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O NEGRO NA ECONOMIA BRASILEIRA: DA COLÔNIA AOS UMBRAIS DO

SÉCULO XXI
A PARTICIPAÇÃO DO NEGRO NAS ECONOMIAS COLONIAL, IMPERIAL E REPUBLICANA

*
Wilson do Nascimento Barbosa

INTRODUÇÃO

A consolidação do racismo antinegro no Brasil, praticamente indestrutível nas condições


da sociedade republicana, causou a exclusão do negro e impediu seu acesso à propriedade,
particularmente, àquele dos meios de produção. Na ânsia de transformá-lo em um
subproletariado para ser usado em quaisquer necessidades de produção e organização, também,
agravou as condições socioeconômicas e morais do trabalhador negro na escravidão. Tal atitude
teve impacto negativo sobre o desenvolvimento social ulterior de toda a população negra.

O chamado “preconceito racial” - na verdade racismo antinegro – não deriva apenas do


racismo no ambiente familiar. Ele expressa o domínio do racismo em todos os círculos da
existência social e em cada camada de associação cultural que envolva a vida quotidiana1.

A desumanidade das relações societárias brasileiras espanta a quantos aqui vêm de visita.
Somos um país no qual a pessoa comum está desprovida de direitos econômicos e sociais, e que
legalmente, nega a cada membro da população o direito à saúde, habitação e alimentação. Ou
seja, a fronteira de subsistência das pessoas passa pelo seu direito à existência, mas não garante
tal direito. Por esta razão, o discurso dominador faz uso constante das palavras “cidadão” e
“cidadania”, justamente porque eles não existem.

Nessas condições de juridicidade escravista mal disfarçada, a população negra é submetida


a todas as formas de abjeção, que em seu todo expressam o dimensionamento do racismo.

*
Professor Associado do Departamento de História da FFLCH-USP.
1
Vide Clóvis Moura, O preconceito de cor na literatura de cordel: tentativa de análise sociológica. São Paulo, Editora
Resenha Universitária, 1976; Joel Rufino dos Santos. Que é Racismo? São Paulo, Brasiliense, 1981; e Rita de
Cássia Souza Pierini. Racismo e Sala de Aula no Município de São Paulo: O Caso da Comunidade Negra no Antigo
Curso Primário – Zona Norte – 1970 – 1990. Depto. De História – Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH –
CAPH - USP, 1998.
A negação da terra à maioria absoluta da população rural contribuiu para sustentar a baixa
renda da população trabalhadora e a prevalência desorientada da agricultura exportadora, por
mais de um século após o término da escravatura. Por outro lado, a condição de miséria do
migrante interno, dada a ausência de transformação no mundo rural, tornou possível a
reconquista artificial pela burguesia dos frutos do trabalho industrial, tornando o cenário
doméstico do país um quadro desanimador diante do progresso social de outros países. Nas
últimas décadas, por parte das elites desenvolveu-se um desinteresse pela população local, o que
de certo modo pode explicar o agravamento das diferenças socioeconômicas, com o
recrudescimento do racismo e da violência2 .

Chegou-se assim ao cenário da globalização, em que a convergência dos mercados


financeiros metropolitanos com aqueles das regiões dependentes permitiu um rápido ocaso da
propriedade produtiva local, com o desaparecimento dos objetivos nacionais da economia de um
grande número de países, entre eles o Brasil.

O balanço de vinte anos de globalização está baseado na convergência financeira, indica o


reforço dos diferenciais de pobreza e riqueza, tornando difícil concluir que do seu avanço
resultará, espontaneamente, melhoria para as populações que já eram pobres e,
institucionalmente, marginalizadas. Qualquer instituto global reflete a desigualdade e aponta
para sua exacerbação. A Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do
Comércio (OMC) ou a Organização Ambiental Mundial (OAM) não iriam mudar a estrutura
interna das sociedades ou economias locais, para torná-las mais racionais, justas ou
equilibradas3.

Contrariamente, seu papel institucional é acelerar os movimentos transformadores em


favor de interesses que já são poderosos e cujas vozes ecoam. Isto é, com mais poder em tais
organismos. Exemplo foi a rapidez com que se deu, nos anos 90, a abertura ou liberalização dos
mercados locais, exigida pelas necessidades das grandes empresas e de sua expansão financeira.

2
Vide Clóvis Moura, O negro, de bom escravo a mau cidadão? Rio de Janeiro, Conquista, 1977; Sociologia do negro
brasileiro, São Paulo, Editora Ática, 1988 e Dialética radical do Brasil negro, São Paulo, Editora Anita, 1994.
3
Veja: Eric Hobsbawm. Era dos Extremos, São Paulo, Cia das Letras, 1995 e François Chesnais. A mundialização
do capital. São Paulo, Xamã, 1996.
2
Uma ordem social mais equilibrada dentro de uma nação e nas condições do mundo em
globalização, talvez seja mais difícil de instaurar antes dessa etapa mundializadora. Na verdade,
na óptica dos poderosos, qualquer distúrbio local é mal compreendido e deve ser interpretado
como oposto às grandes direções da mudança globalizadora. Nessa esfera estratégica, não há
lugar para os perdedores de hoje. Muito menos para os perdedores da véspera.

Assim, as dificuldades brasileiras refletem as dificuldades de uma classe dominante que


tem demonstrado, historicamente, pouca habilidade para elaborar e/ou sustentar um projeto
nacional. Qualquer comparação entre o materialmente gigantesco Brasil e a pequenina e dividida
Coréia deixará sem argumento o defensor das iniciativas pindorâmicas.

“Subimperialismo industrial”, “bomba atômica nacional”, “um só tiro no tigre”, etc.,


podem ser discursos de grande efeito eleitoral ou doméstico, mas são igualmente incapazes de
dar trabalho ou comida aos pobres, restituir a dignidade de cidadãos, ou diminuir os crimes
violentos. Então, seu impacto sobre a virulência de fundo étnico é igual a zero.

Um dos traços da historiografia analítica é periodizar o Brasil, desde a intensificação da


atividade ocupadora do solo. Desse ponto de vista, poder-se-ia compreender o país assim:

Primeiro século-1551-1650;
Segundo século-1651-1750;
Terceiro século-1751-1850;
Quarto século-1851-1950;
Quinto século-1951-... .4

PRIMEIRO SÉCULO (1551-1650)

O primeiro século logo se destaca com caracteres próprios: (a) instalação do sistema
escravista, com base na atividade açucareira; (b) crise da autoridade portuguesa nas colônias,

4
Ver: Nelson Werneck Sodré. Formação Histórica do Brasil. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1963.
3
com a "união das coroas ibéricas"; (c) formação dos quilombos e suas implicações étnico-
culturais.

INSTALAÇÃO DO SISTEMA ESCRAVISTA, COM BASE NA ATIVIDADE AÇUCAREIRA

Portugal já vinha se expandindo desde o século XV, com base no tráfico de escravos, ouro
e marfim da costa africana. Parte dos lucros dessas atividades foi usada para financiar plantações
canavieiras nas ilhas afro-portuguesas do Atlântico, que abasteciam Gênova e Amsterdã de
açúcar, diante da oferta insuficiente da Sicília, da Síria e do Egito.

As plantações de cana-de-açúcar e o estabelecimento de suas moendas deram-se por todo o


território litorâneo no primeiro século, desde São Vicente até o litoral da atual Paraíba. Foram
mais bem sucedidos os empreendimentos da Baía de Todos Santos para cima, que cresceram de
3, em 1549, para 227, em 1650. Essa forte expansão deu-se, aliás, com altos e baixos, perturbada
particularmente pelo choque dos interesses de Portugal e da República dos Países Baixos de um
lado e da Espanha, de outro.

Os comerciantes portugueses, liderados pela Ordem de Cristo, eram sócios do capital


comercial de Gênova e das praças dos Países Baixos, na produção e na comercialização do
açúcar. Contudo, com a associação de parte da nobreza de Portugal ao projeto filipino na
Espanha, a entrega do Trono português à Coroa de Espanha suscitaria perdas econômicas para os
grupos neerlandeses que, para compensar-se, invadiram diversas colônias portuguesas.

UNIÃO DAS COROAS IBÉRICAS

O período de 1580-1650 é, portanto, conturbado pela invasão da Bahia, de Pernambuco e a


luta militar que se trava pela posse do Brasil e de outras colônias portuguesas. As proporções do
conflito levaram a forte participação espanhola no mesmo, que declina após o restabelecimento
de Portugal como reino independente (1640). A partir de então, trava-se a luta portuguesa para
expulsar os neerlandeses do Brasil e do Ndongo ocidental, na Angola.

4
Durante o período da união das coroas ibéricas, o comércio no Atlântico havia se tornado
mais complexo. Os reinos africanos, vendedores de escravos do golfo de Benin e Angola,
tornaram-se fortemente dependentes do abastecimento de produtos europeus e luso-brasileiros,
de tal forma que sofreriam colapso sem o tráfico de escravos. As sociedades mercantis do
"comércio triangular" faziam prosperar suas praças na margem do Atlântico, com base nos
ganhos do fluxo de escravos africanos.

Por outro lado, os escravos entrados no Brasil em números crescentes e a preços


decrescentes durante o primeiro século, souberam, em parte, valer-se das dificuldades das
autoridades portuguesas para escapar rumo ao interior. Daí cresceu a importância de aldeias
independentes de negros foragidos da escravidão, durante todo o século XVII. Tais aldeias
tornaram-se mais notáveis na república de negros da Serra da Barriga, em Alagoas, geralmente
descrita como uma monarquia aberta, do tipo da democracia militar angolana. Ela subsistiu
sabidamente no período 1603-1697 e ficou conhecida como "Palmares". A palavra "quilombo"
pode ser livremente interpretada como "fortaleza do rei" e tornou-se extensiva a todos os tipos de
povoação, fundadas por negros escapados da escravidão no Brasil, e ao modo de vida por eles
gerado5.

IMPLICAÇÕES ÉTCNICO-CULTURAIS DOS QUILOMBOS

O segundo século da colonização compreenderá dois movimentos, do ponto de vista da sua


força de trabalho, predominantemente negra e escrava: a forte expansão mineradora do ouro e de
pedras preciosas, e a difusão dos quilombos por várias partes do que mais tarde se constituiria o
território nacional brasileiro.

A principal forma de organização socioeconômica no primeiro século da colonização foi,


sem dúvida, a "fazenda". Fosse ela simples "plantação" ou também centro de moagem de cana e
do fabrico dos "pães de açúcar", gerou um tipo de vida rural que beirava a auto-suficiência,
tornando-se para o escravo um mundo isolado que, a depender de seus administradores, podia

5
Para o assunto, ver: Décio Freitas. Palmares, a guerra dos escravos. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984; Clóvis
Moura. Quilombos, resistência ao escravismo. São Paulo: Editora Ática, 1989. Sérgio Correa da Costa. As Quatro
Coroas de Pedro I, Rio de Janeiro, Gráfica Record Editora, 3. ed. 1968.
5
constituir-se desde uma prisão a um verdadeiro inferno. Submetidos a sofisticados sistemas de
castigos corporais e espirituais, os escravos faziam do horizonte de uma possível fuga, a fonte da
utopia quilombola.

Cumpre recordar que os escravos eram constituídos de dois contingentes, em origem


distintos, particularmente no primeiro século: "os negros da terra", ou seja, as populações
aborígines que sob o pretexto da catequese e da guerra justa eram "descidas" de suas aldeias e
submetidos à escravidão; e "os negros da costa", em referência àqueles que haviam feito a
travessia do Atlântico, após a aquisição na costa africana6.

Uma vez que os escravos da costa, trazidos em grande número, vinham na proporção de
três homens para uma mulher, associado ao fato da elevada mortandade do indígena masculino
em sua resistência ao colonizador, verificou-se, desde o primeiro século, a forte tendência à
miscigenação entre as populações escravizadas, que também viram crescer os eventuais filhos
dos colonizadores no seu meio. Estes, acidentalmente foram gerados em grande número, como
resultado de relações sexuais não legalizadas com as escravas. Tal fato contribuiu para criar,
mais tarde, o mito de uma suposta tolerância racial do colonizador e as políticas de dissolução do
negro, por via do branqueamento físico e psicológico, na República contemporânea.

No entanto, no primeiro e segundo séculos, a associação étnica entre negros importados e


indígenas contribuiu para criar tipos físicos próprios na colonização brasileira e para assegurar a
sobrevivência quilombola nas matas, no caso sistemático das fugas e do abandono de escravos
"decaídos" ou "quebrados". Eram estes, escravos que haviam perdido o valor econômico, pelo
efeito de doenças contagiosas ou de trabalho, sendo "mandados embora" pelos amos, que fugiam
assim à responsabilidade de sua manutenção ou tratamento.7

Embora a lei portuguesa buscasse limitar as condições da escravidão, circunscrevendo seu


ambiente étnico, em virtude de sua generalidade, era possível ao poder dos escravistas
simplesmente ignorá-la, o que continuou a se dar após a Independência (1822). Assim, as

6
A propósito, ver: Édison Carneiro. Antologia do Negro Brasileiro. Rio de Janeiro, Globo, 1950; Suely Robles Reis
de Queiroz. Escravidão negra em São Paulo: um estudo das tensões provocadas pelo escravismo no século XIX.
Rio de Janeiro, J. Olympio Editora, 1977; e Manolo Garcia Florentino. Em costas negras: uma historia do trafico
atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e XIX. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995.
7
José Alípio Goulart. Da palmatória ao patíbulo; castigos de escravos no Brasil. Rio de Janeiro, Conquista, 1971.
6
crianças dos quilombolas ou das aldeias indígenas, apreendidas nas matas e nas beiras dos rios,
continuaram a ser, indiferentemente, reduzidas à escravidão, sendo, após seus batismos em
igrejas e capelas católicas, entregues aos seus "padrinhos" para que lhes propiciassem a educação
trabalhadora adequada. Emassadas nas senzalas e castigadas do mesmo modo dos demais
escravos, tais crianças logo desapareciam como indivíduos que deveriam ser livres, no coletivo
escravizado.

Por outro lado, a população indígena sobrevivente vivia sobre a dupla pressão dos capitães
do mato escravizadores, de um lado e escravos foragidos, de outro. Ambos vinham ter às suas
aldeias, trazendo consigo a presença constante e destruidora do mundo português.

Sendo os quilombos à semelhança das democracias militares africanas e uma sociedade de


inclusão, todos os elementos perseguidos ou adversos ao poder luso-brasileiro tinham abrigo
neles. As circunstâncias da sociedade colonial, apenas reconheciam o direito à propriedade de
uma minoria de seus indivíduos, com destaque para os senhores de terra e os arrendadores de
recursos naturais. Conseqüentemente, em virtude dos periódicos deslocamentos dos eixos
econômicos da atividade exportadora, deixava em sua periferia um número enorme de alijados
de toda espécie que, não tinham por que valorizar a hostilidade com os quilombolas, mantendo
feira e comércio com eles, em diferentes pontos do território. Ficaram célebres os quilombos de
Palmares e de Canhoto (PE), no primeiro século; de Icatu, Turiaçu (MA), Capim e Moju (no
PA), no segundo século: dos Calungas (GO) e da Rocinha (RJ) no terceiro século; quilombo do
Iguaçu, no quarto século, etc8.

O mais importante a observar aqui é o impacto, no segundo século, da atividade


mineradora com a escravidão e a urbanização. O ouro em circulação na colônia elevou o preço
de todas as mercadorias - incluindo escravos - e acelerou a imigração portuguesa. A deficiência
da economia de serviços, que já se fazia sentir nas condições da atividade açucareira, tornou-se
crítica nas condições mineradoras, exigindo impulso urbanizador, oferta maior de alimentos,
estradas novas e meios de transporte, etc., tudo a contribuir para uma maior mobilidade da massa

8
Ver J. A. Goulart. op. cit. e Alaôr Eduardo Scisínio, Dicionário da Escravidão. Rio de Janeiro, Léo Christiano
Editorial Ltda., 1997.
7
de trabalho escravo, o aumento de seu número e a completa entrega de todas as habilidades
profissionais exigidas pelo mundo em urbanização a esta massa.

Com tal aumento da flexibilidade escravista, inúmeros quilombos tiveram a possibilidade


de uma coexistência no contexto local da sociedade, desempenhando na sua economia certo
papel de complementaridade no abastecimento das vilas e cidades em expansão. São, portanto,
características do segundo século de colonização: (a) diversificação do sistema escravista, com
base na atividade mineradora; (b) expansão do Estado português na colônia, para assegurar-se de
sua riqueza; (c) ampliação da massa trabalhadora escrava e complexificação de suas habilidades
técnico-profissionais.

SEGUNDO SÉCULO (1651-1750)

A exploração da terra, por meio de "fazendas", concentrava o escravo em três tipos de


atividades: exploração dos recursos naturais; produção agrícola, em certos centros, e sua
transformação e, ainda, atividades de serviços gerais, destacando-se armazenamento e transporte.
Vê-se, portanto, que grande número de profissões estava aqui abarcada. A "ponta" tecnológica da
época era a atividade mecânica, sendo que reparações muito complexas do mecanismo dos
engenhos eram feitas na metrópole. Com o avanço da atividade mineradora, a divisão social do
trabalho entre os escravos ampliou-se ainda mais, para corresponder às novas necessidades da
dominação portuguesa. Era tolice para um português livre dedicar-se a tarefas físicas, quando
podia comprar ou alugar escravos para isso, treiná-los, utilizá-los ou revendê-los. O
amoedamento em grande quantidade mercantilizava as próprias relações de trabalho escravo, e
permitia ampliar a apropriação efetiva da mais-valia que podia ser produzida9.

No século XVII brasileiro, a propriedade de escravos era tão difundida quanto a de


veículos automóveis ou telefones, hoje. A locação ou sublocação do trabalho escravo gerava
ganhos monetários imediatos para o seu proprietário. Desse modo, grande parte da força de

9
Charles Ralph Boxer. A idade de ouro do Brasil. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969; João Pandiá
Calógeras. Minas Do Brasil E Sua Legislação: Geologia Econômica Do Brasil São Paulo, Nacional, 1938; e Luciano

8
trabalho escrava seria utilizada nas cidades e na economia de serviços. Remeiros, barqueiros,
ferreiros, ourives, calafates, ferramenteiros, barbeiros, marceneiros e carpinteiros; ajudantes de
cirurgiões, soldados, parteiras e mensageiros, quaisquer que fossem as atividades produtivas e de
serviço subalterno, encontradas entre 1550 e 1888, ali se encontravam os escravos.

Vê-se assim, que se encontram duas tendências para a transformação da força de trabalho
escrava, no curso do terceiro século (1751-1850). A primeira delas é a tendência para a
desescravização e a segunda, a tendência para a diversidade profissional.

A tendência para a desescravização decorria das necessidades naturais do trabalho escravo


para renovar-se em sua mão-de-obra, acompanhando os ciclos comerciais - 7 a 10 anos.
Supondo-se uma leva de escravos A1, ela era amortizada e tendia a ser substituída - por depleção
- no curso completo de tal ciclo comercial, por outra leva A2. Evidentemente, os escravos menos
produtivos eram transferidos para tarefas secundárias, atividades não exportadoras, manumitidos
ou simplesmente "mandados embora". Essa capacidade do sistema produtivo para renovar-se
permitiu, aos ex-escravos, a constituição de um amplo setor demográfico fora das atividades
escravistas, dando origem, no terceiro século, à constituição do negro como um povo
independente no Brasil. A discussão desse papel independente e possível nas relações produtivas
é conhecida na historiografia brasileira como "brecha camponesa" 10.

Outro elemento interessante da formação do povo brasileiro foi a tendência para a


diversidade profissional, que se associa com as complexas demandas urbanas da mineração.
Devido à importância dos descaminhos, era ao negro, em geral escravo, que competia "pôr a
cara" e "correr riscos" de inúmeras operações ilegais. As ruas principais do Rio de Janeiro e de
Salvador estavam pontilhadas de oficinas, onde ourives, em grande parte trabalhando a destaque
- produziam jóias e outros objetos - com prata e ouro, aparentemente, legais. As investigações

Raposo de Almeida Figueiredo. Revoltas, fiscalidade e identidade colonial na América Portuguesa: Rio de Janeiro,
Bahia e Minas Gerais (1640-1721). Tese de Doutorado Depto. História; FFLCH, USP São Paulo, 1996.
10
Ciro Flamarion Cardoso Agricultura, Escravidão e capitalismo Editora Vozes, Petrópolis, 1979; Economia e
sociedade em áreas coloniais periféricas, Guiana Francesa e Pará, 1750-1817.
Rio de Janeiro, Graal, 1984; A Afro-América: a escravidão no novo mundo. São Paulo, Brasiliense, 1982; Clovis
Moura. Dialética radical do Brasil negro. São Paulo, Editora Anita, 1994 e Jacques Edgard François D´Adesky
Pluralismo étnico e multiculturalismo - racismos e anti-racismos no Brasil. Tese de Doutorado. São Paulo, FFLCH-
DA-USP, 1997.

9
eventuais, não raro, encontravam uma mesma documentação - muitas vezes clonada -
acobertando a recepção e consumo de diferentes cargas da matéria-prima de elevado valor. No
caso, a repressão policial não atingia os verdadeiros proprietários, mas os escravos e libertos que,
aparentemente, cometiam os delitos de motu proprio. O preço de semelhante risco era
endinheirar-se e/ou comprar a própria liberdade ou, até mesmo, chegar à propriedade de
escravos. O mesmo se dava com minas, fundições e garimpos clandestinos, que em certa monta
haviam de ser encontrados, com tais negros penalizados, restando-nos, hoje, a documentação
como prova das espertezas então praticadas.

O fato é que a mineração, no segundo e terceiro séculos, deu origem a uma camada de
negros pequenos-proprietários, nos mais importantes centros urbanos e ela haveria de subsistir
até os começos da República, quando seria finalmente eliminada pela concorrência da nova
imigração européia.

DIVERSIFICAÇÃO DO SISTEMA ESCRAVISTA, COM BASE NA ATIVIDADE MINERADORA

O problema do desenvolvimento da escravidão no mundo colonial não é apenas - como


indicado em geral pela historiografia - um problema de carência de mão-de-obra em
determinadas regiões exploradas. É, principalmente, a necessidade de um tipo de capital em
romper os impeditivos de suas pré-condições para prosseguir-se acumulando. Acumulado na
esfera da circulação e nutrido por suas criaturas - o capital comercial e o capital usurário – o
capital mercantil devia levar a cabo a acumulação primitiva e transformar sua melhor parte no
capital industrial, para sobreviver historicamente.

Assim, o amontoamento produtivo de capital mercantil devia dar-se por outras formas que
negassem essa forma geral - para solucionar de modo específico - aspectos próprios da
acumulação primitiva, em cada situação histórica dada. No caso americano, a forma colonial
principal do capital mercantil havia de dar-se, pois, enquanto capital escravista, pois apenas esta
forma poderia resolver os dois problemas correlatos necessários: uma produção a comando e a
obtenção da mão-de-obra escrava.

10
O capital mercantil deveria "mergulhar" na colônia sob a forma de escravos e maquinário,
para vir à tona, no fim do ciclo reprodutivo, sob a forma de mercadorias transformáveis em mais
dinheiro, ou seja, lucro.

Isto conduz a dois outros subconjuntos de problemas, a saber: a natureza econômica do


capital mercantil e a natureza social do capital mercantil - que subestrutura social ele representa?.
A maioria dos autores que estudaram o processo de acumulação brasileira, na condição de
colônia e semicolônia (1530-1888), evitou estabelecer uma tipologia do capital segundo a sua
natureza e deixaram, portanto, de definir a problemática da acumulação, dedicando-se apenas a
discutir o problema do trabalho.

Infelizmente, não se pode explicar as transformações sociais sem recorrer a uma


explicação prévia dos mecanismos da produção e distribuição, ou seja, onde se origina a
diferenciação social que culmina em novas estruturas de poder: na produção ou na distribuição?

A resposta que nos diz que o capital mercantil é de uma mesma natureza nas metrópoles
nas colônias, não resolve o problema de explicar os mecanismos da acumulação doméstica ou
interna, quando o caso, nas colônias. Houve nas metrópoles uma crescente diferenciação social,
demandada por necessidades de seu crescimento interno, pela qual surgiram novas atividades e
concentrou-se o processo de beneficiamento da produção primária, com sucessivas mudanças
tecnológicas que tinham por mecanismo o surgimento de novas atividades ou profissões
(carpinteiros, marceneiros, ferreiros, mecânicos, tripulantes marítimos, fundidores, etc.)11.

Ocupando-se o capital mercantil, com suas duas formas metropolitanas - capital comercial
e capital usurário - de acumular-se no circuito da distribuição, é de se entender seu mecanismo
de interferir na produção, a partir de aumentos excelentes e extraordinários em seu montante -
particularmente o capital usurário. Por via do roubo, da expropriação de produtores e da
pilhagem, o capital mercantil "acumulava-se", improdutivamente, na esfera da circulação, mas o
sistema industrial da época não era capaz de produzir o montante de produtos e mercadorias que

11
Ver a propósito: João Quartim de Moraes e Marcos Del Roio, orgs., História do Marxismo no Brasil: Visões do
Brasil. Campinas, Unicamp, 2000; e C. Morrison, J. Barrandon, Or du Brésil: monnaie et croissance en France au
XVIIIe siècle. Paris, CNRS Éditions, 1999. Para a esperteza da mineração, ver Paulo Cavalcante de Oliveira Jr.,
Negócios de Trapaça: Caminhos e Descaminhos na América Portuguesa (1700 – 1750). Tese de Doutorado. São
Paulo, DH-FFLCH-USP, 2002.
11
levassem o capital mercantil a um novo patamar de taxas de acumulação. Para manter a taxa
média de acumulação improdutiva, o capital mercantil metropolitano necessitava apropriar-se de
uma certa quantidade crescente de bens, produzidos fora da sua esfera e que seriam
transformados em mercadoria nas condições do desenvolvimento desigual - necessidade de
ganhar nas "duas pontas": ao comprar, e ao vender.

É esta insuficiência de produção que explica a crescente intervenção do capital mercantil


na esfera, que lhe é exterior, da produção - têxtil florentino dos séculos XIII a XVI; indústria
lanífera "espanhola" e inglesa nos séculos XIII a XVII; armaria e vidraçaria veneziana e
milanesa nos séculos XIII a XVI; todas contrapostas às esterilizações correntes da construção
civil, etc.

Mas a esfera “normal” do capital mercantil não era para intervir na produção, ultrapassar
gargalos produtivos. Seu desempenho normal era ganhar com base na usura e nas insuficiências
da oferta, e da procura; era tirar partido do desenvolvimento desigual - navegação genovesa e
portuguesa nos séculos XII a XVI; navegação holandesa e espanhola nos séculos XV a XVIII;
navegação inglesa no século XVI a XVIII; etc. A intervenção do capital mercantil na estrutura de
produção se dava, apenas nos casos em que o nível de acumulação da produção oficial mostrava-
se mais rentável que uma parte das operações comerciais alternativas. Ou seja, a produção
artesanal-oficinal havia avançado até um ponto em que carecia de mão-de-obra externa, que ela
podia remunerar melhor, e a reprodução ampliada das oficinas (crescimento mais rápido da taxa
do número de oficinas que o crescimento populacional e da mão-de-obra oficinal). Este tipo de
transformação "aberta" era dinâmica e modificava o capital mercantil em capital industrial12.

Ora, a "descida" do capital mercantil metropolitano, por via do "pacto colonial", só se deu
a partir do saque das grandes navegações. Portanto, o empreendimento colonial teve dois
objetivos práticos: (a) o saque e pilhagem que gerariam as “colônias”; e (b) com os ganhos de

12
Ver: Carlos Prieto. A Mineração e o Novo Mundo. São Paulo, Cultrix, 1976; Paul Mantoux. A revolucao industrial
no seculo XVIIi: estudo sobre os primordios da grande industria moderna na inglaterra, Sao Paulo, Hucitec/unesp, 19-
-, Phyllis Deane. The state and the economic system :an introduction to the history of political economy, Oxford
[England] New York : Oxford University Press, 1989; Revolucao industrial. Rio de Janeiro, Zahar, 1973; Roberto
Martins. Minas e o tráfico de escravos no século XIX, outra vez. In: História e Perspectivas, Uberlândia,
julho/dezembro de 1994, no. 11; Jorge Siqueira. Contribuição ao estudo da transição do escravismo colonial para o
capitalismo urbano-industrial no Rio de Janeiro: A Companhia Luz Stearica (1854-1898). Dissertação de mestrado,
Universidade Federal Fluminense, 1984.
12
(a), levando a um novo patamar de acumulação, complementou o ciclo da produção
metropolitana, de tal forma que se tornasse sistemática, a ocorrência de excedentes na esfera
produtiva. Qual o objetivo da obtenção de tais excedentes? Impedir a esterilização do excesso de
capital mercantil na esfera da circulação.

Como sabemos, o capital mercantil teve que: inventar novos mecanismos de concentração
social dos ganhos da troca desigual, a fim de poder concentrar mão-de-obra nas colônias; tal
concentração de mão-de-obra, atuando a comando, só podia ser obtida na época através da
experiência histórica de escravização; e nessas pré-condições, uma parte do capital mercantil
precisava "recuar" até formas históricas anteriores, ou seja, imobilizar-se sob a forma de
patrimônio físico, para operar a mão-de-obra escrava nas colônias.

TRANSFORMAÇÕES DO CAPITAL MERCANTIL

É evidente que a "imobilização do capital mercantil" nas colônias, sob a forma de prédios,
navios, máquinas, etc., não se constitui uma esterilização do tipo da construção gótica. Esta
imobilização não é um serviço, mas um meio de produção. Se ocorresse na metrópole, seria a
transformação do capital mercantil no capital industrial, a faceta principal da acumulação
primitiva, do ponto de vista histórico-econômico. No caso em que a imobilização ocorresse na
colônia, o capital mercantil deveria se transformar em capital escravista, porque não seria lógico
tachar de capital-dinheiro, uma relação social que se estabelecesse a partir da posse de escravos e
criasse, produtivamente, uma dinâmica própria.

Não se tratava de uma esterilização. Esta forma do capital mercantil, o capital escravista,
assumiu assim vida própria ao mesmo tempo em que transferia bens líquidos da produção para as
metrópoles, era o Midas da escravização. Buscava transformar em escravos e meios de produção
escravistas tudo que tocava, correndo, por esta forma para o elevado ritmo de produção
comandado pelo comércio exterior. Quanto mais produzia, mais derrubava o valor da sua
produção; competia consigo mesmo em cada local; permitia às colônias competirem entre si;

13
criação degenerada pela especialização que precisaria ser destruído, quando não fosse mais útil.
A história evidencia que assim ocorreu, embora houvesse deixado vasta herança cultural13.

Tabela
Metamorfose do capital mercantil para fins de acumulação

Ano Natureza Acumulação Acumulação Cafeicultura


do Bovinocultura
capital
Nº de cabeças Taxas Nº de escravos Nº de cafeeiros Em Produção Taxas
0 mercantil 0 0 0 0 0
1 colonial 2 2 4.000
2 3 3 10.000
3 1,3195 4 16.000
4 4 5 18.000
5 5 6 19.000 4.000
6 6 8 20.000 10.000
7 8 10 21.000 16.000
8 10 12 22.000 18.000 1.2758
9 12 1,2129 19.000
10 15 20.000
11 18 21.000
12 mercantil 21 22.000

------------------
Fonte: Imaginado.

A tabela nos mostra dois exemplos de acumulação colonial, sob diferentes formas
produtivas. O primeiro caso, nos mostra a transformação do capital mercantil em capital
pecuário, tendo como principais fatores produtivos a terra barata - quase gratuita para a classe

13
Ver Karl Marx, El Capital. México, FCE, 1956. 3 volumes. Jacob Gorender. O escravismo Colonial, São Paulo,
Editora Atica, 1988; e Robert Davis. Capital, State, and White Labour in South Africa, 1900-1960. Atlantic Highlands,
N.J., 1979..

14
dominante da metrópole - ou recursos naturais (RN) abundantes, alguma mão-de-obra e algum
gado.

Se pusermos nossa imaginação a trabalhar, entenderemos que probabilisticamente, quanto


maior for o capital aplicado, maior oportunidade haverá de ultrapassagem dos valores médios
indicados na tabela. O capital pecuário, por exemplo, indica um crescimento geométrico de 21%
ao ano, do sétimo ano até o décimo segundo. Quanto ao capital escravista cafeicultor, indica-se
um crescimento médio de 27% ao ano, entre o quinto e o décimo sexto ano. Ao mesmo tempo,
observa-se teoricamente o movimento da reprodução simples para ampliada, que tem como
contrapartida tanto um ciclo bem definido quanto a metamorfose, através desse ciclo do capital
mercantil em capital colonial e a sua reconversão em capital mercantil, ao efetivar-se o
movimento descendente do ciclo. Vemos, pois, que as diferentes formas do capital colonial são
apenas metamorfoses histórico-concretas do capital mercantil metropolitano, para se reproduzir
às taxas mais altas possíveis, economicamente14.

Assim, se o oligarca colonial possui não dois bois, mas 20.000 bois, ele terá tanto
assegurado menor flutuação na faixa da média da acumulação pecuária, quanto apresentará a
tendência para o seu capital pecuário se formar acima desta média. O raciocínio é similar para
qualquer forma do capital colonial, tornando-se a forma de exploração mais interessante em
função da demanda externa, metropolitana, pois a razão de ser da metamorfose do capital é sua
efetiva realização no nível do mercado internacional e não a simples produção de montanhas de
inutilidades coloniais, aspecto "involuntário" da sua reprodução.

TERCEIRO SÉCULO (1751-1850)

As principais mercadorias brasileiras, no século XIX, foram: café, açúcar, charque,


aguardente da terra, milho, feijão, arroz, toucinho, azeite de peixe, drogas do sertão, mate,
tabaco, anil, couros, polvilho, algodão bruto, reses, borracha, madeira, farinha de mandioca,

14
Ver Oskar Lange. La Reprodución Ampliada, Fundo de Cultura Economica, México; Teoria de la Reprodución y de
Acumulación, Barcelona, Ariel, 1970. Arghiri Emmanuel. Le profit et les crises: une approche nouvelle des contradictions du
capitalisme, Paris, F. Maspero, 1974.
15
queijos e doces em conserva. Vemos que elas cobrem duas naturezas: o consumo local e as
exportações. As diferentes organizações econômicas destas produções eram cobertas pelo
guarda-chuva de maximização dos preços, que as grandes exportações ofereciam do tipo: café,
algodão, açúcar, borracha, minerais preciosos, aguardente, couro e drogas do sertão15.

As taxas de reprodução, nas condições de exploração dos recursos naturais, não eram um
único elemento diferenciado no processo do capital produtivo, uma vez que o problema da
realização já existia. Portanto, a posição particular de cada produto no nível da demanda externa
otimizava a sua maximização específica; é o fator que explica o retrocesso do capital usurário e
da categoria dos mercadores, ao longo do século XIX, em proveito do capital industrial. Quanto
maior o mercado, maior a determinação da procura; quanto maior a procura, maior o espaço para
a produção por máquinas, inovações tecnológicas; capital industrial, enfim.

DIVERSIDADE DO CAPITAL ESCRAVISTA

Por esta razão, vemos a simbiose aparentemente estranha, da mão-de-obra escravista com
maquinário da revolução industrial. Nas condições do café, o escravismo deixava de ser uma
sociedade para se constituir em forma exportadora.

Ao se converter em "capital colonial", o capital mercantil primeiro pagava pelo tempo de


espera, necessário à reprodução ampliada. Por isso, a forma mais corrente a sofrer metamorfose
era o capital usurário, a partir dos ganhos no circuito da circulação, convertendo aguardente e
barras de metal em escravos; os escravos em mercadorias coloniais e uma parte reduzida dos
ganhos com as mercadorias coloniais, num novo momento, em aguardente e barras de metal.
Vemos assim, que o tempo de carência necessário à reprodução ampliada era obtido na
importação da produtividade, fosse africana ou brasileira, para financiar a expansão produtiva da
colônia.

15
Veja: Delso Renault. Indústria, escravidão, sociedade: uma pesquisa historiográfica do Rio de Janeiro no século
XIX, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976; Mafalda P. Zemella. O Abastecimento da Capitania das Minas
Gerais no Séc. XVIII, São Paulo, 1951; Celso Furtado. Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Fundo de
Cultura, 1959.
16
Por outro lado, quanto mais se expandiu o capital industrial, maior era a tendência para que
os preços das mercadorias fossem determinados no nível da produção industrial, medindo-se em
termos de salário não pagos e reduzindo, cada vez mais, as margens de ganho de capital usurário.
Daí a necessidade deste de acorrer massivamente à produção colonial e semicolonial, para
transformar-se, em longo prazo, em novas mercadorias e capital industrial.

Portanto, a peculiaridade de financiamento da produção colonial, do ponto de vista da


acumulação, era que ela se autofinanciava de patamares de taxas menores de crescimento, para
aquele de taxas maiores. Este autofinanciamento, pelo mecanismo de transferência de
produtividade - maiores quantidades de trabalho exportadas -, era também um mecanismo
relativo de auto-empobrecimento, como se revela na taxa cambial. Em longo prazo, contudo, era
impossível drenar toda a riqueza gerada pela necessidade de expandir a produção e manter a taxa
média de lucro16.

Não só se conservavam, mas até se expandiam, setores naturais, seminaturais e de pequena


produção mercantil, que de fato operavam em grande número de produtos e mercadorias, com
situação compensatória de preços. Não devem, contudo, ser confundidos com o lugar ocupado
pelo país na divisão internacional do trabalho, que caracterizava mecanismo da acumulação. As
atividades, que não estavam diretamente destinadas à acumulação na esfera produtiva,
desempenharam o papel geralmente chamado de subsistência e, em nível mais avançado, vinham
formar setores de mercado locais, germens de um futuro mercado interno.

A REORGANIZAÇÃO ESCRAVISTA NO TERCEIRO SÉCULO E OS EFEITOS DA HEGEMONIA CAFEEIRA

A organização escravista da produção não passou indene pelas profundas transformações


do mundo e, conseqüentemente, do Brasil, no período 1770-1830. Este meio século assistiu o
triunfo do industrialismo da Inglaterra e o advento das crises econômicas capitalistas. Assistiu à
Revolução francesa, com a propagação de seus ideais na América e a libertação generalizada das
colônias ibéricas.

16
Veja: Arghiri Emmanuel, A troca desigual, B.E.C., Ed. Estampa, 2 vols. Lisboa, 1976; Marina Bianchi, A Teoria do
Valor, Lisboa, Edições 70, 1981.
17
Neste período, o avanço das formas industriais do capital haviam de significar, também,
uma reorientação do capital mercantil, tão bem caracterizada no novo balanço de forças do
congresso de Viena e do impacto das rebeliões populares de 1817, 1830, e, logo, 1848.

O problema nacional se colocaria para o capital industrial que, com o avanço do navio a
vapor e da ferrovia, amadurecia para a grande transformação dos transportes, com mais uma fase
de "encolhimento do mundo". A derrota do "bloqueio continental" de Napoleão, a derrota dos
"100 dias", era também a derrota irremissível do capital mercantil em escala internacional e o
advento da era do industrialismo.

Como é amplamente conhecida, a economia da colônia, logo Reino Unido, passou por
grave incerteza e comoção no período, adaptando-se finalmente ao ciclo das demandas
industriais, fundamentalmente através do café. Temos assim um novo momento do escravismo
brasileiro, ligado à mão-de-obra na produção intensiva de café, para a exportação. A queda
gradual dos valores de exportação, após esforço do período pombalino, avançou até o período da
presença de Dom João, agora feita demanda por novos produtos tropicais. O Maranhão,
aproveitando-se da guerra anglo-americana, pôde, temporariamente, avantajar sua condição de
exportador de algodão, sem, contudo, propiciar mudanças estruturais por via desta fase
favorável.

Assim, a deterioração dos termos de troca criou forte endividamento externo, ampliado
pela presença da Corte portuguesa e os custos das guerras de Dom Pedro. Faltava um produto-
guia na pauta de exportações e este produto novo foi o café, espalhando sua produção pela
baixada fluminense e as terras em torno da baía do Rio de Janeiro. A consolidação do café como
centro da atividade exportadora e da captação de divisas, portanto, veio a ocorrer no período de
1830-1860, produzindo produto em território paulista nos anos 30, em escala econômica17.

O colapso do Primeiro Reinado pode ser compreendido pela contradição entre uma política
centralista em excesso; e a insuficiência de renda disponível, de capacidade de pagamento no
exterior, etc., condições que decorriam da referida ausência de um produto-guia na economia e

17
Veja, a propósito: José Jobson de A. Arruda. O Brasil no comércio colonial, 1796-1808: contribuição ao estudo
quantitativo da economia colonial, São Paulo: Hucitec, 1982; Brasil Gerson. A escravidão no Império, Rio de Janeiro,

18
exportação. Por isto, a efetiva formação e consolidação do estado brasileiro foram um fenômeno
do período da Maioridade, em que a balança comercial já favorecia recursos para as atividades
mínimas do poder central. O café permitia a consolidação do Estado, o sucesso da Maioridade e
traria, pouco a pouco, o superávit das receitas sobre as despesas, fato que permitiu a
sobrevivência da monarquia centralizada, no cenário da segunda metade de um século XIX
instável e, mesmo, cambiante.

Este predomínio viria a se caracterizar por todo o espaço de um século (1830-1930). A


cafeicultura possuía características parecidas com a cultura da cana-de-açúcar, embora
demandasse uma menor plasmação social do que esta. Em contraposição, numa certa medida, à
atividade canavieira, a cafeicultura escravista não necessitava do estabelecimento de uma
economia social. Esta contraposição era bastante frontal, quando se toma o caso da exploração
mineradora de bens preciosos, característica da ocupação do território de Minas Gerais.
Esquematicamente, pode-se centrar as diferenciações vitais nos seguintes pontos: (a) condições
de circulação no setor produtivo; (b) situação da força de trabalho; (c) estrutura das unidades
produtivas; (d) mudanças na orientação da produção; (e) efeitos no papel desempenhado pelo
setor; (f) posição, para o futuro daquela época, do setor no desenvolvimento nacional.

QUARTO SÉCULO (1851 – 1950)

NOVOS TRAÇOS NAS CONDIÇÕES ESCRAVISTAS

(A) Condições de circulação no setor produtivo. A circulação se coloca, aqui, nos seguintes
níveis: (1) circulação física dos bens, matérias-primas e insumos; (2) circulação dos produtos
finais para seus mercados consumidores; (3) circulação dos recursos necessários (mão-de-obra,
dinheiro, equipamentos) à efetivação da produção.

Pallas, 1975: e Leslie Bethell. A Abolição do Tráfico de Escravos no Brasil: A Grã Bretanha, o Brasil e a Questão do
Tráfico de Escravos: 1807-1867. Trad. Vera Neves Pedroso.
19
A tração animal e os barcos à vela continuaram a predominar nos transportes locais e
regionais da economia cafeeira, embora em nível internacional a saca de café transladou-se
gradualmente, do lombo de burro e do barco à vela para ferrovia e o navio a vapor. O avanço da
organização, à época da expansão cafeeira, constituía-se de um elemento - ao menos potencial -
de competição pelos recursos disponíveis - mão-de-obra, dinheiro, equipamentos. De fato, o
apogeu do escravismo cafeicultor seria breve (1830-1880). Isto implica reconhecer o caráter
mais complexo da expansão escravista no café, frente a outros fatores mercadológicos, que havia
ocorrido no caso do ouro e do açúcar18.

O crescimento do capital industrial inglês e a formação dos seus nichos de mercado, em


nível internacional, tinham por componente as mudanças significativas na economia das colônias
e semicolônias, em função da necessidade metropolitana de colocar máquinas, incluindo
equipamentos produtivos, para efetivar o seu poder de compra no local. Deste modo, havia da
parte da expansão inglesa um certo grau de indução à industrialização local, com pressão de
demandas de poucos itens em grandes quantidades, empurrando, pois, para novas divisões
sociais do trabalho. É evidente que estes patamares locais de industrialização podiam,
teoricamente, ser absorvidos tanto pela expansão escravista quanto por outros segmentos
produtivos. Em ambos os casos, contudo, haveria de se confirmar nossa hipótese de
competitividade com maior complexidade.

(B) Situação da força de trabalho. No que se refere à mão-de-obra escrava, o fim do


tráfico, a partir da África, colocou elementos estruturais de alteração tanto da sua intensidade no
uso, quanto de sua renovação por faixas de idade. É sabido que o desligamento cultural do
"Mina" com o meio brasileiro, facilitou seu uso intensivo, particularmente, nos primeiros cinco a
sete anos após o desembarque. O "crioulo" não se prestava a esta intensidade mortífera no
trabalho, por conhecer seus efeitos em outrem, opondo-lhes mesmo diferentes formas de
resistência. A estrutura de idade da população ativa na cafeicultura alterou-se rápida e

18
Veja: Clóvis Moura. O Negro no Mercado de Trabalho, São Paulo, Conselho de Participação e desenvolvimento
da Comunidade Negra, Estado de São Paulo, 1988; Décio Freitas. O Escravismo Brasileiro, Porto Alegre, Mercado
Aberto, 1982; e Ciro Flamarion Cardoso (org). Escravidão e Abolição no Brasil: novas perspectivas, Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1988.
20
desfavoravelmente, a partir de 1850, apesar dos "meia cara" e das migrações internas.
Conseqüentemente, a mudança técnica passou a ser o fator decisivo para assegurar o
desempenho de uma mão-de-obra em envelhecimento e de caráter escravo, apesar da introdução
de máquinas e melhorias das plantas. Por outro lado, competitivamente para o capital escravista,
o escravo mostrava-se elemento ativo na mudança técnica nos processos de industrialização e de
urbanização.

(C) Estrutura das unidades produtivas. O café exigiu, em sua organização escravista,
empresas ou unidades produtivas diferentes dos ciclos de produtos anteriores. Como se pode
observar na literatura, a fazenda cafeeira, muito distinta do engenho ou da plantação de cana-de-
açúcar; da mina, de garganta ou de aluvião; dos lavadores de ouro ou diamantes. As mudanças
na orientação da produção levaram em conta tanto a existência de novos recursos técnicos e
mercadológicos, quanto à experiência histórica acumulada no país e a expansão dos núcleos
urbanos, próprio do século XIX19.

(D) Mudanças na orientação da produção. À medida que a cafeicultura escravista se


expandia e se consolidava, também formava uma elite proprietária mais cosmopolita que
qualquer outra no Brasil, incluindo a elite dos mineradores. Nas novas condições, não era
necessário renunciar à cana para plantar café. Isto, em parte, refletia o avanço da sociedade
industrial, de seus meios culturais e de comunicação mais profundos, mais mercantilizados; de
outra parte, refletia o caráter “nouveau riche” desta elite cafeeira, com seu arrivismo, sua
ideologia cosmopolita, bastante dissociados do Brasil tradicional. Importa dizer que, tal elite
estava mais disposta a introduzir novas formas organizacionais para a produção, nem sempre
visualizando a falta da mão-de-obra escrava, do que o canto de cisne da sua condição de
proprietários. O monopólio da terra era seu elemento decisivo. Se a libertação da escravatura não

19
Veja: Francisco Foot. História da Indústria e do Trabalho no Brasil, São Paulo, Global Ed., 1982; Trem Fantasma:
a modernidade na selva, São Paulo, Cia. das Letras, 1991 e Edgar Carone. União e Estado na Vida Política da
Primeira República, São Paulo, 1971.
21
estivesse ligada ao fim do monopólio da terra, tal elite poderia tornar-se, mesmo, abolicionista,
fato que se verificou na prática.

É importante entender que tal elite não se constituía de “empresários”, mas de


“capitalistas” no sentido schumpeteriano: indivíduos que acumulavam, valendo-se de todos os
meios disponíveis, estavam dispostos a salvar o essencial dos seus privilégios, por meio da
modernização e da imigração. Daí a sua abertura para novos métodos organizacionais, desde que
fossem exigências na luta pela sobrevivência.

Com a derrocada do número físico do plantel do escravismo, em meados da década de


1860, acelerada pela Guerra do Paraguai e seus efeitos modernizadores sobre o sul e sudeste do
país, mesmo a elite cafeeira do Vale do Paraíba ou pelo menos sua porção são paulina, adaptou-
se rapidamente às novas circunstâncias, com a substituição de mão-de-obra negra pela imigração
européia, fenômeno ocorrido entre 1870-189020.

(E) Efeitos no papel desempenhado pelo setor escravista. A convergência desse


acúmulo de experiências e dessas novas situações históricas veio caracterizar o período cafeeiro
do escravismo como a "derradeira centelha do fósforo" que se apagava. Durante 50 anos (1830-
1880), ele preenche a cena da vida socioeconômica brasileira e desaparece para sempre. A
intensidade, o forte ritmo e a sua forma moderna não prenunciavam força, mas fraqueza. O
conjunto das forças do escravismo só podia produzir este setor exportador como avançado, capaz
de oferecer uma bebida quente à mesa das unidades consumidoras familiares, dos países em
revolução industrial. Esta efêmera mudança era, contudo, significativa. O ciclo do produto
agrícola voltava, dessa feita, associado às novas necessidades das metrópoles, o industrialismo e
o comércio internacional. Dentro deste quadro, inseria o Brasil num lugar próprio na ordem
mundial, caracterizando-lhe a posição de fornecedor secundário. O quadro de pobreza interna,
desacumulação pelo movimento exportador e concentração da propriedade, e da riqueza tendia,
assim, a se consolidar, fosse por fatores de ordem social ou cultural.

20
Veja: Clóvis Moura. O Negro, de Bom Escravo a Mau Cidadão? Rio de Janeiro, Conquista, 1977 e Roberto C.
Simonsen. Evolução Industrial do Brasil e outros Estudos, São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1973.
22
Através do café, na medida em que se criavam as condições para o desaparecimento da
escravidão, consolidavam-se na estrutura social e política todos os seus elementos negativos. A
recusa à ruptura da escravidão, que a expansão do café justificava, era também a recusa às
mudanças estruturais, à industrialização. Por outro lado, estas pressões culturais
desindustrializantes que o café expressava eram contra-trabalhadas na prática, pelo efeito de
guarda-chuva de seus recursos, acarretando a valoração das terras, das plantações e da
agricultura em geral, elevando o preço dos escravos, premissas de uma futura industrialização e
fonte imediata do movimento imigratório dos anos 1870-192021.

(F) Posição da escravidão cafeeira para o futuro previsível à época. Não se diz,
evidentemente, nada de novo ao afirmar que a opção pelo café era para viabilizar novamente a
escravidão. Dando-se-lhe vigor econômico, era possível, de fato, a uma elite fraca e incipiente
como a do Segundo Reinado fazer face à Inglaterra, contrapondo a esta a alternativa de mais uma
república de negros. Sem dúvida, o espectro era suficiente para apaziguar os mais exaltados
ânimos britânicos22.

"Assim que, atacar a escravidão para transformar o trabalho


escravo em trabalho livre, é mudar completamente não só a face da nossa
sociedade nos centros populares, mas, e particularmente, no campo; é
tocar em a nossa principal fonte de produção, e, portanto da riqueza
pública e privada".

"Por outro lado, é romper as relações entre senhor e escravo, entre


a obediência e o mando, destruir a organização atual, embora altamente
defeituosa, desses pequenos núcleos sociais, base de nossa grande

21
Ver: Francisco Foot. Nem Pátria, nem Patrão! São Paulo, Brasiliense, 1984, Lúcio Kowarick. Trabalho e
Vadiagem: A origem do Trabalho Livre no Brasil, São Paulo, Brasiliense, 1987; e Valentin Lazzarotto. Pobres
construtores de riqueza: Absorção da Mão-de-Obra e expansão industrial na metalúrgica Abramo Eberle, 1905-
1970, Caxias do Sul, 1981.
22
Célia Maria Marinho de Azevedo. Onda Negra, Medo Branco: O Negro no Imaginário das Elites séc. XIX, Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1987.
23
sociedade: o que é de recear se não faça sem comoção nas famílias, que
repercutir no Estado".23

Vê-se no texto que a ruptura das relações entre senhor e escravo, além de destruir a
organização então existente, podia levar à alteração da sociedade, ou seja, à indesejável
formação de uma sociedade de indivíduos livres. O fim da escravidão se daria – de outro modo -
pela extinção física dos escravos e o café próspero era o melhor instrumento para isso.

Do ponto de vista estratégico, pode-se dizer que a opção pelo gradualismo - o fim dos
escravos e não da escravatura - não foi plenamente efetivada, mas o efeito de bloquear a
formação de uma economia social, ou seja, de mercado livre, resultou na preservação dos
odiosos monopólios institucionalizados na vida brasileira do Segundo Reinado e sua
transferência à Primeira República. Esta visão cultural do problema da escravidão contribuía,
segundo se supõe, para desmobilizar os recursos obtidos pelo café e disponíveis para todo tipo de
modernização, dentre estes o mais importante, qual seja a industrialização efetiva. Havia,
portanto, uma contradição na riqueza trazida pelo café: ela condenava a escravidão e mantinha,
pelo lucro elevado, estruturas geradas pela escravidão. Nesse sentido é que o capital escravista
voltou a ser capital mercantil e usurário, em sua "viagem" histórica necessária para tornar-se
capital industrial, fenômeno que só iria se concretizar no período 1913-196224.

FLUTUAÇÕES DO ESCRAVISMO CAFEICULTOR

Durante o século XIX, particularmente após a extinção do tráfico, cresceu cada vez mais a
importância das atividades dos mercados locais. Isto porque um certo número de atividades, ao
longo do tempo histórico, deixava de se articular indiretamente com o mercado internacional,

23
Agostinho Marques Perdigão Malheiros. Apud A Escravidão no Brasil, Ensaio Histórico-Jurídico-Social, tomo II,
Edições Cultura, 1944, pp. 200-201, (1a. edição de 1867).
23
Veja: Caio Prado Jr., História Econômica do Brasil, São Paulo, Brasiliense, 1981, Humberto Bastos.
Desenvolvimento ou Escravidão, São Paulo, Livraria Martins Fontes, 2ª Ed., 1964; e V.I. Lenin. Sobre El Problema
de Los Mercados, Espanha, Siglo Veintiuno Ed., 1974.
24
Veja: Karl Marx, El Capital. op. cit.
24
representando, pois, um nível menos importante no processo de monetarização da economia, mas
articulava-se de modo próprio em nível local. A envergadura dessas atividades local variava,
obviamente, de região para região. Combinando a exploração escravista com outras formas de
trabalho, estas atividades desempenharam um papel suplementar ao processo da acumulação e
papel de primeiro plano, com relação à formação social brasileira.

Com o fechamento do tráfico de africanos, a mão-de-obra foi, pouco a pouco, se


transformando de "impeditivo do trabalho livre" para "mão-de-obra especializada de atividades
exportadoras", pois a intensidade do trabalho na esfera acumulativa só podia ser desempenhada
por escravos. Evidentemente, a mão-de-obra escrava que, por algum fator, não podia manter o
ritmo da agricultura de exportação, era desviada por mecanismos apropriados para o setor de
serviços ou do produto suplementar. Nestes, uma vasta gama de formas concreta de trabalho
podia-se verificar menos intensas.

Há uma diferença muito importante entre o lento crescimento do produto suplementar e a


rápida expansão das atividades exportadoras, estas submetidas a bruscas viragens e ritmos
marcadamente flutuantes. Daí que a mão-de-obra escrava, constituindo-se em mercado primitivo
de consumo muito baixo, fornecia a margem elástica para as flutuações impostas pela demanda
internacional, comportando-se quase como capital fixo.

Essa dinâmica lenta e quase linear, que caracterizava os setores do produto suplementar,
emprestava-lhe, também, significativa função complementar para eventuais picos de demanda de
mão-de-obra, cada vez mais presentes pelo efeito do fechamento institucional do tráfico. No
setor do capital escravista exportador, a separação entre o excedente e o consumo do trabalho
empregado fazia-se fortemente, pois a produção assumia a forma de mercadorias e estas,
exportadas, geravam ganhos em divisa, manifestando-se como poder-de-compra no exterior.
Quanto aos setores do produto suplementar, esta relação de apropriação comumente se
obscurecia, pela lentidão e, às vezes, incerteza da transformação dos produtos em mercadoria;
em dadas circunstâncias, o predomínio do trabalho escravo fazia com que o mesmo fosse
apropriado concretamente em atividades improdutivas, sem racionalidade para o sistema,
verificando-se baixa produtividade. Portanto, do ponto de vista da acumulação, os setores do
produto suplementar não desempenhavam o papel de um fator autônomo, mas de mercados
25
primitivos que eram incorporados ou desincorporados, de acordo com a lógica histórica da
produção exportadora25.

De fato, os setores producentes do produto suplementar, por sua própria natureza de


subsistência, apresentavam um nível baixo de acumulação, sendo que, inúmeras vezes, este
patamar reduzia-se à reprodução simples porque nem ultrapassava o crescimento demográfico.
Desvinculados da procura direta no mercado internacional, esses setores manifestavam
irregularidade no processo de acumulação. Grande parte dos seus ganhos na esfera comercial
esvaía-se na dependência das importações, agravada por ausência de mecanismo importador
próprio. Assim, a baixa produtividade do trabalho respondia pelo impedimento da acumulação e
a dependência do mecanismo importador. A maior parte dos produtores escravistas, pequeno-
burgueses urbanos ou rurais, tinha pouca possibilidade de mobilização de recursos financeiros,
sendo, muitas vezes, sua capacidade de poupança carreada para o exterior, por motivos culturais.
Dentro disso, as mudanças técnico-econômicas na agricultura se passavam mais do lado dos
grandes proprietários do setor exportador, de modo que a pequena produção pode ser
caracterizada como irregular e, mesmo, lenta, quando comparada com o quadro externo da
revolução industrial26.

Temos fortes indicativos do grau elevado de exportação do capital interno, tanto dos
fazendeiros do setor exportador, quanto dos pequenos-proprietários. As crenças liberais então
dominantes e a estrutura legal existente não visualizavam o chamado "problema nacional",
apontando mais para um apoio à divisão internacional do trabalho, fato que foi um contínuo,
desde o governo conservador de 1848 (Araújo Lima; Rodrigues Torres;) até João Alfredo e a Lei
Áurea (1887-88). Havia uma preocupação com depósitos em bancos estrangeiros, com o porte de
moeda estrangeira, que era entesourada junto com ouro e pedras preciosas. Uma grande
quantidade de recurso potencial para o investimento produtivo era drenado do mercado pelo
mecanismo do entesouramento, fazendo-se uma política de valorização dos patrimônios físicos -
terras, prédios, embarcações - e não do patrimônio mobiliário, o que desfavorecia o crescimento
e a mudança.

26
Ver: Tom Kemp. Modelos Historicos de Industrialización. Barcelona, 1981 e Celso Furtado. Subdesenvolvimento e
Estagnação na América Latina. Rio de Janeiro. Ed. Civ. Bras. 1967.
26
A entrada incompleta de lucros auferidos com as exportações, tendo em vista a formação
de reservas individuais em bancos metropolitanos, constituía-se mecanismo corrente e
descompensador da formação da capacidade externa de pagamento. Já existiam a sobrefaturação
de produtos importados, subfaturação de produtos exportados e transferência de recursos
financeiros para o exterior fora das normas legais - especulação sobre o câmbio -, com o
contrabando de moeda, metais e pedras preciosas, etc., tudo organizado por grupos "nacionais" e
"estrangeiros".

O Segundo Reinado apresentava, como se sabe, uma insuficiência crônica na produção de


alimentos, apesar das condições favoráveis do espaço nacional e suas diferentes ofertas
climáticas. Esta insuficiência era agravada por fatores culturais, pois as classes dominantes, de
origem européia, tinham forte demanda pelos produtos da área temperada, sendo a produção
local encarada como sucedâneos inferiores, que eram deixados de lado, quando a renda
disponível permitia crescer a preferência pelos importados.

O exame das importações mostra um espectro excessivamente amplo; um consumo em


excesso dos recursos em divisa, para o pagamento de produtos metropolitanos; a dependência
das importações temporariamente se atenuou de 1863-65, formando-se uma base segura para o
processo de acumulação, que já era propiciada pelo café. Assim, a constituição de um ambiente
basicamente acumulador, propiciado pelos ganhos do café, vai caracterizar a mudança estrutural,
perceptível no desempenho cíclico dos principais produtores e agregados, no período. O
fenômeno pró-acumulador foi o aumento radical do rendimento nacional e não o resultado de
políticas econômicas, que houvessem levado a uma utilização mais eficiente daquele rendimento.

No que se refere às condições de utilização produtiva dos recursos disponíveis, o caráter


agrícola da sociedade continuava limitado à montagem de unidades agro-pecuárias. Mas aqui,
também, o café trazia inúmeras vantagens sobre as propriedades canavieiras, exportadoras ou
não e as unidades policultoras do setor de produto suplementar. O caráter perene do arbusto do
café permitia uma média produtiva duas vezes maior, que a produtividade da cana-de-açúcar.
Conseqüentemente, as unidades produtoras podiam partir de diferentes escalas: pequena, média
ou grande, sem bloqueio do acesso à procura para as unidades menores. Os recursos
acumulavam-se, também, para os produtores menores, que participavam na expansão
27
subseqüente demandada pelo novo ciclo. Havia maior mobilidade econômica e social entre os
produtores de café, do que na estrutura precedente e isso favorecia certamente o processo de
monetarização da economia e de urbanização, numa escala mais vigorosa27.

Este aumento relativo da eficiência dos investimentos faz-se, de modo mais cabal, a partir
do conflito com o Paraguai, quando o país entra num patamar de modernização, cujo elemento
central é a nova imigração. A conjuntura do fim de século (Grande Depressão: 1873-1896)
haveria de colocar novos desafios adaptativos, que feriram de modo profundo a lógica da ordem
econômica baseada na escravidão, levando mesmo ao seu desaparecimento.

Empiricamente, há evidências de um crescente aumento do capital instalado, embora os


prazos de funcionamento vital do capital fixo sejam obscuros no período e podem apenas ser
estimados a partir dos movimentos cíclicos específicos. Também, não se dispõe de dados para
uma avaliação mais cabal do grau de eficiência dos investimentos no período, uma vez que o
predomínio do produto primário e os amplos recursos fornecidos pela natureza obscurecem o ato
de medir a efetiva eficiência econômica.

À semelhança do século XX, o maior crescimento econômico se deu no período de 1840-


1880, sendo a década de 80 (1881-1890), de flutuações muito fortes e até estagnação em alguns
ramos. Mas o aumento da população foi acompanhado por uma expansão dos postos-de-trabalho
e um aumento gradual da produtividade do trabalho.

Sendo a produção marcadamente orientada por técnicas manuais, inclusive em oficinas que
possuíam equipamentos mais modernos - a exemplo de Ponta d'Areia, Arsenal da Marinha,
estaleiro de Salvador -, os ramos de produção consumiam uma grande quantidade de força de
trabalho, havendo uma certa competição por mão-de-obra entre as diferentes atividades. Os
quase monopólios específicos do circuito de circulação desestimulavam, de fato, o aumento da
produção e da produtividade, em virtude dos baixos rendimentos da grande massa da população.
Sendo, conseqüentemente, instável o excedente de produção, a lucratividade era máxima no
circuito comercial, que superava as eventuais dificuldades ao evento e venda de mercadorias. A
baixa margem de lucro, em nível de produção, diminuía a importância dos investimentos,

27
Veja: Flávio Versiani J. R. Mendonça de Barros (orgs.). Formação Econômica do Brasil. A Experiência da

28
desestimulando o crescimento da eficiência produtiva e da escala da produção. Particularmente,
com relação às atividades secundárias, compreendiam grande capacidade ociosa, apesar da
pequena produção; operavam nas folgas das importações ou na produção de bens que não
compensava carregar sobre o oceano. Daí que sempre floresceu a posição do "intermediário".28

O adiantamento de dinheiro ou mercadorias era repassado pelo intermediário a um juro


ainda mais elevado do que dele cobravam; o capital usurário mantinha, assim, sob seu controle a
capacidade local de produção e amontoava-se como capital mercantil, passando ao fluxo externo
da economia. Portanto, aos desequilíbrios estruturais que vinham se manifestar nas oscilações
dos preços, incorporava-se às diferenças de preços de fonte usurária, tornando o capital mercantil
local maior e melhor organizado e, a partir daí, hábil no processo de internacionalização.

As grandes companhias estrangeiras de importação e exportação encontravam-se, não raro,


associados a estes movimentos expansivos, fornecendo a influência bancária e governamental
necessárias a empreendimentos felizes. Pode-se compreender que os pequenos produtores e as
economias de escala suplementar enfrentaram, deste modo, dificuldades em sua margem de
lucros, o que em parte explica a sua persistente operação dos mercados primitivos e atividades
agro-alimentares. A retenção de um certo nível de mão-de-obra escrava era essencial à
rentabilidade dos seus recursos.

A ampliação do leque de atividades e a inflação resultante do fechamento do tráfico


levaram a uma valorização imobiliária e à corrida pela massa de escravos, potencialmente, mais
ativa. Ocorreu a brutal mudança no patamar dos preços, que acompanhou a crise de 1852-54 e
afetou, inclusive, os inventários de mercadorias do país. Davam-se certas pré-condições para
estimular novas práticas e novos conceitos, onde o papel das diferentes atividades passava a
requerer um maior profissionalismo, com a transformação da terra em mercadoria e a
valorização do trabalho produtivo do escravo. As reduzidas fontes de crédito ampliaram o papel
do capital mercantil usurário, vindo a contribuir para a maior correlação entre o desempenho
cíclico da economia e o movimento dos capitais.

Industrialização. ANPEC. São Paulo, Ed. Saraiva, 1978.


28
Veja: Raymond Goldsmith. Brasil 1850-1984: desenvolvimento financeiro sob um século de inflação, São Paulo,
Harper & Row do Brasil, 1986; e Christian Palloix. A economia Mundial de Iniciativa Privada, 2 vols., Portugal, Ed.
Estampa, 1974.
29
Nesse aspecto, é difícil avaliar o papel das formas mais grotescas do capital, ou seja, em
que extensão, em cada região, o capital usurário, através do mecanismo de empréstimos,
adiantamentos e monopólio do comércio exterior, contribuiu para sua pauperização e ruína. No
caso nordestino, a resposta é francamente positiva. Devido ao papel, relativamente menor, que a
renda da terra possuía para a pequena exploração, o capital usurário deve ter desempenhado um
papel maior do que aquele que geralmente lhe é atribuído. Ele pode ter desempenhado um papel
crucial no enlace entre as formas locais de exploração e as forças de acumulação internacionais.
O capital estrangeiro devia drenar uns 70 a 80% da capacidade total de acumulação no período, o
que pode ser entendido pelo papel que os empréstimos externos desempenhavam nos
investimentos de então. Uma grande parte desta drenagem devia ser efetuada em nível local,
pelas estruturas do capital usurário29.

Apenas como referência, quando se compara o número de escravos de 1887 com relação a
1849, este caiu para 39,6%. Os escravos agrícolas da província do Rio de Janeiro eram, em 1887,
cerca de 51,9% do número de 1849. No entanto, em São Paulo os escravos na agricultura eram,
em 1887 o total de 85,3% do número de 1849. Isto significa que, enquanto certas províncias
viam decrescer seu número de escravos, eles ainda se mantinham ou se ampliavam, em São
Paulo, no Segundo Reinado.

A criadagem escrava do Rio de Janeiro (província) era 64,4%, em 1887, em relação ao


número de 1849. Em São Paulo, a cifra decrescera para 39,3%. Ou seja, São Paulo compensou a
redução da oferta de escravos, dando preferência a enviá-los para a produção agrícola. Na
província do Rio de Janeiro, em igual período (1849 – 1887), o número de escravos em serviços
decresceu em 25,4%; em São Paulo, caiu para 58,3%. Assim, no Rio de Janeiro o trabalho em
serviços apresentava 3 trabalhadores livres para cada 1 escravo, em 1887, comparando-se ao
total de 4 escravos, em 1849.

Considerando todo o Brasil, o produto do setor secundário aumentou em 90,8%, quando se


compara o ano de 1887 ao de 1849. Quanto ao produto do setor primário, foi acrescentado em

29
Veja: Márcia N. Kuniochi. A Prática Financeira do Barão de Mauá. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH-
USP, 1975; Crédito, Negócios e Acumulação. Rio de Janeiro: 1844-1857. Tese de Doutorado. São Paulo, DH-
FFLCH-USP, 2001 e Mauro Brandão Lopes. Cambial em Moeda Estrangeira. São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais,
1978.
30
121%. O setor terciário foi o que mais se expandiu no período, sendo acrescido em 152%. O
agregado “consumo pessoal” expandiu-se, de 1849 para 1887, em 128%. Quanto à produção de
café pelos escravos, apesar do número decrescente destes, expandiu-se 247%. O consumo per
capita, em termos reais, expandiu-se 21,5%. O preço médio do escravo sofreu elevação de
246%. A procura por escravos aumentou 145% e o produto da província de São Paulo, o que
mais cresceu no período, aumentou 4,6 vezes30.

A PARTICIPAÇÃO DO NEGRO NAS ECONOMIAS AGRÁRIA E URBANA

O capital mercantil montou – de fora para dentro – a colônia açucareira do Brasil, do


primeiro e segundo séculos (1550 – 1750), colocando aqui as formas de capital que fossem
adequadas a obter um ganho máximo na produção de mercadorias. A cana-de-açúcar, o algodão,
e o transformador de ambos diante da natureza, o escravo, revelaram-se mercadorias vantajosas.
Com a descoberta do ouro em quantidades consideráveis e outras mercadorias como o gado,
foram oferecidas ao consumo interno, comércio externo monopolizado e abastecimento das
frotas que aqui tocavam.

Nessas condições, sob suas formas escravista e usurária, o capital mercantil apossou-se de
uma enorme quantidade de terras e de pessoas, sendo estas, quando escravas, um duplo de mão-
de-obra e forma de capital usurário. Os proprietários da terra, quando não resultavam de doações
metropolitanas politicamente justificadas, surgiam da prática do comércio, principalmente o
tráfico de escravos, dedicando-se ao comércio geral; às instituições municipais para efeito de
serviço das ordens; por fim, tornando-se proprietários de terras. Por quê os mercadores davam
importância a terra? Porque só ela podia proteger a propriedade – de forma quase absoluta – de
todas as flutuações das demais formas apropriadoras.

O caráter de acumulação primitiva, que o agro brasileiro facultava ao colonizador, permitia


ao capital efetuar na colônia uma série de tarefas que não podia realizar na Europa, devido à
força ainda existente das instituições feudais e outras formas cristalizadas de propriedade urbana
e rural. Ao incorporar para si todos os espaços geográficos e sociais, o capital escravista elevou a

30
Ver: Wilson do Nascimento Barbosa. A Crisálida: 1850-1888. Tese de Livre Docência. São Paulo, DH-FFLCH-SP,
2 vols. 1994.
31
classe exploradora dos grandes proprietários de terra ao seu ápice histórico na colônia. No
entanto, cumprida sua função de acumulação primitiva, que permitiu incorporar o ciclo agrícola
das colônias no insuficiente ciclo agrícola das metrópoles, inundadas estas de mercadorias
coloniais a preços cadentes, colocava-se na ordem-do-dia a necessidade de eliminar o trabalho
escravo, abrindo mercados para os países que haviam realizado a revolução industrial31.

O recesso do capital escravista deu-se, no Brasil, por duas vias: o retorno ao capital
mercantil e usurário, e o avanço até o capital industrial.

O capital industrial impôs, portanto, suas soluções: a substituição dos escravos como base
do capital usurário, transferindo seu valor para o patrimônio das fazendas (1870 – 1888) e a
transformação da massa escrava em um subproletariado, remunerado abaixo da fronteira de
subsistência. Este duplo movimento foi obtido por: ampliação das áreas agricultáveis disponíveis
e intensificação da competição interna da agricultura local de exportação; e a intensa imigração
européia, capaz de reduzir, ao mínimo, o custo da força de trabalho ofertada.

A ampliação desmesurada das áreas agrícolas foi obtida com o surto ferroviário nas
colônias e semicolônias. No caso brasileiro, aumentando a produção a exportar, os cafeicultores
concorreram entre si para fornecer às metrópoles produtos tropicais a preços cadentes, ao mesmo
tempo em que deviam pagar o custo das ferrovias e da imigração de novos trabalhadores. Por
outro lado, a introdução de mão-de-obra imigrante em excesso rebaixava o salário de
subsistência e acirrava a competição entre os trabalhadores por um posto-de-trabalho. Em longo
prazo, jogava a mão-de-obra imigrante para fora das fazendas em cada crise agrícola de
realização (vide 1902-04; 1914-15; etc.), colocando-se no cenário da urbanização, com o
crescimento da pequena indústria (1890 – 1930) e a recusa da nova imigração à proletarização
(surgimento de uma pequena-burguesia urbana e rural; 1900 – 1940)32.

O processo de formação de um mercado de mão-de-obra livre e da pequena indústria local


(1890 – 1930) teve, por suas características, dois impactos sobre os trabalhadores negros:

31
Ver: Décio Freitas. Escravos e senhores de escravos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983; e Brasil Gerson. A
Escravidão..., Op. cit.
32
Ver: Florestan Fernandes. A integração do negro na sociedade de classes, São Paulo, 2 vols. 3ª ed. Editora Ática,
1978; Maria Sylvia de Carvalho Franco. Homens Livres na Ordem Escravocrata, São Paulo, Ática, 1974; Alba Maria

32
destruiu o setor de pequenos proprietários negros, que havia se formado nas condições da
produção e circulação aurífera; e desqualificou a mão-de-obra trabalhadora negra, expondo-a à
intensa competição, face os novos imigrantes, que recebiam, de qualquer forma, maior apoio do
sistema institucional do que os descendentes de escravos e libertos. Na maioria dos municípios,
por exemplo, foram elaboradas disposições que vetavam crianças negras a freqüentar as poucas
escolas existentes.

O ciclo de expansão ferroviária, com seus caminhos de ferro urbanos e intermunicipais,


constituiu o setor de vanguarda das transformações metal-mecânicas, pagando os melhores
salários (1880–1949). Embora os trabalhadores negros houvessem instalado as ferrovias iniciais,
junto a um núcleo de trabalhadores etíopes e somalis trazidos pelos ingleses, eles desapareceram
das ferrovias nas décadas seguintes, sob a alegação de que não possuíam habilidades técnicas
para tais serviços. No comércio de jóias e ourivesaria, no qual os negros se constituíram visível
maioria até 1880, o desenvolvimento da rede bancária e da imigração européia os expulsou por
completo. A formação do complexo ferro-portuários tolerou a presença do negro enquanto
carregador, porque a totalidade dos serviços não estava ainda maquinizada.

Tem-se, portanto, no período da chamada Primeira República (1889–1930), um recuo


socioeconômico das camadas de negros livres ou recém-libertos, hostilizados enquanto
trabalhadores e, também, enquanto seres humanos. O crescimento da rede bancária na referida
fase impactou, com seu surto de industrialização, na gradual redução do chamado “crédito-de-
armazém”, onde formas do capital usurário, geralmente português, forneciam os recursos
aplicados pelos pequenos proprietários negros33.

A sobrevivência econômica dos negros se concentrou em dois tipos de atividades: a


primeira de praticantes de serviços urbanos e suburbanos - chacareiros; vendedores ambulantes;
empregados domésticos, pescadores, etc -; e a segunda, de trabalhadores rurais por conta própria
ou pequenos lavradores. Esta condição era tolerada porque os desmatamentos promovidos por
famílias de negros rurais terminavam, mais tarde, por ser ocupados pelos fazendeiros, que os

Figueiredo Morandini. O Trabalhador Migrante Nacional em São Paulo, 1920-1923, Dissertação de Mestrado, São
Paulo, PUC-SP, 1978; e José de Souza Martins. O Cativeiro da Terra. São Paulo, Hucitec, 1986.
33
Ver: Bóris Fausto. Trabalho Urbano e Conflito Social, 1890-1920, Rio de Janeiro, Difel, 1977 e Relatórios do
Banco do Brasil: 1910 a 1930.
33
“empurravam” para mais adiante. Desta forma, atuavam os mesmos como desmatadores
graciosos das fazendas. Quando o trabalho de colonização era feito longe da frente agrícola, os
negros davam origem a ocupações duradouras, “quilombos” que também se constituíram
verdadeiros bolsões de cultura negra, afastados totalmente das pressões diretas das políticas de
“desafricanização’ e do “branqueamento”. No entanto, no ambiente urbano de Salvador, Recife,
Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, São Luís e logo Belo Horizonte, os negros constituíram-
se parte importante, quando não dominante, da força de trabalho34.

A Revolução de 1930 e o impacto das chamadas políticas varguistas, com sua lei do
trabalho nacional, reabriram o caminho ao gradual aproveitamento da mão-de-obra negra nas
atividades industriais urbanas. Era interesse do Estado varguista reduzir a influência dos
sindicatos controlados por imigrantes europeus e seus descendentes, que haviam adquirido
capacidade de negociação no período anterior. A mais ampla industrialização, em surtos do
período seguinte (1933-38; 1939-1946; 1955-62), levaria a amplo crescimento do proletariado e
compreenderia trabalhadores negros.

A tendência dos negros libertados da escravidão para deixar as fazendas e formar frentes
de colonização dentro das matas resultou, também, em choques mais ou menos extensos com as
autoridades, que refletiam predominantemente os interesses dos proprietários de terra. Estes não
gostavam de perder a sua mão-de-obra quase grátis e enviavam forças policiais e militares para
esmagar tais focos espontâneos de “reforma agrária”. Estes movimentos agraristas ficaram
conhecidos na literatura como “messiânicos”, quase sempre em atitude que busca ignorar seu
fundamento libertário social e econômico: Canudos (1896-1897), o Contestado (1911–1914), o
Caldeirão (1937), entre outros, foram movimentos pela terra cujo maior contingente isolado era
de trabalhadores negros35.

A resistência dos capitalistas agrícolas a qualquer repartição da terra enquanto material


entre trabalhadores sem posses, explica-se pela necessidade de monopolizar a terra enquanto

34
Ver: Anuário Estatístico do Brasil – (IBGE) – (década 1940); Directoria Geral de Estatística (DGE) – Synopse do
Recenseamento de 31 de dezembro de 1890. Rio de Janeiro, 1931 e Directoria Geral de Estatística (DGE) –
Recenseamento do Brasil realizado em 1o de setembro de 1920, 5 vols., Rio de Janeiro, 1922 a 1926.
35
Ver: Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares. A Guerra de Canudos, 3ª Ed., Rio de Janeiro, I. N. do Livro,
1885 e Rui Facó Cangaceiros e fanaticos: genese e lutas, Rio de Janeiro, Bertrand, 1988; e Brasil século XX, Rio
de Janeiro, Vitória, 1960.
34
fonte de toda a riqueza; e a precisão de reduzir dos trabalhadores sem terra a indigência, com a
compra potencial posterior de sua força de trabalho por preços abaixo da fronteira de
subsistência. O monopólio da terra permite valorizá-la enquanto capital existente e eliminar
focos de concorrência que venham a aumentar a produção. Os proprietários de terra podem
aceitar a imposição competitiva o capital industrial externo ou a divisão internacional do trabalho
e deterioração dos termos-de-troca, mas não podem tolerar a concorrência de pobres sem terra,
particularmente negros ou seus ex-escravos.

Compreende-se, então, a outra tendência dos negros libertados da escravidão (1888–1960).


Dirigir-se às maiores concentrações urbanas do país, para reduzir o impacto dos aparatos
repressivos sobre suas atividades de subsistência. Nas grandes cidades, os negros puderam
dedicar-se a tais atividades, porque eram tolerados pela população pequeno-proprietária, que
podia utilizar-se de sua mão-de-obra e de seus produtos a preços rebaixados. Particularmente nas
faixas litorâneas e em regiões de grandes baías como Belém, Marajó, São Marcos, São Luís,
Todos os Santos, Rio de Janeiro, Lagoa dos Patos, entre outras, a mão-de-obra negra podia
entregar enormes quantidades de produtos agrícolas e pesqueiros a baixo preço, valendo-se de
sua baixa remuneração e das vias líquidas de transporte. Era na constituição de semelhantes
mercados primitivos que a população negra garantia a sua sobrevivência, antes da descolagem da
industrialização.

Assim, enquanto os membros da chamada Nova Imigração (1890–1960) se consolidavam


como pequenos-proprietários e empresários, a população negra oriunda da escravidão buscava-se
manter enquanto subproletariado nas cidades e camponeses sem terra nas áreas rurais. Evidencia-
se aqui o fechamento étnico do acesso à propriedade como um dos principais instrumentos
deixados pela acumulação primitiva que asseguram as altas taxas de lucro vigentes no país e
perpetuam ou ampliam os diferenciais de renda ligados ao subdesenvolvimento36.

O impacto da Grande Depressão (1873–96) nas economias coloniais e semicoloniais se fez


sentir, no Brasil, pela depressão dos preços de exportação, que levou ao colapso definitivo do

36
Veja: Petrônio José Domingues. Uma História não contada: negro, racismo e trabalho no pós-abolição em São
Paulo (1889-1930). São Paulo, DH-FFLCH – USP, 2000.

35
regime escravista. Isto se caracterizou também como: o aumento da concorrência dos produtos
de exportação, tanto no plano doméstico como externo; e os reajustes econômicos internos, sob
formas de ondas sucessivas (1890–1923), que aceleraram a expansão e o colapso do regime de
colonato, levaram ao crescimento da ocupação do solo agricultável, com grande número de
fazendas, e redução da taxa de lucro, durante todo o período da Primeira República (1889–1930).

A diversificação da oferta exportadora elevou o papel da borracha, do algodão, do cacau e


de produtos naturais, para compensar a depressão dos preços do café. Em todos estes cenários da
agricultura de exportação, a mão-de-obra das populações negras desempenhou papel constante.

A oferta de trabalho da população negra caracterizou-se, portanto, por dois elementos:


primeiro pela população jovem, com alta resistência para o trabalho intensivo; e segundo, pela
experiência nas atividades primárias e de serviços. Estas duas características repunham
periodicamente a força de trabalho negra entre as de melhor qualidade para as condições
econômicas da produção brasileira, tipificada pela intensidade de consumo de trabalho vivo e a
baixa utilização de maquinário complexo.

Minas Gerais, Bahia e estados nordestinos, são áreas onde a população negra predominava
e sua mão-de-obra era constantemente ofertada para outras regiões, com a redução dos custos
oriundos do trabalho para as mesmas, e a cessão definitiva de uma população adulta resistente e
produtiva. Deve-se observar que os custos com instrução, treinamento, saúde, transporte, etc., da
força de trabalho interna foram, até bem recentemente, quase inexistentes, na prática, para as
empresas e o Estado.

A posição da economia brasileira, na década de 20, apresentou enormes ganhos do


comércio exterior, com o êxito temporário das políticas de proteção do café, diante da forte
expansão da economia internacional, ligada ao ciclo automotivo norte-americano. Após a crise
de 1929-32, na qual o governo brasileiro viu-se compelido a medidas extremas para proteger os
preços do café e da agricultura, o baixo poder de compra do país levou a novo surto
industrializador, mais persistente e de grande amplitude (1933–1962). Durante tal processo de
industrialização, caracterizado na literatura como “substitutiva de importações”, a oferta de
trabalho negro, do tipo urbano, foi fortemente absorvido nas atividades fabris.

36
A industrialização brasileira, pós 1929, se caracterizou por uma prevalência do capital
industrial local, formado por uma combinação expansiva de capitais privados e capitais públicos,
em mãos do Estado, que foram utilizados para financiar empresas e atividades industriais no
período referido. Aquele tipo de industrialização consumiu enormes quantidades de força de
trabalho, levando a contribuir certamente na mudança de cenário do país, de rural para urbano.

QUINTO SÉCULO (1951 -...)

EMPREGO URBANO E INDUSTRIALIZAÇÃO

Em que pese às oscilações do crescimento econômico brasileiro, após a crise de 1929–32,


ele foi comandado pelo processo de industrialização. A acumulação de capitais por via da
industrialização, nas condições da crise e flutuações do entre-guerras, só podia se dar com base
na expansão do mercado interno, valendo-se do recurso de métodos de produção intensivos em
trabalho. Como se aquela industrialização se fizesse em todos os ramos de atividade (1933–62),
partindo da indústria leve para a indústria pesada e tivesse impacto positivo: no consumo de
trabalho vivo; e na expansão da renda disponível doméstica, para efetivar o poder de compra
local.

O referido tipo de industrialização beneficiou, também, a população negra, cujos


contingentes já se encontravam fortemente no ambiente urbano, com baixo aproveitamento,
contudo, pelo trabalho industrial37.

Dessa forma, com o rápido crescimento das cidades, voltou-se para ali o centro das
disparidades sociais, com o excesso de oferta de trabalho sobre as taxas de industrialização e a
carência de serviços básicos como saneamento, saúde e educação. Desde a década de 70, apesar
da retomada temporária da industrialização (1969-82), os diferenciais de riqueza e bem-estar
social se extremariam como nunca, superando mesmo as diferenças do mundo escravista. Os
efeitos positivos da industrialização sobre a renda deixaram de ser distribuídos aos trabalhadores
industriais, nas condições de uma estrutura sindical controlada primeiro, pela polícia política da

37
Ditadura (1964–1990) e depois, pelo desemprego maciço associado a desindustrialização e
globalização. Um terço da população urbana dos grandes centros manteve-se, nas últimas duas
décadas, como favelada. Cinqüenta por cento da força de trabalho urbana atinge até o salário-
mínimo.

Como conseqüência de uma posição de renda nitidamente administrada para ser inferior, a
população negra não apresenta apenas salários inferiores para o mesmo trabalho masculino ou
feminino. Ela termina por concentrar os piores resultados nos indicadores de qualidade de vida.
Considerando-se, por exemplo, os 174 países que compõem o Índice de Desenvolvimento
Humano da ONU (IDH-ONU), o Brasil estava, em 1999, em 79º lugar. Quando se examina
apenas a posição da população negra - dividida na classificação oficial em “negros” e “pardos” -,
a posição seria a 157ª, com um indicador 0,418, próximo ao Djibuti (0,412). Como os negros
podem ser tão pobres no Brasil? A explicação não pode deixar de lado uma política sistemática e
silenciosa de discriminação, praticada pelas diferentes camadas da população proprietária no
país. A questão é compreensível com um exemplo. Segundo o Banco Mundial, pelo menos 1,5
bilhão da população mundial sobrevive com uma renda de até 1 dólar por dia. Considera-se 1
dólar ao câmbio de R$ 2,80 e tem-se uma renda de até R$ 2,80 por dia. Qual a renda mensal
correspondente? 2,80 X 30 = 84, ou seja, oitenta e quatro reais per capita ao mês. Considera-se
um coletivo familiar de 4 pessoas e tem-se: 84 X 4 = 336. Ou seja, trezentos e trinta e seis reais
por família. Suponha uma família negra muito comum, na periferia de uma grande cidade
brasileira, formada por quatro pessoas: a mãe, a avó e duas crianças. Suponha-se que esta mãe-
de-família negra trabalha como empregada doméstica. Vê-se, de pronto, que a hipótese da
mesma ganhar 300 ou 400 reais mensais se restringe a uma minoria das grandes cidades. Daí
pode-se compreender diretamente como mesmo a fronteira de miséria do Banco Mundial pode
ser difícil de ser mantida para a população negra brasileira. Ainda que nas condições do mundo
urbano, onde o padrão de rendimento deveria depender da produtividade industrial crescente38.

37
Ver: Maria da Conceição Tavares. Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro. Rio de Janeiro,
Zahar Editores, 8ª Ed., 1978 e Celso Furtado. A Nova Dependência: Dívida Externa e Monetarismo. Rio de Janeiro,
ª
Ed. Paz e Terra, 2 Ed., 1982.
38
Ver: Edmar Bacha e Herbert Klein (orgs.). A Transição Incompleta: Brasil desde 1945, 2 vols., Rio de Janeiro, Ed.
Paz e Terra, 1986 e Marcos Cordeiro Pires. Dependência de Importações e Crise da Mundialização: Crescimento e
Flutuações na Economia Brasileira (1980-2000). Tese de Doutorado. São Paulo, DH-FFLCH-USP, 2002.
38
A restrição étnica da propriedade – por um período histórico prolongado – gera hábitos
difíceis de erradicar na população beneficiada. De fato, não há nada na sociedade brasileira,
décimo parque industrial do mundo, que explique níveis salariais tão baixos para a mão-de-obra
menos qualificada. Tais níveis são tão baixos que, atualmente refletem depressivamente sobre a
economia agrícola, sua margem de lucro e o valor da terra. Seria este o caso clássico em que o
“feitiço” voltar-se-ia “contra o feiticeiro”.

O Brasil, campeão mundial de concentração de renda é, obviamente, o país que exclui 16%
de sua população das condições mínimas de saúde, educação e higiene, exigidas pela ONU. 80%
destes 16% são constituídos por população negra.

Trinta milhões de brasileiros vivem em miséria absoluta. Quarenta e três milhões não
possuem água potável. Vinte e um milhões morrerão até os 40 anos de idade. Cinqüenta e quatro
milhões não possuem esgotos. Este é o preço que o país tem pagado para manter uma mão-de-
obra abaixo da fronteira de subsistência, compreendida quase exclusivamente de negros de todos
os tipos. Com essa mão-de-obra excessivamente barata, o país consegue corresponder às
necessidades de oferta a preços cadentes do comércio externo e satisfazer o seu estranho e
persistente ego escravista39.

É fato que, as pessoas não-negras estão acostumadas a pagar uma fração de até 50% do
vencimento ou salário de um trabalhador não-negro, para um trabalhador negro. O negro deve
valer menos, ele deve constituir um “terceiro mundo” da força de trabalho. Isto, por si, só explica
o subdesenvolvimento brasileiro. Um trabalhador desprovido de rendimento não pode participar
da poupança ou expandir o mercado doméstico. Observe-se que na maioria das regiões, o negro
constitui a espinha dorsal do proletariado, ainda que atendendo aos epítetos de “baiano”,
“mineiro”, “paraíba” ou “carioca”.

Similarmente ao cômputo da África do Sul, quando se calcula apenas o IDH para a


“população branca” do Brasil, considerada para nosso cálculo como 47%, o seu posicionamento

39
Ver: Nilson José Dalledone. A gênese do Mercosul: antecedentes e desdobramentos. Tese de Doutorado. São
Paulo, DH – FFLCH – USP, 2001 e Reinaldo Gonçalves. Estudo da competitividade da industria brasileira:
estratégias dos oligopólios mundiais nos anos 90 e oportunidades do Brasil; nota técnica temática do bloco
condicionantes internacionais da competitividade, Campinas: Mct/finep/padct, 1993.

39
coincide com os 10 primeiros países do mundo, coincidentemente, “países brancos”. Ou seja, na
África do Sul, desaparece o subdesenvolvimento, sendo obviamente o subdesenvolvimento em
função da presença da “população negra”. Nesse caso, o desenvolvimento trata-se de uma função
da “população branca”, o que leva a interrogar, como Max Weber, para que existem as
“sociedades não-homogêneas”. Deve-se recorrer ao parâmetro de que sociedades como as da
América Latina são sociedades coloniais ou semicoloniais, cuja explicação existencial resida
fora delas. Evidentemente, há 100 ou 200 anos atrás, quando um grupo inglês ou francês
escravizava uma aldeia africana ou asiática, a vida da referida aldeia passava a ser regulada pelo
relógio dos interesses do grupo externo, que efetuava sua exploração. Nesse caso, a renda
monetária, eventualmente, acumulada em metais preciosos não poderia ser computada para toda
a população aldeã, o que eliminaria a acumulação, mas seria considerada propriedade exclusiva
do grupo minoritário externo. Tal concentração de renda implica uma compreensão própria da
distribuição dos frutos do enriquecimento. É disso que se trata o chamado “Terceiro Mundo”.
Quando se consideram as três variáveis componentes do IDH: renda per capita, índice de
alfabetização e expectativa de vida, torna-se difícil escamotear o efeito extremo dos diferenciais
socioeconômicos na estrutura étnica da sociedade.

O IMPACTO DA GLOBALIZAÇÃO

A maioria dos países oriundos da expansão colonial européia não foi capaz de dar origem a
elites multiculturalizadas, em que os interesses do conjunto da população fossem viabilizados. O
ambiente de integração puramente financeira guiado pelo consenso neoliberal, sob o nome de
“globalização”, está muito distante de uma mundialização que compreendesse uma livre
circulação de capital e trabalho40.

A chamada assimetria da globalização, em que os capitais dos territórios pobres são


drenados em proveito dos territórios já ricos, não tende a modificar que 20% da população
mundial concentre 86% do PIB do planeta; 82% das exportações; 68% do investimento direto;
74% das linhas telefônicas, etc. Ou seja, a assimetria é fruto da divisão internacional do trabalho

40
entre as diferentes nações. Por isso, em longo prazo ela gera assimetrias similares ou até mais
díspares dentro das nações pobres: segundo o IBGE, o 1% mais rico da população brasileira, em
1998, possuía mais renda que os 50% mais pobres (13,8% contra 13,5%).

Como diz o Banco Mundial, em relatório divulgado em Washington (1998): “É muito


difícil não notar que, em geral, os países mais desenvolvidos têm condições geográficas
diferentes daquelas de países pobres. A renda per capita em países localizados em zonas
temperadas é cinco vezes maior que aquelas de países tropicais. Praticamente, os 37 países
menos desenvolvidos no mundo, com renda per capita inferior a US$ 1.400,00, estão a 20 graus
abaixo da linha do Equador”.

Esta aparente “fatalidade tropical” implica, no Brasil, uma taxa de mortalidade entre
crianças negras e “pardas” de dois terços maior que a da população branca, da mesma idade. Em
probabilidade, a criança negra tem 67% de chance maior de morrer do que uma criança branca
(1996). A fonte de tal problema só pode ser indicada na renda insuficiente das famílias negras e
“pardas”. A mortalidade das crianças negras no país chega a superar a da África, pelos dados do
mesmo relatório.∗ (Brasil, para 1996: 76 por mil, nascidos vivos; África do Sul: 67 por mil;
Zimbábue: 74 por mil).∗∗

A extensão da segregação pode ser computada assim, para 1995:

Tabela 1

Regiões Taxa de desocupação a mais por sexo e por cor (em % - 1995)

Mulher negra Homem negro

Brasil 22,3 14

40
Jacques Adda. Globalización de la Economia. Madrid, Seguitur, 1999; Samir Amin. El Capitalismo en la
Globalización. Barcelona, Paidós, 1999 e O Eurocentrismo: Crítica de uma Ideologia. Lisboa, 1999.
* Indicadores Sociais Mínimos; IBGE; Internet.
∗∗
Dados da ONU
41
Norte urbano 7,0 6,6

Nordeste 18,4 4,5

Sudeste 17,4 20,9

Sul 64,7 49,7

Centro-oeste 17,8 - 1,13

Fonte: IBGE, Pnad, 1995; in Celso Simões e Ricardo Cardoso (1997).

Lendo a tabela 1, tem-se que, para cada cem mulheres brancas sem atividade remunerada
ou ocupação, em 1995, havia no Brasil mais de 122 mulheres negras na mesma situação. Para
cada cem homens brancos então desocupados, havia 114 homens negros desocupados. Isso pode
ser percebido, olhando-se a tripulação dos caminhões de limpeza urbana: quando a crise
econômica aperta, os negros cedem ali seus lugares para brancos41.

No norte urbano, havia 107 mulheres negras desocupadas para cada 100 mulheres brancas;
e quase a mesma proporção para os homens. No Nordeste, havia mais de 118 mulheres negras
desocupadas para cada cem mulheres brancas. Quanto aos homens, havia mais de 104 negros
sem ocupação remunerada para cada cem homens brancos.

No Sudeste, havia mais de 117 mulheres negras sem ocupação para cada cem mulheres
brancas. Quanto aos homens, encontrava-se praticamente 121 negros sem trabalho para cada
grupo de cem homens brancos na mesma situação. Com relação ao Sul, a situação agravava-se:
havia quase 165 mulheres negras desempregadas para cada 100 mulheres brancas; e quase 150
homens negros para cada grupo de 100 homens brancos na mesma situação. No caso da região
Centro-Oeste, encontravam-se mais de 117 mulheres negras sem ocupação, para cada cem
mulheres brancas. Quanto aos homens, para cada cem homens brancos sem atividade
remunerada, encontravam-se cerca de 99 negros na mesma situação. Este parece ser o único caso
da atração do salário menor estar funcionando.

Tabela 2

41
Ver: São Paulo em Perspectiva, Revista da Fundação SEADE (Miguel W. Chaia, ed.) Capitalismo:
ciclos e crises atuais. Vol. 12, no. 3, julho/setembro, 1998.
42
Regiões Número a mais relativo, de pessoas com renda até 2 salários mínimos
(%) 1995
Mulheres Homens
Brasil 32,8 64,2
Norte urbano 23,4 28,6
Nordeste 14,1 19,9
Sudeste 33,9 58,3
Sul 25,3 40,2
Centro-Oeste 22,4 26,7
Fonte: IBGE; Pnad, 1995; in Celso Simões e Ricardo Cardoso (1997)

Ao olhar a tabela 3, pode-se ler que, para cada grupo de cem mulheres brancas no Brasil,
em 1995, que tinham renda até dois salários mínimos, havia quase 133 mulheres negras. Ou seja,
no êxito, ao se possuir alguma renda, as mulheres negras terão rendas menores, com 33% a mais
de chances, que as mulheres brancas. Quanto aos homens negros, mais de 164 terão a renda de
até 2 salários mínimos para cada cem homens brancos na mesma situação.

No Norte urbano, para cada cem mulheres brancas com este baixo nível de renda havia, em
1995, mais de 123 mulheres negras. Quanto aos homens na mesma situação, haveria mais de 128
negros para cada cem brancos. No caso do Nordeste 114 mulheres negras estariam neste patamar
de renda para cada 100 brancas. E 120 negros, praticamente, para cada cem brancos. No Sudeste
a má vontade salarial se agrava. Para cada 100 mulheres brancas, encontravam-se 134 mulheres
negras; para cada cem brancos, encontravam-se mais de 158 negros. Quanto ao Sul, havia mais
de 125 negras para cada grupo de cem brancas; e mais de 140 negros, para cada cem brancos.
Finalmente, no Centro-Oeste, havia mais de 122 mulheres negras para cada cem mulheres
brancas; e mais de 126 negros para cada cem brancos.

Tabela 3 1995

Regiões Número de pessoas a mais – relativo – com até 3 anos de


instrução, por sexo e cor (analfabetismo funcional) %

43
Mulheres Homens

Brasil 118,2 117,2

Norte urbano 71,5 44,6

Nordeste 40,1 33,3

Sudeste 84,9 93,8

Sul 123,6 103,7

Centro-Oeste 70,4 65,3

Fonte: IBGE, Pnad, 1995; in Celso Simões e Ricardo Cardoso; (1997)

A tabela 3 refere-se à baixa instrução, onde os negros são também generosamente


aquinhoados. Considerando-se todo o Brasil, havia mais de 118 mulheres negras na condição de
analfabetismo funcional, para cada cem mulheres brancas. Quanto aos homens na mesma
situação, encontravam-se mais de 117 negros para cada 100 brancos.

Examinando-se o Norte urbano, para cada cem mulheres brancas na condição de


analfabetismo funcional, teve-se, em 1995, quase 172 mulheres negras. Para o contingente de
cem homens brancos, encontrou-se quase 145 homens negros na referida situação. Os dados do
Nordeste indicam 140 mulheres negras na região em analfabetismo funcional, para cada 100
mulheres brancas. No contingente masculino do Nordeste, para cada cem brancos na situação,
encontrou-se mais de 133 negros.

Quando se verificam as posições no Sudeste, houve mais de 184 mulheres negras semi-
analfabetas para cada grupo de cem mulheres brancas. O aumento na região se expressa como
praticamente 194 homens negros com analfabetismo funcional, para cada grupo de cem homens
brancos. A região Sul exibiu mais de 223 mulheres negras para cada cem mulheres brancas; com
mais de 203 negros para cada cem brancos. Por fim, a Centro-Oeste apresentou mais de 170
mulheres negras para cada grupo de cem mulheres brancas; e mais de 165 negros, para cada
grupo de cem brancos, na mesma situação.

44
É interessante observar o caráter discriminatório desses diferenciais étnicos, porque onde
há mais do propalado “desenvolvimento” ou “urbanização”, os indicadores mostram as maiores
discrepâncias. Por exemplo, na região Sudeste, a mortalidade de crianças “de cor” é 71% maior
do que aquela entre as crianças brancas (53 por mil e 31 por mil, respectivamente). Quando se
verifica o Nordeste, região supostamente mais pobre, a diferença cai para 23% a mais, em
mortalidade das crianças de “cor”. A concentração de renda, explicada também por fatores extra-
econômicos, agrava, portanto os problemas de saúde, educação, habitação, segurança pública,
etc.

O crescimento do diferencial das taxas de mortalidade infantil entre brancos e negros no


Brasil, desde 1980, é apenas um exemplo entre tantos que podem ser computados do
agravamento dos diferenciais socioeconômicos com base na etnicidade do grupo.

O leque das segregações, a que está submetida a população negra e “parda” do Brasil tem
sua amplitude sempre diversificada. Por exemplo, apesar do negro ser mais pobre e menos
instruído, ele tende a ser mais criminalizado inclusive em questões econômicas: sofre maior
número de consultas no SPC; é mais – relativamente – cadastrado no SERASA; é mais vítima do
I.R; é objeto de maior recusa de todos os tipos de crédito. Concedeu-se menos contas bancárias –
em expressão relativa – aos negros, mas ele é mais barrado pelas portas eletrônicas dos bancos.
O exame de todos os indicadores socioeconômicos do país, quando ponderados para expressar a
posição relativa do negro, aponta-o claramente em desvantagem. Isso, por certo, contribui para o
crescente aumento do diferencial entre as taxas de mortalidade das duas populações, com uma
ponderação maior do que fatores genéticos ou biológicos.

O desemprego, a falta de instrução, a miséria, a fome, a má alimentação, a ausência de


assistência médica e dentária, entre outros fatores, contribuem poderosamente para doenças
cardiovasculares e mentais, reduzindo drasticamente a esperança de vida dos negros, para 75%
de indicador similar para a população branca. Ou seja, se uma pessoa branca viver 100 anos, ela
viveria apenas 75, caso fosse negra.

45