ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE O TRABALHO INFORMAL E A ECONOMIA INFORMAL

Luis Estenssoro

ÍNDICE

Aproximação inicial do tema: o debate sobre a informalidade .......................................... 6 A) “Economia informal” como setor extralegal ............................................................... 12 B) “Economia informal” como problema estrutural ........................................................ 18 C) “Economia informal” como setor marginal................................................................. 23 D) “Economia informal” como subdesenvolvimento capitalista ..................................... 30 Considerações finais ......................................................................................................... 36 Bibliografia....................................................................................................................... 42

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A análise do cosmos econômico revela a sua inserção no campo social. Isto porque os processos econômicos são procedentes das dinâmicas e estruturas sociais, entendidas como transformações, regularidades e permanências das relações sociais na nossa história coletiva. Assim, a idéia de trabalho como atividade em busca de uma remuneração monetária; a possibilidade de transação impessoal entre desconhecidos numa situação de mercado; a noção de investimento a longo prazo; a concepção de empréstimo com juros; a própria idéia de contrato, enfim, tudo o que a economia considera como dados são, na verdade, representações, mecanismos de práticas sociais inscritas na ordem social, onde toda prática humana está inserida. As preferências e propensões dos agentes econômicos, por exemplo, não são fatores exógenos da natureza humana universal, mas disposições endógenas de estruturas históricas. Da mesma maneira, as formas de organização da produção são resultantes de processos históricos de desenvolvimento que não se circunscrevem ao campo econômico. Pode-se dizer, portanto, que as atividades econômicas estão contidas no campo social. O cosmos econômico não se inscreve na realidade social apenas por causa disto, mas também porque o próprio pensamento econômico é um produto historicamente datado, com seus contornos e conceitos construídos socialmente e ao longo do tempo. Segundo Bourdieu1, a teoria econômica, enquanto subproduto do cosmos econômico que acompanha a expansão capitalista, seria, ela mesma, um conjunto de concepções racionais que emanaram de disposições econômicas do agente econômico comportando-se segundo um cálculo dos lucros individuais. Portanto, o “universo escolástico” da teoria econômica está inserido no processo de criação coletiva, porque inclui elementos construídos ao longo da história social da humanidade. Estes vão desde a contabilidade racional do capital até a existência de empresas constituídas de acordo com premissas que surgiram no longo processo social histórico, a saber 2 : apropriação privada, liberdade mercantil, técnica racional, direito racional, trabalho livre, comercialização da economia e orientação para o lucro. Inclusive, esta teoria econômica, centrada que é na concepção de homo oeconomicus,
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Bourdieu, Pierre. Les structures sociales de l’économie. Paris, Seuil, 2000. Ver: Weber, Max. “El Origen del Capitalismo Moderno”. In: Weber, Max. Historia Economica General. México, Fondo de Cultura Económica, 1978.

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paradigma do comportamento econômico racional, não seria possível nem imaginável se não estivesse inserida na história da configuração social da noção moderna de “eu”, enquanto conceito coletivo de pessoa individual racional com consciência moral3. Em suma, o espírito e o objeto das práticas econômicas não são nada mais que a economia das condições de produção e reprodução dos agentes e instituições econômicas. Conseqüentemente, economia e sociologia fundem-se na observação, análise e interpretação das condições econômicas da existência social. Neste sentido, a análise dos processos de reestruturação da economia atualmente em curso, assim como de seus efeitos sobre o emprego e o trabalho, requer a superação da dicotomia existente entre a perspectiva do mercado de trabalho, presente na economia, e a perspectiva do processo de trabalho, existente na sociologia. Segundo Abramo4, é preciso integrar estas disciplinas para possibilitar a realização de estudos sócio-econômicos que revelem com mais acuidade as relações, as estruturas e os processos sociais e econômicos. A intersecção destas perspectivas se dá principalmente em torno de temas de análise das práticas econômicas de agentes e empresas inseridas no processo histórico de constituição e transformação de estruturas e relações sociais de produção. O debate recente sobre a informalidade, entendida como linha simbólica de demarcação da realidade econômica, tem as mesmas características que as discussões sócio-econômicas em torno dos conceitos de marginalidade na América Latina, de “underclass“ nos EUA, e de exclusão social na França. O que une estas noções ou conceitos é o fato de tratarem de problemas sociais que são heterogêneos e mutantes. Heterogêneos porque se referem a categorias e camadas sociais diversificadas em processos sociais dinâmicos, e mutantes não somente porque se transformam nestas dinâmicas sociais, mas porque as preocupações da sociedade sobre eles evoluem. O traço comum destes problemas sociais é o fato de se reportarem a princípios da base de estruturação da sociabilidade humana, princípios que se fundam na ordem social.
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A respeito do longo processo histórico de criação da noção coletiva de pessoa individual racional e com consciência moral, conferir o estudo antropológico clássico de Marcel Mauss : “Une catégorie de l’esprit humain : la notion de personne celle de ‘moi’ ”, 1938, coleção: "Les classiques des sciences sociales", Disponível em: http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/index.html. Abramo, Laís. “Desafios atuais da sociologia do trabalho na América Latina: Algumas hipóteses para a discussão”. Buenos Aires, CLACSO, mimeo.

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Ao analisar o surgimento de contratos atípicos como problema social. underclass. Didier. há diferentes significados de formalidade e informalidade. Noronha. seja como modo de organização e funcionamento de unidades econômicas com características específicas. Para Noronha6. 6 5 . os fenômenos (problemas) sociais. bem como diversas interpretações e noções de contrato de trabalho legítimo. marginalidad”. posicionando-os em relação à ordem social. Contudo. servem para iluminar a realidade tanto quanto para encobri-la. seja como ausência de articulação ou inserção formal no processo de produção nas zonas urbanas – sendo o “trabalho informal” entendido como a insegurança crônica do emprego nãoregistrado –. pp. XXXVII. a ambivalência ideológica da noção de “economia informal” e o caráter heterogêneo e mutante do que designa não impedem que se orientem ações e se legitimem políticas de instituições e organizações estatais e privadas em relação a este “mercado informal”. Neste sentido. A exploração do tema de maneira interdisciplinar permite enriquecer o estudo e a pesquisa de fenômenos e processos sociais relativos à “economia informal” e ao “trabalho informal”. “Exclusion. isto é. Revue Française de Sociologie. as três 5 Fassin. 111-179. Eduardo. tais como trabalho precário e instável existente nestas. legalidade e legitimidade seriam. o que não diz respeito apenas ao seu status legal ou às relações destas unidades econômicas com as autoridades públicas. as teorias sobre o “setor informal” são tentativas de organizar mentalmente. “Informal. vol. e com uma particular relação com o sistema econômico. este autor apresenta o argumento da existência de três grandes matrizes de abordagem do tema: 1) os economistas. mas também praticamente. 1996. RBCS. Ilegal e Injusto: Percepções do Mercado de Trabalho no Brasil”. 18. 37-75.Da mesma forma. pp. Dada a controvérsia. out 2003. Os argumentos em torno desse tema podem ser entendidos como apostas sociológicas ou econômicas dos modos de representação e de qualificação do mundo social. Eficiência. 2) os juristas. com a oposição legal/ ilegal. e 3) o senso comum com a oposição justo/ injusto. nº 53. a noção de informalidade é definida vagamente. podemos estender a estas interpretações sobre a informalidade o que Fassin5 afirma sobre as três noções acima mencionadas: que se tratam de topologias sociais cuja função seria fornecer um sistema de classificação que é ao mesmo tempo um dispositivo de desclassificação. com a oposição formal/ informal. então.

7 Pochmann. maio de 2000. em geral. refletiriam formas não-capitalistas ou pré-capitalistas de produção. CUT. Mapa do Trabalho Informal do Município de São Paulo. que fazem diretamente parte da concorrência por postos no mercado de trabalho.dimensões subjacentes aos princípios constitutivos do contrato de trabalho e da relação de trabalho. Um diálogo interdisciplinar será ensaiado neste texto. Nestes. “O Excedente de Mão-de-obra no Município de São Paulo”. 11-18. Neste contexto. Pochmann7 identifica duas formas de inserção da força de trabalho no processo produtivo: • • Trabalhadores diretamente envolvidos no processo de acumulação de capital. dos diversos processos geradores de contratos atípicos. São Paulo. Aproximação inicial do tema: o debate sobre a informalidade Em nossa sociedade. que sobraram das necessidades diretas do processo de acumulação de capital. In: CUT. Certamente uma boa sugestão. Em outras palavras. e o Trabalhadores com ocupações envolvidas com a própria subsistência (desemprego invisível). Noronha aponta para a necessidade de estudos interdisciplinares no sentido de uma melhor compreensão do tema. no tempo e no espaço. e Trabalhadores excedentes. Estes constituiriam o segmento não-organizado do mercado de trabalho. 6 . pode ser identificada uma subdivisão: o Trabalhadores submetidos ao desemprego aberto (visível). dada a sobreposição. pp. a força de trabalho está submetida ao processo de acumulação de capital. A partir de uma discussão das dificuldades analíticas do tema no Brasil. que. Márcio. ou seja. pois entendemos que será extremamente produtivo na medida em que possibilite uma melhor compreensão do tema. A importância dessa perspectiva para a compreensão adequada do “setor informal” é evidente e tentaremos aproveitá-la aqui. a forma de inserção da mão-de-obra no mercado de trabalho está determinada pelas possibilidades abertas pela evolução da economia. a possibilidade dos trabalhadores participarem do processo de produção social está condicionada pela evolução do desenvolvimento econômico capitalista. cuja complexidade escapa às subdivisões estabelecidas por especialidades e segmentações do saber em compartimentos estanques.

pp. Diversas interpretações existem também sobre as relações que se estabelecem entre o “mercado informal” e a pobreza absoluta e relativa (desigualdade na distribuição de renda): alguns autores entendem estes fenômenos como intimamente vinculados. De qualquer maneira. no Brasil. e. algumas abordagens consideram o subemprego um resíduo marginal da economia moderna. IBGE. Pochmann. 9 10 7 . uma situação de subdesenvolvimento crônico onde há uma deterioração das relações de trabalho. Rio de Janeiro. como independentes. 2001. isto é.. pp. enquanto outras interpretações tentam mostrar as relações existentes entre o desenvolvimento do capitalismo e os fenômenos do desemprego e do subemprego. Considerando outro ângulo da questão. podemos observar que há vários tipos de atividades econômicas que podem ser classificadas sob o rótulo de “economia informal”. 111-179. O Emprego na Globalização. Inicialmente. Subemprego e Desemprego. São Paulo.Interessante notar que algumas interpretações8. ou “trabalho informal” (sem carteira de trabalho assinada). que denota. Noronha (2003). Emprego. basicamente são três os tipos de realidades designadas como “trabalho informal”: 1) A “velha” informalidade. Op. outros a consideram uma inserção perversa dos trabalhadores na economia capitalista. enquanto que outros autores preferem discutir o tema a partir das diferentes formas de organização da produção. Boitempo. o subemprego (trabalho precário e mal remunerado). relacionam o “mercado formal” com o emprego e o “mercado não-formal” com o desemprego e o subemprego. outros. 81-82. Segundo Noronha10 . Pochmann9 estima que o excedente de mão-deobra no mundo esteja em torno de 150 milhões de trabalhadores desempregados (desemprego aberto) e 850 milhões de trabalhadores subempregados. Cit. em alguns casos até para poder sobreviver como atividade 8 O debate inicial sobre o tema no Brasil está em: IBGE. Márcio. que corresponde a uma exigência feita pelas empresas aos seus funcionários tendo em vista a maximização de lucros e diminuição do peso da folha salarial. coincidindo com a classificação acima. Outro debate ainda trata da funcionalidade da “economia informal” em relação ao capitalismo: uns a entendem como um setor marginal correspondente a formas de produção nãocapitalistas. 2) A informalidade jurídica. tema clássico dos estudos econômicos desde os tempos dos desenvolvimentistas. 1981.

Antunes. pedreiros.econômica minimamente rentável. CUT. Nadya e Dedecca. Capitalismo Desorganizado. pp. encanadores. São Paulo. São Paulo. dizem respeito a este último tipo de informalidade. Paul. ALAST. toyotismo e acumulação flexível 13 . “Flexibilidade e Precarização: Tempos mais Duros”. Trata-se. In: OFFE. Mapa do Trabalho Informal do Município de São Paulo. São Paulo. Singer. Ricardo. Adeus ao Trabalho? São Paulo. Cláudio (orgs. 9-18. principalmente da sociologia do trabalho. maio de 2000. Cf.). Cf. 1998. Segundo a definição sugerida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) 15 . e Antunes. A seguir percorreremos algumas definições de informalidade para caracterizar melhor o tema de análise na sua objetivação social. Contexto. Cláudio. 2000 Cf. condições propícias para o aumento da informalidade. Os Sentidos do Trabalho. da falência da lei enquanto forma de regulamentação das relações de trabalho. e 3) A informalidade pós-fordista. 3) 11 Cf. tema propício a uma análise jurídica. pintores etc. Castro. Estas realidades provocam mudanças no processo de produção. que acarretam a criação de novas concepções gerenciais e de organização do trabalho ligadas aos novos tipos de trabalho que não exigem tempo e local fixo. In: Castro. e são o objeto da literatura sobre o tema. questões tais como desemprego estrutural e desemprego tecnológico 12 . antes de tudo. Estes três “tipos puros” de informalidade certamente se sobrepõem em uma mesma formação social. Apud CUT. Claus. 1998. Diagnósticos e Alternativas. decorrente da globalização da economia mundial e da utilização de novas tecnologias. Analisá-las pode trazer ao debate outras questões que suscitam divergências relevantes. principalmente na América Latina. Offe. Brasiliense. Boitempo. “Trabalho: a Categoria Sociológica Chave?”. Ricardo. etc. Claus. tanto na produção (costureiras) como na distribuição (vendedores por comissão). São Paulo. Globalização e Desemprego. São Paulo. Os problemas sócio-econômicos do “fim do trabalho” 11 . 1991. A Ocupação na América Latina: Tempos mais Duros. 12 13 14 15 8 . trabalho precário e trabalho inseguro 14 . os vários tipos de trabalhadores informais seriam os seguintes: 1) Autônomos subordinados às empresas. 2) Autônomos produtores de bens e vendedores de serviços ao público. Cortez. 1999. onde se enquadram os ambulantes.. Nadya e Dedecca.

comércios. Ainda nessa linha. Dois tipos de trabalhadores não se encontram incluídos nesta definição de informalidade: os trabalhadores domésticos (baixa renda). é possível argumentar que hoje em dia algumas empresas de menos de cinco funcionários fazem parte do setor dinâmico da economia. temos aqui uma forma de quantificação do “setor informal” que ultrapassa a definição de informalidade relacionada com o excedente de mão-de-obra em ocupações no setor não-organizado do mercado de trabalho (desemprego invisível). a economia solidária. mercearias e oficinas de reparação – que muitas vezes sobrevivem da clientela local. 6) Por último. Note-se que entram na contagem também os empregadores e seus familiares que trabalham na produção nestas empresas. seguindo os passos da visão estruturalista de Raúl Prebisch e 16 Mesmo se aceitássemos a definição da OIT. para medir o trabalho informal. inclusive com estratégias de marketing. o Programa Regional de Emprego para a América Latina (PREALC). pelo fato de funcionarem como empresas capitalistas. confecções. mas possuem algumas peculiaridades que justificam a sua inclusão na categoria dos informais. da mesma OIT. também não se presencia uma separação clara entre o rendimento do empregador e a taxa de lucro do seu empreendimento.Pequenas empresas familiares – padarias. estaríamos falando do setor capitalista eliminando direitos e precarizando a ocupação). mas tendo a sua inserção definida pela lógica da grande empresa. que fazem uso de mão-de-obra assalariada. a OIT toma como ponto de partida a unidade produtiva. 5) As "quase-empresas capitalistas". empregando inclusive tecnologia avançada. Conseqüentemente. por exemplo: o assalariamento convive nelas com jornadas de trabalho não reguladas pela lei. 9 . isto é. pelo fato de não estarem inseridos em uma unidade econômica. e os profissionais liberais (renda alta). ou mesmo da definição que liga trabalho informal com força de trabalho empregada nas formas de subcontratação e terceirização. partindo do pressuposto que todos os trabalhadores ocupados em micro e pequenas empresas com menos de cinco empregados são informais16. além de terem maior acesso a crédito e a tecnologias avançadas. as cooperativas de trabalho para produção de mercadorias e prestação de serviços (no caso das “falsas cooperativas”. sendo que o nível dos salários geralmente está abaixo do verificado nas grandes empresas. Ou seja.

segundo os tipos listados acima por Noronha. Ou seja. Na operacionalização estatística. e pela abrangência regional do PREALC. esta metodologia é considerada referência sobre a “economia informal”. 159. Idem. Numa vertente próxima. Rio de Janeiro. IBGE. Revista de la CEPAL. Nº 52. p. A partir dela se constroem esquemas de interpretação sobre o tema. Economia Informal Urbana 1997 (Ecinf). considera como integrantes do “setor informal” todos os empregados que trabalham em micro-empresas. considera que o excedente de mão-de-obra não absorvido pela produção capitalista está concentrado nas pequenas unidades produtivas urbanas. 2005. “Informalidad y Pobreza en América Latina”. p. Também o “trabalho informal”. precários e de baixa produtividade. os empregados domésticos e os trabalhadores por conta própria. IBGE. 165. O “setor informal”. têm menor lucratividade que as empresas do setor dinâmico da economia. bem como os familiares não remunerados. técnicas rudimentares. apesar de ambas categorias serem admitidas também como “informais” pelo próprio IBGE. 3) cuja produção não é para o autoconsumo. sejam estas atividades principais de seus proprietários ou secundárias. abril de 1994. Por exemplo. o IBGE decidiu que pertencem à “economia informal urbana” todas as unidades econômicas urbanas de propriedade de trabalhadores por conta própria e de empregadores com até cinco empregados. e 6) com quase inexistência de separação entre capital e trabalho. Rio de Janeiro. Pelo caráter internacional da OIT. e não o seu status legal ou suas relações formais com as autoridades públicas. gerando menos renda para seus trabalhadores. 1997. a CEPAL 18 (atual). Os trabalhadores domésticos e a “população de rua” foram excluídos da pesquisa. não é contemplado enquanto tal pela classificação do IBGE. e considerou que a informalidade referia-se a uma realidade da: 1) unidade econômica. 18 19 10 . proporciona empregos instáveis. nas duas pesquisas nacionais sobre a “economia informal urbana” (1997 e 2003) 19 . IBGE. assim caracterizado. mão-de-obra pouco qualificada e. 5) com baixo nível de organização. Estas micro e pequenas empresas urbanas caracterizam-se por utilizar pouco capital. em linhas gerais. o IBGE. a definição de “economia informal” do IBGE considera o modo de organização e funcionamento da unidade econômica.Aníbal Pinto17. Economia Informal Urbana 2003 (Ecinf). 17 Rosenbluth. Guillermo. 4) que produz em pequena escala. a interpretação da OIT. manteve. e IBGE. 2) não-agrícola. em conseqüência.

que. A seguir. 6) Autônomos que trabalham para o público. podem ser considerados pelo governo como pequenos empresários). o que dificulta a conceituação. são incluídos como “trabalhadores informais” as seguintes categorias: 1) Assalariados com carteira assinada em empresas com até 5 empregados. Estas quatro correntes são aqui consideradas de maneira ampla.Da mesma forma. faremos uma classificação das teorias sobre a informalidade na economia tendo em conta o critério de considerar as diversas interpretações dos processos econômicos e das relações de produção capitalistas no seu conjunto. até mesmo dentro da mesma unidade produtiva. 5) Donos de negócio familiar. trata-se de uma questão que demanda atenção. 11 . Estas correntes. São Paulo. maio de 2000. e 9) Trabalhadores familiares. bem como o emprego informal fora do “setor informal” (trabalhadores sem carteira assinada em empresas com mais de 5 empregados). marginalista. 2) Assalariados sem carteira assinada em empresas com até 5 empregados. estruturalista. 7) Autônomos que trabalham para empresas. além de micro-empresários (os empregadores de menos de 5 empregados e os donos de negócio familiar. na sua totalidade. dependendo do seu faturamento. Mapa do Trabalho Informal do Município de São Paulo. Neste sentido. Neste. autônomos. 3) Assalariados sem carteira assinada em empresas com mais de 5 empregados. Enfim. identificamos quatro linhas de interpretação: as vertentes neoliberal. 8) Empregados domésticos. mas também o emprego formal no “setor informal” (assalariados com carteira assinada em empresas com até 5 empregados). analisadas individualmente mais adiante. Notemos que esta classificação inclui o emprego informal propriamente dito (assalariados sem carteira assinada em empresas com até 5 empregados. como toda classificação. e. 4) Empregadores de empresas com até 5 empregados. escondem diferenças importantes entre os autores analisados. CUT. empregados domésticos e trabalhadores familiares). dado que informalidade e formalidade estão presentes lado a lado na economia. bem como nas características de sua objetivação na realidade concreta das formações sociais latino-americanas. e dialética. a metodologia da OIT é adaptada pelo Central Única dos Trabalhadores (CUT) no “Mapa do Trabalho Informal do Município de São Paulo”20. podem ser caracterizadas inicialmente da seguinte forma: 20 CUT.

que considera a “economia informal” como um setor marginal no sistema econômico. alude à coexistência de formas produtivas e relações sociais correspondentes a diferentes fases e modalidades de desenvolvimento nas economias latino-americanas. Segundo esta vertente. 3) Corrente Marginalista. Esta corrente situa-se dentro do marco ideológico do anti-estatismo pró-mercado. que considera a “economia informal” como extralegal. na América Latina. A informalidade aparece nesta nossa realidade social como um fenômeno produzido pelo próprio desenvolvimento do modo de produção capitalista em economias dependentes. Vamos a elas. constituído pelos setores descolados do desenvolvimento econômico capitalista. a natural diversidade das análises não impede que estas sejam identificadas com uma destas quatro interpretações. à margem do arcabouço legal do Estado e até em contraposição a este. seria difícil obter unanimidade dentro de cada corrente ideológica para obedecer a uma interpretação específica. na formação de economias dependentes e periféricas em relação aos centros dinâmicos do capitalismo mundial. como uma invenção do subdesenvolvimento capitalista. No entanto. 2) Estruturalismo.1) Vertente individualista neoliberal. sejam eles denominados “marginais” (não-capitalistas) ou “arcaicos” (pré-capitalistas). A) “Economia informal” como setor extralegal O liberalismo pressupõe uma grande variedade de valores e crenças que oscilam no espectro que vai da liberdade liberal clássica. Com um tema tão controverso como este. oriundo da CEPAL. Nesta classificação as diversas interpretações sobre o tema estão organizadas tendo em vista seu recorte diferenciado. O conceito de heterogeneidade estrutural. (liberty. o capitalismo. e 4) Vertente Dialética. ausência de 12 . considerado como um sistema econômico dominante e articulado globalmente. que considera a “economia informal” como produto do próprio desenvolvimento capitalista. que a considera a “economia informal” como decorrente da heterogeneidade estrutural da economia na periferia do capitalismo. e não apenas sua postura ideológica. liberdade negativa. resultou. embora sejam considerados interdependentes em sua dinâmica. separáveis por seu recorte característico na abordagem do assunto.

. pp. nas teorizações de Ludwig Von Mises e Friedrich Hayek (que afirmava que as duas únicas funções de um governo legítimo consistem em prover uma estrutura para o mercado. esta corrente é representada. pelos princípios enunciados pelo economista John Williamson. 6) liberalização comercial. 23 24 25 26 13 . mas também do mercado financeiro internacional. No entanto. Rio de Janeiro. 2) mudanças nas prioridades para gastos públicos. Octavio. a menos que se obtenha ou se mantenha a liberdade econômica. 4) liberalização financeira. No debate sobre a “economia informal”. com seu clássico “El Otro Sendero” (1989) – o 21 22 Merquior. Este conjunto de princípios. as liberdades civil e política se desvanecem). por Hernando de Soto. Pierre e Valier. se caracteriza. 215-235. Soares. a saber: 1) disciplina fiscal. São Paulo. Salama. a que nos referimos é o pensamento econômico baseado na Escola Austríaca. Pobrezas e Desigualdades no Terceiro Mundo. Rio de Janeiro. 22 O neoliberalismo. que ficou conhecido entre os críticos como pensamento único. ou neoliberismo23. Jacques. 1998. especialmente das taxas de juros. Estes ensinamentos estruturam a doutrina econômica neoliberal. A Era do Globalismo. da política econômica e do mercado de trabalho em todo o mundo. tem orientado reformas do Estado. liberdade positiva. que representa interesses não somente das empresas transnacionais. UFRJ. Antigo e Moderno. e 10) garantia dos direitos de propriedade. Nova Fronteira. 1991. convencionou-se chamar de neoliberalismo à coalizão sócio-econômica e política reunida em torno da redução da intervenção dos Estados na economia e pela desregulamentação dos mercados. Sociologicamente. Ajuste Neoliberal e Desajuste Social na América Latina. 5) busca e manutenção de taxas de câmbio competitivas. 8) privatização. O “Consenso de Washington”. cujos pólos principais são o liberalismo radical de Friedrich Hayek e o liberalismo social de John Rawls. 129-154.coerção) à liberdade democrática moderna (freedom. pp. pp. 9) desregulamentação. e prover serviços que o mercado não pode fornecer). Nobel. pode-se caracterizar o neo (radical grego para novo) liberalismo como sendo uma mistura eclética de várias doutrinas liberais. Laura Tavares Ribeiro. José Gulherme. 188-196. Cf. na América Latina. Civilização Brasileira.25 Na América Latina esta corrente esteve predominante durante as décadas de 1980 e 1990. educação e infra-estrutura. 2001. Ianni. Merquior (1991). Cf. bem como a hegemonia institucional econômica que alcançaram pensamentos como o de Milton Friedman (cuja tese da indivisibilidade da liberdade sustentava que. um conjunto de princípios de política econômica que os governos deveriam seguir. 3) reforma tributária. inicialmente (1989). 1997. 7) abertura para fluxos de investimento direto estrangeiro. Op. ideologicamente. Cit. conhecida como “Consenso de Washington” 24 . com ênfase para saúde. O Liberalismo. quando levou a cabo o ajuste estrutural26 da economia em vários países deste continente. autonomia)21. Rio de Janeiro.

27 Apud Portes. pois acompanharia a evolução da renda do “setor formal”): o “mercado informal” tenderia a diminuir em resposta ao crescimento da economia. funcionando. 28 14 . Neste sentido. que se contrapõe ao Estado e suas regulamentações excessivas sobre a economia. independente. reservado a uma “pequena elite”. William. a hipótese predominante nas décadas de 1970 e 1980 sobre o trabalho informal coincidia. Cit. do aparato jurídico institucional do mercado formal e de qualquer tipo de reconhecimento oficial.nome do livro faz uma paródia com o grupo guerrilheiro neomaoísta Sendero Luminoso. pode-se dizer que a carteira de trabalho assinada é um dos principais elementos que definem a participação em condições “normais” dentro do mercado de trabalho formal.. A informalidade seria. ou submerso. p. invariavelmente. Op. portanto. CEPAL. portanto. Assim. IBGE (1981). Esta tese. no sentido que crescia em tempos de crise e diminuía em períodos de expansão. e a entrada e saída dos trabalhadores do “setor informal” seria a regra e não a exceção. Haller. de forma anticíclica (embora o comportamento da renda no “setor informal” fosse cíclica. 17. o “mercado informal” seria uma resposta da sociedade contra a ingerência do Estado na economia. Alejandro. um status transitório e não permanente. Argumentava-se que o “setor informal” era um “amortecedor” do setor formal. Chile. perante o “privilégio” de participar da economia. portanto. Esta interpretação claramente se contrapõe à visão da OIT e do PREALC sobre “economia informal”. existente no Peru naquela época. O livro refere-se à “economia informal” como atividade econômica popular. La Economía Informal. Já o traço fundamental do “mercado informal” seria o seu caráter invisível. subterrâneo. em parte. Na verdade. pois o mercado de trabalho seria flexível. Com ela. defende a desregulamentação da economia e a redução do tamanho do Estado. e este passa a participar do código de direitos e deveres previstos na legislação trabalhista. Santiago. o Estado reconhece a existência legal do empregado. as empresas informais representariam a “irrupção de forças reais do mercado em uma economia presa às regulamentações do Estado” 27 . No Brasil. com essa visão neoliberal.28 De acordo com esta corrente neoliberal. o critério jurídico da legalidade das firmas perante o Estado identifica apenas dois tipos de mercado: o formal e o informal. novembro de 2004.

por exemplo. operação em pequena escala. pp. A informalidade. Haveria também um “vínculo estrutural” entre os setores formal e informal. poupanças acumuladas em empregos formais e aplicadas em empregos informais. O “setor informal”. venda de mercadorias. Em suma. e instersticial.. seria subordinado aos setores mais modernos. ao longo do tempo. neste último sentido. Estes “espaços econômicos” seriam explorados por pequenos produtores e por trabalhadores por conta-própria. de 1972. não havendo marginalização de qualquer setor da economia. Op. transforma-se. sistema produtivo trabalho-intensivo. de acordo com esta interpretação. as atividades informais caracterizar-se-iam por constituírem-se como mercados competitivos e desregulados. subordinado aos movimentos da produção tipicamente capitalista e aos decorrentes perfis da demanda e da distribuição de renda. [. Fábio (orgs. “As Economias Informal e Submersa: Conceitos e Distribuição de Renda”. portanto. o “setor informal” se amoldaria aos processos dinâmicos do setor formal de maneira anticíclica. adota uma dupla conceituação: de um lado aceita a definição jurídica para as atividades ilegais ou submersas. “O espaço informal. e. é ocupado de forma permanente e constitui parte integrante de um mercado de trabalho em equilíbrio. assim definido. 126.] Logo. etc. que complementariam o setor formal. 30 31 15 . mas parte do mercado de trabalho. p. subordinada. 121-143. ao mesmo tempo em que adota a definição original da OIT30 para a “economia informal”. Paz e Terra. In: Camargo. embora o tipo de produtores e a oferta de bens e de serviços modifiquem-se ao longo do tempo. O vínculo estrutural entre os setores formal e informal é concretizado por meio de um fluxo de renda também permanente do primeiro para o segundo setor. finalmente. capacitação e organização.Cacciamali29. José Márcio e Giambiagi. feita em estudos sobre os países africanos. como o trabalho apoiado em tecnologia antiquada. Maria Cristina. O mercado de trabalho estaria “em equilíbrio” e a informalidade não seria uma anomalia. através de vínculos de subcontratação. que é intersticial às atividades econômicas dominantes. São Paulo. prestação de serviços.. Segundo a caracterização original da OIT.”31 29 Cacciamali.. Cit. empresas familiares. o espaço econômico informal. Distribuição de Renda no Brasil. Cacciamali (1989). 1989. as atividades informais teriam os seguintes elementos: baixos requerimentos em termos de capital. corresponderia aos “espaços instersticiais” da economia.).

mantendo. e não em apenas dois setores (moderno/ tradicional ou formal/ informal). as atividades ilegais. ajudado por mão-de-obra familiar e/ou alguns auxiliares. A “tendência à submersão” seria mais relevante entre as atividades informais do que nas formais. 4) Assalariamento disfarçado (autônomos subordinados a uma única firma). 7) Quase-empresas capitalistas.Desta forma. isto é. 3) Assalariamento sazonal. este arranjo guarda algumas diferenças com as classificações da OIT e da CUT. segundo o critério original. para as atividades que operam com base no trabalho do proprietário do instrumento de trabalho. subterrânea ou invisível. 5) Trabalho por conta-própria. A primeira seria a denominação para o conjunto das atividades econômicas em que não há uma separação nítida entre capital e trabalho. a conceituação original da OIT. autônomo ou independente. a produção e as relações de produção estruturar-se-iam em um continuum. Cacciamali distingue ainda a informalidade propriamente dita da economia submersa. e o conjunto de atividades ilegais passa a ser chamado de economia submersa. e utiliza o critério das formas de inserção do trabalhador na produção e da forma de organização da produção para caracterizar este “setor informal”. 131. o 8) Emprego doméstico. haveria uma superposição entre as atividades informais e as atividades econômicas subterrâneas. Cacciamali elabora. Confrontando-se com a visão “dual-estática” (veremos o dualismo da CEPAL adiante). 2) Assalariamento ocasional ou temporário.” 32 De acordo com esta conceituação. finalmente. 6) Pequenos estabelecimentos onde o proprietário executa o trabalho. Como podemos notar. Assim. classificando a informalidade segundo a posição da ocupação no sistema produtivo. enquanto que a segunda seria a denominação para atividades econômicas que fogem da regulação do Estado. que vimos acima. então. portanto. dessa maneira. uma 32 Idem. a denominação de “setor informal”. e. “Mantém-se. Cacciamali identifica as seguintes formas de inserção ocupacional da “economia informal”: 1) Assalariamento sem contrato legal de trabalho. Cacciamali atesta a realidade dinâmica dos processos das economias em desenvolvimento. p. 16 .

As razões para a informalidade das firmas e sua existência fora do marco legal seriam várias: elevada carga tributária. Jorge Saba. In: CEPAL. ou seja. e os domésticos seriam informais e submersos. eles próprios são informais do ponto de vista tributário. “Pobreza e Mercados no Brasil”. por exemplo. Nestes termos. Op. Assim. mercados incompletos. os funcionários públicos seriam formais e registrados. Pobreza e Mercados no Brasil: uma Análise de Iniciativas de Políticas Públicas. também considera outra hipótese: as características da firma: uma parcela substancial dos indivíduos trabalhando na condição de informais está em empreendimentos que atuam à margem da lei. a “economia informal” seria resultante da “cunha fiscal” que o Estado impõe à sociedade: “Com a elevadíssima e complexa carga tributária incidente sobre as firmas. fenômeno entendido como a existência de postos de trabalho com qualidade diferente. muitos desses negócios não poderiam sobreviver e são. Mas. de um jeito ou de outro. pp. desinformação.. ser o fator determinante para a informalidade no Brasil. Cit. a presença do indivíduo no “setor informal” seria resultado de escolha decorrente. porém registrados. levados à informalidade.” 34 33 Arbache. isto é. pois. baixo acesso à tecnologia. e de outras obrigações legais exigidas às firmas formais. custos fixos. não havendo segmentação no mercado de trabalho entre formais e informais. quais seriam as causas para o crescimento da informalidade? Arbache 33 argumenta que a informalidade seria uma continuação do setor formal. contábil. Brasília. 2003. p. CEPAL Escritório do Brasil/ DFID. etc. Para este autor. e assim por diante. 28. da flexibilidade das condições de trabalho no “mercado informal” e dos elevados custos incidentes sobre a contratação formal. Calcula Arbache que pelo menos 20 milhões de trabalhadores brasileiros encontra-se em firmas informais na forma de empregados ou conta-própria. os trabalhadores por conta-própria seriam informais. principalmente.classificação cruzada entre as atividades informais e formais (identificadas como duas formas distintas de relações de produção) e as atividades registradas ou não (economia registrada ou economia submersa). estruturas de mercado concentradas. 9-62. A cunha fiscal parece. os assalariados não registrados fariam parte do setor formal e da economia submersa. trabalhadores que são substitutos perfeitos ganhando salários diferentes. 34 17 . Porém.

que impediria uma identificação enquanto categoria social de empreendedores familiares de pequeno porte. 35 observam que. As iniciativas dos camelôs e dos perueiros seriam puramente “defensivas e localizadas”.A solução para este problema seria óbvia: reduzir os custos trabalhistas para incluir os trabalhadores informais ao mercado de trabalho formal. nega a existência de segmentação no mercado de trabalho brasileiro. regulador e indutor do desenvolvimento. um oriundo de Karl Marx e de sua cosmovisão socialista. não haveria condições para a formação de uma identidade aglutinadora do conjunto social tão diverso da “economia informal urbana”. De acordo com esta interpretação. um sujeito social que possa ter poder de negociação política para elaborar esse “programa nacional de fortalecimento do setor”. e defende a desregulamentação da economia e do mercado de trabalho. B) “Economia informal” como problema estrutural A visão estruturalista é sustentada contemporaneamente por dois paradigmas teóricos: o marxismo e o keynesianismo. e outro originário do liberalismo econômico 18 . apesar da importância dos empreendimentos de pequeno porte nas áreas metropolitanas. o relaxamento da legislação trabalhista e a qualificação dos trabalhadores seriam soluções para incentivar a formalização dos informais. e instersticial. não se deu uma organização social do “setor informal” que resultasse num “programa nacional de incentivo e fortalecimento da economia informal”. Abramovay et al. A razão para esta ausência de organização seria a extração profissional extremamente diversificada dos atores da “economia informal”. Em suma. Mas porquê não acontece essa redução dos custos trabalhistas no âmbito de uma política de fortalecimento do “setor informal”? Como minimizar o peso da “cunha fiscal”? O que impede a sociedade de reagir a todas estas imposições estatais desestimuladoras da iniciativa privada informal? Respondendo a esta questão. subordinada. bem como a retirada do Estado do seu papel de produtor. Embora distintos na origem. esta vertente individualista neoliberal interpreta a “economia informal” como anticíclica. Afirmam ainda que não existe um sujeito social e político que represente as amplas camadas sociais da “economia informal”. Desta forma.

36 A noção teórica dessa escola desenvolvimentista cepalina que nos interessa aqui é o de heterogeneidade estrutural. Magalhães. Para os críticos. “Mercados do Empreendedorismo de Pequeno Porte no Brasil”. o desenvolvimentismo nacionalista cristalizou a ideologia própria do período populista da América Latina.. Saes. bem como levantaram restrições à desregulamentação do mercado de trabalho e da economia em geral. Seguindo a marca estruturalista distintiva do keynesianismo. R. Segundo Soares37. ambos estão hoje em dia relativamente próximos devido à pressão exercida pelo neoliberalismo individualista. A tradição iniciada por Keynes está representada na região pelos desenvolvimentistas. os desenvolvimentistas propõem a ação determinada do Estado. esta categoria conceitual ampla alude à coexistência de formas produtivas e relações sociais correspondentes a diferentes fases e modalidades do desenvolvimento da região que. guardam suas diferenças. R. Estes desenvolvimentistas cepalinos advogam um papel ativo do Estado na promoção do desenvolvimento econômico. por meio do investimento público e do estímulo ao capital privado. Três dimensões são consideradas: 35 Abramovay. Porém. sendo interdependentes em sua dinâmica. São Paulo.heterodoxo de John Maynard Keynes. pp. Brasília. S. 36 37 19 . convivem no interior dos Estados politicamente unificados. que estiveram por muitos anos concentrados na CEPAL. Por outro lado. Ianni. Op. Pobreza e Mercados no Brasil: uma Análise de Iniciativas de Políticas Públicas. Octavio. que insiste que o governo necessita administrar a economia tendo como metas gerais o crescimento econômico e a estabilidade de preços. e como ela foi assimilada na América Latina. Ática. Cit. 29-33... 2003. com o objetivo de dinamizar setores estratégicos da economia. C. Soares (1998). 1989. O conceito de heterogeneidade estrutural denota uma situação na qual existem grandes diferenças de produtividade e modernidade entre os distintos setores de atividade econômica. São expressas neste conceito tanto as formas produtivas quanto as relações sociais. A Formação do Estado Populista na América Latina. M. In: CEPAL. Cf. 235-284.. CEPAL Escritório do Brasil/ DFID. historicamente sempre se opuseram à promoção do rápido crescimento econômico mediante a abertura da economia para capitais e mercadorias do exterior. Veremos agora em linhas gerais os pressupostos da tradição keynesiana. pp. Souza.

e 3) na distribuição de renda na sociedade. isto é. o que acontece também com os serviços técnicos. e. Com estas três dimensões consideradas pode-se caracterizar o processo de desenvolvimento concentrador e excludente latino-americano. revela igualmente diversas formas de relacionamento das camadas sociais e dos setores produtivos com o Estado (dimensão institucional). 2) entre ramos de atividades produtivas. bem como de capacidade organizativa e agenciamento de poder pelos estratos sociais. e nas suas características de concentração de ativos e de capital. é possível verificar que este processo de desenvolvimento alimenta uma tripla concentração de progresso técnico: 1) espacialmente. onde coexistem diferenças de níveis de utilização de técnicas e tecnologia. as características da estrutura global da produção e apropriação de bens e serviços.1) As estruturas de produção. que reflete a distribuição social dos recursos e o grau de comando de cada camada social sobre o mercado. nas suas diferenças setoriais e regionais. quatro dimensões do complexo modelo de desenvolvimento: em primeiro lugar. portanto. revela ainda as diversas relações de funcionalidade que os segmentos não-capitalistas. acarretando distintos patamares de produtividade (dimensão técnicoprodutiva). de renda e de riqueza determina o perfil e a dinâmica da oferta. atrasados ou informais mantêm com os núcleos dinâmicos de acumulação de capital (dimensão sistêmica). e 3) O ordenamento institucional que consagra e garante as modalidades e o funcionamento do sistema de poder. revela a convivência de distintos padrões tecnológicos. Segundo Soares. dado que o grosso da indústria de transformação está em áreas metropolitanas. 2) As relações sociais que se articulam em torno desses processos produtivos. financeiros e de infra-estrutura que complementam essa indústria. especialização e hierarquização de funções produtivas. dado que a concentração de recursos. A heterogeneidade estrutural transparece. Aqui são analisados os aspectos de produtividade física do trabalho. nas quais se perfilam estratos de produtividade com diferenças substanciais entre si. sendo que os setores mais atrasados comportam grande parte da força de trabalho. a escala operacional dos estabelecimentos. revela 20 . por último. e a divisão. Esta tripla concentração leva invariavelmente a um aumento da exclusão social.

Cia. na estrutura ocupacional. Editora Nacional. “O Dualismo Revisitado”. descontinuidade esta decorrente da magnitude das diferenças de produtividade entre estas camadas (que. Celso. o “estilo de desenvolvimento” da região não conduz a uma homogeneização da estrutura global da economia. (Tese de Doutorado). Pinto 39 estimou em vinte vezes. gerando 8% do PIB da América Latina). a heterogeneidade estrutural seria. da ampliação e elevação das oportunidades de emprego. pp. Pinto. 197-212. Cinqüenta Anos de Pensamento na CEPAL Rio de Janeiro. mas são fatores de ordem tecnológica que a aprofundam. do aumento da produtividade e da renda. Teoria Política do Desenvolvimento Econômico. Aníbal. 1987. 2000. Álvaro.” 40 38 Comin. Pensou-se que a industrialização substitutiva de importações fosse diminuir a magnitude destes contrastes.também diferenças nas formas de apropriação do excedente.). então. Furtado. a conceituação para a descontinuidade entre as camadas “moderna” e “primitiva” da economia (o dualismo também comportava uma camada intermediária). A periferia latino-americana participa da sociedade global. 39 40 21 . que tende a autogerar-se. “Natureza e Implicações da ‘Heterogeneidade Estrutural’ na América Latina”. pelo contrário. 2003. Ricardo (org. mas logo se percebeu que a tríplice concentração dos frutos do progresso técnico apenas acentuava as tendências de marginalização de segmentos da população e da estrutura produtiva em relação ao “pólo moderno” – embora se reconheça que as camadas sociais e os componentes da estrutura produtiva estão inseridos num “contexto comum”. mas sem chegar a integrá-la no seu nível básico. Mudanças na Estrutura Sócio-Ocupacional do Mercado de Trabalho em São Paulo. em termos econômicos de disseminação do progresso técnico. integrante dessa escola. Para Furtado. em 1968. da heterogeneidade estrutural emerge um processo de subdesenvolvimento que tende a perpetuar-se: “As causas iniciais da heterogeneidade estrutural são de natureza econômica. pp. e nos padrões de distribuição de renda e de acesso aos bens públicos das diversas camadas sociais (dimensão de relações sociais).38 Assim definida. 569-588. aprofunda a sua heterogeneidade estrutural. etc. Álvaro. In: Bielschowsky. FFLCH-USP. dão-lhe permanência e fazem do subdesenvolvimento um processo fechado. isto é. sendo que o setor “primitivo” representaria 40% da população. Record. Segundo Pinto. In: Comin. São Paulo. São Paulo.

A informalidade. aproveitando as relações de solidariedade que possam existir entre elas.Furtado afirma ainda que o dualismo se refere à coexistência do modo de produção capitalista com outros modos de produção não-capitalistas. estrutura-se a tradição cepalina. A partir desta noção do caráter dual do subdesenvolvimento latino-americano. o que caracteriza o dualismo é exatamente a interdependência dos dois modos de produção: o setor capitalista e o setor não-capitalista. que inclui estudos sobre a informalidade de corte diferente da interpretação neoliberal. Portes e Haller41. Seguindo esta linha de interpretação. isto é. no quadro do subdesenvolvimento. nas quais sobrevivem traços pré-capitalistas. Dentre as atividades econômicas informais. em economias que não podem ser concebidas fora do sistema de relações internacionais. da qual fazem parte como economias dependentes. como vimos. 3) As atividades econômicas informais podem estar organizadas por pequenas empresas com objetivo de acumular capital. 2) as atividades de exploração dependente. sua maior flexibilidade e os menores custos. da CEPAL. Op. estes autores reconhecem três subtipos: 1) as atividades de sobrevivência. à baixa produtividade e mesmo à pobreza e à marginalidade. 2) As atividades econômicas informais podem estar orientadas a melhorar a flexibilidade da gestão e reduzir os custos trabalhistas das empresas do setor formal por meio da contratação informal de trabalhadores ou da subcontratação de empresários informais. decorre. que é associada à precariedade tecnológica e organizacional. 22 . Cit. tratam do tema da informalidade a partir da identificação de três tipos de atividade econômica: a formal. 41 Portes e Haller (2004). a informal e a ilegal. e 3) as atividades de crescimento: 1) As atividades econômicas informais podem ter por objeto a sobrevivência de uma pessoa ou de um domicílio por meio da produção direta com fins de subsistência ou de mera venda de bens e serviços no mercado. do caráter periférico das formações sociais capitalistas. Para ele.

ainda no marco conceitual do conceito cepalino de heterogeneidade estrutural. que acontece conforme a caracterização precedente. a referência à tripla concentração de progresso técnico favorecendo alguns setores da economia. o trabalho informal corresponderia à estratégia de acumulação de capital das empresas formais modernas. dá lugar à conceituação de distintos níveis de complexidade de organização social. Também nesta vertente de interpretação. Desta forma. Desta forma. este setor marginal é caracterizado como pólo marginal. o que não significa que todos os informais são pobres”). Por isso. C) “Economia informal” como setor marginal Há uma vertente de interpretação que identifica a “economia informal” como sendo um setor marginal da economia. 23 . sendo que o “estilo de desenvolvimento econômico” de cada país seria o determinante da informalidade. 42 Rosenbluth (1994). ou aos distintos níveis de produtividade nestes diferentes setores. portanto. Para Rosenbluth. o estruturalismo estabelece uma relação estreita entre a informalidade e a pobreza absoluta (insuficiência de renda) e a pobreza relativa (desigualdade social).Na prática. massa marginal. simultaneamente. geração de empregos insuficiente. e o desemprego aberto e o subemprego seriam “fatores determinantes da pobreza da grande maioria dos informais”. o autor correlaciona a informalidade com a pobreza (“a maior parte dos pobres pertence ao setor informal. Rosenbluth42 chega a afirmar que o nível e modalidade de desenvolvimento dos países latino-americanos – pautado pela incorporação de tecnologia importada. podendo ser entendidos como níveis das atividades econômicas. De acordo com as correntes desta perspectiva analisadas aqui. produto do funcionamento econômico. A informalidade seria um “componente da pobreza”. Como vemos. os informais seriam marginais e. estes três subtipos não se excluem mutuamente. mais do que com a motivação dos atores. A diferenciação entre os três subtipos acima guardaria relação com a “maior complexidade dos níveis sucessivos de organização social necessários”. Op Cit. e estrutura de preços inelástica e que não permite repassar aos consumidores os aumentos de produtividade – determina os aspectos quantitativos e qualitativos da informalidade. Esta estaria relacionada com o próprio funcionamento da economia.

também nos diz que os movimentos de expansão e contração da produção da indústria moderna liberam constantemente parte dos trabalhadores.ou como setor arcaico. os marginalistas. e 2) porque a oferta de trabalho não é idêntica ao crescimento da classe trabalhadora. Seção VII. 2) População latente. Marx afirmava que a reprodução da força de trabalho constitui. Geralmente analisando este fenômeno pela ótica do mundo do trabalho. Op. para depois entrar no debate sobre a interpretação marginalista da informalidade. ocupados no comércio ou em serviços. Karl. polemizam em torno da categoria de superpopulação relativa. os chamados trabalhadores por conta própria. O processo de acumulação de capital. a saber: 1) População flutuante ou líquida. Cit. fariam parte da força de trabalho excedente. remanescente de outros modos de produção. segundo a divisão clássica marxista. Desta forma. 192. Livro Primeiro. isto é. que seriam os setores arcaicos da economia. p. 44 24 . 43 Marx. portanto. as três partes do exército industrial de reserva. Caps. transformando-os em desempregados e semi-empregados44. Nova Cultural. Marx incluía também nesta camada os trabalhadores domésticos. 179. São Paulo. e também constituída pelos trabalhadores autônomos do setor terciário. um momento da própria reprodução do capital. Assim. 1988. o excedente de mãode-obra não incorporado ao processo de desenvolvimento capitalista. p. e 3) População estagnada ou pauperizada. tais como indústria a domicílio e artesanato. como foram chamados. XXI a XXV. relacionada com os movimentos de expansão e retração da atividade econômica do sistema capitalista (desemprego). a produção da superpopulação relativa se dá por causa de dois fenômenos: 1) porque a demanda de trabalho não é idêntica ao crescimento do capital. O Capital. de fato. Esclareceremos primeiramente os conceitos marxistas que utilizamos aqui. não incorporada ao processo produtivo capitalista. por outro lado. propicia um aumento do proletariado concomitantemente ao aumento da massa de trabalhadores que não consegue emprego. sendo que a acumulação de capital consiste na multiplicação do proletariado 43.. relacionada com a liberação de mão-de-obra rural pela penetração do capitalismo no campo (campesinato não-capitalista).

trata-se de uma camada de trabalhadores que não faz parte do exército industrial de reserva. que consiste no excedente de trabalhadores determinado pelas relações de produção (relações de trabalho). de uma camada social indigente e sem consciência social. o mais profundo sedimento da superpopulação relativa. doentes. Op. Para Nun. existe ainda uma quarta camada da superpopulação relativa: o lumpemproletariado. rufianismo. Nun. o pauperismo. a superpopulação relativa é uma categoria transhistórica que coincide somente parcialmente com o exército industrial de reserva. 1978. Contudo. vol 38. Ou seja. etc. p. em Marx. embora faça parte da superpopulação relativa. e Os indigentes. Dito isto. Karl. Segundo Nun47. O 18 do Brumário e Cartas a Kugelmann. Um texto mais recente de Nun. Para Marx46. Nun 45 46 47 Marx. não se confunde com os seus outros três segmentos supracitados. ou lumpemproletariado. seria. Marx (1988). além da legião de crianças. camada social integrada pelos setores mais pauperizados da estrutura social. Tratar-se-ia.Além destas três subdivisões do exército industrial de reserva. o termo lumpemproletariado foi utilizado por Marx para designar a camada social que vive de subemprego (trabalho instável. “o mais profundo sedimento da superpopulação relativa habita a esfera do pauperismo”. mendigos. vejamos o que afirmam os marginalistas. portanto. 197. José. um “efeito funcional” da superpopulação relativa. ou seja: • • • Os subempregados (desemprego invisível. 25 . Cit. Rio de Janeiro. que corrobora textos anteriores. segundo Marx. precário e sub-remunerado) ou de atividades ilegais ou marginais (prostituição. Ou seja. Como vemos. Os ocupados em atividades ilícitas ou marginais. Paz e Terra. todo trabalhador desocupado parcial ou inteiramente faz parte da superpopulação relativa. “El Futuro Del Empleo y la Tesis de la Masa Marginal”. mendicância. roubo e tráfico de drogas). Desarrollo Económico. nº 152.. o exército industrial de reserva. trabalhadores pobres). Marx também descreveu essa camada social como sendo incapaz de qualquer ação conseqüente contra a sociedade capitalista45. jan-mar 1999. Notemos que Marx inclui trabalhadores pobres (“aptos para o trabalho”) nesta camada. os subempregados. Esta se divide em líquida (flutuante). latente e estagnada.

Isto é. Vemos aqui uma desconexão entre a lógica do “setor competitivo” e a lógica do “setor monopolístico” na mesma economia capitalista. La Economía Popular y sus Caminos en América Latina. segundo o qual a mão-de-obra excedente pode ser considerada uma massa marginal com disfunções a respeito do capital. Massa marginal seria.pretende tematizar os “efeitos funcionais” e “a-funcionais” da superpopulação relativa. B) o poderoso impulso que adquiriu a internacionalização do capital. Nun afirma que a população excedente pode ser irrelevante para o setor hegemônico da economia. introduzindo o conceito de “massa marginal”. Conseqüentemente. No entanto. diferentemente de Nun. no pior dos casos. definido da seguinte forma: “Un conjunto de ocupaciones o actividades establecidas en torno del uso de recursos residuales de producción. inestables y de incompleta 48 Quijano. pode até se tornar um perigo para sua estabilidade. que corrobora sua posição anterior. Quijano 48 denomina “população marginalizada” à população excedente de trabalhadores que foi expulsa do trabalho assalariado estável e não foi incorporada na alternância de ciclos de expansão e contração do capital. que se estructuran como relaciones sociales de modo precario e inestable. Quijano afirma que essa mão-de-obra excedente tende a formar um “pólo marginal” na economia. apesar de ser gerada pelo processo produtivo. o segmento de superpopulação relativa ligado ao setor produtivo mediante relações a-funcionais ou disfuncionais. Mosca Azul. Sua argumentação está baseada na existência de três transformações que se deram após as análises de Marx: A) a passagem para o modo de produção monopolista. O argumento de Nun é que os mecanismos de geração da superpopulação relativa se pluralizam devido à crise do modelo fordista. e C) as modificações que ocorreram na estrutura ocupacional. 1998. Um texto mais recente de Quijano. os desempregados poderiam atuar como um exército industrial de reserva no “setor competitivo” e como uma massa marginal no “setor monopolístico”. isto é. Numa interpretação relativamente próxima. ao contrário do exército industrial de reserva. Lima. ou. que generan ingresos reducidos. devido à desestruturação das relações de trabalho. que se tornaram heterogêneas e instáveis. 26 . então. Aníbal. Sendo assim. esta massa marginal não é absorvida pelo mesmo.

que seria composta pelos trabalhadores ou famílias que produzem ou vendem independentemente de contratos ou acordos com empresários formais ou informais. e c) trabalhadores e suas famílias que vendem sua produção para empresas formais ou informais. 2) A venda informal de trabalho (pequena produção mercantil). A informalidade não seria uma característica de um setor do trabalho dentro do capitalismo. tecnologia e produtividade característicos. el nivel más dominado de la estructura de poder del capital”. Assim. p. que é constituído por: a) empresários capitalistas formais cujas empresas operam com trabalhadores informais. que producen bienes y/o servicios para un mercado constituido por la propia población de trabajadores ‘marginalizados’. e 4) O pólo marginal propriamente dito. porém marginal. com recursos e produtividade que apenas lhes permite subsistir.configuración respecto del ‘salario’ o de la ‘ganancia’. 70. e reforçando o que já foi dito. Em outras palavras. os desempregados e os subempregados tendem a constituir um complexo de atividades econômicas e de formas de organização com níveis de recursos.49 Pólo marginal é. Segundo Quijano. e um nível de recursos e de produtividade dentro do poder capitalista. uma rede de relações sociais. b) empresários cujas empresas são informais. mas uma característica de um setor do capital. então. no “setor informal” existiriam diversos tipos de atividade econômica: 1) O capital informal. juntamente com os seus empregados. a informalidade não é uma característica da situação de um setor do 49 Op Cit. 27 . En suma. 3) A venda comunitária de trabalho (reciprocidade). um conjunto de atividades econômicas. que são os trabalhadores ou famílias que se associam com instituições para subsistir na base do intercâmbio de trabalho sem passar pelo mercado. composto pelos trabalhadores ou famílias que operam independentemente.

Florestan. de amplos setores em que prevalecem economias de subsistência 51 e formas extracapitalistas de mercantilização do trabalho”. ou seja.trabalho dentro do capitalismo. mas de todo um setor do capital neste modo de produção. ou seja. no contexto do mundo subdesenvolvido e na fase monopolista do capitalismo. Analisando o desenvolvimento econômico do Terceiro Mundo. Op. apontando para a criação de uma “economia alternativa”. o mercado de trabalho “não funciona universalmente segundo os requisitos de uma economia capitalista competitiva integrada”. em bloco. 48. 50 51 Fernandes. Nun admite lógicas diferentes – “dialética de estruturas e de estratégias e táticas específicas de acumulação” – dentro do próprio sistema capitalista. é iniciada por Florestan Fernandes50. 28 . existem conseqüências políticas implícitas. Cit. Fernandes afirma que a extinção do sistema colonial e a emancipação nacional pouco representaram como condições para a implantação universal do trabalho livre. O pólo marginal seria um complexo de atividades econômicas (não restritas ao emprego no mercado de trabalho). Fernandes atribui este fato à sobrevivência de setores econômicos extra-capitalistas. p. sem atribuir-lhe qualquer capacidade de transformação do mesmo. sem que isto signifique uma transformação qualitativa do sistema. “Ao que parece. um setor da economia organizado sem empresas e sem capitalistas. nestas sociedades. Ou seja. enquanto que Quijano admite uma lógica não-capitalista dentro do sistema capitalista. que analisa como se constitui.. funciona e evolui o regime de classes sob o capitalismo dependente. a explicação do fenômeno acha-se na sobrevivência. dentro desta mesma vertente de interpretação marginalista. Tanto na versão de Nun da massa marginal quanto na versão de Quijano do pólo marginal. Cap I. constituído dentro do poder capitalista e cuja característica principal é o trabalho. No centro deste pólo marginal estariam as “organizações econômicas populares” (OEP). vendido como mercadoria pelo próprio agente. Rio de Janeiro. 1968. a marginalidade assume o lugar do exército industrial de reserva. Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento. Uma segunda corrente. Zahar. Como vemos.

Para Fernandes. nas sociedades latinoamericanas. cabe diferenciar entre aqueles que valorizam sua posição ativa no sistema econômico. portanto. O próprio padrão de equilíbrio do sistema persegue essa articulação e combinação orgânica de estruturas econômicas em diferentes estágios de desenvolvimento. Entre os “não-possuidores de bens”. no entanto. cujo trabalho não conta como mercadoria. Esta dinâmica capitalista de criação e manutenção de relações nãocapitalistas revela que uma “lógica estrutural de tipo capitalista promove atividades não tipicamente capitalistas que integram o processo de acumulação”. Kowarick 52 avança por essa trilha e conclui que. na função de “calibrar” o emprego dos fatores econômicos segundo uma linha de rendimento máximo. portanto é a posse ou não de bens que fornece o requisito mais geral que pode servir de fundamento à caracterização sociológica. 52 Kowarick. que. Esta última categoria não constitui parte do exército industrial de reserva. Capitalismo e Marginalidade na América Latina. Na América Latina existe uma larga fatia populacional que não consegue inserir-se no sistema produtivo. e. Lúcio. Debatendo com textos anteriores de Nun e Quijano. semi-capitalistas ou capitalistas o único fator constantemente abundante: o trabalho. explorando em bases anti-capitalistas. Assim. Kowarick afirma que há um “novo tipo de desenvolvimento (ou subdesenvolvimento) que tem por característica a qualidade de ser superexcludente e de estar articulado à criação e manutenção de relações de produção de características arcaicas”. e aqueles cujo trabalho não encontra posição no mercado de trabalho capitalista. o subemprego. pp. Sem negar a existência de marginalidade nos países desenvolvidos. “arcaica” ou “marginal”. nem sempre uma posição ativa nas relações de produção incorpora o agente econômico ao mercado. uma “moderna” e outra “tradicional”. e não somente como capitalistas. alimentam o sistema.Florestan Fernandes encontra o significado da articulação destas estruturas do sistema econômico dependente. a marginalidade de amplos setores sociais decorre do fato das economias da região configurarem-se como dependentes. Paz e Terra. e as ocupações e formas de trabalho não propriamente capitalistas. 1985. estabelecer-se como assalariada. Rio de Janeiro. 29 . “o setor humano marginal de sua ordem econômica”. antes formando a camada social que Florestan Fernandes chama de os “condenados do sistema”. não se trata de duas estruturas. Para Kowarick. ou seja. que são heterogêneas e anacrônicas entre si. coexistem neste setor marginal o desemprego. 61-62.

por um lado. também afirma que o “setor informal” é gerado por processos capitalistas de desenvolvimento econômico. estruturalistas e marginalistas. e. D) “Economia informal” como subdesenvolvimento capitalista Em contraposição às teses dos neoliberais. Assim. constituem-se em partes integrantes do processo de acumulação de capital. o subdesenvolvimento latino-americano é dependente. onde a marginalidade é funcional à estrutura do sistema capitalista. longe de serem um peso morto. Dentro desta vertente de interpretação pode ser incluída a tese do desenvolvimento do subdesenvolvimento. podemos dizer que o que há em comum nos marginalistas é o fato deles aceitarem que o “setor informal” é constituído por trabalhadores inseridos em lógicas extracapitalistas de produção. Resumindo. que gera e mantém formas de inserção na divisão social do trabalho não tipicamente capitalistas. Conseqüentemente.Trata-se de uma única lógica estrutural de tipo capitalista. Desta maneira. inspirada em Lênin e Trotsky. mais ainda. que vemos a seguir. podemos observar que se estruturam modalidades produtivas inseridas na mesma divisão social do trabalho que correspondem a “tempos históricos desiguais”. A análise um pouco diferenciada feita por Singer. Ou seja. e que foi posteriormente desenvolvida por Marini e Ceceña. Kowarick afirma que a situação de dependência é central na forma de acumulação que marca os países latino-americanos. Esta corrente de pensamento entende que o desenvolvimento do capitalismo é o responsável pelos processos de marginalidade e informalidade. segundo a teoria do desenvolvimento desigual e combinado. Estas. trata-se de um desenvolvimento capitalista que se combina com formas não caracteristicamente capitalistas de produção. 30 . mas são acirradas pela dependência estrutural das nossas sociedades latino-americanas. como sendo parte integrante desse desenvolvimento. e baseada na interpretação que Rosa Luxemburgo faz da obra de Marx. por outro lado. as contradições que geram marginalidade estão presentes no próprio capitalismo. originária de André Gunder-Frank. surge uma crítica que situa a “economia informal” como produto do próprio desenvolvimento capitalista. portanto desigual. O resultado é um processo de desenvolvimento com maiores desigualdades sociais.

in: Singer. Brasiliense. mas sim são os trabalhadores os marginalizados. Singer55 reconhece três mecanismos de acumulação no capitalismo contemporâneo: 1) a acumulação estatal. a expansão do setor monopolístico cria. Singer (1998). na urbanização e na marginalização em sociedades como as latino-americanas”. 2) a acumulação capitalista e 3) a acumulação autônoma (acumulação das famílias e das entidades sem fins lucrativos gera poucos postos de trabalho para ser considerada). Singer 53 critica a divisão da economia capitalista num setor “marginal” e outro “monopolístico”. Com isto evitaríamos imputar ao imperialismo ou à dependência processos que são apenas capitalistas. 54 55 31 . São Paulo.54 Ou seja. supor que o conjunto das atividades que não integram o setor monopolístico apresenta estas características de ‘marginalização’. 87-88. Paul. Dentro desta lógica. Paul. há um conjunto de atividades econômicas que não justificam uma “visão dicotômica” para a realidade bem mais complexa da América Latina. Op Cit.Ao analisar a obra de Quijano. 63-90. onde a acumulação do capital se processa mediante a exploração extensiva de trabalhadores pouco qualificados”. Antes pelo contrário. devido ao custo da reprodução da força de trabalho. Economia Política da Urbanização. Singer conclui que não há um setor da economia que seja marginal. é preciso de estudar as relações causais entre dependência e marginalidade num nível maior de concreção.. Op. condições para a multiplicação de atividades competitivas inegavelmente prósperas. no qual “a dependência deixa de ser a principal fonte de determinação social para se tornar um entre vários fatores que influem no desenvolvimento. e devido ao tamanho da demanda. direta ou indiretamente. entre o “núcleo hegemônico” e o setor propriamente “marginal”. Vejamos estes três tipos de acumulação: 1) A acumulação estatal gera empregos principalmente na prestação de serviços de consumo 53 Singer. “Não se justifica. porém. Cit. 1973. Dependência e Marginalidade na América Latina”. Em livro mais recente. Segundo Singer. embora não negue que diferenças entre setores e ramos econômicos podem ocorrer devido à composição orgânica do capital. “Urbanização. pp. pp.

tomando o formato de empresas em rede. pp. vol. portanto. diminuindo o número de empregos formais com proteção social. via desemprego tecnológico e desemprego estrutural. É o que se chama de terceirização. Esta descentralização do capital está fazendo com que pequenos empresários. 56 Singer. também pela concorrência. e passa a explorar a força de trabalho por outros meios. São Paulo em Perspectiva. provocada. 32 . Integrante deste tipo de acumulação. aumentar a produtividade e lançar produtos novos. em primeiro lugar. por sua vez. por sua vez. em segundo lugar. uma capacidade restrita para empregar trabalhadores.coletivo. pois. Este setor tem uma evidente superioridade tecnológica. é a única que se rege pela força de trabalho. as grandes empresas verticalmente integradas estão sendo coagidas. pois deixa de contratar mão-de-obra. a produção simples de mercadorias. passando a comprar os produtos que antes produziam. as grandes empresas horizontais. ou seja. conseqüência da substituição de mão-de-obra por máquinas importadas. e. engendra o desemprego estrutural. o que lhe dá uma vantagem competitiva enorme. a empresa familiar. que operam em vários países. resultado da desindustrialização ocasionada pela nova divisão internacional do trabalho. O capitalismo estaria sofrendo uma transformação radical. acentua o desemprego tecnológico. pela pressão do mercado. Por outro lado. a se desintegrar. isto é. pela Terceira Revolução Industrial e Tecnológica. se vêm pressionadas. ambos causas do empobrecimento dessa massa de trabalhadores. 2) A acumulação capitalista é responsável. 3-13. tende a ser o destino do contingente humano que o aumento de produtividade e a globalização vêm expulsando das empresas capitalistas. Um dos efeitos mais controversos desta revolução tecnológica seria o fato dela estar descentralizando o capital 56 . Singer entende que a globalização reforça as tendências excludentes no mercado de trabalho. tais como saúde e educação. e direitos adquiridos. por quase metade dos postos de trabalho e se rege tendo em vista três finalidades: ampliar a produção. e cooperativas de produção se conectem com o capital monopolista por meio da contratação de serviços ou da venda de produtos. jan-mar 1996. 10. segurança. Explorando esta última afirmação. a dar autonomia às suas filiais. “Desemprego e Exclusão Social”. no Brasil. nº 1. 3) A acumulação autônoma. tendo. Paul. nas quais as filiais se ligam à matriz por meio de contratos. trabalhadores autônomos.

As atividades econômicas informais teriam as seguintes características: A) não seriam completamente regulamentadas pelo Estado. bem como a consolidação de um ponderável exército industrial de reserva num mercado de trabalho deteriorado. definido como “as atividades semilegais. Petrópolis. Singer afirma ser duvidoso que a expansão do emprego informal e autônomo resulte dos custos trabalhistas que incidem sobre a mão-de-obra registrada. B) comportariam o trabalho instável. Vozes. Contrariamente. As Metamorfoses da Questão Social. o autor observa que a “economia subterrânea” está se expandindo na maioria dos países na medida em que aumenta a incidência dos fenômenos de terceirização da mão-de-obra. a desregulamentação do mercado de trabalho e a precarização do trabalho fazem com que parte dos trabalhadores trabalhe mais por uma remuneração horária declinante. resultando numa situação social de pobreza. Desta maneira. melhor do que a palavra “desemprego”. o desassalariamento da força de trabalho torna-se um processo de caráter estrutural. exclusão e marginalização dos integrantes deste “setor informal”. 1998. e C) nelas. e levam outra parte (crescente) dos trabalhadores ao desemprego. extremamente precárias e que deixam os seus produtores numa penumbra entre a marginalidade social e a superexploração do trabalho familiar em domicílio”. gerando processos que alimentam a vulnerabilidade social dos supranumerários (superpopulação relativa). A flexibilização das relações de produção. A relação existente entre a precariedade econômica e a instabilidade social emerge das novas exigências tecnológicas e econômicas da evolução do capitalismo. contratação de serviços temporários e subcontratação de pequenas empresas. Contestando o enfoque individualista neoliberal. precarizado e mal remunerado. a superexploração do trabalho seria mais evidente. Castel.Sendo assim. a exclusão social do contingente humano que foi expulso dos empregos formais em empresas capitalistas consolida-se quando estes passam a integrar o “setor informal”. uma Crônica do Salário. 57 Lembremos que Castel demonstrou que a questão social se manifesta hoje a partir do enfraquecimento da condição salarial.57 Para Singer. a noção de precarização do trabalho descreve adequadamente o que está ocorrendo: a exclusão de uma crescente massa de trabalhadores do gozo de seus direitos legais e da segurança no emprego. Robert. agravando as condições de vida dos trabalhadores. A precarização do trabalho toma a forma de relações “informais” ou “incompletas” de emprego. 33 .

enquanto que nos países desenvolvidos seria perfeitamente controlável. desenvolver-se-iam “submodos” do modo de produção capitalista com dinâmicas distintas (o do “capital monopólico”.). somente são absorvidos em momentos de ascensão do ciclo econômico. 237-262. La Teoría Social Latinoamericana. “Los Miserables en la Teoría Social Latinoamericana” in: Marini. Ceceña. 59 34 . e 2) os dispositivos sócio-econômicos de integração social por meio do trabalho. 1996. entendido como emprego formal decente agenciador de direitos. o que constitui outro equívoco. p. Diante destas questões. de sujeição e/ou destruição de outros modos de produção e de apropriação”. Tomo II. 58 Ceceña Martorella. Márgara (org. segundo Ceceña. UNAM. o problema dos miseráveis aparece como um fenômeno próprio da América Latina. Op Cit. Em um trabalho paralelo. Ana Ester. na tentativa de se extrair as “especificidades” do capitalismo latino-americano. que são aquelas camadas sociais que se encontram nos últimos escalões do exército industrial de reserva e que.Observamos aqui dois aspectos: 1) a força de trabalho está sendo remunerada cada vez menos em relação ao valor do seu trabalho. Para Ceceña59. os miseráveis deixam de ser entendidos como produzidos pela desestruturação de modos de produção mais atrasados ou pelos avanços tecnológicos que sustentam o progresso capitalista. Dentro da concepção marginalista. Assim. Singer propõe uma solução não-capitalista para o desemprego e o processo de precarização do emprego formal: a economia solidária. pp. Neste sentido. devido a isso. ocorre uma superexploração do trabalho. 58 após analisar as abordagens de Nun. Quijano e Kowarick. o “competitivo”. dado que o estatuto e os vínculos da relação salarial estão sendo questionados pelos processos e mecanismos econômicos. Desta forma. mas de complementaridade. México. estão em crise. e as variantes que o “desenvolvimento desigual e combinado” que o capitalismo é capaz de gerar). Não se fala de contradição entre eles. 261. Ruy Mauro e Millán. o fenômeno observado por estes marginalistas é constituído pelos segmentos que Marx denomina de superpopulação estagnada ou pauperizada. “a acumulação capitalista deixa de conceber-se como um processo de dominação do capital. as critica afirmando que o exército industrial de reserva foi descontextualizado da “totalidade capitalista” e de suas determinações. isto é..

Dialética da Dependência. o capitalismo financeiro globalizado). o desenvolvimento das forças produtivas acentua a exploração dos trabalhadores. o próprio Marini60 chama de “eclético” o sistema de Nun e critica também o esquema de Quijano. Desta forma. pois corre-se o risco de comprometer a coerência da análise. ao lado do crescimento do exército industrial de reserva e do lumpemproletariado. engendrando formações sociais distintas segundo o predomínio de uma forma determinada”. ou seja. a “lei geral da acumulação capitalista” consiste. Vozes. para a teoria marxista da dependência. a “massa marginal” ou “pólo marginal” não seria nada mais do que a superpopulação relativa pauperizada do exército industrial de reserva. Isto a localiza numa esfera teórica diferente dos marginalistas. configurando formações sociais distintas sob a hegemonia de uma forma determinada (atualmente. Segundo sua interpretação. 2000. Ceceña propõe a recuperação do conceito de exército industrial de reserva para abordar o problema dentro de uma perspectiva marxista. e B) “As combinações de formas de exploração capitalistas se levam a cabo de maneira desigual no conjunto do sistema. ao desenvolver a força produtiva do trabalho. no crescimento paralelo da riqueza social. descontextualizada na análise heterodoxa dos marginalistas. 60 Marini. Temos então que. Petrópolis. a dinâmica de fato diferenciada das economias latino-americanas não deve ser explicada por ”sub-modos” alternativos dentro da lógica interna do modo de produção capitalista. 35 . e as combinações de formas de exploração capitalistas se levam a cabo de maneira desigual no sistema. Todavia. formulada por Ruy Mauro Marini. formulando a explicação da pauperização extrema por meio do conceito de superexploração do trabalho. Alternativamente. nesse aspecto.visto que aí se manifesta somente o segmento denominado por Marx de superpopulação flutuante. não suprime. mas acentua a maior exploração do trabalhador”. Corroborando esta linha teórica. A perspectiva da marginalidade social somente é aceita por Marini na medida em que se incorpora à teoria marxista da dependência de acordo com os seguintes pressupostos: A) “A produção capitalista. pois a sua categoria de pólo marginal não teria relação com a maneira como se polarizam as contradições de classe nas sociedades dependentes. Ruy Mauro. aqueles trabalhadores que competem diretamente no mercado de trabalho por postos ligados às empresas capitalistas.

bem como com a camada social que vive do subemprego. denominada lumpemproletariado. da Terceira Revolução Industrial e Tecnológica. a informalidade. o processo de adaptação das empresas às novas formas de organização da produção. criando uma situação que oprime os produtores na sua luta para sobreviver. Dentro desta polêmica. acontece no contexto da realidade maior da formação social latino-americana: a dependência estrutural da economia e da sociedade face aos centros desenvolvidos do capitalismo globalizado. mas certamente não se questiona que estejam crescendo devido aos processos econômicos recentes. Neste contexto. é 36 . à marginalidade das ocupações informais face sos setores mais dinâmicos da economia. no qual a intensificação do trabalho. que são ainda assim empreendimentos capitalistas. A presença de trabalho instável. a reestruturação produtiva e a flexibilização do trabalho podem ser vistas como horizonte ou pano de fundo em relação às quais a compreensão específica do sentido econômico da informalidade deve ser construída. O “trabalho informal” e a “economia informal” podem ser caracterizados alternativamente como atividades instersticiais transitórias ou como fenômenos sociais massivos resultantes da acumulação capitalista em economias dependentes. está associada ao empreendedorismo e à ausência de regulamentações governamentais ou legais. é o extremo social do processo econômico denominado por Marini de superexploração do trabalho. esta linha simbólica de demarcação da realidade. precário. enfim. neste sentido. ou ao caráter periférico e dependente das formações sociais capitalistas latino-americanas. C) onde quase não há separação entre capital ou trabalho e D) onde as margens de lucro são inferiores às das empresas capitalistas. Desta forma. há consenso de que o “mercado informal” trata-se de um conjunto de ocupações onde existe A) precariedade do trabalho. por sua vez. necessárias em decorrência da nova divisão internacional do trabalho. teve seus reflexos também no “mercado informal”. pois pode ser identificado com as camadas pauperizadas do exército industrial de reserva. Assim. B) baixa produtividade. combina-se com a desproteção legal do trabalho. a remuneração da força de trabalho abaixo do seu valor real. o aumento da jornada de trabalho. O “trabalho informal”. à natureza heterogênea ou dual das economias do continente. Considerações finais Como vimos.Ora. e mal remunerado em empresas semilegais. o “trabalho informal” se insere nesta lógica capitalista. originária.

São Paulo. Neste contexto. vol. José Ricardo. Ianni. o “trabalho informal” ou as relações de trabalho não-registradas oficialmente. e trabalho em micro e pequenas empresas. a saber: os desempregados que desempenham atividades econômicas de sobrevivência (população flutuante ou líquida/ desemprego aberto). compressão dos salários e aumento do desemprego. 43. Particularmente. de um lado. na verdade. 1988. relações de trabalho precárias e sub-remuneradas (subemprego). 61 Esta discussão ganha importância na medida em que se reconhece a correlação entre reestruturação industrial. com agravamento das condições de trabalho. desigualdade e pobreza. o artesanato e os trabalhadores domésticos. para a maioria dos seus integrantes. têm sim uma funcionalidade na economia capitalista. semelhante àquela do trabalho formal. A Mundialização do Capital. Civilização Brasileira. 4. O seu crescimento atual deve-se à reestruturação da economia capitalista globalizada (atualmente sob dominância do capital financeiro 63 ) que gera desemprego estrutural e desemprego tecnológico. cujas condições são agravadas pelos processos e estruturas sociais e econômicas criadas pelo imperialismo econômico e pela dependência estrutural 62 . pois formas novas de 61 Ramalho. estamos de acordo com a análise que vincula o trabalho informal e a “economia informal” ao funcionamento regular do capitalismo. no sentido de independentes do sistema econômico capitalista. e exclusão social.possível demonstrar que a positividade do padrão flexível não se confirma como anunciado. os trabalhadores autônomos (população latente/ trabalhadores por “conta-própria”). Chesnais. nº. “Trabalho e Sindicato: Posições em Debate na Sociologia Hoje”. Estes trabalhadores não deveriam ser considerados como marginais. e também por reproduzir. cooperativização. 2000. 62 63 37 . com a vantagem de oferecer baixo custo. Também integram a “economia informal” os trabalhadores subempregados (lumpemproletariado). Dados. 1996. A “economia informal” não é nada mais do que um fenômeno caracterizado por reproduzir antigas formas de trabalho (trabalho domiciliar. e a indústria a domicílio. O Imperialismo na América Latina. François. Rio de Janeiro. de outro. há um crescimento das práticas de precarização do emprego. Cf. além do trabalho autônomo). faces da mesma moeda. (população estagnada ou pauperizada). Octavio. e. Xamã. Cf. Integram a “economia informal” os trabalhadores do exército industrial de reserva.

Na verdade. Nova Cultural. Neste sentido. pode-se dizer que a subordinação do trabalho informal à lógica do capital explica a expansão das atividades informais na produção capitalista. formas que ligam a “economia informal” às empresas capitalistas. constitui-se numa tentativa de superar as relações sociais de produção capitalistas. seja como mercados de consumo para as mercadorias produzidas. o “trabalho informal” constitui uma perversa inserção do trabalhador no mercado de trabalho. seja como fontes de força de trabalho barata64. de desregulamentação da economia e do mercado de trabalho. 1985. dizíamos. podemos dizer que a “economia informal” não é nada mais do que a expressão do processo de subordinação de mercados e camadas não-capitalistas ao sistema hegemônico capitalista que. 64 Cf. Dado que o crescimento da economia capitalista depende da subordinação de mercados externos à sua lógica de funcionamento. tratando-se da expansão das atividades capitalistas à margem da legislação e do Estado. razão pela qual tem a sua expansão assegurada neste sistema econômico. segundo Rosa Luxemburg) para possibilitar a sua expansão. apenas tendem a generalizar as relações de trabalho desprotegidas legalmente. tais como a terceirização. Rosa. o “setor informal” da economia está sujeito aos setores mais dinâmicos do sistema capitalista. Uma segunda característica pode ser observada no fato de que os processos de flexibilização do Direto do Trabalho. Visto de outro ângulo. Luxemburg. Em outras palavras. A exceção a esta regra é a economia solidária que. garante o seu crescimento. inserida que está na lógica da reprodução ampliada do capital. desta forma. tais como a subcontratação e a terceirização. 38 . estes processos. com sua perspectiva política de emancipação dos sujeitos históricos. bem como os mecanismos do capital para reestruturar-se.emprego de mão-de-obra. vinculam estas ocupações diretamente ao processo capitalista de produção. identificamos um primeiro fator fundamental para esta nossa análise no fato do processo de desenvolvimento capitalista requerer a existência de economias ou camadas sociais não-capitalistas ou pré-capitalistas (“mercados externos”. a subcontratação e a contratação de serviços temporários. a economia de sobrevivência de vastas camadas sociais está subjugada pelo sistema hegemônico capitalista e sua lógica de superexploração do trabalho. São Paulo. Neste sentido. A Acumulação de Capital.

Conseqüentemente. tecnologia. torna-se evidente que há uma relação estreita entre desigualdade social. principalmente no setor financeiro. jogos proibidos. a somatória destes fatores não poderia resultar de nenhuma maneira em uma justa e igualitária distribuição da renda e da riqueza produzida pelos trabalhadores. tanto regional quanto setorialmente. numa forma de pobreza. das atividades ilícitas e contravenções tradicionais. tais como corrupção. informalidade. Atividades que movimentam centenas de bilhões de dólares anualmente. pessoas e órgãos. precarizada e sub-remunerada. ilegalidade das atividades econômicas. o crescimento do “mercado informal” nada mais é do que expressão do vínculo existente entre as recentes transformações da estrutura produtiva. a somatória de fatores como a concentração de recursos (informação. contrabando. lavagem de dinheiro. ele próprio. principalmente na distribuição de renda e riqueza entre os estratos sociais. i. o combate à pobreza e à desigualdade social. pela sua característica de relação de trabalho desprotegida legalmente. pobreza e informalidade. incluindo as mudanças nas relações de trabalho capitalistas. constitui-se. na sua maior parte. independentemente do status da sua relação de trabalho. relações de trabalho desprotegidas socialmente. sonegação de impostos. Na verdade. Desta forma. narcotráfico. ou mais. além da superexploração da força de trabalho em empresas semilegais. além. perversa inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho. além. Conseqüentemente. Uma terceira característica em relação ao “setor informal” está no fato de que este comporta todo tipo de atividade econômica ilícita. Esta realidade turva evidencia a necessidade de uma atuação decisiva do Estado e da sociedade no sentido de recompor as relações sociais desestruturadas pela exclusão social e de estender os direitos sociais a todos os ocupados. prostituição. obviamente. com a dinâmica dos fenômenos do desemprego e subemprego. o crescimento do “setor informal” representa igualmente a expansão dos empreendimentos ilegais capitalistas: tráfico de armas. Neste sentido. podemos dizer que o “trabalho informal”. enfim. de restituir a legalidade nas atividades econômicas. é claro. etc. Por último. e. pelos seus baixos 39 . poder e capital). origem e destino de todo empreendimento capitalista ilegal. ganha importância nesta questão quando entendemos que ambas estão associadas com a informalidade.

Desigualdade e Pobreza na América Latina. 65 Cf. intangíveis e voláteis. fonte importante de receitas e lucros submersos. tais como ilegalidade e superexploração do trabalho. Podemos agora concluir que o subdesenvolvimento nas economias dependentes continua a se desenvolver com o próprio crescimento da economia capitalista. nas quais certamente se encontra a maior parte dos trabalhadores informais.rendimentos e pela exclusão social que cerca a negação de direitos trabalhistas. suas outras características. aumentando. devido à forma de inserção da região no sistema capitalista. a tornam não somente funcional ao sistema. é reforçada pela desigualdade social. Dado que a pobreza. 2003. ao padrão de acumulação dependente destas economias. e sem a transformação do padrão de desenvolvimento de forma a reorientar o modo de inserção das economias latino-americanas na economia global. 40 . temos uma situação na qual a “economia informal”. o nível de desigualdade social na distribuição de recursos. Ou seja. principalmente. como sabemos. particularmente com a expansão do “setor informal”. A “economia informal”. (Tese de Doutorado). alimenta a pobreza estrutural que. bem como os índices que medem a profundidade. FFLCH-USP. e à própria natureza das relações sociais neste modo de produção capitalista65. redistribuindo recursos em favor das camadas mais pobres. extensão e severidade da pobreza. ao criar e reproduzir desigualdades. revela de imediato a sua inconsistência e lateralidade com relação ao processo de acumulação de capital. Esta realidade evidencia que sem a desconcentração de renda e de riqueza. não haverá melhoria nas condições de vida das massas empobrecidas. pelos que trabalham no “setor informal” Sabemos que a pobreza absoluta e desigualdade social são fenômenos estruturais nas sociedades latino-americanas. a economia latino-americana encontra-se presa a este círculo vicioso de subdesenvolvimento capitalista. por sua vez. Estas peculiaridades do capital neste setor são propícias para instituir a “economia informal” como origem de assimetrias sociais decorrentes de desigualdades de renda e riqueza. Capitalismo. Entretanto. Estenssoro. mas. Luis. multidimensional por sua natureza. é integrada. pela sua característica de subordinação aos setores dinâmicos do capitalismo. São Paulo. assim. em grande parte.

* * * 41 .

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