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Editora Quartier Latin do Brasil

A L F ROSS Rua Santo Amaro, 349 - Centro - Sào Paulo


Ph. D. (Uppsala), Jur. D. (Copenhague). Jur. D. (Oslo)
Professor de Direito na Uniuersidade de Copenhague E d i t o r : Vlnïcius Vieira
Formado em Admin istraçao de Empresas pela
Fundaçâo Gerúlio Vargas - FGV-SP

Editora d e Texto: Priscila T a n a c a


Mestranda era Direito pela PUC-SP

P r o d u ç â o Editorial: Mônic a A. G u e d e s
Formada em Letras pela FFLCH-USP

Tu-fu Arte: "Wildiney Di Masi


Designer Gráfico pela Fac. Oswalde Cruz

Revisäo: Douglas Dias F e r r e i r a


Prefacio de
AlaÔT CafféAlves Ross, Alf
Professor Associado da Tû-Tù. Prefacio: Al aór Caffé A Ivés
Faculdade de Direito da USP
- Sào Paulo : Quartier Latin. 2004.

Traduçâo de Bibliografía
EdsonL.M. Bini
Faculdade de Filosoßa, Letras e Ciencias Humanas - USP 1. Filosofía do Direito J .Tirulo.
Tradutor da obra 'Direito e Jusliçâ" de Alf Ross

índice para catálogo sistemático:


1. Filosofía do Direito
Editora Quartier Latin do Brasil
Sâo Paulo, outono de 2004
quartierlatin@quartierlatirL.art.br Contato: editora@quartierlatin.art.br
Tû-Tû

im&jmnitjuimmtmnmmwm**

"Tû-Tû" é urna pequeña obra do jusfi-


APRESENTAçAO. lósofo dinamarqués Alf Ross (1899-1979).
mas com um grande significado para os
estudiosos do Direito. Na linha do posi-
tivismo jurídico, de caráter realista e anti-
metafísico, Alf Ross tece urna cáustica
crítica a visäo clássica do direito subjetivo,
repudiando seu caráter jusnaturalista e
metafísico-substancialista, precisamente
na esteira de seu trabalho paradigmático
"Direito e Justiça". O autor discute o cerne
da questäo com graça picaresca, com hu-
mor e fantasia,'dando-nos, em poucas pági-
nas, numa síntese magistral, umaprofunda
visäo do direito subjetivo sem mistificaçoes,

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Alf Ross Tû-Tû

calcado numa análise da linguagem de for- Mediante esta atenta e inteligente análise
te sabor neópositivista. Com a misteriosa lingüística para esclarecer e explicitar os
expressâo "tû-tû", Alf Ross explica com es- sentidos do discurso jurídico, a crítica
pirito cómico o uso similar na linguagem contribuí para desfazer as ideologías que
jurídica das palavras "propriedade", "cré- falseiam a realidade social e jurídica em
dito" e outras (expressöes designativas de nome de intéresses ocultos e inconfessá-
direitos subjetivos), mostrando como pro- veis É mais urna pequeña peça que a
curamos operacionalizar, com certa maes- Quartier Latín apresenta na gigantesca
tria e economía de esforço, o discurso do luta pela maturidade e emancipaçâo do
direito, manipulando de forma técnica pa- pensamento jurídico em nossa sofrida terra.
lavras sem significado, sem referencia
semántica alguma. Por isto. ele concluí, Säo Paulo, marco de 2004.
por exemplo, que a propriedade, inserida
ALAóR CAFFé ALVES
entre os fatos condicionantes e as conse-
Professor Associaclo da
qüéncias condicionadas, é, na realidade,
urna palavra sem referencia semántica, Faculdo.de de Direito da USP

que serve somente como ferramenta de


apresentaçâo do direito.
Nesse sentido, o leitor tem ñas mâos
um precioso segmento da teoría do direito,
de extremo valor para diluir as obscurida-
des e as mistificaçôes da linguagem jurídica.

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Tû-Tû

Nas iihas Oasuli, no Pacífico Sui, ha-


bita a tribo Aisat-naf, considerada por to-
dos como um dos povos mais primitivos
hoje existentes no mundo. Sua civilizaçâo
foi recentemente descrita pelo antropólo-
go Ilírio Meugnin, de cujo relato1 foi extraí-
do o que se segue.
Essa tribo, de acordó com Meugnin,
acredita que se um determinado tabu é vio-
lado - por exemplo, se um hörnern encon-
tra-se com sua sogra, ou se mata um animal
totêmico, ou se alguém ingère alimento

1 Meugnin, A forma de vida dos Aisat-naf,


Estudos do tabu e "tû-tû" (1950).

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Alf Ross Tû-Tû

preparado pelo en efe - surge o que é deno- "tû-tû". O discurso acerca de "tû-tû" é pu-
minado "tû-tû". Os membros da tribo di- ramente destituido de sentido. 1
zem, ademáis, que quem comete a inffaçao Todavía, o que é notável, conforme
se investe de "tû-tû". É muito difícil expli- o relato de Meugnin, é que parece que essa
car o que significa isso. Talvez o mais pró- palavra,:a despeito de sua carencia de sig-
ximo de urna explicaçao seja dizer que nificado, possui urna funçào a ser cumpli-
"tû-tû" é concebido como urna especie de da na linguagem cotidiana do povo. Os
força ou estigma perigoso que recaí sobre o enunciados que incluem a palavra "tû-tû"
culpado e ameaça toda a comunidade com se afiguram capazes de preencher as duas '
o desastre. Por esse motivo, urna pessoa principáis ftmcöes de toda linguagem:
que esteja "tû-tû" tem que ser submetida a prescrever e descrever, ou, para ser mais
urna cerimônia especial de purificaçao. explícito, expressar ordens ou regras e ia-
É obvio que a tribo Aisat-naf vive na zer afirmacöes sobre fatos2.
mais obscura superstiçâo. "Tû-tû" nao é Se digo, em tres idiomas diferentes,
nada,.supöe-se, ou urna palavra desproví- "meu pai morreu", "Mein Vater ist gestor-
da de qualquer significado. As situacöes ben" e "Mon père est mort", temos très
anteriormente mencionadas de violaçâo frases diferentes, mas urna única afirma-
do tabu decerto däo origem a diversos efei- çâo. Apesar de suas diferentes formas lin-
tos naturais, tais como o sentimento de güísticas, as tres frases referem-se a um
terror, porém, evidentemente, nao sao es-
2 Sobre a diferença entre a linguagem prescri-
ses fenómenos, nem algum outro demons- tiva e a descritiva,_ver Hare, The language
trável, o que se designa com a expressao of Morals (1952) *

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AlfRoss Tû-Tû

único e mesmo estado de coisas (o fato de Por outro lado, se digo ao meu filho
que meu paí morreu), e este estado de coi- "Feche a porta", esta frase nao é, claramen-
sas é afirmado como existente na realidade, te, a expressao.de uma afirmaçâo.-Faz, é
diferentemente de algo meramente imagi- verdade, referencia a um estado de coisas,
nado. O estado de coisas ao qual uma frase porém de uma maneira totalmente diferen-
se refere chama-sç."referênçia"sêmântica". te. Esse estado de coisas (o fatq,d.e.,flueva;
Pode ser definido, com maior preçisâo, porta seja fechada) nao é indicado como
como o estado de coisas que se relaciona algo que efetivamente exista, mas simples-
de tal modo com a afirmaçâo que, se supu- mente é apresentado como uma diretriz
sermos que o primeiro efetívamerite existe, para a conduta dé meu filho. Diz-se que tais
enrío consideraremos ser verdadeira a se- declaraçôes sao a expressao de uma pres-
gunda. A referencia semántica de uma pro- criçâo.
posiçâo dependerá dos usos lingüísticos Conforme o que nos diz Meugnin, na
que prevalecem na comunidade. De acor- comunidade Aisat-naf sao emprega^os,
do com esses usos, um determinado esta- entre outros, os seguintes enunciados:
do de coisas é o estímulo para dizer "meu
paí morreu". Tal estado de coisas constituí (i) Se uma pessoa ingeriu alimento
a referencia semántica do enunciado e dö chefe, entao está "tû-tû".
pode ser estabelecido com total indepen-
dencia de qualquer idéia que se possa ter (2) Se uma pessoa está "tû-tû",
sobre a morte - por exemplo, que ao se deverá ser submetida a uma ce-
produzir esta, a alma se separa do corpo. rimônia de purificaçâo.

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Alf Ross Tu-Tú

Ora, é patente que com total indepen- represente Y, ou mesmo quando nao re-
dencia do que represente "tû-tû", ou aín- presente absolutamente nada.
da que näo represente absolutamente Aínda que a palavra "tû-tû" em si mes-
nada, esses dois enunciados, quando se ma careça de qualquer significaçâo, os
ajustam as regras usuais da lógica, expri- enunciados nos quais aparece nao sao for-
mem exatamente o mesmo que o seguinte
mulados casualmente. Comooütros enun-
enunciado:
ciados de afirmaçâo, sao promovidos, em
conformidade com os costumes lingüísti-
(3) Se uma pessoa ingeriu ali- cos predominantes, por estados de coisas
mento do chefe, deverá ser sub- perfeítamente definidos. Isso explica por
metida a uma cerimónia de que enunciados que incluent a palavra "tû-
purificaçâo. tû" possuem referencia semántica, aínda
que a palavra careça de sentido. O enun-
Esta proposiçâo é notoriamente um ciado afirmativo "N.N. está tû-tû" dá-se
enunciado prescritivo, cheio de significa- claramente em conexao semántica defi-
do, sem o menor indicio de misticismo. O nida corn uma situaçao complexa, em que
resultado nao é de surpreender, pois se podem distinguir-se duas partes:
deve simplesmente ao fato de que estamos
usando aquí uma técnica de expressao do (1) O estado de coisas que consis-
mesmo tipo que esta: "Quando X é igual a te em que N.N. tenha ingerido ali-
Ye Y igual a Z, eritäöXé igual a Z", propo- mento do chefe - ou matado um.
siçâo que é válida nao importando o que animal totêmico, ou encontrado
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AlfRoss
Tû-Tû

com sua sogra etc. - doravante tribo Aisat-naf nao estejam conscientes
será chamado por nos de "Fato 1". disso, e que, ao contrario, em sua imagi-
naçâo supersticiosa atribuam ap enuncia-
(2) O estado de coisas que con- do a presença de uma força perigosa, o
siste em que a norma válida que que constituí uma referencia diferente da
obriga à eerimónia de purificaçâo que tem na realidade. Isso, contudo, nâo
seja aplicável aN.N. - ou, exprès - excluí a pbssibilidade de se discutir racio-
so com mais precisâo: oestâdo de nalmente se uma pessoa em dadas circuns-
coisas que consiste em que, caso tancias está realmente "tû-tû". O raciocinio,
N.N. nâo se submeta à cerimônia,
portanto, visa a verificar se a pessoa em
estará, muíto provavelmerite, ex-
questäo cometeu uma das transgressées
posto a uma dada reaçâo por par- '
relevantes ao tabu e se, conseqüentemente,
te da comunidade - doravante
a norma da purificaçâo lhe é aplicáveL
chamaremos de "Fato 2". »
A afirmaçâo de que N.N. está."tû-tû"
pode, portanto, ser verificada provando a
Dada a existencia destes dois estados existencia do primeiro estado de coisas ou
de coisas, o enunciado de que "N.N. está do segundo; nâo importa quai, pois se-
"tû-tû" é considerado verdadeiro. Dessa gundo a ideología em vigor na tribo, estes
forma, a combinaçâo dos dois estados é, dois estados de coisas estáo sempre liga-
ëm virtude da definiçào. a referencia se- dos um ao outro. É, assim, igualmente
mántica do enunciado. É algo completa- correto dizer: "N.N. está 'tû-tû' porque in-
mente alheio o fato de que os membros da gerí u alimento do chefe (e por isso tem
20
1 U- 1 U

que ser submetido a uma purificaçâo ri- palavra sem sentido. Somente ao juízo
tual)", ou: "N.N. está 'tû-tû' porque lhe é "N.N. está 'tû-tû'", tomado em seu conjun-
aplicável a norma de purificaçâo (por ter to, pode-se atribuir referencia semántica.
ingerido alimento do chefe)". Este último Porém, nao se pode separar desta referen-
nao elimina a possibilidade de dizer tam- cia uma certa realidade ou qualidade que
bém, ao mesmo tempo: "A norma de puri- possa ser atribuida a N.N. e que correspon-
ficaçâo é aplicável a N.N. porque está da à palavra "tû-tû". A forma do juízo nao
'tû-tû' (porque comeu alimento do che- se ajusta ao aludido por ele, e essa falta de
fe)". O círculo vicioso que aparentemente ajuste é, sem dúvida, conseqüencia das
ocorre aquí é, na realidade, inexistente, crenças supersticiosas da tribo.
uma vez que a palavra "tû-tû" nao repre- Portanto, qualquer tentativa de atri-
senta nada e, afinal, nao há relaçâo causal buir à palavra "tû-tû" uma referencia se-
nem lógica entre o suposto fenómeno "tû- mántica independente em proposiçôes,
tû" e a explicaçâo da norma de purifica- como as que se seguem, está fadada ao íta-
çâo. Na realidade, os tres juízos - tal como casso.
se indica nos parágrafos entre parênteses
adicionáis - expressam únicamente, cada (i) Se uma pessoa ingeriu alimen-
um à sua maneir.a,.que a pessoa qué inge- to do chefe, entâo está."tû-tû".
riu alimento do chefe deverá submeter-se
a uma purificaçâo ritual. (2) Se uma pessoa está "tû-tû",
O que aqui foi dito de modoalgum deverá ser submetida a urna ceri-
contradiz a afirmaçâo de que "tû-tû" é uma mônia de purificaçâo.

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AlfRoss
Tû-Tû

A tentativa pode obedecer aos seguin- significar algo, terá que significar o mes-
tes caminhos possíveis:
mo em ambas.

(a) Na proposiçâo (i), substituir (b) Em ambas- as proposiçôes,


"tû-tû" por "Fato 2"; e na propo- substituir "tû-tû" por "Fato 1".
' siçâo (2) substituir "tû-tû" por
*"' Isto nao funciona, já que neste
"Fato 1".
caso a proposiçâo (1) torna-sé
analíticamente vazia e sem refe-
Cada uma adquirirá entäo um signi- rencia semántica alguma, uma
ficado proprio3. Mas esta soluçâo ë inad- vez que seu sentido será: "Quan-
missível, porque as duas proposiçôes do uma pessoa ingeriu alimento
constituera as premissas maior e menor do chefe, o estado de coisas que
para a conclusâo de que uma pessoa que existe é que, ou ingeriu alimentp
ing'eriu alimento do chefe deve ser sub- do chefe, ou matou um animal to-
metida a uma cerimônia de purificaçâo. têmico, ou...".
A palavra "tû-tû", conseqüentemente, se (c) Substituir "tû-tû" por "Fato.
2", em ambas as proposiçôes. Isto
3 A proposiçâo (1) significaría "Se uma pessoa tampouco funciona, porque neste
comeu do alimento do chefe, ou..., deverá caso a proposiçâo (2) torna~se
ser submetida a uma cerimônia de purifica-
çâo". e a proposiçâo (2J "Se uma pessoa co- analíticamente vazia, como pode
meu do alimento do chefe... deverá ser sub- ser demonstrado pela exata ana-
metida a uma cerimônia de purificaçâo". logia com o parágrafo anterior.
Alf Ross Tu-Tú

Meugnin menciona um missionário Certamente seria possível omitir com-


sueco que trabalhou durante muitos anos pletamente essa palavra sem sentido, e
na tribo Aisat-naf, empenhando-se em em lugar da circunlocuçâo:
conseguir que os nativos entendessem que
"tû-tû" nâo significa nada, e que crer que (1) Aquele que mata um animal to-
adquire realidade algo místico e indeter- têmico torna-se "tû-tû",
minável, porque um hörnern se encontra
com a sogra, constituí uma abominável (2) Quem está "tû-tû" deverá sub-
superstiçâo paga. Nisto, dado um descontó, meter-se a uma cerimônia de pu-
o bom hörnern tinha toda a razâo. Foi. to- rificaçâo,
davía, um excesso de zelo de sua parte
qualificar de pecador pagäo todo aquele empregar a enunciaçâo direta:
que prosseguisse usando a palavra "tû-
tû". Ao fazê-lo, o missionário esqueceu o (3) Aquele que mata um animal tote-
que foi demonstrado, isto é, que indepen- mico deverá submeter-se a uma ce-
dentemente do" fato de a palavra carecer rimônia de purificaçâo. -•
em si de referencia semántica e, inde-
pendentemente das idéias de forças mís- Poneríamos nos perguntar, afinal, se
ticas conectadas à palavra, os enunciados nâo seria vantajoso seguir essa linha, uma
nos quais ela aparece podem atuar, contu- vez que observamos que "tû-tû" nâo passa
do, efetivamente como expressöes pres- de uma ilusâo. Entretanto, como tratarei de
critivas e descritivas. demonstrar na sequência, esse nao é o caso.

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Alf Ross
Tû-Tû
Pelo contrario, sólidas razöes, fundamenta-
um novo ángulo.4 Porque nossas normas
das na técnica de formulaçâo, podem ser
jurídicas estâo, em grande medida, cunha-
aduzidas para prosseguir com o emprego
das numa terminología de tipo "tû-tû".
da estrutura "tû-tû". Mas, aínda que a for-
mulaçâo "tû-tû" ofereça certas vantagens
4 Oí "missionário sueco" da fábula alude ao fa-
do ponto de vista da técnica, é forçoso ad-
leeído professor A.V. Lundstedt. Ao longo de
mitir que, em certos casos, pode conduzir a toda sua obra (Die. Unwissenschoftlichkeit
resultados irracionaís se, contra um melhor der Rechtswissenschqft,i932), este autor fri-
' sou que a única realidade demonstrável ñas
juízo, permite-se que exerça influencia a chamadas situaçÔes de direito subjetivo con-
idéia de que "tû-tû" é urna realidade. Se esse siste na funçâo do mecanismo do direito. Sob
fosse o caso, seria tarefa da crítica demons- determinadas condiçôes, uma pessoa pode,
em conformidade com o direito vigente, ins-
trar o erro e libertar nosso pensamiento da tituir procedimentos e, assim, mobilizar o
impureza de tais idéias imaginarias. Entre- mecanismo do direito, resultando ser o poder
público exercido em seu beneficio. Pod&obter
tanto, aínda assim nâo haveria.razöes para
uma sentença e sua execuçâo por meios com-
abandonar a terminología "tû-tû". pulsorios, criando para si uma posiçâo varita-
Contudo, talvez tenha chegado o mo- josa, uma possibilidade de açâo, um beneficio
. económico. E isso é rudo. Até aqui, é possível
mento de deixar de lado toda dissimula- concordar fácilmente com o autor. Mas de-
çâo e admitir abertamente o que o leitor já pois, em lugar de prosseguir perguntando
quai é a característica- das situaçoes designa-
deve ter descoberto, a saber, que essa ale-
das como direito subjetivo, e de que maneira
goría refere-se a nos. Trata-se da discus- o conceito de direito subjetivo pode ser ana-
säo sobre o uso de expressöes tais como lisado e utilizado como um instrumento para
a descríelo de tais situaçoes, Lundstedt rea
"direito subjetivo" e "dever", enfocadas de
liza um giro peculiar em sua análise crítica,
28
on
Alf Ross Tû-Tû

Na linguagem jurídica encontramos, O crédito mencionado em (1) e (2),


por exemplo, frases como: porém nâo em (3), como "tû-tû", obvia-
mente nâo é urna coisa real: nâo é abso-
(i) Caso se conceda um emprés- lutamente nada, é símplesmente uma
timo, é gerado um crédito. palavra, uma palavra vazia e desprovida
de qualquer referencia semántica. Do
(2) Se existe um crédito, sua soma mesmo inodo, nossa afirmaçâo de que
*• total deve ser paga no dia do ven- quëm toma o empréstimo torna-se obli-

cimento. gado corresponde à afirmaçâo da alegóri-

O que é apenas uma maneira in- ca tribo.de que a pessoa,que mata u m .

direta de dizer. animal totêmico se torna 'Tû-tû".


Nos também, portanto, expressamo-
(3) Caso se conceda um emprés- nos como se algo houvesse cobrado exis-
timo, sua soma total deve ser paga tencia entre o fato condicionante (fato
no dia do vencimento. jurídico) e a conseqüencia jurídica condi-,
cionada.iEsse algo é um crédito, um di-
dizendo que os direitos subjetivos nao exis- reito subjetivo que, tal como um agente
tent e que seja quern for que utilize esta ex- intermediario ou um elo causal, provoca
"pressärj ÉstacHzênao tolices acerca de algo
que nao existe. Um ponto de vista semelhante um efeito ou fornece a base para uma
foi sustentado por León Duguit (Traité de conseqüencia jurídica. Nao podemos ne-
Droit Constitutionnel, 3. ed., 1927) e, antes,
gar, totalmente, que para nos essa termi-
por Jeremy Bentharn (The Limits of Juris-
prudence Defined, p. 57-88,1945)- nología está associada à idéia mais ou

-50
AlfRoss Tû-Tû

menos indefinida de que um direito sub- nossa.civilizaçâo.5 Mas, por tras de admi-
jetivo é um poder de natureza incorpó- tir tais coisas, temos sempre que nos per-
rea, uma especie de dominio interno e guntar se é possível aduzir fundamentos
invisível sobre o objeto do direito subje- sólidos,; racionáis, a favor da apresentaçâo
tivo, um poder que somente se exterio- "tû-tû" das regras jurídicas, uma forma de
riza no exercício da força (sentença e circunlocucao na qual entre o fato jurídico
execuçâo), mediante o qual o uso e gozo e a conseqüencia jurídica introduzem-se
fático e aparente do direito subjetivo direitos subjetivos imaginarios. Se essa
ocorre sem confundir-se com essa exte- pergunta for respondida afirmativamente,
riorizaçâo. será preciso eliminar a proibiçâo da men-
Dessa maneira - é preciso, admiti-lo - , çâo de direitos. Creio que esse é o caso, e
nossa terminología e nossas idéias apre- tomarei como ponto de partida o conceito
sentam urna considerável semelhança de propriedade.
estrutural com o. pensamento mágico pri-
mitivo, com respeito à invoçaçâo de po- Axel Hägeström expos argumentos de peso
tencias sobrenaturais, as quais, por sua , em apoio à origem mágica das concepçoes
vez, sao convertidas em efeitos fáticos. "jurídicas romanas. Hägeström, Der Rö-
mische Obligationsbegriff (1927). Investi-
Nâo podemos descartar a possibilidade de gacöes modernas, em sociología e historia
que tal semelhança esteja enraizada numa da religiäo, também apontam no mesmo
tradiçâo que, ligada à linguagem e ao po- sentido. Ver Ross, Towards a Realistic Ju-
risprudence, 214/44 (1946); Max Weber on
der que esta tem sobre o pensamento, Law in Economy and Society, 106 (Ed.
u
constituí um velho legado da infancia de Rheinstein" 1954).

32 33
Alf Ross Tú-Tú

As normas jurídicas que dizem respei- credor visando à cobrança do devedor


to à propriedade podem, sem dúvida, ser mediante a venda da coisa.
expressas sem necessidade de empregar Se umapessoa ocupou uma res nullius
essa palavra. Em tal caso se haveria de for- e a nega à outra, a demanda do legatario
mular um grande número de normas, que deverá ser acolhida contra a 'sucessäo do
ligam diretamente as conseqüencias jurí- testador para a entrega da coisa.
dicas individuáis com os fatos jurídicos Se uma pessoa adquiriu uma coisa
individuáis. Por exemplo: numa execucäo, e um öutro déla se apodera,
Se uma pessoa adquiriu licitamente este último deverá ser punido por roubo.
urna coisa mediante compra, deverá ser Uma versâo desse tipo seria, contudo,
acolhida a açâo que, para obtençâo de sua tâo embaraçosa, que se tomaría pratica-
entrega, essa pessoa instaure contra ou- mente inútil. Cabe ao pensamento jurídi-
tras que a retêm em seu poder. co conceitualizar as normas tie tal maneira
Se uma pessoa herdou uma coisa, de- que estas sejam reduzidas a uma ordem
verá ser acolhida a açâo por perdas e da- sistemática e, por esse meio, oferecer uma
nos que essa pessoa mova contra outros versâo do direito vigente que seja a mais
que, por negligencia, causaram danos à clara e conveniente possível. Isso pode ser
coisa. obtido çom o auxilio da técnica de apre-
Se uma pessoa que adquiriu uma sentaçâo que se segue.
coisa por prescriçâo obteve um emprés- Observando um grande número de
timo que nao föi honrado em seu venci- normas jurídicas do tipo das indicadas,
miento, deverá ser acolhida a açâo do descubriremos que é possível selecionar

^
Alf Ross Tû-Tû

dentre elas um certo grupo que pode ser conseqüencias jurídicas está ligada a uma
ordenado da seguinte maneira: pluralidade disjuntiva de fatos condi-
cionantes. ••-
Fi-Ci F2-C1 F3-C1 Fp-Ci Estas regras jurídicas individuáis po-
1 F1-C2 F2-C2 F3-C2 Fp-C2 denrser expressas mais símplesmente e sob
F1-C3 F2.-C3 . F3-C3 Fp-C3 forma mais manejável mediante a figura:

— — — —
Ci
C2

C3

Fi-Cn F2-Cn F3 - Cn Fp - Cn

O fato condicionante Fi está ligado \ Cn


-r
à conseqüencia jurídica Ci, etc. Isso signi-
fica que cada um dos fatos de uma certa "P" (propriedade) representa, sím-
totalidade de fatos condicionantes (Fi - plesmente a ligaçâo sistemática de que
Fp) está ligado a cada urna das conseqüen- tanto Fi como F2, F3 ... Fp trazem dispos-
cias de um certo grupo de conseqüencias tos a totalidade da¿ conseqüencias jurídi-
jurídicas (Ci - Cn); ou que é verdade que cas Ci, C2 ... Cn. Como técnica de
cada fato está ligado ao mesmo grupo de apresentaçâo, isso se expressa estabele-
conseqüencias jurídicas (Ci + C2 ...+ Cn); cendo em uma série de regras os fatos que
ou que uma pluralidade acumulativa de "geram propriedade", e em outra série, as

36 37
Alf Ross Tû-Tû

conseqüencias jurídicas que a "proprieda- É claro, contudo, que (1) + (2) é só uma
de" comporta. reformulaçâo de uma das normas pressu-
Disso resulta claro que a "proprieda- postas (F2 - Ci), a saber, que a compra
de" introduzida entre os fatos condicio- como fato condicionante implica a possi-
nantes e as conseqüencias condicionadas bilidade de obter a entrega como conseqü-
e. na realidade, uma palavra sem sentido, encia jurídica. A noçâo de que entre a
uma palavra sem referencia semántica al- compra e a possibilidade de obter a entre-
curna, que serve somente como um ins- ga foi criado algo que pode ser chamado de
trumento de apresentaçâo. Discursamos propriedade carece de sentido. Nada se cria
como se a propriedade fosse um.elo causal como resultado de que A e B troquem urnas
ente F e C, um efeito ocasionado ou criado poucas frases interpretadas jurídicamente
por cada F, e que, por sua vez, é a causa de como um contrato de compra e venda.
uma totalidade de conseqüencias jurídi- Tudo o que ocorreu é que o juiz tomará
cas. Dizemos, por exemplo, que: agora este fato em consideraçâo e senten-
ciará a favor do comprador em um julga-
(i) SeAcomprou licitamente um mento para obter a entrega da coisa.
objeto (F2), nasce para ele a pro- O que foi descrito aquí é um simples
, priedade do objeto. exemplo de reduçâo através da razäo a uma
ordem sistemática. Compete à ciencia jurí 1
(2) Se A é proprietário de um ob- • dica, em última instancia, empreender esse
jeto, tem (entre outras coisas) 0 processo de simplificaçâo, mas essa tarefa
direito de obter sua entrega (Ci). foi, em grande medida, antecipada pelo
AlfRoss
Tû-Tû
pensamento pré-cientifico. A noçâo de cer-
tes direitos subjetivos assumiu forma num ligadas ao fato de que uma área tenha o
período anterior da historia. É possível, caráter de territorio. Neste exemplo seria
certamente, realizar uma simplificaçâo também possível enunciar as relaçôes ju-
sistemática dé mais de uma maneira, e rídicas sem utilizar o conceito interpolado
isso explica por que as categorías dos di- de'"territorio", ainda que um enunciado
reitos mudam algo de um sistema jurídico tal.fosse, inegavelmen te complicado.
para outro, ainda que tal circunstancia As vezes, o elo intermediario nao é um
nao refuta necessariamente uma diferen- direito subjetivo isolado, mas uma condi-
ça correlativa no direito vigente. çào jurídica complexa de direitos e deve-
A mesma técnica de apresentaçâo res. Esse é o caso, por exemplo, quando,
pode ser utilizada, com frequência, sem a no direito de familia se faz uma distinçâo
idéia de um direito subjetivo intermedia- entre as condiçoes para contrair matrimo-
rio. No Direito Internacional, por exem- nio e os efeitos jurídicos do matrimçnio;
pte, unía série de regras pode estabelecer quando no direito constitucional se faz
qual área pertence a um estado particular uma distinçâo entre aquisiçâo da naciona-
como seu territorio. Que essa área tenha o lidâde e os efeitos jurídicos da nacionali-
caráter de "territorio" per se é destituido dade, ou, no direito administrativo, entre
de sentido. Tal caracterizaçâo só tem a criaçâo do status de funcionarios públi-
sentido quando tomada conjuntamente cos e seus efeitos jurídicos. Nestas situa-
com outro grupo de regras, que expres- çoes e em outras semelhantes, é usual
sem as conseqüencias jurídicas que estâo • falar da criaçâo de um status. Qualquer
que seja a construçâo, a realidade que está
40
Alf Ross . TÛ-TÛ

por tras déla é, em cada caso, a mesma: uma Com respeito as descriçôes, o que
técnica que tem enorme importancia, se segue é válido em exata analogía com a
pretendemos granjear clareza e .prdem exposiçâo feita mais ácima de juízos
numa série complicada de regras jurídicas. enunciativos "tû-tû"; a afirmaçâo de
; "Propriedade", "crédito" e outras pa- que A é titular da propriedade de uma
lavras, quando sâo usadas naTinguagem coisa, quando tomada em' sua integri-
jurídica, têm a mesma funçâo da palavra dade, tem referencia semántica à situa-
"tû-tû"; sao palavras sem significado, sem çao complexa de que existe um daqueles
referencia semántica alguma, e só servem fatos considerados,como que concedem
como uma técnica de apresentaçâo. Con- propriedade, e de que A pode obter a
tudo, é possível falar com sentido acerca entrega da coisa, reclamar por perdas e
de direitos subjetivos, tanto na forma de danos, etc. É, portanto;, possível dizer
prescriçôes como na de descriçôes. com igual correçâo:
Com respeito as prescriçôes, isso surge A é titular da propriedade da coisa
do anterior. As duas proposiçôes: "Uma porque a comprou (e pode, conseqüente-
pessoa que comprou uma coisa tem a pro- mente, obter sua entrega, reclamar per-
priedade déla" e "Uma pessoa que tem a das, etc).
propriedade de uma coisa pode obter que a E/A é titular da propriedade da coisa
entreguem a ela", tomadas conjuntamente, porque pode obter sua entrega, reclamar
dao origem à regra prescritiva com sentido perdas, etc. (porque a comprou).
de que uma pessoa que comprou uma coisa Esta última situaçao nao impede que
pode obter que a entreguem a si. se possa também dizer: A pode obter a

42 43
AlfRoss Tû-Tû

entrega da coisa e reclamar perdas porque tentativa de tomá-la, seja como designa-
tem a propriedade daquela (porque a çâo de um fato jurídico, seja de conseqüen-
comprou). cias jurídicas, ou de ambas as coisas ao
Tal como ocorria nas formulacöes "tû- mesmo tempo, ou de qualquer outra coisa,
tû" correlativas, nao há aqui círculo vicioso, está destinada ao malogro. Consideremos,
uma vez que "propriedade" nada repre- . por exemplo, o seguinte silogismo.;,
senta, em absoluto, e nao existe relaçâo
causal ou lógica entre o suposto fenómeno existencia, Anders Wëdberg chégou a con-
clusöes semelhantes as minhas: ...
da propriedade e as mencionadas conse-
"Pode resultar chocante para o senso co-
qüencias jurídicas. Os tres enunciados - mum nâo elaborado admitiríais expressöes
como indicam os parênteses adicionáis .'sem sentido' no serió: discurso dos dentis-
tas do direito. Coritüdo, na realidade nao
- cada um à sua maneira, expressam úni-
existe razäo algumá para que todas as ex-
camente que a pessoa que comprou uma pressöes empregadas num discurso,'que
coisa podé obter a entrega da mesma, re- como, um todo seja'altamente 'dotado de
sentido', devam ter 'sentido' por si mesmas.
clamar perdas e danos, etc.
Parece provável que rhüitas expressöes uti-
Por outro lado, é impossível atribuir lizadas por outras ciencias, especialmente
uma referencia semántica independente as chamadas ciencias exatas, carecem de
interpretaçâo e atuam somente como veí-
à palavra "propriedade" nos raciocinios culos para a sistemática e a deduçâo. Por
que operam com a palavra 6 . Qualquer que nâo haveria de ocorrer a mesma situa-
çao com a ciencia jurídica?" (Wedberg,
6 Num artigo aparecido pouco depois da pu- Some Problems in the Logical Analysis of
blicaçâo original do presente texto, porém Legal Science, "Theoria", 1.17, pp. 246, 273
evidentemente sem conhecimento de sua (Suécia. 1951).

44 45
Alf Ross TÛ-TÛ

(A) Se há uma compra, existe tam- Tomadas conjuntamente, (A) e (B)


bém propriedade para o comprador. expressam a regra no sentido de que uma
Aqui ha uma compra; conseqüen- pessoa que comprou uma coisa pode obter
temente, existe também proprie- sua entrega. Tal conclusäo é válida, qual-
dade para o comprador. ' qüer que seja 0 que possa representar
"propriedade", ou ainda que nâo repre-
(B) Se existe propriedade, o pro- sente absolutamente nada. Porque "pro-
prietário pode obter a entrega da priedade" poderia ai ser substituida por
coisa. Aqui há propriedade; con- "queijo-velho" ou "tú-tú", e a conclusäo
seqüentemente, pode obter-se a continuaría sendo válida.
entrega. Por outro lado, é impossível atribuir
nesta conclusäo uma referencia semán-
tica tal à palavra "propriedade" de modo
H. L. A. Hart expressou um ponto de vista
que as conclusöes (A) e (B), conside-
semelhante. "É possível", sustenta este
autor, "definir um termo tal como 'direito radas isoladamente, possam adquirir
subjetivo', nao o substituindo por outras significado ou papel jurídico. As possi-
p'alavras que definam certa qualidade.
p'rocesso ou acontecimento, mas apenas bilidades concebíveis de tal tentativa sao
indicando as condiçôes necessárias à idénticas as que vimos ácima, na análise
verdade de uma proposiçâo da forma Vocé das proposiçôes "tû-tû" corresponden-
tem urri'diréito^T'^^
tes, e os resultados também se corres-
Hart, Definitions and Theory in Jurispru-
pondent:
dence, "Law Quarterly Review", t. 70, p. 37.
41/42, 45/49 (1954)-

46 47
AlfRoss Tû-Tû

(a)' Se em (A) substituímos "pro- niaior em (B) torna-se analitica-


l
priedade" pela totalidade acu- mente vazia.
" ¡
mulativa das conseqüencias jurí-
dicas, e em (B) pela totalidade Deixarei ao leitor o trabalho de verifi-
disjuntiva das condiçôes, (A) e car, por si mesmo, a correçâo dessas afirma-
(B) adquirem, cada uma, sentido, çoes por. meio de uma análise exatamente ,
mas nâo podem ser combinadas análoga à dos enunciados "tû-tû" corres-
em um silogismo, já que o termo pondentes.
medio nao é o mesmo. As observaçôes que formulamos aqui
sao adequadas para esclarecer uma contro-
(b) Se em ambos os casos subs- versia sumamente interessante - ocorrida
tituímos "propriedade" pela to- recentemente na literatura escandinava,
talidade . disjuntiva dos fatos entre Per Olof Ekelöf elvar Strahl - acer-
condicionantes, a premissa.maior ca do significado concedido ao conceito
em (A) torna-se analíticamente de direito subjetivo quando empregado
vazia e, por isso, sem referencia no'raciocinio jurídico. Ekelöf iniciou a
semántica alguma. discussäo na tentativa de descobrir qual
estado de coisas pode substituir, dentro
(c) Se em ambos os casos subs- de tal raciocinio, uma expressao cunha-
tituímos "propriedade" pela totali- da em termos de direitos subjetivos. Essa
dade acumulativa das conseqüen- tentativa equivale a uma busca da refe-
cias jurídicas, entâo a premissa rencia semántica do termo. É interessante

48 49
seguir o curso da-polémica, na medida ser forçosamente usado com um e mes-
em que ela ilustra amenamente a corre- mo sentido, tanto na proposiçâo (A)
çâo do que foi aqui sustentado." como na proposiçâo (B), porque estas
Muito sumariamente, o desdobra- constituem as premissas de uma conclu-
mento da disputa foi como se segue. säo. "Strähl adotou a posiçâo de que o
No inicio, Ekelöf aceitou como patente conceitö de direito subjetivo em ambas
que o termo "crédito" (esta é a palavra as proposiçôes representa o fato jurí-
com a qual opera em seus exemptes, os dico, a totalidade disjuntiva dos fatos
quais, a propósito, sao completamente condicionantes. Esta posiçâo corres- ,
análogos as formulaçôes (A) e (B), apre- ponde à possibilidade aludida mais áci-
sentadas ácima) nao representa a mesma ma, em (b). Aisto Ekelöf respondeu com
coisa em (A) e (B), mas a conseqüencia o argumento de que, s e j assim, a pre-
jurídica e o fato jurídico, respectiva- missa materno caso (A) torna-se analíti-
mente. Isso corresponde exatamente à camente vazia.
possibilidade (a) da prova feita mais áci- Em seguida Ekelöf adotou a teoría de
ma. Strahl contestou com o poderoso ar- Strahl, de que a palavra tem que repre-
gumento de que tal-interpretaçao era sentar o mesmo estado de coisas tanto
inadmissível, já que o termo tinha que em (A) como em (B), porém sustentou
que nao há razäo alguma que obligue a
7 "A discüssaó tëvë por cenário as revistas ju- concluir que esse estado de'coisas co-
rídicas escandinavas Tidskrift for Rettri-
tenskap e Suenk Juristtidning, entre 1945 e
muna a ambas tenha de ser o fato condi-
1950. cionante. Descobriu que a conclusäo que

50. - 51
Alf Ross Tû-Tû

corresponde a (A) e (B) subsiste como e que a tentativa de atribuir um significa-


válida, nâo importa o que coloquemos no do as premissas maiores nos silogismos
lugar do conceito "direito subjetivo" - (A) e (B). quando sao consideradas iso-
seja o fato jurídico, seja a conseqüencia ladamente, é uma tarefa va. Porque'"o
jurídica, sejam ambos conjuntamente. artificio que serve à técnica de apresen-
Mas deteve-se an Nâo se deu conta de taçâo" significa qué as duas proposiçôes
que a conclusäo haveria de continuar têm sentido únicamente enquanto frag-
sendo válida, ainda que no lugar do con- mentos de um todo mais ampio, em que •
ceito de "direito subjetivo" colocássemos aparecem ambas, o cjüe faz que o.concei-
"queijo velho" ou "tû-tû". to de direito subjetivo como termo me-
Nessa polémica, quem esteve mais dio comum num silogismo desapareja,
próximo da verdade foi Strahl, ao afir- porque completamente desprovido de
mar que o conceito de direito subjetivo sentido.
no caso (A) é empregado para designar a Ao formular estas observaçôes "críti-
circunstancia que no caso (B) serve como cas, nao pretendo, de modo algum, dimi-
fato jurídico, e prosseguiu caracterizan- nuir p valor da investigaçao empf eendida
do isso como um artificio que serve à por Ekelöf e Strahl. Pelo contrario, pensó
técnica de apresentaçâo. Entretanto, o que o método de substituiçao de. Ekelöf
que Strahl näo viu foi que o conceito de constitui uma linha feliz, além de ter apri-
direito subjetivo nao designa "circuns- morado as questöes; e considero necessá-
tancia" alguma, e que o "direito subje- rio acrescentar que, foi seguindo essa
tivo" como fato nao é em absoluto um fato, linha, que chegueí ao ponto de vista que
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MIJ KOS S

julgo verdadeiro, a saber, que o conceito


de direito subjetivo é um instrumento
para a técnica de apresentaçâo que serve
exclusivamente a fins sistemáticos, e que
em si nâo significa nem mais nem menos
que tu-tu .

Empenhei-me, em outra parte, em demons-


trar como o conceito de direito subjetivo
pode conduzir a erros e a postulados dog-
máticos se fortqmàdo, erróneamente, como
sendo uma "substancia" independente e
nao símplesmente a unidade sistemática de
um conjunto de regras jurídicas. Ross, op.
cit., supra, nota 5, p. 189/202.

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