ser anotadas, para ampliar o quadro definitório
impreciso da abordagem histórico-estrutural. Impreciso porque, se na perspectiva do equilíbrio
a migração é reduzida ao nível do comportamento individual, nesta abordagem verifica-se o
contrário: a generalidade e a abrangência da unidade de análise são concebidas em termos de
classes ou grupos sócio-econômicos, contextualizados empiricamente em áreas geográficas e
podendo também combinar ou alternar análises a nível agregado, desagregado e, ainda que
raramente, até mesmo a nível individual (motivos, por exemplo). (p.10)

Diferentemente das perspectivas anteriores, temos, na ótica da mobilidade da força de


trabalho, um novo foco de análise centrado na relação capital/trabalho, produção e
reprodução ampliada desta relação. A migração deixa de ser consequência ou reflexo do
espaço transformado para atuar como agente de transformação, e a dimensão espacial,
traduzida como conjunto de relações sociais, é retida para possibilitar a análise de formas
concretas da mobilidade da força de trabalho. (p.10)

Na realidade, segmentos da população ou contingentes da força de trabalho deslocam-se no


espaço porque este se estrutura de forma a coloca-los em movimento. Significa dizer que
existe uma característica adquirida da forma de trabalho – a mobilidade -, que faculta não
apenas o seu movimento, mas também a localização e relocalização espacial do capital, mas
diversas esferas de produção. (p.10)

Criticando os que, indistintamente, concebem a mobilidade de forma homogênea, em termos


de simples movimento ou deslocamento, J.P. Gaudemar esboça toda uma problemática
original quanto à concepção de mobilidade do trabalho. Neste sentido, realiza autêntica
arqueologia do pensamento econômico, resgata a mobilidade como “noção perdida”, traçando
uma genealogia do conceito e, sobretudo, mostra que, a partir do século XVIII, as formas de
mobilidade surgem como fenômenos marcadamente estruturais. (p.10)

A exemplo de Marx, o autor concebe o trabalho como força de trabalho em atividade, e a


acumulação de capital como relação social que se desenvolve qualitativamente e
quantitativamente. Esta seria a condição estrutural da qual emerge a mobilidade. A partir daí,
busca um conceito unitário – unidade conceitual, apesar da multiplicidade de suas formas -,
onde a natureza das relações sociais de produção tem papel determinante na sua
conformação concreta. (p.11)

A mobilidade se liga à produtividade e à expansão física do capital, apresentando-se como


condição e consequência do desenvolvimento das forças produtivas. Por seu papel essencial no
processo de acumulação, as condições em que ela se manifesta podem retratar a própria
natureza do ciclo econômico, na medida em que permite o uso extensivo ou intensivo da força
de trabalho pelo capital. (p.11)

A acumulação capitalista e seus corolários, como concentração, centralização, composição


orgânica e técnica do capital, por um lado, e a proletarização e a exclusão social, via
crescimento do excedente populacional relativo, por outro, não passam de elementos que
conformam sua própria contraface, ou seja, a mobilidade da força de trabalho e suas
possibilidades concretas. (p.11)

Em estruturas capitalistas marcada pela rigidez ou expansão de sua morfologia econômica, as


formas de mobilidade do trabalho surgem como fenômenos de submissão e não de liberdade,
devido à tendência geral do capitalismo de açambarcar toda as formas pretéritas de produção:
em busca de valorização,

Em sua globalidade, a mobilidade da força de trabalho remete-nos a tres grandes momentos


do processo de acumulação, que se traduzem nas próprias condições de existência do
capitalismo, a saber:

a) produção das forças de trabalho, que corresponde à aquisição da mobilidade propriamente


dita pelo trabalhador, via acumulação primitiva e formação do mercado de trabalho;

b) utilização das forças de trabalho, através do aprofundamento da divisão do trabalho, que


leva à submissão da mobilidade ao capital;

c) circulação das forças de trabalho, que é o momento de submissão da mobilidade às


condições de mercado, ou seja, o trabalhador sofre os influxos contingenciais dos movimentos
cíclicos do capital e se desloca, face às crises periódicas, entre os diversos ramos da atividade
econômica (Cf. Gaudemar, 1977: 192-5).

Resumidamente, o efeito de fluxo, ao simplificar as tarefas, facilita o concurso de


trabalhadores mais desqualificados, cuja força de trabalho é de baixo valor de troca, como
ocorre com mulheres e crianças. Assim, surgem pólos de atração que se concretizam pela
mobilização particular desse contingente da força de trabalho. Em contrapartida, o efeito de
refluxo torna os antigos trabalhadores supérfluos, rejeitando os adultos, isto é, eliminando
trabalhadores “qualificados”, que irão compor ou aumentar o excedente populacionais
relativo. (p.12)

Tal quadro se explica tanto pela mudança das relações sociais de produção como pelo
desenvolvimento das forças produtivas. Quebrando os vínculos anteriores – com a terra, por
exemplo -, tais mudanças deslocam os antigos trabalhadores, substituindo-os crescentemente
por camadas sociais até então excluídas, como mulheres e crianças, “infantilizados” assim
parte da força de trabalho. (p.12)

São esses movimentos de fluxo e refluxo que se explicam fenômeno como a emigração, forma
clássica da reabsorção do excedente populacional em outras áreas, dentro das fronteiras
nacionais ou mesmo em escala internacional, como ocorreu, por exemplo, na conquista do
Novo Mundo por colonizadores europeus. Enfim, com o fluxo, temos mobilidade mobilizadora,
com substituição da força de trabalho. Com o refluxo, temos desmobilização, aumento do
excedente populacional e emigração. (p.13).
Enfim, a mobilidade da força de trabalho situa-se de forma pendular e contraditória entre o
crescimento da riqueza e a expansão do excedente populacional relativo. Este último
apresenta-se como reserva de força de trabalho imediatamente disponível e tende a ampliar-
se com o processo de acumulação. Neste caso, importa apenas apreender como a riqueza é
apropriada e reproduzida socialmente, pois o capital sempre gerará sua oferta de trabalho,
isto é, assalariado e o assalariado potencial, ou “supranumerário”, como designa Gaudemar
(op. Cit.:283). Sendo assim, a variável mobilidade coloca-se como endógena ao
desenvolvimento capitalista, e sua natureza/especificidade guarda estreita conexão com os
ciclos do capital. (p.13)

Em primeiro lugar, registre-se que a centralidade de análise no indivíduo limita a compreensão


científica da migração, como destaca Gonzales (1979). Além disso, a migração não implica
necessariamente na eliminação das desigualdades regionais, econômicas, etc, havendo
evidências suficientes em sentido contrário. Por outro lado, trata-se de fenômeno complexo,
no qual intervém uma multiplicidade de “fatores”, que o afetam diferenciadamente, de acordo
com as características de cada região, país, etc. (Raczynski, 1984:870-1). (p.13)

A estas considerações acrescentem-se as críticas de Wood (1982:303-6) ao “modelo de


equilíbrio”. Para o autor, a análise neoclássica, ao não enumerar os conceitos e temas por
hierarquia de causação, acaba homogeneizando as variáveis (custos, benefício, distancia,
salários, etc.), que se tornam mutuamente determinadas no mesmo nível. Assim, as migrações
internacionais, inter-regionais, etc, podem ser explicadas sob iguais condições ou no mesmo
nível hierárquico. (p.13)

Além disso, a ênfase nos custos e benefícios releva fatores secundários e obscurece as causas
essenciais e o caráter histórico da migração, deixando de captar, a nível macro, as condições
que compelem a migrar. Partindo da desigualdade e do pressuposto do trabalhador livre, ela
não explica suas causas, seus determinantes. Afinal, a proletarização não surge da simples
força do mercado e nem a força de trabalho flui espontaneamente para o mesmo. Junto com a
violência econômica da expropriação, é preciso também considerar as forças extra-econômicas
que porventura incidam sobre a migração, como a violência física no campo, por exemplo.
Mesmo após essas críticas gerais, não se pode ignorar que os modelos neoclássicos, ao
avançar nas manipulações de variáveis e hipótese de acordo com os procedimentos da
pesquisa empírica, podem também contribuir para uma relativa compreensão dos
acontecimentos no nível do indivíduo, como i)motivação, característica e mobilidade do
migrante; ii) os custos da migração a nível econômico, psicossocial, da distancia física e por
oportunidades intervenientes, etc. O maior problema desses modelos encontra-se, todavia, na
passagem do micro para o macro, pela possiblidade de se cometer “falácia ecológica”, com a
miscibilidade frequente dos conceitos de estrutura e de população. Por outro lado, se as
formulações neoclássicas são relativamente aplicáveis aos países capitalistas, por pressupor
mercado livre de trabalho e de capital, tornam-se problemáticas quando transpostas para
sociedades que ainda se deparam com formas residuais de relações sociais ou onde a
articulação entre os diferentes modos de produção afigura-se como traço marcante. Neste
caso, a concepção neoclássica encontra-se impossibilitada de determinar as conexões internas
e as forças motrizes dos processos migratórios. Ficam comprometidas, por isso mesmo, sua
categorização teórica e sua postulação explicativa. (p.14)

Esta abordagem não se exime do equívoco e das limitações cognitivas face às seguintes
lacunas ou desvantagens teórico-metodológicas: i)dificuldade generalizada em superar o
reducionismo econômico; ii) como o processo de acumulação determina tudo, corre-se o risco
de tornar mecânico o que deveria ser dialético, ou seja, as mediações possíveis entre infra e
superestrutura; iii) mesmo que os fluxos se sobreponham ao indivíduo e condicionem a
racionalidade da sua decisão de migrar, não se procura analisar melhor a natureza do processo
de tomada de decisão, em termos dos “custos e benefícios” implícitos nos fatores externos,
tais como sistemas urbanos, organizações corporativas, redes sociais, disponibilidade de terras
e políticas tópicas, que podem intervir tanto na propensão como na direção dos fluxos; iv)
fraqueza empírica dos argumentos e conclusões, principalmente por utilização inadequada de
dados, não testabilidade das hipóteses e pouca exploração das variáveis demográficas. (p.16)

Em relação às possiblidades, temos: i)capta a migração dentro do contexto histórico e dá


ênfase aos fatores estruturais que determinam a natureza coletiva do fenômeno; ii) os
elementos conceptuais podem assumir uma cadeia ou hierarquia de determinações, iii)
relativiza os efeitos dos fatores de atração e de expulsão face à singularidade histórica da
migração; iv) acena com a possibilidade de interdisciplinaridade de enfoque no estudo da
migração, envolvendo aspectos econômicos, sociológicos, demográficos, etc; vi) não mistifica
os métodos formais de análise empírica. (p.16)

Quanto à concepção de mobilidade da força de trabalho, entendemos que, face à oposição


entre os que defendem uma explicação da migração em termos de níveis de salários e os que
privilegiam os aspectos estruturais, escamoteia-se a apreensão do seu real, significado, ou
seja, riqueza de possibilidades, em estruturas sociais capitalistas. (p.16)

Por isso, tais análises não apreendem o conceito de forma eurística ou não superam o seu
sentido gnosiológico estrito: resumem-se, praticamente, a tangenciar a sua relevância em
termos de formas concretas como, por exemplo, a mobilidade espacial, indistintamente
traduzida como migração; e a mobilidade setorial e/ou profissional, não raramente traduzida
como migração profissional. (p.16)

Se a colocações anteriores são concernentes aos países industrializados do Primeiro Mundo,


mesmo revelando uma assincronia entre teórico e o empírico, parecem problemáticas quando
transpostas para a realidade dos países de industrialização tardia ou em processo de
modernização agrícola recente, como o Brasil. Primeiro, faltam estudos mais abrangentes, que
possam fornecer um nível satisfatório de referencia teórica sobre a questão. Segundo, a não
disponibilidade de dados adequados impossibilita inferências relevantes a nível agregado,
demandando, por isso, análises tópicas, através de surveys específicos. Em se tratando de
grandes áreas, isso é simplesmente impossível. Assim, aspectos empíricos importantes da
mobilidade da fora de trabalho ficam a descoberto ou dependentes da criatividade do analista.
É claro que avanços sore a questão, ainda que tímidos, devem ser considerados, como as
análises de Baumfeld (1984) e Becker (1982), sobre a mobilidade em área de expansão da
fronteira agrícola. (p.17)

Contudo, a concepção de mobilidade da força de trabalho traz preocupações mais


epistemológicas que empíricas, pouco contribuindo, até o momento, para a ampliação efetiva
do acervo de conhecimentos sobre os deslocamentos populacionais. Apesar de acenar com
uma grande riqueza de possiblidades, ela apresenta limites inquestionáveis. (p.17)

Outra crítica relaciona-se à concepção da mobilidade migratória, inspirada em Gaudemar e


utilizada por Vainer (1984:34). Segundo este autor, se a mobilidade espacial “concerne a
múltiplas e complexas formas de expropriação espacial”, então
“o que aparece como livre movimento/deslocamento de homens
livres no jogo das forças livres do espaço/mercado não é senão uma
da formas da mobilidade espacial, dimensão espacial da
subordinação do trabalho ao capital”.

Apesar das colocações de Vainer sobre a dinâmica das transformações interdependentes entre
a migração e o espaço, rompendo a visão estática, ou seja, “a migração deixa de ser apenas
uma consequência da forma do espaço, para tornar-se, também, condição dessa forma” (Ibid.:
16), sua concepção de mobilidade migratória é equivocada e redundante (p.18)

Ao nosso ver, a mobilidade migratória é a própria mobilidade espacial, que por sua vez se
configura como mobilidade concreta ou momento de mobilidade da força de trabalho. Embora
seja indiscutível a incompatibilidade entre a concepção neoclássica e a concepção de
mobilidade da força de trabalho, não nos parece desprezível a capacidade desta última em
contribuir para o alargamento de perspectivas da análise histórico-estrutural, tal qual esta vem
se desenvolvendo no Brasil. O problema mais grave, sem dúvida, resume-se ao
estabelecimento de uma base empiricamente confiável para o estudo das diversas
modalidades do fenômeno da mobilidade. (p.18)

As diferenças essenciais entre os troncos neoclássico e histórico-estrutural remetem às


relações básicas entre o fato e a teoria. A par da distinção entre os respectivos objetos de
estudo e técnicas de análise, essas ainda pressupõem enumeração inconciliável de conceitos,
temas e variáveis, em termos de hierarquia de causação e de determinação. Exatamente por
isso, não nos parece viável uma integração dos dois troncos, como propõe Wood (1982), por
exemplo, com seu approach alternativo, que tenta, pela intermediação entre o individual e o
estrutural, tomar a família como unidade de análise. Segundo o autor, a família, por ser um
grupo que se mantém e se reproduz à base de um “fundo de renda coletivo”, pode incluir
várias estratégias de sobrevivência, de busca do equilíbrio entre o consumo e a capacidade
produtiva, através da mobilidade de todos ou de parte dos seus membros. A migração –
temporária ou permanente – seria uma das medidas compensatórias, em situações de
desequiíbrio. (p.18)

O esboço de Wood, embora careça de demonstrações, talvez indique pista par


compreendermos certas formas de migração intermitente que implicam em semi-
asssalariamento, e explica em parte a migração circular ou de retorno às áreas não
desenvolvidas, ou mesmo o “trabalho assalariado a domicílio”, nas áreas mais integradas à
estrutura agroindustrial. Entretanto, ela se limita por voltar-se mais à problemática rural, dar
pouca ênfase aos fatores estruturais, face aos fatores microeconômicos, e, principalmente, por
não se referir à outra face política da mobilidade, que é a resistência à migração ou à
proletarização, implicando esta última até mesmo na mudança para espaços alternativos
muitas vezes longínquos. O foco na família acaba limitando a compreensão da tendência à
purificação das relações sociais de produção, no sentido capitalista, e de sua adequação à nova
estrutura emergente, expressa exemplarmente pela industrialização da agricultura. Nesse
quadro, também emergem novas formas de mobilidade e padrões específicos de migração,
que podem incidir sobre o padrão de formação da família “rural” e não ao contrário, na
medida em que altera a dinâmica da fecundidade. (p.19)

Nesta perspectiva, é exequível a superação de duas limitações inerentes à análise histórico-


estrutural que, em nossa opinião, bloqueiam a melhor compreensão da migração. A primeira
se refere ao trabalho inadequado, por vezes simplista, das variáveis demográficas, o qual
impede o estabelecimento de interrrelações efetivas entre os processos migratórios e as
mudanças estruturais. Temos aí uma relação complexa e com possibilidades diversas de
interação, ou seja, a integração entre o “túnel da sociedade, isto é, das variáveis estruturais,
das classes sociais e das relações de produção, e o túnel demográfico, o da dinâmica da
população”, tal como pontua Raczybski (1984:872). (p.21)

A segunda limitação se relaciona ao enfoque da força de trabalho, considerada “livre” e


subordinada às necessidades de acumulação do capital, ou seja, mercadoria criadora de valor
e que transforma dinheiro em capital. Este enfoque concebe a força de trabalho em termos
estáticos, não revelando o seu conteúdo, sua transformação e sua face oculta no processo de
acumulação. Vale dizer: o próprio processo de constituição de sua mobilidade – espacial,
setorial e profissional – que por sua vez envolve etapas de produção, circulação e utilização da
força de trabalho no processo de valorização do capital. A escolha deste caminho teórico
impõe a recusa categórica da explicação neoclássica no seu fundamento, pois a migração não
seria um mecanismo de resolução da desigualdade social, regional, etc: o êxodo rural não
diminuiria simplesmente devido aos “anos de produtividade” na agricultura, porque as
“necessidades” do setor urbano-industrial foram satisfeitas ou, finalmente, porque as
disparidades espaciais desapareceram. Elimina-se, ainda, a fragilidade conceptual desta
vertente teórica, evidente, por exemplo nos modelos gravitacionais, particularmente quando
aplicados à esfera agrícola. (p.21)

O problema maior do caminho teórico escolhido reporta-se, portanto, à aludida fraqueza


empírica e à pouca exploração dos dados demográficos pelos não-neoclássicos,
particularmente quando se trata da migração como resultado da mobilidade, onde urge a
convergência do teórico com o empírico, para melhor conhecimento da questão. Certo é que o
avanço empírico não pode ser mero suporte, mas sim estratégia inferencial de comprovação
de hipóteses e enriquecimento do aporte teórico. (p.22)

Migração: o fato e a controvérsia teórica

Antes de tudo, é preciso que os fluxos e padrões migratórios, derivados da mobilidade da força
de trabalho, sejam historicamente inseridos no âmbito das relações de determinação entre
população e economia.

No modo de produção capitalista, há um atrelamento inexorável da dinâmica demográfica às


próprias condições do processo de acumulação, que por sua vez produz excedente
populacional relativo, ou exército de reserva, independentemente da “barreira natural” da
taxa de crescimento vegetativo da população, que passa a ter papel secundário. Será, isto sim,
dependente basicamente de fatores econômicos conjunturais ou estruturais, que incidem,
respectivamente, sobre as variações na composição orgânica e na concentração do capital.
Conforme Marx (1975, I, 537), esta é a lei de população do capitalismo. Nessa perspectiva, a
reprodução da população, ou reprodução da força de trabalho para o capital, desloca-se da
esfera biológica para esfera social, ou seja, esta última é que determina a primeira. Mesmo
que o tamanho e a densidade de uma população sejam variáveis relativas, importa lembrar
que, além da expropriação dos meios de produção do trabalhador “a concentração da
população e o seu tamanho em áreas específicas, condiciona o ciclo de rotação do capital e da
mais valia” (FUCARACCIO E GONZÁLEZ, 197:209). (p.20)
BECKER, O. M. S. Mobilidade Espacial da População: Conceitos, Tipologias, Contextos. In
CASTRO, I. E. de; COSTA GOMES, P. C. da; CORRÊA, R. L. (Org). Explora- Explora- Explora-
Explora- Explorações Geográficas: Percursos no Fim de Século. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1997.

Os deslocamentos de populações em contextos variados e envolvendo ao longo do


tempo escalas espaciais diferenciadas conferiram complexidade crescente ao conceito
de mobilidade como expressão de organizações sociais, situações conjunturais e
relações de trabalho particulares. A cada nova ordem política mundial correspondeu
uma nova ordem econômica com a emergência de novos fluxos demográficos. (p.319)
Desde as invasões dos povos bárbaros asiáticos até os migrantes dos novos tempos,
grupos populacionais põem-se em movimento: lutam pela hegemonia de novos
territórios, fogem de perseguições étnicas e repressões múltiplas, vislumbram a
possibilidade de terras e mercados de trabalho mais promissores, ou simplesmente
perambulam em busca de tarefas que lhes assegurem a mera subsistência. (p.319)
Fatos contemporâneos como a queda do muro de Berlim, ocorrida em 1989, a crise do
Golfo, a maré humana de refugiados africanos empurrados pelos confrontos tribais e
ditatoriais, e as lutas nacionalistas, de que a guerra civil na Ioguslávia e recentemente na
Albânia são trágicos exemplos, atestam o esfacelamento do mapa do mundo (dos países
e dos povos) desenhado no pós-Segunda Guerra. O mundo foi redefinido, porém, a
partir da emergência dos chamados blocos econômicos: Mercado Comum Europeu,
NAFTA, APEC. A conjugação dessa nova geografia político-econômica com situações
de extrema miséria na África e América Latina originou fluxos migratórios de
magnitude considerável, caracterizando o fenômeno migratório dos anos 90. (p.320)
Entretanto, a ameaça de crescente flexibilização dos mercados de trabalho com o
aumento da exclusão social, ao lado das já visíveis mudanças na configuração étnico-
culturais das áreas de destino, tem impelido a construção de novos “muros da
vergonha”. Segundo ARBEX (1991), esse é um movimento que se opõe aos fluxos
migratórios e que aponta para a formação de um novo “muro” separando ricos e pobres
– os novos “blocos de poder” – não mais ideológicos, mas essencialmente econômicos.
(p.320)
“Os movimentos de população revelam as feições das
sociedades contemporâneas. É a sua ‘função de espelho’ que se
situa em todos os níveis de análise. Como tudo que desempenha
uma função de revelação, a migração internacional é uma
questão que incomoda. Ela incomoda as sociedades onde
ocorrem as saídas, pelo julgamento que traz o “referendo pelos
pés”, que sanciona a ditadura ou a incapacidade de um regime.
Também incomoda países de imigração. O que fazer com
refugiados albaneses que ocupam o porto de Brindisi, na Itália,
ou com vietnamitas encerrados em camplos de refugiados em
Hong Kong? Como agir diante do risco do gueto? Depois de
termos apoiado o direito de emigração dos europeus do Leste
sob o regime comunista, temos o direito de impedir aos
europeus ocidentais de trabalhar nessa parte da Europa? ”
(SIMON, 1991)

No âmbito das migrações internas, igualmente diversificada tem sido a tipologia dos
deslocamentos. Intensos fluxos de caráter rural-urbano ocorreram nas décadas de 50 e
60, representativos de um período marcado por crescente concentração fundiária e pela
industrialização nos grandes centros urbanos do Sudeste Brasileiro. Estabeleceram-se
migrações interestaduais de longa distância na década de 70, especialmente a de
nordestinos para o eixo Rio de Janeiro – São Paulo e a de sulistas para as áreas do
Centro-Oeste e Amazônia, responsáveis pela expansão e consolidação do mercado de
trabalho a nível nacional. Multiplicaram-se as migrações de assalariados rurais
temporários (volantes, bóias-frias), especialmente para as colheitas da cana e da laranja,
expressão do subemprego sazonal e das relações capitalistas no campo. Fomentaram-se
os deslocamentos sucessivos de “barrageiros” para a construção de grandes obras de
infra-estrutura energética ao longo das áreas de fronteira, seja internacional (Itaipu) ou
nacional (Tucuruí, Balbina, etc.). (p.321)
Por outro lado, intensificou-se a mobilidade tanto intermunicipal quanto intramunicipal,
seja rural-urbana ou rural-rural, em decorrência da progressiva escassez do fator terra,
levando à eclosão de movimentos sociais de resistência do que são exemplos o
Movimento dos Sem-Terra (MST) e o das populações extrativistas da Amazônia
Ocidental. É a contramobilidade emergindo como expressão do direito de “não migrar”,
ou de permanecer no espaço de origem; é a luta em defesa do “livre-arbítrio” quanto ao
espaço a ocupar, a cultura a preservar. É o singular tentando manter seu lugar no espaço
econômico global. (p.322)
Outras formas e escalas de mobilidade ainda poderiam ser lembradas. Como exemplos,
os movimentos pendulares intrametropolitanos para trabalho e/ou estudo, assim como
os deslocamentos intra-urbanos de caráter residencial. Esses refletem também a
expansão e a multiplicação dos espaços focais da pobreza e da violência: o rearranjo do
tecido urbano em função das mudanças no tecido social. (p.322)
Assim, parece que algumas perguntas se impõem. Qual tem sido, afinal, o significado
da mobilidade populacional a partir das diferentes concepções teóricas? Qual o papel
das migrações na construção histórica dos espaços organizados pelo capitalismo? Quais
as suas faces e interfaces em diferentes momentos, contextos e escalas? Quais as
perspectivas da mobilidade da força de trabalho no mundo atual? Este estudo se propõe
a abordar alguns tópicos para a discussão dessas questões. (p.322)
A mobilidade tem sido objeto de diferentes interpretações ao longo do tempo,
expressando-se, entre outros, através dos enfoques neoclássico e neomarxista. (p. 323)
Até os anos 70, o fenômeno migratório era considerado a partir de uma perspectiva
neoclássica, dentro de uma visão predominantemente descritiva e dualista. Estudavam-
se os movimentos migratórios especialmente através de uma mensuração dos fluxos
demográficos e das características individuais dos migrantes. Do ponto de vista
espacial, a análise estatística de fluxos (linhas) e de aglomerações (pontos) era
favorecida em detrimento da visão histórico-geográfica de uma formação social. Tal
concepção levava a um modelo redutivo da realidade onde a sociedade era considerada
sob um enfoque individualizado, atomístico: cada pessoa buscava maximizar suas
necessidades. A decisão de migrar era percebida como decorrente apenas da “decisão
pessoal” e não pressionada ou produzida por forças sócio-econômicas exógenas. (p.323)
A partir de meados dos anos 70, o fenômeno migratório foi reconsiderado sob o enfoque
neomarxista, do que é exemplo o trabalho de GAUDEMAR (1977). A migração passou
a ser concebida como “mobilidade forçada pelas necessidades do capital” e não mais
como um ato soberano de vontade pessoal, em resposta a “diferenças de renda urbana
esperada” (TODARO, 1970). (P.324)
Entretanto, a partir dos novos imperativos da Globalização como expressão do
neoliberalismo econômico emergem novas formas de gestão do trabalho objetivando o
controle de qualidade, mas produzindo simultaneamente a exclusão crescente do
trabalhador. O perfil da produção e o mercado se reorganizam a partir de novas jornadas
de trabalho e novos valores de salário. A estruturação da sociedade capitalista como
uma sociedade do trabalho está em crise. (p.324)
“A crise atual revelada pela redução do trabalho assalariado, pela ampliação das formas
de trabalho não-assalariado, pela redução do número de trabalhadores sindicalizados,
pelo arrefecimento da ação sindical, pela taxa de desemprego aberta e pela própria crise
do Estado-Previdência não parece ter solução já conhecida” (CARLEIAL, 1994:300).
(p.324)
O capital pode escolher a força de trabalho onde melhor lhe convier e da forma que lhe
for ainda rentável, pois crescem de forma assustadora os estoques de população
excedente. Esta categoria tem sido historicamente reconhecida como estrutural nas
econômias do Sul. Segundo ARENDT (1993:13), “o que se nos depara, portanto, é a
possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho”. (p.324)
Surgirá uma nova forma de imobilidade da força de trabalho pela ausência do trabalho?
Quais serão as novas estratégias de mobilização da população trabalhadora, das suas
lutas salariais, sindicais e políticas? (p.325)
Um novo paradigma das migrações está em gestação como resultante da atual
internacionalização da economia desenvolve-se numa conjuntura onde de um lado
ocorre a reestruturação tecnológica e, de outro, o aprofundamento da exclusão social.
Apesar das novas tendências, torna-se necessário reconhecer que:
“há certo consenso quanto às dificuldades presentes no trato da categoria trabalho... as
mudanças em curso no capitalismo mundial integrado denunciam uma profunda crise no
mundo do trabalho. No entanto, não dispomos ainda de categorias analíticas que nos
permitam incorporar tais mudanças. Por enquanto, utilizamos com cuidado as
disponíveis (CARLEIAL, 1994: 301).” (p.324)
Nas próximas seções serão tratados os conceitos de mobilidade espacial da população
segundo os enfoques até então disponíveis: o neoclássico e o neomarxista. (p.325)
Dentre os estudos tradicionais com enfoque neoclássico são considerados básicos
aqueles desenvolvidos por RAVESTEIN (1885), LEE (1966), e TODARO (1969),
dando ênfase às características pessoais dos migrantes e alguns fatores condicionantes
das migrações entendidos como “fatores de atraçaõ-repulsão” (push-pull factors). Como
fatores de repulsão estão representadas aquelas situações de vida responsáveis pela
insatisfação no local de origem; já aos fatores de atração correspondem aqueles
atributos dos locais mais distantes que os tornam atraentes. (p.326)
Há mais de cem anos o geógrafo inglês RAVESTEIN (1885) apresentou as”Leis da
Migração” à Sociedade Real Britânica. Analisou a migração interna na Inglaterra dentro
do contexto da Revolução Industrial, destacando os “fatores de atração das cidades”. Os
principais tópicos então discutidos foram: migração e distância, migração por etapas,
fluxos e contrafluxos, diferenças urbano –rurais na propensão de migrar, predominância
das mulheres nos deslocamentos de curta distancia, tecnologia e migração, dominância
do motivo econômico para os deslocamentos. Seu trabalho tornou-se o ponto de partida
para os estudos em teoria da migração. (p.326)
A partir dos anos 40, os estudos passaram a considerar a equação migração-distancia:
trabalhos estudaram as leis de migração de Ravestein a partir da formulação de modelos
matemáticos e estatísticos. Para STOUFFER (1940) e posteriormente DORIGO e
TOBLER (1983), a migração representava agora o resultado de uma equação
matemática: eram somados e subtraídos efeitos dos fatores de evasão e atração,
mediados pela distância, esta considerada o “obstáculo interveniente” a ser vencido.”
(p.327)
LEE (1966) foi o responsável pela criação de outro esquema geral sobre as migrações.
Sua proposição envolvia um conjunto de fatores negativos e positivos nas áreas de
origem e destino dos migrantes, um conjunto de obstáculos intervenientes e uma série
de fatores pessoais. Baseado nas Leis de Ravestein, Lee formulou uma série de
hipóteses gerais sobre o volume das migrações sob condições variadas, o
desenvolvimento de fluxos e refluxos populacionais, assim como sobre novas
características gerais dos migrantes. (p.327)
Tais teorias, porém, desconsideravam o problema crônico do desemprego urbano e do
subemprego nos países subdesenvolvidos, ignorando a proporção da força de trabalho
que não era absorvida pela chamada “economia moderna”. Em verdade, não possuíam
um expressivo componente social. (329)
Como resposta, TODARO (1969) formulou um modelo econômico baseado no
comportamento das migrações rurais-urbanas, reconhecendo o fato da existência de um
significativo extrato de trabalhadores urbanos desempregados e subempregados. Esses
trabalhadores estariam sujeitos a uma probabilidade de migrar para o setor moderno da
economia urbana, o que caracterizou esse modelo como probabilístico. (p.329)
Foram considerados os diferenciais de renda esperada na área de origem e na área de
destino. Assim, a decisão de migrar estaria na dependência da avaliação que o migrante
fizesse dessas diferenças de renda esperada. Todaro reconheceu igualmente a existência
dessas massas de trabalhadores urbanos desempregados e subempregados afetaria a
probabilidade do migrante de encontrar emprego no setor moderno. (p.330)
Outra questão a ser enfatizada era a ocorrência de mudanças estruturais nas economias
dos países em desenvolvimento. Isto tornava-se particularmente significativo, uma vez
que o conceito de desenvolvimento econômico frequentemente era definido em termos
de transferência de elevadas percentagens de trabalhadores das atividades da agricultura
para as industriais. Assim, esse seria um modelo de transferência de mão-de-obra do
setor rural “tradicional” para o urbano “moderno”. Tal processo se daria em duas etapas:
“A primeira etapa encontra o trabalhador rural desqualificado
migrando para uma área urbana e inicialmente despendendo um
certo período de tempo no chamado setor urbano tradicional. A
segunda etapa é atingida com o eventual engajamento num setor
de trabalho mais moderno. Este processo em dois estágios
permite-nos formular algumas questões fundamentais em
relação à decisão de migrar, o tamanho proporcional do setor
urbano tradicional, as implicações do crescimento industrial
acelerado e/ou diferenciais alternativos de renda urbano-rural
quanto à participação do trabalho na economia moderna”
(TODARO, 1969: 139)
Através da maioria desses estudos, a industrialização vinha sendo considerada como a
força propulsora das migrações. Fluxos populacionais derivariam da modernização, isto
é, da introdução de mudanças técnicas no processo produtivo e, consequentemente, do
aprofundamento na divisão social do trabalho, particularmente entre as esferas rural e
urbana da produção. (p.331)
Nessa visão neoclássica, a migração era percebida como um mecanismo gerador de
equilíbrio para econômicas em mudança, especialmente aquelas mais pobres. A
mobilidade era considerada, portanto, como fluxo de ajustamento, sinal e fator de
progresso econômico. GAUDEMAR (1977:18) contesta tal concepção ao discorrer
sobre “a mobilidade dos homens enquanto estratégia para perpetuar as desigualdades de
espaço”, uma vez que esse espaço não é mudado de forma a atender as necessidades de
sua população. (p.331)
Assim, ao criticar a visão neoclássica, Gaudemar ponderava que, sob essa lógica,
somente os fluxos migratórios dos setores ou regiões “subdesenvolvidos” (salário
flexíveis, fraca, produtividade, produção de bens baseada no modelo intensivo de mão-
de-obra) para os setores ou regiões desenvolvidos (salários rígidos, forte intensidade
capitalista da produção) constituiriam processo de ajustamento ao equilíbrio ótimo. Os
fluxos contrários seriam desequilibrantes e, portanto, nocivos. (p.332)
Finamente, a visão neoclássica das migrações baseava-se num enfoque determinista: o
fenômeno migratório estava reduzido à identificação e quantificação de algumas causas
e efeitos. Ao considerar a migração de uma forma isolada e pontual, esse enfoque torna-
se a-histórico e pretensamente apolítico, em oposição ao método histórico dialético.
(p.332)
O contexto de análise da mobilidade espacial foi expandido ao se discutir o seu caráter
histórico. A migração foi caracterizada por SINGER (1973: 217) como “fenômeno
social historicamente condicionado, tornando-se o resultado de processo global de
mudanças, separado do qual não deveria ser considerado”. Assim, o primeiro passo na
análise dos deslocamentos populacionais passou a ser a identificação dos limites da sua
configuração histórico. (p.332)
De acordo com Singer, haveria dois conjuntos de fatores relacionados às migrações nas
áreas de origem: os “fatores de mudança” e os fatores de estagnação”. O primeiro tipo
decorreria da introdução de relações capitalistas de produção, com a expropriação dos
trabalhadores rurais da terra, sendo o objetivo desse processo o aumento da
produtividade do trabalho com a consequente redução no nível de emprego. O segundo
relacionar-se-ia à crescente pressão demográfica sobre as terras utilizadas para culturas
de subsistência, estando sua disponibilidade limitada a partir da monopolização pelos
grandes proprietários. (p.333)
Para GAUDEMAR (1977) a mobilidade é introduzida como condição da força de
trabalho se sujeitar ao capital e se tornar a mercadoria cujo consumo criará o valor e,
assim, produzirá o capital. (p.334)
“A mobilidade da força de trabalho é, assim, uma característica do trabalhador
submetido ao capital e, por essa razão, do modo de produção capitalista... A força de
trabalho deve ser, portanto, móvel, isto é, capaz de manter os locais preparados pelo
capital, quer tenham sido escolhidos ou impostos; móvel quer dizer apto para as
deslocações e modificações do seu emprego” (GAUDEMAR, 1977: 190).
Desta forma, a mobilidade da força de trabalho pode ser percebida como determinada
pelas necessidades do capital. Tai necessidades irão se refletir em diferenciadas e
alternativas formas espaciais de fluxos migratórios, centrífugos ou centrípetos. (p.335)
Para entender melhor o fenômeno migratório a partir da ótica neomarxista, ou seja,
como “mobilidade da força de trabalho”, torna-se importante relembrar alguns pontos
básicos sobre a produção da força de trabalho, conforme MARX (1887) originalmente a
concebeu. Isso implica que se conheça de que maneira e sob quais circunstâncias o
trabalho se torna uma “mercadoria”. Essa, sendo considerada como a primeira forma de
gerar riqueza no sistema capitalista de produção. (p.336)
Assim, a posse do dinheiro, maquinaria e outros meios de produção não converteria
uma pessoa em capitalista se não houvesse o fator “trabalho” disponível no mercado.
Tal característica básica da força de trabalho, segundo a concepção marxista, emerge
quando ela torna-se “livre” e móvel”, isto é, quando é separada de seus meios de
produção e colocada no mercado, tornando-se uma “mercadoria”. (p.336)
Entretanto, o que também precisa ser registrado é o tipo de liberdade necessária para o
processo de acumulação. A liberdade do trabalhador aparece, pois, como uma
consequência de sua separação dos meios de produção, particularmente a terra. Assim,
quando um indivíduo apropria objetos naturais para a sua subsistência, ninguém mais os
controla a não ser ele próprio. Conforme explicado pela teoria marxista. (p.337)
As formas originais de expressão do chamado “exército industrial de reserva” –
flutuante, latente e estagnada -, apesar de representar antigas categorias de análise,
merecem ser reconsideradas como instrumentos valiosos na discussão da mobilidade
populacional, tanto nos seus aspectos espaciais como ocupacionais. (p.339)
Assim, a porção “flutuante” da população excedente corresponderia aos trabalhadores
às vezes repelidos, às vezes atraídos pelos modernos setores da economia. Essa
população já se encontraria na esfera capitalista, mas seria ocasionalmente dispensada
devido à reestruturação do processo produtivo. Poderia corresponder, nos dias atuais, ao
extrato de trabalhadores que vêm perdendo seus empregos ou mudando seu setor de
trabalho em decorrência da nova ordem mundial globalizante. (p.339)
Quanto à população “latente”, esta atuaria um excedente de população rural proveniente
de uma esfera originalmente pré-capitalista de produção, ou marginalmente ocupada
pelo capita (camponeses sem terra ou em vias de perde-la), na condição de passagem
para uma situação de proletariado urbano. Nas áreas onde predomina a produção de
subsistência, o capitalismo através da “expropriação” dos pequenos produtores da terra,
deflagrada pela mudança nas prévias condições de trabalho, isto é, pela mudança na
relação sociedade-natureza, estaria criando o trabalhador “livre” para o mercado. Desta
forma, o movimento dos emigrantes rurais em direção às cidades pressupunha a
existência de um crescente excedente de população no campo. Essa população latente
pode também aparecer de outras formas nas realidades chamadas de Primeiro Mundo,
como, por exemplo, a categoria de mulheres anteriormente integradas a uma forma de
produção exclusivamente doméstica. (p.340)
A terceira categoria de população excedente, a “estagnada”, corresponderia a uma parte
da força de trabalho ativa que apresentasse condições de emprego extremamente
irregular. Segundo MARX (1887), as condições de vida desse grupo estariam em abaixo
do nível do restante da classe trabalhadora. Na conjuntura do século passado onde foi
pensado, esse reservatório de trabalho potencialmente barato, corresponderia ao
emprego irregular da massa de população empobrecida ao emprego irregular da massa
de população empobrecida e às atividades das pequenas indústrias domésticas; hoje
poderia estar relacionado a empregos extremamente instáveis e a baixas remunerações
do trabalho em certos grupos de trabalhadores nas economias periféricas. (p.340)
Apesar da validade desses conceitos clássicos, ao nível geral são muitas vezes
insuficientes para explicar a realidade das formações sociais contemporâneas. De
acordo com o pensamento de SLATER (1978), torna-se essencial reconhecer a
especificidade histórica do capitalismo nas sociedades em desenvolvimento. (p.341)
A mobilidade desempenhou funções diferentes em diferentes modos de produção. Nas
sociedades primitivas, a mobilidade representava uma forma de sobrevivência para as
populações itinerantes que precisavam se deslocar para encontrar alimentos e terras
férteis para seus cultivos comunitários. Na sociedade capitalista, a mobilidade
representa um meio para a reprodução do capital, uma vez que uma força de trabalho
“livre” e “móvel” torna-se essencial para o processo de acumulação. Nesse sentido, uma
massa de trabalhadores “latentes” ou “estagnados”, seguindo os movimentos do capital,
representa um indicador de desenvolvimento capitalista. (p. 341)
Em decorrência, a redistribuição de população representaria uma resposta às mudanças
na geografia da acumulação. A migração torna-se, assim, um importante mecanismo na
produção da força de trabalho, já que vincula áreas de diferentes escalas espaciais
(regional, nacional, internacional) objetivando a expansão do mercado de trabalho.
(p.342)
Uma questão teórico-metodológica merece ainda ser tratada na discussão do fenômeno
migratório: é a relacionada à definição do migrante enquanto categoria de análise. De
acordo com o Censo Demográfico Brasileiro são considerados migrantes todos os
indivíduos que apresentarem pelo menos uma mudança de local de residência, seja de
um município para outro (migrante intermunicipal), seja entre diferentes categorias de
domicílio dentro dos limites do mesmo município (migrante intramunicipal). (p.342)
Entretanto, além dessa definição administrativa, outra poderia ser considerada a partir
da discussão neomarxista: migrantes são todos aqueles indivíduos que seguem os
movimentos do capital sob a condição de força de trabalho assalariada, ou
potencialmente assalariada. (p.342)
Assim, enquanto no enfoque neoclássico a categoria migrante corresponde ao
“indivíduo”, na visão neomarxista se refere a uma classe social, ou melhor, a
determinados grupos sócio-econômicos. Através dos estudos neoclássicos, a migração
era investigada como o deslocamento de indivíduos num dado período entre dois pontos
do espaço geográfico. O enfoque neomarxista, por sua vez, considerou a migração como
um processo social que pode ter longa duração. (p.343)

Mobilidade populacional, meio ambiente e uso da terra em áreas de fronteira: uma


abordagem multiescalar
Alisson Flávio Barbieri
A mobilidade populacional e a redistribuição da população têm sido fatores críticos
para a expansão da fronteira agrícola e a conseqüente remoção da cobertura florestal
nativa. Associado ao crescimento populacional via migração, as gerações subsequentes
de colonos atingirão, gradativamente, as idades adultas, constituindo um significativo
“estoque populacional” que exerce pressão sobre a oferta de recursos naturais. (p.226,
2007)
Dessa forma, uma conseqüência provável da busca por melhores condições de vida
ou simplesmente pela sobrevivência, através da mobilidade, é a continuação do
processo de mudança da paisagem na fronteira, aumentando tanto as taxas de
desmatamento quanto a urbanização. Tem-se, assim, uma contínua expansão do “ciclo
vicioso do desmatamento” (BARBIERI; CARR, 2005), que relativiza argumentos
malthusianos segundo os quais o crescimento populacional é o único ou principal
determinante da degradação ou depleção de recursos. (p.228)
Bettrel e Hollifield (2000) mencionam, por exemplo, o viés da sociologia em privilegiar
as conseqüências da migração, ou particularmente o processo de assimilação no
destino, enquanto antropólogos têm preferido a análise qualitativa de aspectos sociais,
culturais e de gênero que afetam decisões de mobilidade. Economistas têm privilegiado
o capital humano e diferenças de renda e salário entre regiões como determinantes da
mobilidade, negligenciado dimensões sociais e culturais. Já os geógrafos têm enfatizado
os aspectos espaciais da mobilidade, e não necessariamente quem move ou os motivos
desse deslocamento (BILSBORROW et al., 1984). Estudos sobre mobilidade
populacional também refletem a carência de uma definição clara do significado de
migração (como uma mudança permanente de residência) vis-à-vis outras formas de
mobilidade temporária. Teorias de minimização de risco e diversificação de renda,
por exemplo, tratam primariamente da mobilidade temporária, embora vários
exemplos na literatura associem tais teorias a estratégias de mobilidade permanente
(BARBIERI, 2006). Outra limitação em estudos tradicionais é a negligência da análise
simultânea entre os fatores determinantes das decisões de mobilidade dos que
efetivamente se movem e os daqueles que ficam, pois os determinantes e a
conseqüências da mobilidade só podem ser adequadamente investigados em relação
aos fatores que não geram tal deslocamento. (p.228)
(…) decisões migratórias são feitas conjuntamente por membros da família dentro
dos domicílios; decisões domiciliares são afetadas por condições socioeconômicas
locais; as condições locais são, por sua vez, afetadas pela dinâmica das estruturas
política, social e econômica nos níveis nacional e internacional; e estas
interrelações são conectadas umas às outras no tempo (…) decisões individuais
são inevitavelmente estruturadas pelos contextos social e econômico, os quais, por
sua vez, refletem tendências e condições na economia política nacional e no
próprio volume da migração (MASSEY, 1990, p.4-5, tradução nossa). (p.228)
Uma das maiores dificuldades na elaboração de uma abordagem multiescalar é a
definição das unidades de análise e suas articulações com diferentes níveis e escalas.
Alguns autores (por exemplo, HARBISON, 1981; WOOD, 1982; BILSBORROW et al.,
1984) sugerem que a unidade de análise mais apropriada em áreas de fronteira é o
domicílio rural, 6 devido à sua flexibilidade em acomodar e influenciar estratégias e
comportamentos individuais, sintetizar e definir estratégias de ação coletiva e absorver
e transmitir internamente aos seus membros as influências do contexto. O domicílio
pode constituir, também, uma arena de conflitos intergeracionais de gênero, que
afetam decisões e propensões à mobilidade. Barbieri e Carr (2005), por exemplo,
demonstram que a existência de importantes diferenciais de gênero entre migrantes na
Amazônia equatoriana – com as mulheres mais jovens sendo mais propensas a
migrarem para áreas urbanas próximas dos domicílios rurais dos pais – é explicada, em
grande parte, pelas limitadas possibilidades de inserção laboral feminina em regiões
rurais, pela preferência do trabalho feminino em áreas urbanas devido ao menor salário
comparado aos homens e pela maior expectativa de que as mulheres enviarão remessas
para o domicílio rural de origem, em função dos maiores laços com o domicílio de
origem e aquiescência à autoridade paterna. (p.229)
Por exemplo, a migração pode acentuar desigualdades regionais em países em
desenvolvimento, levando a um êxodo rural massivo e explosão urbana (WOOD, 1982),
o que é uma questão particularmente importante em áreas em processo incipiente de
colonização e desenvolvimento. A intensa mobilidade rural-urbana, temporária ou
permanente, está associada historicamente a vieses urbanos no favorecimento de
políticas públicas em países em desenvolvimento, que podem inclusive, e
contraditoriamente, anular outras políticas voltadas ao ambiente rural, que visem a
intensificação agrícola como forma de retenção da força de trabalho. (p.224)
Alguns estudos também têm chegado a diferentes conclusões sobre os efeitos das
políticas públicas direcionadas ao desenvolvimento rural e à mobilidade populacional
(por exemplo, BILSBORROW et al., 1984; RHODA, 1983). Se, por um lado, o foco de
ação política baseada em uma concepção de “desenvolvimento rural” pode apresentar
um efeito importante e desejável sobre a melhoria das condições de vida locais, por
outro, pode ter pouco efeito ou um efeito reverso se as decisões de migrar forem
independentes dessa melhoria, por exemplo, devido a aspectos culturais que levam a
mobilidade a ser uma espécie de “rito de passagem” (PIORE, 1979). (p.235)