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Universidade Federal de Campina Grande

Centro de Humanidades
Unidade Acadêmica de História
Programa de Pós Graduação em História – PPGH/UFCG

UM ESPECTRO RONDA A HISTORIOGRAFIA SOBRE A DITADURA


MILITAR NO BRASIL: O REVISIONISMO1
Roberta dos Santos Araújo2
Em uma situação como essa, a polêmica
se faz necessária, pois não se trata de
defender ou atacar contribuições
individuais de pesquisadores, mas de fazer
avançar um debate cuja relevância social
extrapola em muito os limites da
“academia” (MATTOS, 2013, p. 78).
INTRODUÇÃO

Quando ingressamos no curso de história não somos, à priori, alertados


sobre todas as responsabilidades que carregamos, mas, com o amadurecer da
profissão passamos a entender que aquilo que escrevemos, falamos e
divulgamos, enquanto historiadores e historiadoras, tem impactos os mais
variados na sociedade. A responsabilidade e a honestidade intelectual, no
entanto, devem ser premissas para que o conhecimento histórico seja difundido
e consumido de forma eficaz, porém, o nosso campo de conhecimento vez ou
outra é atormentado por “fantasmas” que assustam e distorcem os fatos.
Desde o século XX a história vem enfrentando o revisionismo 3 de episódios
emblemáticos. Nas linhas que seguem, faremos alguns apontamentos sobre o
revisionismo que ronda a historiografia da ditadura militar no Brasil.

Mesmo não sendo um fenômeno recente, o revisionismo, que no Brasil


ganhou maior força no momento que o golpe de 1964 completava 40 anos, tem
1
Trabalho apresentado à disciplina de História e Historiografia da Ditadura Militar no Brasil,
ministrada pelo Professor Luciano Mendonça de Lima, período 2019.2.
2
Aluna do curso de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande.
E-mail: robertaaraujo514@gmail.com.
3
O revisionismo histórico não interferiu apenas nos temas que gravitam em torno da Ditadura
Militar no Brasil. A Revolução Francesa, a Revolução Russa, Holocausto, por exemplo, são
episódios históricos que sofreram reinterpretações que destoam das interpretações clássicas.
No caso do holocausto, bem como da Ditadura Militar no Brasil, as reinterpretaçes do passado
histórico desses eventos chegaram ao extremo, do revisionismo passaram ao negacionismo.
Tal movimento tenta negar que os citados eventos de fato ocorreram.
ganhado cada vez mais terreno nos espaços acadêmicos, na mídia, nas rodas
de conversas e no mercado editorial. Segundo o historiador Damian de Melo
(2017), o revisionismo cresce editorialmente a partir das publicações dos
chamados “Guias politicamente incorretos”, tradição inaugurada nos Estados
Unidos, mas logo importada para o Brasil, mas desde a década de 1990 os
sinais das teses revisionistas já podiam ser vistos. Mas foi no ano de 2004 que
historiadores de ofício dedicaram-se a revisar os episódios que se
desenrolaram na história do Brasil a partir do golpe de 1964. Jorge Ferreira,
Argelina de Figueiredo, Carlos Fico, Daniel Aarão Reis Filho, por exemplo,
estiveram na dianteira do processo revisionista da temática. Mas afinal, em que
consiste o revisionismo? O que contestam as teses revisionistas? Quais as
implicações políticas e sociais que tais reiterpretacoea do passado podem
acarretar? Quais os críticos do revisionismo? Qual a importância de combater o
revisionismo? Tais questões compõem o mote do presente texto.

UM ESPECTRO RONDA A HIISTORIOGRAFIA: O REVISIONISMO

Cabe aqui usar a máxima do historiador Demian de Melo (2005) quando


afirmou que existem ciclos do revisionismo, ou seja, que ao longo do tempo o
fenômeno foi se transformando. Enzo Traverso (2012), acrescentando suas
contribuições para o debate, também imprime uma feliz expressao sobre o
fenômeno, segundo o autor, a palavra revisionismo apresenta características
camaleônicas, foi capaz de transformar-se ao longo do século XX, assumindo
novos significados e expressando visões problemáticas dos episódios
históricos. Em um breve histórico, Traverso pontua que a sua gênese está no
interior da social-democracia alemã, quando Eduard Bernstein afirmava ser
necessário revisar algumas teses de Karl Marx. De imediato, a ode revisionista
proposta pelo ex secretário de Engels foi alvo de críticas vindas de intelectuais
como Rosa Luxemburgo, Karl Kautsky e Lenin. As implicações, nesta primeira
fase, não foram de caráter historiográfico, mas muito mais de caráter político e
ideológico.

No pós Segunda Guerra Mundial, entra em cena mais um ciclo do


revisionismo. Temas polêmicos como as motivações que levaram aos conflitos
mundiais, as origens da Guerra Fria, as bombas atômicas e a superioridade
estratégica dos Estados Unidos naquele episódio, além dos polêmicos casos
de revisão e negação do holocausto, foram revisitados por historiadores de
ofício e por intelectuais de outros campo do saber. Neste ciclo, a historiografia
foi significativamente afetada, passou por transformações e inquietantes
questões vieram à tona. Nomes como Fritz Fisher, Moshe Lewin, François
Furet, dentre outros se destacam na atividade de revisão. No plano espacial,
Estados Unidos e Europa encabeçaram o movimento que anos depois chegou
no Brasil.

Pensar a ascensão do revisionismo no Brasil é reportar-se para o


momento que o golpe empresarial militar de 1964 completou 40 anos. Em
20044, jornalistas, acadêmicos e historiadores debruçaram-se sob a temática
da ditadura militar no Brasil. Livros foram publicados, ampliou-se o mercado
editorial sobre o tema em tela, teses e dissertações se avolumaram, artigos
ganharam páginas de jornais e revistas de significativa circulação no país.
Segundo Caio Navarro de Toledo (2004), duas tendências de abordagem
despontaram naquela ocasião, uma ligada aos setores militares, e outra
oriunda dos meios acadêmicos, esta última de posição mais à esquerda,
progressista, ao passo que os militares imprimiam uma versao conservadora
da ditadura brasileira.

Foi em seu artigo, “1964: Golpismo e Dmocracia. As Falácias do


Revisionismo”, que Caio Navarro de Toledo (2004) apontou os equívocos e
perigos da historiografia que vinha se esboçando sobre os 21 anos de ditadura
militar no Brasil. Toledo abre os caminhos da crítica à literatura revisionista.
Aponta seus limites interpretativos, incoerências, falta de profundidade
empírica e, como não poderia deixar de ser, os perigos políticos e sociais que
ela traz. Toledo deixa claro que as “comemorações” dos 40 anos do golpe
tinham como mote curar os ressentimentos, ou seja, virar a página truculenta e
sanguinária da história da ditadura militar. No entanto, as questões de cunho
simbólico, como fazer cair no esquecimento as mortes e as opressões
ocorridas nos anos de chumbo, desembocaram em problemáticas de maior
vulto como veremos adiante.
4
Antes da data que marcava os 40 anos do golpe, em 2002 o jornalista Elio Gaspári deu início ao
lançamento da sua série de livros sobre a Ditadura, a saber: A Ditadura Envergonhada (2002), A Ditadura
Escancarada, A Ditadura Derrotada, A Ditadura Encurralada, A Ditadura Acabada. Obras publicadas pela
editora Intrínseca, em seu conteúdo vukgatas retiradas das teses revisionistas de autores como Daniel
Aarão Reis Filho, figura conhecida no mundo dos revisionistas como veremos mais adiante.
Segundo o historiador Damian de Melo (2005), a corrente revisionista
tem certas manias, seja no campo teórico ou metodológico. Nos primeiros
trabalhos, que têm como referência a produção de Argelina Figueiredo 5 (1993),
a mania adotada foi declarar a morte de determinadas linhas interpretativas,
dentre elas o materialismo histórico. A falácia difundida nos meios acadêmicos
e intelectuais de que os paradigmas interpretativos estruturais estavam
ultrapassados atingiu em cheio as produções em tela. A “alergia” ao maxismo,
mas não somente ela parafraseando o historiador Felipe Demier (2014), levou,
ao fim e ao cabo, o campo da história à interpretações ressentidas e rasas.

Neste sentido, nos trabalhos que foram surgindo na esteira revisionista,


o caráter de classe do golpe de 1964 foi desaparecendo, ou quando está
presente é de forma generalizada e sem problematizações. O alvo das revisões
foram trabalhos de autores como Octávio Ianni, Francisco Weffort 6, René
Dreiffus, Florestan Fernandes, Jacob Gorender, dentre outros que traziam em
seu cerne a interpretação de 1964 como sendo um golpe orquestrado pelas
classes dominantes associadas ao grande capital para frear os ímpetos das
classes subalternas e pôr em prática o plano econômico vislumbrado pelo
capitalismo. Sobre o esvaziamento do sentido classista do golpe de 64, afirmou
Mattos (2015)

Toda a ênfase dessas análises já clássicas no sentido de


classe do golpe e da Ditadura parece ter sido
secundarizada, ou mesmo descartada, por uma literatura
especializada mais preocupada em caracterizar o Golpe
de 1964, ou simplesmente como movimento militar, ou

5
A obra “Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política”, publicada no
ano de 1993 pela editora Paz e Terra.
6
Francisco Weffort e Otávio Ianni escreveram trabalhos de fôlego sobre o período que se
convencionou chamar de “populismo". Na tentativa de encontrar respostas para o golpe de
1964, os autores aprofundaram-se nos estudos sobre os governos Vargas, JK, Jânio Quadros
e João Goulart, caracterizados como sendo governos populistas. Na interpretações dos
autores, a crise do modelo populistas foi o impulso para o golpe de 64, quando a aliança entre
classe trabalhadores e Estado não mais se sustentava, a luta de classe se exacerbou e as
classes dominantes golpearam a cambaleante democracia na tentativa de assegurar o poder.
Logo, o conceito de populismo também foi alvo da teses revisionistas. Ângela de Castro Gomes
inaugurou o debate, em contraposição ao populismo propôs o conceito de trabalhismo,
defendendo que não existia cooptação total, por parte do Estado, da classe trabalhadora, se
haviam consensos por parte da classe dominante, é porque haviam demandas das classes
trabalhadoras, logo, estas não eram massas de manobra. A partir da leitura de Castro Gomes,
muiitos outros trabalhos surgiram fazendo uso do conceito de trabalhismo, no entanto, com
teses problemáticas. O debate sobre o revisionismo do período populista é travado por Felipe
Demier (2014) no artigo que compõe a coletânea organizada por Damian de Melo (2014).
como resultante deu a convergência antidemocrática
ampla. (MATTOS, p.53).
Marcelo Badaró (2015), no trecho citado, explana o processo de
secundarizada do sentido classista do golpe, e nos apresenta outros temas que
foram alvos do debate revisionista: O caráter eminentemente militar que é dado
ao golpe de 1964, e a questão da antidemocrática presente tanto na esquerda
quanto na direita nos projetos de poder da época. Como se não bastasse
contestar as teses econômicas e classistas do caráter do golpe, tais
interpretações também atribuem à radicalizacao da esquerda a tomada do
poder pelos militares. O golpe foi preventivo, pois um espectro rondava o
campo e a cidade no Brasil da época: O comunismo. Segundo Mattos (2015), o
artigo pioneiro nessa direção foi o do Gláucio Ary Soares (1994), no entanto,
tais teses ganham força em análises feitas por Jorge Ferreira e Daniel Aarão
Reis Filho, para tais autores, inclusive, as veleidades golpistas estavam
presentes tanto na direita quanto na esquerda, ambas de feitios
antidemocráticos.

As falácias do revisionismo não param por aí. Em textos deste prisma de


análise, o golpe não aparece como não tendo um projeto elaborado de
governo, sendo seu intento apenas interromper a escalada comunista que o
país enfrentava. Descartando os efeitos conjunturais, de um projeto de vulto do
grande capital, como apontava Dreiffus, os revisionistas não levam em conta
todas as ações tomadas pelo Estado ditatorial logo nos primeiros momentos
após o golpe, medidas tomadas nala tentativa de fechar ainda mais o poder e
pôr em prática o projeto econômico almejado. Para os autores, a perpetuação
do regime se deve, sobretudo, ao apoio apoio da sociedade. Adverte-nos
Damian de Melo que sociedade aparece aí como um termo generalizante, sem
classificações mais precisas, ou seja, generalização parece ser mais uma das
manias dos revisionistas.

Rodrigo Pato Sá Motta (2014), em seus trabalhos sobre o período,


levanta as teses de apoio popular ao regime, bem como defende a tese de que
ocorreram adaptações e acomodações sociedade ao regime, levando ao
leitimpressão de que o o mostro da ditadura não era tão feio como pintavam
seus adversários. Tal interpretação não considera, como o fazem autores
amparados no materialismo histórico, todas as contradições que existem na
história, nivelam por baixo toda e qualquer fresta aberta pela ditadura, taxando
como “dita branda". Para sair do eixo suldeste, é do mesmo ano o trabalho de
doutoramento da historiadora Marcilia Gama da Silva, defendido pela
Universidade Federal de Pernambuco, no qual ela apresenta indícios,
superficiais, de que havia apoio popular ao regime quando cartas de mães de
estudantes universitários do curso de medicina eram enviadas aos órgãos de
informação da ditadura. Qual posição social ocupam as autoras de tais cartas?
É possível caracterizar este como sendo um caso de apoio popular significativo
ao regime? São perguntas que ficam depois do contato com estes textos.

A periodização da ditadura também é outro ponto exaustivamente


modificado pelos revisionistas. Neste sentido, o historiador Daniel Aarão Reis
Filho fez escola, para o autor a ditadura ao teve início com anpromulgacao do
Ato Institucional Número 5, o A-5, em sendo assim, o fim dos anos de chumbo
se deu no ano de 1979, quando o mesmo ato foi suspenso. Para o mesmo
autor, aponta Mattos (2015), decretado o fim dos Atos Institucionais e
restabelecidas as eleições significaram o fim da ditadura. O mesmo autor não
considera todos os casos de censura, perseguições e repressões ocorridas no
período após a suspensão dos Atos, as intervenções sofridas por sindicatos,
bem como as eleições diretas presidenciais que só retomaram no ano de 1989.
Os 21 anos de ditadura militar no Brasil, mas páginas revisionistas, foram
desonestamente diminuídos.

Até no que diz respeito à denominação do período o revisionismo pôs as


suas garras. De ditadura militar, Dreiffus alcunhou de empresarial-miliatar,
dando conta dos setores da sociedade civil que estiveram envolvidos nas
tramas que desencadearam no golpe. Os revisionistas, por sua vez, passaram
a denominar de ditadura civil-militar, e o civil, como já é sabido, aqui adquire
um caráter generalizante. Outros ainda se reportam ao período como sendo
uma fase de autoritarismo, regime autoritário, “dita branda", etc., todos epítetos
com consequências perigosas político e socialmente.

Alem das problemáticas teses, o revisionismo peca em questões de


método. Ao longo das leituras de alguns autores que enquadram-se neste
campo identificamos diversas limitações. É sabido que muita documentação da
época foi destruída, e boa parte ainda não está disponível, mas a falta de
documentos não é o problema para a historiografia sobre a Ditadura. O
problema talvez seja, no caso das teses aqui apontadas, a falta de
problematização das fontes usadas. Questionar e problematizar o material
coletado para análise, exercício elementardas labuta historiográfica, parece ser
um obstáculo para revisionistas.

A título de ilustração, Mattos (2015) aponta a tese da popularidade do


Ditador Médici defendida por Aarão Reis. Para este historiador, a popularidade
do ditador era uma realidade, uma vez que a pesquisa IBOPE da época
conferia-lhe 82% de aprovação. Como aponta Mattos, o historiador não se dá
nem ao trabalho de questionar a fonte, sobretudo no periodo em que tal
pesquisa IBOPE foi feita, vale lembrar que estavamos sob a egide de uma
ditadura militar, não soaria de bom tom aos ouvidos dos ditadores ouvir críticas
e discordância de seus subordinados.

As implicações e perigos advindos de uma literatura revisionista sobre a


ditadura militar brasileira podem ser sentidos no cotidiano. Desde a década de
1990 que teses revisionistas despontam no cenário nacional, influenciando
trabalhos acadêmicos, escalando a passos largos as colunas editoriais,
ocupando páginas de jornais e revistas, chegando aos lares por meio da
televisão e da internet. No que diz respeito aos trabalhos academicos sobre o
recorte temporal em tela, muitos são as monografias, dissertações e teses que
seguem esta linha interpretativa.

Focar em estudos que compreendem o período final da ditadura


empresarial militar no Brasi, como é a proposta da nossa pesquisa de
mestrado, esbarra em desafios inúmeros, mas que tornam-se instigantes,
sobretudo quando nos deparamos com possibilidades teóricas e metodológicas
que superam em muito os limites daquilo que vem crescendo no campo do
revisionismo histórico. Ao negar a periodização de 21 sabor de ditadura, por
exemplo, os revisionistas relegam às tramas politicas e institucionais os
motivos que originaram e susteram o golpe. Ao fazer tal manobra,
negligenciam os fatores conjunturais que foram condicionantes para a
desestruturação da ditadura, a saber, a crise que o capitalismo passou a
enfrentar a partir da década de 1970, muito em função da questão petrolífera
que assolou o mundo à época.

A insustentabilidade da ditadura começou a dar seus sinais quando o


“milagre econômico” passou a perder de sua força, o bolo que crescia e não
gera repartido começou a fazer falta na mesa dos trabalhadores brasileiros.
Aos poucos, e com a chamada transição, os movimentos sociais passaram a
reorganizar-se e pautas como eleições diretas para presidente, liberdade de
expressão, reforma agrária, dentre outras, voltaram à ordem do dia nas lutas
sociais. Foi nesse contexto de retomada das lutas dos subalternizados que
surge o Movimento dos Trabalhadores sem Terra. Sem focar e no caráter de
classe do golpe de 1964, sem pormenorizar os efeitos da crise do capital nas
decadas finais da ditadura, ou seja, sem abordar o periodo sob uma
perspectiva da luta de classes, dificilmente daríamos conta de toda a
complexidade da gênese do MST.

Quando vamos tratar do revisionismo sobre a historiografia da ditadura


militar muitos são os pontos que merecem abordagem. Os limites destas
páginas dedicadas a este breve ensaio nos impedem de aprofundar questoes
que merecem mais ênfases. Muitas são as minuças que se apresentam para o
debate, no entanto, todas elas são pertinentes, pois como afirmou o historiador
Carlos Zacarias (2019), não devemos subestimar o poder nefasto de tais teses,
“o diabo mora nos detalhes”. Revisar temáticas tão caras à história nacional
sem o mínimo de cuidado e honestidade tem impactos diretos da formação da
consciência histórica. Não custa aqui lembrar todas as barbaridades que
ouvimos recentemente sobre os eventos ocorridos eno periodo de 1964 a
1985. “Não foi golpe, foi revolução”, “queremos intervenção militar”, “quem
procura osso é cachorro", termo usado para referir -se aquelas pessoas que
ainda lutam em busca dos corpos de familiares desaparecidos no período da
ditadura. Tais expressões foram recorrentes nos últimos anos, e todas elas
encontram respaldo em teses de historiadores revisionistas.

Como afirma Marcelo Badaró na epígrafe usadas para abrir o presente


ensaio, tal debate se faz necessario porque não se trata apenas de querelas
envolvendo o público acadêmico. Tal debate se faz necessário, sobretudo,
porque ele tem extrapolado os muros das universidades e tem chegado aos
jornais, às revistas e às redes sociais, sendo consumida pela sociedade
brasileira, sendo apropriado por políticos e militares para pintar os anos
nefastos da ditadura militar como sendo um monstro não tão assustador como
pintaram os intelectuais da esquerda. Historiadores e historiadores revisionistas
têm sua parcela de culpa nos rumos que a consciência histórica da atualidade
tem tomado. É preciso refletir cada vez mais sobre as consequências de
nossas produções.
REFERÊNCIAS

DE MELO, Damian Bezerra. A miséria da historiografia: O revisionismo


historiográfico 40 anos depois do golpe de 1964. Monografia (Bacharel em
História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005.
DEMIER, Felipe. Populismo e historiografia na atualidade: lutas operárias,
cidadania e nostalgia do varguismo. In: DE MELO, Damian Bezerra (org) A
miséria da Historiografia: uma crítica ao revisionismo contemporâneo. Rio de
Janeiro, Consequência, 2014.
FIGUEIREDO, Argelina. Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política.
Rio de Janeiro: Paz e Terra ,1993.
MATTOS, Marcelo Badaró. O sentido de classe do golpe de 1964 e da ditadura: um debate
historiográfico. In: 1964: 50 anos depois a ditadura em debate. Aracaju, EDISE, 2015, pp.
35/83.
MOTTA, Rodrigo Parto Sá. Os espiões do Campi. In: As universidades é o Regime Militar:
cultura política brasileira e modernização autoritária . Rio de Janeiro, Zahar, 2014, pp.
193/241.
SENA JÚNIOR, Carlos Zacarias de. Et.al. Contribuição à crítica da
historiografia revisionista. Consequência, Rio de Janeiro, 2017.
SILVA, Marcília Gama da. Da Informação à repressão: as bases do estado de
exceção no Brasil. In: informação, repressão e memória. Recife, EDUFPE,
2014, pó. 38/97.
TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: golpismo e democracia: as falácias do
revisionismo. Crítica Marxista, Campinas-SP, Revan, nº 19, p. 27-48, outubro
de 2004.

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