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“GRAMSCISMO CULTURAL”: A IDEOLOGIA NEOFASCISTA

BRASILEIRA

José Luciano de Queiroz Aires1

Antônio Gramsci morreu vítima do fascismo italiano, e agora voltou a incomodar


os neofascistas2, incluindo o caso do Brasil no qual a extrema direita chegou ao poder
nas eleições presidenciais de 2018. Entretanto, esse fenômeno político não tem sido uma
particularidade brasileira, uma vez que em vários países do globo tem crescido um
movimento fascistizante no seio da sociedade civil e ocupado os espaços institucionais
da política. Essa onda conservadora3 tem sido condicionada por uma crise econômica do
capitalismo contemporâneo juntamente com uma crise política que traz, em seu bojo,
críticas às instituições do blindado regime democrático-burguês4.

No Brasil, esse crescimento da extrema direita ficou mais visível, sobretudo, a


partir de 2015 quando as ruas se encheram de um colorido verde-amarelo desfilando o
samba enredo do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. Virou praxe ligar a
TV aos domingos para assistir, ao vivo, um movimento de massa fomentado por
segmentos das classes dominantes, da grande mídia empresarial e do judiciário parcial
que deu lastro para a articulação de um golpe institucional que pôs fim aos governos
1
Professor de História da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Atual Tutor do PET-
História. Agradeço imensamente aos companheiros Carlos Zacarias de Sena Júnior e Luciano Mendonça
de Lima, além dos integrantes do grupo de estudos Antônio Gramsci, da UFCG, pela leitura atenciosa,
pelas críticas construtivas e pelas sugestões que certamente me ajudaram na escrita desse texto.
2
Existe um debate a respeito do uso do conceito de fascismo para caracterizar o atual momento político
brasileiro que não cabe ser discutido no espaço desse artigo. Entretanto, faço uso do conceito de
neofascismo por entender que, se não estamos vivendo um regime político fascista conforme as
características daqueles do período Entreguerras, também não estamos mais no mesmo patamar da
Democracia burguesa de 1985. Vivemos uma escalada autoritária crescente, seja no âmbito da sociedade
civil ou do próprio governo, quando não um retroalimentando o outro. Recomendo a leitura do seguinte
livro: DEMIER, Felipe e FIUZA, Juliana (orgs) O Neofascismo no poder (ano I): análises críticas sobre
o governo Bolsonaro. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

3
Estou ancorado na leitura de uma série de artigos que constam do livro DEMIER, Felipe e HOEVELER,
Rejane. (Org.) A onda conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil. Rio de Janeiro:
Mauad X, 2016.
4
DEMIER, Felipe. Depois do golpe: a dialética da democracia blindada no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad
X, 2017.
lulistas de conciliação de classes. Diante de um quadro no qual as frações burguesas
veem seus lucros diminuídos, a saída para a crise tem sido pelo lado direito da História,
fazendo-se ajuste fiscal e desmontando direitos sociais historicamente conquistados pela
classe trabalhadora. Na mesa da política foi posta a agenda das contrarreformas exigidas
pela classe dominante. Setores da burguesia que tinham se beneficiado e apoiado os
governos de conciliação de classes, passaram a enxergar neles, entraves para a
efetivação, rápida e segura, de um projeto de desmonte dos direitos trabalhistas. Ao
mesmo tempo, o rompimento da aliança se deu diante da crise de consenso em função
de o lulismo não mais conseguir impedir o aumento da luta de classes com greves que
vinha num crescente e explodiram com mais força no ano de 2013 5. Desse modo, no
cálculo político do grande capital, era preciso trocar de governo, colocando, no Palácio
do Planalto, o vice-presidente Michel Temer e, posteriormente, trazendo os tucanos de
volta com apoio do DEM e dos partidos do chamado centrão nas eleições de 2018.
Contudo, o enredo não saiu como previamente elaborado. Tinha um Jair Bolsonaro e
um bolsonarismo no meio do caminho; o caminho pelo qual a classe dominante teve que
marchar, mesmo não sendo sua aposta política inicial. Temer assumiu o poder mediante
o golpe de 2016 e Bolsonaro, após as eleições de 2018. O primeiro começou a cumprir a
agenda burguesa que havia sido colocada sobre sua mesa e para qual ele fora colocado
nas hostes palacianas. Em pouco mais de dois anos aprovou a contrarreforma
trabalhista, a Emenda Constitucional 95, a terceirização irrestrita, a contrarreforma do
Ensino Médio, deixando para o sucessor a tarefa de completar o desmonte com a
aprovação da contrarreforma da previdência e os demais desmontes da res-pública em
curso no Brasil.

É nessa conjuntura que a extrema direita saiu do armário direto para as ruas.
Continuaram marchando com “Deus acima de tudo e de todos”, mas acrescentaram aos
rosários que ostentavam nas marchas de 1964, outros símbolos emblemáticos
carregados nas passeatas domingueiras de 2015: as panelas barulhentas de setores
insatisfeitos da classe média e da pequena-burguesia e os patos amarelos da FIESP
vestidos com a camisa da CBF. Embora as apropriações do suposto “marxismo cultural”
gramsciano pela extrema-direita já possa ser notado em 1994 com o livro de Olavo de
Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural, a intensificação dos ataques,

5
Sobre o assunto, conferir texto de Rui Braga, Terra em transe: o fim do lulismo e o retorno da luta de
classes, no livro As contradições do lulismo, organizado por André Singer e Isabel Loureiro.
desqualificações e leituras simplificadas e equivocadas dos Cadernos do Cárcere tem
ocorrido com maior força nesse contexto de crises econômica e política.

Dito isso, passo ao objetivo central desse artigo: o mesmo se propõe a analisar as
apropriações político-ideológicas da teoria marxista de Gramsci, realizadas pela extrema
direita brasileira, por eles denominada de “gramscismo cultural”.

1. O “SANTO” OLAVO DE CARVALHO E A ESCOLA CONSERVADORA DO


“GRAMSCISMO CULTURAL”
O livro fundador da teoria do suposto “gramscismo cultural” brasileiro foi
publicado, pela primeira vez, no ano de 1994 e se intitula A Nova Era e a Revolução
Cultural6. Escrito por Olavo de Carvalho, o mesmo tem se transformado em um
verdadeiro catecismo da extrema direita, inclusive, orientando os discípulos olavistas
que se arvoram a escrever artigos em sites e blogs, seguindo a linha do conteúdo do
mestre. Aliás, mestre esse, que vive nos Estados Unidos a vender cursos online e a
orientar a politica de governo do presidente Jair Bolsonaro, incluindo a nomeação de
ministros como os da Educação e o das Relações Exteriores.

No seu livro, Olavo de Carvalho ironiza o marxista intitulando-o de “Santo


Antônio Gramsci e a salvação do Brasil”, adjetivação que certamente fez Gramsci se
revirar no túmulo. O materialista italiano não tinha em mente formar discípulos nem
panteão religioso com adoradores, já o astrólogo que se intitula filósofo, certamente está
muito próximo da metáfora de santo salvador, pois tem uma cristandade a idolatrá-lo
nas exibições fílmicas de o Jardim das Aflições. O olavismo, portanto, se constitui num
rebanho, esse sim, que pretende “salvar o Brasil do comunismo” e defender a “moral e
os bons costumes” ameaçados, segundo eles, pelo fantasma de Antônio Gramsci que
resolveu migrar do cemitério da península para vir “destruir os verdadeiros valores” da
família brasileira. Nesse caso, para os neofascistas do presente, Gramsci seria o
demônio, enquanto Olavo, o messias.

O livro é bastante frágil e superficial na pretensa análise da teoria gramsciana. A


sua quarta edição, aliás, que faz um destaque na capa de se tratar de uma edição “revista
e muito ampliada”, conta com apenas 239 páginas escritas para tentar esmiuçar as quase
2.000 páginas dos Cadernos do Cárcere sem, sequer, ao menos, fazer uma citação de

6
CARVALHO, Olavo de. A nova era e a Revolução Cultural: Frijof Capra & Antonio Gramsci. 4 ed.
São Paulo: Vide Editorial, 2014.
Gramsci que o prove as afirmações olavistas. Aliás, boa parte dessa edição é formada
por “Apêndices” que, subtraídos, juntamente com o primeiro capítulo sobre Fritjof
Capra, resumem-se a apenas 41 páginas para Carvalho dissecar a respeito da teoria da
“revolução cultural” em Gramsci.

Sem espaço nesse artigo para analisar o mesmo com densidade, cumpre destacar
que este livro de Carvalho vai balizar as publicações dos neofascistas nas redes sociais,
conforme veremos no tópico seguinte.

2. OS DISCIPULOS REPETEM O MESTRE: A FARSA IDEOLÓGICA DO


“GRAMSCISMO CULTURAL”
Agora é momento de ampliar o ângulo da investigação no sentido de perscrutar os
interesses classistas que se encontram por trás de textos divulgados, lidos e comentados
nas redes sociais, por intelectuais de direita tradicional e de extrema direita. Para inicio de
conversa, convido o leitor a acompanhar uma interpretação iconológica da imagem que
segue:

Fonte:https://medium.com/@Arierbos/a-ascens%C3%A3o-e-queda-das-esquerdas-653d28452202.

No quadro, podemos ver o desenho do assim denominado “Marxismo Cultural”


representado como uma estrutura formada por diversas peças que o compõem e as quais o
alimentam. No conjunto das peças que formam a engrenagem e faz o motor funcionar,
podemos visualizar suas várias dimensões: na política, é apresentado um conjunto de
partidos tidos pelos neofascistas como socialistas ou comunistas, indo do PSOL ao
PSDB; no movimento sindical, são representadas outras tantas supostas instituições
sindicais revolucionárias, incluindo a CUT e a CTB; no âmbito dos movimentos sociais, é
dado destaque aos movimentos feministas, o MTST, o MST, as Frentes Brasil Popular e
Povo Sem Medo, além, é claro, do movimento estudantil em suas variantes diversas; na
educação, a UNE e a UBES são o centro da preocupação da extrema direita, uma vez que
para eles “todos são comunistas de carteirinha”; e, por fim, os tão temidos direitos
humanos, cujas siglas supostamente comunistas aparecem também interligadas junto à
foice e o martelo, símbolo maior do comunismo em dimensão internacionalista.
Uma interpretação iconológica partindo do método sugerido por Erwin Panofsky 7
nos leva a procurar os “significados intrínsecos” ao quadro de imagens, ou seja, a buscar
entender aquilo que ela expressa além do “significado fatual” e “expressional”. No caso
do conjunto imagético em questão, podemos fazer uma leitura do substrato ideológico
neofascista brasileiro, intrinsecamente, ilustrado por meio de um conjunto de signos
manipulados por seus intelectuais que certamente compreenderam o poder da imagem
como forma mais atrativa de educar na era da sociedade digital. Nesse sentido, a
mensagem é emitida para seus receptores e o “significado intrínseco”, fascistizante e
perigoso é o seguinte: a) que todos os partidos políticos brasileiros são de esquerda,
exceto o do governo de extrema direita, convidando as pessoas ao anticomunismo e,
consequentemente, a negação, extinção e repressão aos militantes partidários e aos
próprios partidos- (partido único ou a extinção de todos os partidos?); b) que as centrais
sindicais são marxistas e comunistas, portanto, precisam ser desmanteladas e/ou postas
sob intervenção; c) que os movimentos sociais são “baderneiros” e “vagabundos
invasores de propriedades alheias” e que também precisam ser riscados do mapa na lei ou
na marra; c) que o conjunto do movimento estudantil não é composto por “estudantes
autênticos”, e sim, por estudantes que são “doutrinados ideologicamente por professores
marxistas” e que vivem apenas de “fumar maconha e fazer sexo nas universidades”; d)
que os direitos humanos servem para “proteger bandidos” e, portanto, precisam ser
aniquilados, pois “bandido bom é bandido morto” e a solução para a violência societária é
“entregar armas aos cidadãos de bem”. Acredito que fica bastante evidente a negação das
liberdades democráticas por parte de grupos políticos alinhados com o bolsonarismo
configurando, assim, um movimento neofascista embrionário que ainda não sabemos para
onde vai, mas que devemos puxar o freio do trem a fim de cortar a continuidade da
trajetória que nos leve a um abismo ainda pior.
7
PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2004.
Pesquisando no Google, usando como palavra chave, “gramscismo cultural”, pude
perceber que a maioria dos textos publicados por autores da extrema direita brasileira se
intensificara nas redes sociais a partir do ano de 2014, justamente no contexto da crise
política e econômica e do acirrado e polarizado processo eleitoral para presidência do
Brasil. Senão vejamos no quadro a seguir:

TITULO DA CANAL DE DATA AUTOR LUGAR SOCIAL


MATÉRIA DIVULGAÇÃO
“A Revolução Cultural https://institutomile 16/09/09 Rodrigo Presidente do
Socialista” nium.org.br. Constantino Instituto Milenium
“Como o gramscismo https://alertacristaos 23/05/11 Alerta Brasil! Site cristão.
está obstinado na .wordpress.com.
destruição dos princípios
basilares da Nação
brasileira”
“O grandioso plano de https://omarxismoc 4/01/14 Padre James Padre
Antonio Gramsci” ultural.blogspot.co Thornton
m.
“Gramscismo: o ´novo` http://familiabolson 17/02/2014 Jair Bosonaro Jair Bolsonaro na
método aplicado para aro.blogspot.com/2 e Carlos época era deputado
domínio de nossa nação 014/02/gramscismo Bolsonaro federal.
já estava escrito há -o-novo-metodo-
tempos aplicado-para.html.
“A verdade que a Bíblia https://averdadeque 29/05/14 “Kruegger
não mostra” abiblianaomostra.bl contra
ogspot.com. esquerdopatas

“Revolução gramsciana” https://observatorio 14/04/15 Jota Alcides Jornalista e escritor
daimprensa.com.br.
“Revolução Gramsciana https://institutoliber 2015 Lucas Estudante de Direito
e a Pátria Educadora” al.org.br. Gandolfe na Faculdade de
Sorocaba (FADI) e
escreveu o artigo
“Gramsci & Freire”
para o Instituto
Liberal
“O PT continua https://prtb.org.br. 12/01/16 PRTB Partido politico
seguindo a cartilha evangélico
gramscista e agora quer
alienar os nossos jovens”
“Como o gramscismo https://olharatual.co 19/03/16 Pedro Cabral “Comunicador
corrompe o ambiente m.br. diplomado e
acadêmico e cultural no professor de língua
Brasil” espanhola”
“Gramscismo, o que é e https://movimentodi 2017? Movimento
quais são as suas reitajovem.epizy.co Direita Jovem
consequências?” m.
“O gramscismo e os seus http://voxbrasilis.co 30/06/18 Felipe Teles Presidente da FAEP,
principais agentes no m. acadêmico de Direito,
Brasil” “aluno do COF-
Olavo de carvalho,
conservador, anti-
estatista e anti-
establishment”
“Gramscismo e Centro de Pesquisas Ricardo Vélez Professor
lulopetismo em ação” Estratégicas Rodríguez universitário e ex-
Paulino Soares de ministro da educação
Sousa (UFJF) do governo Jair
Bolsonaro
“Antônio Gramsci e a https://Direitasja.co 13/12/18 Fábio Couto Monarquista,
Revolução Cultural” m.br. Lírio “conservador e anti-
comunista”
“O Fascismo e o https://padrepaulori Padre Paulo Padre
Marxismo Cultural” cardo.org. Ricardo
“O equívoco de Olavo https://institutoliber 13/12/18 Claudir
de Carvalho e Antonio al.org.br. Franciatto
Gramsci”
“O gramscismo - o que é https://averdadebibl 6/11/18 Blog cristão
isso?” ica.blogspot.com.
Quadro elaborado pelo autor.

Nesse quadro podemos observar, além dos principais títulos das matérias
publicadas, também a temporalidade recorrente dessa manifestação neofascista a partir
de 2014, bem como os meios de comunicação digitias por eles utilizados e o vínculo de
classe social por eles assinados nas publicações. Além de Rodrigo Constantino que
estaria mais para um inteelctual orgânico burguês da direita clássica neoliberal,
podemos notar que os demais comungam neoliberalismo e neofascismo sem
incompatibilidades. A título de exemplo temos o atual presidente da República, Jair
Bolsonaro, que fez mal uso de Gramsci, em 2014, quando ocupava o cargo de deputado
federal. (VEJA IMAGEM A SEGUIR)

http://familiabolsonaro.blogspot.com/2014/02/gramscismo-o-novo-metodo-aplicado-para.html.

Além dele e filhos, frequentadores assíduos das redes sociais, os demais autores
assinam suas nas matérias a partir de um lugar da tradicional classe média
conservadora: padres, jornalistas, professores, estudante de direito e monarquista. Seu
anticomunismo exacerbado estimula o ódio a sindicalistas, militantes de partidos
politicos e movimentos sociais, religiões fora do centro cristão, diversidades de gênero e
raça, além, é claro, das instituições da democracia burguesa, tantas vezes ameaçadas por
mensagens antidemocráticas. Portanto, se lhes faz jus aplicarmos a eles teoria de
Antonio Gramsci, certamente o velho marxista sardo concordaria com a tese de que eles
são os agentes ideológicos que atuam em defesa das classes e grupos dominantes,
aqueles que procuram aniqular as forças sociais dos grupos e classes subalternos para
procurar inculcar, em mentes e corações, valores ideológicos fascistizantes de “Deus,
Pátria e Família” e/ou “Brasil acima de tudo, Deus a cima de todos”, fazendo jorrar a
violência sobre os corpos daqueles que não se enquadrem em tal perfil ideológico.
Entretanto, são eles que têm usado e abusado da guerra de posição com o pensamento
progressista e de esquerda, procurando jogar o legado de Paulo Freire no lixo da
História e defendendo projetos como o “Escola sem Partido”, disputando os aparelhos
de hegemonia a fim de monopolizá-los em proveito do discurso único fascistizante. Nas
igrejas evangélicas e em nichos da velha mídia brasileira encontram-se outros tantos
intelectuais orgânicos do partido do capital, da família heteronormativa, da elite branca
dos tempos da casa grande e dos fiéis seguidores da teoria da propespidade
neopentecostal. Desse modo, se eles entenderam alguma coisa das palavras
gramscianas, certamente as palavras do marxista do inicio do século XX lhes caíram
como uma carapuça, pois Gramsci teorizou justamente sobre o Estado ampliado, os
aparelhos privados de hegemonia e os intelectuais orgânicos para demonstrar os
processos de dominação burguesa sob a égide do capital. É claro que o marxista sardo
compreendia e defendia a necessidade revolucionária da contra-hegemonia nas
sociedades ocidentais e o papel a ser desempenhado por intelectuais organicamente
vinculados às classes e grupos subalternos no combate ao capitalismo e ao fascismo.
Lição essa que a esquerda socialista do século XXI não pode esquecer, pois fascismo se
procura combater, como fez o grande pensador italiano assasinado lentamente no
cárcere do regime liderado por Mussolini. O conjunto da esquerda brasileira tem uma
tarefa histórica e um grande desafio pela frente, para isso, precisa articular uma frente
única antifascista e botar o “gramscismo cultural” para voar como os galinhas verdes
em 1934 na Praça da Sé.

3. O NEOFASCISMO E A LEITURA PARTIDÁRIA: A NEGAÇÃO DOS


PARTIDOS?
Uma observada iconológica na imagem que segue, retirada de um site de extrema
direita, é bastante revelador da leitura que eles fazem sobre os partidos políticos
brasileiros. Um símbolo clássico do movimento comunista internacional aparece, de
forma aritmética, indo ao encontro de partidos políticos considerados de esquerda,
resultado da soma que encontra uma raiz comum no pensamento de Gramsci. Se não
fosse trágica, a imagem poderia ser interpretada de forma cômica, como uma daquelas
charges que procuram ironizar e debochar da conjuntura política. Mas é trágica porque
divulga a ideologia da extrema direita que encravou na base material da História um
projeto de dominação burguesa. Torna-se cômica apenas porque faz rir qualquer
estudioso sério da história dos partidos políticos que aparecem na imagística
fascistizante. Alguns trabalhos de pesquisa bastante comprometidos com uma leitura
classista, dosada por uma boa análise documental têm constatado que partidos como o
PMDB e o PSDB são representantes de um projeto de poder da classe dominante e
defensores vorazes da linha neoliberal do Consenso de Washington. A privataria tucana
da década de 1990 e a reforma do Estado brasileiro empreendida durante os governos de
Fernando Henrique demonstram o quanto estavam vinculados ao capitalismo na sua
fase de financeirização e à globalização neoliberal pós-queda do Muro de Berlim e da
URSS. Justamente durante o período sobre o qual Olavo de Carvalho enxerga o Brasil
de FHC rumando para a “revolução cultural” gramscista, meia dúzia de documentos
históricos nas mãos de historiadores sérios derruba em pouco tempo essa tese
insustentável.

Fonte:https://medium.com/@Arierbos/a-ascens%C3%A3o-e-queda-das-esquerdas-
653d28452202.
Quanto ao PT, cumpre destacar que a quantidade de livros publicados nos últimos
tempos, muitas dos quais resultantes de teses de doutoramento e dissertações de
mestrado, igualmente torna inaceitável a tese de Olavo e dos olavistas/bolsonaristas de
que o Partido dos Trabalhadores e os governos por ele hegemonizados tenham
apresentado na prática uma ideologia comunista ou socialista 8. Entretanto, no caso
específico do PT, é preciso discutir mais um pouco a questão. Vamos ao que dizem os
intelectuais antipetistas à extrema direita:

Em cursos e conferências, venho falando do gramscismo petista desde 1987


pelo menos, para plateias em que não faltaram jornalistas. (...) É digna da
maior atenção, no programa do PT, a parte referente à “revolução passiva”. A
passagem ao novo “bloco histórico” será feita pela elite ativista com base no
“consenso passivo” da população. Isto quer dizer, sumariamente, que o povo
não precisará manifestar seu apoio ao programa do PT para que este se sinta
autorizado a promover a transformação revolucionária da sociedade. A
simples ausência de reação hostil, para não dizer de rebelião, será
interpretada como aprovação popular: quem cala consente, em suma9.

O fragmento acima, escrito por Olavo de Carvalho, em 1994, revela uma completa
ignorância a respeito do conceito de revolução passiva10 elaborado por Antônio
Gramsci. Também erra feio em relação à análise do Partido dos Trabalhadores, pois é
justamente nesse momento em que ele vê comunismo é que o PT está passando por um
processo de transformismo. Portanto, se ele quisesse fazer uso mais adequado do
repertório categorial gramsciano, certamente esse conceito estaria mais ajustado às
evidências apontadas pelo inicio de um processo de moderação e giro à direita realizado
pela corrente majoritária no interior do partido.
Um blog neofascista seguindo a linha olavista e puxado, principalmente, pelo
antipetismo faz o coro da negação dos partidos:

Há pessoas que realmente acreditam que na política atual há partidos


antagônicos, partidos com ideais diferenciados e digo: Não há. Todos os
partidos existentes hoje na política são de esquerda. Há os partidos de
esquerda radical como o PT, PSB, PSOL, há os extremistas como o PC do B,
PCO, os socialistas Fabiano como o PSDB, PTB e PDT e por aí vai. Todos

8
Recomendo as leituras de IASI, Mauro Luís. As metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a
negação e o consentimento. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
9
CARVALHO, Olavo de. A nova era e a Revolução Cultural: Frijof Capra & Antonio Gramsci. 4 ed.
São Paulo: Vide Editorial, 2014, p86/87.
10
Revolução passiva para Gramsci é uma forma de revolução burguesa pelo alto e sem participação
popular e não uma revolução socialista ou comunista como pensa de forma deturpada Olavo de Carvalho.
portanto, são comunistas, ou socialistas ou de esquerda. Ou seja: logo, todos
são o lixo do marxismo11. (grifo meu)

Com relação ao material publicado pelos olavistas/bolsonaristas a respeito dos


governos lulopetistas, vale a pena fazer algumas menções. A começar pelo texto do ex-
ministro da educação do governo Bolsonaro, Ricardo Vélez Rodríguez, seguidor de
Olavo de Carvalho e por este indicado à pasta ministerial, que escreveu um artigo para o
Centro de Pesquisas Estratégicas Paulino Soares de Sousa, da Universidade Federal de
Juiz de Fora, intitulado “Gramscismo e lulopetismo em ação”. Vale a pena conferir e
citar alguns trechos bastante emblemáticos:

Voltando à arquitetura gramsciana, a verdade é que o processo de


racionalização da política completar-se-á, no contexto do patrimonialismo
petista, mediante a privatização das decisões pelos intelectuais orgânicos que
aparecem no topo do universo ideológico contemporâneo: as lideranças
sindicais e as que se situam à frente dos denominados “movimentos sociais”.
“Intelectuais” orgânicos a serviço do proletariado, como Stédile e quejandos,
são guinados à condição de “pensadores brasileiros” em Universidades
Federais e festejados inclusive por alguns juízes. Estamos vendo ressurgir o
velho fantasma da república Sindical, só que agora iluminado com filosofia
própria: o gramscismo acadêmico, habilmente, apropriado pela intelligentsia
petista12.

Nessa parte de seu artigo podemos perceber a forte ojeriza aos movimentos
sociais e a intensa preocupação com as universidades federais, tidas como instituições
por excelência da “doutrinação ideológica marxista” e, portanto, espaços no interior do
qual os intelectuais orgânicos petistas estariam fazendo a “revolução cultural”. Ora,
quem de fato conhece a universidade pública por dentro sabe muito bem o quanto elas
já são em grande medida privatizadas e o quanto seguem uma linha ideológica em
grande medida a serviço do mercado capitalista, cuja grande parte dos intelectuais
produz pesquisa para alimentar a reprodução do capitalismo com fim último na logica
do lucro sobre todas as coisas. Sigamos com o texto do ex-ministro:

No terreno das políticas internacionais, falou mais alto a ideologia,


submetendo as decisões de inserção estratégica do Brasil no mundo
globalizado à malsã ideologização que privilegia aqueles que, no contexto
latino-americano e mundial, aparecem como “intelectuais orgânicos” do
proletariado internacional. Na crista da onda, certamente estão o coronel
Chávez e os seus gurus do peito, os velhos irmãos Castro13.

11
http://averdadequeamidianaomostra.blogspot.com/2014/05/gramscismo-porta-do-inferno.html.
12
http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/GLA.pdf
13
http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/GLA.pdf
O fragmento acima expressa uma ideia recorrente aos que tentam encontrar algum
tipo de socialismo nos governos hegemonizados pelo Partido dos Trabalhadores. Para a
extrema direita brasileira basta que as relações geopolíticas sejam estabelecidas para
além da orbita do quintal estadunidense para que os mesmos comecem a repetir a
cantilena do seu anticomunismo anacrônico. O fato de o governo brasileiro ter se aliado
aos países latino americanos, inimigos dos EUA, e formado uma parceria com China e
Rússia, por meio dos BRICS, é um perfeito indicativo, para eles, de uma “aliança
comunista internacional” rumo à revolução, por meio cultural e sob as bênçãos do
materialista Antônio Gramsci. Talvez fosse cobrar demais de intelectuais neofascistas a
leitura de uma bibliografia que demonstre empiricamente as aberturas política e
econômica para a democracia burguesa, a economia de mercado e o neoliberalismo,
hoje encontradas em países outrora socialistas, incluindo China, Cuba e Rússia.
Devolvamos a palavra a Vélez Rodríguez para falar de política econômica nos
governos petistas:

No terreno macroeconômico, o governo petista preservou as linhas mestras


traçadas por Fernando Henrique Cardoso. (...) Não seria de estranhar que,
num eventual governo Dilma, o PT passasse a escutar mais as diretrizes dos
denominados “movimentos sociais” que apregoam, em alto e bom som, o
indiscriminado favorecimento aos mesmos, às custas da saúde da economia
nacional. Trata-se, a meu ver, aqui, da criação de mais um “tribunal popular”
de inspiração bolchevique que engrossaria a lista desses monstrengos
jurídicos anteriormente propostos pelo projeto de Decreto nº 7.037 (que
estabelece o Programa Nacional de Direitos Humanos), nos terrenos da
revisão da Lei da Anistia, bem como no de julgamento das invasões do MST
et caterva14.

Inicialmente, o intelectual orgânico da classe dominante, escrevendo antes da


reeleição da ex-presidenta Dilma Rousseff, demonstrava um receio em relação à
possibilidade de seu mandato dialogar mais com os movimentos sociais do que com o
empresariado, por ele corporificado e adjetivado de “saúde da economia nacional”.
Mais uma vez parecendo ler a conjuntura com um pé fora da terra, Vélez Rodríguez
temia uma estatização da economia durante o governo Dilma, em conjunto com um
programa de governo que viesse dar espaços para os direitos humanos, à reforma agrária
e a revisão da Lei da Anistia. Certamente, o fantasma da militante de esquerda armada
rondava as especulações miraculosas que passavam nas cabeças de quem ver
comunismo em toda parte e em todos os tempos. Esquece que de fato os governos Lula
e Dilma foram importantes momentos para o benefício do capital e que contara com o

14
http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/GLA.pdf
poder do consenso hegemônico- (ao menos até o segundo governo Dilma)- resultante da
política de aliança e conciliação com setores da classe trabalhadora brasileira,
incorporada no projeto hegemônico burguês mediante concessões assistencialistas e
expresso em um programa político denominado pelo historiador Valério Arcary15 de um
“reformismo quase sem reformas”. Portanto, fazendo uma utilização melhor das
categorias gramscianas para compreender os governos lulistas, mais aplicáveis
certamente seria a de transformismo e hegemonia, porque explicam o giro à direita
realizado pelo PT a partir dos anos 1990 e a construção de um projeto dirigido pela
burguesia, porém aliado a setores da classe trabalhadora que consentiam mediante
algumas concessões materiais e simbólicas. Contando, evidentemente, com uma
conjuntura internacional bastante favorável até 2010 quando a economia capitalista
global dava sinais de crescimento e a China empurrava o PIB brasileiro para cima.
Por fim, voltemos às palavras daquele que seria o primeiro ministro da educação
do governo Bolsonaro e que já antecipava muito do que agora se tornou uma realidade
trágica:
No campo das políticas educacionais, prevalece o norte das decisões
ideológicas tomadas à luz do gramscismo tupiniquim. Correntes com os
preconceitos de Gramsci em face da escola particular e da pluralidade de
iniciativas nesse terreno, os novos planejadores fecham fileiras em torno à
ideia do modelo único de sistema educacional, costurado ao redor das
instituições públicas, desconhecendo o fato de que a maior parcela dos nossos
universitários têm vaga assegurada nas Universidades privadas, que atendem,
hoje, a 75 por cento da demanda. É clara a pretensão do governo para acabar
com as Universidades particulares, que passarão a ser geridas, segundo a
nova proposta, por colegiados em que os proprietários têm voz minoritária,
em face da representação sindical, majoritária, denominada “comunitária” 16.

Enfim, esquece Vélez Rodríguez o quanto a política educacional brasileira e de


outros países segue a cartilha neoliberal de organismos internacionais representantes da
burguesia mundial, a exemplo do FMI, do BIRD e do Banco Mundial. Não é verdade
que os governos Lula tenham tido “preconceito com as faculdades privadas”, pois o
PROUNI e o FIES são as maiores demonstrações da disputa e conquista de fundo
público pelas grandes empresas do ramo mercadológico educacional. Além disso, se
Gramsci estivesse no Brasil na época de Lula e Dilma com toda certeza reprovaria o
PRONATEC, pois ele foi um intelectual que escreveu e defendeu na prática um modelo

15
ARCARY, Valério. Um reformismo quase sem reformas: uma critica marxista do governo Lula em
defesa da revolução brasileira. São Paulo: Sundermann, 2014.
16
http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/GLA.pdf.
de escola única que rompesse com a segmentação de currículos humanistas para os
filhos da classe dirigente e currículos técnicos para formar operários a serem explorados
nas fábricas. Também não agradaria a Gramsci o modelo de escola de tempo integral
dos tempos lulistas, pois conforme escrevera no volume 2 dos Cadernos dos Cárcere,
quando trata da escola e dos intelectuais, uma escola de tempo integral requer um
modelo de escola unitária, com professores qualificados e valorizados em suas carreiras
e com uma vasta infraestrutura escolar. Não é isso que vemos nos estados e municípios
brasileiros, a começar de uma carreira única no magistério, nunca conseguida apesar da
luta incansável do movimento docente.
Outra referência expressiva da ideologia neofascista brasileira do tempo presente
pode ser vista nas imagens do blog “A verdade que a mídia não mostra”, sobretudo, no
texto intitulado “Gramscismo, a porta do inferno”, conforme ilustrações que segue:

http://averdadequeamidianaomostra.blogspot.com/2014/05/gramscismo-porta-do-inferno.html.

É fundamental afirmar o grau de organização midiática dos neofascistas


brasileiros. A desonestidade intelectual pode até ser grande, mas não há como
desconsiderar que a extrema direita soube se reorganizar no sentido de buscar alimentar
coração e mentes de grande parte da população brasileira por meio das redes sociais e
das fake news. A imagem anterior foi retirada de um blog, mas com indicação de que o
texto sobre Gramsci também havia sido publicado no facebook “por internautas contra a
esquerda”. Apelam para a junção da linguagem verbal e não verbal e certamente
apostam no poder da imagem como meio que possa atingir um público mais alargado e
em geral possa ser melhor recepcionada por meio do sentido visual.
Na imagem podemos ver o quanto eles usam de um imaginário anticomunista
elaborado, historicamente, a partir de signos que representam imagens
animalescas/ferozes, ateias/desagregadores da família e da religião cristã e, finalmente,
infernais/demoníacos fadado ao quinto dos infernos com todos aqueles que abraçarem o
comunismo. O título da matéria é o mesmo da imagem, “Gramscismo, a porta do
inferno comunista”, acompanhado de dois subtítulos, um em letras amarelas, “A
doutrina aplicada no Brasil pelo Foro de São Paulo” e outro em vermelho sanguinário
intitulado “A vingança do terceiro poder”, em alusão ao primeiro governo Dilma
Rousseff. No texto, ressalta-se o temor da continuidade de um governo petista, tido por
eles como comunista, antidemocrático e alienador/revolucionário. A nação brasileira
teria sido “dopada”, “seviciada” e “alienada” por supostos aparelhos ideológicos tais
como os partidos, a mídia, as escolas, as universidades e a cultura de um modo em
geral. E a culpa, como já é de se esperar na chave de leitura do neofascismo
contemporâneo, é da teoria gramsciana da tal “revolução cultural” que os bolsonaristas
conseguem ver na Folha de São Paulo, no PSDB e até nas novelas da Rede Globo de
Televisão, para não falar de outras aberrações como o que vem ocorrendo com a
censura, ameaça e interdição da cultura brasileira. O discurso do ex-secretário de cultura
do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, copiando Joseph Goebbles, explicita o namoro
de setores do governo com a ideologia nazista e mesmo se divorciando de Alvim para
noivar com Regina Duarte, ao que parece a política cultural pode ter uma linha de
continuidade. Os ataques a jornalistas e à liberdade de imprensa, além da censura e
propaganda governamental em torno do paradigmático mito fundante, “Deus, Pátria e
Família”, parecem confirmar na prática a perseguição já anunciada na teoria. Portanto,
se para eles todos os jornalistas e artistas são comunistas, restam-lhes os caminhos
tortuosos dos regimes autoritários.
No lado direito do panfleto fascistizante em questão, enfim, aparece a imagem de
Antônio Gramsci representado no interior da retina direita da fera animalesca
comunista, enquanto no lado esquerdo do olho, aparece a perseguida e enigmática
imagem do abraço irmão da foice com o martelo.
Vejamos um trecho do artigo:

O Foro de São Paulo implementa o gramscismo e adota esta doutrina para


seu grande projeto de poder comunista. (...) As etapas de implementação são
importantes dentro do processo, e aqui no Brasil o gramscismo se tornou
mais forte no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando este permitiu
que o Foro de São Paulo, proposto por Lula e Fidel, se organizasse no Brasil.
A trindade comunista estava formada e devidamente fundamentada e desta
forma a sociedade foi recebendo doses homeopáticas da doutrina gramscista
na veia jugular. (...) a Implementação do Gramscismo vem sendo injetada por
etapas e abrem as portas para o inferno socialista ou comunista 17. (grifo
meu)

4. A HISTÓRIA VIGIADA: (MAIS UMA VEZ): DISPUTAS PELO PASSADO,


DISPUTAS PELO PRESENTE

A História tem sido uma das ciências/campo disciplinar mais vigiada e controlada
no decurso de séculos. No Brasil, desde o século XIX, as classes dominantes têm
buscado instrumentalizar o ensino e a pesquisa sobre o passado enquanto substrato
ideológico dos projetos de dominação classista do presente. Assim ocorreu durante o
Império escravista, a República oligárquica e as ditaduras varguista e militar. Não à toa,
o marxismo foi a teoria mais combatida e impedida de fundamentar reformas
curriculares durante o século XX, uma vez que o positivismo rankeano foi a escola
teórica hegemônica nos currículos de História na longa duração.

Não seria diferente nos dias atuais, quando o avanço da extrema direita procura
articular um projeto de poder no presente histórico buscando raízes no passado como
forma de justificativa ideológica. Transitando entre os tempos, o crescente movimento
neofascista brasileiro tem trazido aos holofotes, afirmativas, peremptoriamente,
negacionistas e/ou revisionistas, lamentavelmente, algumas delas alimentadas por
historiadores universitários de grande prestígio no campo da pesquisa e do ensino18.

Um passeio pelas redes sociais da extrema direita nos faz defrontar com uma
grande quantidade de sites, blogs, vídeos, imagens, artigos, aulas, etc, assumidamente,
anticomunistas e pretensamente defensores de uma concepção de História neutra e
imparcial. Nesses veículos aparecem vários jargões arrotados por bocas fascistizantes,
ora negando o holocausto ou afirmando que o nazismo era de esquerda, ora afirmando
que não houve ditadura no Brasil, mas uma “revolução que salvou o país do
comunismo”.
17
http://averdadequeamidianaomostra.blogspot.com/2014/05/gramscismo-porta-do-inferno.html.
18
Consultar Carlos Zacarias de Sena Júnior: Os ardis da memória: o debate público sobre o golpe e a
ditadura no Brasil em tempos de revisionismo histórico e ofensiva conservadora.
http://www.niepmarx.blog.br/MM2019/Trabalhos%20aprovados/MC24/MC241.pdf.
Na linha do Movimento “Escola sem Partido”, iniciado em 2004, pelas mãos do
advogado Miguel Nagibe, além do igualmente reacionário movimento de combate à
“ideologia de gênero” nas escolas, vem ocorrendo uma verdadeira censura ao material
didático e uma intensa vigilância sobre os professores no tocante aos conteúdos por eles
apresentados no decorrer de sua atuação pedagógica.

A título de exemplo veja-se uma matéria do site do movimento “Direita Jovem”


sobre o livro didático “Nova História Crítica”, selecionado pelo Programa Nacional do
Livro Didático:

Mario Furley Schmidt é considerado o autor que mais vendeu livros de


História no Brasil. Sua coleção, Nova História Crítica vendeu mais de 10
milhões de exemplares e foi lida por mais de 30 milhões de estudantes. Só
tem um problema – Mario Schmidt não é historiador e sua obra não passa de
mero panfleto marxista. (...) Na compra feita pelo MEC em 2005, o livro
representava 30% do total de livros de história escolhidos19. .

Outra grande preocupação com o ensino de História vem do site monarquista,


“Direitas Já!”. Citemos um fragmento bastante elucidativo:

Uma das orientações de Gramsci era reescrever a história nacional e contar


uma história mentirosa no lugar. Por mais que existam livros conservadores
contando a verdadeira história, esses livros não são permitidos nas escolas
públicas e particulares, impedindo que os nossos jovens saibam a verdade.
Hoje, o brasileiro é ensinado a não questionar o professor de história em sala
de aula, a acreditar nas mentiras que a maioria conta sobre o Regime Militar.
O professor de história e outras matérias relacionadas é visto como um deus
inquestionável, ao qual o aluno deve se submeter calado e aceitar a
manipulação mental, na maioria das vezes sem sequer saber que está sendo
manipulado. (...) O MEC (Ministério da Educação Comunista) foi criado
com o objetivo de executar os planos de Gramsci tanto nas escolas quanto
nas universidades, e os livros de história por ele respaldados são escritos
desde um viés republicano e comunista cuja história foi reescrita. A história
reescrita, somada à censura de 99 anos, fez com que a grande maioria dos
brasileiros amassem a república e o comunismo20.

O texto revela imensa preocupação com o professor e o livro didático de História,


tidos por eles como “doutrinadores marxistas” que “manipulam” mentes de jovens
estudantes da educação básica. Percebe-se ainda uma falsa dicotomia entre ciência e

http://movimentodireitajovem.epizy.com/2017/12/25/gramscismo-o-que-e-e-quais-as-suas-
19

consequencias/.

20
www.direitasja.com.br.
ideologia, a primeira seria “a verdadeira História” enquanto a segunda seria a versão
“falseadora” da realidade e, portanto, meramente ideologizante e panfletária. É de se
estranhar que um movimento monarquista acuse os professores de esquerda de narrarem
uma versão comunista da História e, ao mesmo tempo, de defenderem a objetividade
absoluta do conhecimento histórico, quando eles mesmos defendem as tradições da
Casa de Bragança contra a república e o comunismo.

Outras imagens emblemáticas são divulgadas pelo autodenominado movimento


“Intervenção Militar Já!”, a exemplo das que seguem:

Fonte:http://intervencaomilitarja.com.br/06-o-que-e-o-marxismo-cultural/.

.
Em primeiro lugar, percebe-se que os principais temas históricos que os
neofascistas se apropriam e manipulam são o nazi-fascismo, o socialismo real
(stalinista, maoísta ou castrista) e a ditadura militar brasileira. No primeiro caso para, ou
negar sua existência, ou igualar ao stalinismo; no segundo, para confundir com toda
concepção de comunismo e/ou socialismo, desde Marx até nós, fazendo uma
generalização caricata de que comunismo se trata de uma “ditadura”; e no terceiro, para
negar ou revisitar brandamente a ditadura brasileira, retirando-lhe as caracterizações
autoritárias e construindo uma significação em torno de que se tratou de “tempos de
ordem e progresso” que “salvou o país do comunismo” e só reprimiu algum “terrorista”
da esquerda armada. Impressiona o fato de que eles silenciam a ditadura varguista do
Estado Novo para focar no regime militar cuja ferida história ainda está aberta e mais
próxima da nossa geração.
Observando atentamente essa questão, vemos a intensificação da disputa de
narrativa em torno da ditadura militar. O mais lamentável disso é saber que ela vem
acompanhada da existência de movimentos políticos de extrema direita que levantam a
bandeira da volta daquele sombrio regime político como se ele fosse o antídoto ideal
para tratar da crise atual. O exemplo do que aqui se afirma pode ser provado
empiricamente com a grande quantidade de faixas e cartazes que se apresentaram às
ruas desse país, fortemente, desde 2015.
As imagens anteriores igualmente testemunham essa narrativa conservadora sobre
1964, ambas publicadas no blog “Intervenção militar Já!”. Nele, constam, sete artigos
sobre o dia 31 de março de 1964, seis documentários, trinta e dois estudos, um sobre
guerrilha brasileira e duas notícias. Entre os artigos, dois nos interessam mais de perto
analisar, intitulados, respectivamente, de “O que é gramscismo?” e “O que é marxismo
cultural?”, ambos publicados em 16 de agosto de 2017. O primeiro texto tem dezoito
linhas para falar do “gramscismo”, já o segundo é um pouco maior e traz alguns
elementos constitutivos do que consideram “marxismo cultural”, a saber: “novela e
futebol” (para alienar as pessoas que vão ser “sujeitos passivos da revolução”);
“destruir a educação” (escolas e universidades como lugares de “doutrinação
marxista” e analfabetos funcionais “mais fáceis de serem enganados”); “destruir a
cultura” (“a mídia, as rádios valorizam o lixo, o que há de pior, músicas de baixo nível
moral, putaria, promiscuidade, gayzismo, violência… eles querem destruir nossa
sociedade para construir a sociedade marxista”); “destruir a saúde” (“uma população
doente é ótima para os comunistas. Doentes não conseguem lutar, não conseguem
resistir, e mortos não oferecem perigo para os ditadores. Josef Stalin, ditador comunista,
planejou o Genocídio de Holodomor , justamente porque a população da Ucrânia queria
se libertar da dominação soviética”); “engenharia social” (“você provavelmente já
ouviu falar em mensagens subliminares, ocultas e imperceptíveis, capazes de influenciar
as pessoas. Pois esta é apenas uma de muitas técnicas dissimuladas, capazes de
manipular a população. Yuri Bezmenov, russo desertor da KGB, denunciou as
estratégias subversivas secretas dos comunistas. Pesquise you tube.”); “feminismo” (“a
arma mais poderosa do Marxismo Cultural para destruir a sociedade. A ideologia
feminista está tão arraigada depois de 50 anos de doutrinação, suas ideias absurdas se
tornaram tão comuns que as mulheres de hoje contrariam seu próprio instinto. O
feminismo está destruindo a natureza feminina, destruindo os relacionamentos entre
homens e mulheres… e como consequência, destruindo a família e destruindo a
sociedade”); Comunismo é pior que Nazismo: “você sabia que o povo alemão abraçou
o Nazismo para se salvar do Comunismo? Eles testemunharam o genocídio de
Holodomor, quando 7 milhões de ucranianos morreram de fome, antes de Hitler chegar
ao poder na Alemanha. Os alemães conheciam o terror do Comunismo e preferiram o
Nazismo. Enquanto o Nazismo matou 6 milhões de pessoas, os regimes comunistas já
mataram de 100 a 120 milhões no mundo, e continuam matando”.
Segundo Iná Camargo Costa21, os marxistas contemporâneos têm um desafio de
apresentar a verdade sobre o que vem se convencionando chamar de “marxismo
cultural”. A primeira verdade é histórica, pois se trata de buscar as suas raízes lá nos
tempos do nazismo, enquanto a segunda verdade é um desafio para que possamos
transformar aquilo que é tido como incriminação em arma de luta nos termos da nossa
própria pauta e apresentando as vítimas históricas do fantasma em suas primeiras
aparições. De acordo com o que nos apresenta a autora citada, a obra Mein Kampf
(1925) é a certidão de nascimento do “marxismo cultural” e se trata de “uma
declaração de guerra ao marxismo e à sua expressão cultural máxima que seria o
bolchevismo”. Representado como simbiose do judaísmo, ambos eram considerados os
“males” que precisariam ser extirpados da face da terra. E combateram a ambos
brutalmente.

21
Sobre o assunto, sugiro a leitura de COSTA, Iná Camargo. Marxismo cultural, um fantasma que
ronda a História. In: https://outraspalavras.net/historia-e-memoria/marxismo-cultural-um-fantasma-que-
ronda-a-historia/.Marxismo cultural, hora de um resgate.
https://outraspalavras.net/outrapolitica/marxismo-cultural-hora-de-um-resgate/.
A segunda aparição do fantasma “marxismo cultural” ocorreu na década de 1990
nos Estados Unidos, embora naquele país também possa ser encontrada a raiz do
anticomunismo e da perseguição ao movimento de luta da classe trabalhadora a partir da
Revolução Russa de 1917 e, posteriormente, entre as décadas de 1930 a 1960 durante o
macarthismo e a perseguição à esfera cultural daquele país. Enfim, nos anos 1990
aparece nos EUA a expressão “marxismo cultural” cujos primeiros usuários, segundo
Iná Camargo Costa
(...) são cristãos fundamentalistas, ultraconservadores, supremacistas – enfim,
a extrema-direita estadunidense. Uma das mais eloquentes manifestações da
tendência é o movimento Dark Enlightenment (que não se perca pelo nome)–
antítese assumida do iluminismo, que prega a moral vitoriana do século XIX,
uma ordem tradicionalista e teocrática, declara guerra aberta a todo
conhecimento científico e, em primeiro lugar, ao marxismo cultural. Os
objetos mais imediatos de sua fúria conservadora são o feminismo, a ação
afirmativa, a liberação sexual, a igualdade racial, o multiculturalismo, os
direitos LGBTQ e o ambientalismo 22.

Para esse movimento neofascista estadunidense, a Escola de Frankfurt, muito


mais que Lukács ou Gramsci, que não emigraram para os Estados Unidos, foi a
instituição criadora do “marxismo cultural”. Nas palavras de Iná Camargo Costa, “os
adeptos do marxismo cultural são acusados de ensinar sexo e homossexualismo às
crianças, promover a destruição da família, controlar os meios de comunicação e
promover o engodo de massas, esvaziar as igrejas e promover o consumo de bebidas.
Enfim: marxismo cultural seria a própria subversão da cultura ocidental”.

O historiador Lincoln Secco23 também vem se dedicando a elucidar a historicidade


do fenômeno “gramscismo cultural” como expressão ideológica de extrema-direita
nascida durante a crise da ditadura militar brasileira durante o inicio dos anos 1980.
Segundo entende o referido historiador, “os ideólogos militares se voltaram para novas
teorias que a esquerda brasileira debatia no final dos anos 1970, entre elas a de
Antonio Gramsci”, de tal maneira que a derrota da esquerda armada brasileira e a
sobrevida do PCB nos quadros eleitorais do MDB, fez com que os homens da ditadura
descobrissem Gramsci e inventassem o “gramscismo cultural” como forma de combater
o campo progressista à esquerda no contexto das lutas pela redemocratização.

22
COSTA, Iná Camargo. O Marxismo cultural e a paranoia americana.
https://outraspalavras.net/historia-e-memoria/o-marxismo-cultural-e-a-paranoia-americana.
23
SECCO, Lincoln. Gramscismo: uma ideologia de extrema-direita.
https://blogdaboitempo.com.br/2019/05/08/gramscismo-uma-ideologia-da-extrema-direita/.
O marco fundador teria sido a 17ª Conferência dos Exércitos Americanos,
realizada em 1987 em Mar Del Plata, na Argentina. Naquela ocasião foi redigido o texto
“Síntese da situação da subversão no Brasil”, documento da delegação militar brasileira
no qual 30% dos constituintes brasileiros eram considerados subversivos. De acordo
com o que atesta Lincoln Secco, os 15 Exércitos do continente americano participantes
daquela conferência assinaram um acordo que “ações nos demais campos do poder”,
para além do especificamente militar, a fim de manter “a segurança e defesa do
continente americano contra o Movimento Comunista Internacional”. Durante a
conferência foi dado um informe do setor de inteligência no qual Antônio Gramsci era
apresentado como “ideólogo do novo movimento Comunista Internacional”. Secco
destaca em seu artigo um trecho do relatório da estratégia intitulada “amerocomunista”
que fazia uma leitura gramsciana nos seguintes termos:

Para Gramsci, o método não consistia na conquista ‘revolucionária do poder’,


mas em subverter culturalmente a sociedade como passo imediato para
alcançar o poder político de forma progressiva, pacífica e perene […]. Para
este ideólogo, a ideia principal se baseia na utilização do jogo democrático
para a instalação do socialismo no poder. Uma vez alcançado esse primeiro
objetivo, se busca impor finalmente o comunismo revolucionário. Sua obra
está dirigida especialmente aos intelectuais, profissionais e aos que manejam
os meios maciços de comunicação social.

Conforme já sinalizado, o “gramscismo cultural” retornaria nos anos 1990 com o


livro de Olavo de Carvalho e na conjuntura do fim do socialismo soviético e da
globalização neoliberal dos tempos de FHC. Na virada do século apareceu outro livro à
extrema direita sobre Gramsci, “A Revolução Gramscista no Ocidente: a concepção
revolucionária de Antônio Gramsci em os Cadernos do Cárcere” (2002), de autoria do
general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, cuja tese consiste em afirmar que a
revolução socialista viria após a conquista do poder pela esquerda brasileira nas eleições
daquele ano. A partir de então, concordando mais uma vez com o historiador Lincoln
Secco, tal ideologia já havia se transformado em “histeria coletiva” e correu “da teoria à
prática” com a eleição de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, inclusive, aparecendo no
arremedo de plano de governo apresentado em campanha. Para Secco “não existe
“gramscismo” em Gramsci, é óbvio. Ele é a auto-descrição dos seus próprios
criadores. A caricatura do pensamento do outro existe porque as teorias conspiratórias
são basicamente fetichistas”. Eles anunciam que há um núcleo conspiratório agarrado
com a teoria do “marxismo cultural”, mas como assinala Lincoln Secco “os gramscistas
são eles mesmos”.

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