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SOCIOLOGIA

TEMPOS
MODERNOS,
TEMPOS DE
SOCIOLOGIA
Volume único
E n s i n o Médio
Capítulo 8 : A s m u i t a s faces
do poder

coordenação Helena Bomeny


Doutora e m Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Estado do Rio
de Janeiro.
Professora titular de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Pesquisadora do C P D O C / F G V e professora da Escola Superior de Ciências
Sociais da FGV.
Coordenadora geral do Setor de Ensino de Graduação do C P D O C / F G V e
Coordenadora geral da Escola Superior de Ciências Sociais da FGV (2006-2010).

Bianca Freire-Medeiros
Doutora e m História e Teoria da Arte e da Arquitetura pela Binghamton
University/SUNY.
Pesquisadora do C P D O C / F G V e professora da Escola Superior de Ciências
Sociais da FGV.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Tempos modernos, tempos de sociologia / coordenação


Helena Bomeny, Bianca Freire-Medeiros. - Sáo Paulo : Editora do
Brasil, 2010.

ISBN 978-85-10-04823-1 (aluno)


978-85-10-04824-8 (professor)
Bibliografia

1. Sociologia (Ensino médio) I. Bomeny, Helena. II.


Freire-Medeiros, Bianca. III. Série.

10-01205 CDD-301

índices para catálogo sistemático:


1. Sociologia : Ensino médio 301

F U N D A Ç Ã O
1 edição, São Paulo, 2010
a
EDITORA d o BRASIL GETÚLIO V A R G A S
8 As muitas
do poder
faces

E m cena: A garota órfã

Carlitos e a Garota em cena do filme T e m p o s m o d e r n o s .

Há uma personagem de Tempos modernos que até agora usá-los como lenha, trabalhadores desempregados pro-
não foi apresentada aqui: é uma adolescente descalça, testam em uma rua próxima. Ouvem-se tiros, a Garota se
vestida pobremente, que aparece pela primeira vez rou- aproxima e vê o pai morto, caído no chão. Sem mãe e sem
bando bananas no cais e distribuindo-as entre outras pai, agora as meninas passarão à responsabilidade do Es-
crianças pobres. O entretítulo explica: "A Garota - uma tado. Dois homens engravatados e um guarda vão à casi-
menina do cais que se recusa a passar fome". E a ação nha das órfãs, examinam papéis e encaminham as duas
começa: descobertas pelo dono da carga de bananas, as pequenas para um abrigo de menores. Enquanto isso,
crianças e a Garota fogem em disparada. Ela chega ofe- mais uma vez, a Garota escapa.
gante a uma casa pobre onde estão duas meninas meno-
res, e somos informados, sempre pelo entretítulo, de que
Apresentando Michel Foucault
as três são irmãs e órfãs de mãe. Dali a pouco chega o
pai, deprimido porque não consegue emprego. A Garota O pensador que convidamos para assistir a essas cenas,
distribui bananas, e todos comem alegremente. embora não fosse um sociólogo, marcou o campo das
Na segunda sequência da Garota, enquanto ela e as ciências sociais com suas reflexões sobre a relação entre
irmãs catam pedaços de madeira no cais, certamente para verdade e poder. Seu nome é Michel Foucault.

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M i c h e l Foucault foi um filósofo, hjstoriador, crítico e ativista político francês que d e s e n -

volveu uma teoria e um método de pesquisa próprios, caracterizados por aproximar his-

tória e filosofia. Seus trabalhos abordam temas diversos, como poder, conhecimento,

discurso, sexualidade, loucura.

Foucault foi influenciado pela filosofia da ciência francesa, pela psicologia e pelo

estruturalismo. Já sua atuação política foi influenciada sobretudo pela desilusão com o

comunismo e pelo movimento de maio de 1968 na França. Sua experiência pessoal com

tratamento psiquiátrico motivou-o a estudar a loucura. Interessava-se pela relação entre

poder, conhecimento científico e discurso, e pelas práticas a eles associadas na defini-

ção da loucura e no tratamento destinado àqueles classificados como "loucos".

Suas ideias inspiraram tanto críticas quanto apoios fervorosos e influenciaram diver-
Michel Foucault, c. 1969. sas áreas, como a arte, a filosofia, a história, a sociologia, a antropologia e muitas outras.

Destacam-se, nela, História d a l o u c u r a n a i d a d e clássica (1961), A s p a l a v r a s e a s c o i s a s

Michel Foucault (1966), A r q u e o l o g i a d o s a b e r (1969), V i g i a r e p u n i r ( W S ) , Microfísica do poder (WS), e

(Poitiers, França, 15 de outubro de ainda o projeto inacabado História d a s e x u a l i d a d e , composto de A v o n t a d e d e s a b e r

1926 - Paris, 26 de junho de 1984) (1976), 0 u s o d o s p r a z e r e s (1984) e O c u i d a d o d e s i (1984).

Para entender a complicada relação entre verdade e como a biologia, a economia política, a psiquiatria e a
poder, Foucault realizou pesquisas sobre temas variados. própria sociologia - e novos dispositivos disciplinares. A
Um dos pontos em que mais se deteve foi a questão da influência progressiva desses novos saberes e a multipli-
disciplina. Como homens e mulheres aprendem a se com- cação desses dispositivos por toda a sociedade levaram,
portar? O que acontece quando não se comportam de acor- segundo ele, à consolidação de um modelo peculiar de
do com o previsto? Em que tipo de justificativas se baseiam organização social: as "sociedades disciplinares" dos sé-
as regras de comportamento? Em que lugares os ensina- culos XIX e XX.
mentos sobre o que é socialmente aceitável e não aceitável A emergência desse novo formato de arranjo social,
são transmitidos? Por que e por quem eles são cobrados? com suas lógicas de controle e penalização, constitui o
Para responder a questões como essas, Foucault investi- tema central de uma das obras mais conhecidas de Fou-
gou a origem e o desenvolvimento de várias instituições de cault, que tem o sugestivo título Vigiar epunir, nascimento
controle, entre elas os abrigos, como aquele para onde as da prisão. Nesse livro, ele nos mostra como, a partir dos
pequenas órfãs de Tempos modernos foram enviadas, e séculos XVII e XVIII, houve o que chama de um "desblo-
as prisões, como aquela de onde Carlitos não queria sair. queio tecnológico da produtividade do poder". Esse des-
Seguiremos, portanto, com Michel Foucault, numa visita bloqueio teria permitido o estabelecimento de procedi-
por algumas instituições de controle e poder. mentos de controle ao mesmo tempo muito mais eficazes
e menos dispendiosos. E isso ocorreu não apenas nas pri-
sões, mas também em várias outras instituições, onde a
Curar e adestrar, vigiar e punir
vigilância dos indivíduos é constante e necessária.

Nos capítulos anteriores, vimos como as transformações Obviamente, mecanismos de disciplina e controle já
trazidas pela Revolução Industrial e a Revolução France- existiam muito antes do surgimento de saberes como a
sa possibilitaram o surgimento de novos hábitos e valo- economia ou a sociologia. Durante o Antigo Regime, nos
res, novas estruturas de pensamento e práticas sociais. lembra Foucault, havia critérios que permitiam identificar
Michel Foucault também se voltou para esse momento de os indivíduos que eram capazes de se submeter às nor-
profunda transformação, em que as instituições sociais mas - os "normais" - e os que, incapazes de respeitá-las,
do Antigo Regime cederam o lugar a sistemas de organi- deveriam receber como castigo a exclusão da vida em so-
zação inéditos. Seu interesse se voltou, sobretudo, para ciedade. Nesse grupo dos que eram afastados do convívio
as condições de surgimento de novos saberes - ciências com os outros encontravam-se aqueles considerados

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"loucos", "maus", "doentes" ou "monstros" - qualquer nados na chamada "nau dos insensatos"; todos os crimi-
um, portanto, que apresentasse "desvios de conduta", nosos eram condenados à pena de morte; quaisquer tipos
quer por conta de sua demência, de sua índole, de sua de "deformados" eram recolhidos aos mosteiros; e os que
moléstia ou de sua aparência. Ao longo da Idade Média, sofriam de males físicos eram levados a hospitais que na
todos os que fossem tidos como "dementes" eram confi- verdade eram "depósitos de doentes".

Charles Grignion. U m a p e r s p e c t i v a d o H o s p i t a l F o u n d l i n g c o m f i g u r a s , 1749.

N a u dos insensatos

A alegoria, ou representação figurativa, da " n a u d o s i n -

s e n s a t o s " surgiu no final da Idade Média e teve uma de

suas mais famosas expressões artísticas no quadro de

mesmo nome de Hieronymus Bosch (de 1490), que nele faz

uma profunda crítica aos costumes da época, denuncian-

do a fragilidade dos princípios religiosos e a devassidão

presente em todos os grupos sociais, inclusive no clero.

M i c h e l Foucault se inspirou nessa imagem para e s -

crever a introdução de sua História d a l o u c u r a . Assim

como as naus dos insensatos da Idade Média, navios que

deslizavam pelos rios e mares com uma carga de loucos

e sem um rumo definido, o saber psiquiátrico desenvolvi-

do no século XIX seria um mecanismo radical de e x c l u -

são, cuja maior expressão seriam os manicômios. A ale-

goria da nau foi tomada por ele como símbolo de uma

cultura - a ocidental - marcada pela não aceitação d e n -

tro do corpo social daqueles tidos como loucos. Se no

início da Renascença a nau dos insensatos tinha um l u -

gar no imaginário coletivo, para Foucault isso expressava

o crescente fascínio pela questão da loucura, que a par-

tir do século X V passou a ganhar cada vez mais espaço

Hieronymus Bosch. N a u d o s i n s e n s a t o s , c.1490. entre as preocupações humanas.


Óleo sobre madeira, 58 x 33 cm.

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Foucault lembra também que foi a partir do século cina clínica passou a ter como foco o corpo do doente e
XVIII que se iniciou um processo de organização e classi- como.objetivo trazer esse corpo "de volta ao normal". Sur-
ficação científica dos indivíduos, que veio garantir uma giram então expressões como "temperatura normal", "pul-
nova forma de disciplinar e controlar a sociedade. Cada sação normal", "altura e pesos normais". Esse padrão de
"anormalidade" passou então a ser identificada em seus normalidade passou a ser um parâmetro para toda a socie-
mínimos detalhes por um saber específico e a ser encaixa- dade - é claro que há componentes culturais que determi-
da em um complexo quadro de "patologias sociais". nam variações nesse padrão - , e a medicina ganhou uma
Estamos tão acostumados a depender desses saberes dimensão política de controle. Hoje, mais que nunca, vive-
especializados e a conviver com os espaços que lhes são mos em função de ter o corpo "normal", de acordo com to-
próprios que muitas vezes nos esquecemos de que nem dos os padrões, índices e prescrições que a medicina esta-
sempre eles existiram. O nascimento da medicina clínica e belece. Muitas vezes estamos nos sentindo bem e vamos ao
a criação do hospital tal como o conhecemos, por exemplo, médico para um simples exame de rotina. O médico nos
são fenómenos historicamente recentes. Foucault toma examina e diz que há algo errado, algo "que não está nor-
como exemplo o projeto de criação de hospitais surgido na mal". Saímos da consulta com uma lista de remédios que
França em fins do século XVHI, em que pela primeira vez supostamente irão trazer nosso corpo de volta à normalida-
foram expostas regras minuciosas de separação dos vários de. Também nos é apresentada uma longa lista de coisas
tipos de doentes. O médico - e não mais qualquer "curan- que podemos ou não podemos fazer e de alimentos que po-
deiro" - passou a ser o responsável por essa nova "máqui- demos ou não podemos ingerir. É certo que nem sempre
na de curar", que lembrava muito pouco aquele "depósito obedecemos a tudo que nos diz o médico. Porém, ao fim e
de doentes" medieval. ao caho, acreditamos que a medicina, como ciência, tem o
Se a medicina clássica trabalhava com o conceito poder de curar porque tem o poder de saJber mais sobre
vago de "saúde" e procurava "eliminar a doença", a medi- o nosso corpo do que nós mesmos.

Pierre Andre Brouillet, U m a a u l a d e m e d i c i n a c o m d o u t o r C h a r c o t e m S a l p e t r i e r e , óleo sobre tela, 1887.

A ideia de uma educação que não está a cargo dos acordo com parâmetros pedagógicos é uma invenção do
pais, e sim do Estado, que é oferecida a todos os cidadãos, fim do século XVIII e início do XIX. Acreditamos que a
que tem um conteúdo comum e necessita do espaço da escola tem o p o d e r d e e n s i n a r porque tem o p o d e r de s a -
escola também é fruto dessas transformações de que fala ber quais são os comportamentos desejáveis, quais são os
Foucault. Não por coincidência, a escola organizada de conteúdos imprescindíveis e qual é a didática adequada.

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Jean Beraud, A saída d o L i c e u C o n d o r c e t , óleo sobre tela, 51 x 65 cm, 1903.

O mesmo se dá com o conjunto das instituições de turas, esquartejamentos, queimaduras, enforcamentos -


justiça e punição, que encontra nas prisões seu espaço realizado em praça pública para a glória do soberano. Hoje,
de realização. O grupo dos "maus" desdobra-se em uma mesmo em um estado como o Texas, nos Estados Unidos,
série de subgrupos de "personalidades criminosas", que onde vigora a pena de morte, vigora também uma série de
passa a ser objeto de um saber específico: a criminologia. princípios que buscam garantir uma "morte humanizada"
A reclusão por tempo determinado no presídio substituiu, para o condenado, sem torturas ou humilhações. Acredita-
na maior parte dos países do Ocidente, a morte punitiva. mos que o sistema judiciário tem o poder de vigiar e punir
Foucault nos lembra que, até o século XVIII, a pena de mor- (com a morte, se necessário) porque tem o poder de saber
te era precedida por um detalhado suplício do corpo - tor- distinguir entre os inocentes e os criminosos.

Câmara de execução em presídio estadual


Gravura de 1723 representando condenado pelo Tribunal da Inquisição morto na fogueira
da Califórnia, EUA.
em praça pública.

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plina e o descontrole de Carlitos atrapalham a produção.
Aproximadamente 74 países adotam a pena de morte, en- Ele é levado ao manicômio para aprender a se comportar
tre eles China, Irã, Arábia Saudita e Estados Unidos. como os demais e novamente se tornar apto a produzir.
A pena de morte foi legalmente praticada no Brasil até a
segunda metade do século XIX. Recorria-se ao enforca-
mento, à espada, à fogueira e a vários outros métodos. A Em uma linha de produção o trabalho é disciplinado, os cor-

última execução no Brasil aconteceu em 1861, na Paraíba. pos são adestrados, e tudo é supervisionado por técnicos
que conhecem o ritmo adequado ("normal"), o produto de
qualidade ("normal") e produtividade esperada ("normal").
Foucault fez uma "arqueologia" - uma investigação
minuciosa da origem e do desenvolvimento histórico - de
Podemos observar que, ao se voltar para a produ-
todos esses saberes: da medicina clínica, da psiquiatria,
ção, Foucault não reduz a questão ao aspecto puramente
da criminologia etc. E não apenas isso como também se
económico. Mesmo nesse contexto, diferentemente de
encarregou de formular uma crítica incisiva das práticas
Marx, ele está interessado não tanto na dominação econó-
disciplinadoras - de controle e adestramento - de cada
mica, mas nas relações de poder que perpassam toda a
uma das instituições onde esses saberes são praticados
sociedade. Em uma entrevista qiie concedeu ao brasileiro
e reproduzidos.
Alexandre Fontana, Foucault resumiu sua posição:

O s c o r p o s dóceis e o s a b e r i n t e r e s s a d o Para dizer as coisas mais simplesmente: o internamento


psiquiátrico, a normalização mental dos indivíduos, as ins-
As formas de curar, educar e punir não foram as únicas a tituições penais têm, sem dúvida, uma importância muito
ter seus princípios alterados na modernidade. Foucault limitada se se procura somente sua significação económi-
nos mostra como as maneiras de produzir e os lugares da ca. Em contrapartida, no funcionamento geral das engre-
produção também passaram por um sério processo de es- nagens do poder, eles são, sem dúvida, essenciais. E n -
pecialização e controle. As fábricas, por exemplo, repro- quanto se colocava a questão do poder subordinando-o à
duzem a estrutura da prisão, no sentido de que colocam instância económica e ao sistema de interesse que garan-
os indivíduos, separados segundo suas diferentes fun- tia, se dava pouca importância a estes problemas.
ções, sob um rígido sistema de vigilância. Lembremo-nos
M i c h e l Foucault. Microfísica d o poder.
da fábrica de Carlitos: disciplinados e sob o olhar vigilan-
Rio de Janeiro: Graal, 1977.
te do capitalista, os operários produzem mais. A indisci-

O que Foucault está nos di-


zendo exatamente? Em primeiro
lugar, que não podemos entender
as relações de poder reduzindo-as
à sua dimensão económica ou à
esfera do Estado. Para ele, as es-
truturas de poder extrapolam o
Estado e permeiam, ainda que de
forma difusa e pouco evidente, as
diversas práticas sociais cotidia-
nas. Ouvimos dizer que os gover-
nantes detêm o poder. Sim, mas
apenas até certo ponto. Gover-
nantes não têm o poder, por
exemplo, de determinar qual será
a nova moda que mobilizará os jo-
vens e fará circular uma quantida-
de incalculável de dinheiro no
Operárias em fábrica no início do século XX. próximo inverno. Será, então, que

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são os ricos que detêm o poder? Os ricos certamente têm duo, o biopoder dirige-se à massa, ao conjunto da popula-
muito poder, mas não todo o poder. Nem eles, nem nin- ção e ao seu habitat - a metrópole, sobretudo. Isso ocorre
guém. Ninguém é titular do poder, porque ele se espalha porgue o processo de especialização, deflagrado com a di-
em várias direções, em diferentes instituições, na rua e na visão do trabalho, exige cada vez mais que a população
casa, no mundo público e nas relações afetivas. como um todo seja racionalmente classificada, educada e
Em segundo lugar, Foucault está insistindo em sua controlada para ser, por fim, transformada em força produ-
resposta numa ideia que atravessa toda a sua obra e que tiva. O objeto do biopoder são fenómenos coletivos, como
vimos destacando até aqui: existe uma forte correlação en- os processos de natalidade, longevidade e mortalidade,
tre saber e poder. Instituições como a escola, o hospital, a gue são medidos e controlados por meio de novos disposi-
prisão, o abrigo para menores etc. nem são politicamente tivos, como os censos e as estatísticas.
neutras, nem estão simplesmente a serviço do bem geral da O biopoder mede, calcula, prevê e por fim estabele-
sociedade. Nós é que acreditamos que elas são neutras, le- ce, por exemplo, gue é preciso diminuir a taxa de natali-
gítimas e eficazes porque acreditamos na neutralidade, na dade de detenriinado país. Como alcançar tal objetivo?
legitimidade e na eficácia dos saberes científicos - como a Controlando o número de nascimentos, ou seja, intervin-
pedagogia, a medicina, o direito, o serviço social - que lhes do diretamente na vida do conjunto da população. Isso
dão sustentação. Foucault nos ajuda a perceber, portanto, não precisa ser feito por meio de uma lei específica e pu-
que há relações de poder onde elas não eram normalmente nitiva, como na China. O processo de controle não depen-
percebidas. O conhecimento não é uma entidade neutra e de necessariamente da repressão direta do Estado. Mui-
abstrata; ele expressa uma vontade de poder. Se a ciência tas outras instâncias de poder podem ser mobilizadas,
moderna se apresenta como um discurso objetivo, acima como, as instituições de educação e de saúde ou os meios
das crenças particulares e das preferências políticas, alheio de comunicação de massa. Essas instâncias passam a pro-
aos preconceitos, na prática, ela ajuda a tomar os "corpos duzir discursos sobre as desvantagens da maternidade
dóceis", para usar outra de suas expressões. precoce ou as dificuldades enfrentadas por famílias muito
"Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse
outra coisa a não ser dizer não", provoca Foucault, "você
acredita que seria obedecido?". Por meio de perguntas QUEfUADptASp
como esta, ele nos leva a refletir sobre os mecanismos de
manutenção, aceitação e reprodução do poder. O poder, OMIVUUOlSt..
tal como Foucault o concebe, não equivale à dominação, à
soberania ou à lei. É um poder gue se faz aceito porque
FALTA DE A
está associado ao conceito de verdade: "Somos submeti-
dos pelo poder à produção da verdade e só podemos exer-
cer o poder mediante a produção da verdade", afirma ele.
Nós estamos acostumados a pensar a verdade como inde-
pendente do poder porgue acreditamos gue ela de nada
depende, é única e absoluta. Assim sendo, temos dificul-
dade em aceitar a ideia de que o "verdadeiro" é "apenas" EXraMMENTAk
aquilo gue os próprios seres humanos definem como tal.
Para Foucault, é a crença nessa verdade gue independe O CRACKPARA
das decisões humanas gue nos autoriza a julgar, conde-
nar, classificar, reprimir e coagir uns aos outros.

Indivíduos e populações Nunca experimente o crack.


Ele causa dependência e mata.
Em seus últimos escritos, Foucault dedicou-se a exajninar
como o poder baseado no conceito de disciplina, surgido
no século XVHI, foi se sofisticando e adcmirindo contornos
ainda mais complexos ao longo do século XX. Ao poder
disciplinar veio somar-se o gue ele chamou de "biopoder". Cartaz de campanha contra o uso de droga, veiculada
Enguanto o primeiro tem como alvo o corpo de cada indiví- em dezembro de 2009.

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numerosas, e o fato é que nós, como população, somos afe-
tados por essas ideias. Introjetamos esses discursos como hanseníase eram parte do cotidiano de muitos cidadãos,
verdades absolutas e não como convenções históricas e so- que sofriam principalmente com grandes epidemias de
cialmente estabelecidas. Mas não custa lembrar, por exem- febre amarela, varíola e peste bubônica.
plo, que para muitas pessoas que vivem em contextos ru- Foi diante desse quadro que Oswaldo Cruz, médico sani-
rais ter uma família numerosa é desejável, porque a mão de tarista convocado pelo presidente Rodrigues Alves para
obra mobilizada na produção é de base familiar. Ou que
higienizar a cidade e a população carioca, passou a tomar
nem sempre ter filhos aos 15 anos foi algo visto com maus
medidas para conter doenças. Era preciso sanear para mo-
olhos. Durante o longo período em que a expectativa de
dernizar. Entre as muitas propostas apresentadas pelo médi-
vida não chegava a ultrapassar os 50 anos, era desejável
co, uma causou especial polémica: a da vacinação obrigató-
que as jovens começassem a procriar tão logo ocorresse
ria, que se tornou lei em 31 de outubro de 1904. De acordo
sua primeira menstruação.
com a lei, brigadas sanitárias, acompanhadas de policiais,
Além das políticas de controle da natalidade, políti-
deveriam entrar nas casas para aplicar, de bom grado ou à
cas de habitação social ou de higiene pública são exem-
plos do biopoder, que é acionado para garantir a resolu- força, a vacina contra a varíola em toda a população.

ção e o controle dos problemas da coletividade. Nem Grande parte da população e setores da oposição se
sempre, porém, tais políticas surtem o efeito desejado... revoltaram contra o autoritarismo da medida. Lojas foram

saqueadas, bondes depredados, lampiões quebrados: era

Revolta d a Vacina a Revolta da Vacina, uma reação violenta a uma medida

de disciplinamento sanitário imposto pelo governo à po-


Um dos episódios mais polémicos do início do período re-
pulação, medida essa legitimada pela posse de um s a b e r -
publicano no Brasil pode nos ajudar a pensar sobre o c o n -
o higienismo - aplicado como forma de controle em nome
ceito de biopoder e as formas de controle que ele articula.
do ideal de modernidade. A reação popular levou à s u s -
Em 1904, o Rio de Janeiro começava a passar pelo pro-
pensão da obrigatoriedade da vacina e à declaração do
cesso de reformas urbanas levado a cabo pelo então pre-
estado de sítio por parte do governo. A rebelião terminou
feito Pereira Passos, mas ainda conservava muito da e s -
em dez dias, deixando cinquenta mortos e mais de cem
trutura colonial que o governo buscava eliminar em nome
feridos, além de centenas de presos. Pouco depois, o pro-
do ideal de modernização. Ruas estreitas, pessoas amon-
cesso de vacinação foi reiniciado, e a varíola foi rapida-
toadas em cortiços e precárias noções de higiene faziam
mente erradicada da capital da República.
parte da paisagem carioca. Tuberculose, sarampo, tifo e

Charge A revolta da vacina,


O m a l h o , 1904.
Vimos que Carlitos e a Garota órfã são, em grande perto. Assim surgiram os hospitais, abrigos e muitas
medida, "personagens indisciplinados". outras instituições disciplinadoras. Assim surgiram
Os dois resistem a muitas convenções e frequentam também os orfanatos, as escolas, as fábricas.
as margens da sociedade. Mas isso não quer dizer que não Foucault quis nos fazer entender que o poder
estejam inseridos, não façam parte dos jogos de poder e se espalha por diferentes domínios sociais, atuando
controle de que fala Foucault. Apesar de socialmente inade- sobre os indivíduos e também sobre as massas. O
quados em tantos aspectos, também eles introjetam os va- biopoder, por exemplo, é exercido toda vez que,
lores de sua sociedade e, como veremos, aspiram a viver de com base na voz dos especialistas, é feito um con-
maneira "civilizada". trole do comportamento da coletividade. Foucault
não se preocupou em dizer se esse controle é posi-
tivo ou negativo. Interessou-se pelo processo que
levou as pessoas a depositar sua confiança nessas

Recapitulando vozes especializadas e pela maneira como isso alte-


rou o desenho das sociedades.
Os olhares dos cientistas sociais podem se voltar
para muitas direções. No capítulo anterior, vimos
Tocqueville interessado no tema da liberdade. Neste,
tomamos contato com Michel Foucault, um observa-
dor da sociedade que desvendou as minúcias da dis-
ciplina e do controle social.
As mudanças trazidas pelos tempos moder-
nos foram, sem dúvida alguma, de ordem económi-
TESTANDO
ca e política. Nesses domínios já estamos acostuma-
dos a operar com a noção de poder. Foucault, no SEUS CONHECIMENTOS
entanto, foi além. Buscou em outras instituições
modernas os mecanismos por meio dos quais o po-
der é exercido. A medicina, a pedagogia, a crimino-
1. MONITORANDO A APRENDIZAGEM
logia, a engenharia etc. serviram-lhe como pistas. É
curioso constatar que esses saberes são chamados 1. O interesse de M i c h e l Foucault c o m o o b s e r v a d o r d o
de "disciplinas". O que eles disciplinam? Eles cons- m u n d o social era estudar c o m o o p o d e r se c o n f i g u r a nas
troem padrões de normalidade que circulam pela s o c i e d a d e s m o d e r n a s . C o m base nas informações deste
sociedade como um todo. Ao classificar o que é nor- capítulo, defina a ideia d e " s o c i e d a d e disciplinar'.'
mal e o que é anormal, eles se valem da noção de
2. De que f o r m a a institucionalização d o s s a b e r e s e s p e c i a l i -
verdade. Os especialistas se tomaram autoridades
z a d o s c o n t r i b u i u para alterar a distribuição d o p o d e r nas
e por isso exercem o poder, dizendo-nos o que fazer.
s o c i e d a d e s m o d e r n a s , s e g u n d o Foucault?
É difícil resistir, porque acreditamos em suas verda-
des. Foucault entendia que o poder é um conceito 3. O que diferencia as s o c i e d a d e s pré-modernas d a s s o c i e -

muito mais amplo do que parece. Não diz respeito d a d e s m o d e r n a s no tocante a o t r a t a m e n t o d a d o às p e s -

apenas à enunciação explícita de uma regra ou lei a soas consideradas "anormais"?

que devemos obedecer, já que existem comandos


4. O s o b s e r v a d o r e s d a s o c i e d a d e p o d e m produzir d i f e r e n -
a que obedecemos sem perceber. Ele também nos
tes interpretações s o b r e u m m e s m o fenómeno social.
lembra que o poder circula em várias direções den-
Karl M a r x e M i c h e l Foucault, p o r e x e m p l o , o b s e r v a r a m a
tro da estrutura social.
distribuição d o p o d e r n a s s o c i e d a d e s m o d e r n a s . C o m
No período pré-modemo não havia "sociedades base nas informações c o n t i d a s neste capítulo, a p o n t e as
disciplinares". Aqueles que fossem considerados divergências entre e s s e s d o i s autores no tocante à " q u e s -
anormais eram banidos do convívio social. A socieda- tão sociológica" d o poder.
de moderna incorporou esses indivíduos, mas confi-
5. E x p l i q u e o que é o " b i o p o d e r " na definição d e Foucault,
nou-os em espaços onde podiam ser controlados de
c i t a n d o e x e m p l o s d o dia a dia.


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2. ASSIMILANDO CONCEITOS 2. Você já viu esta placa e m a l g u m lugar?

1. O b s e r v e o s cartazes d e c a m p a n h a s a b a i x o :
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/tf SORRIA, VOCÊ
J ESTÁ SENDO
FILMADO!

a) E m q u e tipo de lugar ela é u s a d a ? Por quê?

b) De q u e m a n e i r a p o d e m o s p e n s a r no c o n t r o l e social e m
nossa s o c i e d a d e a partir desta i m a g e m ?

3. OLHARES SOBRE A SOCIEDADE

0 PODER

Deus criou o universo, criou c o m todo poder


E Adão até foi expulso, pois quis desobedecer
Poder pra chutar o balde,
Poder pra mandar matar
E m cada desejo plantado
U m fruto pra cobiçar
Poder, poder, poder, poder até não mais poder.

Poder dentro de casa, quem menos pode dorme no sofá


Atravesse o oceano e o couro tá comendo por lá
M e u s olhos andam famintos, prontos pra te devorar
Não sei se você quer ou pode
M a s não posso m e controlar
Poder, poder, poder, poder até não mais poder.

O poder no fio da navalha


Tudo que valha a pena poder
Q u e m pode a cabeça perder,
Poder já nem importa por quê
O poder na primeira pessoa
Poder e m última instância
A mão alcançando o chapéu,
a) De q u e tratam? A q u e m a m e n s a g e m d e c a d a u m d e l e s é
Acima de qualquer circunstância
dirigida?
Poder, poder, poder, poder até não mais poder.
b) A m e n s a g e m c o n t i d a n e s s e s cartazes está b a s e a d a e m

saberes especializados? Quais?


De que vale o caminho certo
c) Há a l g u m a relação de p o d e r entre o s e n s o c o m u m (saber
Se tudo pode acontecer
popular) e o s a b e r e s p e c i a l i z a d o nas informações d o s car-
Lá v e m a mula s e m cabeça
tazes?
Voando nas asas do poder
d) C o m o e s s a s m e n s a g e n s se r e l a c i o n a m c o m o c o n c e i t o de
Esqueça o que lhe ensinaram
" b i o p o d e r " de Foucault?

93
E c o m e c e de novo a aprender Não há nada de errado e m querer consertar uma
Só conserve o seu medo diário falta de acabamento congénita, melhorar a silhueta
E morra agarrado ao poder castigada pelo excesso de comida e pelo sedentaris-
Poder, poder, poder, poder até não mais poder. mo ou atenuar as marcas do tempo. É uma forma per-
O p o d e r . Marcelo Nova e Karl Hummel. Camisa de feitamente compreensível e legítima de conservar (ou
Vénus. Q u e m é você. Polidor: 1996. restaurar) a autoestima. U m nariz menos adunco, uma
Warner Chappell Edições Musicais Ltda. ruguinha cancelada, uns quilinhos aspirados - e eis que
Todos os direitos reservados a beleza deixa de ser apenas a promessa de felicidade,
para citar a frase do escritor francês Stendhal. A ques-
tão é quando se exagera na dose.Tem-se aí uma pato-
A canção O p o d e r s e afina c o m a concepção de p o d e r
logia. Pessoas que não se cansam de encontrar defei-
de Foucault? Destaque a l g u n s v e r s o s que j u s t i f i q u e m
tos ao espelho (na maioria das vezes, inexistentes) e,
sua resposta.
para corrigi-los, perseguem compulsivamente u m pa-
drão estético inatingível sofrem do que os médicos
4. EXERCITANDO A IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA
chamam de transtorno dismórfico corporal. Descrito
e m 1987 pela Associação Americana de Psiquiatria, o
Q U A N D O O B E L O G A N H A A MÁSCARA D A distúrbio, nos casos mais graves, causa ansiedade e
PLÁSTICA depressão profundas - e pode levar a pessoa a defor-
mar-se nas mãos de cirurgiões inescrupulosos.
B e n f e i t a s e b e m i n d i c a d a s , a s c i r u r g i a s estéticas repre-
Anna Paula Buchalla, Veja, Ed. Abril, 4 jul. 2008.
s e n t a m u mg a n h o p a r a a a u t o e s t i m a . M a s a falta d e
b o m - s e n s o está à v i s t a d e t o d o m u n d o .

Pouco tempo atrás, a escritora americana Stacy Se você pensa que a modificação d o c o r p o é u m fenó-

Schiff desfrutava uma linda tarde ao lado de u m amigo m e n o recente, a s s o c i a d o ao d e s e n v o l v i m e n t o d a cirurgia

francês que visitava Nova York pela primeira vez. No fim plástica, engana-se p o r c o m p l e t o . Essa prática já existia

do dia, porém, ele mostrou-se intrigado. Queria saber o e m t e m p o s remotos m e s m o nas s o c i e d a d e s não o c i d e n -

que havia acontecido c o m as pessoas mais velhas na tais. N o Brasil, até hoje o s Caiapós são c o n h e c i d o s por

cidade. Seus rostos eram esticados demais, lustrosos suas ornamentações e pinturas na pele. N a s Filipinas, há

demais. E m Paris, disse ele, os velhos pareciam velhos g r u p o s que t o r n a m seus dentes p o n t i a g u d o s c o m o símbo-

- e não havia nada de errado nisso. A idade do amigo lo d e beleza e s t a t u s . Você já deve ter visto i m a g e n s d a s

francês de Stacy: 8 anos. Sim, até m e s m o uma criança m u l h e r e s girafa africanas, q u e têm o pescoço a l o n g a d o

mais observadora pode perceber que algo de estranho c o m u m colar de múltiplas argolas. Também já deve ter

vem ocorrendo. E não só em Nova York, é claro. Basta ir o u v i d o falar nas mulheres chinesas que apertavam o s pés

a s h o p p i n g s e restaurantes de qualquer grande cidade c o m p a n o s para impedir s e u c r e s c i m e n t o . São muitos

brasileira, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Hori- e x e m p l o s que nos m o s t r a m que as modificações d o c o r p o

zonte, para deparar c o m pessoas de pele alaranjada são praticadas e m várias culturas e sociedades. Isso s i g n i -

(sessões de bronzeamento artificial podem dar esse fica que o c o r p o h u m a n o se presta a manifestações c u l t u -

efeito), maçãs do rosto salientes, testa estirada, lábios rais. P o d e m o s c o n h e c e r u m a s o c i e d a d e a partir da relação

inflados e dentes branquíssimos, de uma alvura inexis- que seus integrantes mantêm c o m s e u s corpos.

tente na natureza. É um contingente que, pelo jeito, ten- A reportagem citada discute a modificação d o corpo e m

de a aumentar, graças aos avanços técnicos e ao bara- excesso, que cria aberrações o u resultados insatisfatórios.

teamento dos procedimentos estéticos. Ficou mais Ela nos ajuda a perceber que nem todo tipo de modificação

fácil, enfim, fazer uma intervenção atrás da outra - e corporal é valorizado culturalmente. Muitos aspectos estão

isso dá vazão à obsessão doentia pela manutenção da e m jogo: conceito de beleza; bem-estar d o indivíduo; s t a t u s

beleza e juventude. "O resultado dessa obsessão são que a mudança confere; poder social de q u e m a pratica etc.

bizarrices produzidas por falta de bom-senso não só dos Além da cirurgia plástica, existem nas sociedades o c i -

pacientes, como dos próprios médicos','diz o presidente dentais outras especializações q u e lidam c o m o corpo,

da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica - Regional c o m o a nutrição (que define o que é saudável e o que não

São Paulo, João de Moraes Prado Neto. é saudável na alimentação), a educação física (que estimula
a prática de atividades que c o m b a t e m o s m a l e s d o s e d e n -
tarismo, além de estabelecer padrões de beleza), a estética erros d e s s a natureza p o d e m ter e m c o n t e x t o s o n d e v i g o -
(que propõe d i v e r s o s tratamentos para adiar o envelheci- ra a pena d e morte.
mento, c o m o os fármacos, aparelhos e cosméticos), a m e - Tema para debate: A justiça é c e g a - p o r q u e é i m p a r c i a l
d i c i n a (que propõe tratamentos preventivos e curativos das ou p o r q u e é e q u i v o c a d a ?
enfermidades e oferece recursos de p r o l o n g a m e n t o da
vida) e a m o d a (que propõe padrões d e vestuário que c u l -
6. DE OLHO NO ENEM
turalmente nos s e r v e m c o m o u m a " s e g u n d a pele"). O t e m a d e redação proposto pelo E n e m n oa n o d e 2006
Dê a s a s à sua imaginação sociológica e faça u m a pes- está r e l a c i o n a d o à i d e i a d e p o d e r , t e m a c e n t r a l d a análise
quisa sobre c o m o o s b r a s i l e i r o s e b r a s i l e i r a s s e r e l a c i o - d e Michel Foucault. Leia o e n u n c i a d o e descubra u m a face
n a m c o m s e u s c o r p o s . Escolha u m dos campos acima positiva d o poder. E m seguida desenvolva s u a redação.
(nutrição, educação física, estética, m e d i c i n a e m o d a ) e
1. ( E n e m , 2006) Redação.
a b o r d e aspectos culturais e s o c i a i s r e l a c i o n a d o s ao c o n -
trole d o c o r p o . Não deixe de ficar atento ao que o s e s p e -
U m a vez que nos tomamos leitores da palavra, invaria-
cialistas dizem: c o m o d e f i n e m o que é " n o r m a l " e o que é
velmente estaremos lendo o mundo sob a influência
" a n o r m a l " e que padrões propõem. U s e e m sua p e s q u i s a
dela, tenhamos consciência disso ou não. A partir de
d a d o s estatísticos e l a b o r a d o s , p o r e x e m p l o , pela O r g a n i -
então, mundo e palavra permearão constantemente
zação M u n d i a l d a Saúde ( O M S ) . Após coletar as i n f o r m a -
nossa leitura e inevitáveis serão as correlações, de
ções, organize-as e m cartazes - fotografias, gráficos e t a -
modo intertextual, simbiótico, entre realidade e ficção.
belas são b e m - v i n d o s - e faça u m a exposição na escola.
Lemos porque a necessidade de desvendar carac-

5. SESSÃO DE CINEMA teres, letreiros, números faz c o m que passemos a


olhar, a questionar, a buscar decifrar o desconhecido.
Juízo
Antes m e s m o de ler a palavra, já lemos o universo que
Brasil, 2007. Documentário, duração 90 m i n u t o s . Direção
nos permeia: u m cartaz, uma imagem, u m som, um
de M a r i a A u g u s t a R a m o s . A trajetória d e j o v e n s p o b r e s
olhar, u m gesto.
infratores c o m m e n o s d e 18 a n o s é a c o m p a n h a d a d e s d e
São muitas as razões para a leitura. Cada leitor tem
o instante d a prisão até o j u l g a m e n t o .
a sua maneira de perceber e de atribuir significado ao
Tema para debate: J u v e n t u d e , d i s c i p l i n a e legalidade.
que lê.

Inajá Martins de Almeida, O a t o d e l e r .


Sociedade dos Poetas Mortos
E s t a d o s U n i d o s , 1989, duração de 129 m i n u t o s . Direção
de Peter Weir. E m u m a e s c o l a c o n s e r v a d o r a e d i s c i p l i n a -
dora v o l t a d a para j o v e n s d e elite da s o c i e d a d e n o r t e - a m e -
Minha mãe muito cedo me introduziu aos livros. Embo-
ricana, u m e x - a l u n o retorna c o m o professor d e literatura.
ra nos faltassem móveis e roupas, livros não poderiam
A rigidez d a formação e da d i s c i p l i n a d a e s c o l a contrasta
faltar. E estava absolutamente certa. Entrei na universi-
c o m o c a r i s m a d o professor, q u e leva o s a l u n o s a enxer-
dade e tornei-me escritor. Posso garantir: todo escritor
gar o c o n h e c i m e n t o de u m a outra m a n e i r a - diferente d a
é, antes de tudo, u m leitor.
ideia d e " d i s c i p l i n a ' ' O f i l m e também m o s t r a outras rela-
Moacyr Scliar, O p o d e r d a s l e t r a s , 2006.
ções de p o d e r que a c o n t e c e m nas famílias d o s estudantes
e as d i f i c u l d a d e s que eles têm para rompê-las.
Tema para debate: L i b e r d a d e v e r s u s d i s c i p l i n a .

Existem inúmeros universos coexistindo c o m o nosso,


A vida de David Gale
neste exato instante, e todos bem perto de nós. Eles
E s t a d o s U n i d o s , 2003, duração 130 m i n u t o s . Direção d e
são bidimensionais e, em geral, neles imperam o bran-
A l a n Parker. U m brilhante p r o f e s s o r d e f i l o s o f i a , a c u s a d o
co e o negro.
de ter e s t u p r a d o e a s s a s s i n a d o u m a c o l e g a d e t r a b a l h o ,
Estes universos bidimensionais que nos rodeiam
está no " c o r r e d o r d a morte'' Às vésperas de s u a e x e c u -
guardam surpresas incríveis e inimagináveis! Viajamos
ção, D a v i d G a l e pede a presença da repórter Bitsey B l o o m
instantaneamente aos mais remotos pontos da Terra
para c o n c e d e r - l h e u m a entrevista na qual contaria t o d a a
ou do Universo; ficamos sabendo os segredos mais
v e r d a d e s o b r e o c a s o . O f i l m e põe e m questão as inter-
ocultos de vidas humanas e da natureza; atravessamos
pretações d o s e s p e c i a l i s t a s e m c r i m e s e a g r a v i d a d e q u e
Está correto o que se a f i r m a e m
eras num piscar de olhos; c o n h e c e m o s civilizações de-
(A) I, apenas. (D) II e III, a p e n a s .
saparecidas e outras que nunca foram vistas por olhos
(B) II, apenas. (E) I, II e III.
humanos.
(C) I e III, a p e n a s .
Estou falando dos universos a que chamamos de
livros. Por uns poucos reais podemos nos transportar a
3. ( E n e m , 2003)
e s s e s universos e sair deles muito mais ricos do que
quando entramos.
PEQUENOSTORMENTOS DA VIDA
Disponível e m : www.amigosdolivro.com.br

(com adaptações). De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o


azul convida os meninos,
C o n s i d e r a n d o q u e o s t e x t o s a c i m a têm caráter a p e n a s as nuvens desenrolam-se, lentas c o m o quem vai
m o t i v a d o r , redija u m texto dissertativo a respeito d o s e - inventando
guinte t e m a : O poder de transformação da leitura. A o preguiçosamente uma história s e m fim... S e m fim
d e s e n v o l v e r o t e m a p r o p o s t o , p r o c u r e utilizar os c o n h e c i - é a aula: e nada acontece,
m e n t o s a d q u i r i d o s e as reflexões feitas ao l o n g o d e s u a nada... Bocejos e moscas. Se ao menos, pensa
formação. S e l e c i o n e , organize e relacione a r g u m e n t o s , Margarida, se ao menos u m

fatos e opiniões para d e f e n d e r s e u ponto d e vista e s u a s avião entrasse por uma janela e saísse por outra!

p r o p o s t a s , s e m ferir o s direitos h u m a n o s . Mário Quintana. P o e s i a s . Rio de Janeiro: Globo, 1961.

2. ( E n e m , 2002) U m a n o v a preocupação atinge os p r o f i s s i o -


Na c e n a retratada no texto, o s e n t i m e n t o d o tédio
nais q u e t r a b a l h a m na prevenção d a A I D S no Brasil.
(A) p r o v o c a q u e o s m e n i n o s f i q u e m c o n t a n d o histórias.
Tem-se observado u m aumento crescente, principalmen-
(B) leva o s a l u n o s a s i m u l a r b o c e j o s , e m protesto contra
te entre o s j o v e n s , d e n o v o s c a s o s d e A I D S , q u e s t i o n a n -
a m o n o t o n i a da aula.
d o - s e , i n c l u s i v e , s e a prevenção v e m s e n d o o u não r e l a -
(C) a c a b a e s t i m u l a n d o a fantasia, c r i a n d o a e x p e c t a t i v a
x a d a . E s s a temática v e m s e n d o a b o r d a d a p e l a mídia:
de a l g u m i m p r e v i s t o mágico.

(D) prevalece de m o d o a b s o l u t o , i m p e d i n d o até m e s m o a


Medicamentos já não fazem efeito e m 2 0 % dos infec- distração o u o exercício d o p e n s a m e n t o .
tados pelo vírus HIV. Análises revelam que u m quinto (E) decorre d a m o r o s i d a d e d a a u l a , e m contraste c o m o
das pessoas recém-infectadas não haviam sido sub- m o v i m e n t o a c e l e r a d o d a s n u v e n s e das m o s c a s .
metidas a nenhum tratamento e, m e s m o assim, não
responderam às duas principais drogas anti-AIDS. Dos 4. (Enem, 2006) N o primeiro semestre de 2006, o M o v i m e n t o
pacientes estudados, 5 0 % apresentavam o vírus FB, G l o b a l pela Criança, e m parceira c o m o Unicef, d i v u l g o u o
uma combinação dos dois subtipos mais prevalentes relatório Salvando vidas: o direito das crianças ao trata-
no país, F e B. mento de HIV e AIDS. N e s s e relatório, c o n c l u i - s e q u e o

Adaptado do J o r n a l d o B r a s i l , 2 de outubro de 2001. a u m e n t o da prevenção primária ao vírus deverá reduzir o


número d e n o v o s c a s o s de infecção entre j o v e n s de 15 a
24 a n o s d e idade, c o m o mostra o gráfico a seguir.
D a d a s as afirmações a c i m a , c o n s i d e r a n d o o e n f o q u e d a
prevenção, e d e v i d o ao a u m e n t o d e c a s o s d a doença e m
a d o l e s c e n t e s , a f i r m a - s e que:

I. O s u c e s s o inicial d o s coquetéis anti-HIV talvez t e n h a l e v a -


d o a população a se d e s c u i d a r e não utilizar m e d i d a s d e
proteção, pois s e c r i o u a ideia d e q u e estes remédios
sempre funcionam.

II. O s vários t i p o s d e vírus estão tão resistentes q u e não há


n e n h u m tipo d e t r a t a m e n t o eficaz n e m m e s m o q u a l q u e r
m e d i d a d e prevenção a d e q u a d a .

III. Os vírus estão c a d a vez m a i s resistentes e, para evitar s u a 2005 2006 2007 2008 2009 2010
disseminação, o s infectados também d e v e m usar c a m i s i - c o m m a i o r prevenção
nhas e não a p e n a s a d m i n i s t r a r coquetéis. c o m a prevenção atual
C o m base nesses d a d o s , analise as seguintes afirmações. (C) O Brasil, p r i m e i r o país a e l i m i n a r o tráfico d o m i c o -
I. Ações e d u c a t i v a s de prevenção d a transmissão d o vírus --leão-dourado, garantiu a preservação dessa espécie.
HIV poderão c o n t r i b u i r para a redução, e m 2008, d e m a i s (D) O a u m e n t o da b i o d i v e r s i d a d e e m outros países d e p e n -
de 2 0 % d o s n o v o s c a s o s d e infecção entre o s jovens, e m de d o comércio ilegal da fauna silvestre brasileira.
relação a o a n o d e 2005. (E) O tráfico de a n i m a i s silvestres é benéfico para a preser-

II. Ações e d u c a t i v a s relativas à utilização d e p r e s e r v a t i v o s vação das espécies, pois garante-lhes a sobrevivência.

nas relações s e x u a i s reduzirão e m 2 5 % ao ano o s n o v o s


c a s o s de A I D S entre os j o v e n s . NEM SEMPRE E 0 CRIMINOSO
III. S e m o a u m e n t o de m e d i d a s d e prevenção primária, esti- QUEM VAI PARA ATRÁS DAS GRADES.
m a - s e que, e m 2010, o a u m e n t o d e n o v o s c a s o s d e infec-
ção p o r HIV entre o s j o v e n s será, e m relação ao a n o d e
2005, 5 0 % maior.

É correto a p e n a s o que se a f i r m a e m
(A) l.

(B) II.
(C) III.
(D) I e II.
(E) II e III.

5. ( E n e m , 2007) A f i g u r a a b a i x o é parte de u m a c a m p a n h a
publicitária.
Essa c a m p a n h a publicitária r e l a c i o n a - s e d i r e t a m e n t e c o m
a seguinte afirmativa:

(A) O comércio ilícito d a f a u n a silvestre, a t i v i d a d e d e 38 milhões de vidas! Contribua com essa luta!
Essa f J m~ai<i to MWK k * m * stasr*-
g r a n d e i m p a c t o , é u m a ameaça para a b i o d i v e r s i d a d e
& reirato
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nacional. l*ri sobe i > x -írs i e i t i s x t

iima sremitodareima,apwi t>' *x. is N M


Renctas
(B) A manutenção d o mico-leão-dourado e m jaula é a m e - i» ,\fSJ"»ivfrs-Ci TWTB-l ri ;XJ*JÍ8 A. dj-iílS 0 TSMff»
i :o .v 4J táfcc ;* srrws è crua, pat ^OÍTO * * Í èn&tM
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www. renctas.org. br
dida que garante a preservação dessa espécie a n i m a l .
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