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Maurilo Clareto/Companhia das Letras

REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA

03 Notas
37 Criação
Seis poemas de
Antonio Moura
Entrevista
04 O poeta e ensaísta
O escritor José Saramago
40 Cinema
Augusto de Campos fala Amor & Cia. leva para
Capa/Entrevista as telas obra póstuma de Eça
sobre seu novo livro, 16 Uma conversa de José de Queiroz
Música de invenção
Saramago, primeiro Nobel da
literatura portuguesa, com o
42 Poesia
Marllene Bergamo/Folha Imagem

poeta Horácio Costa Obra de Roldan-Roldan oscila


entre o sagrado e o erótico
Capa/Ensaio
24 Em texto inédito no Brasil,
Saramago contexta distinção 43 Dossiê
Saiba o que são os estudos
entre autor e narrador culturais, principal tendência
da crítica contemporânea
28 Capa/Resenha
O jornalista Adriano
Reprodução

Schwartz analisa José


Saramago – O período
formativo, de Horácio Costa

O poeta Augusto de Campos


30 Leituras CULT
Os destaques entre os
lançamentos de livros
12 Biblioteca Imaginária
João Alexandre Barbosa
analisa o Diário de um Memória em Revista
escritor, de Dostoiévski 31 Um conto de Natal de 1910
publicado na revista Fon-fon
Obra do fotógrafo Eugene Zakusilo, que ilustra a capa do “Dossiê”
Na ponta da língua
15 O professor Pasquale mostra o
emprego indiscriminado do
32 Fortuna Crítica
Ensaio sobre o new
56 Do Leitor
Cartas, fax e e-mails
termo “você” historicism encerra a série dos leitores de CULT

dezembro/98 - CULT 1
O Nobel é o mais cobiçado e questionado prêmio literário do mundo.
REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA Jornalistas e críticos sempre nos lembram das omissões e dos pre-
NÚMERO 17 - DEZEMBRO DE 1998

Diretor
conceitos políticos da Academia sueca. Neste ano,
Paulo Lemos
Gerente-geral
curiosamente, as omissões e preconceitos ficaram por conta
Silvana De Angelo
Editor e jornalista responsável
dos jornalistas e críticos. O Nobel outorgado a José Sara-
Manuel da Costa Pinto – MTB 27445
Editor de arte
mago no último mês de outubro deveria ser saudado
Maurício Domingues
como o reconhecimento da tradição literária de língua
Editor-assistente
Bruno Zeni
portuguesa neste e no outro lado do Atlântico. Entre-
Diagramação e arte
Rogério Richard
José Henrique Fontelles
tanto, pôde-se observar duas reações. Em primeiro
Adriano Montanholi
Yuri Fernandes lugar, algumas restrições às opções políticas de
Eduardo Martim do Nascimento
Produção editorial Saramago (o escritor nunca escondeu o fato de
Danielle Biancardini
Revisão ser comunista), que estariam sendo indiretamen-
Claudia Padovani
Nilma Guimarães te legitimadas. Parece óbvio, porém, que a
Colunistas
Cláudio Giordano Academia premiou obras, como Memorial do
João Alexandre Barbosa
Pasquale Cipro Neto convento e Ensaio sobre a cegueira, e não
Colaboradores
Adriano Schwartz uma preferência ideológica. Se o Nobel
Antonio Moura
Carlos Adriano
Charles Bernstein
tivesse sido dado a Pound ou Céline, alguém
Horácio Costa
Jayme Alberto da Costa Pinto Jr. poderia questionar o acerto literário de tal
Neusa Barbosa
Sérgio Medeiros escolha pelo fato de Pound ter apoiado o
Raúl Antelo
Régis Bonvicino
Capa
fascismo e Céline ter sido anti-semita e cola- AO L E I TOR
Foto de Vidal Cavalcante/Agência Estado boracionista? Considerando que o comu- Manuel da Costa Pinto
Produção gráfica
José Vicente De Angelo nismo parece coisa do passado, o segundo
Fotolitos
Unigraph tipo de reação parece hoje ser mais grave:
Circulação e assinaturas
Rosangela Santorsola Arias aquela que valoriza em Saramago um purista
Camilla Aparecida Lemme
Dept. comercial/São Paulo da língua, na ótica míope de certos poetas-
Idelcio D. Patricio (diretor)
Valéria Silva
Elieuza P. Campos
tros tardo-simbolistas que celebram às aves-
Dept. comercial/Rio de Janeiro
Milla de Souza (Triunvirato Comunicação,
sas a premiação, comemorando o fato de o
rua México, 31-D, Gr. 1403, tel. 021/533-3121)
Distribuição em bancas
Nobel não ter sido entregue a outro eterno can-
FERNANDO CHINAGLIA Distrib. S/A
Rua Teodoro da Silva, 907 - Rio de Janeiro - RJ didato – o poeta João Cabral de Melo Neto. Por
CEP 20563-900- Tel/fax (021) 575 7766/6363
e-mail: Contfc@chinaglia.com.br isso, é oportuno publicar a entrevista que Horácio
Distribuidor exclusivo para todo o Brasil.
Assinaturas e números atrasados Costa fez com Saramago no início deste ano: além
Tel. 0800 177899
Departamento financeiro de explorar as raízes de sua obra (para além de
Regiane Mandarino
ISSN 1414-7076 engajamentos políticos), Horácio extrai dele o
CULT – Revista Brasileira de Literatura depoimento sobre uma poética que vai de um estilo
é uma publicação mensal da Lemos Editorial e
Gráficos Ltda. – Rua Rui Barbosa, 70,
Bela Vista – São Paulo, SP, CEP 01326-010
barroquizante para um estilo de “pedra”, conforme a
tel./fax: (011) 251-4300
e-mail: lemospl@netpoint.com.br expressão cabralina do próprio Saramago. Claro que existe
uma enorme diferença entre os dois escritores, mas a afirmação
de Saramago basta para descartar certas tolices que querem
apartá-lo de uma pesquisa lingüística herdeira do modernismo e
que caracteriza a melhor literatura em língua portuguesa. Cá como lá.

2 CULT - dezembro/98
Reprodução Blaise Cendrars Poesia
Acaba de sair na França o livro Brésil – A Nankin Editorial lança no próximo dia
L’Utopialand de Blaise Cendrars (editora 8 de dezembro dois novos títulos da
L’Harmattan), que reúne textos apresen- coleção “Janela do Caos”, que vem
tados em colóquio sobre o poeta franco- publicando diversos livros de poesia bra-
suíço. Organizados por Maria Teresa de sileira: Lição de casa & poemas anteriores,
Freitas e Claude Leroy, os ensaios de Carlos Felipe Moisés, e Risco, de
reconstituem a experiência de Cendrars Eunice Arruda. O lançamento acontece
no Brasil, desde seu contato com nossos a partir das 19h30 na Casa de Minas, rua
modernistas (que foram influenciados São Carlos do Pinhal, 87, São Paulo.
por sua poética futurista), suas relações Informações pelos telefones 011/3106-
O poeta franco-suíço com Paulo Prado e Tarsila do Amaral, 7567 e 3667-3486.
Blaise Cendrars seu fascínio pela obra do escultor Imigrantes
Aleijadinho e sua atração por figuras que
povoam o imaginário popular, como o As sociólogas e pesquisadoras Marina
cangaceiro Lampião e o criminoso Heck e Rosa Belluzzo lançam neste mês
Febrônio. O volume inclui textos de dezembro o livro Cozinha dos imigrantes
inéditos e fotografias de Cendrars. – Memórias & Receitas (DBA/Melho-
ramentos). Com projeto do artista gráfico
Livros na Internet de J. Pequeno, a edição traz mais de 30
depoimentos de imigrantes residentes em
Está no ar o site Weblivros!, inteiramente São Paulo e vindos de países como
N O T A S

dedicado à literatura e aos livros em Portugal, Itália, Japão, Síria, Líbano,


geral. Criado pelo jornalista Reynaldo Bessarábia, Hungria, Polônia e Rússia.
Damazio (colaborador da revista CULT) Os textos destacam o papel da culinária
e pelo editor de arte Ricardo Botelho, o como expressão antropológica do en-
site traz ensaios sobre temas literários, contro entre culturas diferentes e como
notícias sobre os últimos lançamentos espaço de preservação da memória das
do mundo editorial, com resenhas sobre etnias que compõem o cenário mul-
obras de ficção (romances, contos, ticultural da cidade. Além das entrevistas,
infanto-juvenis), não-ficção (filosofia, realizadas pelas autoras do livro, Cozinha
crítica literária, antropologia, história, dos imigrantes tem 150 receitas que com-
biografias etc.) e poesia. O Weblivros! põem um retrato “etnológico-gastronô-
possui também um espaço de criação mico” de culinárias tradicionais e das mo-
literária para novos autores. O endereço dificações que estas sofrem ao serem acli-
Reprodução
do site é “www.weblivros.com.br”. matadas no Brasil.
Correção
Macunaíma em Portugal
Devido a um erro de edição, os títulos de
Macunaíma, a “rapsódia” modernista três obras de Mallarmé foram grafados
lançada por Mário de Andrade em 1928, incorretamente no “Dossiê” da CULT
acaba de ser publicado pela primeira vez nº 16 dedicado ao poeta francês: os
em Portugal pela editora Antígona. O ensaios Crayonné au théâtre (de 1887), La
livro conta com introdução, notas e glos- musique et les lettres (1894) e Variations sur
sário de Jorge Henrique Bastos (jor- un sujet (1895) são obras diferentes, e não
nalista brasileiro radicado em Portugal e um único ensaio, conforme consta em
colaborador do semanário Expresso e da texto da página 58 da referida edição. Na
revista Ler), além de um hors-texte que pág. 55 do mesmo “Dossiê”, os títulos de
reproduz a nota Liminar, de Darcy Ribeiro Blanchot, Derrida, Valéry e Julia Kristeva
(incluída anteriormente na edição crítica citadas na bibliografia de livros sobre
de Macunaíma coordenada por Telê Porto Mallarmé não são exclusivamente sobre
Mário de Andrade, autor de Ancona Lopez, Editora da UFSC, 1988), o poeta, embora contenham capítulos ou
Macunaíma e fotografias de Mário de Andrade. ensaios sobre sua obra.
ASSINATURAS
DISQUE CULT 0800.177899
CULT novembro/98 - 3
entrevista
Imagem
Knapp/Folha
Eduardo

AUGUSTO DE
CAMPOS

4 CULT - dezembro/98
O poeta, tradutor e ensaísta Augusto de
Campos está lançando Música de invenção,
coletânea com mais de 30 textos escolhidos
e recolhidos de diversas e esparsas publicações
ao longo dos últimos 40 anos. Nesta
entrevista, o autor comenta suas relações
com um amplo espectro musical e como alguns
aspectos da esfera sonora imantam e
inspiram sua própria produção. Um dos
fundadores da Poesia Concreta, com Décio
Pignatari e Haroldo de Campos, Augusto
aborda também os processos de dilatação
dos pressupostos tradutórios como fonte e
pauta para outros solos da criação. Augusto
de Campos fala ainda sobre seu trabalho
poético mais recente, voltado para a interface
com outros meios e suportes. Após
os poemas coloridos de Poetamenos, os
poemas tridimensionais de Poemóbiles, as
oralizações audiovisuais de Poesia é risco e as
animações digitais de Clip-poemas, o sonho
“verbivocovisual” já parece ser mais concreto.

Carlos Adriano

dezembro/98 - CULT 5
CULT Música de invenção parece ser um complemento reconhecidos e divulgados como mereciam. Já no campo da
dialético ao Balanço da bossa, seu livro de 30 anos atrás. O senhor música contemporânea, as coisas se passam muito mais
poderia comentar esse arco que os livros traçam e tensionam: lentamente. Também aí se pode falar de vitória, na medida em
da música popular à música “impopular”? que nomes como os de Webern, Varèse, Ives, Cage e tantos
Augusto de Campos Na verdade, o traço comum outros, que no começo da década de 50 sequer figuravam nos
compêndios musicais, além de serem raramente executados
aos dois livros é a preocupação com o que chamo de “música
ou gravados, passaram a ser devidamente valorizados, graças,
de invenção”, música qualificada pela criação ou descoberta
sobretudo, às novas gerações de músicos de vanguarda,
de novas linguagens ou novos processos de composição. O
Boulez, Stockhausen, Nono, hoje também eles ocupando
Balanço da bossa foi motivado por um momento particular de
posição proeminente no cenário da música do nosso tempo.
invenção na área da música popular – o tropicalismo –, que
Mas essa vitória se restringe ao campo dos especialistas e dos
me parecia tensionado para a linguagem das vanguardas raros aficionados da música contemporânea. As gravações de
quando eclodiu precedido, dez anos antes, pela renovação, sua música são numerosas, mas chegam em reduzida parcela
também polêmica, de João Gilberto e da bossa nova. Mas foi às casas de discos (às nossas, particularmente) e são, com
a “música contemporânea” (entendida essa expressão como extrema escassez, prensadas entre nós. Estamos aí em pleno
referente à música erudita moderna do nosso tempo) que, desde território da “música impopular” – impopular, diga-se bem
o início, moldou a minha sensibilidade musical, influenciando claro, pela ignorância e pela preguiça de ouvidos que não têm
diretamente, pela obra de Webern, os meus primeiros poemas preocupação em ampliar o seu conhecimento musical e
concretos da série Poetamenos, em 1953. Expoentes da música preferem os divãs confortáveis da música digestiva a tudo o
de invenção na área da música contemporânea, Webern e Ives que exija um maior esforço de inteligência. Há ainda uma
e os principais integrantes do grupo brasileiro Música Nova grande batalha a travar no sentido de ressensibilizar os ouvidos
(Gilberto Mendes, Willy Correa de Oliveira, Rogério Duprat, preguiçosos do público e incentivá-lo a ampliar o espectro da
Damiano Cozella, Julio Medaglia), comparecem na segunda sua informação musical com a contribuição destes que são os
edição (Balanço da bossa e outras bossas), marcando significa- santos e mártires da renovação musical, os mondrians e
tivamente o meu interesse por essa música, na perspectiva de duchamps da música de invenção do nosso tempo. Essa tem
uma possível interatividade entre os dois projetos, o da música sido a minha preocupação nos últimos tempos e é a tônica do
popular e o da música contemporânea de invenção. Com o meu novo livro, todo ele dedicado a trazer para perto do
correr do tempo, passei a me dedicar cada vez mais à música público os fundadores da nova sensibilidade musical – de
contemporânea. Pareceu-me que a batalha da renovação da Schoenberg, Webern e Varèse a Scelsi, Cowell, Antheil,
música popular brasileira operada pela bossa nova e pelo Nancarrow, Nono, Ustvólskaia, nomes menos conhecidos,
tropicalismo estava ganha e que os seus principais prota- alguns deles, até mesmo de muitos apreciadores da música
gonistas, depois das incompreensões iniciais, haviam sido moderna.

6 CULT - dezembro/98
CULT Qual é a contribuição da música ao seu trabalho poético
propriamente dito?
A.C. Imensa. A música é para mim uma “nutrição de impulso”
indispensável. Como a poesia, no dizer de Pound, está mais
próxima da música e das artes plásticas do que da própria
literatura, acho natural que assim seja. Sem Webern, Mondrian
e Maliévitch, eu não teria formulado o Poetamenos (também
devedor, é óbvio, de Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings).
Nesse ponto, sou muito diferente de João Cabral, que detesta
música, mas em compensação ama a pintura. Em todo o caso, a
música de que eu gosto é tão antimusical para a maioria dos
ouvidos, que é possível que Cabral e eu nos conciliemos em
algum ponto das nossas sensibilidades. Há períodos em que
ouço mais música e leio mais sobre música (especialmente
música contemporânea) do que leio poesia e sobre poesia. A
descoberta nos últimos anos de Scelsi, Nancarrow, Ustvólskaia,
e do último Nono foi um dos maiores choques e prazeres
culturais destes meus últimos tempos.
CULT A ruptura de suportes já era implícita na Poesia
Concreta, na medida de seu programa de potencialização da
voltagem do texto. Como o senhor analisa sua trajetória pela
experiência “intermídia”?
A.C.“Intermídia” é uma expressão criada pelo poeta
americano Dick Higgins, e que ele prefere à mais utilizada
“multimídia” (hoje com sentido técnico mais estrito), para
classificar obras que associam mídias diferentes em situação
inusitada. Ele já classificava como tal a própria Poesia
Concreta, por compactar signos poéticos e plásticos num
mesmo objeto artístico. Mas creio que as propostas extralivro
implícitas na prática dessa poesia induzem à experimentação
O compositor norte-americano Charles Ives

dezembro/98 - CULT 7
A partitura polifônica de Augusto de Campos
Música de invenção é um livro didático e programático.
Didático porque introduz, com clareza e prazer, o leitor-
ouvinte ao raro e ignorado universo de compositores
eruditos contemporâneos. Programático porque o autor
assume, com precisão e proficiência, uma postura
apaixonada em prol da arte de riscos e descobertas.
Essa antologia reúne reflexões musicais elaboradas por
Augusto de Campos ao longo de quatro décadas. São mais
de 30 textos publicados originalmente em jornais, revistas
e enciclopédias entre 1957 e 1997.
Orquestrada em quatro seções e dois apêndices, a obra
compõe em sua partitura polifônica ensaios analíticos e
ilustrações sintéticas. Notas dissonantes (para os cânones
do chato concerto de meias-idéias) prolongam-se em John Cage, tema do ensaio “Musicaos”, de Augusto de Campos
pausas e harmonia de não-tons e acordes imperfeitos.
O capítulo “Palavra e música” agrupa as Músicas de Provença os artistas em efígie criativa, graças ao viés poético do
e da “Geração Perdida”, a Antiópera de Ezra Pound e o “Pierrô autor.
Lunar” de Arnold Schoenberg. “Radicais da música” une Erik Além da riqueza textual, configurada por ensaios e poesias,
Satie, Walter Smetak, Edgard Varèse e Anton Webern. O traduções de memórias e poemas, o volume exibe uma
capítulo “Musicaos” é todo dedicado a John Cage. “Pós- variada fortuna iconográfica, que apresenta fotografias,
música” alia Giacinto Scelsi, Conlon Nancarrow, George partituras, fotomontagens e profilogramas (compósitos
Antheil, Henry Cowell, Luigi Nono e Galina Ustvólskaia. Os ícone-gráfico-verbais).
apêndices incluem verbetes e polêmicas. Música de invenção rege em suas páginas as proezas raras
Trata-se de um livro tanto para iniciados como para de pianolas, celocantos e esfinges. Afina em operações
interessados. Há o estudo técnico, mas sem o ruído do abertas do acaso e da mudança, no diapasão que desbrava
jargão especializado (para o leigo). Há a narrativa histórica, o novo nostálgico sobre uma baliza íntegra e radical. Para
mas sem o ranço pedestre da anedota e da cronologia. As ouvidos livres escutarem as pedras, o silêncio e as esferas
elegias exegéticas rechaçam a apologia acrítica e retratam extremas. (Carlos Adriano)

8 CULT - dezembro/98
ainda com outras mídias. Suponho que é esse o objetivo de sua
pergunta e, nesse sentido, digo que segui um caminho que me
levou a trabalhar com muitas mídias não comuns às poéticas
convencionais. Assim, a minha poesia se associou, ao longo
dos anos, não só à produção de “livros livres”, não-ortodoxos,
como os produzidos com Julio Plaza (Poemóbiles, Caixa preta,
Reduchamp), mas também às novas tecnologias, da holografia
e do laser ao computador, e ainda à própria performance
“intermídia”, fazendo interagir a oralização do poema, o
Edgar
tratamento sonoro e musical digitalizados da palavra poética Varèse
e a animação digital e videográfica, matéria do espetáculo
Poesia é risco, que divido com Cid Campos e Walter Silveira.
Nesse território, assim como no da animação digital, antes
que na poesia propriamente livresca, situam-se as minhas mais
recentes aventuras poéticas.
CULT Seu trabalho como tradutor, privilegiando autores e
poemas “difíceis”, foi importante para a pesquisa de transcriação
interdisciplinar empreendida hoje?
A.C. Certamente. A tradução como criação, e, no meu caso Luigi
particular, aquilo que chamei de “intradução”, ou seja, a tradução Nono
intersemiótica, que transcodifica em achados não-verbais
elementos do texto original, aponta já para o terreno da
transcriação interdisciplinar. Quanto ao “difícil”, é bom ressaltar
que não busco o difícil pelo difícil. A “dificuldade” surge da
necessidade de expressar idéias mais complexas e do fato de eu
privilegiar autores e obras que lidam com linguagens artísticas
não-convencionais, a demandar um esforço contra a preguiça
intelectual para que sejam apreendidos. Como disse John Cage,
“os artistas do século XX que oferecem uma resistência à nossa
compreensão serão aqueles aos quais não cessaremos de ser
Anton von
agradecidos”. Webern

dezembro/98 - CULT 9
CULT O paideuma verbal incluía Mallarmé, Pound, Joyce e
Cummings. Por seu interesse e criação com múltiplos códigos
semióticos, qual seria a composição de um paideuma intermídia?
A.C. Além dos quatro citados, eu incluiria, numa equação
drástica, Webern-Cage, Mondrian-Duchamp, Eisenstein-
Godard, MacLuhan-Leary – não o Timothy Leary do LSD,
dos anos 60, mas o profeta do ciberespaço, tal como aparece em
seu último livro, Chaos and cyberculture (1994).
CULT Livro livre, caleidoscópio de páginas, caixa preta, neon, Pierre
Boulez
móbiles, holografia, computador. Como será o futuro da poesia
e a poesia do futuro?
A.C. O mais futuro dos poetas, Mallarmé, nos deu uma lição
de humildade: “Sem presumir o que sairá daqui. Nada ou talvez
uma arte” (diz no prefácio do não-livro basilar, O lance de dados).
Prefiro não fazer exercícios de futurologia. Mas o meu futuro,
senão como realização, ao menos como projeto, “pode ser”,
está sem dúvida na poesia digital, com todas as suas repercussões
tanto para dentro como para fora do livro – animações e
oralizações poéticas, ações intermídia.
Karlheinz
CULT Em seu trabalho e em sua postura, o senhor rima rigor Stockhausen
artístico e rigor ético. Qual a função do poeta e da poesia nesta
época atual, banal e brutal?
Música de invenção
A.C. Resistência e rebeldia. Resistência à mercantilização da
Augusto de Campos
arte, rebeldia contra a paralisação da mente. Como a poesia não
tem valor de mercado, sua mais-vida (parodiando aqui o conceito Editora Perspectiva
de “mais-valia”) não compensada assume o valor ético de 274 págs. – R$ 30,00

1 0 CULT - dezembro/98
responder ritualmente pela integridade do projeto artístico. O revelação e a difusão dos grandes inovadores artísticos do presente
poeta verdadeiro tem que estar preparado como o urso para e do passado, gente que admiro. E, quanto a mim, como leitor,
hibernar e se alimentar do seu próprio tutano, como dizia Thoreau. estou seguro de que não perdi meu tempo na “conversa inteligente”
Não deve se preocupar de maneira alguma com o aplauso ou que procurei manter com eles ao longo de meio-século.
com o sucesso. O seu “não me vendo” perde sempre a curto prazo, CULT E seus próximos projetos?
mas, a longo prazo, se for para valer, acaba ganhando.
A.C. Tenho uma nova edição das minhas traduções de
CULT Sob o jugo retrógrado que assola e teima em propalar o Cummings (agora são mais de 60 poemas), já composta, na
fim das vanguardas engajadas e a falência da utopia artística, como editora Francisco Alves, que espero ver publicada ainda este
o senhor vê a existência e a permanência da arte experimental? ano. E traduzi mais 30 dos “Novos poemas”, que espero
A.C. A idéia de vanguarda como enfileiramento coletivo, incorporar a uma segunda edição do livro Rilke: Poesia coisa.
ortodoxo, em torno de um grupo ou corrente, pode não ter mais Gostaria de reeditar Viva vaia (Poesia 1949-79), esgotado há
lugar. Mas sempre haverá artistas que trabalham com elementos muitos anos, que, somado a Despoesia (1979-94), traça um
já sedimentados, tentando levá-los a um patamar mais alto, dos panorama de quase meio-século do meu trabalho. E espero,
mestres aos diluidores, e artistas-inventores, que não estão apenas algum dia, fazer um CD-Rom com minhas animações e meus
preocupados com a auto-expressão e com o aprimoramento de poemas digitais. Quero continuar meu trabalho nesse campo,
formas, mas com a transformação das idéias e a descoberta e a mas não sei se terei tempo e ânimo para prosseguir. Trabalho
experimentação de novos territórios para a linguagem artística. sozinho, como autodidata, e é preciso estudar grossos manuais
Queira-se ou não, artistas desse tipo, praticando aquilo que se de “softwares”, possuir bons equipamentos e atualizar-se
chama arte experimental, de invenção ou de vanguarda, serão sempre, além de ter belas idéias. A idade começa a bater, sinto
sempre indispensáveis para a renovação das artes. Por que precisaria ter dez anos menos. Parodiando Musset
temperamento e por convicção, tento alinhar-me entre estes. (“Cheguei tarde demais a um mundo muito velho”), dizia Satie:
CULT Seus primeiros poemas foram publicados (em jornal) “Cheguei ao mundo muito jovem em um tempo muito velho”.
em 1948, não é? Qual o balanço dessa bossa poética de 50 anos? Eu digo: “Cheguei tarde demais a um mundo muito novo”.
A.C. Não me sinto animado a fazer um balanço do meu próprio Carlos Adriano
trabalho. Espero, apenas, ter contribuído, senão com a minha cineasta, autor dos filmes A voz e o vazio: A vez de Vassourinha, Remanescências, A luz
das palavras e Suspens; com Bernardo Vorobow, organizou o livro Julio Bressane: CinePoética;
própria poesia, com o meu trabalho crítico e de tradutor, para a faz mestrado em cinema na USP e é pesquisador na Cinemateca Brasileira

dezembro/98 - CULT 1 1
Lendo
Dostoiévski João Alexandre Barbosa
Lá no fundo da gente, guardada com de papel utilizado, seja pela péssima
os cuidados que se usa para as coisas mais diagramação, seja ainda pela desin-
preciosas, está, muitas vezes, uma reno- formação acerca do Diário que está nas
vada frustração, ou culpa indefinida, por duas orelhas.
não ler, por inteiro, certas obras. E nem De qualquer modo, essa edição teve ao
sempre é uma questão de tempo, pois às menos o mérito de me fazer entrar em
vezes é mais fácil reler do que ler. contato, pela primeira vez, com o Diário e
É claro que seria preciso muitas vidas de ler ali alguns dos mais perfeitos contos
para que a frustração, ou a culpa, desa- de Dostoiévski (embora sem saber se
parecess de todo: a gente faz o que pode e estavam ou não traduzidos na íntegra),
segue adiante. Mas ela pode ter outros assim como o famoso discurso sobre
motivos, um deles, com certeza, sendo a Puchkin. Foram as partes da obra que li
própria estrutura da obra que, dado o seu nessa edição, além de uma ou outra
possível caráter fragmentário, permite, ou passagem dos inúmeros casos judiciários
mesmo exige, as passagens de fuga que relatados pelo escritor, relevando aquele
afugentam a continuidade. que trata do caso Kroneberg que, segundo
Em outros casos, é a própria extensão alguns especialistas, estaria nas origens de
da obra ou o seu modo de publicação que O estrangeiro de Albert Camus, ou mesmo
convidam ao adiamento de uma leitura o estudo comparativo entre Metternich e
contínua. Penso em todas essas obras D.Quixote.
Dostoiévski em 1860
completas de algumas coleções editoriais: Em seguida, foi a vez de ler alguns
a Bibliothèque de la Pléiade, da Gallimard, A obra é o Diário de um escritor que venho trechos do Diário, publicados na edição
por exemplo, ou a Library of America, ou tentando ler desde os anos 60. E a história da Obra completa, traduzida por Natália
a Aguilar, tanto a espanhola quanto a sua desta leitura está articulada ao modo pelo Nunes e Oscar Mendes (possivelmente
similar brasileira. Sempre achei mais fácil qual fui tendo acesso a diversas edições da do francês, embora não haja nota editorial
ler o Valéry de Variété nos cinco volumes obra. É parte dela que se vai ler em explícita a respeito), em quatro volumes,
individuais da Gallimard do que o que se seguida. da Editora José Aguilar, de 1964.
contém nos dois compactos volumes da Em primeiro lugar, a estranha e Os trechos do Diário aparecem como
Pléiade. Ou o Dostoiévski, na tradução da precária edição brasileira, de 1943, da “excertos do diário de um escritor” na seção
José Olympio, com suas elegantes ilus- Editora Vecchi, em tradução de um certo de “Outros escritos”, no volume quarto,
trações de Goeldi e alguns prefácios Frederico dos Reyes Coutinho, nome que precedidos de três dos contos que fazem
exemplares de críticos brasileiros, do que tem jeito de pseudônimo. Estranha, pois parte do Diário, todos traduzidos, segundo
o da Aguilar em papel bíblia, exigindo boa não traz indicação alguma da língua de se informa em nota editorial, por Natália
vista ou lentes adequadas. que foi traduzida, certamente não é uma Nunes. Além disso, são incluídos apenas
Mas, como já disse, podem existir tradução integral e, além disso, a língua três trechos, e ainda assim incompletos. As
motivos mais complexos para que uma da tradução é tão insegura e empolada que informações editoriais sobre a obra são
leitura não se complete, mesmo quando se fica com a impressão de que o autor do escassas e superficiais, e o leitor fica até
se trate de obra pela qual se tem curio- original não é Dostoiévski. E precária mesmo sem saber, com certeza, as datas de
sidade e vontade de ler. É o que aconteceu dada a própria qualidade editorial que é publicação ou o tempo a que correspondem
comigo e uma das obras de Dostoiévski. de um primarismo obsceno, seja pelo tipo na atividade de escritor de Dostoiévski.

1 2 CULT - dezembro/98
O Diário de um escritor é um compósito de textos

Xilogravura de João Leite


ficcionais e semificcionais, uma enciclopédia de
gêneros em que jornalismo, ficção, autobiografia
e história são absorvidos pelo reino das utopias e
antiutopias de que é feito o universo de Dostoiévski
Embora a linguagem em que são Dostoiévski em diferentes revistas: O Discurso sobre Puchkin, e, finalmente, Diário
transcritos os textos seja de um nível Tempo (Vremia), fundada por seu irmão de um escritor 1881, de que só se publicou o
infinitamente superior àquela da Vecchi, Michail Michailovich, O Cidadão primeiro número de janeiro. Além disso, a
para o leitor interessado em melhor (Grachdanin) e A Cota (Skladchina).” “Introdução” é precisa e muito rica de
conhecer a obra é ainda muito insuficiente, Seja como for, a edição espanhola era a informações, começando por apontar a
seja pela pequena amostragem dos trechos primeira possibilidade real que se me singularidade do gênero da obra – ele-
transcritos, seja pela parca informação que oferecia para uma leitura integral da obra, mento, a meu ver, essencial para a possi-
os acompanha. ainda mais favorecida pelo prazer da bilidade de sua leitura:
Por isso, infelizmente analfabeto em linguagem em que estava vertido o russo de “Com o Diário de um escritor,
russo, tive que passar para a leitura de Dostoiévski, sem os atavios pedantes e Dostoiévski inaugurou um novo gênero.
traduções em línguas a que tenho acesso, empolados da edição da Vecchi. Mas então Não é, mais ou menos cotidiana, uma
a começar pela versão espanhola que está surgia o percalço editorial a que me referi relação das atividades de autor ou uma
na edição, em três volumes, das Obras no início: o Diário era publicado como a confissão de seus estados de espírito, uma
completas da Aguilar de 1958, a cargo desse penúltima parte do volume terceiro das Obras conversa consigo mesmo com a intenção,
admirável tradutor que foi Rafael Can- completas (a última sendo um Dostoiévski reconhecida ou não, de uma divulgação
sinos Assens, que também traduziu todo o inédito, segundo Cansinos Assens), seguindo tardia ou póstuma.”
Goethe, além de ser, segundo Borges, o a edição de Os irmãos Karamázovi, e tudo num Na verdade, quando li pela primeira vez
melhor tradutor, em qualquer língua, das robusto volume de quase mil e oitocentas essa “Introdução”, compreendi uma das
Mil e uma noites. E foi um deslum- páginas em papel bíblia! Mais uma vez, razões fundamentais para as dificuldades que
bramento: era a primeira tradução inte- portanto, e dando como desculpa o fato de tinha em ler, com continuidade, o Diário: não
gral, e diretamente do russo, a que tinha que um diário lê-se assim mesmo, aos percebera o desvio de Dostoiévski com
acesso, além de poder contar com informa- bocados, adiei uma leitura contínua. relação à tradição do gênero e, certamente,
ções preciosas, graças à erudição do Quando da publicação de sua versão, esperava de suas páginas aquilo que ele não
tradutor. No entanto, essa mesma erudição em 1958, no final do prólogo, Cansinos podia, ou não queria, transmitir, isto é,
e uma certa desmesura que lhe era carac- Assens anotava, de um modo um tanto aqueles estados de espírito que a gente encontra,
terística fizeram com que Cansinos Assens triunfalista, que a sua era a primeira versão com abundância de detalhes, num Stendhal,
incluísse, como pertencente ao Diário, tudo integral da obra em qualquer língua. num Gide ou num Amiel. No demais, as
o que Dostoiévski escreveu para os mais Não sei se tinha procedência o orgulho informações pontuais arroladas por
diversos periódicos entre 1861 e 1881, de Cansinos Assens: sei que, em 1972, foi Aucouturier permitiam que o leitor pudesse
seguindo o procedimento adotado por publicada uma edição francesa do Diário, se situar com relação às diversas partes da
Anna Grigorievna, viúva do escritor, em tradução de Gustave Aucouturier, na obra, encontrando-as sempre como títulos
quando, na primeira publicação póstuma, Bibliothèque de la Pléiade, um volume de mil de páginas numa magnífica diagramação.
anexou ao Diário vários textos que não seiscentas e onze páginas, repleto de notas, Assim, por exemplo, no alto da página, à
estavam previstos no projeto original, como costumam ser os volumes da coleção, esquerda, vem sempre o ano do Diário, 1873,
como, por exemplo, uma série de artigos e refazendo o plano original de Dostoiévski 1876, 1877, 1880 ou 1881, e, à direita, a parte
publicados na revista O Tempo de 1861. para o Diário, isto é, começando pelos textos ou assunto correspondente, O Meio, Bobok,
Daí a definição de Cansinos Assens, em publicados em 1873, em O Cidadão, Outubro, Puchkin, etc.
seu prólogo: seguindo-se O Diário de um escritor que o Foi possível, então, ler a obra e sentir,
“O Diário de um escritor compreende próprio escritor publicou em 1876 e 1877, por exemplo, como entre o Diário de um
todos os trabalhos publicados por assim como o de 1880, consagrado a seu escritor 1873 e aqueles de 1876 e 1877 há

dezembro/98 - CULT 1 3
uma diferença substancial de tonalidade, E essa origem é corroborada por um Por isso, Morson fala em enciclopédia de
passando-se de uma crítica social e trecho das memórias de Anna Grigo- gêneros: jornalismo, ficção, autobiografia,
histórica forjada pelo realismo de rievna, em que trata do estado de espírito história política e social, tudo passa pelo
Dostoiévski, que jamais oblitera o fantás- de Dostoiévski logo após ter terminado crivo de um estilo capaz de absorver e fazer
tico, para uma exasperação apocalíptica e Os demônios: viver as experiências do escritor, projetando-
mesmo reacionária que parece cavar um “Fiódor Mikhailovitch estava muito as, por força do imaginário, para o reino
enorme fosso de contradição entre as duas indeciso no momento acerca do que fazer das utopias e antiutopias de que é feita a
partes. Ou ficar se perguntando qual a em seguida. Estava tão exausto por seu dialética do universo de Dostoiévski.
origem do Diário em relação à escrita trabalho com o romance que lhe parecia Desse modo, recusando a tradição
daqueles textos ficcionais que Dostoiévski impossível trabalhar logo num outro. européia, o Diário é, talvez, a mais russa
ia compondo pela mesma época, como, Mais ainda, a realização da idéia conce- das obras de Dostoiévski: uma espécie de
por exemplo, O adolescente e, poste- bida enquanto ainda estávamos vivendo no testamento de radicalismo eslavo não
riormente, Os irmãos Karamázovi. exterior–isto é, a publicação de uma apenas por aquilo que contém, como por
São inquietações que, certamente, não revista mensal, o Diário de um escritor– sua estruturação. Não somente o Diário
cabiam nas páginas, por assim dizer, oferecia problemas. Bastante dinheiro era de Dostoiévski, embora seja também isto,
editoriais da “Introdução” de Aucouturier. necessário para tirar uma revista e manter mas do escritor Dostoiévski em sua luta por
Mas que estão presentes na mais recente uma família, para não mencionar a liqui- encontrar a linguagem adequada para o
edição do Diário a que tive acesso. Ou dação de nossos débitos. E havia também registro de suas crenças, angústias, inquie-
melhor: no estudo introdutório de Gary a questão se uma tal revista teria muito tações e fantasias.
Saul Morson para a edição norte-ameri- sucesso, desde que era algo inteiramente Com essa nova edição da obra, des-
cana, em dois volumes de quase mil e novo na literatura russa daquele tempo, confio que estou pronto para lê-la com
quinhentas páginas, do Diário de um escritor quer na forma, quer no conteúdo.” continuidade.
(A writer’s diary, tradução de Kenneth A última frase vem destacada em Clóvis Ferreira/AE

Lantz, Northwestern University Press). É itálico por Morson e são as razões dessa
uma edição exemplar: possui todas as novidade que lhe servem de motivo para a
virtudes editoriais descritas na da Pléiade análise da estrutura da obra e que dão conta
(menos os anos correspondentes no alto da importância do Diário não apenas no
esquerdo da página, mas com a vantagem conjunto da obra dostoievskiana, mas na
do tipo de papel não ser bíblia), acres- tradição posterior desse gênero de litera-
centadas pelo estudo magistral de Morson, tura. A começar pelo que chama de uma
de mais de cem páginas, intitulado enciclopédia de gêneros, isto é, o Diário como
Dostoevsky’s great experiment. um compósito de textos ficcionais e
Pela leitura das quatro partes do semificcionais que transformam os eventos João Alexandre Barbosa é um dos
estudo, é possível ter a dimensão do Diário cotidianos, e as reflexões que eles pro- maiores críticos literários do país,
como o grande experimento de Dostoiévski, põem, em motivos contínuos para o autor de A metáfora crítica, As
de acordo com o título de Morson. exercício de uma imaginação extremada. ilusões da modernidade (pela
Assim, por exemplo, segundo ele, as A articulação entre os textos pro- Perspectiva), A imitação da forma,
origens do Diário encontram-se numa priamente ficcionais e semificcionais Opus 60 (Livraria Duas Cidades) e
passagem do romance Os demônios, em que termina por operar a rasura entre ficção e A leitura do intervalo (Iluminuras).
Liza Nikolaevna solicita a ajuda de Shatov não-ficção, que faz com que os acon- Professor titular de teoria literária
no sentido de “publicar um anuário que tecimentos comentados por Dostoiévski, e literatura comparada, foi diretor
filtrasse os acontecimentos-chaves da numa direção mais propriamente jorna- da Faculdade de Filosofia, Letras
cultura russa”. Diante do ceticismo de lística, sejam, por assim dizer, intensi- e Ciências Humanas da USP,
Shatov, Liza explica que a idéia não seria ficados pelo trabalho da imaginação. presidente da Edusp e Pró-reitor de
publicar tudo, mas aqueles incidentes que A ficcionalização da história circuns- Cultura da mesma universidade.
são, em suas palavras, “mais ou menos tancial encontrava a sua contrapartida João Alexandre assina mensal-
característicos da vida moral do povo, do numa exasperada historicização do fic- mente esta seção da CULT, cujo
caráter pessoal do povo russo no momento cional de tal maneira que é possível ler e nome foi inspirado no título de seu
presente… tudo seria incorporado com reler, no Diário, encapsuladas como mais recente livro, A biblioteca
uma certa visão, uma significação e uma comentários, situações dramáticas que já imaginária (Ateliê Editorial). Ainda
intenção especiais, com uma idéia que estavam em seus grandes romances ou que este ano, o crítico lançará a
iluminaria os fatos agregados, como um estariam no último que por essa época coletânea de ensaios Entre livros,
conjunto”. começava a escrever. também pela Ateliê.

1 4 CULT - dezembro/98
VOCÊ
Pasquale Cipro Neto
A Unicamp (Universidade de Cam- vez mais freqüente, na linguagem oral, o que realmente é necessário para o povo”,
pinas) é reconhecida no país por muitos uso da palavra “você” com valor gené- “quando você...”.
de seus méritos. E, a bem da verdade, a rico. Dia desses, ouvi famoso jogador de Vamos quebrar a monotonia: “Quan-
Unicamp começa bem já no vestibular. futebol dizer que “quando você bate na do se investe bem o dinheiro do povo”
Muitas das questões – é pena que não bola com o lado de fora do pé...”. Ouvi (ou “Quando o governo/os governantes
sejam todas – são interessantes, inteli- também uma mulher dizer a um repórter investe/investem bem o dinheiro do
gentes, de ótimo nível. – repito: um repórter, homem, do sexo povo”); “Quando se aplica no social” (ou
O vestibular dessa importante escola masculino – que “quando você está “Quando o governo/os governantes
começou em 1987. Nesse ano, justa- grávida...”. O repórter fez cara de espanto, aplica/aplicam no social”); “Quando se
mente a primeira questão da prova de com os olhos arregalados, como que a faz o que realmente é necessário para o
português pedia ao aluno que indicasse perguntar: “Eu? Grávida?”. povo” (ou “Quando o governo/os gover-
as marcas típicas da oralidade, ou seja, No último Grande Prêmio de Fór- nantes faz/fazem o que realmente é
da língua falada, presentes no discurso mula 1, o locutor Galvão Bueno, en- necessário para o povo”).
de um engenheiro eletrônico. Tratava- quanto explicava o regulamento, dizia Uma ex-aluna esteve na Austrália,
se de uma entrevista concedida por ele a que “quando você deixa o carro morrer para estudar. Lá ficou alguns meses.
um jornal. Disse o engenheiro: “Os na largada, deve ir para o fim da fila”. Viciada em você, traduzia essa história
grandes problemas, você deve ter um Como houve duas ameaças de largada, de “você” ao pé da letra. A todo instante,
desenvolvimento tecnológico local”. Galvão disse pelo menos duas vezes que dizia “When you...” (“Quando você”,
A questão pedia que o aluno reescre- “quando você...”. em inglês). Diz ela que as pessoas se
vesse a frase, adequando-a “à língua O problema é que Galvão não estava assustavam. Punham a mão no peito e
escrita culta”. De imediato, chama a conversando com os pilotos, e sim com diziam – em inglês, é claro: “Eu, não!”.
atenção a falta de conexão. A expressão o telespectador, que não deixa carro No começo, minha ex-aluna não en-
“os grandes problemas” parece atirada, morrer na largada, por uma razão muito tendia o porquê da reação. Não demorou
jogada, perdida. Falta verbo, falta algo simples: não participa de corridas. muito para perceber.
que una essa expressão ao resto da frase. Pelo menos na linguagem formal, Talvez haja uma explicação socio-
Talvez algo como “Para resolver os culta, é bastante desejável a eliminação lingüística ou psicolingüística para o
grandes problemas, você...”. desse cacoete. É cansativo, pobre e sumiço dos indicadores genéricos da
Epa! Você? Quem é você? Até prova enfadonho o uso da palavra “você” nossa linguagem oral. Será que não é,
em contrário, você é a pessoa com quem como indicador de algo genérico, mais uma vez, porque o brasileiro tem
estou conversando. Você é meu interlo- coletivo. No caso da corrida, bastaria pavor do que é coletivo, genérico, ou seja,
cutor. E esse “você” da resposta do dizer que “quando se deixa o carro tudo no Brasil precisa ser individual,
engenheiro parece muito pouco para a morrer na largada, deve-se ir para o fim personalizado? Quem sabe. Os antro-
dimensão – nacional – do pensamento. da fila”. – Também se poderia dizer que pólogos também podem meter a colher.
“Para resolver os grandes problemas, é “quando o piloto deixa o carro morrer Aceitam-se sugestões. E lá vai uma,
preciso desenvolvimento tecnológico na largada, deve ir para o fim da fila”. mais do que urgente: pelo menos em
local”. Ou: “A solução dos grandes O recém-reeleito governador de São situações formais – sobretudo na escrita
problemas exige desenvolvimento tec- Paulo, Mário Covas, é outro que tem –, pare com esse cacoete de usar você
nológico local”. Ou ainda: “Para a abusado do bendito você que não é você. que não é você.
solução dos grandes problemas, exige- Vi-o em várias entrevistas – antes e Até a próxima. Um forte abraço.
se desenvolvimento tecnológico local”. depois da campanha – , repetindo à Pasquale Cipro Neto
Percebeu? O “você” do engenheiro exaustão que “quando você investe bem professor do Sistema Anglo de Ensino, idealizador e

não era a pessoa com quem ele con- o dinheiro do povo”, “quando você apresentador do programa Nossa língua portuguesa, da TV
Cultura, autor da coluna Ao pé da letra, do Diário do Grande
versava. E é aí que quero chegar. É cada aplica no social”, “quando você faz o ABC e de O Globo, consultor e colunista da Folha de S. Paulo.

dezembro/98 - CULT 1 5
josésaramago
Em conversa com o poeta
Horácio Costa, o escritor
português, que acaba de
receber o prêmio Nobel de
literatura, fala sobre seu

Fotos Juan Esteves


período de formação, sobre
seu projeto de autobiografia
e sobre a poética de romances
cuja oralidade desperta
a música adormecida
da palavra escrita. Leia
também, nas próximas
páginas, um ensaio de
Saramago inédito no Brasil
e a resenha do livro de
Horácio Costa sobre o autor
de Ensaio sobre a cegueira.
A entrevista que segue teve lugar em e ex-professora Renina Katz, uma leitora uruguaio aumentava em agudeza as suas
fevereiro passado, em Madri. O Instituto inveterada, o romance Memorial do questões, crescentemente eu me dava
do México, na Espanha, organizou, no convento. O entusiasmo com o qual Renina conta do pouquíssimo que sabia, e que
primeiro trimestre deste ano, um ciclo de me recomendou a leitura, uma vez feita e de fato era então conhecido, sobre o autor
conferências: “Portugal desde México”. já de volta aos Estados Unidos, transferi português. Eu já me dedicara, em Yale, a
A diretora do Instituto, Luz del Amo, que para Emir Rodríguez-Monegal. Naqueles pesquisar sobre esse escritor que me
tivera a idéia de organizar o ciclo – algo meses, eu andava atrás de um tema de tese; chegara às mãos sem nenhum ante-
inédito, ou pelo menos pouco usual no numa tarde do verão de 1985, a caminho cedente; ainda que a Biblioteca Sterling
mundo hispânico, onde via de regra do teatro em Hartford, pude conversar seja uma das maiores e melhores do
Portugal, ainda mais do que o Brasil, sofre longamente sobre Saramago com Emir, mundo, eu me decepcionara com o pouco
de uma espécie singular de “obnubilação que recentemente estivera com ele durante que nela havia sobre Saramago.
programada” –, tinha-me pedido que um congresso de escritores, e que seria o O que tínhamos em mãos era apenas
convidasse Saramago; ele aceitou, sem meu orientador, se tudo desse certo (não o Memorial. Portanto, qualquer consi-
cobrar cachê. Pediu para ficar no mesmo deu: a Monegal sobravam poucos meses deração crítica que podíamos fazer se
hotel de sempre (o Suécia), a trezentos de vida). limitava ao tipo de escritura que
metros do Prado. Não é o primeiro favor Por meu lado, perguntava-lhe como Saramago nele adotava. Diante dela, e
que me faz e espero que não seja o último. era o homem em pessoa; pelo seu, e muito assumindo como base o realismo-ma-
Já anteriormente me brindara com muitas menos afoitamente, Emir me interrogava ravilhoso em versão hispano-americana,
informações e respondera às muitíssimas sobre a radicação de Saramago na lite- concluímos que a qualidade do ima-
questões que lhe apresentei, enquanto ratura portuguesa contemporânea. Não ginário de Saramago dele diferia em um
escrevia minha tese para Yale, José é necessário dizer que ele soube ponto básico: estava prenhe de lirismo e
Saramago – O período formativo (leia texto responder às minhas perguntas, escapava dos padrões de alegorização
na pág. 28). A presente entrevista, por- traçando-me o perfil de um cavalheiro mais óbvios e tão freqüentes neste. Havia
tanto, não é, latu sensu, a primeira que me lusitano de humor mordente, de viés pontos evidentes de contato – para
deu. irônico, que Emir comparava ao de começar, o fascínio pelo barroco, que na
Há catorze anos, quando completei Borges, a quem tinha conhecido tão bem; narração reverberava temática e
trinta, recebi de presente de minha amiga entretanto, à medida que o crítico lingüisticamente –, mas o tônus geral do

16 CULT - dezembro/98
odespertardapalavra horáciocosta

relato não apontava para as terras ame- minha tese de doutorado. À época, muito realista fundamental em sua produção
ricanas. pouca gente entendeu que eu escolhesse política, afinada com uma vertente da
Anos mais tarde, em Portugal, pes- Saramago, então um escritor com alguma poesia portuguesa dos anos 40 e 50 –
quisando sobre o Memorial, terminei por bagagem (o melhor viria depois), e menos porém usada por ele vinte anos depois!),
assegurar-me disto: se muito da postura ainda que me dedicasse a sua obra um discurso crítico que procurasse acercar
de um Carpentier ou de um García- “menor”. Optei por estudar o período de essa obra de exceção (frente aos modismos,
Márquez se fazia notar (principalmente, formação do escritor por duas razões: às oposições quase sempre conjunturais
no nível do anedótico, na pesquisa de primeiro, por jamais ter ele recebido que caracterizam o processo literário) teria
fontes da época e por aí), a base era atenção crítica (uma importante estudiosa que, de alguma maneira, sê-lo também,
diferente. A velha cultura portuguesa, às italiana da literatura portuguesa não há abandonando as interpretações mais cir-
vezes excepcional – quando representada muito me dizia que Saramago tinha cunstanciais de análise. Ir até uma obra
por um Fernão Lopes, um Camões ou “nascido feito”, assim como se um que se divide entre “fraca” e “forte”,
um Vieira –, mas freqüentemente Gulliver qualquer); segundo, porque “ignorada” e “estudada” (e “in” e “out” ,
marginal à Europa dos grandes debates, estudar um período não-canonizável de “boa” e “ruim”), foi o que eu tentei, cen-
ainda que muitas vezes ironizada pelo um escritor em vias de canonização (agora trando sempre as minhas interpretações no
escritor, se impunha com uma clareza já plena, depois do Nobel) pode colocar sinuoso processo de trabalho de José
meridiana. Aí estava, e está, o quid de uma série de questões críticas de interesse, Saramago, antes que em seu melhor
Saramago. Não só de estilemas indivi- entre elas a de discutir como o cânone resultado, aparentemente para sempre
dualizadores vive um grande escritor: “funciona” para canonizar os seus eleitos, canonizado.
nunca é demais lembrá-lo, ele ou ela via como a crítica procede para eleger os seus A entrevista que segue constantemente
de regra (há exceções) pisam o terreno objetos de estudo. refere-se a essa injunção e a essa pre-
conhecido que lhe dá a sua própria Se Saramago, ao longo de suas décadas ferência crítica minha. Pensei que valesse
cultura, a sua própria língua. de experimentação ou deriva entre vários a pena alertar o leitor sobre a razão das
Naquela tarde, disse a Emir que eu gêneros literários, apresentou uma notável perguntas que nela fiz. Agora, definir o
pesquisaria mais sobre o romancista e que, distância, ou mesmo, defasagem, perante que possam as respostas a elas esclarecê-
em função do que encontrasse, talvez as estéticas dominantes à época no lo sobre a obra e o indivíduo José
escolhesse a sua obra como objeto da contexto português (apesar da dicção neo- Saramago é coisa sua.

dezembro/98 - CULT 17
josésaramago
Vidal Cavalcante/AE

nasceu em 1922 na cidade


de Azinhaga, na província
portuguesa de Ribatejo. Antes
de receber o Nobel de literatura,
no mês de outubro passado,
ganhou o prêmio Camões de
1995. Atualmente, vive na ilha
Lanzarote, na Espanha, onde
se auto-exilou depois que
o governo português negou
a inscrição do romance
O evangelho segundo Jesus Cristo
no Prêmio Europeu de
Literatura, em 1991.

Horácio Costa Eu queria que menos de viúvas... Mas eu percebi que não pena! Bom, então eu me apaixonei nessa
você dissesse o que ficou da experiência tinha tanta coisa para dizer, nada época e daí saiu o livro. Confesso que,
dos gêneros que você praticou ao longo importante. E me calei, me calei por vinte quatro anos depois, me apaixonei de novo
de várias décadas – crônica, poesia, ensaio, anos praticamente. e saiu outro livro de poemas que se chama
teatro – antes da publicação do Manual de Isso não é verdade, porque escrevi um Provavelmente alegria. E então acabou-se
pintura e caligrafia. Por que você acha que outro romance que se chama Clarabóia, a história de publicar pelo fato de me
demorou vinte anos para escrever um que permaneceu inédito – e, esse sim, apaixonar [risos].
segundo romance? Há um primeiro, uma permanecerá inédito. Não o destruí A partir de 1966, por circunstâncias da
tentativa pouco madura nos anos 40, mas porque não devo destruir as coisas que vida, me encontrei mais próximo do
a sua primeira obra em prosa de ficção faço; se não posso destruir todas, por que mundo literário porque trabalhava numa
sólida é esse Manual. vou destruir algumas? Se eu pudesse editora – desde os anos 50 e durante quase
apagar todas as coisas ruins – e agora não 15 anos. Eu tive uma vida que não tinha
José Saramago Em primeiro estou falando do livro, estou falando de nada a ver com a literatura. Eu fui várias
lugar, quando se pergunta o que ficou de coisas ruins que a gente faz na vida –, eu coisas na vida: trabalhei numa oficina
uma obra, que supostamente pertence a um as apagaria. Mas como Terra do pecado, mecânica, fui desenhista, funcionário da
tempo passado, pressupõe-se uma dúvida, apesar de tudo, não é a pior coisa que eu saúde pública, depois não sei o quê, depois
se alguma coisa terá ficado. Porque, se não fiz na vida, então que fique aí; e Clarabóia editor, e era assim. Então, eu não me
existisse essa dúvida, então a pergunta não ficará, mas com a condição de não ser preparei para ser escritor. Sou escritor por
teria sentido. Quando se começa a escrever publicado enquanto eu viver. um acaso. E que acaso é esse? É que
muito jovem, corre-se o risco e, afinal, isso Até 1966, quando eu tinha 44 anos, não chegou um momento em que eu, além de
me aconteceu, porque aos 25 anos publiquei escrevi nada. Salvo no período ime- me apaixonar e por isso pôr sobre a mesa
um romance. Romance que ficou por aí, diatamente anterior a 1966, que foi quando livros de poesia, comecei a colaborar em
que foi reeditado apenas em 1997 porque escrevi um livro de poesia chamado Os jornais, escrevendo crônicas. De 1966 até
o editor achou que se o romance fazia 50 poemas possíveis. E por que eu o escrevi? 1977, houve onze anos de publicação:
anos, desde a primeira publicação, tinha que Bom, a resposta é sempre a mesma, ou publiquei três livros de poesia – e o terceiro
ser novamente publicado – e então temos quase sempre: porque me apaixonei. E eu não tem nada a ver com minhas paixões –,
uma edição nova de um romance que se já havia feito uns quantos sonetos e coisas crônicas, ensaios políticos, que no fundo
chama, perdoem, Terra do pecado. Eu não assim no tempo que fazíamos sonetos, aos eram editoriais de jornal, de um jornal que
tenho culpa de o romance ter esse título, a dezoito anos. Acho que os jovens de hoje já não existe, chamado Diário de Lisboa, e
culpa é do editor. O romance se chamava A já não sabem o que é escrever sonetos e as já em 1975, que chamávamos o ano
viúva. Um jovem de 25 anos, que era o meninas não têm a felicidade de receber ardente da revolução, eu era diretor-
que eu tinha, não sabia muito de pecados, e um soneto dos garotos. Isso acabou, que adjunto de um outro jornal, Diário de

18 CULT - dezembro/98
Reprodução

Notícias, e acho que tudo começa aí. eu sou um velho escritor da nova geração a memória da infância, da adolescência, a
Quando, em novembro de 1975, ocorreu – porque a verdade é que eu estou memória dos adultos, dos avós, das coisas
a contra-revolução, o que se chamava o escrevendo obras mais sólidas não há vistas – e esse, se eu chegar a escrevê-lo,
processo contra-revolucionário – e talvez cinqüenta, mas há vinte anos; portanto, será o conteúdo de um livro que já tem
algumas pessoas não estejam de acordo supondo que se começa, talvez, a escrever título, mas que ainda não está escrito e que
com a qualificação ou com a classificação –, e publicar aos 20, 23 anos, então, agora, se chamará O livro das tentações. Já estou
eu fiquei na rua, sem emprego, sem salário, literariamente, eu não tenho mais do que me antecipando, mas uma coisa chama a
sem trabalho e sem possibilidade de 45 anos. Sou um menino... [risos] outra. É uma autobiografia minha. Eu sou
encontrar outro facilmente, porque o O que ficou do que ficou para trás? Eu tão vaidoso que inclusive vou escrever a
jornal estava com a revolução. diria que ficou tudo. E ficou tudo em que minha biografia. Mas é uma autobiografia
Aí eu tomei a decisão definitiva da minha sentido? Eu muitas vezes digo que se um pouco estranha, porque termina aos
vida, que era a de não procurar trabalho, e alguém quiser entender bem o que eu catorze anos de idade. O que eu quero
me dizia: você tem sete ou oito livros estou dizendo nos romances que estou fazer é isso, recordar o menino que eu fui.
escritos, que são dignos, sérios, honestos, escrevendo é preciso ir às crônicas que Tentar saber quem era esse menino.
mas por aí você não vai chegar a lugar escrevi nos jornais e que estão em dois Porque a verdade é que nós pensamos que
nenhum. Se você está pensando na história livros: Deste mundo e do outro e A bagagem toda a nossa vida está aí para que nos
da literatura, então, resigne-se a que digam do viajante. Quase todos os temas que estão tornemos adultos. E, quando somos
(se disserem) que o senhor fulano nasceu agora nos romances, certos pontos de vista, adultos, nos comportamos como se
nessa data, morreu numa outra, publicou visão de mundo, obsessões e preocupações olhássemos para nós como algo que saiu
alguns livros e ponto. Uma linha, duas de ordem não apenas literária, preocu- do estado de crisálida, imaginando que a
linhas e nada mais. Não que eu aspirasse pações de ordem política, de ordem civil, infância e a primeira adolescência é a
a um capítulo completo da história da tudo isso se encontra nesses pequenos crisálida, e que depois da crisálida saiu o
literatura, não é isso. A decisão de não textos publicados em jornais, e quem se inseto adulto com todo o seu esplendor,
procurar trabalho era enfrentar essa idéia interesse pelo que eu faço – além dos as suas cores, com toda a sua beleza. Nos
de que, talvez, eu seria um escritor, mas romances que têm maior reputação, dos casos em que têm esplendor e que são
faltava uma prova, porque aqueles livros quais se fala, que saem na crítica, que estão belos, claro; há insetos que deveriam ter
não eram na minha opinião suficientes nas livrarias e tudo isso – tem que ir a ficado na crisálida e não sair.
para tal. Isso foi o que depois levou a toda esses pequenos textos porque eu mesmo, Eu não penso assim. Para dar-lhes uma
essa série de livros, romances, obras de quando por algum motivo tenho que voltar idéia do que eu penso nesse sentido: não
teatro, diários que caracterizam esses a esses textos, me reencontro. sei se o meu leitor percebeu que eu ponho
últimos 20 anos. Isso é o que me leva a Nessas crônicas há muito de ficção, e sempre epígrafes; a epígrafe de Todos os
dizer que eu sou um jovem escritor, que sobretudo há o trabalho sobre a memória, nomes, para falar do último romance

dezembro/98 - CULT 19
Vidal Cavalcante/AE

publicado, é “Conheces o nome que te Há uma continuidade de pensamento e a escrever essas notas críticas numa
deram, não conheces o nome que tens”, é inclusive uma continuidade de sensibilidade publicação importante da literatura
uma citação de um livro chamado Livro das no que estou fazendo agora e que vêm dos portuguesa contemporânea, a Seara Nova.
evidências, que não existe, como em outro textos mais antigos. Como os textos não Então, eu gostaria de que você desen-
romance, História do cerco de Lisboa, há uma nascem do nada, nascem de alguém que volvesse essa idéia de autor, naquele
outra epígrafe que foi tirada do Livro dos está vivendo, mesmo que não esteja momento biologicamente já não muito
conselhos, que também não existe. E isso é escrevendo, então tudo é uma relação que jovem, nos anos 60, que tem consciência
um pouco borgeano, e se isso continuar, não vai pelo interior da vida e que une tudo a de que a literatura não é uma carreira; e
terei mais remédio do que escrever o Livro tudo. O que eu posso dizer, claro, é que há como você vê isso agora, não só com
das evidências e o Livro dos conselhos. E, algumas coisas que fiz antes e que, se eu as relação ao mundo contemporâneo, mas
então, a epígrafe que terá o Livro das fizesse agora, tentaria fazê-las melhor. Mas também à luz da sua produção posterior.
tentações – e com isso, acho que terei não se trata aqui de mais qualidade literária
explicado tudo o que tentei explicar até ou de menos qualidade literária, trata-se do Saramago Quando me convi-
agora – é a seguinte: “Deixa-te levar pelo que se está dizendo aqui. daram para fazer crítica nessa revista, eu
menino que foste”. Porque, na verdade, de só havia publicado esse livro de poesia
nada eu gostaria mais – ou de poucas coisas Horácio Costa A forma como chamado Os poemas possíveis. Inclusive
eu gostaria tanto – do que poder passear se desenvolve sua “carreira” é bastante impus uma condição, a de que não faria
pela rua, não levando pela mão o menino atípica, especialmente em relação ao que crítica de livros de poesia. Porque me
que fui, mas sendo levado pela mão desse cada vez mais acontece no mundo literário, parecia que isso não teria muito sentido
menino. Se eu pudesse recuperá-lo, tê-lo afetado por uma série de problemas para mim, um jovem poeta, com apenas
agora mesmo, quanto eu gostaria. Vocês externos, a questão do mercado, os um livro, e que não era Rimbaud nem
podem pensar: mas que idéia estranha essa, prêmios literários etc... Num texto crítico Fernando Pessoa. Pode-se perguntar: você
você é ele e ele é você. Não, eu sou ele, mas dos anos 60, parte das suas colaborações não quis fazer crítica sobre livro de poesia,
ele não sou eu. Um deles não conhece o para a Seara Nova, você escreveu: “A mas estava disposto a fazer sobre
outro; e o fato de que um deles não conheça literatura não é uma carreira”. Aquele romances? Sim, do ponto de vista do leitor,
o outro me perturba. E por isso eu digo: momento era especialmente significativo, como se eu fosse um leitor, já que no fundo
deixa-te levar pelo menino que foste. Talvez porque então você era conhecido em o crítico é um leitor. No entanto, é um
o menino, supondo que os meninos não são Portugal como poeta. Você estava leitor que tem o direito de publicar a sua
maus – alguns são péssimos, claro –, fosse publicando o seu segundo livro de poesia, opinião. Essa é, suponho, a diferença mais
capaz de, na hora que vamos fazer uma coisa ou prestes a publicá-lo, e entrava na visível que há entre um e outro.
errada, de puxar pela nossa roupa e dizer: literatura ou na vida cultural lisboeta por E é verdade que numa dessas críticas eu
não faça isso. meio da atividade poética. E você começa escrevi que a literatura não é uma carreira.

20 CULT - dezembro/98
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Depois de 30 anos, e com tudo o que a lado, são um apenas, estão fundidos um que você exerceu e a atividade de tradutor
aconteceu na minha vida, parece que há no outro. E se o homem não tem nada para nesse período de formação, de auto-
uma contradição entre a minha vida e essa dizer como homem, também não terá nada aprendizagem.
afirmação, porque eu vivo do que escrevo. para dizer como escritor. Se isso acontecer,
Mas não tenho os tipos de obrigações de e eu já disse isso, me calarei. E poderia ter Saramago É preciso dizer algo
um trabalho, não tenho ações, não tenho acontecido de eu me calar depois do que ainda não foi dito e que deve ser
bens, não tenho nada senão o que pode Memorial do convento, do Ano da morte de considerado. Se eu, aos 20 e poucos anos,
ser posto sobre a mesa, o que escrevo. Eu Ricardo Reis, da História do cerco de Lisboa, escrevi um romance, foi porque alguma
nunca me lancei a isso que chamamos uma ou do Evangelho segundo Jesus Cristo. coisa eu tinha lido. E tinha lido
carreira de escritor. Entendo que uma Poderia não ter tido mais nenhuma idéia, muitíssimo. Onde? Nas bibliotecas
pessoa se lance a uma carreira de advo- e fim. E é verdade que, cada vez que eu públicas. Entre 16 e 22 anos, eu fui um
gado, médico, engenheiro ou algo termino um romance, não tenho nenhuma leitor noturno, porque tinha que trabalhar
parecido porque isso significa que se outra idéia e fico esperando para ver o que de dia, ia a uma biblioteca pública de uma
preparou para exercer uma atividade acontece. Pode levar um mês, dois, três, cidade pequena e lia tudo o que en-
profissional e, portanto, está nisso e vai seis meses, até me ocorrer uma idéia. Eu contrava. Às vezes, não entendia nada, ou
trabalhar nisso. Os médicos precisam de acho que os que me lêem perceberam que quase nada, de alguns livros que lia; não
doentes, mas estão certos de que doentes os meus livros não se repetem. Eles tinha ninguém que me dissesse: esse agora
sempre existirão, não? E, portanto, estão percebem que o autor é este pela forma de não convém, é melhor que você leia esse
certos de que podem abrir o seu narrar, pelas preocupações que expressa, outro. Mas, de qualquer modo, com todos
consultório para recebê-los. Esses, sim, mas cada livro contém alguma coisa que disparates, erros e incompreensões, creio
podem falar de uma carreira. aí se acaba. E isso tudo é o contrário do que pude ler uma gama bastante ampla
De repente, amanhã pode ser que eu não que se necessitaria para uma carreira. Para de autores. Eu diria que Terra do pecado,
tenha nenhuma idéia para um livro e se uma carreira, o conveniente seria explorar por um lado, funcionou como uma
isso acontecer eu deixarei de escrever. E o os filões encontrados para que ela pudesse sedimentação de leituras; pode-se dizer
fato de que eu esteja vivendo da literatura, se desenvolver, não? Mas eu fico assim, que não há nada de original ali, mas, se
porque é verdade, não significa que eu não sem enredo, esperando para ver o que não somos Rimbaud, o que entendemos
escreva nada de que eu necessite escrever acontece. por “original” aos 20 e poucos anos?
como homem. Isto é, eu não posso viver Você pergunta se o fato de fazer traduções
sendo duas pessoas em uma – a pessoa Horácio Costa Você disse que não influiu em alguma coisa. Não, em nada,
corrente e normal, que, afinal, sou, e uma teve uma educação formal em literatura, que nada, nada... É muito diferente sentar-se
entidade, um pouco estranha, que se foi um leitor. Mas eu lhe peço que comente para traduzir uma obra pelo desejo de
chama escritor. Esses dois não vivem lado a importância que tiveram a atividade crítica traduzi-la, por vontade própria e, então,

dezembro/98 - CULT 21
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desfrutar do trabalho de tradução, bus- Eu comecei por esse romance, depois a soube. O estranho é que eu deveria ir
cando as funções mais adequadas e tudo poesia, depois a crônica, depois fiz um diretamente aos meus lugares, à minha
isso... Mas eu não traduzi por gosto, por pouco de teatro. Mas o teatro não foi por cidade, e ficar ali, mas, talvez porque eu
prazer; eu traduzi para ganhar a vida e uma iniciativa minha. Eu tenho quatro conhecesse muito bem tudo isso, não
traduzi de tudo: livros de política, de obras de teatro, todas elas foram repre- queria escrever sobre isso. Então, fui ao
economia, de arte, romances, coisas tontas sentadas, e aparentemente eu poderia Alentejo em 1976 e fiquei lá dois meses,
como uns livros de um senhor chamado dizer: sou dramaturgo. Não, não sou, eu falando com as pessoas, indo ao campo
Jivkov, que era búlgaro, secretário-geral não me vejo como dramaturgo. Roman- onde trabalhavam, comendo com eles,
do Partido Comunista da Bulgária e ao cista, sim; mas depois de todas essas dormindo com eles. E voltei, depois, por
mesmo tempo presidente, e eu tive que experiências e de tudo isso. Mas talvez o mais algumas semanas. Portanto, juntei
traduzir coisas dessas. Com isso não romancista que sou deva algo a uma um quantidade de idéias, informações,
aprendi nada. Mas claro que há outro tipo circunstância que a que ver com uma obra histórias e tudo isso. E esse livro foi escrito
de aprendizagem. Quando tive que da qual não se fala muito, e é uma pena em 1979 e publicado em 1980. Quer dizer,
traduzir Bonnard, aprendi muito. Mas que não se fale muito dela, que é esse foram precisos três anos para que eu
não aprendi a escrever e acho que quem romance que publiquei em 1980 e que se pudesse escrever esse romance.
tem que traduzir nas mesmas condições e chama Levantado do chão. Em 1975, como Na verdade, durante esse tempo escrevi
circunstâncias que eu corre o risco de ter disse, fiquei sem trabalho. Em 1976, eu um livro de relatos curtos, Objeto quase, e
a sua escrita prejudicada pela variedade estava no Alentejo, no sul de Portugal. Eu publiquei o Manual de pintura e caligrafia.
de estilos, de modos de narrar dos venho de uma família de camponeses Portanto, estive fazendo algumas coisas.
diferentes autores que tem que traduzir. pobres, sem terra, do norte de Lisboa, a Mas não estava fazendo o que tinha de
Então, posso dizer que não aprendi nada. uns 100 km, mais precisamente do fazer – agora sei disso, mas naquela época
Agora, acho que aprendi a escrever porque nordeste; e, nessas alturas, quando eu eu não sabia. Porque eu não sabia de uma
li muito. Sempre li muito, desde menino, estava com essas dúvida – “o que vou fazer coisa, muito mais importante do que às
desde adolescente, ia à biblioteca pública da minha vida? escrevo, não escrevo? vezes se imagina: eu tinha uma história
para ler, para ler e nada mais, e no dia como? o quê? para quem? e com que para contar, a história dessa gente, de três
seguinte tinha que me levantar cedíssimo meios?” –, veio-me a idéia de escrever algo gerações de uma família de camponeses
para ir à oficina onde estava trabalhando. sobre a minha gente – avós, pais –, que do Alentejo, com tudo: a fome, o desem-
Não estou idealizando a minha vida, não viveu no campo nas condições que os mais prego, o latifúndio, a polícia, a igreja, tudo.
estou fazendo romantismo barato e falso, velhos aqui podem imaginar, se viveram Mas me faltava alguma coisa, me faltava
estou falando de fatos e nada mais; sem no campo há 40, 50, 60, 70, 100 anos: saber como contar isso. Então eu descobri
cair na tentação de exagerar para uma vida saberão o que é isso. E eu soube, não muito que o como tem tanta importância quanto
extraordinária, senão o contrário. profundamente, mas, de qualquer forma, o quê. Não se pode contar como se não há o

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que contar, mas pode acontecer de você ter normalzinho, e há grandíssimos romances com essa gente, ouvindo, escutando-os,
o que e ficar paralisado porque não tem o normaizinhos, não estou dizendo nada estavam contando-me as suas vidas, o que
como. O tema que eu tinha estava clarís- contra, ao contrário: surpreende-me que tinha acontecido com eles. Então, eu acho
simo, era um romance neo-realista, numa forma quase canônica possam ser que isso aconteceu porque, sem que eu
bastavam camponeses, fome, desemprego, escritos romances magníficos, sem rup- percebesse, é como se, na hora de escrever,
luta, tudo isso. E modelos do romance turas... Claro que há outros romances eu subitamente me encontrasse no lugar
neo-realista português, nós os temos, e magníficos que o são por vários motivos, deles, só que agora narrando a eles o que
grandes romances. Portanto, o molde eu entre eles porque romperam com con- eles me haviam narrado. Eu estava
já tinha e só precisava colocar nele a minha venções e com tudo isso. E comecei a devolvendo pelo mesmo processo, pela
própria matéria e, então, já teria o romance. escrever com cada coisa no seu lugar: oralidade, o que, pela oralidade, eu havia
Mas, não, algo dentro de mim dizia: não, roteiro e tal... Mas eu não estava gostando recebido deles. A minha maneira tão
não e não; enquanto você não encontrar a nada do que estava fazendo. peculiar de narrar, se tiver uma raiz, penso
sua própria forma, não poderá escrever. Então, o que aconteceu? Na altura da que está aqui. Não estou certo de que seja
Claro que isso eu estou dizendo agora, página 24, 25, estava indo bem e por isso a única, mas com certeza, essa conta.
com certeza vocês não estarão imaginando eu não estava gostando. E sem perceber, Quando esse romance foi publicado em
que naquela época eu conversasse dessa sem parar para pensar, comecei a escrever Portugal, houve um reboliço porque as
forma comigo mesmo: não, eu não como todos os meus leitores hoje sabem pessoas não entendiam nada, inclusive um
conversava. Mas eu tinha uma barreira que eu escrevo: sem pontuação. Sem amigo meu me chamou para dizer: olha,
que me impedia de ir adiante. Quando eu nenhuma, sem essa parafernália de todos eu sou seu amigo, mas a verdade é que leio
voltava ao Alentejo e encontrava os amigos os sinais, de todos os sinais que vamos três páginas e me perco, eu não entendo o
que eu tinha feito lá, gente de uma pondo aí. O que aconteceu? Não sei que você diz. E eu disse: você tem em casa
qualidade humana impressionante, eles me explicar. Ou, então, tenho uma explicação: um corredor comprido, não? Pois então,
perguntavam: e o romance, quando você se eu estivesse escrevendo um romance acenda a luz à noite e comece a andar de
vai publicá-lo? Eu dizia: é que estou urbano, um romance com um tema um lado para o outro no corredor, lendo
ocupado agora com outros assuntos e tal. qualquer de Lisboa, com personagens de em voz alta. Se você ler em voz alta, vai ver
Não, na verdade eu estava em pânico Lisboa, isso não aconteceria. E tenho o que acontece. Da mesma forma que,
[risos]. Em pânico porque eu não tinha o certeza de que hoje estaria escrevendo quando nos comunicamos oralmente, não
como. Até que, em desespero de causa, esses romances como todo mundo – talvez necessitamos nem de travessões, nem de
pensei: isso não pode ficar assim e tenho bons, talvez não tão bons, mas estaria pontinhos, nem nada do que parece
de começar a escrever esse romance e acatando respeitosamente toda a con- necessário usar quando escrevemos, pois
comecei a escrevê-lo como um romance venção do que se chama escritura. Mas então, você, como leitor, colocará aí, não o
normalzinho. E quando eu digo romance alguma coisa aconteceu aí: eu havia estado que falta, porque não falta nada... A palavra

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escrita num livro é uma palavra morta; músicas –, o próprio discurso, que está nem a quem pagá-lo – de haver podido
quando fazemos a leitura silenciosa, não está sendo escrito, talvez dele necessite. chegar a ter uma voz própria para narrar o
morta, acorda um pouquinho; mas a palavra que tenho para narrar não tem preço.
só fica acordada quando a dizemos. Para Horácio Costa Eu gostaria que Agora, isso tudo depois passa por uma
que a palavra soe desperta é preciso dizê- você falasse sobre o romance, ou melhor, quantidade, porque o meu processo
la; ler silenciosamente as palavras não é sufi- sobre o exercício da prosa de ficção por narrativo, que nasce com Levantado do chão
ciente. E nós todos sabemos que, quando meio do romance: o exercício desse e que aparentemente se repete em todos os
se lê poesia, fazer uma leitura silenciosa de imaginário no mundo contemporâneo. O outros romances, repete o essencial, mas há
uma poesia ou fazer uma leitura em voz que é isso? Qual a sua importância? mudanças, adaptações ao próprio tema, à
alta dela são dois mundos completamente própria história que está sendo contada. Eu
diferentes. Saramago O que é hoje para mim estou percebendo que, depois de uma
Quando eu digo ao meu leitor “você tem ficção? É como uma voz, tudo é uma voz, expressão bem mais barroca como é o caso
que ler escutando dentro da sua cabeça a diria o poeta, o dramaturgo, na circuns- do Memorial do convento, talvez por
voz que está dizendo”, isso se aplica ao tância em que eu falei antes. Ocorre que a interferência do próprio século XVIII em
autor. Eu começo um romance, um conto, voz, no meu caso, tem toda a importância que tudo acontece, estou me aproximando
um relato, ou algo assim, mas enquanto do mundo. No meu caso, o homem e o cada vez mais de uma narrativa seca, cada
não ouço dentro da minha cabeça a voz escritor, como eu disse antes, não apenas vez mais seca. Encontrei, outro dia, uma
que está dizendo, o texto não avança. A estão juntos, mas estão fundidos um no fórmula que me parece boa, é como se
prosa fica ali, parada. Tem que soar dentro. outro. Então eu diria que a ficção para mim, durante todo esse tempo eu estivesse
E é ainda bastante estranho que isso hoje, não sendo uma carreira, é o recurso descrevendo uma estátua – o rosto, o nariz –
aconteça, porque parece que não perce- que eu tenho para expressar minhas e agora eu me interessasse muito mais pela
bemos que no fundo falar e fazer música é dúvidas, minhas perplexidades, minhas pedra de que se faz a estátua. Quer dizer, já
a mesma coisa, exatamente a mesma coisa. ilusões, minhas decepções. Não no sentido descrevi a estátua, todo mundo já sabe que
Fala-se e faz-se música com os mesmos de uma literatura confessional. A estátua é essa que eu estive descrevendo
ingredientes: sons e pausas, nada mais. preocupação que eu tenho é esta: Em que desde Levantado do chão até o Evangelho
Toda música pode ser reduzida a isso: sons mundo estou vivendo? Que mundo é este? segundo Jesus Cristo. A partir de Ensaio sobre
e pausas. Toda palavra, ou todo discurso, O que são as relações humanas? O que é a cegueira, em Todos os nomes e no próximo
pode ser reduzido a isso, som e pausa. essa história de sermos o que chamamos a romance, se o escrever, trato da pedra.
Mas, da mesma forma que a música humanidade? O que é isso de ser Humani- Horácio Costa
necessita de uma espécie de suporte dade? Ter encontrado para essa ficção uma poeta (autor de Satori e O menino e o travesseiro), tradutor e

rítmico que a conduza – não estou muito forma pessoal de narrar, que é a minha, acho crítico literário, leciona literatura brasileira na Unam (Universidade
Nacional Autônoma de México) e é autor de
certo disso, mas estou falando de outras que esse meu privilégio – eu não sei como José Saramago – O período formativo

24 CULT - dezembro/98
oautorcomonarrador josésaramago
Em ensaio inédito no Brasil,
Saramago questiona a
distinção – consagrada pela
crítica literária – entre as
figuras do autor e do
narrador, sugerindo que ao
aceitar essa dissociação o
escritor abdica da
responsabilidade pelo
que escreve

F alto de mapas, abandonado de guias, com o temor


reverencial de quem pisa terra estranha, uma terra onde os
sistemas de comunicação estão habitualmente redigidos em
línguas que, não raro, só vagas semelhanças guardam ainda com
a linguagem comum, atrever-me-ei a expor-vos umas poucas
idéias elementares, as únicas que poderia autorizar-se um simples
prático da literatura como eu.
Por experiência própria, tenho observado que, no seu trato
com autores a quem a fortuna, o destino ou a má-sorte não
Vidal Cavalcante/AE

permitiram a graça de um título acadêmico, mas que, não


obstante, foram capazes de produzir obra digna de algum estudo,
a atitude das universidades costuma ser de benévola e sorridente

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Livros de José Saramago • Os apontamentos, crônica, 1976 • O ano da morte de Ricardo Reis, romance, 1984 *
• Manual de pintura e caligrafia, romance, 1977 * • A jangada de pedra, romance, 1986 *
• Terra do pecado, romance, 1947 • Objeto quase, contos, 1978 * • A segunda vida de Francisco de Assis, teatro, 1987
• Os poemas possíveis, poesia, 1966 • Poética dos cinco sentidos, contos, 1979 • História do cerco de Lisboa, romance, 1989 *
• Provavelmente alegria, poesia,1970 • A noite, teatro, 1979 • O Evangelho segundo Jesus Cristo, romance, 1991 *
• Deste mundo e do outro, crônica, 1971 • Que farei com este livro?, teatro, 1980 * • In Nomine Dei, teatro, 1993 *
• A bagagem do viajante, crônica, 1973 * • Levantado do chão, romance,1980 • Ensaio sobre a cegueira, romance, 1995 *
• As opiniões que o D. L. teve, crônica, 1974 • Viagem a Portugal, crônica de viagem, 1981 * • Todos os nomes, romance, 1997 *
• O ano de 1993, poesia, 1975 • Memorial do convento, romance, 1982 * • Cadernos de Lanzarote, diário, 1994-1997*

* As obras assinaladas com asterisco foram lançadas no Brasil pela editora Companhia das Letras. As demais, editadas em Portugal, podem ser encomendadas à Livraria Portugal (rua
Genebra, 165, São Paulo, tel.: 011/3104-1748)

tolerância, muito parecida com a que Nesta contestação, claro está, não vou indiferença com que os autores de hoje
costumam usar as pessoas sensíveis na sua ao ponto de negar que a figura do que parecem aceitar a “usurpação”, pelo
relação com as crianças e os velhos, uns denominamos narrador possa ser de- narrador, da matéria, da circunstância e
porque ainda não sabem, outros porque monstrada no texto, ao menos, com o do espaço narrativos que antes lhe eram
já esqueceram. É graças a tão generoso devido respeito, segundo uma lógica pessoal e inapelavelmente imputados, não
procedimento que os professores de bastante similar à das provas definitivas será, no fim de contas, a expressão mais
Literatura, em geral, e os de Teoria da da existência de Deus formuladas por ou menos consciente de um certo grau de
Literatura, em particular, têm acolhido Santo Anselmo... Aceito, até, a pro- abdicação, e não apenas literária, das suas
com simpática condescendência – mas babilidade de variantes ou desdobra- responsabilidades próprias.
sem que se deixem abalar nas suas mentos de um narrador central, com o Que fazemos, em geral, nós, os que
convicções científicas – a minha ousada encargo de expressarem uma pluralidade escrevemos? Contamos histórias. Contam
declaração de que a figura do narrador não de pontos de vista e de juízos considerada histórias os romancistas, contam histórias
existe, e de que só o autor exerce função útil à dialéctica dos conflitos. A pergunta os dramaturgos, contam histórias os
narrativa real na obra de ficção, qualquer que me faço é se a obsessiva atenção dada poetas, contam-nas igualmente aqueles
que ela seja, romance, conto ou teatro. E pelos analistas de texto a tão escor- que não são, e não virão a ser nunca,
quando, indo procurar auxílio a uma regadias entidades, propiciadora, sem poetas, dramaturgos ou romancistas.
duvidosa ou, pelo menos, problemática dúvida, de suculentas e gratificantes Mesmo o simples pensar e o simples falar
correspondência das artes, argumento que especulações teóricas, não estará a quotidianos são já uma história. As
entre um quadro e a pessoa que o contribuir para a redução do autor e do palavras proferidas, ou apenas pensadas,
contempla não há outra mediação que não seu pensamento a um papel de perigosa desde o levantar da cama, pela manhã,
seja a do respectivo autor, e portanto não secundaridade na compreensão com- até ao regresso a ela, chegada a noite, sem
é possível identificar ou sequer imaginar, plexiva da obra. esquecer as do sonho e as que ao sonho
por exemplo, a figura de um narrador na Quando falo de pensamento, estou a tentaram descrever, constituem uma
Gioconda ou na Parábola dos cegos, o que se incluir nele os sentimentos e as sensações, história com uma coerência própria,
me responde é que, sendo as artes as idéias e os sonhos, as vidências do contínua ou fragmentada, e poderão,
diferentes, diferentes teriam igualmente de mundo exterior e do mundo interior sem como tal, em qualquer momento, ser
ser as regras que as traduzem e as leis que as quais o pensamento se tornaria em puro organizadas e articuladas em história
as governam. Esta peremptória resposta pensar inoperante. Abandonando qual- escrita.
parece querer ignorar o facto, fundamental quer precaução retórica, o que aqui estou O escritor, esse, tudo quanto escreve,
no meu entender, de que não há, objecti- assumindo, afinal, são as minhas próprias desde a primeira palavra, desde a primeira
vamente, nenhuma diferença essencial dúvidas e perplexidades sobre a identidade linha, é escrito em obediência a uma
entre a mão que guia o pincel ou o vapo- real da voz narradora que veicula, nos intenção, às vezes clara, às vezes escondida
rizador sobre a tela, e a mão que desenha livros que tenho escrito e em todos quantos – porém, de certo modo, visível e óbvia,
as letras sobre o papel ou as faz aparecer li até agora, aquilo que derradeiramente no sentido de que ele está sempre obrigado
no ecrã [tela] do computador, que ambas creio ser, caso por caso e quaisquer que a facultar ao leitor, passo a passo, dados
são, com adestramento e eficácia similares, sejam as técnicas empregadas, o pen- cognitivos que sejam comuns a ambos,
prolongamentos de um cérebro, ambas samento do autor, seu próprio e exclusivo para chegar finalmente a algo que,
instrumentos mecânicos e sensitivos (até onde é possível sê-lo) ou delibe- querendo parecer novo, diferente, original,
capazes de composições e ordenações sem radamente tomado de empréstimo, de já era afinal conhecido, porque, suces-
mais barreiras ou intermediários que os acordo com os interesses da narração. E sivamente, ia sendo reconhecível. O
da fisiologia e da psicologia. também me pergunto se a resignação ou escritor de histórias, manifestas ou

26 CULT - dezembro/98
Juan Esteves

disfarçadas, é portanto um mistificador: seu autor. Pergunto-me até, se o que convento, e em O evangelho segundo Jesus
conta histórias e sabe que elas não são mais determina o leitor a ler não será uma Cristo não sou apenas Jesus e Maria
do que umas quantas palavras suspensas secreta esperança de descobrir no interior Madalena, ou José e Maria, porque sou
no que eu chamaria o instável equilíbrio do livro – mais do que a história que lhe também o Deus e Diabo que lá estão...
do fingimento, palavras frágeis, assustadas será narrada – a pessoa invisível mas O que o autor vai narrando nos seus
pela atracção de um não-sentido que omnipresente do seu autor. Tal como o livros é, tão-somente, a sua história
constantemente as empurra para o caos de entendo, o romance é uma máscara que pessoal. Não o relato da sua vida, não a
códigos cuja chave a cada momento esconde e, ao mesmo tempo, revela os sua biografia, quantas vezes anódina,
ameaça perder-se. Não esqueçamos, traços do romancista. Com isto não quantas vezes desinteressante, mas uma
porém, que assim como as verdades puras pretendo sugerir ao leitor que se entregue outra, a secreta, a profunda, a labiríntica,
não existem, também as puras falsidades durante a leitura a um trabalho de aquela que com o seu próprio nome
não podem existir. Porque se é certo que detective ou antropólogo, procurando dificilmente ousaria ou saberia contar.
toda a verdade leva consigo, inevita- pistas ou removendo camadas geológicas, Talvez porque o que há de grande em cada
velmente, uma parcela de falsidade, ao cabo das quais, como um culpado ou ser humano seja demasiado grande para
quanto mais não seja por insuficiência uma vítima, ou como um fóssil, se caber nas palavras com que ele a si mesmo
expressiva das palavras, também certo é encontraria escondido o autor... se define e nas sucessivas figuras de si
que nenhuma falsidade pode ser tão radical Muito pelo contrário: o autor está no mesmo que povoam um passado que não
que não veicule, mesmo contra a intenção livro todo, o autor é todo o livro, mesmo é apenas seu, e por isso lhe escapará
do mentiroso, uma parcela de verdade. A quando o livro não consiga ser todo o sempre que tentar isolá-lo e isolar-se nele.
mentira conterá, pois, duas verdades: a autor. Não foi simplesmente para chocar Talvez, também, porque aquilo em que
própria sua, elementar, isto é, a verdade a sociedade do seu tempo que Gustave somos mesquinhos e pequenos é a tal
da sua própria contradição (a verdade está Flaubert declarou que Madame Bovary ponto comum que nada de novo poderia
oculta nas palavras que a negam), e a outra era ele próprio. Parece-me, até, que, ao ensinar a esse outro ser pequeno e grande
verdade de que, sem o querer, se tornou dizê-lo, não fez mais do que arrombar uma que é o leitor.
veículo, comporte ou não esta nova porta desde sempre aberta. Sem faltar ao Finalmente, talvez seja por alguma
verdade, por sua vez, uma parcela de respeito devido ao autor de Bouvard et destas razões que certos autores, entre os
mentira. Pécuchet, poder-se-ia mesmo dizer que quais julgo dever incluir-me, privilegiem,
De fingimentos de verdade e de uma tal afirmação não peca por excesso, nas histórias que contam, não a história
verdade de fingimentos se fazem, pois, mas por defeito: faltou a Flaubert acres- que vivem ou viveram, mas a história da
as histórias. Contudo, em minha opinião, centar que ele era também o marido e os sua própria memória, com as suas exacti-
e a despeito do que, no texto, se nos amantes de Emma, que era a casa e a rua, dões, os seus desfalecimentos, as suas
apresenta como uma evidência material, que era a cidade e todos quantos, de todas mentiras que também são verdades, as
a história que ao leitor mais deveria as condições e idades, nela viviam, casa, suas verdades que não podem impedir-se
interessar não é a que, liminarmente, lhe rua e cidade reais ou imaginadas, tanto faz. de ser mentiras. Bem vistas as coisas, sou
é proposta pela narrativa. Um livro não Porque a imagem e o espírito, o sangue e só a memória que tenho, e essa é a história
está formado somente por personagens, a carne de tudo isto, tiveram de passar, que conto. Omniscientemente.
conflitos, situações, lances, peripécias, inteiros, por uma só pessoa: Gustave Quanto ao narrador, que poderá ele ser
surpresas, efeitos de estilo, exibições Flaubert, isto é, o autor, o homem, a senão uma personagem mais de uma
ginásticas de técnicas de narração – um pessoa. Também eu, ainda que sendo tão história que não é a sua?
livro é, acima de tudo, a expressão de uma pouca coisa em comparação, sou a
parcela identificada da humanidade: o Blimunda e o Baltasar de Memorial do © LER 1997

dezembro/98 - CULT 27
José Saramago - O período formativo

Vidal Cavalcante/AE
Horácio Costa
Editorial Caminho
386 págs. - R$ 64,27
O livro pode ser encomendado à
livraria Portugal, rua Genebra, 165,
São Paulo, tel.: 011/3104-1748

osanosdo
Lobato

É José Saramago quem conta, no


terceiro volume de seus Cadernos de
ignoradas pela crítica até então. Com isso,
pôde indicar nexos e propor interpretações
dramaturgo, o contista, o romancista, o
tradutor, o crítico e o cronista. Aí, pode-
Lanzarote, que, quando defendeu a tese de grande utilidade para quem se dispuser se dizer que a opção inspira ressalvas.
de doutorado na Universidade de Yale, nos a estudar ou conhecer melhor o universo Faltou separar com maior cuidado o que
EUA, Horácio Costa foi recriminado ficcional de Saramago, ainda mais agora era secundário dentro do secundário, ou,
pelas lacunas bibliográficas do texto. que a parte (re)conhecida desse universo para dizer de modo diferente, priorizar a
Comenta o autor de Ensaio sobre a cegueira: foi premiada com o Nobel de literatura. compreensão do fundamental dentro do
“Horácio Costa não tinha culpa de que A delimitação do campo de estudo universo textual escolhido. O trecho do
até aí ninguém se tivesse interessado oferecia sérios riscos para o pesquisador, livro dedicado aos Poemas possíveis e a
seriamente pelo que andei a fazer nos anos uma vez que a questão do valor da obra Provavelmente alegria ocupa, por exemplo,
do eclipse, mas os meritíssimos professores literária é, na atualidade, muitas vezes quase o mesmo espaço do trecho em que
não arredavam pé: uma tese em boa e posta de lado, o que implica a tentação tão são comentadas as atividades de Saramago
devida forma, uma tese que se respeite, comum de superdimensionar o objeto como crítico literário e tradutor. E, no caso
quer-se com bibliografia, e esta não tinha. analisado (pressupondo-se – absurda específico de Saramago, ambas, mas
Levaram tempo a perceber que o trabalho conseqüência – a supervalorização do principalmente a de tradutor, podem ser
de Horácio Costa até nisso teria de ser analista). Logo no início do estudo, vistas mais como “curiosidade” do que
inovador: inaugurava a bibliografia que entretanto, Costa demonstrou não ter como fonte de conhecimento efetivo sobre
não existia.” adotado essa postura ao afirmar a a obra.
O escritor português constata assim necessidade de “observar o secundário Além da introdução e das conclusões,
um dos pontos importantes de José como secundário”. o livro traz sete capítulos, cada um relativo
Saramago – O período formativo, publicado Outro risco corrido foi adotar a posição a um traço da expressão criativa de
em Portugal pela Caminho. Ao analisar a de, dentro do espaço de tempo escolhido, Saramago. No primeiro, Costa estuda o
produção do autor anterior ao romance não excluir nenhum aspecto das atividades romance Terra do pecado – publicado pelo
Levantado do chão, ou seja, a 1980, Costa de Saramago ligadas à literatura. Assim, escritor em 1947 e apenas recentemente
tratou de obras (e questões) praticamente estudou-se, com igual ênfase, o poeta, o relançado em Portugal –, enfatizando sua

28 CULT - dezembro/98
Livro de Horácio Costa analisa o período em que o
escritor português se dedicava a poesia, dramaturgia,
tradução, crítica e crônica, mostrando como o
Saramago de hoje já se insinuava nos livros anteriores
ao romance Levantado do chão

eclipsedesaramago
Adriano Schwartz

feição naturalista e a defasagem estilística a feição mais radical de um Saramago escrita do mais recente Saramago com que
e temática que este apresentava em relação experimentalista, feição que terá fecundos vinha trabalhando ao longo do texto: a
ao que era feito em Portugal na época. desenvolvimentos na dicção do escritor a prosa barroca, o discurso cinematográfico,
O capítulo seguinte trata dos dois livros partir de Levantado do chão, como se pode a tendência a digressões e a postura
de poemas citados anteriormente, que apreender pela leitura de um trecho de um comprometida. Vale a pena notar que, se
foram lançados em 1966 e em 1970, respec- dos fragmentos de O ano de 1993 citado tais características poderiam ser apontadas
tivamente. Ao centrar a análise, com acerto, por Costa, que carrega em si uma voz como básicas à época em que o estudo foi
nas ligações da produção poética com a quase reconhecível, um tom já muito escrito (o último romance lançado pelo
futura produção romanesca e acompanhar familiar: autor era, então, O Evangelho segundo Jesus
as modificações introduzidas pelo autor nas “As pessoas estão sentadas numa Cristo), hoje em dia, com a publicação de
edições “revistas e remendadas” publicadas paisagem de Dalí com as sombras muito Ensaio sobre a cegueira e de Todos os nomes,
nos anos 80, Costa compõe aquele que é recortadas por causa do sol que diremos o romancista deu – mantendo as con-
um dos momentos mais interessantes do parado quistas discursivas – uma outra guinada
livro, mostrando, por exemplo, como a Quando o sol se move como acontece em sua trajetória, que, suspeito, tem raízes
obsessão que resultaria em O ano da morte fora das pinturas a nitidez é menor e a luz não mais tanto no “período formativo” tra-
de Ricardo Reis já se fazia presente em Os sabe muito menos o seu lugar balhado no estudo, mas no período
poemas possíveis. Não importa que Dalí tivesse sido tão seguinte, principalmente no tripé O ano
Os três capítulos subseqüentes lidam mau pintor se pintou a imagem necessária da morte de Ricardo Reis, História do cerco
com as crônicas (Deste mundo e do outro e para os dias de 1993(...)” de Lisboa e O Evangelho segundo Jesus
A bagagem do viajante), com as peças (A No sétimo capítulo, Costa comenta os Cristo. Isso, porém, já é tema para uma
noite e Que farei com este livro) e com as contos de Objecto quase e o romance nova obra. Esta, José Saramago – O período
traduções e críticas feitas pelo autor. O Manual de pintura e caligrafia, ambos já formativo, cumpre com rigor aquilo a que
sexto capítulo, que estuda O ano de 1993 e bastante conhecidos do leitor brasileiro. se propusera.
A poética dos cinco sentidos – O ouvido, é No conto “A cadeira”, o analista identifica Adriano Schwartz
particularmente interessante por mostrar quatro componentes fundamentais da editor-adjunto do caderno “Mais!” do jornal Folha de S. Paulo

dezembro/98 - CULT 29
ENSAIO
: Sobre o tempo O sociólogo alemão Norbert Elias aproxima da esfera filosófica a análise do comportamento
: Norbert Elias humano ante a idéia do tempo. A pergunta inicial de Elias em Sobre o tempo é “Como é possível
: Vera Ribeiro medir uma coisa que não se pode perceber pelos sentidos?”. Seu pressuposto é sociológico:
: Jorge Zahar lançamos mão de processos físicos, determinados pela sociedade, para substituir os processos
: 168 págs. naturais de medição da passagem do tempo. Dessa simples constatação, o sociólogo elabora um
: R$ 17,00 raciocínio que explica a evolução da cronologia como orientação no fluxo incessante do devir.

: Os best-sellers proibidos A análise de best-sellers de circulação proibida à epoca da Revolução Francesa sugere ao
: Robert Darnton historiador Robert Darnton avaliar de que maneira esse tipo de literatura delineou a mentalidade
: Hildegard Feist francesa no século XVIII. Darnton revê o repertório de leitura setecentista na França e conclui
: Companhia das Letras que as obras que os franceses realmente liam não eram de autoria de Rousseau e Voltaire, mas
: 456 págs. obras de circulação clandestina: novelas pornográficas e biografias escandalosas de autores
: R$ 34,50 como Jean-Baptiste de Boyer, Louis-Sébastien Mercier e Pidansat de Mirobert.

: Julio Cortázar Livro que integra a coleção Pequenas Biografias Insólitas, Julio Cortázar – A viagem como
CRÍTICA

: Jorge H. Wolff metáfora produtiva parte de textos capitais como O jogo da amarelinha e Os prêmios para
: Letras Contemporâneas problematizar a noção de verdadeiro e falso na obra de gêneros múltiplos do escritor argentino.
: 104 págs. Wolff debruça-se também em textos menos conhecidos de Cortázar, como Imagen de John Keats
: R$ 13,00 e Argentina: años de alambradas culturales, aproximando-o de Oswald de Andrade e Júlio Verne,
escritores que tiveram o tema da viagem no centro de suas preocupações literárias.

: T. S. Eliot Um dos mais importantes poetas e críticos literários do século XX, T. S. Eliot (1888-1965), autor
: Northrop Frye de The waste land e Four quartets, tem sua obra analisada pelo crítico norte-americano Northrop Frye,
: Elide-Lela Valarini que se notabilizou por estudos sobre Shakespeare, William Blake e a respeito da literariedade da
: Imago Bíblia. Frye elabora uma completa introdução à obra e ao pensamento de Eliot, abordando aspectos
: 114 págs. da poesia, do teatro e dos textos críticos do escritor norte-americano naturalizado inglês. Publicado
: R$12,00 pela primeira vez em 1963, o livro passou por uma revisão crítica em 1981.

: Borges em dez textos Borges em dez textos reúne ensaios de pesquisadores brasileiros e estrangeiros – dentre eles
: Maria Esther Maciel e Eneida Maria de Souza, Mark Millington e Wander Melo Miranda – sobre o universo
: Reinaldo Marques (org.) ficcional e a trajetória biográfica do escritor argentino. Os estudos examinam a confluência
: Sette Letras entre a memória, a reinvenção do passado e a construção detetivesca da narrativa borgiana, as
: 148 págs. conseqüências da cegueira em seu universo criador e sua concepção fictícia de vida. O livro é
: R$ 16,00 uma publicação do Núcleo de Estudos Latino-americanos da UFMG.

Resultado de uma série de conferências proferidas pelo escritor inglês Edward Morgan Foster
TEORIA LITERÁRIA

: Aspectos do Romance
: Edward M. Foster (1879-1970) na Universidade de Cambrigde e publicado originalmente em 1927, Aspectos do romance
: Maria Helena Martins reúne, em estilo irônico próprio ao autor, considerações sobre a estrutura e as tentativas de periodização
: Globo desse gênero literário, a partir da obra de autores como Charles Dickens, H. G. Wells, Henry James,
: 158 págs. Virginia Woolf, Laurence Sterne e Aldous Huxley. Foster termina por não vaticinar sobre o futuro
: R$ 15,00 do romance, preferindo especular sobre as transformações do processo criador.

: Jogos para atores e não- O teatrólogo Augusto Boal, idealizador do Teatro do Oprimido, apresenta um sistema de
TEATRO

: atores exercícios (monólogo corporais), jogos (diálogos corporais) e técnicas de encenação para atores
: Augusto Boal e não-atores – sua concepção de teatro considera que todos atuamos, interagimos, interpretamos.
: Civilização Brasileira Jogos para atores e não-atores já teve 12 edições em inglês, 15 em francês e conta com versões na
: 360 págs. Argentina e em Portugal. Nesta edição brasileira, incluem-se novas práticas e exercícios
: R$ 30,00 decorrentes da experiência de Boal com atores da Royal Shakespeare Company de Londres.

: Da liberdade do cristão Ao lado de outros dois documentos afins – A nobreza cristã da nação alemã e Da servidão
TEOLOGIA

: Martinho Lutero babilônica da Igreja –, o tratado Da liberdade do cristão forma a base do luteranismo e deflagra o
: Erlon José Paschoal início da Reforma Protestante. Quando da publicação do texto, em 1520, Lutero estava
: Unesp ameaçado de excomunhão pela Igreja de Roma (o que, de fato, aconteceria no ano seguinte)
: 128 págs. devido à sua campanha contra o pagamento de indulgências. Sob a proteção do príncipe Frederico
: R$ 14,00 III, Lutero traduziu a Bíblia para a língua alemã, tarefa concluída em 1534.

: As palavras de Freud As palavras de Freud – O vocabulário freudiano e suas versões, originalmente tese de
PSICOLOGIA

: Paulo César de Souza doutoramento em Língua e Literatura Alemã na USP, é um estudo detalhado da terminologia
: Ática dos textos de Sigmund Freud. Paulo César de Souza promove uma revisão filológica de alguns
: 288 págs. termos técnicos centrais na obra psicanalítica de Freud, cuja controvérsia é ampla no campo da
: R$ 29,00 psicanálise. O estudo toma por referência as traduções francesas e inglesas de textos como os
ensaios metapsicológicos e História de uma neurose infantil.

: Título : Autor : Tradutor : Editora : Número de páginas : Preço

3 0 CULT - dezembro/98
Pela mesma época em que se publicava a página aqui
reproduzida de Fon-Fon, Fernando Pessoa, aliás Alberto
Caeiro, contava um sonho maravilhoso. Não me custa
acreditar que ele tenha escrito tão encantadores versos numa
noite de Natal, em que pese tê-los sonhado “num meio-dia
de fim de primavera”:

(...)
Vi Jesus Cristo descer à terra. (...)
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
de segunda pessoa da Trindade. (...)
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma crainça bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
chapinha nas poças de água.
Colhe as flores e gosta delas e
[esquece-as. (...)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Mostra-me como as pedras são
[engraçadas
quando a gente as tem na mão
e olha devagar para elas. (...)
Ele mora comigo na minha casa
[a meio do outeiro. (...)
Dá-me uma mão a mim
e a outra a tudo que existe
e assim vamos caminhando os três pelo
[caminho que houver,
saltando e cantando e rindo
e gozando o nosso segredo comum
que é o de saber por toda a parte
que não há mistério no mundo
e que tudo vale a pena.
Ele dorme dentro de minha alma
e às vezes acorda de noite
e brinca com os meus sonhos,
vira uns de perna para o ar,
põe uns em cima dos outros
e bate as palmas sozinho
sorrindo para o meu sono. (…)
Esta é a história do meu Menino Jesus.

novembro/98 - CULT 3 1
F O R T U N A C R Í T I C A 6
Ivan Teixeira

NEW HISTORICISM
Influenciado pelas obras de Michel

Reprodução
Foucault e Derrida, o new historicism

Fotos
de Stephen Greenblatt afirma que a
produção poética está incrustada no
discurso coletivo de seu tempo,
restaurando a historicidade do texto e
postulando a textualidade da história O crítico Stephen Greenblatt

O movimento crítico hoje conhecido social, na qual se inscrevem não só


Série destaca as principais como new historicism originou-se nos elementos da língua adotada, mas tam-
tendências da crítica literária Estados Unidos, em 1988, por meio de bém das instituições e das convenções
“Fortuna Crítica” é uma série de seis
propostas apresentadas por Stephen segundo as quais se forma o repertório
artigos do ensaísta Ivan Teixeira sobre Greenblatt em seu livro Shakespearean do autor. Conforme a expressão de Louis
as principais correntes da crítica lite- negotiations: The circulation of social energy Montrose, outro defensor do novo
rária. As escolas de interpretação poé- in Renaissance England. Nas páginas dessa método, o crítico deve captar simultanea-
tica abordadas até este último texto fo- obra, o estudioso proclama o desejo de mente a historicidade do texto e a
ram a retórica de Aristóteles e Quin-
tiliano (publicado na CULT 12, em ju-
falar com os mortos. Em franca oposição textualidade da história. Partindo dessa
lho), o formalismo russo (CULT 13, agos- à orientação lingüística da análise textual perspectiva, o new historicism procura
to), o new criticism (CULT 14, setem- defendida pelo estruturalismo e pelos restaurar a forma mental da época
bro), o estruturalismo (CULT 15, outu- remanescentes do new criticism, tal decla- estudada, o que acaba por criar um objeto
bro) e o desconstrucionismo (CULT 16, ração tinha por objetivo restaurar polemi- próprio de pesquisa literária – objeto
novembro). Ivan Teixeira é professor do
camente a dimensão histórica dos estudos próprio mas multifacetado, a que
Departamento de Jornalismo e Editora-
ção da ECA-USP, co-autor do material literários. Greenblatt, apropriando-se da termino-
didático do Anglo – Vestibulares de São Apropriando-se de noções da teoria logia do antropólogo norte-americano
Paulo (onde lecionou literatura brasilei- dos discursos de Michel Foucault e de Clifford Geertz, chama cultura em ação.
ra durante mais de 20 anos) e autor de algumas posições do relativismo des- A integração da literatura no âmbito
Apresentação de Machado de Assis construcionista de Jacques Derrida, dos signos sociais obriga o entendimento
(Martins Fontes) e Mecenato pombalino
e poesia neoclássica (a sair pela Edusp).
Greenblatt recusa-se a entender a lite- do discurso histórico não como contexto,
Tem-se dedicado a edições comentadas ratura como fenômeno isolado das de- mas como texto de uma época. Conforme
de clássicos – entre eles, as Obras mais práticas sociais. Ao contrário, inter- os pressupostos foucaultianos do new
poéticas de Basílio da Gama (Edusp) e preta-a como uma dentre as muitas historicism, a produção poética de um
Poesias de Olavo Bilac (Martins Fon- estruturas em que se pode ler o espírito autor deve necessariamente ser consi-
tes) – e dirige a coleção “Clássicos para
de uma época. Como discurso, a literatura derada como discurso singular incrus-
o vestibular”, da Ateliê Editorial.
caracteriza-se antes de tudo como prática tado no discurso coletivo de seu tempo.

3 2 CULT - dezembro/98
Não se trata de entender a obra como verdadeiro etc. Os valores essenciais dos O ensaio mais célebre de Greenblatt
reflexo do contexto e muito menos de povos são sempre circunstanciais e su- talvez seja “Resonance and wonder”, de
considerar a história como pano de fundo jeitos ao jogo transitório das formulações 1990. Nesse texto, o autor enumera três
para uma compreensão supostamente históricas, das quais depende a escolha características essenciais do velho histo-
politizada da obra. Trata-se, ao contrário, das instituições e das pessoas que elabo- ricismo: (1) crença na idéia de que a
de entender a produção artística como ram e preservam o código que regula a história é presidida por um processo
parte integrante de um discurso mais relação entre os indivíduos e destes com inexorável e cujo curso o homem pratica-
amplo, o discurso histórico, do qual a os padrões e os valores vigentes. mente não pode alterar; (2) convicção de
obra de arte participa como se fosse frase Outro traço importante do pensa- que o historiador deve evitar juízos de
intercalada ou procedimento retórico. mento foucaultiano é a idéia de que a valor em seu estudo do passado ou de
Hayden White, que também partilha culturas antigas; (3) veneração do passado
da necessidade da renovação dos estudos ou da tradição.
culturais, julga que o discurso historio- Greenblatt opõe-se a essas três
gráfico possui a mesma natureza do categorias, propondo alternativas polê-
discurso literário, chegando a aplicar micas para elas. A primeira grande
categorias importantes da crítica literária, diferença entre o historicismo tradicional
como os gêneros e os tropos de linguagem, e o novo historicismo consiste na incor-
à classificação das diversas modalidades poração da idéia de história como dis-
de historiografia. Estabelece-se, assim, curso: a história não é o fato, mas o regis-
uma relação de homologia entre história tro dele. Essa noção não se esgota no
e literatura, e não apenas uma relação de preceito marxista segundo o qual a
complementaridade. As manifestações perspectiva do historiador determina a
culturais de um período nada mais são natureza política do registro. Trata-se de
do que uma constelação de signos da algo mais. Para que o fato se converta em
realidade que as compõe. A obra de arte história é preciso primeiro assumir a
integra essa constelação, a que Stephen condição de discurso, de logos, o que não
Greemblatt chamou poética da cultura, no O crítico Hayden White quer dizer que o evento deva necessa-
ensaio “Towards a poetics of culture”, de riamente atingir condição de enunciado
encontra uma relação de
1987. verbal para ser história, mas sim mani-
homologia entre o discurso
Segundo Foucault, as vozes do tempo festar-se num sistema autoconsciente de
historiográfico e o discurso
são variadas e quase infinitas, mas podem significação social. A morte absoluta-
literário, aplicando
ser sintetizadas pela idéia de episteme, mente ignorada de um indivíduo no
entendida como o modo de articulação categorias como gêneros e
deserto não pertence à história. Mas o
entre os vários discursos que compõem a tropos de linguagem aos assassinato secreto de um sem-terra nos
história de um povo: política, arte, relatos dos historiadores confins de uma fazenda do Mato Grosso
poética, ética, moda etc. O pensador é história, porque se insere num processo
francês não entende a história como história não é teleológica, quer dizer, não catalogado pela consciência social do
narrativa ou análise dos acontecimentos se orienta para um fim racionalmente momento. Nesse sentido, a história não é
em sua relação de causa e efeito, mas concebido pelo próprio devir das insti- feita pelo homem (categoria metafísica),
como um imenso discurso gerado pela tuições e dos fatos, como pensava a tra- mas por homens em busca de significação
vida orgânica das ocorrências físicas e dição metafísica. A concepção teleo- (categoria circunstancial). Não se trata,
espirituais de determinado momento. A lógica da história elege o presente como portanto, de um processo absoluto e
noção de episteme foucaultiana implica o ponto de chegada de todos os esforços irreversível, mas do resultado impre-
o afastamento de qualquer crença univer- do homem. Foucault, ao contrário, não visível de situações concretamente assi-
salizante, pois explica os valores em entende o presente como espaço privile- miláveis.
termos estritamente sociais, sem nenhum giado no tempo. Interpreta-o apenas Em sua refutação do segundo
recurso à metafísica. Cada época cria o como o lugar de onde se produz o conhe- princípio do historicismo tradicional,
padrão que estabelece a noção de certo cimento, do qual decorrem os discursos Greenblatt afirma que o passado deve
ou errado, de belo ou feio, de falso ou e as várias formas de poder de uma época. ser entendido pela perspectiva do

dezembro/98 - CULT 3 3
presente, isto é, partilha da idéia da Shakespeare se reveste de tanta atitude escreveu também um admirável poema
necessidade de juízos de valor sobre o política quanto se revestiu de propriedades herói-cômico: O desertor (1774), com-
passado. Todavia, temeroso talvez de dramáticas a coroação de Elizabeth I. Em pletamente esquecido hoje em dia. A
destoar da doutrina foucaultiana, outros termos, o new historicism atenua os escassa fortuna crítica desse texto se deve
Greenblatt não deixa de problematizar a limites entre discurso artístico e discurso principalmente ao magistério da inter-
aplicação desses juízos, criando uma social, entendendo aquele como projeção pretação romântica, que, por força de seu
estratégia operacional a que chama senso da estrutura deste. Não se trata, repita-se, nacionalismo, desqualificou o poema sob
de distanciamento. O senso de distancia- pretexto de não apresentar interesse para
mento leva-o a ratificar a noção de que o a formação da literatura propriamente
presente não decorre de suposta inevita- brasileira.
bilidade histórica (recusa da história Pela perspectiva do new historicism,
como progressão teleológica), devendo esse não seria o modo correto de ler O
ser entendido apenas como o ponto a desertor. Tendo sido escrito como parte da
partir do qual se reconstrói o passado. celebração da reforma da Universidade
Além disso, o ensaísta considera que de Coimbra, levada a efeito pelo Marquês
há dois modos de relacionamento entre de Pombal em 1772, esse texto deve ser
passado e presente: por analogia e por restituído ao discurso social de que fez
causalidade. Em qualquer dos casos, julga parte. Nesse caso, caberia ao crítico
inevitável a presença de juízos de valor, recompor o universo do mecenato
pois afirma que a suposta isenção do velho pombalino e estudar as instituições e os
historicismo não passa de subserviência valores que o ministro representava.
aos valores oficiais do Estado e aos estudos Caberia também investigar o rigoroso
acadêmicos, visto que a consciência da repertório coletivo de convenções que
impossibilidade de isenção do historiador estabelecia desde as tópicas literárias
na formulação do discurso histórico (coisas retóricas) e o modo de apro-
conduz ao cerceamento da imposição Há uma homologia priação delas até os princípios de organi-
arbitrária de valores atuais sobre o passado. histórica e artística entre zação da frase e do poema. Efetuada essa
Quanto ao terceiro item do paralelo a Estátua Eqüestre de operação, O desertor talvez renascesse para
de Greenblatt entre o velho e o novo D. José I e a retórica a sensibilidade atual, que poderia apreciar
historicismo, não parece necessário dizer celebrativa contida na nele não apenas a deliciosa ironia contra
que o ensaísta recusa a teoria da vene- poesia de Silva Alvarenga a neo-escolástica jesuítica, mas também
ração do passado e da tradição. Ao e Basílio da Gama o sugestivo encômio alegórico ao
contrário, empenha-se em criar categorias Marquês de Pombal, cuja política
substitutivas que incorporem e repre- colocava então a cultura lusitana em
sentem uma visão crítica da história. Em de entender a arte como reflexo ou como contato com o discurso ilustrado europeu.
lugar da veneração, propõe o sentimento produto condicionado por elementos O mesmo se pode dizer dos versos que
de maravilha (wonder), responsável pelo exteriores a ela, como fazem supor certas Basílio da Gama, mentor de Silva
desencadeamento do trabalho historio- aplicações do marxismo. Cumpre apenas Alvarenga na propagação do ideário
gráfico, que não deve apenas se dedicar à entendê-la como parte de discurso mais pombalino, escreveu para os festejos da
reconstrução da totalidade de culturas, amplo, para cuja compreensão é necessário inauguração da Estátua Eqüestre de D.
mas também se empenhar na análise da desintegrá-la do todo e, depois, em José I (1775), erigida por Pombal em
marginália dos processos unificadores, movimento heurístico, reintegrá-la ao homenagem ao rei. Os festejos dessa
como fragmentos de lendas, acusações de organismo de que é parte. inauguração incorporaram diversos
bruxaria, manuais médicos – pormenores Tome-se um exemplo da literatura em traços retóricos da alegoria poética, assim
simbólicos que, segundo Greenblatt, língua portuguesa. Como se sabe, como os textos celebrativos do evento se
revelam toda a estrutura imaginária e Manuel Inácio da Silva Alvarenga, autor apropriaram de outras tantas fórmulas
ideológica da sociedade que os produziu. de Glaura (1799), o mais prestigiado políticas do Antigo Regime. Dentre
Nesse sentido é que se deve entender a poema lírico do setecentismo brasileiro outras coisas, esse monumento repre-
reveladora afirmação de que uma peça de depois de Marília de Dirceu (1792), sentou a glorificação da carreira política

3 4 CULT - dezembro/98
B I B L I O G R A F I A

de Pombal, verdadeira apoteose em vida: relações entre arte e história, a crítica


na parte superior do monumento, acima tradicional fala em alusão, símbolo,
de tudo, com ares emblemáticos, vê-se a alegoria, representação e, sobretudo, em • “Towards a poetics of culture”, de
figura alegórica de um rei abstrato, mimesis. Considerando esses termos Stephen Greenblatt. Em The new
cavalgando um heráldico cavalo sem vida. insuficientes, Greenblatt proclama a historicism, editado por H. Aram
Em baixo, como suporte do conjunto em necessidade da criação de nova termi- Veeser. Nova York/Londres, Rou-
que se eleva o rei, ostenta-se o busto do nologia, capaz de descrever satisfato- tledge, 1989.
marquês, com traços singulares, estiliza- riamente a transferência da matéria de • “Resonance and wonder”, de
dos como retrato de Sebastião José de uma esfera discursiva para outra e, ao
Stephen Greenblatt. Em Literary
Carvalho e Melo. Enfim, o monumento mesmo tempo, capaz de explicar a
theory today, editado por Peter Collier
encarna a idéia de que Pombal era a base transformação do discurso histórico em
da sustentação política do Rei, noção que discurso estético. Qualquer que seja a e Helga Geyer-Ryan. Ithaca, Nova
se transformou em coisa retórica na arte saída, o ensaísta enfatiza que a trans- York, Cornell University Press, 1990.
do período. Homóloga à concepção ferência não se processa numa só direção, • “Introduction”, de H. Aram Veeser.
arquitetônica da Estátua Eqüestre, a porque o próprio discurso histórico já Em The new historicism, editado por
tópica de Pombal como base do poder traz em si inúmeras propriedades H. Aram Veeser. Nova York/Londres,
reitera-se em diversos momentos da estéticas. Rouledge, 1989.
poesia de Basílio da Gama, dos quais os Dentre as inúmeras contribuições do • “What is the new historicism?”, de
versos seguintes, extraídos de diferentes new historicism para o exercício profissional Ross C. Murfin. Em The dead, de James
poemas, podem servir de exemplo: da crítica, talvez a mais instigante (e útil) Joyce. Editado por Daniel R. Schwarz.
seja a ratificação da idéia do Belo como
Reconheço a JOSÉ. POMBAL eu vejo, Boston/Nova York, Bedford Books of
decorrência de convenções históricas.
Que a Coroa na testa lhe sustinha. St. Martin’s Press, 1994.
Subjaz à sua visão do fenômeno literário o
Reverente me inclino, e o Cetro beijo. • “New historicism”, de Charles E.
princípio de que a beleza ou a qualidade
• Bressler. Em Literary criticism: An
artística não decorrem da Graça nem
A mão, seguro arrimo da coroa, introduction to theory and practice.
exclusivamente do talento individual.
A mão que da ruína ergueu Lisboa.
Resultam, antes, da conformidade das Englewood Cliffs, Nova Jersey,
Assim, a produção de épocas passadas aspirações do artista com os padrões e com Prentice Hall, 1994.
só ganha sentido artístico no presente o repertório de sua época. Embora ele- • New historicism and cultural
quando posta em situação histórica, mentar, essa noção, que necessariamente materialism, de John Brannigan. Nova
quando entendida como projeção de uma implica a atenuação de certezas transcen- York, St. Martin’s Press, 1998.
cultura em ação, regida por traços dentes, não parece suficientemente acli-
• Meta-história: A imaginação histórica
específicos que devem ser arqueolo- matada nas manifestações diárias do debate
do século XIX, de Hayden White.
gicamente restaurados. Ao abordar as literário entre nós.
Tradução de José Laurêncio de Melo.
São Paulo, Edusp, 1995.
O filósofo • Trópicos do discurso, de Hayden White.
Divulgação

francês Michel Tradução de Alípio Corrêa de Franca


Foucault dá o Neto. São Paulo, Edusp, 1994.
nome de episteme • Possessões maravilhosas, de Stephen
à articulação Greenblatt. Tradução de Gilson César
das várias vozes Cardoso de Souza. São Paulo, Edusp,
que compõem 1996.
um imenso • A ordem do discurso, de Michel
discurso gerado Foucault. Tradução de Laura Fraga de
por determinado
Almeida Sampaio. São Paulo, Edições
recorte histórico
Loyola, 1996.

dezembro/98 - CULT 3 5
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○
POESIA

HONG-KONG e outros poemas ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Antônio Moura

dezembro/98 - CULT 3 7
OUTRA MANHÃ
Por detrás do verde monte
(não-verde-oliva
não-verde-musgo
verde-não-verde
não-verde-mar)
SABÁ
por detrás do verde monte Na noite surda de tambores
(não-verde-mata lambo nomes, lâmina e veludo,
ver de perto: entulho) iludido pelo sangue do amor
por detrás do verde-azinhavrado monte na rosa negra
de sucata, surge sujo
estrela de granito sobre a erva
banhado em ouro, grafitado
– cicatrizes, placas, logomarcas o sangue do amor ardendo negro
confusa cabala, restos de cartazes, ao sim sibilo espada adaga farpa
frases, chagas – crivado de balas rubra ao som do nome decepado
sábado na dança dos escravos
o
sol ao céu da noite surda de tambores

e ao fundo flores pelos no mênstruo sangue


canto imaginário do galo das possuídas, hidras entre as sombras LI SHANG YIN, LI-O
garganta crescendo, ao õ da onda, ronda dos E não a vi, não a vejo
jorrando demônios, domínios da noite hoje
do pescoço decepado
(gargalo) Raio parta o vento leste
ao esgoto escuro se não leste
o sangue isto: vento
reencarnado:
outra manhã no mundo casulo sonoro
desenclausurado
para teu olvido

À tua senda ainda há tempo?

Sedentos de poeira
os cadarços da partida

A revista CULT publica mensalmente a seção CRIAÇÃO – um espaço destinado a poemas, contos e textos literários
inéditos. Os originais – contendo no máximo 150 linhas de 70 caracteres – serão avaliados e selecionados
pela equipe da revista CULT. Os trabalhos e os dados biográficos do autor (incluindo endereço e telefone
para contato) podem ser enviados via e-mail ou pelo correio (nesse caso, os originais impressos devem
obrigatoriamente ser acompanhados pelo texto em disquete, gravado no formato Word). O endereço da revista
CULT é R u a R u i B a r b o s a , 7 0 , S ã o Pa u l o , S P, C E P 0 1 3 2 6 - 0 1 0 , e - m a i l : l e m o s p l @ n e t p o i n t . c o m . b r

3 8 CULT - dezembro/98
JULHO
nuvens
nuvens
nuvens

HONG-KONG rufando
Paira
sobre as cabeças branca pupila
uma alta quantia de estrelas
tambores brancos
Na terra – entrando –
olhos vendados velho varão, varando
onde se lê grafitado: à venda – fogo branco –

Sob a noite ostra


o céu
esticado cobrindo de fina camada branca
– tenda – a cama da branca
o burburinho-mercado ninfo-suicida
prega
(pregão) ornando
a milhõe$ (flores de gelo)
NUMA ESTAÇÃO DO de branco a branca
$
METRÔ, AROUND $ ante-sala da morte – a fria
1916 d.c., a aparição das $ fímbria dos dias
faces na multidão, pétalas $
num ramo escuro úmido, $ irmã de outro
dilata a pupila de Ezra, de planetas frio, de
enquanto outra turba dentro
(a mesma?) se despetala: – nuvens com etiquetas –
um tiro (a esmo) desfolha in
a bala a rosa da multidão, (o
numa estação do metrô, à noite pássaro
1998 d.c. o sol é ouro especulado alça
seu vôo
em br
asa)
verno

Antônio Moura
nasceu em Belém do Pará em 1963 e é autor do livro de poemas Dez,
publicado em 1996; como roteirista de cinema e vídeo trabalha atualmente
no projeto de um filme
de média metragem intitulado Benedito, baseado na biografia do filósofo
e crítico literário Benedito Nunes, com previsão de lançamento para 1999.

dezembro/98 - CULT 3 9
C I N E M A

Alves & Cia., texto S alvar as aparências, ainda mais inédita essa novela, escrita em 1883.
quando se trata de um marido traído, é a Coube a seu filho resgatá-la da famosa
coisa mais velha do mundo. A idéia de mala de ferro onde o autor guardava seus
póstumo de Eça de lavar a honra com sangue, então, é da originais, mandando-a publicar mais de
idade do homem, especialmente se o 40 anos depois, em 1925 – uma época
traidor é o melhor amigo. em que pareceu bem mais natural uma
Queiroz, ganha adaptação Admitir que sente saudade da mulher heroína vagamente pré-feminista como
ingrata, apesar de tudo, já requer um Ludovina.
para o cinema em filme esforço de modernidade de que o apertado
código moral do século XIX ainda não se
Tamanha é a universalidade das
emoções do triângulo amoroso desse livro
julgava capaz, muito menos no conser- que nada se estranha quando sua trama é
dirigido por Helvécio vador mundo ibérico. Mas foi justamente
o português Eça de Queiroz (1845-1900)
transposta de Portugal para o Brasil do
século XIX no filme Amor & Cia., de
quem fez uma curiosa demolição de alguns Helvécio Ratton, que em boa hora
Ratton, que transformou dos mais sagrados preceitos do machismo adaptou essa saborosa comédia de cos-
numa novela quase desconhecida do tumes.
público, Alves & Cia. Quase visionário, pois não conheceu
um triângulo amoroso Timidez não era coisa de Eça, que o cinema em seu tempo, Eça tece
escandalizou sentimentos mais deli- intuitivamente personagens e situações
cados com livros densos como O primo extremamente cinematográficas, transpa-
vivido em Portugal em Basílio, em que também abordou o rentes em suas ações e psicologia. Todo o
adultério e de maneira bem mais trabalho do diretor e do roteirista Carlos
uma saborosa comédia de implacável. E o que se dirá de Os Maias,
em que ele não vacila em retratar o
Alberto Ratton residiu em transformar
em diálogos os intensos pensamentos dos
incesto entre irmãos? Mas o fato é que, três protagonistas, Godofredo Alves
costumes passada no Brasil por motivos ignorados, Eça deixou (Marco Nanini), sua mulher, Ludovina

4 0 CULT - dezembro/98
Marco Nanini, entre
Patrícia Pillar e Alexandre Borges, O LIVRO
protagonistas de Alves & Cia.
Na foto da direita, o casal Alves,
Alves & Cia.
pivô da trama. Eça de Queiroz
Editora Imago
108 págs. – R$ 15,00

O FILME
Amor & Cia.
Direção de Helvécio Ratton
Com Marco Nanini,
Patrícia Pillar e
Alexandre Borges

triângulo à brasileira
(Patrícia Pillar), e o sócio e melhor amigo, um duelo. Um achado do roteiro está na hesitações dos personagens, especialmente
Machado (Alexandre Borges). invenção do personagem do farmacêutico do Alves, o centro da história. Mantém-
Vencendo o desafio de traduzir em Asprígio (Nelson Dantas), que discute se, assim, fidelidade à fina engenharia de
palavras a trama, o filme acerta em imitar as peculiaridades da situação, que Eça, que pouco a pouco desmonta a
o livro também na contenção: nem um finalmente horrorizam Alves. Depois de insinuação da tragédia.
nem outro contam tudo, deixando recomendar a distância entre os Quanto à conclusão, pode-se dizer
trabalho à imaginação do leitor/espec- oponentes de dois passos, “porque a dois que o filme, mais irônico, pede de
tador para complementar as lacunas. passos ninguém erra”, Asprígio tece empréstimo um certo clima de outro
Acompanha-se, em largas pinceladas, o considerações sobre a escolha das armas clássico da literatura, Dom Casmurro, de
flagrante de Alves na mulher, de mãos e os efeitos dos ferimentos. “Com espada, Machado de Assis, apenas tomando o
dadas com Machado em sua própria sala, há sempre risco de gangrena. À bala, o cuidado de evitar a amargura desta obra.
a fuga do sócio e a expulsão de Ludovina sujeito fica cego ou idiota”, esmera-se em Na tela, batiza-se um certo bebê a quem
para a casa do pai, o sr. Neto (Rogério detalhes o cruel conselheiro. o escritor português optou por fazer
Cardoso). Desnecessário dizer que o tom de apenas uma vaga menção, deixando-o de
Na figura desse pai, mais delineada no farsa que conduz a narrativa não lado sem decifrar-lhe a história.
filme que no texto, concentra-se um permitirá uma solução assim levada às Finalmente, não será pouco se Amor
modelo de pragmatismo burguês. Acima últimas conseqüências. O medo da & Cia. levar mais leitores à descoberta
das filigranas da sensibilidade moral, Neto maledicência, a vontade de conservar a desse texto saboroso e curto de um dos
procura Alves antes de tudo para arrancar- lucrativa firma de exportação em que maiores escritores da língua por-
lhe uma pensão que lhe permita sustentar os rivais são sócios e, finalmente, a falta tuguesa. Apesar dos mais de cem anos
a filha devolvida a seus cuidados. De terrível que Alves sente da mulher que os separam, livro e filme dialogam
quebra, a renda extra garante bem-vindas abrem as portas para uma saída de modo tão harmonioso que se pode
férias na praia a Neto e sua amante e ex- negociada. falar numa verdadeira parceria a dis-
escrava (Sônia Siqueira). O filme é feliz em sustentar o tom de tância.
Livro e filme depositam seu centro ironia do livro, que permite um risinho Neusa Barbosa
dramático num impasse: a realização de contido no canto da boca diante das jornalista e crítica de cinema

dezembro/98 - CULT 4 1
AS LITANIAS Os úberes do infinito, livro do poeta Roldan-Roldan, realiza
POESIA

um cruzamento panteísta do erotismo com o sagrado


DO GOZO Augusto Contador Borges

Lygia Néry
Os úberes do infinito
Editora Komedi
R. Roldan-Roldan
112 págs. – R$ 15,00
A poesia de R. Roldan-Roldan ressalta-se este, o prazer textual não possui “zonas Na Antiguidade, a sensualidade não chegou
por uma ardorosa exigência: encontrar (ou res- erógenas” à maneira de um corpo, mas produz- a configurar-se em topos, em gênero literário,
gatar) na relação erótica com a língua portu- se por um jogo de aparição-desaparição do como o amor e sua renúncia. Atenta aos artifícios
guesa (idioma de chegada do autor e não de sentido, a intermitência. Por analogia, é o que da persuasão, a retórica se ocupou mais com as
origem) sua singularidade. ocorre quando, por exemplo, a blusa da colegial modulações da voz e seus efeitos, que poderíamos
Homo viator ou andarilho que incorporou à sobe e seu umbigo reluz na pele bronzeada. O traduzir modernamente por técnicas de sedução.
obra sua própria condição de “errante”, Roldan efeito dura enquanto o movimento persiste. É Mas Santo Agostinho, nos primeiros séculos
nasceu na Europa e passou a infância em Tân- uma espécie de “satori” da sensualidade. Certos da era cristã, alertou para o perigo que chamou
ger, cidade onde o Mediterrâneo e o Atlântico textos cintilam, tornando-se de certo modo de “voluptuosidade destes olhos da minha
se encontram e que acolheu tantos artistas e sensuais, eróticos. Mas o fato de terem sido carne”. Os olhos que amam a beleza e a varie-
escritores como Delacroix, Bowles, Genet, produzidos no prazer não garante o prazer da dade das formas, enfim, que se deleitam com as
Beckett. leitura. O que para Barthes parece ser eficaz imagens sensuais da beleza. A questão de Agos-
Literatura, errância, o outro. Lembremos como motor do prazer textual é a “significância”, tinho é se os atrativos da beleza não acor-
que antes mesmo de Rimbaud, Nerval empre- o sentido produzido sensualmente. O prazer do rentariam a alma, interferindo no canal que a
endera uma viagem ao Oriente para encontrar- texto é, assim, uma questão de forma e efeito. leva a Deus.
se no outro. “Eu sou o Outro”, escreveu numa Se o eu lírico perdeu a fixidez, tornando-se Bem mais tarde, no século XVI, o místico
fotografia sua, prenunciando a célebre fórmula um efeito de linguagem na poesia moderna, a espanhol São João da Cruz, a exemplo de outros
do enfant terrible da literatura francesa. Afinal, a malha desse jogo de esconde-esconde, a poesia, religiosos, faria da poesia uma forma de devoção
identidade (ou sua falta), esta obsessão de constitui-se ela própria num espaço de sedução a Deus. Tal panteísmo também está presente
Roldan-Roldan, nada mais é do que uma fusão para o olhar que, sensualmente, vai preenchendo na obra de Roldan-Roldan, cuja poesia exibe
de diferenças, e o sujeito, que a sintetiza, a as lacunas do sentido. Cada poeta imprime neste seu desconforto com as coisas de nossa era desti-
presença oscilante de seus efeitos: “dissipo-me/ espaço seu próprio movimento. Nasce disso a tuída do sagrado, vale dizer, do erotismo ritua-
humilde/ ínfimo/ feto/ pó”, lê-se em Os úberes singularidade de cada um. lístico que, em essência, como bem demonstrou
do infinito. Atuando sob o regime textual da inter- Bataille, não se distingue da Religião. Na poesia
Em outro momento, o sujeito poético se mitência, Roldan-Roldan se faz valer de um dos sufis persas, as imagens mais lascivas, as
nomeia “nas intermitências dos reflexos” e nos cruzamento do erotismo com o sagrado. Seus expressões mais ardentes da paixão física servem
“arabescos marinhos”. Estes últimos já con- poemas, que têm a forma de uma oração, protes- para lembrar os júbilos, os êxtases da alma em
figuram certa ilegibilidade algo emblemática tam contra o nosso tempo e sua lógica e assim sua comunhão com Deus.
na junção das formas; simulam, pois, um con- contra a lei cartesiana da medida e da ordem, Se Roldan-Roldan produz textos que
junto amorfo de traços obscuros (a natureza como expressa na paráfrase “rebelo-me logo buscam dar visibilidade ao gozo, que, nas
dos rabiscos), sorte de torções sem mira, a ges- existo”. Nesse espaço esvaziado da religião, da palavras do psicanalista Jacques Lacan, é aquilo
tualidade pura ainda não decidida pelo sentido ética, da beleza, o autor sinaliza com uma poética que não pode ser dito, nos revela, a despeito,
(ou temendo seu risco), que visa a si mesma: em cujo centro está a celebração do gozo e a nas litanias de Os úberes do infinito, algo a seu
livre fluir, impulso, corpo. Os arabescos do poe- exigência de que um poema só deve ser tratado respeito: que ele, gozo, nunca se faz presente
ma ainda participam da água e de seu símbolo; como corpo. sem a sua contrapartida imediata, a perda (sua
são como espuma, este signo natural do mar Quanto ao erotismo das palavras, poder- face dolorosa), e que sua celebração não se
salino (seu excesso), cuja finalidade última é se-ia perguntar a partir de quando a Literatura completa sem o sacrifício de pequenas e
desmanchar-se livremente pelos séculos. se tornou consciente de sua sensualidade. Não imprescindíveis mortes.
O sujeito dá sinais flagrantes de vida... e me refiro, é claro, aos textos de representação
desaparece. Seu regime é o da “intermitência”, que põem em cena o erotismo; estes, como
Augusto Contador Borges
que aliás define a sensualidade da linguagem e o observou Roland Barthes, são textos do desejo, poeta, ensaísta e tradutor, autor de
prazer do texto, segundo Roland Barthes. Para da “expectativa”, não do Prazer. Angelolatria (poemas, editora Iluminuras)

4 2 CULT - dezembro/98
Life, death, memory,
obra do fotógrafo
Eugene Zakusilo

et
es udoss c
cul u a ss
t r i
u
sérgio medeiros

politeísmo crítico
Os estudos culturais são a tendência mais forte da crítica literária
contemporânea, questionando os critérios unívocos de abordagem do artefato
“literário” em nome de uma multiplicidade de paradigmas críticos,
caracterizados pelo diálogo com diversas áreas das ciências humanas e pela
valorização da voz dos excluídos e das minorias políticas. Leia neste “Dossiê”
uma seleção de textos apresentados no último congresso da Abralic, evento
que reuniu no Brasil alguns dos maiores nomes da crítica internacional.

Q uem ousará afirmar, hoje, o que é literatura e o que não é textos entre si, considerados literários ou não, percebe-se, segundo
literatura? Instigados por esse desafio, mais de 1.300 professores, Todorov, que determinado tipo de poema, o lírico, e uma prece,
pesquisadores e estudantes universitários se reuniram em por exemplo, obedecem a regras comuns, ao passo que isso não
Florianópolis (SC), no último mês de agosto, para debater os se verifica quando colocamos o mesmo poema ao lado de um
rumos da crítica e dos estudos literários no país durante o VI romance histórico como Guerra e paz, de Leon Tolstói. Em outras
Congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura palavras, todo texto “literário” possui parentes “não-literários”
Comparada). Teóricos importantes do Brasil, como Silviano que lhe são mais próximos do que os outros textos do cânone.
Santiago e Roberto Schwartz, e estudiosos estrangeiros de Essa constatação não é original, evidentemente: basta citar um
renome, como Susan Buck-Morss e Marjorie Perloff, crítico como Northrop Frye, para quem o “nosso universo literário
participaram desse evento que se prolongou por quatro dias e se desenvolveu num universo verbal”, o que, todavia, o estudioso
contou com 800 expositores. da literatura muitas vezes prefere ignorar, fascinado apenas pela
As discussões nem sempre foram pacíficas. O próprio tema ponta do iceberg, que passa a ser considerado o único “objeto”
do congresso, com seu caráter interrogativo – “Literatura dos estudos literários.
Comparada=Estudos Culturais?” –, ensejava desde o início o A partir dos anos 80, substituiu-se progressivamente a busca
debate acalorado. Convém recordar alguns fatos, que talvez de um critério único, ou interno, para definir o artefato “literário”,
ajudem a situar melhor os estudos literários no seu “contexto por uma multiplicação de paradigmas críticos. O objeto “literário”
atual”. Os estudos estruturalistas, nos anos 60, devotaram-se, na deixou de ser um todo homogêneo (algo que se pudesse definir
França e alhures, à busca de um possível critério interno para previamente de uma maneira inequívoca), e o universo verbal
definir o artefato literário. Em nome da “literariedade”, isto é, pôde assim entrar em cena nos departamentos de letras das
da “essência” da literatura, os estudiosos se dedicaram ao universidades, sobretudo das norte-americanas, exigindo novas
levantamento e à descrição dos procedimentos formais que posturas, novos saberes, novas competências dos professores e
comprovassem a especificidade das obras do cânone ocidental. pesquisadores.
Nos anos 70, Tzvetan Todorov, já nessa época um ex- Deu-se ouvido ao ensinamento de Jacques Derrida, que desde
estruturalista, fez um balanço das conquistas da década anterior, os anos 60 vinha visitando regularmente os Estados Unidos para
que aplicara ao estudo dos objetos artísticos uma “abordagem discutir os fundamentos metafísicos do estruturalismo literário e
científica”, e anunciou que a oposição até então aceita (ou antropológico: “Um mesmo enunciado pode ser aqui considerado
pressuposta) entre o texto literário e o texto não-literário deveria literário, em dada situação ou convenção, e lá como não-literário.
ser substituída por uma tipologia dos discursos. É que o signo da literariedade não é uma propriedade intrínseca
A legitimidade dessa posição repousava inicialmente num deste ou daquele evento literário.”. Contudo, esse mesmo teórico
procedimento muito simples: quando se comparam diferentes também alertou: “... às vezes é difícil discernir um texto filosófico

44 CULT - dezembro/98
Imagem do italiano
Ferdinando Scianna que
faz parte do livro Walls
(edições Pierre Terrail,
Paris), com trabalhos de
fotógrafos da agência
Magnum que exploram
o tema das fronteiras
entre culturas

de um texto poético ou literário. Mas, para evitar mal-entendidos, empregarei as locuções “politeístas literários” e “monoteístas
eu creio que em situações contextuais claras não apenas se pode literários”. Os primeiros lêem e produzem a literatura (hoje, no
mas se deve discernir um discurso filosófico de um discurso ensaio criativo, o crítico se revela também escritor) a partir de
poético ou de um discurso literário; aliás, temos à nossa disposição parâmetros diversificados, geralmente locais, étnicos, políticos
grandes recursos críticos, grandes aparelhos criteriológicos para (eles não fingem ignorar o fato de que no Brasil, por exemplo,
distinguir um discurso do outro.” além do português, são também falados o iorubá e 180 idiomas
Para poder lidar com o “universo verbal”, essa proliferação indígenas); os segundos aferram-se ainda ao critério único,
vertiginosa de mensagens que circundam, contaminam, considerado talvez atemporal, eterno, absoluto. Sobre estes, creio
enriquecem e subvertem o antigo artefato “literário” (a ponta do não ter no momento algo novo a dizer. No que se refere aos
iceberg), o estudioso da literatura estreitou o diálogo com as outras “politeístas”, gostaria de mencionar que, entre outras posturas
áreas das ciências humanas (filosofia, história, antropologia, moderadas e extremadas, adotam às vezes atitudes que podem
sociologia etc.), um procedimento que parece caracterizar certa espantar o estudante incauto. A dos pós-ocidentalistas, por
linha de estudos que, a partir dos anos 80, vem se disseminando exemplo, que são teóricos e críticos que não estão mais
pelas Américas sob a denominação de estudos culturais. “O mérito preocupados com a densidade das produções artísticas, mas com
dos estudos culturais é articular as várias áreas do saber”, a diversidade da enunciação: voz dos excluídos e das minorias.
explicou-me o professor Raúl Antelo, presidente da Abralic “Para os que compartilham esse ponto de vista”, esclareceu-me
durante o biênio 96-98. “Uma das conseqüências disso são os Raúl Antelo, “o que legitima o discurso é o lugar da enunciação.
ensaios de crítica híbrida, de crítica criativa. Outra conseqüência Mas a lógica da enunciação é diabólica – uma minoria sempre
é o diálogo entre as várias tendências críticas latino-americanas, surge dentro da minoria e fica, ou considera-se, desatendida...”.
e posso dizer que a abertura para a América Latina por meio da Sem pretender exaurir o assunto “estudos culturais”,
presença no VI Congresso de pesquisadores argentinos de peso, oferecemos a seguir alguns textos lidos em Florianópolis durante
como Beatriz Sarlo, além de outros chilenos e venezuelanos, foi o VI Congresso da Abralic, textos que podem colocar o leitor em
a marca do atual debate, que de maneira alguma significou contato com o debate contemporâneo em torno dos estudos
simples adesão à onda dos estudos culturais nos Estados Unidos.” literários e da literatura comparada, a partir de uma perspectiva
Talvez, numa tentativa de síntese provisória ou precária que, se não é assumidamente culturalista, mostra-se, no entanto,
(atualmente, sabemos o quanto é suspeita qualquer tentativa de simpática aos “ideais” dos estudos culturais.
síntese), ousaria dizer que, no horizonte dos estudos literários
atuais, convivem duas tendências principais (pela sua força Sérgio Medeiros
tradutor professor de literatura na Universidade Federal de Santa Catarina
ideológica): para evitar a fácil oposição entre progressistas e As comunicações apresentadas durante o VI Congresso da Abralic estarão disponíveis em CD-ROM
retrógrados (que a esta altura da história esclarece pouca coisa), e livros a partir de março do ano que vem.

dezembro/98 - CULT 45
raúl antelo*

gue ra c ltura
r u l
A reorganização do mapa geopolítico pós-Guerra Fria acarreta uma nova ordem
nos estudos literários que, influenciada pelas correntes pós-estruturalistas, torna
insustentável a oposição entre alta e baixa cultura e substitui a reivindicação
modernista de diversidade cultural, de fundo nacional-populista, pela postulação
pós-modernista de diferença cultural, de extração pós-colonial ou global

No decorrer do último meio século, aprofundar a percepção e aguçar a


sensibilidade. Uma vez alcançado, porém,
Blanqui ou Wilde foram confinados a uma
cela e Maiakóvski ou Benjamin encon-
o modelo dos estudos literários descansou
na oposição entre o cânone e seu outro, a o conceito de universal muda constante e traram a via ao exterior no suicídio? Con-
cultura popular. O dictum de um crítico conseqüentemente. A estética dadá se trária à economia do dom, heterogênea,
de arte, Clement Greenberg, pode aliás assumirá como detentora de muitas desvenda-se pelo contrário, em todos esses
sintetizá-lo: vanguarda ou kitsch? Porém, nacionalidades/racionalidades imultâneas, casos, como pano de fundo, a sociedade
as guerras teóricas dos anos 80 mudaram ao passo que o surrealismo associará suas homogênea, de intercâmbio e acumulação,
radicalmente o panorama. Com as abor- intervenções ora ao universal particu- para a qual toda a heterogeneidade se
dagens desconstrutivas e pós-estruturais, larizado (o stalinismo) ora ao universal em transforma em subversão.
isto é, com o tópico da “morte da lite- transformação constante (a revolução Tais princípios de heterogeneidade
ratura”, as oposições entre alta e baixa permanente). arrancam a arte do isolamento autocon-
cultura, ruptura e permanência, centro e Após as análises frankfurtianas sobre fiante e da satisfação indulgente. A
periferia tornaram-se insustentáveis. As a dialética da modernidade, compreende- literatura não é, sob essa perspectiva, ou
guerras teóricas recentes mostram que, em se melhor até mesmo aquilo que Adorno melhor, não pode ser uma reles carta de
última análise, a literatura comparada ou Horkheimer teriam dificuldade em burguesia ou distinção. A literatura situa-
fornece teorias da guerra e que, ao mudar aceitar, isto é, que um saber sem ilusão é se, portanto, para além de uma simples
o cenário e o objeto das lutas (não mais o uma pura ilusão e que não existe mito recondução, populista e redistributiva, dos
indivíduo, não mais o valor, não mais a puro, como nos diz aliás Michel Serres, a bens simbólicos, mas, ao mesmo tempo,
disciplina, não mais a nação), o específico não ser o saber puro de todo o mito. posta-se ainda para além do refúgio onde
da literatura comparada deve sua pas- Fundem-se aí, em conseqüência, a poesia se acoberta e monopoliza toda a distinção
sagem ao ato, sua dissolução, sua trans- e o mito, o cânone e seu outro, dimensões social.
gressão, seu movimento ao exterior de si. que, para serem analisadas, passam a Sabemos que, como toda disciplina, a
Não é fortuito que comparativismo e requerer novos conceitos operacionais, tais literatura comparada depende, visceral-
guerra se vejam assim associados. A como, o sagrado e o profano, o hetero- mente, do desenvolvimento de lutas mais
dimensão universal, central ao compa- gêneo e o homogêneo. amplas; daí que o fim da Guerra Fria tenha
rativismo, só se consolida, de fato, manu Diríamos, então, que aquilo se apresenta ferido seu estatuto universalista e afete, em
militari, no início do século XX. Sobre esse irredutível a toda assimilação e detentor, conseqüência, o estudo da arte e da
tópico Edward Said escreveu um clássico: portanto, de algum tipo de aura (o assassino, literatura. A pax americana desta última
Cultura e imperialismo. Porém, esse o louco, o poeta maldito) define-se como década apresenta-nos, com efeito, um
movimento de reorganização dos mapas heterogêneo. Narra-se nas vidas infames de novo avatar da guerra: a luta por mega-
geopolíticos e acadêmicos trouxe consigo Foucault e pratica-se para além dos marcos fusões. Não seria, aliás, o pluralismo
uma nova definição do próprio objeto. A da profissão e da disciplina. Por que, afinal acadêmico um sintoma particular de
arte passou a perseguir uma beleza de de contas, deveríamos ser probos se Marx megafusão disciplinar? É provável. Mas
choque, convulsiva, que, não raro, se viveu de bolsas, Nietzsche ou Kierkegaard para que melhor se entenda o que quero
apropria de elementos primitivos para se recusaram a atender ao bem comum, dizer, permitam-me esquematizar o

46 CULT - dezembro/98
Clement Greenberg Edward Said Theodor Adorno

processo de fusões a que, na falta de diferencial da guerra nômade. Trata-se, turalismo desconstrutor, promovendo a
melhor rótulo, chamamos modernidade. com efeito, da passagem do mercado de semiose ilimitada, a função leitor e uma
Tomando nossa região como contexto, bens para o mercado de capitais. Como a autonomia radical da leitura. Porém,
creio poder aventar uma primeira onda de renda dos investimentos produtivos a permaneceu a atitude anti-, o que pres-
luta e guerra, a do Paraguai, que, em cada longo prazo é menor que o lucro que se supõe sempre o dilema, a duplicidade,
tradição nacional envolvida, profissionaliza obtém com as aplicações a curto prazo, a quando não o sistema. Talvez a mudança
os exércitos e politiza as forças armadas, própria fusão estratégica do capital mais espetacular que vem se operando em
cunhando até o gentílico regional deste monetário aparece agora subordinada à nossa disciplina seja a de modificarem as
Estado que hoje os acolhe: barriga-verde. fusão estratégica do capital fictício. A estratégias de guerra.
A ela se segue uma segunda guerra ou poesia e o mito são, como sabemos, a chave A alta modernidade construiu, eufó-
onda de modernização, protagonizada dos príncipes da moeda e suas engenharias rica, sólidas equações guerreiras, contidas,
dessa vez pelo capitão de indústrias que geopolíticas. entretanto, em um campo específico, o que
capitaliza para si, dissolvendo-a, a socie- A poesia, disse-nos Mallarmé, remu- tornava a luta uma espécie de torneio ou
dade produzida pela onda precedente. A nera os defeitos das línguas. Na guerra cerimonial, uma festa, enfim. A baixa
primeira onda guerreira declara uma disciplinar em curso, um mero avatar da modernidade, por sua vez, não apenas
tríplice aliança, uma lei comum para os guerra simbólica contemporânea, a cansada, mas radicalmente exausta de sua
países da região. A guerra posterior, de literatura comparada visa remunerar os própria construção, defende a igualdade
modernização industrial, cinde-os e em defeitos das particularidades. Para tanto, de todos perante as normas ao preço de
conseqüência os separa, estimulando a busca ir além do particular, regional ou transformar a luta em confrontos cons-
concorrência entre si, porém eufemizando nacional, tendo que lutar agora com a tantes e contínuos, choques mortíferos de
também a acumulação e, para tanto, lança emergência de novos saberes, via de economia generalizada e disseminação
mão do perigo externo e de todos os regra, comprometidos com o inves- proliferante, que apagam as fronteiras
fantasmas do contágio por contato. É a timento a curto prazo, empenhados eles entre o positivo e o negativo, o puro e o
dilemática guerra antropofágica (tupy or mesmos em ultrapassar o próprio con- impuro.
not tupy) degradada, muitas vezes, a clichê ceito de universal. São os estudos da Certamente não é um consolo, mas a
eufórico: o de que todo modernismo é, por cultura, já praticados na Inglaterra pau- situação contemporânea, salvo melhor juízo,
força, nacionalismo quando não prote- perizada pelo fim do colonialismo, mas já não se ajusta ao dilema; ela não deixa de
cionismo. globalizados, irreversivelmente, pela desdobrar inesperadas variações da situação
O período pós-ditadura, no entanto, nova ordem mundial. precedente. Não é essa, por acaso, uma
simula ter ultrapassado esses conflitos, Para muitos de nós, a luta antitra- estratégia comparatista radicalizada até o
harmonizados agora sob uma espécie dicionalista dos anos 70 traduziu-se na ponto de não mais a reconhecermos como
peculiar de pax latino-americana, o regime premissa anti-racionalista, para não dizer familiar a nossas práticas? Não essa,
de intercâmbios do Mercosul. É neces- antiteológica, da intenção do autor. Para precisamente, a fortuna atual de um debate
sário, porém, mais do que nunca, inter- criticá-la e ultrapassá-la, atravessamos o fundador como o de Picard/Barthes? A
pretar esse período como modulação estruturalismo dogmático e o pós-estru- entrada do modelo lingüístico estruturalista

dezembro/98 - CULT 47
abriu, de fato, a porta a novos e incessantes indecibilidade que legitima o caráter interior dos estudos culturais os processos
desvios do modelo eugenicamente literário democrático infinito. de significação por meio dos quais as
defendido por Picard e fundado em Se, no tocante a questões estéticas, um camadas culturais tendem a se diferenciar
“l’intention claire et lucide” do texto original. julgamento de valor se quer não-ambíguo entre si e na era da modernidade-mundo e
Mas se hoje, a distância, podemos ver em é porque, conjuntamente ao juízo estético, do internacional-popular. Enquanto a
Barthes o partisão de um recepcionismo à ele aplica algum princípio normativo, diversidade cultural legitima enunciados, a
outrance, não é menos válido reconhecer, na impossível de ser fornecido pela noção diferença cultural discrimina enunciações.
retomada desse debate, um curioso retour à pluralista de tolerância, princípio este que Tributária, em conseqüência, do conceito
l’ordre que nos clona um Barthes cada vez nos permitiria discriminar o que deve do letrado, urbano, funcionalista e, em última
mais parecido com Picard, e, portanto, que não deve ser aceito. Se essa norma análise, dicotomicamente nacionalista de
expurgado de sua primitiva crítica cul- existisse universalmente e, mais do que cultura, a tese racionalista da diversidade,
turalista. isso, se fosse pacificamente aceita, estaria longe de fundar a tolerância ou o progres-
Conquanto estejamos num congresso resolvido nosso problema e poderíamos sismo pluralista da nação moderna, dissolve,
que articula a literatura a instâncias ético- voltar felizes para casa. Entretanto, o belicamente, o significado desses conceitos,
políticas, as dos estudos culturais, é bom julgamento transcendentalista não pode ser porque, se aquilo que aceito se identifica
frisar que, para a atual gestão da Abralic, bem-sucedido já que, se ele for capaz de àquilo que moralmente aprovo, não estou
o ético-político não é um momento ins- traçar uma fronteira inequívoca entre o tolerando, a rigor, coisa alguma. Quando
tituinte do social. Admitimos, com efeito, canônico e o anticanônico, é porque, muito, estou redefinindo os limites de uma
uma evidente expansão do político às previamente, identificou essa fronteira porção perfeitamente intolerante, além de
custas do social, porém admitimos tam- com uma outra, inconfessa quando não imaginariamente narcísica, que rebaixa a
bém que essa politização, na medida em inconfessável, que separa o (eticamente) contingência imanente da instituição à
que implica a produção contingente do aceitável e o (eticamente) repudiável, em espontaneidade transcendente de uma
vínculo social, aponta sempre para um outras palavras, uma fronteira que hierar- intuição.
descentramento da sociedade em relação quiza instituição alta e baixa. No que tange à questão estética,
a si própria, donde aquilo que torna É pertinente, portanto, discriminar a portanto, cabe então dissociar o julga-
possível a literatura e a política (a auto- reivindicação modernista de diversidade mento de valor de toda premissa ética,
nomia e contingência dos atos de insti- cultural, de fundo nacional-populista, da em virtude da necessidade de uma
tuição) é aquilo mesmo que as torna, postulação pós-modernista de diferença sociedade funcionar de acordo com um
simultaneamente, impossíveis. cultural, de extração pós-colonial ou global. grau relativo de diferenciação interna
É evidente que definir uma possi- A diversidade é uma categoria da para, precisamente, preservar o espírito
bilidade em termos de sua impossibilidade literatura comparada que, no Brasil, democrático.
constitui heresia heterodoxa para toda compreende um arco que vai de Gilberto Não devemos esquecer que uma
perspectiva transcendentalista, mas o fato Freyre a Oswald de Andrade, incluindo, sociedade que tentasse intransigentemente
é que o ato institucional falta sempre em obviamente os sucessores como Darcy impor uma concepção unívoca e estrita do
seu lugar e é essa característica de Ribeiro. A diferença, entretanto, analisa no bem estaria, constantemente, à beira da

48 CULT - dezembro/98
Arquivo do Estado/Acervo Última Hora

Arquivo do Estado/Acervo Última Hora


Walter Benjamin Gilberto Freyre Oswald de Andrade

guerra. Mas, por esse mesmo motivo, a correspondência entre um sujeito trans- culturas altas e populares quanto as não-
saída não é o laissez-faire. A tolerância não cendental e algo exterior a si, mas uma Ocidentais; entre as produções culturais
pode ser irrestrita já que a intolerância forma irresponsável, que não responde anteriores e posteriores ao contato de
funciona como condição de possibilidade nem corresponde aos imperativos de populações colonizadas; entre construções
e, ao mesmo tempo, de impossibilidade da identificação, isto é, uma forma em que o de gênero definidas como femininas e
própria tolerância. É redutor, portanto, outro ainda permanece inapropriável e aquelas definidas como masculinas ou entre
fazer a instância de avaliação descansar em esquivo aos mecanismos identificatórios. orientações sexuais definidas como normais
modelos concretos, tidos como represen- Os bárbaros apostamos no caos porque e essas outras definidas como gay; entre
tantes da alta literatura. O valor que eles ele é, ao mesmo tempo, um risco e uma modelos raciais e étnicos de significação;
encerram é antes um ponto vertiginoso, chance, um fim, porém, também um entre articulações hermenêuticas de sentido
acéfalo e vazio, fruto de uma decisão que início, em outras palavras, um “grande e análises materialistas de seus modos de
mais se parece com a loucura do que com uivo eterno” em que se mesclam, de produção e circulação; e muito mais.”
o bom senso, que é secreta sem ser privada, maneira indecidível, o possível e o Nessa heteróclita relação, como na
que é irredutível ao espaço público e à impossível. Os bárbaros também temos enciclopédia chinesa de Borges, o que
publicidade mas, contudo, abre-se cons- nosso Mallarmé, aquele do leito terminal espanta não é a extravagância de certas
tantemente à possibilidade da politização que, diante das janelas e antes de proximidades, mas a impossibilidade de
como promessa irrealizável no devir. Duchamp, deseja que la vitre soit l’art, soit um espaço onde essas variedades possam
Quando, em 1936, já se discutia, no la mysticité porque seu objetivo, não ser próximas umas das outras. É o
Brasil, a força do projeto moderno e o necessariamente pós-utópico, é d’enfoncer próprio espaço comum do debate, o espaço
limite dos campos da literatura e a le cristal par le monstre insulté/ Et de s’enfuir literário, que sai arruinado, e não apenas
sociologia, uma crítica, uma mulher, se avec mes deux ailes sans plume/ au risque de a incongruência da própria enumeração,
perguntava se não se teria ido longe demais tomber pendant l’eternité. tão impossível quanto infinita. Esse
na revolta vanguardista, recomendando Não há, certamente, em nossa área espaço literário revela ser não mais um
que, entre a atitude hierática e o relaxa- tarefa mais árdua do que definir em que instrumento dócil aos projetos hu-
mento, devia haver um meio-termo. “O consiste a operação de comparar e foi, manistas, mas um espaço vazio e incon-
caos pode ser um início ou um fim”, dizia justamente, com vistas a parar com a trolável por definição, em que a expe-
Lúcia Miguel Pereira. Hoje, entretanto, confusão disciplinar que o Relatório riência literária exibe sua realidade
no retorno feminino desse mesmo con- Bernheimer ensaiou uma definição inde- inobjetiva ou, para dizê-lo com Foucault,
selho, cabe resgatar o caos fecundo de finitória: “un écart plutôt qu’un repli, une dispersion
outra mulher, Clarice Lispector, e argu- “O espaço da comparação envolve plutôt qu’un retour”.
mentar que a conversão e a institu- atualmente comparações entre as produções
Raúl Antelo
cionalização são apenas momentos de artísticas normalmente estudadas por ensaísta e professor de literatura brasileira na
estabilização de algo confuso e caótico, diferentes disciplinas; entre várias cons- Universidade Federal de Santa Catarina,

donde o próprio da literatura não é a truções culturais dessas disciplinas; entre presidente da Abralic durante o biênio 1996-98

responsabilidade da forma, no sentido de tradições culturais ocidentais; tanto as * TTexto


exto extraído do discurso de abertura do VI Congresso da Abralic

dezembro/98 - CULT 49
régis bonvicino
entrevista

o efeit multicultural o
A ensaísta norte-americana Marjorie Perloff critica a hegemonia
dos estudos culturais e afirma que, nos EUA, o multiculturalismo
reduziu o interesse do público pela poesia de outros países

M arjorie Perloff, um dos nomes nativa interessante. Nos Estados Unidos, pautar a arte. O multiculturalismo exerceu
mais importantes da crítica norte- as coisas não avançaram justamente por um efeito terrível sobre nossa poética. Se
americana contemporânea, é uma voz falta de uma base marxista. Os estudos não se pode criticar um poeta afro-
discordante dentro da atual voga dos culturais pressupõem, mesmo que não americano ou latino, tampouco se pode
estudos culturais. Autora de O momento explicitamente, que um dado poema ou criticar um poeta branco, e isso elimina a
futurista (publicado no Brasil pela Edusp) romance é sintoma de uma formação possibilidade de um debate consistente. A
e do recente Wittgenstein’s ladder, esteve no econômica, social e cultural específica, e idéia de que se deve sempre ter um
Brasil para o congresso da Abralic e os pesquisadores se atêm a características representante de cada extrato racial e/ou
concedeu a seguinte entrevista ao poeta e gerais em detrimento do trabalho social – um latino, um índio (ou americano
tradutor Régis Bonvicino. individual. Nesse caso, como já afirmou nativo), uma afro-americana, uma lésbica
• John Guillory, os estudos culturais podem sino-americana – foi por demais
CULT Você poderia falar um pouco sobre prescindir da literatura e concentrar sua destrutiva. Não que não haja excelentes
estudos culturais e poesia, no cenário atual? atenção em Madonna, revistas em poetas nessas minorias. Mas não se pode
Marjorie Perloff A área de “estudos quadrinhos e shopping centers. A forçar o interesse. Além disso, o
culturais” anda em baixa nos Estados literatura fica para trás. A maioria dos multiculturalismo teve um efeito ruim
Unidos. Um centro que trabalhou acadêmicos americanos enxergou isso e também sobre o multinacionalismo - ou
seriamente com esse assunto foi a Stuart tenta, agora, um retorno à literatura. seja, nos Estados Unidos, o interesse pela
Hall School, em Birmingham, na Quem é que quer estudar apenas poesia de outro país é muito reduzido. Não
Inglaterra. São marxistas e estudaram em sociologia? se falam outras línguas e o termo “poesia
detalhes o fenômeno da cultura popular. CULT Existem vínculos, para você, entre estrangeira” é algo dúbio. Espero poder
Na Grã-Bretanha, o trabalho deles ganhou arte e política? corrigir isso de alguma maneira!
ares revolucionários, porque os M.P. Toda forma de afirmação artística CULT A poesia tem futuro num mundo
departamentos de inglês das universidades tem algo de político. Acredito haver uma mercantilizado?
estudam apenas as obras do cânone, e os relação próxima entre arte e política, mas M.P. Mas é claro! A crítica prevê a morte
estudos culturais ofereciam uma alter- isso não significa que essa relação deva da poesia há cem anos, mas ela nunca

50 CULT - dezembro/98
Vidal Cavalcante/AE
Marjorie Perloff

morre, apenas se altera. A poesia como mas a longo prazo isso não será tão Messerli; The Norton anthology of postmodern
arte da linguagem é fundamental, porque importante. poetry, de Paul Hoover e a nova – e extensa
serve de instrumento para se avaliar a CULT Nesses círculos poéticos, quais são – antologia de “poesia inovadora feita por
ordem social. A linguagem que ouvimos as diferenças entre poesia conservadora e mulheres”, organizada por Margy Sloan.
a nossa volta está adulterada, recheada experimental? São todos livros enormes. Pensando bem,
de clichês. A poesia é necessária para M.P. Isso nos leva a uma outra questão. o grande problema da cena poética atual é
podermos reavivar nossa capacidade de A poesia “conservadora” nos Estados sua própria megalomania. Para que
pensar e de produzir sentidos! E há muita Unidos é escrita em versos livres, com produzir volumes tão grandes? Quantos
coisa interessante acontecendo em poesia. divisões de estrofe aparentemente ótimos poetas pode haver? Ou mesmo
Andei folheando algumas novas arbitrárias e representa em geral uma apenas “bons”? Fico com a antologia
publicações como a Boxkite, australiana, observação pessoal de uma experiência britânica Out of everywhere, preparada por
e a Chain, editada por Juliana Spahr e particular. Em grande parte, é uma poesia Maggie O’Sullivan. Trata-se de um
Jena Osman, e fiquei impressionada com de importância menor. Refiro-me a poetas pequeno volume que reúne poetisas
a quantidade de trabalhos instigantes – “estabelecidos”, como John Hollander, experimentais no qual que quase todos os
de natureza verbal/visual – que se pode Robert Pinsky, Edward Hirsh e Louise trabalhos são bons! O que realmente
encontrar pelo mundo afora. Nos Gluck e as versões mais jovens destes. Sua precisamos agora, no que diz respeito à
Estados Unidos, os poetas são prati- poesia não chega a ser ruim. Simplesmente poesia experimental ou de vanguarda, é de
camente desconhecidos do “público”. Por não é poesia. “Comentários”, disse uma crítica melhor e mais presente. De nada
outro lado, há vários círculos de poesia Gertrude Stein, “não são literatura”. E adianta dizer que “vale tudo”, que se fulano
nas universidades e o número de pu- esses poemas não passam de comentários. diz ser um “poeta da linguagem”, então que
blicações a respeito é considerável. É Não quero dizer com isso que toda poesia seja! É preciso haver mais seleção e, em um
claro que é frustrante saber que apenas “experimental” seja boa. Poems for the third estágio posterior, melhor acompanhamento
uma parte reduzidíssima dessa produção millenium, volume 2, traz muitos poemas dos selecionados.
acabe resenhada no New York Times Book de terceira categoria, a exemplo de From Entrevista realizada por e-mail e traduzida
Review ou no New York Review of Books, the other side of the century, de Douglas do inglês por JaymeAlberto da Costa Pinto Jr Jr..

dezembro/98 - CULT 51
charles bernstein

poética das américas


Leia abaixo trecho da conferência Unrepresentative verse, proferida
no congresso da Abralic pelo poeta Charles Bernstein, que defende
uma política da forma poética e afirma que “qualquer conceito
unitário de América é uma afronta à multiplicidade das Américas”

N uma palestra em Buffalo, em padrão imposto de uma cultura americano sugerisse uma falsa essência
1994, o poeta argentino Jorge Santiago transnacional de consumo e enfraquecida para um conceito útil apenas como
Perednik terminou sua apresentação pelo imperativo de extraí-la e vendê-la negação: dicção de verso NÃO inglês. Ou
enfatizando a resistência cultural ao como produto. seja, como uma categoria negativa, a
recente reino do terror em seu país: “A luta Nos EUA, estamos confusos com literatura americana era uma hipótese útil.
era impossível e, por essa razão, ela se nossa própria história de resistência No presente, em contrapartida, a idéia da
deu.” Sem intenção de violar a cultural, freqüentemente confundindo as literatura americana entendida como
especificidade cultural do comentário de lutas pela legitimação cultural do século “totalização” positiva, expressiva, precisa
Perednik, eu entendo que isso pode ser passado com nossos próprios papéis continuar a ser desmantelada.
transladado para o campo da poesia, na revertidos neste século. Penso nas Aqui temos dois problemas: a
medida em que a poesia, resistindo à necessidades específicas, um século atrás, totalização da “América” e a posição
reificação culturalmente sancionada, que fizeram surgir a “literatura americana” globalmente dominante dos EUA. Como
também é impossível e só por isso se faz. como uma categoria acadêmica dentro do os EUA são o país de língua inglesa
Nesta conferência para a Abralic, eu sistema universitário, que só recentemente dominante, bem como o país dominante
gostaria de acrescentar as Américas a esta havia aprovado a literatura inglesa, ou no Ocidente nas esferas econômica,
lista, pois as Américas são impossíveis e britânica, como um apêndice apropriado política e cultural de massa, seus poderes
por isso também existem. ao estudo de clássicos (principalmente monopolizadores devem ser quebrados a
Américas, e não América, pois é na obras gregas e romanas). Naquela época, partir de dentro e de fora – e isso, segu-
resistência a qualquer unidade singular de havia uma clara necessidade de romper os ramente, da mesma forma que o controle
identidade das Américas que a impos- limites da literatura da “Ilha” inglesa para inglês sobre nossa linguagem literária teve
sibilidade delas abriga uma Poética das construir um público e dar respeita- de ser afrouxado no início do século XIX
Américas. O espaço cultural dessa bilidade e legitimidade a certos textos das e no início do século XX. A mesma lógica
Américas impossíveis não é esculpido regiões de New England e do “middle- que levou à invenção da literatura
pelas fronteiras nacionais ou de idiomas, Atlantic” e do Sul. “Americano” era uma americana como distinta da inglesa agora
mas atravessado por várias tradições e categoria estratégica, mais do que uma leva à invenção, por um lado, de uma
propensões e histórias e regiões e povos e categoria essencial; como resultado, a literatura de língua inglesa não centrada
circunstâncias e identidades e famílias e realidade multiétnica e pluricultural dos na América e, por outro lado, de uma
coletividades e dissoluções sobrepostas, EUA não foi acentuada nas formações poética das Américas.
contraditórias – por dialetos e idioletos, iniciais da “literatura americana”. Por volta Qualquer conceito unitário de América
não Línguas Nacionais; lugares e de 1925, William Carlos Williams, em In é uma afronta à multiplicidade das
habitações, não Estados. Mas tais the American grain, deu uma nova Américas que torna a cultura dos EUA
Américas são imaginárias, pois, em toda a amplitude ao conceito de América, ainda vital como ela é. A América é, para ecoar
parte, aquilo que é local está sob o fogo do que sua insistência em um discurso Perednik, uma totalidade “inclassificável”,

52 CULT - dezembro/98
OBRAS DE REFERÊNCIA
O debate atual sobre os
estudos literários parece
caracterizar-se por uma
atitude contrária àquela de
Hegel, cujo sistema e cuja
estética pressupunham um
“sujeito” forte, dominador,
que apreendia totalmente o
“objeto”, o dominando por
dentro e por fora. Hoje, tanto
o sujeito como o objeto são
múltiplos, contraditórios,
“indecidíveis” e, conse-
qüentemente, não existe mais
a possibilidade de um saber
absoluto, de uma inter-
pretação ou descrição total
do artefato “literário”. Ao
William Carlos Williams
leitor interessado em avançar
ao longo dos caminhos da
pois não há uma América. Os EUA são de Reino Unido, Canadá, Argentina e crítica contemporânea que
menos um cadinho do que uma simul- Brasil que da maioria das revistas de poesia (não) levam ao objeto,
taneidade de coexistências inconsoláveis – dos EUA. Ao mesmo tempo, o sugerimos algumas leituras
incluindo desde os porta-vozes excessi- “internacionalismo”, como o “trans- que consideramos básicas:
vamente audíveis do Estado até as vozes atlântico” (seu primo anglofônico),
fantasmagóricas das quase extintas línguas forneceu modelos de conhecimento que
das nações soberanas de Arapaho, removeram os poemas dos contextos locais
Mohawk, Shoshone, Pawnee, Pueblo, que lhes conferiam sentido e, simultanea- • Kafka. Pour une
Navaho, Crow, Cree, Kickapoo, mente, desenvolveu um cânone de littérature mineure, de Gilles
Blackfoot, Cheyenne, Zuni..., embora, na trabalhos que subvaloriza as particu- Deleuze. Paris, Éditions
verdade, não tenham existência como laridades intraduzíveis não apenas em Minuit.
soberanos, mas apenas como “hóspedes”. determinados poemas, mas também na • Points de suspension, de
Para a escrita, ou para a leitura, assumir seleção de poetas. (Um problema de Jacques Derrida. Paris,
– e conseqüentemente “expressar” ou descontextualização parecido é evidente na Galilée.
“projetar” – uma identidade nacional é tão recepção de ficção “latino-americana” nos • Orientalismo, de Edward
problemático quanto assumir uma EUA). Perednik fala da colisão de Said. São Paulo, Companhia
identidade singular ou de grupo. Contudo, diferentes poesias como a “lei da das Letras.
se descartássemos tais pressupostos, algum coincidência poética”. Essa lei fornece • Recovering the word,
sentido do que tais entidades representam uma forma de navegar entre os huma- org. de Brian Swann e
poderia se revelar. Uma escrita explora- nismos universalizantes do internaciona- Arnold Krupat. Berkeley,
tória como essa não pode escapar de sua lismo e o paroquialismo do regionalismo University of California
situação sócio-histórica, mas antes con- e do nacionalismo. Isso não quer dizer Press.
tribui para um questionamento e uma que nossas circunstâncias culturais e • Il pensiero debole, org.
reformulação da descrição daquela nacionais diferentes não estejam marcadas de Gianni Vattimo e Pier
situação sócio-histórica, ressaltando os em nossos poemas; ao contrário, é a Aldo Rovatti. Milão,
elementos heterogêneos e anômalos, e não insistência em registrar essas circun- Feltrinelli.
os homogêneos. Em contrapartida, as ferências sociais nas formas de nossos • The politics of
tentativas de representar uma idéia já poemas que pode ser nossa abordagem modernism. Against the now
constituída de identidade poderia obliterar metodológica comum. Também estou conformist, de Raymond
a possibilidade de encontrar formações de consciente de que os poetas norte- Williams. Londres, Verso.
identidades emergentes. americanos tendem a ser menos • La notion de littérature,
Sinto-me muito mais próximo das conscientes dos desenvolvimentos em de Tzvetan Todorov. Paris
preocupações de algumas revistas menores outros países de língua inglesa do que o Éditions du Seuil.

dezembro/98 - CULT 53
Fotografia feita na Argentina por
René Burri, que faz parte do livro Walls

do singular ao plural

A denominação “estudos culturais” não se refere a um método segunda a um ano (editado pela Hucitec) do poeta e músico John
específico, ou a uma “teoria” já pronta. Ao contrário, os “estudos Cage. Profeta da literatura sem centro e sem autor, Cage associou
culturais” parecem decretar justamente o fim do método canônico, as concepções das vanguardas históricas às novas perspectivas
o fim da perspectiva única na leitura e análise do “artefato” abertas pela informática, navegando na Internet antes da Internet.
literário, para nos limitarmos ao âmbito da literatura comparada. É dele a seguinte máxima “multiculturalista”: We are all going in
Ora, essa perspectiva plural, destituída de um centro, não é nova, different directions. Retomando as lições do romantismo alemão e
mas parece ser uma tendência geral do pensamento neste final da escola de Iena, em particular, Cage também declarou: “Poesia
de milênio. Ao leitor interessado em compreender melhor essa é tudo aquilo que eu chamo de poesia”.
noção de uma visão de mundo descentrada ou plural, gostaríamos No âmbito da cultura brasileira contemporânea, entre outras
de mencionar alguns textos, oriundos de áreas tão diversas como contribuições à reavaliação dos “belos do Brasil”, na área da
filosofia pós-moderna, hermenêutica alemã, crítica literária poesia, talvez mereça ser mencionado o livro Oriki Orixá
brasileira, etc. (Perspectiva), de Antonio Risério, que discute a presença da
Primeiramente, convém que o leitor seja introduzido na nova literatura iorubá na Bahia.
noção de história. Alguns autores contemporâneos decretaram o Ao leitor avesso a discussões teóricas, poderemos propor um
fim da História “no singular e com H maiúsculo”. Para um mergulho prático na literatura descentrada ou plural. Ou seja,
filósofo pós-moderno como Gianni Vattimo, por exemplo, a ele poderia passar diretamente aos livros, sem nenhuma idéia
evolução humana não é linear, mas plural. Assim, a idéia de uma preconcebida do que seja literatura (o leitor deve lembrar-se de
história única e homogênea deveria ser substituída pela noção de que não existe literatura, mas literaturas). Há uma excelente
uma história plural, que não evoluiria em linha reta. Em outras coleção, “Retratos do Brasil” (editora Companhia das Letras),
palavras, a história da humanidade não teria mais como centro, concebida pelo crítico Antonio Candido, que põe ao alcance do
ou modelo, a história do Ocidente. A discussão em torno da leitor obras necessárias para se entender o Brasil de ontem e de
idéia de uma história “com h minúsculo” é importante para os hoje, obras escritas por padres, jornalistas, escritores, militares,
estudos literários, na medida em que estimula o crítico a ver o etc. Dessa coleção, destacaríamos O Carapuceiro, que reúne as
“artefato” estético de múltiplos pontos de vista, sem a prévia crônicas do padre Lopes Gama, um dos livros mais engraçados
adesão à visão de mundo linear e homogênea implícita na noção e sugestivos publicados no Brasil nos últimos anos. Acreditamos
de “cânone ocidental”. Como uma leitura introdutória sobre o que essa coleção de obras heterogêneas de qualidade, preparadas
fim da História e o início das histórias, sugerimos o livro A por especialistas com diferentes formações (críticos literários,
sociedade transparente, de Gianni Vattimo, já traduzido para o historiadores, antropólogos etc.), é uma aplicação prática de
português. algumas idéias pluralistas que orientam os rumos da literatura
Aceita a idéia de que existem muitas histórias e muitas comparada hoje.
literaturas, o segundo passo é repensar o conceito de “belo”, Para os que lêem inglês, sugerimos a revista Critical Inquiry,
geralmente definido como um valor homogêneo e universal. que tem dado espaço, nos últimos anos, à discussão aprofundada
Como sugeriu Hans Georg Gadamer, o belo estético é o “belo das literaturas não-canônicas, como a das mulheres, negros, gays,
da comunidade”, ou seja, cada agrupamento humano possui um índios, asiáticos.
conceito próprio de belo, o qual, assim, é plural e sem essência Como o centro da experiência estética ficou “louco” e está em
perene. O leitor interessado no assunto deveria consultar a obra todas as partes, recomendamos àquele leitor que não queira ler as
Verdade e método de Gadamer, publicado pela editora Vozes. obras citadas acima que procure descobrir a “comunidade” estética
O livro A sociedade transparente, citado anteriormente, também que mais lhe convém e, a seguir, mergulhe no “belo” dessa
discute o conceito de belo plural e pós-metafísico (sem centro ou comunidade. O leitor não achará o belo em outro lugar.
núcleo perene). Uma outra obra muito útil, nesse sentido, é De Sérgio Medeiros

54 CULT - dezembro/98
oposto. Freqüentemente, nosso alarde não pode ingenuamente criticar a cultura poética da verdade, a autoridade e da
sobre a importância de uma poesia dominante se você está confinado às sinceridade para insistir que a política é
americana não-européia nos ensurdeceu formas por meio das quais essa reproduz sempre uma peça; nunca para colocar esta
para a novidade de poesias de língua a si mesma; não porque as formas peça em repouso, nem bani-la ou
inglesa e não-inglesa, incluindo algumas hegemônicas estejam comprometidas em reprimi-la.
que estavam sendo escritas no coração do “si mesmas”, mas porque sua capacidade Quando um poema entra no mundo,
“velho mundo”. crítica foi confiscada. Não há significado ele entra num espaço político, no sentido
A poética impossível das Américas não intrínseco sagrado em qualquer forma, ideológico e histórico. Ao recusar os
busca uma literatura que nos unifique nem há, a priori, formas superiores. critérios de eficácia para determinar o valor
como uma cultura nacional ou continental Invenções e técnicas – as ferramentas e os político de um poema, conferimos valor
– a América (os EUA), a América do estilos do passado – mudam em seu político para o estranho, o excêntrico, o
Norte (os EUA e o Canadá anglofônico), sentido e valor com o tempo, pedindo uma diferente, o opaco, o mal-ajustado –, para
América do Norte Multicultural (Canadá, contínua reavaliação. Além disso, as o que não está em conformação. Também
México e EUA), a América Latina (“Sul” formas têm significados extrínsecos, insistimos que a política demanda
dos EUA), a América do Sul (o “sétimo” sociais, que são forjados por meio da pensamento complexo e que a poesia é
continente, uma vez que nos EUA nós contestação de valores, a partir dos quais uma arena para tal pensamento: um lugar
aprendemos que as Américas são dois é impossível impedir o julgamento. para explorar a constituição do significado,
continentes separados). Em lugar disso, a Formas, assim como valores, não podem do self, dos grupos, das nações – do valor.
poética impossível das Américas insiste ser separados de seus significados, num A política da poesia da qual eu falo é
que o nosso ponto em comum está em processo social e histórico que nunca está aberta; os resultados de seus questiona-
nossa parcialidade, nossa desconsideração terminado. Uma política da forma poética mentos não são presumidos, mas desco-
pela norma, pelo padrão, pelo universal. reconhece que as dimensões social e bertos no processo e disponíveis para
Tal poesia será sempre desprezada por material conformam nossa habilidade para reformulações. Sua complexidade e adver-
aqueles que desejam usar a literatura para ler poemas como uma expressão solitária. sidade à conformação coloca essa prática
fomentar a identificação em lugar de Reconhece a contribuição semântica da poética fora do estádio da cultura
explorá-la. dimensão visual da linguagem, dos meios dominante. É essa recusa da eficácia –
• de produção e distribuição e do contexto chame-a de recusa de submissão – que
Se eu falo de uma “política da poesia”, de publicação. Uma política, nesses marca seu caráter político.
é para discutir a política da forma poética, termos, insiste que poemas são expressões
e não a eficácia do conteúdo poético. A parciais e particulares não-universalizáveis Charles Bernstein
poeta do grupo L=A=N=G=U=A=G=E, autor
poesia pode interrogar como a linguagem da humanidade. de Rough trades (Sun & Moon Press), e professor

se constitui, mais do que simplesmente Falar de política nesse contexto é de literatura da Universidade de Nova York

refletir o significados e valores sociais. Você contrastar a política da retórica com a Tradução de Régis Bonvicino

dezembro/98 - CULT 55
Cartas para a revista CULT devem ser enviadas para a Lemos Editorial (r. Rui Barbosa, 70, São Paulo, CEP
01326-010). Mensagens via fax podem ser transmitidas pelo tel. 011/251-4300 e, via correio eletrônico, para o
e-mail “lemospl@netpoint.com.br”.

Record, com traduções de artigos do o jornalismo. Jornalistas de outras terras,


Literatura africana
autor. Não o encontro em livraria outras vontades, outros vícios. Areja a
O que me motivou a escrever foi a nenhuma. Estou procurando nos lugares estufa viciada do pensamento orgulhoso
qualidade, a excelência da revista. Já errados ou o livro não está disponível? do eixo São Paulo – Rio, em que jorna-
há algum tempo sou leitor de CULT e Como faço para obter uma cópia do listas competem com a notícia e o
com ela venho trabalhando em minhas artigo que Camus escreveu sobre entrevistado. Essa iniciativa da CULT
aulas de teoria da literatura e de Melville? merecia ser procedimento das redações
literatura de expressão portuguesa, e Irene Hirsch por aí. A matéria provou que pode haver
agora num curso de extensão, “Leitura por e-mail ganhos de qualidade. Havia uma
e escritura de textos”, que estou intimidade saborosa entre os pergun-
oferecendo no Centro Universitário de Resposta da redação tadores da terra e o transcendente poeta.
Rio Preto. As matérias estão cada vez Tanto o livro A inteligência e o cada- Luiz Bolognesi
melhores. Enriqueceu-me bastante o falso quanto a biografia Albert Camus: São Paulo
“Dossiê” Lúcio Cardoso (CULT nº 14), Uma vida, de Olivier Todd – que foram
sobre quem defenderei tese na Unesp, tema do “Dossiê” da CULT de agosto (nº Criação
embora eu veja no corcel de fogo 13) – foram lançados pela editora Record
(especificamente no que toca à sua obra- A revista CULT é sem dúvida a melhor
no final do mês de outubro e podem ser publicação do gênero em nosso país. Ela
prima, Crônica da casa assassinada) encontrados em livrarias de todo o país.
mais um impressionista que um expres- alia, de forma única, beleza e qualidade
Caso a leitora tenha dificuldade em em suas páginas. Gostaria de sugerir que
sionista. Brevemente, mandarei a vocês localizá-lo, pode ligar diretamente para
um ensaio sobre Luandino Vieira, os editores da CULT reservassem a
a Record, tel.: 021/585-2000. O texto coluna “Criação” para a publicação de
grande nome da literatura angolana. E sobre Melville (reproduzido parcialmente
fica aí uma sugestão: que tal a CULT textos literários de jovens escritores e
na CULT) faz parte de A inteligência e o não de obras de profissionais já consa-
dedicar um número à literatura africana? cadafalso, que reúne textos de crítica grados em suas áreas.
Vitor Hugo Martins literária de Camus.
Aldo Hoxha Enbauer
São José do Rio Preto, SP
Sorocaba, SP
Prêmio Luís Cotrim
Dalcídio Jurandir Gostaria de parabenizá-los pela Resposta da redação
Lendo o número 15 de CULT encontro excelência da revista CULT, que com A seção “Criação” é de fato destinada
a oportuníssima sugestão de Paulo certeza contribui, e muito, para o a escritores novos, o que pode incluir
Nunes a respeito da obra de Dalcídio engrandecimento e difusão da cultura tanto os autores totalmente inéditos
Jurandir. Metendo o bedelho onde não brasileira. Aproveito a oportunidade quanto autores que já publicaram livros
fui chamado, gostaria de lembrar o para divulgar os vencedores do I Con- mas ainda não alcançaram a projeção
nome do jornalista carioca Moacir curso Literário da Academia de Letras merecida – o que, em nosso entender,
Werneck de Castro, grande amigo de de Jequié, Prêmio Luís Cotrim de justifica o espaço aberto a estes
Dalcídio, que com ele conviveu du- Literatura. Poesia: Ronaldo Jacobina. últimos, como um estímulo à conti-
rante décadas, e que muito teria a Prosa: Aleilton Fonseca, ambos de nuidade de seu trabalho criativo.
contribuir caso esta belíssima idéia seja Salvador. Publicamos o livro O Pes-
aproveitada. Parabéns por tudo de cador de sonhos, reunindo os 20 me-
importante que CULT representa neste lhores trabalhos. Ousadia
momento da cultura brasileira. Ivonildo Calheira
Parabenizo a equipe da CULT pela
José Eduardo Lampreia Presidente da Academia
maravilhosa ousadia de estar presente
Brasília, DF de Letras de Jequié, Bahia
nas nossas bancas. É estimulante aos
amantes da literatura poder contar
Manoel de Barros mensalmente com uma publicação de
Albert Camus Excelente a entrevista com o Manoel tal qualidade no atual mercado edi-
No número 13 da CULT há um “Dossiê” de Barros. Os perguntadores foram de torial brasileiro.
sobre Camus em que é mencionado o uma simplicidade contundente. Sau- Maria Julia Souza
livro A inteligência e o cadafalso, da dável essa iniciativa de descentralizar por e-mail

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- outubro/98
- dezembro/98