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Edmund Husserl

MEOITAÇOES
CARTESIANAS

lNTROOUÇÃO- À FENOMENOLOGIA

Tradução:
Frank de ()liveira
SBD-FFLCH-lISP

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200 I , Madras Editora Ltda .

..ito r:
agner Veneziani Co sta

oordenado r:
of. Df. Márcio Pugliesi
rofes so r dos cursos de Pós -graduação em Direi to na Pontifícia Univ e rsi-
de Católica de São Paul o, Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Univer-
<.lade de São Paulo

;'adução:
rank de Oliveira DEDALUS - Acervo - FFLCH-HI

apa:
quipe Técnica Madras
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21200051764
rodução:
et-up Time Artes Gráficas
PREFÁCIO ........ .......... ..... .......... .. .. .. .. ........ ........ .. .. .... .. . . . ... .... .. 9
uso'ação da Capa: INTRODUÇÃO ......................... ..... ............................. ... 19
enala Guedes Pacces I. As lv!editações de Desca rtes - protótipo da reflexão
fil osófica voltada para o "eu" ................. ................. ........... 19
,ev isão: 2.· Necessidade de um recomeço radical em filosofia .... ... ...... . 21
ilson Ry oj i
abel Ribeiro PRIMEIRA MEDITAÇÃO
RUMO AO EGO TRANSCENDENTAL
SBN 85-7374-416-2 ~

J. A revolução cartesiana e a idéia-fim de um fundamento


absoluto do conhecime ~ tGl ....._;... ............... ......... ..... ...... .. 25
'roibida a reprodução to wl ou p<lr c j~ll de s ta o bra. de qualquer forma ou por 4. Revelação do se ntido fin·a~~ ~c'ít ncia pel o esforço de "vi -
lualqucr meio eletrônico. mec5nico. inclu sive por lllCj() dc process os xero- vê-Ia" como fenômeno noemático ............. ......... .... . 27
~ ráficos, sem permi ssão expressa do editor (Lei n ~ 9.ú 10, de 19298).
5. A evidência e a idéia de ciência verdadeira ........... 29
6. Diferenciações da evidê ncia. A exigência filo sófica ~Ie uma
~od os os direitos desta ed ição, res ervados pela .t'~...~

evid ência apodíctica e primeira em s i ..., ............... . ...... 32
{ ~1.t.
~~ ; 7. A evi dência da existência do mundo não é apodíctic,l: "lia
MADR;\S EDITORA LTDA. e;':~/' .
.; ~c=:,:·~~·,~'~v inclusão na revolução cartesiana ................. .... ... ..... ... 34
Rua P"ulo Gonçalves. 88 - Sanlana
024()~-() :' () - .são P~\LI10 - Sp 8. O ego cogito como s ubjetiviclade tran sce ndent a l . ... ... ..... . 36
Cai x" l'()"t~il I22 1)\) _ . - C EP 0209S-970 SP 9 Alcance da evidéncia apodíctica cio e u S01f ...... 39
Te!.: (0__ I I) (,95 1).1) 27 - Fax: (0_ _ 11 ) ó959.3090 10. Digressão. Como f~dtou a Descartes a ori e ntação tran s-
w\Vw.!lladra!-> .l:nl n.!lr cendental ....... .... ... .......... ............ .. ............. ..... .. 41

5
NIc ditnrrJrs Ctf1"tt:.~irmns Sumário 7

I. O eu p s icológic o e o eu transc e nd e nt nl . A. tr<ln sce n- QUARTA MEDITAÇÃO


d ê n cia do mundo .......... ....... ... .. . 42 30. Os pr0 9~ma s constitutivos do r róprio "ego"tran s cen- .
dental (-;:;..., C ..L,J/ ..~ !rW !.~.~~ . : ~: ..c. • A...1-.1.'. i .'. t-(~.\. !.: .L. Lt."::.. ~ !~ .::\:li\ 81
EGUNDA MEDITAÇÃO 31. O e u como pólo Idêntico dos "estados vividos" ...... ........ ..... 82
) CAMPO DE EX PERIÊNCIA TRANSCENDENTAL E SUAS ESTRUTU- 32. O eu, s ubs trato dos habitus .. .......... .... ... ....... ............ ... ... ... 82
RA ~ ERA1S 33. A plenitude completa do e u como mônada e o problema
2. Id é ia (ji!~ m fundame nto transcende nt a l do conhecime nto .... 45 de sua autoconstituição ............... ................... ........ .. .. .......... 84
3. Da necess idade de excluir pro v isoriame nte os problem as
34. A elaboração d os princípios do m ~J~ do fenom e noló g ico.
relativo s ao al ca nce do co nh ec imento tra nscendental ....... .. 47
A análise tran scen dental comcfeY'd'êTi ca ............................... 8 5
4. A 4sh~~1e das cogitaTiones Cogito e
cog iraT wn ..... .. ... ... 49
35. Digres são nó campo da psicologia intel'l1a eidét·ica ........ ..... . 89
S. Reflexão n a tura l e re fle xão transcendental........................ 51 ~"' '-' ~"'..... ""J' .v~'V "'~ "
36. O ego tran scendental, U+H.: \ óefse uas Iorma s posslvels de
6. Digressão. Necessi dade , tanto {3ara a reflexão "pura m e nte
experi ê ncia . As leis e sse nciais que determinam a com-
p sico lóg ica" como pa ra a reflexão " tra nsce ndental", d e co-
possibilid a de d os estados vivid os em sua coe x ist ê ncia e
meçar pe lo ego cogiTo ............ ....... ... .... ..... ....... 55
e m s ua suce ssão ....................... .. ... ... .......... .... .......... ........... 89
7. O caráter bilateral da inves ti gação da consciência; o ca- ')nu ,,\ \..\.1.
rá ter corre bt o de seus pro ble mas. Direções d a descrição. ~ ~
37. O tempo como fomla universal de toda gênese ego lógica ..... 91
A síntese, forma o riginal da con sc iê ncia ............................ 57
38. Gêneses ativa e pa ss iva .................... ..... .............. .. .. ... ......... 93
8. A id e ntificaçã o, forma fundam e nt a l da s ínte se. A s ínte- 39. A associação como princípio da gênese pa ssiva ......... ... ..... 96
se uni ve rsal do te mpo transcend e nt a l. .. ..... ........ ..... ... ..... ..... 59 40. Passagem para o problema do idealismo transcendental ..... 97
9. Atualidad e e .f.~~~.~l~~i.~a de da Vida inte nc ional . .. .. ....... 61
41. A explicitação fenomenológica verdadeira do ego cogito
O. A 01lglJlali'êl6aépâ analls Ef .lI1te nclOp<l1 ... . . .... .. ........ 64 como idealismo transcendental ......... ......... ....... ....... ............ 98
I. O objeto mt e nc ional, ~'guU\Yri~$~·c'I%71tal." ....... ......... . . 67
2. A idéia da unidade universa l de todos os objetos e o probleJ~"t·) QUINTA MEDITAÇÃO
ma de sua e lu c id ação co nstitutiv a .. ....... ........ ... ..... 70 . DETERMINAÇÃO DO DOMÍNIO TRANSCENDENTAL COMO
"lNTERSUBJETIVlDADE MONADOLÓGICA"
ERCElRA 1\1EDITAÇÃO 42. Exposição do problema d a ex periência do o utro; a obje-
S PROBLEMAS CONSTITUTIVOS VERDADE E RE:'\JJDADE nn I 11 A ção ao solipsi sl11o ... .......... .... .......... ........... ....:.. . ............. 104
3. Prccis :lo do co nceito d e co n stituição tr,lIl sce ndental p e - 43. O modo ele apresentação onton o emática do "outro" co-
Ia Intl o d u\·.lo - d as noçoes.," - d e " la z ao
- " e .. n,lO-- rdzao - " .. .... . .. 7;_ 111 0 fio condutor tra nscendental da s ua teoria co n s titutiva
~ c,!<dÇJ:l rt l M
4. A ~ v,den ~ I<\ CO ~11.0 dad o ~ng tn~)~ '7~ Ud S v,mant es .... .... ... 73 da experiência ........ ... ......................... ..... ................ ......... .. 105
5 Re.llJd,lde e qUdse - re ,\lldade . r.... . . . 7S 44. Reduç ão da experiência transcendental à es fera da
6. A rca llddde con sl d er,1d a como corre lato ela venfl cação minha v incu lação .......... ...... ...... ... .... .... .. ..... ............ ....... ... 107
evidente ..... .... .... ... ............ .............. ...... ...... .... .......... 7S 45. O ego transccndental na qualidade de hom em psicofí-
7 E v id ê IlCi ,\ hab itual e e vid ~ n c ia potenci,\1. Se ll papel con s- s ico; a perc epção de si mesm o reduzida às vinculações ...... 11 3
titutivo d o "se ntido" ele "objeto e xi); tente " .. .. .... .. ........ ... ... 76 46. A v incllliição com o esfera das atualidades e das potencia-
' I~ ' )l I CS11l1tlva
. (I a ex.ls ~t\ ~ ';(.'lU.<J>
8
.. c
t: VI( CIlCI<l U! nCI·'l o t11llJl(I o. O n.1Y ncI o, lid ades da corrente ela consciênci a ......... . . . . . . ..... . 114
.I C!c" I ~l cu rrel ;Jta d c lima e Vlc . l e~ nCla
. '~õ~~~' .'r..... -'>.~rR~~ t .. ( . '
~.l .... ......... 77 47. O obj e to intencional pertence, tamb é m e le , ao ser pl e na-
.9. As reg iões ontol óg icas materiai s e fo rmais com o índi ces mente concreto (monádic o) da "vincul ação" . Tran sce n-
d e s iste mas tran sce n de ntais de ev id ênc ias. 79 dência iman e nt e e mundo primordial ....... ... ........ .. ........... ... 11 7
R J\1editnçócs Ca17e.<zn71as

48. A transcendência do mundo objetivo num grau superior


em relação à transcendência primordial ..... ...................... 119
49. Esboço prévi o da explicitação intenci onal da expe riência
do"outro" .... ..... ......... .. .. .............. .... ................................... ]21
50. A intencional idade mediata da experiência do outro como
"apresentação" (percepção por analogia) ......................... 122
51. O "emparelhamento", elemento de constituição por asso-
ciação na experiência do outro .................. . . . ................. 125
52 A apresentação como espécie de experiência, com ma-
neira própri a de confirmação ........... ... .. ........................... 127
53. As potencialidades da esfera primordial e sua função cons-
. titutiva na percepção do outro ............................................. 130
54. 'Explicitação do sentido da apresentação; experiência do
outro ...................................................... ............................ 13]
55. A comunidade das mônadas e a prime ira forma da objeti-
vidade: a natureza intersubjetiva ......... ............... ................ 134
56. A constituição do s graus superiores da co munidade inter-
monádica..... .......... ............................................................. 142 Edmund Husserl nasc e u em Prossnitz, Morávia , em 8 de Zlbril
57. Esclarecime nto sobre o paralelismo entre a explicitação de ] 859 e estudou nas Univ e rsidades de Leip z ig. Berlim e
da vida psíquica interna e a explicitação egol6gica e trZlns- Viena,1 tomou-se, em 1883, professor na Universidade de Berlim,
cendental ...... ............ ......... .... ....... ..... ..... .................. ........... 144 como assistente de seu ex-professor Weierstrass, e depoi s em Viena,
58. Análise intencional das comunidades intersubj e tivas supe- Halle, G6ttingen e Freiburg-im-Breisgau onde, após longos quarenta
riores: encadeamento dos problemas. O eu e seu meio..... .. 145 e c inco anos, encerrou suas atividades docentes no ,mo de 1928.
59. A explicitação ontológica e seu lugar no conjunto da feno- Logo após seu doutoramento foi influenciado pelas co ncepções
menologia co ns titutiva tr,lIlscendental ... . .... ...... . 149 do professo r F.anz Brentano, cuja importância na fil osofia pode ser
60 Resultado s me tafísicos de nossa explicitação ela experiên- avaliada pejo C)ue diz Stegmi.iller : ~ "E le foi o mestre de Hu sserl, so bre
Cid do outro. ... ........ 152 o qu,ll exe rceu uma 'influência não desprezível. sendo. dC.\S'l forma.
61. Os problem<l s traclicionais dZl "orige m psicológlcl" \:.' seu por assim dizer, o "av ô" espi ritual de Max Schckr e de 1\Llrtin
esclarecimen to fe nomenológico ...................................... I S4 Heidegger". A mente analítica de Husserl, entrel,lnt o, I1J. O CLlIl--;cguiu
62. Explicitação int e ncional da experiência do uutro car,lcle- permanecer nos horizont es percorridos por seu m es tre Cjl1('. ,Ipesar
rizadano seuconjunto ............................ .. . . ........... 161 disso, certamente preparo u , com seu método. os c<lminh()~ .\eguidos
pela filosofia analític a anglo-s<lx5. O psicologismo ele BrcllLlllo pare-
CONCLUSÃO Ci,l-lh e por demais acanhad o pa ra so lve r os problem:1 s lógico-filosófi-
63 A necess idade de uma crítica da expe ri ê ncia c do conhe-
cimento tr,ln sce ndentais ............ . . . . . . . . . . . . . .... 164
I. Ond e. com;1 IC,C "CnnlrihLJi.,-;h) pa r ;l :l Tcori ;l do C;'i1cLJlo de V" ri;l ," -'L'<' Ob IC\T
EPÍLOGO .. 166 ,e u UOlllor;lUO.
SOBRE O AUTOR ... .... .. ... .... . 171 2. SlcgmLiller, Wolfg,lIlg - A Fil<.)~oria Conlcmpllf:inc;I-llllrodu<;:io C rÍllcl. \'01. I,
BIBLIOGRAFIA ................. ........ ... ... 173 São Paulo. EPU./EDUSP, 1977 , p. 23.


9
o ívfcditaçocs Cartesianas Prefácio 11

os_ Assim, por exemplo, a identificação do sujeito do conhecimellto verdadeiro fundamento de nossa fé em Deus não é nossa concepção
om o sUjeito psicológico parecia-lhe introduzir questões relevantes. dele, mas sim Deus que em nós se afinna através da idéia de infinito.
Mas, antes de nos aventurarmos nessa seara, apresentaremos Sabemos então, até a Terceira lvfeditaçZío que: I - eu existo;
ma versão simplificada do exame das questões de Husser! pelo pris- 2 - Dells existe. Esta segunda certeza, no sistema cartesiano, é de
la de Descartes, precisamente porque, a partir desse mirante, edificou importância capital, pois é nela que nosso autor funda toda verdade,
I fenomenólogo o seu edifício. toda certeza, toda ciência positiva e, através dela possibilita superar o
Buscava o fi lósofo francês, de resto, como também o fez abismo que a dúvida h3.via estabelecido entre meus pensamentos e
1usserl, um fundamento último para o conhecimento e compôs, além as coisas exteriores. É a idéia de Deus que mostra a existência do
lO famoso Disçurso sobre o A1étodo, uma série de investigações mundo corporal e afasta totalmente do ceticismo, posto que se não
cerca da natureza do conhecer e do sujeito cognoscente. Assim, homresse um Deus sempre poder-se-ia admitir que o mundo sensível
,roGurando estabelecer a existência enquanto ser pensante, afir- fosse uma ilusão causada pelo Gênio Maligno ou ainda pela própria
nou na Segunda A1editaçZío que essa evidência era dada na medi- natureza de nosso espírito, mas como a existência de Deus·.implica a
la em que se repetia interiormente a fórmula do cogito, isto é, o de perfeição e um ser perfeito não pode nos enganar, a existência do
ujeito cognoscente ao perceber que pensava, concomitantemente mundo está fundada.
ssegurava, visto que do nada, nada, seu próprio existir. Para a fun- A Sexfa iV1editaçZlo é que se ocupará da existência dos corpos
lamentação de uma ciência isso era pouco satisfatório. O ponto e isso segundo diz Gueroult em dois·tempos: a Quinta servirá para
lrquimediano, se pudesse comprová-lo, deveria defluir de algo mostrar a realidade de sua essência e a Sexta de sua existência. Já
ndubitável por si. Pensou, então, em um Deus não-enganador, que na Quinto JvfeditaçZío ci1be notar a seguinte afirmativa:
ervísse de aval para qualquer tipo de desenvolvimento racional que
e desejasse estabelecer. Isso acaboll ocorrendo na Terceira Me- "'COII/O, por eXé'lJIplo, CJuando considero a .natureza do trWIl-
litaçZío, através do recurso à idéia de perfeição e da evidência de guio. conheço é'vldentemente, eu que sou pouco versado·
lue esta idéia não pode ser produto do pensamento, lima vez que é, em geometria, que se1ls três ângulos são iguais a dois retos
:ste finito, limitado e imperfeito e que é evidente '1ue uma causa e n{/o /IIé' é possível lIão acreditar nisso enquanto aplico
-inita não poderi<1 produzir um efeito infilúto. Observe-se que esta IIIé'U !)el7.IOll1ellto ci sila demollstroçào; mos tZío logo eu o
déia de infinito, em Descartes, não é fruto da negatIva da finitude, deSVie delo. e/llboru me recorde ré-la claramente CO/J7preel1-
ni1S sim positiva e anterior a tod<1s as demais 1\ perfeição divina c/u/o, l)()c!e ocoITeljacilmente que eu duvide de suo verdo-
ü'io é potencial, mas é em ato; nosso elltendimento se desenvolve dé' caso ignore que há /Im Deus."
ndefínidamente por 3.dições subjetivas; Deus, contrariamente, é o
;er a que nada pode ser juntado, o ser absolutamente completo. Se Serve então a idéia do ser perfeito ou ens ré'ulissilllus como
)ells não pode vir de nós enquanto idéia, é preciso que exista para fUllllamellto das certezZlS ,Ia adquiridas, conforme se pode depreender
]ue possamos pCllS:l-lo. f{wiJ c cliret,llllellte cio cllLIIlciaclo número] 3 da mesma JHedituçâo:
Por outro lado. da idéla de Deus decorre sua própri3. existência,
Jois este é um elemento esscncial da pcrfeição, sem a qual Deus "Pois (lindo qzlé' e/l seja de tol 1I00urezo que. tilo logo COIII-
,cria o mais imperfeito dos seres. Este argumento que fOI desenvolvi- (;rcel/da basfol/tc c/ura e distif/rClll7ente, SOl! l1uf/lroll77é'nte
jo por S1o. Allselmo não é o mesmo dilquele de Descartes. Não levado {[ acreditá-lo '·é'rdadé'iro, no entanto, já que sou 10171-
Jevemos dizer, segundo nosso autor: Deus existe porque meu espírito béll7 c/c rol natureza que nZío posso manter sé'lI7pre o espírito
J concebe, IT1as sim. minha razão concebe Deus, porque Ele existe, o ligado a uma mesmo coisa, e que amiúde me recordo de ter
~
2 Meditações Cm'tcsimzns P1Tfácio 13

;ulgado uma coisa verdadeira, qualldo deixo de COllside- que se apresenta a meu espírito com evidência é absoluta-
rar as razões que me obrigam a julgá-la dessa man eira. mente verdadeiro. E, assim, reconheço milito claramente
pode acontecer que nesse ínlerim ou/ras raziJes se J7le opre- que {[ certeza e a verdade de toda ciência dependem do
sentem, as quais me fariam facilmel1le mudar de opiniào se tão-só conhecimento do verdadeiro Deus de sorte que, an-
eu ign orasse que há um Deus. E, assim. eu jornais lerio uma tes que eu o conhecesse, niio podia saber perfeitamente
c iência verdadeira e cerla de qualquer coisa que sejo. mas nenhuma outra co isa, E agora que o conheço ten ho meio
opiniões vagas e inconstantes, " de adquirir uma ciência no tocante a uma infinidade de
coisas não som ente das que existem nele, mas lamb ém das
E ainda, na Quinta Mediwção, 15: que pertencem a nalureza corpórea, na medida em que ela
pode servir de objeto às demonstrações dos geõmelras, 05
"jUas após haver reconhecido haver UI1l Deus, porque ao quais não' .se preocupam de m odo algum com sua
mesmo lempo reconheci tamb ém que todas as coisas depen- ex islência, " (grifos meus)
dem dele e que ele não é engallador, e qlle. em seguida a
isso julguei que ludo quanto concebo clora e distin/al7lente Até este momento, segundo a ordem de suas razões, Descartes
não pode deixar de ser verdadeiro : ail1da qlle ,uío mais pode afiançar a certeza científica para os domínios que lidem com as
pense nas razões pelas quais julguei tal ser verdade iro, essências das coisas, a metafís ica funda a ciência que se refira às
desde que me lembre de lê -lo co mpreendido clora e dislil1- essências, mas não ainda das coisas corpóreas, dos existentes corpo-
tament e, ninguém pode apresentar-me razão contrária al- rais, É a Quinta Meditação qu e, operando a distinção entre alma e
guma que me faço jamais colocú- lo em dúvida, e, assilll, corpo no homem 3 e estabelecendo a existência da s coisas corporais
ten ho dele uma ciência cerla e verdadeiro, E esta mesma possibilitçuá a inclusão da física no quadro das ciências cartesianas.
ciência se estende a todas as Olltras coisas que elt me lem- Já na Sexla Meditação; Descartes admite a possibilidade da
bro ter olltrora demonstrado, COIIIO us " eul{/des da Ceome- existência das coisas materiai s, uma vez que podem ser o bjeto das
, Iria e outras sell1elhan/es; pois qlle me p oderão objetu/'. para demonstrações da geome tria , por serem conc ebíve is clara e distinta-
obrigar-me a colocá-las em dúvidos? Dir-lIw-no que minha mente, A segu ir, quando passa ao exa me da im agi nação acaba por
na/lIi'eza é tal que sou muito sujei/() li engullor-lIle) Alos já concluir como provável a ex istência das coisas materiais:
sei que me /7(10 posso enganar li as jllí::os cujos as raú5es
conheço claramente. Dir-me-clu que Oll/rora /ive l7lui/as coi- "o espírilo .... se volta poro o corpo e cOllsidero n e/L olgo
sas por verdodeiras e cerlOS, os quois /I/((is lorde reconheci de conforme à idé io que fo rm ou de s i meslllo ou que rece-
serem folsas? lUas eu não havia cO Jlh eódo cloramel//e e beu pe los sen tidos. Concebo, digo, faci lm ente que pode
dis/il7twllente tais coisas e nDo conhecendo ainda es /u re- realizar-se d essa I!7cm e iro, se é verdode q ue heí corpos; e,
111110 vez que n clU posso encontrar l7enhlll11(( olltra vio para
gro pela qllal me cerrifico da venlucle, cru le vado a ucrei/i-
rar nelas j )()r razcJes que re conheci dCji(Jis serem menos jór- m ostrar CO IIIO elo se reolizo, conjecturo daí p/'ovave lm enle
/es do que cn lão imaginara. () que mui.\' podere/o. pois, que os há. mos nelO é senão provavelmeJl/e e, emboro e,\'o-
obje/CI/'-llIe/ Que /olvez eu durlllo (CO!110 ell meSlilO llIe ohje- lIline cuidadosalllen te rodos os coisas. nrlo "('l'ifico, 110 el7-
lei acilJla) o u que todos 05 penSmllel7/()S (jue lenho 0/1101-
mente não são mais verdadeiros que os sonhos que imagi- 3, Distinçào essa que ocupa rá muitos filósofos ao longo de séc ulos. entre os quai s:
namos ao dormir? Mas, mesmo que estivesse dormindo, tudo Malebranche, Spinosa. An th ony Fl elV. etc.
14 ,H cditrzçõcs Cartcsimlt/s hefcíáo 15

tant o. que, d es ta idé ia distinta da natureza corpo ral que re uma coisa da outra, pode não ser levada a cabo de modo
tenho em minha imag inação, possa tirar algum argumento in co rreto pelo entendimento, nem pelo m enos razoável dos
que Deus IlCIO é enganador e que não tendo c/atado o suje i- entendimentos. ... porque todo erro possível - e falo dos ho-
to cognoscente de nenhuma fa culdade que impeça o erro mens, não dos animais,- nunca provém de u 'a má inferência,
de tomar como corpo uma criatura mais nobre que o corpo mas somente do fato de que parte de ce rtas experiências
em que a realidade das idé ias esteja eminente e não for- pouco compreendidas ou do fato de se formular juízos levia-
II/alm ent e, seja preciso que há coisas cOlpóreas que exis - na e infundadamente. "
tem. "(5 a 20)
Deste modo, embora a me.tafísica sirva de base para con stityi-
Ass im, a m etafí s ica cartesiana se rve de sub st rato à pos sibilida- ção de uma ciência segura, quando esta se imbrica com os dado s da
:le de qualqu er ciência que possa ser entendida C0 1ll 0 tal. Observe-se experiência parece perder se u caráter de certeza absoluta, uma vez
=lue re lativam e nte ao m étodo empregado para a 'co nstrução de sua que me s mo empregando os critérios estabelecidos na Regra XII para
física (particularm ente) há discordância muito gran de, ficand o pro- evitar que o entendimento caia em erro induzid o p o r experiências,
fundamente aba lad a a prete nsão d e nosso autor frent e a construção estes repousam na s nature zas simples que compõem as demais coi-
je u 'a mothes is ulliversalis, o u mai s precisamente, de uma constru- sas existentes, e que teriam sido or iginadas por Deu s, dotadas de
;ão de teoria s tomand o por ba se o m étodo elas m atemáticas, pela certa quantidade de movimento, etc. e passíveis de demonstração.
introdu ção da ex periência como critério de decisão em s ua teo ria Embo ra neste co ntexto seja válida a observação de L opa ric : " nesse
fí s ica. O problema da ba se empírica d a fí s ica cartesiana não é contexto a palavra 'demonstrar' é usada ambiguamente como sinô-
:ra nscurável como poderia ser aparente. É verdade que na Regra JI nima ora de provar, ora de explicar . Para a distinçã o dos dois senti -
lfirma: "de 1Il0do que, se nosso cá lc~(lo é exato. a observállc ia dos , Descartes rem e te ao Dis c urso do l\1é todo: efeitos sensíveis
Je nossa regra nos produz, entre as c iéncias já uchodas (os cos- atestados pela experiência sens ível e dedu z idos de cau sas invisíveis
'umes dos homens, as propriedades das plantas, movimento de servem para demonstrar, 110 se ntido de provar, e ss as cau sas, e Jlquan-
-:1.1 /1' 05 . trCll7sj'o rmaçues dos metois e objetos de disc iplinas aná- to as últimas serv'em mais para demonstrar, 110 sentido de explicar os
'oga.',) a li descohertas, à a ritmética e à geometrio tclo-solllente ", efei tos: prevê-se ainda um caso em que se pode di ze r tamb ém que as
11as que tamb é m. no pará g rafo precedente dei:-.:ar;-t claro que admite causas sel-vem para pro var efei tos: é o caso em que é q ue sti onada a
=Ju e se c he guc a opin iõ es prováv e is e não ú c iência perfeit a. existência dos efeitos que podem se r deduzidos d e caL1sa s já prova-
Aind a . na Re g ra 11 no s di z qu e : da s por outros efe itos . Finalmente , quanto à aparente faciliel;-tde ele
aju star causas a efeitos se nsíveis ela seria a penas aparente, sob retu-
ag oro. entre fant o, como dissemos mais ucillla que entre os do se foss e lev ado em co nta o núm ero muito g ril ncle de fen (lIm :nos
c1isc ip li 11 (fS cOllhec idas openCls a ar i tm ét ica e a geome fI' ia explicaelos e a e xtrcma economia e simp licidad e de ca us:.1 S propo s-
es favalJl If\Tes de to d{/s falsidade 011 illcel'tr.':;u, VOIII O S e.\'u- ta s. Assim , o poder exp licativo das causas seri;t p,lra nus persuadir
JIIin or /I/{/is c ll idu(/os(l/J1ent e o roz(/o pelu (jllo l is to é d eslC/ de que os efe it os ex plicados nâ o têm outras cau sa s sc nã o aquela s
!()}'IIlCl . OhSCITCIl7c!O q1le é duplo o camin/ro que nOS conduz quai s sâo deduzid o s" (pp. J 53- 154, Rev Disc urso)
ao conhecim ellto dos coisas, {/ soher. () da experiência e () De qualqu er Ill o do rem on taría m os 8 experiência sensível e se
da deduç'r[o Deve-se 7101C/r, além d iss o. qlle us experiéncias posso dem o nstrar as verda d e iras causas não se ns íve is d e efeitos sen-
que se refe re JII eiS co isas são freqü entelll en te enganosas. síveis, nã o tenh o co mo depurar as experiências se nsíve is de possíveis
enqual7lo a d edução ou a operação pura pela qual se infe- má s interpretações do e ntendimento .
Prefácw 17
Meditações Cartesianas
6

As vlven c ias intencionai s podem ser propos icionai s ou não


Dessarte, se a metafísica fundamenta a possibilidade de todas propos icionai s e essas últimas dispensam mediação lingüística por
as ciências, não é suficiente para fundamentar as ciências que se pressu porem uma rel ação direta sujeito-objet o , raiz da ce rteza da
relacionam co m a experiência, tomando-as não certas, mas simples- exis tência de uma objetividade.
mente prováveis. Assim, a ciência seria a conexão objetiva e ideal de noesis e
Por sua vez, Husserl buscou, também, esse ponto arquimediano noemas puros e caracterizar-se-ia por exigir uma n oção de unidade,
e, em particular, para as ciências humanas . Um de seus principais isto é, além das verdades empíricas construídas ou verifi cadas e da s
pressuposto S consistiu, sempre, em admitir que um filósofo jamai s leis lógi cas pre ssupõe uma esfe ra de condições (l priori de poss ibili-
deve considerar finda a busca e deve estar pronto a abandonar resul- dade de seu objeto e de seus m é todos .
tados e começar tudo novamente. Desenvolveu um procedimento A fenomenologia'ao descrever os atos intencionais , o vivido, o
baseado no exame dos conteúdos da consciência do sujeito com ex- mundo da vida, os correlatos intenci o nais p oss ibilita a instaura<;ão de
clusão de todas assunções acerca de causas externas e resultados uma filosofia como ciência de rigor e a fundamentação da.l óg ica.
desses conteúdos, conhecido como a fenomenologia pura. Papel importante na fenomenologia é desemp e nhado pela ope-
A expressão "fenomenolog ia" utilizada por Husserl teve um ração que permite abstrair a aceitação tácita da rea lidad e do o hj e to
cunho distinto daqueles usuai s até esse tempo. O autor sustenta para simplesmente ap licar-se às operações realizadas pel a consciên-
que seu método é descritivO mas di stinto da descrição psicológica. cia. A redução fenomenológica afa sta a te se natural do mundo e
Todas as coisas do mundo aí estão, percebamo-Ias ou não. A cons- investiga co mo funciona e se estrutura a consciência para, en tão,
ciência é constituída por atos (noesis) que visa m algum componen- assumi-la não como pressuposto, mas como e tapa de um processar
te de sse mundo (noema). As sim , diversa s noesis podem referir-se científico, haja vista s ua fundamentação filo sófica . A ep oque
a um único l1oema. Assim a fenomenologia sendo a pesquisa de s- fenom enológ ica dá-se em dois movimentos: no primeiro há a reduç ão
critiva pura das viv ê ncias é uma psicologia desc riti va e a funda- eidética que busca essências ou s ignificados e no segund o, a redu ção
m e ntação última do conhece r só pode ocorrer a partir de uma pes- tran sce ndental, bu sca a essência da consciência e nquant o constituin-
quisa sob re os atos do conh ec imento. Isto sig nifica: não se contentá te das essências ideais. Haveria, então, pelo próprio flu xo elas vivências,
o filó sofo com as pala vra s mas deseja re to rnar às próprias coisas. a possibilidade ela fragmentação do eu? Ao contL1rio, Hus serl acre-
Sendo essas últimas d adas em vivência s, isto é, atos intuitivos, o ditava que não ape na sse ria possível capt ar a percepção pe.';so ,d de
mund o psíquico manifesta- se co mo in st5. ncia à qual os obj etos são outras pes':'.oa s e co isCl s por aplicação da re du ção fenomenológica
dad os de diferentes modo s e a consciência torna-se inst ância mas , ainda, descobrir-se o próprio ego tran scc nd c nwl. Ao ' c' ;t k ,l n-
çar essa etapa o ponto arquimediano es taria dado: LI verdadeird t<l-
co nstituti va do mundo objetivo.
Hu sse rl di stin gue, ao menos , d ois conceitos de consc iência: aquela refa fenom e nológic a principia com o reconh eci ment o ela in egóve l
rehlli va a uma relação consciente com al go , isto é, a intencion al idad e exis tência do ego como pura consciência di ..;tinguindo-se d,lquele
ou vivência intencional, isto é, a consciência no sentido plen o da paL.l- psicológico qu e é assunto da Psicologia.
v ra e um o utro , div erso, re prese ntad o apenas por uma corrente de Mas, finalm e nte , qual a rel;lção entre o pens;lr cLlrtesiClno e o
vivências. intencionais e nã o intenci o nais, num fluxo contínuo , um de Hu sse rJ'7 Antes d e mais nada a exigência de um método. um a
movimento permanente de fenômeno, o fen ôme no originário. A':'. di- rerl exi'io ac e rca dos procedimentos exi gíve is p:l ra o p e nsar filo só fi-
co e , adel11'lis. a demonstração de que a subjetividacle. C U I11 su a
ferenças essenciais d,l S vivências ucnuem da man e ira co mo se refe-
propriedade de permClnec er a mesma e conferir se ntid o ao múltiplo,
rem aos obj e to s e se há diferentes modo s ele dar-se o objeto, há dife-
é o ponto arquimcdiano para a con s tituiç iio cio sab er e não se con-
rent es objetividades e esses dife rentes modos pelos quai s o objeto se
funde com o "eu psicológico" s uj e ito à re a lidade em pírica . A cone-
apresenta ressaltam a necessidade ele se estudar os fen ômenos.
8 Meditações Cartesianas

:ão é imediata: só possui sentido a subjetividade transcendental que


: absolutamente e se permanece no texto de Descartes a questão ~

~lRODUÇAO
la possível relatividade de apreensão do mundo objetivo pela subje-
ividade solitária, pela introdução da intersubjetividade acredita
-:lusserl ter resolvido esse problema. E o outro problema caracte-
ístico de todo idealismo, ou seja, a da transformação de significa-
~
los ao longo do tempo, seria re solvido por serem esses significados
deais sedimentados e reapropriados pela cultura.
Este livro proporcionará ao leitor uma possibilidade ímpar de
,bservar a aplicação sistemática de um método de filosofar e a ho-
e stidade inrelectual de um dos maiores filósofos do século passado
, sem dúvida, um dos marcos da reviravolta filosófica que ainda
rossegue motivando nosso pensar.

Márcio Pugliesi

1. As (~cditações) de Descartes - protótipo


da reflexão filosófica voltada para o ((eu))

Sinto-me feliz de poder falar da fenomenologia transcendental


nessa honorável ca sa dcntre toda s por onde floresce a ciência fran-
cesa. Tenho par<l isso razões espec iai s. Os novos impulsos que a
fenomenoJogi<l rec ebe u devem-se a René Desca rtes, o maior pensa-
dor da França É pelo estudo das suas lvfecliloçi5es que a nascente
fenoll1enologiZl tr;m sfo rl1lou-se em um novo tip o de filosofia
tran sc~ ndentJI. PoderíaIllos quase cJ~nominá-la um ncocartesianismo.
ainda que ela se tenh,l visto forçZlda a rejeitar quase todo o conteúdo
doutrinário conhecido do cartesianismo, pelo próprio fato de ter con-
ferido a cer-tos term os cartesi,ll1OS um desenvolvimento radical.
Nessas circ l/Il st,i ncias, desde o início posso esUlr seguro de en-
contrar junto aos senhores ullla acolhida favorcível se csclJliler, como
ponto de p<lrlicla. entre os temas das A1edilul!0I1('S de prilllo
!J!1I1osophia aqueles que tl'lll, a meu vet, um ZlIc~lllCC eterno, e se
em seguida tentZlr C<lfZlctcrizZlr as transformações e inov~lções que
derilm nasciment o ao método e aos problemas tr,mscendentais.
Todo inicianle e m filosofia conhece a notélvel e surpreendente
seqüência de pensame ntos das Mediloçi5es. Vamos recordar sua idéia

19
J) )'v1editaçõcs C artesiai/as Introdução 21

iiretriz. Ela objetiva uma refonna total ua filosofia, para fazer dela Se consideramos agora o conteúdo das Meditações, bem es-
lIna ciência com fundamentos absolutos, o que implica, para Descar- tranho a nós , destacamos aí um segundo "voltar-se" para o eu do
es, uma reforma paralela de todas as ciências, pois, a se u ver, essas filósofo, num sentido novo e mais profundo: o "voltar-se" para o eu
'iências não passam de componentes de ullla ciência universal, que das cogitationes puras. Isso se dá pelo método bem conhecido e
ão é outra senão a filosofia. É somente na unidade sistemática desta bastante estranho da dúvida. Sem conhecer outro objetivo senão o de
..ue elas podem tomar-se ciências de fato. Ora , s e consideramos um conhecimento ab soluto, ele se proíbe de admitir como existente o
ssas ciências em sua formação histórica, percebemos que lhes falia que não está totalmente ao abrigo de qualquer poss ibilidade de ser
sse caráte r de verdade, que permite reconduzi-Ias integralmente e, posto em dúvida. Submete, portanto, a uma crítica metódica, quanto
'm última análise, a intuições absolutas , além das quai s não se pode às possibilidades da dúvida que possa apresentar, tudo aquilo que na
"etroceder. E' é por isso que se faz necessário reconstruir o edifício vida da experiência e do pensamento apresenta-se como certo, e
ue poderia corresponder à idéia da filosofia, concebida como unida- busca alcançar - se possível - pela exclusão de tudo o que poderia
je universal das ciências que se e rgue sobre um. fundamento de ca- apresentar uma possibilidade de dúvida, um conjunto de dados absolu-
áter absoluto. Essa necess idade de reconstrução, que se impunha a tamente ev identes. Se aplicamos esse método à certeza da experiência
escal1es, realiza-se nele sob a fonna d e uma filo so fia orientada sensível, na qual o mundo nos é mostrado na vida cotidiana, ele não
Dara O sujeito. resiste de forma alguma à crítica. Será preciso então que neste esta-
Em primeiro lugar, quem quiser realmente tornar- se filósofo cle- do inicial a existência do mundo seja colocada em suspenso. Diante da
erá "uma vez na vida" voltar-se para si mesmo e, d e ntro de s i, pro-
realidade absoluta e indubitável, o sujeito que medita só retém a si
~urar inverter todas as ciências admitidas até aqui e tentar recons-
próprio como ego puro de suas cogitationes, como algo que exi s te
ruí-Ias . A filosofia - a sabedoria - é de qualquer forma um a ss unto
indubitavelmente sem poder ser suprimido mesm o que esse mundo
essoal do filósofo. Ela deve constituir- se como algo de/e , ser a sua
não existiss~. A partir daí, o eu, assim reduzido , realizará um modo de
sabedoria, seu saber, que , embora se volte para o universal, seja adqui-
filosofar solip s ista. Partirá en)" busca de caminhos de um caráter
ida por ele e a qual ele possa ter condições de justificar de sde a origem
apodíctico , pelos quais poderá encontrar, em sua interioridade pura,
~ em cada uma de suas etapas, apoiando-se em suas intuições abso lu-
uma ex te rioridade objetiva. Sabe-se com o Descarte s procede dedu-
as . A .partir do momento em CJue tomei a ue c isão de me voltar para
zindo de início a e x is tê ncia e a veracidade de Deu s, dep o is, graça s a
ess e objetiv o , d eci são essa que só pode l11e le var à vida c ao d ese n vol-
viment o filos ófico, con seqüentemente fi z c1 c ~~a forma meu voto de e las, a naturez;] o bjetiva, o duali s mo das substân c ias acabadas, e m
pobre z a e m matéria de conhecimcnto Desde c nt;lo fiC<1 claro que scr:i uma palavra o te rreno objetivo da metafísica c d;JS ci ê ncias po s itivas,
necessário primeiro m e perguntar como pod e ria encont ri1\" um métod o a ssim com o e ss as próprias ciências. Todas e ssas inferência:,; sc g lilc'm,
qu e me desse o caminho a seguir para chegar ao saber n :: rdadeiro. As como não poderia deixar de ser, os princípios imanentes ,lO ego, que
meditações de Descartes não almej am, portant o. ser um assunto es- lhe são "inatos".
se ncialment e ex c lusi vo desse filó sofo, e meno s ainda uma :,;impks for-
Illel liter(tri a qu e ele usaria para expor :,;uas vis ões filo sóficas. Ao C O I1-
t,(II·io. cs:,;as m cclililçõcs desenham o protótipo do gênero d e meditações 2. N Ccc.\:íidadCde um rccm11 CfO radical C71'l filosofia
nece ss ária s a toclo fil ó sofo que comcçLl SULl o hra. medit;H;ões CJue s07.i-
nha s podem elar orige m a uma fil o~o ria I
Tud o isso é Descartes . Mas valeria a pena, perguntamos nós , ten-
tar descobrir um sentido etemo escondido por trás dessa s idéias? São
I. Para conllnnare ss a interprelação, cc. a COr/u (/o!1l/{or c/U Íradl/{ordos Prin cíp ios
elas ainda capazes de comunicar em nossa época forças novas e vivas?
(Descarte s).
~2 },;!rd'lflj ,ics Cm'{c:rirl7llu Introdltção 23

Um fato , é certo , convida à reflexão : as ciências positivas estão autores e m uma filo sofia v.erdadeira, te mo s uma pseudo-exposição e
muito pouco preocupadas c o m essas M editações, que, no entanto, uma p seudocrítica, uma aparência de colaboração ve rdadeira e de
se riam clpazes de lhes fornec e r um fundamento racional ab soluto . É ajud a mútua no trabalho filosófico. E sfo rç os rec íprocos , consciência
verdade que, após terem se desenvol vido de forma brilhante durante da s respon sabilidades, espírito de colaboração sé ria visando a resul-
três séculos, essas ciências se vêem hoje bloqueadas em seu pro- tado s objetivamente válidos, ou seja, purificados pela crítica mútua e
gresso pela obscuridade que reina em seus próprios fundam e nto s . capazes de res istir a qualquer crítica posterior - nada disso existe.
Mas mesmo quando tentam re novar seus fundamentos elas não pen- Como então seriam possíveis uma pesquisa e uma colaboração ver-
sa m e m se voltar para as Meditaçõ es de Descartes. Por outro lado, dadeiras? Não ex istem quase tantas filosofia s quanto filósofos? Exis-
é notáv e l que em filosofia as M editações tenham marcado época, e tem ainda Cong ressos Filosóficos; ne\es os filó sofos encontram-se,
isso de maneira bem peculiar, preci sa me nte em virtude de seu re tor- mas não as filosofias. O que falta a elas é um "lugar" espiritual co-
no ao ego cogito puro . Desca rtes inau gura um novo tipq de filo s ofia . mum em que possam tocar~se e fecundar- se mutuamente. A unidade
Com e le a filosofia muda to talme nte d e es tilo e passa radicalme nte é, talve z, mais be m preservada no interior de certas "escolas" ou
UO o bJeti vis mo ingênuo ao subjeti vis mo transcendental , subjetivismo "tendências", ma s esse mesmo particul ari smo pe rmite manter nossa
esse que, apc~ar de ensaios se mpre novo s c sempre insuficientes , característica de estado geral da filo so fia , ao menos e m seus pontos
p'-lrece tender, no entanto , pa ra uma fo rma definitiva. E ssa te ndência essenciais.
constante não teria um sentido eterno, não implicaria uma tarefa imi- Essa situação atual, tão funesta , não é a náloga à que Descartes
ne nte a nós imposta pela própria hi stória e para a qual todos seríamos encontrou em sua juventude? Não é o m o m e nto de fazer reviver seu
chamados a colaborar? radicalismo filosófico? A imensa produção filosófica de hoje, com sua
O estado de divisão n o qual se e ncontra atualmente a filo sofia, mistura desorde nada de grandes tradições, de recomeços e ensaios
a Ll tividade desordenada que e la empreende nos levam a pen sar. Do literári os da moda -- visando não ao esforço, mas ao "efeito" - , não
ponto de vista da unidade c ie ntífica, a filosofia ocidental e ncontra-s~, deveríam os, por nossa vez, submetê-Ias a uma revolução caltesiana e
de sde m e ado s do séc ul o passado, num visível estado de d ecadê nci a· , levar a efe ito novas Mcditationes de prima plz ilosophia? A confu-
e m re lação ~IS ép ocas precede ntes. Por toda a parte, d esaparece u a são da atual situaç ão não seria decorrente do f,110 de os impulsos pro-
unid Llue: tanto na d e te rminaçã o do objetivo quanto na co locação do s veni e ntes dessas Mediraç()es tere m perdido sua vitalidade primiti v·a,
problemas c no m étodo . N o iníc io da era moderna a fé re li g iosa trans- p o rqu e o es pírit o de rcspon sa bilidade filosó fica radical desa parece u?
formou-se cada ve z mai s em co n venção externa, uma fé no va cap- Qual é o se ntid o fundamental de toda filo sofia ve rdaueira ? Não é o de
to u e pôs em destaqu e a hum,midad c intelectual a fé em uma filo so- bu scar libertm a filo so fia de qualqu er preconce it o possíve l, para f'-l zer
fia e em umLl ciência autônomas. A partir de então, toda a cultura
de la um a c iê ncia realmente autônoma, realizada em vi rtude de evidên-
humana devia ser guiada e esc larec ida por visões científi cas e po r
cias últimas tirauas uo próprio sujeito, e e ncontrando nessas evidênc ias
esse mesmo caminho re fo rmad a c transformaua em uma cultura nova
sua justifica ção ,Ibsoluta') ESSd ex igê ncia , que alguns acreditam se r
c autônoma.
exage rada, ni!o pertence ü própria es~ê n c ia el e qualquer filosofia ver-
No cnt,lIllO, tLlmb é m essa nova fé empobreceu: de ixo u de ser
uma ré ve rdadeira. Não se m ra zão. Com ereito. e m \'cz de um ,1 filo- dad e ira ?
sofi LI v iva e lInifi c;\(b , o que te mo s nós? U md produ ção de obras Em n ossos dids, a nostal g ia d e uma fil osofia viva conduziu a
fil osófiGI S que cresce infinitament e, m,I S;1CIll ,t1 Ltlta qualqu e r lig ação muit os renascimentos. Perguntamos: o único re nascimento realm en-
interna. Em lugar de um e mbate sério entre tcoriLlS div e rge nt es , c uj o te fecund o 1\:10 consistiria em re ss u sc itar as 1v1edir(/ç()l!s cartesianas,
próprio antagoni smo é suficiente para comprov'-lr a so lidariedade in- não , é claro, para adotá-Ia s integralme nt e, mas para desvelar já de
te rna, a comunhão do s fund a mentos e a fé inquebrant áve l de seu s início o sig nificado profundo de um re torno radical ao ego cogito
24 ivIcditnçõcs CaI"tesianas

puro, e fazer reviver em seguida os valores eternos que dele decor-.


rem? É, pelo menos, o caminho que conduziu à fenomenologia
transcenden tal.
Esse caminho vamos percorrer juntos. Como filósofos que bus-
PRIMEIRA
cam um primeiro ponto de partida e não o têm ainda, vamos tentar
meditar à maneira cartesiana . Naturalmente, observaremos uma ex-
MEDITAÇÃO
trema prudência crítica, sempre prontos a transformar o antigo
cartesianismo toda vez que a necessidade disso se fizer sentir. Deve-
mos também trazer à luz e evitar certos erros sedutores dos quais
nem Descartes nem seus sucessores so uberam evitar a armadilha.
RUMO AO "EGO" TRANSCENDENTAL

3. A revolução cartesiana e a idéia-fim de um


fundamento absoluto do conhecimento

Como filósofos que adotam por princípio o que podemos cha-


mar de radicalismo do ponto de partida, vamos começar, cada um por
si e em si, colocando de lado nossas convicções admitidas até aqui e,
em paI1icular, não aceitando como certas as verdades da ciência.
Como fez Descartes, vamos nos deixar g ui a r em meditações pela
id é ia de uma c iência autêntica, possuidora de fundamentos abso luta-
mente CC I1 0S . pela idéia da ciência universa l. Mas lIIll a dificuldacle se
apres enta. Co locadas de lado as ciências (n?ío admitimos o valor- de
nenhuma), nada mais resta que possa n os servir de exemplo de ciên-
cia verdadeira. Não se poderá então duvidar dessa próp ri a idéia , ou
seja, da idéia de uma ciência de fund am ento absoluto? De s ig na ela
lIma idéia-fim legítima, um fim confiado a qualquer disciplina prótica
possí vel ') É evidente que não podemos admiti -la desde o início, e Illuito
meno s po dem os reconhecer uma norma re g uladora da estrutura COIl-
siderada naturéll e própria de um a ciência verdadeira como tal. Isso
resultaria em outorgar de antemão todo um sistema lógi co e toda lima
teoria das ciências, quando, na verdade, também elas devem ser en-
globadas na revolução cartesiana.

25
l11cdita0õC5 Cm·tcsianm 27
26

o próprio Descartes inicialmente se propusera um ideal cientí- em vez de permanecer um simples gesto. Sigamos então paciente-
fico, o da geometria, ou, mais exatamente, o da física matemática. mente nosso camm·ho.
Esse ideal exerceu durante séculos uma influência nefasta. Também
suas A1ediLações se ressentem do fato de ele ter sido adotado sem
uma crítica prévia. Parecia natural a Descartes que a ciência univer- 4. ReJJelaçâo do sentido final da ciência pelo
sal devesse ter a forma de um sistema dedutivo, sistema do qual toda e~forr:o de ((vivê-la)) conlOfenômeno noemático
a construção repousaria ordine geomelrico num fundamento axio-
mático que serviria de base absoluta para a dedução. O axioma da
certeza absoluta do eu e de seus princípios axiomáticos inatos de- Em pnmeiro lugar, vamos tentar tornar clara a idéia diretriz que,
sempenha em Descartes, em relação à ciência universal; um papel no início, só se apresentava a nós como vaga generalidade. Vale es-
análogo àquele dos axiomas geométricos na geometria. Mas o funda- clarecer que não se trata aqui da formação de um conceito de ciênci.a
mento é ainda mais profundo aqui do que na geometria e é chamado por um.a abstração comparativa, que toma as ciências existentes como.
a constituir o último fundamento da própria ciência geométrica. ponto de partida Não há identidade entre as ciências como fenôme-
Quanto a nós, tudo isso não deve de forma alguma nos influen- no cultural e as ciências "no sentido verdadeiro e estrito": o próprio
ciar. Como filósofos que buscam aillda o ponto de partida, não admi- sentido de nossas considerações implica essa afirmação. As primei-
timos como válido nenhum ideal de ciência normativa; somente pode- ras encerram nelas, para além de sua existência de fato, uma preten-
remos tê-lo à medida que nós próprios o criarmos. são que não é justificada pelo próprio fato de soa existência como
Mas nem por isso abandonamos nosso objetivo geral, que é o de fenômeno cultural. Éjustamente nessa pretensão que está "implicada"
conferir às ciências um fundamento absoluto. Como em Descartes. a idéia de cicncia \crdadeira.
esse objetivo vai orientar o tempo todo o desenrolar de nossas medi- Como cxplic3r essa idéia e captá-la?
tações, tornando-se cada vez mais precIso e concreto à medida que QualqucrJ1Ilgill1lcnto pode nos ser proibido quanto ao valor das
formos avançando. Mas será necessário usarmos de prudência quanto, ciências existentes (quaisquer que seji11l1 suas pretensões em relação
à maneira de colocá-lo como objetivo, e evitar, por ora, prejulgar atl~ a isso), quanto à exaticliío de suas teorias e, ele forma correlata, quan-
mesmo a sua possibilidade. Como elucidar c, ao mC"smo tempo, fixar to à sol idez de seus métodos construtivos. Em contrapartida, nada
agora esse modo de posição? poderia nos impedir ele "viver" é1S tendências c a atividade científica,
t claro que pedimos emprestaci:1 a idéia geral de ciênCia às e de elabormmos uma opinião cbra e nítida do objetivo que busca-
ciências existentes. Ora, em Ilossa atitllde de crítica radical, essas mos. Se, agindo ao aCé1SD, c1ptamos progressivamentc a "intenção"
ciências tornaram-se hipotéticas. Portanto, a idéia de seu {11l1 geral da tendência científica. acabaremos por descobrir os elementos
também é hipotética e não sabemos se ela é realizável. Ainda as- constitutivos da idéia teleológica geral, que é própria de toda ciência
sim, sob a forma de hipótese c a título ele generalidade fluida e verdadeira.
indeterminada, lemos essa i(k·ia. Portanto, temos também a idéia Antes de tudo, trato-se elc elucidar o ato de "julgar" e o próprio
de uma filosofia, sem saber se ela é realizflvel e ele que Illanelra o "j ulgamento'-. De In íc io. vamos fazer a cl i st i nção cn tre julgamentos
será j\ceitaremos essa idéia como hlpótese provisória, a título de imediatos c rncdlatos O sentido dos julgamentos mediatos mantém
ens<1io. para guiar-nos nas mcditações. e vamos avaliar em que me- com o de outros uma rciaçiio tal que a crcnça. que lhes é inerente,
dida ela é possível e realizávcl. I~ bem verdade que entraremos "pressupôe" a desses outros Julgamentos: uma crença é admitida
assim cm estranhas complIcações, pelo menos no começo; mas estas porque outra o é. Em seguida, é preciso elucidar o sentido da tendên-
serão lI1evitáveis se nosso radicalismo quiser passar para a ação cia da ciência de "fundamentar" seus julgamentos, respectivamente,
28 i\1 ediraçõcs Cartesianas Primeira Meditação 2')

o sentido do ato de "fundamentar" (provar), ato no qual se deve "de- mentos, mas fundamentá-los. Ou, mais exatamente, ele se recusa a
monstrar" a exatidão ou a "verdade" de um julgamento, Oll, ao cOIÍ- atribuir a um julgamento o título de "verdade científica", para si e
trário, sua "inexatidão" ou "falsidade". Nosjulgamentos m e diatos essa p<lr<l o utros, se de antemão não o fundamentou perfeitamente, e se
"demonstração" é m e diata; apóia-se naquela dos julgame ntos imedia- não pode a cada momento retornar livremente a essa demonstração
tos envoltos no seu sentido e engloba igualmente a justificação des- para justificá-Ia até em seus mínimos elementos. De fato, essa exi-
ses. Podemos "voltar" à vontade, a uma justificação uma vez gência pode permanecer no estado de simples pretensão; no entanto,
estabelecida, ou à "verdade" , uma vez "demonstrad8" . Es sa libcrda- aí e s conde-se um objetivo ideal.
de que temos de re produzir e de perceber novamente e m n OS S<l c o ns- A título de complementação, vale a pena ressaltar ainda o se-
ciência lima verdade concebida, como sendo identicamente "a mes- guinte: é preciso distinguir entrejulgamento (no sentido muito amplo
ma", faz eom que es s a verdade seja para nós um bem definitivamente de intenção existencial) e evidência, de um lado , e julgamento e evi-
adquirido, chamado então de conhecimento. dência antipredicativos, de Dutro. A evidência predicativa implica a
Se , prosseguindo nesse caminho (deve ficar claro que aqui no s antipredicativa. Toda coisa vjsta, respectivamente toda coisa vista na
limitamos evidentemente a simples indica çõ es). analis<lI11os com mais evidência, é express a . Em geral , a ciência quer emitir julgamentos
exatidão o própri o sentido dajustificação ou do conhecimento, so mos express os e fixá-los, a verd<lde, a título de verdade expressa. Mas a
levados à idéia de evidência. Na justificação verdadeira, os julga- expressão como tal corresponde mais ou menos bem à coisa vista ou
mento s dem o nstram sua "exatidão" , seu "acordo", ou s eja , o acordo dada "em si", portanto à s ua evidência ou à sua não-evidência pró-
de nosso julgamento com a própria coisa julgada. Ou, mais exat<l- prias , elementos constitutivos da predicação. Esta torna precisa a
mente: o ato de julgar é uma "intenção" e em geral uma simples idéia de verdade científica , concebida como um conjunto de relações
presunção de que uma coisa existe ou é de tal maneir<l. Ne s se ca s o, predicativa s fundamentadas ou a serem fundamentadas de maneira
o julgamento, quer dizer, o que é colocado pelo julgamento, é some nte absoluta .
coisa ou "fato " ("estado de coi sas") presumido, ou ainda c o isa ou
" fato" visto. Mas, em relação a isso, pode haver ainda um o utro tipo ,
dejulgamento intencional, muito particular, uma outra maneira de ter 5. A evidência e a idéia de ciência verdadeira
a coisa presente em nossa consciência: a evidência. Na evid ê nci<l , a
coisa ou o " fato" não é s omente "vi s ta", de ll1<lneira di stant e e inadc-
quada; ela prój Jrio es tá presente di o n/e d e nós , e o s ujeit o que Assim meditando , rec o nhec e mos que a id é ia cartesi a na cI<l ciên-
julga tem del<l UI113 consciência imanente. Umjulgamento quc se li- cia , no cas o Ull1a ciência lIniv e rs<l1 funel<llllentada e ju s ti fíCil ch. com
mita a um3 s imples pres unção , se é passado na consci ê nci3 à e v id ê n- to do rigor, nada mais é que o ideal que guia constantemente todas as
cia correlativa, ajusta-se às coisas e aos " fatos " e m si. Essa p<lss a- ciências em sua tendência à universalidade, qualquer que seja o gr<lu
ge m tem llm carút e r especial , pe la qual a s imple s intcnção vazia se de s ua realiz3ção prática .
" pree nche -- e se " completa": ela a s sum e o c a ráter de lima sínt e ~e Na evidência, 170 s ell/ido mais omplo desse termo, temos <l
pela recuperação exata ela intui ç iio e ela evidência corre s pond e nte. 3 i expe riência ele um ser e de s ua maneira de ser; é pOl1anto nela que o
intuição ev id e nte de que e ssa int e nção, até e nt50 " distanci<ld<l da c o i- ' olhar de nos so espírito alcança a coi s <l em si. A contr<ldição entre
S<l", é exal<l. nOSS<l " intenção" e a coisa que e ssa " experiênci<l" nos mo s tra produz
Procedendo de ss a fo rll1<l, logo ve mos s urgir ceno s elementos a negativa da evidência Oll a evidência negativa, cujo contellclo é a
fundamentai s da idéia teleoló g ica que rege toda atividade científica. fal s idade evidente . A evidência - que abrange na re alidade qual-
Vemos, por exemplo, que o estudioso quer não apena s emitir julga- quer experiência no sentido c o mum , mais restrito do termo - pode
Al,dirl1 Ffiís ( ~n rtcsimws P'l!11 ám AI cri irn rfio .31
"U

ser mai s Oll menos perfeita. A e1'idêncio perfeila e seu correlato, u Ba staria simplesmente aplicá-Ia, tanto aqui como na sequencla.
verdade' pura e estrita, apresentam-se como lima idéio inerente à Ora, é exa tamente con tra esse "si mple s mente" que devemos no s
tc ndência de conhecer, de preencher a intenção significante; a idéia precave r.
que é possível obter ao se te nt a r viver essa tend ênc ia. A verdade ou Vale sa lientar o que já hav íamos dito a res peito de Descartes: a
a falsidade, a crítica ou a adequação crítica a dad os ev identes, eis aí revoluçào ge ral que levam os a efeito colocou de lado toda s as ciên-
tant os temas banai s que já atuam se m cessar na vida pré-científica. cias e. em conseqüência. a própria lógica. Tudo o que poderia nos
i\ v idJ cotidiana, para se us fins \ariáveis e relativos. pode contcntar- servi r ele ponto de partida possíve I em fi losofia deve se r obtido unic a -
se com evidê ncias e verdades relativas. Já a ciência quer verdades ment e por nossas próprias força s. Uma ciência rigorosa do tipo da
lógi ca tradicional nos será concedida em conseqi.iencia? No momen-
válidos de ImlO ve.::- por todas e pora todos, definitivas, partindo de
to, nada podemos saber a respeito.
verificações novas e finai s. Se, de fato. como e la mesma deve aca-
Graças ao trabalho prepa ratório - mais esboçado do que efe-
bar.se co nvencendo a respeito, a ciênci,l não cun segue ~unslrllir um
tuado ou me smo exp l ic itad o ·~ que acabamos de real izar, adquirimos
sistema de verdades "abso lutas", se precisa o tempo todo modifie<lr
luze s s uficientes para ter condições de fixar um primeiro princípio
as "verdade s" adquirida s, ela obedece, no entanto, à idéia de verdade
m e/(Jc!icu. destinado a reger todo s os nossos esforços posteriores.
absoluta, de ve rdade científica, e tcnd e por aí ir par;l um hori zo nte
A ss umindo como filósofo meu ponto de partida, volto-me para o ob-
infinito de aproximações que convergem tod as para essa id éia . Com
jetivo presumido de lima ciência verdadeira. Em conseqüência, nào
a ajuda dessas apru.x .jmaçües, eld acredita poder ultrcq.Jas';d r seu C\)-
poderia evidentemente ne m em itir nem admitir como válido nenhulIl
nhe ci mento ingên uo e assim ultrapa ssa r infinitamente a si próp~ia. julgallJl.'nto, se 11(70 o obtellho a partir da evidêllcia, ou seja, em
Crê poder fazê-lo também pelo objetivo q ue se propõe, o da universa- e:'\periências em que as "co isa s" e os "fatos" em questão me são
lidad e siste mática do conhecimento, universa lidade relativa. seja num apre se nt ados "em si". Deverei, então, é ve rdade, refletir sobre a evi-
determinado campo científico fechado, seja na. unidade uni\ersa l do dên cia em questão, avnliar seu alcance e tomar evidentes para mim
se r em geral, a qUJI deve press upor se se trata de umJ "filosofi<1"'c seus limite s e se u grau de "pe rfeição", o u seja, ver a que ponto as
se ela de ve ser possível. Em conseqüência, do ponto de vista dJ in- ' coisas me são realmente mostradas em si mesmas. À medida que
tençi"ío final. a idé ia de ciência e de fil osofia impl ica l/IIIU orc!i!11/ di! ho uver falha na evidência. não poderei querer chega r a nada de defi-.
conhecime ntos ul/lerio res em si. re lucionados (/ oUlros. elll .\ i nitivo: na melhor das hipóte ses, poderei conferir aoj ul ga mento o va-
1)()s{eriores. c, no final das contas , U III começo e 11111 progresso. lor de uma etapa int e rm ediá ria possíve l no caminh o queleva a ela.
começo c progre sso nã o fortuit os. mas , ao con trário, funclamellt ,ld os As cicllcias v isam a predica ções destinadas a fo rnecer uma
"' na nature7.;1 das própria s coi sas'". expressão comp leta e adequada da intuição antipredicativa . Fica cb-
Assi m. sem que tenham os prej u Igado o que quer que sei a so bre ro que esse a s pecto da evidencia científica não deverá ser negligen-
a possibi lidade de uma ciência verdadeir,l ou sobre Ui1l ide,ll científi co ciado. A lin guage m comum é fugidia, equívoca. Tlluito pouco exige nte
prc tensam ellte "natuf<1 I", pelo simples fato de que vivernos por meio quanto à ;ldeq uaçi"ío dos term os. É por isso que, <l li mesmo onde se us
de nos s<lllleciitaçfio o e sforço cielltífico no que ele tem de mais geral, meios de e"pressiio serão empregados, sera pre c ISo cOl ltenr as s ig-
vemos surg ir ce rtos elementos fundamentais da idéia tel eo lóglca dc nifi eaçôcs U1ll novo fundamellto. orielllj-Ias de modo orig inal sobre
ciência verdadei"l. idéia que, ilin da que c1e maneira muit o \agil de as evidências adquiridas 110 tr,lba lho científico e fí:'\ar Ila linguagem
início , o ri enta esse esforço do pcn s;jl1lento científico. Que n30 se esses significados fundilll1 enw dos de rUfIl1 ,1 nova. O princípi o metó-
diga aqui: De que se rve se incom odar com con stata ções semelhan - dico da evidência, que, a partir de agora, deve reger todos os nossos
te s? Elas pertence m e lmarnente à ep istemologia geral ou à lóg ica . esforços, prescreve-nos essa tarefa.
~2 j\1.cdltaçõr.s Cm'tcsian as PnmciraMedita.çiio
. ,
~.)

Masde que nos serviria m esse princípio e todas as meditaç ões íntwçao correspondente. O aperfeiçoamento dá-se, então, numa
efe tuadas se eles não nos fornecessem o meio de adotar um ponto de
partida real , permftindo-nos concretizar a idéia de ciência verdadei-
ra? Essa idéia implica a de uma ordem sistemática de conhecimen-
progressão s intética de experiências concordantes, em que essas in-
te nções s ignificantes c hegam ao estado da experiência real, que os ••
••
confirma e preenche. A idéia correspondente de perfe ição se ria a de
tos, e de conhecimentos verdadeiros. Em conseqüência, o verdadeiro evidência adequada , sem que pesquisemos se, em princípio, essa
probl e ma inicial é este: quai s são as verdades primeiras em si que idéia es tá ou não si tuada no infinito.
deverão e poderão sustentar todo o edifício da ciência universal ? Se
o objetivo que presumimos deve ser praticamente realizável, é preci-
so que nós, que meditamos com o absoluto despojamento de todo
Ainda que essa idé ia não cesse de guiar as preocupações c ie n-
tíficas, um ou tro tipo de perfeição da evidência assume aos olhos
do estudi oso uma dignidade mai s alta. Nós o captamos à medida que,
••
conhecimento científico, possamos atingir as evidências que trazem,
nelas mesmas~ a marca dessa prioridade, no se ntido de que sejam
reconhecidas como anteriores a todas as outras evidências imagináveis.
como dissemos, tentamos "viver" suas preocupações científicas. Trata-
se da apodicticidade. A apodicticidad e pode, conforme o caso, per-
tenc er a evidências inadequadas. Ela possui umo indubitabilidwle
••
Mas a evidência dessa própria prioridade deverá comportar també m
ce rta perfeição, lima certeza absoluta. Isso é indi spe nsáve l se quiser-
abso lllta de uma categoria especial e bem determinada, aquela que
o estudioso atribui a todos os princípios. Manifesta a superioridad e ••
mos que o progresso e a edificação, a partir dessas evidências primi-
tivas , de uma ciência adequada à idéia de um s istema de conheci-
mentos - com a infinidade que , presume-se, essa idéi a implica-,
de seu valor na tendência que tem o estudioso de justificar novamen-
te e num plano superior os raciocínios já evidentes em si, elevando-os
a princípios, e de lhes proporcionar dessa forma a dignidade suprema
••
tenha algum sentido. da apodicticid a de. O caráter fundamental dessa evidência deve se r
descrito, com o se segue.
Em cada evidência, o ser ou a determinação de uma co isa é
••
6. Diferenciações da' evidência. A exigência filosófica de
uma evidência apodíctica e primeira em si
captada pelo es pírito no modo "el a mesma" e com a certeza absolnta
de que esse se r exi ste, certeza que exclui a partir de então qualqu er ••
poss ibilidade de dúvida. No entanto, a evidência não exclui a possibi-


'•.•
lidade de seu objeto tornar-'se, e m seguida, objeto de dúvida: o ser
Mas n esse ponto inicia l e deci sivo em qu e n os encontramos, pode revdar-se uma simples aparê ncia; a expe ri ênc ia sensível no ~
trata-se de ir cada vez mai s adiante em nossas m editações, Í.:: preciso fornece muit os exemplos dela. De resto, essa possibilidade, ~e mpre
e lucidar a expre ssão de cerlez.{/ olJsolllta ou, o que dá no mesmo, de aberta ao obje to da evi dência de tornar-se, e m seguida, (lbjc to de
illdllbitabi lidade absoluTa, Ela atrai nos sa atenção para O fato de dú v ida, de poder nã o se r - apesar d(l evidência - , pode se r prc-
que , à luz de uma explicação mai s completa, a perfeiçào ideal exigida visl<l po r nós por meio de um a reflexão c rítica. Em contrapartida ,
para a evidêll cio dlferenciu-se, Ei-nos aqui no limi a r da medit ação
fil osófica , tend o diante de nós a infinidade ilimitada das ex peri ê nc ias
ou e vidên cias pré-científicas. Ora, todas são mai s ou men os perfei-
uma n'idéllc ia opodícTica tem essa particularidade de não ser so-
mente, de m ane ira geral. ce rtez a da exis tê ncia da s co isas ou "fa tos"
ev id e ntes: e la se revela ao m es m o tt::m po à retlexão críti ca co mo

tas. Aqui , impe rfeiçJo que r dizer, em regra gera l, ill.l'lIficiên<Ío i'\S
l: v idência ~ imperfeit as são Lmilalc ra is, relati va me nte obSl't1 raS, indi s-
uma impossib ilidade absoluta d e que se conceba a sua não-e xistência
e, portant o, exclui de antemão toda dú vida im ag iná ve l COlllO despro - ••
••
tinta s quanto à man e ira pela qu a l as coisas ou os " fat os" süo ,lí mos- vicia clt:: se ntido. Al é m di sso, a ev idência dessa reflexdo crílica em si
trado s "e m si". A "experiência" no caso é , portanto, viciad a por ele - é ainda uma ev idência apodícti ca ; em conseqüência, a ev idên c ia da
m entos de inten ção significan tes não preenchidos (lindo por wno exis tê ncia de ssa impossibilidade de não ser aquil o que é dad o e m

••

l',.fcditações C nrtcsirmas 1 'rimcirn 1Hcditt1ftZO 35
34

um a ce rteza ev id e nte também o é . E o mesmo vale para qualqu e r qu ant o ~Iqu e hl s d e to d as as c iê nc ias, qu e tê m o mund o co m o objeto,
reflexão crítica de ordem mai s e levada. ciências d as q u ais a vida é , aliás, o fundam en to e o s up o rte perma-
Reco rd e mo s im ed iatamente o princípi o c artesian o da indu- ne nt es. No e n t,mto , pod e m os nos pe rg uIllar se, ness a fun ção de an-
bitabilidade ab so luta, pel o qual deve ria se r exc luída qualqu e r dúvida teri o ri dade CJue é a s ua , e la p o de a lm ejar a um ca rá te r apodíc tico .
c oncebíve l e m es mo qualqu e r dú v ida não ju stific ada, e vam os lem- Prossegu ind o llessa dúvida , achamos que e la nã o pode nem m es mo
brar di sso à medida que ele serve à edificação de uma c iência verda- almejar o privilégio da ev id ê ncia prime ira e absoluta.
deira. Graças à no ssa medita ção, esse princípi o foi se ndo prog ress i- N o qu e CO llcern e ao prime iro ponto, fica claro qu e a experiên-
va mente realçado e assumiu fo rma mai s c la ra. Trata-se agora de cia sens íve l universal , na ev id ê n c ia da qual o mundo nos é perpe tu a-
sabe r se ele p o de nos ajudar a ad o ta r um po nt o de partid a re a l e de m e nte dado , não sa be ria ser co n s ide rada se m m a is como a p odícti ca,
que maneira po d e fazê-lo. Conforme nossas afinnações a nteri o res, a ou seja , como exc luindo d e man e ira abso luta a poss ibilidade d e duvi -
primeira pe rgunta a se r formulada por uma filosofia que se ini c ia é a dar d a ex is tê n c ia d o mund o , qu e r di ze r, a p oss ibilidade de sua não-
seg uint e: podemos " d escobrir" evidências que contêm a "apo díc ti ca" existência. Uma experiência indi v idual p ode perder seu valor e ver-
adia ntar, co m o " prime iras e m si", todas as o utra s evidências concebí- se deg rad a r a nt e um a s impl es aparê ncia se n s ível. També m tod o o
vei s, e ao m es mo tempo percebê-las co m o apo dícti cas? S e elas fos- co njunto d e ex pe riên cias, d o qu a l podemos abraçar ti unidad e, p oel e
se m in a dequ ad as, ao menos de ve ri a m te r um conteúd o apodíctico reve lar-se co m o s imples apa rên c ia e ser apenas um "so nh o coere n-
passível d e se r co nh ec id o, um co nt e úd o as segurad o, g r aç a s à te" . Não é o caso d e j á ver ness a s obse rvações qu e. acabamos d e
a po di c ticidade, "de uma vez por todas", ou seja, d e man e ira abso luta e fa zer, so bre a s mudança s bru sc as poss íve is e rea is d a ev id ê ncia , uma
inquebrantável. A questão de como se pode e de se é poss ível ir mais crítica sufi c ie nte de ssa própri a ev id ênc ia, ne m uma prova perempt ó-
lo nge na construção de uma filo sofia apodicticamente segura com ce r- ri a de que pode mos conce ber a nã o-ex istê nc ia do mundo, apesar d a
teza há de ser uma cura posterior. expe ri ê nc ia co ntínua qu e te mo s d e le O imp o rtant e é le mbrar o se-
guinte: se qu ere m os fundamentar as c iê ncia s el e man e ira radical ; a
evidência do mund o qu e LI experiê nc ia nos fornece necess ita de qual-
qu e r forma de um a críti ca p rév ia d e sua au to ridad e e de se u a lcan ce:
7. A evidên. cia da existência do mun.do não é apodictica;
pOl1anto, nJO podemos, se m co nt es ta çJo, co ns id e rá-I a co m o apodíctica.
sua inclusão na reJ7olucão cartesiana
J N ão bas ta e ntão suspe nd e r nossa adesão" tod as as ciê ncias e tra tá-
las C0 l11 0 prcj ul gal11c lll os inadmi ssíve is p,lr<1 n ós. É prec iso tam bé m
o proble ma re lativo ús evidê nc ias prime iras e m s i parece reso l- retir<lr cio t ~' ITc n o lllli ve rs,ll , cio qu ;t! CL1 S se ,t1ime nt a lll , cio te rre no d o
ve r-se se m dificuldade. A ex is tê nc ia d e um mundo não oco rre como muncl o e mpíri co, sua aut or ida d e cspo lltiln ca. A exis tê ncia el o mund o.
uma ev idê ncia d esse tipo') Ao mund o re lac io na -se a atividade da vida fundam e ntada n a ev idên c ia da ex periê ncia na tura l, não pode m a is
co ticli ;ma, assim como o conjunto das c iênc ias, as c iê nc ias de fato de ser para nós UJ1l fato que ocorre por si: ela e m s i não é pJra nós m a is
for ma im ed i.ll a, as c iê nc ias ap ri or ísti C<ls de fo rma m ed iata co m o in s- gue um obje to de ,lfirm ação
trurnentos de mét od o . A ex is tê nci a elo mund o OC OITe por s i: eJ,) é d e T\1a s se 11 0S ati ver m os a esse p o nto , restar-nos-á a ind a uma
!<lI for ma na tural que ninguém pe nsa rj em e nun c iá-la exp li c itame nt e base para jul g amentos qu,lisquer, ,ll é mesmo ev id ê n c ias, base gu e
num<l propos ição. Não te m os nós LI cO Iltinuidade d a experiência, e m possa sCl"vir de fund a me nt o, e el e fumLtmc llto apodíctico a uma fil o-
qu e o Jl1l1nd o est,í o te mp o to d o presente diant e d e no ssoS o lh os de sofia llni \'crs,l]"l O mund o n:í o e n g lob 'l a ulli\'crsalidade ele tnd o o glle
man e ira in cont es t6vel? Essa ev id ê nci a é, e m s i própria, anterior, tan- é? Pode ría mo s a partir daí ev itar leva r a efei to, ainda ass im , in eXTen-
to ~l S evidê nc ias da v ida co tidiana , qu e se re laci o nam co m o mund o, so e a títul o de tarefa primeira, a c ríti ca d a exper iê nc ia do mund o qu e
36 1\-1cditações Cm'tcúanas P"imcim i \1cdiração 3

acabamos de esboçar? E se o resultado dessa crítica se afirmasse ela tanto, o que torna p ossíve l que haja para mim uma crítica do se r
forma como o havíamos supos to, seria então o fracasso de toela nos - "verdad eiro", que determina o próprio sentido da validade de uma tal
sa empreitada filosófica ? Mas o que dize r se o mundo n50 fos se . no
final das contas, o domínio absolutamente primeiro de todo julgamen-
to, e se com a existência desse mundo já estivesse pressuposto UI11
asserção.
E mais: se, como pude fazê-lo livremente e como realmente
acabo de fazer, abstenho-me de toda crença empírica, de maneira
••
domínio de ser anterior em s i? que a existência do mundo empírico não mais seja válida para mim,
essa abs te nçã o é O que ela é, e está incluída e m todo o coticliano da ••
8. O ((ego cogitoJJ.como subjetividade transcendc'fltal
vicia perceptiva. Essa vida está co ntinuamente ali para mim, tenh o
constantemente a consciência perce ptiva dela num campo de per-
cepção presente; ora ela está presente para mim em sua originalida- ••
Façamos aqui , seg uindo os passos de Desca rte s, o gr;lnde ges-
to de voltar-se sobre si mesmo, o qual, se corretamente r'ea li zado,
ele mai s concreta, ora tais e tais formas passadas dessa vida " to r-
nam-se novamente" conscientes para mim pela memória, e isso implica
que elas se tornem novamente conscientes como "essas própria s for-
••
conduz à s ubjetividade transcendental: o debruçar- se sobr\:; o ego
cogito, domínio último e apodicticamente celta sob re o qual deve se r
f undamentada toda filosofia radical.
mas passada s". Posso, a qualquer momento, na reflexão , dirigir um
olhar de minha atenção a essa vicia espontânea, captar o presente
como presente, o passado como passado, como eles de fato são. E o
••
Reflitam os. Como filósofos que meditam de man ei ra radical ,
não possuímos no momento nem uma ciênc ia válida nem um mundo
faço agora como eu filosófico , que pratica a citada abstenção.
Num certo sentido, para mim , o mundo percebido ne ssa vida ••
••
exist e nte . Em lugar de meramente exi stir, ou seja, de se apresentar a reflex iva es tá sempre ali; ele é percebido como antes, com o conteú-
nós apenas na crença existe n cia l (naturalmente válida) da e .' pe ri ên -

I•.
do que, e m cada caso, lhe é próprio. Continua a aparecer para mim
cia, esse mundo é para n ós uni ca mente um fenômeno que cria uma como até então, ma s, n'a atitude refl ex iva qpe me é própria como
pretensão de existência. 1sso te m qu e ver tamb ém com a existênci<:) filó so fo, nã o efetuo mais o ato de crença existencial da experiência
de todos os outros eus, na medida em que eles fazem parte do mundo natural: não admito mais essa crença como válida, ainda que, ao me smo
circundante, se bem que no fundo não tenhamo s mais o direito de tem po, c la es teja se m pre aI i e po ssa até mesmo ser ca ptad;l pelo
falar no plural. O s o utro s homens e os animais não passam par.:! mim
de dados de experi ê nda decorrentes daquela sensíve l que ten ho de
seus corpos; pOl1anto, nã o poss o me servir da a ut oridade desta . pos to
0 1h;1r da atenção. O mesmo vale pma tod as as outras intenç ões que
pertencem ao meu cotidiano de vicia c que ultrapassam as intuições ••
que seu valor é colocado em questão. Com os outros eus desapare-
cem naturalmente todas as formas sociais e c ulturai s. Em re Stlmo ,
e mpíricas: re presentações abstrata s, julgamentos de exi s t0Jlc ia c de
va lo r, determ inações , pos ições de fin s e de m e ios , etc.; ta 111 béll1 n:l0
executo mais atos de autodetermina ç50, não " tomo posição": atos
••

não so mente a natureza corp o ral, mas o conjullto cio 111und o concreto
que sã o natural e necessariam e nt e executados na atitude irrefl e tida e
que m e circunda, a partir de ago ra , não é mai s pa ra mim um 111undo
ingênua da vida cotid iana ; ab ste nh o -mc de fazer isso precisamente
ex is ten te, mas somente " fenômeno ele ex istênc ia :'.
na medida em que essas atitude s press upõe m o mundo e, por1anto,
No entanto, qu a lqu e r que seja a pre te nsão exi s tenc ial rl'a l in e -
rente a e sse fenômen o, e Cju;Iiquer que seja, e m reldçà n a i~ Sll. a
miJ1ha deci são crítica - que cu opte pelo se r o u pela ;tparênci:1 --,
contêm nela s lima crença existcncial rel at iva ao mundo. Também aí
,\ a b s t e n ç 8 o e o a t o d e d e i x a r c m s e g un d o p Ia n o a s a t i t u cI c s ••
••
determinativa s pelo meio reJ1ex iv o do filósofo n30 s ignificam que e las
esse fenômeno, como m e u. não é um puro nada . Elc é, ao contrário,
de sa pareça m de se u campo de experiência. Os estados ps íquicos
justamente o que me torna possível uma tal de c isão: é também. po r-
concre tos, vale repetir, são o objeto do o lhar da atenção; mas o eu

••

Primeira lvl ailrnçiio 39
;~ /vI ( dirn( rlc<C nrtcsit17/aJ

coloca "o mundo" como existente, se volto exclusivamente para essa


atcn c ional, como e/l filo só fico, pratica a abstenção em relação a esse
vida em si, na medida em que ela é consciência "desse" mundo, en-
,ldo intuiti vo. D~l me s ma forma , tudo O que nos estados vividos des-
tão me encontro co mo ego puro, com o cotidiano puro de minhas
se tipo estava , no scio da consci ênc ia significante, presente a título de
cogirationes.
coisa visado, ou seja, um julgamento determinado, uma teoria dos Em conseqüência, de fato, a existência natural do mundo - do
valore s ou dos fins, nada dis so é suprimido. Mas todos esses fenôme- qual posso falar - pressupõe, como uma existência em si anterior, a
nos perde ram sua "validade" e sofrem uma "modificação de valor"; do ego puro e de suas cogitationes. O domínio de existê ncia natural,
eles nJ o passam ilgora de "simples fellÔmenos·'. portanto, só tem uma autoridade de seg unda categoria e pressl1põe
Em conse qü ê nc ia, essa invalidação universal , essa "inibição" sempre o domínio transcendental. É por is so que o esforço
de todas as atitudes que pod emos tc r em relação ao mundo objetivo fenomenológico fundamental, ou seja, a E1l0Xll transcendental, na
- e, de início, das atitudes relativas à: existência, aparência, existên- medida em que nos leva a esse domínio original, chama-se redução
c ia poss ível, hipotética, prov áve l e outras - ou, ainda, como se.cos- fenomenológica transcendental.
tunJa di ze r: essa E1lOX11 fenomenológica", essa "colocação entreya-
rênt eses" cio mundo objetivo, não nos põem diante de um puro nada.
O que, cm contrapartida e justamente por isso , torna- se nosso, ou
melhor, o que dessa fo rma torna- se me u, a mim sujeito que medita, é
9, Alcance da evidência apodíctica do ((eu sou J)
minha vida pur~l com o conjunto de seus estados vividos puros e de
scus objetos intencionais, Oll seja, a universalidade dos "fenômenos" A qu es tão seguinte é saber se essa redução toma possível uma
no se ntido especial e ampliado da fenomenologia. Pode-se di ze r as- evidên cia apodíctica da existência da subjetividade transcendental.
sim que <1 E1l0Xll é o método universal e radical pelo qual me perce- A experiência transcendental do eu não poderá servir de suporte a
bo co mo eu puro , com a vida de consciência pura que me é própria, julgamentos apodícticos, a não ser que ela própria o seja. É só então
vicia na qual e pela qual todo o mundo objetivo exi ste pãra mim, exa- que uma filo sofia se rá poss ível , ou seja, que ela será possível de criar,
tamente da fonna como exiqe para mim. Tudo o que é "mundo", a partir de sse campo de experiências e de julgamentos original , um
todo ser cs pa c i~ll c temporal ex iste para mim, quer dizer, valc para edifício s istemático de conhecimentos ap odíc ticos. Que o ego S Wl1
l11im~ o próprio fato de e u te r dele a experiência, de percebê- lo, ou o S /.I!J1 cogitans dev a se r visto como apodíctico e, portanto, que
rCTll clllorú-lo , pensar ne le de qu,t1qucr maneira, elaborar e m relaçJo com cle tenham os so b nossos pés um domínio de se r apodíctico e
d \.:Ic julg;lmenlOs de ex istência a li de valor, clesejj -lo, e a\s im por primeiro, Descart es , sa bemos, já vi u Ele assinala be m o clr:it e r
di'lnte. Tudo is :-;o. DCSGlrlcS des ig na. como se sa be, pela p;t1él vra indubitá ve l de ssa proposição e afirma e m alto e bom tom que mcsm o
C()giTO. A bem dizer, o mundo n:io é para mim outra coisa senã o O o eu duvido jú supõe o eu SO I/. Trata-se, é c laro, também no caso
que exi ste, e vale para a minh~l co nsc iência num cogito semclh'lIlte. dele, do e u que percebe a s i próprio, apó s te r colocado de lado o
Todo o se u sc ntido uni ve rs.t1 e )J<lrlicular, toda sua validad e ex is tcn- mund o empírico como p ode ndo se r objeto dc dúvida. Fica claro, após
Ci:l!. cle os tir~l exclusivanwnte de\sas cogit(l/iollcs. N e las tran sco r- nossos esclareciment o\ . que o \cnticio da certeza na Cjual, gr~lças ;1
re toda d minha vida intrzlmundana, portanto também .15 Pc sCluisas e red ll c; Jo transcendental. o ego con seg ue revelar-se a nó s correspon-
es forço s CJue te nham que ver eom minha vida científica. NJo ])OS\O de realmente :10 conceito de apodicticidade que explicitamos acima.
VI\'e r, cxperill1Cn!<IL pCnS(\L ]) JU posso agir e e mitir julgamentos de É verdade CJue o problem<t ela "podicli c id<tele e. dessa rorm,1. o
\',l1or num mundo OUlro que ,1LJlICil: CJue enc o ntra e m mim e lir'l de cio fllnddm c nto primeiro de Uilla filosofia ainda nJo está de 1ll:\IlCir:l
mim mes mo scu sentido e s ua valid'1de. Se me coloco llcima de toda alguma re so lvido. Com efeito , as dúvida s Jogo s urgem. Por exe mplo,
essa vida e me abstenho de e fetuar a menor crença existencial que a subjetividade transcend e ntal não contém necessariamente seu passa-
40 j11edirafue>" CClrtesian m
Primrirn Meditarão ·11

do eventual, acessível, por sua vez, apenas pela memória? Podemos


possuem -ou pretendem pos suir - de poder ser "preenchidos" por
••
pe nsar no caso dela numa evidência apodíctica? É verdade que seria
falso querer negar por causa disso a apodicticidade do eu sou; isso
só é po ss ível se, em lugar de a tomarmos presente, limitanno-nos a
argumentar de maneira totalmente externa. Mas há um outro proble-
uma intuição correspondente deve ser submetida à crítica, que, even-
tualmente, limitará de forma apodíctíca seu alcance. Em que medida
o eu transcendental pode enganar-se a respeito de s i próprio, e até
••
onde se estendem, apesar dessa ilusão possível, os dados absolutos e
ma que irá se colocar agora: o do alcance de nossa evidência
apodíctica.
Vamos lembrar aqui uma observação anterior. Numa evidência,
indubitáveis?
Por outro lado, ao instituirmos o ego transcendental - e nles-
mo se negligenciarmos por enquanto os proble mas difíceis re la tivos à
••
dizíamos então, a adequação e a apodicticidade não Ilecessaria-
mente camillham juntas. Talvez essa observação, no fundo , visasse
apodi.cticidade - chegamos a um pont~ perigoso .
••
••
ao caso da experiênciÇ! transcendental do eu. Nessa expe riência, o
ego é originalmente acessíve l a si mesmo. Mas, em cada caso, essa
experiência não oferece mais que um núcleo de experiências "propria- 10. Digressão. Como faltou a Descartes
mente adequadas" . Esse núcl eo é a presença viva do eu, tal como o
expressa o sentido gramatical da proposição ego cog ilO. Para além
desse núcleo, estende-se apenas um horizonte indete rminado, de uma
a orientação transcendental
••
•. :
Pode parecer fácil, se acompanhamos Descartes, captar o e/l
generalidade vaga, horizonte daquilo que, na realidad e, não é o objeto puro e suas cogitationes. Mas, no entanto, parece que acabamos
imediato de experiências, mas somente o do pensamento, que, neces- chegando num cume escarpado. Avançar com calma e segurança

••
sa riamente, o acompanha. A esse horizonte pertence o passado do por esse cume é uma questão de vida ou mone para a filo sofia Des-
eu, quase sempre totalmente obsc uro, assim como as suas faculda- cartes tinha a firme vontade de se desfazer radicalmente de qu,llqtler
des transcendentais próprias e as particularidades que, em cada caso, preju lgamento. Mas sabemos, graças a pesquisas recentes e sob re-
lhe são habituais. A percepção ex terna (que certamente não é
apodíctica) é, sem dúvida , uma experi ê ncia do obj eto em si - o pró-
prio objeto es t:i ali [diante de mim] - , m as, nessa presença, o objeto
tudo aos excelentes e profundos trabalhos de Gilson e Koyré, quant os
"prejulgamentos" não esclarecidos, he rdados da escolástica. as Me-
rlúoÇ"(Jes ainda contêm . Ma s isso· não é tudo; é preci so acrescentar
••
possui, para o SUj e ito que percebe, um conjunto aberto e infinito de
possibilidades inde terminada s que não são, elas próprias, atualmente
percebidas. Esse espec tro , esse ·'horizonte" é tal que implica a possi-
<.linda o prejulgamcnto que mencionamos acima, deco!Tc J1le ele sua
admiração pelas c iê ncias m;lt em;' ti cas. Nós próp rios sofre m os ;lin(b
J influência de ssa he rança anti ga, da qual deve mos nos resgua rddl
••
bilidad e de ser determinado em e por experiências possíveis. De
maneira igualmente análoga, a certeza apodíctica da experiência
Falo da te ndência a consider;\r o ego cogiTO como um "axiom;l"
apodíctico, que, junto com outros ainda não desvelados, ou me ~ mo ••

transcendental percebe o meu e ll sou transce ndental como ca paz de com hipóteses encontradas por um caminho indutivo. deve servir de
implicar a ind e terlTlina~ão de um horiz onte a berto. A realidade cio /"undamento a uma ciência "dedutiva" e exp licativa do mundo. ciên-
domínio de conhecimento origina l está, portant o, absolut,ll11Cnle esta- Ci;l "nomológica", e CJue procede orrli/le gCOIl1eTrico exatament e igual
belecid;l , mas també m sua limitação, que exclui tudo aquilo CJue aincla ús ciê ncias matcm;íticas. De furmd corrclata, não deveremos pens<lr
de 1l1,1llcira ,1IgUI11<.l que, em IWS -;O c' 1I J)lfro <Ipodíctico, conseguimos
nã o se apresentou, "ele próprio". a desco berto na evidênci,l viva elo
preser var uma pequ c na parccl;1 ci o mundo. parc e la que, p"rd o ( ' /f
cu SOLl. Todos os atos de pensamento s ignificante que <Jcompanham
ji/osófico, se ria a única co is;l não s uj e ita à dúvida , e que se tr,\t,\
a experiência da evidência transcende ntal - e são implic;ldos por
agora de reconquistar, por deduções bem conduzidas e seguindo ()s
ela - não concorrem para sua apodicticidade, e a possibilidade que princípios inatos ao ego, tocl o O res to do mundo.
42 i'vJ.crútnçe"'i.:s C nrtesirmas 1'17i11 Úm .;"''f..dira~iio 43

fnfelizm e nte, é O que acontece com Descartes, em res ultaclo de outros homens servimos de objeto ,1 s ciências positiva s ou objetivas
uma confusão, que parece pouco importante, ma s acaba se ndo muito no se ntido comum d o termo, como a biologia, a antropologia e a ps i-
fun esta , e faz d o ego uma substant ia cogi/ans separada, um m ens cologia empíricn. A vida p s íquicn, de que fala a psic o log ia, sempre
sive animus humano, ponto de partida de raciocínios de ca usalidade. foi concebida como vida psíquica n o mundo. Isso vale manife sta-
É essa confusã o que fez de Desca rtes o pai do contra-sen so fi losófi- mente tamb é m para minha própria vida , já que podemos captá-Ia e
co, qu e é o reali s mo tran sc end e ntal, o que , no entanto, não podemos anali sá-Ia na e.\.periência puramente interna. Mas a oWXTJ feno-
ell\:ergar ainda. Nada se melhante nos acontecerá se p e rmanecer- men o lógica. tal com o exige de nó s o andamento da s Meditaç ões
mos fi é is ao ra dicalismo do voltar-se para si me sm o e, d ess a forma , cartes ianas pllrificada s, inib e o valor ex istencial do mund o obj e tiv o e,
ao princípio da " intuição" (ou evidência) pura , e s e, e m conseqüênci a, d essa forma , o exclui totalm e nte do ca mpo do s nossos julgame ntos.
fizerm os valer a penas aquilo que nos é dado realmente - e imedi a - O mesmo se dá com o valor ex isten c ial de to dos os fa tos obj e tiva-
tamente - n o campo do .ego cogito que a ErroXll nos abriu; portan- mente con s tatados pela experiência ex terna , assim como daqu e les
to, se ev itarm os e nunciar o qu e nós próprios nã o v emos . Descartes da experiência interna . Para mim , sujeito que medita , co locado e per-
não se conformou pl e namente co m esse princípio. É po r is s o qu e, sistindo na é: nOX11', e pos icion a ndo-m e assim como fo nte exclu s iva
num certo sentido, tend o feito já a maior das desc o bertas , não captou de to das a s afirmaç ões e ele to das as justificações objetivas. ele I1Zio
nela o se ntido c o rreto , O da subj e tividade transcendental. Ele não atra- é, portant o , nem eu psicológico ncm feno men os psíquicos no se ntido
vessou O pórti co que leva à filo sofia tran scend e ntal verdad e ira. da ps icolog ia. o u seja, compreendidos como elementos reais d e se res
humanos (ps icofísicos) .
Pela EnoXTJ fe n om enol óg ica , redu zo meu eu humano natural e
11. O ((eu JJ psicológico e o ((eu JJ transcendental. minlw v ida rsíquica - el o míni o d e minha experiênc ia psicológica
int ern o __ a mc:u eu transc e ndental e fenomenológico, domíni o da
A transcendência do l1~undo
o

exp eriêncio interno transcende77/ol e fenomenológica. O mundo


objetivo, que ex is te para mim , quc ex istiu ou ex is tirá para mim , esse
Se mante nho em s ua pure za o qu e, pela li vre EnoXll e l11 rel a- mun do objetivo e o m to dos o s s e us o bj e tos encontra em lIIim mesmo,
çZio D. ex istência do mund o empírico, se o fe rece ao meu olhar. a lúil11 . com o disse ilcim,L to do o sentido e to d o o val o r existencial que te m
s ujeito que m e dita , capt o Ull1 fa to s ignifi ca ti vo : que eu m e s m o e mi- para mim; cle o s encontra no II/C/! ell trulJ.lu:lldell tal, que só reve la
Ilha prórria vida permall ec em os intato s (qu:lJ1to à posição dc nos so a EnoX11 fellolllcnológic1 tr'1Jl sC Cnd ,; ll\(ll.
ser qu e perm a n ece válida), qu a lquer qu e seja a ex istênci a ali n ão - De\CI1 WS bus c lr esse c o nccitu llc tr,lIlsccnclclltal e se u conel :l t',.
e\: is tên c ia do m li nd o, e q lla Iq lIU que possa se r o julgament o q lIC tere i o c once ito de tr,mscendenle. c\:cJus i\<1mc nt e em nos sa própria Illedi-
so bre esse suj ei to . E ss e e u e s ua v ida p sí quic a, que mantenh o nec es- tação fil osó fi ca . ;\ e s se rc s pe ito, vale ressaltar quc se o cu re du z id o
sariamente ape sa r da f noXll. n{ío sZio uma parte elo mundo: e se nZio é ul11a p:lrte cio mundo. da meSll lZl (0 1'111<1, in ve rs<1m e ntc, o mundo
esse e u diz: ElI so u, cg () (;og i/ o . iss o ni'ío mai s quer dizer: E u, como e se u s obj e tos 11;1 0 S:IO parte s re a is (lo meu e /l. Não é p o ss ível
esse ho mcm. so u "E u " nJ o é mai s o ho mem que se perccbe n a enc o ntr,í-l o s Cm Jllil1h a v ida pSÍqUi C:1 c u m o r a rte s re ai s des s<l vid<l,
intui çZio niltmal de si c Oll s idcrad o co mo ho m e m natural, nem tamp o uco com o um complexo de d<ld o s sc nS()ri ,l is ou de atos p síq uico s . ESS ,1
() hon lC': Jll que . limitad o pe l:l ab straçZio a os eJéld os puros da e \:pcri ên - /rol1 scel1dêllCIU é In e rente no s elll id u cs pcc ífíco elc tlid o o qu e faz
cia " int e rna " e puram e nte ps ico lóg ica, ca pta se u próprio JIl l! Jl S .., II ·I! pnrle do l1lundo, ,1iJl (1;} que n ,ll) pOSS<t lll OS dar a e ssc " nlllI1d \) " c a
U77iIl7US sive in/ellcc/lIs, nem me s mo a alma, e ln própri a. tomad a suas de terminaçõe s nenhum \) ulro scn lido senão aqu ele que c\: traí-
separadamente. Ness e modo de percepção "natural", eu e todos os mo s de nossa s experiências, n::p nêsclllil ções, pen samentos,j ulgamentos
44 ,V1cditaFõcs Cartesianas

de valor e ações, da mesma forma que não podemos justificar a atri-



buição a esse mundo de uma existência evidente, a não ser p::Htilldo
de nossas próprias evidências e atos. Se essa "transcendência" de SEGUNDA ••
inerência irreal pertence ao sentido próprio do mundo, então o eu em
si, que carrega nele o mundo como unidade de sentido e que justa-
mente por isso é uma premissa necessária dele, esse eu chama-se
transcendental no sentido fenomenológico do termo, e os problemas
MEDITAÇÃO
.'••
fílosófícos decorrentes dessa correlação chamam-se problemas fílo-
sófíeos transcendentais.
o CAMPO DE EXPERIÊNCIA
•.'
TRANSCENDENTAL E SUAS
ESTRUTURAS GERAIS
••
12. Idéia de um fundamento
••
transcendental do conhecimento

Vamos agora dar uma nova direção à nossa meditação. Somen-
te dessa forma os resultados de nossas consideraçoes anteriores po-
derão gcrar seus frutos. Eu, que medito segundo o modo cal1csiano,
••
o que posso extr:1ir do eu transcendental do ponto de vista filosófico?
Cert:1lllcnte, do ponto de vista do conhecimento, o ser desse eu pre-
cedc qualquer existência objetiva. Ele é num certo sentido o scu do-

••
mínio. em que se fOflna todo o conhecimento objetivo no sentido nor-
malmente atribuído a esse termo. Mas esse fato de "preceder·' todo
o conhecimento objetivo acaso quer dizer simplesmente fazer uma
"premissa" dele? Não que se trate de abandonar a grande idéia
••
cartcsi:ll1a de ir buscar I12l subjctividade transcendental ajustifiC:1Ção
t'i1tima de tod:ls as ciências. até mesmo da existência de Ulll mundo •

objetivo. Nesse caso, não teríalllos conferido uma modific:1ção críti-
ca ;10 andamento das A1edi/oç-?5es; não scguiríamos mais nenhum
r:1:-;\ro delas_ Mas pode ser que a descoberta cartesiana clo eu

••
transcendental revele também uma idéio nova do jUlzdo!l7(!1710 do
conhecimenlo, a saber de UIll fundamento ele ordem transcendental.
Com efeito, em lugar de utilizar o ego cogito como premissa

45
••

46 .\Jt'ilit l/{ lIr:.< C nrtr.<imlf7s Segun da .H rditnplo 47

apodicticamcnte certa p<lfa raciocínios que devem nos levar a uma poral imanente da corrente de con sciênci~, Em virtude dessa estmtu -
subjetividade transcendental. ei s aqui para o que iremos voltar nos sa ra - e este é um do s seu s caracteres próprios - , o eu poss ui um
at e nç ão: a o s olhos do filósofo que medita, a E.TCOXll fenomenológica e squema apodíctico de s i mesmo, esqu e ma inde terminado que o fa z
põe em destaque uma e.\fe ra nova e illfilIita de ex istênci(/ que aparecer a si mesmo como e u concreto, que existe com um conte ú-
pod e atingir uma e xperi ê nc ia nova, a experiência tran scendental. do individual de estados vividos, de faculdad e s e de tendências , por-
Obse rve rn o s uma coisa: ~I cada tipo de experi ê ncia real e aos modo s tanto, c omo um objeto de experiênc ia, acessível a uma experiência
g c rili s de sua es p ecifi c aç Jo - pe rc e pção, reten ção , lembrança e interna poss ível, que pod e ser infinitame nt e ampliada e enriqu ecida.
outros - co rres ponde també m uma fic ção pura, uma "quase-experiên-
c ia", que poss ui m od o s de es p ecificaç ão paralelos (perc e pção, ret e n-
ç ã o, lembrança fictícios) . As s im sendo, e s tam o s no direito de nos
13. Da necessidade de excluir provisoriamente os problen"tas
ater àquilo qu e exi ste tamb ém no domínio da possibilid a de pura (re-:
prese ntação pura ou irnagi naç ão) , uma c iência es pecial de o rdem '. relativos ao alcance do conhecimento transcendental
a p rior ís tica c uj os jul g amento s bas e iam- s e não e m re a lidades
tr;lllsce nckntili s. mas ê m p o~s ibilidad es apriorís ticas, e qu e assim sendo A realizaç ão efetiva de ssa "descob e rta" seria a /(Irefa ell7i -
pres cre ve reg ras, {l priori. a ess as re alidade s . n enl e de umu c rítica da exp e ri ên c ia interna trans c endenla l, crí-
1'.1 3s nos p e rmitindo vagm ao acaso no sentido de concebe r a tica que se basearia nas formas individuais e determinadas d ess a
idéia de uma ciência fen o menológica que deve tran s formar-se numa experiência. Essa tarefa , como se vê , é de ordem superior e faz
jllosofia, logo encontramos, com o imperativo m etódico fundamen- s upor o cumprimento de uma primeira providência: se ria preci so que,
taI de uma evidê nc ia qu e seria apodícti c a, as difi culdade s m e nciona- seg uindo a evid ê ncia concordante da experiência tran scend e ntal e m
da s acima . Porqu e, como vimos , por mais ab solutLl qu e seja e ss a Sl:U j o g o , por as s im di zer, ingênuo, fôsse mos de início orientados e m
ev id ên cia para a exi stê nc i;1 do eg o e p ara e sse próprio eg o , 'ela n50 O seu s dado s c o s tiv é ssemos de scrito em seus caracte re s gerai s .
é da me s llla forma P()f <1 o s múltiplo s dados da e xperi ê nciá A ampliação da s llll:ditaçõe s cartesianas que acabamos d e efe-
tr ;lll sc e ndent <ll. C o m efe it o . as cog iwlion es dada s na atitud e da re- tuar v ,lÍ de te rminar d e forma ~ e m e lh a nte nosso s e sforç o s futuros .
duç ã o tran sce nd e n(;]1 c o m o obj e to s de percepçã o, d e lembran ça. e tc ., Pre vem os a partir de agura que os trabalhos científi cos ag rupado s
nJo po deriam ser tid as c o mo il bso lutam e nt e c e rtas qua nto ~I seu se r s o b o título co le tiv o d e j<' l7 o m el1 () /og io Iml7 sCendenlO/ deverão e fe-
pre se nte o u pa ss;l(\o . No cnt :\Il IO , é poss ível m os trar qu e ;1 evi d ên cia tuar- se e m duo s el({/m,\'.
ilb so luta d o (:'// SOl! es te nd e -se também , nece ssari a m c nt e. ;IS 1l1ulti - Nu jJril/l eir{/ , será nc cess;írio perc o rre r Ullla primei)';) \'(:~z o
pli c idad es da ex peri ê nci:1 int e rna que temo s da vidu frU!1 .\ u! /u l el1fu/ CillllpO - im e ns o , co m o ve rem os - do exp eri êl/ c ia frol7 SCe lldel/ fl/ /
i' (In s p{/uic l!l{./ ri r/(/(les /lOhifllni s do (' 11 , ;Ii nda qu e e b se ilt e nh,) a do e u . VdIllO S. d esde o inÍL'i o. II/)ulldo ll(lr-IIOS puro (' simp/esm el/ f ('
,:crt os limitcs d e t e rlllill ~ ld os reln :Ilcan ce d e t:1Ís ev id ê nc ias (po r exe m- (i ev;rl êllc;o /)/'/)/)ri(l do d e.\·(' 1I1'o/\, i lll ellf u (,ollcordu/'I f e d cssl/ ex -
plo . as cid Icmbr;lll ç:1 lllL' di:ltd o u illleúi:ltd , etc .). V : llll OS csc lme ce r jJ (' ri êllci(/ . V,IIll OS, po rtanto . dci x:lr p,lra o futuro o s pro bkll1 ~ l" d l'
11 0 S S0 pen sillllclll o . O c Ulll c lÍd o ,Ibs o lutillllcllte certo qu e nos é fo rne- lima c rítica ci o ;rl c ;rnce d os princípi o s ;Ipodíc ti c o s . ESS Ll prime i r;! c ta -
c icl o n;! cxp c ri ê nei;1 intcrIL! lran sccnd e ntdl nã o se redu z uni c; lll1 e nte pa (Iilldo n{IO é .fi/osó ji c o !I() sentido pIeI/O da jJiI!UV/'O . V~lITlO S
;1 id c nticbd e ci o C II S OIl . P o r m e io d e t () do~ os d,lc! OS s ingllLlres ela proced e r no C<l SO à man e ira d o naturali sta que se ab;mdOIl<l ir evid ê n-
ex peri ênc i<t interna rc;rI e po ss ív e l - ainda quc n;IO sejam ,)bsoluta- c ia da e xperi ê n c ia n;llur;r!, e qu e , co mo naturali s tLl, exclui elo te ma de
ment e ce rt o s no detalh e - , e ste nde-se UJlla estrullll'o unive rsal e s ua s p es qui s as a s qu es tões re la cio nadas a uma c rítica geral d essa
({p o dícric(/ ria I'!xperii'n c iu d o eu, como, por e xemplo , :1 forma tem- pró pria e xpe riên c ia.
48 J'v!tdirnções Cnrtcsúmns Segzmdn JWcditnção 49

A seg unda etapa teria por objeto a própria crítica da expe- afirmar nada de preciso. Além di sso, as antecipações que acabamos
ri ência transc elldental e conseqüentemente a do conh ec imento de e laborar só farão se ntido a seguir.
Iransccndental em geral. Em todo o caso, acabamos d e de finir com muita l1itidez o ponto
Assim , oferece-se a nós uma ciência de singularidade extraordi- em que nos desviamos de maneira essencial do caminho da s Medita-
nária. Ela tem por escopo a subjetividade transcendental concreta çoes cartes ianas, o que será de alcance decisivo para o desenvolvi-
como dada numa expe riência transcendental efetiva ou possível. Ela mento pos terior de nossas m ed itações, Contrariamente a D esc artes,
se opõe radicalmel/te ús ciências tais como as concebíamos até vamos nos propor como tmefa explorar o campo infinito do expe-
aqui, ou seja, às ciências objetivas. Estas compreendem igualmente riência lranscendental. Se a e vidência cartesiana - a da propos i-
uma ciência da objetividade, mas da subjetividade objetiva, animal, ção ego cogi~o, ego sUln - permaneceu estéril , é porque Descartes
que faz parte do mundo. Mas aqui se trata de uma ciência, de qual- negligenciou duas coisas: inicialmente no que se refere a elucidar de
quer modo, "absolutamente subjetiva" , cujo objeto é independente do uma vez por todas o s entido puramente metódico da EnoXll
que podemos decidir quanto ~ existência ou não-exi s tência do mun- transcendental e, em seguida, quanto a dar- se conta do fato d e que o
do. Isso não é tudo. Parece-me que m e u eu, o eu transc e ndental do ego pode, graças à experiência tran scendental, ex plicar-se a s i pró-
filósofo, que é o primeiro objeto dessa ciência , seja tamb é m neces sa- prio indefinida e sistematicamente; que, a partir dess e fato, esse eu
riamente seu objeto único . Com certeza, ele está de acordo com o con s titui uma camp o de investigação possível, particular e próprio,
sentido da redução tran scendental de não poder colocar de início ne- Com efeito, sempre tendo e m mente o conjunto do mundo e das ciên-
nhum outro ser qu e não seja o eu e o que lhe é inerente, e isso com cias objetivas, a experi ê ncia transcendental do eu não pressupõe, no
um espectro de determinações poss íveis, mas não ainda efetuadas. e ntanto, sua existência e seu valor; ela se di s tingue por isso mesmo
A dita ciência co meçará, portanto, seguramente como egologia pura d e todas essas ciências, sem que no entanto jamai s se limitem mu-
e, por es se fato, parece no s condenar ao solipsismo. pe lo menos tuam e nte.
transcendental. Ainua não vemos de forma alguma como, na atitude
da re dução, outros P flS poderiam ser colocados - não como s imples,
fenôme nos do "mundo", Illas como de o utros cus transcenclentzlis-; 14. A corrente das ((cogita tion es)), (~Cogito)) e ((cogitatu711))
portanto ; como tais ('LlS poderiam tornar-se por sua vez sujeitos qua-
lificados de uma egologi a fe nomenológica.
Como noviços em fil os ofia, não pode mo s nos elei xa r intimidar Por enquanto, não V,11110 S nos ocupar ua s qu es tões reLlli vas <10
por dú v idas ues se típu. A redução ao ell tran sce ndental tal vez nJo ,i1C;\llCC lLl apocli c ti ci uadc elo e ll so u. V"mos , s im , dirig.ir a lu z da
te nha mais qu e a ap"rênci~\ cle um so lipsismo; o d esenvolvime nto cvidêncii\ tran scend e nwl não m;lis para o ego cog ilo - te rmo tom(\ -
sistemático e con seqü e nte da análi se ego lógic<1 no s co nuuzirá tal vez, do <lqui no mais "mplo se ntid o cartesi;mo - , mas p"r<1 as co/{i!olioncs
llluit o pelo contrJri o, a uma fenom e nologia ela int e rsubjeti v iuau e múltiplas, Oll seja, para a co rrente de cOllsciênciil que forma a vida
transc e nd e nwl e - ucssa fo rma - a uma filosofia tmn sce nuenwl desse e l/ (meu cu, o eu do sujeito que medita). O C'1/ iuêntic o pode ~I
em geral. Veremos, com efe ito, que um so lipsismo tran scc nucntal todo momento dirigir seu olhar refl ex ivo para es li.l v id<l, cJlIcr se trat e
não pass a de uma cseda infe rior da filo so fia, c que é preciso d e p e rcepção ou re presc nt,lçã o, jlll g,l mento de ex istê ncia, de va lor
de se nvolvê-lo co m o tal por ra zões mctódicas, n otauamente par<! co- O ll vo lic,:ão . Pode observ{i-Io a cada in stante , explieí-I o e definir seu
locar de maneira co nveniente os problemas da intcrsubjetividade cuntnído .
tr,m sce ndental. Est es p e rtencem, com efeito, a um a categoria supe- Ma s, dirão algun s . seguir essa direção de pesqlliS<ls é s imples -
rior. M as, no estado atual de nossas m e dildções, não podemos ainda m e nte fazer descriçâo psico lógica, baseada na experiêncicl pura-
50 i Hcdú ações C n.rtcsianm Sr.I7I1i1dl1.l[rtiill1rnll SI

mente interna d e minh a própria vida consciente; não se pode esque- ego cog ito tran sce nde ntal. acrescentar-lhe um novo e le mento e di-
ce r que para se r pura essa desc rição deve excluir qualqu e r coloca- zer que to d o cog ilO , o u a indLl todo es tad o d e consciência, "as sume"
ção de uma re;llidad e psicofísica. Mas Lima p sic%(5 ia p"ram ente alg o, e qu e e le ca rrega e m s i m esmo. co m o "assumid o" (como obje to
des c ritiva, ainda que devamo s à nova ci ê ncia fenomenol óg ica o fato d e urna inte nç ão) se u c ogilOtW71 res pec ti vo. Cada cog ito, de re s to , o
de ter revelado seu sentido met ódico verdadeiro, não é f en o m enolog ia faz à sua man e ira . A percepção da "casa" " ass ume" uma casa -
transcendental, no se ntido em que definimos esta com o re du ção ou , mai s exatamente , determinada casa indi vidual - da mane ira
fenomenológi c a tran sce ndental. A psicologia pura forma , é verdade, pe rc eptiv a; a le mbrança ela C<lsa "assume" a casa c o m o lembrémça;
um es/re ilO paro/('lo co m a fenomenologia tran scendental da cons- a imaginação, c o mo imagem: um jul ga mento predicativo que tem por
ciência . No entanto, é preciso di stin g ui-Ia s bem ; s ua confu são carac- objeto a ca sa "co loc Ll da ,di di ,Hlt e d e mim" a assume da maneira
teriza o psicolog isl11 o /mns cendel1 wl, que torna imp oss ív e l qual- pró pria ao julgamento predi ca ti vo; um jul ga ment o de va lo r ,lcrescen-
quer filosofia verdadeira. Tra~a- se aCJui de uma de ssas nuança s tado a veria ainda à sua maneira, e assim p o r diante. E sses estCldos
apare ntemente negli ge nc iáve is, que decid e m so bre a orientação da d e consciência são também c hamLld os d e estados in/ ellc io/luis. A
filosofia. O c o njunto da pes qui sa fenomenológica tran sce nd e ntal es tá palavra imenciol1o/idode nií o sig nifica nada mai s qu e essa IXl rti c ll-
ligado, não d eve mos esqu ece r, à observ,'\ncia in v iolá ve l da redu ção laridade fundam e ntal e ger,ll Cju e a co nsciência te m de se r consciên-
tran sce ndent a l, redu<;ão qu e não se dev e confundir com a limitação cia de alguma co is a, de co nt e r. e m sua qu a lidade de cogilO. se u
abstrata da in ves tigaç ão a ntropo lóg ica à m e ra v ida psíquica. Em co n- cog ilalUm e m s i me s ma.
seqüência, a in vesti gação fe nomenológi ca tran scendent a l da cons-
ciência e a inv es tigação ps ico lóg ica diferem pro fundam e nte , ainda
que os eleme ntos a se re m de sc ritos tanto em uma como e m outra
15. R eflexão natural e reflexão transcendental
possanl coincidir. D e um lado, te mos dado s que pe rten ce m ao "mun-
do", ao mundo colocado c o mo ex istente, concebidos como elementos
psíquicos do homem . De outro, mes mo com dados paralelos e co n- , P ' lr;.l efeito de c la rez<l. é prec iso acrescentélr qu e d evemos di s-
teúdo idêntic o, não há nada desse tipo; o mund o, na atitude tin g uir dua s co isa s: de um lad o. os ,1I0s d e co nsc iê ncia - percepção
fenomenológi ca, não ~ um ,1ex istê ncia , mas um s impl es fe nô men o . ex te rior. le mbr,lIl çLl , prcJicaç ;lll. jul gdme nt o d e va lo r, es tabeleclm en-
Mas s~ ev it,lmos essa confusão psicologi s ta , res t;1 um outro lO d e um obje ti vo, e tc . - ercc{(/udos eS/ }()J{!OJl eu!71ent e e. Je ou tro.
ponto d e imp o rtJn c i,l ckc is iv <l. (El e d ese mp e nha, '11i<'í S. I17I1/u/is a s ILjlexões (,ll OS re tlex ivos) CJue esses a tos cspo nt J neos n os rc\e··
lI1utu/ldis , pa pel ig ualm e nt e impo rtante no domíni o d,l ex pe ri ê nc ia 1,1111 e qu e süo ,ltos perceptivos d e Ul1l<l nOV;1 ca tego ri ,l. N <l pe rc e p-
natura l, psicolog io c/u c()/lscil?lIciu ve rdur/e ira .) H:í um ,l co isa que ção es p o nt J ne a , capta1110s ,I C' ISd. nií.o ;1 s ua perce pção. Na retl ex Jo.
a EJ10Xll concernent e ~l ex is tên c ia do mundo nã o poderia mud a r: é so m e nte nos "voltamos e m c1irc<;:IO" a esse ,lt O e m s i c ;] SUd oricnlél-
que as múltipla s cogi/(lIio /l es que se re laciollam ,)O " mundo" co n- ção perceptiva " (\ respe ito (\ ,1" C'IS,1. Na njle.fr/o IW/IIUt!. qu e não
têm , /lelos m (,S!IlOS, eSS~1 re la ção; assim, por exe mpl o , a p e rcepção só oco rre na viclal·o ticl ia nd . lTL1S tdl11b é m e m ps ico log i,l (po n;lllt o, J1 ,1
dessa me sa é, tanto aJlt es co mo depois, pe rcep ção r!{'s su 111('S <I. Des- cx pc ri é nc i,l p s icol óg ic,l de mt'u s própri os es tad os psíquic os). so m os
sa forma, tod o es tdd o de co nsc iê ncia em geral é. e m si m es m o, cons- coloC<ldos no te rren o cio mundo. d o mund o <lpresentaJo CU Ill O c.'i is -
ciênci,l de alguma cois,l. qUdlquer qu e se jd a ex is tê ll c i,l re,d de sse tellt e. É J ess d forma que CJlUl1U,111l 0S na v icb cot iJi,Ill ,L "Est u u \C ll -
o bje lo e seja lJu,1i fo r;l dhstenç:io cJu e cu L\(~',l , n,l ,Ititucle tr~ 1I1 sl'<.: nckllt;d do Ul1ld c a S<l ali". o u, ,liIllLI , " Le mbro- Ille ele te r olJvidll CSS d Illlt SICd·' .
que é minha, da pos iç<'io cle ss a ex istência e ele todos os ato s d a atjtude e ,lss im p o r diallt e. Ao contrJrio, na rejlexc/o f e ll o J}{('l!o/()g i clI
natural. Em co nseqü ê ncia , se rá necessá rio ampliar o co nt e úd o do tronscel1dental, abandonam os esse te rre no , praticando a EJ10X11
52 lvlcditaçoes CaHcsirmas
ScgunrlruHcdi taçiío 53

universal quanto à existência ou não-existência do mundo. Pode-se


fonna totalmente natural, que ele está interessado nele, entâo tere-
dizer que a experiência assim modificada, a experiência trans-
mos, na atitude fenomenologicamente modificada, um desdobramento
cendental, consiste então no seguinte: nós examinamos o cogito
do eu; acima do eu ingenuamente interessado no mundo estabele-
transcendentalmente reduzido e, além disso, o descrevemos sem efe-
cer-se-á como espectador desinteressado o eu fenomenológico.
tuar a posição de existência natural implicada na percepção esponta-
Esse desdobramento do eu está por sua vez sujeito a uma nova
neamente executada (ou em qualquer outro cogito), posição de exis-
reflexão , reflexão que, por ser transcendental , exigirá lima vez mais
tência que o eu "natural" tinha de fato espontaneamente efetuado.
a atitude " desinteressada do espectador", preocupado somente em
Um estado essencialmente diferente vem substituir dessa forma, é
ver e descrever de maneira adequada.
verdade, o estado primitivo, e pode-se dizer ne sse sentido que a refle-
xão altera o estado primitivo. Mas isso é verdade em relação a toda É assim que os acontecimentos da vida (psíquica), "voltada para
reflexão, portanto também em relação à reflexão natural. A altera- o mundo" com todas as suas afirmações existenciai s primárias e
ção é essencial , pois o estado vivido, ingênuo de início, perde sua mediatas e os modos existenciais correlatos - '.tais como: ser certo,
"espontaneidade" primitiva precisamente pelo fato de que a reflexão possível , provável, ser belo e bom, útil, etc. - , tornam-se acessíveis
toma po r escopo o que de início era estado e não objeto. A tareta à descrição pura. É somente nessa pureza que elas poderão fornecer
da reflexão não é reproduzir uma segunda vez o estado primitivo, elementos para uma crítica geral da consciência, como o exigem
ma s s im observá-Ia e e xp licar seu conteúdo. A passagem para essa com necessidade nossas preocupaçõe s filosóficas. Recordemos o
atitude reflexiva naturalmente faz surgir um novo estado intencional, radicalismo inerente à idéia cartesiana da filosofia, como ciência uni-
estado que, na s in g ularidade que lhe é própria de "se relacionar ao versal, fundamentada mesmo em s uas providências últimas na evi-
estado anterior", torna consciente, até mesmo evidente, não qualquer dência apodíctica. Ass im concebida, essa ciência exige LIma crítica
outro estado, mas esse mesmo. E só dessa forma se torna possível geral e absoluta; mas essa crítica deverá, por se u lado, abstendo-se
essa exper iência descritiva, à qual devemos tod o sabe r e todo conhe- de toelas as atitudes afirmativas de existência, criar para ~ i, logo de
cimento concebíveis re l,ltiv os à nossa vida intencional. O mesmo vale início, uma atitude absoluta de independência em relação a 'qua lquer
para a reflexão fenom e nológica transcendental. O fato de O eu rejle-' pré-concepção. A un iversa lidade da experiência e da descrição
xivo não efetuar a afirmação existencial da percepção espontânea tr<lnscendentaJ atinge esse objetivo, pelo fato de que ela inibe o
da casa não muda nada quanto ao fato de essa me s ma experiência 'CprejulgaJl1ento" universal da experiência do mund o (ou seja, a cren-
ser refl exi va da perc epçã o " da casa", com tod os os e Iemcn tos q lIe ça no mundo qlle, in se nsi velmente, penetra tod o ato e toela atitude
lhe eram e continuam a ser próprios. E entre esses elementos figu- natllrai s). Tendo atingido ::I csJCra egológica absoluta não alcançada
ram, em nosso exempl o. os da própria perc epção como vivência em pela redução - esfera das intenções puras - , ela aspira fornecer
curso, e os da casa percebida como tal. Existe, de um lado, a posição lima descrição universa l delas, que , por s ua vez, deve rá constituir a
existencial próprin da percepção normal (ou seja, a certeza in ere nte à base de uma crítica radical e univ e rsal. Tudo elep ende rfI evidente-
percepção), da me s ma forma que existe, do Indo ela CZ1 SZ1 que apme- mente ela obse rvaçã o estrita da imparcialidaele absoluta dessa dcscri -
cc, o car,üer da "'existência" pura e simples. A EITOXll, a abstenção do, quer di ze r, da fidelidade:to princípio da ev idência pura colocado
do eu na atitude fenomenológica, tem que ver com ele. não com a ll1Z1is alto. Dito ele outra fo rma, será preciso atcr-se estreitamente aos
percepção que ele observa na e pela reflexão. Ela rrópria é de re s to dndos ptiros da reflexão transcendcntal, tomá - los exatamente co mo
passível de uma reflexão desse tipo, e somel\te por meio dela pode- se arrescntam l1a intlliç;Jo ela eviel ê ncia dirctZl e afa star cicies todas
mos saber qualqu e r coisa a respeit o. as interpretaç ões que ui tr,] passem essa afi rm ação.
O que ac on tece <lqui pode também ser descrit o da seguinte Se observamos esse princípio de forma metódica 110 que se re-
maneir<l: Se dizemos do eu que percebe o "mundo " , e aí vive de fere à correlação cogito-cogitatlll11 (como cogitatum), descobrimos
54 .1It-.-litnrllo C /lrtr.<ltl Il I IS St:17I /J1dn /0 editafão 55

e m primeiro lu ga r quai s desc riç ões ge ra is deve m se r executadas de "si m es m o" compreende toda obj etividade qu.e "existe" p a ra e le,
iníc io , e isso se m p re co m base nas "cog iration es " puniculares e tal co m o e la ex i s te para e le . Port a nto, será po ss ív e l di ze r : Eu, que
na s direções corrt' lulO s. A ess as descriç ões pe rt e nce m, de um lado , pe rm aneço n a a titude natural, sou tamb ém e a todo in s tan te eu
as do objeto int e nc ion a l como tal, quanto às determinações que o eu transcendental, mas só me d o u co nta disso ao efetuar a redu ç ão
lhes atribui em m od a lid ades determinad as da co n sc iê ncia e nos m o- fenom e n o lóg ica. Ora, essa atitude n o va me faz ver que o conjunto
elo s pró pri os . que dp ,l rece m ao olhar inv es ti gad o r quando e ste po u sa do mund o e tud o o qu e é e m gera l não passam para mim de a lgo que
sob re essas m odd lid'ldcs. Exe mpl o: os " m odos" ex is te nci a is como "v al e", qu e r di ze r, só ex is te p ,lra mim como cogitatu/11 d e minhas
"cx is tê ncia ce rt<l , cx i st0n(' i~1 poss íve l ou su pos ta", e tc., O LI, aind a, os cogitGl ion es variáve is e li gadas en tre s i ne ss a m es m a va ria ção. É
" modo s te mp o rai s s ubj e ti vos": ex is tê nc ias prese nt e, pass ada , futura. so mente nessa acepção que lh e atribu o um a valid ade. Em c0l! seqü ên-
Essa direção d,l d esc riç ão c hama-s e n oell7 á ti ca. A e la se opõe a c ia, co m o eu fe n o m en o lógico tra n sce nd e ntal, só p ossuo , co m o o b-
direção l1o éticu. Ela se re fe re às modalid ades do próprio cogito, por j e tos de minh as obse rvaçõ es de sc riti vas univ e r~ai s - qu e r se tra te
exemplo àquela s da con sc iê ncia, como pe rcepção, le mbrança, m e- de particu l ari z ações ou de conjuntos gerai s - , co rrelatos inten cio-
m ó ria imeeliata. co m as dife renças m oda is qu e lh es são inerentes, nais d e m o dalidades da co n sciência.
co mo a clareza c ,1 d is tinçã o.
Compreende m os ago ra que pe la E1WX1l univ e rsal , quant o à
ex is tê ncia ou in ex istê nc ia do mundo, a fe nome n o log ia na rea lidade 16. Digressão. N ecessidade) tanto para a reflexão
n ão nos fe z pe rde r o mundo co m o obje to fe no m enológico . N ós o
('puramente p sicológica)) como para a reflexão
mantemos co m o cog iratLtln e isso n ão so m ent e quanto às re a lida-
des particulares v is tas e da forma co m o são v is ta s , ou m e lh or, ((transcendental))) de começar pelo ((ego cogito ))
obje tivada s em tai s a tos p,l rticulares da co n sc iê nc ia. P o rqu e s ua
particularizaçã o é no se ntid o de um universo, univ e rso esse c uja Com base nesses des e nv o lv imentos, o eu sou tran sce nd e nt a l
unidade no s "dparece" se mpre, mes m o quando n os volwmos , ná a braça na universa lidade de sua vida um a multiplicid ade indefinida e
p e rce pçil o. pdLl o si n g ular. Em o utra s palavra s: d co nsciência cl es- inacabada d e es tados concre tos indi v idu ais . " R eve lar" esses es tad os
se uni verso est<Í se mpre prese nte nd uni chde d e lima con sc iê n c ia e ca ptar pe la d escrição suas estr uturas var iáve is se rá um a d e nossas
quc podc. eLl m es m ;l. tOrlur- se pcrcepti v,l, e. de f';ltO . co m fre qii ê n- prime ira s tarefas. O m es mo ir<Í va le r para os m o d os de " li gação"
Ci,l se to rn ,L O co njunto d o Ill und o é aqu i obje t() de co nsc iê nc i,l so b próprios a esses es tados, q ue fo rmam SUa s unidad es co m plex<ls até a
, I for ma d ,l illrilli d~IJe esp,lciLll c tc mpo r,lI qu e lh e é pr(l pri'L Po r
unid ade d o pró pri o eu CO /l creto. Va le esc lareccr qu e esse cu só é
m e io ele tod<ls eSS,l S fltltu ,H;ões da cO ll sc iê nc i,l , esse uni verso , un o c co nc re to n o co njunto infinit o c ilimitado de su a v id a int e nc io na l una.
único - aind<l qu e suas p<lrticul,lrielacl es pe n:cb ilLl s o u d e o utra que fomlil uma unid ade be m " li gad a" e que e nvol ve, a títul o de cog ilOta,
fo rma objeti v<llLt s sc j ~ lm su bme tida s à va riação , pc nnan ece como os o bj e tos inte nc ionai s co rre iatos, qu e formam. por sua vez, co njun-
o fundo so bre () l]u<11 nossa vida na tural se proje ta Portant o, d O tos be m li gado s, inte iros, e e ntre e lcs o mund o fenO lll c n,ll co m o t,1I O
e fe tuar ri go r os~lm c nt c ~l redu ç ilo fe no m e ll o lóg ic a, mant e m os e m próprio C /I CO /l c reto é o suj e it o llni ve rs,11 da des c ri ção. O u . em out r,lS
c aráter noé ti cu o C~ lJllP () livre e ilimit<ld o da v id a purd (LI cO ll sc iê n- pdL1 vr,l s , a tarefa que proponho ils minha s medit,lções f'e nomcno lóg ic ,ls
Ci,l c, da parte lk sc u L'\l rre Lll o noc m<Íti co. o Illund o -fen ô m c no co m o é <l dc m e re l'c!o r por 111;/11 II/ <'S /I1 0 co mo ell trflll SCC'!/(/e/lln l. c isso
se u obje to illt e ncio ll ,t! . Ass im . o Clt da rnedita ~ão feno m e no lóg ica em minha plena conc reçJo, aí, portanto, compree l/didos todos os
pocle to rn a r-se e m tOda ,1 uni ve rsa lidad e especlwlo r imjJarci(/1 de obje tos inte ncionai s co rre lat os dos a tos de sse cu . C o mo j<Í me nc io na -
si mesmo , não ap e na s e m casos parti c ulares, mas e m gera l, e esse mos, essa "revel ação" tran sce ncle nta l do m eu eu te m como poralelo
Só iH cdirn f lics Cartesianas Segunda J\1cdimção 57

a revelação psicológica do mel/ eu a si mesmo, ou seja, de meu eu cogiwta. Perdeu ao mesmo temp o a noção exata do sen tido da des-
puramente psíquico (alma) no seio de minha vida psíquica. Mas, nes- crição' das próprias cog itationes, concebidas como fonnas da cons-
se caso, esse ser é o "objeto" de uma percepção natural, como ele- ciência, e das tarefas particulares relaci onadas a essa descrição,
mento constitutivo de meu ser psicofísico real (animal), portanto como
elemento constitutivo do mundo, é claro, do mundo válido para mim.
Como se vê, tanto para uma egologia transcendental descritiva 17. O caráter bilateral da investigação da consciência)' o
como para uma psicologia de interioridade pura, ou seja, uma
caráter correlato de seus problemas, Direções da descrição,
psicologia descritiva baseada real e exclusivamente numa experiên-
cia interna (indispensável como disciplina psicológica fundamental), A síntese) flrrl1a original da consciência
só há começo possível a partir do ego cogito. Considerando-se o
fracasso de todas as tentati vas. modernas de distinguir e ntre teoria Mas se, desde o início, temos a clareza a respeito do ponto
psicológica e teoria filosófica d~ consciência, essa observação é de inicial e das direções das nossas pesquisas, é possível extrair dela,
importância capital. Começar por uma teoria da sensação, cedendo à com a atitude transce ndental que nos é própria, importantes diretrizes
influência d~1 tradição do sensualismo, ainda tão forte, é, portanto, p,lra a colocação posterior dos problemas. Sem tocar ainda no pro- -
ft:char--"e o ace-"so a essas duas disciplinas. Partir das sensações, blema da identidade do eu, poderemos definir o ca ráter bilateral da
co m efeito. implica uma interpretação - como se fosse algo com- investigação da consciência, descrevendo-o como uma coordenação
preen síve l por si - da vida psíquica como um complexo de dados do inseparável. Além disso, poderemos caracterizar o modo de ligação
sentido "externo" e - a rigor - "interno", dados para cuja unifica- que une um "estado" de consciência a um outro, descrevendo-o como
ção será prec iso a intervenção a seguir das qualidades de forma. uma "s íntese" , forma de ligação pertencente exclusi va mente à re-
Acrescent,l-se ainda, para refutar o "atomismo", que as formas es- g ião ela consc iência. Tomo , por exemplo, como obj e to de descrição a
tão nece ssaria mente implicadas nesses dado.s, portanto que os todos percepção de um cubo. Vejo então, na reflexão pura, que "este" cubo
são em si a nteriores às partes. Mas a teoria descritiva da consciên- indi vidual me é mostraelo ele maneira contínua como unidade objetiva,
cia, qu e procede co m um radi calismo absoluto, não conhece dados e is so numa multiplicid ,lel e va riáv e l e multiforme de aspectos (modos
nem tod os des se tipo, salvo a título de idéias preconcebidas. O iníci o de apresentação) ligados por relações determ·i nadas. Esses modos
é a experiên c ia pura c, por assim dizer, ainda mudei, qu e se deve levar nã o são, em seu transc orrer, um a seqüência de estados v ivido s sem
ú exp re-"são pura ele seu próprio sen tido. Ora a expressão verdadei- li gação entre si. Pel o co ntrário, suced em- se numa unidade d e "sínte-
ramente primeir;l é :1 do eli sou C<lrtesiano ; por exemplo: eu percebo se" , segundo a qual é sempre do mes mo objeto - tal como e le se
essa casa; eu me lembro de tal reuniJo de pessoas, e tc., e a tarefa apresenta - que tomamos consc iênci'1. O cubo único e idên ti co apre-
prim e ira e geral dil descrição consiste em distin guir cogito, de um senta- se de maneira e sob aspectos diversos: o ra de "prox imielade" ,
belo. e cog ilutllJ}} , como cogitU llIl71 , de outro. M<1s em qual caso c ora de "afastamento", em modos variáv eis, "elaq ui" e "dali", opostos
em quais ~i!:,-niricações diferentes os d,lelOS se nso riais poderão se r a um "aqui" absoluto (que se enco ntri1 -,- para mim - em "meu
cOJ1<;icit'rac!os como e leme ntos constitutivos (LI comciência') A res- próprio corpo", que me <1parece ao me smo te mpo), CUjd consciência,
post<1 ;1cssa pergunta pressupõe um trab,liho elescriti vo especi,d de ;lin(L! qu e permaneça desp e rc ebiel a, os acompanha sempre. Cada
·'descoberta". pelo qual a psic o logia traelici on,li. pitra seu gr:lIlde pre- " aspecto" que re tém o espírito, por eXt~ l1lplo, "este cubo n;1 esfe ra de
juízo, desinteressou-se comple t'lmente. Te ndo deix,lc1o na obscuriela- pro x imidilde", re ve la-se por sua VeL como unidade s int é tica de uma
de os princípios ele se u método, ela perdeu toti1lm ente de vist,J a imensa multiplicidade de modo s de ;lpresentação correspondentes. O objeto
tarefa represenwda pela descrição dos cogiwlr! considerados como próximo pode-se apresentar como "o mes mo" , mas sob tal ou tal
SR 1\1cditarões Cnrt uinllns S/! l lllJ(fn lHcrlita(tlO 59

"face"; pode haver aí variação não somente das "perspectivas visuais", nós verdadeiros mundos de fatos. Esses fatos jamais h:JViam sido
mas dos fenômenos "táteis", "acústicos" e outros "modos de apre- estudados antes do surgimento da fenomenologia. Todos eles podem
sentação", como podemos observar dando à nossa atenção a direção também ser chamados de "fatos da estrutura sintética", pois d~o uni-
conveniente. Se agora, na descrição desse cubo, consideramos em dade noemato-noética às cogilaliones pal1iculares (tomadas em si
especial um de seus caracteres, por exemplo, sua forma, sua cor ou mesmas como os todos sintéticos concretos) e também a umas em
uma de suas superfícies tomada em separado, ou, ainda, a forma relação às outras.
quadrada dessa superfície, ou sua cor em separado, e assim por dian- A "demonstração" de que o cogilo, ou seja, o estado intencional,
te, o mesmo fenômeno se repete. Sempre o citado item apresenta-se é consciência de alguma coisa, só se tomou fecunda pela elucidação
como "unidade" de "multiplicidades" que se sucedem. Na visão do caráter original dessa síntese. Isso equivale a dizer que somente
dirigida para o objeto, teremos, por exemplo, uma forma ou uma cor essa "demonstração" torna fecunda a importante descoberta de Franz
que permanece identicamente a mesma. Na atitude reflexiva, tere- Brentano, a saber, que a intencionalielade é o caráter descritivo fun-
mos os aspectos ou "aparências" correspondentes, modalidades de damentaI dos "fenômenos psíquicos". Somente ela permite colocar
orientação, de perspectiva, etc., que se sucedem em uma seqüência realmente em relevo o método de llInél ciência descritiva ela consciên-
contínua. Cada UI11 desses "aspectos", considerados em si mesmo, cia, tanto filosófico e transcendental quanto psicológico.
por exemplo, a forma ou a nuança em si mesma, é, t;1Jllbém, repre-
sentação de sua forma, c/e sua cor, etc. Assim, o cogito tem cons-
ciência de seu cogitalum não em um ato não diferenciado, mas em
uma "estrutura de multiplicidades" de caráter noético e noemático
18. A identificação)for711a fúndamental da síntese.
bem detenninado, estrutura coordenada de maneira essencial com a A síntese universal do tempo transcendental
identidade desse cogitatum detenninado.
As descrições feitas para a percepção sensível podem ser rea-
Examinemos a form,l fundamental da síntese, ou seja, a d~l iden-
lizadas paralelamente por nós para todas as modalidades da intuiçã,o
tificação. Ela se apresenta jlllcialmente como síntese cle um alcance
e seus cogirula correlatos (como, por exemplo. a lembrança
universal que transcorre jJa.\.\i]"(lIi7Cllle, sob ,1 forma da cOl7sciêl1cÚl
reprodutora cle uma intuição antiga e a espera que cspreita uma intui- inlerna contínua do rempo. Todo estado vivido tem sua duração
ção que está por vir). O objeto rememorado aparece, também, sob vivida. Se se trata de um est,tdo de consciênci~l cujo cogil(ll/{171 é um
diversas faces, em diversas perspectiva.,>, etc. Como se percebe quan- objeto do mundo - como na percepção do cubo - , é o C;150 de
cio se procede ;1 execução, essas descrições vão extremamente lon- distinguir a dur,lÇão objetIva C]uc dparece (por exemplo. a des"e cubo)
ge. Mas, para poder di fcrenciar as modal idades da inl 11 iç:lo (por exem- da dur,lção "interna" do processo da consciência (por exemplo. a da
plo, o dado da lllemóri,l e o dCl percepção), a descrição deveria recorrer percepção do cubo). Est,l "tr~lJlscorre" em períodos e fases tcmpo-
a dimensões novas. No entanto. subsiste UIll fato gnal. CJuc vale para r,lÍs que são suas, e que ~;}() L'Lls próprias apresentações CJue se mo-
toda a consciênci,l cntcndida COIllO "consciêncIa de ;ligullla COiS'l". dificam de maneira contÍnu:l. rio único e mesmo cuho . .\1/11 lIlIir/{/{/c
Temos conseiêncid dessa coisa, a s,lber, o seu "obJeto intenCIonal
é {I de limo sínlese. Ela não é Ullla simples liguç(/o contínua de
como tal" que csLí "nela"; como unidade idêntica de uma multiplicid,lcle cogiralioncs, por assim dizer, cxteriormente unidas Ull1(lS ;IS outras,
de modalidades de consL~iência noelllato-noéticas, pouco importa que mas sim uma unidadc de «()!l.\ciêllci{; IIi/U, e nessa consciênci,l se
se trate de modalic];ldes intuitivas ou não. c{)nslilui a unidade de uma cntiddclc intcncional, precis,llllcnte como
Uma vez que nos tenhamos apoderado da tarefa fenomenológica o mesmo das diversas e múltiplas maneiras. A existência real de um
de uma descrição concreta da consciência, vemos surgir diante de mundo - portanto a do cubo aqui presente - é colocada pela 2TCOX1l,
\
60 A1edlrações C m 'tes/Ilnas S,:glllldn jVIcditCT(âo 61

"entre parê nt eses"; m as o citado cubo, a o a parece r c o mo uno e idê n- te mpo ra l, de um a gê nese, po is cad a es tad o indi v idual qu e podem os
ti co, é sempre " imane nt e" à corrente da c o n sc iê nci a; está descriti va- co n cebe r só e m e r ge so bre o fund o d e uma c o n sci ê nc ia g lo bal ,
m e nte " nel e" co mo o es tá o caráter d e ser "id e nticamente o mes- unifi c ad a, qu e ele p ressup õe se mpre. O cog ito universal é a própria
m o" , E ssa imanê nc ia à consciência tem um c aráter todo particular. vid a uni ve rsa l e m s ua unid ad e e em sua tota lidade indefinidas e ilimi-
O cubo não e stá contido na consciência na qu a lidade de elemento tad as. É pe lo fa to d e e la a pa rece r se mpre como uma totalid ade que
rea l, e le o está " id e alme nt e " como objeto int e ncional , como o qu e pode m os "o bse r v<:Í.- Ja" da m a neira ex pressa em atos pe rc e ptiv os el a
aparece, ou, e m o utras pal av ra s, como seu " se nso obj e tiv o" iman e nt e. dt e nção, e q ue pode m os fa ze r de la o tem a d e um conh ec ime nt o uni-
O o bj e to d a co nsc iênc ia , qu e mant é m sua ide ntid ade "c ons igo mes- ve rsa l. A fo rma f w zdomcll/al dessa s íntese uni ve rsal, qu e to rna pos-
m o" e ':lquanto tran sco rre a vida ps íquica, nã o lhe ve m de fora . E ssa s íve is to d as as o utr Js s ínt eses d a co n sc iê ncia , é a con sciên c ia
pró pri a vid a tem implicações a título de se htid o, ou seja, de "operação iman en /c do tem po. D e fo rma co rre la ta, co n es ponde-Ihe a pró pria
inte nci o n al" d a s íntese da c o nsciên c ia, duração im ane nt e, e m v irtude d a qu a l tod os os estados do eu , acessí-
M as o m es m o cubo - o mesm o pa ra a co nsc iência - pod e vei s a essa re fl exão, deve m apresent ar-se co m o o rder1.ad os no tempo
es ta r prese nt e n a co nsc iênci a (ao mesmo te mp o ou sucessivamente), - s imult âneos o u s ucess ivos - , te ndo um começ o e um fim no
p o rém, em m od os sep clI'a d os e muito diferent es, por exemplo , na s te m po, no sl:io elo ho ri zo nt e infinito e pe rm an e nte d o te mpo imane nt e
pe rce pções, le mbranças, ex pec tativas, jul ga m e nt os de valor, etc , iso- "e m s i", A di stin çJo e ntre a co n sc iê nc ia d o te mpo e o pró pri o te mpo
la dos un s d os o utr os, No c aso, també m se tra t;) a inda de uma s ínt ese pode també m se ex primir co m o um a di stin ção entre o estado de
que realiza a consciênc ia da ide ntidade numa unid ade de uma consc iên- COl/ sciêllóa intra tc mp oral (resp ec ti va me nt e sua fo rma temporal) e
c ia, ultrap assa nd o e e nvo lve nd o seus es tad os isolad os, e torna ass im seu s m odos tempo rais de ap arição, com o " multiplicidades" corres-
p ossíve l tod o con hec ime nt o d a ide ntid ade. po nd e nt es, L eva nd o-se e m co nt a qu e esses m od os de a prese nt ação
M as fin a lme nt e, nesse sentid o, tod a co n sc iê nc ia (por exempl o, da co nsc iê nc ia te m pora l int e rn a são "estad os inte nc io nai s", e les d e-
a que la que po demos te r de um a multipli c id ad e, de uma re lação, e tc.) ve m necessa ri a me nt e - na re fl exão - se a presentar po r s ua vez
e m qu e o não- idê nti co é pe rcebid o p o r e la co m o um c o njunt o, tal v(lz como durações. E nco ntra m os a qui um a pa rt icul a ridad e fund a m e nt a l
q u a lifi cad o d e sínt ese, constituind o s inte ti ca m e nt e - O ll , pode ríam os c ]J<lradoxa l d a vi d a da consc iê nc ia, q ue pa re c e assim se r afe tada po r
di zer a inda , s il/ f{/li co rn cll / e - o cog ilOlIlIll qu e lh e é pró pri o Lima reg ressão infinit a. A e lu c idação desse fato e sua compreen são
(multipli c idad e , re lação, e tc.), qu e essa .ope ra ç ã o sintática seja C< I- cri a m di fic uld ad es ex tra o rdinári ;1s. M as , seja com o fOL esse fa to é evi-
rac te ri zad,l. a Ii,ís, co m o um a pu ra pass i v id ad e ou co m o uma at i v id <i - de nt e , até ,lpodíc tico , c des ig na um dos lados d o ma ra v ilh oso "ser para
d e do eu. M es mo as co ntradi ções e incompati b i lidad es sã o fo rm as d e s i m es mo" do ego, a saber, em p rime iro lu ga r, q ue a viela da consciê nc ia
"s ínteses ", ,li nd a qu e de um a es péc ie to ta lme nt e di ve rsa . relacioJl (l-se in /cn cioIlUIIllf!J7/c cOl/s igo m eS/JIa ,
M as li ~ ínt ese não é so me nt e o próp ri o de c ad a es tado de COIlS -
ciê nc ia ind ividual , e ela não li ga es tad os in d iv idu a is a o utro s ape na s
de fo rma ocas io na l. Ao co ntrá ri o, di sse m os desde o iníc io, tod a a v ieb 19. Atualidade (potencialidade da vida intencional
ps íqui ca em se u conju nt o é un ifi cada d e m,me ira sint é ti c a . Deprec ncl c-
~e di sso qu c essa vid a é um cog ito uni ve rsa l, q ue e nvo lve de m ,lIle ir,1
s inté tica todos os cs wdos d a c on ~ci ê n c ia indi vi duai s lJu e podem e merg ir í\ multipli c id <l dc in e re nt c ,'I inte nc io na l id ade el e todo cogilO - e
dessa v ida , c q ue te m seu cog i/a/ul1I uni ve rsa l fundam e ntad o de de tod o cogi/o re lac io nad o ao mund o pe lo s imple s fat o de qu e e le
m a ne iras di versas em múltipl os cog ita /a p a rti c ul a re~. Mas o fato de te m co nsc iê nc ia não so me nt e d e um mund o, m as ta mbé m de s i pró-
se r f und a m e n tad o não deve se r e nt e ndid o no se ntid o da sucessão pri o, co m o cog ito na co nsc iê nc ia im a ne nt e d o te mpo - , não é es-
62 . IJcdrrl1j1'cs ( .'rtu(sinJ l tls SllJlmrin JVJerfiraçlÍ(J 63

go tada pela descrição dos cogilara atuais, Ao contrário, toda atuali- Os "espectros" ou " ho ri zontes" são potencialidades pré-traçadas.
d a de implica sua s potencialidades próprias. Estas, lon ge de se rem Diremos també m que podemos interroga r cada horiz'onte a respei-
possibilidades absolulalllente inde te rmin ada s, são, qu a nto ao seu co n- to do "que está implicado nele", qu e podemos explicá-lo, revelar
teúdo, intencional mente pré-traçadas no seu próprio estado a tual. Além as potenc ialidades eventuais da vida ps íquica. Ora, justamente dessa
di sso, tê m o ca ráter de "terem de se r realizada s pelo eu". fonna desvelamos também seu sentido objetivo, que nunca é indica-
Isso de s ig na lIm novo tra ço essenciol do int en c ionalidade. do no cogito atual e só está prese nte de maneira implícita. Esse sentido
Cada estado de consciência possui um "horizonte" que va ria co nfo r- objetivo, ou seja, o cogitatll/11 cons ide rado como tal, não se apresenta
me a modificclção de suas conexões co m o utros es tad os e co m as jamai s co mo definitival11eme dado; ele só se esclarece à medida qu e
próprias fase s de seu decorrer. É um horizonl(;' illlen c ional, cuja se explicam Ohorizo nt e e os horizontes novos (e, no entanto, pré-traça-
caracleríslicu é rell1eler a potencialidad es da consciência que per- dos) que se descob rem se m cess ar. Certamente, esse "traçado" em'si
é sempre imperfeito , ma s te m, apesar de sua indeterminação, certa
tencem a esse mesmo horizonte. Assim, por exe mpl o, em toda p er-
estrl/lura de detennÍnaçüo. Assim, o cubo - visto de um lado - não
cepção exterior, os lados uo objeto qu e são "realmente percebidos"
"diz" nad a so bre a detenllinação concreta desses lados não visíve is; no
re m e tem J.os que ainda não o são e que some nt e s50 antecipados na
entanto, ele é, de a nt emão, " pe rcebido" como cubo, depois, em particu-
ex pectativa de maneira não intuitiva como Clspec tos "que es tão por
lar, como colorido, e nru gado, etc., cada uma dessas determinações dei-
vir" na percepção Esta é uma "prot e nsão" co nt ínu a, que, para cada
xando sempre outra s particu laridades na indeterminação. Esse "deixar
nova fase perceptiva, assume um novo se ntid o . Al é m disso, a percep-
na inde termin ação" d as particularidades - anteriormente às detenni-
ção possui horizontes que envolvem outras possibilidades perceptivas,
nações efetivas mai s precisas que, talvez, jamais ir50 oconer - é um
a quela s que poderíamos ter, se, d e m a n eira ativa, d éssemos ao mom ento contido na consc iên c ia perceptiva em si; ele é precisamente
c urso da percepção uma outra uireção , se, por exemp lo, e m lugar de o qu e constitui o "horizonte".
voltar os olhos dessa maneira , nós o fizéssemos de ou tra, se désse- É pelo progresso real da percepçüo - oposta ao simples "es-
mo s um passo J frente 0\.1 para o lado , e assim por diante. Na le m- , clarecimento" por " represen ta ções" antecipadoras - qu e se efe tua
bran ça correspondente, encontramos to da s essas va ri ações com ce rta a dete rminação mais precisa, co nfirmando ou invalidando as "ant ec i-
modifi cação: assim, tenho consciência d e que e u te ria p odid o , e ntão, pações", m as sempre implica ndo no vos " horizonte s" e abrindo nov as
pe rc e be r outros lados em vez daqu e les qu e de fato v i - se, ev ide n- perspectivas. Porta nt o, a toda consc iência que é consciência de a l-
te m e nte , tivesse direc ionado minha ;:ttividade perccptiv~\ de o utra g uma co isa pertence essa propriedade essencial: não so m e nt e e la
man e ira. r\ lém di sso - c vamos ,lqui prec.' llChcr uma 1,lc\ln<l - , a pod e , de m a neira gera L tran sform a r e m modos de consciência se m-
toda percepção pert e nce se mpre um espec tro de percep<,:ões passa- pre no vo s , permanecendo co nsc iência de um objeto idênlico, objeto
das, que se deve conceber como pot e nc ialiu acles de Ic mbranças s us- intenc io nalme nte inere nt e , com o se ntido objetivo idê ntico, os seu s
cetíveis de ~crem rccorcLtdas, e ,) toda l elll br,lI1 ~' a e m s i pertence, m odo s na unid ade da sín tese , mas toda "consciência de alguma co i-
como "espectro". ;t llltenci o naliuild e m cdiata c COll t ínu<l de kl11hran- sa" pode fazê -l o, c só pode fazê-lo em e por esses ho ri zo nte s ele
ças possÍ\'els (le,!II:;~ld<ls por minkl ati\'i ebdc), ,ll~ chegdr alllllSLll1te int e ncional idade . O obJc to é por assim dizer um fJál() de idenlid{/de,
ela minh,\ pl'rccp~'~lu <ltual. O te mpo todo mistura-se aqui ,\ essas apresentado se mpre COlllum "sentido" "preconcchido" e "(\ se r" rea li-
po~slbilidaJes um "cu posso" e UJll " eu ~ljO", um "possO agir de m,1- zado. Ele é, e m caua m o m e nto da consciência, o indic{ldor de Limo
neira diferente cLt CJue de fato djO" - pouco importam, aliás, ~\s il1lbl- illlenciollalidude 1I()~li('{/ que lhe pertence por sell seI/lido, illlell-
ções sempre possíveiS que possam e ntravar essa "liberdade", como ciollaliJade que !wr!emos pesquisar e que pode ser exp li cada.
toda "liberuade" em geral. Tudo isso é passíve l de jnvestigação concreta.
(,4 J'vlcditaçõcs Crrrtc.'imlas Segunda Mcditaçiío 65

20. A originalidade da análise intencional perceberiam nem as multiplicidades noéticas da consciência, nem sua
unidade sintética, em virtude da qual podemos ter consciência do
"mesmo" objeto intencion a l d eterminado, que temos , por assim dizer,
Vemos que a allálise da co nsc iên cia, entendida como inten- diante de nós como s ignific a do de ssa ou daquela maneira. Da mesma
cional, difere 10lalmente de sua análise no senlido comum e natu- forma, permaneceriam veladas todas as operações constitutivas la-
ral d o termo. A vida da consc iê ncia, como já di sse mo s, não é um tentes, graças às quai s (se a observação prolonga-se pela explicitação)
simples toclo composto de "dados", suscetíve l, conseqüentemente, de acabamos encontrando diretamente na s coisas - COI110 " caráter" ,
ser "analisado" e, num sentido muit o a mpl o, dividido em elementos "parte", "propriedade" - uma explicação do sentido objetivo da in-
primários ou secundários, caso em que se di spo ri am as formas de tenção, ou captando-as intuitivame nte como o que assumimos de
unidade (as "qualidades da forma") entre os elementos secundári os. maneira implícita. Quando o'fenomenologista estuda qualquer er1tida-
Certamente, a olIúlise intencional- em algumas pesqui sas -leva- de e tudo o que n~la pode de scobrir, exclusivamente como "corre/atum
nos wmbélll a divisões, e nesse caso o te rm o "all á li se" p oderá servir. da consciência", ele a observa e a descreve não somente em si mes-
Mas seu l}"obalho original é o de rev ela r as potencialidades ma, e não somente relaci o nando-a ao eu correspondente, quer dizer,
"implicados" nas atualidades (estados a tuai s) da consciência. E é ao ego cogito do qu a l e la é o cogi fatum. Ao contrário, seu olhar
por aí que irá se dar, do ponto de vista noe l11 cl ti co, a explicação, a reflexivo penetra a vida anônima do pensamento, "descobre" as fa-
precisZio e a elucidação eventual daquil o que é "significado" pela ses sintéticas de termin ad as dos div ersos modos de consciência e os
consciência, ou seja, de seu sentido objetivo. modos mais recuados ainda da estrutura do eu, que permitem captar
A análise intencional deixa-se guiar por uma evidência funda- o sentido do que é intuitivamente ou não "significado" pelo eu - ou
mentaI: todo cogiro, considerado como consciência, é, num sentido presente para ele. Ou, ai nda, que permitem compreender como a
b e m amplo, a "significação" da coisa ele que ele trata, mas essa "sig- consciência, por si mesma e em virtude dessa estrutura intencional,
nificação " ullropasso a todo m o m e nt o aquilo qu e, no. próprio instan- faz com que, necessariamente, esse objeto "existente" ou "assim
te , é dado como "explicitamente assumido". E le o ulirapas sa, quer qualificado" lhe seja consciente, e qu e se encontre nela tal "sentido"
dizer, ele é aumentado de um " adicional " qu e se estende além. Em determinado. O fenomenologista estudará assim, no caso da percep-
nos so exemplo , cada fa se da percepção e ra apenas um as pecto do ção es pacial - fazendo abs tra ção, de início, de todos os predicados
objeto "em si ", e nquanto assumido pe la percepçi1o. Essa s upera ção de "significação" e atend o-se puramente à res extensa - , os :'obje-
da intcnçrlo 11tl própria inl ell çâo , in erent e a toda consc iê ncia, deve tos visuais" variáveis e os o utro s "objetos sensoriais", considerando-
ser considerada como essencia l a essa consc iê nc ia. Mas o fat o de que se qu e eles m os tram a s i m es mos co mo aprese ntações dessa mesma
a "superLlção" cb significação a tu a l esteja re lac ionada a o "próprio" res extensa . Ele ir<Í es tudar para cada uma dela s as varia çôes de
o bjeto . "re vela-se ", na ev id ê nc ia, de pode r prec isa r nossa intenç ão e , pers pec tiva, d e po is, no qu e se re fe re aos seus mod os ele prese nça
finalmente, de "preenchê-la" intuiti va m e nt e por mc io ele perce pções (de ser mos trad o) temp o rai s, na pe rce pção , na lembr,lIlça c na m e-
posteriores ou ele le mbran ças qu e e u mes m o posso efe tuar. m ó ria imedi a ta ; enfim , do lado do eu , os modos de at e nção, e <lss im
Or;\. ,l dtividacJc do fenomenologistLl não se limita a uma descri- por diant e. Vale notar, no e ntanto , qu e a interpretação fenom e nológica
ção "ingênua" do objeto inte nc ion a l co mo tal : e le não se contenta em do qu e é p e rcebido co m o tal não es tá ligada à e xplicação perceptiva
observ{l-Io diretamente, explicar se us caracteres. suas partes e suas dessa mes m a co isa pe rceb ida quanto a suas propriedades . da forma
propriedades. Se fosse assim, LI illt e nci ondli ebdc, qu e constitui a cons- co mo se completa n o curso da percepção reaL A e;-.,pllcação
ciência intuitiva ou nã o intuitiva , assim como a própria observação fe nomen o lóg ica elucida o que está "implicado" pelo sen tido do
que a explica, permanece ria "an ô nima". Em outras palavras, não se cog italum, sem ser intuiti va mente dado (por exemplo, o "avesso" do
66 lvleditaf.-úcs Cartesian lls ." :IJIIII/ {I/ J1[",{tI,,, 1111 67

objeto), representando-se as percepções potenciais que tornariam o A possibilidade de lima rC I1 () 111V11()1 {J~~ i; 1 da CI ~ ll s (l ( ' nC"l pura pa-
não-visível visível. Isso se aplica em gera~ a qualquer análise intencio- rece, a priori, bastante duvido sa. Os l"L- n \) I Ill' II O S (i;! c o nsciência não
naL Como intencional, ela llltrapassa os eSTados singulares que pertencem ao campo do jluxo he/,{ldiT('({/I(I'! DL" falo , slcria inútil
são objetos de análise. Explicando seus horizontes correlatos, ela querer proceder aqui por meio de um nH:lodo ,k: r Ollll,I \' ;'i o d e (.; o ncei-
coloca os estados anônimos extremamente variados no campo da- tos e de julgamentos an,'ílogo àquele que preclomin,1 nas c iê lJ cias ob-
queles que desempenham um papel "constitutivo" para a formação jetivas. Seria tolice querer definir um estado de consci t2 ncia como um
do sentido objetivo do cogiTatwn em questf1o. Trata-se, portanto, não objeto idêntico e fundamentar-se para isso nUllla experi é ncia, assim
somente dos estados vividos atuais, mas também dos estados poten- como para um objeto da natureza, portanto, no fundo, com ,I presun-
ciais, que estão implicados, desenhados, pré-traçados na intencio- ção ideal de poder explicá-lo, reduzindo-o a elementos idênticos, per-
nalidade dos estados atuais e carregam o caráter evidente de explicitar ceptíveis por conceitos fixos. Isso não ocorre em virtude de uma
o sentido implícito delas. Somente dessa maneira o fenomenologista imperfeição inerente à nossa faculdade de saber que os estados de
pode se dar conta de como e em quais modos determinados dessa consciência não têm relações e elementos últimos suscetíveis de uma
corrente de consciência as unidades objeTiveis (objeTOS) fixas e definição fixa por conceitos; isso lhes falul, a priori, e a tarefa de
permanenTes podem tornar-se conscientes. É particularmente dessa definir de maneira aproximada tais elementos por conceitos fixos não
forma que ele pode compreender como essa maravilhosa operação, poderia ser colocada de forma razoáveL Mas por isso mesmo tem
a saber a "constituição" de objetos idênticos, realiza-se para cada sentido a idéia de uma análise intencional. Porque o tluxo da síntese
categoria de objeTOS, ou seja, qual é o aspecto para cada uma delas intencional, síntese que, em qualquer consciência, cria a unidade e
da vida da consciência constituinte, e qual é o aspecto que ela deve constitui noemática e noeticamente a unidade do sentido objetivo, é o
ter de acordo com as modificações noéticas e noemáticas correlatas reino de estruturas típicas, de natureza essenci(ll, susceTíveis de
do mesmo objeto. Em conseqüência, o fato de que a estrutura de serem encerradas em cOllceiTos rigorosos.
qualquer intencionalidade implica um "horizonte" prescreve à análise
e à descrição fenomenológicas um méTodo absoluTamenTe novo.
Esse método atua em todo lugar em que consciência e objeto, inten'- 21. O objeto intencionaly ((guia transcendental))
ção e sentido, ser real e ideal, possibilidade, necessidade, aparência,
verdade, mas também experiência,julgamento, evidência, etc., figu-
ram como enunciados de problemas transcendentais e devem ser A estrutura mais ger;ll que, como foi-ma. abrange todos os ca-
tratados como problemas da "gênese" subjetiva sos particulares é aquela designada por nosso esquem,l geral 1'[1.0-
É eviclent"- que, I1JllTmis /I/Utandis. tudo isso vale para lima "psi- cogiTo-cogiTCIlUJ))_ A ela est;lo relacionadas as descrições mais ge-
cologia interna" pura. ou para uma psicologIa "puramente intencio- rais que tentamos fazer da intencionalicbclc, ele sua síntese própria,
nal", que permanece no terreno natural e positIVO. Destacamos, por etc. Na singularização e na descrição dessa estrutura, o ohjeTo in-
algumas indicações sumilri~ls, gue ela é a paralela da fenomenologia Tencional situado do lado do cogiTOT[(J)J desempenha - por razões
constitutivil, ao mesmo tempo que transcendentaL A única reforma fáceis de se depreender - o papel de um g[(ia Tro/Jscendc/lTol, em
verdadeiramente rildical da psicologia reside na elaboração de uma qualquer lugar onde se trate cle descobrir 0\ tipos múltiplos de
psicologia intencional. Brentano já a reclamava, nws infelizmente ele cogiTaTiones que, em uma síntese possível, o contêm como estado de
não detectou o que faz o sentido fundamental de uma análise inten- consciência de um mesmo objeto. O ponto ele partiela é necessaria-
cional, port:lIlto do único método que tornd possívelulllé1 psicologia mente o objeto "simplesmente" dado; daí, a reflexão remonta ao Illodo
desse tipo, jil que somente cla nos revela os problemas verdadeiros e, de consciência correspondente e aos horizontes de modos potenciais
a bem dizer, infinitos de uma tal ciência. implicados nesse modo, depois aos outros de uma vida de consciên-
68 j\1L-dilaçõcj-Cmtcsianc/.l- Se!Jlmdn lvJcdúarfto 69

cia possível, nos quais o objeto poderia apresentar-se como "o mes- seus últimos e le men tos, não são, no e ntanto , fortuita ou arbitraria-
mo'-' . Se ainda, permanecendo no quadro da generalidade formal, mente v;lriá veis. Eles permanecem se mpre ligoelos a uma estru tu-
concebemos um obje to em geral a título de cogitalUl11 , sem nos ligar- m. I/pico , quc é semp rc a mesma e qu e não pode ser quebrada, quer
mos por um conteúdo determinado, e se nes sa generalidade nós o se trat e de uma consciência de tal e ntidade determinada, C]uer a evidên-
tomamos por "guia", a multiplicidade dos modo s de consciência pos- cia de sua identidade por meio da va ri ação dos modos de consciência
síve is que se relac ionam a um mesmo objeto - ou seja, a estrutura de va poder mant e r- se.
formal geral - , especifica-se em uma série de es truturas-tipo s A t('m-in Irrllls cendenlal terá por tarefa explicar sistema ti-
noemato-noéticas especiais e rigorosamente diferenciadas_ Pode- ca meJlle essns estrllturas típicus. Se essa teo ria toma por g uia uma
mo s colocar entre essas estruturas tipos da intencionalidade : a per- generalidade objetiva e se se atém a essa ge neralidade , ela se chama
cepção, a memória imediata, a lembrança , a expectativa percepti va, teoria da constituiç50 transcendental do objeto em geral como objeto
a de~ignação simbólica, a exemplificação analógica, etc_ Esses tipos de uma forma ou de uma categoria, ou , ainela, num grau s upr~mo , de
de i ntencional idade pertencem a qualquer objeto concebível, como L1.ma dada reg ião . .
também os tipo s de coo rdenação sintética que a eles correspondem. Assim su rge m, inicialment e distintas, diversas teorias tran s-
Todos esses tipo s se particularizam, por sua vez, em toela a sua com- cenclent<lis: uma teo ria da percepção e dos outros tipos de intuição,
posição noemato-noética, tão logo determinemos O objeto intencio- Ullla teo ria da s ignifi cação, do julg<lmento, da vontade, etc. Mas es-
nal. As determinações poderão ser inicialmente lógicas formais, por- sas teorias convergem para uma unificação quando se trata de elucidar
tant o, ser modos da "qualquer coisa" em geral, co mo, por exemplo, o as conexões s int é ticas superiores, e toda s elas, em conjunto, d ese m-
singular, o individual, o geral, a pluralidade, o todo, a relação, e tc. penham seu papel na elaboração da teoria constitutiva gera l e for-
Aqu i surge também a diferença radical entre entidades reais, em m(/I de um ohjetu em geral; em outr<lS palavras, dc um hori zo nte
um sentido amp lo, e entidades cMegoriais. Estas manifestam uma li vre de obje tos possíveis, em gera l, como objetos ele uma consciência
origem que provém de "operações" e de uma atividade do eu que as possí ve l. .
e labora e as co ns tró i passo a passo; aquelas mostram que tê m sua Em seguida , vê m as teorias tran sce ndentai s constitutivas que
o rigem nas operações de uma síntese puramente passiva_ Além di s- não s:io formais. E las estão relacionadas, por exemplo, com objetos
so, temos as dcterminações ontológico s maiaiois, partindo do co n- esp,)Ciais. tomados indi v idualmente ou na conexão uni ve rsa l de uma
ce ito do indi víduo real, conceito que se espec ifica. e m seus dOll1tni os natureza, d seres psicofí.-;icos, hom e n s, comunidades sociais, objetos
rt'uis, como, por exemplo, objeto espaci~d (puro e simples), ser ani- de cultura_ e nfim , il um mund o objetivo em ge ral. como mund o de
mai, e tc., o que o ri gina, no qu e concerne a determinações lógicas uma consciência possÍ\'l'l c, trdn scenden talmente_ c o mo se cons ti-
formais co rre spo nd e nte s - tais como: qualidade real, pluralidade, tu indo como objeto da consciência no ego tran sce ndcn tal. Tudo isso ,
relaç ões reai s, e tc. - , particularizações correlatas. é c laro , na atitud e rigorosamente mantida da cTCOXTl tran sce nd e ntal.
Cad3 tipo que se descobre dessa ma ne ira deve se r estudado Mas não deve m os esq uecer C]ue os tipos dos o bj etos reais e
quanto à sua cs tflltura Il oe mato-noé tica: deve se r s istematicame nte id eais_ obje tos de C]lIe temos consci ê nc ia "obje ti vd- ', não S:10 os úni -
interpretado e explicado segundo os modos de seu fluxo intencional e cos g.uias possíveis na s pesquisas dc ordem "constjtl1tivil", Oll sej,l,
so seus " hori zo nt es " típicos e suas implicações , e tc. Se fixamo s um nas pesquisas C]ue se propõem a descrever a estrutur,) universal dos
objeto qualquer em sua forma ou em ,,,ua categoria, e se mant e mos mod os de consci0ncid l'0ssíVé is de,>,<;cs objetos. ;\s es lrlllllms ItfJi-
cOlllinuamente em evidência sua identidade por meio das variaçõe s cus puíprius dos ohjelO.1 fJurW17elltc slIhjer i\'()s e de to dos os e:--.ta-
dos m odos dc consc iê nc ia, percebemos C]ue esses modo s, por mai s dos vividos illl,lIlelltcs podem igualme nte d e~e mpenh , lr esse papL:J.
ondulante s que possam ser, e p o r mais difíce is de captar que sejam Ila medida em que têm. individual c ulli versalmente, .~lIa "constitui .
70 .1 I.-dl !u!"o,·.' Co )" , sin !I (!;" Segunda j\1 editrrçâo 71

ção" pró pri a com o o bjetos da co n sciê nci a inte rna do tempo. So b to- Ta m po uco é um caos de tipos d e e strutura c o nstituti vos, d o ql~al cada
dos o s as pec tos, vemos se c o locare m proviemos q ue atinge m o ra a s um se ria o rd ena do em si me s m o po r sua relação c o m uma e spéc ie o u
espéci es de obj e to s considerad as ind ividllalm ente, ora s ua univer- fonna de obj etos intencionai s . Em outras palavras, a totalida de e tip os
salidade . Esses últimos dizem re s peito ao eu na universalid a de de de o bj etos que posso conc e be r, o u, para falar num a lin g u age m
seu ser e de s ua v ida, em relação à univ e rsalidade correlata de seu s
tran scend ental, que o eu transcendental pode conceber, nã o são um
objetos. Se tom a mos como guia tran sce nd e ntal o mundo obj etiv o e
caos, m as um conjunto ordenado; O mesmo vale para a totnlid ad e dos
uno, e le nos ree nv ia à síntese das pe rc epções o bjetivas que en g lo ba a
ti pos de multipli c idades ind e fini das (fe nômenos) ligad as 11 0é ti ca e
unidad e de to d n nossa v ida. a ss im co m o àque la das outra s intui ções
noe matica mente, que corre sp o nd em aos tipos de objetos .
o bj e ti v as poss íve is , s íntese em v irtude da qu a l o ll1undo e stá a to do
mom e nto prese nte na con sci ê nc ia co m o unidad e e pod e to rn a r-se Isso nos fa z pre ver uma s íntese constitutivo un iversal, em qu e
seu obj e to. D aí se d e preende qu e o mund o é um problema ego lóg ic o toda s a s o utras desempenham s ua fun ção juntas, se gu ind o um a orde m
de ca ráter uni ve rsal ; o mesmo va le, na o ri e ntação puramente ima nent e, de.te rmin ad a, e que abran g e , e m conseqü ê ncia , to das a s e Jltjdad e s
para o co njunto da vida dn·con sc iê nc ia e m s ua duração im a ne nte . rea í.s e poss ívei s, à medida qu e e las exis tem para o eu transcendental,
e, d e fo rm a corre lata, todos o s m o do s de con sciência corres pondente,
reai s o u poss íveis. Em outras pa lav ras, uma tarefa formi dáve l dese-
nha- se, que é a de toda a f enom enologia transcendental. Ei s essa
22. A idéia da unidade universal de todos os objetos e o tare fa : na unid a de de uma ord e m s iste mática e univer sal , e to m a n-
fJroblema de sua elucidacão constitutiva d o com o fi o co ndutor móv e l o s is tema de todos os obje tos de uma
"
consciência possíve l - s iste m a qu e se rá preciso manifesta r g ra-
dualment e - e, ne sse s is te ma , o de s ua s ca te goria s for m a is e m a-
T ip os d e o bj e t os n os s er v ir a m d e "g ui a" na s p es qui s a s
te ri a is, efetuar todas as p esquisas fe nolllenológicas com o p esqui-
tran sce nde nta is unificad as em to rn o de um me s m o terna . Na redu-
sas cons titutivos, o rdenando-as sistemática e rigoro sam ente um as e m
ç ão fen o m e no lóg ic a, havíam os ca pta do esses tipo s a título de cogita ~a
rel ação às outras.
puros, se m nos in s pirar em " prejul ga m e nto s" de um siste m a d e co n-
ceitos c ie ntíficos admitidos de ant e m ão. P o rque as multiplicid ades ela Mas o m elhor seria dize r q ue se trata, aqui, de uma idéio regulativa
con sci ê nc ia q ue são "constituint es" - o u S Cj:L aquelas qu e são o u infin ita. O sistema - que tem os de sup or numa antecip ação ev ide nt e
que po d e m se r co nduzidas à unid a d e da s íntese no me sm o - e s tão - de obj e tos possíveis com o obj e tos de uma consci ênc ia poss íve l é
ligadas. q uan to <] p os sibiliel il de de uma 1;1 1s ínt es e. po r c o nd içõ e s não um a idé ia (m as não uma invenção o u ficção) que nos fo rn ece um
acident il is, m as es'sc l7 c iCl is. E lil s estno, po rt a nt o. s ubm e tid as n prin- prin cí pi o de o rd e m prútic a. Es se pr inc ipio nos permite re i iga r e ntre
c ípios, e m v irtud e dos qu a is a s pesqui sas len o m c no lóg icas , e m lu ga r e las a s teo rias co ns tituti vas re la ti va m e nte acabada s, e lu cida nd o não
d e se pe rd e re m e m de sc ri ções se m li gação e ntre s i, sil o orde nad a s so m e nte os ho ri zo nt es im a ne nt es ine re ntes a o s obj eto s d a co nsc iên-
p o r m e io de rnzões im a nent es . Codu o bje to. e m gerul (c ta m bé m c ia, m as ta Illbém aquele s qu e e nv iam pa ra fo ra , p a ra as fo rm a s es-
cada obje to im anc nte). c OITespoJlde a ZIIIlU regra de estr lllllr a do cu se nc ia is de li gaç ão . É ve rd ade qu e os pro blem as q ue se co loca m
tran sce nclen t<ll. C omo represent ilçJo de sse CII. e de algum a co nsc iê nc ia qu a ndo tomamos por glli as - ai llcla q ue limitad os os ti pos in d ivi-
qu e este tenha e1 e la, o objet o logo c1es igll:l Ulll:l regra uni ve rsa l. pa ra du a is de o bjetos silo de urn a c o m p licação extrem ,1 e nos leva m, po r
outras posslh ilidodes ele con sci ê ncia do mesmo objeto e el e poss ibi - po uco qu e sejam aprofund a do s, a pes quisas muit o co mpl exa s. É o
lid ad e s prede te rminadas na essê nc ia . Ass jm é pilr3 tod o o bj e to "con - caso, po r exe mplo, li;] tc o ri a tra nsce ndental da cOll stilll içJ o de um
c e bíve l" , pa ra t udo o que possam o s concebe!" com o represe nta d o. A o bj eto e s paci al , até da de um él n atureza e m geral, da anim a li da de , da
su bjeti v idade tran scendenta l n ão é um caos de es tad os inten c io na is . humanidad e em geral , da cultura e m geraL
TáccimMcditaçií~ 73

e fals idade, ainda que · num sentido extremamente amplo. Esses


predicados não estão contid os simple smente como " dad os feno -
menológicos" nos estados ou nos pró prios objetos intencionais; n o
TERCEIRA entanto, têm "origem fen omenológica" . Entre as multiplicidades d e
mod os de consciência sinteticamente ligados que ex istem para cada
MEDITAÇÃO objeto, de não importa qual categoria e do qual se pode estudar a
estrutura fenomen o lógi ca típic a, podem os fazer uma distin ção . AÍ
e ncontram-s e, de um lado, as sínteses que manifestam de maneira
evidente --- quanto ao se u sen tido :f(n al - sua conformidade com o
tipo de estrutura em que stão e, dessa forma , co nfirmam e ve rificam a
OS PROBLEMAS CONSTITUTIVOS intenção ou o sentido objetivo dad o; existem a í, ao contrário, o utros
VERDADE E REAL IDADE qu e O anulam e o de stroe m de maneira também evidente. Entã o, de
forma correlata, o objeto da intenção poss ui o caráter evidente de
se r um objeto " que é" ou " que não é" (ou seja, cuj o ser es tá negado,
" riscad o") . Esses casos de s íntese são intencion a lidacles de ordem
mai s elevada que , e m disju nçã o exclu siva, dividem todo o campo do
"sentido objetivo". São atos e correlata da "razã o ", esse ncialmente
23. Precisão do conceito de constituição transcenden tal pela real izáv eis pelo eu transcendental. A razão não é uma faculdade
introducão das nocões de ((razão)) e ((não-razão ))
J J que tem o caráter d e um fato acidental; ela nã o engloba sob s ua
noção fat os acident<lis, mas é uma forma de estrutura universal e
essencial da subjetiv idade transcendental em geral.
Até aqu i e nt e ndem os por "con st ituiç?ío fenomenológica"· a cons-
"Razão" conduz a poss ibilidades d e confirmação e de "verifica-
tituiçilo d e un1 obj e to intencion a l e m gera l. Ela abra ng ia o co njunto
ção" , e estas, no final da s con ta s, leva m à evidência, quer sej a um a
cogito- cof.!,i/ u tZlIll e m toda a sua amplidão. Vamos ago ra tent a r dife-
evid ê ncia ildquirida ou p or âdquirir. Já falam os d essas ev idências no
renciar se u ca mp o segund o suas estruturas. para elabo rar 11171 con-
início de nOSS<lS medit ações, quando, de forma tot a lm e nte ingê nua,
ceito moi.\' preciso do que chamamos de constituição. Até :lqui a
ainda preci sáva mos pl'OClirOrnossa s direti vas metódic as, quando a inda
que stão ele saher se se tratava de obj e tos reai s o u irre;li s. de obj e tos
não estúvamos no te rre no fen ome no lógic o propriamente cI ito. Vamos
poss ívei s ou impossíveis não desempe nh ava nenhum papel. Ora, ()
agora fa ze r da evid ê ncia o objeto de n OSS<l bu sca fe nOllle lll)k )g iGl.
fa to de term os ",v irad o fazer um julgamento so bre 3 ex istê nc ia o u ,1
ine x is tênci a cio Illun do (e de qualquer o utra ohjetividade dada) nil o
s ignifi ca que tenh amos abandonado essa cliferença. Ao contrário. essa
difer ença cons titlli. alinhada pelas n oções Illuito ge rai s d e " ra7.ão"' e 24. A evidência C071'ZO dado originário. Suas variantes
" nã o-razão"'. consi derada s co mo corre lata s do "se r" e do " não-se r' ·.
um tema uni versa I ela fe nomeno log ia. Pe 1;1 rrrOXll redu z i mos o dado
rea l ;i s imple s "i nt e n ~ão'; (cogito) c ao o bj e to inte ncional tom ado 1\ pa lav ra evidê nciu desig na, num sen t id o be m ampl o 1111/ je-

pUr,lll1ente Cl)Il1 Cllal. E a esse obje to intencio nal que estão rel ac iona- gerol c últill/o cb vi eL:-! inte ncio nal. Ela se upõe en tão úquilo
})()/I/CI/O

dos os pred ica dos "ser" e " não-se r" e s uas va riant es modai s; e les se que no rmalmente se e nt ende por "te r cons ci ênc ia ele a lgum a coi sa",
relaci o n a m nJ o a objetos puros e simples, ma s ao sentido o bjetivo. podendo essa consc iên c ia se r, a priori, " vazia" - purame nte abstrat a,
À illlençào (= ao ato) relacionam-se os predic<ldos verdade (justiça) s imbólica, indireta , n ão ex pre ssa. A evid ência é modo de cons ciência

72
74 ivfcclitaçõcs CC/iusianas
lêrceira 1\1cc/li/! fi/o 75

de uma distinção particular. Nela uma coisa, um "estado de coisa", 25. Realidade e quase-realidade
uma generalidade, um valor, etc. apresenlam-se, oferecem-se e
mostram-se "em pessoa n. Ness e modo final , a coisa está, "ela
própria, presente ", dada "na intuição imediata", "originalmente". Toda s essas diferenciações dividem-se, tamb é m, em paralelas.
Para O eu isso significa que ele assume alguma coisa não de forma Elas o fazem em virtude de uma oposição que atravessa toda a esfe-
confusa, por meio de pré-noções vazias, ma s que está muito próximo ra da consciência e, de forma correlata, toda s as modalidilde s do ser.
da coisa em s i, que "a percebe, a vê e a maneja " . A experiência, no É a oposição entre o real e o imaginário (= ficçi.lo d e realidade). Do
se ntido vulgar, é um caso especial da evidência. Podemos até mesmo lado da imaginaç50 surge um novo conceito de possibilidade, con-
di zer que a evidência tomada em geral é experiência, em um senti- ceito geral em que encontramos de forma modificada, no aspecto do
do muito amplo e, no entanto, esse ncia1. Certamente, em relação simples "imaginável" (na atitude do "como se"), todos os modos exis-
a objetos quaisquer, a evidência não passa de um caso acidental da tenciais, a começar pela simples certeza da existência. Essa duplica-
vida da consciência. No entanto, esse caso designà uma poss ibilida- ção se dá em modos que, por oposição àqueles do "real" (tais como:
ser real , se r real provável, ser real du v idoso ou nul o, etc.), peJ1enCem
de, que é o objetivo para a realização do qual tende toda intenção
a "irrealidades" puramente imaginárias. Assim se e s tabelece Lima
para tudo aqu ilo qlle é ou poderia ser seu objeto. Ele designa, em
distinção correlata entre os modos de cOllsciéncio de posiçilo e
conseqüência, um caráter fundamental e essencial da vida inten-
aqueles de consciência de quase-posiçüo (d o como se. da " imagina-
cional em geral. Toda consciência já tem em si mesma o caráter ele
ção", expressão evidentemente muito imprecisa). A seus modo s es-
evidência , isto é, mostra autenticamente seu objeto intencional ou tend e
peciais correspondem modo s parti c ulares de evidênc ia - eb evidên-
na essência a mostrá-lo autenticamente, ou seja , a chegar a sí nteses
cia dos objetos que eles significam - , no próprio seio dos s e u s
de confirmação e de verificação que pertencem essencialmente ao modos de ser respectivos, assim como potencialidad es parti c ulares
domínio do eu posso. A toda consciência vaga podemos, com a atitu- de realização de ssa evidência. É a ess e domínio que pertence o que
de da redução transcend e ntal, fazer essa pergunta: o objeto da inten- com freqüência chamamos de "e lllcidação" ou "e sc la reci m e nto".
ção'corresponde-Ihe ou pode corresponder-lhe, no modo do "si me;;- O "esc larecimento designa sempre um modo d e reoli::açâo da evi-
mo", ficando preservada a identidade do o bjeto? E em que medida dência, o estabelecimento de um trajeto s intétic o, que v:-li de uma
isso acontece? Ou, ainda, em outras palavras, que aspecto tomaria o intenção confusa à correspondente intuição "exe mplifi ca tiva". ou seja,
objeto em questão se ele se apresentasse "a s i mesmo"? aquela que leva implícito em si o sentido a paJ1ir do qual seria poss í-
No proce sso da ver ificação, esta pode resultar mima negação. vel, se conseguisse ser direta, levar à intenção e m Cjucstilo uma con-
E m lugar do próprio objeto em questão, pod e ap,necer um outro, e firmação de sua s ignificação existencial e dc " rreenchê - Ja " de ma-
isso no m odo originário; a intenção prim ei ra " fracassa" então em sua neira adequada. A intu iç50 "exempl ificati va.', Zl con fi rma çi.lo ori gi nú ri;1.
po s ição do objeto e este tom a, por sua vez. o caráter de " não-e xis- dá-nos nã o uma evidência realizad o ra d o ser. ma s da possibilidui/e
tência " de ser de se u contellclo.
O nuo -se r não passa ele uma' modulli/ode do ser puro e sim -
ples. d a ceJ1e za de ser moclalidade à qUi11 por determill<ldas razões a
lógica ofe rece um lugar ele esc o lha. Ma s a evid ê ncia tomada e m um
26. A realidade considcrfldn C07no
sen tido bem :-Implo é um co nceito correlac io n ado não s omente aos
conceitos elc " ser" e de " não-ser", ma s também às outras variações eorrc!ato da ver~fzeflç.ão evidcn t e
m oda is do ser. tais como ser possível. provúvel, duvidoso; e ainda 3S
variações que não pel1encem a essa série e que se originam na esfe-
Com essas breves observações tocamos. apenas no s proble-
ra afetiva e volitiva, tai s como: "ser um valor" e "ser um bem".
mas gerais formois do análise inlellcion al, assim como na s pes -
76 Meditações Cartcsirmns Terceira i0.cditnçâo 77

qui s as - Ja muito va s tas e difíceis - a resp e ito da origem é um elemento rea l da ev idência e da confinnação como fen ô menos
fenomenológica d os princípios e conceit os fundamentais da ló- do jogo da co nsc iê ncia. Trata-se aqui de uma imanência d e ordem
g icafarmol qZle a ela se ligam. Isso não é tud o . E ssas observações ideal, qu e nos re mete a conexões essenciais de sínteses poss ívei s,
nos fazem entrever uma verdade muito importante. Esses conceitos, novas . Qualquer evidência "cria" para mim uma aquisição durá -
em sua generalidade ontológica formal , são índices de uma lei uni- vel. Posso "volfar sempre" à realidade percebida em si, em cadeias
v ersal referente à estrutura da vida da consc iên c ia em geral, fOffi1ada s po r ev id ê ncias novas que serão a " reprodução" da e vid ê n-
estrutura em virtude da qual so mente os te rm os de verdade e de cia primeira. Ass im , por exemplo, na ev id ê nc ia referente aos dad os
realidade tê m e pod e m ter um sentido para nós. Com efeito, se os imanentes ha ve rá uma cadeia de lembran ças intuitivas com a infini -
objetos "são" para mim , no se ntido mais amplo, reai s, estados vividos, dade ilimitada do ho ri zo nte poten c ial do "eu posso sempre reproduzi-
números, relaç ões, lei s; teorias, etc. isso ini cialmente nada tem qu e la de novo"- Se m tai s poss ibilidades não hav e ria para nós o ser está-
ver com a eyidência. Isso s ig nifica que esses o bjetos "valem" para vel e durável, nã o have ria mundo real ou id eal. Cada um desses
mim ; em outras palavras, eles são meus cogiwta, e estão presentes mundos só é para nós po r meio da evidê ncia , ou pela presunção de se
na consciência no m odo pos ic ional da crença. poder atii1 gi- la essa ev idência e de ren ova r a evidência adquirida.
Mas sél bemo s muit o be m que seria ne cessári o renunciar logo a Daí se segue que a evidência de um ato s ing ular nelO basto
considerá-los como "vá lid os", se uma sínte se de id entidade evidente pura criar para nós t lllJ ser durável. Todo se r e m um sentido bem
nos levasse a um a co ntradição com um dado evide nte. Sabemos omplo é um se r "e m s i" e tem , em co ntrapartida , o "para mim"
també m que só po dem os esta r seguros do ser real por meio da sÍnte- acidelllal dos atos s in g ulares. Da mes ma fo rma, qualquer verdade é,
se de co nfirmação verificadora, a única que nos aprese nta a realida- nesse sentido muito amplo, "ve rdade em s i" . Esse sentido muito am-
de verdadeira. Fica claro que só se pode extrair a noção da verdade plo do " em s i" remet e, portanto, à evidência, não exatamente a uma
ou da reali da de verdadeira do s objetos a partir da evidência ; é gra- ev id ê nci a tomada co mo fato vivido, mas a certas potencialidades fun-
ps apenas a e la que a de s ig na ção de um o bj eto co mo realm ente damentada s no elltru17scendentol e e m sua vida própria , e, de início,
existente. verdadeiro, legit imamente válido - seja qu a l for sua for- ;1 da infinid ade de inte nções que se re laci o nam s inteticamente com
ma ou espécie - odquire paro nós wn sentido. e o mesmo se dá um único e mesmo o bj eto , e depoi s às potencialidades de s ua confir-
e m n:::Jaç30 a toela s as d e ter minações que - p a ra nQs - lhe pel1en- maç?ío, pOrtél lltO, ~l ev id ênc ias poten c iai s ind efinid a mente re nováve is
ce m verdadeiramente. Q ualqu e r justificaç50 provém da evidência e, como fat os v i\'i Jos.
e m co nseqliênc ia , e nco ntra s ua fo nt e em nossa pró pria s ubj etividad e
tra nscc nd ental. Q ua lq uer ade qua ç50 qu e se possa imaginar form a-
se C0 l11 0 confirmação, co mo sí nt ese que nos pe rt ence, e é em nós
qu e e la tc m se u fundamento tra nsce nde nt a l último.
28. Evidê'n cia presuntiva da existência do mundo. O
711-undo) idéia c07Telnta de uma evidência emph-ica perfeita

27 EFidblcia habitual e evidência potencial. Seu papel As ev id ê nc i[lS t0m ainda um outro modo. bem l1l;Ji s co mpli cado,
constitutivo do ((sentido)) de ((o~ie to existente)) de re,,?eter, no caso de um m es mo objeto, a mjlllidades de evidêll-
cios. E o qu e oco rr e sempre que o obj e to. originalm e nte mostrado
ne las. o é de UJ1) ,l m,lJlc ira 1I11ilaferu!. Isso se r c l ~l c i() n::l a nada me-
Cc n a me nte, tal como aquela do obj eto da pró pri a int e nção, a nos que o conjunto d as ev id ências, que, na intui <;?ío imediata, repre-
id en t id ade do objeto realm e nte existente, ass im co mo a adequação se nta para nós um mundo o bj etivo real , t8nto quando se trata do
entre o obje to intenci onal co mo tal e aquele rea lmente ex istente, não co njunto quanto q ua ndo se trata de objetos s ingulares quai squer.
78 ..' -'f" lirllf i'i'5 C il rtni(!J/ (!s ]cneim i\1editação 79

A evidência que corresponde a esses objetos é a experl eJ7 clG ci ência ? Esse ato de re meter significa manifestamente que o "objeto
externa ; e torna-se claro que tais objetos só podem se r mo strados d e real" pertencente ao mund o - e com mai s razão ainda, o próprio
maneira unilateral. Iss o não é nem me s m o cOllcebível. Ma s fica cla- m undo - é uma idé ia infinita que se relaci o na COm infinidades d e
ro também que , além diss o, essa e spéc ie de evidência possui nec es- ex peri ências concordantes, e que essa idéia é correlata à d e uma
sariamente um horizonte de antecipações não " preenchidas" ainda, evidência emp írica pe/feita, de uma síntese completa de expe riên -
mas tendo nec e ss idade do ser, port a nto qu e e la engloba conteúdos cias possíveis.
que são objetos apenas de um a intençil o significante, que nos re met e
a evidências potenciais corres pond e nte s. Essa irnpcrfe iç i'io da ev i-
dência tende a diminuir na e pe la reali za ç ?ío d e c o rrentes de ato s
o rigin ári os que conduzem, po r passage ns s int ética s, d e uma ev idên- 29. As regiões ontológicas materiais e formais como
cia a outra. Mas nenhuma síntese concebível pode atingir adequaç?ío índices de sistemas transcendentais de evidências
completa e acabada, e ela sempre se faz aco mpanh a r d e pré-inten-
ções e de co-intenções nã o " preendlida s" . Além di sso, é sempre
poss ív e l que a crença ex ist e nci a l q ue anima a zllltecipaçfío não se Compreende-se agora quai s são a s g ral7des lareJas da outo-
confirme, qu e aquilo que aparece no modo or ig iniÍri o (do si mes mo) explicação transcendemo l do eu ou de su a vida d e consciênciél ,
não seja o u que seja de outra maneira. No e ntant o, a expe riência tarefas que na scem em e pela consideração da s entidades co loca-
externa, no que se refe re a seus o bjetos, assim como a toda s as rea- r d as e a colocar nesta vida mesmo. A s noções "ser real" e " verdade"
lidades objetivas, é, em e ssê ncia, a única instância d e verificaç?ío , na (em toda s as suas modalidades ) designam para cada um dos objetos
medida, evidentemente, em qu e a experiência ---- transc o rrendo ativa em geral que , como eu tral7scendental, eu "s ignifi co" e po sso "s igni-
ou pass iva m e nte - tem a f o rma de uma s ín te se ele concordância. O ficar" uma dislin ção das estruturas n o seio das m u ltiplic ida d es
ser do mundo é, portanto, "t ran scendente" à consciência, m es mo na d e cogilationes reai s e pos síve is qu e se relacionam com o objeto e rn
evidência originiÍria, e nela permane ce nec essa ri a m e nt e transce n.- quest ão, ou seja, que não podem jamais se a grupar na unidad e d e
dente. Mas iss o não muda nada em re laçã o ao fato d e qu e qualqu e r uma s íntese d e id e ntidade . O term o "obj eto realmente existente"
tran sce nd ê ncia constitui-se unic a m e nt e na v id a da co n sc iê ncia , co mo indica , no se io dess a Illultiplicidade, um s istema partic ulat; a sabe r o
algo in sepa ra ve lm e nt e li gad o a essa vicl<l, e q ue es sa v ida da co ns- qu e compreende to d as as evi dên c ias que se re fe re m a e le ; e essas
e iê n c ia - tomada nesse caso part icula r como co ns c iênc ia d o m lin do evid ê ncia s estão li gadas s inteticam e nte de maneira a se unire m em
carrega em s i m es ma a unidade ele sentido q ue cons titui es se uma evidêllcia tOlO!. ainda qu e tal vez infinita . Es sa ev id ência ser ia
" mundo", a ss im c o mo o ai' d esse " mund o rea lm e nte exis tente" . So- aquel a absolutam c nte perfeita, que , no fin a l da s con tas , lll os tra ri<l o
m e nte a explicitação dos h o ri zo ntes da cxpe r iéllc ia esc larece, no final pró pri o objeto e m toda a s ua riqu eza; e, na s íntese d essa e v id ê nci a ,
das co ntas, o sentid o da " realidad e do m u ndo " e de s ua " tra nsce n- tud o aquilo que, nas ev id ê nc ia s s in g ulares qu e a fundamentam, ainda
dência" E la nos m os tra e m segu icl:l que essa tLln scendência e essa é pré-intenção vaz ia c puramente simbólica, se ria ade qu ada mcnt e
realid ade são in se paráveis ela subjetividade trélll sce nd e ntal. na qu al c o nfirmad o e " preenchido" peja intui ção. Se rá o caso . para nós, nã o
se con stitui qualquer espécie de SC lltic! o e de realicl8dc . Mas o que d e re,l liza r essa evidê nci a d e fato - para to d os os o bj etos re8 is isso
qu e r di ze r o ato de re m et e r a infini cl8 d cs co ncordéll1tc s el e um él expe- se rin uma m etél de sprovi do de sentido, poi s, co mo di ssemos. lIrna evi-
ri ênc ia poste ri or possível , impli célcl:ls e m cad;] experiência ci o Inundo. d ê ncia e mpíri ca abso luta é lIlIl a " idéi a" - nlélS elllcido}' (e.\plicilOr)
sc "ser um obj eto ren lment e existente", Ill ostr<ld o "e m pe ssoa" nUllI a SilO (!s lrZllUl '[f essel7c iu!. assim com o as e s trutur as c sse n c iai s cL~ s
evidência empírica perfe ita, nã o po de s ig nifi ca r o utra coisa se não se r dimen sões de infi n id ade que constituem e co mp õe m de mall c ir a si s-
Oobjeto idêntico das int ençõe s atuais e pot enciai s na unidad e da cons- temática s ua síntese ideal infinita. É um a tarefa fantá stica , ma s be m
1'0 /VIcditações Ca rtcJúmas

det e rminada _ Consi s te no estudo da c o nstituição trclI1scendelltal


da objC'/ividade real, sendo esse s termos tomados em seu sentido
própri o_ Ao lado das pesquisas gerai s formais qu e se atêm ao concei-
to lógic o formal (ontológico fo rmal) do objeto em geral- e que, em
QUARTA
conseqüência, são indiferentes às det e rminaçõ es materiais das cate-
gori;lS particulare s de objetos - , teremos então, como veremos, uma
MEDITAÇAO
sér ic de pro blema s de c o n stituição de o rdem material , ou s eja, de
probl e ma s de con stituiçã o particulare s a cada uma da s catego rias
(regiões ) materiai s supremas_
Será prec iso elabo rar uma teoria constitutiva da natureza fisi-
co, se mpre "mostrada" e - uma implicando a outra - press uposta
como exi stente ; uma te o ria do homem, da sociedade humana, da
cli/tura , etc . Cada uma d essas n oções designa um vast o conjunto de
pesqui sas diferentes, que correspondem aos conceitos de ontologia in -
gê nua , tais como: espaço real , tempo real, c as ualidade real, o bjeto real,
qualidade real, etc. Trata-se a cada vez de de svelar a intencional idade
impl ic ada l1a pr ó pria experiência ( s endo ela um estad o vivid o 30. Os problemas constitutivos do
tra n scende ntal); trata-se d e lim a ex plicitação sistemática dos "horizon- pr6prio ((ego)) transcendental
tes" da experiência, o u seja, de uma explicitação das evidências possí-
veis que poderiam "preencher" s uas inte nções e que, por s ua vez, de
a cord o com uma lei de estrutura e sse ncial , tàriain renasce r em volta Os objetos só existem para nós e só são o que são como objetos
d e las " ho rizontes" sempre novos, e isso estudando continuamente as de uma consciência rea l ou possível. Se esta propo s ição prec isa se r
correlaç ões intencionai s . Percebemo s e ntão que, em sua relação com algo diferente de uma afirmação no ar o u um te ma ele esp ec ulaçõ es
os obj etos, as unidades sintéticas das evidências constituintes p ossuem vazias, ela d e vc sercolllpro vaela por uma explicitação fe nomen o lógic a
correspond e nte _
um a estrutura basta nte complexa; por exe mpl o, percebemos qu e, efe-
Só um a pcsqui s ;1 que abordasse a constituição no sentido mais
\ 'and o-s e a partir ela base objetiva mais simples, e las implicam csca l:ls
a mpl o , indicad o anteriormente, e em seguida no m a is restrito que aca-
fCJrmad as p ur " objeto s" pura mente s ubjeti vo s. E sse pap e l de funda-
bél l1l0S de desc rev er, poderia levá-Ia a e feito . E is so segund o (' liilico
mento objetivo último é sempre pree n c hido pe la duração imanent e, O ll
método possível de élcordo co m a essência ela intencionaliclade e de
seja. pela v ida que tran scorre e se con stitui e m s i m esma e po r si mc s-
seus horizo ntes. Já as anúJises preparatórias qu e /lOS conduze m à int e-
ma . [sc l;m::c cr a constituição dessa duração é tarefa pró pria da teoria
ligê ncia el o s entido do problema de s tacam o fato de que o ego
ela co nsci ê ncia o riginal d o te mpo, quc cons titui os próprios dad os tcm- tran scendellt a l Cc. se consid e rarm os s ua rép lica psicológica, a alma) é
por,ll S aquilo quc el e é unic ,l mente em relação ZlO S objeto s intencionais.
A esses últimos pertencem igualmente os objetos d e ex istência
nec essá ri zl. e. CO lll O ego que se re laci o na com o Il1undo, nã o so m e nt e
os objeto s na esfera temp o ral im a nente. s usc e tí ve is ele uIl1aju stifíc a -
ção adequada, m as tamb é m aqueles do mund o que justifi ca m sua
exi s tê ncia no desenvo lvimento concordante de uma experiência ex-

81
l0cditnções CarttSirmns Q:tnrta j)1"ditação ~3
R2

terior. inadequada e presuntiva. Pertence, portanto, à essência do ego qualquer ato que ele efetue e que tem um se ntid o objetivo !lOvo., o eu
viver sempre e m sistemas de intencionalidades e em s istemas de sua s - em virtude da s leis da "gênese transcendental" - adquire uma
conco rdâncias, o ra tra nscorrendo no ego, ora formalldo potencia- nova propriedade permanente. Se me decid o. por exemplo. pela
lidades estávei s que sempre podem ser reali za da s . Cada um dos ob- primeira vez, num at o de julgamento, pel a exi stê nci a de um se r e po r
jetos que o ego alguma vez assumiu, pensou , qu a lquer objeto de sua esta ou aquela determinação desse ser esse ato p assa, mas e u so u e
ação ou de seu julgamento de va lor, que ele tenha imaginado e que permaneço daqui por diante um e u que decidiu destn ou d aque la
possa imaginar, é um índice de um tal si ste ma de intencional idad es, e maneira, "te nho uma convicção correspondente".
nada mais é que o correlato desse si stema . Ora, isso n30 s ignifica somente que me lembro o u que pen so
lembrar no futuro desse ato; eu teria podido fazê-lo m es mo se ti vesse
entrementes " perdido" essa convicção. Após ter es tado " ri scada",
31. O ((eu)) como p ólo idêntico dos ((estados vividos )) ela não é mais minha convicção , mas o fora de m a neira perman e nte
até então . Enquanto ela é válida p a ra mim , pos so "vo ltar" a el a mui-
tas vezes e se mpre a e ncontro como minha, como me 'pert e nce ndo
M as dev emos ago ra chamar a ate nçã o para um a grande lacuna como habitus; e ncontro a mim mesmo como um eu que se CO I/\ 'el/ -
da nossa exposição. O ego existe p or si meslllo; ele é existente para ceu, como um eu permanente determinad o por esse huhitlis perse-
s i mes mo com UI1ln evid ê ncia continua e em conseqüência constitui verante. O mesm o se dá em relaç ão a qualqu e r deci são que e u tome,
continua mente a s i m esm o como existente. Mas só tratamos até O Eu me decido, O ato vivid o transc o rre, ma s a dec isã o permanece -
momento de um ún ico lado de ssa constituição de si mesmo; dirigimos quer eu me abata, torn a ndo-me pas s ivo no so no, quer e u v iva em
nos so olhar apenas para o corrente do "cogito n. O ego não pe rce- outros atos - , a decisão perm a nece continuamente em vigor e, de
be a si mesmo unicamente como a vida que transcorre, mas também forma correlata, esto u daqui em di an te determinado de cer ta m a nei -
como e u, eu qu e viv e isso ou aquil o, eu idêntico que vive tal ou tal ra, e isso durante tod o o tempo em que não abandonar minha dec isão.
cogito Ocupamo-nos at é o mo mento unicament e com a relaçã o en- S e a decisã o tem por objeto uma aç ão, ela não é "a ba nd o n3da " com
°
tre a consciência e seu objeto, entre o cogito e o c ogitatu177, e só a real ização de seu objetivo . Ela pe rman ece e m v igo r - no mod o de
pudemos extrair a síntese pe la qual as multiplicidades da consciência finalização/cumprimento - e exprime-se assim: " é minha ação e a
real e possível são "po larizad as" em objetos idêntico s, e o nele os o b- reconh eç o corúo minl13 " . Mas e u transforll/o o II/i/ll lII eSII/ O, cu que
jetos apa rec e m como " pól os", como unid ades s inté tica s. Uma s e- persevero na m inha vontade permanente qll'llldo ;-lJlul o. quando nego
gl/l7da e,lpécie de polorizaç Do apre senta -se ,1 nós ago ra , uma ou-
minhas dec isões e meus CltOS.
tra espécie d e s ÍJ7I ese. que Clbrange as multiplicidades parti cul ares
A pers istêncid , n durnçã o de ssas de termina ções cio ('11 e S ll~l
da s cogitotio nes , toda s juntas e de ma neira espec i,ll , a sa ber C0 l11 0
" transformaçJo especí fica " não si g nificam , é claro, que o se lltcIllpO
cogitoti on es cio eu id ê ntic o, que, otivo ou pussivo. vive em todos os
imanente seja continu;llllente preenchid o, porque o próprio eU jJc?rll1o-
estados vivid os da consciência e que , por int erm éd io cleles, se li ga a
l7eJ1/e, pólo das GctcrminCl ções permanentes d o eu . nJ O é um est;lGO
todos os pólos -objet os vivido nem um a cOlllinuidade de "estados vividos". ainda que e le se
ligu e po r tai s detenninélções habituai s ao corrente el os "c stClcl os vi v i-
dos". Constituindo a si mesm o. co mo su bstr010 idélllico de SilOS
3.2. O ((eu )) substrato dos Úhahitu s)) propriedades perll/ ({Jle llt es, O e u se co nstitui pos teri o rm e nte como
UIll e u-pessoo perllwl7cn te, no sentido mai s éllllrl o d esse lerm o, qu e

É preciso no tCl L no ent ant o, que esse e u centro lnelo é um pólo nos autoriza a L1Jar ele " personalidad es" inferi ores no ho mem E mesmo
de identidade vazio (não mai s do que qualquer o utro objeto); com se, em geral , as convicções são ape na s relativam e nte permanente s,
84 Meditações CmrtcsiclJIns
Quarta i\1cditarão 85

mesmo se elas têm s~las maneiras de "se transformar" (as posições


Eu sou, numa experiência evidente, constantemente dado como
ativas modificam-se: elas são " riscadas" , negadas, seu valor é redu- eu mesmo. 1sso vale para o ego tran sce ndental e para todos os sen-
zido a nada), o eu, no meio dessa s transformações, mantém um "es- tido s do ego. Como o ego 1l10nádico concreto contém o conjunto da
tilo" constante, um "caráter pessoal". vida consciente, real e potenc ial, fica claro que o problema da
explicilação fellomenológica desse ego m onádico (o problema de
sua constituição p8ra si mesmo) deve abranger todos os proble-
33. A plenitude completa do ((eu)) como mônada e o /JIas consli/lItivos 1.'111 geral. E. no final das contas, <l fenomenologia
problema de sua autoconstituição dessa constituição de si para si mesmo coincide com a jenomenologia
ger al.

Do eu, pólo idêJ1tico e substrato dos habitus, distinguimos o


ego, tomado em sua plenitude concreta (que vamos designar pelo
term o leibiniziano de mônada), acrescentando ao e u-pólo aquil o sem 34. A elaboração dos princípios do método fenomenolÓfJico.
o qual ele não poderi<l existir concretamente. Sobretudo, ele não po- A análise transcendental como ádética
deria ser um "eu" de outra forma que não fo sse no corrente multifonne
de sua vida intencional e dos objetos assumidos por ela, constituindo-
se eventualmente como existente par<l esta. O caráter de existência A teoria do eu, pólo de se us atos e s ubstrato do s habitus, per-
e de determinação permanentes des ses objetos é manifes tamente mitiu-nos atingir um po nto onde se colocam os problemas da gênese
um correl<lto do habitus corres pondente, que se constitui no e u-pólo. fenomenológica e, dessa forma, o plano da fenomenologia genéti-
É preciso entender isso da seguinte maneira. Na qualidade de ca. Antes ele precisar seu sentido, façamos LIma nova reflexão sobre
ego, encontro-me num mundo ambiente que "existe par<l mim" de o método fenome nológico. Precisam os, enfim. colocar em desta-.
maneira cont ínua. Nesse mundo encontram-se objetos como "exis-· que um dad o m e tódico fundamental que , uma ve z percebido, deter-
mina todo o mét odo d<l fenomenologia tra nsce ndental (e, no terreno
tentes par8 mim", sobretudo os que já me são conhecidos e m suas
natural , o de uma psicologia introspectiva autêntica). Se deixamos
articulações permanentes e <lqueles cujo conhecimento é ape'n8s éln-
P,lr<l falar ckl<t tão l<Hclialllente, foi so mellte para L"lcilitar o acesso à
tecip<ldo. Os objetos que existem no primeiro sentido existem pala
feno menolo g i;-t . A grande lllultiplicidade de fato s e de novos proble-
mim gr;-tç;-ts 3. um a aquisição original, ou seja , a UIl1<l percepçiio origi-
m a s devi<l dc início Clprescnt:lr-se sob a fOrIll;-t m8i s simples de uma
nai e à exp licit,lç5 0 el11 intuições p<l11icul:lfes d<lquilo que até cntão
de sc ri ç50 empíri ca (ainda que ele uma ckscr iC;âo cfetu<ldd na esfe ra
nunca foi percebido. Dessa fOrl1w, o objeto constitui-se el11 l11inha
da experiência tran scendentéll). Em contrapartid<l, o métudo da des-
atividade sinté tica sob a forma explícita " de objeto idêntico de suas
criçZio cidéficu consiste em fazer p<lss<lr todas eSSélS descrições na
prop ried<ldes InLlltiplas" : ele se constitui, por1anto , como id ê ntico a si
dimensão dos princípios. o que teria si do difícil de entender no início,
me smo. eletermin <l ndo-se em s ua s propriedades múltiplas. Essa ativi-
enq uant o d epo is de certo nÚlllero de descriçõe s e mpírica s podemos
c1;-tcle. pel:t qual coloco e explicito a e"isténci<l. cria um hobitus no percebê-lo sem diliculcl<ld e.
meu 1.'11. e por meio desse habitlls o objeto e m quest âo me pertencc
Ca da Ulll de nós. m cd itando ,1 m;-tn ei ra c<lrtesian3. foi Iev<ldo até
de formél 1)l:fl11<lnente. como obj e to ele suas determinaçõe s . Tais aqui-
seu ego Ir<lnscendent ~rI pelo melodo da rcduc;Jo fenomenológica. c.
s iç ões permanentes constituem o Illeu meio fàmili<lr, com se us hori-
bem en tend ido. este ego de já/o, com seu s contelldos monádicos
zo ntes de obj etos <linda de sconhecido s. ou seja, dos que devo adq uirir,
concretos, como ao ego absoluto, só e únic o . Eu, enquanto sou esse
mas que já antecipo em sua estrutura formal de objetos.
ego. encontro . na seqü ênc ia de minhas meditaç ões , formações típi-
iHediraçõcs Cartnú'lZi!5 Q!,arta Meditação 87
86

cas, perceptíveis pela descrição, das quais se poderia extrair a estru- Privado assim ele qualquer relação com o fato, ele se torna o eidos da
tura intencional, e eu teria podido avançar gradualmente na elucidação percepção, cuja extensão "ideal" abrange todas as percepções
das direções essenciais da intencional idade , de minha "mônada". idealmente possíveis como puras ficções. As análises da percepção
Expressões como "necessidade essencial" ou "essencialmente" des- são então "análises essenciais "; tudo o que dissemos sobre "sínte-
lizam com freqüência , e por boas razões , em nossas descrições; es- ses", "ho rizontes", "potencialidades", etc., próprias do tipo percep-
sas expressões traduzem um conceito determinado do ({ priori que ção, vale - como é fácil perceber - "essencialmente" para tudo
somente a fenomenologia delimita e esclarcce. aquilo que teria podido ser formado com a ajuda de tal modificação
O s exemplos irão esclarecer do qu e se trata. To memos deter- livre, em con seqüência, para todas as percepções imagináveis em
minada experiência intencional- a percepção, a memória imedia- geral. Em outras palavras, é uma verdade de uma "generalidade
ta, a lembrança , a asserção, a aspiração a alguma coi sa . Conside- essencial" e absoluta , essencialmente necessária para cada caso
remos sua estrutura e sua função intencionais, explicitando e particular, portanto para toda percepção de um fato, na medida em
descrevendo seus aspectos noéti co e noemátiço. Isso pode significar que todo fato pode Ser concebido como sendo apenas um exem-
_ e até aqui nós o interpretamos assim - que se tratava de fatos plo de possibilidade pura.
típicos do eu transcendental dado e que as descrições transcendentais Posto que supomos a modificação evidellte. ou seja, que apre-
devi a m ter um sentido " empírico". Mas, involuntariamen te, nos sa senta as possibilidades como tais numa intuição pura, seu correlato é
de sc rição mantinha-se num tal nív e l ele universalidade que se us re- uma consciência intuitiva e apodíctica do universal. O eidos, ele
sultados mostram- se independentes dos fatos empíricos do eg o próprio, é um universal visto ou visível; ele é um "incondicionado"
e, mais precisamente, um não-condicionado por um fat o qualquer e
transcendenta I.
Vamos elucidar esse ponto e torná-lo fecund o para o nos SO este conformem en te ao seu próprio sentido intuitivo. Ele está "adian-
método. Panindo do exemplo dessa percepção da mesa , modifica- te " de todos 05 conceitos, entendidos como significações verbais;
mos o seu objeto - a mesa - , de maneira inteiramente livre, ao esses últimos, como conceitos puros, logo devem estar de acordo
sabor da nossa fantasia, preservando no entanto o caráter de percep'" com o e idos.
ção de alguma coisa: não importa oql1e. mas ... alguma coi sa. C o me- Se um ato particular é de ssa forma transformado de dado de
çan10s por modificar arbitrariamente - na imag.inação - sua forma, fato do ego tran sce nd e ntal em um tipo ou essencia pura, seus hori-
sua cor, etc., mantendo apenas o caráter de " aprese ntação perc e ptiva " zontes intenci o nais, indicativos de relaçõe's com o interior do ego,
Em outras pabvr;l s, tran sfo rmamos o L.to de ssa percepção, abstcn- não de saparecem de fo rma alguma. Mas os horizontes das ,.e la-
do-nos de afirmar seu valor existencial. em uma pura possibilidade. ções tornam-se eidéticos. Em outras palavras: quando lidamos com
entre outras, perfeitamente arbitrárias, mas no entanto pura s possibi- o tipo eidético puro, nuo mai s estamos diante cio egu empírico, porém,
lidad es ele percepções. Transferimos dc qualquer forma a percepç80 diante do "eidos ego"; dito de outra forma, toda constituição de
real ao reino da s irreal idades, ao do "c om o se". que no s dá as poss i- uma possibilid,lde realmente pura , entre outra s possibilidades pu-
bi lidades " pura s" , puras de tudo aquilo que as lig~Hi a;l um fato qual- ra s, implica, a títul o de horizonte, um ego jJo.lsíl'el - !7o sentido de
quer. Nesse últim o se ntido, não co nservamos as li g.ações dessa s pos- IJl1ro possibilidade -. pura variante de m e L! ego empírico, pora
sibilidades ao ego empírico , colocado como e~i s tente: entendemos II7Im.

essas possibilidades como pura e livrementc im;1gin,íveis. uc maneira P odemos assim, clesde o início, conceber esse ego como livre-
que desde o iníci o não teríam os pocliuo lança r mão, C0111 0 por C\:CI11- mente variável e nos propormos a analisar a essência da constituição
pio de uma percepção imaginária se m relação com o resto da vid;l explícita de um ego transcendental em geral. É, aliás, o que a nova
empírica. O tipo geral da percepção é elucidado na pureza ideal. fenomenologia fez desde o início ; deduz-se daí que todas as descri-
,H u {itnções Cartcsi fll1r<S Quar ta M editarão 89
88

ções e delimitações do problema efetuadas por nós até aqui n50 pas- ao lado da redução fenomenol ógica, a intuição eidética é a for-
sam de retransposiç~o de suas análises, originalmente eid éticas, em ma fundamental de todos os métodos transcendentais particula-
res; ela determina, portanto, ao mesmo tempo , o papel e o valor de
descriçõ es de tipos empíricos.
uma fenomen o logia transcendental.
Portanto, se representamos a fenomenologia sob a forma de
ciencia intuitiva apriorística , puramente eidética, suas análises ape-
nas desvelalll {j estrutura do " eidos" universal do ego trans-
c endental, que ubrclllge rodas as variemtes possíveis do lJIeu ego 35. Digressão no campo da psicologia interna eidética
elllpírico e, portanto, e ss e próprio ego, como possibilidade pura. A
fenom e nologia eidética estuda o a priori universal , sem o qual nem Saímos do ciclo fechado de nossas meditações, q·ue nos ligam à
eu nem nenhum outro e u tran sce ndental , em geral, seria "imaginável", fenomenologia transcendental, fazendo a seguinte observação : quan-
e posto qu e toda universalidade e ss encial tem valor de uma lei do, na atitude natural, aspiramos a uma psicologia, ciência po sitiva e,
inviolável, a fenomenologia estuda a s leis esse nciai s e univer sais que·, acima de tudo , à psicologia pura intencional que essa ciência positiva
determinam de antemão o sentido possíve l (com seu oposto : o con- exige - psicologia primeira em si e que só se alimenta das fontes da
tra-sentido) de toda asserção empírica rel"tiva ao transcendental. "experiência interna" - , podemos utili zar o conjunto das análises
Eu sou um ego que medita à man e ira cartesiana; sou guiado fund amentais que acabamos de efetuar, submetendo-as a pequenas
pela idéia de filosofia , compree ndida como ciência univ e rsal, funda- modificações, que lhes tiram , be m entendido, o sentido transcendental.
mentada de maneira absolutamente rigoro sa , da qual - a título de Ao ego transc e ndental concreto corresponde então o eu do ho-
ensaio - admito a possibilidade. Depois de ter feito as reflexões mem, a alma, captada puramente em si mesma e por si mesma, alma
anteriore s , tenho a evidencia de , untes d e qualquer coisa, ter de polarizada num e u, pólo do meu habitus e dos meus traços de caráter.
elaborar wl1ufeno l7lel/ologia eidético, lIni ca fomla pela qual se reali- Em lugar de uma fenomenologia transcendental eidética, temos então
za - ou se pode reali zar - uma ciência filosófica, a "filosofia pri- uma teoria eidética da alma, que trata do eidos: alma cujos horizontes
eidéticos não são, todavia, explorados. Porque se os ex plorássemos,
meira ". Ainda que meu interesse se concentre aqui , paliicularrnente
encontraríamos a via para ultrapassar a positividade dessa psicologia, a
na redução transcendental , no meu ego puro e na ex plicitação desse
via para uma fen o me nologia absoluta, a do ego transcendental, que
ego empíri co, só posso analisá-lo de man e ira realm ente científica,
não conhece nenhum hori zonte capaz de condu z ir para fora de sua
apeland o aos princípios apodícticos que pe rtencem ao ego como ego esfera transcende ntal c de revelar seu can:íter relativo.
em gera I l~ prec iso que c u rec o rra às ti n i versa I idades e às neces s i-
dade s e ssenciai s, graças às quai s o fato pode se r relacionado aos
fundamento s racionais de sua pura po ss ibilidade, o que lhe confere a
inte li g ibilid a de 2 e o carúter ci e ntífico , A ssim . a ciência elas po ssibili- 36 O ('(c[To )) transcendental, universo dasformas
dad es pura s precede em s i aquelas das realidades e as torna possí- possíveis de cxperiência. As leis e.uenciaú que detcnl1inaJl1 a
ve is co m o ciências , Chegamos , portanto. ú se g.uint e visão metódica: compossibilidade dos estados vividos e71I sua coexistência e
C7n sua sucessão

2. L I' reC!~() pJ'e5'tar aten çàl) ao s e g u inte LllO : Jl : l r aSSag elll do J1leu ego ao ego CIll
ge r;jl. nà o se pre~s u p C> (; n elll i1 re alid a d c ne m ~\ po ss ib ilid,ld e de um mundo do s
Após a importante transformaç ão que a id é ia do método eidé tico
ll utIO S...'\ c:-; tcns;"io do eidos ego é dete rminada rel a \ 'ariaçao d o illeu ego , EUill e
modifi co n a ima g inaçào, e u m es mo. eu m e represe nto c o m o difere nte , eu n30
provocou na idéia da fenomenologia transc e ndental , vamos nos man ..
te r, de agora em diante, retomando a elaboração dos problemas da
ima g in o " um outro
90 iVJcditaçõcs CaI'tl:5icznf15 Qum'1a Meditação 91

fenomenologia no âmbito de uma fenomenologia pur(lmente eidética. tem seu fundamento numa estrutura apriorística universal, na s lei s
. O ego transcendental mostrado de f(lto e as particularidades de súa essenciais da coexistência e da sucessão egol óg icas. Porqu e toda s
experiência transcendental não serão mais que simples exemplos de as experiências , todos os habitus, todas as unidades c o ns tituídas que
puras possibilidades. pertencem ao meu ego e, do ponto de vista eidético, a um ego em
Os problemas de que tratamos até aqui serão igualmente enten- geral , têm se u c aráter temporal e participam do s istema da s forma s
dido s como eidéticos; admitiremos que a possibilidade de levá-los ao temporais universa is, co m o qual todo ego imaginável se con stitui por
eidos puro - do qual nos asseguramos acima com a ajuda dc um SI mesmo.
exe mplo - é universalmente realizada. É extremamente difícil detcc-
tar as estruturas essenciais do ego concreto em geral de maneira real-
ment e sistemática ou elaborar um conjunto realm e nte sistemático de
37. O tempo como flrmà universal de toda gênese egolágica
problemas e uma seqüência também sistemática de pesquisas. .
Foi somente no curso dos últim os anos que esse conjunto come-
çou (l se tornar mais claro, inicialmente porque encontramos novas As leis essenciais da composs ibilidade (e, do ponto de vista
vias ele acesso aos problemas universais específicos da COJ7slitlli- empírico, as lei s da coexistência e da poss ibilidade de coexi stência
çelO do ego transcendental. O a priori universal , que pertence ao simultânea e s uc ess iva) são de "causalidade" num se ntido IJ7l1ito
ego transc e ndental como tal, é forma essencial que abrange uma amplo da relação entre condição e conseqüência. Ma s é convenien-
infinidade de formas, tipos apriorísticos de atualidades e de te evitar aqui o perigoso termo causalidade e empregar para a esfe-
pote ncialidades possíveis da vida (intencional) e dos objetos que aí se ra transcendenta l (e para a esfera psicológica "pura") o termo moti-
constituem como "realmente existentes". Mas todas as possibilida- vação. O universo d o vivido que compõe o co nteúdo real do ego
des típicas particulares não são compossÍveis num mesmo ego, nem tran scendental só é composs ível sob a forma universal do transcor-
em qualquer outra ordem, nem em qu::lIqu e r outro momento de seu rer, unidade em que se integram todos os elementos particulare s como
temp o próprio. Se construo uma teoria científica qualquer, essa ativi- se todos e les tran scorressem nela . Ora, essa forma , a mais geral de
dad e complicada da ra zão - assim como se u obj eto - é de um tipo toda s as formas particulares nos estados vivido s concretos e das for-
essencial que não é um a possibilidade de um ego qualquer, ma s uni- mações que , ao trans(;orrer, se constituem nessa corrente , já é aquela
camente ele um ego "racional " , no se nt ido p;)11icu lar de um ego trans- de uma mo tivaçã o que liga todos os seu s elementos e domina cada
formado num ser do mundo, na fornlél esse ncial de homem (ul1ill7u! elemento particular. POdClilOS ver nelas as leis formais cio gé llese
'fol/unu!e "). Vislul1lbr(lndo minha atividade teó rica mostrada em /In iversal. segu ndo as q ua is, de ac o rdo com ce rta es.tru t u ra fo rma I
seu tipo eidético, submeto-me a um;) modific ação , quer cu esteja cons- noé tico-n oc mática, se constituem e se un e m continuam e nte 110S mo -
cient e dela ou não ; eSS(l variação n3.o é, no entanto, (lrbitrária , mas dos do transcorre r: passado, presente, futuro.
inser ida no contexto do tipo esse nci a l corre lato doser razoáve l N:lo Ma s no inte rior de ssa forma , (l vida se de se nrol a como um en -
posso manifestamente ne m mesmo supor que a atividad e teóri ca que cadeamento de ativid(ld es con stituintes pal1iculilres, de terminado por
e:xerço o u que po ssa exercer agora seja, na unidade da minha v icia , uma multiplicidade d e motivos e de sistema s de moti vos pZ\rticularcs
relacionada a qualquer momento elo passado, e essa impos sibilidJd e que, conforme as leis gerais da gê nese, formam a ullidode da
tradu z-se ig ualm e nte e m imposs ibilidJcle eidética. A idéia di! minha gên ese universo ! do eg o. O ego constitui-se para s i me s mo em
vida ele criança e de suas possibilidade s constitutivas oferece-nos um al g um tipo de unidade de uma história. Se pudemos di zer que n:1con s-
tipo que só pode conter " a atividade teórica científica" no seu desen- tituição do ego estão contidas todas as constituições de todos os ob-
volvimento posterior, mas não no seu conteúdo atual. E ssa restrição jetos exi stentes para ele, imanentes e tran sce nd e ntes, reais e ideai s, é
J\1 cdúaçõcs Cn rtcsianlH Q lln /"I n j \j,diil1f'w 93
92

preci so ac rescentar ago ra qu.e o s istema d as constituições, g raç as esse ncial irú at e r- se inici a lme nt e ao eg o, mZl S e la só enc o ntra um
às qu a is e sses o u aqueles o bjetos e categori as de o bjetos qu e exi ste m ego para o qual u m mundo c o n stituído e xi s te de sd e j<.i . Trat a- se d e
p a ra o ego s ó s ã o poss ívei s nos quadros das lei s genéti c a s. E sse uma e tapa nccess,,'i rid , a p a rt ir du qu,ll so m e nte ex traind o a s form as
s ist e ma é , al é m dis so , ligad o pela forma gené tica universal que deter- da s lei s ge néti c~l S qu e lh e são in e rent es p oclemos perce ber as p oss i-
mina a possibilidade d o eg o c on c re to (mônada ) com o unidade bilidades d e L/l1l(/ fe nom ell o Lo gia e idética ab so lutament e uni versal.
c o mp ossíve l de c onteúd o s particulares . O fato de que uma nature za, No d o míni o de s ta última, O e g o pode e fetu <lf vari Zl ções de s i mesm o
de qu e um mund o da cultura e d os hom e ns co m suas formas s ociai s, com libe rdade (,li qu e nã o con se rva n e m mes m o a su p o s ição id e;) l de
et c. exi s tam p a ra mim, s ignifi c a que e xperiênc ias c orre s ponde ntes que um mund o d e lim a estnJlUrZl o nt o lóg ica que n os é fa miliar sej a
me são possíve is , o u seja, que, indepe nd en~emente da minh a e xpe riên- \ c ons tituíd o por e le .
cia real de sses objetos , posso a todo momento realizá-las e desenvolvê- ·1
la s num cert o estiLo s intético, I sso s ignifi ca , em con seqüê ncia , que
o utro s m odo s de cons c iê ncia que corre spondem a es sas e xperiências, 3 8. Gêneses ativa e passiva
a at os de pe n sament o indi stint o, etc . são pos sívei s para mim, e que
p oss ibilidades de se rem c onfirmado s ou zmul ados p o r meio de ex -
peri ê n c ias de um tipo detemlinad o de a van ço sã o inerentes a esses Na qualid Zlde de suj e ito s p o ss ívei s que se rel ac ion a m CO /71 o inu n-
atos . Um habitus firmeme nte e s tabe lecid o , adquirid o por certa g ê- d o, vam o s indagar quai s sã o os pril/c íp ios uni ve rs ai s d a g~ lle se
nese submetida a lei s e ssenciais, e s tá aí implicado. c o nstituti va . El e s se apre se ntam sob d uas form a s jitndam e ntais :
Vamos rele mbrar aqui o s velhos problema s da o rigem p s icológ i- prin c ípio s da g ê llcse a tiva e da g ên ese pass iva . No primeiro caso, o
ca da "representação do e spaço" , do "tempo ", da "coi sa", d o " núme- eu intervém c omo fZl tor q ue en g endra, cri a e c o n stitui com a ajuda d e
ro " , et c. El es reap a rec e m na fe nom e nol og ia na qualidade de pro ble- a tos específicos de le. TodZls as funçõe s ela ra züo p rática, n o se ntid o
ma s tran scendentai s , com () s en tido d e p robLem as illte ncio nais, e amplo d a p::lIa vrZl , p erten ce m a e la . N esse sentido , a razão lóg ica é ,
no tadamente co mo integ rado s aos pro blemas d a gêne se uni v ersa l. . també m ela , prúti ca . O mome nto caract erísti co é o se guinte: os atos
É muit o difíc il ter ace ss o à última generalidade do s problemas d o CLt mutuam e nt e li ga dos por la ços (d os quai s resta es tabel ecer o
fenome n o ló gi cos eidé ticos e, d ess a fo rma , aos pro blemas ge néti cos ' sentido tra nscen dent a l) d e comunidad e sinté tica unem -se e m sínteses
último s. O fen o m e n o log isra ini c iant e vê-se in vo luntariamente a mar- m ú ltip los do o tí vid uele específicu e, com base e m o bj e to s já m o stra-
rado pe lo fato d e tom;) r a si mesm o co m o po nto de partid a . N a éln<Í - do s, co n~tituull ele m a neira o riginal o~ o bj e tos no \'os . E ~ s es a p <l recc m
li se tran sce ndent a l, e le se vé co mo ego e d e poi s co m o eg o e m gcr,t1 , e nt ão pW D (/ c()l }sci;;/I ci(/ c om o prodll/o s. A sa b er, n o dto de Cl Ji igir,
ma~ e s~c eg o te m já a co nsc iê ncia d e UIll mundo d e /ipo o ntológ ico o co njunt o . no at o de nume rar, o núme ro , n a di v isão , a p;lrle, n a
q u e 110S é F Ullili{/}; co ntend o Ullla nature za, uma c ultura (ci é ncia ~. predi c<lção . o pre dicad o ou o "estado el e coi sas" , no at o ele co nc luir. a
bel as -arte~, técnicas, e tc. ) , d as pe rson alidad es el e o rdem supe rior (E~­ con c lu são, e tc. T:lJllbém a con sci ê nc i:l o ri g inal da univ e rsalid ade é
tad o , I greja) , e tc. A fe no men o logia dab o rada em primeiro lu ga r é uma ati v idade em qu e o llni ve r ~a l se c o nstitui co m o obj e to. R e sult a
eSlúti c o, suas desc ri çõe s sã o an<Íl og as às d a hist ó ria natural q u e es - e nt ão par:..! o CI/ Ulll //(/ bítllS , qu e o m a ntém e m v igor e qL1 e inter v~ m
tuda os tipo~ pa rticulare ~ e . além di sso , o s o rden a de man e ira si ste - ig u a lme nte na c on .q itui çi:i o d os obj e tos co m o e xist e ntes para 0 ell .
m<Íti ca. Aind a estamos lo nge dos p ro blemas d a gê nese uni ve rsal e da P o de -se , em con se qiiên c ia, re portm-se a i s~o ~e mpre _ sej a por L1m a to
estrutura ge néti ca do eg o, qu e ultrap as~ Ll Ll si mple s fo rma do te mpo ; de reprorlws'(/ o acompanh ado el a c o nsc iên c ia d o " m es m o" o bj e to,
com efeit o _são qu es tõe~ de um tipo supe ri o r. M as mes mo qu a nd o a~ m ostrad o nov am e nt e num a " intui ção" , ou num a con sc iên c ia va ga que
co locamos , n ão o faze mos e m tot a l libe rdade. Com e feit o , a an á lise lh e c o rrespo nd e s int e ti c am e nte . A cons titui ção tran scend e ntal de ta is
Meditações C({rtcsic!1l(?s Quarta Jl1cditnção 95
94

objetos, estando relacionada às atividades inters lIhjetivCls (como as ver as coisas e que tal aprendizagem deve preceder, do ponto de vista
da cultura), pressupõe a constituição prévia de lima intersubjetividade genético, todo s os outros modos de se ter con sc iência das coisas. O
campo da pe rcepç ão que encontramos "mostrado" em nossa " pri-
transcendental, da qual falaremos mais tarde
As formas superiores de tais atividades da "razão" e, de forma meira infância" não contém, portanto, nada além daquilo que um sim-
correlata, de produtos da razão que tê m, em seus conjuntos, o curá- ples olhar poderia explicitar como "coisa". No entanto, sem retornar
ter de irrealidades (objetos ideais), não pode m se r consideradas, ao terreno da pass ividad e, e, bem entendido, sem fazer uso do méto-
como dissemos acima, como pertenc e ntes nec essari am e nte a qual- do psicofísico da psicologia, podemos, como o ego que medita pod e ,
quer ego concreto (a lembranç a de nOssa infâ nciaj(j noS mostra isso). mergulhar, no conteúdo intencional dos fenômenos mesmos da expe-
No entanto, isso se dá de maneira difere ntc em re lação às (orm os riência, e aí encontrar indicações intencionais qu e levam a uma "his-
inferiores: como o ato de captar pela experiê ncia , de exp licitar a tória"; essas indicaçõe s permitem reconhecer nesse s fenômenos "re-
experiência em elementos particulares, de reunir, de aproximar, etc. síduos" de outras formas que os precedem essencialmente, "ainda
Mas em todo o caso a estrutura da atividade pre?s upõ e sempre c que essas últimas não se rel~cionem de forma precisa com o mesmo
necessariamente, como camada inferior, um a passividade, que recc - objeto intencional".
be o objeto e o encontra como algo pronto de ante mão: ao ,1Ilalisc1-lo, Mas, aqui, encontramos a s leis essenciais de uma constituição
vemo-nos diante da constituição por meio da gênese possivo. O CJuc passiva das sínteses sempre novas que, em parte, precedem qualquer
na vida se apresenta a nós, de qualqu c r forma, como acabado, como ati v idade e, em parte, a abrangem; encontramos uma gênese pass iva
coisa real que não passa de coisa (abstraçã o feita de todos os predicados das percepções múltiplas como formações persistentes sob a forma
que o espírito pressupõe e caracterizam a coisa como martelo, mesa, de habitus, que aparecem para o e u central como dados previa-
produto da atividade estética), é mostrado de maneira original e como mente formulados e que, tornando-se atuais, afetam o eu e o inclinam
"ele mesmo" pela síntese da experiência passiva. à ação. Graças a ess a síntese passiva (que engloba dessa forma a
Esse é o objeto que as atividades do "espírito" - que começam obra da síntese ativa), o eu está sempre rodeado de "objetos". O fato
COI11 a percepção ativa - encontram diantc delas como " acab ado" 'e de tudo aquilo que afeta o meu eu - o eu do ego "p lenamente de-
dado como tal. Enquanto essas atividades cumprem suas funç ões senv o lvido" - ser percebido como "objeto", como substrato do s
si ntéticas, a sí ntese passiva, fornecendo-lh es " a mat é ria" , continua a predicados a serem conhecidos, deve-se já a es sa sí ntese passiva.
desenvolv e r-se. A coisa mostrada na intuição passiva continua (1 apa- Porque essa é Lima forma final possível - e conhecida de antemão
rccer na unidade da intuiçôo e, seja qu~li for:1 pane d,lS ll10difíeações - de ex plicit a çõe s pos s íveis, cuja função é a de " fazer conhecer" É
devidas à atividade que a explicit:1, CJue perce be as P,Hlicularid,lde s a forma final da s ex plicitações que poderiam constituir o objeto C O I110
da s partes e os detalhcs, a coisa continua a ser mos trada durante e no nossa possessão pe rmanente , como sempre e novamente acessível.
exercício de ssa atividade. Tran sco rrem os modos de aprese ntação Essa forma final compreendemos de antemão, porque provém de
Illllitiplos, as unidades das "imagens pcrcepti\'as", tút e is e visu<1is. na Ullla gêne se. Ela e nvi a a s i mesma a sua fOllnação primeira. Tudo o
síntese manifestamente pass iva <1 partir dos quais "~lparcce" a unid a- que é conhecido rem e te a uma tomada de con hecimento original. e
el e da coisa e de sua forma. Ma s es sa sí ntc se - como just:1I11ente mesmo o que ch a mamos de de sco nh ec ido tem a forma estrutural do
conhecid o, a fo rma do o bjeto e, mais preci sa m en te, a fOlllla do objeto
síntese de forma - tem sua " históri a" , que se anuncia nela 1l1eSma
espacial, cultural, usual , etc.
É graças a um a gênese universa l que cu posso. cu, o ego. e desde o
primeiro olhar, ter a experiência de uma " coisa". Iss o vale, aliós, tan-
to para a gênese fenomenológica quanto para a psicológica. Di zemos
c o m razão que em nossa primeira infância devemo s ter aprendido a
9(> ,11cdilações CnrU:.<Íanns Qum-ta .A1editação 97

39. A associayão como princípio da gênese passiva sa de uma forma de gênese. Em todas essas .co nstituiç ões, o fato é
irracional, m as só é poss ível se integrado ao s is tema da s forma s
o p rinc ípio ulliversal du gênese passiva que c o n stitui todos apriorísticas que lhe pertencem como fato ego lógico . A propós ito,
os objetos que a atividade "e nc o ntra" intitula-se assoc iação É, va le não se deve esquecer que o próprio fato, com s ua irracionalidade,
lembrar, LIma i17tencionalidade. P o de -se e nti.io extrair po r meio de é um conceito estrutural no sistema do a prio ri concreto.
uma c1cscriçâo suas formas pr imá ria s; suas fun ções intencion a is são
s ubm etida s a leis essen c iais, que to rnam inte li g ível qualqu e r consti-
tui ção passi va , as s im co mo a dos e stado s vividos - objetos te mpo- 40. Passagem para o problema do idealismo transcendental
rai s imanentes - e a de to dos os o bjetos nat urai s e reai s do mund o
o bj e tivo temporal e espacial.
A asso ciação é U III conceito fundamental da fenomenologia Tendo reduzido esses problemas ao probl e ma único da consti-
IroJ/sccnc1ento l (assim como da psicologia intencional que lhe é pa- tuição (genética e estática) dos o bjetos da consciência possíve l, a
ralela) . O antigo conce ito d a :1sso ciação e d as le is assoc ia ti vas - fenomenologia parece p o de r definir- se como teoria transcendental
ainda que. desde l-lum e, cle te nh a s id o re g ularm en te aplicado às re la- do conhecimento. Vam os comparar essa teoria tran sce ndental cio
ções da v ida p síquica pura - não pa ssa de uma defo rmaçã o natura- co nhecim e nto com a tradicional.
li sta dos conceitos inten ciona is e autênticos correspondentes. Gra ças Scu pro blema é o da tran scend ê ncia . Mesm o quando, na quali-
à fen o m e no lo gia, que só tardiamente e nc o ntrou um acesso para o dad e ele teoria empiri sta, ela se apó ia na psicolog ia, não quer se r uma
es tud o da associação, e sse conc e ito recebe uma s ignificação inteira- simpl es ps icologia d o conhecimento, ma s e sc larecer os princípios e
ment e nova; é d e limit ado e d efi nido de m a ne ira nova. El e abrange, s ua poss ibilidade. O problema coloca-se para ela na atitude natu-
por exemplo, a configuração sen s ível de aco rdo com a coexist~ncia e ral, e é ne ssa atitude que e le é tratado . Eu e ncontro a mim me smo
a sucess50. É ev id en te. ainda que po ssa parec e r estra nh o para aque- co mo hom em no mundo e, ao mesm o tempo, como tendo experiênci a
le que está so b O jugo da tra dição, que a associação n ão é apcn;JS uíl1 do mun do, assim como um conhecimento científico, inclu ind o-se a í eu
tipo de le i e mpíri ca, seg und o a qua l os d a dos "psíquicos" comb in a lll- °
mesmo. Então di go a mim mesm o: tudo que é para mim o é e m
se. algo C01110 u ma g rél v ita ção ps íq ui ca. A a ssoc iaçJo abr,lngc UJ11 virtude da minh a consciência: é o p erce bido da minha p e rcepção, o
conjunto ex tenso de lei s esse nciais ela intencionalidaelc qu e pre sidcm pen sado do me u pe nsament o, o compre e nd id o da minh a compreen-
,1 c o nstit uição concreta do ego puro ; ela designa 1II1lU n :g ií/() de.: a são, o "i ntuíel o '· da minha intui ção Se :1elmitim o s a intencional id ade
pri()ri "il1o!U ". sem a qual um ego co m o tal teria sielo impnss ívcl. I ~ seg uin do os passos de F. Brentano, di ze mo s: a intenc ional idade . ca rá-
somc nt e graças [] fe nom e nol ogia da gê nese quc o ego tOrf);J-SC CUIll- ter fund a me ntal da minh a vida psíquica , é lima prop ried ade real , qu e
preensível co mo Ulll conjunto infinito ele f unç ões s is tcm ,ltic;l!ll Cnte pertence a mim , hom e m - como a todo h o m e m - , à minha interio-
coerentes na unid;lel c da gê nese univ e rsal , e isso po r csc;i1~ s que rid ade puramente ps íqlIica, e I3rcntano já fez dela o ponto central da
de ve m I1cccs s ~ ri ~ lll e ntc se ~d~pti1r fi forma univers<lJ c con s t ~1 nt c do ps icolog ia emp íric a . O eu d esse início pe rman ece um eu natura l; per-
tell/p o . porque e s te último se cons tit u i numa gênese contínua. pass iva m a nece, a ss im co mo to do o desenvolvimento pos teri o r cio problema,
c ,lo so llltam CJl{C universal. ljue. na ess ê nc ia , se estende a todo dad o no terrcno ci o mundo m ostra do. Prossegu im os, por!;Jnto, de maneira
110\' 0 . Essa g. J' ~\'~ç5() se con scJ'\<1 no ego plenamente desenvolvido, bem racional: tud o o qu e exis te e vale pa r8 o ho m em , para mim,
c o mo LI!)) s is tema persi stente elas for ma s da percepçào e. em conse- ex iste e v81e no inte ri or da minha pró pria con sciência; e essa última,
qü ê nc ia , elos obj etos con sti tu ídos, entre eles um uni ve rso o bj etivo co m em s ua co nsciê nc ia do mund o , ass im co mo em s ua atividade científi-
es trutura onto lóg ic a constante, e mes m o essa conservação nào pas- c a, não se ausenta dela me s ma .
98 M edztaçocs C" rtcsian as
Quarta ivieditação 99

Toda s as distinções que estabeleço entre a experiência autênti- lo como homem natural ? Posso seriamente me perguntar como sa ir
ca e a enganadora, entre o ser e a sua aparê nci a, realizam-se na pró- da ilha da minha c onsciência, como isso que na minha consciência é
pri a esfera da minha consciência, a ss im como, num grau superior, vivido como evidência pode adquirir uma significação objetiva? Apree n-
di stingo entre o pensamento evidente e o não evidente, entre o neces- dendo a mim mesmo como homem na tural, efetuei a percepção d o
sário a priori e o absurdo, entre o que é empiricamente verdadeiro mundo do espaço, percebi a mim mesmo como presente no es paço
ou falso. Ser real de maneira evidente, ser necessário para o pensa- onde já poss uo um mundo que me é exterior. O valor da percepção
mento, ser a bsurdo, ser possível para o pen samento, se r provflvel , do mundo não está pressuposto na própria colocação do problem a?
etc. sã o apenas caracteres que a parecem no campo da minha cons- Ora, é apenas de sua solução que deveria ter resultado ajustificação
ciência do objeto intencional em que stão. Qualquer prova e qualquer de seu valor objetivo. É preci s o efetuar de maneira manifesta e con s-
ju stificação da verdade e do ser co mpletam-se inteiramente em mim, ciente a redução fenomenológica pafa chegar ao eu e à consciência
e o resultado é l.lm caráter do cogitatum do meu cogito. suscetíveis de colocar questões tran scendentai s, referente s à pos s i-
É aí que está o grande problema. É compreen sível que no cam- bilidade do conhecimento tran scendente. Mas se em lugar de se con-
po da minh a cons·ciência, no e ncadeamento dos motivos que me de- tentar com uma EnoXll fenomenológica rápida, aspira-se, como ego
tcrminJll1 , eu chegue a certezas o u mesmo a evidência s constrange- puro, tomar sistematicamente consciência de si mesmo e e lucidar o
doras . conjunto de seu campo de consciência, reconhece-se que tudo o que
Mas como todo esse jogo, desenvolvendo-se na imanência da ex iste pa ra esse campo constitui-se nele mesmo.
minha consciência, pode adquirir uma s ignificação objetiva? Como a Reconh ecem os em seguida que toda espécie de existência, aí
evidência (a c/ara et distin cta perceptio) pode pretender ser mais incluída qualquer exi stência caracterizada - seja em que sentido for
que um caráter da minha consciência em mim? Aí está (com ex ce- - , C01110 " transcendente" tem sua constituição própria. Cada forma
ção da exclusão da exi stência do mundo, que ta lvez nã o seja assim da transc e nd ênci a é um se ntido existencial que se constitui no interior
tão se m· importância) o problema cartesiano que deveria solucionar a do ego. Todo sentido e tod o se r imagináveis , quer sejam chamados de
veracidade divina. imanentes ou tran sc endent es, fazem pa lie do campo da subjetividade
transcend e ntal , já qu e constituem todo sentido e todo ser. Querer
captar o universo do ser verdadeiro como algo que se e nc ontra fora
41. A explicitação jenoNunológica verdadeira do ((ego do unive rs o da consciência, do conhecimcnto, da ev id ê ncia poss ívei s,
supor qu e o ser e a con sci ência relacionam-s e um com o outro de
cogito )) COlnO idealismo transcendental
maneira puram e nt e exterior, em virtud e d e uma lei rí g ida , é ab surd o.
Eles pert e nc em es senci a lmente um ao outro; e o que está essencial-
o que a auto-reflexão transc e nd e ntal da fenomenologia pode mente li gad o é concretamente um, é um n o concreto único e a bso luto
dizer a esse re s peito? da subjetividade tran scendental. Se es ta é o universo el o sentid o pos-
Nada men os que afirmar que esse problema é um contra-se n- s ív e L algo que lhe fo sse exterior seria UIl1 não-se n so . Ma s me smo
so, ao qual o próprio DescJr1 es não escapou por ter se enganJdo a todo não- sen so não pas sa de um modo do se ntido , e se u carJter ab-
res pe ito do sentido verdadeiro de s ua EnoX11 transc end e ntal e da surdo pode sc r evidenciado. Ora, tudo is so não vale Jpenas para o
reduçã o ao ego puro. Mas a atitude habitu a l do pensamento pós- ego empírico c para a quilo que lhe é cmpirical1lcnte acessível, p o r
ca r1 es ian o é bem mais grosseira, pre cisa me nte por ter ignorad o c o m- s ua próp ri a constituição, como existente para cle. N e m pMa :1
pletam e nte a EnoXll cartes iana. Perg untamos: qual é esse e u que multiplicidade ab ert a de outros egos e de suas funções con stitutiv as
tem o direito de co locar essas quest ões tran scendentai s? Posso fazê- que existem para o ego empírico. Mais exatamente: sem mim , ego
Meditações Cartesianas Q;tnrll1 j Muiilaçát' 101
100

transcendental, outros egos são transcendentalmente constituídos, de que forma o ego constitui-se, ele próprio, com o existência em
como de fato acontece, e se, a partir da intersubjetividade assim cons- si de sua essência própria; é, em segundo lugar, uma explicitação
tituída em mim, constitui-se um mundo objetivo, comum a todos, tudo de si mesmo, no sentido amplo do termo, que m os tra como o ego
o que dissemos anteriormente não se apl ica somente a meu ego constitui nele os "outros" , a "objetividade" e, em geral, tudo aquilo
empírico, mas à intersubjetividade e ao mundo empíricos que em mim que para ele - seja no eu, seja no nc/o-eu - possui um valor
adquirem seu sentido e valor. A explicitação "fenomenológica" de existencial.
mim mesmo que efetuo no meu ego, a explicitação de todas as sínte- Realizada dessa man ei ra sistemática e concreta, a fenomenologia
ses constitutivas desse ego e de todos os objetos existentes para ele, é, dessa forma, idealislllo Irol1scendenlol. embora num sentido fun-
assumiu - necessariamente - o aspecto metódico de uma explicitação damentalmente novo. Ela não o é no sentido de um idealismo psicoló-
apriorística. Essa explicitação de si mesmo i'ntegra os fatos no uni- gico, que, a partir dos dados sensíveis desprovidos de sentido, quer
verso correspondente das puras possibilidades (eidéticas). Ela só tem deduzir um mundo pleno de sentido. Não é um idealismo kantiano que
que ver com meu ego empírico na medida em que este último é uma crê poder deixar aberta, ao menos como conceito-limite, a possibili-
dade de um mundo de coisa s ~m si. É lIm id eal ism o que não é nada
das puras possibilidade s às quais se chega quando se "transforma"
além de uma explicitação de meu ego como sujeito de conhecimen-
livremente a si mesmo pelo pen sa mento (pela imaginação) . Enquanto
tos poss íveis. Uma explicitação conseqi"lente, realizada sob a forma
eidética, ela vale para o universo dos eus possíveis, para o ego em
de ciência egológica s istemática, levando em conta todos os sentidos
geral, para o conjunto ind eterminad o das minhas possibilidade s de
exi stenciai s possíveis para mim como ego Esse idealismo não é for-
"ser outro"; vale, em conseqüência , para qualquer intersubjetividade
mado por um jogo de argumentos e não se opõe numa luta dialética a
possível que se refere a uma variação correlata a essas possibilida-
qualquer " realismo". Ele é a explicitação do sentido de todo tipo de
des e, portanto, para o mundo inteiro enquanto constituído nela de
ser que eu, o ego, posso imaginar, e, mais especialmente, do s' . i1tido
maneira intersubjetiva. Uma teoria verdadeira d o conhecimento só
da tran sce ndência que a experiência me fornece realmente: a da na-
pode ter sentido se for fenomenológica e transcendental. Em lugar de
tureza, da cultura, do mundo em ge ral , o que quer dizer: desvelar de
tentar, de maneira absurda, concluir sob re uma suposta imanência a
maneira sistemática a própria intencionaliebde constituinte. Apro ro
uma suposta tran sce ndência - que não o é menos --- de não sei d esse idealismo é a própria jenomello!ogiC/ Aquele que compreen-
quais "co isas em si" essencialmente não são cognoscíveis, a fenome- de maIo sentido profundo do métod o intencional ou O se ntido ela re-
nologia ocupa-se exclusivamente em elucidar de forma sistemiltica a dução transcendental - ou um e ou tro - só pode querer separar a
funç ão cio conhecimento, único meio de torná-Ia inteligível na quali- fenomcnologia e o ideali smo tran scendental. Quem incorre nesse tipo
dade de operaç:ío inte ncional. Dessa forma, o ser também se to rna de mal-entendido nuo pode nem me:-,lllO co mpreender a própria e s-
inteligível, quer ele seja real Oll ideal ; ele se revcla como "formação" sência de lima psicol ogia intencion al verdadeira (nem , conseqüente-
da subjetividade transcend e ntal, constituída precisamente por suas mente, de lima teoria do conhecimento intencional psicológico) , ne m
o peraç ões. Essa espécie c1e inteligibilidade é a forma mais alta ele seu papel ele peça fundamental e centra l de lIllla psicolog ia realm e nte
racionalidade . Todas as falsas interpretações do ser provê m da ce- científica. Aquele que desco nhec e o sentido e a função da reduçJo
gueira ingênua em re lação aos horizontes que determinam o scntido fenomenológica transc ende ntal encontra- s e ainda no terr eno do
do se r e aos problemas corrcspon dente s da elucidação da intcncio- psicol og is mo transcend enta l. qu e confunde :1 fen o menol og ia tr;tllS-
nalidade implícita . Dcsses horizontes percebidos e recolhidos resulta cend e ntal c a psicologia intenci ()I],!I: cai no absurdo ele uma filosofia
lima fenomenologia universa L explicitação concreta e evidente do transce ndent a l que permanec e no terreno natllr;tl.
ego por s i me smo. Mais exatamente, uma explicitação d e s i mes- Nossa s meditações avançar;tm o bastante para colocar em evi-
mo no se ntido estrito do termo , que mostra de maneira si ste mática dência o caráter necessário da filosofia compreendida como fenome-
102 iMeditações Cartesianas
Q:<-ilrlti Medi fação 103

nológica transcendental, e, de maneira correlata, no que se refere ao


em relação a sua direção e a sua meta. Elas devem, como queriam
universo daquilo que é real e possível para nós, o "estilo" da interpre-
também as velhas meditações cartesianas, elucidar e tornar absolu-
tação, a única possível, de seu sentido, a saber, o idealismo fcnome-
tamente inteligíveis os problemas universais pertencentes à idéia-fim
nológico transcendental. Essa evidência implica também que o lr<lba-
da filosofia (para nós, conseqüentemente, os problemas constitutivos):
lho infinito da explicitação do eu que medita imposto a nós pelo plano isso implica que devem ter extraído o sentido autêntico e universal do
geral também por nós traçado - explicitação das operações do eu e "ser em geral" e de suas estruturas universais, na sua generalidade
da constituição de seus objetos - integra-se como cadeia de "mcdi - mais alta e, no entanto, rigorosamente circunscrita na generalidade
tações" particulares no quadro de uma " meditação" universal indefi- que é a própria condição da possibilidade do trabalho ontológico rea-
nidamente perseguida. Podemos nos deter aqui e abandonar todo o lizador. Esse último se dá sob a forma de uma filosofia fenomenológica
resto às análises particulares? A evidência adquirida e o sentido fínal que se apóia no concreto e, posteriormente, sob a forma de uma
que elas nos fazem prever são suficientes? Essa previsão avanç o u o ciência filosófica dos fatos. P~rque, para a filosofia e para a
bastante para nos abastecer com uma fé suficientemente profunda fenomenologia que estudam a correlação do ser e da consciência, o
nessa filosofia , no método da explicitação de si mesmo na meditaçilo, "ser" é uma idéia prática - a idéia ·de um trabalho infinito de deter-
para que possamos fazer dela uma das metas ela nos sa vontade c nos minação tc ó rica.
voltamlOs para o trabalho com uma alegre confiança? Dando lima
rápida olhada nisso que nos é apresentado como "mundo", corno " uni-
verso" existente em nós, em mim - ego que medita - , não pude-
mos evitar de pensar nos "centros monádicos" e em sua constituição.
Por meio das mônadas estranhas constituída s no meu próprio cu,
forma-se para mim (como já dissemos) o mundo comum él " todos
nós". Isso implica também a existência de uma fil osofia comllm a
"todos nó s", que meditamos em comum , de ullla !)hi!osophia
p c r e17nis. Mas nossa evidência, da fil osofIa e do idealismo fenome-
nológicos, essa evidência da qual estávamos perfeitamente seguros,
a ponto de, ao nos abandonarmos ao movimento das 110SS:15 med ita-
ções intuilivéls, afirmarmos as necess idades essenciais que ali s urg i;1Il1.
está ao abrigo da crítica') Po r que, posto que av,mçam os o b:1s1 ;ml e
com nossas pesquisas para tornar inteligível para nós, na SU:1 eSlrutu-
rél geral e essencial, a poss ibilidade (muito estrClnha, sabemos) ela
existência do outro, e para explicitar o s problema s a isso relacion ,1-
cios, nossa evidência não se tornaria vacilante? Se no ssa s JWed iro-
(;cJes c arlesiOlWS devem nos servir, ,1 nós fíló sofos cm forl11aç ,l o,
como "introdução" verdadeira; se elevem ser esse " início' - qlle no s
as seguraria a realidade dessa filosofIa a título de idéia prática nec es -
sária (início ao qual pelienc c, co mo elemento idcal neccssúrio. a evi -
dência de uma tarefa infinita), é preciso que nos sas próprias m e dita-
ções nos conduzam longe o bastante para não deixar nenhuma dúvida
Quinta .iv1editaçM 105

M as o que acontece então com os outros egos? Eles não são


por certo simples representações e objetos representados em mim
QUINTA das unidades s intáticas de um processo de verificação que se desen-
volve " em mim ", mas justamente nos "outros".
MEDITAÇAO No enta nto, essas considerações não são talvez tão justas como
parecem . Devem os aceitá-Ias definitivamente como "a lgo natural "
que nelas utilizamos e no s engajarmos em argumentações dialéticas
e hipóteses preten samente "metafísicas", cuja possibilidade presumi-
da se revelará talvez como perfeito contra-senso? O melhor, na ver-
DETERMINAC;AO DO DOMíNIO dade, é começar por empreender e levar a cabo, num trabalho con-
creto e s istemático, a tarefa, sugerida aq ui pela noção de alieI' ego,
TRANSCENDENTAL COMO da explicitação fenomenológica.
"INTERSUB0ETIVIDADE MONADOLOGICA" Preci sa mo s nos dar conta do sentido da intencional idade explí-
cita e implícita , em que, sob o pano de fund o composto pelo no sso ell
lranscendenlal, se afirma e se manifesta o alieI' ego . Preci samo s
ver como, em quais intencional ielades, s ínteses e "motivações", o sen-
42. Exposi.0ão do problelJlza da experiência do outro;' a tid o do alier ego forma-se em mim e, sob as diversas categorias de
objeção ao solipsismo uma experiência concordante do outro, afirma-se e justifica-se como
"existente", e mesmo à sua man eira como estando presente " ele
mesmo". Essas ex periências e seus efeitos são prec isamente fatos
Vamos relacionar nO SS8S IlOVélS meditações a uma objeção apa-
tran sce nd€ntai s de minha esfera fenomenológica: de que outra for-
rentemente grave, já que atin ge nad a menos qu e a própria pretensão
ma, a não ser inte rrogando-os, posso chegar a uma exp licitação com-
ela fenom enologi a transc ende ntal de ser UIll;) filosofia tr;)nscend en taí
pl eta da exi stência el o outro?
e, cm conseqü ência. de poder - sob a forma de aná li se e de teoria
con sti tuti va que se de se nvolve no interior cio eZllronscendenlol redu-
z ido - re so lver os problema ~ lr,lllscenc!entais do mundo obje tiv o.
QUilndo eL!. o e u que medita. me redu zo pela [TCOX11 fen o- 43. O modo de apresentação ontonot'111dtica do "outro))
menológ.ica ao m eu ego tran scendental :lbso lllt O. nã o me torn o por como jío condutor transcende7ltal da sua teoria
isso m esmo solus IjJSe e nã o perm8J1eçO assim à m edida que , so b o
rótulo da " fen o nl eno lo gia--. efetuo um;) explicitação de mim m esmo') constitutiva da experiência
Uma fenomenologia que pn:tcndesse resolv eros probJeméls relativos
:lO se r objetivo e se co n sider:lsse Lima filosofia não ser ia cstiglllatiz;)- Em primeiro lugar, o "outro". tal como surge na minha experiên-
d:l co mo solips isil1o tr,lnsce nd c nt:ll? cia, tell com o o e nc o ntro ao aprofuncbr seu co nteúdo o ntonoel1lático
Examinemos a s ituaçã o ma is de pe110. A redução tr ansc end e nt a l
(unicamente como correlato elo m e u cup,i/o c uj:1 estrutura d etalhada
me li ga à co rrent e dos meu s estild o s ele consc iê ncia puros e às unida-
ainda es tá por se r rev eklela), nã o pass;l par:lmim ele UIll "fi o co nelut or
des cons tituídas po r suas atua lidad es e potenc ialid ade s. A pmti r daí ,
tran sce nd en tal" . A s in gu laridad e e a vmieebck de se u conteúdo (ont o-
parece natu ra l que ta is un id,lde s s cj am i nsepa ráv e is do meu ego e,
noe mático) já nos fazem presse ntir a multiplicidade de aspectos e a
de ssa forma , pertençam ao seu pró prio se r concreto.
dificuldad e do problema fenome nológico.
104
11-1cditaf()cs Cartcsianas Q!tin ta Medita ção ]07
106

Por exemplo, pe rc ebo os outros - e os percebo co mo existen- O problema apresenta-se então, de início, como um problema
tes realmente - na s sé rie s de experiências a um só te mpo variávei s especial, colocado ao sujeito " da e x istência do outro para mim", con-
e concordantes, e, de um lad o, percebo-os como objetos do mundo, seqüentemente como problema de uma teoria transcende ntal da
não como simples "co isas" da natureza, ainda que " também " o seja m experiência do o utro, como o da chamada "endopatia". Mas o alcan-
de certa man e ira. Os "outros" mostram-se igualmente na experiên- ce de semelh a nte teoria logo se revela muito maior d o que parece à
cia como rege ndo psiquicamente os corpos fisiológico s que lh es per- primeira vista: ela fornece ao mesmo tempo as bases de uma teOl'ia
tcncem. Ligados assim aos corpos de maneira singular, como "obje- transcende ntal do mundo objetivo. Corno já mostramos anteri o r-
tos psicofísicos", eles estão "no" mundo. Além disso, perceb o-os ao mente, pertence ao sentido da existência do mund o e, em particular,
mesmo tempo como s ujeito s desse mesmo mundo: sujeitos que per- ao sentido do termo "natureza", como I1;atureza objetiva, de existir
cebem o mundo - esse mesmo mundo que percebo - e que tê m , para cada um de nós, caráter sempre co-entendido cada vez que
dessa forma, a experiência de mim, como tenho a experiência do falamos de rea lidade objetiva. Além disso, o mundo da experiência
mundo e nele, do s " outros". É possível levar a explicitação noe m át ica contém objetos detenninados por predicados "espirihlais", que, confor-
ainda mai s longe ne ssa direção, mas podemos considerar d esde já me sua orige m e sentido, remetem a sujeitos e, ge ralmente, a estranhos
como estabelecido o fato de que tenho em mim , no quadro de minha a nós mesmos e a sua intencional idade co nstihlinte; são esses todos os
v ida de consciência pura tran sce ndentalmente reduzida , a exper iê n-
objetos de civilização (livros, in strumentos, toda espécie de obras, etc.)
cia do "m und o" e dos " o utros", isso de acordo com o próprio se ntido
qu e se aprese ntam igualmente com o se ntido de "existir para cada um "
dessa experiência - não corno de urna obra da minha atividade s in-
(para qu a lquer um que pertença a uma civilização correspondente à
tética de alguma forma privada, mas como de um mundo estranho a
mim, " inters ubj et ivo", ex iste nte para cada um, acessível a cada um européia, por exemplo, mais estreitamente, à francesa , etc.).
em seus "objetos".
E, no e'ntanto, cada um te m suas experiências, suas unid ades de
experiências e de fen ômen os, seu "fenômeno do mund o", enquanto o 44. R edução da experiência transcendental
mundo d a exper iênc ia ex iste "em si", por oposição a todos os sujeitos à esfera da minha vinculação
que o percebem e a todos os seus mundos-fen ômenos.
Como se pode co mpree nder isso? É preci so, em to do o caso,
mant er co m o ve rd ade abso luta o seguinte: tod o o se ntido que tenha e Por se tratar da constituiçZio tran sce nd en ta l das s ubjetividades
possa tc r para mim qualquer se r, tant o pelo que fa z a s ua essência es trZlnhZl s, e po r se r es ta ZI concliçZio clZI po ssib ilid ade d a ex istêncin
como pe lo que faz a SWl ex istê ncia rea l efetiva, é se ntid o nZl minha para mim de um mundo objetivo, ni10 se p ode m mais discutir aqui as
v ida intenc io na l, a paJ1ir de s uas sínteses constitutivas, el uc id Zllldo-se s ubj eti v id ades es tranha s no sentido de ren lid ad es o bj e ti vas que exis-
e descobrindo-se pa rZl mim nos sistemas de verificação conco rdante. te m no mund o . A fim de não de svia r o ca minh o , devemos, segundo
Trata-se, poi s, de criZlr, para os problel11Z1s desse gê nero - nZl rnécli-
a s ex igê nc ias de no sso mét odo , proceder, no interior da esfe ra
da em qu c, em ge ral, podem ter um senticlo - um camp o a pZlrtir cio
transcendel1fol Zlniversol, a 111J /U novu Eí1: 0Xl1 , tcndo por meto de -
qual se possa re s ponder a todas as perguntas im ag in áveis CJue po s-
!imilar () objelo de nossus pesquisos. E liminam os cio campo elZ!
S,lm tcr se ntid o e inclusivc de dclincá-Ias e resp o nd ê-I Zls passo a pas-
so: começa r co m um desenvo/vimcnto sistemáti co das es truturil s in- pesqui sa tudo a quilo que, agora. está e m qu es tão pa ra nós. o u seja.
tencionai s - exp li c ítas e implícitas - , nas quai s a ex istê nc ia cios fazemos abs lraçào das funções cons titutivas da intcncionolidodc
outros "co n stitui- se" para mim e explicita-se e m seu conteúdo justifi- que se ligo direta ou indirctomcntc às subjetividades estranhas a
cZldo, ou seja, n o co nt e údo que "preenche" s ua s intençõe s . ela, e delim itamos de início os conjuntos coerentes da intencionalidade
Meditaçóes Cartesianas Quin ta. ivl ali rnçeio 109
••
••
lOS

a bem dizer, não é um reflexo; ele é o meu o17ologon e não é um

••
_ atual e potencial - , no s quais o ego se constitui no seu ser
próprio e constitui as unidades sintéticas, inseparávei s entre si, que , analogon no se ntido habitual do teml O. Se, em primeiro lugar, delimi-
em conseqüência, é preciso atribuir ao ser próprio do ego. ta-se o ego no seu ser próprio, e se se ab range com um olhar de

••
A redução de meu ser à minha esfera transcendental pró- conjunto seu conteúdo e suas articulaçõcs - e isso não somente
pria ou a meu eu mesmo transcendental e concreto , por meio de uma quanto a seus estados vividos, mas também quanto às unidades de
abstração exercida em relação àql.lilo que a constituição transcendental s ignificação válidas para ele e insep<lráve is de seu ser concreto - ,
me apresenta como estranho a mim me smo, possui um sentido muito
especial. Na atitude natural, encontro-me no se io do mundo, "eu e os
outros", dos quais me distingo e aos quais me oponho. Se faço abs-
necessariamente se coloca a seguinte qu est80 : como pode scr que
meu ego, no interior de meu ser próprio, possa , de alguma fonna,
constituir "o outro", "justamente como lh e se ndo estranho", ou sej a,
••
conferir-lhe um sentido existencial qlle o coloca fora d o conteúdo
••
.•
tração dos outros, no sentido habitual do termo, permaneço "só ".
Mas tal abstração não é radical; essa solidão não muda nada no sen- concreto do eu mesmo que o constitui? De início, isso tem que ver
tido existencial da existência no mundo, que é sua possibilidade de ser com qualquer a/ter ego, mas depoi s com tudo aquilo que, pelo se u
o objeto da experiência de cada um. E sse sentido é inerente ao eu, sentido existencial, implique um alter ego: e m suma, o mundo objeti-
entendido como eu natural , e permaneceria (lssim mesmo se uma vo, no sentido pleno e próprio do term o.

••
peste universal me tivesse deixado sozinho no mundo. Na atitude A inteligibilidade desse conjunto de problemas irá crescer se
tran scendental e na abstração constitutiva de que acabamos de falar, nos di spusermos a carac1erizar a esfero própria do ego ou a efe-
meu ego, o ego do sujeito que medita, não se confunde no seu ser tuar explicitamente a énox'l abstrativa qu e nos é entregue. Eliminar
transcendental próprio com o eu humano habitual; não se confunde
com o eu, redu z ido a um simples fenômeno , no interior do fenômeno
total do mundo. Bem ao contrário, trata-se de uma estrutura esse/]-
.cial da cons tituição universal, que a presenta a vida do ego
do nosso campo a obra constitutiva da ex periência estranha e, com
ela, todos os modos de consciência refe rentes àquilo que me é estra-
nho é algo bem diferente do que exercer a énoX'l fen om enológica
em relação ao valor existencial do " outro" na vida ingênua , como
••.,
••
I
tran sce ndental como constituinte do mundo objetivo. fizemos em relação a toda objetividade da atitude natural.
O q1le m e é especificamel7te próprio, a mim ego, é o meu ser Na atitude transcendental tento, ant es de tudo, circunscrever,

.'••
concreto na qualidade de '·lI7ónada ", além da esfera forJ11odu no âmbito dos horizontes da minha experiência transcendental , o que
pela intenciol7alidade de meu ser próprio. Essa esfera abrange a m e é próprio. É, inicio dizendo, o nelo-estronho. Por meio da abs-
intcn ci onalidade que visa "aos outros" da mes ma fo rma que qU<llqucr tração,"começo por liberar esse hori zo nte de ex peri ência de tudo o
outra intencional idade . No ent:lI1to, por ra zões dc métod o, comcça- que não é estran ho. PeI1ence ao "fenô meno tran scencl en tal'- do mundo
mos por eliminar do compo de IIOSSUS pesquisas a ohra silltético o fato de se r mos trado diretam en te numa ~xpe riência conc ord,lIlte;
dessa il/tencionalidade (a rcalidade do s outros para mim). Nessa assim, trata-se de prestar atenç i'io, abarcando-o de forma p;1n orâ mi-
i17tellciollolidade bem particular constitui-se um sentido exis ten- ca, na ma ne ira pela qual o que me é es tranh o intervém na determina-
ciul17(}vo, que transg ride o scr próprio do mcu ego monádico; cle ção do sen tido ex istencial de se us objetos, c em climiná-Io por meio
se cO llstitui e nt ão num ego não mais como eu m e SIllO, mas CO/110 se da abstração. De ssa maneira , fazclllo s inicialmcnte abstração c!<lqui-
··refle tindo" 110 m eu ego próprio. em mil7ho mrJl7ada. Mas o sc- lo que confere aos animais e aos ho mcns s ~u caráter es pecífico de
gundo ego não está s implesmente lá_ nem_ <l bcm dizer, mostrado c m seres viventes e, por assim dizcr, el11 alguma medid<l pessoai s; depoi s,
pessoa; ele é con stituíd o a título dc ulter ego. c o ego que essa ex- de toda s as determinações do lllllIld cl fCll o mcll;!l que, por se u se ntid o,
pressão designa como um de seus moment os so u eu mesmo, no meu remetem a "o utros", como a eus sujeit os e que , em conseqüência , os
se r próprio. "O outro" remete, por meio do seu seI/tido constitutivo, a pressupõe; é o caso, por exemplo, dos predicados que exprimem va-
mim mesmo; "o outro" é um " reflexo" de mim mesmo, e, no entanto, lores de cultura. Dito de outra forma, fa zemos abstração de qualqu er
J"\1cditaçõcs Cartesianas
Ouinta JHcrb rrrçiío 111
la

etc., desaparece totalmente. Assim, também, o que na esfera da-


spiritualidade estranha, justamente pelo fato de ela tomar possíve l o
se ntido específico" desse "estranho" que é colocado em questão. É quilo que me pertence (de onde se eliminou tudo aquilo que remete
ecessário, da mesma forma, não perder de vista e eliminar por meio a uma subjetividade estranha) chamamos de natureza pura e sim-
la abstração esse caráter de pertencer ao ambiente de alguém, pró- pLes não pos sui mais esse caráter de "ser objetivo" e, em conseqüên-
rio a todos os objetos do mundo fenomenal e que os qualifica como cia, não deve de forma alguma ser confundido com uma camada
~xistentes e acessíveis a alguém, como capazes, em certa medida, de ab s trata do próprio mundo ou de seu "sentido imanente". Entre os
crem importância ou permanecerem indiferentes para a vida e as corpos desta "natureza" , reduzida "àquilo que me pertence", encon-
tro meu próprio corpo orgânico, que se distingue de todos os outros
spirações de alguém. por uma particularidade única; é, com efeito, o único corpo que não
Constatamos uma coisa importante a esse respeito. Efetuada a
é somente isso, mas precisamente corpo orgânico; é o único corpo
bstração, resta-nos uma camada coerente do fenômeno do mundo,
no interior da camada abstrata, recortada por mim no mundo, ao
orrelato transcendental da sua experiência, que se desenvol ve de
maneira contínua e concordante. Podemos, apesar da abstraçã o. qu e qual, de acordo com a experiência, relaci'~no, ainda que segundo os
elimina do fenômeno "mundo" tudo o que não é propriedade exclusiva- modo s diferentes, os campos de s ensações- (do toque, da temperatu-
do eu. al 'a nçar de maneira contínua na experiência intuitiviI aten- ra, etc.); é o único corpo, do qual disponho de maneira imediata
do-nos exclusivamente a essa camada de "vinculação". assim como ele caela um de seus órgüos. Percebo com as mão s (é
Com essa camada atingimos o limite extremo a que pode nOS graças a elas que tenho - e que pos so sempre ter - as percep-
conduzir a redução fenomenológica . Evidentemente, é preciso pos- ções cinestésicas e tácteis), com os olhos (é graças a eles que vejo),
suir a experiência dessa "esfera de vinculação" própria do eu pJra etc.; e esses fenômenos cinestésicos dos órgãos formam um tluxo
poder constituir a idéia da experiência de "um outro que não eu " ; e de modos de ação e estão submetidos ao meu eu posso. Posso, em
seguida, ao colocar em jogo esses fenômenos cinestés icos, empuITar,
sem te r essa última idéia não posso ter a experiência de um "mundo
objetivo". Mas não tenho necessidade da experiência do mundo obje- deslocar, etc. e, dessa forma, agir por meio do meu corpo, imediata-
tivo nem da experiência do outro para te r a da minha própri,\ "esfera m e nte de início, e depois com a ajüda de outra coisa (m~diataIllente).
E mais: por m e io de minha atividade perceptiva, tenho a experiência
de vinculação" , (ou posso ter a experiência) de qualqu e r "natureza", aí incluída aquela
Consid e remos mais de perto o resuLtado da nossa abstração.
ou seja, seu resíduo, O fenôm e/lo do mundo, apresentando-se com de meu próprio corpo, que por uma espéc ie de "reflexão" relaciona-
se ntido objetivo, destaca-se de um plano que podemos designar pe- se Jes s a forma com ele mesmo. Isso se tornou possível pelo fato de
los termos: "noturez.a" que 'me pertence. Esta dev e ser hem qu e ~I touo momento e u "posso " percebe r uma mão "por intermé-
distinguida da naturezJ pura e simples, ou seja, da naturc ZJ. objl'to di o" ua OlHra, um olho por intermédio de uma mão, etc. O órgão
das SU;\s ciências. Esta última é . sem dúvida, o re sultacl() de lima deve então se tornar objeto, e o objeto, órgão. O mesmo vaJe par~! a
<lhstração, ,\ sabe r , daquela de todo o "psíquico", de touos os açüo ori g inal possível, exercida pelo coq)O sobre a natureza e sobre
prcdic,dos do mundo objeti\'o que extraem SUd origem da \' ilL! da o próprio corpo. Esse últinlO se relaciona, portanto, consigo me smo
pcrsoll;liidadc . Ma s o re s ultado dessa ab s tração da ciéncia é um;) também peLl prática.
C<lll1d(]a no Inundo objetivo (n,\ atitude transcendental dir-~e - i<L c;)-
Fa ze r -;obressair meu corpo, reduzido à minha vinculação. é já
l11<1da pertencente ao objeto imanente, visado pela expre~são --nlllll- pJrc i,11 Illellle faz e r sobressair o fenôm e no objeti \10: "eu, como esse
do objetivo"): e\a é, portanto . um,\ camada objetiva, tal como ;1C]ue- homem". em sua essência-vinculação. Se reduzo ~l "vinculação" os
I;)s clilllin"das pela ahstração (o psíquico objetivo, os " predic;\clns outros homen s, obtenho corpos materiais reduzidos?! vinculação: mas
culturais" ohjetivos, etc.). Ora, em nosso caso, esse se nso ue u bJc- se me reduzo (/ mim mesmo como home m, chego a meu organismo
tivic\ade inerente a tudo O qlll.: é "mundo", considerado como consri- e li min/w alma, ou a mim mesmo, unidade psicofísica e, nes s a
unidade , ao eu-persollalidade; chego então ao eu que "em" e "por
Illído pela intcrsubjctivid<lde ~' "CL~ssível à experiência de alguém,
112 /v!rditnfõ,-s Cn ut"simzas Quillta J11cditaréio 11 3

intermédio" desse o rganismo age e padec e no mundo exterior, e do como membro do "mundo", com uma "exterioridade" múltipla ;
que, em ge ral, constitui-se em unidad e psicofísica em v irtude cla ex- mas fui eu quem constituí tudo isso, eu mesmo, em minha alma, e
periência constante dessas relaçõe s absolutamente únicas do eu e da carrego tudo isso em mim como objeto das minhas " intençõe s". Se
vida com O corpo. Se o mundo exterior, o organismo e o conjunto tivesse de mostrar que o todo constituído como pertencente a mim
psicofísico são d essa forma depurados de tudo "o que nelo é vin- (portanto também ao "mundo" " reduzido") pertencia à essência con-
culação ", não sou mais um eu no sentido natural na medidaju stame n- creta do sujeito constituinte com o in separável detemlinação interna,
te em que eliminei qualquer relaçii o com um nós, assim C0l110 tlld o o a auto-expl icitação do eu encontraria o " mundo" que lhe pertence como
que faz de mim um ser do " mundo". No entanto, na minha particulari- sendo " int erior" a ele e, de outro lado, percorrendo esse "mundo", o eu
dade espiritual , pennaneço um eu, pólo idêntico de minhas múltiplas se encontraria a si próprio como membro dessas " exterioridades" e se
experiências puras, de minha vida intencional ativa ou passiva e de distingu iria do " mundo exterior".
todos os hab itus que ela cria ou pode cri ar em mim.
Em con seqü ência dessa.elimin ação abstrativa de tudo o que é
estranho a mim, re stou-me uma espécie de mundo uma natureza re- 45. O ((ego)) transcendental na qualidade de homem
duzida à "m inha vinculaçâo" - um e u psicofísico, com corpo, a lma
e eu pessoal, integrado a essa natureza graças a seu corpo
psicofísico)' a percepção de si mesmo reduzida às vinculações
Aí encontramos igualmente predicados que devem todo o se u
sentido a esse eu; é o caso, por ex.emplo, dos predicados qu e carac- Ta l como todo o conjunto da s meditações, efetuamos essas últi-
terizam o o bjeto como "va lor" e " produto" Mas tudo isso não é de mas na atitude da redução tran scend ent a l, ou seja, do "eu" que medi-
forma a lg uma do mundo no sentido natura l do termo (daí as muita s ta na qual idade de ego transcendental. É preciso perguntar-se agora
aspas); é o que, na minha expericncia do mundo, me pe rte nce de qual é relação do eu-home m , redu z ido com a sua vinculação pura no
maneira exclusiva, a renetra totalm e nte, e que, intuitivamente, for - interior do fenômeno do " mundo" " reduzido" da maneira correspon-
ma lima unidade coerente. Toda s as a rticulações que sabere mos d ente, ;)0 CII, ego transcendental. Esse último é resultado da coloc([-
distin gu ir nesse fenômeno do "mundo", reduzido "àquilo que me per- ção entre jJorênteses do mundo objetivo em seu conjunto c de todas
tenc e", fo rm a m, no entanto, um a unidade concreta; o qu e se mani- a s e nti chdcs objetivas em geral (também as objetividad es ideai s). Por
festa também no fato de que a formo espoço-temporol, reduzid a de me io dessa ·'eo locação entre parênteses". tomei consci ê nci a de mim
man e ira correspo ndente a isso que me pertence, é pres e rvada ncsse me smo cumo de 1I111 ego tran sc ende ntal, que, em sua própria vid~l.
fe nômeno "red uz ido" do "mulluo'·. Os "objetos reduzido s", dS "'coi- constitui tlld o êll]uilo l]uejam a is pode se r objetivo para mim ; to mei
sas" , o "eu psicofísico" são, e m co nseqüê ncia, também cles , ex/erio- co n sci(~ ncia de UIll eu que existe em s uas experiências potenciais e
res uns aos outros. Mas so mos tocad os aqui por um falO no tfIvcL eis atuais, <lss iJll como 110S se us hobi/lIs.
um encad ea me nt o de evidência s que , em se u próprio e ncad ea \ll e nt o_ (: Ilns se us habi/lIs e experiências que ele se constitui a s i pró-
têm apa rê ncia de paradoxos: ao e liminarm os o que nos é '·cstl'lII ho, pri o (COJllO tudo que é objetivo) , como ego idêntiCO . Podemos di ze r
não alcançamos o conjunto da minha v icia p sí quica , ~\ v id el de sse cu ,lgo ra : :1 0 haver constituíd o e continuar a constituir esse mundo que
psicofísico; minha vida perm ane ce exper iência do ·'mundo" c. ro r- existe pélra mim na qualidad e de fenômeno (correlato), e u, na q ua li-
t<111t O, experiência possível e rea l docjllilo que nos é estrzmh o. 1\ tota- dad e de sse ego. efetuei, po r me io de sínteses constitutivas co rre s-
lid ade da constituição cio mund o, existente rara mim, ass im como sua pondentes, umo percepçDo de lJ1im lIleSillO (como "c u" no se ntido
divi sâo pos terior em sistema s constitutivos de vinculaç ões e daquilo hab itu a l de uma personalidade humana mergulhada no conjunto do
que me é estranho, é , des sa forma , in ere nte ao meu se r psíq ui co. E u, mundo co nstituído), que m e /ransjórmu em um ser do "m undo "-
o "eu hum a no" reduzido Co e u psicofísico"), sou, portanto, constituí- Essa percepção, continuo a efetuá-la, completando-a, e a manter
114 :Hcrlzmçõcs CC/rtesianas Quil1taA1cditC/féio 115

constantemente seu valor. Graças a essa transformação do eu em terística ind ireta que, do seu lado, repousava sobre a noção do ou-
"ser do mundo", tudo aquilo qu e, do ponto de vista tran sce ndental , é tro, e," em conseqüência, a pressupunha. Mas é importante, para
uma vinculação do eu , de ss e ego, é englobado sob a forma de psí- esclarecer se u sentido, e laborar tamb é m umu carac terística posi-
quico pela "minha alma". Essa percepção, que me transfo rma em tiva desso noção de "vinculação ", ou do "ego " naquilo que lhe
se r do mundo,já a encontro efetuada, mas posso se mpre, pal1indo da é própri o.
alma como fenômeno ou parte do fenômeno "homem", ret o rnar a Nas últimas frases do parágrafo anterior, fizemos apenas uma
mim mes mo como ego absoluto, universa l e transcendental. Se, e m alusão a isso. Vamos agora partir de um ponto de vista mais geral.
conseqüência, na qualidade desse ego , reduzo o meu fenômeno do Quando, na ex periência , um objeto concreto se destaca como algo
munelo objetivo "àquiJ o que me per1ence nel e", e se acre sce nto a isso para s i, e é "notado" pelo olhar da atenção perceptiva, essa percep-
tudo aquilo que encontro ainda ele perlencente a mim (não podendo
ção direta só se aprbpria dele como "o bjeto indeterminado da intuição
mai s, após essa redução, conter aquilo que é estranho a mim), ° COI1-
empírica". Ele só se torna objeto determinado, e cada vez mais deter-
junt o daquilo que pertence ao meu ego pode ser encontrado 110
minado, na seqüência da experiência, que, de início, só determina o
fellôme n o reduzido do mundo, co·mo pertencente à "minha olmo ",
exceto que do p onto de vista lranscenden/al ele é, como compo- objeto interpretando-o a s i e por si mesmo; ela ocorre, portanto, como
nente ela minha perc epção do mundo, ul71 jenô l7leno seczmdârio. Se explicitaçi'ío pura. Baseando-se no objeto que é mos trado na sua iden-
nos éltivermos ao ego transcendenta l e últim o e à univer sa lidade da- tid ade consi go mesmo, graças a uma síntese identificadora, contínua
quilo que é c.onstituÍdo nele, encontramos, pe rten ce ndo de IJwlleira e intuitiva, a experiência no se u progresso sintético explicita no enca-
im ediata ao ego, a divisã o de toelo o se u campo transcend ent a l de deam e nto das intui ções particulélres as determinações inerentes a esse
experiên c ia na esfe ra "qu e lhe perten ce" - aí incluída a ca mada m es mo objeto.
coerente de sua experiência do mundo, reduzida à "v inculação" (da E essas determinações aparecem desd e o início como determi-
qual tudo o que lhe é estranho é descal1ado) - e na esfe ra el8CluiJo naçõe s na s quai s o objeto, o idêntico, é aquilo que é - o que é "em s i
que lhe é estranho. No entallto, toda consciência do qu e lhe é estra- e por si"-, determinações nas quai s seu ser idêntico explicita-se em
nho, cada um dos seu s modos de apresentação pertence à primeira propri ed ades part iculares.
esfera. Tudo aquilo que o eu transc en dental constitui ne ssa primeira Esse conte úd o essencial e próprio élinda é antecipado apenas
c 8ll1ada , como "não estranho", como "a q II i lo qu e Ihe perten ce'·, é, ele man eira geral e sob a forma de um horizonte. Ele só se constitui
com efei to, para ele, a títul o de componente de seu ser próprio e originariamente pela exp licitação (com o se ntido de Índice interno.
('olle re/(), como dem o nstramos e como dem o nstraremo s aincl8. Ele é próprio, essenciéll- e mais espec iél lmcntc de propdedade).
il1scpar{lVel de seu ser co mpleto \ Iéls. no int erio r e por int e rmédi o c1e Vamos ap li c lr es sas verdades. Q Uilnd o, na reduçã o tran sce n-
suas vinculações, o ego constitui O mundo objetivo. co m o a unin.:rSil- dentaL ren it o so bre mim me s mo, ego transcendental, mo stro-me -
licl ilu e do ser que é estr,mho ao ego, e, em primeiro lu gar, o scr do como esse ego - num modo perceptivo, mais precisamente , eu me
(flter e"() .
(~
(eg o) ca pto nUJll<l percepção.
Percebo também que tal como ocolTera anteriormente, sem m e
se r percebido, eu estava sem pre lá para mim numa intui ção original
46. A vinculação CQ7no esfera d~7S atualidades e dAs (percebido no se ntido ma is amplo d o termo) e, de certa forma. "pre-
. potencialidades da corren te da consciência sente de antemão". Eu estou present e com o hori zo nte aberto c infi-
nito das propriedades internas aindél n110 descobe l1as. O que me é
próp rio revela-se, também, somente pela explicitaçã(), e é na e por
Até o momento, caracteriza mos o co nceito fundamental da "v in- meio da s ua obra qu e recebe seu sentido original. Ele se revela origi-
c ulação", daquilo " que me pert ence", como o " não estranho" - carac- nalmente no olhar da experiência explicitante dirigida sobre mim mes-
lló i0cditaçÕC5 Ca rtuiana5 Quin ta M cditrzçfw 11 7
••
so bre o meu "eu sou ", percebido e mesmo mostrado de maneira
••
••
1110, Mas a explicitação, no entant o, é original se no terre no da expe-
a podÍctica, sobre minha identid a de comigo mesmo, con servando-se riência original d e si é o próprio objeto experimentado que ela explicita,
na s íntese contínua e coerente da experiência original de si. Aquilo to rnando-o "presente em pessoa", segundo um modo qu c, na circuns-
que é a essência própria d essa identidade caracteriza-se como ele-
mento real e possível de sua e xplicitação, como qualquer coi sa em
que eu apenas desenvolva meu pró prio se r idêntico, tal como ele é
tância , é O mois original poss ível. A evidéncio apodícrica da pe r-
cepção transcendental de mim mesmo (do "eu so u") estende- se a essa
ex plicitação, ainda que co m urna restrição analisada mai s acima.
••
em si mes mo, como idêntico em suas pa rticul aridad es.
Eis agora um ponto importante. Aind a que e u esteja em condi-
ções de fa lar da percepçâo d e mim mesmo e precisamente da per-
A s forma s estruturais universais aparecem tã o -som ente com
uma evidé ncia absoluta nessa explicitação; notadam e nte as formas
nas quais exi sto como ego, e somente nas quais ~ tom a ndo- se isso
••
cepção do m e u ego concreto, isso não quer di zer que eu me mova
sempre na esfera d as p ercepções particulares propriam e nte ditas , e
que eu não ch e gue a o utra coisa senão e lem e ntos 'perceptivos da
numa universalidade da essência - posso exi stir ass im. É preci so
c o ntar entre elas (entre outras) a maneira de ex istir sob a forma de ••
e xplicitação, c omo é o caso na explicitação de um "objeto da vi são",
mostrado pela percepção. P o rque, na e xplicitação dos ho rizontes do
ce rta vida universal em geral , so b a forma de con stituição constante
por s i mesma e seus próprios estad os como temporai s no int e rior de
UIl1 templo universal, etc . Desse a priori apodíctico 1/11;\'e /"sol, !W
••
meu ser próprio , defront o- me , em primeiro lugar, com a minha
te mporal idade imanente e com O meu ser sob a forma de UJlla infini-
dade aberta da corrente da con sciência ; infinidade de todas as mi-
s ua ge llerolidode indeterminada, m as d et ermináve l, p a rticip a todo
a explicitaçào d os dados egológicos particulares, como, por exe m-
plo, a evidência ~ por mai s imperfeita que seja ~ da lembrança que
••
nha s propriedades, incluída s, não importa de que maneira , nessa cor-
rente, acrescentando-se aí até mesmo a minha e x plicitação. Essa
explicitaçãO, ao se efetuar no presente vivente, só pode captar numa
cada um tem de seu passado próprio . Essa partic ipação na
apodicticidade revela- se na lei form o l. ela me s ma apodíctico: tanto
da apar ência quanto do ser (que a aparê ncia a pena s esconde e fal-
••
percepç ão verdadeira aquilo qu e se efe tua no prese nte. O passado
que Ine é pró prio, e la só o d esve la para mim ~ da man e ira mais
original CJue se p ode conceber ~ na e pela lembrança. Seja o qu e for
se ia) que p o dem os buscar e que po demo s e ncontrar seg uindo uma
rota traçada de a ntemão, ou , pelo m e no s, que po demo s alcançar por ••
••
aprox imações suce ss ivas de seu conteúdo inteiramente de te rminado.
qu e eu te nha mostrado c o nstant e mente a mim me slllo de maneira Esse último, no sentido de um o bjeto suscetível d e identificação rigo -
o riginal, e ainda qu e eu possa , avançando se mpre , explicitar aquilo rosa cm todas as suas partes e em todos o s se us momentos, é uma
Cjue me pertence esse llciallll c nte. esso exp!icitoç(/o se ef e t1lo em
g/"onde port e po r m e io de {/tos de CO lIsciêl1 c io (]11<' ll c/O S(/() de
/01"1110 OlgulllO p ercepç Des do s mo m e ntos corres po nd e ntes el e m i-
"id é ia'" v{)lida a priori
••
nha essência pró pria. A corrente d o v ivid o , na sua qualidad e ele cor-
re nte, onde viv o como e u id é mi co, só pode tornm-se acessível a mim
ela seg uinte maneira: na s s uas atualidad es. ini c ialme nte, e em seguida
47. O objeto intencional perten cc) ta711bi7n ele) ao ser
plenamente concreto (nwnrídico) da ((vil1culaçtio". ••
na s s uas po tencialidades . qu e, de for ma visÍ\eL me são iguallllente
e ssenciais e próprias. Tod ~5 as poss ibilidades do gênero ell p osso Oll
e ll p oderiu - po sso d ese ncad ear essa ou aq uela série de e stados
Transcendência imanente e m un do primordial

vividos, posso prevcr a li olhar para trás , p o sso penetrá-las ck svelan-
d o-as no s horizontes de m c u ser tem pora l - , todas essas poss ibi Iida-
o que fo rma minha vinculação essencial como ego es tende -se
de maneira visível (e isso é par1icularmente impol1a nte) não somente
para as atualidad e s e as potencialidade s da corrente do vivido, mas
••
••
des p ertence m c!u)"C/lJ/C'J/ te d e !IIOl1 e iro esse/Jcial e próprio a mim
m esmo. também para os sistemos constitutivos, da mesma forma para com

••
IY.! criitações Cartesianas
Quill ta .J'vleditapío 119
118

(d a e:-:plicitação d e si mesmo)~ encontramos larnbélll um "mundo


as objetividades constituídas. Esse último ponto deve ser visto com
cenas reservas. Notadamente , ali e na medida em que a unidade
lronscendente ", resultado da redução do fenômeno intencional " mun-
do obj e tivo" -, àquiJo que me pertence" (no sentido positivo que colo-
constituída, enquanto un ida , ela própria, à constituição original de uma
cam o s agora em de s taque); no entanto, todas as "aparências" cor-
maneira imediata e concreta, é inseparável dela/dele - sendo a per-
re s pondentes do tran s cendente, fanta s ia s, "puras" poss ibilidade s,
cepção constituinte, as s im como o ser percebido, pertencentes a mi-
objetivi(lJdes eidéticas, na medida em que s o frem a nossa redução à
nha esfera própria concreta. ·' v inculação". fazem igualmente parte desse domínio, domínio do que
I s so não tem que ver apenas com os dado s sensíveis, que , en-
me é essenci(llmente própri o, daquilo que sou na minha exi s tência
tendidos como simples sensações, constituem-se como meus na qua-
plenamente concreta ou, como voltamos a dizer, daquilo que sou en -
lidade cje " elementos tempor(li s imanentes" ao interior do meu ego .
quanto sou essa " m ô nada".
Isso é verdade também em relaçãD aos meus habilus, que,
igualmente, me são "próprios", que se constituem a partir dos atos
que os fundamentam (e " me pertencem" também) e formam convic-
çõ es duráveis ; c onvicções que fazem de mim " alg uém convencido de 48. A transcendência do mundo objetivo num,grau
algo", e graças às quais adquiro , como pólo [de atos], determin (l çõe s superior em relação à transcendência prim,ordial
especificamente próprias ao " eu". Mas, por um outro lado , os obje-
tos transcendentes, por exemplo, os objetos dos .'sentidos ., exterio-
res - unidade s das multipl icidade s dos fen ô menos sensíveis - , per- o fato de, em geral, eu poder opor e s se ser que me é próprio a
tencem igua lmente a e ss a e s fera , se, no entanto, na qualidade de qualquer outra coi sa ou de poder estar consciente desse outro que
ego, unicamente levo em co nta aquilo que é constituído de maneira não sou (de qualquer coi sa que me é estranha) pre ss upõe que os
verdadeiramente original por minha sensibilidade própri(l, por minh as mod os de consciência que me pertence m n ã o se confundem todos
percepções pró prias, como fen ô meno de objeto espacial, inseparável, com os modo s de minha consciência de mini mesmo.
no concreto, dessa s ensibilidade e dess a s percepções. Vam os v e r P os to que o ser real constitui-se primitivamente pela concor-
isso em seguida: a tOlOlidade ci o " mundo" que anteriormente "reduzi- d â ncia d a experiênci:1, é preci so que haja e m meu próprio e u, di<lnte
1110s" , eliminando de seu sentido elementos daquilo qu e m e era estr(l- da expcriênci;) de mim me s mo e de seu s is tem a coerente (ou seja.
diantc d,l explicit (lç ã o sistemática de mim me s mo em v inculaçõe s),
n110. pertence a essa e sfe ra e . portanto, faz partc do contelldo concreto
outr,lS c:-: periên c ia s que formam s ist e m(ls concordantes; e o pro b le-
(positivamente definido) ci o eg o. na quaiidacle dOCjuilo (/ue lhe p e r -
111;1 c o nsi s te e m sa ber como se p o de compreender que o ego possa
tei/ce. Po s to que fazemos (lbstração d(l o bra constitutiva (Iil endop;ni(l
c:1ITcgar eJ11 s i esse no vo gênero de intencional idades e possa SCI11-
(da ex periênci(l do outro). temo s uma n(ltllle za e um o rg(lnisll1 o qu e .
pre fo rma r ou tra s no va s. com sen t ido ex i s tenc i ai total mente tran s-
certamente, se constituem c o mo o bjetos espaci(li s, COJllO unidades tr(lns-
cendente a seu próprio ser.
cendentes e m relaç ão é) corrente J(l vid a , mas que não pass(lm ele
C0 1110 o ser real. o u seja , nã o somente o o bjeto intencion a l de
111 ult ipJ ic idade ele o bjet os c!(l experiêJ1c ia po ssível, sendo q uc eSS(l cx pe-
UJ11 ato qU.11quer. ma s aquele " que se confirma" em mim de mancira
ri ên cia se co nfunde totalmente com olllin/w próprio v ido. c o objeto
c o nc o rcL1I1te, C0l110 pode ele se r para mim o utra coi sa senão, p o r
dessa experi ê ncia nã o é o utr(l c o isa se nZio U!11(l unid (l de s int é tica ,
é1Ssi l11 di z er. o po nt o de interse ção da s minha s sínteses constitutiv,ls?
in se parável de ssa vicia e de SU,lS potencialidad es. Pelo próp ri o rat o de ele ser concretamente insepar{1V e l delas.
Isso nos fa z ver qu e o ego cO /lsiderudo COl7cretwll r.! I7IC pos- e sse ser 113 0 me pertence zj7so facto?
sui um u/liverso "doquilo que lhe pertence ", univers o que s e re- Mi1S já a p oss ibilidade de se relacionar de forma tão vag(l c
vcla numa explicitação original do ego SUII1, e x plicitaçãO apoelíctica, vazia C0111 alguma coisa que me s eja estranha é problemática , consi-
pelo meno s quanto à SU;) forma. N o interior d ess a esfera original
Q!tín ta ivlcdita fâ o 12 1
Medill1çóCJ CnrtcsiaJ/ns
120

49. Esboço prévio da explicitação intencional


derand o-se que as p oss ibilidades de elucidação pertencem essencial-
mente a tod os os modos de con sc iência de sse gênero, aLi seja, que é
da experiência do ((outro))
possíve l levá-las a experiên cias que as confirmem, " preenchendo"
sua intenção, o u , ao contrário, "desiludam-nos" qu a nto aO ser do ob- A unidade de sentido "mundo objetivo" constitui-se, em vários
jeto rel acion ado; e considerando-se também que , a inda por cima, tod o graus, co m base no meu mundo primordial. É preciso inici il lmente pôr
mod o de consciência desse gênero (significante) rem ete. do ponto de e m rel evo o plano da constituição do "o utro" o u do s "outros em ge-
vista d e sua gênese , às SUélS e:-;periências qu e tratam do mesmo obje- raI ", o u seja, os egos exc luídos do ser co ncreto "que me pertence"
to intencional ou de um objeto anál ogo . (excluído do e u - ego primordi a l). Junto com essa "c o locação em
O fato da experi ê ncia do qu e me é estranho (do nelo- eu ) apre- relevo", e mo tivad o por ela, um outro sentido se s uperpõe, de man e i-
se nta- se com o aqu e la do mundo objetivo, o nde se encontram "ou- ra geral, ao "m.undo" primordial; esse últim o torn a -se, de ssa for ma,
tro s" não-eus so b a f0rl11 a de o utr oS eus; e foi um re su ltad o impo r- "fenômeno de" um mund o "o bj etivo" determinado, mund o uno e idên-
tante da "red ução à vinculação" dessas ex peri ê ncia s o de ter colocado tico para qu a lqu"cr um, in c lu s ive eu mesmo. Em conseqüência, o o u-
em re levo sua cam ada int e nci o nal profunda. cm que um "mund o" tro, primeiro em si (o primeiro não-eu), é o o utro eu. E isso to rna
redu z ido revela-se com o "transcendênci a imanente" . Na ord em da po ss ív e l a constituição d e um d omí nio novo e infinito do "estranho a
co n s tituição de um mundo es tr él nho ao e u, de um mundo " exterio r" mim ", de uma natureza o bjetiva e de um mundo o bjeti vo em ge ral , ao
ao m eu eu concreto e próprio (mas exteri o r num se ntidu to ta lmente qual perte ncem os outros e eu mesm o . Ele está na essência dessa
difere nte daquel e natural e espacial d esse termo) , é uma transcen- c o nstituição que se e rgue a partir dos outros eus puros (não tend o
dência (01.1 um "mundo") primeira em si, "primordial" . Apesar da a inda o sentido dos seres do mundo), de mod o que aqueles que são
ideal idade que caracteri za cs se mundo coma uni da de sintética de um "outros para mim nã o fiqu e m isol ados, m ilS qu e, ao contrário, se co ns-
sistema infinito das minha s potencialidades, e le é ainda uIll elemento titUillll, na esfera que me p~rtence (bem entendido), uma cOlll unidade
de eus que ex iste m un s ca ril os o utros e uns para os o utros , e que
determinante da minha e:-; istência própria e concrew como ego.
É prec iso , portant o, fazer c o mpreender como, num plano s u pe- c ngloba a mim mesmo. Em última análise, é uma cOlllunidade de
m ô nada s e, notadam ent e , ulll a co munidade que co n s titui (por sua
ri or e baseado nesse primciro. se efetua a atribuição a um o bjet o do
inlCncil)naliclade constiruinte comum) um Lmico e mesmo mundo. Nesse
sen tid o de tra nsc enclê nci él o bj et iva propriamente dita, seg. und a n,) o r-
mun do e neo ntwm-se todos os eu s , m il S na ·percepção objet iva ntc .
dem da constituição, c isso sob a fOllna de experiência "i:1o se tr <l ta
d essa vez. COIll sentido el e " homcns". o u seja, de hOlll en s psicofísico s
aqui de colocar em destaquc uma gêne se qu e se c o mplct ~l no te mpo .
o bjetos do mundo.
mas uma ",l11álise es tátic a" . O mund o objetivo o.cm prcj ú est:l lá , aca-
ve A intersubjetividade transcendental possui, graças a essa coloGl-
bado : ele é um dado de minha experiência qu e sc de scnvol alUal e
ç ão e m co mum , um a es fera inters ubj ctiva de vinculação. cm que ela
vivo; e o que não é mais obje to da cxperiênci;) guarda seu val o r sob a
co nstitui de man eira inters ubj e ti va o Illundo obj etivo: e la é, dessa fo r-
forma de hobiluS. ma. 1W Clua lidade de Ulll " nós" transcendental, s ujeit o para esse lllund o
Trat a-s e de inl e nogilf essa própria expe ricn cia c de elucidar
e também para o illundo dos ho me ns. fOnl13 sob a qual e sse sujeito se
pela análise da int enc io nalidac\e a man e ira pela qual e\i) '·· co nfere sen- realizJ c le pró pri o como objeto. Distinguimos, m,lis uma vez, a esferél
tido" , a maneira pela q ual pode aparecer como cxpe ri t' nci a e justi{j - . de vincu lJção in tersubj e tiv a e o Illund o o bjetivo. Tod avi a, ao me co lo-
car-se como evidência de um ser real. e tend o uma cssência própria. car com o ego, no te rreno da inters ubjeti v idade constituída, paI1Índo d e
suscetí ve l de explicitaçi'ío. como e v id ê nci a de um ser que nã o é se r fontes que me são essenc ialmente próprias, devo reconhecer qu e o
própr io e não é parte integrante dele, a inda que só possa adquirir Illundo objetivo não lh e é mai s, a bem di ze r, tran sce nd e nte, ou seja, não
se ntid o o u justifica ção a pilrtir de meu ser a mim.
122 .V1 cditnpJC5 Cm-tc5imws Quíll ta Mcdíta fiW ] 23

tra nsc e nde sua esfera ele vin c ul ação inte rs ubj etiva; o mund o o bj etivo diante d e n ós. Po r o utro lad o, e sse cará te r de " em carne e osso" não
lh e é in e re nte na qu a lid ade de tra nscend ê ncia " im a nente" . n os impede de 'concord a r, sem difi c uld ades, que este não é o o utro eu
M as, precisa me nte, o Illun do o bj eti vo, como id éi a, como co rre lato que no s é m ostrad o no o rig in a l, não s ua v id a, s eu s pró prios f e nô m e-
idea l d e um a ex pe ri ê nci8 in tersubjeti va id ea lmente co ncordante - nos, n ada d o que pe rtence a seu se r pró p rio. P o rque se fosse e sse o
d e uma ex pe ri ê n c ia e m comulll n a inters ubjetividad e - , de ve e m ca so, se aquil o que pe rte nce ao s er pró pri o do o utro es ti v e sse acess í-
e ssê nc ia se r re lac io nad o co m a inters ubj e ti v id ade , co nstituíd a , ela vel para mim de m a neira diret a , isso seri a ape nas um m o mento do
p róp ri a, CO Ill O id ea l d e u ma co munida d e infinita e abe n a, c uj o s s uj ei- m e u s e r a mim , e , no fin a l das co nta s, e u me s m o e e le mes m o _ nÓs
tos p8rti c ul are s são do t8do s d e s ist e m as co ns titutivos qu e c o rre spo n- s erí a m os o mesmo . O me s mo aco ntec er ia co m s eu orga ni s m o se e le
d em un s 80 S o utros e se lig8 m entre s i. E m co nse qüên c ia, a c o ns titui- n ão fo sse o utra co isa s en ão um "co rp o" f ís ico, unid a de que s e cons-
ç ão d o Jl1 u nd o s ubj e ti vo com po rt a es se nc ialme nte ullla " harm o ni a" t itui n a minh a ex peri ê nc ia· re a l e poss íve l e que pe rte nce u à minh a
el a s m ô n ad as, m a is prec is8111 c nt e um a co ns titui ção ha rm o ni osa pa rti- e sfe ra prim ordi a l com o fo rm a d a exc lu s iva ment e po r minha " sen s ibi-
cul a r em c8 da m ô n a d a e, co n se qücnt~m e nte , uma gê n es e qu e se lidad e". Deve ha ver a í certa inte nci o na lidade medi ata, pa rtind o d a
re ,lli za de fo rma h a rmo n iosa n as m ô nad'a s p a nicula re s. N ão se tra ta ca m a d a profunda d o " mund o p rim o rdi a l" , que, em to d o caso, p e rm a-
ab so lutam e nte d e un1i1 s ub e st rutu ra " m e tafísica" d a ha rm on ia das nece se mp re fund a menta l. E ssa inten c io na lid ad e re presenta um a " co-
ll1 ô n ad as, n a m edid a e m qu e e las não sã o in ven ções o u hipó tes es ex istê nc ia " , qu e não e s tá jamais e qu e não po de j a mai s es ta r lá "e m
m e tafí s ic a s . E ssa harm o ni a pe rt e nce , ao co ntrá ri o, à ex pli c it ação d os pe ss oa " . Tra ta-se , po rtanto , de um a e spéc ie de ato que to rn a " co-
conte úd os intenc io na is, inc lu ído s no pró pri o fato d e qu e um mund o de prese nt e " , de uma e s péci e d e perc e pção po r a nal o gi a que va mos
ex pe ri ê nci a ex iste para nós desi g na r pela palav ra "a present ação" .
O qu e ac abamos de ex po r é um a a ntecip ação d os res ultad o s da A expe ri ê nc ia do Jllund o e xteri o r ca racte ri z a-se j á de ssa m a-
e xp licitação int e nc io na l q ue d e ve m os e fetu a r passo a passo, se qui- n ci ra . Com e fe ito, o 18d o vercl ad e ir8m e nt e " vi sto " de um o bj e to, su a
s e rm os re so lver o prob le m8 tr a ns ce nd e nta l e el a bo rar re8 lment e o " fac e" vo It8da para n ó s, a prese nt8 se m pre e necessari a mente s ua
id ea li s m o tra ns cend e nt a l d8 fe no m e no log ia. "o ut r8 face " - esco ndi da - e faz preve r s ua e strutura, m a is ou
m e n o s de term inad a. M as, po r o utro lad o, no nosso Cél SO pod e nno se
trat ar prec is am e nt e d esse gê n ero d e ap re se nt açã o que inte r vém n a
50. A intencion a Lidade N'lcdiata da experiência do ou t ro c o nstitui çã o da na ture za prim ordi a l. E ssa Ciltima, co m e fe ito, po d e se r
c on fir ma da pe la a p rese ntação co rres pon d e nte q ue pree n c he sua in-
[0711 0 ((apresenUlF{lO ») (percepção por analogz'a) tenção (o -<ave ss o " pode se to rn a r o " d ire it o"), e nq ua nto isso é, {/
pr iori, im poss íve l para uma a p re se nt ação que d e v e n o s intro du z ir na
Ap ó s te r d e finid o a es fe ra p r im ord ia l e ter e lucid a do s uas a rti - e s fe r8 "ori g in a l" do o ut ro . Co m o e nt ão a a prese nt ação d e uma o utra
c ul açõ e s - p rc limin ar es Ill ui t o im po rtant e s d o po nto el e v is ta e s fe rél <'orig in a r ' - que co nfere um se ntid o à pa l8 v ra " um o utro" -
tra nsc e ndent 81 - , e nco ntra m os, d es d e noss o p r imeiro pa sso e m d i- p ode s er mo ti va da na minha esfcra o ri gi n a l - se ndo a él pre s e ntaç ão
reç;jo 3 co nstitu ição do m u nd o objeti vo, difi c ul dades rea lment e co ns i- co mpree nd ida aq ui co mo exp eriê nc ia e fe t iva? N e nhum a re pre se nt a-
de ráv ei s. Ess a s difi culdad es re s ide m na elu c id 8ç ão tra ns ce nde nt al ç ão s élb c ria fn e- Io . Ela só pod e fazê- lo se e st á li gad8 a uma 8p re-
dél exp e ri ê nci8 d o o utro, c m qu e o <' o ut ro " 8 ind a nã o a dq uir iu o se nti- sc nt 8çã o , a um él tO n o q ua l o obj e to se m os tra , a be m di ze r, em p e s-
el o de " ho m e m ". SO:1 E é sOl1l en te quan do exi g ida po r e ss a a presentaç ão qu e e la po de
A exp e ri ê nci a é um m od o de co ns ci ê nc ia e m qu e o o bj et o é t e r o C<lr<1 te r de apres e nta ç ão, d ;l Il1es m a fo rm a que, na pe rcepção
m os trado " no o ri g in a l" ; c o m e fe ito, ao ter a e x periên c ia d o o utro di - da c o isa, a ex is tê ncia pe rce bid a é o mo ti vo da pos ição d a " c oex ist ê n-
zemos, em ge ral , que e le es tá ali , e le me sm o , "e m ca rne e osso" cia ". A perce pção d e UIl1 mund o re duzid o à esfera primordi a l, qu e se
124 lvi rditaçõcs Cal1:csianns
QJtinta A1cditação 12S ••
desenvolve de maneira contínua nas articulações descritas acima, no
um raciocínio nem um ato do pen samento. Toda pcrc epção , pel a qual
••
interior no quadro geral da percepção constante do ego por si mesmo,
fomece-nos a camada fundamental da percepção. O problema con-
siste em sa ber como se encadeiam os motivos e como se explica a
concebemos e percebemos de maneira imediata os objetos qu e IJ OS
são mostrados, como o mundo de no ssa vida cotid iana que se oferece
ao nosso olhar, os objetos dos quais não compreendem os imediata-
••
operação intencional- bastante complicada - da apresentação efe-
tivamente realizada.
Podemos encontrar um primeiro fio condutor no próprio sentido
das palavras: "os outros", um "outro eu". A/ler quer dizer a/ler ego,
mente o sentido e os horizontes, contém uma intencionaJidacle que
remete a uma "c riação primeira", em que o objeto de sentido anú logo
era constituído pela primeira vez. Mes mo os objet os desse mundo

••
que nos são desconhecidos são, falando em termo s gerais, conheci-
e o ego que aí está implicado sou eu me smo, constituído no interior da
esfera da minha vinculação "primordial", de maneira única, como
unidade psicofísica (como homem primordial), como um eu "pes-
dos segundo seu tipo. Já vimos coisas análoga s, ainda que não exata-
mente essas. Todo elemento de no ssa experiência cotidiana oculta
uma transposição por analogia do sentido objetivo, o riginalmente cria-

.'
soal", imediatament e ativo no meu corpo LJnico e intervindo por meio
de ação im ediata no mundo ambiente primordial; além disso, sujeito de
uma vida intencional concreta, sujeito de uma esfera psíquica qu e se
da, no novo caso, e contém uma antecipação do sentido des se liltim o
como o de um objeto análogo. Por toda parte, em qualquer lu gar onde
há "dado objetivo" existe essa transposição; e aquilo que na experiên-
••
relaci on a consigo mesmJ e com o "mundo". Todas essas estrutura s
estão à nossa di spos ição; e elas assim estão no s seus a spec tos típi-
cos, elaboradas pe la vida consciente, com suas formas familiares de
cia posterior revela-se como tend o sentido realmente no vo pode ter
a funç?io de "criação primeira" e servir de fundament o a " dado obje-
tivo" de sentido mais rico. A criança que já sabe ver as coisas com-
••
decurso e de complicação. Não estudamo s as intencionalidade s mui-
to complexas que as constituíram; esse é um vasto campo de pesqui-
sas especiai s, no qual não nos detivemos e no qual não poderíamos
preende, por exemplo, pela primeira vez, o sentido final de uma te-
so ura, e a partir des se momento percebe de imed iato a te so ura como
tal. E isso não acontece, bem entendido, so b a forma de reprodução
••
nos deter.
Vamos supor um outro hom e m present e no campo de nos sa
percepção; ell1 termos de redução primordial, isso quer dizer que, no
(pela memória), comparação ou raciocínio . No entanto, a maneira
pela qual as pe rcepções nascem e remetem pos teriorm en te , por e la s
mesm as, por seu sentido, por seus horiz o ntes e por meio da
••
campo da percepção da minha natureza primordial, aparece um cor-
po que , na qualidade de primordial, não pode ser mais que um ele-
intenc iona Iidade, à sua gênese, é bem di feren te, conformc os casos .
Aos graus de formação do sentido objetivo c o rrespo ndem aqueles ••
m ento determinante desse eUl1lesmo (transcendência imanente). Posto
que nessa natureza e nesse mundo meu corpo é o lmico que é e que
pode se r constituído ele maneira original como o rganism o (órgão que
elas perc epções . No final das contas, chega mo s a uma distin çiio radi-
caI entre percepções que pertencem por s uá gê nes e à esfe ra rrimor-
dial e percepções que aparecem C O ill o sentid o ele oller ego c lJUE.', ••
funciona), é prec iso que esse outro corpo -o. que , no entanto, também
se mostra como organismo - tenha e sse sentido de transposiçã o
perceptiva a partir elo Jl1eu próprio corpo . E isso de maneira a excluir
graças a uma gênese de grau superioL clefineril. de ssa fOIlIl: I. UIll
se ntido novo.
••
.'•

umajustificação realm en te diret a e, em conseqüência . primordial-
por meio de pereepç ;'io no sentid o exato do termo - , predicados
51. O ({ernparelhamel1to )), clemcnto dc constituiçâo por
específicos do o rgallislllo. A partir disso, fieJ claro que so mente uma
seme Ihança qu e vi nc ule, dent ro da m i n ha esfera pri mord ia L esse ou- associação na c."Cpcyiência do outro
tro corpo com o meu pode fornecer o fundamento e o m o tivo ele
conceber, "por anal og ia'·, esse corpo C0l110 outro o rga nism o.
1sso seria então certa percepção assimiladora, o que não quer
dizer de forma alguma raciocínio por analogia. A percepção não é
Se é preciso indicar o que é próprio da a presentaç ão assi-
miladora, graças à qual, no inte rior da minha esfera primordial, UIl1
co rpo semelhante ao meu próprio corpo-organismo igualmente apre- ••
•-I

126 iHI:ditaçÔl'S Ca7-/csianas Q 1Iinta /'v[rdi lllfão ]27

E;ndido como organi s mo , dep a ramo-no s, em primeiro lu ga r, com o se- limit e a "igua ldade". Sua obra consi ste em tran spo r o sentido n o inte-
g uinte fato: aqui, o o ri g inal do qual vem "a criação primitiva" e stá rior do conjunto e mparelhad o, ou seja, em apreender um de se us
con stantem ente presen te e v ivo e, em conseqüênc ia, a pró pria "c ri a- mcmbros de acordo com o se ntido do o utro, na medida , bem e ntcndi-
ção primitiva" conserva se mpre se u movimento vivo e ati vo . E , em do, em que os " m o mentos" do se ntid o, realizado s na expe ri ê nc ia do
segundo lu gar, depélramo-nos cum a particularidade da qual já con he- objeto, não criam a consciência das " dife renças" e não anulam, d es-
cemos o caráter necessá rio: o objeto aprese ntado po r e ssa analog ia sa for ma , a transpos ição.
não pode jamais e star prese nte , não p o d e jamais ser mostrado num a No caso da associação e percepção do alter ego pclo ego, que
p e rcepçã o verdadeira. O fato de o ego e o a/ler ego se re m sempre nos interessa particularmente, o empa relhamento só aco ntece qU<1n-
n ece ssariamente mos trado s num empare lh amento o ri g in a l es tá em do o " o utro " entra no campo da minha percepç ão. Eu - o e u
es trei ta relação com essa primeira particularid':lde . psicofí sico primordial- so u constan temente "d istinguido" no inte rior
O em pa relham e nt o - Oll seja, um a co nfi g uração em " pa re s" do ca mpo prim o rdial d as minhas percepçõe s, independentemente da
que , e m se gu ida , tran s forma- se na configuração em g rupo, na a te nção que presto e m mim me s mo, o u seja , ind ependentemente do
mult ipli cidade - é um fen ô m e no un ive rsa l da e sfera tra nsce ndental . fa to de que eu me vo lte "a ti va mente" para mim OLl não . É parti c ular-
(e, paralel a mente , da esfera p s icológi ca int enc io nal ). E. va mos di zê- mente o meu c o rp o que e stá semp re al i, di stinta mente presente para
lo im ed iata mente, se mpre q ue o empare lh a m en to está presente en- a minha se nsi bilidade, ma s qu e, além d isso, de ma neira prim o rdi:-tl e
contra-se també m essa espéc ie p articular de c ri ação primitiva - e o ri g iJlal , é afetado po r um "sentid o" es pec ífico do organismo.
que pe rman ece prese nte - da apreensão assimi lador;:l. Destacamo-a Se na minha esfera primordia l sur.ge, como objeto di stint o, um
como prime ira parti cu la ridade da exper iência do outro, ma s e la não corpo que " se parece" com o meu , o u seja, se el e tem lima estrutura
p e rtence exc lu s ivamente a essa experi ê ncia . graças à qual deve s ubmeter-se com o me u ao fenômeno de empare-
Vamos e x pli car prime ira mente o essencia l d esse "emparelha- lh a ment o, pa rece imediata me nte claro que ele d eve adquirir logo a
m ento", ass im como da formação das pluralid ad es e m ge ral. s ignificação de organ is m o, que lh e é tran s ferida pelo meu . Mas a
É um a d as fornlas primit ivas da s íntese pass iva que, p o r o pos i- es trutura di) pe rcep ção m os tra- se re<1 lmente tran s pa re nte no po nto
ção à passiva d a " identificação", des ignamos como " a ssoc iação". A e m que es tamo s? Ser ia e la uma s impl es perc e pção po r tran sfe rên cia,
característi ca de 1I111 él a ssoc iação emparelh ado ra é que, no caso m a is Co mo qu a lquer ou tra? O que tàz co m q ue e sse corpo seja o c o rpo de
s imples, dois con teúdos a í são ex pressos e intuiti va ment e mostrados um out ro e não um seg und o exemplar do meu próprio c orpo? Fi ca
n a unidil c!e de 1I111 <1 co n sci ê nci<1 e, de ssa forma , em pura passiv id<1d e, cl.:lrO que é prec iso leva r e m con!<1 aqu i o qu e foi assi nal a do c omo
o u sej;:l, sej <1 111 e les " notado s" o u niio, fllndam fenomcn o log ic;:l me nte , seg und o car{l te r fundament a l c/a percepçã o em quc s tão: o fat o que
8 medida qll e ap arece m como di stin tos, um a uni c];lc! e de se melha nça: Jl :10 :1 do se ntid o tran sferido (o ca ráter específico de se r um () r gani~­
e les aparecem, pO!1;1llto, se mpre formando um pa r. Se há ma is de mo) poderia se r rea li zado, de ma neir a original , na minha esfera pró -
d o is dados, a se co ns titui e nt ão uma unid ade fenomenal do "grupo " pria primo rdi;1).
da " p lura lid a de", ba seada nos pares pa l1i cu la re s . Um<1 análise mai s
ava n çada most ra-n o s, como essencial a essa associação . uma espé-
cie de "cont ág io" intencional, que se e s tabel ece na ordem genética
(por um a le i esse nc ial ). cO ll s idera ndo- se que os elementos que se S2. A apresentação conzo cJpécie de experiênciaJ com
e mparelham são mostr ad o s ú consciência ao me sm o tempo "junt os" m.aneira própria de confinnação
e "distinto s"; m<1i s p reci sa me nte , eles chamam um ao o utro mutua-
m e nte e por este que é o se u se ntido o bj e ti vo se sob repõe m, tra nsmi -
tindo mutuamente se us elementos. E ssa sobreposição pode se r to tal Mas aqu i s urge a ta refa difícil de fa zer compreender como uma
ou parcial ; e la impli ca sempre uma g ra dação , que tem como caso pe rcepção sem elhante é possíve l e po r qu e e la n ão é imedi a tamente
128 iVlcditações C(lrt,-,úr]wõ- Quin ta JvJ.cditaçáo 129 ••
anulada? Como acontece que, de acordo com os fato s, o sentido trans- periência que não apresenta o próprio objeto, mas somente o sugere e
••
ferido seja aceito como tendo valor essencial, como conjunto de de-
terminações "psíquicas" do corpo do outro , enquanto estas não po-
verifica essa sugestão por uma concordância interna, é o "outro".
Só poderíamos pensá-lo como algo análogo àquilo que "me per- ••
••
demjamais se mostrar, em si mesmas, no domínio original da minha tence". Graças à constituição de seu sentido, ele aparece de maneira
esfera primordial (o único que eStá a disposição)? necessária no meu "mundo" primordial, na qualidade de modificação
Vamos ver mais de perto a situação intencionaL A apresenta- intencional do meu eu, a objetividade em primeiro lugar. Do ponto de
ção que nos mostra aquilo que, no outro, nos é inacess íve l como ori-
ginal está ligada a uma apresentação original (de se u corpo, elemento
constitutivo da minha natureza, mostrada como "pcrtencente a mim" )-
vista fenomenológico, o outro é uma modificação do "meu" eu (que,
de sua parte, adqu ire esse caráter de ser "meu" graças ao empare-
lhamento necessário que os opõe).
••
Mas, ne~sa ligação, o corpo do outro e o outro eu que é senhor dele Fica claro que, dessa forma , apresentamos numa modificação
••
são mostrados na unidade de uma experiência essencialmente trans-
cendente_ Toda experiência relaciona-se a outras que confinnam e
realizam aquilo que é s ignificado em seus 'horizontes ue apresenta-
analógica tudo aqui10 que pertence ao ser concreto desse outro ego,
de início, na qualidade de seu mundo primordial, e, em seguida, na
qualidade de ego plenamente completo. Em outras palavras, uma outra
••
ção. Esta abrange s ínteses, suscetíveis de verificação, de uma expe-
riência que se des e nvolve em concordância consi go mesma; ela as
engloba sob a forma de antecipação não-intuitiva . No que se refere à
mônada constitui-se por apresentação na minha.
Vamos citar um exemplo in strutivo: no interior "daquilo que me ••
••
' pertence", e mais precisamente na esfera viva do presente, meu
experiência do outro, fi ca claro que sua progressão verificadora e
passado é mostrado, de maneira indireta, pela lembrança somente, e
realizadora só pode realizar-se mediante novas séries de apresenta-
se apresenta com o caráter de um presente passado como modifica-
ções s inteticamente concordantes e graças à maneira pela qual essas
apresentações devem seu valor exis te ncial à s ua conexão com as
apresentações verdadeiras, que mudam constantem e nte e. não me-
ção intencional do presente. A confirmação pela experiência desse
pa ssado, co.mo de modificação, efetua-se então nece ssa riamente nas
s ínteses concordantes da lembrança, e é dessa maneira somente
••
••
nos constanteme nte , as acompanham.
A proposição seguinte pode servir de fio c0ndutor para os es- que o passado como tal se verifica. Da mesma forma que o meu
clarecimentos: o organismo estranho afirma-sc no dcc o rrer da expe- passado co mo lembrança tr a nscende meu prese nte vivo como mo-

••
ri ência como organi s mo ve rdadeiro, unicamcnte por seu " comporta- dificaç ão dele, assim também o ser do outro que eu apresento trans-
mento", que se m o difica, mas qu e é se mpre concorc!Clnte F isso da ccndc meu própri o ser no sentido " daquilo que me pertence" de
s eguinte maneira: ess e comportamento tem UIll I ;l(\ \l I"i s ic\l que ,lprc- maneira primordial.
se nta o psíquico como scu indicad o r. É sobre c ~s c "comportamento"
que se apóia a experi ê ncia originZlL que s e vcril'lcZl e sc confirma 11 ,1
sucessão ordenauZl el e s ua s f,lses_
Tanto em um COIllO no outro ca so, a modificação é lIIlll:lcmento
do próprio sentido; ela é um correlato da intencional idade que Zl co ns-
titui_ Da mesma maneira que o meu passado se forma no m c u pre-
••
E quando c ssa s u cessão coerente ela s f(]sc~ nJO ucor rc, o curpo
é apreendido como se ndo organismo apcnas ilZl <lP;Hêllcia.
t nessa accss ibiliuade indireta. mas vercl,lcleir;l, d o que é i11Zl-
sente vivo, no campo da "percepção interna", graças às lembrailças
concordantes que se encontram nesse presente, e também, grZlças ;lS ••

apresentações que aparecem na minh a esfera primordial e são moti-
ccssível diretamente e em si mesmo que se baseiJ pZlra nós a exis- vadas pelos conteúdos dessa esfera, posso constituir no mcu ego um
tência d o outro. ego estranho, o que quer dizc r que posso cons titUÍ-lo cm rca prc··
O que pode ser aprese ntado e justificado dirctamcnte é "eu mes- sentações de um tipo novo, que têm como correlato um outro gê ner0
mo" ou " me pertence". O que, pelo contrário, só pode ser mostrado de modificação. No entanto, quando se trata de reapresentação IlO
por meio de uma experiência indireta, " fundamentada ", de uma ex- interior da minha esfera de vinculação, o "eu-central" que lh e 11l' 11 1.! 1I
I .:; () /H edill1Ç<Jcs C rn-ccsin l1 flS Qytinta AI cditaçiio 131

ce não é outro senão e u mesmo, enquanto a todo aquele que me é fenômenos próprios da minha percepção aqui e agora , mas sistemJs
estranho pertence um eu apresentado, que não sou eu mesmo, mas inteiramente determinados, coordenados à mudança de s ituação que
que é minha modificaç:io. um outro eu, que permanece intimamente me colocaria ali, e o mesmo acontece com todo ali.
I igado aos horizontes apresentados de seu ser concreto. A correspondência, ou melhor, a coordenação dos elementos
Uma explicitação das conexões noemáticas da exper iência do da constituição primordial da "minha" natureza, correspondência e
"outro", suficiente para os nossos fins e totalmente necessária para coordenação caracterizadas , elas próprias, como associações, não
elucidar sua obra con stitutiva que se realiza por meio da associação, d everiam contribuir essencialmente para elucidar o papel as sociativo
não é concluída pelas análises que fi ze mos até o momento. É preciso da experiência do "outro"? Isso porque eu não apreendo "o outro"
completá-l a c levá-la mai s adiante, para que a possibilidade e O alcan- simplesmente como meu duplo, f!ão o apreendo nem em razão da
ce de uma constituição transcendental do mundo objetivo possa tor- minha e sfera original ou de uma esfera semelhante à minha, nem em
nar-se evidente e para qlle o idealismo fenomenológic o transcendental razão de fenômenos espaciais que me pertencem como ligados ao
possa tornar- se plenamente transparente. . "aqui", mas - se considerarmos a coisa mais de perto - com fenô-
menos tais que eu poderia ter se eu fos se ali e se ali estivesse. Em
seguida, o outro é apreend ido na apresentação como um eu de um
mundo primordial ou lima mônada. Para esta mônada , é o seu corpo
53 As potencialidades da esfera primordial e sua função
que é constituído de maneira original e mostrado no modo de UIll
constitutiva na percepção do outro "aqui absoluto", centro funcional de sua ação. Em conseqüência , o
corpo qlle aparece na minha esfera monádica no modo do ali, apre-
Na minha esfera primordial, meu corpo, que se relaciona consi- endido como o organismo corporal ele um outro, como o organismo do
go mesmo , é mostrado no modo do aqui; qualquer outro co rpo - e alter ego, o é ao mc smo tempo como o mesmo corpo, no modo do
também o corpo do mltro - , no modo dó ali. A orientação desse ali é, "aqui", cujo "outro" tem a experiência na s ua esfera monádica. E
graças a meus estados cinesté s icos, suscetível de variação livre. Ao isso, c1e maneira concreta, com todas as intencional idades constitutivas
mesmo tempo , por cau sa dessas mudanças de orientação. e nessa s que esse modo implica.
m es mas mudanças. constitui-se na minha esfera primordial uma "na-
tureza" espacial. e eb se c o nstitui em relação intenci o nal co m meu
c or po. co ns iderado comO sede das percepções O Cato de que me u 54. Explicitação do sentido da apresentação.;
org,lllisl11o corporal é e podt: ser apreendido como um co rpo natural, experiência do ou.tro
qu e se t: ncontra c sc 1110\'e no espaço como qualquer o utro co rpo,
estú visivelmente ligado ~l possibilidade que é enunciada como se se-
gue: e II posso, por uma livre 1l10d ificação da s m i n has sensações o que acabamos de c1izer tem rebção visível com o decurso da
cincstésicas e. em particular, pelo ato de "girar em volta", mudar Jssociação que c o nstitui o fenômeno do " outro" . Ela não é illl cd íat;,
minha posição ele uli lll~lJleira que todo ali se transforme cm Jq ui , ou O corpo (daquele Cju e vai ser o o utro) que pertence ao meu alllbiente
seja. posso ocupar com o JlleU co rpo qualquer lugar no es paço. Is so prim o rdial é para mim um corpo no modo do ali. Seu modo de parec e r
implica que se eu percel)cssc a partir dali, teria visto as llleSI11JS coi- niio se empJrelh;, por associação c1ire tJ ao modo ele aparecer. que é
sas, Illa s mo stradas por meio de fen ô menos difere nte s, t,ll como eles const;,nte c atualmente inerente ao Illeu corpo (no mododo aqui) Ele
pertencem "ao sc r visto dali " , ou, ainda, que à constituição de qual- desperta e reproduz Ulll outro modo de aparecer, imediatamente aná-
quer coisa pertencem, essencialmente, não apenas os si stemas dos logo àquele; modo de aparecer dos fenômenos que pertence m ao
132 Meditaçõcs Cartesian as QJ;inta J\lIcditação 133

sistema constitutivo do meu organismo entendido como corpo espa:- conteúdo de um ali qualquer, variável no modo do "eu posso" e "eu
cial. Esse modo de aparecer lembra o aspecto que teria meu corpo faço", nem, em conseqüência, de um ali determinado. Um e o utro
"se eu estivesse ali". Nessa ocasião, completa-se um emparelhamen- excluem-se reciprocamente. Mas posto que o corpo estranho (ali)
to, ainda que a evocação não chegue a ser uma lembrança intuitiva. entra num emparelhamento associativo com o meu corpo (aqui) e,
Desse emparelhamento participam não somente os modos de apare- mostrado na percepção, torna-se o núcleo de uma apresentação -
cer do meu corpo, evocados em primeiro lugar, mas o meu próprio aquela da experiência de um ego coexistente - , esse último deve
corpo na qualidade de unidade sintética daqueles modos e de seus necessariamente ser apresentado de acordo com todo o dccurso da
outros modos de aparecer, múltiplos e familiares. É assim que a per- associação que constitui seu sentido como um ego que coexiste nes-
cepção assimiladora, graças à qual o corpo exterior (ali), análogo ao se momento no modo do ali ("como se eu estivesse ali"). Mas o meu
meu próprio corpo, adquire o sentido de organismo, toma-se possíveL ego próprio, mostrado nunla percepção constante de mim mesmo,
Ele adquire, em conseqüência, a significação de um organismo qu~ existe nesse momento, de maneira atual, com o conteúdo de seu aqui.
se encontra num outro "mundo", análogo ao meu mundo primordial. Existe, portanto, um ego apre sentado como outro. A coexistência
O estilo geral dessa percepção, como o de toda percepção pro- incompatível na esfera primordial toma-se compatível pelo seguinte
veniente da associação, deve ser descrito da seguinte maneira: quan- fato: meu ego primordial, que constitui para ele outros egos. llledi ,1lltc
do os dados, fundamentos da percepção, se superpõem mutuamente uma percepção apresentativa que, de acordo com seu sentido espe-
na associação, uma OLltra de grau superior ocorre. Se um desses cífico, não existe e não admite jamais sua confirmação por uma apre-
dados é um dos modos de aparecer de um objeto intencional- índi- sentação.
ce despertado pela associação de um sistema de fenômenos múlti- Compreende-se facilmente também a maneira pela qual uma
plos, nos quais ele mesmo poderia se apresentar - , o outro dado é apresentação desse gênero fornece, na progressão constante da as-
. então " completado" de maneira a tornar-se fenômeno de alguma coisa sociação, dados apresentativos sempre novos; e como ela 110S traz
e, sobretudo, fenômeno de um objeto análogo. Isso não significa que cert.o conhecimento dos conteúdos variáveis do alter ego; e, por ou-
a unidade e a multiplicidade transferidas a esse segundo dado apenas tro lado, compreende-se como verificação afirmadora dessas apre-
o "completem" por intermédio dos modos de aparecer característi- sentações é possível graças, principalmente, à sua ligação com apre-
cos da primeira; muito pelo contrário, o objeto apreendido por analo- sentações constantes. A apreensão da estrutura orgiinica do corpo
gia ou o sistema dos fenômenos do qual ele é o indicador élJusta-se do outro e de seu comportamento específico forma o primeiro con-
precisamente, de forma análoga; aos fenômeno s análogos qut: evo- teúdo determinado; é a apreensão dos membros como mãos qlle to-
caram todo esse sistema. Toda transferência proveniente do elllpa- Ci11l1 ou que pressionam , como pernas que andam, como llll h h que
relhamento associativo é ao mesmo tempo uma fusão e, na medida vêem, etc. O eu é, de início, determinado somente como agindo no
em que não há incompatibilidade entre os dados. ass imilação e adap- corpo. E ele se afirma de Illaneira contínua na medida em que todo o
tação mútuas de seus s ignificados. desenvolvimento dos dados da Illinha sensibilidade prim ordi ;d c direta
Se retornamos agora ao nosso caso da percepção do altcr ego, con'espondem aos proces sos que. em seus tipos, me são familiares.
temo s como certo que aquilo que foi apresentado, no mcu ambiente graças à minha própria atividade no meu corpo. Chegamos em segui-
primordial, pelo corpo que está ali, não pertence à 111 inha esfera psí- da à endopatia de conteúdos determinados da esfera psíqllica supe-
quica, nem, em geral, à esfera que me é própria. Pelo meu corpo rior. Eles nos são sugeridos. indicados, pelo corpo e pt:lo comp0J1a-
orgânico, sou aqui o centro de um "mundo" primordial, orientado em mento do organismo no mundo exterior, por exemplo, comportamento
torno de mim. Dessa forma, o conjunto de minha esfera de vincula- exterior de quem está tomado pela cólera, de quem está feliz, etc.
ção primordial possui, como mônada, a estrutura do aqui e não o Eles me são compreensíveis a partir do meu próprio comportamento
1:14 /v[cdiraçõe5 Cartesianas Quin ta .I\1cdiraçiio 135

em circunstâncias análogas. Os processos psíquicos superiores - determinante do meu ser próprio, é inseparável de mim mesmo. Se
por mais múltiplos e conhecidos que sejam - têm de novo seu estilo esse corpo tem lima função apresentativa, tenho consciência do ou-
necessário de coesão e de desenvolvimento, podendo ser compreen- tro ao mesmo tempo que desse corpo; tenho consciência do outro,
síveis para mim por seus laços associativos com o meu próprio estilo inicialmente, na ligação com se u corpo, que se reveja a ele em um
de vida que me são empiricamente familiar no seu tipo aproximativo. "aqui absoluto" . Mas, então, como posso falar em termos gerais da
Cada compreensão do outro que realizo tem como efeito criar novas identidade de um corpo que, n;) minha esfera primordial, aparece para
associações e abrir novas possibilidades de compreensão, e também mim !la modo do ali e que aparece para ele, na sua esfera, no modo
inversamente, posto que toda associação em par é recíproca, a com- do aqui'; Essas duas esferas primordiais, a minha que, para mim-
preensão realizada desvela nossa vida psíquica própria , na sua seme- ego - é a esfera original, e a dele que , para mim, é apresentada, não
lhança e na sua diversidade e, por meio de novas apreensões distin- estão separadas por um abismo intran spo nível para mim? Até porque
tas, torna-a capaz de formar associações novas. atravessar esse abismo significaria ter do outro uma experiência or.i-
ginal c. não ilpresentativa. Se nos ativermos à experiência do outro~
da forma como ela de fato se efetua e se realiza, vamos constatar
que o corpo é imediatamente mostraclo na percepção sensível como
55. A com.unidade das 711ônadas e a primeira forma da corpo (vivo) do outro, não como si mples indicador da sua presença;
objetividade: a natuJl"eza intenubjetiva essc fato não é um enigma?
Como se identificam o corpo da minha esfera original e o corpo
Mais importante ainda é a elucidação da comunidade que se - tota Imente separado - constitu ído no outro ego, o qual, no entan-
forma em graus diferentes e que, graças à experiência do outro, logo to, uma vez constituídos apres enlam-se como identicamente o m es-
se estabelece entre mim - ego psicofísico primordial que age no mo? Como essa iclentificaçi1 0 é, em geral, possível? Todav!a, o enig-
meu corpo primordial e por meio dele - e o "outro", mostrado na ma só ocorre se as duas esferas de originalicladejá são distintas. Ora,
experiência da apresentação; ou , se considerarmos a coisa de manei- essa distinção pressupõe quc a experiência do outro já completou sua
ra mais concreta e radical , da comunidade que se estabelece entre ob ra. Posto que aqui não se trata de forma alguma de uma gê nese
mim e o ego monádico do outro. O que se constitui em primeiro lugar tcmporal des se gênero de experiência, a partir de uma experiência de
sob a forma de comun idade e se rve de fundamento a todas as outras s i mesmo qlle a teria precedido no tempo_ somente lima explicitação
comunidades intersubjetivas é o ser comum da "natuITza··. aí incluído C:\;lta da intcnc ionalidade. efetivamente incluída na experiência do
o do "corpo" e o do " eu psicofísico" do outro, emparclhado com o outro_ que !lOS fi·lIia ve r a Jllotivac;ilo int e rna dessa experiência. pode-
meu próprio eu psicofísico. ri,l vir em nosso auxíl io.
Posto que a subjetividade estranha, revestida do sentido e do f\ apresentação. COIll O tal. press up õe - como já afirmamos-
valor de uma "ou tra " subjetividade que tem um ser esscncialmcnte Ulll núcleo de apr esentações Ela é uma reapresentação ligada por

próprio, provém da apresc ntação que se efetua no interior dos limites élssociZlç ões Q apresenl<lçiío ou pcrcepçiío propriamcnt e dita: mas
fechados do llleu ser próprio, estaríamos inclinad os. inicialmcnte, a ela é uma re ,lpresentação que_ fundida com a percepção, cxeree a
ver nisso um probl e ma obscuro. De fato, como a comunidade realiza- função específica de co-aprescntação. Dito de outra forma. lima e
se a não se r sob essa primeira forma de um lllunclo comum? O orga- outra estão unidas d e tal m,ln e ira qu e têm uma função COIllUIll. a de
nism o es tranho, ao aparecer na minha esfera primordial, é, de início, uma pcrcepção única que, aklll ele apresentar, no que se refere ao
um corpo no interior da minha natureza (unidade sintética que me é seu objeto no seu conjunto. mo stra a consciência de que ele está
quase primordial) e , em conseqüência, na qualidade de elemento presente em pessoa. No objeto mostrado "em pessoa" por lima per-
136 NIeditações Cartesianas Ouinta J\1editação 137
••
cepção (apresentação apresentativa) desse tipo , é prec iso distinguir, lugar desse outro organismo corporal". O corpo é o mesmo; ele me
••
do ponto de vista noemático, o que é realmente percebido nela; e o
adicional que não é, mas que coexiste para e na percepção . Dessa
forma , cada percepção desse tipo se transcende, coloca como "pre-
foi mostrad o como ali, a ele como aqui, como "corpo central", e o
conjunto da minha natureza é o m es mo que o do outro. A natureza é •
sente em pessoa" mais do que ela " realmente" faz presente. Não
importa qual seja a percepção exterior; por exemplo, il percepção de
constituída na minha esfera primordial como unidade idêntica dos meus
múltipl os modos de apresentação, idêntica nas suas orientaçõe s va-
riáveis em relação ao meu corpo, que é o "ponto zero", o aqui abso-
••
uma casa (a fach a da, a parte de trás) pertence a es se gr upo . Mas, no
fundo, toda percepção, toda evidência em geral, é descrita dessa for-
ma na sua estru!ura mais geral , contanto que a palavra "apresenta-
ção" seja entendida num sentido suficientemente amplo.
luto; a natureza é constituída como identidade das multipli c idades ain-
da mais ricas que , sob a forma de fenômeno s variáveis dos diferentes
"sentidos", sob a forma de " perspectivas" va riadas, pertencem a cada
••
orientação particular aqui e ali, e pertencem ao meu corpo ligado ao
Se aplicam o s essa s generalidades ao caso da ex periência do
outro, vemos, também aí, que o el e mento presente deve, desde o
início, pertencer à unidade do objeto ap resentado. De o utra forma. a
aqui absoluto de maneira t <?da especial. Todas essas estruturas me
são mostradas originalmente como "vinculação", como aquilo que ••
••
me é diretamente acessível por uma explicitação original de mim
coisa não se passa como se O corpo da minha esfera prim o rdial, cor- mesmo. Na apresentação do outro, esses sistemas sintéticos que cons-
po que é um indicador do outro eu (e d essa forma uma esfera primor- titu e m os modos de aparecer são os mesmos; con seqüent emente,


dial totalmente outra, um outro ego concreto) pod e ria apresentar a todas as percepções possíveis de se us conteúdos noemáticos tam-
existência e a coexistência desse outro eu, sem conferir a esse corpo bém o são ; no entanto, as percepções efetivas e as "maneiras de
primordial um sentido de um corpo que pertence, ta mbém ele, ao mostrar o objeto" que realizam e, em parte também, os objetos que aí
outro ego, e, em co nseqü ência, sem que es se receba - de acordo
com todo esse gên e ro de atividade associativo-perceptiva - o senti-
do de um organismo estranho .
são efetivamente percebidos não são os mesmos, mas prec isamente
aqueles que se ter~a ali. O m esmo ocorre com tudo "aquilo que me
pertence" e com tudo aquilo que me é' estranho, e isso mesmo quan-
••
As coisas não acontecem, portanto, co mo se o corpo que, na
minha esfera primordial , está ali permanecesse separado do orga nis-
mo corporal do outro, como espécie de indi ca dor d o se u ollulog on
d o a ex plicitação original não se desenvolve como percepção . Não
tenho d e início uma seg und a esfera original apresentada, com uma ••
(colocando emjDgo uma mot ivação evidentemente inimilg in i1vel), co mo
se a minh a natureza prim ordial e a natureza ;lpre se nwda elos outros.
segunda natureza e um segundo organi smo corporal (o organismo do
o utro) nessa natureza , para m e perguntar em seguida como chegar a
conc eber as duas e sferas como modos ele apresentação ela mesma
••
e, e m conseqiiência, o meu ego co ncreto e o d os ou tms permaneces-
sem separados no ca mpo da associação e da apresentação. Muito
pelo contrári o, es se corpo ali, pertencente à minha ntltureza primor-
natureza objetiva. Mas, pelo próprio fato da apres e ntaçã u c d e sua
unidade necessá ria com a apresent ação que a acompanha (graças à
qu;tl somente o outro e se u ego concreto podem, em geral. exis tir

dial , apresenta imediatam e nte, de qualquer forma. o o utro eu: e isso,
graças ao empare lhamento assoc iativo entre csse corpo. ele um lado.
para mim), a identidade da minha natureza primordial e daquel a re-
presentad a pelos outros é necessariamente estabelecida. Temos. por- ••
-I
e mell orga ni smo corporal, co m o eu ps icofís ic o que é se u mestre , de tanto, o dire ito de falar aqui da percepção do outro e, em seguida, da

'.•
outro. Ele apresenta antes de tudo a atividade im ed iata desse eu nes- percepção do munclo objetivo , da percepç ão do fato ele que o outro
se corpo (a Ii) e sua ação (med iata). por in terlll écl io desse corpo. so- " possa ser" a mesma coisa que eu, etc., ainda que essa perc e pção se
bre a natureza que cle percebe, so bre a mcs ma natureza à qual ele desen vo lva ex c lu s ivamente no interior da minha esfera de vincula-
(ali) pertence e que é também a minha natureza primordial. É a mes- ção. M as isso não impede, precisamente, a sua intencional idade de
ma natureza, mas mostrada no modo do "como se e u estivesse no transcender àquilo que me é próprio e, em conseqüência, não impede

••
••
!"S ,1] cdilações Cn rtesimlf/S Qy< ill ta A1fditação 139

meu ego de constituir em si mesmo um outro e de constituí-lo como presentação possíveis do outro. Isso se reprodu z, mutalis ll7ulandis,
ex istente . O que vejo, verdadeiramente, não é um s igno Oll um sim- para as objetividades de graus superiores, constituídos no mundo ob-
ples (/nolugo ll , não é lima image m - seja qual for o sentido - ; é o jetivo concreto, tal como ele está sempre presente para nós como
outro e aquilo que é apreendido sobre ele na originalidade verdadeira; mundo dos homens e da cultura.
esse corpo - ai i (e mesmo somente uma de suas face s superficiais) Ora, o sentido da percepção que consegue atingir o outro im-
- é o próprio corpo do outro; ele somente é visto do lugar onde me plica nece ssariamente uma experiência imediata da identidade en-
e ncontro e desse lado ; é, co nforme o sentido constitutivo da percep- tre o mundo dos outros, mundo que pertence a seus sistemas de
ção do outro, um organismo co rporal que pertence a lima alma que, fenômenos, e o mundo do meu sistema de fenômenos. E isso impli-
na essência, é inaccss ível diretamente, sendo os dois mostrados na ca, por sua vez, uma identidade entre os sistemas respectivos de
unidade da re a lidade ps icofísica. fenômenos. Mas, no entanto, sabemos bem que existem anomalias,
P or outro lado, à essência intencional de ss a percep'ção do outro que existem cegos, surdos, e~c.; os sistemas de fenômenos não são,
- que agora exi s te como eu mesmo, no interior do mund o, a pal1ir de portanto, de forma alguma idênticos, e camadas inteiras (ainda que
<lgo ra o bjetivo - pertence o fato de que, na qualidade de sujeito que não todas) podem diferir. No entanto, é preciso que a anom a lia cons-
percebe, posso encontrar es sa distinção entre a minha esfera primor- titua-se de início ela própria como tal, e ela só pode fc1.zê-lo com
dial e aquela purameIlte repre sen tada do outro, O fato de que posso base na normalidade que, em s i, a precede. Isso conduz a novos
seguir essas suas camad as do noema na sua especificidade e explicitar problemas de análise fenomenológica de grau superior da origem
as con exões das intencional idades associativas. O fenômeno da ex- constitutiva do mundo objetivo, ou seja, do mundo que existe para
periência: "a natureza objetiva " carrega, acima da nature za constitu- nós e que tira a sua existência da nossa própria sensibilidade. De
ída ele maneira primordial , uma segunda camada , s implesmente apre- outra forma não poderia haver para nós nem sentido nem existên-
sentada, proveniente da experiência do outro. Esta tem que ver cia . O mundo possui a existência graças à verificação conc o rdante
inicialmente com o org,lI1ismo corporal do outro, que é, por assim da constituiç ão perceptiva, uma vez formada, que se efetua na mar-
dizer, o objeto primeiro em si, da mesma form<l como o outro homem cha progressiva e coerente (e que implica "correções" con s tantes
é n<l o rd e m da con stituiç ão o homem primeiro em si. que re stabelecem a coerê ncia) da no ss a experiência viv a e por meio
Esses fen ô menos prim e iros da objetivid<lde já foram po r nós dela. A concordância mant é m-se ta mbém graças à modificaç ão'
es clarecid os : se sob reponh o , se anulo a ex peri ê ncia do outro, obtenho das percepções decorrente c!<l distinção entre a normalidade e as
a constillliçJo no interi o r da 1l1inh<l esfera prim o rdial na sua camada anomalias - sendo es tas cOJ))pree~didas com o modifícações in -
<lpresentativa nwis profu nda: se a isso acrescento essa experiência te ncionais daquela - , graças às novas unidad es co nstituíd,ls rlJ.
do o utro. tenh o UJll~l <ljxe se ntaç ão do me smo organi s mo. apre senta- variação des sas anomalias. Aos problemas da anormalidade per-
ção que , ao rec o brir a camada apre sentativa e entrilJ1d o em s íntese tence aquele da animalid ade e da classifica ção dos animais como
com ela, me mo stra es se organismo no modo como foi mostrado ao " inferiores e s uperiores". Do ponto de vista d <l constituição, o ho-
próprio o utro. mem repre senta, e m relaç ão aos animai s, o ca so normal ; ela mesm a
A partir dis so. todo objcto natural , do qual tenho e posso ter a forma que eu meSI11O, eu sou na ordem da con stituição a norma
experiênci<l na minha canwdil profunda. recebe, co mo se po de tàcil- primeira para todos os seres humanos. Os animais são essencial-
mente compreender. uma camacl<l apresentativa (que niio é de forma mente constituídos para mim como "variantes" anormais da minha
alguma percebida e.\.pl iciwll1ente). Isso forma uma unidade sintética humanidade, sem que isso l11e impeça de di stinguir novamcJ1le no
de identidade com a camada mostrada na originalidade primordial e reino animal o normal do anormal. Trata-se sempre de modifica-
constitui , assim, O objeto natural idêntico mostrado nos modos de re- ções intencionais que se revelam como tais na estrutura de seu
140 IH editações Cartesianas Q!<intaMeditação 141

sentido. Tudo isso exigiria explicitações fenomenológicas mais pro- lei essencial, uma síntese de identificação entra emjogo, e uma nova
fundas; uma exposição mais geral é suficiente, portanto, para o nosso se forma a cada repetição que na consciência de nossa liberdade
objetivo. podemos realizar: é a " mesma" proposição, a mesma formação arit-
Após esse esclarecimentos não há nada de enigmático em que mética; ela é de novo produzida ou, o que é a mesma coisa, de novo
eu possa constituir em mim um outro eu ou, para falar de maneira tomada evidente. A síntese estende-se, portanto, aqui (por intermé-
mais radical ainda, que eu possa constituir na minha mônada uma ou- dio das representações-lembranças) no interior da corrente das mi-
tra e, uma vez constituída, apreendê-Ia precisamente na qualidade de nhas experiências, mostrada sempre como já constituída, do lIleu pre-
outra; compreendemos também esse fato, inseparável do primeiro, de sente vivo nos momentos passados da minha vida, e estabelece assim
que eu possa identificar a natureza constituída por mim com aquela . uma ligação entre eles .
constituída por outro (ou, para falar com toda precisão necessária, Aqui, o problema transcendental, muito importante em si mes-
com uma nat\:lreza constituída em mim como constituída por outro). mo, dos objetos ideais propriamente ditos, encontra, aliás, sua solu-
Essa ide·ntificação sintética não apresenta mais mistério que ção; sua supratemporalidade revela-se como onitemporalidade,·
qualquer outra ; consequentemente, não mais que qualquer identifica- correlata a uma possibilidade de serem livremente produzidos e re-
ção que ocorre no interior da minha esfera original própria, graças à produzidos, em qualquer momento do tempo . Tudo isso - o mundo
qual a unidade do objeto pode, em geral , adquirir para mim um sentido objetivo uma vez constituído com seu tempo objetivo e se us homens
e uma existência por intermédio das representações. Tomemos os objetivos, sujeitos de pensamento possíveis - se aplica evidente-
exemplos seguintes muito instrutivos, e vamos empregá-los, ao mes- mente às formações ideais, objetivadas por sua vez, e à sua onitem-
mo tempo, para desenvolver a idéia de um elo constituído por inter- poralidade objetiva. Compreende-se também que elas se oponham
médio da representação. Como a minha própria experiência vivida da mesma forma às realidades objetivas, individualizadas no espaço
adql!ire, para mim, o sentido e o valor de ser, existir na sua forma e no tempo.
temporal e no seu conteúdo temporal idênticos? O original não é mais, Vamos voltar agora ao nosso caso da experiência do outro. Na
mas nessas representações repetidas, e por meio delas, retorno a sua estrutura complicada, ela estabelece uma conexão semelhante a
mim tendo a evidência "de poder sempre proceder ao acaso". Mas essa ligação por intermédiQ das representações. Estabelece urna co-
essas representações repetidas formam, evidentemente, elas mes- nexão entre a experiênc ia v iva e sem entraves nem interrupção que o
mas, uma suc essão e são separadas umas das outras. Isso não impe- ego concreto tem de si mes mo , ou seja, sua esfera primo rdial , e a
de que uma síntese identificadora as ligue, acompanhada de uma cons- esfera estranha representada nessa última. Ela estabelece essa liga-
ciência evidente do " mesmo", o que implica uma mesma forma ção por meio de uma síntese que identifica o organi s mo corporal do
temporal que não se repete, preenchida com o mesmo conteúdo. outro, mostrado de maneira primordial, e o mesmo orga ni s mo. mas
Portanto, o mes mo significa aqui , como aliás em toda parte, objeto apresentado segundo outro modo de aparecer. Dali ela se estende à
intencional idêntico de experiências distintas, imanente a elas, pois síntese da natureza idêntica , mostrada, ao mesmo tempo. ele maneira
somente a título de irreal (de não ingrediente) . primordial na origin81id8de da sensibilidade pura e n~ apresentação
Um outro caso, muito imponante em si mesmo. é o da constitui- verificada. Dessa fonl1a, fica definitiva e primitivamcnte fundada a
ção (no sentido estrito do termo) dos objetos ideais, como aqueles coexistência do meu eu (e do meu ego concreto, em geral) com o cu
ideais da lógica . Numa atividade viva do pensam ento -- uma ativida- do outro, da minha vida intencional e da dele, elas Illinhas rcalidades e
de com várias articulações - , constituo um teorema, uma figura das dele; em suma, é a criação de uma forma temporal comum, e
geométrica, uma formação aritmética. Mais uma vez repito esse ato qualquer tempo primordial adquire espontaneamente a s ignificação
acompanhado da lembrança precedente. No mesmo instante, por uma de um modo particular da aparição original e subjetiva do tempo ob-

••
I
142 Meditações Cartesianas .Ju i 7lt ll JHrd i tnfiio J43

jetivo. Percebe-se aqui que a comunidade temporal das mônada s, Depoi s qL1e o primeiro grau da comunidade e , o que é quase
mútua e reciprocamente unidas na sua própria constituição, é equivalente , o da con stitui.ção do mundo objetivos; a pal1ir do mundo
inseparável , pois está ligada à constituição de um mundo e c1e um pri mord ia I, cncontrZ"l 111 -se sufic ientemente e I ucidados, él anál ise dos
tempo cósmico s. graus s uperiores oferece relativamente menos dificuldades. Ainda
que em vista de s ua explicitação completa seja necessário efetuar
pesquisas exten sas , conce ntrando-se em conjuntos de problemas bem
diferenciado s, podemo s nos contentar aqui em traçar suas linhas bá-
56. A constituição dosgraus superiores da s icas, facilmente perceptívcis.
comunidade interrnonádiea Partindo de mim, mônada primitiva na ordem da constituição,
chego às mônadas que são "outros" para mim, ou aos outros na qua-
lidade de sujeitos psicofísicos. 1sso impli cél que chego aos "outros"
Dessa forma, elucidamos o primeiro e mais baixo grau de co-
não pela sua oposição a mim por meio de seus corpos, e se relacio-
munidade que se' estabelece e se efetua entre mim, mônada primor-
dial para mim mesmo, e a mônada constituída em mim como estra- nando, graças ao emparelhamento associativo e ao fato de eles só
nha, conseqüentemente como existente para ela me sma, mas que só poderem ser mostrado s a mim numa cel1a "orientação", a meu scr
pode justificar sua existência, para mim, de Jl1:lneira puramente psicofísico (ser que em geral- mesmo no " mundo comum" cio grau
apresentativa. Admitir que é em mim que os outros se con stituem que estudamos - é "c orpo central"). Muito pelo contrário, o se ntido
como outros é O único meio de compreender que possam ter para de uma co munidad c dos homens, o sentido da palavra "homem", que,
mim o sentido e o valor de existências, e de existências determina- já como indivíduo, é essencialmente membro de uma sociedade (o
das. Se adquirem esse se ntido e esse valor nas fontes de uma verifi- que se estende também às soci edades animais), implica uma existên-
cação constante, eles existem, e é preciso que eu o afirme, ma s so- cia recíproca de um P;ll<1 o outro. Isso origina urna assimilação
mente com o sentido com o qual são constituídos: são mônada s que objetivante, que coloca meu ser e o de todo s os outros no mes~no
existe m para elas mesmas da mesma maneira que existo para mim. plano. Eu e cada o utro somos, portanto, homens entre outros ho-
Mas então elas existem também em comunidade, conseqüentemente mens. Se me introduzo 110 o utro pelo pensamento, e se penetro mais
(repito, enfati z ando-a , a expressão e mpregad a acima) em ligação adiante nos hori zo ntes daquilo que lhe pel1ence, logo me defronto
comigo, ego concreto, mônada. Elas estão, 110 cntanto , realmente se- com o seguinte fato: d;l J11CSl11:1 forma que seu organismo corporal
paradas da minha mônada, na mcdida em quc nenhuma ligação real encontra-se no meti campo de percepção,' as s im também o meu se
leva elas suas experiências até a s minha s , daquilo que lhes pertence e ncontra no C<lmpo dele e. geréllmente, ele me :1preende de mZlneira
úquilo qL1e me pertcnce. A essa sep:lraç80 correspo nele, na "rcéllida- igualmente imedi;lta como "'outro" pZlr;l ele, :1ssim corno eu O apn:cn-
de", no " mundo", entre Illeu ser psicofí s ico c o ser psicofísico do outro, do como "o utro" p;lra mim Vejo iguZ"llmente que a multiplicidade cios
Ul11él sepélração que se apresenta como espélciéll por causa do caráter outros se apreende reciprocamente como "outros", e tZlmbém que,
cspacial do s org::lIl iSl110S objetivos. Mas, por outro lado, essa comuni- em conseqüênciél. posso ,lp reendcr C<1(\Zl um dos "outros" niio so-
dade original n:io é um n'lda. Se. "rcalmente". toda mônada é uma mente como "'outro", nw s como se re l<1cionando :1 todos ;lqueles que
unidade absolutamcntc circunscrita e fechadél, no entélnto él penetra-
são " outro s" para ele e. port :lnto. ao mcsmo tempo. imediatZ"lmcntc a
çJo irrea l, penetr:lç30 intencional elo outro na J11 inha esfera primor-
mim mcsmo. Fica claro U1Il1bém que os homens só podem ser :1pre-
diéll nã o é irreéll no sentido do sonho ou da LlntZ"lsi;1. É o ser que está
endidos ao encontrarem (na rcalidZ"lde ou potenciZ"llmente) outro s ho-
em co munhiio intencional co m o ser. I~ uma lig<l ç:io que. cm princípio,
é sui generis, um:1 comunhão efetivél, est:1 que e precisamente a mens em torno deles. A natul"C1<1 infinita e ilimitaúa torna-se então,
condição transcendental da existência de um mundo, de um mundo ela própria, lima natureza que abrZlnge lima multiplicidade ilimitada
de homens (e, mais geréllmente, de animalia), distribuídos, não se
dos homen s e das coisas.
- ,

144 Meditações Cartesianas Quinta Medx·tação 145


••
sabe como, no espaço infinito, como sujeitos de uma intercomunhão dessa objetivação são essencialmente necessárias para que "outros"
••
possível.
A essa comun idade corresponde, bem entend ido, no concreto
possam existir para a manada.
Disso decorre que qualquer análise e qualquer teoria fenome- ••
••
transcendental, uma outra ilimitada de manadas, que designamos como nológica transcendental - aí incluída a da constituição transcendental
intersubjetividade. É desnecessário dizer que ela é constituída como do mundo objetivo, que acabamos de esboçar em linhas gerais -
existente puramente em mim mesmo, ego que medita, constituída como pode se r desenvolvida no âmbito natural no abandono da atitude
existente para mim, partindo das fontes da minh a intencional idade c,
no entanto, como ser que, por meio de todas as modificações de suas
formas de constituição, se vê como idêntica e destacando-se apenas
tran sc endental. Se nos colocamos no âmbito da ingenuidade
transcendental, chegamos a uma teoria psicológica. A uma psicolo-
gia pura, ou seja, a uma psicologia que explicita exclusivamente a
•'.
pelos seus modos subjetivos de aparecer e na qualidade de portadora
em si mesma desse mesmo mundo objetivo. Ele pertence de maneira
manifesta à essência do mundo transcendentalmente constituído em
essência intencional própria da alma humana, do eu do homem con-
creto, corresponde, tanto na sua. parte empírica quanto na sua parte ••

eidética, urna fenomenologia trao.scendental, e vice-versa. Mas isso
mim (e, ao mesmo tempo, à essência do mundo constituído em qual-
é algo que é preciso elucidar por meio de análises transcendentais.
quer comunidade, possível e imaginável, das manadas), quer esse
mundo seja ao mesmo tempo de homens, quer ele seja constituído
com mais ou menos perfeição, na alma de cada homem em particu- ••
lar, nas suas experiências intencionais , nos seus sistemas potenciais
de intencional idade, os quais, na qualidade de vida psíquica, já são
constituídos, por seu lado, como existentes no mundo. A constituição
do mundo objetivo na alma deve ser entendida, por ex emplo, como
58. Análise intencional das comunidades intersubjetivas
fupeyioyes: encadeamento dos pyoblemas. O ((eu)) e seu meio •
minha experiência real e possível do mundo, minha experiência, de A constituição da l:tumanidade ou da comunidade que pertence
um eu que apreende a si próprio como homem. Essa experiência é a sua essência completa ainda não foi completada pelo que foi dito
mais ou menos perfeita; ela tem sempre seus hori zon te s abertos e até aqui. Mas, partindo da comunidade, no se ntido estabelecido por
indeterminados. Nesses horizontes, cada homem é, para cada ou- último, compreende-se facilmente a possibilidade de atos do eu que,
tro, um ser físico, psicofísico e psíquico, que forma um mundo aber- por intermédio da experiência apresentativa do outro, penetram no
to e infinito ao qual s~ pode chegar, ma s no qual gera lmente nilo se outro eu; compreende-se a possibi Iidade dos atos do eu - no sentido
penetra. de pe rsonalidade - que têm o caráte r de atos que vão "de mim para
você'·, de atos soc iai s, somente por meio dos quais pode-se estabele-
cer qu a lquer comunicação entre pesso as humanas. É um problema
57 Esclarecimento sobre o paralelisnzo enl1"C a cxplicitaçuo importante o de estudar com cuidado es ses atos em suas diferentes
da vida psz'quica interna e a explicitação formas e, partindo disso, tornar compreensível , do ponto de vista
transcendental, a essência de toda socialiclade.
egolágica e transcendental Com a comunidade propriam e nte dita, com a comunidade so-
cial, constituem-se, no interior do mundo objetivo. na qualidade de
Partindo-se disso, não é difícil elucidar o paralelismo necessá rio objetividades espirituais slI i generis os diferentes tipo s de cOJ11unida-
entre a explicitação da vida psíquica interna e a explicitação cgológica de social. Essas comunidades constituem-se na s suas gradações pos-
e transcendental, ou o fato de que a alma pura é, cOl11ojá dissemos, a síveis, notadamente os tipos bem pal1iculares, que possuem o caráter
manada objetivada por ela e nela mesma. As diferentes camadas de perso nalidades de ordem superior.
] .l- () 11- f u{itrrçõn Cm·tniarws Ouinta Meditação 147

E m seguida, seria preciso considerar um problema , inseparável preensão. É preciso, partindo daquilo que é geralmente compreensí-
d a qu e les que acabamos de tratar e que lhes é d e alguma forma vel, abrir um acesso à compreensão de camadas sempre mais vastas
c o rre la to, o problema da constituição para cada hom e m e para cada no presente, depois mergulhar nas do passado, que, por sua vez faci-
comunidade humana de um meio especificamente hum a no e, mais litam o acesso ao presente.
precisa mente, de um mundo da cultura e de sua objetividade própria, A constituição de tod os esses gêneros de "mundos", a começar
a ind a que limitada. Essa objetividade é limitada, ainda que para mim e pela corrente própri a da consciência e chegando até o mundo objeti-
pa ra qu a lqu e r outro, o mundo só seja mostrado, c o ncre ta mente, como vo em seus diferente s graus de objetivação, está submetida às leis da
mundo da cultura, sendo, por seu sentido, aces s ív e l a cada um . Mas constituição "orientada", constituição que, em diferentes graus, ma s
e ssa acess ibilidade justamente não é absoluta, e isso po r razões es- num sentido muito amplo , pre ssupõe um constituído "primordial" e
senc iais de sua constituição que uma explicita ção mais precisa de outro "secundário". O que é constituído de maneira primordial entra
seu se ntido facilmente traz à luz. Ela s e di stin g ue manife stam e nte na constituição d o mundo do grau superior, de maneira a ser o ele-
d essa fo rma da acessibilidade incondicion ada, qu e perte nc e essencial- mento central de seus mod os de apresentação orientados. O mundo
mente ao se ntido constitutivo da natureza, do corpo e do homem " secundário" é nece ssa ri amente mostrado sob a forma de um hori-
psic ofís icos É certo que entra ainda na esfera da universalidade zonte, ou seja, é acessível a partir do mundo primordial em urna série
incondicionada (como correlato da constituição do mundo segundo ordenada de atos e experiências. O mes m o v ale para o primeiro " mun-
s ua forma essencial) o fato de que, a príorí, cada um vive na mesma do", aquele imanente que chamamos de corrente da consciência. Ele
natureza comum a todos que , g raças à comunidade essencial de s ua é mo strado como um sistema de elementos, exteriores uns aos ou-
vida com a dos outros, alguém tran s forma , por sua ação individual e tros, orientados e m rel ação ao presente vivo. Esse último constitui-se
comum com o utros, em um mundo de cultura - por mais primitiva de maneira primordi a l, e é partir dele que se torna acessível tudo
que seja e la - , revestido de valor para o homem . Mas is so não ex- aquilo que se encontra fo ra dele no tempo imanente. Nosso corpo,
clui de forma alguma - nem a príori, nem de fat o - ' a idéi a de que por sua vez, no interior da es fe ra primordial- no sentido específico
os homens d e um mundo uno e idêntico vivam em comunidade (de que atribuímos a esse termo - , é o elemento central da "natureza"
c ultura ) muito distante, ou mesmo sem nenhum a li gação entre e les, e como "mundo", que só se constitui na atividade e por meio dela. Da
de que e les constituem, dessa forma, culturas - m e ios d e vida con- mesma forma meu organi s mo psicofísico é primordial em relação à
c re ta -- difere nt es, nos quais vivem , ativa ou pass iv a m e nt e, s ocieda- constituição do Inundo objetivo d a exterior.idade e desempenha o pa-
de s relativa o u absolutamente separadas. Todo h o m e m compreende, peI de elemento c e ntral para seus " modos de apresentação" orienta-
de início , o e sse n c ial de seu mundo ambiente concreto, o nLlcl eo e os dos. Se o "mundo" primordial , no sentido privilegiado que atribuímos
h orizon te s a inda ocultos da sua cultura. Ele compree nd e sua cultura, a esse tenno, não é, e le pró pri o, O centro do mundo objetivo, é que
precisa m en te como membro da sociedade que a formou histo rica - este se objetiva de tnl maneira que não cria uma nova "ex terioridade".
mente . Uma comp re ensão mais profunda, que desv e la o horizon te do Em contrapartida, a multi plicid ade do mundo " do s outros" é mostrada
passad o. fator determinante do próprio presente, é. em princípio , pos- como "orientada" em relação ao m e u, porque ela se constitui ao mes-
síve l para qu a lqu e r membro dessa sociedade. Ele pode ch ega r a ela mo tempo que o mu ndo o bjetivo comum que lhe é imanente.
c o m ceJ1a im e diação que lhe é exclusiva, e que é in acess ív e l a um Voltemos agora ao Inundo da cultura : como ll1undo de culturas
ho m em de o utra comunidade. que entra em relação com e s ta sem diversas , também e le é mostrado como " orientado" em relação a um
pert ence r a ela. Es te de início compreende os homen s do mundo " ponto zero" 01I a uma " personalidade " . Somos e u e minha cultura
estra nh o em gera l, como homens de "certo" mundo de cultura. A que formamo s aqui a esfera primordial em relação a qualquer cultura
partir diss o , d evem-se criar, passo a passo, novos meios de com- "estranha" . Essa últim a é acess íve l a mim e àqueles que formam
148 i",,1editações Cartesianas Quín ta Medítaçâ<J 149

comigo uma comunidade imediata, por uma espécie de "experiência Devemos nos contentar de ter feito alusão a esses problemas
do outro", espécie de endopatia em uma cultura estranha. E esse tipo de grau superior, caracterizando-os como constitutivos, e de ter as-
de endopatia deve, também, ser estudado na sua intencional idade. sim tomado compreensível o fato de que a progressão sistemática da
Devemos renunciar a uma investigação mais precisa da cama- explicitação fenomenológica transcendental do ego apodíctico che-
da que confere ao mundo dos homens e da cultura, como tais, seu gou a descobrir o sentido transcendental do mundo em toda a plenitu-
sentido específico e que os reveste de predicados especificamente de concreta, na qual ele é o mundo de nossa vida para todos. Isso tem
"espirituais". As explicitações constitutivas que acabamos de efetuar que ver também com todos os elementos particulares do mundo am-
fizeram-nos ver o encadeamento dos motivos intencionais por meio biente, sob os quais ele se manifesta para nós segundo a educação e
dos quais - e nos quais - se constitui a camada coerente funda- o desenvolvimento pessoais de cada um, conforme ele pertença a
mentaI da totalidade do mundo concreto que nos resta quando faze- esta ou àquela nação, a este ou àquele outro círculo de cultura. Exis-
mos abstração de todos os predicados do "espírito objetivo". Conser- tem em tudo isso leis essenciais ou um estilo essencial, cuja raiz se
vamos a totalidade da I1~tureza, constituída em si mesma já como encontra no ego transcendental, de início, e na intersubjetividade
unidade concreta e, nessa natureza, os organismos humanos e ani- transcendental que o ego descobre em si, em seguida conseqüente-
mais; mas não conservamos a vida psíquica na sua plenitude concre- mente nas estruturas essenciais da motivação e da constituição
ta. pois o ser humano, como tal, relaciona-se pela consciência com transcendentais. Se chegássemos a elucidá-Ias, esse estilo apriorístico
meio prático, a partir de agora revestido de predicados que o tornam teria encontrado dessa forma um explicitação racional de dignidade
importante para o homem, o que pressupõe a constituição psicológica superior, a de uma inteligibilidade última, de uma inteligibilidade
desses pred icados. transcendental.
Não há necessidade de se provar que cada predicado desse
gênero seja atribuído ao mundo em virtude de uma gênese temporal,
que tem sua fO'!te no "agir" e no "padecer" do homem. A origem 59. A explicitação ontológica e seu lugar no conjunto da
dos predicados desse gênero em cada subjetividade particular e a
origem de seu valor intersubjetivo que permanece inerente ao mun- fenomenologia constitutiva transcendental
do da comunidade de vida pressupõem, portanto, que uma comuni-
dade humana existe, como ocorre com cada homem, em particular, Graças aos conjulltos coerentes de análises efetuadas e, em
num ambiente concreto, e que se relaciona a esse mundo ambiente parte, à antecipação que as acompanha dos problemas novos e da
na sua atividade e passividade. Com a transformação constante do ordem na qual eles se encadeiam, chegamos a intuições filosóficas
mundo da vida humana. os próprios homens, entendidos como per- fundamentais. Partindo do mundo mostrado como existente na expe- .
sonalidades, também se modificam claramente, na medida em que, riência - e na atitude eidética - da idéia de um mundo de experiên-
cOITelativamente à transformação do mundo, devem adotar habilus cia, em geral, mostrado como existente, efetuamos a redução
próprios sempre novos. Aqui se percebe a grande importância dos transcendental, ou seja, voltamos ao ego transcendental, que constihli
problemas da constituição estática e genética, essa última vista como nele e no fato de que ele nos é mostrado e presente como "acabado",
problema parcial da enigmática gênese universal. No que se refere C0l110 já constituído, e todos os modos posteriores de apresentação.
à personalidade, por exemplo, não se trata somente de explicitar a Depois, graças a uma modificação eidética de nós mesmos, chega-
constituição estática da unidade do caráter pessoal, por oposição à mos ao ego transcendental em geral.
l1lultiplicidade dos hobilUS, criados e novamente destruidos, trata-se Nós o concebemos como um ego que tem em si uma experiên-
também de resolver o problema genético, que remete ao enigma do cia do mundo e que ajustifica por sua progressão concordante. Ana-
caráter "inato". lisando a essência de uma semelhante constituição e suas escalas

••

ISO Meditações Cartesianas
Quinta i\1edltarão 151

egológicas, tomamos manifesto um a priori totalmente novo, o a tempo eidética , tinha conduzido a ensaios de uma nova o ntologia, e s-
priori da constituição. Aprendemos a distinguir, de um lado, a cons- sencialmente diferent e daquela do século XVlll, que operava de
tituição do ego em si mesmo, para si mesmo e no seu ser "primordial" maneira puram ente lóg ica . A fenomenologia a conduziu - o que dá
e próprio, e, de outro, a constituição das diferentes escalas de tudo o no mesmo - a se tentar construir, bebendo diretamente nas fontes
que é estranho a partir das fontes do seu ser próprio. Daí a unidade da intuição concreta, das ciências apriorísticas (a gramática pura, a
universal do conjunto da constituição que se efetua no meu ego se-
lógica pura, o direito puro, a ciência eidética do mundo intuitivamente
gundo suas formas essenciais. Seu correlato é o mundo objetivo que
aprendido, etc.). e LIma o ntologia geral do mundo objetivo que envol-
existe para mim e para qualquer ego; em geral, mundo ao mesmO
ve todos eles.
tempo já presente e que se constitui constante e continuamente em
Desse ponto de vista nada se opõe a que se comece, de manei-
diferentes conjuntos si stemáticos e ordenados de atos significantes
ra inteiramente concreta, pelo mundo ambiente de nossa vida e pelo
enquanto seu sentido imanente; tudo isso seguindo uma forma estru-
próprio homem, considerando-se que ele está ess encialmente em re-
turai apriorística. E essa con stituição apresenta, ela mesma, um a
lação com esse mundo. Nada se opõe a que se pesquise de maneira
priori. Essa explicitação, a mais radical e a mais conseqüente possí-
puramente intuitiva o conteúdo apriori, muito rico - e que nunca se
vel daquilo que implicam as intenções e os motivos do " meu" ego-
elaborou--, de um tal mundo ambiente, a que se parta para explicitar
e suas modificações eidéticas - , mostra que a estrutura geral e
sistematicamente as estruturas essenciais do ser humano e as cama-
empírica do mundo objetivo mostrado - natureza pura, simples
da s do mundo que se revelam a ele como seu s correlatos. Mas os
animalidade, humanidade, comunidades de diferentes graus e dife-
resultados dessas pesquisas, ao apres entar um sistema de a priori,
rentes culturas - é, em grande medida, e pode ser numa medida
não se tomam, de acordo com o que dissemos acima, um a priori
maior ainda do que podemos divisar, uma necessidade essencial. Daí
filosoficamente inte ligível, e só estão relacionados às últimas fontes
essa conseqüência necessária: o problema de uma ontologia
da inteligibilidade quando os problemas constitutivos são entendidos
apriorística do mundo real - que nada mais é que a elucidação do a
como aquel es de plano es pecificamente filosófico e quando o domí-:
priori de sua estrutura universal- é, no entanto, um problema uni-
nio natural dos conhecimentos é abandonado em favor do domínio
lateral e, no sentido mais profundo do temlO, não é um problema
transcendental.
filo sófico. Porqu e um a priori ontológico desse gênero (como o da
O que implica é que tudo que procede da atitude natural, tudo
natureza, o da animalidade, Oda comunidade e o da cultura) atribui
que é simplesmente mostr<ldo e presente seja reconstruído com uma
bem uma inteligibilidade relativa ao fato ô ntico do mundo empírico
originalidade nova, e não somente interpretado como dado útil. Em
nessas " contingências", a da conformidade necessária de sua es-
trutura a le is essenciais, mas ele não lhe atribui uma inteligibilidade geral, o fato que um procedimento que se base ia na intuição eidética
possa ser nomeado fenomenologicamente e aspire a uma s ignifica-
filosófica, a transcendental. A filosofia exige uma explicitação que
trata das necessidades essenciais últimas e mais concretas. Essas ção filosófica só pode justificar-se porque toda intuição verdadeira
são as Içis essenciais que d eterminam a maneira pela qual o mundo tem seu lugar num conjunto coerente da constituição. É por isso que
objetivo finca sua s raízes na subjetividade transcendental, ou seja, toda co nstatação ontológica que trata da esfera dos fundamentos pri-
leis que , de maneira concreta, tornam compree nsív e l O mundo como meiros (da es fera axiom6tica), toda constatação intuitiva positiva d e-
se ntido constituído. Só então se abre para nós o campo das pergun- se mpenha o papel de UIl1 trabalh o preparatório, e me smo de um tra-
tas, as m<li s c .lev<ld<ls e finais que se poderia fa ze r ao mundo assim balho indispensável (/ priori. Ela fomece o fio condutor tran scenclenta I
compreendid o . para a elucidação plen<lm e nte concreta da constituição na sua dupla
estrutura noético-noell1ática.
Um dos sucessos da fenomenologia, em seus primórdios, con-
Os resultad os " monadológicos" de nossa pesqui sa mostram tudo
sistiu no fato d e que o seu método de intuição pura e, ao mesmo
aquilo que esse recurso aos problemas da constituição nos traz de
52 l0editaçõcs Cm-tesianas Qumta J\1.cditaçM 153
••
vo e de essencial, sem contar que nos desvela, na própria esfera do
••
••
qu e eu qu a lquer outro eu im ag ináve l, que poderia dizê- lo) que di ve r-
r, horizont es noético-noemáticos que , de outra forma, permanece- sa s multiplicidades de mô nadas coexistem se parada s umas das ou-
a m oculto s, o que , por sua vez, limitaria o valor das co nstataçõ es tra s, o u seja, se m se co municar entre si , e que , em c onseqüência,
riorísticas e torn a ria sua aplicação incerta. cada uma del as constitui um mundo próprio? Pos so imaginar que ha-
veria assim do is mundos infinitamente separados, com dois espaços e
d o is espaços-tempos infinitos?

60. R esultados metaftsicos de nossa explicitação Fica muito c la ro que isso não é a lgo concebível, mas sim um
da experiência do outro puro contra-senso. É bem ve rdade que cada um de sses grupos de
mônadas, na qual idade de unidad e intersubjetiva e pod e ndo di spe nsar
qua lqu e r comunicação atual com os outros, tem , apriori, seu mundo
Eles são meta fí s icos, se é certo que o conh ec imento último do ser próp rio, que pode te r, para cada um, um aspecto diferente . Mas esses
ve se r chamado d e metafísico. Mas eles não são meno s que d o is mund os não p assa m então d e ambientes des sas unidades
elofísica no sen tido habitual do termo: essa metafís ica, dege nerada intersubjetivas e d os aspectos de um mundo objetivo úni co que lhes é
) longo de SU3 hi stó ria, não está de forma al g uma de aco rdo COI1l o comum. Porque as duas unid ades inter s ubjetivas nã o estão suspen sas
;pírito segundo o qual ela foi o riginalmente fundada com o "filosofia no ar ; e nquant o imaginadas por mim , elas estão ne cessa riamente em
-imeira ". O mét odo intuitivo concreto, mas também apodíctico. da relaç ão comigo (ou c o mi go como variante possível de mim mesmo,
.nomen o logia exc lui toda "aventura metafísica", tod os os excessos C01110 eidos), comigo que dese mpenho, em relaçã o a elas, o papel da
·pec ulativos. m a nada constituinte. Elas pertencem então, na verdade, a uma co-
Vamos re le var a lg uns d e nossos res ultado s, anexando a eles munidad e universal única, que engloba a mim mesmo e que abrange
gu mas conseq Liên c ias pos te ri o res. to das a s mônadas e todo s os grupos de m ó nadas de que se poderia
Meu ego, mos trado a mim mesmo de man e ira apodíc tica - imag in a r a coexis tê nci a. Portanto, na realid a de, só p'ode haver uma
li co ser que po sso co locar co mo existente d e m3neira a bso lutal1le n- Llll ica comlln idade de mô nadas, a de toda s as môn a da s coex isten tes ;
apodíctic a· só pod e se r aquele que tem a ex peri ê nci a cio lllllndo em co nseqüên c ia, um LlJ1i co mund o obj etivo, um único tempo objetivo,
: ele está em cOl11 unid ade 'co m o utros egos , seu s se me lh a nt es. se um único espaço objetivo, uma única natureza ; e é preci so que essa
e é membro de uma soc iedad e de mônad 3s qu e lh e é m ostrada de Llnica natureza exi sta, se é verda de qu e ca rrego e m 111 i111 estruturas que
aneira orientada. /\ju stifieaç ão conseqü e nte ci o J11und o da cx peri ê n- implicam a coexistência de o utras mó nadas. Apenas o seguinte fato é
a o bjeti va implica ull1ajustificação co n seqüent e da ex istênc ia ela s possível: os mund os c o s dife rent es g rupo s de mónada s es tão re ci pro-
.I tras m ôna da s Inversam e nte , e u não podcri,l imaginar UIl1i1 camente num 8 relação zlJ1á loga úqucla que ex iste en tre nós e os g rupos
uralidade de l1l ô nadas q ue, es tand o ex plícitil Oll il1lpli c itament e C I11 d e mônadas que pert ence m eventualmente aos mund os cios astros in vi-
)muni cação, o u seja, como sociedade qu e constitui nela UIl1 ll1und o s íve is, con seq üentemcnte entre nós e os onil77olia privados de qual-
)jetivo e qu e se e spa c ia liza , se te mporali za, se re a li za, ela própria. quer comunicação at ual COI1 OSco. M as se us mund os são mundos am-
:sse mund o sob a forma de seres vivos e, em particular de se re s bientes, ce rcad os ele ho ri zo ntes abel10s que , p or ra zões de fato e
lm3nos. A coexi stê nc ia das mô nadas, s ua sim p les simultaneidade. puramente contillgentcs. não podcm se abrir diante de nós.
gnifica nec essariamente um a coexist ê ncia tem poral e uma "t eJ11- No entant o. o sentido de ssa unicidade do mund o Illonac!ológico
,I
)l3Iização", sob fO lm a de te mpo real. e do mundo obje ti vo, q ue é " inato", d eve se r bem compree ndido.
Ora, result ados met afís icos posteriore s de 3lta im po rtânci a vê m Leibniz n<ltura lmente te m razão quand o diz que uma multiplicidade
ntar- se a is so. Posso imaginar (eu que O digo e , da mesma forma infinita d e mônad as e de grupos de m ônad as é concebível, mas que,
;-1 /\ 1cdiU'![un Cnrtrsin 1/ m Ou in ta McditafiU:J 155

10 entanto, essas poss i bi Iidades não são todas com possíveis; ele tem para nós como já formado, deve de início constituir-se no e pelo de-
azi'ío, em seguida, de dizer que um número infinitamente grande de senvolvimento da alma infantil. Do ponto de vista objetivo, a criança
11undos podcriil ter sido criado, mas não vários ao mesmo tempo, por "vem ao mundo"; como um começo de sua vida psíquica pode ocor-
:ausa de s ua incompatibilidade, É preciso notar, aqui, que posso mui- rer? O tàto psicofísico de vir ao mundo leva ao problema do desenvol-
o bem im ag inar Iivremente variações de mim mesmo, desse ego vimento orgânico do indivíduo (puramente "biológico"), ao da filogênese,
lpodíctico c existente de fato, e chegar assim ao sistema das variações que encontra seu paralelo numa filogênese psicológica.
Jossíveis de mim mesmo: mas cada uma delas é destruída por cada Mas, levando-se em conta que os homens e os animais não
Jutra e pelo eu que sou realmente. É um sistema de incompossibilidades passam, do ponto de vista psíquico, de auto-objetivações das mônadas,
lpriorísticas. O fato cio eu sou determina de antemão se e quais outras esses problemas da origem não remetem às relaçõe~ corresponden-
nônadas s30 "outras" para mim, tais como elas devem ser para mim. tes nas mônadas transcendentais absolutas? Não indicam eles a exis-
3ó posso cnCoIltr<l-las e não criá-Ias. Se me transformo pelo pensa- . tência de problemas que uma fenomenologia constitutiva, entendida
11ento cn? pura possibilidade, essa possibilidélde determina de antemão, como filosofia transc e ndental, não tem o direito de deixar de lado?
ambém ela, as Ill ô naclas que são "outras" para elas. E avançando Os problemas genéticos, e sobretudo aqueles do grau funda-
lss im, reconheç o que cada mônada que poss ui o valor de uma possibi- mentai e primeiro, efetivamente constituíram, em larga medida, O ob-
idade concreta de termina de antemão UIll universo compossível, um
jeto de estudo da fenomenologia. Esse grau fundamental é natural-
' mund o de lllônadas" fechado , e que dois mundos de mônadas são
mente o do "meu" ego no seu ser próprio e primordial. A constituição
llcompossíve is, da mesma maneira que duas variantes possíveis do
da consciência interna do tempo e toda a teoria fenomenológica da
eu ego e ele qualquer ego concebível em geral.
associação a ela pertencem. E aquilo que o meu ego primordial en-
Partind o desses resultados e das pesquisas que a eles condu-
contra na explicitação intuitiva e original de si mesma (e por meio
_e m , compreende-se que perguntas (qualquer que seja a sua solu-
dela) aplica-se imediatamente, por razões essenciais, a qualquer ou-
' ão) que, pela tradi ção, deveriam estar além de qualquer Limite cien-
tro ego. No entanto, com certeza ainda não chegamos aos problemas
ífico reencontram UIl1 sentido e um valor p(jra o pensamento . Tais
da origem, de s ignados acima, aos do nascimento, da morte e da liga-
'ão os problemas que acabamos de tocar.
ção pela geração na natureza animal. Esses últimos pertencem visi-
velmente a uma esca la s uperior e pressupõem uma explicit(jção labo-
riosa das esferas infer io res: e é um trabalho de tal amplitude que
61. OSjJroblcmas tradicionais da ((ori..qem psicolrfqica)} e seu durante muito tempo ainda esses problemas não podcrào ser coloc<1-
esc!arecúnen to fe1107'l1e7101rf....qico cios de maneira r<lcioJléll.
Mas para os problemas colocados no campo ci o trabalho real
mencionamo s os imensos conjuntos cle problemas (esti'lticos e gené-
No interior cio munclo do s homens e dos animais, encontramos ticos) que nos conduzcm ?iC]ueJes da tradição filosófica Os esc lareci-
Jroblemas bem conhecidos da s cicncias da natureza, os da origem e mc nto s sistemi'ltic()s da intencionaliclade que fizcmos no que se refe-
J,l evolução (géllcsis) psicofísica, fi s iol óg ica e psicológica. O proble- re iI experiência do outro e no que concerne à constituição do mundo
11<1 da origcn1 lL1 alm<l l<1mbéIll se inclui entre esses. Ele nos é suge- objetivo de se nvolv\:.'ram- se nUlll terreno que a atitucle transcendental
ido pelo desenvolvimcnto da criança, no qual c pelo qual caela cri<ln- nos fe z encontrar: !'or;)!ll efetuados a pal1ir de uma estrutura articu-
a deve construir para si s ua "represeI11i1ção do Inundo". O sistema lada da esfera primordi'll. na qual encontramos um mundo primordial
Jerceplivo, graças ao qual um mundo como conjunto coordenado de como ji'l prese nte. Pudemos penetrar nesse mllndo partindo do mun-
_xperiências possíveis e reais existe e está constantemente presente do concreto tomaclo como "fenômeno" reduzido, com a ajuda da re-
]::; 6 lVicdirações C rn-tcsiallas Quinta M editaçéio ]5 7

dução primordial à vi nculação, a um "mundo" de tran sce ndências menos. Esses últimos nos são mostrados como já estando lá, na qua-
imanentes. Ele abrange o conjunto da natureza, reduzido àquela que lidade de " fios condutores" (e les podem ta mbém eve ntualmente nos
pertence a mim m es mo, e extrai sua proveniên c ia da minha se ns ibili- ser mostrados de maneira isolada), mas só devem ser analisados quanto
dade ; ele abrange então o homem psicológico, assim como sua alma, ao seu sentido com a ajuda de um método intencional que os integ ra
sob a reserva de uma redução correspondente. Quanto à "natureza", nos conjuntos coerentes e universa is--da constituição psíquica . O gê-
não somente os visibilia, os tactibilia, etc. a e le pertenciam, ma s nero de universalidade que abordamos aqui é tornado s uficientemen-
também coisas em alguma medida co nc retas, s ub strato s da s pro prie- te claro pela unidade coerente e sistemática das estruturas, em que a
dades causais e revestida s da forma universal do e spaço e do tempo. unidade do meu ego de se nvol ve-se em elementos " que me perten-
Fica claro que o primeiro pro blema a se co locar, para elucidar, do cem" e que me são estranhos.
ponto de vista constitutivo, O sentido d a posição ex istencial do mundo Com efeito, a fenomenologia fo rnece à pró pria psicologia méto-
objetivo, consiste em esclarecer de início a o rigem de ss a "natureza" dos inteiramente novos . Aliás, a parte mais impo rtante das pesquisas
primordial e das unid ades p s icofís ic as primordiais e sua constituição fenomen o lógicas pertence a um a psicologia intencional apriorística e
c:omo transcendências im anentes. A re a l ização de sses esclarecimentos pura (ou seja, libera da de tud o a quilo que tem que ver com a
exige pesquisas de grande pOJ1e. psicofisiologia). É a essa p s ico logia que muitas vezes fizemos alusão,
Novam e nt e lembramos aqui os problemas da "origem psicoló- dizendo que com a transformação da atitude natural em transcendental
gica" da "representação do es paço, do tempo, da coisa", problemas ela permite um "giro coperniciano", graças ao qual adquire um senti-
tão freqüentemente tratado s no sécu lo passa do pelos mais eminentes do novo. Ela se torna uma consideração transcendental, plenamente
psicólogos e fisiol ogista s. Ainda não se chegou a esclarecimentos radical, do mundo e confere essa significação a todas as análises
verdadeiros ne sse campo, embora gran de s esboços carreguem a fenomenológico-p s icol óg icas. É un icamente essa significação nova
c:hancela da g rande za.de se us a ut o re s. Se vo lta rm os desse s proble- que torna todas elas utili zá veis na qualidade de transcendentais e filo-
mas aos que d e limita mo s e int eg ram os ao s is te ma das análises sóficas, e as integra mesmo a uma " metafís ica" transcendental. É
fenomenol ógicas, fica evidente que a psicologia, assim como a teoria exatament e dess a forma que encontramos a possibilidade de explicar
do conhecimento modern as não capta ra m o se ntido pró pri o dos pro- e de superar o psicologismo tra nsce nd e nta1.que parali sou e induziu ao
blemas qu e deve m ser co loc ados aqui. tant o do ponto de v is ta psico- erro toda a filo sofia moderna.
lógic o qu an to do tran sce nd e nta l. Assim como a e strutura fundamental de iJma fenomenologia
T rata- se. com efei to, precisamente de proble mas de exp li c itaçfío, tran scendental, nossa ex pos ição esboçou a d e uma psicologia inten-
estática e gC ll é ti ca, das int e nções. De fat o, e ra imposs ível de ver, cional que lh e seja paralela (na qualidade de ciência "p os iti va"); ela
me s mo para aq ue les qu e ace ita ram a teori a de Brentano sobre os determinou um a d iv isão das pesqui sas eidético-psicológicas naquelas
fenôm e nos ps íqu icos, "estados v ivi do s" i nt e nc io na is. F a Itava a COJll- que explicitem a inte nciona lid ade do ser pró prio e concreto de uma
pree n si'io do C<HfIte r próprio da análise intenc io na l, do co njunto dos alma em ge ral, e na qu elas que ex pli c ite m a int e ncionalidade que se
probl e mas noétic os c noe máti cos que co lo ca a co nsc iê ncia como tal, constitui nessa alma . c o m o se fo sse estranha para e la. À primeira
e do m é todo, totalmente novo. que eles exigem. No que se refere ú es fera de investi gações pertence o campo principal e fundamental da
"o ri gcm psicológica da representação do espaço, do tempo, ela coi- ex pl ic itação inte nc io na l da " re prese nt ação d o Jllundo" ou, mais preci-
sa ", nem a física nem a fi s io logia nada tem a di zer a respeito , não sa mente. do " fe nô m e no '· do mundo existente. que aparece no interior
mais que lima psicologia indutiva que, ex perimental ou não-e x peri- da alma hum a na como mund o de experiência uni ve rsal ; se esse mun-
mental, acaba mant en do-se no exterior dos fenômenos. Trata- se aí do de experiência é reduzid o a um constituído primordialmente na
exc lu s iva mente de problemas da constituição intencional dos fenô- alma particular, ele n ão é ma is o mund o de cada um , não é mais o
A1editaçõcs Cm-tcsianas 1uÍ1/ W 11 feri i talá" 159
158

mundo que mi1ntém seu senso de .experiência hum a n a comum, mas é " mund o" primo rdial, como "mundo" d e " rea lid ades", e aos grandes
exc lu si v a mente o correlato intencional da experiência de uma alma problemas, referentes à constituição dO'e spaço e do t em p o - como
particular e, e m primeiro lugar, da minha vida e de se us conjuntos de tempo e espaço dessc mundo - que e la impli ca. I sso co n s tituijá um
s igni fic ações, formados, gradualmente, na originalidade primordial. campo formidável de pesquisas e, no e ntanto, não passa de uma eta-
Seguind o -os passo a passo, a explicitação intenciona l deve tornar in- pa inferior de uma fenomenologia comple ta da natureza concreta como
te ligível , do ponto de vista da constituição, esse núcleo primordial do ta l, e que, e m conseqüência. está lon ge d e atingir o mundo concreto.
mund o fenomenal ao qual cada um de nó s, outros home n s, e, ac ima O fato de term os tocado na que s tão da ps ico logia deu-nos a
de tud o, cada psicólogo, pode chegar da m a neira descrita anterior- o portu nidade de exprimir a di s tinç ão entre o primordial e aq uilo que é
mente , pela eliminação dos momentos de "~s tr a nheza ". Se, nesse co ns tituíd o co m o estranh o em termo s de v id a p s íqui ca pura, e de
mund o primordial, fazemos abstração do se r psicofísico "eu, ho mem", esboçar, a ind a que de forma rápida . a man e ira pela qual os problemas
"a nature za primordial" nos re sta ,.na qualid ade d e n a ture za da minha de constituição de uma nature za primordial e obje ti va co loca r-se-ão
própria "sens ibilidade" pura. O pro blem a fundamental da "ori gem como problemas psicológicQs.
psicológica do mund o da ex periência" a parece como o da o ri ge m da M as se vo lta rm os à atitude tran sce nd e nta l, n ossos esboços da
"co isa fan tas m a" ou d a "co isa se nsíve l", com s uas diferentes cama- o ri gem psicológica d a represent ação do espaço , etc . podem n os
das (visível, táctil , e tc.) e de sua unidad e s inté ti ca. Esse "objeto do serv ir in versa m ente d e indicação para os problemas tra nsce nd e ntais
se ntid o" é m ostrad o (sempre nos quadro s dess a produção primor- corresponden tes, not a damente para aqueles de explicação concre-
dial) como pura unidade dos modos de aparições se ns íveis e de s uas ta da natureza e d o mundo primordiai s, e m gera l, o que preenche
s ínteses. A coisa fantasma (visível) com suas modi fic ações de "co isa uma g rande lacuna no encadeamento do s problemas da constitui-
próx im a" e de "co is a distante", que se coordenam de maneira s inté- ção do mundo como fe nômeno transcend e nt a l, que esboçamos an-
tica, não é ain d a a "co isa real" da esfera primordial da a lma ; esta te rionnente .
pertence já a Llm g rau superior de constitui ção, como co isa ca usal, Podemos designar o conjunto extremam e nte ric o das pesquisas
substrato idêntico ("substância") das propri edades ca u sa is. A relaci onadas ao mundo primordial (que fo rmam toda uma d isc iplina)
sub stancia li clade e a causalidade designam m a ni fes tame n te g raus pela ex p ressão "es tética tra nscendental", vi sta num sentido bem amp lo.
s uperi ores de constituição. O problema constitutiv o da co isi1 pura- Tomamos de empréstim o essa expressão kanti a n a , porque as pesqui-
mente sensíve l. da espacialidacle e da espaço-tempora l idade que lh e sas sob re o tempo c o cspaço da crítica da razão pura aborda m niti-
são essenciais e fundi1J11cnti1is confunde -se com o s problemas qu e damente - ai nda que de m a neira extremamente limitada e pouco
acabi1l1los ele mencionar. Buscamos, portanto, descrever os co njun- c lara - Ulll a p r iori noe máti co da intui ção se ns ível: esse (I prio ri.
to s coerentes e s intéticos dos modos de ;1presentação da coisa (apa- a mpli a d o a té aq u ele co n c re to da nél turcza intuiti va , puramente se nsí-
rênc ias. aspecto s . pe rspec ti vas, etc.). Mas tr;1t a-se aí ape n as de Ullla ve l (da n a tureza primordial). exige o co mpl e m e nt o fenomenológico
descrição unil;lter fl! : o lado oposto do problem a co ns ist e na relação tra nsce nd e nt a l dos problemas da constituição.
inte nci ona l dos fe nôme no s no o rga ni s m o , que , ele s ua pane , eleve se r Todavia, nã o es tar ia co nform e o sent id o da cxpre ss ão kantiana
descrito na s ua co nstitui ção para c por ele mesmo, tend o em vist;1 o " ana lítica tran scendcntal", oposta à anterior. Chal1l;1! com esse no me
ca rá ter anso lut:lm e nt e particular ele v in c ul ação inerente ao sis tema o estágio sup erior do (I !wiori co nstitutivo. o d o próprio mund o objet ivo
de se us fenômeno s co nstituti vos. e das multiplicidade s q ue o constituem (e, no p. rau m ais e levado. o a
Prossegui ndo nesse sentid o, percebemos prob le m as sempre no- priori d os atos teórICOS e "idealizantes'· que constituem, em definitivo,
vos de explicitaçã o descritiva, que devem todos se r tratados de m a ne i- o mund o e a natureZ;1 eb c iê ncia) O primeiro está g io, ac im a de nossa
ra s istemática, me s mo se limitamos nossa atenção à constitui ção do estética tr an scendenta l, deve ser ocupado pela teo ria d a exper iênci a
60 Meditações Cartesianas Ouinta ldeditaçiio 161

o "outro" (é o que chamamos de "endopatia"). Basta indicar que 62. Explicitação intencional da experiência
udo aquilo que dissemos sobre os problemas psicológicos da "ori- do outro caracterizada no seu conjunto
rem" qu e se colocam n o estágio inferior é também verdadeiro para o
stágio superior : o problema da endopatia só pode adquirir seu senti-
ia e método de solução verdadeiros com a ajuda da fenom e nologia Ao concluir esse capítulo, vamos voltar à objeção - da qual
'onstitutiva. Essa é a razão pela qual as teorias propos ta s até aqui (aí nos deixamo s afastZlr - contra a pretensã o da nossa fenom e nologia
ncluída a ele Max Scheller) permaneceram ineficazes. Também nU/l- de ser uma filo sofia t ra nscendental e, em conseqi.iência, de reso lver
'a se rec o nheceu como a alteridade dos "o utros" é tran sfe rida para o com o talo s problcmas da poss ibilidade do conhecimento objetivo. De
nundo inteiro, na qualidade de sua "objetividade", e lhe conferejus- acordo com essa objeção, a fen o menologia não seria capaz disso,
amente esse sentido. pois, ligada no se u po nto de partida ao seu ego transcendental da
Indiquemos ago ra de maneira exp ressa que seria evid entem e n- redução fenom eno lógica, recairia, sem querer se dar conta di sso, num
e inútil quere r tratar em se parado da psicologia intencional C0l11 0 solipsismo transcendental, e qualquer passageni. para a subjetividade
,iência positiva e da fenom e nologi a transc e ndent a l. De sse pont o ele estranha e para a objetividade verd adeira só seria possível por uma
ist a, é sobre a última que recai o trabalh o efetivo, enquanto a ps ico- metafís ica nã o afirm a da , por uma retomad a disfarçada das tradiç õ es
ogia, d es preocupada em relação ao giro copernicano, irá lhe tomar leibinizianas.
e empréstimo seus trabalhos . Mas é igualmente importante not a r Tendo em conta as explicit ações efetuaelas, a objeção di sso lve-
ue a alma e o mundo objetivo, em geral, não perdem, na considera- se e mo stra-se se m co nsi stênci a. É preciso, antes de tudo, ter em
'ão transcendental, seu sentido existencial ; ao contrário , este se tor- mente o seguinte fato: e m nenhum momento a atitude transc e ndental ,
ou inteligí ve l para nós, porque a análise nos reve lou sua natureza {qllliJ transcend e ntal , foi ab andonad a. Nossa " teoria" da ex-
ultiforme ; da mesma forma a psicologia positi va não pe rde O con- peri ênc ia estranha, ela experiência dos "outros", não qu eria nem po-
eúdo qu e lh e cabe por direito, mas, liberta ela posi tividade ingênua, se deria fazer qualqu er outra coisa senão ex plicitar, partindo da obra
o rna ela própria uma disciplin a da filos ofia tra nsc end e ntal universal. constituti va da experiência, o pró prio se ntido da posição de um "ou-
Desse ponto de vista, pode-se dizer que na série de ciências que se tro" e, partind o elas sínteses correspondentes, explicitar o sentielo da
elevam acima da posi tividad e ingênua, a psicologi a intencional é a " ex istênc ia ve rdade ira dos outros". Isso que minh a experiência COI1-
primeira em si. Em relação às outras ci ê nc ias pos itiva s, e la chegZl cordZlnt e m o strZl com o se nd o "o s outros", is so qu e me é mos trado de
mesmo a te r 11J11Z1 va ntagem. Se, ciêncià positiva, e la se constitui pelo maneira ne ccss:1 ri,] e nilo por ilcaso a títul o de rea lidade a conhecer
método da Zl llálise inten c io nal , não pode se confrontar co m pro ble- é,ju stament e IlZl at itude transcend e ntal , o o utro existente, o olrer ego,
mas de "fundamentos", como oco rre nas outras ciên c ias positivas.
qu e se ju stificZl pn.:c isZl Ill c nte no interior da intcncionaJida de d o meu
De fato , esses problemas têm sua origem no caráter unilat e ral dZl s
ego. Na at itude pos itiva - e é bom qu e sej a assim - dizem os: por
objetividade s in genuamente constituídas, a s quais, para se re m con-
meio da minha c:\pe ri ê ncia própria não apreendo so ment e a mim
sideradZls na tot<l lidad e de seus aspec tos. exigem a passagem à consi-
mesmo, mZl s. gr,l ç,l s a uma fo rmZl especiill ela cxperiência, apreendo
dera ção tran scendc ntal d o mundo. Mas a psicologia inte ncion a l -
tillllbé m o outro . /\ c:\p licitnção tran scendentill mo strou-nos não so-
ainda qu e de man ei ra implícita - já carrega o transcendental e m si
ment e que ess,] afllllla ção positiva é tran sce nclcntZllment ej ustific ada ,
llleS J11Z1; basta-lhe apcnas uma última tomZld a de consciência para
completar o giro copernicano que não muda nada no conteúdo de ma s tamb é m que o e go tran scend en tal (que a reduç ão tra nscendental
se us res ultados, mas extrai deles o sentido último. Se ria poss ív e l dizer rcv ela- no s, logo de iníci o, com seus hori zont es indeterminado s) per-
que a psicologia só tem , em d efiniti vo, um único problema fundamen- cebe tamb é m il s i mesmo, no se u ser primordial próp rio , que, sob a
tai - o conceito de alma. fo rma de sua ex peri ênc ia transcend e ntal elo outro, os outros egos
)2 ,Hcdún!",Jc . Cm ·tcsiulitlS Ouinta ivIeditação 163

anscendentais, ainda que esses Cdtimos não sejam eles própri os reconheço so mente apesar de mim, que "me colocando entre parên-
.lostrados diretamente nelll na evidência apodíctica a bsoluta , mas teses", eu mes mo, como homem, como pessoa humana, conservo-
omente na evidência da experiência Lexterior··. O outro, eu o apreen- me no entanto ainda como ego. Não posso portanto saber nada ainda
O "em" mim, constitui-se em mim mesmo pela apresentação sem sobre uma intersubjetiviclade transcendental e, sem o querer, consi-
star "ele próprio" presente. Também posso dizer num sentido mais dero a mim, o ego, como um solus ípse; mesmo após ter adquirido
mplo: o ego. que encontro e:\plicitando a mim mesmO na meditação uma primeira compreensão das funçõe s constihltivas, diviso todos os
exp Iic itando o que encontro em mi m), at i nge a total idade do ser trans - conjuntos constitutivos C0l110 simples vinculações desse ego único.
,endente, con s tituído de maneira transcendente c de forma alguma o As explicitações mais extensas desse capítulo e ram , portanto, nece s-
er simplesmente aceito na positividade ingênua. A idéia, segundo a sárias. É graças a elas somente que compreendemos o sentido. pleno
ual tudo o que eu conheço - eu, O ego tran sce ndental - eu o e verdadeiro do "idealismo" fenomenológico-transcendental. A apa-
.0nJleço como existente partindo de mim meSIllO, e tudo o que explicito rência do solipsismo é dissipada, ainda que seja verdade que tudo o
'01110 constituído .em mim me s mO deve penencer a mim mesmo, a que existe para mim só pode extrair seu sentido exi stencial em mim,
eu ser própri o, é uma ilusão, Isso não passa de "transcendências na esfera da minha consciência. Esse idealismo apresenta-se como
manentes /\ constituição como s is tema de atualidades e de monadologia. Apesar dos ecos da metafísica le ibinizi8na, que evoca
oteneialidade s s intética s que me apresentam - a mim, o ego - , de maneira querida para nós, ele busca seu conteúdo na explicitação
os seres e das unidad es s e sentido na esfera cio meu s~r próprio, fenomenológica pura da experiência transcendental , obtid<l pela re-
uer dize r justamente: constituição da realidad e objetiva imanente. dução transcendental. Baseia-se na evidência mai s original, em que
o iníci o da fenom e nologia, na atitude do iniciante, daquele que eom- todas as evidências possíveis e imagináveis devem ter seu funda-
leta pela primeira vez a redução fenomenológica e que cria assim mento no direito mais origin81, em que todos os direitos e, em particu-
m habillls univer sa l das pe sq uisas constitutivas. o ego transcendental lar, todos os direitos do conhecimento devem buscar suaju stificação.
ue surge diante do nosso olhar é bem percebido ele maneira apodíctica, A explicitação fenom e nológica re8lmente não é de forma alguma
la s é cercado de horizont es totalment e ineletermiJ1ados, limitados por algo como uma "construção m etafísic8" , não é uma "teoria" que co-
ssa única condição: que o mund o e que tudo o que sei a respei to dele loca em jogo - abert8mente o u dissimulando-os _. os conceitos e os
se tran sforma cm puros " fenômeno s". Nes se início, fa ze m-me falta prejulg8111entos d<l l11et8fís ica tradicional. Ela se distingue deles da
nece ss,lri,l1llCnte todas <lS distinções qu e <l pe nas <l ex.plicitação inten- maneira mai s decisiva. já que coloca e m açã o os dados da pura "in-
cional nos ir;'J rOJ'Jlccer c que. no entant o. me pertencem de m<ln e ira tuiç50" e não passa de pura "e:\plicitação do se ntido", que a intuição
evidellIc c e,;scllci'lJ. Fé1Ita-llle. aci1l1<1 dc tud o. a compreensão do "preenche" de m<lneira original. Em p<lJlicular. no que se refere ao
m e u ser primordiaL da esfe ra daquilo que me pe rtence no se ntido lllundo objetivo elas rea lidades (como os múltiplos mundos ideais ob-
estrito e d<lquilo que . a título de experiêncin do outro, se constitui jetivos, campo s de ciência s apriorístic<ls pur<l s), a explicitação
nessa e~J'L-r<l como se ndo estranho. C01110 "a presenlnclo" . lllas que <lí fenomenológica Ilão faz mais do qUe ex plicitar - e não pod er ia ja-
não estú e qlte 11ií o pode jamai s ~lí ser m os trado ele man e ir<l original. l1l<li s colocar muito em de staque - o sentido que esse Tllundo tem
De iníci o. preciso e:\plicitilL como t;l1. o que pertence a mim p<lr<l nós todo s, anteriormente a qualquer filo sofia, e que, mélnifesta-
propri'llllcnte . ,1 fim de comprecnder que no "próprio" o '"não-pró- mente. lhe confere 110 SS:.1 experiência. Esse se ntid() pode l1luito bem
prio" adquire. t<lI11bém ele, se u sentido ex istcJlCi<lJ. principalmente por ser extraído pela f'il oso fl<l, mas não pode j<ll1l<lis ser J1l o clific<ldo po r
8 nalogia. Eu. que medito, não compreendo no começo, em geral, com o ela. E, em cada experiência atual, ele está cerCild o - por razões
chegar ao s "o utros" e a milll me s mo, post o que os "outro s" são tocl os essenciais e não por caU S<l da nossa fraqueza - de horizontes que
tomad os "e ntre parênteses". E, no fundo, não compreendo <linda, e o necessitam de elucidação.
Conclusão 165

nologia com o objetivo de detenninar a extensão, os limites, mas tam-


bém os modos de sua apodicticidade. Nossos esboços precedentes
dão uma idéia, pelo menos provisória, dessa crítica do conhecimento
fenomenológico transcendental, como por exemplo as alusões à maneira
CONCLUSÃO pela qual, com a ajuda de uma crítica da lembrança transcendental,
pode ser circunscrito um conteúdo apodíctico dessa lembrança. Toda
teoria do conhecimento transcendental fenomenológico , como crítica
do conhecimento, conduz à crítica do conhecimento transcendental
fenomenológico , e de início da própria experiência transcendental;
em virtude de a fenomenologia voltar-se para si mesma, essa crítica
exige, também ela, outra crítica. Mas a possibilidade evidente da rei-
teração das retlexões e das críticas transcendentais não implica, de
forma alguma, o perigo de um regressus in Ínjinitum.

63. A necessidade de uma crítica da experiência e do


conhecimento transcendentais

Efetuando as pesquisas da presente M edit·açào e já aS das du,ls


lvfeditações precedentes, c o loca m o-nos no plano da experiênciél
tran scendental , da experiência de s i me smo propriamente dita e da
experi ê ncia do outro. Confiamos nes sa expe riência em virtude de
sua evidência vivida, e confiamos ta mbém. de maneira an~llog,l, na
evidência dosjulgamentos descritivos e, ger;.llmente, e m tod os os pro-
cedimentos metódicos do conhecimento transcendental. Se perde-
m OS de vista a exigência, na qual insistimos tanto no iníci o, de lIm
conhecimento apodíctico como se ndo o único conhecimento "a utenti-
cam en te científico", ainda assim, de forma alguma, o abandonam os
M:1s, em lugar de no s ocupar aqui de problema s posteriores e últim os
da fenomenologia, preferimos esboçar em linhas gerais os problemas
Jiríceis da primeira fen o menol o gia . ainda de alguma forma afctad,l
por uma ingenuidade (uma ingenuidade apodíctica); feno menologia
encarregada da grande tarefa - a ma is especificamente fenome-
nol ógica - de dar à ciência forma nova e su perior. Prefe rimo s isso
ao conjunto das pesquisas que constituem a autocrítica da fenollle-

1M
Epfll.!! !U 167

mos. O mesmo se dá com as clencias positivas. São construções


ingênuas, ainda que de um tipo superior: são produzidas por uma téc-
nica teórica, sem que as funções intencionais, de que, em última aná-
lise, tudo provém, sejam explicitadas. Com certeza, a ciência preten-
de justificar seus esforços teóricos e se apóia sempre sobre uma
EPíLOGO crítica. Mas sua crítica do conhecimento não é última, ou seja, um
estudo e uma crítica das funções originais, Ulll esclarecimento de
todos os seus horizontes intencionais. Somente esslCS últimos podem
captar de maneira definitiva o "alcance" das evidências e, corre-
lativamente, estabelecer o sentido da existência dos objetos, das cons-
truções teóricas, dos valores e dos fins. Assim, reencontramos nós
- e precisamente no nível elevac:jo da ciência positiva moderna -
crises, paradoxos, coisas ininteligíveis. Os conceitos primeiros que
abrangem toda a ciência e determinam a esfera de scus objetos e o
sentido de suas teorias têm uma origem ingênua: eles têm horizontes
intencionais indeterminados: resultam das ["unções intencionais des-
No essencial, nossas meditações - podemos dizer bem - atin- conhecidas, exercidas de maneira grosseiramente ingênua. Is~o vale
giram seu objetivo: notadamente o de mostrar a possibil idade concre- não somente para as ciências especiais, mas também para a lógica
ta da idéia cartesiana de uma ciência universal a partir de um funda- tradicional com todas as suas normas formais. Toda tentativa feita
mento absoluto. A demonstração dessa possibilidade concreta, sua pelas ciências, tais como se constituíram historicamente, de encon-
realização prática - ainda que, bem entendido, sob a forma de um trar um fundamento melhor, de compreender melhor a si mesmas, de
programa infínito - , não é outra coisa senão a invenção de um ponto compreender seu próprio sentido e seu próprio funcionamento é uma
ele pal1ida necessário c indubitável ele um método, igualmente neces- tornada de consciência de si mesmo do estudioso. Mas só há uma
sári o, q l1C, ao mesmo tem po, perm itc esboçar um sistema de prob Ie- tomada de consciênci3 de si mesmo que seja r3dicaL a da fenome-
mas que podem ser colocados sem se incorrer no absurdo. É este o nologia. Seu radicalismo é inseparável de SLJ3 universalidade, e é ao
ponto q uc at i ngi 1110S A lln iCél co isa que nos fa Ita incl icar é a ram i Ilca- mesmo tcmpo insep:1r:1vel do método fenomenológico: tomada dc
ção, facilmente compreensível, ela fenomenologia transcendental em consciência de si mcsmo sob él forma da reduç~lu tr;lnscenc!ent:ll.
ciências objetiv3s particulares e a sua relação com essas ciénci;ls d~l explicitação intencionéll de Sl mcsmo - do ego tr3nscendent31 resul-
positividade ingênua qlle ela encontra diante de si. tante da redução - . descrição sistemática nil forma lógica dc Ull13
A vicia coticli,úla é ingênua. Viver assim é engajar-se no mundo cidéticil intuitiva. Mas explicitar a si mesmo de milneirél universal e
qlle nos é mostrado pel,l experiêncii1. pelo pensamento: é agir, é emitir eidética é ser J11estl"C de tod3S as possibilidades constitutivas possí-
julgamentos de v3101" Todas CSS;lS fllnções intencionais da experiênci,1. veis e imaginá\eis "in3t;ls·· ao ego e à intersubjctlvidade transcendental.
graças às quais os objetos estão simplesmente prescntes, completam- Uma fenomenologia que se desenvolve rigorosamente constrói,
se ele maneira impesso(ll: o sujeito !1a(b sabe ele Ias. O mesmo ocorre p0l1anto, (f priori. mas com uma necessidade e lima genera Iidade
com o pensamento ati\o: os I1lll11eros. os "'estados de coisas" predicativos, estritamente intuitivas. as formas cios mundos imagináveis: ela os
os valores, os fatos, as obr3s aparecem graças a um funcionamento constrói nos quadros de tocl3s as formas imagináveis do ser em geral
oculto, que se constrói gradativamente, mas são somente elas que ve- e do sistema das suas articulações. Mas isso de maneira "original",

166
168 IH editaçõcs Cartesianas l.Jn7o/Jo 169

o u seja, em co rre la ção co m o a priori da estrutura da s funçõe s in - co nse qüência, da inte rsubje tivid ade tra nsce ndent a l. É o desabrochar
tenci o nais que a s constituem. do·logos universa l de todo ser possível.
Posto que, e m sua ca minhada, a fenomenologia n ão e nc on tra Poderíamos e ntã o ex primir a mesma co is a da seguinte manei-
realidade nem conceitos de realidade m ostrado s como "ac<1bad os", ra : a fenomenologia transce nd e nt ;:d , s is temá ti ca e pl e nam e nt e de-
ma s que os extrai na esfera original da constituição captada, e l<1 m es- se nv o lv ida, é o ipso d e urna autêntica o ntol og ia universal. Nã o mai s
m a, em conceitos o ri g in a is, j á que, ob rigada a elucidar todos os h or i- um a o nt o logia formal e vaz ia, mas uma que in c lui tod as as poss ibi -
zo ntes, domina todas as distinç ões d e "a lca nce" - e to d<1 s as rc l<1ti - lidad es reg io nai s de existência, seg undo todas as cO lTel ações que
v id ades abstratas - ; ela deve c hega r por si me s ma aos s iste m 8s de e las impli ca m .
conceitos qu e d e finem o sentido fundé!m e ntal d e tod os os domínios Essa o nt o lo g ia unive rsa l e concreta (ou essa teoria da s ciências
científicos. São os conceitos que traça m de antemão as linh as de co nc re ta e uni versa l, essa lóg ica concreta do se r) aprese nt a ria , em
dem arc aç ão na id é ia f or mal de um universo de ex is tê ncia possível conseq ü ênc ia, o uni verso das ciências, primeiro e m s i, e tendo um
em ge ra l, e em co n seqüê nci a ta mbé m de um mund o possíve l e m ge- fundamento abso lut o. A o rdem das disciplinas filos·óficas se ria a se-
ral. Eles d eve m por isso mesmo ser os conceitos fundamentais ver- gu int e: d e iníci o a egologia " so lips is ta", a do ego re duzido à esfe ra
dad ei ros de toda s as ciências. Para os conceitos desse gê nero, for- primordial; e m seguida viria a fenomenologia intersubj e tiva, funda-
m ados dessa m a neira or ig ifl a l, não se pode falar e m paradoxos. O m e ntad a na ego log ia so lips is ta. Essa última es tuda inicialme nt e as
me s m o vale para todos os co nce itos fundamentais que se rela cio nam que s tões univer sa is, para, e m seguida, ramific ar-se em ciências
à constituição da s c iên c ias que tratam ou devem tra tar d as dife re nt es apriorísticas particulares.
regiões d o ser e que tê m que ver com a forma d e conjunto dessa Essa ciência to ta l do a priori seria e nt ão o fundamento da s
cons tituiç ão. As pesquisas a que rapidam e nte nos refe rimo s ac im a, ciências e mpíricas autênticas, e de uma fil oso fia universa l il utê ntica,
rel at iva s à con s tituiç ão tran sce ndental do mundo, não são d essa for- no sen tid o ca rte s ia no de ciência uni ve rsa l.e de fundamento abso lut o
ma nada a lém d e um co meço de esc larecim e nto radical do sentido e d o que ex is te de fato. Toda a racionalidade d o fat o conciste n o (l
da o ri ge m (o u d o se ntid o a partir d a o ri gem) d os co nceitos, ta is co m o p riu ri. A c iê ncia a pri o rís tica é aquela d os princípios aos quai s as
mund o. natu reza, espaço, tempo, se r a nim a l, ho m em, alma, org.;lni s- ciências e mpírica s devem reco rrer p <1 ra e ncon trar seu fundamento
m o, co munid ade soc ia l, c ultura. etc. defin it iv o. Mas a c iê nci a a pri o rís tica não deve se r in gênua ; d eve pro-
Fica c laro q ue a re alizaçã o verdadeira das p esq ui sas in dic;ld as v ir d,I S fontes tran sce nd e ntai s fenom e nol ógicas mai s pro funda s e ter
deve conduzir a todo s esses con cei tos que, se m se r ,111:\1 iS<ldos c <I fOrIll ,l de Ulll (I priuri, que o é e m to el os os a spectos, que se ,lpóia

c lu cidJdos, servem C0 l11 0 fund a m c nt ais às ciên c ias positiv::ls. mas lluc , e m si mesmo c se Ju s ti fica por s i m esmo.
11 <1 fe no menolo g ia, se e n ge ndra m no meio de uma clarez<1 e de um a E u gos télri 'l. paril te rminar, e a rim de ev itar m a l- e nt e ndid os . de
di s t inção que não Illilis ild mit e q ualqu e r dú vi da. m e ncionar q ue a fenome no log ia , como a desen vo lv e m os acima , e li -
Podemos di ze r tilmbém que todas as ciências ap ri o r íst icils enl min a apenas ,I metafísica in gê nu a. qu e opera com as coisa s absurd8s
ge r<1 1têm SUil o ri ge m íiltim3 11:1 fenomenologiil <1priorístic<l tr anscc n- em si. \ll ~lS nüo exc lui ,l lll e tafís ic a e m ge ral. E la n 50 ataca os m o tivo s
d e ntal. É aí. gr<1ças à a nfIlise das co rre lações, que e l<1s c n co ntr,lll1 c os p rob leill8s qu e animavam inte rnam e nte a tradi ção a nti ga. Era
se u s últimos fundamento s . [Ias peI1encem, portanto, do po nt o de v is- scu m é todo e SUil co locação dos prob le ma s que eram ab .~ urd os, d e
ta de s u a o ri gem. <l lima fen o ll1eno I og ia uni versa I apriori s t ic 8. d<1 S fOfm ;1 dlglllllil os se u s probl e mas e os m o ti vos de s ua co loca çJo. A
q1l8is são 8S ramificaçõcs s is tem á tica s. Esse s is tem a de LI p riori fenom eno logia não i1firll18 que se det é m diante "d8s última s pe rg un -
univ e rsa l deve, pOI1<1nto, se r des ig nado como o d esa broc har s istem á- ta s m<li s clevad<'l s". "O se r, prim e iro e m s i" , que serve d e fundamen-
tico do a p r iori universa l in ato n a essê nc ia da s ubj e ti v id ade e, e m to a tudo o que há ele obj e ti vo no mund o, é a intersubjeti vi dad e
170 /vIcdlrnfúc.< Cnru.,úll1nJ

tran sce nde nt al, a totalidade das m ô nadas que se unem na s diversas
formas de comunidade e de com Unhã o. Mas, no interior de qualCJuer
esfera m o nádi ca , e, a título de possibilidade idea l, no inte rior da e sfe-
ra monádi c a imagináve l, reaparecem todos os problemas da realida-
de contingente, da morte, do destino, o problema da possibilidade de SOBRE O AUTOR
uma vida "uutenticamente" humana e tendo um "sen so" na acepção
mai s forte desse termo e, entre esses problemas, os do "se ntido" da
história e assim po r diante, subIndo cada vez mais alto. Podem os
di zer que silo esses os proble ma s é ticos e re ligiosos, mas postos num
te rre no onde deve ser colocada toda questão que possa ter num se n-
tido possíve l para nós.
É assim qu e se realiza a id é ia de uma filosofia universal de
,
forma bem diferent e daquela repre sentada por Descartes e pe lo seu
tempo, que foram seduzido s pela idéia da ciência moderna Ela não

II
se realiza sob a fo rma de um siste ma uni versal de teoria dedutiva,
como se tudo que existe estivesse englobado na unidade de um cál-
cul o. O sentido essencial e fundamental da ciência tran sformou- se Cronologia
radicalmente. Temo s diante de nó s um s istema de di sc iplinas
fenomenológicas, do qual a base fundamental não é o axioma ego
1859 - Nas ce a 8 de abril em Pros snitz, Morá via .
cogito, m as uma plena, inteira e univ ersal tomada de consciência de 1876/1878 - Estuda na Universidade de Leipzi g.
SI mes m o.
1882 - Obtém seu doutorado, em Mat e má tica, na Univ e rsidad e de
Em outros termos, a via que co nduz a um conhecimento dos Vi e na .
fundamentos últimos, no mais alto se ntid o do te rmo, ou seja, a uma 1883 - Professor assistente na Uni ve rsid ad e de Berli 111.
ciência filo sófic a, é aqu e la e m direção a uma tomada de co nsc iên c ia 1884 - Vo lta <l Vi enJ e torna- se discípulo de BrentallO.
unive rsLll de si me smo. ele início mon:ldica e depois intermon<Ídica . 1886 - Torna-se lut e rano.
Podemos igu alment e afirmar que:l própria fil osofia é um dese nvo lvi- 1887 - Casa-se com MalvillC SteinschneÍckr e toma-se li vre-do-
me nt o radicCll e uni vc rs ,!l das meditações cart cs i:.lIl<1s , ou seja , um cente na Universidade de Hall e.
conhecimento universal de s i me s m o , c abrange toda ciência autêllti - 1906 - ..- Torn:l-sc professor ordinário na Uni v(' rsidaJ e de Gottingen.
ca, responsável por si m es ma. 1933 _ . O Ilazi s m o proíbe sua saída do Pilís se m autorização prévia.
O o r<Íc ulo dé lfic o !..I v LUo 'l 0 E '\) 'lo'\) adquiriu um novo 1938 Morre no dia 27 de abril.
sentido. A c iên c ia pos iti v a é uma ciência do se r, a qual se perdeu no
mundo . É prec iso de início perder o mundo pela E1WX'l, para
ree nc o ntrá-l o em seguida numa tomada de consc iê ncia uni ve rsa l de
Principais obras
si me sm o. N() /ifo/'(/s ire, di sse S,ll1 to Agostinho, il! le reai, ill illteriore
hOllli n e habiwl ,'erit{/s.
1- Phi/osophie der Arilhmcrik, T J, J-'bllc, 1891.
2- "Psychologische StuJien zurel e m entarcn L ogik", artigo publi-
cad o em Phifosophische M O!lmshe[l e, T XXX, 1894

171
·r •
172 lv1editnções Cartcsia1lCL\
••
3_ Logische Untersuchungen, HaJle, TI, 1900; T lI, 190 I, Max
Niemeyer Verlag. ••
4- "Berich über deutsche Schriften zur Logik in den Jahren 1895-
99", publicado no Archiv Jiir systematische P/úlosophie, T
X, pp. 397-400,1903. BIBLIOGRAFIA ••
5-

6-
"Philosophie aIs strenge Wissenschaft", artigo publicado em
Logos, TI, 1910.
Ide en zur einer reinen Phal1o menolog ie und phiinomena-
••
7-
logischen Philosophie, HaJle, 1913.
Logische Ulltersuchungen, 2~ ed ., com o II tomo bastante
alterado e aumentado pelo autor e sua parte final só foi publicada

em 1921, contendo. a Sexta Investigação, publicada em portu-
guês como: Investigaçõ es Lógicas - Sexta Investigação -
Elemelltos de uma Elucidação Fen omenológ ica do Conhe- de Boer, Th. - The Development of Husserl 's Thought, The Hague ,
••
.:
cim ento, e m tradução dos Profs. Drs. Zeljko Loparic e Andrea Boston , Londres, 1978 .
M. Altino de Campos Loparic, São Paulo, Abril Cultural, 1980. Descartes, Rene - Obra escolhida - trad. J. Guinsburg e Bento Pra-
8- " Husserl s Vorlesungen zur Phanomenologie de s innern do Jr., Difusão Europé ia do Livro , 1962,442 ps.
Zeitbewusstseins" publicadas no lahrbuchJür Phifosophie L/nd - Princípios da Filosofia, trad. Torrieri Guimarães, Hemus Ltda .,
phiinomenologische Forschung X, 1928. 1986, 110 ps.
9- "Formale und transzentantale Logik - Versuch einer Kritik der - RegIas para la dirección de la m ente, trad. Samaranch, F.P.,
Logischen Vemunft" publicad.o no lahrbu ch Jiir Philosophie Aguilar, 1970, Argentina.
wul phànomenologisch e Forsch ul1g X, 1928. - Discurso sobre o M étodo , trad. Márcio Puglies i, Hemus, SP,
)0 - Hu sserlioJ1([ , uma edição dos Arquivos Edmund Husserl , com 1972.
IX volumes publicados por Martinus Nijhoff em Haia. Farber. M. (ed .) - Philosophicol esso·ys in memor.y of Edm/ll1d
Husse rl, Harvard Uni\'ersity Press, Cambridge, 1940.
Gu e roult , Martial - Descorles selol1 l'ordre des roi so lls. Ed.
M o ntaign e, Paris, 195 3,21.
Loparic, Zeljko - "À procura de um Descartes segundo a ordem da s
dificuldades", Rev. Disclf rso, n . 6, São Paulo, 1975.
--- - - - Mouny, Paul - Le d éve /oppement de la physique ca rlé.\ iel1/l e,
.. §~D I FFLCl:iJ.u_~P - Librairie Philosophique J.Vrin, Paris, 1934 .
, Bib. Florestan Fernandes Tombo: 278408
- _. -- - Pivcevic , E. (e d.) - Phellomcllology (//ul I)hilosophicol lIl1de}"s-
Aquisição : ~~.ml'!a I .R_LJSP __ !ol/d/llg . Carnbridge Univcrsity Press, Cambridge, 197).
Proc. / BOTINO
I RS 22 ,41 25/11/2009
1 N.F. 000721
I, SBD/FFLCH1. ~

173
MADRAS®
a
;'i~J~~~~~~;"~~~~"~~,~,:,~~
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O Clássico Guia de Estratégia
Miyanwto Musashi ~om e _
Escrito no século XVIl, este livro continua sendo referência
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Elldereco
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I O esotérjcos O psicologia O informática O religiosos
C harles Sande rs Peirce. John TJ y lor, Rog er Williams,
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Qual sua opinião a respeito desta obra? __

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ALÉl\1 DO BEM E DO MAL ~ume
Prelúdi() d e um :l Filosofia do Futuro
FrzCrinclJ /IV Nletz1'chc Endercl'o
, Hesidencia I.
Alélll d" IJt"m I.' tio ;\10 1 - unJ n obr~ nfi rm ati ,,;! vo ltada ~ Bairru CEP Cidaoe
;lpr-:sCllt ;It,::i[) do s no vos va lo res da moral , CJl tcilllid " co mo
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