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Módulo 1

PROTEÇÃO CONTRA INCÊNDIO

CONCEITOS BÁSICOS

Sérgio Américo Mendes de Carvalho


07
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 2

SUMÁRIO

1 - Considerações gerais

2 - Combustão
2.1 - Elementos essenciais
. reação em cadeia
. oxigênio
. fonte de ignição
. combustíveis
Características dos líquidos
- pressão de vapor
- inflamabilidade / explosividade
- ponto de fulgor
- ponto de combustão
- ponto de ignição
- miscibilidade com a água
Características dos gases e vapores
2.2 - Velocidade de combustão
2.2 - Tipos de combustão
2.3 - Transmissão de calor

3 - Classes de incêndio

4 - Métodos de extinção

5 - Agentes extintores

Bibliografia

Anexos

- Avaliação da aprendizagem
- Estudo de casos
- Classificação dos riscos de incêndio das edificações
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 3

1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS

O fogo livre na natureza, os vulcões, os incêndios provocados por raios, por combustão
espontânea fez com que os povos primitivos o adorassem.
Mais tarde, o homem conseguiu usá-lo para cozinhar seus alimentos, aquecê-lo nos
dias de frio, afugentar as feras, fazer ferramentas e combater o inimigo.
O fogo quando sob controle é meio de progresso. Entretanto quando foge do controle
do homem torna-se um agente de grande poder destruidor: O incêndio.
Há uma preocupação mundial com o desenvolvimento e funcionamento dos Sistemas
de Proteção contra Incêndio. Normas técnicas, Códigos de Segurança Contra Incêndio e
Pânico, redução nos prêmios de seguro para edificações e instalações que dispõe
desses sistemas, instituições internacionais que se dedicam à pesquisa e ao
desenvolvimento de materiais e equipamentos para a prevenção e combate aos
incêndios evidenciam a importância dessa disciplina, em especial no curso de
Engenharia de Segurança.

2 - COMBUSTÃO

É uma reação química de oxidação, exotérmica da qual participam como reagentes os


materiais combustíveis e o oxigênio. Normalmente a reação só ocorre quando é ativada
pelo aumento da temperatura resultante de uma fonte de calor.
A combustão pode ser definida como:
“combinação de alguns elementos essenciais em condições
apropriadas, com geração de gases, vapores, luz e calor.”
O calor desenvolvido na combustão é proveniente da ruptura das ligações moleculares
do combustível, o que caracteriza o fenômeno da reação em cadeia.
Os produtos mais comuns resultantes da combustão são o vapor d’água, o monóxido e
o dióxido de carbono, o dióxido de enxofre e os óxidos de nitrogênio.
Os materiais modernos, principalmente os polímeros, quando queimados dão origem a
gases e vapores de elevada toxicidade.
As chamas formam um fluxo de gases e vapores incandescentes, emitindo luz e calor.
A combustão é uma oxidação rápida. Existe também a oxidação lenta, sem produção de
chamas como a oxidação do ferro (ferrugem) e a fermentação.
A combustão ocorre em velocidades diferentes. Em condição estável como no
queimador de um fogão, a velocidade é baixa.
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2.1 - Elementos essenciais

Para fins didáticos, é usada a figura do triângulo equilátero o “triângulo do fogo” para
representar os três elementos essenciais que promovem o início da combustão:
o ar, o combustível e o calor.

Mais tarde, descobriu-se que a combustão se processa em cadeia, ou seja, após o início
é mantida pelo calor produzido pelas rupturas das moléculas do combustível (pirólise)
que resultam em produtos intermediários instáveis (radicais) e os elétrons.

Os radicais reagem com as moléculas do combustível e os elétrons tornam o oxigênio


mais reativo, aumentando a intensidade da oxidação. As reações liberam calor que
aumenta a intensidade da combustão. Com esse fenômeno uma outra figura passou a
ser utilizada o “quadrado do fogo”.

A reação em cadeia representa o quarto elemento essencial.


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Oxigênio

É o comburente. Interfere na velocidade da combustão. Em ambiente com pequeno


percentual de oxigênio a combustão não ocorre ou ocorre em velocidade reduzida. Em
ambiente com elevada concentração de oxigênio, ocorre com intensidade.
O ar que respiramos tem a seguinte composição aproximada:

gás % por volume

nitrogênio 78,1
oxigênio 20,9
argônio 0,9
outros 0,1

Em geral, para que haja a presença de chama é necessário que a concentração do


oxigênio seja superior a 13%.
Abaixo dessa concentração, não há a combustão dos líquidos. Nos sólidos, a combustão
ocorre de forma lenta, sem a ocorrência de chama até atingir 6%, quando é
interrompida.

% O2 combustão

21 a 13 intensidade decrescente
13 a 6 lenta (sólidos)
ausente (líquidos)
<6 ausente

Fonte de ignição / calor


Representa a energia térmica necessária para ativar a reação entre o combustível e o
oxigênio.
A exemplo do que ocorre com o combustível e com o ar, o calor também precisa estar
presente em intensidade adequada para iniciar a combustão.
No trabalho com líquidos e gases inflamáveis, o cuidado com a presença das fontes de
ignição é medida de prevenção elementar.
A quantidade de calor necessária para combustão é característica de cada combustível.

Os combustíveis líquidos e sólidos para entrarem em combustão precisam, inicialmente


serem vaporizados e formar a mistura inflamável com o ar.
A gasolina libera vapores a temperatura abaixo de 0 ºC, enquanto que a madeira
necessita de muito calor para vaporizar.
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Eletricidade estática
Líquidos, gases e materiais particulados quando movimentados geram e retém cargas
elétricas (eletricidade estática) que pode se constituir em fonte de ignição, sendo
importante estudar e considerar essa condição na movimentação desses produtos.
Várias operações, tais como:: o enchimento de tanques, o carregamento e a descarga
de caminhões, vagões, aeronaves, embarcações e recipientes estão sujeitas a riscos de
explosão e incêndio devido às descargas eletrostáticas que se originam pela seguinte
seqüência:

geração de eletricidade

retenção da eletricidade

descarga eletrostática

ignição da mistura inflamável

Geração da carga
Diversas operações podem gerar cargas elétricas, como por exemplo, quando o fluido
ou o particulado flui por uma tubulação ou através de um filtro. As cargas elétricas
(íons) geradas pelo atrito se dividem. As de um tipo de sinal (negativa ou positiva),
ficam no recipiente e as cargas de sinal oposto ficam no material em movimento.
A geração de cargas é proporcional ao quadrado da velocidade.
A intensidade desse fluxo de corrente elétrica é na maioria dos casos de alguns
microamperes. A diferença de potencial (acúmulo de carga), pode ser elevada.
Para os sólidos é função da umidade relativa do ar, como mostrado em algumas
situações típicas:

atividade umidade relativa (%)


10 a 20 65 a 95

Volts

andar sobre carpete 35000 1500


abrir envelope plástico 7000 1200
levantar de assento de poliuretano 18000 1500

Fonte: Descarga eletrostática: Paulo Marin


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Nos projetos, limitar a velocidade de deslocamento dos líquidos, gases e particulados é


medida preventiva usual. Para os líquidos inflamáveis, quando bombeados em sistemas
abertos é praticada a velocidade máxima é de 7 m/s.
Na filtragem, em especial quando a malha do filtro é reduzida, a geração de cargas é
muito elevada.

Retenção de eletricidade
Quando o líquido ou material particulado eletricamente carregado estiver em um
recipiente ligado á terra (aterrado) as cargas se dissiparão, ao longo de um
intervalo de tempo, com velocidade que depende da condutividade elétrica do líquido
ou do material particulado. Os que possuem baixa condutividade, apresentam tempo de
dissipação elevado.

retenção de cargas elétricas = cargas geradas - cargas dissipadas


Intensidade das cargas eletrostáticas

Tubulação

Caminhão
Medidor
Tanque

Bomba

Filtro

Componentes do sistema

Os líquidos que possuem condutividade (σ) acima de 50 picoSiemens por


metro (pS/m) são considerados como intrínsicamente seguros.
Os líquidos polares (míscíveis com a água) têm essa propriedade.

σ até 50 pS/m baixa condutividade


σ > 50 a 1000 pS/m média condutividade
σ > 1000 pS/m alta condutividade
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Valores típicos de condutividade:


condutividade
líquido
(pS/m)

hidrocarboneto
< 0,1
microfiltrado
tolueno, xileno, benzeno 5 a 50
gasolina 0,1 a 100
diesel 1 a 100
óleo combustível 50 a 100 000
petróleo > 1000
água 100 000 000

Condutância = 1 ÷ resistência (1 / Ω) = Siemens

Condutividade (σ) = Siemens / metro (picoSiemens = 10-12 S/m)

Tempo de dissipação: inversamente proporcional a σ

Fórmula prática para cálculo do tempo de dissipação:


T = 18 ÷ σ
Supondo:
condutividade tempo de dissipação
(pS/m) (segundos)

1 T = 18 ÷ 1 = 18
50 T = 18 ÷ 50 = 0,36
1000 T = 18 ÷ 1000 = 0,018

Um meio para minimizar as cargas eletrostáticas é aumentar a condutividade do líquido


ou do material sólido.
O querosene usado como combustível para turbina de aeronave, por ser microfiltrado e
possuir baixa condutividade elétrica é aditivado para reduzir o acúmulo de cargas.
Nos materiais particulados a umidificação aumenta a condutividade.
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Qualquer tanque, filtro, silo ou outro corpo condutor que esteja isolado da terra ou mal
aterrado pode alcançar elevado potencial elétrico quando contiver produto
eletricamente carregado.

Descarga eletrostática
Se o líquido, o gás ou o material particulado que possua baixa condutividade for
bombeado ou succionado, a carga elétrica gerada, poderá ficar retida na superfície do
produto e atingir uma diferença de potencial suficiente para dar origem a centelhas
(descarga eletrostática), se um objeto eletricamente condutor for aproximado.
Um exemplo conveniente é o carregamento de caminhão-tanque com líquido inflamável
de baixa condutividade elétrica. Caso o braço de enchimento e o veículo não estejam
interligados eletricamente, poderá haver diferença de potencial e resultar em centelhas.
Se as centelhas tiverem energia suficiente, poderão se constituir em fonte de ignição.

Outro exemplo é a aspiração de materiais particulados através de dutos não condutores


elétricos, principalmente quando possuem ponteiras ou componentes metálicos
isolados.

Ignição da mistura inflamável


A descarga eletrostática somente será perigosa se ocorrer na presença de misturas
inflamáveis. Nas operações em sistemas abertos essas misturas podem estar presentes.

Condutividade dos dutos flexíveis

Esses dutos são usados em muitas operações de transferência de líquidos, gases e


particulados. Quando a operação envolve a movimentação de materiais que possam
formar misturas inflamáveis, o duto deve ser condutor ou antiestático.
A classificação é feita pela condutividade:
- Condutor: resistência < 1000 Ω/m
- Anti-estático (semi-condutor): resistência ≥ 1000 Ω/m
< 1000 000 Ω/m
- Isolante: resistência > 1000 000 Ω/m
Possibilidade de centelha se estiver próximo de condutor elétrico aterrado.
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Combustíveis
Toda matéria orgânica (madeira, papel, tecido, óleo, solvente, plásticos, carvão...) é
combustível. Os materiais inorgânicos nas condições ambientes não são combustíveis.
A velocidade da combustão depende da maior ou menor interação do combustível com
o oxigênio (área de contato).
São considerados incombustíveis os materiais que não queimam, não liberam gases ou
vapores inflamáveis quando aquecidos a 750 ºC por 5 minutos.
Os materiais combustíveis podem ser sólidos, líquidos ou gasosos.
Os sólidos e os líquidos antes de entrar em combustão necessitam de
mudar de estado, ou seja, passar para o estado gasoso.

Definições importantes: NBR 14432

- Carga incêndio: soma das energias caloríficas que podem ser liberadas pela
queima completa de todo o combustível em um ambiente.

- Carga incêndio específica: valor da carga incêndio dividido pela área

(M a x H a) + (M b x H b ) + (M c x H )
c
Ci e =
área do piso (m2)

M: massa do combustível de cada combustível


H: potencial calorífico específico de cada combustível

Alguns valores do potencial calorífico específico (Mj / Kg):

madeira 19 epóxi 34 acrílico 28


algodão 18 grãos 17 graxa 41
palha 16 seda 19 borracha 37
couro 19 lã 41 PVC 17
papel 17 petróleo 41 polietileno 23

- Resistência ao fogo: propriedade de um material de resistir as chamas por


determinado período de tempo, mantendo a estabilidade,
estanqueidade e isolamento.
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. Inflamabilidade / explosividade

É comum encontrar na literatura o emprego dessas duas palavras que na prática tem o
mesmo significado.
A distinção entre um líquido inflamável e um líquido combustível, está relacionada à
facilidade de liberar vapor. Porém, qualquer líquido combustível, suficientemente
aquecido torna-se inflamável. Esses combustíveis também se tornam inflamáveis,
quando pulverizados , pois nessas condições assemelham-se aos seus vapores, devido
a grande área em contato com o ar.
Para que ocorra a combustão, é necessário que o combustível e o oxigênio se misturem
em um percentual volumétrico adequado, na presença de uma fonte de ignição.
As misturas que compõem a escala de inflamabilidade são:

mistura pobre combustível em quantidade insuficiente para a combustão.


mistura combustível em quantidade adequada para a combustão.
inflamável
mistura rica combustível em quantidade excessiva para a combustão.

Limites de inflamabilidade / explosividade


São os limites expressos em percentual volumétrico de combustível no ar, que
determinam a faixa em que a mistura é inflamável.
A menor concentração é chamada de Limite Inferior de Explosividade (LIE). A maior
concentração é chamada de Limite Superior de Explosividade (LSE).
Abaixo do LIE a mistura do combustível com o ar é chamada de mistura pobre e acima
do LSE mistura rica.
Esses limites na prática, devem ser usados com muito cuidado pois as
condições ambientais (ventilação) podem mudar rapidamente a
concentração do combustível no ambiente.

No quadro a seguir estão relacionados alguns limites de inflamabilidade.


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limites de explosividade
gases/ vapores (% volumétrico de vapores/gases no ar)
inferior superior

querosene 0,6 5,0


hexano 1,1 7,5
gasolina 1,5 7,6
etanol 3,3 13,7
metanol 6,7 36,0
mon. de carbono 12,5 74,0
hidrogênio 4,0 75,0
acetileno 2,0 > 80,0

Características dos líquidos


É conveniente lembrar a diferença entre vapor e gás:

- vapor estado gasoso de um produto que é líquido a 25 ºC e 760 mmHg.

- gás estado físico normal de um produto a 25 ºC e 760 mmHg.

Serão comentadas as principais propriedades dos líquidos, importantes para o


estudo da proteção contar incêndio.

. Pressão de vapor
Pressão relacionada a uma temperatura, na qual um líquido que ocupa parcialmente um
recipiente fechado tem “interrompida“ a passagem de suas moléculas para a fase de
vapor, devido à pressão que o vapor exerce sobre a superfície do líquido.

Vapor

líquido
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Quando a pressão de vapor se iguala a pressão atmosférica, tem início a ebulição. A


ebulição da água ao nível do mar, ocorre a 100 ºC.

pressão de vapor ponto de fulgor


líquido 2
(kgf/cm a 37,8 ºC) (ºC)

gasolina 0,7 - 40
hexano 0,4 - 21
álcool etílico 0,15 13
querosene < 0,01 44

. Temperatura de ebulição
Temperatura ou a faixa de temperatura na qual a pressão de vapor se iguala à pressão
atmosférica
Líquidos voláteis: pressão de vapor elevada baixa temperatura de ebulição
Líquidos impuros: faixa de temperatura onde ocorre a ebulição
. Temperatura de fulgor
Menor temperatura na qual o líquido libera vapor em quantidade suficiente para formar
uma mistura inflamável. Na presença de uma fonte de ignição resulta em um flash, que
representa o inicio da combustão. Nessa temperatura a quantidade de vapor não é
suficiente para dar continuidade à combustão.

Classificação dos líquidos

Referência: Norma Brasileira NBR 7505 - Armazenagem de líquidos inflamáveis e


combustíveis - agosto 2000.

. Líquidos inflamáveis: temperatura de fulgor inferior a 37,8ºC.

. Líquidos combustíveis: temperatura de fulgor igual ou superior a 37,8 ºC.


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classe fulgor (ºC) líquido

I Inferior a 37,8 gasolina


álcool
nafta
hexano
xileno
benzeno

II Igual ou superior a querosene iluminante


37,8 e inferior a 60 querosene de aviação
alguns solventes

III Igual ou superior a óleos:


60 lubrificantes
combustíveis
vegetais

Temperatura de combustão
Temperatura, poucos graus acima do ponto de fulgor, na qual o líquido libera vapor em
quantidade suficiente para iniciar e dar continuidade à combustão, na presença de uma
fonte de ignição.

Temperatura de ignição
Menor temperatura de uma superfície ou de uma centelha capaz de iniciar a
combustão.
A temperatura ignição é bem superior às temperaturas de fulgor e
combustão.

líquido fulgor (ºC) ignição (ºC)

éter - 45 160
gasolina - 40 > 300
hexano - 22 230
metanol 11 385
etanol 13 365
querosene 40 210
óleos combustíveis 66 / 220 256 / 407
óleos lubrificantes > 180 260 / 371
óleo de soja 282 445
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. Miscibilidade com a água


É a capacidade de líquidos se misturarem de forma uniforme e estável.
O comportamento de um líquido inflamável, quando em contato com a água é uma
informação muito importante para o controle e a extinção de um incêndio.
Dois fatores devem ser considerados:
- característica molecular
- densidade
A característica molecular está relacionada à distribuição de elétrons na molécula do
líquido. Quando essa distribuição é uniforme, o líquido é não polar (apolar). Quando a
distribuição não é uniforme, o líquido é polar.
Tomando como referência uma regra clássica da Química, “semelhante dissolve
semelhante”, pode ser entendido:
a miscibilidade do álcool com a água - ambos são polares
a não miscibilidade da gasolina com a água: a gasolina não é polar.

A densidade de um líquido inflamável não polar em relação à água determina se ele


flutua ou se fica submerso.
A nafta, o querosene, o diesel são líquidos não polares, com densidade
inferior a da água (densidade da água considerada = 1), dessa forma, flutuam na
água.
O incêndio nesses líquidos poderá ter sua área significativamente
aumentada com a adição de água.

Características dos gases e vapores


Apresentam grande mobilidade no ar. A ventilação é uma variável importante pois
determina maior ou menor mobilidade. A temperatura do ambiente também influencia a
mobilidade, pois altera a densidade dos gases e vapores. O aumento significativo
na temperatura, como ocorre nos incêndios forma importante corrente de
convecção.

A densidade dos gases e vapores toma como referência à densidade do ar, ou seja, o
peso de um volume de vapor ou de gás é comparado com o peso de igual volume
de ar seco, nas mesmas condições de temperatura e pressão. Dessa forma a densidade
do ar é considerada igual a 1.
Os gases e vapores mais leves que o ar tem movimento ascendente e
dispersão mais rápida.
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Os mais pesados que o ar se movimentam no sentido descendente,


ocupando as depressões, canaletas, ralos e poços. Tem dispersão mais
lenta.
Os gases e vapores com densidades próximas a do ar se misturam
facilmente com o ar. No quadro a seguir são apresentadas as densidades
de alguns gases e vapores em relação ao ar.

gás / vapor densidade

hidrogênio 0,1
metano 0,6
gás natural 0,6
acetileno 0,9
monóxido de carbono 1
ar 1
etileno 1
dióxido de carbono 1,5
álcool etílico 1,6
propano 1,6
butano 2,0
cloro 2,5
tolueno 3,2
gasolina 4,0

2.2 - Velocidade de combustão

Tem como variáveis: o estado físico e a quantidade do combustível, a concentração de


oxigênio.

A velocidade permite classificar a combustão em:

Deflagração: Velocidade de cm/s


Resulta em pequeno acréscimo de pressão e em pequeno ruído. Misturas inflamáveis
que estejam próximas dos limites de inflamabilidade (superior ou inferior).

Explosão: Velocidade de m/s


Resulta em considerável aumento de pressão (3 a 10 Kgf/cm²) e em forte ruído devido
à expansão gasosa provocada pela elevação de temperatura. Pode ser dividida em:
. Volumétrica: aquela que ocorre em uma mistura inflamável (mistura de vapores).
de derivados de petróleo com o ar: 20 a 25 m/s).
. Concentrada: aquela que ocorre com explosivos (pólvora: 300 m/s)
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Detonação: Velocidade de Km/s


Resulta em grande aumento de pressão, podendo superar 20 Kgf/cm² e em ruído
extremamente forte. Ocorre em geral em recipientes onde a relação
comprimento / (diâmetro ou largura) é grande. Um exemplo típico é a combustão que
ocorre em tubulações.

2.3 - Tipos de combustão


A combustão pode ocorrer na superfície ou em profundidade.
- Superficial: é característica dos líquidos e gases.
- Profundidade: ocorre nos combustíveis sólidos (papel, madeira, tecido,
plástico, borracha...).

O tipo de combustão determina o método de extinção.

2.4 - Transmissão de calor


O conhecimento das formas de transmissão do calor é importante tanto na prevenção
como no combate ao incêndio.
O calor se transmite de um corpo para outro por condução, convecção e radiação.

. Condução
É a transmissão do calor diretamente de uma molécula para outra. Não há intervalos
entre os corpos. Ocorre em materiais sólidos.

. Convecção
É a transmissão de calor característica dos fluidos (gases e líquidos).
Quando aquecidos esses fluidos têm suas densidades diminuídas (ficam mais leves),
movimentando-se no sentido ascendente e provocando as correntes de convecção. Tais
correntes, nos incêndios de combustíveis sólidos (madeira, papel, tecidos) deslocam as
partículas incandescentes a grande distância. Essas partículas poderão causar a
combustão em outros materiais.

. Radiação (irradiação)
Transmissão de calor, por ondas de energia térmica que se deslocam no ar. A energia é
transmitida na velocidade da luz, em todas as direções. Ao encontrar um sólido as
ondas são absorvidas e o calor começará a se propagar por condução. Um exemplo é o
calor do sol transmitido através do espaço até alcançar a terra, quando é absorvido.
Superfície escura absorve calor. Se for clara ou polida reflete calor.
Alguns corpos são transparentes à energia radiante, permitindo que ela passe através
dos mesmos com um mínimo de absorção.
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O calor radiante é transmitido em linha reta e em todos os sentidos. Quando dois corpos
estão próximos, estando um mais aquecido que o outro, a energia térmica fluirá do
corpo quente para o frio até que ambos tenham a mesma temperatura, estabelecendo-
se um equilíbrio térmico. A quantidade de calor radiante, depende das temperaturas e
das superfícies do corpo quente e do corpo frio.
O ar é um dos piores condutores de calor. A transmissão no ar é
inversamente proporcional ao quadrado da distância entre o corpo quente e
o frio.
No projeto, uma das principais medidas de proteção é adotar as distâncias de
segurança. Em geral, quanto mais compacta for a unidade, maior será a possibilidade
de propagação de um incêndio.
Necessário haver disponibilidade de água na vazão e pressão adequadas
para o resfriamento das estruturas para que não haja a concentração de
calor e o conseqüente aumento de temperatura. Um exemplo típico de
recurso para o resfriamento são os aspersores de água instalados nos
tanque e esferas.
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3 - CLASSES DE INCÊNDIO

A classificação é referenciada as características do combustível.


Além das 4 classes principais, o NFPA (National Fire Protection Association).
considera a Classe K, específica para óleos e gorduras usados em cozinhas.

. CLASSE A
Ocorre em combustíveis comuns - papel, madeira, tecidos, fibras. Deixam
resíduos incandescetes.
A combustão se processa na superfície e em profundidade.
Necessita do resfriamento com água para a completa extinção das chamas.

CLASSE B
Ocorre nos líquidos (vapores) e gases.
Queimam em função da superfície exposta. Para a extinção das chamas é necessário
empregar o abafamento ou a interferência na reação em cadeia.

CLASSE C
Ocorre nos equipamentos elétricos energizados.
Devido à possibilidade de choque elétrico necessita para a extinção um agente
extintor não condutor de eletricidade.

CLASSE D
Ocorre em metais.
Magnésio, selênio, antimônio, lítio, cádmio, potássio, zinco, titânio,
sódio, zircônio...
Em combustão, reagem com água e agentes extintores comuns podendo
resultar em explosão, com intensidade variável, em função do agente extintor, do
tipo e quantidade do metal.
A combustão ocorre pelo calor do atrito, pela exposição às chamas de outros
materiais.
A possibilidade de combustão aumenta se o metal estiver finamente dividido, fundido
ou em escamas.
A extinção das chamas requer técnicas e agentes especiais.
Alguns agentes extintores se aplicam em mais de um metal, como por exemplo,
o cloreto de sódio. Outros são específicos.
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4 - MÉTODOS DE EXTINÇÃO

A combustão só existirá quando estiverem presentes os seus elementos essenciais, ou


seja, quando estiver formado o Quadrado do Fogo. Baseado nesse conhecimento
foram desenvolvidos os métodos de combate às chamas. Para extinguí-las basta
desfazer esse quadrado, isto é, remover um dos seus lados.
Existem seis métodos básicos para a extinção dos incêndios.
. Resfriamento
É o método mais conhecido. Consiste em diminuir a temperatura do material em
chamas até situá-la abaixo do ponto de combustão, quando não mais haverá o
desprendimento de vapores, na quantidade necessária para sustentar a combustão.

. Abafamento
Redução do oxigênio presente no ar, situado acima da superfície do combustível.
Em experiências realizadas em laboratório, verificou-se que para a maioria dos gases
e vapores as chamas existem somente em ambientes com mais de 13% de oxigênio.
Qualquer agente extintor que consiga reduzir o percentual abaixo desse valor,
resultará na extinção.
Para os sólidos, abaixo de 13% de oxigênio a combustão ocorre lentamente, sem
chamas, até que a concentração atinja 6%, quando a combustão não mais existirá.

. Interferência na reação em cadeia


É o método conhecido como extinção química. O agente extintor reage com os
produtos intermediários da combustão (radicais livres e elétrons), reduzindo a
intensidade da combustão, até eliminá-la.

. Remoção do combustível
Não necessita de agente extintor. Consiste na retirada ou na interrupção do fluxo do
combustível que alimenta as chamas e daqueles ainda não atingidos pelo incêndio.
Como exemplo pode ser citado o fechamento de válvulas.

. Diluição
Incêndio em líquido solúvel em água pode, em alguns casos, ser extinto por diluição.
A proporção de água necessária à extinção varia em função do líquido.

. Emulsificação
Quando dois líquidos não miscíveis são vigorosamente agitados há formação de
emulsão, ou seja, a dispersão e mistura das gotículas de ambos os líquidos. Esse
fenômeno ocorre se a água na forma de jato for lançada na superfície de um líquido
não miscível que possua baixa pressão de vapor, como é o caso dos óleos (minerais
e vegetais). A emulsão em geral apresenta aspecto leitoso ou como espuma, que
reduz a liberação de vapores do líquido aquecido.
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5 - AGENTES EXTINTORES

Serão comentadas as propriedades, métodos de extinção, forma de empregá-los e os


riscos para a saúde. Os agentes extintores são produtos para a prevenção e extinção
de incêndios. Extinguem as chamas física ou quimicamente ou combinando as duas
ações. Apresentam se no estado líquido, gasoso ou sólido.
Usados através de extintores (portáteis ou carretas) ou de instalações para possibilitar
o lançamento sobre as chamas ou sobre o líquido derramado com o objetivo de evitar o
início da combustão.

Os equipamentos e as instalações objetivam:


- Proteger o operador, mantendo-o à distância das chamas
- Alcançar as chamas
- Facilitar a distribuição gradativa e homogênea do agente
- Promover a interação do agente extintor com as chamas

Os agentes extintores de uso mais comum são: água, espuma mecânica,


dióxido de carbono e pó químico.

ÁGUA

É o agente extintor mais antigo e mais utilizado. Serão comentadas as características


relativas à ação extintora, as limitações e especialmente, as possibilidades de extinguir
as chamas, através das ações de resfriamento, abafamento, emulsificação e diluição.

. Propriedades
Nas condições ambientais e ao nível do mar congela a 0 ºC e vaporiza-se, a 100 ºC.
Essas temperaturas variam com a altitude (pressão atmosférica). Em qualquer de seus
estados não possui odor ou sabor. O vapor mantém-se incolor e transparente até iniciar
a condensação, quando se apresenta como uma nuvem branca.
A vaporização da água produz vapor na razão aproximada de 1 para 1600
(1 litro de água resulta em 1600 litros de vapor).
Esse grande volume de vapor desloca igual volume de ar, reduzindo a concentração do
oxigênio necessário à combustão.
A água é condutora de eletricidade. Se aplicada em incêndio em equipamento elétrico
energizado poderá resultar em choque elétrico para o pessoal de combate. A
intensidade de corrente elétrica (Ampére), mais que a tensão elétrica (Volt) determina a
conseqüência do choque elétrico.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 22

Normalmente, a possibilidade de choque diminui quando a água pulverizada é lançada


em circuitos com menos de 600 Volts. Contudo a exposição é maior quando o pessoal
de combate se posiciona em superfícies úmidas. Não é recomendado usar a água para
o combate a incêndio da Classe C, devido a grande exposição dos operadores. Esse
combate somente será executado quando for essencial, por pessoal qualificado e
adotando técnicas específicas para essa situação.
A utilização de água pulverizada reduz a exposição devido aos espaços existentes entre
as gotículas, minimizar o fluxo de corrente elétrica.

Propriedades Extintoras
A água age principalmente por resfriamento e por abafamento, podendo
agir também por emulsificação e por diluição, dependendo das características
do combustível.
Na forma de jato, age por resfriamento. Na forma pulverizada age por resfriamento e
abafamento. Na forma de vapor age unicamente por abafamento. A água quando
utilizada no estado líquido, para atingir sua plena ação de resfriamento, precisa se
transformar em vapor, este por sua vez age por abafamento. Dessa forma a água no
estado líquido, sempre conjuga, as ações de resfriamento e abafamento.
A extinção é obtida quando alcança o combustível em chamas ou se vaporiza acima da
superfície dos líquidos. Por muitos anos a forma de ação se limitava ao uso de jato
pleno dirigido à base das chamas e aplicado a grande distância. Esse método continua
ainda hoje como o mais usual para a extinção de incêndios da Classe A ou quando é
necessário alcançar uma instalação/edificação à distância. Entretanto, verificou-se a
melhor eficiência da água quando aplicada na forma pulverizada.

Extinção por resfriamento


Se o material em combustão é resfriado abaixo da temperatura em que libera vapores
em quantidade suficiente para manter a combustão, as chamas serão extintas.
O resfriamento não é eficiente para a extinção de incêndios em gases e em
líquidos com ponto de combustão abaixo da temperatura da água aplicada.
Os combustíveis que absorvem água podem ser umidificados como medida preventiva à
propagação do incêndio. A absorção da umidade retarda a ignição, pois a água
precisará ser evaporada e uma parte do calor será consumido nessa evaporação.

Extinção por abafamento


Esse tipo de extinção está relacionado a uma mudança de estado físico da água, ou
seja, passa do estado líquido para o estado gasoso (vapor).
A eficiência desse processo é função da forma como a água é aplicada sobre o
combustível. Quando aplicada na forma pulverizada à superfície de contato é muito
maior, o que determina maior velocidade nessa mudança de estado.
Quando o vapor é gerado em quantidade suficiente, a concentração de oxigênio é
gradativamente reduzida o que diminui a intensidade da combustão até extinguí-la.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 23

Os líquidos inflamáveis apresentam combustão apenas na superfície. Assim, o


abafamento através do vapor d’água é mais eficiente quando ocorre em locais
fechados.

Extinção por emulsificação


Não é empregada em líquido que possua alta pressão de vapor devido a pouca
eficiência.
Cuidado especial deve ser tomado quando a água é usada com essa finalidade, pois
aumenta o volume do líquido contido em um recipiente, podendo resultar no
transbordamento.

Extinção por diluição


A diluição pode ser usada com sucesso em incêndios envolvendo líquidos polares
(miscíveis com a água) que permite uma adequada mistura. Para o álcool etílico, teste
em laboratório, mostra que a proporção mínima é de 4 litros de água por litro de álcool.
Entretanto, na ocorrência de incêndio de grande porte, como por exemplo, em tanques
essa proporção aumenta de forma significativa, devido à temperatura das chapas de
aço, podendo chegar a 8 litros de água para cada litro de álcool. A adição de água para
a diluição deve ser usada com controle, pois pode resultar no transbordamento do
recipiente devido a grande quantidade de água necessária a extinção.

ESPUMA

Formada pela mistura da água, do Líquido Gerador de Espuma (LGE) e do ar.


Deve possuir baixa densidade para flutuar sobre os líquidos. Para tal, a solução da água
com o LGE deve incorporar grande quantidade de ar para formar a espuma,
possibilitando a formação de um “colchão” sobre a superfície do líquido, isolando-o do
ar e impedindo a passagem dos vapores por algum tempo após a sua aplicação.
A principal ação extintora é o abafamento. Devido à liberação da solução, atua
também resfriando o recipiente que contém o líquido em chamas.
A espuma não é apropriada para incêndios em gases.
Nos incêndios da classe A, apresenta relativa eficiência, sendo superior ao pó
químico e ao CO2, porém inferior à água.
Como conduz eletricidade, não deve ser utilizada em incêndios da classe C.

As espumas são classificadas em proteínicas e sintéticas, tomando como referência o


LGE.
O LGE proteínico é obtido de proteínas hidrolizadas, de origem animal ou vegetal
Pode ser proteínico regular ou fluorproteínico.
O LGE proteínico foi desenvolvido na década de 30, na Inglaterra e na Alemanha.
Forma sedimentos nos reservatórios o que altera as propriedades.
Vida útil média: 5 anos.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 24

O LGE fluorproteínico foi uma evolução do LGE proteínico, ao qual foi adicionado
tensoativos fluoretados, resultando na maior fluidez da espuma e maior resistência às
temperaturas elevadas. A quantidade de sedimentos é menor, se comparado ao LGE
proteínico. Vida útil média: 5 anos a 10 anos.

Atualmente são usados LGE sintéticos, desenvolvidos na América do Norte, na década


de 60. A espuma tem fluidez elevada e alta velocidade de extinção. São chamados de
Aqueous Forming Film Foam - AFFF
Armazenado nas condições recomendadas pelo fabricante.
Vida útil superior a 10 anos.

LGE tipo AFFF regular: extinção de chamas em líquidos não polares.


Ação extintora relacionada à liberação de uma camada aquosa que se posiciona na
superfície do líquido em combustão.
A espuma tem drenagem rápida (90 a 120 segundos). Concentração mínima na
solução: 3 %.

LGE AFFF tipo polivalente: extinção de chamas em líquidos polares e


não polares. Produz espuma mais consistente com drenagem mais lenta da
solução (300 e 400 segundos). Concentrações mínimas:

3 %: líquidos não polares 6%: líquidos polares

Os líquidos polares são miscíveis com a água. A utilização de LGE regular


resultará na destruição da espuma quando aplicada sobre esses líquidos.
A espuma formada com LGE polivalente, em contato com líquidos polares,
produz uma camada polimérica sobre a qual a espuma pode fluir sem ser
destruída.
Nota: A gasolina com mais que 15% de álcool, tem característica de um líquido polar.

Controle de qualidade do LGE

Os testes são realizados anualmente ou na freqüência estabelecida pelo fabricante para


verificar os parâmetros físico-químicos e o desempenho na extinção de chamas.
O fabricante do LGE estabelece faixas de qualidade para:

. Aparência . Expansão (vezes)


. Densidade (25 ºC) . Drenagem (minutos)
. Índice refração . PH
. Viscosidade (cP) . % de LGE na solução
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 25

Nos testes dos sistemas a qualidade da espuma é verificada são pelos parâmetros:

Drenagem
O tempo para que a espuma drene 25 % da solução é calculado:
peso da proveta com espuma - peso da proveta vazia
= ml
4

P V = P e so p ro v e ta v a zia P C = P e s o p ro v e ta c o m e s p u m a
( 200g ) ( 320g )

25 % do peso = (320 g - 200 g) ÷ 4 = 30 mℓ

Drenagem: 400 segundos


tempo cronometrado para drenar 30 mℓ de solução

Expansão

volume da proveta (1000 ml)


= vezes
peso da proveta com espuma - peso da proveta vazia

Nota:
A densidade da solução é aproximadamente igual a 1, ou seja, o peso é igual ao
volume.

Percentual de LGE
A dosagem de LGE varia conforme os líquidos. Para os derivados do petróleo
(não polares), a dosagem mínima de 3% (97 partes de água + 3 partes de LGE) é
suficiente para a extinção do incêndio.
Para o álcool e outros líquidos polares, a dosagem deve ser informada pelo fabricante
do LGE, sendo no mínimo de 6%.
O percentual de LGE na solução é obtido pelo Índice de refração. Esse Índice é função
da concentração.
Previamente são preparadas soluções de concentrações conhecidas e feita a leitura do
índice de refração para cada uma dessas soluções, como exemplificado a seguir, para o
LGE tipo polivalente:
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 26

% LGE
AFFF/ARC Refração

0 < 1,3330
3 1,3332
4 1,3334
5 1,3336
6 1,3338
7 1,3340
100 1,3510

Refratômetro

Para determinar o percentual de LGE na espuma:


. Coletar uma amostra da solução drenada na proveta, onde foram determinadas
a drenagem e a expansão e colocar no refratômetro e ler o Índice de refração da
luz
. Comparar o Índice de refração com aqueles determinados nas soluções de
concentrações conhecidas e estabelecer o % de LGE.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 27

Armazenagem do LGE

Bombonas e tambores plásticos

- Não deve haver trincas ou


rompimento
- Armazenar em superfície plana, isenta
de irregularidade
- empilhar no máximo 2 bombonas

Tanque

- materiais recomendados:

. aço inox 304 ou 316;


. fibra de vidro:
resina poliéster isoftálica, epóxi ou
vinil éster;
. polietileno de alta densidade.

Para reduzir a superfície do LGE em contato com a atmosfera e minimizar a evaporação


é recomendado que o nível do LGE fique acima da metade do domo do tanque.
A superfície do LGE polivalente deve ser coberta com uma camada de Agente
inibidor, especificado pelo fabricante, com espessura de 5 mm.

Tanque de aço carbono não é recomendado. Se estiver em uso, não deve ser
pintado na parte interna.
Deve permanecer totalmente ocupado com o LGE para minimizar a corrosão.
O óxido de ferro reduz o PH e diminui a vida útil do LGE.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 28

DIÓXIDO DE CARBONO - CO2


Extinção de incêndio em equipamento elétrico energizado e em líquidos
inflamáveis.
Não possui odor e cor, não conduz eletricidade, não deixa resíduo, não é
corrosivo, não produz danos e fornece sua própria pressão para o
funcionamento. Penetra e se espalha em todo recinto.
Armazenado a alta pressão (mmaior que 34 Kgf/cm2, a 21 °C, NFPA 10, item 1.3)
em cilindros de aço, formando 2 fases em equilíbrio (gasosa e líquida).
Pressão de armazenagem 126 kgf/cm2 (1850 psi).
Temperatura critica: 31 ºC, ou seja, acima dessa temperatura não pode ser
liquefeito porv pressão.

Quando despressurizado o líquido se vaporiza e sua rápida expansão abaixa a


temperatura para aproximadamente -78 ºC. Parte do gás se solidifica formando
pequenas partículas, conhecidas como “gelo seco”.

A aplicação do CO2 é feita através de extintores (portáteis e carretas) e instalações


fixas.

. Densidade
O gás carbônico a 0 ºC e 760 mmHg é aproximadamente 1,5 vez mais pesado que o ar.
Essa é uma característica importante por deslocar o ar próximo a superfície do
combustível, reduzindo a disponibilidade de oxigênio, a intensidade da combustão, até
a extinção.

. Toxicidade
Não é tóxico, mas é asfixiante simples. Pode causar inconsciência e morte, quando
lançado através de sistema fixo em locais fechados. Isso ocorre pela redução do
percentual de oxigênio no ar. A visibilidade também é prejudicada nesses ambientes.

. Extinção por abafamento


Um kg de CO2 líquido, a 0 ºC e a pressão atmosférica, libera em torno de 500 ℓ de gás.
Quando lançado sobre um material em combustão, envolve-o e reduz o oxigênio a uma
concentração que não mantém a combustão.
A concentração do gás para a extinção das chamas é função do combustível. O quadro
a seguir informa a concentração volumétrica mínima, necessária à extinção de incêndio
em alguns combustíveis:

acetileno 55 % gasolina 28 %
acetona 26 % hexano 29 %
álcool etílico 36 % metano 25 %
álcool metílico 26 % monóxido de carbono 53 %
éter etílico 38 % querosene 28 %
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 29

O calculo do volume de CO2 no estado gasoso a partir do CO2 no estado líquido é feito
usando a equação PV = nRt , como por exemplo:

Qual o volume de gás que é liberado a 27 ºC, a pressão 1 atm, a partir de


4 Kg de CO2 no estado líquido ?

P =1 atm n = massa do gás ÷ peso molecular do gás (44 g)


V=?
R = 0,082 atm x litros ÷ ºC T = 273 + 27 = 300 K

V = [(4000 ÷ 44) g x (0,082 atm x litros ÷ ºC) ] x 300 K] ÷ 1 atm


= 2236 litros CO2

PÓ QUÍMICO

Composto de finíssimas partículas que recebem tratamento específico para repelir a


água, resistir à vibração e ter elevada fluidez, para se deslocar através de mangueiras e
tubulações, quando expelido sob pressão.

. Toxicidade
Os ingredientes utilizados no pó químico não são tóxicos. Entretanto a descarga de
grande volume, pode causar dificuldade respiratória temporária e dificultar a
visibilidade.

. Tamanho da Partícula
Variam em geral de 10 a 75 micrômetros. A eficiência do pó químico é função do
tamanho das partículas. Exige portanto, um cuidadoso controle para que essas não
excedam ou fiquem aquém do tamanho ideal.
As partículas menores são as responsáveis pela extinção do incêndio (mais reativas). As
maiores servem de veículos para as menores.

. Propriedades Extintoras
Por muitos anos acreditou-se que o pó químico agia por abafamento, contudo as
pesquisas revelaram que a elevada eficiência desse agente extintor, está relacionada à
interferência na reação em cadeia, sendo secundária a ação de abafamento.

. Proteção contra o calor


A descarga do pó químico produz uma concentração de partículas entre as chamas e o
operador, que o protege do calor irradiado.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 30

. Tipos
Bicarbonato de sódio (NaHCO3) - Cor de identificação: branca.
Extinção de incêndio em todos os líquidos e gases (C
Classe B) e também em
equipamentos elétricos energizados (CClasse C).

Particularmente eficiente para a extinção de chamas em óleos e gorduras, pois em


contato com esses produtos forma um tipo de sabão (saponificação) sobre a superfície,
minimizando a possibilidade de reignição.
Não é eficiente para a extinção de chamas em combustíveis sólidos (C
Classe A).

Bicarbonato de potássio (KHCO3) - Cor de identificação: Púrpura.


Extinção de incêndios das Classes B e C, apresentando a mesma restrição em relação
aos incêndios da Classe A.
Mais eficiente que o bicarbonato de sódio na extinção de chamas nos incêndios da
Classe B.

Fosfato de mono amônia (NH4 H PO4) - Cor de identificação: Amarela.


Conhecido como pó ABC ou universal, pela atuação nas Classes A, B e C.
Mais eficiente que o bicarbonato de sódio na extinção de chamas nos incêndios da
Classe B.
Em incêndio Classe A, se decompõe formando um depósito sobre o material em
combustão, extinguindo as chamas por abafamento.
Não atua em profundidade.
O contato com o cloro pode resultar em produto explosivo.

Os Sais de potássio e o fosfato de mono amônia são ácidos, podendo corroer o aço,
alumínio e ferro fundido. O bicarbonato de sódio é básico, podendo ser corrosivo
para o alumínio e suas ligas, bronze e titânio. A corrosão não acontecerá se houver
a rápida remoção do pó.

. Uso e limitações

O pó químico não é condutor de energia elétrica. Pode ser usado em equipamento


elétrico energizado. Entretanto em circuitos delicados como os computadores, a
utilização não é recomendada, pois fica retido nos componentes, dificultando a limpeza.

Devido à rapidez com que o pó químico extingue as chamas, pode ser usado na
extinção de incêndios da Classe A. Entretanto, por não atuar em profundidade, a
extinção deve ser complementada com a aplicação da água.
Armazenado de forma adequada na embalagem original ou nos extintores, apresenta
vida útil superior a cinco anos.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 31

Fatores que mais influenciam a perda de qualidade do pó químico:


umidade, temperatura e perda das partículas menores.

Umidade: determina aglutinação e a compactação do pó químico de todos os


tipos. Reduz a fluidez e eficiência e possibilita o entupimento dos condutos.
A exposição do pó químico ao ambiente deve ser mínima,
principalmente em locais com umidade relativa do ar superior a 60%.

Temperatura:
. Bicarbonatos - temperatura superior a 50 ºC, transforma
gradativamente em carbonato, resultando na redução da
eficiência na extinção.

. Fosfato de mono amônia - mais estável. A decomposição térmica


ocorre a partir de 190 ºC.

Perda das partículas menores: reduz o poder de extinção, devido a menor


reatividade. Por esse motivo o reaproveitamento do pó químico não é
recomendado, pois durante o manuseio poderá haver a perda de
quantidade significativa das partículas finas.

O Pó químico é o agente mais eficiente na extinção de incêndio em


líquidos em movimento, gases e líquidos sob pressão.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 32

AGENTES EXTINTORES LIMPOS: GASES HALOGENADOS E INERTES

Durante muitos anos o HALON 1301 (bromo trifluor metano) e o 1211


(bromo cloro difluor metano) foram usados como agentes extintores de elevada
eficiência, especialmente para a proteção de bens de elevado valor (CPD, fitoteca, sala
de controle, biblioteca, museu, telecomunicação e acervo de documentos). São gases
que não danificam os materiais (não molham e não deixam resíduos).
Desde a década de 70, as pesquisas científicas relatam que alguns gases que contém
cloro, fluor, bromo e iodo, quando liberados na atmosfera são capazes de degradar a
camada de ozônio. Em 1987 as conseqüências dessa degradação foram discutidas em
Montreal por representantes de países da Comunidade Européia e Estados Unidos,
ocasião em que foi firmado um documento, conhecido como Protocolo de Montreal,
onde foram estabelecidas metas de curto e médio prazo para a restrição ao uso e
fabricação desses gases.
Em 1994 em outra reunião, foi acertado que o uso de alguns gases halogenados
(especialmente o HALON 1301 e 1211) seria descontinuado em diversos países e
recomendando que a utilização fosse restrita aos locais considerados essenciais, como
na aviação civil e militar. Isso resultou em profundos estudos para encontrar produtos
alternativos com eficiência similar no combate as chamas e que atendessem as
restrições impostas por normas internacionais.

Esses agentes não devem ser usados para a extinção de chamas em:
NFPA 2001, item 1-4.2.5
. Nitrato de celulose;
. Metais reativos: lítio, sódio, potássio, magnésio, titânio, urânio...;
. Produtos que possam gerar calor por auto-decomposição térmica:
peróxidos orgânicos e hidrazina.

Características fundamentais:

- não causar dano a camada de ozônio e não contribuir para o efeito estufa;
ODP Ozone Depleting Potential: zero ou próximo a zero
- eficientes na extinção;
- não danificar equipamentos, circuitos delicados e bens de elevado valor;
- não ser corrosivo;
- não deixar resíduos;
- não ser tóxico nem asfixiante nas concentrações necessárias para a extinção
NOAEL: No Observable adverse Effect Level
Concentração mais elevada sem identificação de efeitos adversos
para o ser humano (tóxico ou fisiológico)
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 33

Os agentes limpos mais usados são:

. HALOGENADOS:
. heptafluor propano: HFC 227ea, (nomes comercial: FM 200, FE 227)

. trifluormetano: HFC 23 (nome comercial: FE 13)

. hexafluorpropano: HFC 236fa (nome comercial: FE 36)

. INERTES:

. Argonite

. Inergen

Gases halogenados

FM 200 FE 227 HFC 227ea heptafluopropano

Agente químico (atua na reação em cadeia), o que resulta em elevada


eficiência na extinção das chamas. Usado em sistemas de inundação total.
Considerado o principal substituto para o HALON 1301.
Nos incêndios da Classe A e C, em ambientes fechados a concentração volumétrica de
7% é capaz de extinguir as chamas em 10 segundos.
Em incêndios da Classe B, em ambientes fechados, a concentração é função do líquido
ou do gás, situando-se em geral entre 8 e 10 %.
Concentração sem efeito adverso: NOAEL: 9 %
Para concentrações maiores as pessoas devem desocupar o local antes do disparo do
gás.
Ozone Depleting Potential (ODP): zero
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 34

Acondicionado em cilindro como gás liquefeito


sob pressão de nitrogênio.

Pressão de operação:
. 24,8 Kgf/cm2 (360 psig) e
. 41,3 Kgf/cm2 (600 psig)

FE 13 HFC 23 trifluormetano

Agente químico, usado em sistemas de inundação total como substituto do halon


1301.
Tempo de extinção: 10 segundos.
Informações da DuPont:
. Concentração de extinção: 18%
. Concentração sem efeito adverso - NOAEL (sensibilização cardíaca): 30 %
. Toxicidade aguda (ratos expostos por 4 horas): > 65 % (v)
. Acondicionado no estado gasoso, em cilindros a 126 Kgf/cm2 (alta pressão).
Ozone Depleting Potential (ODP): zero

Usado preferencialmente em locais com pé direito elevado ou


quando há grande distância a ser percorrida pelo gás em tubulações.
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 35

EXTINTORES: substitutos do halon 1211.

FE 36 HFC 236fa hexafluorpropano

Informações da DuPont:

. Ozone Depleting Potential (ODP): zero


. Concentração sem efeito adverso - NOAEL (sensibilização cardíaca): 10 %

Halotron HCFC 123 2,2 dicloro 1,1,1


trifluoretano

Informações da Kidde Brasil:


. Ozone Depleting Potential (ODP): 0,01
. Concentração sem efeito adverso - NOAEL (sensibilização cardíaca): 1 %
. Proporção máxima em ambiente fechado: 1 Kg por 1,8 m3
Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 36

Gases Inertes

INERGEN e ARGONITE

Inergen (IG 541): mistura de nitrogênio, argônio e CO2.

gás %

nitrogênio 52
argônio 40
CO2 8

A presença do CO2 é justificada pelo fabricante como um “acelerador“da respiração


para minimizar os efeitos da baixa concentração de oxigênio.

Argonite (IG 55): mistura de nitrogênio (50%) e argônio (50 %).

Acondicionado no estado gasoso, em cilindros, a 126 Kgf/cm2 (alta pressão).

Atuam por abafamento

Em sistemas de inundação total, quando a concentração necessária do


gás inerte for superior a 43 % em volume, não deve ser permitida a
permanência de pessoas no ambiente durante ou após a liberação
desses gases.
Essa concentração do gás inerte resultará na disponibilidade oxigênio
inferior a 12 % (pressão parcial menor que 95 mm Hg), o que
caracteriza atmosfera Imediatamente Perigosa para a Vida e Saúde
(IPVS).

Informações sobre os “agentes extintores limpos”: NFPA 2001.


Proteção contra Incêndio - Conceitos Básicos 37

BIBLIOGRAFIA

. ABNT - NBR 13860 / 1997: Glossário de termos relacionados


com a segurança contra incêndio
- NBR 14432 / 2001: Exigência de resistência ao fogo
de elementos construtivos nas edificações

. SECCO, Orlando - Manual de Prevenção e Combate de Incêndio

. HAWTHORNE, Ed - Petroleum Liquids Fire and Emergency Control,


USA, Editora Prentice, 1987

. JORDÃO, Dácio Miranda - Manual de Instalações elétricas em Indústrias


Químicas, Petroquímicas e de Petróleo
Editora. Qualitymark, 1997, 3ª edição

. NATIONAL FIRE CODE - NFC - NFPA 10: Standard for portable fire extinguishers

. Dupont agentes extintores www.dupont.com/fire

. Kidde Brasil www.kidde.com.br

. Corpo de Bombeiros: São Paulo www.polmil.sp.gov.br