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Manual do Acordo de Não Persecução Penal – Rodrigo Leite Ferreira Cabral

Capítulo 2 – Fundamentos do acordo de não persecução penal

O princípio da obrigatoriedade da ação penal possui suas raízes no Antigo Regime, aos
tempos da Inquisição. Aqui, qualquer ofensa a Deus ou ao Rei era vista como um
descumprimento da Lei e, consequentemente, algo que feria os interesses coletivos de
demandava intervenção do Estado (e não mais do particular). É, no entanto, no
iluminismo que isso atingirá seu ápice, pois, com o desenvolvimento da legalidade e do
juiz como boca da lei, cria-se um silogismo: “se x praticou o crime, então deve ser
punido”. Deste modo, torna-se uma obrigação estatal impor a pena e,
consequentemente, julgar o crime sem prescindir da ação penal. Com o passar dos
anos, este sistema passou a ser visto como o “único possível”, como se não houvesse
outra opção senão aplicar a pena [vide Hulsman].
A punição, desde Kant a Feurbach, neste sentido, assume a feição de um imperativo
categórico, como se, preenchidas as condições, tivesse sempre de ocorrer. Deste modo,
a obrigatoriedade da ação penal é corolário da legalidade. Cabral critica isto, pois
entende que não faz sentido obrigar o Estado propor ações penais claramente inúteis.
Até porque, por mais que o ANPP pareça ferir a igualdade, ele, a bem da verdade,
impede a desigualdade, pois o alto volume de processos favorece a impunidade e a
cifra negra. Fora que a OPORTUNIDADE quase que decorre da INTERVENÇÃO
MÍNIMA. A ideia é focar no que realmente importa.
Em geral, tal acordo surgiu em diversos locais do mundo praticamente da mesma
forma: o MP ou o Judiciário em si decidiram cria-lo para tentar “desafogar”. Foi assim
na França e na Alemanha. Para desafogar o Judiciário, três opções podem ser
escolhidas: aumentar o número de cargos e juízes (oneraria demais o erário), a
descriminalização (envolve debate e planejamento, embora a descriminalização das
drogas fosse dar uma grande aliviada ao Judiciário) e o acordo de não persecução penal
para crives de média e baixa ofensividade.
Tal acordo pode aparentar levar à impunidade, mas, na verdade, a impunidade nós já
vivemos, pois um país que não consegue reprimir os crimes perde a credibilidade
de suas instituições. Neste sentido, o acordo ajuda a promover a reparação dos danos
[terceira via], e, se celebrado corretamente, dará também impressão de eficiência.
Justamente por isso, não se trata de impunidade. Vale lembrar que é um acordo
celebrado sem possibilidade de impor prisão, e baseado na voluntariedade (podendo ser
rescindido a qualquer momento), sem prescindir do controle da legalidade pelo juiz.
Interessante observar que, para oferecer denúncia, é necessário antes fazer a rescisão
do ANPP (diferente do modelo anterior do MP). O NOLO COTENDERE vem de
“não contestar”, e consiste em renunciar ao processo penal, permitindo que o juiz
aplique imediatamente a sentença. Já o PLEA GUILTY é bem complexo, pois podem
acordar, por exemplo, em reservar o direito de apelação. Distingue-se
fundamentalmente o PLEA BARGAINING por dois motivos: ele impõe a condenação
e a pena (e o ANPP não), e ele se aplica a praticamente qualquer crime. Também não se
confunde com a TRANSAÇÃO. Além dos requisitos serem distintos, no ANPP é
necessária a confissão formal, enquanto na transação não é. Ademais, o ANPP
preocupa-se com o ofendido. Ele também é mais delimitado para negociação que a
transação, que é mais livre e ampla.
Ademais, enquanto a transação expressa uma política penal de despenalização, o
ANPP visa a principalmente eleger prioridades. O SURSIS PROCESSUAL é guiado
pela mesma política. No entanto, além das distinções dos requisitos, o ANPP pressupõe
que a denúncia não foi oferecida (e por isso a “não persecução penal”), enquanto o
sursis pressupõe denúncia oferecida e recebida [será?]. O surgis paralisa a persecução
após o oferecimento, enquanto o ANPP visa a impedir a própria persecução. O
sursis é revogado se ocorrer novo delito, enquanto o ANPP não é. Ademais, sursis não
exige confissão. Já a COLABORAÇÃO PREMIADA também é distinta, pois é meio
de obtenção de prova, diferente do ANPP.

Capítulo 3 – Arquitetura do acordo de não persecução penal

Se o MP negar, entende-se que deu prioridade à persecução penal. Sua natureza é


de NEGÓCIO JURÍDICO e, por isso, não pode ser algo imposto nem pelo MP, nem
pelo investigado. É um instrumento que permite ao MP analisar se vale ou não a pena
levar ao Juízo. Para muitos, a natureza das obrigações contraídas pelo ANPP é de
PENA, mas Cabral discorda. Para ele, é de EQUIVALENTE FUNCIONAL DA
PENA, pois o descumprimento não gera prisão (e sim denúncia), e há natureza jurídica
prévia de acordo. O acordo possui REQUISITOS OBJETIVOS e SUBJETIVOS
(relacionados ao investigado).
Convém destacar que a pena deve ser INFERIOR A 4 (até 3 anos, 11 meses e 30
dias), e não igual. Se houver causa de aumento, opera-se o mínimo, e se houver de
diminuição, o máximo. A violência imprópria também obsta o ANPP. Neste sentido,
também não caberia ANPP para lesão culposa ou homicídio culposo, segundo Cabral. A
reprovação/prevenção é um critério objetivo-subjetivo, aparentemente (na prática). A
ideia de vedar a transação é “filtrar”, aparentemente. Ademais, cabe ANPP ainda que
também caiba sursis.
Para aplicar o ANPP, a conduta não pode ser reincidente, REITERADA (mais de
uma vez), nem HABITUAL, nem PROFISSIONAL (refere-se ao MODO como é
praticada, ainda que numa só vez). Obviamente, reiteração e habitualidade são
constatadas a partir de crimes similares. Exceto se a reiteração for irrelevante (sujeito
que rouba um aparelho de som e, anteriormente, roubava bombons). Também não
pode celebrar se já celebrou nos últimos CINCO ANOS. Lembrando que o termo a quo
é justamente a data da homologação, assim como na transação e no sursis
processual.
Convém destacar ainda que a confissão deve ocorrer NA FRENTE DO MP, não
bastando aquela que se faz diante da autoridade policial ou do PIC. A confissão somente
poderá ser utilizada se previamente homologada e se ADVIER descumprimento.
Neste sentido, se não foi homologado, não se pode usar contra o sujeito. Ademais, se
não confessou tudo, poderá gerar futura rescisão. Isso acontece porque o MP abriu mão
do exercício da ação penal, então seria uma forma de castigo.
Trata-se erro, dolo e coação como sendo condutas que retiram a EXISTÊNCIA do
ANPP. A validade estaria ligada aos elementos de escrita e afins [discordo]. A
homologação funcionaria como CONDIÇÃO DE EFICÁCIA, assim como na
colaboração premiada. Para Cabral, há condições CUMULATIVAS e
ALTERNATIVAS (observar “ou” e o “e”). Cabral ressalta como o ANPP trouxe
novamente a vítima para o processo penal como sendo um elemento muito relevante,
pois a reparação é quase a conditio sine qua non do ANPP.
A ideia de renunciar a bens e direitos se dá no sentido de devolver aquilo que se obteve
com o crime, ou seus instrumentos. No caso da prestação do serviço, o juízo da
execução decide, mas as partes podem sugerir um local. O PAGAMENTO DE
PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA não se confunde com a reparação, pois aquele é feito
para entidade pública ou social que protege bem jurídico igual ou semelhante ao que foi
violado (a ideia é justamente estimular a PREVENÇÃO daquele delito, pois ao
entregar dinheiro a uma entidade que protege a mulher, a ideia é de que menos mulheres
sofram violência pela proteção da entidade).
Interessante destacar também que há liberdade para PROPOR OUTRAS MEDIDAS,
mas que sempre devem ter um caráter TEMPORÁRIO. Seria o caso de renunciar a um
cargo, ou deixar de exercer certa atividade, ou não se candidatar. Pode ser também de
não frequentar dados lugares, fazer cursos educativos ou de reciclagem, entregar a CNH
por um período, não contratar com o Poder Público, etc. A principal obrigação do MP é
não oferecer a denúncia. Lembrando que é possível estabelecer obrigações laterais
típicas da boa-fé objetiva.
Para se promover a homologação, é importante fazer uma AUDIÊNCIA a fim de
verificar a voluntariedade e a legalidade do acordo. São efeitos do acordo: suspensão
do prazo prescricional relativamente aos fatos objeto do acordo; se estabelece o
termo para a contagem do prazo de cinco anos; gera intimação para que a vítima
saiba da homologação; inicia o cumprimento do acordo. Se o juiz achar que não é
necessário e conveniente, ele não pode negar a homologação, mas tão somente
proceder conforme o art. 28. É possível, também, devolver para RENEGOCIAÇÃO,
como quando as obrigações estiverem aquém do mínimo legal, ou excessivas, ou
inadequadas à finalidade do ANPP.
Se o juiz não homologar, ocorrerá o desentranhamento da confissão e um possível
oferecimento da denúncia. Quanto aos bens entregues, convém destacar que os ilícitos
e os lícitos que interessarem ao processo não serão devolvidos, ainda que ocorra a
rescisão do acordo por não homologação. Entende-se que, se o MP não o fizer, a parte
pode alegar que faça. Se o juiz concordar com a parte, suspende-se o feito e remete-se
na forma do art. 28. Do contrário, sustenta Cabral, aparentemente, que de ofício não
seria possível fazer o art. 28 (diferente do sursis). De toda sorte, deve o MP
fundamentar a recusa.
Só se aplica o art. 28 se houver recusa. Se oferecida a denúncia não se observar o
ANPP, pode-se requerê-lo em resposta. Sobre os RECURSOS, contra a decisão que
não notifica a parte acerca da intenção de celebrar a acordo, cabe correição parcial.
Quanto àquela que recusa homologação, cabe RESE. Se o juiz invadir o conteúdo do
acordo, cabe correição parcial por “tumulto” ou inversão das fases. Contra a decisão
que nega remessa ao MP na forma do art. 28, não há recurso específico, de modo que
caberia HC. No caso do Juízo da execução que toma decisão, pode caber agravo à
execução.
Homologado o acordo, recomenda-se que o MP peticione ao juízo que homologou
para que remeta os autos ao juízo da execução para dar início ao cumprimento do
ANPP. A ideia é de que o juiz competente para execução é aquele que PODE
EXECUTAR AS PENAS RESTRITIVAS DE DIREITO, embora o ANPP não gere
“penas”. Se tudo for cumprido, dá-se vista ao MP para que postule à VEP a extinção da
punibilidade. Se descumprir, pede-se à VEP para que remeta os autos ao juízo originário
para que se ofereça a denúncia ou dê procedência ao feito. Ainda que rescindido, a
vítima aparentemente pode executar o ANPP no cível. Já se o MP descumprir (ou seja,
oferecer a denúncia), a consequência será sua rejeição por falta de interesse.
O ANPP pode, em tese, ser usado em ação penal privada, embora não faça sentido. A
competência em homologar é do Juízo de Garantias, a princípio. Para Cabral, é possível
que PJ celebre ANPP, desde que seu representante possua poderes para tal.
Entende-se que ANPP NÃO É DIREITO SUBJETIVO. Também se defende em
âmbito de Justiça Militar e Eleitoral. Até mesmo em crimes hediondos, atendidos os
requisitos. Para o autor, o marco final para se oferecer o ANPP é a sentença penal
condenatória, de modo que, após ela, NÃO SERÁ MAIS POSSÍVEL. Até porque a
confissão não teria mais valia, e a posterior homologação do ANPP não poderia anular
ou afastar uma sentença. Quanto aos fatos supervenientes que tornam possível o ANPP
(como desclassificação), entende-se possível a remessa ao MP para oferecer o ANPP
por analogia à SÚMULA 337 do STJ.

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