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INTRODUCÃO AOS ESTUDOS DE FILOLOGIA CLÁSSICA

COMO SE VER A SER UM FILÓLOGO?

Nietzsche dissocia imediatamente a formação aos estudos gregos e latinos de questões


de programas de programa, de problemas de conhecimento ou, ainda, de método. Sua introdução
é um convite à reflexão. Nem o gosto de ensinar, nem a alegria tomada da antiguidade, nem a
erudição são suficientes para fazer um bom filólogo. Esse último não será apenas um pedagogo
que sabe ensinar as línguas antigas, nem um homem dotado de uma feliz inclinação individual,
de uma sorte de instinto pela Antiguidade, nem apenas um cientista, um erudito. É necessário
que a pedagogia, o amor aos antigos e à ciência sejam subordinados a uma reflexão sobre a
essência da cultura antiga. Em vista disso que se chama de “preparação filosófica à filologia”, é
necessário, com efeito, se ter uma ideia a mais justa possível de nossa diferença em relação à
Antiguidade, saber exatamente “o que é a antiguidade para o homem moderno”, e por isso não
apenas “ser um homem moderno”, nem por isso ser tumultualmente varrido pelo presente. A
civilização antiga foi fundada sobre um equilíbrio, sobre uma harmonia instintiva entre o saber,
a política, a religião, a arte. Ao contrário, “o homem moderno é despedaçado”, cindido entre o
individualismo e a hipertrofia do Estado, enquanto que a arte, a religião, a ciência se desenvolve
em esferas separadas que tendem a se tornar tirânica. O bom filólogo será, então, um moderno
crítico da modernidade. A crítica da modernidade permite perceber finalmente a falsidade
completa dos julgamentos gastos sobre os gregos e las razões dessa falsidade.
Portanto, nesse curso, Nietzsche enumera ainda ingenuamente os erros por
interpolações, distorções, omissões, negligencias diversas. Apenas quatro anos mais tarde, com
efeito, nos fragmentos de uma quinta consideração extemporânea, que deixa inacabado e iria
se intitular “Nós filólogos’, que Nietzsche detalha as razões da apreciação amiúde errônea da
Grécia para a filologia moderna. O erro está relacionado à modernidade tomada pelas ideias da
Grécia tardia, decadente, alexandrina, romanizada e cristianizada. É principalmente ao lado do
“alexandrinismo” e do “cristianismo” que Nietzsche situa a incapacidade de compreender a
Grécia primitiva de Homero, de Píndaro, de Ésquilo e a Grécia Clássica, de Fídias, Péricles, e
que não é a de Platão e de Sócrates, os iniciadores da decadência. O “alexandrinismo” designa,
de fato, a cultura racionalista e otimista derivada do socratismo, que crê no progresso, na ciência
como ideal supremo e na felicidade para todos. O cristianismo significa, para Nietzsche, o
“platonismo” entendido como a extirpação dos instintos, a “castração moral”. O bom filólogo,
em suma, é aquele que soube ver o niilismo oculto na cultura moderna e que pode se valer do
modelo da cultura clássica para terminar de nos libertar dele. Estando convicto doravante de que
não há ainda “bons filólogos”, nesse sentido, Nietzsche não poderá mais ensinar filologia.

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Doravante, tudo para ele será filosofia, seguindo, portanto, com grande fidelidade seu amor de
juventude, o ideal de “probidade filológica” como tarefa hermenêutica, como leitura que
distingue sem cessar o texto e interpretação, o signo e o sintoma, como tarefa infinita de
decifração dos sintomas nos signos: “o método crítico hermenêutico é algo de incontornável”.

Michel Haar

Descoberta da Antiguidade com os italianos


Compreensão da Antiguidade, penetração plena de amor
O desejo de conservar uma existência clássica. Partir de sua superioridade artística:
como deve ser o povo para possuir tais gênios?
A compreensão histórica consiste exclusivamente em interpretar fatos dados a partir de
pressupostos filosóficos. O nível de pressuposição determina o valor da compreensão histórica.
Porque um fato é alguma coisa de determinável, algo que não é nunca totalmente reprodutível.
Existem apenas degraus de compreensão histórica.
Nós agarramos a história e encontramos nela uma coleção de exemplos pelo seu
conhecimento. Quanto mais o homem pensa por si mesmo, mais conhece as coisas do passado.
A pressuposição filosófica da filologia clássica é o classicismo da Antiguidade.
Queremos compreender o fenômeno mais alto entre todos e nos tornarmos um com ele. Penetrar
nele é a nossa tarefa.
Os dons múltiplos são uma suposição: todos querem conhecer alguma coisa e buscar
um domínio que lhe convém
Missão do professor. Porque familiarizarmos os jovens com a Antiguidade?
Sou contra a implementação de uma vontade egoísta de conhecimento. É acima de tudo
necessário a alegria relativa ao assunto e é a tarefa do professor compartilhar com os outros
1. Dificuldade de contemplação estética: a maioria das pessoas são insensíveis à
Antiguidade
2. Sua pressuposição é um instinto de beleza extremamente móvel

A relação dos eruditos com os grandes poetas tem algo de ridículo.

§6
GENESE E FORMAÇÃO DO FILÓLOGO CLÁSSICO

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Como se vem a ser filólogo?
Partir do modelo dos grandes filólogos.
Não deve haver uma necessidade correspondente à cada ofício, e a cada necessidade
uma propensão? É necessário aos filólogos:
1. Inclinação pedagógica
2. A alegria em relação à Antiguidade
3. A avidez pura do saber

É necessário todos os três fundidos no ser do professor superior. Aquele que tem apenas
uma dessas inclinações por exemplo, uma propensão pedagógica, não compreenderá a
disposição para a Antiguidade Clássica. Ele se tornará, em geral, filólogo ou linguista. Aquele
que possui a segunda inclinação, deverá ter um sentimento muito profundo da barbárie de tudo
o que não é Heleno e esse último aparece raramente de maneira precoce. O terceiro é muito
frequente. Ele busca aliviar sua sede de conhecimento não importa onde: aqui falta, portanto, a
disposição docente e o conhecimento da Antiguidade clássica. É historiador ou linguista.
Hoje, como essas três inclinações são encorajadas dentro das escolas? Na inclinação
pedagógica de alguns estabelecimentos em que os mais velhos ensinam aos mais jovens. Caso
contrário, não haverá. Em geral, é uma inclinação que não se mostra tão cedo. É necessário estar
já suficientemente formado. É mesmo uma experimentação muito perigosa quando as
inclinações pedagógicas são despertadas muito cedo! (os estudantes podem ser professores?) –
Além disso, na maioria das vezes, nenhum tempo é reservado aos exercícios, nem mais na
universidade. Um curso de pedagogia não serve para muita coisa. O principal é a reflexão
pessoal, acima de tudo a memória fiel de sua própria formação que é para cada um a mais
instrutiva. É improvável que muitos venham para filologia por desejo pedagógico. A maior parte
do tempo, o que domina é uma forte repulsão pelo ofício do pedagogo.
A alegria tirada da Antiguidade. Conceitos equivocados da cultura clássica nos liceus.
Como se a possuíssemos ou como se a pudéssemos dar. Ela só é alcançada muito raramente, por
homens mais velhos.
Nos perguntamos sobre Homero (comparar, por exemplo, à Walter Scott).
A avidez pelo saber e pela investigação pode ser suscitado muito precocemente.
(História insensata de De Laspé que Diesterweg admira). Essa avidez busca um domínio e
aproveita justamente da suscetibilidade da juventude. É bastante contingente que as pessoas
encontrem satisfação de sua sede de saber na Antiguidade. Eles não precisam começar do zero.
Denota algum tipo de inercia e falta de iniciativa.
Muitos vêm de maneira puramente negativa à filologia, como os filhos das classes
distintas à jurisprudência. Muitos são influenciados pelos mais velhos.

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A gênese dos filólogos no geral, raramente é gloriosa: com muito, se vê claramente o
desejo de saber quer entrar em ação, o que significa que tendem a se tornar eruditos. Esses
eruditos não são na maioria das vezes absolutamente pedagogos, pelo contrário, tem
repugnância por isso e não podem ser considerados filólogos clássicos. Pois não tem qualquer
senso estético.
Isoladamente, nenhuma dessas inclinações se justifica.
A erudição é desperta e encorajada nos liceus — por esses eruditos. Pensa-se na
explicação do texto. Quanto ao conhecimento da língua: se exige exercícios de estilo e elocução;
exercícios que fazem sentido na idade madura do homem: quando já tem um caráter firme;
exercícios que pressupõem também um senso estético. Pensemos nos efeitos danosos do latim
sobre o estilo alemão. Escola preparatória para essa universalidade de estilos dos jornalistas:
com a frase “bela em si”. A língua deve ser portanto só um meio para a leitura: enquanto que,
já em sentido erudito, ela é transformada com frequência em fim em si.
Nossos liceus tendem à formar eruditos à causa de seus ensinamentos eruditos.
Comparemos com a educação da Grecia: e portanto como homens tais como Platão e Aristóteles
foram possíveis. Esses eruditos não tem qualquer condição de defender a antiguidade clássica
na escola. Eles se refugiam atrás do valor formal do latim. Nesse caso, os matemáticos são de
muito mais valor para o pensamento.
O filólogo, enquanto é apenas um erudito, não é nada além de um historiador
especialista. Para ser um pedagogo no sentido elevado do termo ele precisa conceber o que é
clássico. Mas como ele não pode convencer a juventude da importância do classicismo, ele
precisa buscar um outro campo de exercícios para sua vocação de professor. Ele precisa ser
professor ideal para as idades mais capazes: professor e difusor de materiais da cultura, o
intermediário entre os grandes gênios e os novos gênios por virem, entre o grande passado e o
futuro.
Ele possui uma capacidade enorme de reproduzir, é um virtuose genial diante do gênio
produtivo. — Essa é a inclinação durante toda sua vida. Sua tarefa consiste, em primeiro lugar,
em ser um bom professor de liceu.
Para tanto, ele precisa se aproximar da Antiguidade de três pontos de vista:
1. Ele precisa ser interiormente receptiva à ela
2. Ele precisa se educar para a Antiguidade, para tornar sua educação profícua, por sua
vez, aos outros
3. Ele precisa tomar parte da Antiguidade como erudito para familiarizar a juventude
com o espírito científico.

Como homem, pedagogo, erudito, ele precisa se aproximar da Antiguidade. O mais


importante (e o mais difícil) consiste em penetrar a Antiguidade com amor e sentir nossa

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diferença em relação a ela. Somente assim então é que podemos ser educados para a Antiguidade
(a criança deve amar o pai, mas esse último deve se elevar) e só assim deverá então se tornar
um erudito verdadeiramente produtivo (é do amor apenas que as visões mais profundas nascem).
O mais importante meio de promover a receptividade para a Antiguidade, é ser um
homem moderno que esteja realmente em contato com os grandes modernos. É particularmente
importante se familiarizar com Winckelmann, Lessing, Schiller, Goethe, para que de alguma
forma sintamos com eles e a partir deles o que é a Antiguidade para o homem moderno.
Precisamos suscitar o desejo, o ardor. Em seguida, se possível, uma prática das artes para sentir
os pontos de diferença. Em terceiro lugar, a contemplação da arte antiga e leituras apaixonadas.
Estas devem ser convenientemente dirigidas. Evitar os escritos que os modernos são, de uma
maneira ou de outra, superiores (por exemplos, os escritos filosóficos de Cícero). Ao contrário,
favorecer os escritos propriamente clássicos que produzam uma impressão exuberante: a
tragédia, os historiadores (Tácito, Saluste), os discursos de Cícero, Homero, as guerras médicas.
Não são sobretudo os conhecimentos estéticos que importam, mas apenas de familiarizar
progressivamente com esses textos e d e lhes tomar afeição pelos textos e tomar afeto por eles.
É preciso ter a resolução de não frequentar apenas os maiores; a leitura com frequência (a
influência de Plutarco sobre o ultimo século). A reflexão do filólogo se desenvolve pela
comparação: no exemplo isolado, nada pode ser reproduzido; uma imitação só é possível no
grande estilo. Nós nos aproximamos com mais rapidez dos Romanos. Aqui encontramos a
grandeza de um impulso desinteressado ao qual cada um se sacrifica: então o patético e a
gravidade (o sério). Por outro lado, os Gregos tem um idealismo muito mais elevado, ao qual
Platão, em particular, conduz. Tò kalón (a beleza) como medida da vida nunca mais foi
alcançada.
Assim que ele se torna próximo da Antiguidade, ele experimenta o impulso pedagógico:
ele terá o desejo ardente se ser um verdadeiro erudito. Nesse estado, ele está maduro para os
estudos filológicos. Ele tentará então se orientar primeiramente pelo todo. É experimentar o que
significa verdadeiramente se apropriar dos antigos. É muito importante experimentar o que
significa realmente se apropriar dos antigos. Nesse momento, tudo depende do bom método e
da orientação correta. Mas, sobretudo, de uma clarificação das instituições fundamentais dos
estudantes.

§7
A PREPARAÇÃO FILOSÓFICA PARA A FILOLOGIA

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Foi proposto repetidamente que cada futuro especialista estude primeiramente a
filosofia durante um ano para que ele não se pareça com um operário de usina que fabrica
parafusos do começo ao fim do ano. É necessário que o filólogo clássico busque apoio constante
e firmemente da filosofia para que suas reinvindicações em favor do classicismo da Antiguidade
frente ao mundo moderno não tenham ares de uma pretensão ridícula. Pois, assim se estabelece
um julgamento. Essas são questões exclusivamente de princípios. Os que creem que houve um
progresso incrível, é preciso poder responder; é necessário se perguntar seriamente no final das
contas acerca da argumentação do saber, se quando os instintos políticos, religiosos e artísticos
murcham e perecem, se há aqui um progresso. Ou ainda se a importância totalmente devastadora
da esfera religiosa, desde o início do cristianismo, que negou a cultura e o Estado, é um
progresso. É preciso opor à desmesura desse desenvolvimento isolado o modelo da époque de
Ésquilo, a grande harmonia do ser: uma piedade fundamental, a concepção profunda do mundo,
a ousadia do ponto de vista filosófico, os guerreiros, os políticos e o resto formando um todo
harmônico.
Depois tocar na questão do que é o pagão e do que é o cristão. Opor-lhes que não
há verdadeira separação: a questão primordial é a do pessimismo ou do otimismo no que
diz respeito à existência. No cristianismo, assim como no paganismo, há a atitude dos mais
graves, por exemplo, os Mistérios, pano de fundo da tragédia, Empédocles, todo o século
dezesseis: enquanto que na secularização da Igreja e suas pretensões políticas há um
elemento pagão, isto é, otimista. Desconfiemos da expressão: “serenidade grega”! Passando à
arte: mostrar no exemplo de Schiller e de Goethe que nossa arte tem a forma de uma
experimentação contínua. A beleza parece ser unicamente grega: o Latin (a arte grega traduzida
em estilo romano) é mais dotado para beleza do que o Alemão, mas desde o pavoroso
nivelamento das maneiras, ele não alcança mais que aprovação. O alemão possui a força e a
profundidade da sensação, mas um sentimento fraco da beleza. Observemos, por exemplo, o
estilo alemão: é puro naturalismo comparado à regularidade grega. A arte grega é a única que
superou as condições nacionais: aqui acessamos primeiro o que é humano, isto é, não a
humanidade comum, mas a humanidade mais alta.
Unidade da arte grega e da religião: enquanto que os modernos os separaram. Unidade
e estreita ligação da arte antiga com o Estado, por exemplo, na tragédia, o que é agora tarefa
muito estranha. O homem moderno é despedaçado. Quando dizemos que só o homem moderno
se emancipou do Estado e é indivíduo, é uma proposição da época cosmopolita das Luzes.
Portanto, é certo que entre os Gregos era possível um desenvolvimento completamente diferente
da subjetividade em relação a nós, com nossa moda de educação uniformizante e absolutamente
não original. Ou a livre subjetividade grega foi assim colocada sobre o solo natural de um
desenvolvimento nativo: o que é excepcional entre nós, constitui aqui a mais bela manifestação
da regra.

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Nas cidades gregas, os escravos exigiam ser tratados de forma justa. Entre nós,
provocam crises sociais. As “internacionalistas” nos mostram a quais grandes males nosso
Estado e nossa sociedade estão sujeitos. Alguns fatos aflitivos estão na natureza das coisas. 
As mulheres da Grécia e sua posição aparentemente indigna. Todas as coisas devem ser
observadas, mas sem excessiva moleza e sem preconceito inocente e de modo mais belo
possível. É importante antes de tudo não compreender falsamente o conceito de
humanidade: ela não tem nada a ver com os “direitos fundamentais”. É preciso sempre
admitir como princípio que o homem ideal, que ele possua um conjunto de talentos
elevados e um equilíbrio de instintos: profundo, doce, artista, politico, belo, nobre na
forma, que um tal homem é algo de muito raro. Qual figura devemos ter diante de nossos
próprios olhos da Atenas de Sófocles? Com nosso verniz latino da cultura, nosso
virtuosismo unilateral e nos outros aspectos atrofiados.
Tudo o que vemos ao nosso redor e o que somos impõe a comparação, porque é
necessário que o filólogo tenha espírito observador. Ele deve se educar nessa comparação. Por
isso ele não se tornará ainda um grego: mas ele porá em prática o mais elevado conteúdo cultural.
Ele também não mais se importará também com o tumulto do presente.
Na comparação com a Antiguidade, ele há de reconhecer antes de tudo que os fatos
perfeitamente bem conhecidos merecem ser explicados: eis aqui a verdadeira característica
do filosofo. Por isso nos temos o direito de começar por uma concepção filosófica da
Antiguidade. É somente quando o filólogo justifica seu instinto de classicismo com razões, que
lhe é permitido entrar nos fatos isolados sem ter de temer perder o fio. É precisamente nisso que
essa ciência é preciosa e se pode facilmente ficar prisioneiro dos detalhes: considerando que o
espírito filosófico abrangente recebe do mais pequeno fato isolado, mesmo a posteriori, luz por
toda parte
O filólogo deve assim proceder, acima de tudo na Universidade, considerando as coisas
de maneira séria e ampla para si mesmo e para os que o rodeiam. Por isso é preciso estudo de
filosofia, por uma necessidade interior. Aqui, a associação com Platão e Kant lhe será muito
útil. Ele precisa primeiramente ser convencido pelo idealismo e corrigir sua instituição inocente
da realidade: quando adquirir essa maneira fundamental de ver, ele terá a coragem que requer
as grandes concepções e não terá medo de uma aparência de paradoxo: o senso comum não mais
se lhe imporá. Ele terá então a coragem de buscar seu caminho sozinho.

§8
A PREPARAÇÃO À HERMENÊUTICA E À CRÍTICA

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De uma maneira muito geral: o método para compreender e para julgar alguma coisa
faz parte da tradição. Então, 1. Estabelecimento da tradição e 2. Compreensão e apreciação.
Vemos aqui que os dois métodos são um no nível mais alto de generalidade: distinguem-se
apenas num nível inferior. Um fenômeno é primeiro identificado depois explicado, isto é, o fato
isolado se insere nos títulos, este é o procedimento propriamente científico.
Uma vez que a transmissão consiste habitualmente na escrita, então precisamos
aprender a ler novamente: o que desaprendemos em razão da hegemonia da coisa impressa.
Nisso, é essencial reconhecer que para a literatura antiga, a leitura é um substituto ou uma
memória. As tragédias, por exemplo, não são dramas destinados à leitura. Quantos esforços para
não se considerar Homero como um produto literário, como Wolf o fez pela primeira vez!
Parece a princípio fácil de compreender um autor ou um fato da tradição, mas, com essa
enorme distância e a diferença de nacionalidade, é na realidade algo de muito difícil. Não viemos
do mesmo elemento que estamos nos referindo aqui. Devemos, então, nos aproximar por meio
de analogias. Nessa medida, nossa compreensão da Antiguidade é uma forma constante e pode
ser inconsciente de estabelecer um paralelo. Isso se aplica a todo leitor habitual, ainda mais
aquelas obras antigas em que tudo é estranho para nós: palavra, acento, estilística, caráter do
autor, da época, matéria tratada. Aqui é impossível entender tudo desde o começo, fazemos
pouco a pouco. De outro modo, é preciso se perguntar se nós possuímos um saber claro de quem
somos nós mesmos comparados à Antiguidade ou se não há em nós traços da tradição. Essa
constitui a tarefa da critica inferior. Todo o resto cai sob o conceito de hermenêutica, a exceção
das questões supremas da crítica superior, isto é, do julgamento sobre o fenômeno antigo de um
ponto de vista supratemporal e supraespacial: de sorte que a helenidade, por exemplo, não seja
considerada como uma transmissão de leis eternamente válidas que são alteradas aqui ou lá. O
julgamento estético faz parte disso: e muitas vezes ligado a ela a questão de saber o que é
autêntico e o que não é.
Assim, a crítica concerne à transmissão.
A hermenêutica é transmitida
No entanto é muito importante que o jovem filólogo se habitue imediatamente a ambos
para um método rigoroso. Os maus hábitos dificilmente se emenda depois disso. Os livros mais
eruditos semeiam apenas confusão e são privados de utilidade porque falta essa base segura.
Tem-se aqui algo de ético. O instinto de verdade se satisfaz só nas operações rigorosamente
lógicas. O filólogo dotado de caráter possui aqui exigências mais estritas. É possível que seus
desejos estéticos e éticos sejam aqui inimigos um dos outros. A ciência não tem nada a ver com
prazer, a exceção do prazer vindo da rigorosa verdade. Mas a estética não deve ser considerada
em geral como puro prazer. Isso é diletantismo. Mas, acima de tudo deve se elevar ao mais alto
ideal: em que a verdade, por sua vez, se inclui.

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Até que ponto a transmissão condiciona a crítica? 1. Por exemplo, no que diz respeito a
Homero, consignação por escrito segundo uma memória variável, segundo vários rapsodos.
Transmissão para os atores com relação aos trágicos; 3. Para os eruditos, no caso de Homero;
para os poetas imitadores e aperfeiçoadores, por exemplo, o Prometeu de Ésquilo. Por revisões
diversas que que subsistem umas ao lado das outras. 6. Para a falha de memória nas citações; 7.
Para falsas inscrições, no sentido dos panegíricos; 8. Das frases diversas dos cuidados tomados
à escrita,

§17
SOBRE A LEITURA DOS AUTORES GREGOS E ROMANOS

Importância do hábito nos liceus: o habito da leitura privada, a significação da leitura


cursiva (sem nunca esquecer, com efeito, que nós não temos de educar os filólogos, enquanto
que formar o erudito, e não o homem culto, é exatamente o que visa o liceu. Em seguida, a
apreciação diferente do latim e do grego  o latim domina no que concerne ao número de horas,
mas de um outro lado exige exercícios de estilo latim, etc. Recentemente, exigimos que o grego
seja pelo menos colocado na mesma posição. E. von Hartmann exige mesmo uma subordinação
significativa do latim. Ele restringe os conhecimentos em latim à capacidade de compreender
facilmente os documentos históricos. Certamente do ponto de vista históricos os liceus se
desenvolvem a partir das escolas latinas. No que concerne à educação formal suficiente de uma
língua; podemos escolher. No que trata da missão cultural humanista se orienta já pelos
romanos: as obras da Grécia são sempre mais inacessíveis e mais dignas de assombro, a dos
romanos é sempre muito superficial, muito insípida e artificial. Justamente o que é romano, a
doutrina do direito, que é inutilizável para os estudantes. Aqui nós temos uma consequência
séria do ponto de vista educativo que não tem nada a ver com estudos especializados: ninguém
vai ensinar sânscrito na escola. Portanto, em algum momento vai acessar à universidade de
maneira muito menos filológica. Agora, isso é ainda mais fácil
2. Mas, é importante considerar que a leitura no liceu ocorre a maior parte do tempo em
um estado de imaturidade espiritual. Imaginamos erradamente que conhecemos algo unicamente
porque aprendemos no liceu. Com relação à leitura, é preciso que cada estudante de filologia
comece pelo início. É preciso então que uma norma intervenha na escolha das leituras. Como é
natural, todo estudante deve primeiro aprofundar o domínio em que tem descoberto o elemento
clássico. Ele precisa que a leitura seja uma conquista gradual. As fórmulas mais frequentes:

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partir de Homero, com um pano de fundo sentimental: pensemos em Schiller  “nós sentimos
o natural, os Antigos sentiam naturalmente”; estudar a vivacidade sensível, com o Laocoonte de
Lessing: depois, a composição (“padrões que retardam a leitura”, sobre “o épico e o trágico”,
cf. Correspondencias de Goethe e Schiller, sobre o brilho das cores e a maneira de tornar
naturais as imagens homéricas da Sicília de Goethe nas Viagens atialianas). O filólogo
sentimental artista irá depois frequentar os poemas líricos e compreender como clássica a força
objetiva do poeta erótico Ibycus, e dos poetas Pindaro e Simonide;

CONCLUSÃO

O domínio das ciências que são possíveis aqui é imenso. De fato, nada nessa matéria é
muito modesto que não se possa convidar à comparações importantes. Pouco a pouco se
compreende que vale para um grande povo de gênio como para um homem de gênio. Mesmo as
menores expressões da vida ainda carregam o selo do gênio. Aqui se aplica sempre a máxima:
“si duo faciunt idem, non est idem (se duas pessoas fazem a mesma coisa, o resultado não é
idêntico). Podemos continuar essa comparação: os gregos são, como os gênios, simples: pois
são mestres imortais. Suas instituições, suas criações, carregam a impressão da simplicidade e
por isso, muitas vezes, nos maravilhamos que esses sejam tão únicos. E são ao mesmo tempo,
para a nossa surpresa, tão profundos quanto simples. Mas raramente se traduziu as
profundezas de sua sabedoria e de seus conhecimentos em palavras: entre os grandes
homens do conceito, Aristóteles, e os costume e artes dos Helenos há ainda um abismo
imenso, de modo que estes nos parecem planos em comparação à dimensão impenetrável
do instinto grego. Uma das maiores qualidades do Helenos é que eles não puderam transformar
em reflexão o que eles tinham de melhor. Isso significa que eles são ingênuos: nessa palavra
estão unidas a simplicidade e a profundidade. Há neles mesmos algo de uma obra de arte em si.
O mundo pode ser muito sombrio: basta que de repente uma parte da vida helênica seja inserida
lá para que se ilumine. Transfiguraram a história da Antiguidade, precisamente o refúgio para
qualquer homem sério.
Assim, desejo ter mostrado a tarefa da filologia: como meio de transfigurar sua própria
existência e a da juventude em desenvolvimento. Queremos conhecer os gregos, queremos
ensinar com seus exemplos em mãos. Essa deve ser nossa tarefa.

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O homem e o gênio se contrapõem da seguinte maneira: o primeiro é absolutamente
uma obra de arte, sem que chegue a ser consciente disso, porque a satisfação que se experimenta
ao considerá-lo como uma obra de arte pertence completamente a outra esfera do conhecimento
e da contemplação; nesse sentido, ele pertence à natureza, que não é outra coisa que um reflexo,
quase uma visão, do Uno primordial. Pelo contrário, o gênio possui – além do significado que
o corresponde como homem – aquela força característica da outra esfera, de sentir o êxtase da
visão mesma. Se a satisfação no homem que sonha se lhe revela ao mesmo só vagamente, o
gênio é capaz ao mesmo tempo da suprema satisfação nesse estado; por outra parte, o mesmo
tem domínio sobre esse estado e pode produzi-lo por si só. Depois do que temos observado
sobre a importância preeminente do sonho para o Uno primordial, podemos considerar a vida
inteira da vigília do homem particular como uma preparação para seu sonho; agora devemos
acrescentar que toda a vida sonhada de muitos homens é, por sua vez, a preparação do gênio.
Nesse mundo do não-ser, da aparência, tudo tem que vir-a-ser: e assim deve também o gênio,
na medida em que se vai potenciando cada vez mais em uma coletividade humana, em um
individuo maior, aquele sentimento crepuscular do prazer do sonho, até aquele prazer que é
próprio do gênio: nós podemos ilustrar tal fenômeno remetendo-nos à lenta saída do sol
anunciada pela aurora e pelos raios que o precedem. A humanidade, com toda a natureza como
se fosse o ventre materno que a pressupõe, pode ser designada nesse sentido mais amplo como
o contínuo nascimento do gênio: desde aquele desmesurado ponto de vista onipresente do Uno
primordial, o gênio é alcançado a cada momento, toda a pirâmide da aparência se completa até
seu vértice. Nós, com a restrição de nossa mirada e dentro do mecanismo representativo do
espaço, tempo e causalidade, temos que nos conformar em reconhecer o gênio como um entre
muitos e como um que vem depois de muitos homens: podemos sentir-nos certamente felizes
quando o reconhecemos, algo que no fundo sempre pode acontecer apenas casualmente e seguro
que, em muitos casos, não aconteceu nunca.
O gênio, como o homem “que não vê e só sonha”, o qual, como dizia, é preparado e
surge no homem que vê e que sonha, é completamente de natureza apolínea: uma verdade que
parece evidente por si mesma, depois da caracterização que temos já antecipado do apolíneo.
Como ele nos vemos obrigados a definir o gênio dionisíaco como o homem que se esqueceu
completamente de si, e identificou com a causa primeira do mundo, e agora, partindo da dor
primordial, cria para sua redenção a réplica daquela dor: nós temos que venerar esse processo
no santo e no grande músico, os quais não são mais que repetições do mundo e segunda cópias
dele mesmo.
Quando essa réplica artística da dor primordial produz desde si mesmo todavia um
segundo reflexo, como um sol contiguo, então temos a obra de arte dionisíaco-apolínea comum,
a cujo mistério buscamos acercar-nos com essa linguagem simbólica.

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Para aquele único olho do mundo, ante o qual o mundo real-empírico se derrama, junto
a seu reflexo em sonho, aquela união apolínea-dionisíaca é então uma união eterna e imutável e
certamente a única forma do gozo: não há nenhuma aparência dionisíaca sem um reflexo
apolíneo. Para nossos olhos míopes, quase cegos, aquele fenômeno se dissocia em puros
prazeres individuais, em parte apolíneos, em parte dionisíacos, e só na obra de arte da tragédia
ouvimos que nos fala essa suprema arte dupla, a qual, em sua união do apolíneo com o
dionisíaco, é a imagem desse gozo primordial do olho do mundo. Da mesma maneira que para
este o gênio é o vértice da pirâmide da aparência, assim também para nós a obra de arte trágica
pode ser considerada de novo como o vértice da pirâmide artística ao alcance do nosso olho.
Nós, que temos necessidade de compreender tudo sob a forma do devir, isto é, como
vontade, seguimos agora o nascimento dos três tipos diversos de gênio no único mundo da
aparência que conhecemos: investigamos quais são os mais importantes preparativos que
necessita a “vontade” para consegui-los. Ademais, temos todas as razoes para proporcionar essa
prova no mundo grego, o qual nos fala daquele processo de uma maneira simples e expressiva,
como é na natureza.
No caso de que o gênio seja realmente o ponto final e a intenção ultima da natureza,
também se terá que demonstrar agora, que nas outras formas de aparência do ser grego se hão
de reconhecer unicamente mecanismos necessários de ajuda e preparativo par aquela ultima
meta. Esse ponto de vista nos obriga a investigar nas suas raízes certas famosas circunstancias
da Antiguidade sobre as que todavia nenhum homem moderno falou com simpatia: com ele
resultará que essas raízes são precisamente só aquelas que podem fazer crescer a maravilhosa
arvore da vida da arte grega. Pode dar-se que este conhecimento nos preencha de horror: mas
esse horror pertence quase aos efeitos necessários do conhecimento mais profundo. Pois a
natureza, mesmo onde se esforça para criar o mais belo, é algo que aterroriza. É conforme a essa
essência, o que os cortejos triunfais da cultura só aceitem a uma minoria incrivelmente restrita
de mortais privilegiados, e que quer alcançar e que pelo contrário a escravidão da massa seja
uma necessidade, caso se queria alcançar realmente um verdadeiro prazer no devir da natureza.
Nós dos modernos nos pavoneamos de possuir dois conceitos eu não os tinham os gregos e que
foram dados, por assim dizer, por assim dizer, como instrumento de consolação num mundo que
e comporta de um modo completamente digno de escravo, e que ademais evita angustiosamente
a palavra “escravo”: nós falamos da “dignidade do homem” e da “dignidade do trabalho”. Todos
se atormentam para seguir perpetuando miseravelmente uma vida; essa tremenda necessidade
obriga a um trabalho que devora, que o homem seduzido pela “vontade” admira em ocasiões
como algo pleno de dignidade. Mas, para que o trabalho obtivesse honras e títulos seria
necessário antes de tudo que a existência mesma, a respeito da qual o trabalho é só um
instrumento de tormento, tivera algo mais de dignidade do que geralmente ter nas filosofias e
religiões entendidas seriamente. Que outra coisa podemos nós podemos encontrar na

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necessidade de trabalhar de todos os milhões de homens, mas o impulso de seguir vegetando a
qualquer preço: e quem não veria os mesmos impulsos onipotentes nas plantas marchitas, que
extendem suas raízes na rocha sem terra?
Dessa horrenda luta pela existência só podem emergir os indivíduos que voltem a estar
ocupados imediatamente com as imagens ilusórias da cultura artística, só a fim de que eles nos
cheguem ao pessimismo prático: estado que a natureza aborrece ao máximo. No mundo
moderno, que frente ao mundo grego, cria em geral anomalias e centauros, e no que o homem
singular está composto de peças variadas, igual àquele ser fabuloso no começo da Poética de
Horácio, se revelam frequentemente ao mesmo tempo, e no mesmo homem, o afã da luta pela
existência e o desejo da arte: dessa mescla antinatural há surgido a necessidade de justificar esse
primeiro afã ante à necessidade artística e em certa medida, de consagrá-lo, o qual tem lugar
através dessas excelentes ideias da dignidade do homem e do trabalho. Os gregos não tinham
necessidade de tais expedientes provisionais tão penosos, eles expressam com claridade que o
trabalho é uma ignominia – não porque a existência seja uma ignominia, mas pelo sentimento
da impossibilidade, para um homem que luta para sobreviver, de poder ser um artista. O homem
que tem necessidade de arte domina na Antiguidade com seus conceitos, enquanto que na época
moderna é o escravo o que corrige as ideias: ele que por sua natureza deve designar todas suas
relações com nomes enganosos e brilhantes, para poder viver. Tais fantasmas, como a dignidade
do homem, a dignidade do trabaho, são os produtos mesquinhos de uma escravidão que se oculta
de si mesma. Época funesta, na qual o escravo é estimulado para refletir sobre si e mais além de
si! Funestos sedutores, que aniquilaram o estado de inocência do escravo mediante o fruto da
arvore do conhecimento! Estes para poder sobreviver devem agora entreter-se com tais mentiras
transparentes, reconhecíveis por qualquer que vá mais a fundo, nos supostos “direitos
fundamentais do homem”, do gênero humano, na dignidade do trabalho. Eles não podem
compreender em que ponto, em que estado se pode começar de algum modo a falar de
“dignidade” – e os gregos nem sequer permitem nesse ponto – ou seja, ali onde o indivíduo se
transcende completamente a si mesmo e não deve já trabalhar e procriar ao serviço de sua
subserviência individual. Até essa altura do “trabalho” possuem os gregos esta mesma cândida
ingenuidade. Mesmo Plutarco, esse epígono descolorido, tem em si tanto instinto grego, que nos
pode dizer que nenhum jovem de linhagem nobre, quando mira ao Zeus de Pisa, teria o desejo
de chegar a ser ele próprio um Fídias, ou de chegar a ser ele mesmo um policreto, quando vê a
Hera de Argos [...o estado grego...]
É certo que o homem moderno está acostumado a uma forma de ver as coisas distintas
e dulcificadas. Por isso se encontra eternamente satisfeito, porque jamais se atreve a confiar-se
completamente na terrível e gélida torrente da existência, mas que corre angustiado de cima a
baixo. A época moderna com sua “fratura” se compreende como a época que coíbe todas as
consequências: não há nada que ela queria ter por inteiro, incluída toda a crueldade natural das

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coisas. A dança de seus pensamentos e de suas atividades é verdadeiramente ridícula, porque se
joga com avidez sobre figuras sempre novas, para abraça-las e logo imediatamente deve
abandoná-las etremecendo-se como Mefistófoles ante as Lamias sedutoras. Da suavidade do
homem moderno

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