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r*

pecado c o Hiedo c um clássi ­


co da historiografía moder­
na. Tendo se aprofundado na cul­
tura que embasa a civilização da
renascença italiana, o autor vê no
tema do m edí uní mote a partir
do qual seria possível devassar
misterios da sensibilidade coleti­
va. Seguindo esse raciocínio, che­
ga à questão do pecado, entendido
como elemento essencial na cons­
tituição do medo como problema
coletivo.

Este título esclarece o


cionamento e a difusão de um dis­
curso culpabilizador presente no
Ocidente cristão, situando o pro-
muito mais no
do que no
mento. Com o intuito de propor­
cionar ao público uma erudição
pacificadora, Delumeau pretende
V éulpabiiizafão
sua
no Ocidente
;sé(‘ii los

“Na história da Igreja, os fatos


passados são lições para que evite­
mos cair nos mesmos erros. Por
1
.lean
outro lado, não temos nenhum
direito de julgar as pessoas, ou de
J - Delumeau
dizer que teríamos feito melhor
em seu lugar.”

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Estaobra foi espa mímen


volumes l><iru propon iomu uo Inioi /</< ilido,le
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Os dois volumes eonslliuem u obro tomplt m
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e por esse motivo mio podem sei uthpundo


... m

separadamente.

Jean Delumeau
doutorou-se em História (1955) com uma '

tese sobre Roma no século 16. For professor


nas universidades de Rennes (1955-1970),
?■


■■
Pantheon Sorbonne (1970-1975), e ocupou
a cátedra de História das Mentalidades
Religiosas no Ocidente Moderno (1975- wm
SSSKs Sf t i 1
1994). Desde 1988, é membro da Académie
des Inscnptums et Belles Lettres e e doutor
honons Ccitisâ peleis iniivcrsicícidcs do F*oi lo>
Sherbrooke, liège e Bilbao-San Sebastian
(Deusto). Publicou, entre outras obras,
La Peur en Occident (1978), Rassurer et
. .m
Protéger (1989), L’Aveu et le Pardon '
(1990), Le Jardín des délices (1992), Mi lie ISBN ñS-7Mfc>0 17S h

ans de bonheur (1995) e Que reste-t-il du


Paradis? (2000).
a* 7 VH '» 7 /, 601754
Coordenação Geral
Ir. Elvira Milafii

Coordenação Editorial
Ir. Jacinta Turolo Garcia

Coordenação Executiva
Luzia Bianchi

Comitê Editorial Acadêmico


Ir. Elvira Milani - Presidente
Glória Maria Palma
Ir. Jacinta Turolo Garcia
José Jobson de Andrade Arruda
Marcos Virmond
Maria Arminda do Nascimento Arruda

(
J e a n D e l u m e a u

o pecado e
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c u l p a b i l i z a ç a o n o o c id e n t

( s é c u l o s I 3 7 I 8 )

T ra d u çã o de
Á lv a ro L o re n c in i.

EDUSC
Editora da Universidade do Sagrado Coração
EDUSC
Ed ito ra da U n ive rsid a d e do S a g ra d o C oração

I M(t(tp Dclumeau, Jean.


() pecado e o medo : a culpabilizaçao no ocidente
(séculos 13-18) / Jean Dclumeau ; tradução de Alvaro
Lorencini. - Bauru, SP : EDUSC, 2003.
2 v. (Ó24 ; 440 p.) ; 23 cm. -- (Coleção Ciencias
Sociais)

Tradução de: Le péché et la peur, e l983.


ISBN 85-7460-175-6 (v. 1). - ISBN 85-7460-176-4 (v. 2)

1. Pecado - Historia das Doutrinas. 2. Teologia - Historia.


3. Civilização Moderna. 4. Renascença. 5. Historiografía.
I. Título. II. Série.

CDD 241.309

ISBN 2-213-01306-3 (original)

Copyright © Librairie Aithéme Fayard, 1983


Copyright © (tradiição) EDUSC, 2003

Tradução realizada a partir da edição de 1983


Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa
para o Brasil adquiridos pela
EDITORA DA UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO
Rua Irmã Arminda, 10-50
CEP 1 7 0 1 1 - 1 6 0 - Bauru-SP
Fone (14) 3235-7111 - Fax (14) 3235-7219
e-mail: edusc@edusc.com.br
)

e-mail do'autor: j.delumeau@wanadoo.fr


sumario

7 Prefacio à edição brasileira

Introdução
9 Uma história cultural do pecado
* ‘ i
PARTF. 1 - Macabro e pessimismo na Renascença

C apítulo 1
19 O desprezo do mundo e do homem

Capítulo 2
69 Do desprezo do mundo às danças macabras

C apítulo 3
16 1 Ambigüiclade do macabro

Capítulo 4
213 Um mundo pecador

C apítulo 5
273 Um homem frágil

■ PARTE 2 - Falência da redenção?


r
C apítulo 6
357 A súmula do exame de consciência
* ■ X .
C apítulo 7
399 O território do confessor

C apítulo 8 '
461 O pecado original

C apítulo 9
537 A massa de perdição e o sistema do pecado

C apítulo 10
579 O “mal-estar” religioso
pro lacio h
edição brasileira

A publicação ele Le Peché et la Peur no Brasil é para mim


urna grande honra e alegría, pois reforça os laços com um país
<|ue já traduziu varios de meus livros e em cuja Universidade de
Sao Paulo dei aulas durante dois meses em 1976, enquanto redi
gia la Peur en Occident.
Gostaria de aproveitar a ocasião da publicação deste livro
no Brasil e destacar um aspecto de minha produção historie .1,
além de formular dois desejos. Tenho tido a sorte de podei estai
cumprindo há mais de trinta anos meu programa de pesquisa e
que não se limitou ao estudo do medo. Com efeito, esse st- inte
gra em um conjunto mais amplo, pois tomei sucêssivamente
com o “objetos históricos” o medo, o sentimento de segurança, e
a esperança de felicidade, o que explica uma série de obras au
tônomas entre si, embora encadeadas. A ordem dos livros c a se­
guinte: La Peur en Occident (1978), Le Péché et la Peur (1983),
Rassurèr et Protéger (1989), L A v eu e tle P a rd o n (1990), Le Ja rd ín
des clélices (1992), M ille ans de honheur (1995), Q u e reste-t-il du
Paradis (2000). Espero, dessa maneira, ser julgado pelo conjun­
to desses trabalhos que demarcam um itinerário e que procura­
ram decifrar campos históricos até então pouco explorados.
Meu segundo desejo, tratando-se dos meus dois livros-so­
bre o medo, é que eles sejam lidos e recebidos corno dossiês, e
não como armas de acusação. Le Péché et la Peur, em particular,
esclarece o funcionamento e a difusão de um discurso culpabili-
zadòr. Ele se situa, portanto, mais no plano da constatação do
que no de julgamento, mesmo se é verdade - o que eu não es­
condo, pois é preciso dizer quem a pessoa é - que minha pes­
quisa visou também redescobrir a mais autêntica mensagem cris­
tã, vítima de derivas históricas que devem ser explicadas, e não
condenadas. Concordo totalmente com a afirmação da revista Ire-
nikon (1, 1979): “Na história da Igreja, os fatos passados são li­
ções para que evitemos cair nos mesmos erros. Por outro lado,

7
nao lemos nenhum direito de julgar as pessoas, ou de illxer que
leriamos leito melhor em seu lugar”.
Se devo dar uma chave de leitura para o conjunto de mi­
nha produção histórica, eu elida que desejei proporcionar ao pú­
blico uma erudição pacificadora.

Je a n Delum eau
Cesson-Sevigne, 2002.

8
introdução

uma história
cultural do pecado

J f ocleríamos pensar que umadvilizaqão .1 ilo ( íeldenlc


dos séculos 14-17 - que se via (ou se julgava) assediada pm mui
liplos inimigos - turcos, idólatras, judeus, heréticos, l u n a , i n
- nào teria tempo para a introspecção. Aparentemente. ila I"
gieo. Mas foi o contrário que ocorreu. Na história emopela, i
mentalidade obsessiva, analisada num volume anterloi.1 lol ,n i uu
panhada de uma culpabilização maciça, de uma promoção st m
precedentes da interiorização e cia consciência moral l m t m ala
coletiva, nasceu no século 14 uma “doença do escrúpulo", qu» m
amplificou a seguir. Como se a agressividade' desencadeada t mi
tra os inimigos do nome cristão nào se tivesse esgotado naquelas
lutas tão diversas e sempre renascentes. Uma angústia global, que
se fragmentava em medos “nomeados”, descobriu um novo Inl
migo em cada um dos habitantes da cidade assediada; e um novo
medo: o medo de si mesmo. Exprimindo o sentimento de toda a
Igreja docente, Lefèvre d’Etaples comentava assim a Epístola aos
Gaiatas (5,16-24), por ocasião cio 14° domingo depois de Pente1
costes: “A vida de um cristão neste mundo, quando é bem con
siderada: nào passa de uma guerra contínua... Mas o maior ad
versário que ele tem é ele mesmo. Não há nada mais difícil de
vencer que sua carne, sua vontade: já que por sua própria natu
reza ela é propensa a todos os males”.2 Dentro do mesmo espíri

1. DELUMEAU, Jean. La Peur en Occulcnt: Une citéassiigie. Paris: l ayniil, I97H


(sobretudo a 2' parte).
2. BEDOUEI.I.E, <i.; GIACONE, E (lul.). I.cydc: Drill, 1976. p. M)2. C I.
também BOISSKT, J. Lcs Kpistrcs et Evangilcs... por l.clcvrc dTtaples, In:
PLATON et Alistóte it la Rcnaissancc. Paris: Vrin, I97H. p. H9. (Obra colcti
va). Eu mc vim tilo totalmente aiutli.se de QlIERE, I rnncc. / /Vm npostpH

í)
lo, bourclulouc escrevia: "Nao é absolutamente mu parailoxo,
mas uma verdade certa, que nao temos maior inimigo a temer do
que nós mesmos; como assim?... Fu sou... mais temível para mim
mesmo do que todo o resto cío mundo, já c]ue só cabe a mim dar
morte ã minha alma, e excluí-la do reino de Deus”.3 Lefévre d’Eta-
ples e Uourdaloue levavam ao extremo de seu sentido o texto de
Sao Paulo que pede ao cristão para libertar-se de seus maus ins­
tintos e elevar-se acima das baixezas de si mesmo.
Icsse discurso religioso seguia a ,linha de uma tradição as-
■r||i a. Mas ligava-se também a duas outras afirmações continua-
iii''lili' repelidas, sobre as quais O medo no Ocidente colocqu
lo. la a sua ênlase. A primeira ligava pecados dos homens e pu­
ní. oi , coletivas enviadas por um Deus colérico. Os bispos e os
pi< gadoies nao eram os únicos a dar essa relação com o eviden-
i. <)•. i heles de listado viam as guerras como castigos celestes
pata os pecados dos povos e Ambroise Paré descobria por tras
da peste e da sífilis a cólera divina.4 E havia até mesmo redatores
de almanaques que compartilhavam e difundiam essa convicção.
Fm I57.5; um deles fazia a seguinte advertência, colocada na boca
do próprio Deus para ser melhor entendida:

Sc desprezardes minhas ordenações [sic] e mandamentos, co­


locarei minha face contra vós e tombareis diante de vossos inimi­
gos... Enviarei a pestilência no meio de vós. Transformarei vosso
céu em ferro e vossa terra em bronze e a terra não dará mais fru­
tos. Vós comereis a carne de vossos filhos e de vossas filhas.

Fm outro almanaque de 1578, pode-se ler: “[Deus] se prepara


mais do que nunca para abrir as comportas de sua ira contra nos­
sos víc ios, afligindo-nos cotidianamente com guerras, efusões de

i/ne i. Paris: Scuil, 1080. p. 30: “O Cristianismo certamente não inventou a


consciência nem a culpabilidade, nem aquela prodigiosa dinâmica da alma que
sempre Ia/, esforço para além de si mesma. Mas ele mobilizou as forças do ser
niijn projeto sem precedentes... A existência torna-se o teatro de um combate
ininterrupto entre o amor de Cristo e aquilo que doravante se chama pecado”.
3. UOURDALOUE. CEuvres complètes. Paris, 1830. 16 v. Aqui, XIV, p. 128-
I 29 (Pensamentos diversos sobre a salvação).
■i. 1)í I l JMEAU, lean. La P airen Occident: Une cité assiégée. Paris: Fayard, 1978.
p. 136-137. \ f ’ -

10
sangue, cxlitisoes, saques, roubo,x e opressões: e ale com pestl
léñela e doenças desconhecidas",
Um almanaque de 1393 retoma o mesmo lema: "Sito certamen
le nossos execráveis pecados c nossa deplorada e desesperaria
obstinação em toda sorte de maldades, pela qual irritamos nosso
bom Deus cada ve/ mais contra nós".'

Essas ameaças constituem incessantes apelos á conversão


e a penitência. E elas nada mais faziam que reforçar aquela se
juncia declaração da Igreja segundo a qual Satã está em toda par
te, portanto, também no coração de cada um. Desde o pecado
original, caso.não haja intervenção da graça, nós fazemos parte
do império demoníaco. Reveladores nesse sentido, e assim mes
mó espantosas, aqüelas declarações de Santa Catarina de Cirno
va <1 IS 10) relativas ao mesmo tempo ao homem em geral e a
ela em particular:

O que é o homem por si próprio e abstração leita da gia< i 1 l


um ser pior que o demônio; porque o demônio e um c . pullo
sem corpo e o homem sem a graça é um demônio revestido d.
um corpo... Parecia-me que se Deus trie retirasse sua graça, <mi
seria capaz de todos os crimes que o demônio cómete; então eu
me julgava pior do que ele e mais detestável e nesse momento
eu me vi como um demônio encarnado. Ainda neste momento
isso me parece tão verdadeiro que se todos os anjos viessem me
dizer que existe em mim algo de bom eu não poderia ser levada
a acreditar, porque percebo claramente que todo bem reside só
em Deus e que em mim só existe vício/’

Assim raciocinava uma santa viúva que se consagrava aos


pobres e desfrutava de visões. Ela se desprezava a ponto de evi­
tar pronunciar seu nome. Atitude teatral? Não façamos afirmações
apressadas. Agrippa d’Aubigné confessava: “Minha cabeça tem
bem menos cabelos do que ofensas”, e ainda: “Minhas terríveis
transgressões me assustam, murmuram em meus ouvidos, silvam
a noite com o serpentes, apresentam-se continuamente aos meus5

5. Estes textos em PONTHIEUX, F. Prédictions et alrnaneichs du XVI sthcle,


m em orial de mestrado, dat. Paris 1, 1973. p. 85-86.
(>. Dialogue tlc 1’ânicct du corps (I a parte, cap. 12) citado em CH O IXdc lec
tures ascétiqtics: vic dc sainte Catherinc dc Gêncs, Clcrmont Fcrrand, lHdt),
p. 145 146 (obra anônima).
olhos como um espectro tcm'vel e com ele a horrível imagem da
morte: o pior c que não sào fumos irreais de sonho, mas quadros
vivos de minhas ações”.' Seu contemporâneo Sào Francisco de
Sales fazia lhe eco escrevendo a Mme. de Charmoisy: “Vossas cul­
pa', sào em muito maior número que os cabelos de vossa cabe-
V.1, ou até mesmo que a areia do mar”. E convidava Filoteu a con-
kv.ai I u não passo de uma pústula do mundo e um esgoto de
Ingi.tlldào e iniquidade”.8
I '.ses excessos de humildade só se compreendem recolo-
>a d " . numa ampla história do pecado no Ocidente, ela própria
lii <p.ti.ivel da história dos outros medos anteriormente estuda-
■l« • I um i», agentes de Satã que os homens de Deus esforça-
' mi i p.ua pia.seguir e caçar, eles nâo podiam esquecer o mais
■ i i indidi > e o mais perigoso dentre todos: cada um de nós na
ui' dlda * m que se descuida da indispensável vigilância que deve
................ ilue si mesmo. Assim, somos levados a restituir em toda
a sua roerem Ia e suas mais amplas dimensões o Medo sentido
pi Ia clvlll/açao européia no início dos tempos modernos e antes
da descoberta do “inconsciente”: ao “temor”, ao “pavor”, ao “ter­
ro r1e ao "sobressalto” suscitados pelos perigos exteriores de toda
natureza vindos dos elementos e dos homens juntaram-se dois
sentimentos nào menos opressivos: “o horror” do pecado e a “ob­
sessão” da danação. >
A insistência da Igreja sobre um e outro levou, no âmbito
de uma sociedade inteira, a uma desvalorização espantosa da
\Ida material e das preocupações cotidianas. Grignion de Mont-
lórl, no Início do século 18, fazia os fiéis cantarem este cântico
.signlfiaitivo:

Deixa um pouco tua madeira, carpinteiro,


Abandona'um momento teu ferro, serralheiro,
Aillti lua obra, obreiro,
I'k )<memos ,i graça.”

/. A( ¡RIIM'A D’AUBIGNÉ. CEuvres. Paris: Pléiade, 1969. p. 376, 538.


H, SAI.GS, líançois de. CEuvres (Introduction à la vie dévote). Paris: Pléiade,
l% 9, cap. XII. p. 53-54.
9. l ilíNI>ROT, M. Saint Louis-M arie Grignion deM ontfort. CEuvres complè-
tn. Paris: Senil, 1966. p. 1.667.
A religião oriental da "irant|tiiliclaclc*” a do llinduísino e
do Budismo <>pôs-se mais do que nunca a religião da “ansieda
de” própria do ( )eidente.10 Podemos certamente dizer, julgando as
coisas a partir da noção de “poder”, que a dramatização do pe
cado e de suas consequências reforçou a autoridade clerical. ()
confessor tornou-se um personagem insubstituível. Daí aquela in
gênua e reveladora afirmação de um cônego de Bolonha em
1692 declarando em suma: Deus envia três flagelos aos homens
em punição de seus pecados, a fome, a guerra e a peste. Mas, en
ire todos, a fome, por mais grave que seja, é o menos terrível.
Portille, enquanto a guerra e a peste atingem todos os homens
sem discernimento, a fome poupa os padres: podemos então nos
confessar antes de morrer; ela poupa os tabeliões: é possível en
tão fazer seu .testamento; ela poupa enfim os príncipes que asse
guram salvação do Estado.11 Não é por acaso que o confessor e
colocado aqui antes do tabelião e do príncipe, já que se traia da
quele que abre e fecha as portas do paraíso. Ora, a única coisa
que conta, afinal, é o amanhã e o além da morte.
Mas, precisamente por causa da importância dada a <si<
objetivo final, não se pode reduzir a história da culpablll/a\.ao a
uma história do poder clerical. As duas estiveram certümente liga
das, mas a primeira ultrapassa amplamente a segunda. S. Ereud e
( G. Jung estão de acordo nesse ponto para sublinhar o lugar que
iodo estudo das sociedades deveria conceder ao pecado. Ireud
apresenta o sentimento de culpabilidade como o problema ca pi
lal da civilização1213e Jung afirma: “Nada é mais propício a provo-
( ar consciência e alerta do que um desacordo consigo mesmo”.1'
Ora, jamais uma civilização tinha atribuído tanto peso - e
preço - à culpabilidade e à vergonha como fez o Ocidente, dos
século 13 e 18. Estamos aqui diante de um fato da maior impor­
tância que não se pode esclarecer completamente. Tentar fazer a
história do pecado, portanto da desfavorável imagem de si, den
iro de.um espaço e um recorte cronológico determinados, é co­

10. Cf. ARAPURA, J. G. Religión as Anxiety an d Tranquillity. Paris: La Hayc:


Mouton, 1975.
1 1. SEGNI, G. B. Trattato sopra !a carestía e fatn e: sue cause, accidenti, prov
visioni, reggimcnú. Bologne, 1602. C f ZANETTI, D. L’Approvisionncmcm
dc Pavic au XVP siècle. In: Anuales E.S.C., p. 62, jan.-fev. 1963*
12. EREUD, S. M alaise dam la civilisation. Paris: PUE, 1973. p. 93.
13. |UNG, C. G. ¡ 'Ame et la vie. Paris: Buchet-Cliastcl, 1963. p. 59.

i:í
locar-se no centro ck* um universo humano. E destacar ao mes
mi) lempo um conjunto de relações e de atitudes constitutivas de
uma mentalidade coletiva. É encontrar a mediação de uma socie­
dade1 sobre a liberdade humana, a vida e a morte, o fracasso e o
mal. h descobrir sua concepção das relações do homem com
I>cus e a representação que ela se fazia deste último., E, portan­
to, dentro de certos limites, empreender conjuntamente uma his­
toria de Deus e uma história do homem. Deus é sobretudo bom
ou sobretudo justo? Durante vários séculos, uma civilização intei-
i .i interrogou-se incessantemente sobre essa questão. Quanto ao
homem do Ocidente, submetido a uma culpabilização intensiva,
ele foi levado a aprofundar-se, a conhecer melhor seu passado
pessoal, a desenvolver sua memória (nem que fosse apenas pela
pratica do exame de consciência e da “confissão geral”), a preci-
•..ii Mia identidade. Uma “consciência culpada” desenvolveu-se ao
mesmo lempo que a arte do retrato. Ela acompanhou a ascensão
tio individualismo e do senso de responsabilidade. Existiu certa­
mente um vínculo entre senso de culpabilidade, inquietação e
.criatividade.
Seja-me permitido, então, avançar três considerações para
evitar que o leitor compreenda mal meu objetivo:
• Menos do que julgar o passado, o historiador deve fazê-lo
ser compreendido. Ainda que a presente obra toque inevitavel­
mente a sensibilidade de nossos contemporâneos, ela pretende
ser primeiro um inventário histórico sobre uma época que se
afasta rapidamente de nós. É o registro de um fato cultural maci­
ço, a saber: um profundo pessimismo que marcou o próprio pe­
ríodo da Renascença. Esse registro ocupará a primeira parte do
livro. Dos fatos, nós remontaremos em seguida às causas segun­
do o método da história regressiva. Toda a segunda parte escla-
rcccrá então, ao mesmo tempo, a doutrina do pecado e a inves­
tigação tio universo da culpa, com o era praticada antigamente.
Mas a doutrina provoca forçosamente uma pastoral, de maneira
que osla nos ocupará num terceiro momento. O círclilo então se
lei liara, porque a pastoral disseminou o pessimismo, mas o pes­
simismo motivou a pastoral. Com efeito, uma e outro jamais ces­
sai.im tle influenciar-se reciprocamente.
• A segunda consideração refere-se à relação do historiador
com sua pesquisa. Tornou-se claro para nossos contemporâneos
que os historiadores,não são “ausentes”. Voluntariamente ou nào,
i'I("t se implicam ii.i sua pesquisa e se engajam nas suas conclu
soes. I melhor dizei isso com toda a clareza. Nao dissimularei,
então, meu próprio sentimento sobre o Inventario que apresento
.n|iil. Eu creio <|iie o pecado existe. Eu constato sua presença em
mim. Além disso, nao vejo com o eliminar a idéia de uma "fallía"
nas origens, cujo traço nós carregamos inconscientemente: aqui
l<> que freutl lào bem sentiu e tentou explicar, "'ludo se passa,
dizem ao mesmo tempo Bergson e Gouhíer, como se houvesse
no homem um defeito original.”14 Meu livro nao deve, portanto,
ser compreendido com o uma recusa da culpabilidade e da ncecs
sária consciência do pecado. Em compensação, eu creio que ele
laui sobressair a presença de uma pesada “superculpabilizaçao"
na história ocidental. Entendo pór “superculpabilizaçao" todo dis
* urso que maximiza as dimensões do pecado em relação ao pci
dao.1, E essa desproporção - e somente ela - que fornece a ma
leria da presente pesquisa. Mas essa desproporção pesou multo
hierre de Boisdeffre faz um Goethe do século 20 dizia: "A IU d<n
cao deveria ter libertado o homem da angústia, mas a lgic|a <•m
linua a impor um exame de consciência que a aproxima»,a" da
morte torna insuportável. Haveria tantos chamados e tao pou< <•-,
escolhidos, não é mesmo? Um ‘número infinitamente pequ< 11*•
diz Julien Green. A sucessão das gerações teria apenas agt.n ado
as consequências cio pecado original. Deus só existida para con
denar e para punir! Que horrível interpretação do papel do hall
<) inferno, o purgatório... por que todos esses suplícios infligidos
i-m nome do amor? Quem amou, nem que seja uma só vez na
vida, não é digno de ser amado para a eternidade?”.1" Semclhan
ir imagem de Deus efetivamente existiu... durante séculos. Daí a
necessidade de distinguir entre temor filial e reverencial de I)eus
e medo de Deus. Meu livro sõ tratará deste último e não põe em
causa as sentenças judeu-cristãs mais autênticas: “Feliz daquele
que teme o Senhor” (SI 128); “A misericórdia de Deus estende-se
sobre aqueles que o temem” (Magníficat). Em compensação, as

14. GOUHIER, H. La Tyrannie de 1'avenir. In: Archivio d i Tilosofui, p. 17H,


1977, citando ‘Les Deux so urces de la inórale et de la religión ’.
15. Cf. a esse respeito as obras esclarecedoras de SAGNE, J. C. Péché, culpa
bilité, pínitence. Paris: Cerf, 1971; Conflit, changement, conversión. Paris: C oi,
1974; Tes Péchés ont étépardonnés. Lyon: Chaiet, 1977.
16. BOISDEFFRE, P. Goethe m a dit. D ix entreüens imuginaires. Paris: I.u
nciui Ascot, 1981. p. 230.

ir>
páginas que irão ler mostrarào o desvio que se produ/lu tio te­
mor de Deus ao medo de Deus.
• A terceira consideração anunciada é esta: nós, os homens
do final do século 20, temos todas as razões para sermos modes­
tos quando somos tentados a “culpabilizar” os culpabilizadores
eclesiásticos de antigamente. Nossa época fala constantemente de
“desculpabilizaçâo” sem perceber que jamais na história a culpa-
bilizaçào do outro foi tão forte quanto hoje. Num país todavia de­
mocrático como a França, direita e esquerda acusam-se recipro-
i .1mente dos mais pesados pecados políticos. E, nos Estados sub­
metidos ao jugo totalitário, a denúncia do adversário - capitalis­
ta ou soc ialista, reacionário ou progressista - legitima a tortura e
levou a morte milhões e'milhões de homens. Em matéria de su-
peivulpabilizaçao, nós, infelizmente! ultrapassamos nossos ances­
trais, e de longe.
A pesquisa histórica cujos resultados vão ser lidos agora
nao letia podido chegar a bom termo sem as múltiplas contribui­
ções de amigos que me forneceram textos, referências, sugestões
c críticas. Assim, durante os desenvolvimentos e nas notas, fiz
questão de agradecer às pessoas que me forneceram as indica­
ções que utilizei. Mas, no iníció deste livro, insisto em transmitir
a indos os meus amigos e colaboradores minha profunda grati­
dão e exprimir meu reconhecimento particular a Angela Arms-
liong <• a Sabino Melchior-Bonnet, que estiveram estreitamente
a tsoí ladas a realização deste livro.

I(i
I parte 1
macabro o
I pessimismo
[ na renascença

> . ■- v '
capítulo I

o desprezo do
mundo e do homem

um tem a antigo
No curso da historia crista, exame ele consciencia de um
laclo, severidade para com o homem e o mundo de oulin l.ulu,
apoiaram-se um no outro, reforçaram um ao outro. Dai a no ■ ■
sidacle, num quadro sintético com o o nosso, de co1ck.ii <> un du
de si mesmo no afresco mais ampio do pessimismo.cnropcu
O desprezo do mundo e a desvalorização do homem um
carregando o outro - propostos pelos ascetas crislaos, lint .mi
suas raízes 'certamente na Bíblia (Livro d e j ó , Eclesiasies), m.r.
também na civilização greco-romana. Este tema é desenvolvaI"
notaclamente por Plutarco, que remete ele próprio ã llidiUi oiuli
se lê: “Nada é mais miserável do que o homem entre ludo o que
respira e se move”.1 Um mosaico de Pompéia lembra (|ue Mors
om nia aequat. Uma antropologia dualista principalmente orí i
ca, platónica e depoi$ estoica - introduzíu.-se desde os primeiros
séculos do Cristianismo na mensagem bíblica dos grandes douto­
res capadócios, em Santo Agostinho e em Boécio.2 O “hiperespi
ritualismo” oriental, infiltrándose dentro, do Cristianismo, levou a
modificar o sentido de certas passagens de São Paulo, a insistir

1. PLUTARQUE. Traites de m ótale (n. 34), Col. Budé, VI, 1, p. 214. Iliadc.
XVII, v. 446-447.
2. Os grandes doutores capadócios, isto é, São Basilio de Cesaré ia, São ( iregó
rio de Nazianzo e São Gregorio de Nissa. A Consolação da Filosofía de Boéi io
(480-524), também está todá impregnada de neoplatonismo. Sobre a militen
cia exercida pela Antigiiidade paga sobre a doutrina do contem plas rnundi, el.
BULTOT, R. Les Philosophes du paganisme. Docteurs et exemples du con
iemptus rnundi pour la morale médiévale. In: Studia gratiana, XIX, Roma,
1976: Miscelânea G. transes, I, p. 101-122. Ver também a nota seguinte.

ID
sobre o corpo prisào c a esquecer a criação do homem tal como
dcscrila pelo Gênesis.' Evocando a alegria inefável da visão lace
a lace, Sao Paulo (JC or 13', 12; 2Cor 5,1-8) não a apresentava
como um retorno a uma situação primeira da qual o homem te­
da sido privado, mas como uma ultrapassagem do estágio pré­
senle I Igualmente estranha ã Bíblia a noção de uma queda no
sensível e no múltiplo. Por outro lado, esses dois ternas provêm
<li >platonismo e de sua posteridade. Mesclados com o Cristianis-
im i, eles levaram a duradoura nostalgia de um primitivo homem-
.1111<i '.i ui sexualidade, “espiritualizado”, dedicado à pura contem­
plai 11• I >.11 o sucesso persistente da idéia, já presente em Santo-
\e,' isiliiln i e amplamcntc aceita no século 12, de que o homem
l"i ' liado paia substituir os anjos caídos na cidade celeste.
I sse desconhecimento da realidade objetiva do homem e
da auleiillcldade da imanência teve como corolário a negação
pela maioria dos teólogos e moralistas cie um estilo de existência
i speclllcamente humano e a definição daquilo que Robert Bultot
i llama de maneira voluntariamente contraditória uma “antropolo­
gia angélica’V' lista última viu-se reforçada em Santo Agostinho
pela afirmação de que a natureza é instável, podendo Deus nela
intervir a todo instante.s Ela não possui solidez interna. Como a
riem ia a teria tomado para si? - um raciocínio do qual Montaig­
ne se lembrará. Robert Bultot6 observa com razão que p doutrina
do desprezo do mundo derivou de uma cosmología antiga que
deprei lava a tiara a duplo título. Segundo ela, o mundo sublunar
•«põe se a parle sideral do universo, os corpom inferiora , isto é,

'■ t .o <\|)<>sisao c as seguintes são inspiradas na penetrante obra de R. BUL-


l <>1. / a Doctrhze clu mépris du monde, Louvain, Nauwelaerts, 1963-1964,
IV, I c lunadamente aqui, IV, 1, p. 18, 23, 39, 136-139. Cf. do mesmo au-
loi: I .i I)octi nie du mépris du monde diez Bernard le clunisien. In: LeM o-
yeu 1ge, 1964, t. 70, p. 179-204 e 335-376; Grammatica, ethica et contemp-
lus mundi aux XIIr et XIIP siècles. In: Arts libéranx et philosophie au Moyen
l.qf, Montréal-Paris, 1969, p. 815-927; Bonté des créatures et mépris du
monde. In; Revue des Scien cesp h ilo so p biqu es et théologiques, 1978, p. 361-394;
( osmologie et contemptus mundi. In: Recherches de théologie ancienne et mé-
difrn le (mélanges H. Bascour), n. spécial 1, 1980, p. 1-23. Sobre esta proble­
mática também sou muito grato a ROY, Br. Amour, Fortune et Mort: la dan-
se des trois aveugles. In: Le Sentim ent d e la m ort au Moyen Age. Montréal: Uni-
vers, 1979. p. 121-137.
4. BUEl’OT, R. La D octrine..., IV, 1, p. 40.
5. Ibid., IV, I, p. 67-70.
0. BUl T o r, R. Cosmologie et contemptus mundi. p. 1-23.

20
i |Mili- baixa tío cosmos aos e o e le s lta . Sol) a írosla terrestre, so
lia o Inferno. Ora, si* a Ierra ocupa assim a parle Inferior e m.ils
t ulgai tío m undo e porque cía e constituida de uní elemento me
ni r, n<»bre t|ue os lies oulros (ar, logo i* agua). Toda a Idade Me
día adolara essa cosmología. Daí a tentação de pensar cum Ma
<n iblo, comentarista no século 4° do S o n h o d e C ipicto , (|iie a alma
e' liada do mundo celeste é prisioneira sobre a terra. Enfim, a su
luvaliaçao da natureza foi inseparável de uma depreciação do
lempo, herança também da tradição helénica. As coisas terrestres
sao vas porque fugazes.789Montaigne estimará igualmente que o
lelativo e o fugidio são sem consistencia. Cl. Tresmontant notou
(listamente a propósito dos Padres da Igreja: “A descoberta do
que significa o tempo não será possível antes que uma reflexão
•.obre a experiência cósmica, biológica e histórica permita estabe
lecer o sentido da temporalidade. Embora tivessem diante dos
olhos a Bíblia e se nutrissem dela, os padres difícilmente esi apa
rain do esquema neoplatónico que abóle o tempo real. Sera pn
i iso esperar os tempos modernos para que uma reflexão sobn a
duração real possa fazer-nos escapar ao velho sistema míllt u e a
clico (pie o neoplatonismo legou à filosofía ocidental”."
Desde o século 4o, a teoria do desprezo do mundo esia cm
vigor entre os diretores dé consciência do Cristianismo. I cl.no
qué na obra abundante de Santo Agostinho encontramos loma
das de posição menos pessimistas. Peregrinos sobre a ierra, a i a
minho de nossa verdadeira pátria, devemos todavia aceitar, diz
ele em suma, a íntima dependência que nos liga ã vida. Eoi pos
mvcI escrever que a Cidade de D eus, longe de ser um livro sobre
a luga do mundo, ao contrário, versa principalmente “sobre nos
so dever no quadro dessa existência mortal que nos é comum","
Como viver no mundo, separado do mundo: pode parecer esse
o objetivo confessado da obra. Do mesmo modo, a admiração e
o elogio da natureza não estão ausentes aqui. Com efeito, Santo
Agostinho consagra um dos últimos capítulos da Cidade de D eus

7. BULTOT, R. La D octrine..., IV, 1, p. 113-115.


8. TRESMONTANT, Cl. La M étaphysique du Christianism e et tu naissance de
la philosophie chrétienne. Paris, Seuil: 1961. p. 457.
9. C ité de D ieu, t. 37 da ed. de Combés das CEuvres de Santo Agostinho. Pa
ris: Desclce de Bronwer, 1960, XV, ch. 21. Cf. BROWN, P. Agostino d'Ippo-
na. Londres: haber and haber, 1967, trad. ¡tal. consultada aqui: Agostino d'I/>-
pona. 2. cd. Turin: Einaudi, 1974. p. 325.
.i enumerar os "bens desta vida” com os quais o soberano Juiz
"tempera" as miserias que afligem o gênero humano:

One dizer, esc reye ele, ... deste brilho vivo da luz e da magni­
ficencia do sol, da lua e das estrelas; da sombria beleza das flo­
restas, das cores e do odor dás flores, da multidão de pássaros,
i .Id diferentes de canto e plumagem; da diversidade infinita dos
animais dos quais os menores são os mais admiráveis? ... Que di­
ta desses suaves zéfiros que temperam os calores do verão?
I . d< tantas espécies de vestimentas que nos fornecem as átvores
c i is animais?,.. I'. se todas essas coisas nada mais são que conso­
lai i H • dos miseráveis condenados que nós somos, e não a re-
. iiuípcns.i dos bem-aventurados, o que Deus dará aqueles que
ptrdrsllnou a vida, se ele dá essas coisas àqueles que predesti­
nou a morte?*1"

Textos dessa inspiração, apesar de um fundo pessimista,


explicam por que razão se procurou na obra de Santo Agostinho
uma teologia dos valores humanos." Mas para nós importa me­
nos a riqueza e os matizes cio pensamento agostiniano do que
sua simplificação e sua dramatização feitas pela posteridade. De
qualquer maneira, Santo Agostinho estava persuadido da “velhi­
ce do mundo”.1" Por que então apegar-se a coisas “vãs e nocivas”
de on< le nascem

.1 agudas preocupações, as desordens, as aflições, os temores,


a loucas alegrias, as dissençôes, os processos, as guerras, as
cmboM arlas, as cóleras, as inimizades, as duplicidades, as ba-
11 1 1açi ics, as fraudes, o roubo, a pilhagem, a perfídia, o orgulho,
a ambição, a inveja, os homicúria, a insolência, a impudência,
a Impudicicia, as ídios, os parricídios, a crueldade, a seivage-
tla, a perversidade, a luxdepravações, os adultérios, os inces­
tos, tantos estupros e impuclências contra a natureza de um e
de outro sexo que até coramçs de mencionar, os sacrilégios, as
heresias, as blasfêmias, os perjúrios, as opressões de inocentes,
as calunias, os engodos, as prevaricações, os banditismos, e

10. C ité de nica, XXX, 24, p. 670-672.


I I. MARROU, H. I. The Resurrección and saint Augustines Theology of
I liiinan valúes. Revue des études angustieunes xii, 1966, p. 111-136.
I 2. HRt )WN, P. Agostino d'íppona, p. 287-299.
tantos outro,s crimes «|u«■ nao vêm .1 lembrança e que, enlretan
lo, 11.10 deixam i*sl;i (ilstt* vkl.i humana.1'

Essa esmagadora enumeração encontra-se lambían na C i­


dade ele Deus, apenas dois capítulos antes do fragmento diado
anteriormente e ela remete a uma série de julgamentos negativos
feitos pela Biblia sobre o “mundo” e o “século". Nào se pode apa
gá-los com um traço de tinta. Também não parece inútil voltar
um momento sobre a ambiguidade do termo “mundo”, já subí i
nhada no primeiro tomo da presente obra."
Para Sao Paulo,15 notadamente, o pecado e a morte, no co ­
meço da historia, deram entrada no mundo e este tem agora um
compromisso com o mistério do mal (Rm 5,12). Satà tornou-se o
“príncipe” e até mesmo o “deus” deste século (Jo 12,31; 14,30;
Ib, I i; 2Cor 4,4), porque Adão abandonou para ele o dominio
que Deus lhe havia confiado. Doravante o homem está rodeado
e até penetrado-por um mundo enganador que se opóe ao l '.s
pírito de Deus e cuja sabedoria não passa de loucura (ICor
1,20). Sua paz nada mais é que simulacro (Jo 14,27). Sua aparen
cia passa (IC or 7,31) e também suas cobiças (ljo 2,16). Seu efei
to último é uma tristeza que produz a morte (2Cor 7,10). Jesus
declara que não é deste mundo (Jo 8,23; 17,14), assim como seu
reino (Jo 18,36), e que o mundo o odeia (Jo 15,18). Os cristãos
liéis ã mensagem das Beatitudes não devem, portanto, esperar
um tratamento melhor que o que foi reservado ao seu Mestre. O
mundo se erguerá contra eles (Jo 15,18). Eles serão odiados, in­
compreendidos e perseguidos (IJo 3,13; Mt 10,14; Jo 15,18). En­
quanto durar a história, subsistirá essa tensão entre o mundo e
os discípulos de Jesus.
A despeito dessas condenações, nem sempre o mundo é
revestido de conotações tão sombrias nos textos bíblicos. Ape­
sar do pecado, o universo, nascido das mãos divinas, continua .1
manifestar a bondade e a grandeza do Criador (Pd 8,22-31;
|ó 28,25; Sb 13,3), e o homem jamais cessará de admirá-lo (Sl 8;
ll),l-7; 104). Todavia, ele é imperfeito e caberá aos filhos de1345

13. C idade de Deus, XXII, 22, p. 645. Citado em SELLIER, P. Pascal et saint
Angustia. Paris: A. Colin, 1970. p. 234.
14. DELUMEAÚ, lean. Di P airen Occident: Une cité assiégée. Paris: Eavard, I97H.
p. 252-253.
15. Esta exposição a partir do D ictiohnaire de théologie bibli<]ue. Paris: < cri,
1971. Col. 784-791.

2B
Adào aperfeiçoá-lo com seu labor (Gn 1,28). Por oulro lado, se
é verdade que ele foi atingido pelo pecado, ele será plenamen­
te regenerado no último dia ao mesmo tempo que a humanida­
de (Ap 21,4), pois os destinos de um e outro estáo ligados para
sempre. Sua regeneração comum por sinal começou desde que
0 Filho de Deus veio à terra. Ele “tirou o pecado do mundo”
(Jo 1,29), deu sua vida pela vida do mundo (Jo 6,51), reconci­
liou com ele todos os seres, refez a unidade do universo dividi­
do (Cl 1,20). Certamente a humanidade nova resgatada pelo sa­
crifício de Jesus só atingirá sua plena estatura no final dos tem­
pos. Por ora, ela ainda pena por um caminho difícil, à espera de
um parto doloroso (Rm 8,19; Ef 4,13). Mas, ao termo cia longa
provação, explodirá a alegria sobre a terra que não conhecerá
mais o ódio nem as lágrimas. Quanto aos discípulos de Jesus -
hoje como ontem eles não são deste mundo (Jo 15,16; 17,16).
Entretanto, eles estão no mundo (Jo 17,11). O Salvador não roga
ao Pai que os retire, mas apenas que os guarde do Maligno
(Jo 17,15). Porque eles têm a missão de anunciar a Boa Nova ao
mundo inteiro e de brilhar com o luzeiros (El 2,15). Se eles de­
vem renunciar ás cobiças e não amar aquilo que os desviaria de
1 >eus, esse desprendimento não exclui nem o dever de construir
um mundo melhor nem o justo uso dos bens do mundo atual se­
gundo as exigências da caridade fraternal (IJo 3,17).
Assim, na Bíblia, “mundo” é um termo ambivalente cuja
••IgnUlcaçáo oscila entre dois pólos opostos. Ora ela designa o
n Ino de Sala, que se opõe ao de Deus e será finalmente venci­
do t ora a humanidade com a terra que lhe está ligada. Nesta
.< glinda accpçao, o "mundo” não é objeto de condenação, mas
di iedeiu,ao, e c pedido aos filhos de Adão que renunciem ao
Maligno, mas nao ao seu destino de homens. É este “mundo”
aqui que deve tornar-se diferente.16 Um dos dramas da história
11l-.ta residiu na confusão dos dois sentidos da palavra “mundo”
e na ampliação de um anátema que dizia respeito apenas ao im­
perio de Sala. Essa confusão acarretou outra. Porque podemos x
desprender-nos do mundo (no segundo sentido que acabamos
de precisar), podemos até fugir dele, sem por isso desprezá-lo.
/'iif’ti pode nao ser sinônimo de contemptus. De fato o despren­
dimento do mundo transformou-se mais geralmente em acúsa­lo .

lo. ( I. REY-MERMEf, Th. Croire. 3 v. Limoges: Droguet-Ardant, 1976-


p)77. Notadamcnte |>. 281-282.
i,,n> . id mundo, j.i que c.sIr é .10 mesmo lempo o esp.ieo do pe
1 ,u|o e .1 Ierra em que devemos viver,

as razões cio “desprezo do mundo”


Desde o fim dos tempos antigos, a doutrina da vacuidade
do mundo (e, portanto, do desprezo que ele merece) encontrou
nos meios eclesiásticos do Egito e do Oriente um terreno de elei
ç.10: ela constituía um protesto dos ascetas contra um Cristianis
1110 que lhes parecia tornar-se fácil demais. Em seguida, ao lon
go de toda a Idade Média, ela nutriu a espiritualidade dos con
\cu lo s.1' Aqui se lia, então, com fervor as vidas dos Padres do de
m tio Não sem razão, descobriu-se na ascese dos monges um res
surgimento do mito dualista anterior ao Cristianismo, que sobie
viveu principalmente no Bogomilismo e no Catarinismo P.ii.i os
monges, também o pecado original tinha feito a alma e.iii n.i m,i
lena. A alma devia, então, reabilitar-se “angelizándo se \<
piessao “vida angélica”, frequente na linguagem colidi.ma d"
mosteiros, era igualmente familiar aos Cataros.1H
Oposições termo a termo permitem definir a doutilna «!<.
i ontemptus m undi, já que ela era dominada pelo c o n flito . um
lem p o e eternidade, multiplicidade e unidade, exterioridad)' e In
lerioridade, vacuidade e verdade* terra e céu, corpo e alma, pia
/cr e virtude, carne e espírito. E antes de tudo o mundo e vao
porque é passageiro. O Monge Jean de Fécamp (f 107K) nao
h me em confessar: “O que eu vejo listo é, o mundo exteriorl me
euiristece. Tudo o que intento dizer das coisas transitórias me
pesa”.19 Numa de suas lamentações, ele vai além do Eclesiastcs e
dirige-se ao leitor em termos.que levam diretamente á literatura
moralizante do século 15:

17. Cf. SPIT ZM U LLER , H. Poésie latine clu Moyen Age. Paris: Dcscléc de
Brouwer, 1971. p. 1.798-1.800. LE GOFF, J. La C ivilisation de 1'Oceident
m édiéval. Paris: Arthaud, 1972. p. 236.
18. C f LAOS, M. D ualist Heresy in the M iddle Ages (Praga, Academia). I .1
I lave: Nijhoff 1974. notadamente p. 67-72, 252-254.
19. Conf. Théol. III, 5 (éd. WILMART, A. Auteurs spirituels et testes dévots dn
Moyen Age latiu. Paris, 1932. p. 145-146). C f BULTOT, R. /.a D octrine... IV,
2. p. 13.

ar»
Robre homem, pobre mulher, pobre homem Infeliz.
I’or (pie amas os bens deste mundo, que vão perecer?
Vaidade das vaidades,
Pudo o que existe sob o sol é vão.
Como a flor e a reiva c toda a gloria do mundo.
() mundo passará e a sua concupiscencia... ->fl

I im século mais tarde, outro monge, o inglês Serlon de


\\ Ilion ( | 1171) exerce sua virtuosidade poética sobre esse mes­
mo inii.i do mundo que passa:

i * mundo passa fugindo como o tempo, como o rio, como a brisa,


i i mundo passa, o nome passa rápido, o mundo com o nome,
Mas m.lis rápido que o nome do mundo, o mundo passa...
(Nada existe no mundo a não ser que o mundo passa...
<) mundo passa; lança o que passa, o mundo passa...
() mundo passa, Cristo não passa, adora aquele que não passa.-1

I na esteira de semelhante inspiração que se deve eviden­


temente colocar a dramática interrogação - Ubi sunt? - tantas ve­
zes repetida no curso da Idade Média e já esboçada por São João
( risostomo num tratado sobre a virtude da “paciência”. Ignoran­
do o destino de certos personagens, nós perguntamos: “Onde
esta tal príncipe? 1'. nos respondem: ele acaba de passar”. Nós in-
lei rogamos: " ( )ndc está tal senhor? e nos dizem: ele está morto.
I onde esta tal re i glorioso? - Ele partiu. F. tal amigo? - Ele foi
• inbi na I'ara onde? - Diante do Juiz dos juízes”.2
0*22 No curso do
lem po, <i tenia do Ubi sunt enriqueceu-se. Ele desembocará em
I ir.iui li< De.sc hamps e em François Villon,23 mas já tinha adqui­
rido tuda a sua amplidão anteriormente:

Diga, onde está Salomão, outrora tão grande


( >u entilo, onde está Salomão, o chefe invencível?

20. WILMART, A. Jean de Fécamp, la complainte Sur les fins derniéres. Re­
tóte d'ascét'tque et de mystique, IX, 1928, p. 385-398. Cf. BULTOT, R. L a D oc­
trine..., IV, 2, p. 22.
I. SIMTZMUIJLER, H. Poésie latine..., p. 577-579.
22. Patr. (ir., L.X, col. 724.
23. C I. notadnmente FRIEDMAN, L. J. The “Ubi sunt”, The Regrets and Ef-
lictio. M oderna l.angm gcN otes, 1957, t. 72, p. 499-505; LIBORIO, M. Con-
<)nde e.Hla o helo Al),salan de rosto admlravel?
<)nde o doce Jon.iilun, <|ue l<>i tan digno de amor?

Para onde foi César, elevado ao Imperio?


Onde o rico fastuoso, sempre á mesa?
Diga, onde está Túlio, célebre por su a eloqücncia?
Onde Aristóteles de gênio supremo?-1

A esse vigoroso poema do tão místico e tão pessimista Ja


eopone de Todi (t 1306) responde um hino anônimo do século 13:

Onde lesta] Platão, Onde Alexandre Eles atravessaram


Onde Porfirio, O maior dos reis, O reino dos morta
Onde Horacio, Onde está o magnánimo No espaço
Onde Darío, Aquiles? De um só tila.
Onde César, Com Helena
Onde Virgilio, O tão belo Páris?
Onde Varo, Onde o mais valoroso
Onde Pompeu? Dos Troianos, Heitor? •

Esses ritmos entrecortados sobre o-tema da morte nivel,i


dora dos maiores destinos iriam muito logo encontrar ñas dance,
macabras uma surpreendente transcrição iconográfica. Mas, bein
antes cíelas, o SantcrMonge Anselmo de Canterbury (f 1109), para
o uso de urna religiosa, tinha tirado a conclusão imposta por esse
pavor diante da fuga do lempo: “Ninguém pode amar ao mesmo
tempo os bens terrestres e os bens eternos. Diga com o. bem-
aventurado apóstolo Paulo: “O mundo é crucificado para mim e
eu para o mundo”. E com esse mesmo apóstolo veja com o esfru
me todas ás coisas transitórias”.-6
Dentro do mesmo espírito, Fierre Damien (f 1072), ere­
mita entre os Camadulos antes de lhe ser imposto o bispado de

tributi alia storia dell “Ubi sunt”. Cultura neolatina, XX, 1960, p. 141-209 <■
BULTOT, R. La D octrine..., IV, 2, p. 36, n. 20. COSTANZO, A. Time and
Spare in Villon: les trois ballades du temps jadis. In: MERMIER, G.; DU
BRUCK, E. Fifteenth Century Studies. Ana Albor, 1978. p. 51-69.
24. SPITZMULLER, H. Poésie latin e..., p. 969.
25. Ibid., p. 1.383.
26. Patr. Lat., CLIX, col. 163. BULTOT, R. La D octrine..., IV, 2, p. 1 13.

:i7
Ostia, terminava um sermão pela exortação ao'"desprezo de
tudo o que se ve”.2'
Num poema anônimo do século 13 que convida o homem
a manter-se vigilante e preparado, a vida é comparada a uma teia
de aranha que se estende ou se rasga. Fugaz e frágil, ela não
pode se pôr em segurança. Logo após essa comparação, o autor
sem dúvida um monge - afirma:

l odo homem nasce É levada no sofrimento;


Neste mundo na aflição; No fim ela termina
I a vida humana Na dor da morte.-’*

Isiabclcce-se, assim, um vínculo entre caráter transitório e


lihte/.i da vida conexão constante no discurso sobre o despre­
zo do inundo e que vai ao encontro do carpe diem de Horácio.
I’le rif Daniicn insiste sem cessar sobre a “miserável condição do
homem", “ lean de Fécamp afirma que a vida é muito má e mui­
to inleliz ( "haec péssima vita, ista infelicíssima vita”) - os .super­
lativos assumem aqui todo o seu destaque - , que o homem é
"( helo de misérias” e vive “na dor”.30 Por volta de 1045, outro
monge, I lermann Contraed, redige por sua vez um Poema exorta-
tório sobre o desprezo do mundo, em que enumera as preocupa­
ções, tristezas, dificuldades, doenças, temores, males e dores que
preeiu hem a existência. E cita confusamente os perigos e agres-
soi". que o homem encontra: os vermes, as serpentes, os animais
dn toda espécie, os pássaros, o frio, o calor, a fome, a sede, a
■li’,na, o logo, o vento, a terra, a violência, o trovão, o raio, os aci-
i li ules, os venenos, a trapaça, a discórdia, as amputações, a guer-
i.i, a prisão, a escravidão e doenças cujo catálogo é inesgotável.31
As mesmas inflexões, o mesmo pessimismo no beneditino Roger
de ( aen ( j por volta de 1095), autor, ele também, de um Carm en
de m nndi contempla. A vida, diz ele em suma, é curta e plena de
males: ela começa com as lágrimas e os gritos de dor do recém-
nas( ido; continua com os sofrimentos provocados pelo frio e o ca-
loi, a lom e e a sede, as moscas e as pulgas - estas não poupam

27. bar. Lar, CXLIV, col. 534 CD, cf. BULTOT, R. La Doctrine..., IV, 1, p. 77.
28. SI’ITZM UIl.ER, H. Poésie latin e..., p. 1.425.
29. Cf. BULTOT, R. La D octrine..., XV, 1, p. 37.
30. Ibid.. IV, 2, p. 22.
31. Ibul., p. 35-36.

: ih
* i|iii i <>.s rel.s o exilio o ;i morte ele ,seres queridos, ,i Infâmia e
i |>il'.,io <) homem é aberto ii desbrava. Como se pode lalar de
.iu ..iiHl< ja que a doença d mais forte que ela? Como se pode l.i
lai de sua vida ja que a morte lhe poe um termo?'1
I v.as negras considerações nao sao novas, Já o Livro de
|o tinha com parado o homem a uma madeira carunchada e a
uma roupa devorada pela traça, “lile tem a vida curta e tormén
los em quantidade” (Jó 13,-8; 14,1). O Livro da Sabedoria tinha
i olo( ado na boca de Salomão palavras, melancólicas sobre os
primeiros momentos da existência: “Prantos, como para todos,
loram meu primeiro grito. Fui criado em meio às fraldas e aos
. ulitados” (Sb 7,3-4). Esse tema encontra-se também na Historia
nal a n d de Plínio: “O homem é o único Iserl que ao nascer a na
luie/a lança nu sobre a terra nua, entregando-o primeiro aos va
gldos e as lágrimas” (VII, 2).
Mas, na literatura religiosa (principalmente monástica) da
Idade Média central, a acusação contra a vida humana atingiu
uma violência e uma dimensão novas. O Cardeal Lota rio Si gni,
que depois se tornou Inocencio III, escreveu, por sua ve/, <mu
unia bem negra um D e contemptu m undi, Sive de miseria <<•//,//
llonls bum anae onde se lc desde o primeiro capítulo: <> h«>
m e m nasceu para o trabalho, para a dor e para o medo, e o
q u e c pior - para a morte”.33 Foi talvez Jean de Fécamp quem
. primiu de maneira mais vigorosa a recusa de interessai se poi
uma existência irremediavelmente marcada pela vaidade, o pe
i ido e o sofrimento:

Vida miserável, vida caduca, vida impura que os humores umi


decem, as dores extenuam, os calores ressecam, as iguarias in­
cham, os jejuns maceram,' os gracejos dissolvem, a tristeza con
some, os cuidados angustiam, a segurança amortece, a riqueza
infla, a pobreza abate./.

A terra é um “vale de lágrimas”, um “deserto”, um “exílio”


que não se pode deixar de depreciar em favor da vida bem aven
turada, “vida segura, vida tranquila1, vida bela, vida pura".'1 Num

\2. BULTOT, R. Ibid, p. 66-67. Sobre os manuscritos tiesto poema: Ibitl.,


p. 60-52. Ibid., p. 50-52.
Vb l’ntr. I mi., CCXVII, col. 702.
>i. l\nr. ItU., XL, col. 917.Tradução BULTOT, R. La Doctrine..., IV, 2, p. 17-IH.
lililí) anônimo cio século 12, um poeta faz a si mesmo a pergun­
ta: "... Maleada vida do mundo / Por que me agradas tanto?”. F
para alastar as tentações e as ilusões, ele a cobre de injúrias:

Vida fugaz,
Mais nociva que qualquer fera Vida do mundo, coisa imunda
Agradável só aos ímpios
Vida qur se deve chamar morte,
í.ttn' se deve odiar, e não amar Vida, coisa estúpida
Aceita só pelos loucos,
Vida do mundo, coisa doentia Eu te recuso do fundo do
Mais Ir.igll que a rosa [coração.
•Pois tu és toda cheia de sujeira.
Vida do mundo, Ibnte de labores, Do fundo do coração eu te
Angustiada, plena de dores [recuso

Vida do mundo, morte futura, Prefiro sofrer a morte,


Ruína permanente, Ó vida, a te servirA

Vld.i do mundo, coisa má


Jamais digna de ser amada

I''..stamos bem longe aqui do Livro da Sabedoria (2,1-21)


•uidi uma célebre passagem contém certamente uma deprecia-
<a* ■ da vi* Ia terrestre, mas colocada de maneira significativa na
IhMa t li is Ímplí >s: ,.

I le. dizem entre si nos seus falsos cálculos: “Curta e triste é


vida... P. apenas uma fumaça o sopro de nossas narinas...
i i o v i .i

Nossa vida passará como os traços de uma nuvem, se dissipará


<oino uma névoa. Sim, nossos dias são a passagem de uma som­
bra..." Assim raciocinam os ímpios, mas eles se perdem.

ILim o autor do Livro da Sabedoria, a vida humana tem um


sentido “porque Deus nào criou a morte... Fie criou tudo para o
ser; as criaturas do mundo são salutares; não há nelas nenhum
veneno de morte e o I lacles não reina sobre a terra”.56 Aquele que
loi justo sobre a terra jamais perecerá. Orientada para Deus, a

35. Sm V.M U LI.LR , H. Poésie Latin e..., p. 1.365-1.367.


36. l.ivro da Sabedoria, lunadamente 2,1-24.

:io
• sisienda terrestre n.io é, portanto, desprezível, .10 passo <|ik*,
p.n.i Fierre Damien e lodos os ascetas c|uc pensaram como ele,
■la e um "exilio exterior do qual a morte liberta para fazer pene
11.11 na p.ilrlu interior”,5"
A oposição radical - e artificial - entre corpo e alma (onde
. ,1,1 se aproveita de tildo que é retirado daquele) leva lógicamen
Ir ao despiezo, e até i\ condenação da vida no século, constante­
mente comparada a um mar perigoso58 onde é melhor nào se
aventurar. Já cjue nào há esperança a nào ser dos bens do céu, sp
vale a contemplação, longe das “vaidades do mundo” e das “preo-
1 upacoes seculares” - expressões de Fierre Damien59 para quem
*> laico é essencialmente um concupiscente, Passar da secularida-
de para um mosteiro, é “sair de Sodoma”.'*0 Sociedade laica e so-
1 ledade corrompida são sinônimos'*1 e nela é difícil operar a sal

vacio,'' Daí, nos escritos de Damien - mas ele é escolhido aqui


apenas como testemunho de uma corrente de pensamento , a
depreciação de tocias as tarefas terrenas e a suspeição lançada ale
•.obre os padres que não são monges, pois “próximos dos laicos
. misturados a eles pela vizinhança geográfica, a maioria já nao se
distingue de sua maneira de viver e seus costumes desregrados” 11
Fm suma, o mundo nào tem sentido profano e as atividades inc
n ules à condição terrena do homem são relegadas ao vazio dos
a ni i-valores”,48 assim como, de maneira mais geral, a natureza e
1 svaziada de sua necessidade interna**5 e são extremamente repu
dl. 11los como malsâos todos os prazeres deste mundo.
O prazer sexual é evidentemente o mais vilipendiado de
1■" l<r. I lina longa tradição neoplatônica, retomada por vários Fa­
de da Igreja, julgou que a união carnal, pelo seu caráter irracio­
nal, rebaixava o homem à condição cie animal.10 Segundo Santo

37. Citado em BULTOT, R. La D octrine..., IV, 1, p. 37. Carta editada por


LECLERCQ, J. em Studia anselm iana, 18-19, 1947, p. 287.
38. BULTOT, R. La D octrine..., IV, 1, p. 51.
39. Ibid., IV, 1, p. 32.
40. Ibid., IV, 1, p. 55.
41. Ibid., IV, 1, p. 56.
42. Ibid., IV, 1. p. 48.
43. ibid., IV, 1, p. 59.
44. Ibid., IV, 1, p. 35.
45. Ibid., IV, 1, p. 80.
■ib. Ibid., IV, 2, p. 82.

:il
Agostinho, :is relações sexuais, no paraíso terrestre, efetuavam se
sem volúpia, “como as mãos se unem uma a outra”. Sem o peca­
do <|ue tudo perverteu, o homem disporia de seu sexo para pro-
<l iar da mesma maneira, racional e voluntária, que ele utiliza seus
olhos, seus lábios, suas mãos e seus pés.4748Mas “depois que caiu
por sua desobediência daquele estado de glória em que foi cria­
do, ele tornou-se semelhante aos animais e engendra como
<h . I sse mito de um homem primitivo sem vida sexual - de
tal nr ido que a virgindade seria uma volta à.sua “verdadeira” na-
Iui * a obteve notadamente a adesão de São João Crisóstomo,
di «uegorlo de Nlssa e de Santo Atanásio.4950Ele seguiu depois
uma Innga carreira no pensamento cristão. Pierre Damien, por
i ' nipln, r totalmente alheio à idéia de que a sexualidade huma­
na pollería ser uma realidade indissoluvelmente espiritual e car­
nal ( ) enlace tios que se amam é sempre corrupção da carne.
( ) desejo sexual e sua realização mancham por si mesmos. O ca­
samento em si é sempre uma sujeira {soreles) da qual só o san­
gue do martírio lavou São Pedro. Mesmo na procriação, o ato se­
xual representa uma submissão e uma escravidão. E, em seguida
a Santo Agostinho, o monge evoca “a imunda feiúra de nossa ori­
gem". () casamento, portanto, só é tolerável com o fim de pro-
11ia i Mas deflorar uma virgem, é sempre “corrompê-la”. Por con­
seguinte, a castidade é preferível ao casamento. Ela é a primeira
das virtudes religiosas. Inversamente, as dores do paito consti­
tuem a justa sanção de um prazer culpado em si mesmo. No D e
■<>ulein/)/n niuiulí do futuro Inocêncio III, o casamento se acha
igualmente depreciado. () ato sexual é pecado em si mesmo e
mam ha a c riança a qual ele dá a vida:

<» homem e formado de pó, de lama, de cinza e, o que é mais


vil, de esperma muito imundo... Quem de fato ignora que o aco-
Illámenlo conjugal jamais ocorre sem o prurido da carne, a fermen-
i . iç . io do desejo e o odor da luxúria? Assim toda descendência,
pela sua própria concepção, é corrompida, maculada e viciada, já
que a semente transmite à alma que lhe é infundida, a mancha do

47. C idade de Deus, XIV, 24, p. 450-451.


48. Ihiil., XXII, 24, p. 660.
49. Cf. TRESMONTANT, C. La M éuipbysique..., p. 462-464.
50. liUITOT, R. La D octrine.... IV, 1, p. 100-111. .
IM <,ulo i nuil .i <1,1 ( ul|M, ,i .sujeira (l.i lnl(|0klade. I >.i mesma nu
n rlu um lii|iil(ln se corrompe se despeindo num vaso poluído..

Im inados por tais mestres, compreende-se que os auto-


ii i tlr sumas r manuais de confissão tenham lançado sobre a
.i \iialldade em geral e o casamento em particular um olhar de
• xtivma suspeiçào,
Agrupemos no final os temas principais do contemptus
niinn/i as tão breves alegrias deste mundo engendram os sofri­
mentos eternos (Koger de Caen); a terra é um exílio; “o amor do
m un d o c noite” (Jean de Fécamp); a carne é “uma prisão” (Philip-
pc Ir Chancelier): o homem é “filho da podridão” e será “repasto
i li )•, vermes” (anônimo do século 11); os sentidos, “miserável con­
dirão do homem”, são os grandes provedores do pecado (Padre
I >amlen). Quem quer salvar-se é convidado a “cuspir a podridão
do in u n d o ” (Padre Damien) e, se possível, entrar num mosteiro;
vlvn na seculariclade é habitar em “Babilônia” (Santo Anselmo)
() ódio do “século” engendraria a auto-suficiência nos ,r,
i rias que tinham a coragem dê romper com ele? Em abstraç.i",
pi mleriamos conjeturar isso, mas erradamente. De fato, como San
io Agostinho e os Padres do deserto, os monges da Idade Mrdla
aliaram desprezo do mundo e vergonha de si mesmo numa e x ­
periencia global do pecado e um pessimismo arraigado do qual
■o mais cristãos dos homens da Igreja, sobretudo eles próprios,
iiao se excluíam. Na poesia religiosa dos séculos 10°-13, retorna
■iir.tantementé a confissão lacrimosa de inúmeros pecados. São
rã ui Damien exclama num poema;

Nem as gotas do mar, nem a areia da praia


Igualam a infâmia de meus erros:
Em número, eles ultrapassam as estrelas e as fgotas dal chuva,51

51. Patr. Lat., CCXVII, col. 702-704. Sobre a suspeição eclesiástica a respei­
to da sçxualidade, cf. DELUMFAU, J. (dir.). H istoire vécue dupeuplc chrétien.
Toulouse: Privat, 1979, I, p. 230-241; contribuição de CHIOVARO, F. /.<■
M ariage chrétien en Occidente, FLANDRIN, J.-L. Un Temps pour emhrasser.
Anx origines de la m orale sexuelle occidentale. Paris: Seuil, 1983. Sur le D e con
temptu... d’Innocent III, cf. MARTINEAU-GENIEYS, C. Le Thhnc de la
morí dans lap oésiefian çaise de 1450 á 1550 (Tese de Estado, dat. Montpcllicr,
1978, p. 97-106). Eu agradeço a E. Le Roy Ladurie por ter-me assinalado este
trabalho importante c útil para o meu assunto. Esta tese foi publicada pela
( Lampión ein 1977.
I'.m peso, as montanhas...
A barbarie esmagadora tic todos os nieus pecados
Ocupa-se em me subjugar...

bu choro por rhinha alma aniquilada nos pecados


I (crida de mil dardos pelo Inimigo antigo...5-

Sessenta c quatro versos desse Ritmo do monge penitente


■ai ■pn ' tu llidos com tais confissões. Eles poderiam ter sido redi-
)»11b >•, |ii a i|ii,il(|iii‘i uní dos inúmeros religiosos que, entre Ò ano
mil i *i 1*•* tilo I V alligiram-se igualmente sobre a inata perversão
<l' ai i alma, t ioniii prova, os fragmentos seguintes tirados da rica
mb i m'.u di II Npiizmuller: “Todo dia eu peco, erro a todo mo­
ni' ni" I mullas vezes, como uní cao, eu lambo meu vómito /
I ii 11111.11 >.i .so toila a criação em vícios mortais”53 (Alphane de Sa-
I' me), "l ti i boro sobre meus pecados rugindo como um leáo”5“
( Marborde). "farsante, simulador, prostituindo minhas palavras, /
Invejoso, impúdico, impuro, pérfido, cruel, / Bufào, enganador,
malvado, violador do amor de meus irmãos, / Eu cometí todas as
•Infâmias que marcam os miseráveis”55 (Baudry de Bourgueíl). “Eu
definho da doença do pecado / Não tenho ninguém para cuidar
de mim”50 (Geoffroy de Vendóme). No dia do julgamento final
"< )iule irei / Para escapar / À terrível sentença? / Por qual recur­
so Escaparei / À cólera de meu Juiz?”57 (São Bernardo?), etc.
Nenluima dúvida pode subsistir sobre este fato histórico
<ssi-ih laI foi nos mosteiros, depois nos conventos de mendigos
qiii .1 d< .en volveu e se afinou a “consciência infeliz” que mui-
i" lo go lila sei proposta como uma evidência a toda uma civili­
zo • a> > ‘n 11s ires componentes principais - o ódio do corpo e do
IIa a id' i. a evidência do pecado e o sentimento agudo da fuga do
h tupo enconiram num poema do franciscano Giacomino de
Venina (segunda metade do século 13) uma nova e surpreenden-
le lltisii.içao ( üacomino dirige-se ao homem em geral e também
a sl m esm o nestes termos:*3467

52. SIM I7.MUI.LER, H. Poésie Latine., p. 401-403.


33. Ihid., p. 443.
34. Ibkl., p. 479.
33. Ibid., p. 493.
36. Ibid., p. 315.
37. Ibkl., p. 565.

:j i
N iiiim hem Muja e vil oficina
l(i I<i.sle l.il >i!(;id<> de mu limbo,
|(,)iic e| ta<> medonho e láo miserável
Que meus labios nao se prestam a dizcr-te.
Mas se tens um pom o de senso, poderás bem saber
One loi estrume podre e corrompido...
() corpo frágil em <|ue te alojaste,
De onde foste atormentado oito meses e mais,
Tu saíste por urna vil passagem
h caíste no mundo, pobre e nu...
. As outras criaturas sào de alguma utilidade:
A carne e o osso, a la e o couro;
Mas tu, homem infecto, tu és pior que o lixo:
I )e ti, homem, só pode provir sanie...
De ti nao procede nenhuma boa virtude,
íls traidor, falso e malvado;
Olha para a frente e olha para tras,
Pois tua vida é igual à sombra
Que aparece rápida e rápida desaparece...^

um. tema que renasce


continuamente'(séculos 14-16)
1 .• " ‘
cutre os místicos
Nos desenvolvimentos anteriores eu me inspirei ampia
mente nos trabalhos de Robert Bultot, que provocaram um eje
bate. Alguns contestadores o censuraram por ter denegrido a
hostilidade ao mundo por parte das Ordens contemplativas me
(lleváis.s9 As regras monásticas, observaram eles, não convida

58. SPITZMULLER, H. Poésie italieñne du M oyen Age (X II'-X V ' siècle). t. I.


Paris: Desclée de Brouwer, 1975. p. 723-725.
59. A discussão entre BULTOT, R. e seas contraditores na Revue d a’ scétique
et de m ystique, 1964, p. 185-196,481-492,493-494; Ibid., 1965, p. 233-304.
VANDENBROUCKE, F. La M oralc m onastique da X I' au X V I' siècle, Lou-
v.iin, Nauwelaerts, 1% 6, notadamente p. 18-20. BATAILLON, E. ).; JOS-
SUA, j. P. Le Mcpris du monde. De l’intérét d’une discussion actuelle. Revue
des Sciences pbilosophtques et théologiques, 1967, t. 51. p. 23-28. GRÉGOIRE,

ar>
v.nn ;io c o n t e m p la s m tin c /i. lisie cortamente existiu, nus deve ser
colocado dentro de uma espiritualidade global que compreendia
também a admiração do universo, tão viva em São Bernardo, e
um otimismo escatológico. Ele era menos uma teoria do que
uma prática e um caminho de espiritualidade. A depreciação do
temporal era necessária aos monges da época que queriam" al-
« aiu ai o eterno e dar lugar em si mesmo ao amor preferencial
p"i Deii'. I la nao impediu que muitos deles fossem letrados,
'|ii> pmmovesscm a “Renascença cio'século 12”, e que se inte-
n ■i ui pela m edicina.Enfim , o historiador faz mal em ceder
i l.o 11 t< nia<„ao do anacronismo, de julgar a espiritualidade cie
................ .... os olhos de hoje, de condenar uma cultura em
ui hio de otiira cultura.
Olíanlo i mim, eu me alinho ao lado de Robert Bultot. Os
lilsloi ladons dew m certa mente desconfiar dos anacronismos.
M.r. ao mesmo tempo, permanece válida a célebre fórmula de
hielen l ebvre: “A história é filha cie seu tempo”. É sempre em
Iiiik ao de nossas preocupações que nós interrogamos o passaclo.
Nao ha meio de agir de outro modo. A Historiografia progride
pela renovação de seu questionário. E este é sempre inspirado
pelo presente. Testemunhas cie seu tempo, alguns cristãos leigos
estudam agora a espiritualidade monástica que, como objeto de
Investigação, foi durante muito tempo uma reserva de caça dos
monges, que a apresentavam sempre de forma laudativa. Nos
dias atuais, os olhares se diversificaram. Seria um mal? Por outro
lado, os poucos textos apresentados na seção anterior provam
■ I iiaiumii que o c o n t e m p la s m n n d i não foi apenas uma prática
d. hnmlld.idi l Ir foi teorizado, generalizado, erigido em vercla-
d. tinha is.11, l le tendia a colocar um abismo entre santidade e
'ida piol.ina 1 "l ima teoria das realidades terrenas baseada ape­
na ni - \,inll<is vnnHnlnm do Eclesiastes só podia ser uma teolo-

I‘ 11 < oiHcmptus nuindi: ricerche e problemi. Rivista di Storia e letteratura re-


liyjoiii. i. 5, |>. 140-154. LAZZARI, F. M ística e ideologia tra X I e X III
\t‘iolo, Milán Naples, 1972, p. 9-14.
60. ( T notadamente Entretiens sur la Renaissance du X II siècle (sob a direção
d<' ( iAN 1) III AC, M. de; JEAUNEAU, T.), Paris-La Haye: Mouton, 1968,
sobretudo p. 53-69, 147-160, 296-308. SCHIPPERGES, H. Die. Benedikti-
ncr in der M edizin des fríih en M ittelàlters. Leipzig, 1964, p. 57-58.
61. Cl. FIISTUGIÉRE, A.-J. Les M oines d ’Orient, I, Culture et sainteté. Paris:
Ccrf, 1961, passim.
i'.l.i tl.i ilc| uccI.iç.k ( )ra, esse discurse >m< mastín> 11Itr;ipns.st >u <>
quadio e us homens para quem ele linha sido elaborado, IU•lol
pi oposto com o norma a uma civilização inteira: o <|iic vai ser ol>
|i io 11<>■, desenvolvimentos que vêm a seguir.
Durante muitos séculos, na Igreja Católica, a respeito da
minn/l, da vergonha e do medo de si mesmo, nào se dirá
mais do que aquilo que já tinham escrito Santo Agostinho, os l’a
i Ires do deserto e os religiosos dos séculos 1.0o- 13. Mas é impor
l. mlc sublinhar agora a longa posteridade de um discurso homo
geneo, insistentemente retomado. E devemos, sobretudo, pôr em
lelevo a grande novidade (]ue será a difusão desmedida de uma
i ulpabilizaçào e de uma ética que se podería julgar destinada
apenas a uma restrita elite de ascetas heróicos.
Do início do século 14 ao final do século 16, são inúmeros
i is textos em que os mestres espirituais da cristandade denunciam
0 mundo nos mais vivos termos, perpetuando e até agravando a
confusão entre os dois sentidos da palavra “mundo” destacada
m. iis atrás. C) vôo místico certamente só é possível graças a ret usa
i.ulical de tudo o que podería pesar na alma e impedi la de asi eu
dei para o Salvador. Semelhante desprendimento só é então pio
poslo a seres excepcionais e em princípio não ten) valor exemplai
para o comum dos fiéis. Mas o historiador deve levar em cohla a
< spansão que tiveram pelo menos algumas das obras redigidas pe
li is grandes místicos - expansão geradora de ambigüidade e causa
iiiplementar de confusão entre o mundo em que Deus colocou o
In unem para que nele eumprisséseu destino e o mundo sinônimo
di pecado. Mestre Eckhart (1260-1328 (?)) afirma num sermão: “E
puro o que é apartado e separado de todas as criaturas, pois todas
as c riaturas sujam porque são nada”.6 263 E, à jovem rainha da Hun­
gria, que ficou viúva prematuramente, ele escreve: “... Se-queres
ler e encontrar plena alegria e plena'consolação em Deus, trata de
despojar-te de todas as criaturas, de toda consolação vinda das
1 ri.lluras”.64 O dominicano Suso (1295-1366), aluno de Mestre
Eckhárt, coloca na boca da “Sabedoria eterna”, respondendo ao
sevidor” que a questiona, estas exigentes recomendações:

62. Revue d 'aseétiqu e..., 1964, p. 4 89. Cf. DUQUOC, C. Eschatologic ci


real ités terrestres. Lum ière et vie, IX, 1960, p. 4-22.
63. Tradução de ANCELET-HUSTACHE, J. M aitre E ckhart et Ia mystique
rhénane. 1. cd. Paris: Senil, 1956. p. 106.
64. lWid., p, 94.
... Ulcvii teu co rad o acima deste lodo e do pântano profundo
(|iie sao os prazeres carnais... tudo o que o mundo te oferece nao
e nada que possa preencher teu desejo. Estás neste miserável
vale de lágrimas onde o prazer se mistura aos sofrimentos, o riso
as lágrimas, a alegria à tristeza, onde nenhum coração jamais en­
controu a alegria total, pois ela engana e mente..7*

<) místico alsaciano Tauler (1300-1361), também aluno de


M< .in lá kli.ut, c que teve grande influência sobre I.utero, decla-
i i mim .1 iiiuo destinado a religiosos: “O homem não é nada por
l nu • n u i nao ser um corruptor de todo bem”.06 No Diálogo de
h mi i < 11.11111.1 de Siena com Deus, o mundo se vê constantemen-
n •'0 i. us.ii ao com referência ao texto de João (16,8): “Eu en-
' i •i« i ••I .pullo Santo que convencerá o mundo de injustiça e de
lal .o julgamento" Convidada pelo Todo-Poderoso a abrir os
ollio*. "do coipo e do espírito” para o que a cerca, o que vê Ca­
iai ma' Homens criminosos mergulhados numa terrível miséria.
P iivados da luz, com a corrupção da morte na alma, seres de es­
cu rid ão e de trevas, que vão cantando e rindo, dispersando seu
tempo na vaidade, nos prazeres, na baixa luxúria”.67 Inquietantes
e sumárias generalizações. Ademais, para Catarina, “nenhum pe­
cad o e mais abominável que o da carne”68 e ela exclama com São
Paulo "Infeliz que eu sou! Quem me separará de meu cçtrpo: pois
• u tenho nele uma lei perversa que está em revolta contra o es-
I>lilt<>" (Km 7,23-24).
'•aula Teresa de Ávila admira-se de que “um Deus possa co­
mí ml' n .< a partir deste exílio com vermes da terra tão abjetos”.60
\ h imenli manada pela leitura das Confissões de Santo Agosti-
nli' • •Ia alli ina, <i >mo tantos outros escritores espirituais, que “não
ha • ••iii un i nesta vida" e que “é uma grande miséria nossa vida

I.'1 '•> Ct \ I I. ilU ivm completes, trad. e apres. ANCELET-HUSTACHE, J.


T.ui'. Senil, 1977. p. 350.
(.(>, IAl TER. Serm ons. Tradução Hugueny, Théry et Corin. Paris: Desclée de
hmuwci, 3 v., 1927-1935. Aqui, II, p. 237.
0 /. D iiilopite ilc Sain te Catherine de Sienne. Tradução J. Hurtaud. Paris: 1913,
I. p. 190.
68. Ibid., I, p. 109.
69. I.e Château de 1'âtne, dans, Somrnets ae la littérature espagnole, III (sainte
Tliérèsc d’Avila, Lazarillo de Tormes, Christophe Colomb), Lausanne, ed.
Rciicomra, 1961, p. 41.
ii' i' mundo" 11 "( ) meu S e n h o r e meu Hem, exclam a ela, com o
qm u ’l'1 <1 1 1 1 .m iem os uma vkla lao miserável?”,”1 Evocando as "se
uuiI is m<H.ulas" do easielo da alma, c*la avista seres de boa vou
i o li m, 1 1 que "ainda se ocupam cie seus passatem pos, de seus ne
.....Io1,, de .'.eus pra/eres e dos ruídos do mundo”. Ora, “o mundo
ini' 11o note se de passagem essa generalizaba o - está repleto de
ui' ulli.is , em meio aos prazeres propostos pelo demônio, só há
d* imotos, Inquietações e contradições”.72 Os bens do mundo são
11 pieis i líelos de veneno".7-' Mas a própria Teresa teve dificulda­
de em operar a escolha radical entre o mundo e Deus. Ela tentou
huíanle echo tempo conciliar o estrito cumprimento cia regra re­
ligiosa e as ocupações mundanas do salão. Mas para progredir no
•ii i umlnho místico ela teve que renunciar a essa conciliação im-
I" ••■.iv«d. "Eu parecia, confessa ela na su a -Autobiografia, querer
■i .iii lllur esses dois adversários, tão inimigos um do outrô, que
. a i a vida espiritual, suas alegrias, seus sabores, e os passatempos
«• usuais".-l
Santa Teresa afirma numa passagem das “sétimas moradas"
i jtu quando a alma “se esvazia de tudo o que é criatura por amoi
di I >cus”, este “a preenche necessariamente de si”.75 Sãçéjoào da
• ui levou ao limite essa experiência. Para ele, reduzir a alma á
sua r.sscncia, é criar “um vazio completo em relação a todos os
•ili|eios criados”.76 Para ascender a Deus a alma necessita da noi-
i' I Ia deve cessar “de nutrir-se no gosto de todas as coisas”, es-
i ihill ar se no que concerne a cada um dos cinco sentidos, “na es-
' mídao e sem nada”. “O despojamento deverá ser completo, es-
........ ainda o santo asceta, e estender-se a tudo o que [a alma] po-
-I, H i 11 ínter." Que ela se dedique constantemente não ao que é
ui il. lacil, mas ao que é mais difícil... Não ao que agrada, mas ao
qur desagrada... Não a procurar o que há de melhor nas coisas,

70. Ibid., p. 71.


71. Ibid., p. 72.
72. Ibid., p. 62.
73. Ibid., p. 61.
74. CEuvres completes, tradução de Auclair, M., Paris, 1964, Desclée de Brou-
wcr, p. 51.
75. I.c Château de l ’â m e, p. 250.
76. I.a M ontêe du Carm el, I, cap. III, p. 34: CEuvres spirituelles, tradução de P.
<irégoire de Saint Joscph, Paris, Senil, ed. de 1972.
77. Ibid., todos os capítulos III c IV.

: ü)
mus ao <jlk* luí de pior”."8 Dois “contrarios” nao podem residi i
num mesmo individuo."” “A alma que está apegada a bele/.a de
lima criatura qualquer é soberanamente feia diante de Deus. E por
conscguinlc essa alma feia não poderá transformar-se na beleza;
pois ,i feiura nào atinge a beleza”.80 “Todas as graças e os atribu­
lo'. das criaturas comparados com a graça de Deus são apenas
di .rui/.i soberana e soberano clesprazer”.81Jean Baruzi comparou
luslamrnlf .1 poesia mística de São João da Cruz aos seres “vola-
11I1..11 li is que povoam os cpiad ros de El Greco.82
I iin dos m.lis belos poemas, c dos mais tenebrosos, sobre
■■ mal 11111\1 1sal Ini composto na Espanha do “século de ouro”
pi lo i, hi'jn'.o Agn.siininno Erei Luís de León (1528-1591)- E foi
■- mipi - .1•' a pedido da carmelita Ana de Jesus - aquela que su­
ri un 1 ‘.ao |o.in da Cruz para escrever a obra que viria a ser o
1 ,luli< v ej>lrlln<il" Ainda estamos, portanto, no espaço da mis­
il- a 10 dlglilo na véspera da morte ele Frei Luís de León, o Co-
m oitiirío do lloro d e j ó só teve, então, uma audiência limitada
e so loi editado em 17 7 9. 8q Todavia, seu autor estava na época
cnlre os mais célebres professores da Universidade de Salaman­
ca o que deixa entrever uma difusão considerável. Além disso,
U'Slemunho de su a notoriedade, ele foi encarregado de dirigir a
edição oficial das obras de Santa Teresa. Seu temperamento bi­
lioso e nervoso o levava à melancolia. Mas a suspeitosa Inqui­
sição i aslclluma deteve-o durante quatro anos e meio numa es-
1u lia plisan; ele tenia reprovado o valor da Vulgata; ele tinha
n idu/ldi» em língua vulgar o Cántico dos cánticos ; ele teria
m-mli-l-- 1- la- oes com os heréticos. Inocentado dessas três acu­

ai lililí,, cap. XIII, p. 84.


'*) Ihld,, I, |)i 45.
Mi M <1(1 .’ 1 1 I.1 Bihl. N.u. de Madrid. Trad. BARUZI, Jean. Saint Jean de la
< /i-n et le problénte <!c /'expérience mystique. Paris: Alean, 1924. p. 411.
81, la M ontee 1I11 Carm el, I, cap. IV, p. 38.
tU, BARUZI, ). Saint Jean de la Croix..., p. 408. A expressão “volatilisés” (vo­
latilizados) é de Barrés.
83, BARUZI, J. Luis de Léon interprete du Livre de Job. Cabiers de la Revue
d'hiuoire ct de philosophie religieuses. n. 40. Paris: PUF, 1966. p. 8.
84. As exposições que seguem e as traduções de acordo com GUY, A. L a Pen­
d e de f ray Luis de Léon. Paris: Vrin, 1943. p. 292s. Textos citados segundo a
edição das Obras de Louis de Léon por Muñoz Saenz. Utilizo o artigo citado
na nota anterior.

10
•■KlH’.'i, ele retomou iriunliilnicnU’ muís cursos cm Snhmumea,
M.is, no seu c .ilnbouço, ele tinlia experimentado o desespero.
I . i experiência <> marcou c certamenle contribuiu para tornai
mais sombrio o Com entário (|iie ele escreveu sobre o já bastan
I» sexnbrlo Uvro de Jó.
I'rei Luís de l.eon não é insensível aa encanto da nalure
a I Ir c elebra as frescas solidóos agrestes, as pastagens semea
das de flores, as fontes jorrando e as noites estreladas. Mas, re
montando desses objetos fascinantes ao seu criador, ele aspira
i oni nostalgia às felicidades do único paraíso verdadeiro e recu
sa se a deixar-se levar pelos encantos enganadores e pelos lis
pecios risonhos das coisas deste mundo. O homem, do mesmo
modo, é apenas aparência. Jó o compara à ñor que um golpe de
vento lana e mata num instante. De fora, ele pode parecer um
I >eus imortal”, pelo seu entendimento, sua memória, sua sensl
bllidade aguda, sua habilidade e sua destreza. Mas “se chegai
mos ao que ele é de fato, é uma ñor fañada e seca, sem Irulo
nem esperança de fruto”. “É uma aranha que um sopro de ai
basta para matar”.85 Quanto à vida humana em geral, ela e api
nas uma “contínua perda do ser; uma morte que, a cada Instan
le, constitui a véspera da morte”.86 Esse é sem dúvida um t< .
Mas que esse tema tenha sido um lugar-comum no Inicio dos
tempos modernos, eis aí justamente um fato importante* no pia
no das mentalidades coletivas. E depois, Frei Luís de l.eon viveu
profundamente esse desprezo do mundo, sobretudo no seu úl
timo poema onde comenta e renova o Livro de Jó, com uma
pungente sinceridade:

Com efeito, assim aquele que caminha através de terrenos pe­


dregosos e rochedos escarpados, correndo o perigo de ser pre­
cipitado para baixo, ou através de paragens infestadas de ban­
didos e temendo por sua vida, abomina esse caminho, deseja
vê-lo terminado e jamais o teria tomado como caminho se i.sso lhe
tivesse sido possível, assim também esta vida através da qual ca­
minhamos sempre com tão grande perigo, deve ser desprezada; e
uma vez que nascemos para morrer e que o fim da vida é a mor­
te, é abreviar nosso sofrimento chegar a esse'termo o mais cedo
possível. Da atenta consideração dessa evidente verdade provém

H5. Obras, 1, Exposición de Job, XIV, 2, p. 224.


86. Ibid., 1J o b , IV, l(), p. 70.

II
estas palavras de Silcnc, que ficaram célebres: "A mellioi sorte e
nao nascer, e a segunda depois desta é morrer no nascimento".

(loníissào desesperada a ponto de se perguntar como nào


levou seu autor ao suicídio e que Frei Luís de Leon'justificou com
múltiplos arguméntete. E primeiramente, “todas as horas da vida
lun sua pena”, e mesmo os mais felizes vivem no sofrimento: “Os
il< os os refinados, os esbanjadores, os grandes... confessam que
>o|11 ui miseravelmente”.8788*90 Mas é também o quinhão daqueles
qii* .......mam a paz de espírito nos bens do céu. Quem poderá
........ os pi rigos desse caminho, os obstáculos que o demônio
■•»f m i is aillmanhas, as sutilezas, as armadilhas cheias de erigo-
dos ipil ele usa"?"" A desgraça, portanto, está em toda parte e
ii nla r mais perigoso do (|tie uma vida tranqüila. Esse paradoxo
• di .i 11\o h Ido da seguinte maneira:

I >te oceano da vida, quando está calmo deve ser temido mais
ainda: pois no meio de sua calma reside a tempestade, e sua
quietude e tranquilidade escondem ondas mais altas que as mon­
tanhas... Nossa vida é uma guerra... porque está continuamente
exposta ao perigo..., os homens nos enganam, a sorte nos ilude,
os animais nos atacam e os elementos nos trazem geralmente a
morte. Quem dirá, com efeito, o grande número, a astúcia e a for­
ca das coisas invisíveis que nos movem uma guerra secreta.**’

|.i que tudo é “vaidade”, não é no fim do mundo que se


•ia i mli.u.i a sabedoria. Os “ricos países distantes não oferecem o
te| hiiisi i do ci>rai/a<>” alusão evidente às febris expedições ultra-
iii . i i Ii i . is dos Ibéricos da época.01 O amor terreno e a beleza, é evi-
d. uii i ira/em decepção: “Aquele que de dois olhos claros / E
d' mu i al >eli i de i >ur< >se enamora / Adquire mil problemas / Uma
lio u ml ,, i.ivel, Um prazer breve que se lamenta sem fim”.92 A
piopiia anil/.ule e traição: “O maior amigo /... é testemunha,
quando estamos presentes, / Da virtude que nào temos, / E quan-

87. Ibkl., I, Job, III, 22, p. 48.


88. Ibiil., I, Job, VII, l ,p . 120.
80. Ibid., p. 120-121.
90. Ibid.
9 I. Obras, IV, Poesias, Oda: “De la avaricia”, estr. 1, p. 305-
92. Ibid., Oda “Del modéralo y constante”, estr. 1, p. 308.
■In ( ".I.unos ausentes, do mal que nao fazemos",”' Ademais, o pas
,n lo era lao negro (|iianio o presente, e o luí uro nao si a a mella ir.
Nao se eleve esperar que va existir sobre a Ierra, nos anos vln
domos, algum género novo de bens terrenos graças aos quais o
espirito do homem, saciando-se, vivera no pra/er e na bealilu
il<'... Resumamos em duas sentenças esse desanimador discurso
agostlniano do monge poeta: nós estamos trancados numa “prisáo
baixa e escura”;0' “todo o visível nào passa de triste pranto”.06

iiin discurso para todos os cristãos


Normal entre .os místicos com o trampolim para a ascensão
a I >eus de almas excepcionais, o desprezo do mundo, no inicio
dos tempos modernos, ultrapassou amplamente esse círculo ie-,
I rito. Nao é significativo que o lúgubre D e contempla niina/i do
Cardeal Lotário seja conhecido por pelo menos 67 1 manusi ilh
e 47 edições - a maioria delas datando do século 15°' , e que a
nha sido adaptado em toscano por dois leigos florentino*, c mi
francés por Eustache Deschamps? O primeiro dos dois Italiano.,,
bono Giamboni, juiz da cidade de Lys durante a segunda niela
de do século 13, contentou-se geralmente com uma iiailtu. ao
quase literal, precedida, porém, de um prólogo surpreendem»
“Quem refletir, diz ele, sobre todas as adversidades que se cucou
tram sobre a terra, nào descobrirá nesta nenhum bem. Porque
este mundo nada mais é do que miséria. E ele foi dado por I )eus
ao homem a fim de que este encontre aqui tribulações e tormén
tos e carregue a pena de seus pecados”.93945678 O segundo adaptador
florentino de Lotário é Ângelo Torini, um fabricante e vendedor
de tecidos do século 14 que em diversas ocasiões ocupou fun­
ções públicas na sua cidade. Esse leigo casado, contemporâneo
da peste negra e amigo de Bocaccio, membro de uma confraria

93. Ibid., “Del mundo y su vanidad”, estr. 14, p. 356s.


94. Opera, éd. M. Gutiérrez, Salamanque, 1 8 9 1 ,1, p. 301.
95. Obras, IV, Poesias, Oda: “Noche serena”, estr. 3, p. 314.
96. Ibid. Oda: “El aire se serana”, estr. 9, p. 302.
97. MACCARONE, M. Lotharii cardinalis, D e m iseria hum anae conditionis,
1955. p. IX-XX1I. Nova edição do D e contemptu m undi de Lotário por R. E.
Lewis, Univ. of Georgia Press, 1978.
98. ( 4AMBONI, B. Delta miseria dell'uomo. ... éd. G. Piatti, Florense, 1836, p. (>.
tic flagelantes, rc'clii^in entre 1360 e 1380 unía driere calle lañe
llalla miseria delia am ana condizione que exagera sobre o mo­
delo. Assim, na primeira parte do seu tratado, Torini acrescenta
dois argumentos que nào figuram em Lotário: “Como é fétido e
escuro o lugar da nossa primeira morada” e “Sobre, o número e
.i Intensidade das dores que neste lugar nos suportamos e infligi­
mos .i nossas mães”. Na segunda parte, ele se inspira nào apenas
■ni I <iiaili >, mas lambém ñas Moralia in Jo b de Sao Gregorio, o
;ii 11d i \ iin i-ira parte, consagrada à morte e ao destino eterno
da alma, uliiapassa .impíamente a obra de Lotário. Trata-se certa-
........a di um Ii\ io inspirado no do futuro Inocêncio 111, mas que
Iiim n w mais amplamente num género bem definido: o dos
anali mas m )bte o mundo.
A long.i lorluna desse discurso para além do século 13 e
d ... mu los 11K>ilasi icos e urna certeza. A obra de Inocêncio III foi
liadii. lda (nu adaptada) nào apenas em toscano e çm francês,
mas lambem em inglés, em neerlandés e em espanhol. Em Pe­
naría, o desejo tía gloria combate a meditação sobre a morte e,
depois dele, a ambição de passar à posteridade conquistará cada
vez mais a elite ocidental.”9*Petrarca, no entanto, contribuiu para
ampliar a audiência do tema do contemptus m undi. De seus
Triunfos (do Amor sobre a Juventude; da Castidade sobre o
Amor; da Morte sobre a Castidade; da Fama sobre a Morte; do
Tempo sobre a Fama; de Deus e da Eternidade sobre o Tempo),
i i. onogialia releve particularmente o triunfo da Morte,100 Petra r-
■ i 11 \i mu se uso agudo da caducidade das coisas e do tempo, e
i la i li sgi.g a da condição humana. Na sua epopéia Á frica , ele dei-
s i i i ipai i sta queixa: “Infelizmente, o homem nasceu sobre a
i. na paia uma sorte injusta. 'Lodos os outros seres vivos conhe-
■. ni a quietude Mas ele, sem trégua nem repouso, apressa-se, in-
qitii 1. 1, paia ,i morte ao longo dos anos”,101 O exame.de consciên-
i ia qu< Iviian a intitulou Da secreto conjlictu curarum m earum ,
• q1 ............ num diálogo entre ele e Santo Agostinho, foi lido
i iimii um />e contemptu m undi. O Bispo de Hipòna, escolhido

09. t II, ,i esse respeito o conjunto do livro de TENENTI, A. IlSenso delia mor­
te e 1'itmorc delia vita nel Rinascimento (Francia e Italia). 2. ed. Turim: Einaudi,
1077. Cf. também Dl NAPOLI, G. Contemptus- mundi et dignitas hominis
nel Rinascimento. R ivistadifilosopbia neoscolastica, 1956, t . '48, p. 9-41.
100. TENENTI, A. II Senso..., p. 450.
101. PÉTRARQÜE. A frica, VI. v. 879-900. Ibid., p. 192.
io n io conselhelro, guia Petrarca para a villa Interior incitando'-o
a refletir sobre a morte e os bens perecíveis."u
Também nao deve snrpreender-nos c|iie Erasmo, admira
dor de Petrarca, tenha por su a vez redigido, como muitos outros,
um He contemptu m undi. lile o escreve na sua juventude, entre
I iHH I i89, no Convento de Steyn. Mas só o publicará em IS2I,
acrescentando-lhe dois anos depois um capítulo XII que parece
contradizer o espírito dos outros onze.102103 Devemos pensar como
a maioria dos comentaristas, notadamente Pineau, Telle e llyma,
i|ue o jovem candidato à glória'literária; nessa obra, tenha ape
nas se “divertido” em “exercitar” seu talento sobre um assunto
que prestava para isso? Essa declam ado que busca suas fontes ao
mesmo tempo nos antigos - Cícero, Horacio, Ovidio, Séneca, etc.
o que era novidade desse gênero de escrito - , nos Padres da
Igreja e na tradição monástica medieval, pode parecer urna colé
cao de lugares-comuns. Ela opõe as desgraças do mundo muir
reina Satã à beleza e à felicidade do reino de Deus. Afirma que
o homem natural está sujeito aos vícios. Retomando o lamí >m •a i
pos Ubi s u n t? ele insiste também sobre a decrepitude da velhii •
() mundo, mar tempestuoso e cam pus dia boli, e apresenladit
como submetido a fo r t u n a mutável e arbitraria. O anatem a < la 11
eado contra as “seduções do século”. O homem só se torna \li
tuoso se for “crucificado no mundo”, como quer Sao Paulo, A vil
vação só é obtida pela paz interior. Em que outro lugar a nao set
no claustro se encontrará o porto de repouso e de recolhimento
onde s e pode ficar longe do “tumulto do mundo” e das “vicissi
ludes da fortuna”? Mas precisamente Erasmo não permaneceu no
convento e o capítulo XII é um ataque em regra contra as Ordens
religiosas, que perderam sua pureza primitiva. Daí a hipótese
mencionada anteriormente de que Erásmo nào teria levado a se­
rio sua declam ado sobre o desprezo do mundo. Pode-se também
supor que depois de ter deixado Steyn, ele abandonou o ideal de
sua juventude. Mas existe uma terceira solução aceita ao mesmo

102. KOHLS, E. W. Meditado mortis chez Pétrarque et Erasmes. Colloqaia


erasmidna turonensia. Paris: Vrin, 1972. I, p. 303-304.
103. ERASME. Opera om nia, V, Amsterdam-Oxford, 1977, p. 1-87 com e<>
mentário introdutório de S. Dresderi, p. 3-36. Exposição sintética sobre a
obra de Erasmo em POST, R. R. The M odera D evotion. Confrontation w ith
Reform ation and H um anism . Leyde: Brill, 1968. p. 660-670. Ver também o
artigo essencial de BULTOT, R. Erasme, Epicure et le D e Contem pla m an
d i. Scrinium Erastnianum , Leyde, 1060, II, p. 203-238.

ir>
lempo por S, I) resden e E. W. Kohls: o capítulo XII so .il.it .11i;1 os
claustros para melhor suMinJaar os méritos de mu "monaquisino
no mundo", de novo exaltado no seu escrito tardío D e Praepara-
líoiic <i(l morlem (1533). Erasmp nao teria então variado fúnda­
me ni. límente a esse respeito em relação às tomadas de posição
di 1 Ini* io de sua carreira. Em todo caso, é significativo que ele te­
ñí 1.1 publii .ido o seu De conteníptu m undi no apogeu de sua ce-
I. I>1id.ith halando desse tema, ele estava de qualquer maneira
II (fino de uma larga audiencia.
I l,i< 1 1 tf surpreender, portanto, que Ronsard o tenha am-
1.1 un. nú . s|>h >1.11lo no seu Hino da morte, mais original pela for-
III 1 di. 111ii pelo Inudo. Ele compara aqui o homem sobre a ter-
1 1 1 mu pilsioni no que, dia c noite, suporta / As manículas ñas
n i.............. ...... .1 dina córlenle’’. Ele julga que somos os “verda-
d. le .. I1II1. r. di dor e tle miserias” e "... que somos apenas / Urna
1. 11.1 animada, e urna vívenle sombra...”101 Afirmações que o Car-
di.il l.olarlo pollería subscrever.

I'oi provavelmente com a Imitação de Cristo que o cliscur-


•.<> religioso sobre o desprezo do mundo atingiu pela primeira vez
o grande publico - refiro-me àquele que sabia 1er.10=5 Normalmente
atril nuda a Tilomas a Kempis, composta no século 15 e inspirada
pela / h'eolio m oderna , a Imitação liga-se à corrente mística e dei­
xa adivinhar a influencia de Ruysbroeck. Ela conheceu um ex­
traordinario sucesso antes mesmo da invenção da imprensa, ja
•po se di si obi iraní mais de 700 manuscritos. Sua propagação es-
n mliai st pulíanlo, nao somente para o clero secular, mas para
- In 11I111. . ida ve/ mais amplos de piedosos leigos. Em seguida,
•luí mil' um longo período, a audiência da Imitação se manteve
•m alia ( oiili.-i e se riela K5 incunábulos e 200 edições no curso
do . •11I0 |(i..|la i<>i traduzida 60 vezes em francês em 400 anos,
iioi.ttI......... poi Corneille, Gonnelieu (pregador jesuíta do sécu­
lo | q 1 po 1 l.nmennais. Nesta ultima versão, as passagens mais

MM. RONSARD. CEuvres, completes. Paris: P. Lemonnier, 1914-1919. VI,


p. 10-44.
105. I )EI.ARUEI.LE, E.; LABANDE, E. R.; OURLIAC, P L'Eglise au temps
Alt Granel Schism e (t. XIV, 2 de ¡'Historie de l ’Eglise, Fliche et Martin), p. 937.
P ietionnalre de Spiritualité, VII, col. 2.338-2.368.
106. O . BACKER, A. de. Essai bibiiographique sur le livre "Pe Im itatione
Christi". I.iége, 1864.

10
Iirv.linlNtiiN são agravadas pelos comentários . iin<I.i mais sombrios
111k* o própfln texto. Ora, o Livro I ela Imitação é "um verdadeiro
I ><' coHtcmptn nrtmdi que nos remete á ascese de Wlndesheim e
Insisle sobretudo sobre o desprendimento’’.1"’ Lemos nele:

Quem se conhece bem se despreza. A ciência mais alta e mais


útil é o conhecimento exato e o desprezo de si mesmo. Somos
todos frágeis, mas ninguém é mais frágil que você,.. (1, cap. 2).

Evite, tanto quanto puder, o tumulto do mundo; porque existe


perigo em entreter-se com as coisas do século, mesmo com uma
intenção pura... (I, cap. 10).

É realmente uma grande miséria,viver sobre a terra... Comer,


beber, acordar, dormir, repousar, trabalhar, estar sujeito a todas ,r,
necessidades da natureza, é realmente uma grande miséria e uma
grande aflição para o homem piedoso que quiser ser despojad'i
de seus bens terrenos e livrado de todo pecado... Infelizes aqih
les que não conhecem sua miséria b infelizes mais ainda aqtu I*
que amam essa miséria e essa vida perecível (l, cap. 22).

Mas o desprezo cía vida terrena e a afirmação de que ela


nào passa de uma rede de misérias não são expressos apenas no
Livro 1; porque no terceiro retorna o mesmo tema sola a forma de
uma interrogação quase suicidaria (não fosse o refúgio em Deus):
"Como podemos amar uma vida repleta de tantas amarguras, su­
jeita a tantos males e .calamidades? Como podemos chamar vida
algo que engendra tantas dores e tantos males?”107108 (III, cap. 20).
1(ssas frases, centenas de milhares de leitores as meditaram du­
rante vários séculos já que um especialista da história do livro es­
creveu que a Imitação foi “talvez com a Bíblia, a obra mais ve­
zes impressa até nossos dias”.109
Entre os best-sellcrs da literatura religiosa do passado, ao
lado da Imitação, figura com destaque A Grande vida de Jesu s
Cristo do cartuxo Ludolfo de Saxon, mais tarde um dos livros de
cabeceira de São Francisco de Sales. As duas obras são contem

107. DELARUELLE, E. L E g lise ..., p. 935.


108. Todas estas citações são extraídas da trad. de LAMF.NNAIS, F. dc. Paris:
Setiil, 1979. p. 13. 23, 45, 127.
109. MARTIN, 11. J. I.Apparition du livre. Paris: Albin*Midicl, 1958. p. 381.

17
poruñeas o as v c/cs st* pensou, nota ela mente no século I que
o santo monge era também o autor da Imitação. Ludolfo conta a
vida dc Jesus indo além dos Evangelhos. Em certos momentos,
ele Interrompe a narrativa para introduzir comentários espirituais,
voltando depois à história de Cristo. Serào, sobretudo, as refle­
xões do religioso que nos ocuparão aqui. Elas, às vezes, são me-
iii'. abiuptas que as do autor da Im itação e trazem distinções
tllels para uso dos leigos, l.udolfo declara em suma que existe
diia . ' .|tecles de discípulos de Jesus: uns por “necessidade”, ou-
li" p. a supeieirogaçào”. Os primeiros não devem nunca apé-
", ii > a n aia de maneira a preferi-la ao céu, ao passo que os se-
Mim•I''. a m ie límenle” a obrigação de abandonar tudo, como
... ip " . tolos, paia praticar uma pobreza voluntária. “Assim, nem
i* I........... .. listaos ,ao efetivamente obrigados a deixar tudo; mas
ipi na •os n llgloso.s ligados pelo voto de pobreza. Mas todos nós
deví mos reiuiiu lar a tudo de coração, de modo a preferir Deus
a indo"."*1 Em outra passagem, Ludolfo tem eista bela fórmula,
ii.mqiiili/adora quando tomada isoladamente: “... Amemos o ho­
mem, livremo-nos do demônio; oremos pelo homem, lutemos
contra o demônio”.112 Mas'o contexto desmente sua bènignidadé
poique ela está inserida numa passagem que comporta uma for­
te e global acusação do homem:

"<) Salvador disse: guardem-se dos homens como dos maiores


males, querendo mostrar-nos que o homem é o maior perigo so­
be ,i lena. Cada fera selvagem tem sua malícia própria e única;
ui,is " homem encerra em si todas as malicias. Mais ainda: ele é
pli Mque o demônio.""1 Ludolfo quer certamente dizer que quan-
do m In miein e mau, ele é pior que tudo. Mas, a exemplo de inti­
mei,, i aillos escritores cristãos, ele generaliza em nome de uma
\Is io p, .simlsia da humanidade. E é nesse mesmo espírito e com,
i . 1 1 ii .ma . .i ml agilidades que escreve: “Quem é cristão, diz San­
io \gos(lnho, tem o mundo por inimigo”,1" ou ainda: "... Nin-

I 10. D iaionnuire de Spiritualité, VI, col. 2.342, citando um tradutor francês


da Im itation, Jehan de Grave, Anvers, 1544. Sobre Thomas a Kempis cf.
POS L, K. R. F ie M odenn D evotion..., p. 521-551.
III. LUDOLFO, O Cartuxo. La Grande vie de Jésus-Christ. Tradução de
Maric Prosper Augustin. 6 v. Paris, 1864. III, p. 132.
I 12. Ibid., p. 80.
I 13. Ibid., p. 79.
I 14. Ibid.

•IH
guém pode aspirar ardenlemcnte .1 vichi (Mura se 1 1 , 1 0 llvei prl
moho mu soberano desprezo por c*l:i... (v)ucm desc|a (hegai ,1
verdadeira patria .1 n¡io ser aquele que experimenta as dlflculda
i les e as clores do exilio? Que homem razoável gemería sobre seu
estado presente, se esse estado nao lhe fos.se uní lardo?""' Mais
adiante lemos esta outra sentença: "O lempo desta vida é dado
as almas e nao aos corpos”.1"'

A Vita Christi de Ludolfo conheceu, repita-se, uma ampla


difusão. Antes mesmo da invenção da imprensa, ela foi traduzi­
da na maioria das línguas da Europa. Em 1495, ela foi o primei­
ro livro impresso em português.11"
Nos seus Exercícios espirituais (redigido por volta de
I's22), obra destinada também a uma" duradoura fortuna e que
se tornou a bíblia de tantos participantes de retiros espirituais,
Inácio de Loyola convida estes - inclusive leigos - a implorar
de Nossa Senhora “o conhecimento do mundo a fim de que,
tendo-o em horror, (eles se afastem) das coisas mundanas e
vãs”.1156718 Ao lado dessa recusa categórica, onde se reencontra a
ambigüiclade da palavra “m undo”, os Exercícios trazem, todavia,
uma distinção geralmente omitida pelos mestres espirituais. Iná
cio não despreza as coisas da terra, já que elas são criadas para
o homem, que deve servir-se delas para a sua salvação.119120Em
com pensação, com o dominicano Luís de Granada, volta-se á
hostilidade declarada aos sentidos, à carne e à terra, notada-
mente no seu G u ia dos pecadores (em 2,volumes) publicado em
Lisboa em 1556-1557 e concebido para ser a terceira parte do
seu Tratado da oração e da m editação. É uma obra da qual fo­
ram constatadas pelo menos 476 edições em diversas línguas
entre 1584 e 1904.110 Luís de Granada foi, portanto, um autor de
sucesso que com eçou sua carreira de escritor religioso por uma
tradução da Im itação em castelhano. Seus argumentos nos inte­

115. Ibid., I, p. 427.


116. Ibid., p. 433.
117. D ictionnaire de Spiritualité, IX, col. 1.135.
118. Exercices spirituels. Trad. COUREL, E Paris: Desclée de Brouwer,
1960. p. 51, § 6 3 .
119. Ibid., p. 28-29, § 23.
120. (¡RANADA, E. Luis de. G uida de pecadores. Martínez Burgos (Ed.).
Madrid: Espasa Calpe, 1953, p. VIII. Cf. D ictionnaire de Spirituailité, IX,
o.l. 1.043 1.054.

I!)
ressam .K|iii na medida em qu e sua audiência Ibl m ullo ampla.
D irigindo-se ao pecador, portanto a cada cristão, o Im petuoso
dom in ican o lhe dá este aviso: “Lá o nd e estão os sofrim en tos do
m undo estão os favores do céu; lá o n d e estão as resistên cias da
nulmvxa estão os so co rro s da graça, a qual é mais po d ero sa qu e
a ualuiv/a",1Mmas com a co n d içã o de tratar o co rp o “com rigor
. dim i Porque assim co m o a carn e m orta se con serv a graças
ao i! i ,i mirra qu e c muito am arga, sen ã o ela se estraga e se
■ n< Ia d< \< m ir .; assim tam bém o co rp o se co rrom p e e se en -
•1o d. ■i. i< •. .< loi o b jeto de solicitu d es e de delicadezas^’.122 D e
m mi li i global Lnr. de (¡ran ad a preconiza “o san to ó d io de si
mi u m 1 i a m orí||L açao de todas as p aixõ es - aqu ilo q u e ele
>liam a 'i ipi'llh .«ii .ilb o ”. Mas o qu e ele en ten d e ex atam en te
p- m i ' ' I I', i m u resposta: “Todas as afeiçõ es, tod os o s m ovi-
iii' na ' nal i n a I-, co m o o amor, o ód io, a alegria, a tristeza, o te-
....... a i '.p ria n ça , a cólera c outros sen tim en tos sem elh a n tes”.121
I v .r apetlie ,s ensitivo c]iie co b re um d om inio tão vasto, Luís de
(d an ad a ainda o d efine co m o

.i parte mais baixa de nossa alma e, portanto, aquela que nos tor­
na mais semelhantes aos animais... aquela que nos avilta, que nos
rebaixa para a tena, nos afasta do céu. Ela é muitas vezes a fon-
ir’ e a origem de todos os males que éxistem no mundo; nela re-
■ide a causa de nossa perdição... Nela, está todo o arsenal, toda
a Ibrça, todas as munições do pecado.

I ni seu impulso, o ardente pregador com para “o apetite


- n 'IIP ■' a l \ a ble c bva dentro de nós, isto é, “a partje mais d é­
bil ' mais 11 1 <llu,ida de nossa alma, pela qual a antiga serpente
ii i. a 1 1 <»'.■.• i \d,io Inleríor", send o este, pelo contrário, o nivel su-
p> 1 1<n de nosso sci, la onde im peram o entend im ento e a von-
i.ob■ < » di.una do p ecad o original é en cen ad o assim, a o longo
da vlila di um nivel a outro de cada um de nós. No andar tér-
ii '' ' ni vigilia perm anente, está o inimigo de negro v en en o. Se-
m ellianle analise, em qu e ressurge incidentem ente o antifem inis-

I I. bd. Martinez Burgos, p. 114.


I 22.. Iliiil., p. 148.
I 23. Ibicl.. p. 161.
I 24. íbicl., p. 156.
125. Ibicl.

no
uní 1 1,| <iil(iii .1 ei le.sláMlca, t | i k -ix • que, no <iénesls, o p ira d o
••1 1o.In. 1 1 i apresentado Hilo co m o uin.i 11 .u|tK*/a dos sentidos, m;is
...... . iiiiu atitude d i’ orgulho o üm desafio a l)i*us.

justificação pela fé e necessidade


do desespero
<) ((lie ocorre coni o contemplus m undi e a depredando
d> i homem na teologia protéstame? Pan corto sentido, o mundo c
i \|>la ni >mundo se acham aqui reabilitados em contraste com os
m.nemas monásticos anteriormente citados. Em primeiro lugar,
■ pullo e carne nao sao mais opostos segundo o esquema dua
li i i herdado do neoplatonismo. “E tão tolo tomar essa palavra
■ame pelo corpo”, escreve Calvino. Comentando a Epístola aos
1 . dalas, hulero observa que São Paulo “nào chama de carne a vo
lupia desenfreada, as paixões bestiais ou os apetites dos senil
do . Nao e o corpo que é mau em relação à alma. Daí uma In
dio utivel e fecunda exaltação dos “deveres seculares e carnais
di .prezados, diz ele, pelos papistas:

... Iodos os deveres dos cristãos, como amar sua mulher, ali­
mentar seus filhos, dirigir sua família, honrar seus pais, obedecer
ao magistrado, etc., que sao, para eles los papistas] deveres secu­
lares e carnais, são frutos do Espírito. Esses cegos não distinguem
dos vícios essas coisas que fazem parte da boa criação de Deus.1'

Opondo-se a toda a tradição eclesiástica anterior, hulero


i i pi Mlanto, o elogio do casamento. 1lm dia ele exclama á mesa:
" u que se pode admirar o bastante a união conjugal que Deus
n giilameutou e estabeleceu, e da qual derivam a espécie huma
o i iv.Im como as instituições domésticas?”.1" Outro “discurso” faz
•••• to anterior: "O casam ento é a mais bela instituição qu e Deus

I I UTIIEK, M. U 'uom, t. XV, da Ed. habor ct Pides, Genèvc, l‘)57s.,


( onnucnhiirc tk íl'.'pilic oitx (ntlalcs, p. 22d 225.
I 1 I bit I.
I 'li til I I IKK, M, hopos tic hib/c. Paris: õ. Brimct, 44, p. 84.

r>i
regulamentou: as leis ímpias do papa nada mais sao do <pk- nina
opressão viólenla da natureza”.129 Assim, o Reformador censura os
•..míos Padres” (da Igreja) por não terem “escrito nada de digno
.i respeito do casamento; todos se deixaram enganar pelo imun­
do celibato, de onde saíram,tantos horrores, e não perceberam a
dignidade e .1 eminencia que o Antigo e o Novo Testamento atri­
buem .10 i asa mento”.1''1Alguns anos depois, ele volta a esse tema
•II, eir |i 1 A geração c uma instituição maravilhosamente instituí­
da « ni Ioda criatura, macho e fêmea”.131
I . .. e|i .glo da sexualidade insere-se numa admiração mais
impla d 1 t 1ia< ao que Lulero chama o “jardim de prazer da alma”
1 Um d< que <Ia possa “passear entre as obras de Deus”.132 Calvi-
........... n seu liase', magnificas sobre a beleza do universo:

|l )eii.s|, allrma ele, manifestou-se de tal modo [aos homens] nes-


i< edlfli Io (ao belo e extraordinário do céu e da terra, onde dia-
il.míenle ele se apresenta e se mostra, que os homens não podem
abrir os olhos sem percebê-lo... É por isso que o Profeta (Sl
U) 1 . 2 )... compara a extensão dos céus a um pavilhão real, dizen­
do que Deus o forrou de águas, que as nuvens são carros, que ele
c avalga sobre as asas dos ventos, que tanto os ventos como os re­
lâmpagos são seus agentes [= mensageirosI... Não podemos con­
templar com um olhar esse edifício tão artificial 1= obra-prima] do
mundo tao bem digerido [= regulado] e ordenado, sem que fique­
mos quase confusos por uma luz infinita.1"
I
I m otilro capítulo da Instituição cristà, Calvino maravilha-
■ dianle da 'multidão cie estrelas, que não se pode desejar coi-
1 m 11 di lt iiavel para ver” e diante da potência demonstrada por
\11111 le 11111 ao mesmo tempo sustenta “uma tão grande massa
•111< ' 1 di 1 mimdt>universal” e faz “girar o céu tão levemente”.134
1 »i 1 |>,-i 1 . orlou Iodas as coisas “em vista do homem” e este não

I I b l d ., g. hs.
110. Iblil., p. 87.
I U . Ibiil.,. p. 2 17. Cf, também D e la vie conjúgale (1522) em CEuvres, III,
p. 225-226. '
132. I.UTI 1ER, M. CEuvres, VII, Une m aniere sim ple d eprier (1535), p. 213.
I 53. CALVIN, J. Institution de la religión chrétienne, 4 v., Genève, Labor et
Pides, 1955s.; I, v, 1, p. 17-18.
134. IbicL, I, XIV, 21, p. 130.

R2
tli l\.i <lr M'i mu ,tdmllá\ el mi cesso. "(v)u;inclo entilo nos venios
mi. <m lililíes pagaos es.sa admirável lux. de Verdade, <pic* apnre-
ii ' iii '.cus Untos, ¡sso nos eleve advertir de1 que a natureza do
Iu 'iiii’iii, embora cleOaída de sua integridade e bastante corrompi­
da, nao delxa de ser ornamentada por muitos dons de Deus."1”
Na aia predicando, Calvino repete que o hornem, mesmo peca-
din, recebe e guarda “a imagem de Deus”, contrariamente aos
Iniis, aos asnos e aos caes... e aos astros que nào têm esse privi-
b glo, I >.11 a sua extraordinaria dignidade:

Deus... quer sem dúvida ser magnificado no céu e na terra, e


em todos os seus feitos que nós vemos, mas muito mais no ho­
mem, porque ele imprimiu sua imagem em nós mais do que em
todo o resto. Porque ele não disse do sol, das estrelas, nem de
qualquer outra criatura por excelente que seja: Eu quero fazer
aqui uma obra-prima que seja à minha imagem e semelhança.1

A leitura dos fragmentos apresentados anteriormente, um


leitor nào prevenido pensaria talvez que a teologia protestante
v,n11*11 o pessimismo sobre o homem e o mundo que era veicti
lado pela literatura monástica. Ora, é o contrario que é verdadei
i«», ja que Lutero e Calvino sào herdeiros de uma tradição da qual
nao era fácil se desfazer. Num sermão, Calvino observa aos seus
' .m inies, depois de tantos outros autores e pregadores, que o ho­
mem c tirado do lodo e da lama:

Se Deus nos tivesse formado da substância do sol, ou das es­


trelas, ou se tivesse feito alguma matéria celeste da qual os ho­
mens fossem tirados, então nós teríamos a ocasião de dizer que
nosso começo é honroso.-.. Mas quando nos apresentam a lama,
quem a olha?... [Oral quem somos nós? Somos todos feitos de
lodo; não o temos apenas na barra da roupa, ou na ponta dos
calcanhares, ou em nossos sapatos, mas estamos todos cheios
dele, somos apenas lodo e sujeira por dentro e por fora.M "13567

135. Ibkl.l II, II, 15, p. 37.


136. Citado em STAUFFER, R. D ieu, lã création et Liprovidence duns la p ré-
d ¡catión de Calvin. Berne-Francfort, Peterlang, 1978, p. 203. Sobre a imago
D ei nos sermões dc Calvino ver a discussão neste livro, p. 201-205.
137. ( 'itado em STAUFFER, R. D ieu..., p. 199-200.

r>:i
I'.is (111c* somos levados ao que já foi cilio. (v)uanto a hule
11>, ele eslá cortamente convencido de que o alo sexual resulta
de uma necessidade universal e inelutável - então por que lutar
contra? -, “assim com o beber, comer, cuspir ou ir à privada”.138
r, finalmente, “c um pecado, e se Deus não o imputa aos espo­
so-., e por pura misericórdia”.139 O Reformador insiste para que
nao nos enganemos sobre o elogio que ele fez do casamento.
I lilao ele escreve:

I i . iido esse elogio da vida conjugal, entretanto, eu me defen­


do) mu In admitido ¡i natureza que nao há pecado em tudo isso...
I'. I....... niiarlo, cu digo que a carne e o sangue, corrompidos por
\d,io . 1 0 i oneebldo.s e nascem no pecado... e que o dever con-
j11 >•il lamáis e ( umprido sem pecado. Mas Deus poupa os espo-
•ios poi grava, porque a ordem conjugal é obra sua; e ele conser­
va ale mesmo no meio do pecado e por seu intermédio todo o
bem que Implantou nela ao abençoá-la.110

Assim, no plano do pecado, Lutero viu o casamento com


um olhar mais sombrio que a maioria dos casuistas católicos. E
isso em razão da justificação pela fé. Esta última divide a huma­
nidade em dois conjuntos: de um lado, os salvos; de outro, os re-
provados, Todos |X‘cam mortalmente. Todos são indignos da sal­
vai, .n i. Mas os pecados de uns serão - e já são - perdoados, mas
n.ni os dos outros. Nas passagens em que os Reformadores dei-
1111 n.i sombra sua concepção do pecado original, e talvez até o
- <111•i '•ui por um momento, eles se mostram mais otimistas e hu-
iii,ml i i . i' parecem reabilitar o homem e o mundo. Mas assim
i|in voltam a -aia doutrina fundamental, eis que volta também
•ii |" ■ 1111i .mu eles aniquilam o homem pecador, não lhe reco-
...........ido nenhuma desculpa e declarando que o mundo só é
I" iiliid .iia tal ponto que é até inútil fugir dele para procurar no
d. s|m udlmenlo uma impossível pureza.
l'ol, portanto, na teologia protestante — e no século 16 -
que a depreciação do homem e do mundo atingiu sua maior vio­
lencia na i ivilizaçáo ocidental. Jamais se tinhaTeito uma condena­
ção tao total e jamais esta tinha sido ensinada a um auditório tão

I 18. I UTH RR, M. (Euvres, III, D e la vie conjúgale, p. 226.


139. lkici., p. 251.
140. Ibid.

r» i
,implo Porque Lulero o seus sucessores convidaram o cristao .1
di .« |mi.11 Inlelramente ríe si mesmo .1 lim de lomar se tapa/, ele
U'ivlu’i .1 graça do Cristo", () homem "que se tornou má arvore,
so pode t|uerer e l'azer o mal”.1,1 A salvadlo reside na lúcida ovi
d* 1u la de (|iie ludo e man em nos e em torno de nos. "Mundo" e
dial 10' sao dois sinônimos. O comentário que Lulero redigiu so
Im a I pistola aos Cálalas é revelador a esse respeito."- O mun
do, til/ ele, e "lili 10” do diabo. H por isso (]ue ele é “totalmente
man" e "repleto tle ignorância, de odio, de blasfemia, do despre-
o de I >« us, de mentiras, de erros; sem contar aqueles pecados
o.i. i'.',eiros (|iie sào os assassinatos, os adultérios, as fornicàçòes,
11 roubos, as rapinas, etc.”."' Onde nào atua a justificação pela fe,
o .i ■encontra pecado, sujeira e inferno. Com sua veemência ha-
I1II11.1I, Lulero, recusando qualquer valor aos atos daqueles que
n,i'' 1 leram, nào creem ou nào crerão, declara: “Onde o mundo e
uh lltor, ele é duplamente mau”;"4 e ainda: “É com muita ra/ào
que l’.iulo c|ualifica este mundo de mau e é quando ele é mclhoi
que e pior”."s Afirmação,que o Reformador comenta assim:

... Tudo o que existe no século está sujeito à malícia do cli.il»>


que reina no mundo inteiro. Por essa razào o mundo é também
chamado de reino do diabo... Em tão grande número que exis­
tem no mundo, os homens estão sujeitos ao pecado e ao diabo,
para não dizer que são membros do diabo que, com sua tirania,
mantém todos os homens cativos... Se o Cristo não está presen­
te, certamente estão presentes o mundo mau e o reino do dia­
bo. Daí decorre que todos os dons que tu possuis, tanto espiri­
tuais como corporais, tais como a sabedoria, a justiça, a santida­
de, a eloquência, a potência, a beleza, as riquezas são os instru­
mentos e as armas servis da tirania infernal do diabo; com o au­
xílio de tudo isso, és obrigado a servi-lo, a promover o seu rei­
no e a lhe dar crescimento.1,6*14

M l. lbid., II, (Controverse contre la théologie scolastique, 1517), p. 96.


l i.’., lbid., XV, (Com m entairc de iE p itre a u x Galates), p. 30, 36, 63.
M3. lbid., p. 55.
144. lbid.
M5. lbid.
LU», lbid. I mero compreendeu bem São Paulo? Cf. OLIVIER, D. La Foi de
Indice, Paris: Pcauchcsnc, 1078. p. 136-139.
Amargo diagnóstico e julgamento sem apelação <|iir se
deveria colocar numa historia mais ampla do pessimismo euro­
peu. A esse pessimismo, o Protestantismo, mesmo fora de Pu­
tero, deu uma nova dimensão. Mesmo que seja possível discer­
nir em certos textos de Zuínglio uma reabilitação parcial do ho­
mem inspirada pela Renascença,147 em outros pelo contrário,
em particular em D e vera et fa ls a religione (1525), a tradição
agostiniana reaparece a despeito de reminiscências humanistas
superficiais e leva a exageros. Contra Erasmo, ele julga o ho­
mem tão incapaz de livre arbítrio quanto de trançar uma corda
com areia ou transformar o diabo em anjo. O reformador de
Zurique alia-se então à severidade do Putero mais sombrio e
compartilha sua concepção melancólica da existência: “A vida
do cristão, afirma ele, assemelha-se a um navio jogado de um
lado para o outro por uma horrível tempestade ora os mari­
nheiros conseguem governá-lo graças ao leme; ora são obriga­
dos a ceder à violência dos ventos”.148 Zuínglio diz que o ho­
mem c impermeável à sua própria inteligência, igual ã siba e
ao peixe-tinta que secretam uma nuvem para escapar de seus
perseguidores: “Malvado e insondável, assim é o coração do
homem. Quem pode conhecê-lo?”149 (Jr 17,9). “Deus arrepen­
deu-se de ter criado o homem (Gn 6,5-9) que é mau desde a
juventude, só deseja a glória, o prazer e a riqueza, e se mostra
ao mesmo tempo astuto e arrogante”. “Somos todos hipócritas”
<I . 6,12 20), São tão numerosos os esconderijos e cavernas do
•o i,n .to humano que enumerá-los é tão impossível quanto me-
dlt o o r c a n o ou limpar as estrebarias de Augias: O homem con-
■i*ii' i amullai a sua maldade. Mas não nos enganemos, “rrial-
o íd o . ,ao Nele, p ensam entos, malvado é seu coração”.
l o d o o capítulo que Zuínglio consagra ao homem em D e
rei,i et faha religione gira precisamente em torno da maldade e

Ia < I. POl PI'. 1’, |. V. //. Zwingli et la Réform e en Suisse. Paris: PUF, .1963.
p W Ví. Do mesmo autor, os artigos “Zwingli - Zwinglianisme” du D ic-
iionnaire d f théoiogie catholique, XV, 2, col. 3.728-3.928, sobretudo aqui
col. 3.788 3.790. Cf. também STAUFFER, R. L’influence et la critique de
íluimanisme dans le “De vera et falsa religione” de Zwingli. In: L’H um anis-
me allem and (1480-1540). Paris: Vrin, 1979. p. 427-440.
148. C f RJLLIET, (.Z w ingli, le troísiém e homm e de la Réforme. Paris: Favard,
1939. p. 105.
149. Consultei a edição do D e vera et falsa religione em Zwingli Hauptschriften
(F. Blankc, O. Farner e R. Pfister), t. IX, Zürich, 1941, aqui, p. 42-58.
lio egoísmo e m u coni lusão e esta: "De Unios os pontos de vistíi
■•homi’in e nuil, () eg<)ísm< >dita l<k U>s <>s sciis pensamcnli)S c l<i
ilos os seus utos", () cristão so pode cntao aceder .1 salvaçao re
i onhcicendo “siu traição e siu misória”. E “desesperando total
111*'iik* di* si im'sino" esse desespero esta no centro da teología
protestante cpie ele descobrirá "o vasto designio da mlserleo'r
tila divina.IM 1 Quanto a bucer, o reformador de Estrasburgo, no
<11 catecismo (1334), ele ensina que os inais santos devem "ava
11.11 como nada e com o lama o bem que já fizeram”. Porque "du
unte toda a nossa vida, o pecado continua a residir em nossa caí
nc onde não se encontra nenhum bem”.150151
Calvino, por sua vez, e com igual aspereza, fustiga o lio
mem e o mundo. Ele trata o primeiro de “apóstata”, de "simio"
(na época, era uma injúria muito grave), ele “besta indomada e
lerox”, de “esterco” e de “sujeira”.152 Porque, diz ele, é o sen pro
prio entendimento que é “inteiramente sujeito à estupidez e a ce
gucira, e o coração dedicado à perversidade”.15-1 Nào c por a< a•.<■
que o primeiro livro da Instituição cristã se abre com a c< uníala
çao da decadência humana: “Nossa nudez descobre com >•i.in•I•
vergonha um monte tüo grande de opróbrio, que ficamos lodm
confusos”.154 O homem é “terra e pó”, “verme e pódridao" 1 \ < \
periéncia permite certàmente perceber “uma semente de religião
plantada em todos por inspiração secreta de Deus”, Mas nao lu
um só homem em quem “ela amadureça, faltando milito para que
o fruto volte na estação...; todos se afastam do verdadeiro conhe­
cimento de Deus: de onde advém que não existe nenhuma pie
ilade bem regulada no mundo”.156 Calcino ensina, portanto, que
só se pode chegar a Deus pelq caminho do desespero: “Para
onde quer que voltemos os olhos, só nos aparece maldiçao de
alto a baixo, a qual estando espalhada Sobre todas as criaturas, c
envolvendo o céu e a térra, deve realmente oprimir nossas alma*.

150. Cf. RILLIET, J. Zw ingli..., p. 98-99.


151. BUCER, M. Résutné som m aire de la doctrine ehritienne. Ti.uluvx» h.
Wendel. Paiis: PUF, 1951. p. 43 e 61.
152. Essas acusações contra o homem reunidas cm P. IMBART DE I A
TOUR, Les Origines de la Réforme, 4 v., Paris, I905s.: IV, p. 72.
153. CALVIN, J. Institution... II, I, 9, p. 19.
154. Ibid., I, I, I, p. 3.
155. Ibid., p. 5.
156. Ibid., I, IV, 1, p. 12.

57
de horrível desespero”.157 Conhecer-se a si mesmo, c desprezar
se - desprezo salutar: "... Avançou bem no conhecimento de si
mesmo aquele que, pela inteligência cie sua calamidade, pobre­
za, nudez e ignomínia, está abatido e asstistado. Porque não há
nenhum perigo de que o homem se rebaixe demais”, se por esse
meio ele descobre “em Deus o que está faltando em si mesmo”.158
Essa doutrina é tão central na teologia calvinista, que ela inspira
o texto de abertura da Instituição cristã :

... É necessário que a consciência nos castigue... por nossa mal­


dade, para chegar pelo menos a algum conhecimento de Deus.
i : por isso que pelo sentimento de nossa ignorância, vaidade, mi­
seria, fraqueza e, mais ainda, perversidade e corrupção, nós so­
mos induzidos a conhecer que em nenhum outro lugar a não ser
em Deus existe verdadeira clareza de sabedoria, firme virtude,
afluência direta de todos os bens, pureza de justiça...; nós só po­
demos aspirai' e tender Ia Deus| com plena consciência, se come­
çarmos a nos despiezar totalmente.1W

Como sempre ocorre no discurso pessimista dos mestres


espirituais cuja crescente audiência nós seguimos passo a passo,
o desprezo de si mesmo está associado a uma lamentação sobre
a miséria da condição humana e o caráter transitório das parcas
satisfações deste mundo. “Ávida presente, escreve Calvino, é ple­
na de inquietações, de perturbações, e totalmente miserável, não
sendo bem-aventurada em lugar nenhum”. Todos os seus bens
“são transitórios e incertos, frívolos e misturados com misérias in­
finitas”.160 Deus não quer que os homens durmam “na paz e no
repouso” que prejudicariam a sua salvação. Assim, ele perjnite
que eles sejam frequentemente perturbados e molestados por
“guerras, tumultos, assaltos ou outras injúrias”:

A fim de que não aspirem às riquezas caducas com demasiada


cobiça, ou se contentem com aquelas que já possuem, ele os re­
duz ã indigencia, ora pela esterilidade da terra, ora pelo fogo, ora
de outra maneira: ou então ele os mantém na mediocridade. A

157. Ibid., II, VI, 1, p. 97.


158. Ibid., II, II, 10, p. 31.
159. Ibid., I, I, 1, p. 3-4.
160. Ibid., III, IX, l, p. 179.

r>H
Um ilc t|iii* ii.io .sintam demasiado |ma/c-i no <.1,sámenlo, elo IIu*.s
(l.i ou mullirlos rudos ou do m.ui caráter, que os atormentam, ou
lhes da filhos maus para humilha los, ou os aflige (liando lhes
mullirles o Millos. |Ou| so os (rala suavemente em todas essas rol
••as... adverie-os rom doenças e perigos, e quase lhes por diante
dos olhos o quanto sao frágeis e cie nenhuma duraçáo todos os
bens que estão sujeitos à mortalidade."’1

Ao término desse balanço, Calvino conclui: “Nào se deve


pioi ui.u nem esperar nada neste mundo a nào ser batalha”.1"'
As Cbrestiennes méditations de Théodore de Bèze, escritas
|><a volta de 1560,165 refletem como uma cópia conforme a antropo-
I' *0,1.1 calvinista. A primeira meditação (sobre o salmo Beatas rir )
•■niiei, a com este grito de desespero: “Ai, pobre miserável, e mais
•|ii* mes(|uinha criatura,-que nunca és mais sem razão do que
quando lua própria razào.te conduz, e tua vontade totalmente des
u o,i.111a le impele, qual caminho escolherás neste labirinto entiel.i
■ ido de tanto atalhos, em que nascestes, e pelo quitl tanto pri.im
bulaste, vagabundo, até agora”.164 A segunda medilaçao (sobu o
111ix) Domine ne...) faz eco à anterior e, como tanto outn »s a u ■
pioleslahtes, descobre o necessário desespero: “Ai ck1 mim mais
que miserável, atormentado, oprimido, esquecido de todo I.n l« •
mortal mente ferido pela minha consciência, atravessado de lado .1
lado pelo sentimento de infinitos erros, nada mais me restando .1
n a 1ser o profundo abismo do desespero: e quanto ao corpo, aria
id o de males, mergulhado em dores, no qual o tormento nada
mil', encontra para atormentar, que farei, que direi, onde irci... e
|iii m iba is me prestará socorro?”165 Toda a obra é escrita nessas lin
1•< repleta dessa amarga experiência. Nela se lê ainda: “Que sou
11. Senhor, em mim mesmo só corrupção, só injustiça, só morte?”.16'1
m.iis: “Tudo estraguei, tudo destruí e arruinei”.167 Na meditação so­
né o salmo Miserere m ei..., Th. de Bèze faz Davi dizer, falando para

161. Ibid., III, IX, 1 , p. 17 ?.


162. Ihkl.
163. MÍZE, Th. de. Chmtienn.es m éditations, texto estabelecido e intiod. por
M. Richtcr, Genève, Dròz, 1964, p. 9. 1. ed. 1582.
I(>4. Ibid., p. 42.
1(0. Ibid., p. 52.
166. Ibid., p. 60.
I(i Ibid., p. 76.

f)l>
i<k |( ),s ( )s Ik )mc‘ns: "I )esde que minha mãe m r c<mcrl>t*ii r nic ,i< |Uf-
( eu cm seu ventre, o vício já estava lá dentro de mim como a raiz,
<|iie depois produziu estes frutos tão amargos e venenosos...”.16*
Poderiamos encher volumes inteiros com textos protestan­
tes do séc ulo 16, inspirados pelo mesmo sentimento agudo dd
drsguç.i e do pecado do homem. Terminemos com duas afirma-
i oes assinadas por John Knox que fez a Escócia oscilar no cam­
po u loimado Encontramos nele a mesma depreciação da natu-
c m * da i i/.io i|uc em Entero e Calvino, a mesma recusa em per-
•>In i no homem nao justificado pela fé o menor valor positivo.
• > pilnn ln i testo de IS(>o c tirado de uma Resposta às muito
-■MM/e/,' ,i, uiyjit Ias ilr um Auabatista. Nele, John Knox declara;

11 li • |oI' 1 1 1 11 >.| natureza e razão não apenas incapazes de nos


I. \ ii .m verdadeiro conhecimento de Deus dando acesso à vida
eieina, mas t.unhem nos afirmamos que elas foram mestras de to­
dos os eiio.s e da Idolatria. Portanto, dizemos nós, natureza e ra-
,m o aliiMaip o homem do verdadeiro Deus, e não podem jamais
nos ensinar nem mostrar o eterno, o verdadeiro e o imortal Deus,
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo."’1' '

() segundo texto é uma mensagem da Confissão de f é es-


cotvsu ( 1561 ), que foi aprovada e difundida pela autoridade ci­
vil, e imposta portanto á população:
i■
Ni is somos por natureza tão votados à morte, tão cegos e per-
\i r.o . <1 1 ic- somos absolutamente insensíveis (por nós mesmos à
0 n o, ii ii smo transpassados de agulhas, somos incapazes dever
iljio o iplillu.límenle), mesmo se a luz for colocada diante de
ti" os i ithi is não podemos aquiescer à vontade de Deus, embo­
la •Ia lio i. nh.i sido revelada... Porque somos incapazes por nós
1 1 ii ....... de i oiii rbei até um bom pensamento1'0 (2Çor 3,5).

UiH lliiil., |>. 7a. < I. também BRAY, J. S. Theodore Bezas D octrine ofPredesti-
II, ilion. Nieiiwkoop, dc ( iraaf 1975, que compara a doutrina da predestinação
di 111 . de hè/.c com a de Çalvino.
1 í)‘>. /Ac Work ojJoh n Knox, ed. D. Laing, 6 v., Edimbourg 1846-1864. Aqui
V, p. 144, liad.cm [ANTON, P. John Knox (1513-1572). LH om m e et 1'oeuvre.
Paris: Didicr, 1967. p. 246.
170. John Knoxs Uistory o f the Rcform ation in Scotland, ed. W. Croft-Dickin
sou, 2 v., Nelson, 1949. Aqui art. 12, II, p. 262. Cf. JANTON, P. John
Knox..., p. 256-257.

(10
Percorramos di* novo num breve .sobrevoo o i.unlnlio .10
11u lino lempo contínuo e diverso (|iie nos levou dos anatemas
ilion.i'.llt os contra o mundo e o homem .ile .1 teologia reíonn.i
d.i Cmii esi.i, operou se uma mudança de perspectiva: os senti
do-, n. 10 sao mais opostos .10 espírito, como se fossem seus ini
minos Porque c o proprio espírito <|ue, no homem, c mau. A
lupa para fora do mundo é declarada inútil, ja que o mal esta lao
pn sente dentro dos conventos com o lora, tanto ha solidao aseé
ll< a m ino na vida em sociedade. A sexualidade e certa mente pe
•amlnosa, mas nem mais nem menos desprezível que o resto de
nossas atividades. Nào existe em nós um estágio superior, que
imlaria impor um pouco de ordem às agitações dos níveis infe
llores. Tudo é mau no homem quando nào há a intervenção da
f.iaç.i totalmente gratuita de Cristo. A doutrina da justificação pela
li na sua formulação do século 16, representou portanto o resul
lado lógico e o ponto extremo de um longo percurso sobre .1 es
liada desolada do pessimismo. A afirmação incansavelmente ie
petlda durante mais de mil anos e incessantemente difundida dc
que o mundo é fragilidade, vícios e vaidades e que cada homem
•111 particular é “esterco” e “lixó” devia acabar por engendrai o
de,-.espero. Mas é esse desespero que salva aquele que, na sua
nudez, aceita entregar-se a Deus.

as margens do protestantismo:
retorno à fuga do mundo
Nas Igrejas oficiais nascidas da Reforma, o cofitcnifrtus
nuiudi não levava mais à fu g a m undi. Mas esta voltou a tona as
margens do universo protestante. Desse modo; ele e uma forma
•1 mpre renaseente de hostilidade coletiva à sociedade. Km geral,
ms Inconformismos religiosos da Idade Média - dos flagelantes,
di» l.ivre Espirito, e mesmo dos discípulos de Váleles no início cie
••eu apostolado - permaneceram pouco organizados e apresenta
vam estruturas cie confrarias.1'1 Seu projeto global continuava sen17

171. -Sl'.<i UV, J . Nçn-Coníonnismcs rcligicux. I11 : / íistonr des re/igions, 1'ld.i
ele, II. I‘>72. p. 1.204 1.268.
do a regeneração da instituição eclesial. Em contrapartida, com os
limaos tchecos, cujos grupos sào percebidos a partir de MSS, apa­
rece outro tipo de diferenciação em relação ã Igreja e ã socieda­
de ligada a ela. Os Irmãos procuram viver a recusa dò mundo se­
gundo o ideal do Sermão da Montanha. Eles se opõem a toda lei
humana ou eclesiástica em matéria de dogma ou de moral. Aban­
donam ã sua própria sorte uma Igreja irremediavelmente compro­
metida com a sociedade pecadora e formam comunidades rurais
constituídas de voluntários que aceitam uma disciplina estrita.
Imerge assim, ou antes renasce, a organização cie tipo “seita”,
como a definiu Ernst Troeltsch e tal com o ela já se tinha manifes­
tado, desde a origem do Cristianismo, nas dissidências gnósticas,
montañistas, novada nas, clonatistas, etc.172 Num contexto que na
verdade começa a prescrever em relação ao nosso, E. Troeltsch
opôs Igreja e seita, A primeira se abre ãs massas e se adaptado
mundo. I Ia faz “abstração da santidade subjetiva no interesse dos
bens objetivos que sao a graça e a redenção”. Essa colusão com
0 mundo provoc a lorçosamenlc reações radicalizantes. Uma delas
•' o i i i o i i . n (iiImiio /\ i^iej.i Integra esse heroísmo ascético e dualis-
1 i qtii ......i a \Ida dos sentidos para melhor chegar à contempla-
• i* >. Mi i i l a ul o qih si mantenha a tradição, os sacramentos, o sa-
i * nli mti 11 i .iim ss.k i aptisi()||i a. A seita, como a comunidade mo­
n i lili i i i- iiip inn iiio relativamente restrito ele voluntários que
bu • i ii 11m’iI* a.o.iini uto interior dos individuos. Mas ela toma
di i In* la da ou li (lacle, e mullas vezes Ihe é hostil. Principalmen-
i * n mipi «o i n as Igrejas que ela cobre de anátemas. Tem tendén-
i la a re|cllai tradição e sucessão apostólica. Ela “remete seus
membros direlamente ao sobrenatural, fora de qualquer síntese
.sociológica. Sen Cristianismo é não sacerdotal. À santificação ob­
jetiva (pelos sacramentos), ela opõe a santificação subjetiva”. As
renúncias ascéticas neste caso são vividas não como uma contri­
buição ã comunhão dos santos e ao “tesouro” da Igreja, mas ao
mesmo tempo como caminho ele união a Deus, como meio de

172. TROELTSCH, E. D ie Soziallehre der christlichen Kirchen und Gruppen,


reproduzido em Gesammelte Schrifien, I, Tubingen, 1923. Tradução francesa
das conclusões dos Soziallehren em Archives de Sociologie des Religions, janv.-
juin. 1961, p. 15-34. Trad. ingl. da obra: The Social Teaching o f the Christian
Churches, 2. ed. Londres, 1949. Cf. também LECLER, J. H istoire de la tolé­
ram e au siéele de la Réforme. 2 v. Paris: Aubier, 1955. Aqui I, p. 201 e SEGUY,
J. Les Assemblées anabaptistes-m ennonites de Frunce. Paris-La Haye: Mouton,
1977. p. 20-27.'
11|ilil.i mtiliu c<>1c'tIv;i e como ivcusii d;i,s armadilhas do iiuindo,
I nlini, enquanto ,i Igreja sc Instala no tempo, os membros d.i sei
i.i vivem frequentemente a espera de um desenlace escatol<jgico
julgamento final ou míUeiiluni de felicidade - que confirmara
a< *. olhos do mundo pecador que. eles eram e sào os eleitos.
Os anabatislas violentos que tomaram o poder em Müns
u i em IS/Vi'1' correspondiam em certa medida ao esquema ante
iíi >i 1 les repudiavam em bloco a Igreja e a sociedade de seu tem
pu Transformaram a cidade numa espécie de mosteiro onde se
piaii< ava a comunhão dos bens (e a poligamia “bíblica”). Consi
11' uivam se como o povo eleito e a espada do Senhor, encarre­
gados de realizar o m illenium . Todavia, a ditadura por eles im
posta na nova Jerusalém e a vontade de promover o reino de
I >eir. pela Ibiqa levavam para soluções unanimistas, afastando o s
di i espírito “sectário”. Portanto, é sobretudo nos anabatistas pau
lii i is e pacifistas do século 16 e do início do século 17 que o eu
■onlrarcmos em estado puro. As declarações, regulamentações (
‘ iinllssões de fé produzidas nessa época pelos grupos anaballs
ia . suíços, alemães, alsacianos e neerlandeses dào todos ênfase a
m s ivssidade de rompimento com uma cristándade corrompida
' m bel, originário de Zurique e perseguido por Zuínglio, afirma
iih "<)s verdadeiros e fiéis cristãos sào ovelhas no meio de lobos,
1 l
•i\i lhas para o-matadouro. Ides devem ser batizados na angústia,
na aflição, na tribulaçào, no sofrimento e na morte”174 (carta a
Mlinizer, 1524). É considerar que os “verdadeiros cristãos” for-
111,1111 apenas um pecjueno rebanho no meio da massa dos ímpios
que tentam

salvar-se por uma fé de fachada, sem procurar os frutos da fé...


sem a caridade e a esperança, sem os verdadeiros costumes cris
taos, preferindo permanecer na situação antiga com seus vícios
pessoais e os costumes comuns, cerimoniais, anti-cristãos do ba
Usino e da Ceia do Cristo, no desprezo da Palavra de Deus, mas
n,i submissão completa ã palavra papista e à palavra dos plega­
dores antipapistas, o que também não está em conformidade
i mu a palavra divina.17'

l i Cl, DITUMÍIAU, J. LaPeur..'., p. 153-154.


I i < ii.ulo cm SK( ilJV, ). Les A ssem blées..., p. 303.
I s ( ii.ulo rin lliiil,, p. 299.
(irebcl e scus amigos pretendem eniao dlsilnguli se ao
mesmo lempo dos católicos e dos “antipapistas" da época, isto é,
da imensa maioria de seus contemporâneos. Assim, o julgamen-
10 cios magistrados de Zurique condenando à morte em 1527 um
amigo de <ircbcl - tendo este último fugido da prisão - compor-
tuvu as considerações seguintes: “[Manz] e seus adeptos separa-
i mi si da Igreja e se agruparam sediciosamente para formar um
■lama <’ lonsiliuii uma seita independente sob o nome de uma
i. 'inbli la i usía ' Com efeito, era realmente esse o projeto
ui iloilsia ■mil'limado pela confissão de Schleitheim (1527). Os
ui o ui ii .uie' is »■ alemaes <|ue a redigem decidem formar uma
i ... i o a- • 11 ii<anal entre alyjius filhos de Deus”, separar-se da
lUaiiiii ii n •' ( ii mundo), impor “uma boa conduta entre eles
■ •liaiii' d 'is p a g a o s ' l síes são evidentemente os não-anabatis-
las d* ni a 11 \isacli is p< a uma ampla condenação de “todos aque-
11 •ipil nao culi aram na obediCmcia da fé, e que não se^reconci-
liaiam i mil I )eus para querer lazer a sua vontade... Eles estão em
glande abominaeao diante de Deus. Neles só podem crescer ou
germinai coisas abomináveis”.176177178 Daí a necessidade de repudiar
todo nleodemismo, toda participação mesmo puramente formal
nos cultos oficiais: “Nós não podemos ao mesmo tempo partici­
par da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”1'8 (isto é, a co­
munhão nas grandes Igrejas).
Povo de eleitos, de “puros”, de “convertidos”, que querem
n ■ilai .r. comunidades cia Igreja primitiva, os anabatistas (pacífi-
■' o ............. ... impor sua doutrina, mas querem o direito à di-
I' iciii a ou ale mesmo a secessão, e pretendem marcar de ma­
ní n i liingnel aquilo que os separa de um mundo pecador que
'i di ■ piau i que tem "o diabo como chefe”. Esse separatismo',
■li . ' i ........um primeiro e sobretudo pelo rebatismo dos adultos.
mi .M . , .ao lógicos consigo mesmos, jã que a adesão ao
• i NI,mismo e para eles uma escolha voluntaria fora de qualquer
' ' >nli xnilsmo imposto pelas estruturas político-religiosas. Esse ba­
tismo de seres livres c responsáveis não deixa de ter semelhança
i oin a profissão de fé daqueles que entram na religião e optam
em geral por um novo nome. E assim como a coesão interna
deve ser muito forte nos conventos, deve ser também nos grupos

176. ( liado cm LECLER, J. H istoire..., I, p., 207.


177. ( liado em SÉGUY, J. Les Assemblées..., p. 236.
178. Citado cm Ibid., p. 238.

(VI
m.ilu IInU n, Momio Simón,s (| 15(d ), o principal animador deles
Um , l'aises Baixos o n;i Alemanha do Norte, esforça-se para man-
i. i lima licorosa prálica da excomunhão (que será atenuada após
.11.1 moile), Ide ensina cpie uma Igreja sem a prática da verdadei-
u excomunhão apostólica (a qual não deve comportar nenhuma
ug.io d,i autoridade civil) “seria com o uma cidade sem mura-
lli.r. nem barreiras, com o um campo sem cerca, como uma casa
■em portas nem paredes”.179 Mais tarde, o independente John
........dwin, pleiteando em 1644 para a congregational way (assó-
i I.k. ao voluntária dos verdadeiros cristãos), admitirá também a
...........uinliào com o um remédio que permite às Igrejas conservar
na pureza. Seu contemporâneo Roger Williams, fundador de
Kl iode Island e da cidade de Providence, polemizando contra os
I>i« .hilerianos da Nova Inglaterra, usará a mesma linguagem. A
. xemplo de todos os homens das “seitas”, ele quer-uma Igreja in-
lolerantc que só conserve nela os “santos”.180
( lomo num mosteiro, e a fim de fazer contraste com as prá-
tlc as de um mundo corrompido, os “sectários” adotam em geral
um estilo de vida austero. Era o caso dos anabatistas que evoca­
mos. A disciplina de Berna (1525) precisan “Devemos fornecer ali­
mento aos irmãos, quando se reúnem em assembléia; será ciada
uma sopa ou repolho ou carne, em pequena quantidade, porque
0 comer e o beber não são o Reino dos céus”.181 Regulamenta­
ções decididas em Estrasburgo em 1568 por uma “conferência”
anabatista e renovadas em 1607 editam: “Os alfaiates e as costu-
leiras se limitarão aos costumes humildes e simples e não farão
nada no sentido da ostentação. Os irmãos e as irmãs... não man­
darão fazer para si nada cie ostentatório”.182 Essas prescrições in-
.ercm-se numa atitude geral cie não mundanismo. Essa recusa do
mundo é muito especialmente marcada nos-agrupamentos ana-
lutistas dos séculos 16-18 pela obrigação constantemente repeti­
da da enclogamia, porque é preciso separar o puro do impuro.
1 c se nos regulamentos de 1568 e 1607:'

Aqueles que querem entrar no estado de casados só o farão


com o conhecimento e os conselhos dos prepostos e dos An-

179. Citado em LECLER, J. Histoire..., I, p. 218.


180. Ibid., II, p. 394.
181. Citado em SÉGUY, J. Les Assemblées..., p. 310.
182. Citado cm Ibid., p. 317.

05
daos; c se elisporao tambépi no temor cío bcu.%; c r i.iiiibem ron
veniente que Informem seus pais Ide seu projetol.
... Os crentes deverão casar-se no Senhor, e nào com descren­
tes e isso valerá para as moças, os jovens ou os viúvos [e viúvas].18318456

A disc iplina decidida em Steinseltz (atual Baixo-Reno) em 1752


t stlpula no seu § 2: “Se um irmão ou uma irmã se junta ou se casa
•"in uma fH'ssoa do mundo, depois volta á assembléia pedir sua
ir.Kliulv.ao, com remorso e arrependimento; esta não lhe será re-
. ii id i mas rom a condição de que (essa pessoa) traga com ela
ni i . iu|tigc com o qual está ligada diante de Deus e de sua Pa-.
I,i' i i \r |v,o sr revelar impossível, eles deverão se separar, e a
P nr .i11•pendida c nielar para que a outra tenha o que lhe for ne-
•i . ..li lo paia viver, e rogando a Deus pela sua conversão e seu
ici<iino a verdade","*'
, 1
A proposito ele tais agrupamentos, Jeah Séguy fala com
ia/.to de- "guetos”, ele “civilização fechada do nao-mundanis-
ino", ele "elnia anabatista-mennonita” onde a endogamia era de
regra,"*' A limitação voluntaria dos contatos com o mundo da
carne assumiu ainda outros aspectos complementares dos an­
teriores, Os primeiros anabatistas suíços recusavam-se a prestar
¡uum enlo, portar armas, exercer a magistratura e empregos ci-
v l.s, lom ecer caução ou assumir compromissos profissionais ou
•i 'iiiru Ia Is em redação ao mundo e recorrer aos tribunais. Por-
i|in ' li . dl/iam pertencer ao reino da graça e do Cristo, e não
i" «l.t I. i <• da carn e... Km seguida, foi necessário atenuar çs-
fttis lom adas de posição dificilmente sustentáveis. Nasceu uma
i ,1'itusi|. i do permitido e elo não permitido. A Confissão de
I ..... 111 i lif ( I(i 'i2) reconheceu que Deus “ordenou o Poder, ou
a \nli a iditde (do listado), e a estabeleceu para o castigo dos
maus i a proteção dos bons”.187 Entretanto, os grupos anabatis-
las i ,11111 aram se‘ para conservar seu particularismo e sua auto­
nomia na sociedade global pelo isolamento físico (principal-

183. Citado em Ibid., p. 316.


184. Citado em Ibid., p. 318.
185. Ibid., p; 244-245.
186. Ibid., p. 237.
187. Ibid., p. 253.
un ule no cam po), por con ira modas de vestuario, pela endo
i'.unía e por urna estrila disciplina interior."4"
() Anabatismo é apenas uma divisão particular dentro do
universo "sectario" que se constituiu a partir do século 16 às mar
r. le, do Protestantismo. Porque o desejo de ruptura com o mun­
do peí ador man iTestou-se mais ou menos claramente em todos
os agrupamentos cristãos de “regenerados” e de “eleitos” que se
. i laram para formar “puras associações de crentes sob o governo
do ( rlsto e não do príncipe”. Daí a retomada de atitudes de não-
mundanismo nessas dissidências separatistas, mesmo onde não
i \istia o batismo de adultos. George Fox (1624-1691), o funda-
doi dos Quakers, pregou um igualitarismo religioso absoluto
( nada de pastor), um anti-sacramentalismo (nem batismo, nem
' l ia); ele preconizou a não-resistência total, a recusa do jurnmen
lo, dos cargos públicos, dos títulos (de nobreza, por exemplo),
das formulas e práticas de polidez. A Sociedade dos amigos, que
•li instituiu, fixou-se voluntariamente em modas ultrapassadas de
\estuários e a prática da endogamia.189 Mais petto de nós, as fes
temunhas de Jeová, que existem desde 1874, associam uma leo
logia muito “liberal” (o Cristo nào é Deus), a uma exegese literal
(lodos os números da Biblia têm um sentido preciso), a espera
do m illenium e a um radicalismo agressivo em relação a todas as
Igrejas, a todas as outras seitas e à autoridade civil. Eles nào têm
padres, mas pregadores itinerantes. Recusam-se a ser soldados e
a fazer a saudação à bandeira:190 mais um caso, entre tantos ori­
llos no tempo e no espaço, cie recusa do mundo que é também
....... necio do mundo. Pessimismo e anátemas à base de repulsão.

188. Ibid., p. 831.


189. SÉGUY, J. “Non-Confonnismes...” donsJFíistoñvdesreligions, II, p. 1.286-
1.287.
190. ibid., p. 1.295.

(17
capítulo 2

do desprezo do mundo
às danças macabras

a “familiaridade” com a morte


A audiencia crescente concedida ao contemplas miiihli
mesmo fora dos meios eclesiais - mas sob a incitaçao <l<".l< .
permite compreender melhor o lugar e a feição atribuído1, a 111<>i
l< pela civilização européia entre os séculos 1 4 e 18. Nao e o» lo
■.o, portanto, tratar de novo da morte no Ocidente do inicio do.s
lempos modernos apesar das muitas obras consagradas a esse as
Milito.1 Sobre esse tema declaro minha dívida e minha gratidão

1. A bibliografia sobre o assunto é imensa. Além das obras que serão mondo
nadas no decorrer das exposições, insisto em assinalar especialmente MAM,,
E. L ’A rt religieux de la fin du Moyen Age en Frunce: Paris, A.,Colín, 1925. TE
NENTI, A. La Vie et la m ort a travers l'an du X V siècle. Paris: A. Colín, 1952
e / / Senso delia m orte e Vamore delta vita nelRinascim ento. Turin: Einaudi, rééd.
de 1977. HUIZINGA, J. Le D éclin du Moyen Age. Paris: Payot, éd. tic 1967.
EEBRUN, F. Les Hommes e tja m ort en Anjou aux X V ir etX W ir siécles. París-
La Hayc: Mouton, 1971. VOVELLE, M. P iété baroque et déchristianisation en
Provence. Paris: Pión, 1973 et La M ort et l ’Occident. Paris: Gallimard, 1983.
( 1IIHAIA, P. Les Idées depéren n ité et de décom position dans la sculpture fuñé
m ire occidenta/e, tlièse doct. Paris IV, 1973 (A. Tenenti ofereceu-mc amavd
mente suas notas sobre este trabalho). ARIES, Ph. Essais sur Vhistoire de la
morí en Occident du Moyen Age à nos jours. Paris: Senil, 1975 et L'Homtne de
rant la mort. París: Senil, 1977. THOMAS, L.-V. Anthropologie de la mort, Pa
lis: Payot, 1976. CI ÍAUNU, P. l.a M o rtàP aris. Paris: Fayard, 197Fí. FAVRF,
R. La M ort au siècle des Lum ibes. Presses Universitaires de Lyon, I97H,
WIRTH, J. La Jcu n efilie et la mort. Recherches sur les thhnes macabros dans Van
yetvianb/tte de la Rcnaissance. Gcnèvc: Droz, 1979. Le Sentiment de la mort au
Mayen Age (Colóquio tía Univ. de Montreal publicado por C'I. SU ITO),
Montiéai: éd. Univcrs, 1979.

(ib
para com meus antecessores cujos ira hálitos utilizarei amplamen
lc, mas dentro da perspectiva sintética que escollti para este le­
vantamento geral sobre o medo de outrora. Esse enquadramento
deveria trazer uma luz nova.
I )e início, e necessário abordar um ponto de método: para
explicai um fenômeno histórico de grande amplitude - por
i ( mplo, a obsessão da morte no início da modernidade ociden­
tal nao podemos contentar-nos com uma única causa. Pelo con­
trário, i a convergência de diversos fatores agindo em conjunto
(e qin piideilam ale nao coincidir) que é preciso fazer aparecer.
«Mi i |t igli a Interna dos desenvolvimentos contidos neste livro e
naqtii li i|iie o precedeu levam a recolocar a morte durante a
. ........i i ( msldi iada dentro de dois grandes conjuntos explicativos:
a) o longo processo de aculturação religiosa e de culpabilização
que, partindo dos mosteiros, atingiu por ondas concêntricas ca­
madas cada vez mais amplas da população européia; b) o pro­
fundo pessimismo, resultado de stress acumulados, que dominou
os espíritos, notadamente os da elite, entre a época da Peste ne­
gra e o fim das guerras de Religião. *
A dramatização da'm orte que se produziu então vai, por­
tanto, nos reconduzir ao contemptus m undi. Mas, antes, inter-
roguemo-nos sobre a expressão “familiaridade com a morte”,
tão frequentemente empregada pelos historiadores para carac­
terizar os com portamentos desse período. Porque ela exige ex­
plicação e necessita de um esclarecimento que a desdobre.
Montaigne, ainda imbuído de estoicismo quando redigia o pri­
meiro livro dos Ensaios , declara que ensinar os homens a mor­
rer é ensiná-los a viver. “É preciso estar sempre calçado e pron­
to para partir”, escreve ele, e elogia os egípcios que, após os
festins, “mandavam apresentar aos assistentes uma grande ima­
gem da m orte”. Então, ele dá este conselho célebre: “Retiremos
dele (do falecimento) a estranheza, façamos dele uma prática,
um hábito, não tenhamos na cabeça nada tão frequente com o a
morte”.- Trata-se, portanto, de uma pedagogia para “domesticar”
a morte - o termo está em Montaigne.3
Este, meditando sobre o fim da vida, parece pouco preocu­
pado com o além. Ao contrário, a salvação é na época o leitmotiv
do discurso religioso que obriga o homem a pensar incessante-

l.E ssais, I, ch. XX, éd. Thibaudet, Livre de poche, 1965: I, p. 1 18-122.
3. Ibid., p. 119.

70
m r tili' ii.i mofle* .i lint di* evitar os pecados que poderíam leva lo
,to Inferno, I )esta vez, tam bém a fam iliaridade com a morto ó re
•oinendada; e, como ac|iu*la preconizada por Montaigne (primer
ia manoira), ó unta familiaridade forçada, voluntarista, resultante
tlf mu longo esforço sobre si mesmo. Deve-se pensar continua
mente na morte com o se permanece alerta em relação a uní ¡ni
migo t|ue pode sobrevir de improviso. De maneira significativa, o
a mio "inimigo”, para caracterizar a morte, encontra-se justamen
i< 11<» parágrafo dos Ensaios utilizado anteriormente (“aprendamos
a enlrenlá-lo de pé firme, a combatê-lo”).45 Que a familiaridade
•<»m a morte seja todavía difícil de adquirir só pela ação da von-
lade, Isso c provado pelo caso do próprio Montaigne que, final­
mente, renunciou ao sen estoicismo primitivo e optou por unta
alliude "mais descontraída”s diante do inevitável epílogo. Já no ca
pimío XX do primeiro livro dos Ensaios , ele tinha atacado o lema
heroico com considerações naturalistas que o contradiziam sensl
\i luiente: “A morte é origem de uma outra vida... A nature/a m
loica a ela... Nossa morte é uma das peças da ordem do unlvci
•». uma peça da vida do mundo... Estamos na morte enquanto es
íamos em vida. Porque estamos depois da morte quando nao e*.
lautos mais em vida”.6 No terceiro livro dos Ensaios , essa filo,solía
descontraída eliminou o voluntarismo estoico agora rejeitado;
Nos atormentamos a vida pela inquietação da morte, e a morte
pela inquietação da vida... Se soubermos viver constantemente e
iianqüilamente, saberemos morrer da mesma maneira”.7 E ainda:
I certo que para a maioria a preparação para a morte provocou
ni.tis tormento do que o fez o sofrimento”.8
lí, portanto, a familiaridade heroica com a morte, preconi­
zad. i pelos filósofos e pregadores, que Montaigne recusa dora
ante. Mas não é por acaso que ele fundamenta su a nova posi
>ai >sobre exemplos tirados do “povo” e principalmente entre os
- amponeses. Estes conhecem a verdadeira familiaridade com a
nu >iti*, lí por isso que vivem sua última hora de maneira natural.
1 1 i .11titulo XII do terceiro livro dos Ensaios contém a esse respei­
to Informações que podemos qualificar como etnográficas:

4. Ibid., p. 115.
5, Ibul., III, cap. XIL: III, p. 281.
(>, Ibid., 1, cap. XX: I, p. 124-125.
7 ll-iil., III, cap. XII: III, p. 294.
H. Ibid., p. 293.

71
( )l>.sei vemos n.i terra as pobres pessoas cpu- all vemos espalha
ilas, a cabeça baixa depois do trabalho... quantos que desejam a
morte, ou que a aceitam sem alarme e sem aflição? liste que cava
meu jardim, esta manhã mesmo enterrou seu pai ou seu fllho.?

|Na época da peste de 1585 na região de Bordeaux] que


■ M inplo de resolução não vimos na simplicidade de todo este
povo? tod os indiferentemente se preparando e esperando a
iumiIi |i.ii,i esta noite, ou para amanhã, com uma cara e uma
m . t.io p o u co amedrontadas que pareciam estar comprometi-

. ............... <•. .,( nei essldaile e como se fosse uma condenação


unhcotai e Inevitável ,"1

Moiii.iigni mímela ainda esta constatação: “Jamais vi um


. ......... ir. vl/lnlio.s i am|>oneses entrar em cogitação sobre a atitu­
de e a conliança com que passaria essa última hora...91011.O povo
nao |>reclsa nem de remédio nem de consolação”12134[prévia contra
a morlel. Assim, uma morte natural é oposta a uma morte cultu­
ral. As pessoas çlo povo evocadas aqui só pensam na morte quan­
do ela sobrevêm. Kntão, elas a aceitam docilmente como uma lei
da nalure/.a a qual sempre se resignaram. O texto de Montaigne,
confirmado |>elas mortes dos camponeses russos nos séculos J9
c lembrados |x>r Pb. Aries,11 remete a uma maneira de morrer
*|tic a-, civilizações tradicionais carregavam quase espontanea-
iiintlc com elas.
A dói II aceitar ao de uma lei inevitável esteve durante mui­
to i< nipo ligada a crença na sobrevida do “duplo”. Todo estudo
i* ’l iii a nu ule de outrora deve conceder amplo espaço a essa cli-
111<M..o > i inogralii a. Já insisti nisso no volume anterior.11 Nossos
antepassados, como os das outras civilizações, tiveram dificulda­
de em admllii o brutal desaparecimento daqueles com quem ti­
nham vivido. Assim, eles acreditavam em fantasmas, isto é, numa'
presença dos defuntos próximos a eles, ao menos durante certo
tempo. Km outros termos, os mortos levavam tempo para morrer

9. Ibid., p. 281.
10. Ibid., p. 290.
11. Ibid., p. 294.
12. Ibid., p. 295.
13. ARIES, Pb. Lhom rne devant la mort, p. 29-30.
14. DELUMEAU, J. LaP eur..., p. 75-87.

72
«I' •v< iil.it le c so desapareciam progressiva mente do universo elos
vivos Na América pré-c< >l<>ini liana, o case><l<>s astut as c muito re
velador nesse sunlitlo: para elos, a maioria dos mortos, isto e,
aqueles que nao cram protegidos pelo sol triunfante ou pelo
d e u s tía ehuva, caminhavam durante quatro anos antes tle che
gai ao lugar de sua dissolução eterna.IS As indicações que pro
\am l<na da Europa e dentro do próprio espaço da civilização eu
tópela por exemplo, em Montailion16 - a crença etn fantasmas
ao inúmeras, e seria inútil lembrá-Jas tongamente.1’ Ida era tão
lorie entre nos que o Cristianismo a integrou espontaneamente
•ti(|uadrando-a mediante uma pedagogia orientada para a salva­
dlo As historias edificantes contadas pelos pregadores - os
exem/ria - eram repletas de aparições de santos ou de almas do
purgatório pedindo orações ou ele condenados suplicando que
n.lo imitassem seu mau exem plo.1819A confluência entre a crema
plm•¡milenar nos fantasmas e a explicação cristã (a proposito da*.
•limas do purgatório) é bem aparente no soneto intitulado I >t.,
• pil ilos dos mortos” composto por Amadis Jamyns ( IS iO Ivm i
o secretário de Ronsard:

As Sombras, os Espíritos, os ídolos horríveis


Dos Mortos carregados de ofensa erram durante a noite:
E para mostrar a pena e o mal que os afugenta
I azem gemer o silêncio em longas vozes confusas,
Porque sào privados das delícias felizes
Que a alma após a morte no Paraíso persegue,
Como banidos do dia nas trevas fazem rumor,
Implorando socorro para suas penas vergonhosas.10

15. SOUSTELLE, J. La Vie quotidienne des Azteques. Paris: Hachette, 1953.


p. 233. Les Rites de la mort, catálogo da exposição do Muséc de l’Homme, Pa­
rís, 1979-1980. p. 38.
16. LE ROY LADURIE, E. M ontaillou, village occitan de 1 2 9 4 à 1324. París:
Gallimard, 1975. p. 576-607.
17. Cf. notadamente a este respeito MORIN, E. L ’H om m e et la mort. París:
Senil, 1970. p. 132-156 e THOMAS, L.-V. Anthropologie de la mort, p. 152,
182-187, 301, 511-518.
I 8. Um exemplo entre mil: as aparições de condenados e de almas vindas do
purgatório em PASSAVANTI, J. Lo Specchio della penitenza, ed. de Milán,
1808, notadamente p. 75-77 e 82-83.
19, ( litado cm KANTERS, R. e NADEAU, M. Anthologie de lap oésie jm n
I'ií/ac. I'ausanne, ¿d. Rcncontre, 1967, IV, 2, l e X V I sítele, p. 339-340.

7M
Publique! anteriormente os resultados da pesquisa realiza­
da por uní etnólogo pòlopês sobre a crença em fantasmas no sen
país no secuto 19.20 Depois, sobre o mesmo assunto, apareceu,
entre outros, um estudo que condensa 175 testemunhos orais re­
colhidos de 1972 a 1975 na Beauce de Quebec. Bastou, dizem os
pesquisadores, “entrar na casa de um operário, um jovem conta­
bilista. mu professor primário, um casal idoso, e até mesmo de
um i lúdante, para constatar com certo espanto que a crença na
•ulia di is moiios 11>1 e ainda é viva na Beauce”.21 Isso era ainda
mais \•nlaif in i amigamente.
i I m lia duvida de que os fantasmas eram de certo modo
a mídii. Mas, ao mesmo tempo, eram familiares. Além disso - a
pi .quisa .obie a le anee demonstra - raramente eles assumiam a
.......... .. la de lautasiiias, Enfim, muito deles eram benfeitores e
d.u . 1111 . i ni seibos uiei.s, Essas indicações nos levam a um univer­
so on de o laleclmenlo d o indivíduo é afinal vivido com o secun-
darlo em relaçao a sobrevivência do grupo e onde vivos e mor­
tos conservam entre si laços de sociabilidade e uma real solida­
riedade. Daí, em múltiplas civilizações, o culto dos antepassados
e a aceitação sem temor de imagens da morte no próprio centro
da existencia cotidiana.2' Km se tratando de culturas tradicionais,
deve se, portanto, evitar de interpretar em sentido contrário uma
Iconografia que pode nos parecer lúgubre e atitudes que facil­
mente julgai íamos mórbidas. Elas simplesmente atestam um aver-
. ladelia lumlllaridade com a morte graças à qual ninguém se as-
u .ia\ a ou n.io se assusta - diante cie espetáculos que provo-
. 11*i ai n pios nos ocidentais de hoje.
l . ..i Intimidade com os defuntos fica evidente no gesto mi-
ii11* loso e c almo do c hinês polindo os ossos de seus ancestrais e,
mais ainda, nos rituais funerários malgaxes25 e mexicanos. Em

'hala se da pesquisa de L. Stomma: LaP eur..., p. 86-87.


21. JACOB, P. Les Revenants de la Beauce. Montreal: éd. du Boréal Express,
1977. p. 16.
22. Ibid., p. 21.
23. Ibid., p. 66-71.
24. Não se deve, entretanto, colocar no mesmo plano o culto ritualizado dos
ancestrais e o sentimento da presença dos mortos como seres vivos de um tipo
particular.
23. Cf. DECARY, R. La M ort .et les coututmes fim ém im à M adagascar. Paris:
Maisonneuve, 1962. Les Rites de la mort, p. 73.

71
1111*'lililí, onde* Sr |>r<>IV.*.sn; i 1111c* "doce c a vida", nconv periódica
un ule ,i “v h.uk\ dos morios" porc|iU‘ eles se* cansariam de pecina
iirtri sempre do mesmo laclo. No curso de urna gratule e alegre
■eilmnnla com discursos, danças e banquetes, cíes sao levados do
lumiilo para o povoado, expostos sobre um estrado, homenagea
i li ríe diversas maneiras. Terminada a festa, sào enrolados em
nocas mortalhas e reconduzidos aos túmulos, porém com mullí
pios desvios para que nào reconheçam o caminho da aldeia. An
les de fechá-los no jazigo, sào exortados a abençoar seus descen­
dentes já que estes cumpriram seu dever festejando-os e vestindo
os ile novo. O universo malgáxe tradicional era assim baseado na
aliança permanente dos vivos e dos mortos. Já se escreveu - dis­
tinção essencial para nosso propósito: “o malgaxe mostra menos
ii verdadeiro medo do que a preocupação da morte, lile nao a
lem e, ele a sabe inevitável”26 e crê qué a vida continua alem lu
mulo. Do outro lado do mundo, sabemos o lugar que o día ’ de
novembro ocupa no calendario mexicano. Comem-sc cutan p.n
mu forma de tíbias.27 Os padeiros expõem em suas fachadas atina
coes de caveiras moldadas em açúcar, com olhos verdes, vemii
llios ou de.qualquer outra cor. Na testa, uma tira de papel Ira/ um
preñóme e esse confeito é oferecido de presente a uma pessoa
amiga com esse preñóme. Na noite cie 2 de novembro, depositam
’C sobre os túmulos as flores e as guloseimas preferidas cios de
Iuntos; queima-se a resina que lhes agrada; rádios transistores lhes
permitem ouvir as últimas músicas cia rnocla. As crianças transfor­
mam cabaças em caveiras cavando buracos para os olhos, o nariz
e a boca, e acendem por dentro uma vela cuja chama dança ao
vento. Nas casas, erguem-se altares para os mortos sobre os quais
coloca-se comida e reza-se para que os falecidos obtenham o re­
pouso e nào perturbem a quietude dos vivos.28 Ambivalência bem
conhecida dos defuntos, ao mesmo tempo próximos e inatingí­
veis, inquietantes e tranqüilizantes; em todo caso, bem presentes.
Esses costumes que se situam longe de nós ajudam-nos a
compreender nosso próprio passado e a melhor identificar na

26. Les Rites de la mort, p. 73.


27. Costume atestado também na Espanha tradicional: comiam-se huesos de
santos, ossos de santos: torta de amêndoas representando um osso recheado de
crcinc amarelo para representar a medula óssea: Les Rites de la mort, p. 17.
28. I )ESCOI.A..., J. he M exique. Paris: Larousse, 1968. p. 102-104. Ies Rifes
de la m ort, p. 34-36.

7f>
I>r< )|>rj;i Europa um certo macabrismo... que nao era mullo real:
Isto e, que náo era atração mórbicla e vertigem lúgubre, mas ape­
nas conivência e familiaridade com os mortos e, ao mesmo tem­
po, insensibilidade c indiferença aparentes em relação a esta rea­
lidade banal: o falecimento de alguém. Porque os enterros eram
liei|(ienles e davam ocasião a encontros e também porque desde
■piiiunlo do <alsiianismo enterrava-se no centro das povoações e
........... .. pos tornaram locais públicos animados. Ph. Ariès
di J a ■ai justamente o papi-l essencial que eles desempenhavam
......... . in ia dos hábil antes.-' Na Idade Média, era no cemitério
' 1 1 1 1 . pi 1 1 1 1 a\ a i Justli. a, que se proclamavam os éditos, e onde
. 11imIillava a . i /rs, o forno banal coletivo. Na Bretanha do sé-
i <1 11 1 l 1' . .......... Ia poi A l,e lira/., era no cemitério que a comuni­
dad. di is liailitantes deliberava, elegia seus agentes municipais,
mu ia 'i si i triad o da prefeitura anunciar as novas leis e onde se
publli ava, rm nome do tabelião, as vendas da próxima semana.2930
Na-, cidades, os cemitérios permaneceram durante muito tempo
com o rec antos de passeio, locais onde se mantinham mercados,
Iriras, danças e divertimentos. Em Paris, o cemitério dos Inocen­
tes constituía ainda no século 17 uma galeria comercial aberta aos
curiosos e onde estavam instalados comerciantes de livros, miu­
deza s e roupas.'1 Passeava-se, comprava-se, vendia-se, bebia-se,
alie lava se dentro do recinto dos Inocentes observando-se sem
ni pn ..i nao apenas as inumações, mas também as exumações e
11nnía 11<as d. i issada.s que ocorriam cotidianamente. Os visitantes
n n i |i.m i Iam ln< <>m< xlados pelos odores.
\ lii.ieja i - , foiçou se para reagir contra essa mistura, a seu
•i i i ,i andal ps a, entre sagrado e profano, cio mesmo modo que
luii >n d. maiielia mais geral contra todas as formas, tão freqüen-
i. na é p o c a , ele Ia mlliaridade entre esses dois universos que
lia p a us iam antitéticos. Concilios e sínodos tentaram então
pmlbii da nç a s , jogos e atividades comerciais nos cemitérios.32
I nlie as manifestações de alergia eclesiástica a respeito da coa-
bl l aç áo pacifica entre vivos e mortos, um texto de Putero mere­
c e ser citado. Ele foi escrito por ocasião de uma peste ém Wit-

29. ARIÈS, Ph. LH om m e devant la mort, p. 73-76.


30. Ibid., e LE BRAZ, A. La Légende de la M ort chez les Bretons arm oricains.
Paris: Champion, 1902, I, p. 123.
31. ARIÈS, Ph. LH om m e devant la m ort, p. 75-76.
32. Ibicl., p. 74-75.

70
icnbcrg i'in IS27. Para o Kcfnrmadqr, ora preciso voltar ao eos
iiimt' dos Romanos: levar os defuntos para lora elas cidades e
un Inera los para que o "ar permaneça puro”" e porque um ce
mllerlo deveria ser “um lugar calmo, silencioso, afastado, lavo
iavi I ao recolhimento", Essa antecipação das soluções do final
«lo século 18 e do século 19 explica-se, todavia, por urna preo
i upacao de pedagogia crista. Porque nesse “lugar venerável e
i piase sagrado, por onde se caminharia com um temor respeito­
so", seria possível “refletir sobreda morte, o julgamento final e a
lessurreição, e orar”. E até mesmo, por que nao pintar sobre as
paredes afrescos representando assuntos religiosos? A esse ce­
mitério ideal, Putero opõe o de Wittenberg:

Ele é composto de quatro ou cinco ruelas e de duas ou tres


praças, e não existe na cidade lugar mais comum e mais h.uu
Miento: porque todos os dias, e até dia e noite, todo mundo p,r.
sa por lá, homens e animais, e cada, habitante das vizinluni. i
tem urna porta e uma passagem que dá para o cemitério, <• ill
acontece todo tipo de coisas, talvez até coisas que é melhor nem
talar. Assim, a piedade e o respeito devidos aos mortos ,s;lo redil
/.idos a nada, e ninguém presta mais atenção do que se fosse um
cadáver saído do matadouro. Os próprios turcos não poderíam
manter este lugar de maneira tão indigna como nós fazemos e
entretanto deveriamos buscar aqui a piedade, pensar na morte,
na ressurreição, e respeitar os santos aqui enterrados.

Assim, segundo Putero, nos cemitérios de seu tempo “não


se pensa na morte” e não se aprende “um temor respeitoso”. Essa
i (xistatação esclarece mais uma vez tudo o que pode ser escrito
sobre a maneira “natural” de viver a morte .antigamente. Olha-se
,i morte de alguém com indiferença. Ela não escandaliza. Habi­
tua se a ela. Ninguém se espantará quando chegar a sua hora.
Pode-se, assim, comparar legítimamente as atitudes em
lace da morte denunciadas por Putero com aquelas das popula­
dnos ditas “primitivas”, que não atribuíam com o nós um papel
di visivo à individualização da pessoa. Sua mentalidade partici­
pativa as impedia de “consumir a morte sob a categoria da sepa-
i.uao o do abandono”.54 Pãaí sem dúvida seu equilíbrio psicoló

W PUTHER, M. (Euvres, V (Si l ’on pent fiiir devant la mort), p. 257.


,H. Verbero “macabre” da Encyclopaeflia Uniirna/is.

77
gico c .i escassez dc psicoses e ele suicídios ende < I.i•. Nas so­
ciedades arcaicas, um falecimento nào suscita um sentimento de
ausencia e de algo insubstituível. Ao que se deve talvez acres­
centar, a título ele hipótese, (]iie uma cultura clerical antifeminis-
la, tomando mais do qué nunca a palavra com autoridade na Eu-
Kipa dos séculos I r 16, reduziu ao silêncio uma concepção mais
.1 ii'ii.i da morte. Forque a mulher tem menos medo da morte do
qu< i . Iloiiiem Ela se sente mais próxima dela. Aquela que tem
i dou ■. do paito conlleve m elhor que seu parceiro masculino o
. in 11•• pm 111< .«o entre a viela e a morte e a necessidade de
■11'i viiu tilos recípi'oi (is,
\ Idi ia, oiiiiora profundamente popular, d eq u e a morte é
............. 111<i 1111< uto normal, necessário ao desenvolvimento de rit-
....... \Mal ., 1111<' da nao c nem ruptura nem escândalo, está ainda
pn . nl< tu i alegre ( '(íntico ao sol composto por São Francisco de
Vssis cm I.!.’,) I22(), no fim extrem o de sua vida. Ele estava en­
tão quase cego e abatido pela febre. Na última estrofe, Francisco
convida cerlamcnle a refletir sobre a “segunda morte” (o inferno):
Ai daquele que morre em pecado mortal”. Mas essa incitação
para pensar na salvação não o impede de louvar o Senhor “por
nossa irmã, a Morte corporal, à qual nenhum homem vívente
pode escapar”. E o cântico a coloca sobre o mesmo plano que o
Irmão Sol , “irmã l.ua e as estrelas”, “irmão Vento”, “irmã Água”,
h m ão Rogo" e “nossa mãe Terra”.35367A morte é assim reinserida
niim contexto cósmico que a justifica. Em toda época, com ou
•.cm preocupação de salvação, esse tema (sem dúvida esponta­
neamente vivido por muitos) foi exposto pelo discurso.literário.
No seu Hino da morte - sobre o qual voltaremos em razão dos
elementos diversos que ele amalgama30 - , Ronsarcl se conforta
nestes termos:

É tào importante a Morte? É uma desgraça tào grande?...


Saiba que a matéria eterna permanece,
E que a forma muda.e se altera a toda hora,
E que o composto se corrompe por seu desacordo.
Somente o simples está isento da morte/7 )

35. C£ G li Scritti d i san Francesco d ’A ssisi, eci. de V. Facchinetti, Milán, Vita e


Pensiero, 1954, p. 168-169.
36. Ver mais adiante p. 126-127.
37. RONSARD, CEuvres completes, VI, p. 10-44.

7H
I )e outra maneira, mas por sinal também mantendo a c ren
ç.i na eternidade da alma, Rabelais viu na morte uma transição
natural pela qual nós damos a ve/ a nossos descendentes lio
inuii por homem. A “antiguidade encanecida” dos velhos "relio
lesee" na juventude dos filhos. A ruptura dos destinos individuáis
e compensada pela continuidade do destino coletivo da human!
ti.ule. A geração é o corretivo da morte. “Entre os dons, escreve
Gargantea a Pantagruel, graças e prerrogativas, coin que o sobe
rano plasmador Deus todo-poderoso revestiu e adornou a huma
na natureza no seu início, parece-me singular e excelente aque­
la pela qual ela pode em estado mortal adquirir uma espécie de
imortalidade e, no decurso de vida transitoria, perpetuar seu
nome e sua semente: o que é feito por linhagem nascida de nos
em casamento legítimo.”38

os componentes do discurso
macabro
Na época de Rabelais e de Ronsard, a despeito de certas
citações que acabamos de ler, qual concepção da morte ocupa o
centro do palco? A julgar pela iconografía, pelo discurso religio
so e pelas garantias (missas pelos defuntos, indulgências) que os
fiéis se esforçam para acumular contra as incertezas do além-tú-
mulo, a morte é na maioria das vezés horrível. Ela é ruptura; ela
é escândalo; ela é perigosa. Pierre Michault, na D an ça aos cegos
(1405), coloca diante da grande ceifadora uma bandeira com slo­
gan significativo: “Eu sou a morte da natureza inimiga”.3940Outro
“retórico”, Aimé de Montgesoye, Cantiga da alta e virtuosa
d am a... Ysabel de Bourbon (1465), ataca a morte:

Modelo de horror! Espelho de infame feito!


Inimiga das obras da Natureza...10

38. RABELA IS, II (Pantagruel), Cap. V III, Pléiade, p. 2 2 4 -2 2 5 .


39. B.N ., fundo fr. 1654, f 0 149.
40. MONTGESOYE, Aimé de. Com plainie de trh haulte et vertueuse dam e...
Ysabel de Bourbon, reproduzido cm Med, .'Ir/'., i II, 1933, p. 1-33.

7 fí
jean Molinct ( I•í35-1S07), evocando o espelho da moric (é
bem verdade que para opor-lhe o Espelho de vida ), qualifica-o de:

Espetáculo horrível, miragem detestável,


Visao feroz, objeto tão temível,
signo mortal, ó exemplar tão vivo,
lu c , um monstro impossível e contrário...41

i',11,1 Ma rol, a nu irte é ac|uela divindade:

Milgni v lela, ,l
t.Mn u»m icii Irlo e peslilento hálito,
' <1111<,i ii .ii .i»» redor em tal estado,
min a*, aves que voam acima de sua cabeça
( aem d<> alio, e jazem mortas por terra,
Iwceio aquelas c|tie predizem as desgraças.42
' \
A Igreja desempenhou um papel essencial na aceitação,
nao direi da morte “domesticada”, mas da maneira “natural” de
viver a morte, propondo a meditação sobre o falecimento
com o método de pedagogia moral. A “morte de si m esm o”, foi
0 Cristianismo que, se não a inventou totalmente, pelo menos
a esten d eu ás dimensões de uma civilização. É por Hsso que,
em bo ra conservando a feliz expressão de Ph. Ariès ( “a morte
de si me .mo”) que marca tão bem a ruptura entre o destino de
1 ada um e a sorte eoletiva da espécie, eu insistirei mais do que
ele sobre "os predecessores das grandes vozes macabras” dos
séculos I t e IS. Porque eu não creio que se possa “desprezá-
los" com o “raros e pouco expressivos”.43 Pelo contrário, despre­
zo do mundo, dramatização da morte e insistência sobre a sal­
vação pessoal emergiram juntos. Essa ligação já é sensível nos
serm ões de São João Crisóstomo que cita oito vezes o “vaida­
de das vaidades” do Éclesiastes, lembra quatro vezes o conse­
lho do Eclesiástico (7,4): “Em tudo o que fazes lembra-te de teu
fim e não pecarás jamais” e repete o aforismo bíblico: “Mais

41. MOLINET, J. Faits et dietz, éd. Noêl Dupire, Paris, 1936: t. II, p. 670-
680. Cf. MARTINEAU-GENIEYS, Chr. Le Thème de lã mo>% p. 247.
42. MAROT, Cl. CEuvrcs completes, èd. A. Garnier, Paris, 1920, I: “Deplora-
non de messire Fl. Robertet”, p. 544.
43. ARIÈS, Ph. LH om m e devant la mort, p. 114.

HO
\,il< o <Ii.i d.i m orte q u e o d o n ascim en to. Mais vale ir a c asa
d. lulo do c|ik‘ a casa do ban qu ear, pois é o Um de tocio lio
Miem' ( le i 7,1 D . 11 Seu H alado D a p a c i e n c i a anunc ia can sub
U lulo «1 1 it- nao se’ dc*vc‘ ch o rar am argam ente o s m o rios” e rom
popa uma passagem au tén tica m en te m acabra. São Jo ã o C lisos
lo m o esc reve com efeito :

Aquele que, ontem, eu achava amável, agora estendido, cau


s.i horror. O que ontem era como um membro de mim mesmo,
eu o vejo agora como estranho. Aquele que ainda recentemen-
le eu apertava em meus braços, agora eu não queria nem se­
quer tocar. Leu o banho de lágrimas como meu, mas afasto
como estranhas suas matérias purulentas. A afeição me impele
a aproximar-me de seu cadáver fétido, mas sou impedido pela
deterioração e pelos vermes... Onde está Seu amável roslo? |.i
o vejo descorado. Onde estão seus belos olhos tão vivos? 1 I
los putrefatos. Seus cabelos formavam uma espécie de adormí
ble se desfez...^

Pouco antes cie São Joào Crisóstomo, Santo Efraim, no seu


sermão sobre “aqueles que adormeceram em Cristo”, também
praticou realismo macabro dentro do mesmo espírito:

Quando vamos ver os túmulos onde eles apodrecem e “escor­


rem”, nós os apontamos com o dedo e dizemos: Veja este ou
aquele; este, era o rei; aquele, tal capitão; este, tal príncipe; aqui,
o seu sobrinho; ali, a sua filha, antes tão bela; aqui, aquele ra­
paz que passava tão bem arrumado... [Tudo desapareceu 1... En­
tão nós os interpelamos como se fosse pelo nome: Para onde vo­
cês partiram, irmãos? Onde vivem agora?... Falem conosco como
falavam antes...
[Fies respondem]: Abandonamos as fileiras dos homens e nos di­
rigimos para o lugar que as nossas obras 'mereceram! Fsta poeira...
esta cinza, esta podridão... estes ossos decompostos, estes vermes
imundos, são os corpos dos rapazes e das pioças que os seduziam
oulrora; esta poeira, é a carne que ainda abraçavam insaciavelmen-45

44. Cf. Jean Cluysostome et Augustin. Actes An colloqne de Çhantilly, 22-24


setembro 1974, ed. Ch. Kannengiesser, Paris: Itcauchesne, 1975: MA1.1N
( ¡RUY, A. M. “Scntences des sages che/. ( 4uysostomc",j). 204-206.
45. Patr. Gr., IX, col. 727.
le; i’slü |)<>drkl;l<>, é o r<).sl<>(|UC beijavam tila i•u<)11•\ cuín nina vi >
lupia Insaciável; esta podridão que escorre, é a <amo <|iio estreita-
vam om son pot ado. União voja, observe e creia, vocês que levam
nina vida inútil; nao continuem enganados por mais tempo, rapa­
zes o moças, pola beleza de sua juventude. Porque nós também,
na vitla, lomos o que vocês são e passamos nossos dias em festa;
hoje estamos diante de seus olhos, mortos, apodrecendo..."’

I;. significativo a nosso ver que a Idade Média e depois a


llteraiura eclesiástica até o fim do século 19 tenham atribuído a
Santo Agostinho um Speculum peccatoris ( “Espelho do pecador”)
onde o autor declara: “A consideração da brevidade da vida en­
gendra o desprezo do mundo”. Depois, ele encadeia:

l ni inda a esleirían do saber, será que existe algo que possa


pniMM ai o limnem a vigilância, á fuga de toda injustiça, à santi­
dad- p -l-.i........ d< I »eir., mais do que a consideração de.sua [fu-
liinil alna i.................. ilna Inienln preciso de su a condição mortal
P> -ii mi' ■ - - p-ai - inienli i de ana pavorosa morte quando o ho-
iH- m - i-aii i uní ii.i-- homem Porque quando ele cai doente, a
-I ii-iioi mui' nía p' h piopila doença, o coração vacila, a cabeça
|!i i p ii ili nl-i, lo ii'iilldo’i *,e esvaem, as forças se exaurem, o
iiimi i i iMpilid- •i'i a ii -i ,u In/enla, os olhos se tornam som-
i-H i -i - Ihi ll- un ni. I.i ., o nariz apodrece, a língua fica pe-
idi i I..... i i- 'lita •-'• muda, o co rp o se consome e a carne mur-
i h-i I lili" i líele a i ai nal vira mau cheiro e putrefação, o ho-
1 1 n ni . .1. -maní ha em cinzas e se transforma em vermes.'"

< «iii >', ni.muse ritos do Speculum pecatoris contém também


- a i I•o inu 1.1 lapidar que voltaremos a encontrar: “Depois do ho­
m em, o verme; depois do verme, o fedor e o horror”.
Como nao remontar dessas trágicas evidências, repetidas e
divulgadas pelas Vitae patrum , às origens bíblicas do macabro 467

46. C olla tío selecta SS. E cclesiae Patrum de Caillau-Guillon, Paris, 1833.
t. XXXVIII, p. 23-24. Devo a indicação deste texto à gentileza e à ciencia do
Padre François Bourdeau, a quem agradeço ¡mensamente. A tradução é dele.
47. Migue inseriu este texto ñas obras de Santo Agostinho. Patr. Lat. XL, col.
987. Sobre as fontes neoplatônicas do pessimismo cristão até o século 12 é
fundamental ver COURCELLE, P. Connais-toi toí-même, de Socrate à St
fíernard, Pays, Etudes augustiniennes, 3 v., Paris: 1974-1975.

82
' il .i.io () liiUiro In o cen cio III, Intitulando nina su b seção tio seu
/>r 1 1 >nicni/>lii n iu u d i co m o "tia corru p ção tio cadáver", arruinen
i na sobre esse lema ap oian tlo-se na Escritura: "Q uando morrer,
0 homem sera presa tias larvas e tios vermes”"4 (líelo 19,3); “To-
•los .e deitam na poeira e os vermes os cobrem" (Jó 21,26); "A
liuça os roerá com o uma rolipa, e os cupins os devorarão como
Ia (Is >1,8); “|() homemI se exaure com o uma macieira carcomi­
da ou como uma roupa devorada pela traça” (Jó 13,28); “Eu gri­
lo para o sepulcro: T u és meu pai’, e para a vennina: ‘És minha
mar e minha irmã”’ (Jó 17,15); “O homem é uma vennina; o li­
li io do homem, um vermículo” (Jó 25,6).
Essa insistência pedagógica sobre a podridão do corpo - o
ob|eiivo claramente indicado é levar o leitor ao desprezo do
mundo - não diminuiu ao longo da Idade Média. O Monge An
»In' tic Creta, que no século 7o se tornou arcebispo dessa ilha,
aconselha a meditação perto dos túmulos.

Ao fiel que se aproxima, ele diz: "Não recue... veja todo este
espetáculo penoso... Fique o tempo suficiente para sentir estes
odores que não são estranhos: são os nossos. Suporte virilmente
a infecção que a podridão e as más exalações dos escorrimenlos
desprendem. Fique firme diante do espetáculo dos vermes e da
putrefação que escorre carregada de sânie, você que é chamado
a desfazer-se e a tornar-se o alimento dos vermes clevoradores”. '"

No início cio século 12, o beneditino Robert de Deútz


( | 1 124 ) usa a mesma linguagem numa M editação sobre a mor­
ir-. “Quem quer que tu sejas, aconselha ele, vai aos sepulcro dos
mortos... e estes, eles mesmos, te responderão. Eles falarão a
teus olhos até ã saciedade dè teu olhar; e se forem cadáveres
recentes aos quais resta um pouco de seiva, eles falarão a tuas
narinas até ã saciedade do odor, ao ponto em que não poderás
mais suportá-lo”.50 Algumas décadas mais tarde, Adam 1’Ecossais
( | após 1210), primeiro Cônego, depois Cartuxo, enfim Bispo de
1 Incoln, dirige-se assim num sermão a São João Evangelista: “Na489

48. Na realidade, o texto bíblico fala do libertino.


49. Patr. Gr., XCVII, col. 1.291 (D e vita hum ana et de defunctis), Apud TF-
NFNTI, A. La Vie..., p. 86, n. 2.
S(). Patr. L a t, CLXXI, col. 361 (D e A leditatio/ie m onis), citado em Ibid.

h :i
llora da minha morte, vem em meu socorro, abranda o Juiz,
afasia o demônio acusador. Meu temor vem de meus pecados e
nao da consideração da infecção e cia fetidez futuras de meu
toipo", T'.nlrelanto, acrescenta ele, sinto vergonha e coro sa­
bendo que ele só e digno de um túmulo ignóbil e fétido e como
.i ml.uma e a Ignomínia deste estarão longe da pureza.e da fre­
ír, i d< iru ,epul( ro. Porque meu horrível cadáver tornará meu
lumuio n puf.lv o de ledor e transbordante de vermes enquanto
u ii o pulí io produz maná,’’s' Deve-se ainda acrescentar ao in-
. nl lil" da', meditações monásticas sobre o cadáver um frag-
iii. nl" d " s/ t . ii /iiiii nioiuicborum de Arnoul de Bohéries (fim
d........ ul" I *) t|iir foi niuiti>difundido nos séculos 14-15 sob o
i i t u l i » S/»e» iiluni Hcnuinli:

(.Mie o monge que se entedia [no sentido forte: taedio affectus]


v.i meditar sobre a pedra em que são lavados os mortos [nos con-
ventosl, <|iie ele imagine como são tratados aqueles que vão ser
enterrados; como são revirados às vezes de costas,'às vezes de
bruços; como eles balançam a cabeça, os braços pendentes, as
coxas começando a ficar rígidas, as pernas que jazem...; como
■.ao vestidos e costurados; como são transportados, depositados
iiiini iiiinub >, cobertos de terra; e como, devorados pelos vermes,
qn.il um saco podre, eles se consomem. A suprema filosofia é
p. ii ii i inpu na morte. Que cada um carregue consigo esta me­
dita. to onde quci que vá, e jamais pecará.

ii i" ii" . uipio. nde que o jansenista Gerberon tenha atri­


buid" i ..ml" Anselmo, um dos propagandistas do çontemptus
nmih/i qu. ,("< •, particularmente macabras.

i ila. t .irih* mortal; verme, fala, podridão. Miserável, por que


d. Ili.i.s? Para que serve a glória da carne? Fala, homem; fala, poei-
i .i podridão, por que te fazes de orgulhosa?... Não conheces a lei
da humana condição: o corpo vem da terra, a semente do corpo,
o sangue da semente, o corpo do sangue. Assim como o corpo
d o homem se forma no seio materno, assim também ele apodre­
ce no seio da terra. O corpo engendra a corrupção; a corrupção,

SI. Pair. CXCVIII, col. 308 {Sertn o X X X III), dtado cm Ihid., p. 87.
S7. Puir. /<//., ( I.XXXIV, col. I.l?8, texto av.iiul.ulo nov.imente pelo Padre
It.uk, ois llourdcau.

H-l
• i . vermes; ti*, vermes, .1 t ln/a; ;i cinza, .1 terra. Assim o corpo Im
m.mo Ifiii .1 leir.i poi m.k* c* retornará .1 Ierra.''

1 ) im .mo Sanio Anselmo escreveu a filha do Rei llarokí,


•mnlilld, (ii|o amanle Main le Uoux tinha morrido e ela, para
*• ••i* •Mili.n o amor, procurava casar-se com o irmão do falecido:

I u amaste o ( ‘<)iule Alain le Koux e ele le amou. <)nde e.sia ele


i>'.' ti.ii' \.1 1 deitai le 1 1 0 leito em que ele agora jaz, recolhe seus
o mu". 401)re leu ,seio, abraça seu cadáver, beija seus dentes des­
nudo.*., pois seus Libios Ibram roídos pela podridão... não temes
>|ii> |l>eus| atinja com morte semelhante por tua causa o Conde
\I.1 I11 l< Noii |Irmão de Alain le Kouxl? ( >u, o que é pior, que não
vo'i condene .1 ambos, se vos unirdes, a uma morte eterna..*1*

\ lili.ie. 10 entre a literatura monástica sobre a miséria hu-


111 ma ' o macabro c ainda mais evidente num tratado falsamen-
I* itrllmido .1 Sao Bernardo, Meclitcitio de hum ana canditione,^
uma das fontes do futuro Inocencio III quando redigiu sua vio-
L ula diatribe contra o orgulho do homem. lista Meditado foi tal-
v* / ' t dia por litigues do Saint-Víctor.'56 C) importante, para nós,
■ qm ela pareceu suficientemente |x*rcuciente e pedagógica para
•i atribuída durante séculos ao fundador de Clairvauxd7 Ela é
un llnu comprecndlu (|tiándo a relacionamos aos textos anterio-
1• (mi contemporáneos) (|ue acabamos de citar, e constitui uma
li.n ' |i.ira enirar dentro de uma sensibilidade cjue foi se amplian-
d.. i'.i.idn.iliiu nle dos mosteiros para o mundo laico. Embora seja

1
'»' Dalí, / <//,. (. IVIII, col. 705-707 (A liud carmen de contemptus m undí), cf.
0 Hultoi, "sobre* alguns problemas pseudo-anselmianos”, em Scribtorium, 1(),
\%y p, ,t6 41.
'•■I. l lio esie texto segundó Br. Roy, “La Danse...”, em Le Sentim ent de la
m orí , p. I .’ 1 , < T. Santo Anselmo, carta 169 na ed. Schmitt, IV, p. 47-48.
A, Wilinari, "Une leí tie inéditc de Saint Anselme” na Revue bénédictine, 1928,
1 1(1, p. Ó') 3.32.

vi Din, ta i., < I.XXXIV, col. 485-508.


/ >i<titmnaire de Spirhualité, 1/II, col. 1.500 (art. “Saint Betnard”).
. I I.lo confundir esta M editado com os textos autênticos dc São Bernar­
do «pie exprimem, cies também, mas com mais contenção, o contemptus
■■mude < I I . I a/vari, “Le contemptus m undi chez saint Betnard”'em Revue
,/ ih i'ih/ui' el de mystiijue. XI .I, 1% 5, p. 291 30^. ( I. R. Bultot, “Saint Ber
li.ii.l, la Stimmc le Roi et le doublc ideal aniu|iu* d< la magnnnimíté”, daos
1 15, 1964, p. 247-253.
advertido pelo subtítulo ("Depois do homem, o verme; depois do
verme, o ledor e o horror”), o leitor, porém, deseobre com espan­
to os desenvolvimentos seguintes, que é preciso ler na íntegra:

Segundo o homem exterior, eu provenho de pais que fizeram de


mim um condenado [damnatuni] antes mesmo que eu nascesse.
I'■ > idoie\ geraram um pecador e o nutriram de pecado. Esses in-
lt li/• . !o| mu Inleliz que eles trouxeram para a miserável luz do
. li i ii ida i«•<ebl deles a nao ser a desgraça, o pecado e este corpo
. ........... ..pi io que carrego, li eu me apresso em direção àqueles'
|u< 1 1 e loiain pela morte do corpo. Quando contemplo seus tú­
m ulo ,o di .< u b io cinza e vermes, fedor e horror. Eles foram o
qu< eu ..mi , ii serei o t|ue eles sào. O que sou eu? Um homem
i ia ,<Ido de um Itu mor lluente. Porque no momento da fecundação
eu luí (oncebido de uma semente humana. Depois, essa espuma
i oagulando se e crescendo um pouco tornou-se uma carne. Depois
disso, ( horando e gritando, fui lançado no exílio deste mundo. E
eis que já morro repleto de iniquidades e de abominação...

Mnis adiante, o autor, opondo “a dignidade da alma” à


baixeza do corpo”, volta ao tema da corrupção inerente à con­
dir .10 humana:

I Mi corpo ao <piaI és lào ligado, nada mais é que espuma fei-


i i , u i..........i obeiia de uma frágil vestimenta. Transformado em
• idao i, ml uavel c pútrido, ele será o alimento dos vermes... Se
■*m iidei,m atentamente o que sai da boca, das narinas e das
oiili.r, ah, itui.n do corpo, não encontrarás mais vil sujeira.
i »l i-.et \ i o homem, o que tu eras antes de nascer, o que tu és
, I, ., le o nas( Intento até a morte, e o que serás depois desta vida:
I Mi ni ado de vil matéria, envolvido na mais vil vestimenta, fos-
ti mili Ido de sangue menstruai nó útero materno, e tua túnica foi
a h<.Isa da .secunctina...w
() homem nada mais é que esperma fétido, saco de excremen­
tos e comida de vermes...
Por que orgulhar-te, ó homem? Antes veja: foste semente vil e
sangue coagulado no útero: em seguida, foste exposto às misérias
desta vida e ao pecado, e serás repasto dos vermes no túmulo.

SH. A tradução moderna seria atnnios, a mais interna das membranas que en­
volvem o feto.
Seu que so deve vanglorlar-se cio sor poeira o cinza, do ter sido
(oiho I>ld<> no poondo, do nasoor miserável, do vivor no sofrimento
o do morrer na angústia?... Tu engordas o onfcitas a preço do ouro
uma carne que, daqui a pouco, os vermos devorarão no túmulo."

Seguindo o mesmo impulso, Lotário escreverá por sua ve/,:

() homem ó concebido de sangue putrificado pelo ardor do de­


sejo - este desejo a cuja morte os vermes do túmulo presidirão.
Vivo, ele engendrou os piolhos e os vermes intestinais; morto, ele
engendrará as larvas e as moscas. Vivo, ele produziu as fezes e
o vômito; morto, ele produzirá a podridão e o fedor. Vivo; ele só
engordou a si mesmo; morto, ele alimentará uma multidão de
vermes. O que há de mais fétido que o cadáver humano?'"

A “Meditação” do pseudo-Bernardo e o capítulo do /><•


nmtemptu m un d i de Lotário consagrado à “corrupção do t.id.i
ver” obrigam a matizar aquilo que escreveu Jean-Charles l’ayen
num artigo sobre “O D ies irae na pregação da morte”. "A morh
afirma este autor, está presente em todos os textos que nós Ir
cantamos, mas, coisa curiosa, de uma maneira quase negativa
I.Ia jamais é invocada diretamente... Nada também sobre a de
composição do corpo - portanto, nada de macabro.”59601 Kntretan
to, um pregador alemão do século 13 tinha o costume de utilizar
o seguinte apólogo para convidar a uma confissão completa dos
pecados: uma mulher tinha escondido um pecado importante ao
seu confessor. Apareceu-lhe um anjo acompanhado de um belo
menino cujas costas estavam, porém, cobertas de vermes e de sa­
pos; e ele lhe explicou que ela era comparável a esse menino em
razão de sua má confissão.62 Viva de um lado, ela já era cadáver
<• podridão do outro. Bruno Roy observa justamente que, mesmo

59. Patr. L a t, CLXXXIV, col. 487-490.


60. Patr. Lat., CCXVII, col. 736.
61. PAYEN, J. Ch. “Le D ies irae dans la prédication de la mort et des fins
dernicres au Moyen Age”, dans Rom anía, 1965, t. XXXV: p. 61. Mme Chr.
Martineau-Genieys, Le Tbèrne de la m ort... dá seu pleno acordo à fórmula
de j. Ch. Payen. Eu me separo, portanto, desses dois autores a esse respeito.
Cl. aussi R. Morris, O ld Englisb H om elies o f lhe X II'1' Century, Londres,
1873, p. 180-183.
6.1, /)/> henige Regei fiir ein volbommcnc\ I dum, »d. por R. Priebsch, 1909,
v. XVI iles Deutsche Textc des M itte/alten. p.

H7
;mu\s do século M, o tema do desprezo do mundo e as evoca-
Voes macabras nao se limitavam ao meio monástico. Ides impreg­
navam o cmsino da-gramática nas escolas e apoiavam a pregação.
I lin capítulo inteiro da Snm m a dè arte predicatorio, de Alain de
I lile aconselha esta pedagogia e convida a apoiar o texto “vaida-
di da*, valdadcs, tudo é vaidade” pela descrição dos terrores do
ig. tnl/anle e pelo topos do Ubi sunt ? 63
< oiiio, por outro lado, manter a afirmação de Philippe
\il. *i A 111ia o. mi (|iie a Idade Média anterior ao século 14 nos dá
h d- 111111•,i" universal : é poeira e pó, não a corrupção pulu-
1)1111' *1' ■ou. . 1 ssa asserção vale certamente para a icono-
a ili i da piliix na Idade* Media, mas não para o discurso escrito,
■I. pi. >|a |i i . mugado de prolongamentos iconográficos ulterio-
i. | llm Inga linha razão ao escrever a propósito da primeira
Idade Media '().*> ascetas medievais contentaram-se com o pen­
samento da c inza c dos vermes: nos tratados religiosos sobre o
desprezo do mundo expunham-se amplamente os horrores da
decomposição".'" Ivsse julgamento não envelheceu. De fato, o
mac abro estava bem presente em obras que conheceram rapida­
mente* uma ampla difusão e tinham aparência de sermões. M.
Maec arone mostrou para 418 manuscritos áo D e contemptu m un-
di de I.otarlo que o sucesso da obra foi rápido e não esperou o
peí iodo mac abro: 3Í% dos manuscritos são do século 13 e so-
IIlente 20,S"n do serillo IS. Para os 36,5% copiados no século 14
uma boa niel. ule parece anterior ao meado do século.60
( i texto do pseiido-bernardo revela também que, no espí-
iii'. do monge, nao ha oposição entre os vermes e a cinza: os
. I. a* pioc c *.,*.( >*, cle decomposição do corpo são chamados conjun­
tan!. un < m apoio a uma mesma pedagogia. Da mesma maneira,
nao i lelo <|ue nos séculos 14-16 se pudesse realmente opor as
c o i ações de* esqueletos e de corpos mumificados às de cacláve­
le *. ein via de putrefação. Tratou-se sobretudo de urna panoplia
diversificada, mas, afinal, homogénea dentro de um mesmo mu­
seu do horror. O escrito do pseudo-Bernardo faz ainda aparecer

63. ROY, Br. “La Danse...”, em Le Sentim ent de ¡a m ort..., p. 127. Patr. Ldt.,
CCX, col. 111-198.
64. ARIÈS, Ph. L’H om m e eievant la mort, p. 114.
65. HUIZINGA, J. Le D édin..., p. 143.
66. MAÇCARONE, M. Lothariicardinalis..., p. IX XXII. ROY. Br. “La Dan­
se...”, em Le Sentim ent de la m ort..., p. 125 •I 26.

HH
i> vínculo m l iv o desprezo do imuido e uma profunda repugnó n
i ia da com vp ção o da gestação. A semente humana é considera
da Ik|uicl<> fétido e se* jimia no pensamento do monge, como logo
depois no dc l.olário, aos excrementos e a ludo a(|iiilo que sai do
corpo. A putrefação está em nós. Ida é associada ao amor carnal
e a morte (as duas faces de uma mesma realidade) e triunfará so
bre nós desde o falecimento. Assim como a corrupção do cada
ver e uma punição - sem o pecado, a natureza não teria proce
dido dessa maneira - assim também é a sujidade das operaçoes
que acompanham a concepção e precedem ao nascimento, e
também este nascimento sangrento que nos lança miseráveis
numa terra de exílio. Já foi observada de passagem aquela lor
mula talvez de origem árabe e destinada a um longo futuro: "O
que eu sou, eles foram, e eu serei o que eleá são”. Fia já era na
época um lugar-comum do discurso monástico:67 Nós a enconlia
mos com efeito no epitáfio fúnebre de Fierre Damicn ( 10" '.) <
na Disciplina clericalis de Fierre Alphonse (início do sécul< > I i
Fnfim, por intermédio do pecado, estabelece-se um estrello \m
culo entre a corrupção da carne - viva ou morta - e o lenioi do
julgamento que espera cada defunto. -No discurso monasllio,
medo do dies irae , desprezo do mundo e imagens macabras
vermes e cinza —fizeram parte de um mesmo conjunto cuja coe
rência é preciso sublinhar:

Ai de mim miserável, exclama o pseudo-Bernardo no curso de


sua sombria M editatio, quando vier o dia do julgamento e forem
abertos os livros onde estão enumerados e forem apresentados a
Deus todos os meus atos e todos os meus pensamentos! Então,
de cabeça baixa de confusão e de consciência pesada, eu me
postarei para o julgamento diante do Senhor, paralisado e angus­
tiado, lembrando-me de todos os meus erros...
Por que desejamos por toda força uma vida em que quanto
mais vivemos mais pecamos. Quanto mais longa a vida, mais nu
merosos são nossos pecados...

67. Cf. GUERRY, L. Le Thème du “ Triomphe de la M ort"dans lapein turc ita-


lienne. Paris: Maisonneuve, 1950. p. 46-47.
68. Patr. Lat., CXLV, col. 968.
69. A D isciplina foi traduzida em versos franceses no segundo terço do sccu
lo XIII sob o título Chastim ent d u n pèrc ii son ftls (Castigo dc um p a i ao seu
fiUjo).

Kl)
N;i verdade, é cm meio a um grande* tcmoi c .1 grandes do­
tes que a alma se separa do corpo. Porque os anjos vêm para
pegá-la e levá-la diante do tribunal do juiz temível, Então, re­
memorando seus pecados e erros cometidos dia e noite, ela
treme, quer fugir, pede um adiamento dizendo: dêem-me ape­
na'. uma hora... Os demônios de rosto terrível e horrível aspec­
to .1 atrrtorizarao, a perseguirão com grande furor e quererão
agaita Ia <■ segura Ia - ó terror e horror! - a menos que ela não
11o 1 fiujfi ai 1 aneada...7*'
• )
/)/»**. hile, f-.tíi formula que ficou célebre pelo poema de
Ib..... .. t *1,1110 (j I iSO/ôO) - que não foi seu in v e n to r-a n -
ii di h m 11pon a Imaginação inquieta dos monges que a ti-
nliiim lido cm Sofônio (1,15): “Dia de fúria, foi aquele! Dia de
dcsgi.g.i e de trlbulação, dia de desolação e de devastação, dia
de escuridão e de nuvens sombrias, dia de névoas e de tre­
vas,..". Dia do julgamento geral, mas dia também do julgamen­
to de cada um cie nós. Citando Sofônio e indo além dele, bota­
do, depois de ligar indissolu.velmente sujeira física e sujeira
moral do homem, ficará espantado, ele também, ante a pers­
pectiva cia grande prestação de contas: “Eis que virá o dia cruel
de Deus que, cheio de indignação, de cólera e de furor, puni­
ra a terra, reduzindo-a a deserto e punindo os pecadores”.71
Observemos de passagem que São Bernardo, a quem se atri­
bui, tom o j.i dissemos,72 um poema sobre o julgamento final,
multiplicou as imagens de decom posição para caracterizar o
pecado (lepra, fluxos impuros, vermes e roedores) e comparou
o |tocador ao cadáver de Lázaro, que já cheirava mal depois de
quatro dias no túmulo.7-1

( ' - / , ' '

70. Patr. Lat., CLXXXIV, col. 488.


71. Patr. Lat., CCXVII, col. 742. Sobre a utilização anterior dos textos de
Sophonie, cf. a contribuição de P. A. Février, “La Mort chrétienne” em J.
Delumeau (sob a direção de), Histoire vécue dnpeuple chrétien, 2 v., Toulouse,
Privat, 1979: I, p. 85. Sobre os outros Dies irae além do de Thomas de Cela-
no, cf. PAYEN, J. Ch. “Le Dics irae..!', notadamente p. 59-60.
72. Cf. p. 24.
73. DELAHAYE, Ph. Le'Problhnc..., p. 23-24.
!

!>n
;i posteridade do discurso monástico
sobre a morte
Nas considerações anteriores, nós seguimos a ampliação
progressiva da audiência geral do contemptus nmneli, a partir dos
com entos. O mesmo procedimento, centrado agora sobre um
ponto particular, nos leva a detectar a posteridade do discurso
monástico sobre a morte na literatura e na arte dos séculos pos
iri lores. Não se trata de negar a ambivalência do macabro, sobre1
a <pial voltaremos logo mais.7' Não há dúvida de que depois de
I Vá), sobretudo a insistência sobre os pormenores horrorosos
muitas vezes revelava morbidez e outras vezes ultrapassava, ou
ale mesmo abandonava, os objetivos pedagógicos e morais. I’a
rece mesmo certo que se produziu, em vários casos, uma invci
•■ao de significação da iconografia macabra como convite a g< >/ai
a vida. Mas seria um erro fazer abstração das intenções moiaf.
demonstradas durante tanto tempo e seria também anti hisimlt
separar arbitrariamente a evocação da corrupção física nos sei u
los IS-16 da literatura anterior consagrada ao contemptus mm uh
Provém desta última, evidentemente, aquela repugnante quallll
cação do corpo (feminino) dada pela Morte num poema do int
cio do século 15, D er A ckerm ann aus Bòhm en (O Trabalhador
da Boêmia): “Um objeto de repulsão, um recipiente de excre­
mentos, um alimento imundo, uma sentina fedida, um banquete
repugnante, uma carniça putrefata, um cofre bolorento, um saco
puído, um bolso furado”.7"1 É mais ou menos o que tinha escrito
( )don de Cluny74756 no século 10° e o mesmo tema retomado em se­
guida pela iconografia consagrada a Frau Welt (o Mundo): bclc
za na frente, corrupção por trás. Para os monges, a mulher repte

74. Cf. anteriormente, p. 98-128.


75. Citação e tradução em WIRTH, J. L a jeu n efilie et la m ort..., p. 29, con
fo/ me a edição de BURDACH, K. D er Ackermann aus Bõbm en, 2 v., Berlín,
1926: II, p. 55. C f KULLY, R. M. “D ialogas m ortis cum bom ine. Le labou
retir dc Bohême et son procès contre la mort”, em Le Sentirnent de la m ort...,
p. 1.41-167.
76. C f DELUMEAU, J. L a P eu r..., p. 313. C f ENGELHARDT, G. J. "The
De contemptus m undi of Bernadus Morvalensis” M edieval Studies, 1960, t. 22,
p. 108-135; 1964, t. 26, p. 109-142; 1067, t. 20, p. 243-272. BULTOT, K.
“La I )octrine du miípris du monde che/ Bernard le ( ’lunisien”, dans le Moyen
Age, 1974, t. 70, p. 179-204 c 355 376.

1)1
senta o superlativo ela podridão e a imagem mais evidente da
morte e do pecado. Mais geralmente, o antiíeminismo e o maca­
bro eram ligados. Daí a necessidade de esclarecer a penetração
dentro da c ultura européia de uma palavra sedare a morte enun-
t ladu de início por ascetas a serviço da Igreja.
Mm fragmento do livro Bríeue collezione delia miseria del­
ta u m, ma <<>udi ioue , ele Angelo Torini, permite perceber como
11 mt< a m guio, agravando-o, o D e contemptus m undi de Lotário.
Inia '.e .i<|uI tio lema antees explorado pelo pseudo-Bernardo: o
11<nM» m \l\11 ja e ptnlridao.

I <»I \l<|( 1 1 1 VIII, I ): ( )b,serva as plantas e as árvores: elas pro­


duzi ui ll a. . lolliagens e frutos. Mas o que sai ele ti são lêndeas,
piolín o i- \rimes. Aquelas disseminam óleo, vinho e perfume.
Quanto a li, tu expeles escarro, urina e fezes. Elas exalam odo-
ies .suaves, mas tu espalhas um abominável fedor. (

TORINI (XVII, 17-19): Quais são os frutos que nascem de nós?


<K frutos agradáveis e muito úteis que nós produzimos e que nas^
cem de nos são as lêndeas, as pulgas, os piolhos e os vermes t|ue
sao criados por nosso corpo e no nosso corpo nascem continua­
mente. Quais são as especiarias odoríferas e os ungüentos úteis
que nascem ele nós? São os ranhos, os escarros e as fezes que
saem t ontlnuamente elas diversas partes de nosso corpo. E é por
t .ii que ii bem aventurado Bernardo disse: “se considerares com
dille, ni Ia. o homem, tudo o que passa e escorre pela boca, pelo
uail pelas t Melbas e por todos os outros orifícios do corpo, per-
•i-In ia •que não existe fossa dc excremento mais fétida”.~
r

N.t I m iiç i , os poetas ela época macabra deram igualmente


d. d.o pi< a esse lema indicando suas fontes. Sabemosxjue o D u ­
pla lat da frapJUdadv hum ana (1383) de Eustachè Deschamps é
..... a tiaduçao do />e contempla m undi de Inocêncio III. Assim,
em muramos aqui de novo a comparação estereotipada entre as
plantas e o homem em detrimento deste último:

Condição indigna V
I lumana, que sempre erra!7

77. Dcve-sc notar que, citando o pseudo-Bcrnnrd, ’lorini reforça o texto ao


i radir/.i-Io.
l inio, flor e follj;i poli,un
A*, ,livores: Tu eleves portar
Plollios, vermes c lêndeas,
De vinho, ele óleo e bálsamo
Sao elas carregadas: Tu és carregado
De le/es, urina, escarro...''*

A mesma comparaçào depreciativa aparece sob a pena de


l’lerre de Nesson (1383-1440), secretário daquele Jean I de bour
bon que foi chamado “o poeta da morte”.
Numa paráfrase versificada do Livro dé Jó, ele, por sua
ve/, escreve:

Ai! Quando as árvores florescem "A


belas odorantes flores saem
E frutos saborosos que se comem.
Mas de ti nada a nao ser sujeira,
Muco, escarro e podridão,
Fezes fétidas e corrompidas!71'

A mesma repulsão volta mais uma vez no poema:

Torna cuidado com as aparências naturais:


Por belas que sejam as pessoas,
Nem por isso se mantêm limpas,
Tu verás que cada conduto
Fétida matéria, expele
Para fora do corpo continuamente."

A poesia francesa da época reafirmou com predileção a re­


pulsa monástica pela concepção, pela gestação e pelo nascimen­
to. Pergunta Eustache Deschamps: de que somos nós nutridos e
saciados no seio da mulher?7890

78. DESCHAMPS, E. GEuvres (edição dos antigos textos franceses, Paris,


1878), II, p. 262. Para tudo que vem a-seguir Cf. MARTINEAU-GENIEYS,
( du. Le Thème ilc là rhort..., p. 111-245.
79. As passagens citadas desta obra são conforme CHAMPION, P. Ilistoh c
[>oéuque Au X V siècle. 2 v. Paris: H. Champion, 1966; Aqui, I, p. 203.
80. Ibid., p. 203.

0!)
I- de amarga repulsa,
I >o sanano corrompido.
Menstruo 6 chamado e fluxo
Que cessa cntáo para a mãe.
I'oi ( ansa dele morre a relva, isso é claro
As arvores sao aniquiladas.
( >. i ai", enlouquecem ¡mediatamente
I ir a >( ai m i lal materia."1

Mliin.o .ni <• id usa onde encontramos a imemorial aversão


in i >hIiii.i pelo misterio da mulher, a antiga acusação de nocivi-
dad> i di luipiiir/a lançada contra o sangue menstrual com to-
d< o m i lalui’i que dai decorrem.82
No lúe,sino espirito do pseudo-Bernardo, Eustache Des-
. liamp'. e I'Ierre de Nesson insistem sobre “a horrível natividade”.
<) primeiro declara que nossa carne vem “revestida/’De uma suja
pele manchada/ De sangue...”.8' O segundo, depois de falar da
"lao suja concepção”, constata:

Tu vens por sujo e fétido caminho


l’oi urna bolsa toda sangrenta
I li arlvelmcnle envolvido
( um urna vil tripa cheia de imundície,
Mmi'ililiosa (|ue então é cortada...8'

(,)iiem ja leu os textos monásticos consagrados ã corrup-


i ao do (oipo, nao se surpreende mais com o caráter macabro e
nau i abundo da poesía francesa dos séculos 14-15 que, nesse as-
pei io, c Mia herdeira. Eustache Deschamps comenta assim as ci-
iai, <»e■. bíblicas utilizadas por aquele que se tornou depois Ino-
ivi icio III para descrever o cadáver:

Não terás pé, membro nem orelha


Que não se contraia no avesso;
Serás mais feio que um urso;

\ .

81. DESCHAMPS, E., II, Double ¿ay..., p. 256-257.


82. Cf. DELUMEAU, J. La Peut;..., p. 313.
83. DESCHAMPS, E., II, D ouble ¿ay... p. 261.
84. CHAMPION, P. H istoirepoétique, . I p 210.
N.» Ierra iciíín entilo repouso
( ).m vermes te roerão as enuunhas.

Fierre ele Nesson, que conhecia bem o D e conteníptn dó


( aideal I,otário, multiplicou as evocações cadavéricas. Tratando,
•li lambem, o homem de “fétida podridão”86 e “saco de fezes”,"'
« l< o interpela para lembrá-lo de que "Desde o dia em que mor
a » estiveres / Tua imunda carne começará / A soltar forte fedor’’.8"
I lambem a obra de Lotário que Jean Meschinot (1420-1491) pa
lalraseia nas Lentes dos príncipes. Depois de lembrar, como tan
los outros, que de todos os “condutos” do corpo vivo “sai hor­
ror", o poeta dirige-se ao futuro defunto:

Quando moita estiver tua carniça


I elida, procura quem unte tua carne
De algum licor odorante:
I
Ninguém quererá, porque o estômago
Nao suportará sentir
Semelhante odor, nem o aceitará:*’

hssas repulsivas evocações não constituíam um jogo giulul


Io nem uma constatação do absurdo da vida. Pelo contrario, elas
a .sumem uma função pedagógica. Todos esses poemas se preien
diam edificantes. O de Fierre de Nesson tinha como título \'lj>íli<ts
d o s mortos, lira um livro de orações, um “ofício"dos mortos” que
ii.io acabava em desespero, mas convidava ao arrependimento: “Pa
<á então o bem em vossa vida / Vós que viveis, nada espereis...”.1’"
Desse modo, leigos do século 15 compõem verdadeiros
■ianões a partir do tema da decomposição do corpo, e não é por
i< aso que eles adotam, para tratar desse tema, a interpelação (tu
mu vós) familiar aos pregadores.01 É também com esse crivo que
■ deve ler o Passo da morte (passo = passagem) redigido por

8a. DESCHAMPS, E., II, D ouble lay..., p. 283.


HO. CT1AMPION, P. H istoirepoétique..., I, p. 201.
87. Ibid., p, 205.
88. Ibid., p. 204.
89. ( I. MARTINEAU-GENIE YS, Chr. Les Lunettes des princes de Jean Mes
t hnioi. ( icnèvc: Droz, 1972. p. CXIII e 38.
'81 ( I IAMPION, P. H istoire poétique..., I, p. 212.
'M < I I )|'Tt JMliAU, J. (sob a direção de). Iiistoire vécue d u peuple chrétien, II,
p 18 (eomiibuição de H. Martin, “Prédication c( masses au XV" sièclc”).

!If»
( ¡corees Chastellain ( 1405-1475), poeta titular elos diiques de Bor-
gonha. A morte prematura de sua amada o leva do horror da po­
dridão a uma meditação cristã.92934Um drama pessoal permite mais
tim.i v e/ encontrar o contemptus mundv.
+
Vede o <|ite Caz dolente morte...
I o (Oi pó, vil e imundo
I V u l r n T . pura sempre;
I li m i a Icild .i com ida
I' n i ,i lena e a v e m iln a .91

I ni outra passagem dessa obra, mas também nas Baladas


,/e ninhilldihlr do mesmo autor, fala-se de “dolente sepultura”, de
lelld.i podridão",'" do corpo que será “apenas fezes”’.9596Daí esta
I>ilita’Ii. i ev idencia: "K urna grande loucura enfeitar aquilo que
e u carne para os vermes”90 e esta segunda certeza: “[urna vez.
mortol leras por bens e vinhos / Apenas teu túmulo e teu suda­
rio I , vermes para te decompor”.97 Não saímos, portanto,/dos te­
mas monásticos assimilados agora por uma cultura dirigente que
se tornou leitora do Livro de Jó, do Eclesiastes e seus comenta­
ristas dos conventos. “Por que, repete Georges Chastellain depois
de |o, nasceste tu de tua mãe / Para tão dolentemente morrer?”98
Como toda a elite da época está familiarizada e nutrida
«oi 11 o s temas do contomptus n nindi, não nos surpreendamos
de eiiconlrai quase a cada passo o refrão Ubi sunt? Podemos
■ tu ( >nli ai lhe lontes na Antiguidade pagã.99 Mas Ktienne Gilson
notou |usi,míenle que foi só a Bíblia (Is 33; Br 3 , 16-19; ICor
I 10 d(>) que, nesse ponto, alimentou a literatura medieval,100 a

92. CHASTELLAIN, G. CEuvres, ed. Kervvn de Lettcnhove, Bruxelles, 6 v.;


1863-1866: t. VI, p. 49-65.
93. Ibid., p. 50.
94. Ibid., p. 57.
95. Ibid., p. 59.
96. Ibid., p. 57.
97. Ibid., p. 62.
98. Ibid., p. 63.
99. CICERON, P hilip., VIII, 23; TIBULLE, II, 3, 27. OVIDIE, M a.,
XIII, 92. PLUTARQUE, Consol, adA ppollonium , 110, D.
100. GILSON, E. Les Idées et les lettres, p. 9-38. Nossa abordagem confirma
totalmente as conclusões de E. Gilson sobre o tema do lH>i sunt? Lu sigo bem
de perto essa obra nas linhas seguintes.
quul recebeu ii()tiul;imc*nít* essa dramática interrogação por in
lermédio de Sanio Agostinho, do Próspero da Aquitfmia ( | poi
volia tio iC»<))"" o do Isidoro de Sovillia (f 6 3 6 ).Iw Ela foi om so
guida difundida polos clássicos do contem plas m undi, por Main
do l.illo,1"' por São Boaventura,10* por múltiplos scrmòos o logo
pola Im itação e polo D e quatnor hom inis novissim is do Dcnys
l<- chartreux. Etienne Gilson mostrou que a poesia européia no
•.«•ti conjunto - italiana, inglesa, irlandesa, alemã e eslava - dos
•.ooulos 13-15 retomou esse refrão que’retorna também de ma­
neira particularmente insistente nas obra francesas desse perío
do. Eustache Deschamps o usa em quatro baladas (LXXIX;
( ( X;XXX; CCCtXVIII; MCLXXV; MCCCLVII),105 as quais retomam,
iodas, o estereótipo da enum eração dos grandes personagens
(l<> passado:

() que é feito de Davi e Salomão?..;


Artur, os reis, Godofredq, Carlos Magno?...
Para onde foi Lancelote de bom coração?...
Onde está aquele que conquistou Aragão?...
listão todos mortos, este mundo é coisa vã. (Balada (XX I.VIIl i

E ainda:

Ai! Em que parte estão os príncipes virtuosos


Que conquistaram terras antigamente,...
Davi, Heitor, Carlos Magno e Rolando?
listão todos mortos; vai abrir seus sepulcros:
Porque aí verás; cabe a todos nós apodrecer. (Balada MCLXXV)

() Cirande Testamento de François Villon, pelo menos a


partir da estrofe XII, é uma retomada do contemptus m un di por
alguém que conhecia bem a Bíblia e que teve a consciência agu-

101. Sentença De D ivinitiis publicada nas obras de Santo Agostinho (Patr.


I i il , XIV, col. 1.897-1.898) e recolhida por Prosper d’Aquitaine.
10.’.. Patr. Lat., I.XXXIII, col. 865 (Synonymes).
KM. D e Arte predicatoria, ch. 12 {Patr. Lat., CCX.col. 189).
I Oi. Soliloquium , cap. II, 3 (ed. dos Padres franciscanos de Quaracchi, cd. mí-
uor, p. 96-97).
105, I) I(Sc I IAM PS, E. CEnvres, respectivamente I, p. 181; III, p. 34-35 c
I I 1; VI, p. 123; VIII, p. 149.

1)7
cía de ser um "vil pecador”. Mais uma ve/., ressurgem a<|iil ¿ir. sen
tenças d e jó e do Eclesiastes e de novo a pergnnla Ubi sim l?, C|ue
o poeta por sinal enriquece de notações novas e insistências pou­
co habituais sobre os personagens femininos:

Onde estão os graciosos galantes


Que eu seguia em tempcfe idos, y
Tão bem cantantes, tão bem falantes,
Tão agradáveis em feitos e ditos?
Alguns deles estão mortos e rígidos,
Deles agora nada mais resta.106107(Estrofe XXIX)
- ' ' ■ ' n ‘ V
Diga-me onde, em que país
Está Flora a bela romana
Alcebíades e Tais
Que foi sua prima irmã;
Eco...
De beleza bem mais que humana?

< >ndc esta a l;lo sabia I leloís...


A Ualnlia I>raiua com e> um lírio
(,)llr i .IIII.IN a ( t mi \c >/. de .sereia...
Mas . .u iIr . ii.iti as ne \es de o u iro ra ?"’’ (.Balada das dam as dos
\tempos idos)

( ) poel.i prisioneiro Jean Kégnier (1390-1468), ele também,


de maneira mais clássica, pôs em versos o lugar-comum Ubi
i ii . is
•m il ( )nde esta Artur, onde está Heitor de Tróia? / Onde estão
os bravos que gritaram MontjoieT , 108109
A história das mentalidades não pode deixar de registrar a
repetição desse tema, com o se autores e leitores não se cansas­
sem de repetir a mesma obsessiva verdade. Na já citada medita­
ção de Georges Chastellain sobre a morte, 8 estrofes em 93 são
também consagradas à eterna pergunta: “Onde estão eles?”.100
Este Passo da morte finalmente é um "espelho da morte”, prova-

106. VILLON, Fr. (éd. A. Maiy, Paris, Garnier, 1970), p. 26.


107. IbidMp. 31-32. Na época de Villon, tomava-se Alcebíades por uma
mulher.
108. Cf. CHAMPION, P. H istoirepoétique..., I, p. 278-279.
109. CHASTELLAIN, G. CEuvres, VI, p. 51-54.

í>8
velmenlc sei i verdadeiro (Hule > Ne.se sentido, ele se junta a Ioda
uma lileralura morali/ante que mohlll/ou essa palavra ( Es/k :ch Io
ilc pecadores; Espelho ele pecadores c pecadoras, etc.)110 e convi­
dou o h o m e m a olhar-se no espelho que lhe devolve a imagem
de seu futuro cadáver:

Príncipe, interpela Jean Meschinot nas Lentes...,


Observa esta vil pintura,
Que jaz de través, plena de grande feiura!
Tu ficarás em tal estador..1"

Passamos assim das interrogações monásticas sobre a mor


le para o sermão destinado a um vasto público, já que a questão
I 1)1 sm it? presta-se admiravelmente à predicação. “Miremos o
mundo e sua forma, aconselha Georges Chastellain, / Miremos
nossa fragilidade; / Miremos para ser salvos”.112
H a mesma lição que ensinam todos aqueles cadáveu s
ressecados ou em via de decomposição que a arte européia, en
ire o fim do século 14 e o fim do 16, deleitou-se em represem a i
com um realismo provocante, particularmente na França, na In
glalerra e nos países germânicos: a escultura de François de Ia
Narraz (por volta de 1390, perto de Lausanne), com sapos devo
lando os olhos, a boca e o sexo;115 o corpo nu, metade múmia,
metade esqueleto, do médico Guillaume de Harcigny (f 1393) na
capela episcopal de Laon, escondendo sua nudez com a mão os-
sosa;1" aquele outro, muito semelhante, do Cardeal Lagrange
( | I Í02) em Avinhão, com esta dura mensagem ao visitante: “In­
feliz, que razão tens para orgulhar-te? És apenas cinza e logo se­
u s com o eu um cadáver fétido, repasto dos vermes”;115.o de Gui­
lherme II de I lesse (f 1509) em Sainte-Elisabeth de Marbourg
que os vermes começam a roer; os de Luís XII e Ana de Breta-

I 10. LENENTI, A. II Senso..., p. 144-146 e 165-166. Já em 1266 Robert dc


1’Orme-redige um M iroir de la vie et de la mort, publicado em Romanía, t. 47.
p. 511-531 e t. 50, p. 14-53.
III. CHAMPION, P. H istoirepoétique..., II, p. 229-230.
I 12. CHASTELLAIN, G. CEuvres, VI, p. 64 8.
I 13. COHEN, K. M etamorphosis ofD eath Sym bol Berkeley: Univ. of Califor­
nia Press, 1973. pi 77-78, 93-94 c pl. 31 c 32.
I 14. Ibid., p. 103-104 e pl. 1 c 2. MÁI E, f . p. 347-348.
I I 5. CX)l IEN, K. M etamorphosiv , p. U Ut c pl S c 6. MÁI.E, E. Ibid.

09
ni i.i fin S;i int I)enis, com o roí no plano Inlei loi n pn \si ni ai lo .so
filíalo a lorie descrição de H. Male: "mi, as laces cavadas, o na
il/ ion ido, a boca aberta, o ventre rasgado pelo embalsamado!',
ja ,r. 'aislador, logo pavoroso, tão miserável quanto um mendigo
morto","" Aluda na segunda metade do século 16, algumas
obias, poi sinal tributárias da técnica e da estética da Renasceu
-a Italiana, continuam a representar escultura de mortos com
..... .. ■idad' ■ Intensa aquela, inacabada, de Catarina de Médicis
...... lo in n i «oi ulplda por Cirolamo delia Robbia em 1566"7 e
11111* I ........ia di \ ilenilnc balbiani (no Louvre) devida ao cinzel
................ . nu 1'llou <« u111 1572 e 1584) que soube associar aclmi-
i i . 11111 un " i .prelo delicado dos cabelos ondulados e as clo-
bi in d i ué «ilaIIia a um corpo macilento.118 Uma contagem recen-
i. |. laina ao ni.K abm permite corrigir um pouco a idéia tradi-
i loiial qin la/iamos da Renascença. Com efeito, foram contados
ah ar,, na ’,(> i luinulos (ainda existentes ou destruídos) dos sécu­
lo,-, I t I comportando a figuração de um cadáver: apenas cin­
to são do século I í, 76 do 15, mas 155 do 16. No 17, não en-
conlramos mais que 2 9 .119 De maneira mais geral, quantas igre­
jas, livros de horas e relógios dos séculos 14-16, quantas casas
pari R ulares, brasões, ou até mesmo lareiras nas salas de visitas
i ompoilaram imagens ou inscrições relacionadas com o memen­
to morl\ <) conlem/Hns m iin d i , transbordando do espaço dos
nn i'itelto'., Invadiu uma cultura.
i na, e|i ln< Itn.i, como ultimo componente, o temor cio jul-
i ..... ui" Minai ou parlleular) (|iie estava, ele também, logicamen-
i' ............... .. in ia p oem as anteriormente citados. Logo depois de
e i li a i " n li.io / l>l |ean Régnier, nas suas Fortunas e ad-
i , i i,l,.............. illiits' se a Virgem dizendo: “Neste grande dia, hu­
ndid........ de d suplico / Q ue faças que para Deus eu não grite /
ii ida ' in .uma no final das contas”.120 Mais impressionante é a

116. Ibitl., p. 434-435. 1


I 17. C-OI ll'.N, K. M etam orphosis..., pl. 93. Monumento inacabado recusado
por <àuherine e substituído pelo de Germain Pilón. Cf. PANOFSKY, E.
7frn b..., p. 80.
I 18. Ibitl., p|. 111-113.
I 19. Ibitl., p. 189-196. A lista de K. Cohén não pretende ser completa. As-
sim, a clígic de Metano na Itália do Nprte (catedral Saint Nicolás) não figura
nela (d. PANOFSKY, E. Tomb..., pl. 260 c p. 64).
120. Cf. CHAMPION, P. H istofrcpoétiqur , I, p 1 ‘9,

100
r\ ( >i ,k .I() do li 1(1,1VK> dia íclta por 1.11.st;u Ik• 1)csehamps. Seu D u -
l'l<> l<ii d a jra uilidcule hum ana, no conjunto, c medíocre. Mas seu
I.denlo desperta para descrever o dies trae e os sofrimentos do
Inlcino onde os condenados “gritarão com o ensandecidos”:

ouem poderá a ira evitar


I )este grande dia, e suportar
<) julgamento táo perigoso
One o céu, a terra e o mar
Pará arder e queimar?...

I lilao los condenados] terão muita dor


(irande medo [mau cheiro]
I grande choro
I! ranger de dentes
Angústia e muita tristeza
c irande tremor
lí ardor
lí muitos gemidos
Uivos
1'dme, sede e muito langor...
lerão vermes e serpentes.
Muitos tormentos
Permanecerão com eles
Sem retorno,
dom pavor
./
lí de Deus o julgamento.121

() retórico Vaillant, no Passo da morte, não se contenta em


I •11.i11.iscar o hino de Thomas de Celano ( “Eh! então, o pecador
" i|iic l.u.i / Quando esse terrível dia vier?...”),122 ele compõe um
......... » poema repleto de jogos de palavras e de bizarros refina-
iii* iu*»•. a Corneta dos anjos, sobre o tema do julgamento final:

(guando os quatro anjos trombetearem


I .i'.limosamente será trombeteado
Pi »ls quem não estiver com boa trombeta 1= solidamente apoiado]I

I 'I I >HS( íl IAMPS, E. CEuvrea, II. p. 295-2^8.


I < I IASTIÍI.I.AIN, G. (Iumn, VI, p. 64 \

101
Tremerá,...
líntão roguemos ;i Deus que cachi um trombeteie
As Vil virtudes que Deus trombeteará
Enquanto do inferno,...
Nao pudermos ouvir a trombeta ...1’3

I )c (|iic servirão os bens deste mundo, na hora do aceito


de contas? A perspectiva desse prazo obseda ña época os adap­
tadores do contemptus m undi. “De que valerá tua riqueza e ha-'
veres/ questiona lean Meschinot, Tua grande beleza, teus amigos,
lua sapiência/ Quando diante de Deus vieres ao julgamento?”123124*126
Je.in Molino! pede aos santos do paraíso que o “sorteiem” então
e que pleiteiem por ele diante do trono

|)o Kel que os reis comanda


Que bons i oll adores celia...
«.me os Instigadores fustiga
I H|l .11I>1 iti OI leMCI Il( 1,1 1

• mi, , ii ii i 111111 d< .i-linóes versificados, isso é demons-


II II ||I pi |o dltlli I|Mt I Min It Mol le e o homem mundano, coloca-
do no lliiii! •lio li'iih ' i/e /*/'///< l/u ! ' V h

I 1/ndH <) bomcm mundano


I ii 111, un i i*i Quando? c
M<i|il»liiiiii ni* I urna coisa dura
Ai! Para onde irei?
I' luí i pmlrlilili >
Preciso de conselho
Sal ' i inle.s.sar te
Nao .sel achar coisa melhor.1-1' v r-,

Nao se pode assim separar essa meditação sobre a morte


ilo insi,siente convite ao exame de consciência. Na época, urna
e outr.i Ibram os elementos solidarios de um mesmo discurso

123. ( 1 Cl IAMPION, V. H istoirepoétique..., II, p. 367. DESCHAUX, R. Les


( l '.uvres ele Pierre Cheistellain et ele Vaillant. Genéve: Droz, 1982. p. 160-164.
124. MARTINEAU-GENIEYS, Chr. Les Lunettes..., p. XXXVIII.
123. Ibicl., p. 419.
126. Ibicl., p. 237.

102
« l.il>imulo cli• Início nos mosteiros y depois difundido c.ul.i v i’/
i ii íi I.’. .im plum onk’. I>. ii aquelas rígidas sentenças de (leorges
• liasU’llain, sempre expressas em forma de interpelação de pee
>».uli >i para ouvinte;

l’ara (i, portanto, criatura humana,


Para li é a hora de tremer...
Duvida que deves traspassar...
Duvida do dia do julgamento.127
(
A propósito dessas palavras, será que se pode ainda falar
de ' familiaridade com a morte”? É certo que a Igreja da época con
\Ida o homem a pensar incessantemente na morte, mas nao a ha
Minar se a essa idéia. Sobretudo nào se deve acostumar-se a urna
piesença que acabaría por passar despercebida. A morte nao deve
ou nao deve mais - ser “domesticada”. Ela é uma passagem pe
rlgosa fjue só será transposta à custa de urna vigilancia de loda a
vida. Diante da morte, é preciso ter medo, e todas„as evocações
i In/.a e podridão, agonia, trombetas do julgamento e visões d< >In
lerno - são úteis para impedir que esse medo fraqueje.11"

a m orte conversora
O discurso cristão sobre a morte, çom efeito, nao pode ser
separado da insistência mais ampla sobre os fins últimos (em Ja-
lim os novíssima). Devemos então remontar novamente aos Pa­
dres do deserto. Porque foram eles c]ue credenciaram a série cro­
nológica “morte, julgamento, inferno (ou paraíso)”.129 Foram eles
que lançaram o conselho de meditar sobre a morte para melhor

127. C H A ST EL LA IN , G. (Euvres, V I, p. 64 6 et 64 7.
I 28. Não há dúvida de que houve reações cristãs a essa pedagogia traumatizante.
I 29. Vou utilizar muito nas páginas seguintes um estudo de Fr. Bourdeau e A.
I >anet, “Fiche de prédication missionnaire: la m ort”, redigido em 1954 para
uso dos redentoristas e que o Padre Bourdeau amavelmente me comunicou.
Fm seguida, assinalarei este estudo de Fr. Bourdeau, La Mort... Ele foi parcial-
monte retomado em dois artigos publicados por: Fr. Bourdeau e A. Danct,
T.uit ¡I prêchcr la cráinte de la m ort” na Vie spirituelle, n. 4 9 2 , março 1963,

m:i
,sc* preparar para a eternidade: um conselho lidado de maneira
Indissociável ao convite para o conteniptus nnunlt, Sao Paeômc
(| 3 iH) di/ia a seus monges da Tebaida: “Antes de tudo, tenha­
mos diante dos olhos nosso último dia, e temamos a cada ins­
um e as dores eternas”."0 Já se escreveu sobre Santo Efraim ( |
outro monge do Oriente: “É raro que ele não leve seus ou-
vInti •a pensai na morte e no julgamento”." 1 Retornando do Egi-
im ^ml. 111| pim tirar a sabedoria junto aos monges, São Basilio
11 ■ 'o , mi. n iig.ido por um intelectual que lhe pergunta: “Qual
• i . I. 11111. .i•. d.i lllost illa?". Basilio responde seguindo Platão: “A
.
1 11111 . h i di I..... to d a lllo N o lia é a m editação d a m orte”." 2 Em ou-
............... . to imp. >itunado poi dois filósofos, Basilio dá a mesma
i. .|i.. .i,i i ni. \11■.•.a filosofia seja sempre pensar na morte!”1"
í Io 11 11 i In. i'.i .iii da aseensao a Deus, Macario, o Egípcio (f 390),
. oloi i ,i lellesao sobre os fins últimos: ter no espírito o dia de
ai i moili . Imaginai o comparecimiento diante de Deus, o julga­
m e n to , os castigos reservados aos maus e as honras dadas aos
santos,"' () convite a meditar sobre os fins últimos é particular­
mente forte numa exortação de Evagro (f 399) a cada um dos
seus monges:

Quando estiveres sentado em tua cela, recolhe-te e pensa no


dia de tua morte... Que a vaidade deste mundo te cause horror...
is n .a lambem naqueles que estão no inferno... Mas lembra-te
I iiuhi ui «li» dia da ressurreição; tenta imaginar o divino, o terrí-
>. I |ulgainrnl<» <ieme então sobre os castigos reservados aos
.........Inii . lima, cobre le com a imagem de suas lágrimas, no
i. in> >i d. paillclp.ii de suas ruínas; entretanto, ao pensar nos
I.. ii |ni iini-tldos aos justos, rejubila-te, exulta e entrega-te à ale-
i'iia Que leu espírito não perca isso de vista, a fim de que as­
am possas pelo menos evitar os maus pensamentos.1"

I» .'.Ml 297 c I r. Bourdeau, “Les Origines du sermón missionnaire sur la


morí" cm ll)id., p. 319-338.
130. Puir. I.at., I.XXIII, col. 265 (Vila sti Pacômi abbatis...).
131. GUI1 I,ON, N. S. Bibliothèque choisie des Peres de 1'Eglise, Bruxelles, 1829,
VIII, p. I 13.
132. Puir. Gr., I.XXXIII, col. 297 (Vila sti Basilit).
133. Ibid., I.XXXIV, col. 909.
134. Pair Gr., LXVII, col. 1163 (Epistqla sti Macurii ud filios).
135. Pair. Gr., LXXI1I, col. 966 c scg. (Verba seniornm III. "De ampunctionè').

i 'Jtrfm |miu

101
Santo Agostinho, profundamente marcado pelo monaquis
mo e (jue impôs ao sen clero a vida comum e a pobreza, escre­
veu, entre outros discursos sobre a morte: “H pelo eleito de urna
grande misericordia que Deus nos deixa ignorar o dia de nossa
morte, a lint de que pensando todos os dias que podeis morrer,
vos vos apresseis em vos converter”.1'0
Esses textos traçam para nós um caminho através da tradi­
ção monástica. Porque foi ela que primeiro viveu e depois ensinou
o </uotidie morior e a necessidade de fazer da vida urna prepara­
dlo para a morte. No capítulo 4 da regra de Sào Bento (f 543), en­
contramos os seguintes convites: “Temer o dia do julgamento; re­
cear o inferno; desejar a vida eterna com ura ardor todo espiritual;
tu cada dia diante dos olhos a eventualidade da morte”.1'7 A “es­
cada do paraíso” de São João Clímaco (f 600) comporta no seu
sexto degrau esta comparação esclarecedora: “Assim como o pão
c* o iríais necessário dos alimentos, assim também a meditação so­
bre a morte é a mais importante das ações”, e esta outra fórmula:
"Assim como se diz comumente que um abismo é uma profunde­
za de agua que não se pode sondar e que é por essa razão que
lhe dão esse nome, assim também o pensamento da morte produz
em nós um abismo sem fundo de pureza e de boas obras”.1361738139
A espiritualidade cisterciense não deixou de adotar a me­
ditação sobre os fins últimos.. Embora o próprio Sào Bernardo
nao tenha atribuído uma importância primordial ao pensamento
da morte, a posteridade, porém, reteve algumas das suas fortes
sentenças sobre o tema que figuravam num sermão dirigido a
seus monges: “O que sào os fins últimos? perguntava ele, porque
dizem que, se te lembrares deles, não pecarás. É a morte, o jul­
gamento, o inferno. O que há de mais horrível que a morte? O
que há de mais terrível que o julgamento? Porque não se pode
■onceber nada de mais insuportável que o inferno. O que mais
podemos temer, se diante disso não estremecemos, não nos apa-
voramos, não somos estremecidos pelo temor?”.1'9 Essas interro-

136. Patr. Lat., X X X V II, col. 1 .8 7 6-1.8 77 (Enanatio in Ps.144).


137. Ia Régle de saint Benoít. Trad. H . Rocháis. Paris: Desclée de Brouwer,
1980. p. 24-25. Cf. também Règles des moines. Ed. J.-P. Lapierre. Paris: Seuil,
1982. p. 67.
138. Patr. Gr., L X X X V III, col. 7 9 4 -7 9 8 (Sca/a Paradisi; gradus VI).
139. Patr. Lat., C L X X X III, col. 572 (sermão X II: D eprim ordiis, mediis et
nonlsumis).

105
gaçi)c\s angustiadas convidam a nao datai apena-, do m -i ulo IS
ou do 17 - , com o se Ia/, às vezes, a tran.sformaçao do medo na­
tural da morte num medo religioso do julgamento. O discurso
monástico já linha há muito tempo operado a transferência. Des-
modo, a mcdilaçào sobre os fins últimos estava prevista nos
i \i n i< Io-, e.-.piriluais da Ordem de Cistèr. Uma D e vita eremítica,
mibuid.i aos <isteivien.se Aelred de Riévaulx (f 1166), comporta
d* •i ipimlo i ao capitulo 77 um programa de reflexões versan­
do ,n. i av miente sobre o passado: as benesses de Deus; sobre
.. pu m ule i miseria humana; e sobre o futuro: a morte, o julga-
............. . i . h inid,ule bem aventurada ou mal-aventurada.140

\ ipail(,ao das ordens mendicantes, dedicadas especial-


......... a |u•p,.u ai i, l.i< illtoti a difusão cía cogitado mortis em círcu­
lo, .ada ve/ mais amplos da população. São Francisco de Assis
.......... ii na sua Segunda Carta aos Fiéis: “... Saibam todos que,
em toda parle e seja como Ibr que um homem morra em pecado
un nial, sem satisfação - ele podia satisfazer e não satisfez ca dia­
bo arranc a a alma cie seu corpo com tanta ansiedade e tribulação
que ninguém o pode agarrar a não ser aquele que ca recebe... Os
vermes comem seu corpo e sua alma neste breve século, e ele irá
para o inferno onde será atormentado sem fim”.1'11 Ora, esses avi­
ar, de-.embocnm num parágrafo da Regra de 1223 consagrado à
pn gardo, no qual se diz: “... Fxorto... meus Irmãos...: para que,
1.1 |a. e i. a. >que la/.eii), suas palavras sejam pesadas e castas, para
i utilidade < a . dlflcaçdo do povo, anunciando-lhes os vícios e as
liliid* i pena e a gloria, com brevidade de discurso”.é2143De São
li ni. i . . . |ia .,.11111 >-. naturalmente a São Boaventura cujo Solilo-
.iiim ni \. nl.idcli.i apologia do contemptus m undi - , depois de
im ... n i 1111.« da do mundo, recomenda à alma cjue se volte “para
a , n ali.lade , Inferiores, para que compreenda a necessiadde ine-
\n,i\ el da morte humana, a equidade temível do julgamento final,
a duie/.i Intolerável cio castigo infernal”.145 O último capítulo da
obra enfim faz erguer os olhos para “as alegrias do céu”.

140. Patr. Lut., X X X II, col. 1 .4 6 5 -1 .4 7 4 (De Vila erem ítica). Cf. também
T E N E N T I, A. II Senso.,., p. 66.
141. D A SS1SE, François. Ecrits. Ed. Sources chrétiennes. Paris: Cerf, 1981.
p. 241.
142. Ibid., p. 195.
143. BONAVENTURE. Soliloquiutti. Cionsultri .i ti mintió ele F. Mézièrc, na
“Blbliothèquc des âmes chrétiennes", l'.ni ,, IM">9, p, I ’8.
A Tenenti mostrou bem <jut* na longa pré historia tías A r
h"> nioriendi o dominicano místico I lcnri Suso (1296-1306) ocu
pa mu lugar im p o r ta n te .Seu Livro da sabedoria eterna (em ale
mao) c seu Horologiuni sapieu ticte - este último é às ve/.es apre
ut.ulo com o uma tradução livre do primeiro - insistem de ma
nelra concordante sobre a necessidade de aprender a morrer e
sobre o fim trágico do homem que morre sem preparação. Ilumi
nado pelo espetáculo das agonias e pelas imagens do inferno e
do purgatório, o “servidor” da sabedoria exclama:

Ah! Senhor... Que temor é o meu! F.u jamais soube que a mor
te estava tão peito de mim... Estarei todos os dias espiando a
morte e olharei ao meu redor para que ela não me surpreenda
por trás. Quero aprender a morrer, quero levar meus pen,samen
to para o outro mundo. Senhor, vejo que a minha morada nao <•
neste mundo."s

A. Tenenti observa que “a expressão scientia ou doctrina


ntoriencli não é encontrada antes de Suso”.14*146 É revelador por ou
11o lado que o capítulo XXI do Livro da sabedoria eterna , de
onde c tirado o fragmento anterior, tenha sido muitas vezes pu
bllcado separadamente, no fim do século 15 e no início do l(i,
Mimo /1/s moriendi147 (Sterbebüchlein). Não se poderia destacar
melhor o papel do dominicano alemão na difusão européia da
meditação sobre a morte. ITm desenvolvimento ulterior fará logo
aparecer as responsabilidades conjuntas dos dominicanos e dos
Ir.mciscanos no sucesso da Dança macabra.148 Pelas mesmas ra-
oe.s pastorais, eles pregaram sobre os fins últimos. Conservou-se
um sermão (em latim) de São Vicente Ferrier (dominicano), so-
bre "a quádrupla morte” onde esta é assim definida: a primeira é
,i morte espiritual, que devemos evitar totalmente (o pecado); a
•.egunda é a morte corporal em relação à qual devemos tomar
ia issas precauções; á terceira é a morte infernal que devemos evi-
i H acima de tudo; a quarta é a morte eterna que devemos temer

144. TEN EN TI, A. IISenso..., principalmente p. 32-34.


144. SU SO , H. ( CEuvres completes, apresentação, trad. e notas de J. Ancelet-
I lustacjic, Paris: Senil, 1977. p. 391-39 2 (cap. X X I do Livre de lã sagesse..).
I4(>. TENENTI, A. IISenso..., p. 65.
147. SU SO , H. CEuvres..., p. 82 c 381.
I4tt, Ver mais adiante p. 100*102,

107
(Isto e, ,i c<>ndenaçao pelo julgamento),"’ falla um poili o de Io
gl» ¡i nessa sequência. Mas ela reencontra sua coerência no Pls-
positorinm moriendi de outro dominicano, Jean Nidcr (| 1438),
atitoi aliás de uma célebre obra de demonologia, o Form icarius.
<) Disposltorhnn insere a reflexão sobre os fins últimos nas pesa­
da. estruturas escolásticas da época.150 Quanto ao franciscano São
I a nai i lino de Siena (| 1444), ele consagra um sermão aos Q ua-
iii"i nol is\¡nut que seguem uma homilía sobre a morte, outra so-
I........|u bra 11H nlo, uma terceira sobre o inferno e duas outras so­
bo as luíoslas da condição humana.151
\ dllusao da reflexão sobre as origens e as conseqüên-
i l,i da i i i o i ú opeiou se também através da espiritualidade da
l'i rolio nio.lriiiti, um segundo caminho que cruzou e facilitou
m pilmelio 1’aia Is bourdeau, “esta escola nórdica, representa-
11\ i d. uma oiaeao ao mesmo tempo metódica e afetiva, pare-
<e tis slsksnallzado a meditação dos fins últimos”.152 De fato, o
i'tisclaiUniHs de Ciérard de Zutphen (f 1398), durante muito
tempo atribuído a São Boaventura - atribuição errônea, mas sig-
niflt ativa comporta uma seqüência de reflexões sobre a mor­
te, o julgamento e o inferno.153 Do mesmo modo, na Im itação ,
nao so o religioso, mas também mais geralmente todos os cris­
tal o desejosos "ile fazer algum progresso” são convidados a me­
ditai siu es.lva mente sobre a miséria humana, a morte, o julga-
iia nt<• o luleino e o céu .15,1 Na esteira da Im itação , o Cartuxo
n. . d imli ■ 11, nys de Hyekel ( | 1471), autor de umas 200 obras
d. i, i.|ii)i|,i misil» a, com põe por sua vez um D e Q u atu or hom i-
m nori.sim is, o ijtial Inspira, entre outros, no fim do século 15,
■i Itosrlnm de |< an Mombaer. Ora, no título 35 da compilação
i i i ii. i di si. uliliiii), encontra-se uma Prologas generalis in

I r>, I I KRII'U, Vincou. CEnvres, Lyon, 1555, p. 559s.


|s(). TI'NI'.N I I, A. / / Senso..., p. 69-73.
I s I. SlKNNb, Bcrnardin de. Opera omnia. Éd. J. de la Haye, Paris, 1635, 2 v.
de dois tomos cada um: sermões latinos somente. Aqui: v. II, t. 3. sermões “ex-
n.ioidiiKÍrios”, XIV, XVI, XVII, XVIII, XIX e XX, p. 498-530, o sermão XV, é
consagrado à “satisfação”.
152. IIOURDEAU, Fr. “Les Origines...”, p. 328. Lembro que em toda esta
exposição eu sigo estritamente o Padre Bourdeau.
I 53. ( ]f. o artigo “Cisneros” do D ictionnaire de Spiritualité ascétique et mysti-
que, 2 p. 910 a 921.
154. I.Imitation (cd. Senil, 1961): I, cap. I1), 2 t. ’ i. p 16-54.

1OH
i/niiliior novíssim a onde figura este aviso: "Guárelo com eukla
do no iik'U coração estas (jualro preocupações: minha inorle, o
|tllgamcnlo, Ç) negro abismo e o claro paraíso”.1''’ Seguem-sc i5
paginas de desenvolvimento (na edição in-4° de 1503). Pelo
i s r i i lta torio de la vida sp íñ tu a l (1510) de Garda Cisneros, a
meditação sobre a morte cara à Devotio m oderna atingirá San­
io Inácio de Loyola e se difundirá em seguida através da prati-
1a dos Exercícios espirituais.™
Mas, desde o início do século 15, ela já tinha marcado Ger-
"II Ora, a terceira parte do Opusculum tripartitum deste autor
i onsliluiu uma das maiores fontes da Ars moriendi cujo sucésso
Ia afirmar-se depois de 1450, sendo a outra fonte principal o Cor-
>H<de (¡uatuor novissim om m . Durante muito tempo atribuído ao
< aldeai Capranica, este último texto foi mais provavelmente com
posto na Alemanha do Sul, talvez por ocasião do Concilio de
i onstança e a partir do Tratado de Gerson. O autor podería sei
um dominicano de Constança. A circulação deste escrito no Im
« Io leria então se beneficiado de dois suportes: os padres que
\ollaram do Concilio e a Rede de Conventos Dominicanos.1 Se
' sia hipótese for correta, Devotio m oderna e Ordem dos Irmãos
bregadores teriam, então, desempenhado um papel decisivo na
elaboração da Ars moriendi. ^
Na esteira de Roger Chartier, podemos representar em
grandes traços a espantosa carreira desse best-seller,1516*58 “verdadei­
ra cristalização” da morte cristã, notaclamente sob a forma icono­
gráfica. A Ars m oriendi - que pretendia ser uma “técnica” ou um
'método” para bem morrer - é de início um texto conhecido sob
duas versões. A versão longa comporta seis seqüências: recomen­
dações para bem morrer, tentações da agonia, perguntas a fazer
ao moribundo, orações que ele deve pronunciar, comportamen­
to da assistência, orações aconselhadas a esta última. É a versão

155. Transposição por Fr. Bourdeau de “Bis duo sunt, quae cordetenus sub pec-
tore misi, M ors mea, judicium , bàrater nôx, lux paradisi".
156. Ver mais adiante p. 397.
I57. Essa é a hipótese da Irmã M.C. O ’CONNÓR, The A rt ofdying well. The
I'>cvclopment o f the Ars m oriendi, New York, Columbia University Press, 1942,
p. 61-112.
158. CHARTIER, R. “Les Arts de mourir, 1450 1600”, em Anuales E.S.C.,
j.MKUro-fevereiro de 1976, pi 51 -75, com bibliografia remetendo notadamen-
tc a A. lencnti, U Senso... e a M. ( ()'< onnor (vn nota anterior).

10!)
ele i ju.isc* lodos os manuscritos e el.i malotla il.is i <ll< no. tlpogra
(leas, A versan enría enquadra as tentações da afonía entre urna
inlroduçáo e uma conclusão. H a versa o das edições xilográficas
e de urna grande minoría das edições tipográficas.
A Ars m oriendi conheceu o sucesso já sob a forma de ma
uu.si ritos. Os catálogos de bibliotecas permitiram levantar ate
agora 23 i deles: 120 em latim, 73 em alemão, II em ingles, 10
em francés, 9 em italiano, I em provençal, 1 em catalão, 1 sem
Indleaçao ile língua. Pelo número de manuscritos conservados, a
. Os moriendi vem depois da Bíblia, certamente, e depois da Im i­
tando (700 manuscritos), do D e Regim ineprincipum de Gilíes de
U<)ine (cerca de 300) e do Román de la Rose (cerca de 230). Se a
0 s moriendi causou choque foi principalmente por causa das 1 I
gravuras que ilustram a versão curta: elas apresentavam, ao redor
do leilo do moribundo, as cinco tentações (infidelidade, desespe-
ro, impaciencia, vangloria e cobiça), rejeitadas graças a cinco ins-
pliacoe*. angélicas, A Ars moriendi, no estado atual do conheci-
1111 nln, p a u te leí sido o mais difundido dos livros xilográficos
i I i"Mt |i o ti tilo*, editados dessa maneira), sendo aliás certo que
• 11111 •n i•• d. i ulnas l'ol multiplicado por meio de c’artazes e
1 ............... .11* pedí mi o i i diados ñas paredes. Um “pincel sobre
p tp .l p n p iiid n di leiomc Bosch, representando a Morte do
i IIWh 'ii /m ' urna vail.u .lo sobre a tentação de cobiça das Artes
HiiHlvihllA'* ç, - /
\ iiiipM ii’i.i ........Hit ni a expansão da Ars moriendi, ao mes-
iiii. i. mpi' <pii lain, ava ao grande público obras mais antigas (/7o-
1 1 .i>inm 11, '.us. i, ( )/>io trl/xirtitum de Gerson, Cordiale... novis-
kiiin •inni i, . i i |< >s te\ti *,s K mvergentes atraiam a atenção dos cristãos
0 .1«i. i un ni. c o julgamento. Irmã O’Connor levantou 77 edições
1 .... ................da In moriendi, número certamente inferior ã rea
lldade;*1"1 31 para a versão longa, 26 para a curta, 42 em língua vul
gai (portanto, destinada sobretudo a leigos) contra 33 em latim. Os
centros de difusão foram por ordem decrescente: París (17 edi
çnes), Italia do Norte (14), Alemanha do Sul e Renánia (14), l.eip
zlg (9), Países Baixos (6): uma geografía que, em seu tempo, im
poe uma comparação com a das Danças macabras.162 Setenta e sete

I 54, lista pintura está em Washington.


160. O’CONNOR, M. C. TheArt,.., p. 133 171.
I(>I. TI'NIvNTI, A. L a V ie e tla m orí.. , p , 45, ( liega h 47.
t(>2. Ver mais ailiantc p. 40.
edições (ou 97 ,segundo A, 1'encnli) podem lei' representado cerca
de 50 mil exemplares (ou 03 mil na segunda hipótese). Esses nu
meros parecem modestos, mas ganham destaque por comparação,
uma ve/ que foram identificadas 85 edições incunábulos da Imita
ção.'"-' As duas obras, pelo menos durante a segunda metade do
século 15, estiveram, portanto, situadas quase no mesmo nível, lí
verdade também que a Ars moriendi (e uma observação análoga
vale para a Imitação) representa na época apenas 0,5 a 2% do li
vro religioso. Parece relativamente pouco. Entretanto, sobe para 3-4%
se acrescentarmos outras “Preparações para a morte”: Espelho da
morte de Georges Chastellain, Passo da morte de Aimé de Montge-
soye, Ditado para pensar na morte de Jean Molinier, Espelho dos
pecadores e pecadoras de Jean Castel, Lentes dos príncipes de Jean
Mcschinot, Lamentação da alma condenada (de autor anônimo),
ele."" Alberto Tenenti assinalou que o Cordiale..., impresso pela
primeira vez em 1471, tinha dado lugar a 45 outras edições latinas
antes de 1500 e a igual número de traduções estrangeiras. I Im d» »s
elementos do sucesso do Cordiale foi a percuciente iconografia
macabra que ele continha.165 Com Roger Chartier, podemos cutan
ver na /Irs moriendi, do século 15 e nas obras adjacentes “uma
arma importante para uma pedagogia de massa”,166 mas com a con
diçào de precisar com este autor que a maior difusão das “Prepa
rações para a morte” realizou-se mais tarde (no século 17) e que o
impacto dessas obras sobre o público no século 15, assim como
no 17, era na realidade multiplicado pela pregação que desenvol­
via os mesmos temas. O papel de Geiler nesse sentido é probató­
rio. Chegando a Estrasburgo em 1478, o célebre pregador tomou
por tema de sermões a “arte de morrer”. Pouco depois, ele tradu­
ziu para o alemão e publicou em brochura popular a última parte
do Opas tripartitum de Gerson que trata precisamente da maneira
de aprender a morrer bem.167
Alberto Tenenti e Roger Chartier demonstraram, por um
lado, que depois de 1530 e durante o restante do século 16 asA r- 163457

163. CHARTIER, R. “Les Am de mourir”, p. 63. LENHART, J. M. “Pre-


Rcfonnation Printed Books. A Study in statistical and applied Bibliography”,
cm Library: A Quaterly Review o f Bibliography an d Libraty I.orc, 1903-1907-
164. T E N E N T I, A. La Vie et la m ort..., p. 6 0 .

165. T E N E N T I, A. IISenso..., p. 8 0 - 8 1 .

1 6 6 . C H A R T I E R , R . “L es A rts d c m o u r ir ", p. 5 5 .

167. DACI1EUX, L. Les Pliis anciens i'iihs J e ( tei/ee, Colmar, 1882, p. II-IV.

III
tes m oHcudi c outras "Preparações pata .1 1n< h1• solreram um ni
lido recuo uii livraria, principalmente na l lança, e *U* outro lado,
<|iir o d|,st urso cristão sobro a morte tinha se enlao diversificado.
Masía resumir aqui seus argumentos concordantes sobre esses
pontos Km Karls, constatam-se ainda 5 edições da Ars moriendí
entre IS()I c 1510, contra 4 para os decênios 1511-1600. Km 16
mil edições lionesas do século 16, somente 2 são consagradas a
. l/\ motiendi, bordeaux, durante o mesmo período, publica 71 I
edições, mas só uma “Preparação para a morte”. Na Inglaterra
também a A rs se mantém com dificuldade: 4 edições, das quais
as duas ultimas sao de 1506. Constata-se, todavia, uma certa so­
brevivência da Ars na Europa do Norte e do Leste: 5 edições na
Suécia e na Dinamarca entre 1533 e 1580 e 5 versões antiprótes-
lantes impressas em Dillingen (Baviera) de 1569 a 1603. Mas tudo
Isso e pouco ao lado das 200 edições da Imitação.
I bem verdade que várias “Preparações para a morte” de
um novo e .iilo elas querem levar à boa morte por uma boa
vida t onlie< em um real sucesso. K o caso sobretudo do trata
do d. f < II' hio\< . /><• Doctrina m oriendi... a d m ortem foeli
, th 1 iil'/'i'lcuJiini , editado I I vezes em latim, em Paris e em
\m 'i di I •’(> 1 1 . i(i, ( traduzido em francês em 1533; e prin
ipil....... . d " /», I'i i'/iarallonc ad m odem de Erasmo (1534)
.............. I............u 1 dl> 01", 1 m latim ou em línguas vernáculas no
it 111111d*1 ......... ,11 11Io Ki. Depois disso, esta obra de um au
1m i ,"'P ' ii" 1 11 111n 1it< seia reeditada. Além desses dois clássi
•ou, " |ie ■niuii" da • Preparações para a morte” nos domínios
u un ' , 1111>,I' , ia 1 ,< •ulo l(> só registra poucas obras”:168 de cada
fu i" uma d< .' na de títulos que juntam meditações protestantes
■ 11111 Uvas 1a 1<>1U as, Na Inglaterra, o Tratado do Leigo Erasmia
tu' I upsei t PD 1) tem 5 edições em dez anos.169 Em 1561, apare
i e o do calvinista T. Becon, reeditado 11 vezes no século 16 e
sete vezes nos trinta primeiros anos do 17.17017Em terra romana, a
produção jesuíta sobre a morte com eça a afirmar-se com O Mc
todo /tara aju d ar os m oribundos de Juan Polanco ( I a edição Ia
lina I575)1’1 um pequeno livro muito imitado —e, sobretudo, o

168. (IIIARTIER, R. “Les Arts de mourir”, p. 57.


169. I,UPS ET, T. zl Compcndioiis and a veiy fru tefu l treatyse teachynge the wdy
ofD ycrnge w d l 1534. Cf. TENENTI, A. IISenso..., p. 109-111.
170. ItECON, T. The Sicke mannes salve...
171. POLANCO, J. M ethodus a d eos adjuvandos i¡ i i ¡ m orinnlun ex comido
dum doctorum ac piorum scdjttis, dio dinluinotiur mu. el oburvatione collecta.

I K!
I >< \rle hette m oriendi de bel.umlno (. I()20): no loinl, 20 mulos
|< iuiI.in .sobre ,i morlo entre IS i() e l()20... contra 139 do l(»2l a
I '()() e 10! do 1701 a 1800,IJ lissa comparação por si só coníir-
ina a estiagem do século 10.

A diversificação do discurso cristão sobre a morte merece


•|tie nos detenhamos sobre ele, mas esclarecendo-o com diversos
mall/i-s. Portillo a insistência particular da Ars m oriendi sobre a
agonia permanece forte ao longo de todo o século 16. Um texto
do leigo espanhol Atejo Venegas é exemplar a esse respeito. Ide
■ i siiaitlo do sua obra mais conhecida, a Agonia dei transito de
Li muerte, publicada em 1537 e reeditada pelo menos cinco ve-
■ aiiles de 1575. Depois de afirmar que a vida do cristão é “um
longo martírio que acaba na morte”,173 o autor aconselha prepa-
i ii m de antemão para uma “passagem tão terrível e perigosa”.17'1
1 f I. mbia a seguir que “agonia” quer dizer “luta”, não só porque
........ ... posto instável que é o corpo libera então seus constituiu
les aniugónicos, mas sobretudo porque nesse momento o homem
•nlia na maior batalha de toda a sua vida - batalha “espiritual"
i< ompanhaila de tanta “ansiedade” e até mesmo de “angústia"
•111« iodas as aflições passadas da vicia são menos duras de su-
I" >il.ii do que essa única passagem”.175 Segue uma espantosa aná-
li da tática demoníaca no momento em que o paciente não é
mal ■di 'tendido pelos seus cinco.sentidos. É então que o doente
i la mais exposto;

Antes ila perda dos cinco sentidos, seja qual for a enfermida­
de do doente, o diabo não ataca como na hora da agonia, de­
pois que se perdeu o uso dos sentidos.” Então, “o diabo vê que
o paciente se aproxima da umidade radical Ia morte] e que res­
ta pouco tempo para tentar conquistá-lo”. Em seguida, ele coni-
picende que o doente “está agora despojado dos instrumentos -
os cinco sentidos - com os quais pocleria defender-se. Porque
<le bem sabe que estes foram dados ao homem para que, grá-

I M l IARTIER, R. “Les Arts de mourir”, p. 63 e 73. SOMMERVOGEL,


< Hildiof/x\/iie de la Cie de Jesus, t. X, Paris, 1909, p. 510-519.
I V A \ynnia d ei tramito se encontra no t. XLIII da Colección de los majores au-
h'h'\ españoles: Tesoro de escritores místicos españoles, v. 2, Paris, 1847, aqui p. 1.
17-1. Iliiil., p. 14.
I a II>iii.. p. 44-45.
<,,ts ,i rlr.s, pudesse Vencer O diabo, g.mli.u .1 gloria Ido <eu|, sul)
metendo-os á razão c submetendo osla o aqueles .1 lê". Conclui-
'.r "<111 c* o diabo ataca mais forte (|iiando vê (|iic a vida se acaba
c o paciente está menos capaz de resistir a suas armas secretas
e a seus estratagemas”.17"

|t >)',,! se tudo nesse momento em que o moribundo parece


qu 1 . >m *I•I< ,,i e em (|tie mais do que nunca é capaz cie pe-
11 \i th e 1 notemos de passagem - nào se deixa tocar pela
id* 1 1 d< que um moribundo já quase aniquilado poderia ter cir-
.........111 1is atenuantes t aso viesse a sucumbir. 'Para ele, “jamais
.' di 1i e . 1, 1n u 1.1 11 homem na hora da agonia se não pensasse po­
dia Ia ' |o pis ai de novo e além de todos os pecados aos quais
m 111' liou .ni longo da vida... Se estivesse certo de que o pacien-
ti |a 1 sia seuleiH lado c incapaz de pecar quando entra na passa­
g e m da agonia", ele nào o tentaria mais e usaria suas armas em
outra parte, Mas as coisas nào se passam dessa maneira: “Não 'ê
porque os cinco sentidos/estão perturbados que a alma está pri­
vada de julgamento e de razão”. Ao contrário, nesse ponto extre­
mo da vida, "a alma está mais viva e mais concentrada do que
em qualquer outro momento de sua vida passada”.176177 Cúmulo de
diamall/ai .10: Vcncgas julga, na lógica do raciocínio anterior, que
............bale linal lem lugar depois da redação do testamento, de-
I" a d.......... ílv.,10, depois do viático,17” como se esses três remé-
dl*' n a.. I... .em suficientes para afastar definitivamente o malig-
11 11 . ..........la di 1 livro, o autor enumera as tentações propos-
1 1 1 a ' ' iiii'ilbiind o I nrlquccendo o m odelo das Artes m o r ie n d i,
. li u ii 1 nia .1 . tentações clássicas solicitações adaptadas ao
p a- a |m•de , , i i . a lamilla e à co m p leição de cada um .179*
< .iiiiii milcos especialistas da morte de sua éppea, ele
.......Illa que (!•. demônios aparecem aos moribundos no meio de
Ir nii\e|\ \im Ve negas junta-se também a Savonarola (Predi -
. ./ del/ (irle dei hene moriré , 1496) e a Raulin (Doctrínale mortis,
I dH) p.ua pensar <|iie o homem é semelhante a um jogador de

176. Ibid..
177. Ibid.
178. Ibid.
179. Ibid., |>. 52-107.
IHO. Ibid., |>. 83-87. Cf. também TF.NENTI. A. /ISenso,,., |>. 315 (para Pic-
tio da I liten).
s.u lii’Z *11 ic* pode perder linio t'in a n i s o |i kmu i. i de mu Cínico erro
no I iiii ci.i p.ulkl.i."" (ion ipreeiKle-.se cnláo a importância atribuí-
tía poi lanías "Preparações para a morte” a escolha ele um amigo
piie acompanhará o moribundo com seus sabios conselhos e
•na-, piedosas exortações, o papel crescente que logo será atri­
buido ao viático (apesar do que escreveu Venegas) como ele­
m ento determinante de tranquilidade na chegada da morte e en-
lim a multiplicação, no século 16, das confrarias que se propu­
nham nao só rezar pelos moribundos, como apoiar os condena­
dos a morte.
() sentimento de que o momento da morte é o “ponto” cle-
t isivo em que se joga a eternidade, de tal modo que se pode di-
< i r o m IMetro da hueca (JDottrina del loen moriré, 1540) que o fim
do homem é “assustador”, atravessou a época do Humanismo. O
pioprio l '.rasmo declara de maneira bem tradicional no inicio de
■na / 'reparação para a morte-. “Desse último ato de nossa vida,
que podemos comparar a um drama, depende a eterna felicidade
do homem ou sua desgraça eterna. Aqui se trava o supremo com
bate do qual resultará para o soldado de Cristo um eterno triun­
fo se ele obtiver a vitória, ou urna eterna desonra se for vencí
do”."4' A morte é vista assim no sentido estrito do termo, como
urna “catástrofe”: ou seja, como o evento decisivo que traz o de­
senlace de cada Historia humana. Montaigne nào está longe des­
se sentimento quando escreve de nosso último dia: “É o dia so­
berano, é o dia juiz de todos os outros: é o dia, diz um Antigo
Isênecal, que deve julgar todas as minhas ações passadas”.181283184*,Em
uma homilía dominical, Jean-Pierre Camus dirá aos seus ouvintes
no início do século 17: “Para nos habituarmos à viver justamente,
devemos ter em mira o nosso fim, que é a morte: é a amostra e
o instante que deve servir para julgar a peça inteira... A catástro­
fe é o mais belo da comédia e a conclusão é a melhor parte do
epigrama; estejamos bem atentos à catástrofe e à conclusão que
deve terminar os registros sobre os quais seremos julgados”.188
() espaço concedido às tentações nas “Preparações para a
morte” foi diminuindo no curso do século 16. Mas esse desapá-

181. Cf. TENENTI, A. IISenso... p. 95 e 114.


182. ERASME. L a Préparation..., p. 9.
185. MONTAIGNE. Essais, I, ch. XIX: I, p. 111.
1 8 4 . ( A M U S , J.-P . Homélies dominicales, R o n e n , 1 6 2 4 , p. 3 8 1 ( 1 5 o d o m in g o
d e p o is de P e n te c o sté s).

i ir>
re< lincnlo relativo ( |>orc|Ut* nao se pode l.il.ti de siipn s s . k >) só se
operou lentamente. () De Doclrfiui m oriendi d e Cllchtove, obra
(jiie Invoea Cícero e Séneca ao lado de Sao Cipriano e Santo Am
Iíroslo para tranquilizar contra a morte, identifica, todavia, dez
tentações na aproximação da morte e lhes consagra a segunda e
maloi paite do livro.1"' No D e Preparatione a d mortem de líras-
tiio ' i t spaço concedido às tentações é muito mais discreto (cer­
ni d< um décimo da obra).'"6 Entretanto, ele não é desprezível.
I i i MP i p< ira como Iodos os seus contemporâneos que “o itlimi-
i-o , ......... uma oiasiao favorável nos sofrimentos do doente,
ip eu a iioi da morte, no seu horror do inferno e naquela f ra­
qui -a naluial do iv.pullo, ,u|iiela tristeza da alma que causa uma
11Hdi ,n.i g i.n e " () d em onio procura então abalar a fé do pa-
■li n|i ou le\ .i Io ao desespero ou incitá-lo à presunção, ao que
se jimia "o temor do purgatório”. No D e Arte bene moriendi cie
Itelurmlno, as tentações e a luta contra elas ocupam 5 capítulos
em W ou S em 17 se considerarmos que só a segunda parte da
obra e consagrada às aproximações da morte, já que a primeira
se dirige ao cristão ainda em boa saúde. Os perigos que esprei­
tam o moribundo segundo Belarmino são a queda na heresia, o
desespero e o ódio a DeUS.1""
( i uno diremos mais amplamente num capítulo ulterior,189 a
p i i'H.il i atolli a nao abandonará a evocação cias agonias. Mas ela
d ii i . nlas. . ada vez mais a duas histórias opostas: a morte llor­
ín i I do peí adoi e a outra m<>rle, serena e exemplar, do bom cris-
ii.i II i mullo tempo |a estava estabelecida entre os homens da
Ign |a a . - >iiv I. <ao de que o pecador empedernido tem poucas
. Iim .es d. • i. , uper.it In exlremis. Um capítulo cio Livro da Sa-
/'../.'//./ d. mi o e consagrado a “o que é uma morte sem prepa-
ia. a* • < In gando as portas do julgamento, o pecador tem o sen­
timento d. sei como “um mendigo que se expulsa”.190 Nos ser-
....... ... d. ,\ao Uernartlino de Siena transcritos em latim, descobri-

IH ). ( I K I I T O V E , J. D e D octrina m oriendi, P aris, 1 5 2 0 , c f . T E N E N T I , A.


/ / Senso..., p. 103.
186. Utilizo a recente tradução de P. Sage, Montreal, ed. Paulines, 1976,
p. 78-87.
187. Ibid., p. 79.
188. Consultei a edição latina de Paris, 1620: 2'' parte, cap. 1X-X11I inclusive.
189. Ver mais adiante, p. 392-399.
190. SUSO, 11. (.F.uvres, p. 389 (cap. XXI do / imv da sabedoria eterna).
mus ilu;i.s hornillas (seguidas) <|ut* lr.it.im respectivamente "dos
d o /i1 perigos 11uc cáem sobre o pecador no último momento" e
i las doze dores t|ue sofre o pecador na hora da morte”.191 O tema
geral dessas duas descrições da agonia do pecador é que este ul
limo, assediado ao mesmo tempo pelas dores físicas e pela an
gustia diante da sorte que o espera, acha-se incapacitado de rea
glr no bom sentido. Os demônios o assediam, seus vínculos ler
renos o impedem de arrepender-se. Ele já se sabe destinado ao
Inferno. Além disso, já no século 15 e mais ainda no 16, os auto­
res espirituais, nota A. Tenenti, “tendem a excluir a possibilidade
de salvação para quem se arrepende na agonia em razão apenas
do medo do julgamento”.192 Essa análise, complementar ã ante
rlor, só conseguiu reforçar no espírito dos diretores de consciên
>ia o sentimento de que se deve ao longo da vida preparar a
morte. Senão, deve-se temer o pior.
Inversamente, a agonia do cristão fiel pode tornar-se um
espetáculo a contemplar, um modelo edificante-.193194Este, com seu .
traços característicos - paciência nos sofrimentos, piedade arden
le, alegria sobrenatural ao receber os sacramentos - já e bem vl
.sivel em certas relações humanistas cio século 15 italiano. Ele se
afirma ainda mais nitidamente em meados do século 16 no cire u
l<>das devotas dirigidas por Girolamo Cacciaguerra, um amigo cie
Sao lili pe Néri, que esperava com impaciência a .hora da morte.
Assiste-se, então, à inversão cie atitudes: a agonia é não mais te­
mida, mas desejada já que ela abre para a felicidade eterna. A as­
piração ã morte produziu por volta de 1500 um estranho poema,
< atizone alia Morte, composto pelo humanista e homem político
1’anclolfo Collenuccio. O autor não encontra termos suficiente­
mente elogiosos para qualificar a morte. Ao longo das estrofes,
ele diz sucessivamente “nobre”, “esplêndida”, “generosa”, “mise-
licordlosa”, “graciosa”, “benigna e valorosa” e “oportuna e dese­
jada".1'’1 Será que se trata cie um poeta desesperado ou romântico
por antecipação? As chaves dessa “canção” encontram-se na rea-

191. SIENNE, Berriardin de. Opera..., I, Quadragesimale de religione cbristia-


na, Sermões XII (p. 64-71) e XIV (p. 71-76).
192. TENENTI, A. IISenso..., p. 314.
193. Ibid., p. 323-324.
194. ( :o l I .KNUCCIO, P. Operette morali, poesie latine e volgari. Ed. A. Sa-
vioiti, Bari: Latera, 1929. p. 115-118. Agradeço ao Dr. Jettaz. por ter chama­
do ininlia atenção para este texto. Collenuccio foi executado em 1504.
Ildaik' (ora dessas tinas hipóteses. Porque <nio\ liados sao dpi
t ámenle neopltilónicos, como este:

hranca, pura e divina,


Nossa alma imortal vem nesta carcaça
( >ndr ela se despe totalmente
I >a lu/ tle sua glória, caminhando
I nlie medo e desejo, entre
I ....... vas alegrias, desdéns e cóleras,
( I........«lo se contra a natureza e os elementos,
I t iiln ulaiido os ventos contrarios.

Mas, como e livqüente na literatura crista, um lamento de


11........ eoplalónico |)ode ser lido através da filosofia monástica
•lo i onl(,ni/>tii.s mimcli. Ú. o caso aqui. Collenuccio declara a mor­
te "generosa” poique ela “levanta o véu obscuro da ignorância...,
distingue o verdadeiro do falso, o perpétuo do frágil, o eterno do
m ollar, l ie diz ainda que “o mundo é ingrato” e, em termos que
poderiam ser do Cardeal Lota rio, coloca a questão clássica:

Aquela que tem o falso nome de vida sobre a terra,


( ) t|ue e ela sendo fadigas, cuidados, privações,
'ai .pin is, prantos e queixas,
I >t >ii s, ciilénulelades, terrores e guerras? *
/ . Q. - ‘
lu í a lt tul h. itic •i das f(jrmulas bíblicas: “Feliz, disse al­
ai' ni, tf qiirm inorre na infância... Feliz, afirmam muitos, da-
qm I. que nao n.isce", F.stamos, portanto, bem dentro de um dis-
•ni .ti . ilstao ( > (|tie e confirmado pela última estrofe onde Col-
lt niit . lo .111>1n a "At|ttc*le que extinguiu a raiva da horrível ser-
I ti nii pata que o banhe e o purifique com seu sangue pácifica-
tli >i e Iicnl.izejo:

Pleno de amarga dor eu peço socoma,


(v)ue sua bondade infinita cubra meus erros:
liu sou obra de suas mãos.
I'iel ministro de su a bondade,
Retire suavemente o fio fatal
P abra-me as portas santas e domadas
Que dão para o celeste porto,
O cara Morte, oportuna e desejada.
I ,v«.i .i■.|>ii. k .10 .1 m ulle de um hom em que linha perma
necUlo l(> meses num ealabouço (mas isso 12 anos anles tio
p o e m a )1" e t|iie morrera executado junla-se às palavras consó
ladora.s de Erasmo que, na sua Prepamçcfo Rara a morte, exclama
1( >m o "divino Salmista" (SI 142): “Faz-me sair desta prisào, a fim de
que eu glorifique leu nome, Senhor”, e lembra as palavras de Sao
1'aulo: T ara mim, a vida é o Cristo e é um prêmio morrer... Dése­
lo partir para estar com o Cristo” (F1 1,21-23). Essas comparações
la/em compreender melhor as fórmulas mais tardias de Bartolomeo
d'Angelo no seu Ricardo del ben moriré (1589):

Deus, escreve ele, fez esse quadro da figura e da imagem da


morte de tal maneira e arquitetura que aquela que a olha do lado
certo, isto é, com os olhos da razão e à luz da fé, a vê tão bela
e tao útil que ele exclama: “O Morte, como é bom pensai em li!
Mas para quem a olha ao contrário, isto é, só com os olhos do
corpo, com os sentidos terrestres e sem a luz da fé, ela apaua <■
lao feia e medonha que ele grita imediatamente com uma voz es
tíldente: “Ó Morte, como é amargo pensar em ti!”1'*'

Ao fim clesse desejo da morte, haverá todos os belos e lti


cirios falecimentos descritos pelos autores do grande século e
cujo modelo deverá sobrevivei longo tempo depois cíele.1951697
A diversificação crescente cio discurso sobre os fins últimos
acarretou uma diminuição de seu componente macabro: Erasmo
e Bclarmino notadamente recusam recorrer aos efeitos aterrori­
zantes. Mas diminuição não quer dizer desaparecimento. A se­
quência do presente livro o mostrará. Foi a Renascença que ima­
ginou a cena em que São Jerónimo medita diante cie um crânio.
Essa idéia iconográfica conhecerá em seguida um belo sucesso:
quantos santos e santas serão representados perto de uma cavei-
ra, c junto às vezes cie uma clepsidra. Clichtove elimina cie seu
texto os elementos demasiado fúnebres, mas ele é um dos pri-

195. COLLENUCCIO, P. O perette,a, p. 324-325.


196. D’ANGELO, B. Ricorcio del ben moriré, 1589, VII, p. 152-153. Citado
em TENENTI, A. IISenso..., p. 349. Sobre B. D’Angelo, cf. METROCCHI,
M. Storia delia spiritualità italiana. II Cinquecento e il Seicento, Rome, 1978,
p. 13.
197. Cl. BREMOND, H. H istoire littéraire..., IX, sobretudo o último capítu­
lo, VOVEI.I.E, M. M ourir autrefois, p. 96-102; La M on en O ccident...,
ARIES, Pb. I.Ifom m c devant..., p. 306-307.

I I!)
indios ,i colocai' no frontispicio do sen />r O oilrh ia m orlendi
tima caveira apertando uma tíbia nas mandíbulas; abaixo, avista
se uma pá, uma picareta, ossos e a tampa de um túmulo. Km de­
zembro de 1981, foi vendido ao hotel Drouot um Ofício cia Vir-
ocnt encomendado por Ilenri III em 1586 para a “Companhia
( parisiense) dos confrades da morte”. A capa em marroquim ful-
........si i nía mullas lágrimas, um esqueleto, tíbias, caveiras, velas,
o u « si isp ei,órlos, As sugestões de Savonarola na sua Predica
,/.-//. ///< i/»7 In ■// moriré serão lembradas por muito tempo: visitar
...........11II<iios, seguli os enterros, assistir voluntariamente à ago­
nia d " p.m nli s e amigos, ler uma representação da morte em
« i i o ili in disso, lei uma imagem dela no quarto),4confeccio­
nai • «plrllii,límenle "lentes da morte”, isto é, considerar cada mo-
11n niii <oi no podendo ser o último e pensar sem pre,,olhando o
Io•«pilo i orpo, que logo ele será podridão, cinza e pó.198
Na esleirá de Savonarola, o Cônego Pietro da Lucca acon­
selha , ele também, na sua Dottrina del ben moriré 0 5 4 0 ) a assis­
tência aos agonizantes, a freqüentação de funerais, a visita a ce­
mitérios e a meditação uma ou duas vezes por semana diante de
uma caveira. Aliás, ele dá um modelo do diálogo-que se pode
manlei com um crânio .m Numa pregação para Quarta-feira de
<,ln/us pronunciada em Roma em 1542 e impressa em seguida, o
liam Is* ano Corncllo Musso, na sua época o orador sacro mais
«>•1111<« Ido da llalla, pede por sua vez que se vá visitar os cemi-
i« ili«s • i \oi a i -m largos (rayos a luta entre aqueles dois grandes
m i si i i Naluic/a e a Morle. lista última, “cruel” e “poderosa”,
■I. ill mji na nulo, na terra, no mar, em todos os lugares está
...........is ............ persegue-os, asseclia-os, mata-os, enterra-os,
n m 1'iima "s «m cinzas".’"" lim 1550, Innocenzo Ringhieri situa
' ii l>l,ilof>hl delia rila e delia morte num cemitério. A morte
........... ' um os Iúmu los, armada de um alfanje. É bem verdade
«|iii ' Ia st apresenta com o o guia que conduz às belezas eter­
nas l ui suma, mesmo se as mais inovadoras das “Preparações

I*)H. SAVONAROLA. Predica d ell’a rte d ei ben moriré. Em seguida a TEN LN


II, A. Il Senso..., p. 94-95, eu cito a edição de Florença, 1496, f “ AVI-B",
199. LUCCA, Pietro da, D ottrina d el ben m oriré, s.l., 1540, f “ 6V-9V . TL
NLNTI, A. IISenso..., p. 313 e 340.
200. MUSSO, C. Prediche, Venise, 1576, I, p. 89.
201. RINGHIERI, I. D ialoghidelia vita ed elia morte Molognc, 1550,1, p. 3 10,
TI .NLNTI, A. I!Senso..., p. 309-310.

l::o
paia .1 morte" da Rena,st enya rejeitam o mórbido, perdura na
le,ifja urna tradiyao macabra que ainda Iara uma longa carreira.
I'.m todo caso, a morte permanece no centro da pedagogia
lellglosa em todos os níveis desta última. Sobre urna viga prove
Diente tía abadia do Bom-Repouso, na Cornualha, lê-se uma ins
' rlyáo tio século 15, em bretão, cuja tradução é a seguinte: "O as
■unió que eu estudo, quando o medito, eu o acho duro: depois de
lotla a nossa carreira neste mundo, o fim de cada um é a morte”.202203*
Muda na Bretanha, um Espelho da morte, longo poema composto
■ni 1519, comporta esta outra sentença: “A morte, o julgamento e
•» Interno frío, (piando o homem os medita, ele deve tremer. Ii lou-
■«i atpíele cujo espírito não reflete, visto que se deve morrer”.-0' K
«i pensamento da morte que deve, portanto, guiar toda a existen
•la Pietro da hueca afirma categóricamente: “Nós só somos colo
•ados ncsia vida para aprender a arte de bem morrer”.-0' llm pon
«o m.lis adianto, ele prossegue: “Se tens o hábito de pensar na
..... ríe em lodos os teus gestos e todos os teus atos, serás pendía
do pelo temor do Senhor e expulsarás de ti o medo e a pregul
■a Para Pierre Doré, “a primeira"preparação para a morte qu<
<I- Ijesusl nos ensinou é ter sempre meditação e pensamento na
morte iPorquel Nosso Senhor pensava sempre na sua morte de
I m>F. que sempre falavam dela, como aprendeu pelos evangelhos.
Mi- lielangelo escreve a seus amigos em 1545: “Para se encontrar a
I |ui tprio e desfrutar de si mesmo, não são os divertimentos e ale
- 11.i •que são necessários, mas o pensamento da morte”.-07 Erasmo,
i.io alérgico ao macabro e cujo objetivo confessado na sua Prepa-
it^do. e ajudar a vencer o medo da morte, lembra, porém, que
"ioda vida e apenas uma marcha para a morte”.208 Não foi Platão

.M).’. I I1 MLNN, G. “La Moit dans la littérature bretonne du XVCau XVIL


•n -.lt, cm M émoires de la Société d ’H istoire et d'Archéologie de Bretagne, LVI,
1979, p. 24-25.
203 Ibul., p. 24. Cf. também para a Bretanha, MARTIN, H. Les Ordres men-
r/itinis en li retagne. Paris: Klincksieck, 1975. p. 350-351.
.MM. LUCCA, Pietro da. D ottrina..., f • 2v<>-3. Citado por TENENTI, A. II
Senso..., p. 312 e CROIX, A. La Bretagne aux XVI' et X V II siécles. La vie, la
morl, la foi, 2 v., Paris, Maloine, 1981: II, p. 1.169-1.177.
30S. Ibid., f " 7. TENENTI, A. IISenso..., p. 313.
20(>. DORE, P. La D éploration..., f ° 109v .
20/. <UJASTI, C. Le Rime d i M ichelangelo, Florence, 1863, p. XXXI. Citado
poi TENENTI, A. IlS en so..., p. 299.
3<)H. ERASME. La Préparation..., p. I V
<|ik* clt.*c lai'oii i |iu* lili >s<>íar c nu'clli;n s<>bic .i nmili I v..i medita
cao "provoca então urna especie de treino para a morte".*'1" "Assim,
<luí.11iic* toda a nossa vida elevemos praticar essa meditação ela
morle'V" um conselho c|iie, como lembramos anteriormente, Mon
lalgne deu a si mesmo durante uma parte de sua vida.
Será <|uc Bclarmino pensa diferente, ele que ensina que a
\cn ladeira receita para morrer com o cristão é viver como cristão?
Ma m tMinda parte do seu D c Arte bene m onendi, redigida, é bem
\i idade, na Intenção dos grandes enfermos, encontramos fórmu­
la' d* al< nu e mais geral <|iie valem também para os que gozam
d< In >a ,.iud( "A nos, a quem só é permitido morrer uma vez,
............. I< 11 i Ido nenhum caminho melhor do que o pensamento
............. .... ao daquilo que acontece na morte”.2092112213E ainda: “Quem
• iiiao, si nao loi totalmente estúpido e desprovido cie qualquer
11 1 1/(), ousara deixar esta vida, sem antes, com toda a diligência
possível, aprender a morrer..,”.211 Assim, no discurso religioso da
(.•poca, a morte acha-se colocada no centro da vida como o cemi­
tério no coração da aldeia.
Esse discurso - convém repetir - foi elaborado por mon­
ges I oi difundido sobretudo por monges (Nicler, Denys le Char-
tretix, Savonarola, Raulin, etc.). No final do século 16 e no iní-
( Io do 17, ele e retomado com novo vigor por religiosos - em
paitli iilat os jesuítas (Polanco, Belarmino) - que não são mon--
g< . m.is heidaram pelo menos parcialmente sua espiritualidade.
I mi a piesença quase obsessiva dos principais temas do con-
Iriu/ilir. nim idt dentro das considerações cristãs sobre a morte,
ni< sino u diglda.s por leigos: o corpo não tem importância; á vida
e apenas um sonho, muitas vezes um sonho mau. Na carta cita­
da anteriormente, Michelangeío*exalta o pensamento da morte
porque só ele permite que não sejamos roubados de nós mes­
mos "pelos parentes, pelos amigos, pelos grandes mestres, pela
ambição, pela cobiça, e os outros vícios e pecados que roubam
o homem do homem”.214 Bartolomeo Arnigio, autor na segunda
t ' .

209. Ibid., p. 15.


210. Ibid.
211. Ibid., p. 17.
212. BELLARMIN. D e A rte..., p. 208 (L. II, cap. 1).
213. Ibid., p. 210.
214. GUASTI, C. L e Rim e..., p. XXXI.
metade do século l() cie um Discorso intorno d l dlspre: :<) delia
morte, expljc u <|»u.* n morte só atinge a parte mc*nos Interessante
de nos mesmos. N.io c com o se morréssemos de verdade, 11 ()
M ontéele Eonlcvrault Gabriel I )upuy-l lerbault declara no seu Ps
/telho do homem cristão , /mm conhecer sua Jelicidaclc e seu tnfor
titulo ( 1557): “lNos| devemos ler muito pouco cuidado das ncccs
'■Idades do corpo c nenhum desejo e cobiça da carne, mas so­
mente cuidar com o poderemos tirar salva deste mundo nossa
alma, (|iie e todo nosso bem, e não temer deixar faminto, ou ale
mesmo perder o cavalo de nossa alma, que é o corpo”.216 O Ri
<ordo del hen moriré de Bartolomeo d’Angelo (1589) aconselha o
i rl'.lao a com eçar pelo temor da morte. Quando estiver penetra
•Io por ele, poderá vencê-lo em seguida peio “desprezo do mun
tio e das coisas terrenas”.2r Em semelhante clima, não nos espan
irmos de ver Erasmo, antigo monge, ceder um amplo espaço ao
desprezo do mundo na sua Preparação Rara a morte, C o m o (a
sugerimos anteriormente,218 esta obra de fim de carreira esc l.m . ,
n Iroativam enle o D e contemptu m un di redigido 45 anos ,mi<
pelo humanista de Roterdã. Ficamos quase surpresos de lei na
Pre(>a ração...- os clichês veiculados pela tradição monástica

Que se percorra de memória todas as etapas da vida Ihiiii . iim


concepção imunda, gestação perigosa, nascimento lamentável,
inlância exposta a mil moléstias, juventude marcada por tantos
vícios, maturidade oprimida por tantos cuidados, velhice ator­
mentada por tantos males: eu não creio então que se possa en­
contrar uma única pessoa, mesmo nascida sob uma boa estrela,
que, se Deus lhe permitisse repassar por todas as idades de sua
vicia passada, seguindo o mesmo caminho desde a concepção,
com a perspectiva de desfrutar das mesmas felicidades e de so­
frer os mesmos infortúnios, aceitaria a proposta.-’10

I a asmo prossegue de maneira bem convencional citando a


liase do I c lesiastes: “Mais feliz é o dia da morte que o do nasei

’ l 5. ARNIGIO, B. D iscorso intorno a l disprezzo delia m orte, Pavie, 1575,


I I7 v". TEN EN TI, A. IIS en so..., p. 317.
I(>. I )t M‘l JY-HERBAULT, G. M iroir de 1’h om m e cbrestien, 1557, f ° 24. TI'.
NI NTI, A. / / Senso..., p. 320.
I I )'ANGELO, B. Ricordo d el ben moriré, 1589, IX, p. 177.
.'18. ( I. .ulteriormente, p. 30-31.
.'19. ERASME. La Préparation..., p. 28.
metilo” e ¡i de Santo Agostinho: “Crescei em Idade, e i'rescer em
pecado".2-’" Antes, ele havia lembrado uma fórmula do Urro da
Sabedoria : "O corpo corruptível pesa na alma e o Invólucro ter­
restre sobrecarrega o espírito de preocupações múltiplas”.--1
() De' Arle hene moriendi de Belarmino, ã primeira leitura,
un istia um Imii diferente.-2 O jesuíta distingue cuidadosamente as
Ir,nlh' aeoes da palavra “mundo”. A primeira designa em geral a
ti iri ■ M'ir. habitantes; a segunda remete à concupiscencia sob
i•••1.1. ,r, .u.f. lormas (luxúria, cobiça, orgulho). Pode-se então ser
d. i mundo «no prlmc'lro sentido) sem amar o mundo (no segun-
d .. . nlldo), Al,r.i.mdo-se da tradição monástica, o autor afirma
que .m i'' . \••rdaileiramente mortos no mundo” existem não
,ip. n.r, ....., conventos e no clero, mas também entre os leigos.
\f ni dlv.o, pode se ser rico sem ser apegado às riquezas: por
' ' mplo Abraao. h por isso que os bens deste mundo - fortuna,
honrarlas, prazeres - não inteiramente proibidos aos cristãos com
a condição de não amá-los de forma imoderada. Não são nem as
riquezas nem os homens que fazem com que alguém seja ou não
seja do mundo. Pode-se reconhecer nessa argumentação abertu­
ras para o laxismo que alguns criticarão mais tarde nos jesuítas,
confessores dos grandes da cristandade. Mas uma segunda leitu­
ra di i texto de belarmino não autoriza essa interpretação. O car-
di al lambem se debate, com dificuldade, nas ambigüidades da
p ila vi i mundo" Citando em particular ] Cor 29,225 epístola redi­
mida di niio da perspectiva de um fim próximo do mundo ( “o
!• nipii ' la. (tuto"), ele repete depois de São Paulo: “Que os
Ir i .tiiu m Mias mulheres, mas com um amor moderado como se
■ Ias n,a i ' Isllssem; se tiverem que chorar pela perda de seus fi­
lie .......... . seus bens, que seja com moderação, como se não es­
te ' ' ui Kistes e nao chorassem... O Apóstolo ordena que nos
■■imponemos no mundo Ientendido'aqui no primeiro sentido]
i limo hospedes, com o peregrinos, não com o cidadãos”. O jesuí­
ta propoe assim um comportamento quase estoico que remete ao
( on/eni/)tus num dí tradicional:2013

220. Ibid., p. 29.


221. Ibid., p- 16.
222. BELLARMIN, De Arte..., Ia parte, cap. 2, p. 5-17 da ed. de Paris, 1620.
223. A edição de 1620 remete por erro para K ior 7.
VlviT lio mundo, vm icvr rir, e desprezar os bens do nmiulo 0
um.i coisa mullo diln ll. Vci belas coisas e nao a má Ias, provai as
doem.is Ida viela| o não se deleitar com elas, desprezar as honra
rias, escolher deliberadamente o último lugar, ceder as poslçoes
elevadas aos outros, enfim, viver na carne como se ela nao exls
lisse; uma existência assim, ao que parece, deve ser chamada
mais angelical do que humana. Entretanto, o Apóstolo, escreveu
do a Igreja de Corinto onde quase todos eram casados, dizia as
) pessoas que não eram nem clérigos, nem monges, nem anacore­
tas, mas leigos, como diriamos hoje: ... “Que aqueles que têm
mulher vivam como se não as tivessem”, etc.

Note-se de novo o modelo “angélico” proposto aos cristãos,


mesmo leigos. Assim, Belarmino está consciente do caráter hcrol
«o do necessário desprendimento que ele prôpõe. Ele admite i ei
lamente que “se alguém, com a ajuda da graça, começa a amai
realmente a Deus por si mesmo e ao próximo por causa de I >ni\
ele começa também a sair do mundo. Esse amor crescendo cm m
guíela, a cobiça (isto é, o gosto das coisas terrenas) diminuira e eh
começará a morrer para o mundo”. Mas esse tom conéiliadoi e
corrigido duas vezes pela afirmação de que “este assunto |o des
prendimento do mundo] não é uma brincadeira de criança”, mas
algo “muito grande e muito difícil”. Belarmino lembra a sentença
"poucos serão salvos”2-" e conclui que é totalmente impossível vi
vei ao mesmo tempo para o mundo e para Deus, de desfrutar lan­
ío da terra como do céu”. Para Belarmino, assim como para todos
os seus predecessores na Igreja, os valores terrenos não têm con­
sistência verdadeira. Nós não somos cidadãos da terra.

“o conto dos três mortos e


dos três vivos”
"Quando Guyot Marchant publica em 1486 sua D an ça ma
<i ihra das ni liberes, ele acrescenta O Debate do corpo e da alma
• I (.'antiga da alm a danada. Acréscimos significativos que de­
monstram ao mesmo tempo a estreita solidariedade dos diversos

DÁ, Cf. mais adiante, p. 316.

125
elementos do discurso macabro d.i ('poní, e o i aprolunda
mcnlo na literatura monástica do coiitcmplns rniinJI. <) tema ge
ial do "debate" e este:22' um eremita vê em sonho mu cadáver. A
alma que se separou dele está ao lado e o acusa de ser a causa
de sua danac/ao. () corpo procura em váo desculpar-se. O deba­
le ( liega ao lim pela intervenção dos demonios que levam a alma
p.u.i o Inferno. Esse conto foi muitas vezes associado ao nome
de Sao Macario de Alexandria, personagem favorito das lendas
fúnebres do Oriente cristão.2’6 Porque, um dia, acompanhado de
dols an|os, ele teria encontrado um cadáver fétido do qual se des­
viou. Mas os anjos tapavam o nariz aproximando-se não do mor­
id, mas de Macário. lile perguntou por qué. Responderam-lhe
11ue si ais pecados fediam mais que o cadáver. A lenda do sonho
di i eremita misturou-se á narrativa - atestada desde 380 - da “Vi-
sao de Sao Paulo", liste último assiste à separação da alma e cío
corpo de um eleito o àquela da alma e do corpo de um conde­
na' f - A Vis.io de Sao Paulo" (que comportava também uma via-
i" m ni luí' nuil conheceu uma ampla difusão na Idade Média,
in. In a« i iia . línguas \«m aculas (francês, provençal, inglês, italia-
ii.. d. ui ............i. . a ), (,)uanlo ao “Debate da alma e do corpo”
. i" ..a i*11 . o . Ina li m i a s anteriores (e cujo texto principal é" um
........... ui" 1 mu., di. si i ulo I I proveniente do Mosteiro de No-
.. iniol o i |. i mil., m li . a \oli.i da liuropa (Irlanda, Noruega e
M....... ... in. lu i' , i \ tonalidade principal, neòplatônica e gnós-
u i i ............. .. manllda Num poema monástico latino deriva-
'i . .............. i.Hiadi. ml. i Im menie, a alma considera claramente o
i ............. li*. Inimigo declarado: “Eu queria respirar / (diz a pri-
iie o i a *,i ii mau ( ompanheiro) Mas tu não me davas espaço para
P -i Iai queria jejuar, mas tu me opunhas a doença / ... Eu
queda iiabalh.il Mas tu me obrigavas a repousar”.227 Uma poe­
sia para uso de sermão composta por Jacopone da Todi reativa
de modo burlesco o diálogo entre os dois adversários:

.U5. BATIOUCHKOFF, Th. “Le Débat de 1’âme et du corps” em Romanía,


XX, IHOI. p. I -55 e 513-578. Cf. tanibém ACKERMAN, R. W. “The Debate
<>l thc Body and the Soid and parochial Christianity” em Spcculum, XXXVII,
I % 2, n. 4, p. 541-565.
.126. Cl. a esse respeito Patr. Lat., LXXII1, notadamente col. 1.109-1.119.
2.17. (atado cm BATIOUCHKOFF, |>. 566- 567: /V contetuione anime ei
corpo >'is,

i:w
I tilma: O corpo:

<á jipo sujo c malvado, Socorro, vizinhos!


l uxurioso c enganador, Porque a alma sem razão
Minha salvação Desgastou-me, pôs em sangue
Sempre te encontrou surdo. lí deu disciplinad"

() macabro nào deixou de encontrar lugar nessas acusa


i. no*. da alma ao corpo. Assim também nas célebres Peregrina-
u vs do eistcrciense Guillaume de Digulleville. O “debate” foi co-
Ini .ulo pelo autor na segunda parte do poema, intitulada “A pe-
legrlnaçao da alma separada do corpo”. A alma chega a um lu
.0.11 t liciò de ossadas, descobre aí sua antiga vestimenta de carne
r a alronta duramente:

Dos vários corpos que lá jaziam És tu, disse eu, o corpo malvado
l'.ntre os quais eu vi do meu Tão vil, tão sujo e tão fétido
<>s ossos que tão logo bem conheci... Carne para vermes e podridão,
Horrível e feia criatura?--’

Ao ler esses versos compreende-se que o Debate da alma


<■do <arpo tenha-se tornado, às vezes, notadamente na Inglaterra
i Io século 1S, o Debate do corpo e dos vermes.™ Por outro lado,
quando conhecemos o sucesso da obra de Guillaume de Digul-
Irvllle entre os séculos 14 e 16, nào nos surpreendemos de que
o tuna da altercação entre os dois adversários tenha ressurgido
ii.i publicação de Guyot Marchant que pretendia ser um livro de
■uccnso. P. também dentro dessa linha que se insere o belíssimo
/ h'bate do coração e do corpo de François Villon. O coração é o
irmor.so de consciência”; o corpo por oposição é o “folgazão”.231
< » conflito entre o bem e o mal é então evocado pelo poeta, na
' ácira de uma tradição bem estabelecida, como a oposição en-
li< .i razào, de um lado, e a parte animal e putrescível de nosso
.< i, di* outro.
- r " -
-’ .’.H. ( átado em Ibid., p. 568: Contrasto fin l'anim a e l corpo.
.0.9. Clitado cm Ibid., p. 575-576.
’ H). D hputadone betwyx the Body an d Wormes. Cf. TRISTAM, Pb. Figures...,
I>. 160.
Ml, Cf. SK '11.1ANO, I. François Villon et les tbèm espoétiques du Moyen Age.
Nizet, 1967. p. 493-496.
I ’.i i í m
Antes mesmo de publicai .1 luin^a n n iu ih ia <las innlbc
/rsciii I iH6, (luyot Marchan!, encorajado pola acolhida ivsuva
da a m u P a n ça m acabra de 14HS, tinha reeditado esta ultima,
aumentada ck* "vários novos e belos contos” c notadamente o
dos "três mortos c vivos”, lista lenda, por sua ve/., só pode sei
compreendida se colocada dentro de uma pastoral do medo.
I >i .ia vez, também o escrito parece ter precedido a imagem,
. odio vimos para as evocações macabras que passaram do dis
etiiMi monástico para as esculturas dos túmulos. Em razào de
Impoilaiili"< similitudes, e o caso de estabelecer uma compara-
i a< ( ( 1111< rsse io n io e um "rom ance” hagiográfico bizantino,
l i . n l , i a m e / oa ^a / i b , por sua vez, adaptação de um conto budis­
ta I is a<1111 o argumento do “rom ance” resumido por I.. Bré
lilei na India, o Rei Abenner persegue os cristãos. Ele fica s a ­
bíanlo poi seu astrólogo que seu filho Joasaph se converterá ao
< rlstlanlsmo. Ele o prende num palácio maravilhoso onde todos
os prazeres lhe são oferecidos. Entretanto, o jovem príncipe se
enlcdia e o rei o deixa sair. Por ocasião de uma caçada, ele cn
contra um leproso e um cego, e logo depois um velho, que lhe
ensinam a vaidade do mundo e o orientam para uma salutar
iiuslli.n, ao Pouco tempo depois, um eremita cristão, Barla;im,
i listan, ado de mercador, chega até Joasaph e o converte. O rei
pilim In» i .puf-a o filho, depois torna-se ele próprio cristão por
na \iv e da a loasaplt a metade de seu reino. Com a morte de
Mm ui m i |oa .apli i et Ira se para o deserto onde reencontra Bar-
I i nu \ ui' ts e b um u t o s nos surpreendem nessa reprodução cris
i i da liiitoila 1 1< Hilda o encontro durante uma caçada, o diá
I......... Io |oo in pnnclpe com três personagens que, se não são
ainda . ada\< u s, s.to aproximações vivas deles, o papel do ere
mita 11u• ministra a lição e a própria lição em si, convite monás
lli «i ai» desprezo do mundo.
<) mals amigo texto grego desse romance que chegou até
nos data d o século I I: é a tradução de uma versão georgiana.2 3

232. I1RÉHIER, L. La Civilisation byzantine. Paris: Albín Michel, cd. de


1970. p. 3 12-314. NERSESSIAN, S. Der. Llllustration du román de Barlaan
el foasaph. Paris: de Boccard, 1937,' sobretudo intr. e p. 1-15 e 67-68. Cl II
11 AI A, P. Les Id ¿es de pérennité..., p. 30. BALTRUSAITES, J. Le Mayen Ave
fdnliislii/ue. Paris: A. Colín, 1955. p. 235-248. Agradeço a M. Paul Lcmcrlc
por ter orientado minlias leituras sobre cssa qucstao.
233. A história de Bnrlaam e Josaphai ó long.imrnic rehilada cm l'air. Ia i..
I.XXIII, col. 446 604.
Miiu tradução l.tlitu apareceu dçsde 1048 e, desde c*nl;h>, este
i unió, esquecido cm nossos illas, conheceu unía grande voga na
i uropa, onde foi traduzido em todas as línguas do continente,
i ni.nn contadas umas sessenta versões dele que inspiraram urna
ahondante iconografía (guarnições de portas, pulpitos, afrescos,
lomillos, cofres, livros de salmos' etc.). Essa fortuna explicaría sua
leullllzaçào e sua nova carreira sob a forma da lenda dos três
morios e dos três vivos, a qual parece também ter lembrado das
aparições cadáveres abundantes nas Vitae Patrum. Essa transfor­
m adlo se leria operado desde antes de 1200 e na Italia do Sul,
n o ponto de contato com o mundo grego. Num manuscrito do
o í tilo IS, conservado em Ferrara, encontra-se um poema latino
de i3 estrofes contendo o essencial do novo conto: o -encontro
de reís viajantes com cadáveres em vias de decomposição em tú­
mulo.-. abertos. Certos historiadores datam o poema do século 12
d e fol alé atribuído a São Bernardo.23425Outros não o julgam an
3
lerlot ao manuscrito.233Contra esta segunda opinião, notemos que
0 poema parece dar a lenda na sua estrutura mais antiga, laxen
«lo falar apenas um vivo e não comportando ainda verdadeiros
diálogos. Fin seguida, a historia se ampliará e porá em presença
lie-, "vivos” confrontados com três cadáveres animados que lhes
dl/ent: “O i[ue vocês são, nós já fomos; o que nós somos, vocês
serão" fórmula que figura aliás no poema de Ferrara. Diante
dessa aparição, os três vivos primeiro recuam de horror, depois
1 Ircldem emendar-se.236
A lenda só figura num catálogo bastante tardio (século 15)
de - aquelas anedotas moralizantes de sermões medie­
vais que, entre outras “histórias”, incluíam frequentemente evoca-

2.14. VIGO, P. Le Danze macabre in Italia, 2. ed., Bergame, 1901, p. 82s.


KÜNSTLE, K. D ie Legende der drei Lebenden and der drei Toten und der To-
tentanz, I nbourg, 1908, p. 33. KURTZ, L. P. The Dance ofD eath, 1. ed. New
York, 1934, Slatkine Reprints, 1975, p. 16-18. ROSENFELD, H. Der mit-
tebtlterliche Totentanz, Münster-Cologne, Bõhlau-Verlag, 1954. p. 317. Atri­
buição a São Bernardo por FERRARO, G. Poesiepopolari religiose..., Bolog-
nc, 1877, p. 14.
235. GEIXELL, S. Les Cinqpoèmes des trois morts et des trois vifs, Paris, 1914,
p. 35. GUERRY, L. Le Thème..., p. 41.
236. Cf. lunadamente MÂLE, E. LArt religieux..., p. 355-358. TEN EN TI; A.
/a Vie et la mort..., p. 12-15 com bibliografia e p. 21-28. TRISTAM, Pb.
ligares..., sobretudo p. 159-167.

120
ilc fantasmas próprias para Impn >'J< >11.11 o auditorio Essa
1111 1u .1<> <Isolada por enquanto), poi sl so, c Interessante c deixa
entrever oulras. Km lodo caso, o Conto dos tres morios o dos tres
rlnos linha a estrutura e a função de um exemplam que algumas
valíanles e refinamentos teriam progressivamente enriquecido,
( )s vivos sao geral mente jovens nobres ou príncipes de belas li
bres. Às vezes, eles se dividem entre os três estágios da vida e
cada um reage segundo sua idade diante da trágica aparição: o
mais velho reza, o homem de trinta-quarenta anos puxa sua es­
pada, o mais jovem se afasta do horrível espetáculo. O encontro
e frequentemente situado no curso de uma caçada - lembrança
do romance bizantino. Os cavalos empinam. Um dos caçadores
deixa escapar o seu cão, outro o seu falcão. Os três mortos são
menos diferenciados, embora, às vezes, usem coroa ou mitra.
N ao <■ raio que eles sejam apresentados nos diferentes momen­
to:, da putiflacao do corpo, podendo então o defunto mais re-
11 nte Ia 01 lace ao mais velho dos três vivos e o mais decompos-
Im a< 1 mal . |ovem, a fim de que a lição atue melhor. Eles estão,
.................. I* liad.., e m i.iKoes abertos com o no manuscrito de
I ........ 11111 11•1111< lilemente em pé. Tanto nos textos com o na
Im HiMjii 111«, ,, . 1,///,. di *•, Ires mortos c dos três vivos é freqüente-
....... . ■. ........ . •na b<" a de um eremita c|ue conta uma visão que
1 u II........ i' 'ii I nma lembiança da origem oriental do conto.
Miiiqm >■<! 11 11.1 11 m duvida de Sao Macário, que com suas Vitae
r,iin o u mi 1 In ida 1 ni Italiano por Domenico Cavalca por volta
d. n Mit, 11 / 'eh,th ,hi tilmo e do corpo e a Lenda dourada tinha
|. min id" 1 1 .11a 11lia lamili.11idade com os cadáveres. A Lenda
dm otido 11 iin eleito, conta que ele entrou para dormir numa
mu........... i-,lavam enterrados inúmeros pagãos e pegou um dos
■' npi 1. i mim travesseiro. Demônios aparecem então para assus­
ta Io e 1 liarnam o cadáver como sendo de uma mulher:237

237. I ILRBLRT, J. A. Catalogue o f Romances in the Departm ent o fM a n u s -


eripts in the British M useum . t. III, Londres, 1910, sobretudo p. 693, 13. Cf.
lambem p. 125, n. 57; p. 232, n. 30; p. 445, n. 9, p. 621, p. 193. Três jo-
vens no deserto são convertidos pela vista de cadáveres devorados por vermes.
Indicações amavelmente comunicadas por Jacques Le Goff. Por outro lado,
sondagens negativas em\A n Alphabet o f Tales. A n English I$'k Centutry trans
lation o f the Alphabetum narrationum o f Etienne de Besançon, ed. Macleod
Banks, 2 v., Londres, 1904-1905 (sobretudo artigos Mors et Contemplas
tnundi). TUBACH, Fr. C. Index exemplaram, Helsinki, 1060: Com m unica­
tions edited for the Folkore Feliows, p, 11/ I ’ I
I Ir,*. Ihc cll/cni: "In 'im li' se, vrnli.i b.inlui se i 'Oiio m o ", b o ou
lu í ill.il ii >(|iK* c\s(iiv;i clc’l>;lix< >ck* M;u .irlo ill/lu como se los,se ele
«|iie ivsilvussc inorlo: "Tenho uní e.sii.mho em cima de mim e nao
posso salí". Mac ado nao se assustou, mas bateu no corpo dizen­
do "l.evanle-se c va se puder". Quando os diabos o ouviram, l’u-
gli.mi ^rilando em voz alta: "Você nos venceu".lw

AnhIiii, unía longa tradição tinha habituado os clérigos da


Idiidi Media a associar Sào Macario às evocações de cadáveres. O
in« uli i entre o tema do encontro dos mortos e dos vivos e as nar-
luih.r, ilas \ iUic Pdlrnni referentes aos monges da Tebaida pare-
■ i mao cerlo, ble é claramente indicado por um painel italiano
da m e.unda metade do século 14 ou do inicio do 15 conservado
•ni I- Hidivs (col. Crawford). Numa paisagem de montanhas e de
di . ii i lusos propícios à meditação, 14 anacoretas, entre os quais
i' i b lonlmo, Sao Macário e Sào Pacôme, são representados com
•ir. i llsi ipulos, I*ñire estes, infiltraram-se cinco cavaleiros (|tie, de
■•lia de uma caçada, topam com três féretros abertos.239
As primeiras evocações escritas e pintadas dos três morios
■ i li is iivs vivos sào anteriores ao meio do século 14 - o que con
ida de novo a nao desprezar a pré-história do macabro no Oci-
di uh líala se, independentemente do texto de Ferrara cuja data
• i IIm ullda, de (|iiatro poemas franceses compostos no fim do sé-
■uli' I \ respectivamente por Baudoin de Condé (1244-1280), me-
ii' siiel da condessa Marguerite d’Anjou, por Nicolás de Margival
Mim do século 13) e por dois anônimos. Eles se revezam no iní-
■ii i do sei ulo seguinte, ainda na França, com uma quinta obra,
" m /os ira ionios notícias, em forma de diálogo.2'10Quatro poe-
iii r alem ães e um italiano parafrasearam logo o de Baudoin.241
• 'ni'' a literatura monástica consagrada ao desprezo do mundo
11o montou to mori , todos esses poemas insistem sobre a destrui-
i" do corpo, adicionando para maior efeito visão de esqueleto
• ' |ii lai ulo de putrefação:

1 W¡. V( )KA( i INI'., Jacques de. Legende dorée. Trad. franc. de 1843, X, p. 80.
W. ( ¡I IILRKY, L. Le Théme..., p. 175-176.
' III. O . i luco poemas foram publicados por S. Glixelli, Les Cinqpoemes des trois
nn» t\ Nas publicações de Guyot Marchant em 1485 e 1486 o Conto dos três
inorim,.. começa por estas palavras: “Se vos trazemos notícias que não são nem
boas nem belas, com prazer ou desprazer é preciso ter paciência...”. E o “pri-
incíio morto" que fala assim.
' ll TIUSTAM, l’b. Figures..., p. 163-164.

i:ti
Morir r v rn n rs , descreve lla u d o lh , ll/e ia m u |tlo l
One puderam...
Vr|¡im: todos os tres nao têm cabelo na cabeça,
( )llio na testa, nem boca nem nariz
Nem rosto...

Mm dos anónimos evoca igualmente os “três corpos mof­


lí i'i desllgiil.lili ),s":

i i , bui.uns dos olhos e do nariz abertos


i is ossos 1,10 secos, pernas braços, pés e mãos
lodos comidos e perfurados de vermes ...M

As mais antigas figurações desse conto dramático se en-


(onliam na Italia do Sul e na regido romana:2'" argumento ele
peso para a filiação com o romance de Barlaam. Um afresco da­
tado d o primeiro terço do século 13 em Santa Margarita de Mel-
li ( p e d o de l oggia) já mostra o encontro de três jovens caçado-
ivs eom os esqueletos.2'5 A mesma cena é reproduzida por volta
de l.'.do sobre límelo de bela vegetação numa nave lateral da ca­
li dial <l< \11i (Al m u z o s ), elesta vez, com inserção elo eremita (Sao
M.h nr o <|iii c\oi'la os vivos a conversão. Ainda na segunda me-
i id> d........ tilo I a lenda é evocada sobre a parede do fúñelo
d i it i. |i d. I’. 11' 111o Mírlelo (Sabina). Mas, elesta vez, só há um
•i .. um i. i ' pii paia, petrificado, diante ele três esqueletos co-
iii ido»., ' um i id' ■. ' I. decomposição diferentes. Enfim, em Mon-
i> h i ........... . ii'i di ( lívido), no início elo século 14, três cava-
I' iu ' ...... i a '.ibis, a coberta por grandes gorros elescem dos
■ u al" , t min mii.un eom os esqueletos (dos quais só elois es-
i i" \l i.. I d, Alias deles, sentado sobre um rochedo, um monge
i o liu lia a penitência.
Na Erança, E. Male assinalou a miniatura do fim elo
sei ulo 13 que acompanha um manuscrito elo poema ele Baudoin2435

242. Ibicl., p. 56-57. TENENTI, A. La Vie..., p. 15.


243. Ibid., p. 92. TENENTI, A. La Vie..., p. 15.
244. VAN MAREE, R. Lconographie de l’a rtprofane au Moyen Age et à la Renais-
wnv, l a I laye, 1932, 2v., II, p. 385-389. GUERRY, L. l.c líteme..., p. 163-167.
' TENENTI, A. I ! Senso..., p. 412-413.
245. MONACO, G. / Frammenti del Triunfo d d lt Morir di Melft, Potenza,
sal., identifica erradamente este afresco mm o iiinnln da Mone.

11)2
(Ir ( londe I'ni Metz, mn pe<|iK*n<>qtladro do* primeiros anos do
ms ulo I i representando a U lula encontrava se na Igreja Nossa So
nllora do Clalrvauxa' Na Inglaterra, conhece-se uní salterio tic
I2b() aproximadamente que fixa a mesma cenad'"1 Mas é por vol-
la de I.VSO, e notadamente no (lampo Santo de Pisa, que o lema
assume toda a sua dimensão. Daí, ele se espalha amplamente no
( Vidente. <) pintor de Pisa - Orcagna, Spinello, Traini? - associou
numa vigorosa síntese o encontro dos três mortos e dos três vivos
(estes a frente de um brilhante cortejo de cavaleiros) com a evo-
cacao da Morte, megera descarnada com asas de morcego, com
longos cabelos e garras nas mãos e nos pés. Atrás dela, acum u­
lam se cadáveres que ela já ceifou. À frente, percebe-se um jardim
onde jovens e ricos personagens estão entretidos com música e
alegre conversação. Ela se prepara para matá-los.
Após tantos comentários, é inútil insistir sobre o aceito
dessa composição entregue à nova sensibilidade dos contempo
raneos. Mas é preciso destacar vários elementos desse grandiosn
afresco, aos quais nem sempre se presta a devida atenção e qm
nos remete mais uma vez aos textos clássicos sobre o despre/o
do mundo. Um deles é a batalha que travam anjos e demônios
para a posse das almas dos novos defuntos. O julgamento que
segue a morte dá, então, sentido às outras cenas da composição
l)e um lado, um amplo setor do afresco, no alto à esquerda, e
consagrado à evocação da vida pacífica e bucólica dos monges
que compartilham o tempo entre a oração, a meditação dos livros
santos e o trabalho manual. Eles não temem a morte. Não é por
acaso que o artista, por contraste, colocou simetricamente, em
baixo e à direita, o grupo de jovens despreocupados. Como ne­
gai a intenção pedagógica desse coerente conjunto? E por que
excluir a inspiração monástica, tanto mais evidente quando um
'•remita - São Macário? - desenrolando um pergaminho, narra
i mu tantos detalhes o exemplum dos três mortos e dos três vivos
que nao pode deixar ninguém indiferente?
Sc é verdade então que a partir de meados do século 14 uma
alençao maior e muitas vezes mórbida foi dada ao cadáver do ho-24678

246. Arsenal, ms n° 3142, f" 311 v°. MÂLE, E. L ’A rt..., p. 355-356.


247. TENENTI, A. II Senso..., p. 413. Buüetin de la Société des Antiquités de'
Iritncc, 1905, p. 133.
248. British Museum. Psautier Arundcl í 127. TRISTAM, Ph. Figures...,
p. 163 c 264.

i : i: i
mem, não creio que.se possa afirmar, noladamenli .1 proposito do
douto dos ttvs p ¡ortos e dos tres /»iros, que ela "Imobilizou os senil
do-, sobre mu objeto que, cm si mesmo, nao tem nenhuma signili
cu». .10 1 lisia” e que o macabro ergueu “uma muralha intransponível
entre a Ierra e o ceu”.-'" Deve-se antes destacar que ao longo da his­
toria crista manifestaram-se duas graneles atitudes a respeito da
morte uma ate evitou o macabro, a outra insistiu sobre ele. Santo
loma', de Aqulno da este conselho na Suma Teológica: “Nao se
d« \* penen sempre no fim último cada vez que se quer ou que se
la/ alguma <o|\a l anío quanto o viajante nao deve, a cada passo,
p< n ai no m 11 d estin o ".M ais tarde, Pascal, citando Sao Paulo (Ts
i,l,',), 1 .» lia n a por ocasião do falecimento de seu pai: “Nao can­
sí» leu moa mala um corpo como uma carniça infecta, porque a na-
lun a enganadora o figura desse modo, mas sim como o templo
Inviolável e eterno do Espirito Santo, como ensina a fé”.,251 Pode-se
legítimamente preferir esta segunda atitude e considerá-la mais pró­
xima do espirito do Novo Testamento. Mas não se pode excluir a
nutra do mais aulentiep passado cristão, já que ela se apóia sobre
vai ios conselhos autorizados vindos sucessivamente dos Padres da
Igreja e do deserto, dos monges da Idade Média, de Gerson,252 etc.
A partir de 1.350, aproximadamente, a difusão pela imagem
min s. n\, Iluminuras, esculturas) e por escrito do conto dos três
ni' •11<1 1 dos th s vivos foi considerável na Itália - sobretudo no
»»< •11lo | 1 na I 1.uh .1 e iva Inglaterra. E. Mâle cita umas 15 igre-
|a 1 "ii 1 1pelas liam esas espalhadas sobre todo o território que
...... no mi uma n pu sentaçao da lenda, a última delas data de
I •<t •11«I•1 uma pintura na Igreja de Saint-Georges-sur-Seine.251
1a ti p 11 ........... ... Io lã, os miniaturistas com iluminuras nos li-
....... . a.......s i <is gi, nadores com desenhos nos livros de ho-
1 r. 1 il" ui ' s s c tema, () duque de Berry, que o queria num de
11 s II m d<' horas (por volta de 1400), mandou em seguida es-
o s

1 ulpl Io (em l iOH) no portal da igreja escolhida como seu túmu-

?A(). TENENTI, A. La Vie.,., p. 14. HSenso..., p. 4l4 .


25ü. Somme Théol, Ia-IIae, 1, 7 ad. 3.
23 I .-Carta a M. e Mme. Périer, 17 out. 1651, em LCEuvre de Pascal, Pléiade,
p. 272.
.’ 52. Opinião concordante em B. Roy, “La D a n s e . e m Le Sentimcnt ele Ia
mort..., p. 125.
253. TKNENTI, A. IISenso..., p. 412-413.
254. MÁI.K, E. LArt..., p. 355-358.

i:H
In, .1 dos Inocentes, N.i Inglaterra, existía aínda luí eem anos
tinta,*, cinquenta pinturas dos séculos I i 13 exec utadas muitas ve
M*s ñas paredes de humildes capelas, contando a lenda dos três
morios e dos três vivos. A metade delas foi destruída na época vi
lorlana: elas chocavam os pastores da época.2 256 A historiadora Phi
5
llppa liislam, que dá este pormenor, acrescenta que, embora so
*.e conheça na Inglaterra do século 15 duas versões escritas com­
pletas do conto - um poemas-atribuido a Audelay e outro de
I Icnryson - , em compensação encontram-se referências a ele em
múltiplos escritos. Simples alusões bastam, portanto, para um pú­
blico familiarizado com ele.2572*Quanto à Suíça, à Alemanha -e aos
8
5
Países Haixos, eles também não ignoraram um tema que se tor­
nou europeu2™e que inspirou Dürer e Cranach. No desenho alri
buido a Dürer ( Albertina, Viena), o aspecto anedótico é fortemen
ti marcado. Os cadáveres já não se postam imóveis diante dos ca
(.adores. Eles os atacam com violência. Os cavalos empinam, os
c avaleiros caem de costas. Essa idéia iconográfica não era nova
Mas Dürer a explorou com um vigor pouco habitual mosti.mdo
em ação, não os defuntos, mas “a megera multiplicada por Ire*.,
pre< ¡pilando-se simultaneamente sobre os três cavaleiros". "'
A riqueza inventiva de Dürer não deve fazer esquecei a
luneao didática do conto tal com o ele era muitas vezes apresen
lado ao público. Os poemas franceses do século 13 e do início
do I i, o poema de Henryson no fim do século 15 e a maioria das
pinturas murais inglesas são pouco explícitos quanto aos detalhes
do encontro entre os três vivos e os três cadáveres: a cena da ca-
<ada e omitida ou simplificada ao extremo. Os interlocutores de
i ada um dos dois grupos são pouco diferenciados entre si.260Em
«ompcnsação, o realismo macabro é quase sempre realçado por­
que e o veículo de uma lição moral. Esta em todo caso permane-
i <• fundamental, mesmo nas versões mais elaboradas,' no Campo
m i o de Pisa, em Subiaco, ou na edição de Guyot Marchant. No

255. Ibicl.
256. TRISTÁM, Ph. Figures..., p. 15-16 e 163.
257. Ibid., p. 163-167.
258. TENENTI, A. II Senso..., p. 413. KÜNSTLE, K. D ie Legende... SER­
VI ERES, G. “Les formes artistiques du Dict des trois morts et-des trois vifs”
cm ( ¡azctte des Beux Arts, janeiro 1926, p. 19-36.
23l), WIRTH, J. La Jeune filie et la mort..., p. 38.
.’(>(). TRISTAM, Ph. Figures..., p. 163 164.
ionio repn)cki/icl(> |>or osle último o cok h .ido n.i Iioi .1 ele* 11in so
Huirlo, ;is palavras dos morios sao Harmonios do sermoes amoa
çadores como muitos que se pronunciavam na época;

<) prim eiro defunto declara: “Vós mereceis receber a mòrte.


1 lina morle, ai de vós, tão dolorosa, tão amarga, tão angustiante,
• pi< ir, mortos que a recebem não quererão jamais reviver para
mol n i de novo de tal m orte” . O terceiro acusa: “Ó gente louca
. lesas 1..ida i|iie vejo assim disfarçada com vários casacos e vesti-
............aínas coisas roubadas, bem fétida carniça vós sereis...
1,Miando 111vejo lautos lalsos delitos..., os grandes excessos, os
i ,i indi s ullra|es que sofrem aqueles que trabalham nos campos
paia II. ioi.lím enle nus e que de fom e gritam e bocejam... duvido
que I )cu:. subitamente nao mande tal vingança que não tereis se-
quei o lem po de lhe pedir misericórdia” .

A conclusão do conto é conforme à liçào que se pretendia


administrar graças a ele: os “três belos homens bem vivos” invo­
cam uma cru / colocada oportunamente nas- proximidades, acei-
i.im a advertência que lhes é dada e tomam resoluções que edi-
lli .un o próprio eremita. F igualmente significativo que no cemi-
h 1I0 dos Inocentes, em Ker-Maria e em Clusone (perto de Bérga-
Mi' ii, o ( <mlo <los Ires morios e dos três uivos e uma dança maca­
bí 1 i- uh mi sido coloi .idos próximos um do outro, e, que na igre-
|a d» I mu ai (l'tiy ile Dôme), a representação da lenda tenha
.id., piulada mima pan de e a do julgamento final na outra em
le mu d- 'Im minas solidarios na mentalidade do tempo e que já
................. ... um provimos n o Campo Santo de Pisa. Finalmente,
........ ni" dos 11• , morios e dos três vivos exerceu a mesma fun-
• io qii< laníos outros “espelhos” colocados pela literatura da
•p ." a .mie os olhos apavorados dos contemporâneos. Num poe-'
ma Ingles do século 15, Espelho para jovens damas em sua tóale-
te, i .1 Imagem do futuro cadáver ou da própria Morte que é de­
volvida pelo espelho e que declara duramente à jovem beldade:

Ó infeliz amedrontada, eu te marco com minha clava.


Ergue os olhos, olha bem!
Todos que me olham sentem pavor
Eu não te pouparei, tu és minha presad612
1
6

261. ReligiousLyrics 15d‘ C. (I, 40), p. 24 1. < n ulo c-mTRISTAM, l’li. Figures...,
p. 166.
¡i dança da morte e a
dança macabra
(¡uyot Marchant intitulou sua D ança macabra: O Espelho
Salutar. Fie também, portanto, compreendia a dança macabra
como ou ira maneira singu lamiente convincente de convidar ao
memento morí. A dança macabra com efeito só é inteligível, por
■•un vez, se ligada a toda uma pedagogia penitencial. Na origem
d.i dança com o na do Conto dos três moños e dos três vivos , en­
contramos a mesma constatação - vaidade das vaidades, ludo e
vaidade - e a mesma depreciação dos valores terrenos inspirada
pelo contemplas m undi. Se o texto de Ferrara consagrado aos
l i e s mortos e aos três vivos é mesmo do século 12 - o que im­
pa rece provável - podemos considerar algumas de suas iS eslro
les lortemerTte ritmadas com o um anúncio das danças macnbins
Isso seria então a prova de um tronco comum - monástico a
esses dois grandes temas. Lemos, com efeito, no poema:

6) Fracos ou potentes, 7) Ela não excetua nlngucm,


A morte os morde finalmente, Nem o rico nem o pola» ,
Loucos e sábios, Nem a mitra nem a coroa,
l odos igualmente. Nem o bispo nem o priiu Ipe
*
')) l Ia não poupa a velhice 33) Eis os vermes e a podridão.
Nem as pessoas honestas, Eis o cadáver que causa horror.
Nem a juventude na flo r da idade Q uer queiras ou não,
l udo o que ela vê, ela pega. Esse é o fim de todos.

Inúmeras obscuridades ainda envolvem a pré-história das


danças macabras e em primeiro lugar a própria palavra “macabro”
que aparece no século 14. A hipótese mais provável relaciona esse
a l|etiv< >a Judas Macabeu, que fez os judeus orarem pelas almas dos
d. fuñios, Numa época em que a Igreja esforçava-se para fazer pe
ir Irai a crença no purgatório, Judas Macabeu foi objeto cie uma
pii »m< >ca<> no discurso eclesiástico e, por reflexo, na linguagem cor
c um cm cujo nível ele encontrou lendas relativas a fantasmas. Na*263

.’().’ . ( litado em ROSENFELD, H. D er mittelãlterliche Totendanz, p. 37-38.


263. SAI J( INIFUX, J. Les Danses macabres de Franee et d ’E spagne et leurspro
loHgrnients Httéraires. Paris: Bellcs I.eurcs, 1972, sobretudo p. 14-17 c 323
L’(>. ( lí. também ARIÍLS, Pb. V líom u e devant L tnort, p. 118.

i:i7
iegl,i< > de Ulois, anligamente se t h.im.iva 't as,a in.u al)i*la" a "c ava
selvagem" empreendida pelas almas |>enatlas a procura <le mu vlvt>
para capturar, Portanto, existiu sem dúvida um \metilo entre as dan
Vas macabras e a crença folclórica nos mortos que dançam e dao
caça aos vivos/"' Por volta de 1350, o monge neerlandés tradutor
do romance francés Mcmgis dAigrem ont acrescenta ao texto origi
nal uma comparação reveladora: Maugis, após capturar seu inimi
go, o Uei Antenor, e vários de seus cavaleiros, mandou amarrá-los
ao poste central de sua tenda, de tal maneira, nota o adaptador, que
formassem como a figura “de uma roda de mortos”.2?5 Uma roda
que nao era concebida como um jogo, mas como uma opressão,
Da mesma maneira, na Baixa Alemanha da Idade Média, no dia cie
Santo Tomás (21 de dezembro), acreditava-se ver os rostos daque­
les <|ue iam morrer no ano seguinte dançando com os defuntos.-’"'’
I )esde o século 16 (l.avater) até nosso dias (Fehse), a erudição suí­
ça c alemã estabeleceu uma relação entre danças macabras e eren
çn em I. miasmas que locam música, formam uma roda durante a
in >li• i alia, ni os vivos para o seu círculo.267 O vínculo parece pro-
■ r i I Mas I Wliili observa com razão que até mesmo a elite da
Iduli d. dia - da i . na ,, u iça e nao apenas o povo acreditava em
................. a a dam i ni.n alna pode por conseguinte ter sido uma re-
............. imilla ' i I. ií al a partir de costumes muito antigos e de
.....i 'i'M'ipi ii'da p" •morte ampl.miente compartilhada. .
t l if p. ii .i mi qui a mais antiga dança macabra era a ilus-
ti i. .........|. ulada i í um scimao sobre a morte. Executada primei
.............. a- 11, i la i. i Ia saído para ser representada sobre tablados
■■.............. i fíbula inoial o que ocorreu notadamente em Bruges
•in I ií'' ti" 'Iiot« I" do duque de Borgonha.268 Depois, pintada,
gi.uada ou •m Iluminuras, ela se tornou a célebre “história em

.'(••i SALK ¡NIEUX, (. Ibid. Cf. também “La Danse macabre” em M¿Unges
J e lingu istique offèrts à A. Sauzat, Paris, 1952, p. 307-311.
265. Román van Melegijs, ed. Naf>l de Pauw, Gand, 1889, p. 67, versos 14-16.
IIIJIT, l;r. G. LeMoyenAge, XXIX (1917-1918), p. I62s. ROSENFELD, H.
P er miitclatierliche.., p. 48-49 e 180-181. CORVISIER, A. “La Danse maca
bre de Mcslaye-Grenet” em Bulletin des sociétés archéologiques dEure-et-Loir,
1969-1970, p. 45.
266. ROSP.NPP.LD, H. Der mittelalterliche..., p. 49.
267. I-AVA’IER, t.. Trois livres des apparitions des esprits, fantosmes, prodiges,..,
s.l., 1571. PP.USE, W. D er Ursprung der Tolent/inze, I Iallc, 1907 (sobretiulo
p. 4 I s.). ( :r. também WIRTH, J. I.a j e m e filie ei la morí, p. 20-25.
268. MÂI E, E. LArt..., p. 362-363.
quadrinhos” <|ur nos lunsmltlr.im miilliplos documentos Icono
gi.illeos. Que essa evolução se lenha eletlvamente produzido n;io
lu .1 menor dúvida. Mas provavelmente devemos remontar ainda
mal', para perceber, além dos sermões gesticulados, antigas dan
- a . que os pregadores teriam cristianizado e remodelado, lisias te
ilam '.Ido mais facilmente acolhidas quanto a crença na roda dos
morios era amplamente difundida. Em todo caso, é certo que na
Idade Media dançava-se nas igrejas e sobretudo nos cemitérios,
nus nao só, por ocasião das festas dos Loucos, dos Inocentes, etc.
um "escândalo” contra o qual se ergueu o Concilio de Basiléia
i .i i, ao \ \ 1, 1435). Seria útil reunir um arquivo sobre esse assun-
h > Hem conhecida é a lenda dos dançarinos de Kõlbigk, relatada
na t tónica de Nurembergd09 um padre celebrava a missa, na vés-
p< ia de Natal em Kõlbigk, na diocese de Magdebourg. Um grupo
de di /olio homens e dez mulheres criou um tumulto cantando e
dam ando no cemitério vizinho. O padre veio fazer-lhés reprimen
da , Mas eles zombaram dele e continuaram. Então, ele invocou
■• ' eu para que eles fossem condenados a dançar assim duranti
do . ■meses. No vencimento desse prazo, o Arcebispo de Magde
I" htig pôs lim a essa penitência. Três dos dançarinos morreram
l o g o c m seguida, os outros não sobreviveram por muito lempo.
I ima hipótese verossímil é, portanto, que a Igreja recuperou
dam, .is antigas e as cristianizou como fez com os cantos profanos
qm cia transformou em cânticos, mudando as palavras, mas con-
■is ando as melodias. Um franciscano vienense, Johann Bischoff,
• •nvendo por volta de 1400, relata que no seu tempo as danças
dn período da Páscoa eram muito populares em todas as classes
da .i ii ledade e que se conheciam umas duas dezenas. Infelizmen-
ii , cie só descreve duas: na primeira, o Cristo conduzia os eleitos
a i paiaiso; na segunda, o demônio levava para o inferno aqueles
qm Unham transgredido os dez mandamentos d70 É provável que
uma das dezoito danças tivesse relação com a morte. E. Mâle rela-
i i alias, com fé num documento de 1393, que nessa data execu-

.'í»*). STAMMLER, W. Dic Totentànze, Leipzig, 1922 (t. 4 da Bibliothek der


hunstgesehichte). Versão inglesa dessa lenda em BRUNNE, R. Handlynge
cd. E J. Furnivall, Londres, 1903, Early English Text Society, II, p. 283.
I hna história próxima da anterior tornou-se um exemplum: An Alphabet..., ed.
M. Madeod Banks, p. 151.
1 ’(). Vienne, National Bibliothek, Ms n. 2827, f ° 252 CIARK, J. M. The
I b i i i i p. 110-111. Eu não compartilho a opinião de J. M. Clark, que pen-
i que a palavra “dança” só deve ser tomada aqui no sentido “figurado”.
(ou m' iiinn dunça macabra n.i própria lgrr|a dc ( úudebct . 1 No
p.ino de fundo histórico, so rã (|iie não devemos distinguir danças
lunchiv.s como muilas civilizações conheceram e como se pode
adivinhai na Espanha aragonesa onde subsistiam na Idade Média
liadlçoes macabras herdadas dos mouriscos? Em certos lxinc|uetes
d* - coioaçao dos reis de Aragào, no início do século IS, faziam-se
i. Iti.M iiia»,oe*. da morte acompanhadas cie pantomimas. Ainda
h. i|e em Vages, na província de Gerone, uma dança da morte com
a' "iiipanhamenlo de tamborins é executada durante a Semana
'.mia poi )o\. ir. lanlasiados de esqueletos.2 12722
7 3Ao cpie devemos
7
............. . a .1 que sabemos agora da Dansa de la Morl català que
n.i" .» .1» \e . oiiliindlr nem com a D ança general de la muerte cas-
li IIiai ia da «111.11 trataremos mais adiante, nem com a tradução ca­
íala, . m I |‘J ', do texto da dança do cemitério dos Inocentes.
A P an ça da M o r t e permite apreender ao vivo a cristianiza-
çao poi parti' da Igreja, e neste caso mais especialmente por par­
le dos monges, de costumes fúnebres certamente muito antigos.
() texto e a música dessa dança chegaram até nós graças a um
manuscrito do século 14 - o Livro Vermelho - conservado em
Montserrat e que escapou às destruições napoleónicas.2'' Reestu-
dados reeenlcmente, eles conhecem uma atualidade nova jã que
•v.a dança lól executada em 1973 e 1978 na igreja ele Montserrat
. . m Id n em han clon a, Saintes, Etampes, Colônia, Kirchenheim
i ll. 11li 11 du ian le '.emanas caíalas”. Eis aqui as duras lições tra-
du ida . do |. sto latino (.1 t ! m o r t o m f e s t i n a m u s ...' ) - .

Mf l UA( J f t o r n a d a ) ; -
I' n i a mulle ui).s c«irremos,
I »»'|s» nnr. .1» pe. ,ii, d eixem os de pecar.

« i >l'l.A ( c o b la h
l ii quis i rata i do d esp rezo cio m undo

271. MÁI.li, E. LArt..., p. 361-362.


.*72. SAUGNEUX, J. Les Danses..., p. 50-31. SHERGOLD, N. D. Zt History
o fth c S/xinish Stnge, Oxford, 1967, p. 119.
273. Reserva da Biblioteca de Monserrat: ms 1, f 0 27 ,ò e f" 28v°. Cf. Analee-
Ui niontsemttcmid, I, 1917, p. 184-192. MARTOREI.L, O. ‘Les danses i eis
eauts dcl l ibre Verme 11 de Montserrat” em Serra d'Or, dezembro 1978, com
bibliografia. Agradeço ao mesmo tempo a Mine. I )ominiquc de Courcellcs c
M. I Icnri (iachct que mc forneceram a dm um<nia.,a.i idativa a esta “Dança
da morte”.

I 10
L

A llin ilc que os homens n.io sejam enganados pela vaidade,


i hegou .1 hora ile sair do pedido sono da inode,
ilo pérfido sono da morte.

Para a morle nos corremos...

A eiiiia vida logo terminará:


A morle, rápida, acorre e ela não respeita ninguém.
A morte mata todo mundo. Ela não tem compaixão de
[ninguém,
ela não tem compaixão de ninguém.

I’ara a morte nós corremos...

Se nao tc converteres, se não fores humilde,


Se nao mudares de vida para realizar boas obras,
Nao poderás entrar com o bem-aventurado no reino dc l >ni .
como bem-aventurado no reino dc I icm

Para a morte nós corremos...

Quando soar a trombeta, no último dia,


Quando o Juiz vier
Ele chamará os eleitos para a pátria eterna
e lançará os condenados ao inferno,
e lançará os condenados ao inferno.

Para a morte nós corremos...

Como serão felizes aqueles que reinarão com o Cristo!


Eles o verão face a face.
Ides cantarão: Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos,
o Senhor Deus dos
/ exércitos.

Para a morte nós corremos...


i
Como serão tristes os condenados à pena eterna!
Seus tormentos não terminarão e não os consumirão.
Al deles, ai deles! Miseráveis! Jamais de lá sairão,
jamais de lá sairão.

Para a morte nós corremos...


(Juv lod<>s os a*|,s d<>ni‘( nl<» r < gi.ind* n «l<•■iU* mundo
I ON C IcilgON C todilN .IS | > O U ' l K li IN

Sr laçam bem pequenos; (v)uc rejeitem ;in va Idades,


que rejeitem as valdacles.

Para a morte nós corremos...


N
.
Irmãos muito caros, se contemplarmos como convem a Paixao
Ido Senhor,
P se chorarmos amargamente,
l ie nos protegerá como a pupila do olho
e nos impedirá de pecar,
e nos impedirá de pecar.

Para a morte nós corremos...

S,mía Vlrgem das virgens, coroada no céu,


de i i o s s . i advogada junto a vbsso Filho
i i lr| Hi|s i li ,i< di stri ro, sede a mediadora que nos acólherá,
a mediadora que nos acolherá.

P i n a un nii m>»i 11 m em os...

v /*,/// ,/ </(• In Ilorl de Montserrat nao é urna verdadeira


........... ni a 11o.i j.i i|in o.ni inclui diálogos entre um personagem
\-|\m ni i ihm iii< !>em colocado .socialmente, e a Morte ou, mais
■i 11n111u uh , um i .ulaver que c o seu agente. Mas urna esclarece
a i mli.i Ia te observou (|tie o manuscrito do Escorial que conser
.mi |Hiineiiii texto conhecido de uma verdadeira dança macabra
i a'ilelli.m.i (a / k m çcigeneral) é repleto de catalanismos,.aragonis
utos e ale arabismos. Daí a suposição verossímil de uní vínculo
entre cia c a D ança da Morte catalã que a p r e c e d e u .'Feria ha
vicio então confluência, no reino de A raga o e certamente também
cm outros lugares, entre a pedagogia dos pregadores e antigas
danças Fúnebres assim como aculturação destas por acyaela.274

274. SAUGNIEUX, J. Les Danscs..., p. 49-52. SÓFA-SOI.F, J. M. “F.n toi


no a la Dança General de la Muerte" em Híspante limen», v. XXXVI, n. 4,
l%8. p. 303s.
Tal co m o se n<>s aprésenla, a / >ausa </<•l<i M orí era destina
da aos peregrinos (|iie vinham a Montserrat. Preparação para a
lo n llssa o no dia seguinte, ela era executada na vigilia da véspera,
di.míe do altar, lora das celeb raçõ es litúrgicas. Os cantores, ao que
p airee, nao dançavam , mas os dançarinos retomavam com eles a
ultima meia liase de cada copla e lodos - cantores, dançarinos e
0 grupo de peregrinos - associavam-se para proclamar o refrão.
( > Urro Vermelho jAe Montserrat comporta os mais antigos signos
1 oieogr.il'icos conhecidos atualmente na Europa - frágil e precio
o emergencia de urna'cultura bem velha. Eles remetem a um bali
i o d o ou dança-roda (não por acaso evocada num capitel gótico
d o t I.lustro de Montserrat), com passos para frente e para trás do
■mulo, mudanças de direção à direita e à esquerda, pequenos sal
i. im o d ificaçõ es da posição do corpo, reticências, etc.27S A inslru
incnl.içao compreendia gaita de fole, rota (uma espécie de lira),
' saniji/ina (flauta de Pã). O Livro Vermelho comporta, depois d.r.
■nplas j.i apresentadas, a representação de um esqueleto num lu
iniili i aberto com a sentença: “Ó Morte, como é amargo pensai cm
tl" Seguem sele reflexões, que poderíam talvez ser cantadas peln
■i Mijunto dos participantes que seriam então divididos em dois c< >
nr., lançando um ao outro as severas interpelações seguintes:

Vil cadáver tu serás. Por que não temes o pecado?


VII cadáver tu serás. Por que tc inflas de orgulho?
\ il cadáver tu serás. Por que procuras riquezas?
Vil cadáver tu serás. Por que te vestires com ostentação?
\ il cadáver tu serás. Por que corres atrás das honrarias?
\ il cadáver tu serás. Pór que não te confessares e te arrependeres?
Vil cadáver tu serás. Não te alegres com a desgraça alheia.

A Da usa de la Mort de Montserrat associava, portanto, tra-


•Ifi a» popular e estilo gregoriano e seria um exemplo da reutili-
m<ao de um ritual fúnebre de passado certamente milenar cíen­
le. dr uma lição moral cm vista da salvação. E fácil observar ao
F .tic,o das coplas a menção explícita ao “desprezo do mundo”, a
iir.Méncia sobre o julgamento e, no final, sobre o cadáver.

( lomo nos desenvolvimentos anteriores, convém agora sa-


li. ni.ii .1 jiastoral do medo que se exprimiu nas danças macabras

.V/5. Kl.i podia também ser dançada cm linha reta ou em estrela.


propriamente c111;i1• Nfto vou retomai em tIfl.illu* .1 Iil.sltni;i cU*.*i
las ultinuiM, m.i,*, marcar os vnu uli >s tv.iri'lii>s que 11.10 cessaram de
existir entre elas o ,i Igreja llórenle. No século I,5, constituiu se
11111.1 «miem reliólos;! 1 h;im;ul;i <)nlem ele Sao Paulo, enjo.s meu)
bros foram eommnenle designados pelo nome de "Imulos da
morte' I les (ra/iam unia caveira sobre seu escapulario e se sau
davam enlre si pela fórmula: "Pense na morte, meu caríssimo ir
m.10" Entrando no refeitório, elas beijavam uma caveira ao pé de
um 11 ui ili\<>e diziam um ao outro: “Lembrai-vos de vosso fim ul
limo e nao pecareis”. Muitos comiam diante de um crânio e Io
ilos deviam ter um em seu quarto. O selo da Ordem comportava
uma caveira e as palavras: "Sanctus Pauliis, ermita rum />rliniis
fnitcr, m ancillo m orí:'" Esse apelo ajuda a compreender a afirma
e io de Vlnccnt de beauvais que garante que o poema do Monge
I Irllnanl, os 1crsos c/a morte, composto por volta de I 190, conlie
i eu um vivo sucesso e que era lido nos mosteiros.-" ble ja se
a presenta cuino um eslx >ç<u le dança macabra. Senhor e trovad» >1
qui se Oa nou clslerclen.se, I lellnant quer inspirarem seus con
li 1 .)• M lemol salutar da morte, lile encarrega enlào .1
1 I•*ii* p< 1 miiIIIi ida de sauda los de sua parte e enchê-los de
p 1 • ........ ini ■li ,1 envia a seus amigos, depois aos príncipes,
d» p. .................... ... . d< 11s di Kniiia A caminho da Cidade eterna, a
I•*i 1• |1/ uma vIslla 10 Aicel>lspo de Keims, aos bispos de Beau
v 11 * 1lie, nii, 1 nli ans, eu I lellnant, com o mais tarde os autores
*1» diigii ni a linas si‘gi k .1 ordem das hierarquias terrenas, mas
pai 1 man 11 11 niv clámenlo (|iii’ o túmulo proporciona:

Mi Mli 111 abales de uma só vez


I inii 1 o 1e| em sua torre
( oino o pobre em seu teto. (Estrofe XXI)

( >s vermes e o inferno esperam aqueles que abusaram das


riquezas e das alegrias da carne:
1
Corpo hem nutrido, carne tão lisa (= delicada)
I a/, dos vermes e do fogo camisa. (Estrofe XXIX)

,’7(>. i 1I.LYOI, R. I*. I listotee des ordres monasú<¡ues< rcügieux et mi/itaiees, 1*.»
ii.s.1 HSO, v. III, p. 145-147. A Ordem teria sido suprimida por Urbano VIII
cm 1637.
¿77. Speenlum historíale XXIX, IOS. SAUl.NII UX. | /o Dame,1..., p. 28.
I >.ii rs 1,1 c<mclus.K), (|iii' |knlei i.i ser ,i de um sermão: “Foge,
I»i.i/«•i! lo g c, luxtiriaL. Prefiro minhas ervilhas c meu pirão”.-'8
Im meados tio século 13, Uobert Le Clerc redige, por sua
\ um poem a que (em o mesmo título que o de Hélinant, Os
r,rnics <l<i Morto, e muito próximo pelo fundo. O poeta envia a
.......He primeiro a Arras, onde ela visita pequenos e grandes, de­
pois ao papa e ao rei para convidá-los à penitência.279Mas o des-
lil» das condições humanas - uma das características das danças
m.it abras aparece melhor ainda nos poemas latinos que têm
I" >i Ululo comum Vacio mori (eu vou morrer) e cuja versão mais
milga conhecida remonta ao século 13.2S0 A dramática fórmula
. li vou morrer” é alternadamente pronunciada pelo rei, pelo
papa, por um bispo, por um soldado, por um médico e por um
li v.ii o, por um rico e por um pobre, por um sábio e por um lou-
■" eU 11 Note-se que a ironia, muitas vezes inerente às danças
m.o abras e que se acentuará no fim do percurso, já está presen­
il aqui: nenhuma poção salva o médico; o lógico ensinou os ou-
........ . concluir, mas a íríorte conclui por ele; o voluptuoso perce­
bí que a luxúria não aumenta a duração da vida.
() Vado mori, do qual bem cedo se encontraram manuscri-
h ' nas principais bibliotecas da Europa, parece de origem france-
i Mas o lexto parisiense do século 13 menciona o imperador. Em
....... pensacao, a afirmação de E. Male, que via na dança macabra
uma i rlaçao francesa,282 não parece mais garantida. De qualquer
maneira, nao se aceita mais hoje a tese que atribui o primeiro tex-
i" di dança macabra ao poeta parisiense Jean Le Fèvre cuja Tré-
i'ii,i da morto (1376) comporta os versos: “Eu fiz de Macabreu a
daiii a (v)ue põe toda gente na roda/ E as leva para a fossa”.285

.’ H. les Vcrs de lã mort p ar Hélinant, moine de Froidmont, ed. Fr. Wulff e E.


Walberg, Paris, 10Ò5-
I i Vcrs de le Mort de Robert Le Clerc, editado por C. A. Windahl, Lite-
i.miiblatt, VIII, 1887.
780. H. Mazarme, n. 980. MALE, E. L’A rt..., p. 361, o datava de início do sé-
. ulo XIV. O poema comporta 35 estrofes de dois versos, cada uma terminan­
do i um dado mori.
’ü I . li sto reproduzido em ROSENFELD, H. Der mittelalterliebe..., p. 323-325.
.'87. MÁI li, E. L’A rt..., p. 389.
.’,8,V / c Respit de la Mort p a r Jean Le F'evre, ed. G. Hasenor-Esnos, Paris, Pi-
. .ui1, 1969, v. 3.078-3.079, p. 113.

145
Mesmo se i ».11ii'Mi (> pintado cm I t.’ i nos muros do cemI
icrlo (Iom 11kk'ciílcs constituiu um prototipo Icontigráflco, o tciu.i
d;i dailça macabra ja cr.i conhecido .ínter'loimente, Um croitlsla
Ir.uh c.s cm revendo cm 1421 exprimia as.slni as desgravas do seu
lempo: I .1/ ealor/.e ou c|tiin/e anos que essa dança dolorosa eo
incvoii; c a maiot parle dos senhores morreram pelo gladlo ou
pelo v e n e n o on de outras danosa morte contra a natureza"
Antecedendo a pintura dos Inocentes, devem-se subentendei
testos e Imagens que se perderam. () que dá verossimilhança a
le.se de II Koscnleld (|ue data de 1350 e situa no Convento
Dominicano de Würzbourg o nascimento do primeiro poema
consagrado a dança macabra, ble é constituído de monólogos
sucessivos (em latim) colocados na boca de personagens (papa.
Imperador, cardeal, ele.) forcados a entrar na roda fúnebre, e eia
ai ompanhado de ilustrações. Num manuscrito de meados do se
culo I >, conservado em I leidelberg, esse poema é associado a
um li \Io alemao mais elaborado que, este sim, e uma vc*rdadel
ia daiga m.h alua com diálogos versificados (em forma de qu.u
n io . i i nt i• i Minli e n presentantes das diversas condições so
•mi i «o.........i .i mpie pelo papa e pelo imperador. II. Rosen
leld ......... .. m. d< Milita Interna, também faz esse documento
n itu ml ti i \l/liiliain as de 1350."'
I i m .i i |tie \ale a pena especular longamente sobre o lu
•i a. mi, m u . a •hita esala tle aparecimento da dança macabra 1
i"n 11o• miiitM i, mpo ,( pensou c|ue a D ança general castelha
o tf ii i i da l>,ni\ii nnnahra publicada em 1485 por (iuyot
l ii- h m i , I i pio| ii ia uma atlaptaçào daquela dos Inocentes, Mas
hispanistas tendem agora a sublinhar sua originalidade pro
pila - h< e,indo ate mesmo a datá-la das vizinhas de 1400...I ran
m si . alemaes, espanhóis, não sem um certo chauvinismo, pro
etii.im assim monopolizar uma prioridade na invenção de um

2H4. ( litad» por KURTZ, I,. P. The Dance ofD eath, p. 215 c por WIR'I'I I. |
/</ /e une filie et la mort..., p. 25.
.’í(5. ROSFNIFI I), 11. Der mittelaíterliche..., p. 60-66, 89-92. lextos p. 10 '
32 t. Documentos na Bibl. Univ. cie Heidelberg (Cod. Pal. 314). A tese d-
origem alema c! recusada por STAMMLER, W. Der Toicntnn: , Mnnldi,
I‘MM, p, l) I H e I")UBRUC 3<, F.. The Theme ofD eath in Treneh Poeiry o/lhi
Mitidlc Ages and the Renaissance, Londres, l a Maye, Mouton, p. 22 !3.
.'K6. SAUCNII'.UX, J. Ies Divises..., p. 42-52. Apesar de tudo, pcrmanmin
ainda importantes scmclliaiga.s entre i / >,///(,/ yeneirtl<■a dos [nocente, t ou .
milidtt por <Iuyot Man liam.
i< um «I» mu i '.m ), ( ) im|>i >iUnte afinal e menos o país de origem
-li u i>1>eiias ulteriores talvez ainda modifiquem nossos eonlie
i liin 111<>•- desse assunto do que o lato de que o lema estava no
ai « si encontrava em diferentes eantòes da Europa eclesiástica
■ I" .ei 111o I i I . inegável sem dúvida que a D ança m acabra pin-
i nla em I i.i i nos Inocentes e os versos que a acompanham tive-
iiim uma profunda influência fora da França, notadamente na
sli manha do Norte. Mas convém assinalar sobretudo que uma
- Iisll illldade coletiva eslava á procura de uma formulação icono-
- ilha i textual para a qual levavam simultaneamente a lenda
d- ■ tu s mortos e dos três vivos, o debate da alma e do corpo, o
l.s /e morí e a transformação pela Igreja de danças muito antigas
- m - squetes gesticulados de alto valor pedagógico.
N o estagio atual do conhecimento, foram assinaladas na
i i mi- a p e l o menos 80 danças-macabras dos séculos 15-16 (exis-
i- ni< i mi destruídas) pintadas em afrescos ou esculpidas, às ve-
• lamiiem bordadas sobre tapeçarias e mantos ou evocadas em
\111 o ' ' na Alemanha (mais a Alsácia, a Áustria, a Estônia e a
I lila i, 8 na Suíça, 6 nos Países Baixos, 22 na França, 14 na Ingla-
i- m i . Mna Italia (do Norte). Nenhuma é anterior a 1400 - prova-
• l ui e nt e o escrito, mais uma vez, precedeu a imagem. Em com-
p- n -ai ao, outras trinta foram realizadas nos séculos 17, 18 e até
m - I" - -scneialmente na Alemanha, na Áustria e na Suíça.287 Essa
- "iit.ihllldade provisória evidentemente não esgota o problema
•lil dllusuo da dança macabra. Porque países como a Espanha e
i'••11111e11. que nao a possuem nem pintada nem esculpida, entre-
l.iiito i (onheceram sob a forma de textos (raramente acompa­
n h a i »s d e Imagens).288 Do mesmo modo, a Dinamarca e a Suécia
• i n .un lamlllarizadas com ela por meio cie livros e gravuras vin­
il- •- -Ia Alemanha.28'’ E preciso portanto ciar tocia a importância aos
muniisi ritos e depois aos livros impressos que, geralmente acom-
p nili.idi is de ilustrações, espalharam por toda a Europa ociden-
m I - - ential o tema e os ensinamentos morais da dança macabra.1

1li 1 mi meros são obtidos combinando as indicações fornecidas por


kUKT/., I . lí The Dance..., p. 70-154, TENENTI, A. La Vie..., p. 90-91 e
l'( VSI NITI l>, H. D er mittelalterliche..., p. 347-363.
'HH ( I. M A R TIN S, M . Introdução histórica à videncia do tempo e da morte,
’ v, hi.i|-,i, ( i uz, 1969: I, p. 17ls.: a influencia da dança macabra sobre Gil
Vit - ui- . II, p. .32, sobre Juan de Pedraza c mais tarde sobre Antonio Vieira,
p. 2.’. S.s.
2MT I d MCI'/., I .. The Dance..., p. 116 117.
i i >caso notadamcnte dos lilm kbi'h /nr.ilem.Uv» do .século I‘ . •i••
-.iin ( h.mudos |)or<|itc tim.i página lulelia letras e Ilustrações
i *i .i Impressa .1 partir de um único bloco de madeira, Essa téenl
ca, anterior a invenção dos caracteres móveis por (iiilenberg em
I i SS, manteve sc ainda durante mais de meio século depois des
sa data. O mais antigo dos Blockbücber consagrados-ao 7 oten
l>iiiil remonta a I 16S e foi de propriedade do chamado clclloi
p a l a t i n o .I )ois outros de larga difusão apareceram no lim do se
culo IS, um impresso em I llm (ou em 1leidelbcrg), outro em Ma
yunce/" Também sc deve reconhecer as duas principais linhas de
difusão na huropa dos lemas e das imagens da dança macabra,
uma francesa, outra alemã.
A larga audiência da D ança macabra dos Inocentes
( I i 3 i ), da qual Ciityot Marchant e também outros editores (Piei
re |c Rouge, Antoine Vérard) reproduziram com alguma liberda
de os versos e as figuras,-"- como dissemos, levou a pensar que a
Milgem d o lema era francesa. A composição pintada nos muros
. ............lili rio parisiense, com eleito, inspirou direta ou indireta
nu 111• n i. i ipi na*, as dam, as mac abras de Ker-Maria (por volta de
I mui di I a ' Iu Im Nleutpoi volta de 1470), de La Ferté-Loupié
n <llm d '' ■■uli- I n, de Me sl ay le-Cirenet (antes de 1540.),*Metc.,
....... i 111i " ni niiiiii nis.is re.illzaçócs estrangeiras, evidentemente
i . .ni Iil.. i. ladi s . ui n fu. ao ao modelo: ncj cemitério londrino do
i ■i i . I. d. I i '.ti . ni I ubeek em 1463, em Berlim em 1484. Por
...... . lid.. |..l ..|. vto |unlo ao afresco dos Inocentes que foi Ira
l.i 1.1. ■■m . alalao em I 107 pelo arquivista real Miguel Carbonell,
miil>iiiii.|.. na pateiiiIdade ao "Doutor e Chanceler de Paris cha
ni ni. i |.. um es < Hm.u hus, ou Climages”.*2 1394 Essa identificação pai
9
. i ilmeiili eiiada remeleria a Matthieu de Clémanges (:f l i.Vi),
pioh ssoí em Paris, cujas obras associadas às de Gerson figuram

lie cst;í conservado na Biblioteca Universitária de Heidelberg, Cocli \,


foi. germ. 43H. Reprod. dans SCHREIBER, W. L. D er totentanz, Iilockbuch
von enea M 6I, Leipzig, 1900.
291. CLARK, J. M. The Dance..., p. 85-87. ROSENFELD, H. Der mínela/-
icrliclic..., p. 93-95.
292. B.N. fundo latino, ms. 14904. MÂLE, E. LArt..., p. 363, n. 5.
293. A respeito desta ultima (no Eure-et-Loir), ver a notável monografia d-
A. Cáu visier cilada anteriormente.
294. C LARK, |. M. The Dance..., p. 3.8 29, SAU< ¡N lld IX! |. /cs D,m es
I >.i( ,i .iii ilnii^áo errada a ( íerson.

I 1H
mim m.mu,st iil<> tlaiaclo de I 129 c conlcndo justamente “os ver
m , tia dança macabra tais com o estão no cemitério dos Inocen
a Nada de espantoso, por conseguinte, se o texto da Dança
d. < aihonell e bem próximo do de Guyot Marchant, que por su.i
\( ei a a transcrição dos versos do cemitério dos Inocentes.
Se as representações da dança macabra na Alemanha do
J•>tI« permaneceram tributárias do modelo parisiense, as da
ui«. a , da Alsacia, da Alemanha do Sul e mesmo da Itália (so­
lí nlrloiial) lóram marcadas por uma tradição que passava pe-
l<• lextos de Würzbourg, pelas ilustrações germânicas e pelos
lllnt khíli her do século IS. Esta outra linha, que cruzou a pri
nielia, desembocou notadamente nas duas com posições da ba
lli Ia (cemitério dos dominicanos por volta de 1440, Kligental,
■n11• I 160 HO).-"' Basiléia foi assim o ponto onde convergiram
■' ili»I•. graiules caminhos europeus da dança macabra c por
iia u / lhe serviu de centro de irradiação. Na sua publicação
d. I i.", ( itiyot Marchant não tinha dado lugar aos mortos mu
i' i.. Ele os Integrou, porém, na segunda edição. Julga-se que
■le tomou essa adição do modelo de Basiléia e mais ampla
111*■1111 da iconografia germ ânica.297 E certo que as danças ma
11o i•• de l.a Cluúse-Dieu, de Lübeck e de Berlim - estas duas
uliinia . de inspiração francesa - colocam um morto músico na
■ uh Ira do plegador. Mas é sem dúvida porque esse motivo já
Unha adquirido amplitude nos países de língua alemã. As dan-
•a di Basiléia tinham trazido com efeito um enriquecimento
tu .i no umbral do ossuário aparecem duas múmias animadas,
im nulo pífano e tamborim. No Blockbucb cie 1465, um morto
i - i galla de foles, sentado em frente ao papa. Depois, no
UId /.7»//( h de l llm ou de Heidelberg (por volta de 1485), apa-
ii ' • agoia uma orquestra macabra formada por três tocadores
di Maula e um irombetista. Só restava a ‘Guyot Marchant conti­
nuai tu . .a linha pela introdução de variantes. Sua edição cie
I imi i poe em cena quatro mortos músicos tocando respectiva-

")'). B,N. luiulo latino, ms. 14904. MÂLE, E. LAit..., p. 363, n. 5.


")(>, A respeito dessas duas danças macabras, cf. o catálogo da exposição D cr
/,'.//u li,mel ( 1979), editado pela Gesellschaft Schweizerischer Zeichenlehrer.
\. |>< •|iiis.rs recentes inverteram a ordem das realizações geralmente admiti­
da ,m agora, boi o afresco do cemitério anexo à Igreja Dominicana que serviu
di modelo ao de Kligental, e não o inverso.
"i ( T. a esse respeito ROSENEEI 1), 11. Der mittelaltertichè..., p. 151-152.
mente g;ill;i de Iblcs, órgán portiilll, h.i11>.i c ll;itil;t, <■ <> <|Lif s<>
I>i,i este instrumento também I>;iU* num tambor A respeito do
papel desempenhado por Basiléia, lembremos que foi nesla ei
dude que llans llolbein, o jovem, natural de Augsbourg, velo
estabelecer-se em ISIS e publicou o seu Pequeno Alfabeto
( l 520) r seu O'rancio Alfabeto ( IS21), cujas letrinhas de cham a­
da se destacam sobre cenas tiradas das danças macabras (cada
esqueleto assediando um ser humano). Os Alfabetos eram ape­
nas preliminares à grande obra que surgiu em Lyon em 1S38
sob o título Os Sim ulacros e histórias diante da Morte. Quanto
ao maior pintor suíço da época, Nicolás Manuel Deutsch, autor
da D ança Macabra de Berna - repleta de mortos músicos - foi
lambem em Basiléia que ele fez o seu aprendizado.2982 0
3
9
Que artistas dessa envergadura e impressoras de renome
exploraram tais lemas no fim do século 15 e no início do 16, a de­
manda do publico o prova - uma demanda que eles contribuíram
evidentemente para ampliar. Um maço de baralho holandês do sé-
. uh i I i lepn senta Vi homens de diferentes condições, desde o
11111mudoi al' o mais humilde valete, e também a Vida soprando
I h«lha d* ab h 11-, i lan >, a M<>rle,"wA dança macabra pintada em
I MU n i i p i n d ' da Mailenldivhe de hübeck (destruída em 1942)
in pm ui in i 11H ana eld.uk* varias edições ilustradas do Toten-
i m qiii un liam •m I 189, I ¡96 e 1520. Esta última deu lugar a
....... .............. Ilnamaujiii sa em 1536.^ Foram contados 16 manus-
iiiom li un i a. s, a maioria do século 15, que nos conservaram o
i» *ilo da Diluía niiicahra (dos Inocentes). 14 contêm apenas o
ti Mu ' . ii i i ui iqiits idos de miniaturas, 6 acrescentam a D ança
ahiu di/', mulheres. Quanto às edições incunábulos que, gra
i i a <myol Marehant, Antoine Vérard, Fierre le Rouge e outros,
p o p u l a d , aram as duas danças nos países de língua francesa, elas
atingiram pelo menos uma quinzena só durante os anos 1485

298. Niklaus Manuel Deutsch. Maler. Dichter. Staatsmann, trabalho coletivo


editado pelo Kiinstmuseum de Berna, 1979, p. 252-267 e pl. 57-71. A dan
ça macabra de Nicolás Manuel Deutsch, tendo sido destruída, só nos é conhe
cida pelas cópias.
299. ROSENFELQ, H. Der mittelalterliche..., p. 18. Conhece-se um maço dr
baralho dc 1392 que pertenceu ao Rei Carlos VI da França e que comportava
também temas macabros. Ibid. Cf. por outro lado, D’ALI.EMAGNE, II. R.
/<■i (arles,) jouer <lu XIVau XVt“siècle, 1’aris, 1906,
300. ( l.ARK, J. M. The Dance... p. 8.’ NV

1f»<)
I'iiio, primeiro em Laris e logo depois em l.yon, Toyes, Genebra
i lonlonse,'01 Subsistem por outro lado 12 manusc ritos da versão
111>d1 a da ilança dos Inocentes. Na Inglaterra, onde a Reforma Ibi
uiaf. hostil ,i iconografia macabra - a do cemitério londrino do
I'* idao loi destruida can 1549 por ordem do protetor Somersel
m i lliu do ses illo 16 continuava-se a vender exemplares de Dan
o / e eançào (Id Morte impressos numa só página com poesia e
Imagí -ns, estas muitas vezes inspiradas nas gravuras de Holbein,
i|Ue eonlieceram um amplo sucesso. Sáo conhecidas 11 edições
do-, 'uiim/dí ros... só para os anos 1538-1562 sem contar as imita-
hii e contrafações.-^ Kssas indicações juntam-se às outras já
apu •■rutadas anteriormente e ajudam a medir o lugar ocupado
na mentalidades ocidentais dos séculos 15-J6 pelo tema da dan
i a mm al >ra,

I .la, estruturalmente, é um desfile - dever-se-ia ate'* di/ei


uma procissão” - das diversas condições humanas em marcha
I* na a morte-, Dentro desse desfile, cada vívente é arrastado um
tia a vontade- por uma múmia animada que, geralmenic, csboc.t
um pa .nu de dança. Ksse quadro geral integrou naturalmente di
v' i-,a-, \arlantes conforme as épocas, os lugares e até o local de
•I •>< dispunha, Km linha geral, o número de personagens con
idadi >■. a entrar na sinistra procissão por um morto ou pela Mor-
ti aumenta a medida que se amplia'.a audiência do tema. lim
l ■i Maria, eles sao apenas 23. O texto latino primitivo (?) e seu
di iliado cm língua alemã por outro lado só convocava 24: nú-
iii* i** que sc encontra em Lübeck e em La Chaise-Dieu. Km Ber­
lim ■ le-, -,ao 28. No cemitério dos Inocentes, segundo Guyot
Ia 11 liaul, eles eram 30. As cenas que colocam frente a frente um
' tv" * um i adaver formando par passam a 33 na D a n ça general
■ i vi nos dois lilokckbücher ú o fim do século 15. Os aféeseos
d* Basiléia anteriores às obras precedentes comportam até 39.
1 *Hiipieendc se qu e G uyot M archant, diante do su cesso de sua
piihlli ai ao de I t85, tenha reincidido no an o segu in te e f o r ç a d o
■ dosí a» rcseenlando uma dança de mulheres e clez novos per-
■ui.io.i ns a dança dos homens. Na primeira edição (1538) dos Si-
miihh /<»•>, de Holbein, chega-se ao total de 40 pequenos qua-

V()I KUR I /., I . I*. The Dance..., p. 25-69. SAUGNIEUX, J. tes Dünses....
p, 123 I2H. > . Ij
IIN I-N TI, A. IISenso..., p. 162.

ir, i
t In »•, I Iicni veril.uU* que 7 deles ( représenla ndn ,i <ilaçao, o )nl
jí . iiih’iii(> final, o Im. i .sí H) da morU\ clt ) nao evocam o Ir idíelo
nal diálogo en Ire um vivo e seu Interlv >eulc >r de alem-Uimulo. làu
t oni|lens.ieao, H novos personagens aparecem na edição de
I'» r>, <) pleo da inflação, ao (]ue parece, foi atingido na Dauçtt
, le la Muerte publicada em Sevilha em 1520 e que é uma repro
dução alongada da D ança general. 58 vivos discutindo inútil
mente c< >m a Morte.
( )l)su vanelo um quadro hierárquico bastante estrito, as dan
ças macabras, <|ue devem ser lidas da esquerda para a direita, co
meçam normalmente pelo papa e relegam para o fim da procissão
dançada, ou pelo menos nas proximidades dos últimos lugares, o
( ampones de um lado, a mãe e, do outro, o filho: escala de valed­
les sem ambiguidade, lim geral, as pessoas de Igreja precedem os
leigos, lanío numa repartição global, como numa distribuição alter­
nada <) primeiro <aso e ilustrado pela Dança de Berlim e por
ai (líelas d o s dois H/ockbíicher alemães do fim do século 15: todos
«i i i li .i.i .i i<i is \,k i ct >li >i ai l<>s antes dos representantes da socieda­
de , iil.H ( i ,i ii u n d o ( ,iso e mais frequente: um personagem de
lee |.......... ............................. |iial ele dança uma espécie de “polonc-
' ............ 111 n im 1 .i al lom udo por um leigo e uma múmia ani-
iii ol í s imIiii ii papa vem antes do imperador, o arcebispo antes
di m i 11•im i . bisp. i . mi e s do escudeiro. Mas essa regra só perma-
.......... iliil i in i nivel d o s mais altos graus. Quando se desce abai-
*n d .......IHi m di l",n ■1.1 ou de espada produzem-se interferências
• i l ini i >l,i n a hii.i seus direitos. Nos Inocentes, entre o monge (n.
...........p ule (u .'.(i) inlercalam-se o usurario, o médico, o aman-
1* -i idvi.isido e o mencstrel. No Cemitério Dominicano de Basi-
|i i.i .i i 0 personagens entre 39 eram de Igreja. Dentro de um es­
quema geral constante, descobre-se uma real diversidade: a dança
de Berlim e a única a dar um lugar à mulher do estalajadeiro. ()
lulz, Turco, o pagão e a pagã só aparecem na de Basiléia. C) co­
o

zinheiro, presente no texto latino de Würzbourg e no seu deriva­


do alcmao, faz parte igualmente das procissões macabras cie Basi
Ida Quanlo a D ança general, ela integra três personagens hispâ­
nicos da época: o rabino, o Alfaqui (doutor muçulmano) e o guar­
dião de santuário (santero). Reflexo de sua época e das concep­
ções sociais desta, as danças macabras tiveram tendência a sub-re
presentar camponeses e artesãos. Nesse sentido, a Dança d e l a
,1tuerte com seus S8 personagens é antes a exceção que confirma
,i regra, Com efeito, ela acrescenta a Dança general 25 recéiíi-che
gados fornecidos pela |>t*c11k*ii•i |u>|miI.k .lo de comerciantes, arte
Míos e ambulantes; o alfaiate, <> marinheiro, o sapateiro, a padeira,
a vendedora de biscoitos, o vagabundo, etc. Além disso, ela faz
menção no f inal, como também a D ança general, a “todos os ou-
tros" (|iie nao puderam ser nomeados. Esse arrependimento, au­
sente da maioria das danças macabras, exprime-se também nos
Hlockbíicberóns anos I i90 cpie reservam sua 38'1seqüência aos es­
quecidos de todas as classes sociais - reparação bem necessária já
que a morte, por sua vez, não esquece ninguém. ^
Como os artesãos e os camponeses, as mulheres só ocu­
pam um lugar modesto nas danças macabras, com exceção, cla­
ro, daquele que Guyot Marchant lhes reservou especialmente a
partir de um poema bem trivial de Martial d’Auvergne (f 1508).303
As vezes, elas estão até totalmente ausentes: nos Inocentes, em
Ker Maria e na D ança general. Sua aparição é discreta em Lübeck
(2 entre 28), cm La Chaise-Dieu (3 entre 24), nos Blockbucher (3
entre 38). Lm compensação, sua participação é mais forte ao lon­
go de uma linha que parece derivar dos textos - latim e germâ­
nico - da Alemanha do Sul. Estes com efeito concedem ás mu­
lheres 4 lugares entre 24. No Cemitério Dominicano de Basiléia,
cias obtém 8 entre 39. Nos Sim ulacros... de Ilolbein, 8 entre 34.
Inversamente, na D a n ça de la Muerte, elas são apenas 4 nomea-
dainente identificadas entre 58 participantes. Todavia, o autor
anônimo deste poema também sentiu um arrependimento a res­
peito e colocou, entre o par formado pelo papa e pela Morte, um
solene discurso desta última a duas moças enfeitadas demais que
cia arrasta ã força na sua roda.304
Em suma, as danças macabras, produto da cultura domi­
nante da época, como ela, depreciaram a mulher por seus silên­
cios ou meio-silêncios. Quando as introduzem, é integrando-as
numa ordem social em que ela vem sempre em segunda posição
(a imperatriz - nos.países germânicos - a rainha, a duquesa, a
condessa, a esposa do burguês ou do taberneiro) ou para subli­
nhai- o quanto sua feminilidade a predispõe à morte (a moça, a
velha, a mãe que a morte arranca a seus filhos). A sociologia das
danças macabras convida, portanto, a uma conclusão frequente­
mente omitida: a despeito dos achados de pormenores, elas são
pouco originais, umas em relação às outras. No início, houve cer­

do.). Autor por sinal de Vigiles de Charles VII e dos Arrêts d'amour.
.104. SAU( «NIEUX, J. Les Danses..., p. 184-185.

IBM
I,míenle uma kleia de gênio. Km seguida, na m.llorín dos ea.sos,
0 estereótipo predominou sobre a inovaçao,
Dirigindo a análise para outra direção, será que se eleve
distinguir entre* danças elos mortos e danças da Morte e continuar
acreditando, com o se fez durante muito tempo, que as primearas
pre< cele rain as segundas?30' Assim, a dos Inocentes seria uma dan­
ça dos mortos, na qual cada personagem é arrastádo na roda por
seu sósia póstumo. Inversamente, os Sim ulacros... ele llolbein
constituiríam, esn final ele percurso, a passagem (bem sucedida)
di uma dança dos mortos a uma série de cenas de género ein
que e a Morte* que joga com os humanos aquele jogo muito fácil
e multiforme em que ela ganha sempre. Mas será que a obra ele*
llolbein e uma verdadeira dança macabra? Além disso, e de ma­
neira mais geral, a realidade parece ter sido mais complexa, ja
que, ao longo ele* todo o período, autores, espectadores e leito
res associaram constantemente os mortos e a Morte dentro ele
uma mesma e c<úsenle* lição.
< i i< ma do espelho vemos antecipadamente como sere-
.............. . i< e («ilamente antigo: ele remonta aos escritos
111*si Isii' ii r i ni i min m ia >ladame*nte na lenda dos três mortos e*
l i o- i i.............n i .. ilutóla Ilustração. É a mesma idéia que ex-
l'iinii i............... I¡b i n . i ".i ulpidos e*m inúmeras igrejas e as repte
•.................. di miillii n • In espelho elos manuscritos em iluminu
1 m N»il'• oí' ' tillm qin <íuyot Marchant qualificou ele próprio a
ii * i ñu iiiir alna dr espelho salutar”. Será que seus leitores,
di mi' d< i i1111 •• i,nli ii (|iie elevlara: “K. necessário armar-se de pica-
i' n 'i p i ■ di 1111111.1111.1’' e* lem com o parceiro um cadáver car
d r, indi i pm Is.miente esses sinistros objetos, viam neste último a
im i>;i m daquilo que o soberane) seria um dia? Podemos tanto
mal . duvidai c|uanlo o termo “espelho” no fim da Idade Média
a| illi ava se a toda espécie de obras didáticas - “Espelho dos pri'n
cipes”, “Isspelho dos Magistrados”, etc. Os franciscanos faziam
uso constante dele. Significava lição moral. Assim, nào se deve
Identificar de maneira demasiado rígida os cadáveres das danças
marabras como as imagens futuras de cada um dos personagens
vivos a que estão associados. De outro modo, o que fazer com

,t()S. I'.ssa era a opinião de MÂLE, E. LArt..., p. 365-366, retomada por MUI
/.IN< ¡A, |. l.c Déclin..., p. 150, por CORVISIER, A. "1.a Danse...”, p. 4 6 c poi
SAI H¡NIEUX, J, f es Dttnses..., p. 20, matizada pm RAI’P, I r. “La Reforme !<■
l i gi cusi *. p. 59, combaridn por< 1.ARK, |. M íb cP ii/u c , p. 109 lio Ln
me alinlio com esta última opiniao.

ir, i
L
tr. 1111 hi<),s iiuiskt >s t |tn ■, ,s( il) o pulpito dos pregadt >ivs, ci invocam
i >■. humanos para a fúnebre procissão? ( )s morios das dantas apa
ict i’in sobretudo como os ministros (de instrumentos intercam
blavels) da Morte, a cirial há muito tempo, e nao apenas ñas pro
Unidades do século 16, se tinha tornado uma individualidade le
mtvel I! ela que o Monge I lélinant envia aos seus amigos, aos
pum Ipes e aos bispos para enchê-los de um temor salutar. K ela
i|ii> voa acima dos corpos amontoados do Campo Santo de Pisa.
l ela que, montada num carro, avança orgulhosa e invencível, em
Inúmeros “triunfos da Morte” do século 15, de que falaremos
mais adiante. P sempre ela qüe os quartetos germânicos de Würz-
bourg e a Dança general castelhana põem em cena. É ela ainda
que dialoga com um camponês numa obra notável do início do
m <ulo IS, o Lauradondã Boêm ia (Der A cken n ann aus B óhnw n).
I le texto, geralmente considerado como a mais bela pro
i alema antes de Putero, chegou até nós em 16 redações manir.
■nía . ( 17 edições diferentes do século 15 e da primeira mciadi
d. ■ In 1 ble parece ter sido composto por um mestre-escola e la
bellao publico de Saaz na Boêmia, Johannes von 1'epl, (|iie pei
di ii mi. i jovem esposa em agosto de 1400. O lavrador, que laia
I" lo autor, acusa a Morte em termos veementes: Você é, diz ele,
•■leu iz extorminador de todas as pessoas, o maligno perseguidt >i
d., mundo inteiro, o éruel assassino de todos os homens... Afim
d< se na maldade, desapareça...” (cap. ij. Com evidente emoçào,
i li 1'Voca a esposa modelo que lhe foi arrancada: “Eu era seu
inioi, da era minha querida..., a alegria deslumbrante de meus
■'lln , meu escudo contra todo incôm odo..., minha varinha de
••nda.» , meu mais precioso tesouro... Ela era boa e pura”
n .ip l\ c IX). Na literatura alemã da época, é um raro e belo lou-
. "i do anu >r conjugal. À Senhora Morte (seria preciso traduzir por
•' ulior Morte" já cpie o termo é masculino em alemão) não se
pino, upa com as réplicas que lança duramente durante o diálo-
g' • l >i acusada, ela se transforma em acusador arrogante e cha­
ma .eu Interlocutor de “imbecil”, lançando um argumento de
bom sensi >":

M)(>. A respeito do Lavrador de Bohème remeto ao artigo muito bem infor-


m.ulu dc KULPY, R. M. “Dialogas mortis cum homine. Le laboureur de Bolló­
me et son procès contre la mort”, em Le Sentiment de la mort..., p. l4l~167.
Muito estudada no exterior, esta obra permanece ainda pouco conhecida nos
países de língua francesa.

ir>r>
Si* desde .1 época do prlmrlm hollieni (|lu- lol modelado em
arglla, nos n.lo llvé.s.seinos <oiiliolndi>o i icvi Imetilo e .1 imiltl|)ll
c'ík .io iliis pessoas sobre a lena, dos .mimáis e dos Inseios nos
desellos e nos bosques selvagens, dos pelxes lúbricos e cobertos
de escamas nas águas, por causa dos pee píenos mosquitos nin­
guém poderla existir, por causa dos lobos ninguém ousaria sair;
os seres humanos, os animais, todas as criaturas vivas se devora
riam entre si porque haveria pénúria de alimento, a terra lhes se­
ria demasiado exigua (cap. VIII).

A Senhora Morte observa em seguida que ela tirou a espo­


sa do lavrador em 1400, portanto, no curso de um ano santo: sua
subida ao céu lera sido imediata (cap. XIV). De qualquer modo,
a grande eeifadora se declara “criatura de Deus” e trabalha para
ele (cap. XVI). Ao camponês que se obstina em defender o direi­
to de todos a vida e a alegria, ela replica recorrendo ao clássico
iiseñal misógino; a mulher é podridão,50" e é imoral (cap. XXIV
e ' Allí) Seg.iindo <> roteiro habitual dos debates da época, a
qn< n ía i. imliia Alant e do tribunal de Deus que não dá razão a
le iihiint A. o pn a.uv mi stas o lavrador tinha sua esposa não como
la i un i mas ,i . Mino empréstimo. A Morte se gaba de sua po­
li i" i i m is ' Ai s i a urebeu em concessão, “ela se vangloria de
....... I" .A- i que n.io a ni por si mesma”. Resta que “cada homem
i loi.’ ido a A ii sua vida a morte, seu corpo à terra e sua alma
i i io 11 i p \ X X I 1 1 ).
I iluda a M o i i e que se vê - em pleno trabalho - no cu-
il" 11 pin ma l \lorlr</<i maçà, que data de meados do século IS
' I■o |u•a a\mímenle Inspirado em muitas seqüências pelas ima
gi ns i seisos da roda dos mortos do claustro de Amiens, pinta­
da poi volta de I4S0 e destruída em 1817.-50* Quanto ao diálogo
q u e ele contém entre a Morte, a mãe e o filho que vai morrer,
ele provém das mais antigas versões literárias - latina e alemã
da dança macabra.50! O vínculo entre esta e o poema é então cer­
to. ( )ra, neste último, a Morte mais uma vez é personalizada. Ida
nasceu no momento do pecado original. Munida de três flechas

307. ( -f. a citação inserida p. 58.


308. Editado por KURTZ, L. P., New York, 1957 e estudado por MON
TlíVBRDI, A. "Le Mors de la pominc” cm Archivum romanicum, 1921,
p. I 10 134.
309. ROSENÍMU.D, H. fiic inilirhillnlnlu , , p. ívi

15(1
< do slnetc de Deu.s, < l.i re( ebeu iodo poder sobre os homens,
Non .i vemos entilo em .iv.io, ajudando Cairn a matar Abel, gol
|te.nielo o papa no meio de sua corle, o cavaleiro em pleno com
bale, a moya diante do espelho, etc. H a mesma concepção tía
Morte, soberana implacável, exposta nas ¡loras de Simón Vostrc
i IS l J ). No impulso do modelo constituido pela Morte da maçã,
0 desenhista de Simón Vostre multiplicou variações e achados: a
Morte l a / o pedreiro cair do andaime, ajuda o bandido a malar
•na vitima... e o carrasco a enforcar o bandido!-'10 E. Male julgou
•oin verossimilhança que Ilolbein conheceu as obras francesas
que acabamos de .mencionar. Porque sua “grande dança maca­
bra" na realidade se afasta do estereotipo clássico e constitui me
m »■. uma dança do que a justaposição de uma série de cenas do
■vMielo aquelas que já se encontravam na Morte da maçã e ñas
lloras de Simón Vostre - e outras que ele inventa: a Morte que
i|ii(la Adáo a trabalhar a ierra, que acompanha a imperatriz ao
passeio, que anda ao lado do lavrador e atiça seus cavalos As
■luí a Morte personificada das mais recentes iconografias ma< a
bus vinha de um passado antigo. E, finamente, colocando nos
denlio do ponto de vista do publico de antigamente, nao cabe
1 i ei distinção entre danças dos mortos e dança da Morte, llm
l* siemimho e aliás formal a esse respeito: do beneditino John
I \de,ale que, vindo á França, viu o afresco dos Inocentes, discu
ilu sua significação com os clérigos parisienses e traduziu seus
\•isMs em inglés. Ele compreendeu esta dança dos mortos como
uma dança da Morte. Prova disso são suas traduções das diferen-
i* s lendas: "Primeiro, a Morte diz ao P a p a ...”. “A Morte diz de
ni >\o ao eremita'...”, etc. Para Lydgate era mesmo a Morte como
tal que se dirigia aos vivos.

Ilolbein tomou muitas liberdades com a dança macabra.


I .si termo não figura no título de sua publicação de 1538 ini-
iMulada Os Sim ulacros e histórias diante da morte, tanto ele­
gantemente / tintadas como artificialm ente im aginadas. Ele
ia igualmente ausente das versões latinas e italianas de sua
obia e aparece somente em certas adaptações alemãs nas quais
i« auge a expressão TodtentanzM Do mesmo modo, a D a n ça
nhhahra de Berna pintada por Nicolás Manuel Deutsch em

tl(). Sobre tudo isso, cf. MALE, E. LArt..., p. 378-380.


til. KURTZ, R. L. The Dance..., p. 195-200.

ir>7
I >l() liiO (e destruída em I0h0) no pan fílmenle m civiv esse
nome A<|ui j.i nao oslamos mais diante <ln <l< *,li11• contínuo e
ritmado dos p a r e s - um vivo c um cadávei associado mas de
uma galeria formada por cenas diversas. Muitas vezes os per­
sonagens estão agrupados: o papa com o cardeal, o imperador
com o rei, o cavaleiro com o jurista, o soldado com a prostitu­
ta, Num quadro terminal, vemos a Morte, com o alfanje numa
mão, um arco na outra e a aljava repleta.'Diante dela, umas
vinte pessoas dos dois sexos e de todas as idades estão esten­
didas pelo cliào, atravessadas de flechas. À sua esquerda, uma
arvore parcialmente rachada em seu eixo suporta alguns enfor­
cados. Inovação maior: o pintor assinou a obra e representou
a si mesmo com pincel, paleta e tento de apoio. Ele está reto-
( ando o seu trabalho. Um esqueleto, segurando uma ampulhe­
ta, apresta se a interrompê-lo.512
(.Miando Nicolás Manuel Deutsch realizou essa composi-
i ao, a Uelorma ainda não tinha triunfado em Berna, mas a re-
\olta d< fulcro ja linha com eçado e era intensa a fermentação
e 111*i• i•.a países germánicos. Daí o anticlericalismo viólen­
le 1111• * ‘quilín ii* ia obra mu artista que se tornará protestan-
i. o pul u d Ir. 11 <l< próprio em dialeto bernense o texto das
l> to uda 1 I I* * ..............I*» de falecer o bispo confessa: “Como um
............... ........... i o rebanho. . , ”. A Morte grita a um grupo ele
............... ■, .a* * lo bos vorazes disfarçados de cordeiros”.
i <•- p ................. ... com o um ídolo sobre a sédia, ela arranca
....................li* i liaia c a estola. Ela puxa sem cerimônia o pa­
utan a pi l*i * o i d a o do chapen com o se arrasta um animal para
' * mal ni* uno. ele. Nicolás Manuel Deustch levou ao limite urna
allí a d o * leio ha muito tempo presente nas danças macabras.
\o p adre “que comía os vivos e os mortos”, o esqueleto de Gu-
yot Marchant anuncia que ele será devorado pelos vermes. Um
p o m o mais a esc|uerda, o companheiro morto do padre diz a
este ultimo: "Recomende a abadia a Deus. Ela o deixou grande
e gordo; c o melhor a fazer: o mais gordo será o primeiro a
apodrecer”. Mas esse anticlericalismo em Guyót Marchant, do
mesmo modo que em Nicolás Manuel Deutsch, revela um vivo
desejo de ver a Igreja se reformar. Ele nao retira nada - pelo

.ti 2. Sobre a Dança macabra de Berna d, noiadaincntc BEF.RLI, C. A. l e


IVintre ptdle N. Manuel et l'ivolution m ía le de ton tenips, Gciiève, I953,
y . IN S I I, I’. D erBemerTbitniany.de.t N. Manuel. Itc inc, 1953.

IhH
lonlrarlo d o filio de <11u • ,i dança macoI>ra era um m t m i . u i ,
I .«» e visível ate* mesmo nas suas’ transformações mais impor
lames e artísticamente mais hun sucedidas Ilolbein e Manuel,
lanío um com o outro, integram à sua com posição cenas repe
•enlando o pecado original e o julgamento final. C) primeiro
a. uscent a a criação e o paraíso terrestre, o segundo, a recep
>.i*» ilos d e / mandamentos por Moisés e um pregador seguran
•l<> um crânio.
I .ss.is imagens, enquadrando as cenas macabras propria­
mente ditas, dão a elas seu verdadeiro sentido e devem evitar-nos
i nuil a sensos de leitura.

ir,!>
cap ítu lo X

ambigüidade
do macabro

,i llanca macabra: um sermão


(.Mu .r. danças dos mortos (ou da Morte)-estejam pene-
n id,i di humor negro explica-se pela dupla lição que elas
|u. iiam mlnlslrar: a hora derradeira chega de repente - daí uní
I"' <i|\i I i'IHlo côm ico de surpresa: ela atinge igualmente jo
■n ' m Ihns, ricos e pobres - daí o gesto de ridícula revolta
i n 111• I* qiif se julgavam protegidos pela idade, pela posição,
mi i" la l<xilina Mas a ironia, sublinhada pelo sorriso malicio-
" d. ■ada\eres parcialmente desdentados, será que chega até
i tilia .ni lab I.ssa afirmação já foi feita, mas parece apressa-
I i di mal'. 1 I cerlo que a morte aparece menos temível para os
i" *111* un' d. * que para abastados. Esse traço é urna constante
d i i. nii"v,lalla macabra dos séculos 14-16, já visível no afresco
i 1 un) ••• '.auto de bisa onde miseráveis imploram (em vão) à
Mi ai. 11111 se dirija para o grupo de jovens ricos despreocupa-
I" Ma l>,nii)<i de (iuyot Marchant, o cadáver que se dirige ao
111 i ii l"i i ll, l',m penas e cuidados / Viveste todo o teu tem-
I >a moilc* deves estar contente / Pois de grande iiiquie-
111 I» i» Ihia" A cena XXXVIII dos Sim u lacros... de Holbein
ii . . ula um cadáver animado, solidário com um camponês,
ii m .iluda a cavar o último sulco enquanto os raios do sol
i .a- iluminam o horizonte por trás da igreja. Em com pensa-
I mi quando as obras macabras, e notadamente as danças, co ­
lín (nu ii<< >., glandes, homens de Igreja e jovens em face da

i M \l I I / '. li/..., p. 366 s.; H U IZ IN G A , J. L e D éclin..., p. 150. Há mais


...i m i . . « ni SAI K ¡N IKU X, J. Les D anses..., p. 20, e sobretudo en vC O R V I-
>IH* \ I .i I )nnsc..., p. 51.

mi
Morir, o,st;i tem sempre ;i apaiénc l.i *l« ,irru ir » rl mi no,su" exe
rulot dos "mandamentos" divinos.
Sera que por isso os pobres e lodos os infelizes iulerpre
lavam essas com posições com o uma futura desforra? Será que
vlam algo diferente do ensinamento constante do Cristianismo
o p o n d o a morte pacífica de Lázaro à morte do man rico, como
as apresenta em Estrasburgo um quadro de 1474: aquele que
mendigava é recebido no paraíso, aquele cine comia regiamen
le, cercado de mulheres e de músicos, é vítima do demônio?'
bol dito na obra anterior a esta que os missionários do interior
no século 17 clamaram contra os abusos dos ricos, mas contra­
riamente a inúmeros vigários de paróquia, se colocaram sempre
d o lado d o poder na hora das revoltas.2 35
4Eis ai algo que esclare­
ce retrospectivamente as danças macabras. Elas prometem a
Igualdade, mas depois da morte. Quanto ao presente, elas con­
servam cuidadosamente as hierarquias no lugar e ordenam os
I >• i .<m agiar. can lunçao delas. Nào sào estas corno tais quç elas
• .llginail/.iiii lol l)<ais quem as quis - mas as ilusões derrisó-
ii i •111« i liMiirarla'. i’ o dinheiro provocam entre os abastados.
I mi.......... daiKas m.a abras nao sejam uma denúncia dos peca-
di is i .ipil ii diils 111*11 s porém se encontram constantemente vi-
lip. iul11.1............... .sillín i a aipíilitas (com seu subproduto a
...................i , .......... .. o primeiro dos pecados capitais. Quan-
ii i i 11111,111,1. i tija Importância ia crescendo numa sociedade
■ ni i n mal ■ iii.inla pelo luxo e pelo dinheiro, ela se tornou
um 'l.. ili n , p iiiu lp a ls dos manuais de confissão è outras su-
lililí d • i a s o . de c'< nesciencia,'
'.nb p< na de remontar no sentido inverso das idéias feitas,
«' pn i Isn Insistir sobre a pedagogia crista que a Igreja quis incluir
na dam .i macabra. Para E. Male, “despojada de seu comentário,
nao conserva a bem dizer nenhum caráter propriamente cristão",
ja que se contenta em ilustrar cluas verdades que não são espe
clalmenle religiosas: a igualdade diante da morte e a rapidez dos
golpes que ela deslere.s Dentro do mesmo espírito, J. Iluizinga
lazla a pergunta: “Será realmente piedoso o pensamento que si*

2. Musen da cidade. Quadro da Escola renana. Reprod. em TEN EN TI, A.


// Sniu)..., pl. 17.

á.DEI.UMEAU, J. LaP eur..., p. 187.


4. ( 4. a seguír, p. 240-255.
5. MÁI E, lí. l.'Arl..., p. ,180.
apega tilo forlemenle .ni Lulo terreno da mortc?”.” Prolongando
essas análises e levando as ao lliliitc, A. Tencnli vé no macabro
dos séculos 14-16 as danças incluídas - uma deslocar ão dos va­
lores adquiridos, uma "inversão do esquema cristão”. A mortc
nao c mais uma passagem, mas fim e decomposição. “Aqueles
que antes eram cristãos reconheceram-se mortais.” “Uma inversão
da significação tradicional da morte foperou-sel através dos mo­
tivos que pareciam mais ascéticos.” Os sarcasmos macabros, par-
<I.límente inspirados pela sensibilidade cristã, na realidade afas­
tam se dela." Pb. Aries contesta a oposição assinalada por A. Te-
nenli entre uma alta Idade Média cristã que teria insistido sobre
a morte com o antecámara da eternidade e o período seguinte em
que ela se teria laicizado. Mas ele concorda com seu antecessor
para considerar que nos séculos 14-1 (5 “as imagens da morte e da
decomposição não significavam nem o medo da morte nem o
medo do além - mesmo que sejam utilizadas para esse fim".' I
Saugnieux afirma por seu lado que “o século 15 nem sequer con
sidera mais a morte com o uma consequência do pecado”. A con
eepçáo das danças macabras “é ainda cristã, mas de maneira mais
exterior que real. O coração do homem apega-se a uma visai>da
qual toda transcendência está excluída”. “O tema da morte e, de
maneira mais precisa, o da dança macabra, tende a substituir o
lema do inferno.”9 Para A. Corvisier, “o propósito moralizado!"
dessas obras Ias danças macabras] se anula diante da expressão
realista do pavor diante da morte e do seu inevitável companhei­
ro: o áspero sabor da vida”.10Enfim, J. Wirth estima que a dança
macabra “não passa nunca de uma síntese instável de crenças po­
pulares, até mesmo pagãs, e de conteúdos morais acessoriamen-
te tingidos de Cristianismo”.11

Semelhante consenso não deixa de impressionar. Daí a


questão que colocaremos em seguida: o macabro não fugiu de
•.eus promotores? Mas será que os historiadores, sobretudo fran-
i eses, nao têm tendência a “ler” de maneira demasiado moderna

6. HUIZINGA, J. LeD éclin ..., p. 144.


7. IT.NENTI, A. La Vie..., p. 37-38, 88; IISenso..., p. 135, 141, 147.
8 . ARIf.S, Ph. Lhom m e..., p. 131.
l). SAUGNIEUX, J. Les D anses..., p. 97, 108, 118.
10. CORVISIER, A. “La Danse...”, p. 40.
I I. WIRTH, J. La Jennefilie et la m ort, p. 166.

Ki:i
c demasiado luli .1, quando se lula dl um discurso oriundo da
Igreja e propagarlo por ela? Noa vlm<»?. suas rai/c , nu masticas. I•
ria regamos agora sua difusão piias danças dos morios (ou ila
Mono). I'. Male c seus sucessores diados anteriormunte cíala
mcnle reconheceram o papel desempenhado nesse sentido pelas
ordens mendicantes, lí. Mâle, em particular, atribuiu lhes a inven
ç,ao das d arlas macabras e escreveu justamente: “I'ora eles que
ronu\ar.ini a assustar as multidões falhando-lhes da morte”.'• As
pesquisas ulteriores, fora da França sobretudo, corroboraram essa
allimaçao e permitem agora medir melhor a amplitude do lenô
iiicnii esclarecido aliás por uma contraprova. A boêmia nao co
nheceu dança macabra antes do século 17. Foi sem dúvida em
ta/ao do papel desempenhado nesse país pela corrente hussita.
Jean llus e seus sucessores criticaram a Igreja católica por ter
abusado do espantalho do inferno. Segundo o Reformador, os
pudres davam a entender em seus sermões que eles próprios e o
I.apa |hidl.im mandar os cristãos para o inferno.13 De maneira ain
da mais slgnllh allva, Jakoubek de Stirbra num sermão de 1416
1111111<.ti t i Inl i ni(» e destinado aos diabos,'não aos homens... e
•i dial ••i i |ii« enlia no-, Inlernos, nao os cristãos”.1'N essas condi
. pita <|ti« a .tisl.u as pessoas com danças macabras? listas,
ti i Mm* i i a i, m \ I. iam a tona uni) a Reforma católica.
■ u 11.............. tan i* petli: a dança macabra era um sermão.
I 11 n a. pi. i. udla .. i estellca mas didática.15Será que foi por aca
tu *n i . •■ . sua paternidade foi atribuída a Gerson? Com efei
i •. is ■ .11•■l• di is Inocentes figuram num manuscrito de 1429
...... . ndi. i.bias di. grande universitário, que foi célebre em sua
. ........i I inibem como pregador.11' lintão, nada mais natural do que
...... .idcia Io Inventor da dança macabra. Esta provavelmente é
mais antiga. Ora, nas versões latina e alemã que 11. Rosenlcld
data do século 14, o desfile dos futuros defuntos é enquadrado
poi dois pregadores, um abrindo, o outro fechando com um ser
ni.ii) a procissão fúnebre. Além disso, o manuscrito latino, que

12. MÁl .li, E. LÁ rt..., p. 354 e 362.


15. Devo esta indicação e a seguinte à amabilidade de Josef Macek. A<|iii, |.
I lus, SermonesinBcthleem, 1410-1411,éd. V. Flajshans, Prague, 1941, IV, p. 19
14. Sermão de 1416 publicado em Praga em 1951, f " 64.
15. lim ARIES, Ph. LH om m e..., alusões somente a este aspecto pedagógico,
p. 1 12 I 13. 1 16, 125 e 139.
l(i. Opinião ainda mantida por RAl’1', li "I i Rdorme i d i g i c u . s e . p. 39.

I (VI
Im*n l« ii .sc*11 aeompanlumenio Ilustrado, traz no 1'inal .1 Indlcaçan:
Ilu is <laclar U > segundo pregador) depídus predicando in ap /ia-
dia fiarle de contempla m undi
No começo, o laten tanz apresentou-se sem ambiguidade
...... . um sermão sobre esse lema. Igualmente, o texto da Danza
ilc lii morí calalà do século 14 traduzido anteriormente começa
|ioi c a.i formula evidentemente escrita por um homem de Igreja:
111 c|ul.s Halar do desprezo do mundo...”.18O pregador na cátedra,
r. vezes chamado “o ator” 011 “o doutor”, cuja homilía precede a
dança propriamente dita, encontra-se ao longo dos séculos 15-16
lanío no escrito ('publicação de Guyot Marchant, D ança general)
Mimo na Iconografia (danças de La Chaise-Dieu, de Basiléia, de
I tu .hurgo, de Berlim, de Lübeck, de Reval, de Ulm, de Metnitz,
■ in de herna).10Pssa constante é significativa: o pregador desem
penha na dança o papel comparável ao do eremita que, desenro­
lando seu pergaminho, narra o exemplam dos três mortos c dos
II< . vivos, Além disso, dentro da procissão, às vezes são introdu
/Idas alusões às pregações sobre a morte. É o caso no texto de
1 .uva >l Marchant em que o parceiro do franciscano diz a este: "lie
qüenleincnte haveis pregado sobre a morte...”. A tradução ingle-
a (de l.ydgale) amplificou essa interpelação da seguinte maneira:
‘•enhol franciscano, para vós minha mão está estendida para vos
••'in lela 1 para esta dança e vos conduzir a ela', vós que haveis tan
ias vezes ensinado o quanto eu sou temível para as pessoas que,
1 nliet.mlo, nao prestam atenção”.20
Um beneditino catalão do século 14 compôs as palavras
qm acompanhavam a D an za de la morí. Outro beneditino, o in-
gl» • l.ydgale, impressionado pelo afresco e as estrofes dos Ino-
m 11I1 s, levou a dança macabra para a Inglaterra. A de La Chaise-
I >li 11 eiici>ntrava-se numa abadia beneditina. A Capela de Ker-
I ui.i dependia da Ordem dos Premonstratenses. Os Mendican-
i' n.10 tiveram, portanto, monopólio nesse domínio. Seu papel
nln lanío foi essencial. Certas danças fazem referência expressa
i" liniao” encarregado da pregação sobre a morte, mas sem pre-

— I-------------- • jí
I ROSKNFELD, H. D er m ittelalterliche..., p. 65-67, 323 e mais geralmente
l>. 308-323.
I8, <:f, anteriormente, p. 86-87. •
I') I1 i.ilvcz um acréscimo à obra de Nicolás Manuel Deutsch. Há razões para
i ici t|iic em Kcr-Maria um “ator” abria a dança moderna.
( ütado cm CLARK, J. M. The D ance..., p. 94-95.

165
chili .siui ordem , N;i /kinça ucnenil, .1 Motie, no fim de mm pil
meli,l intervenção, Interpela assim n.s <»ii\ l n l « ., Se n.m Vedes
o Irmão que prega / Sede ao menos ;ilento ;io <|iie ele di/ em su;i
grande sabedoria". 1 Nesse ponto intervém o pregador c|iie aium
« Ia o conteúdo do poema. Logo a Morte retoma a palavra para
dl/ei principalmente: "Como o Irmào vos pregou / Deveis todos
la/ei penltèiH ia”,'" Essa D ança general apresenta-se, então, como
0 sermão de um mendicante. Muitas vezes, é possível determinai
a Identidade de sua Ordem. II. Rosenfeld, armado de imponente
documentação, esforçou se para mostrar que os primeiros textos
(latim e alemao) de dança macabra provinham do Convento
Dominicano de Würzbourg. Os Irmãos pregadores em seguida
contribuíram amplamente para a difusão do tema do qual os lian
císcanos por sua vez se apossaram, modificando um pouco seu
espírito ' l'ietivamcnle, os dominicanos, que estavam provável
men|e na origem dos afrescos do Campo Santo de Pisa, enco
iik ndaiam as danças macabras de Basiléia,2'' de Estrasburgo, de
Iteina d< <ativ.lança, de landshul (no século 17). Eles teriam
a* l>i pi n l .m i l ph >111<ili >K". <• depois ativos difusores.
Ma1 i •on< oriunda 11.mcisca na é fora de dúvida. Nos dois
lila. I hn, /-, i i Im ati" . I IDO. o dea imo primeiro personagem (vivo)
d i pi'M ............... I...... . monge esta vestido de franciscano, enquan
1 ....f •Inm• •ioiin Io • o mau monge - usa o hábito dominicano.
■ ■ h un i . ui" d< ,dt a época do seu fundador, quiseram pregai
• m/<in\ h u i ihII I eini >s ni >s Viorcttí esta frase que poderia ilus
...................... til de \irias danças macabras (o pregador na cate
di n l litan '.ao I iam Isco subiu na cátedra e se pôs a pregar ma
i ........... mi* ule sobre o desprezo do mundo,,.”.2S Muito cedo, os
I i .iih lo anos associaram imagens da morte e pregação ascética, So
Ini as pared* s (la igreja inferior de Assis, um afresco representa S¡'i<>
I i .iik Is i o mostrando um esqueleto coroado. Um afresco análogo
existe na sala capitular da igreja Santo Antonio de Pádua. A corren
le Iranchea na parece por sinal responsável pela aparição do lema
da decomposição na pintura (Igreja Santa Marghcrita de Medí i >e na

,’ t. SALKJNIEUX, J. Les Desuses..., p. 166.


II , Ibid., p. 167.
.’ V Kns.i *( .i tese gcral ilo livro Der miiteLlIterlichc lotcnhinz.
2-1. A<|iidc ilo ccm¡t<fric> anexo ao dausiro dos I'Vades serviu de modelo p,u i
tupíele ilo ( bnvento d.is religiosas iloininii anas di- Kligeiti.il.
26, l'iorclii (Ir uiint Duiiivis, tiu«I, Al, M r. .' mu, l'aiis, Senil, IP‘>A. p, HH.

Mili
' ■ulUii.i (o "leiii.ul( >i (l,t catedral de Estrasburgo) desde o último
i Hi.111*■I do século 13, assim como do corpo supllciado de Jesus. "
M.ils adiante no século 17 - são geralmente os franciscanos (in
i lu .lvc o s c apuchinhos) que, cm capelas contíguas a cemitérios sob
•tia dependencia, imaginaram em Roma, Nápoles, Palermo, íívora,
<i< , pilares completamente recobertos de tíbias, arcos de abóbadas,
11is.it ims, c apitéis, retábulos inteiros constituídos de crânios, e en-
t lieiam galerias subterrâneas de cadáveres em pé, ressecados em
■ii hábito mortuário e enfileirados por categorias (os padres com
<ii barrete, os enforcados com sua corda, etc.).
Voltando à dança dos mortos, lemos no Diário de um bur-
iR/es de Paris que em 142Í9 Irmão Richard, franciscano célebre,
piegoii oito dias seguidos no cemitério dos Inocentes “do alto de
um cv.Irado de quase uma toesa e meia de altura, com as costas
v■lilailas para o ossuário, de frente para a Charronerie, no local da
/'i///c a macabra.- Km 1453, os franciscanos de Besançon, em se
gulda ao seu cabido provincial, fizeram representar a dança ma
iubi.1 na Igreja Saint-Jean.28 Na Marienkirche de Berlim-Leste, o
pn i-ador <|ue fala da cátedra no com eço da pintura mural da tor
n •• um franciscano. Franciscanas são também as danças de Augs-
burgo, Hamburgo, Bad-Gandersheim, Friburgo (século 18). I I. Ro-
■nleld percebe nestas últimas um espírito menos escolástico,
mal' pielista e mais democrático que nas danças de inspiração do-
mlnlc ana: a cupiditas aqui é mais fortemente denunciada;29 a cruz
'M i rueifieado, colocados no meio da composição ou numa das
■ m mi< lacles, explicam ao fiel que o pecado e a morte foram ven-
■idii'. pela redenção. Essa referência imagética ao Calvário, carac-
i' n-.ilc a das danças franciscanas da Alemanha do Norte, se encon-
na na ll.ilia: em Rinzolo (1519) e em Carisolo (1539)í30 Uma mar-
* *i bem franciscana aparece igualmente num poema italiano do
iim di * século 15 ou do início do 16, o Bailo delia morte,*1 ampiá­

is. C i IIIIAIA, P. Les Idees depéren n ité..., p. 56.


.VA Jou rn al cl'un bourgeois de París à la fin de la guerre d e Cent ans, ed. 10/18,
l'nria, 1963, p. 106.
.’H. MÁI .K, K. L'Art..., p. 362. CANGE, Du. Suppfément, à palavra M accha-
biieonon chorea.
"i. |<( ISI.NFELD, H. D er m ittelalterliche..., p o ta d a m e n te p. 203 e 252.
H). Ikiil., p. 176 c 212.
H M : n. 1.510 na Riccardiana de Florença. Editado por P. Vigo, Le D anze
inaciibrc i ti Italia. 2. ed. Bergame, 1901 (apéndice).
mente Inspirado oa dança dos Inocentes, mas onde o .mlor, evl
dcntemenlo membro da ( >rdem *l«• sao linnclsco, Inseriu uma
viva <ríllca da alia Igreja. () arcebispo <|iie se julgava um sanio e
mandado ao Inlerno. O cadáver que o acompanha Ironiza dl/en
do: "os beneficios sao concedidos aos prelados para permllli lhes
uma vida dissoluta”. () patriarca tem direito a serias ameaças
"Sala, asseguram lhe, já mostra suas garras". () padre, que |á sal
vou Inúmeras almas, recebe porém uma severa repreensão de seu
macabro companheiro que, identificando-se a ele, declara "I u
queria ser o último dos Irmãos m enores... Nao deixarei o ceilo
pelo Incerto". () padre concorda - "vós dizeis a verdade" c se
recomenda ao perdão divino. Inversamente, o franciscano lean dl
relio a todas as atenções, ide é qualificado de "servidor de- <aíslo"
e Ihe e prometido o paraíso.'- Nenhuma dúvida, por conseguinte,
sobre o lato de que dominicanos e franciscanos rivalizaram can ai
d<H p.ua popularizar o lema da dança macabra com uma IIna Hela
de evidente ele instóle ao dos fiéis. Os Agostinianos, can compelí
a< a*, pi >ui o o < \ pioraram, embora a dança de IMnzolo ( IS.V)),
h" InailliiM 11 idia sido pintada no muro do cemitério de urna
lm> |a d* no 'iilaulia perteiu ente a ( )rdem.

inac abro e ressureição


I' i liaunu |ulga que a emergencia literária e iconográfica
di. i ufe •a i ui decomposição estava ligada “a uma vontade pe
•lar.' 'eli a indlssiíclável de>julgamento (individual)”. AntericMinen
n a Igieja 11nini Insistido sobretudo na ressurreição - corpo e
aliña dos balizados, líssa ressurreição global era invocada ñas
representações do julgamento final. A prom oção do "cadávei e m
decomposição", pelo contrario, relegou a urna zona nebulosa a
ressurreição final e den realce ao julgamento individual da alma,
logo apos a morte. I’ara que essa "antropologia das almas .1 pa
radas pudesse.se desenvolver foi necessário matar o corpo" A in
vas.io do macabro loi, portanto, inseparável do “desgaste da res
stirrelçao e do julgamento final”." A mesma tese ja tinha sido de12

12. VU ¡(), P. I.e Ihin&e..., p. 112 l’M. CI.AKK.J. M. Ihc IXmre , p V)


MCIíAUNU, \\ l a Morí ,) Parh, VI7. .VIVA, XVIH' M i l’u.m I ..c mi
l ‘)78. p. 2-U) .M‘).
•nvolvlda por Eh. Ai'lés ¡liguas meses antes de E. (lluuirui: "De
pol-N tío sisnlo I i, escrevia ele, o lema do julgamento final nao
lol toialmenle abandonado: nos o encontramos nos séculos IS e
|u na pintura de Van Eyck ou de J. Bosch, no século 17 ainda
0 p11 r ali (Assis, Dijon). Entretanto, ele sobrevive com dificulda-
di perdeu Mia popularidade e nao é realmente sob essa forma
1|iii Imagina o fim derradeiro do homem. A idéia do julgamen-
i" .1 parou se então da idéia de ressurreição”.3,1 Com .esses dois
In Mi ai adoics, cu penso que, a longo prazo, o resultado dessa pe­
dan,'»t'la <lerlc al loi realmente esse que eles destacam: os cristãos
i- ih.uum se nao por esquecer, pelo menos por subavaliar essa
n a..... . corpo e alma - que é “a originalidade profunda do
p' iis,miento cristão”, que promete ao homem “ura destino com-
j> 1•n > li na d< > lempo”.3'
( ontudo, minhas reservas referem-se tanto à trajetória
•"ino a cronologia que levaram a essa obliteraçào da primeira
nu ns es m i l ista. Estes desenvolvimentos do meu livro já estavam
• ■i ir is quando apareceu o artigo de Aaron Gurevic sobre "As
luíais ns do Além".3" O autor assinala justamente que a literatura
n ll(i|i is . i medieval, tão rica ém exempla , é repleta de historias de
i mi i anas que voltam momentaneamente à terra depois do julga
nu nu' Individual que os destinou ao inferno ou ao paraíso. O jul-
........ iilu Individual está, portanto, onipresente no discurso ecle-
il i ir '• ineilleval. Ide coabita com a preocupação do julgamento
i" ul I lm nao exclui o outro. Não é o caso de opor um ao outro.
lao < . onveniente também dissociar macabro e julgamento final.
Vlinos anteriormente que o discurso monástico sobre o
d. pu /<) do mundo associava a desvalorização do corpo e a pers-
p' ' th a do /)/e.s iraeP Esse vínculo reaparece em seguida na lite-
i unía da época macabra em Jean Régnier, Eustache Deschamps,
.........i-' •< haslellain e outros. Do mesmo modo, a representação da
i ih ionio cavaleiro irresistível ou como ceifeira impiedosa
i- ■'iiip mhou íreqüentenlénte a iconografía do Apocalipse e do jul
i(atin uto linoI. ’’ Enfim e sobretudo, o fim dos tempos (e, portan

' i AKIIS, IMi. l.'Homme..., p. 109.


' ■ I \|n< v.noN de CHAUNU, P. La M orí..., p. 246.
W>, <.t IKlíVK , A. “Conscience individuelle et image de i’au-dela em Atiná­
is I S.C., março-abril 1982, p. 255-275.
t ( I. .interiormente, p. 56-57.
01 |<( ISKNI I'.I I), H. D er m ittelalterlicbe..., p. 14-15.
lo, .1 ressurrelçai) geral) ful pintado, cm ulpldo, i le.se i lio e anniu l.i
do m.il.s no decurso dos sei nlos I í Id do c|iu* durante .1 Id.ule Me
dlti classica.'” Prova disso, sem duvida, sao as grandes composl
çoe , de \11>1, de ( )rvieli >( 1,11<.1 Slgni>relll), d.i Slslln.i, de R, V.m d« 1
Weyden (em be.iune), de ,|. V;in P'.yck (no musen de I I\rmllage)
de Memllng (em < Id.msk), mas i.mihem e i.ilve/ sohreludo as p<
■ 111• na • o bras i i i o v I ih I.lis consagradas ao julgamento lln.il " N.l
N011n.o 11ti. 1, li h.im contadas para os sáculos 12 I,S, d para o I 1
n p.ii.i o 1 ' I(1 |i.ii. i o Id c unía do iníeio do 17. ( )s ni imeros es
l,i' •di u o íd o 1o n i o siil ila Prança. “Por mais c|iie se p<)ssa esl í a
pi'l.ii ' •1* \* Mli lie| Vovelle, a partir dos dados numéricos d< 11111
■ ,Im i |ih • vldenlem enle residual, sáo o século IS e o in icio do le
<|iii is l’iiem ao lli .leselmentó di >s julgam entos fináis: -e> 1 asi»s en
le ’tii, < tnp 11 n i<> 1 de/.ena d i1 exem plos anteriores malí» a iiiin
1 lam o lema do <|ue o desenvolvem”.11 Nos vilrais bieldes, os jul
g.míenlos fináis se multiplicam no século Id.
Asslm, nao apenas o macabro e a escatologia eolellva nao
foram con o urentes, mas ao contrário caminharam no mesmo ili
um, em pa reí ha ra m- se e declinaram juntos no século 17. <>s 11I11
mus gratules julgamentos finais sào os de Rubens ( lbl(> e I(i2h,
ambos em Muni(|ue). Nessas dalas, a iconografía macabí.1 ja 11
nha peí dido Impulso, Inversamente, é revelador que Irmao Id
•luid, qiu pregou dlanie do afresco dos Inocentes, lenha dih •
mu i .pe» 1.1I1 .1,1 dos anuncios apocalípticos, listes espalhai.un
pela I un ipa 11.1 epoi .1 1 llamada da "Renascença” e noladanienii
n 1. p1* !i , pai .< . Meinaulia, I*'rança, Inglaterra - onde as dam is
mai alna ' niulllplleaiam. ( orrelaçào notável: os túmulos ruin
Huilla.......... minios ( iii decomposição, conservados ou assina
l i d " , ' si a 11 loi all/ados essencial mente nos países em que as I»
I........ .' id 1I1igli as l<irniii as mais f<irles e as mais duráveis 1li 1 .•
•11lo I ' .10 17, A geografía desses túmulos, segundo Kaihleen
Cohén, e m m eleito a seguinlc: Alemanha, .Suíça e Países Pal
mis , '>7 ; Piança, d i; Inglaterra, l id.1' Nota-se a ausencia da I spa

. 19 , ( T. o cap. VI de i d P a ire n Oecident “I.’Attcntc ele I >icii",


K), I ( H JRNI'.I'., J. Le Jugement dcrtder d'aprh /<• vil M il de <'m ildnn•<. I'.iui
l%4, p. I(j 6 167.
11. ( V O V Iil.U ', M. Vision de Id morí el de l'au dclh en Provem <• l'.iiH A
<'nliii, 1970. |>. 14. ROQUÍÍS, M. i es P ein tu m inundes du Sn d í 'm de Id I mu
ce, l'.uis, I9(>S, MRSURI I', R. Ie s P eintum murales du Sn d Out\t de L I mu
ce du S I un X V i i/é/c. Paris: l’karcl, l%7.
42, ( '( )l IliN, K. Metdmorphmh. ,, p 194

170
nliii i (.l.i Italia1' onde, i'uiiii) dissemos no volume' anterior, as dl
' 1i 11ii mas de m e d o foram no conjunto menos fortes do que
D............ Io d o Ocidente, lí na Inglaterra que a moda dos túmulos
■ 'in te piesentaçòes de mortos em decomposição continuou ate
mal • lili di1 (secunda metade do século 16 e primeira parte do
I o <>i .i. e também neste país que as inquietudes (e esperanças)
i|imi ulipiltus se mantiveram por mais tempo."
A longo pra/.o, a bula Benedictas Deus de Bento XII (1336)
di ' fi la n d o que os justos obtêm a visào beatífica1’ logo após, a
uh nli . -em esperar a ressurreição, e a “oficialização” do purgató-
ii" ' d o julgamento imediato das almas pelo Concilio de Floren-
. . ni I i V), depois pelo de Trento, agiram incontestavelmenle
i "tilia a cm alologia da ressurreição geral. Elas acarretaram o au-
ui', das d o a çõ e s testamentarias para missas em favor das al
.......... •‘.pera e a multiplicação da s Àrtes moriendi. Mas, num pri
"" 111• |. mpi), ocorreu um encontro entre o macabro dos julga
mi.' Ilnals e o novo tema do purgatório. Michel Vovellc de
". li ....... Isso com vários exemplos meridionais. O mais espan
n ii" - d' 1' , encontrava-se na capela dos Penitentes de Tourves, no
' ..........ainda metade do século 16). O fundo do quadro é cons-
ii 1111.1•i p« Io incêndio e a destruição de Jerusalém - panorama
i - ni api" altpllco. No primeiro plano e no,centro, é evocada a vi-
i" di I et|iik'l: as ossadas se reconstituem em corpos. De um
lado e do Outro do painel central, dois bustos, um masculino, ou-
1111 i. minino, confirmam por sinal essa ressurreição da carne. No
un i* i do t ampo das ossadas, que é também campo cie batalha, a
i ui. '. ui Ida ajoelha-se diante de Cristo. O macabro superabun-
II ", i . t im posição bastante ingênua: a Morte com sua bandei- ^
i ín flelos co m ampulhetas com o seus acólitos e, para
inpl' tai, na parte superior do quadro, uma espessa folhagem
n|i m liuii sao crânios com mitras. Mas, no centro da folhagem,
i i' ' lutei rompe* para dar lugar à visão luminosa de um anjo
■i 'Hiendo ,r. almas que sobem das chamas do purgatório.46

i i I'«i.i .i I(.illa u atn-sc somente de uma quase ausência, porque ela tem tam-
....... ,il|'iim,r. representações de mortos: o de F. Uebler (1509 em Merano); o
.1. Antonio Auiat i (fim do século XIV em SantaTrinità de Florença).
I i < I mais adiante, p. 591-601.
i ■ <| | ia )N IMIFOUR, X. Face à la m ort: Jésus et Paul. Paris: Seuil, 1979.
p ." M 102.

i" <, . V( >VI I I lí, M. Vision.... p. 20 e pl. II, 2 (Museu Fragonard, Grasse).

171
I
I vi.i 11>ni|)( >,sk a<>associa, |)( >rl.inl( i, « .111■u.111ii •11u•re.ssui i(•I
Ç.io geral, purgalt>ri<>e Iconografia macabra <)r.i, ela nao e Isola
«1.1 No Inventario das pinturas murais do sudoeste francês do se
culo II .10 l() estabelecido por Kobert Mesurel, sao assinaladas
lies lgie|,is nas quais purgatório e julgamento li nal sao associados
mima mesma composição: em Birac, em Monlaner e em IVrvil
1.0 Nos In s casos, líala se de obras do século 15,' Acrescenlt'
m i Isso <111 Inúmeros textos da época deixam adivinhai uma
■• nladclia « ■mlusao entro julgamento finoI e julgamento parllt ii
t. n I i i onlir.ao <|iic pode surpreender na realidade eompreen
di ' mullo bem sob a pena de escritores que, como Kustache
Is Hliamps, ,n ledli.n am num imlneqie final dos tempos.
\o||.mdo as i lanças macabras, somos levados a difícil ques
1.0 i d c sal um como elas ei am compreendidas, lima resposta plena
menle s.itlslaloila sempre nos escapará. Pon|ue como saber o cun­
os Inúmeros analfabetos da época retinham de imagens cujos co
mentarlos eles nao sabiam ler? Pode-se assegurar, entretanto, que
a Igreja docente nao oferecia apenas figurações de cadáveres a t u
ilosldade mais ou menos malsa do público. Hla dava também a e\
I >1ii .ii, .o ), imlependontemente até das estrofes c|iie acompanhavam
l'ilmelio, (unió ja dissemos, a maioria delas comportavam um pie
u. adoi o i|ii< il.iva o tom. Outras, antes da dança propriamente
dita. a* n .■enlav.uu o per ado de Adao e Eva. Em La C.haise I )leu,
i •ip' ule na añada tem uma cabeça de caveira. Nicolás Manuel
l '■ ui i h ' lian I lolbeln, seguindo neste caso O Morto c o nut^d <
• //••»,/ d< .linón Vo ,in , Inlegram igualmente o pecado original
i a i ........... to Alt ui disso, estes clois "artistas, na ultima se
qiii in la, i oImi am a lesstun*lçao geral. Enfim, a cru/ redentora, \l
i<mn i . i i ibn a moiie. figura em lugar de destaque nas danças de
liispli.ii,,ao |íant Ist .ma, em Hamburgo, Berlim, Pin/olo, ( iarist>l<>
I inib' ni n.io e indiferente lembrar onde se encontravam
os ilii si i is representando danças macabras. Alguns encontraram
lug.ii em palacios, em Blois, em Whitehall, em herrara (palacio
da l\(iy\lono), em (áoydon (palácio do arcebispo), em (loiro (p.i
lado episcopal), Mas a maioria foi pintada em igrejas, capelas ou
cemlterlos (em Paris, Londres, Basiléia, Kernasclcden, Kcr Maria.
Pin/olo, etc,). Portanto, em lugares de pregaçáo. h.niao nao se
pode Isola las artificialmente dos sermões que eram pronuncia

'17. MIsSUKI T, R. /.ei Ptlntum Hiuiil/o . it-Npctlivuinciilc p. 72, ll)M, 10


r 2'IH.

172
d< iNdiante delas, I" ín.in IiInIi mi.i . «Mi i|ii.iiliImIk ),n foram parte cons­
tituinte ele um mal.s amplo ensino .ludio visual t|ue as integrava
na história global da salvaeuo e apresentava a morte corno um
ul» produto do pecado original, devendo ambos ser eliminados
n o IInal dos tempos.
Num trabalho ainda manuscrito, o historiador romeno Pa-
\eI ( liihaia esforça-se precisamente para relacionar o discurso ma-
•abro da Igreja com a .“ideologia” que o inspirou. Ora, esta última
■i nipre incluiu a crença na “perenidade” do homem total num
ilem da morte. A decomposição (provisória) do corpo, conse-
qhencia do pecado, é a passagem inevitável para uma ressurrei-
• ao da carne purificada. Para São João Crisóstomo, São Gregória
de Nissa, Tertuliano, etc., o corpo ressuscitará no estado em que
■•e encontrava Adão antes do pecado. Objetar-se-á que esse oti­
mismo final não aparece na literatura consagrada ao contemptus
niiuidi, invadida pelo pessimismo e que insiste mais sobre a de-
■' imposição cia carne do que sobre seu renascimento eterno. É
m rdade. Entretanto, essa pastoral do medo, por assustadora que
lo v .e , não fez desaparecer o outro ensinamento c]ue afirmava a
i leinld.ide do corpo reconstituído. Vejam-se os grandes julgamen-
lo-. finais dos séculos 15-16 - por exemplo, os de Han$ Memling
(■ ni ( id.msk) ou de Luca Signorelli (em Orvieto) - , neles se per- '
<cbe Imediata mente a ressurreição da carne. Essa observação vale
p.iu iodos os julgamentos finais da época. Ora, eles jamais foram
i. K>numerosos como na época do pleno desenvolvimento do ma-
• ibio, Da mesma maneira, o fiel colocado diante do admirável re­
tábulo do Cordeiro místico ele Jean Van F.yck em Saint-Bayon de
ii. md suas grandes dimensões o tornavam bem legível - ou
dl.mif da (.'vocação de Todos os Santos, pintada por Dürer para um
,i lio dc velhos de Nurembèrg/'8 só podia crer na ressurreição da
' uni lia lhe era atestada pela multidão de. eleitos carregando
palm.is ao redor do Cordeiro Divino e da Santíssima Trindade.
k. Cohén teve razão em insistir sobre os vínculos que, nos
.i <tilos I i 16, soldaram a representação do macabro á crença fir-
11ii na ressurreição.10 Nicolás Flamel (f 1418), escritor juramenta­
do d.i I inivérsidacle de Paris, com pretensões à ciência, quis para
i i .i mulher nos Inocentes, depois para ele próprio em Saint-Jac-
inies, uma iconografia funerária legível em dois registros, o da re­

is. Atualmente no Kimsthistoriches Museum de Viena.


19. COHEN, K. TheM etam orphosis..., p. 96-119.

1711
Ilgl.in c o (l.i ¡il(|iilml,i Sobie o ',cii 11K«mímenlo (iilu.ilm* *iU« • nu
museu (le ( luny), o sol flamejante e a lua i bela de um l.ulo c do
uniu i do ( tislu cm floriu slgnlfir ,1111 ,i vld;i eterna ,io mcsmi >Irin
po (|iM' ,is forças naf ura is <juc*, segundo ,i ordem de Deus, li.ur.
Ilguniidn em corpo eterno o cadáver corrompido e plilrel.ilo \
d< ( omposlr.lo e compreendida como uma etapa necessarla paia
um ultimo e l.nulo de Incorruptibilidade.Vl o túmulo aberto dt
Nil.lt i (dei indo vei seu esqueleto ou seu eadavei), ^colocado .sob
a i ni,' di i listo, lol durante muito tempo compreendido como o
dllplo ainbolo da punir ão devida ao pecado e da redenr,ao que
piopon lona a tessui ielçá«>da carné. P.ssa chave permito Intel pie
i ii •. tímpano u nhai da catedral I'..st ras burgo (fim do séctili> I ‘ >
a islm •oinn o aliesco da Santíssima Trindade pintado em I i \ >
po i Mas,lu lo na Santa Maria Novella de Plorença,’'1
Nas i apelas funerarias frequentemente se substituiu, sob a
riu.- do ( iólgola, a representarão do corpo do delunto pela d< t
esqueleto de Atl.lo. A significarão geral permanecia a mesma
uma dei omposir ao provisória seria seguida de uma ressurreleuo
definitiva atestada pela vitoria do Cristo sobre a morte. Din pío
|elo de lumulo desenliado por Jacopo IJellini por volta de I i 1(1
apresenta um c.ulaver nu embaixo da cruz. Para que nao Itouvi •
nenhuma duvida sobre o simbolismo da composição, o aitlMa
a n su nli ni a base do túmulo uma leoa e seu filhote. ( )ra, según
di. a i ii m a 11 iiioiin a leoa porlia, lambendo seus filhotes duian
li In dia i llama los de novo a vida.'-* Na capela dos Puggei em
.anta \na di Aug.burgo, os cadáveres de dois membros da litis
tu lamilla, l'lililí e <icorges, estao colocados rcspecliv.imeni.
. .b a u , ,iiin Irao de ( i lsl<» e s<>1) a vitória de Sansa<i se>1m os 11
||'.teus ilusliaçocs homogéneas, desenliadlas por Dúrer, t|uc slg
nlli. i\ iim que i morte moirelia um dia.'1' Poderiamos multiplicai
i is i i suplí is concordantes. I,, Mâle descreveu um vitral da u
siiire|(,,lo que se encontrara a sua época em Sao Vicente de
Ki musí i esta 11 lineado agora na Igreja do Velho Morí arlo Na | >.u
le di balso do vitral, o doador ésta deitado ao longo da lapld.
do túmulo. Irle ja esta corroído pelos vermes, Mas grita: "Ji'SUS,

sa. lliiif, |>. loo l(),t c |>1. 44 c 4S,


*>1. lililí., I». 10*1 112 c pl. 4« c SI.
V , ll)¡d„ i», 100, I mivre ((i.tliiiusc dos dcscolios), I iveo de noiiis .le | lt. Illul,
lol. I Ha.
S V ll.ul,, pl. 04 07.

171
n ilh lJ t's u s " (Jesus, sê Jesus para mim), ou seja: Tu que ressusci­
taste, perdoa me e concede me a ressurreição.'1
A afirmaçao da ressurreição tem acompanhado de múltiplas
maneiras os horrores macabrosí A placa tumular da Abadessa Jac-
qttele de Uolhais (j IS2S) em Beaumont-lès-Tours, conhecida por
um desenho, representava a defunta inteiramente fechada numa
u m malha entre o Cristo crucificado e a Virgem com o menino. Uma
lns< riçao partindo da cabeça oculta cia moita, como nas nossas his­
torias em quadrinhos, continha a fórmula: “Exspecto resurrectionem
iiiurliionmi Os historiadores que se debruçaram sobre a morte
m »século IS mencionam muitas vezes e com razão o políptico por­
tátil de Estrasburgo (por volta de 1494, escola de Memling, museu
di Melas Artes),% cujas imagens são particularmente surpreenden­
te . I le é composto de seis pequenos qéiadros de dimensões idên-
ili as que representam respectivamente o Cristo na glória do julga-
tn en io final, o inferno, as figuras em pé da Vaidade e de um cadá-
\ei um crânio e o brasão do doador. Este último era um bolonhês
que sem duvida encomendou esta obra por ocasião de seu casa­
mento com uma flamenga. O cadáver em pé, com um sorriso de
lili mio, o ventre aberto pelo embalsamador e um sapo sobre o
• m i, ergue-se acima de urna placa tumular rodeada de ossadas. Por
ni' lo de urna fita desdobrada - sempre a antecipação do processo
di ni issas historias em quadrinhos - ele proclama: “Eis o fim do ho-
........ l u me transformei em lama; sou igual à poeira e à cinza”. A
> iid.ule, jovem mulher nua, é uma figuração do pecado. O conjun­
ta d.i composição devia ser particularmente insuportável de olhar,
i i . '.eu sentido geral não deixa dúvidas. Sob o crânio, escrita numa
■a.illa hem clara, lê-se uma tradução latina de jó ( 19,26) que diz:
i l' i di.t do despertar eu brotarei da terra, serei de novo envolvido
I" H minha pele e com minha carne verei Deus meu salvador”. Re-
■I''! ii amento simbólico da afirmação: as cavidades dos olhos não es-
t ii •li >i.tímente vazias. Duas fendas estreitas no meio das órbitas sig-
llllji ain que no dia da ressurreição esses olhos verão de novo.

>I. MÁI.K, K. LA rt..., p. 432. Agradeço a Marc Venard por ter me permitido
n encontrar este vitral remontado na Igreja do Velho Mercado após a destrui-
i, ni de Saint Vincent. Cf. número especial (1978-1979) do Bulletin des Amis
<ics Monutnents rouennais.
a . ( OI IEN, K. M etam orphosis..., p. 111 e pl. 56.
>(i, Moindamcntc I1ÍNKNTI, A. La Vie..., pl. 10 e p. 38-39; COHEN, K.
W ctiiniorpbosii..., p. 113 e pl. 58-60; WIR.TH, J. La Jeu n e fUle et la m ort...,
|. 4.1 43 <•pl. 27-28.
A mesma frase do I.ínto de |o aparece sobre mu lençt>1 unn
luarlo ele vellido negro na catedral de livrcux, <).s bordados repte
sentam um cadáver lalve/ o corpo de Adao? corroído pelos vei
lites e colocado ao pe da cruz. Sobre o cadáver, a inscrição gótica
di, "( 'redo (/iiod Redemptor meus viril, ct in novíssima dle de Ierra
■ ■ uriei liirus sum el in carne mea videbo deum salvatorem metan", <>
........ veisii ulo de li,strasburgo.v Por outro lado, parece difícil nao
lni> ipi< iai ionio mu símbolo da ressurreição a célebre obra de U
i,ii i Pii liiei (i*in Saint Picare de* bar-le-Duc), realização de mu arlls
la >pie dlp.aniMS d< passagem, se tornou protestante e morreu em
«,em bia Ale nlesitio no século 18 consklerava-se "cssa obra, inimi•
la\ef Sobri o niniulo de Pené de Chalons, príncipe de Orange
i iav.au, morlo no cerco de Saint-Dizier em 1544, ergue-se um coi
p< i que ai abolí de perder sua pele; esta desapareceu da cabeça e da
maior paite do pello. P.la si* encontra em outro lugar, furada como
um leí Ido gasto <|iie se rasga. No sen testamento, o príncipe i¡ni ia
peí ll<l<>para ser representado tal como seria três anos após sua m< >i
le Mas o defunto que estende seu coração a Deus está de pé, o i ra
nlo e o braço esquerdo dirigidos para a luz da vida eterna.
I Igualmente a esperança desse renascimento definitivo do
.m humano total que dá sentido aos inúmeros túmulos duplos da
epoi a lom o cadáver mais ou menos decomposto no plano infe
............ . mesmo personagem vivo, de mãos juntas, os olhos erguí
d .. ................ mi no plano .superior. “liste cadáver que nos a mee Iion
ii i ,i n da I Malr nao passa de uma aparência mentirosa; no til
limo di i * Ir ii'tomara sua forma ao chamado de Deus”.w linláo,
*........ iniiipiit.il o desejo dos clérigos e dos leigos que pediram
piia ,i i n pn .onladosem imagens sobre seus sepulcros? lixibic lo
iilsnio m< libido:' l'alvez, Mas, mais certamente, ato ele humildade
( i|mdf nli is lie,oes da Igreja da época, os futuros defuntos decía
i n uil as.'ilm aceitai de antemão a degradação prometida aos des
po|os de seu corpo pecador e, ao mesmo tempo, afirmavam en
ia m pahlh o sua crença num além da decomposição e das cinzas
Assim fazendo, eles ofereciam um “espelho” para aqueles que
olhavam sua sepultura e facilitavam a pastoral do clero;008 5
7

57. ('.(II11•N , K. M cutmorphosis..., p. 113-1 14.


58. <lAl.Mli T, 1). BibUothbque lonnintt, 17M, col. 87.5.
50. MÁI li. li. / 'An..., p. 433.
(»(). ( I. Cl III IAl A, I*. La Itiéo , p. \\ I .'I I I . 17/ I 10, IV.. NI, I 0 ,
<!()l IliN, K. MetamorplmR, . p 77 ll l < o,l os

IVb
Revelador nesse sentido e, perto dc Latisannc, o mon timen
li» Iuna.irlo do juiz Irançois de Ia Sana/, morto cm 136.3."' <) ca
ilavei nu, pcrlo do tpial rezain, dc pé, dois cavaleiros c duas mu
Hieres, tem os braços cruzados sobre o peito. Sua cabeça repon
a sobre um travesseiro. Dois sapos devoram os olhos, dois ou
lios atacam a boca, um quinto, os órgãos genitais. Todo o corpo
esta semeado dc longos vermes que o devoram. Sobre o traves
sel id e o peito, notam-se duas conchas do tipo Saint-Jacques. Os
•após, ao que parece, simbolizam os pecados, os vermes figuram
os remorsos da consciência, e as conchas exprimem a crença na
u ssurrelçao. A significação bem antiga das conchas explica aque
Ias que se encontravam acima dos nichos de monges em oração
nas laterais do sarcófago de Jean de Beauveau (f 1479), outrora
na ( atcdral de Angers e agora desaparecido, e acima da represen
lacio do cadáver de Jeanne de Bourbon (f 1521), atualmente no
11 )ii\ re Iisla vam assim associados no monumento de I ranea >ls i !•
Ia Sarraz, a humildade do pecador, a contrição do cristão e a • .
peiam,a no renascimento definitivo do homem regenerado V.
nu -mas chaves - humildade e esperança - permitem compu <n
dei os retratos duplos com dois painéis antitéticos apresentando
" primeiro, noivos em plena juventude unindo-se para sempn , o
•çiiiulo, os mesmos personagens transformados em catlaveies
111>111ve Is, devorados por vermes e sapos.05

u macabro e os males da época


() sermão macabro - textos e imagens - estava na lógica
di uma ( rislianização que queria fazer aceitar a ética dos mostei-
ios por r amadas cada vez mais amplas da população e s e encon-
u.na ao mesmo tempo confrontada com um aumento da riqueza

0 1, A dala do monumento é controvertida: 1360 para REINERS, H. Burgun


</iuh alen -uinnisclzc Plastik, Strasbourg, 1943, p. 70; por volta de 1370 paia
1’ANt >1;.SKY, E. Tomb Sçulptuie, New York, 1964, fig. 257-258, e KAN U )
l'.( )WU /., Is lh e Kings Two Bodies, Princeton, 1957, p. 453; fim dos anos
I 190 para NICOLAS, R. “Les Monuments funéraires des seigneurs de Ncu
»liaid o di- Ia Sana/" em Musée neuchâtelois, Nouvelle Serie, 1923, X, p. 160.
(i.V < ( )l lEN, K. Metamorphosis, p. 83 e n. 27.
(O. W IUTI1, J. La Jetine filie et lamort..., p. 40-41 e p. 29-32.

177
<• da "liirl.i de viver", |H'|() menos nos níveis superiores da Soi Ie
dade Por ivsso razãi >, (> dlagn* >‘.lli m l r I' ( Iilluil.i <|ui•pcri el>c no
discurso eclesiástico sobre .i morte cios séculos I i l(i uma "cm
/¿ula Interna" contra cavaleiros esquecidos de seu ideal e tenta
elos |x>i um estilo de vida pagão'" me parece insuficiente. "Cru
/ada Interna", sim, mas procurando desviar do mau caminho to
dos ;i<|ueles (|ue, numa civilização emergente, dispunham de ri
quezas crescentes, fossem eles nobres ou burgueses. Daí ¿i insis
Inn ia da Igreja sobre ;i cnpiditas nos manuais de confissão como
nas danças macabras, Os inúmeros lembretes do memento mori
ivmelem, por parle dos “advertidos”, a um apetite de prazeres, a
um forte amor pela vida, que a Igreja se esforçou em vão para
lazer elecrescer. Mais geralmente, tratava-se para ela de dar uma
solida moral a uma sociedade que não fazia coincidir ética e re­
ligião. tima prova, entre muitas outras, é o afresco de IMnzolo
que comporta uma dança macabra no plano superior e, em bal
\o, uma figuração dos pecados capitais.
Ma-, apresenta se agora a pergunta: por que essa expio
•i.c • di uma i .Intica mórbida a partir da metade do século I i?
Mm olm S m , m* sino i.ipldo, sobre- a iconografia funerária em
in i i■i' 111 n io d* .di .i época greco-romana até nossos dias
i■ - i I iiun di ii mi* uli 1111«•a representação de cadáveres, de es
i|in I* lo i di daii' a-, de morios só ocu pon o centro do palco
dui inn um pi nodo ic-latlvamente breve ele 250 a 300 anos,
. i malorla das Imagens ligadas á lembrança de­
li iiiiii..... uli' '• n.h'gi >-., na i rlstandadc do Baixo Imperio e da
ilii Id id* Milita, a--.lm com o no mundo contemporáneo ou
.................... estilo mergulhadas numa atmosfera tran
l'iili ml' ou numa melancolia geralmente fingida de esperan
•a <> peí iodo mac abro, a despeito da longa pré-história que o
nspllca, aparece- então com o um parêntese quando colocado
dentro do longo prazo europeu. Mas então por que essa violen
la i prov isória ruptura? Por que uma civilização, durante cerlo
lempo, abrlu os túmulos para descobrir neles corpos em piltre
I.K ao? I’oi que ela se deixou impressionar por imagens ele- i ra
nlo.s, de tíbias, de carnes desfeitas e nauseabundas? Até a meta
*lc do século I i, essas fantasías tinham sido contidas por bar
iclias psicológicas <|uc- cederam de repente, c só se reconstitui
ram irezenlos anos mais larde. () que aconteceu?

(vl < I III IAIA. I! Io A/fVi , not.iil.iiiirnii' |. I 1*>

I7H
A resposta e fornecida pela própria história da Europa, E,
fin primeiro lugar, llnllam esquecido da peste. Ora, eis que ela re­
tí una eom força em I.Vi 8, e devasta urna boa parte do continente
durante quatro anos - um terço dos europeus teria perecido. Ida
continuará a reaparecer periódicamente até o início do século 18.
< orno é que semelhante ofensiva, que nada havia anunciado, nao
lerla impressionado os contemporáneos? Ora, ao mesmo tempo
que começava esta época de epidemias, as más colheitas se tor­
navam mais licqücntes, as revoltas urbanas e rurais se multiplica­
vam, os turcos aqentuavam sua pressão, o Grande Cisma dilacera­
va a cristandade latina (todo católico achava-se excomungado
pelo papa ao qual seu príncipe recusava obediencia), as guerras
i Iv ts e estrangeiras desolavam a França, a Espanha, a Inglaterra, a
boêmia, etc. Esse era o panorama da Europa entre a metade do
et tilo I i e a metade do século 15. É bem verdade que urna cal-
n uda interveio em seguida, que a população, notadamente na
I i.mç.i, recomeça a crescer desde o fim da Guerra dos Cem Anos.
Mas esquece-se sempre, por causa da sonoridade prestigiosa da
pal.tu.i "Renascença”, que a peste continua presente, que o cis­
ma, abalado por um momento, se reabre com a Reforma, que os
•amponeses alemães se rebelam em 1525, que a França e os Paí-
.i •baixos, durante a segunda metade do século 16 e o inicio do
I . estão desolados pelas guerras de Religião, que estas se esten­
dem logo para a Alemanha e a arrasam de 1618 a 1648 e que a
Inglaterra elisabetana viveu no temor de um desembarque espa-
nlti »l Sera então um acaso se urna nova geração ele poetas maca­
dlos (Agrippa d’Aubigné, Sigogne, Chassignet) emerge na época
das guerras de Religião, se as danças dos mortos prosseguem sua
• un lia iconográfica no século 17 nos países germánicos e se a
Inglaterra, apesar da adoção do Protestantismo, continua a repre-
<nial defuntos sobre os túmulos ao mesmo tempo que acumula
no leal ii > as cenas de assassinatos? Como se vê: a cronologia do
m n abro e a mesma que tínhamos identificado no volume ante­
di a ao tratar do julgamento final, das bruxas, dos judeus e da he-
n .la Ida se Integra numa mesma explicação global em que con-
lltii m o discurso culpabilizador, o pavor diante dos infortunios
ii> mutilados e a violencia presente em toda parte.
Ni >ns , i época por acaso não ajuda a compreender os inícios
da n io ile i nidade européia? As hecatombes do século 20, desde
l " l i ale o genocidio do Cambodge (passando pelos diferentes
h >li ii .uistos", e os diluvios ele bombas sobre o Vietnã), a amea-

17b
ça tic mn conflito miele, ir, o u,so Nempre crescente da lorlur;i, ,i
111111111 > 11 (. i(. 11 > dos "goulags", <> aumento d,i Insegurança, os pro
grcssos rápidos c (.itl.i ve/ m.lis Inquietantes da técnica, o perl
go que comporta a expíe>raça< > demasiado Inlcnsi-va d<>s reí ursos
naturais, (crias m.mipnl.it, oes genéticas e a generaii/.u.a<> nao
controlada da Informática, sao fatores que, somando se, ciiam na
n< issa 1 1 \ili/.K.io mn clima de angustia, comparável sob certos as
pecios aquele que co n h eceram nossos ancestrais entre a época
da Peste Negra e o lim das guerras de Religião. liste "país do
medo" cm que entramos, nao nos cansamos, segundo um pro
eesso t I.insIco de "projeção", de evoca lo pelas palavras e pela
Imagem, Mesclando o presente e um hipotético futuro, a ciência
e a ficção, nossos temores pelo futuro e nossa experiência elos
perigos cotidianos, o sadismo e o erotismo, as conquistas espa
ciáis e uma paleontologia de pacotillia/* nós multiplicamos as
.......................... grallsmos violentos, bárbaros, desumani/ados. No s
issi ii lan h ts ein t ai olonlas brilláis futurismo e arcaísmo, seres t mi
ii •
• lia , antediluvianas e naves cósmicas.
I i e o IiiIt abiat|iie ordinario das historias cm quadrl
nli>, p ii i o 1 1 1 1 1 < 1 que os llu m a n o id e s associados” publicam
•111 111•• • , |••>i mó n,i revista francesa Métcil hurlcwt \M<i<il
n i i . i n i , / u m ' einplo entre inultos, Ksses delirios mórbidos em
pi pululam ' implros e m anhãs brumosas exprim em -se em
......I i i p f - s ||\ i * •. •b m u l o s piovt >( antes e m francés: A p a rta d o d e
kn/'i i honn'ih <nil,i\hi acura; Os J a rd in s do Apocalipse; \a ll
m undo i ) / /ornea/ h 'in im a l; e ainda: O Homem dissociado; O
l, m/'o d c'i nl h alado, I ala ro s sem />orvír; Os M undos macabros
de A’/, lea,/ t lalhc'.oa e Nós lodos lomos medo. Listes dois ultime is
títulos ni>s remetem aos tem as históricos do presente Livro. Tan
ti i i mli ni t t m u » h< >|e, o m edo da violencia objetivou se em lina
is os de violem ia e o m ed o da morte em visões macabi.r,
(,Miando a presença de cad áv e res mortos pela peste, pela lome
e pela soldadesca tornou -se o bsessiva, o sermão culpabilixadoi
etuii suas evo» a co e s n au seabu nd as encontrou uma nova att
(llénela Associando c o n sta n te m en te morte e pecado, pecad o e
punição, ele pareceu con firm ar se pelos falos e encontrou lies
,a mesma co n firm acao um alim en to qu e o nutriu de nina selva

(iS, ( I ,i cvsc tcspciln c no mcNino senIido o ,iill|',o «le VOVI’I I I*, M, I ,i


Moii o l'.tti dclil (l.ms l.i luiulr ilrvãmV", cm l UUtoiic, n, l, jul. ,i|;n I*> II,
|i, 34 42.
1 1 ». 1 1*• lorie 11U* I. i I.ivíi tk* m edo a pessoas q u e tinham m edo e,
< nliin, lalava tío m edo q u e era delas.
I'..viste diseussao sobre o lugar que se deve atribuir á pes-
i' e em primeiro lugar a epidemia de 1348-1351 - na historia
1 uiopela. No século 19 e no inicio do 20, houve tendência a ex-
pll< ai ludo por ela: as fraturas do sistema feudal, a crise da Igre-
|a e, portanto, a trajetória para a Renascença e a Reforma. Em
m i .m >•» dias, pelo menos na França, certos historiadores procuram
mu ■. minimizar o impacto da Peste Negra,66*sendo verdade, por
um lado, que a erosáo do sistema feudal e a deterioração da con-
|i 1111ii ia económica e social tinham com eçado antes, e, por outro
lado, que a civilização ocidental continuou sua marcha para a
In uh a despeito desse violento ataque da doença. Para esclare-
•i i esse debate, quatro ponderações parecem úteis: a) Mesmo se
■i . i ontem porá neos julgaram o impacto cias pestes - e em primei-
i" lugái o da Peste Negra - ainda mais importante do que foi
n ahílente, a severidade das epidemias não deixa nenhuma dúvi­
da as estatísticas mais sóbrias para 1348-1352 levam a estimati­
vas de mortalidade variando segundo os locais de 25 a 40%."' A
tu ii.ii que Paris, numa cronologia mais longa, entre 1348 e 1500,
■i Miheeeu a peste mais de uma vez a cada quatro anos. b) Para a
hlstoiiografia das mentalidades, contam menos os números reais
das perdas do que o choque criado nos espíritos por espetáculos
singularmente violentos de doença e de morte, c) A peste, agora
instalada no Ocidente por mais de trezentos anos, de 1348 a 1648
li it apenas o elemento mais dramático cie um amplo conjunto de
d< sgiaças que somaram seus efeitos, d) A civilização européia,
■nlrenlando o desafio constituído por tantos inconvenientes, con­
tinuou a inovar em toclos os domínios,68 embora não tenha sido

66. I ll'.l'.RS, J. Anuales de dém ographique historique, 1968, p. 44. ARIES, Ph.
/ 7lofnine... p. 126-127. Mas CHAUNU, P. La M ort à Paris..., p. 176-184
volta a dar-llie toda a sua importância. Os historiadores estrangeiros contem­
poráneos continuam a insistir sobre a peste (H. Rosenfeld, K. Coheh, Ph.
I i tstnin, etc.) passim nos livros já citados.
07. ( I. naturalmente BIRABEN, J. N. Les Hommes et lapeste en France et dans
les pays europécns et méditerranéens. 2 v., Paris-La Haye, Moutony 1976, nota-
d.miente I, p. 155-190, e o comentário de FLINN, M. sobre este livro
Plague in Hurope and the Mediterranean Countries” em The Jou rn al o f Eu-
vopean Eeonomic History, v. 8, I, primavera 1979, p. 131-148.
08. Iis,se <f o tema central do meu livro La Civilisation de la Renaissance, Paris,
Arthaud, 2. cd., 1973.

181
IX >sm i ida, nem n u "<ni< i no século I(>, |><>i u m i Xlmlsmc > rnni|>aia
\ i I ,n ) do Século das I,u/es ou d,i segunda iiio I.k Io do séc i ilt > 11>
< >*. hom ens d.i Penase em. a, c|ik * julgavam ,i historia Imm.m.i pio
Iiii .i de •.(•li Um, li.io concebiam o fu tu ro cm termo,s de progn s
’,o m o i.il ou técnico, l);ii a necessidade de In trod uzir e de gene
eili, ii uma ikx ,.,io, m encionada incidentem ente poi I Som.lelle a
ii .pello dos Asier as: a de "pessim ism o a tivo", (|iie poe em rele
\ o no.s-.a p io | a Ia expedem Ia do século 20 que lei mina. I lina i I
1111/ 11, .i o pode d,ii prova cie d inam ism o m esm o sendo pesslmi*.
la I o nosso ( aso lá>| o c aso lam bem de nossos a iu esliáis, no
1111« lii da nu Klernlclacle eun ipeia.
M ili.m l Melss escreveu c|iie a Peste Negra lo i "um evento
i iilim . il , em p a rticu la r no d o m ín io da pin tu ra religiosa lia
siiscllou o celebre afresco d o (la m p o Santo de Pisa ( poi volla
de I VSO) ( |ue cum ula triu n fo da M orte, lenda dos ires tn o ilo s e
dos lie s vivos, julg a m e n to e inferno . As mesmas cenas se eu
i i m iram agrupadas, p o u co depois, num a com posic ao de < >u ag
na (para Sania (a o ce de Plorença) da qual só subsistem lia g
meu los I lina p in tu ra sem d úvida funerária executada na •*<
gunda m eiade d o século I i p o r G io v a n n i del b lo n d o (Valle ano)
apu senta uma icon og rafia sem precedentes ale- e nlao na a 11«
h oi ana .oi i a Virgem com o m e n in o rodeada de sante>s (-sta i s
le n d ld o uni cadaver d e vo ra d o pelos verm es e pelos sapos, um
. 111o i n nilia b .irh u d o o aponta com o d e d o e n q u a n to um lio
ni' ni i .eu c i( i rei tiam de te rro r.7"
M ulta novida de Im ed iala m e nle p o s te rio ra Peste Negia •
i u pn .i ni.n. ao d o < riste > d o final dos tem pos co m o um |u l/
• " u pa do unicam ente em am a ld içoa r os condenados, Antes, e|.
aI >• ia oa\ a to m uma m ao e rejeitava com a outra. Mas, no < am
po iiili i de Pisa, pela p rim e ira v e /, ele tem som ente uma m.i< •
ativa, ai|uela <|ue e m purra os reprovados para o in fe rn o 1 I >1
Vei s.is compe >s|(,ahvs ( le I ra Angélica) e se)ln e lu d o o ( Irlslc> da ( a
pela Slsilna relom a ra o esse gesto dram ático. Do m esm o m odo
lam bem , e d e p o is da Peste Negra q ue se espalha na llalla •

(>*), MIÍISS, M. Piilnling in llo m tcc a n dSictht afier tbe iMavk I >r,uh, 1'niio
ion: l’i'iiicctoii Univ. Press, I9M. |>.,73.
70. Iliiil., p. 74 c c OI IP.N, K. MetinHorpImh..., |>. 107. l'Micfc, ,u> ndni ,1.
. .ilin,.i ( Iii.i aos |>(ís, a Virgc 111 lignr.i i Mlilhca ccleslc do A/>(htilyj’u I I......
rxcmplo dr um víiu 11Io cutir m.u .ilno r cie .Holnglrt.
71. MI ISS, M . \< 70-77. \<\ H7 90.
ili m ilo,'. Alpes .1 Imagem da lmin.mUI.uk* pecadora lerlda pe
li 11<i luis (l.i peste," N.i Igreja dr S;io Pedro Acorrentado em
Moin.i, mu afresco com emorativo da pesio do 1476 representa o
1.11 .<»l > .i aparência de um osc|uoloU) dcmónli) alado que alira
uma Hecha sobre os habitantes de unia Cidade. Uni século mais
laidr, rnire o.s lemas macabros pintados dentro e lora da Igreja
im Miguel de Olcggio, porto do Novare, nota-so Deus atingin-
........... . .eus raios os mortos o ni seus túmulos entreabertos: alu-
i" piov.ivel a peste de 1575-1576.7? Contra esses ataques, pas-
"ii ,e doravante a invocar, entre outros, Sào Sebastião, o már-
iii lu ir .passado, cujo culto leve um surto repentino depois lie
I ' i•• l nliin, seria um acaso se a prática das missas pelos defun-
i" .. generalizou a partir da metade do século 14?7' De qual
qih i nianoira, parece que nao resta nenhuma dúvida sobre o
l ii" di que, em tempos de epidemia, a visão sempre renovada
■i. túmulos abortos o de cadáveres putrefatos tornou a opinião
mil usepilva que antes para as imagens macabras dos sei
...... I < .íes refletiram inconscientemente a propensão morbl
d i d " publico para observar defuntos que perderam a habitual
■llgnldade do morto.
< >s vínculos entre pestes e danças macabras foram certa
im im numerosos. Por vezes eles se deixam apenas adivinhar,
......... ......... ulros casos aparecem claramente. Se a hipótese de II.
M" •uleld for exata e se devemos datar de 1350 mais bu menos
• i - icma latino c os quartetos alemães' que constituem, segundo
•I* i ■primeiras versões escritas da dança macabra, então a Pes-
• 11' a,i.i loria mesmo permitido a clara formulação de um tema
qii. . btiseava. P.m todo caso, o texto latino comporta este la-
iiM ni.. . i ilocado na boca da criança que vai morrer: “Mamãe que-
iid.i " homem negro me arranca de ti / Preciso dançar, eu que
iind.i ii.ii i sabia andar”; e, no texto alemão, a Morte convida o rei
• ñu.a ii.i dança dos irmãos negros”.75 Levando em conta a da-
i " i" ijv na q u a s c garantida do afresco do Cemitério Dominicano
i basllela ( poi volta de 1440), parece normal estabelecer uma
m la. i" entre esta dança macabra e a grande epidemia que arra
ti i i a . Idade em I 139, no momento do concilio, e que foi descri

Iliul.. |). 77.


•l, ( ¡UI'RRY. I . Le T hhne..., p. 232-233.
i ( !OI ll'N, K. M ctamorphosis..., p. 63-67.
. U( >SI•N l I I I), 11. D er m ittelalterliche..., p. 76-77, 311 e 323.
i.i pi >i r S. IMi ( ulominl, o futuro No II I i.i i.io 1111|iressli maúle,
dl/ ole, o amontoamento dr cadáveres (|iit* "os padres do Com I
lio, perambulavam, pálidos e desamparados", I in l.übeck, .1 dan
(,.1 iii.o . 11>i . i (I.i Marienkirche lol executada cm 1463 .mtcs d.i pe.s
u (|iic atingiu ,i cidade no ano seguinte. Mas sabia-se cpie a epl
tlcmla eslava a caminho e já presente na Rcnílnla, em Sa\e, I Ioi
rlnge c Brandeburgo: a perigosa ofensiva aproximava-se, ponan
lo, da ( Idade. Ouanto a cianea macabra de Berlim, ela Ibi pinta
da cm I 18 i no fim de urna pestilencia.
Nessas condições, por <|iie nao tentar certas a próxima voes
( n (iiologlc as, pelo menos a Ululo de hipe rieses? Nos do/.c anos <|io •
precederam a reali/avao do afresco dos Inocentes (1424), París eo
nlieieu lies passagens da peste: em 1412, 1418 e 1421."MA danva
m,u .lina do eemilerlo do Perdão em Londres, ao lado de Saint
Paul, dala aproximadamente de 1440. Antes, a peste linha visitado
a i npltal Inglesa em I i33. I i.Vi, 1-1.AS, 1436, 1437 e 1438." Poi ou
luí lado, i >Monge l.yiIgale <|i.ie ailaptou em ingles os versos do ce
mlieiio dos Inórenles, compôs um poema intitulado “Regime e
doiililna pua lempos de pesie" (Diotwy an d Doctrine fo r tbc /V*
ulrn .e i I um bi< Hti (pedo de Bérga mo.), a composição c|ue agru
p i li nd i di 11 le , 11k irlos e dos lies vivos, triunfo da Morte e dan
i i d i n d i luidos |i i | piulada em 1484. Ora, a peste tinha grassado

111 I •mil mi día •li mi ule ns (güiro anos anteriores e eslava atlva mals
pe (Kii" iiiii I iMi " I )o me.smo modo, a dança macabra de fVis
n ipm 'illa di |(i()(>) (Inlia sido precedida por epidemias em
I ait, I iMM e | iUM D evcse, sem diívicla, ver no emprego des.se
i. nu d i oH leidlli 11 urna especie de ritual mágico, um meló lank>de
|di -ti gi i si di i peí Igo Iminente como de evitar o retorno da eplde
mía A llguiaváo da dança macabra era ao mesmo tempo exorcls
dio c m.inlfesiavao de arrepentí imento.8 ,2Compreendida dessa ma
in lia, ela deve sor comparada às sangrentas procissões de flagelan
ti s ao.s (piais ,i Peste Negra deu uma amplitude sem precedentes

76. I’l( !< 1)1 ( )M1NI, A. S. Commcntarut d e g a th busiUcmis concMl, livio II


(mui. Alcmit I ). I l«y cr W. K. Smith, p. 191 s.).
77. KOSI NI l l .l), I I. Der mitteLtltrrliche..., p. 185.
78. MRABP.N, |. N. l.ts Ilommes..., I, p. 378-379.
79. Iliicl,, |, p. 401.
80 . I RIS I AM, Ph. ¡'¡gares..., p. 13.
81 lUUAIlf N, |. N. /<•( I/omina,,,, I, p. 396.
8.V U<)SI •NI I•I I), II. Ih r m U M M U ht . p. IH4,

IMI
Aos olhos dos contemporâneos, Irês características das epi
•lenil.r. de peste deviam aparecer expressas pelas danças maea-
l*i.i. n aspecto punição divina, a brutalidade do ataque mortal e
i Igualdade na morte que reduzia à mesma sorte ricos e pobres,
|o\i'ir. e velhos. Além disso, deve-se certamente estabelecer uma
n I.i*. ao de causa e efeito entre as hecatombes provocadas pelas
p* •les"' e o sucesso, tio século 14 ao 16, da iconografia do triun-
1* * da M< >iie. () tema devia estar no ar antes da Peste Negra, se for
n tímenle anterior a ela - o que não é certeza - a Alegoría do pe­
dido <•dii redenção da pinacoteca de Siena. Entre cenas represen-
i indo ,i esquerda o pecado original e ã direita o Cristo vencedor
•h •pecado e da Morte, esta, no centro da composição, é figurada
p* *i um dragão alado com cabeça de mulher. Com seu alfanje, ela
|a abateu centenas de homens e se lança sobre um grupo assus­
tado que suplica ao Cristo na cruz.845 8São numerosas as semelhan-
•a •* om o grande afresco do Campo Santo de Pisa, sobre o qual
g* ialmcnle se pensa ter sido suscitado pela Peste Negra.
Pm lodo caso, numa Itália (fim do século 1 4 - início do IS)
** •ir.ianlcmente visitada pelas epidemias e, além disso, minada
pelas guerras - Petrarca a descreve com o “um navio sem piloto
numa grande tempestade” - surgem surpreendentes representa-
•**»”•tio triunfo da Morte. Retenhamos duas. No Mosteiro do Sa-
•i" Speeo (a santa gruta) de Subiaco, por volta de 1363-1369, um
ai ti .ia slcncnse, em face dos três mortos e dos três vivos, evocou
a Morle sob a forma de uma velha mulher esquelética, cabeleira
in vento, montada num cávalo. À direita, com o em Pisa e no
alie-,co de ( )rcagna na Santa Croce de Florença, mendigos cansa-
>I* e. de uma vida por demais amargurada suplicam-lhe (em vão)
paia nao serem poupados. No centro e à esquerda, ela abate com
■* ti alfanje monges e religiosas que seu cavalo pisoteia. Sua mão
«llie|ta segura uma espada que fere um jovem caçador.*" A execu-
■ai* < grosseira, mas significativa. Existe mais vigor no afresco
( poi volta de 1445) do palácio Sclafani de Palermo, transformado
•ni hospital alguns anos antes.86 A composição aqui já aparece
tiaJleion.il: de um lado, os mendigos e os aleijados que implo-
i ain Inutilmente á Megera, de outro lado, as moças e os músicos

84. Para este aspecto c í' L a Peur en Occident, notadamente p. 100-108.


H'í. CUERRV, L. Le T bhne..., p. 115-117.
85. Ibid., p. 1 18-119.
H(>. Ibiil., p. 146-161. O afresco está agora no palacio Abbatellis.
pello de lllllil graciosa lonle M.I•. ,1 Mulle, no centro, pu.'eiv III
i li il.s tei\< >s (I.i (< »mp( tslçai ), San asi lea, moni.ul.i nuiu c ;i\ .lio I.iii
l,i•.iii.i <nj.i <<mstlluiç.K>esi piel etica e l( ii’lemenle marcada, el,i I.iii
(..i Mi.i'. flechas sol)re o grupo de jovens despreocupados Sen
co n vi n.i linas I reí nenies, pescoço estendido e trino flutuante
1 11 .i pul sobre os cadáveres amontoados. Detalhe Importante ,c.
Il> i 11. 1 . ,lili icen i m u s vitimas espeeialm enle ñas regióos tíos gan
gllus líala se, pulíanlo, realmente da peste.
A ligação eslabelci Ida pela mentalidade coletiva entre pes
I* pulem la Invencível da inorle e personificação desia última
•*1» u aspecto tic um cavaleiro aparece de maneira ao mesmo
|i ulpo ' si iucm.itk a e exemplar sobre tlois documentos: mn nía
nú ., i ii u d< i / Vi i micro// de I 127"' e a capa de um livr< >de contas
s le n e n s e ( I l\ iu da lúccerna ou Tesouro Público) datado de I i
N e sse ano, nina epidemia "muito homicida” arrasou a cidade di
lunlio a de/,ei libro. "Mi irrcram grandes cidadãos e mu ¡los ouiu »,s",
Noble a capa do volume, um anônimo representou a Morle irlun
I,tule i om a s a s de morcego (com o em Pisa) e cavalgando um ve
lo/ corcel <|tic pisoteia os cadáveres. Ao sen lado, pende um al
l.m|e e , muí sen arco, ela visa personagens sentados enlrelldos
nuil) (i igo de a/ar,""
A Mulle, sinistro e invencível cavaleiro, eis uma imagem a
i pial u publico eslava habituado e que encontramos num tle.se
1111*111* I Xiiei ( brlilsh Museum). () artista figurou-a aqui o >mo es
>|iie|eio luiuado, ninado de um alfanje,, montando um cavalo
um •i•* d> Mijo pi '.ioi.u pende uma sineta. Ora, Dürcr executou
• .e dcM nhu em l )DS, enquanto a peste grassava em Nurem
Iii ia, \ n petli,ao das epidemias e das guerras na Huropa dos se
' iilos ti In lelançou a cretlibllidade do Apocalipse e propiciou
uma nuN .i i arrelia ao tema dos t|iiatro cavaleiros. A fre(|úcntc
> tu. .a ao do Apocalipse pela pintura, tapeçaria, vitral, ilumlnuia
i giuuiiu levou a uma proliferação das imagens mostrando em
plena iç.io o medonho corcel e seu invencível cavaleiro Na
maioria das vezes, este ultimo e figurado por um cadáver anima
do que, o u com espada e flechas, ora com lança e alfanje, mala
sem piedade os humanos, ( )s artistas enriqueceram esse lema ge
ia! com variações diversas, () mais antigo Apocalipse neerlandés

M7, TliNKNTl, A. U Senso..., p. 420 c |>l. 7.


HH. Iliíd., p. M4 MS.
HO, Ul I.SSPI I , I i l/ilrci a wn Tlnn I lí*, 1072, p. 02.

I MC»
um manuscrito de aproximadamente 1400 mostra a Morte a
• iv.iln arrombando facilmente uma pesada porta de cidade que
' na em pedaços.'*’ Mcmling, por sua vez, faz o cavaleiro sair da
ei mIa de um monstro que cospe cham as.91 Dürer, na sua grande
i qtiein ia de I i97-l i98, afastando-se da tradição, substitui o ca-
davei por um velhote horrível e descarnado, armado nào de um
allanje, mas de um tridente.92
A Italia entretanto inventou outra figuração do triunfo da
M' »rle Num retábulo pintado em 1362 por Agnolo Gaddi em San-
la ( iroce, a Morte cavalga um búfalo negro que esmaga cadáveres.
<.mando em meados cio século 15 a iconografia italiana recorreu
a< i ■ Triunfos de Petrarca (compostos de 1356 a 1374), ela reutili-
oti os bois, mas atrelando-os a um carro. Na obra de Petrarca, a
M' ule que convida Laura a juntar-se ao numeroso cortejo dos de-
o
lunios e uma mulher em trajes negros. Ela não está nem a cavalo
ia m montada num carro. Mas no primeiro dos Triunfos , o do
\mor, Cupido está de pé sobre um carro em chamas ao qual es-
i io atrelados quatro cavalos brancos.” Alguns autores de iluminu
i i . lambem tiveram a idéia de colocar sobre carros a Castidade, a
li ule, a Lama, o Tempo e a Eternidade. Essa inovação, que se li-
v. iNa a representação romana dos triunfos imperiais, conheceu o
ui e.sso e suscitou inúmeros triunfos da Morte apresentando o car-
i" desta puxado por bois. Esse tema iconográfico aparece às ve­
res em afrescos e em quadros. Mas é encontrado sobretudo em
h ms (cussoni) e tapeçarias e como ilustração de manuscritos em
iluminuras, e mais tarde em obras impressas consagradas a Petrar-
■.i, nas quais o esqueleto do implacável ceifeiro pode ser subsjti-
iiiidn pelas três Parcas ou pelo menos por uma delas (Átropos).
Várias características importantes são comuns ao conjunto
desses triunfos. Primeiramente, um refinamento que se podería
i|iialillcar de “barroco”, com acumulação de detalhes espantosos
■m particular na figuração dos carros. Um destes (manuscrito em
iluminura das obras de Petrarca) comporta três estágios de estilo
K< nascença com pilastras, cornijas, guirlandas e crânios alojados
n.is arcadas em concha. A Morte, esqueleto com asas de dragão
■ armado de um alfanje, está sentada sobre um crânio coroado 40*3

40. ML.L.R, I r van der. LApocalypse dans 1’a rt, p. 212-213, pl. 143.
4 1. Ibid., p. 2 7 b pl. 175. Bruges, hospital Saint-Jean.
02. Ihid., p. 281, pl. 189.
43. ( d'. TKNENTI, A. L i Vie..., p. 20-21.

187
rom mn.i ll.tu " I lina tu pe-arla bruxelensr cl<>seculo 10, rxrc uta
«l,i ,i |».111ii «Ir ( art< »CvS italianos, apresenta as iré.x Parras cavalgan
«lo dragões que puxam o carro «la Morir. As rodas do carro irm
er.inlns rom o cubo r libias rom o raios,‘n Nessas rom posirors «Ir
llbrr.ulamrnlr eruditas r "sofisticadas”, os artistas quiseram ron
lia,star o macabro rom paisagens (rurais e/ou urbanas) muito
bem c uidadas, sorridentes e agradáveis. A exuberancia da vida
r«|ulllbra assim a írcqücnte ironia das caveiras. A Itália, em geral,
mostrou menos-predileção do cjue a l-rança, a Alemanha e a In
glalrrr.i pelas imagens de putrefação. A Morte triunfante e geral
menie um cadáver bem limpo, ancestral das anatomias pedago
glc as <|iie florescerão a partir do século seguinte. A despeito dos
.a liados mórbidos, essa iconografia erudita e complicada é por
lanío menos traumatizante que o resto da produção macabra con
temporánea A engenhosidade que se manifesta neste caso suge
re que se trata de- um jogo pelo qual nos deixamos envolver. Sa
boleamos uma surpresa (|ue desvia o espirito do sentido geral.
As dalas têm ac|iii sua importância. O triunfo da Morte co-
l.ul'i .o • pulan.i de Petrarc a floresceu na época de ouro do Qua
tu 'i ' nh ■i Hall,un i I luíanle e.s.se período de equilibrio (1454-149-1)
■ule ii i lii'M |iilin Ipals l-.iaclòs c|ue a compõem, a península,
111- ii di pi ii vive mu lempo forte de sua historia. Ida e o
..... i...................... da l iiropa por sua cultura, sua riqueza e seu
i un ■•o •nii ii I m contrapartida, com as “guerras da Italia” que
•' mi' • un •m I IU i, ela <i*i lia entre a impotência e a inquietai ai >
• p i i ■»' ib »' ' onlrole estrangeiro. C) triunfo petrarquiano conti
i.............. dmlda aia lr.i|elorla na Italia e nos países cujos artistas
i pin la ■la In .pira Marot o adola na Deploração do Senhor l'/o
rlniiithl Nolxrlol (| IS¿2)¡

I ii \e|o a Morte horrível e temida


Sobre um carro em triunfo montada
léñelo sob seus pés um corpo humano
M u ito estendido, e um dardo na mão,
De madeira mortal, enfeitado com as plumas
De* um velho corvo, cujo canto maldito
Predi/ lodo mal; e o ferro foi banhado
*
Na agua do Styx, triste rio do inferno.

') i. IVN. ms. ¡i.cliano de 1476 aproximadamente: ms. ¡t. 548, I 29v . < I A
I I NI N I I. l\Sentó.... p. 452 e pl. 42.
'>■*. Palitc in Real, Madrid. <1. (¡UI-.RItV, I /. Thónc, . p. 215.

IHH
A Morte, em lugai ile cetro venerável,
Segurava na mao esse1 dardo terrível,
(,)ue em vários pontos estava tingido e manchado
Do sangue daqueles que ela tinlia pisoteado.'"

Mas sc o tema sobrevive assim na Itália e além dos Alpes,


nu fim do século 15 e durante o 16 ele tem tendência a perder
■.eus elementos de relativa serenidade. Muitas vezes, a Morte vol
Ia a ser "comparável ás mais horríveis figuras geradas pelos so­
breviventes da peste de 1348”.97 De novo, ela estende suas asas
de morcego ou é acompanhada por uma horda de esqueletos. ()
iiMoino riu clima de angustia aparece com evidência na mascara
da organizada em Florença por Fiero di Cosimo por ocasião do
i arnaval de 1511 e que Vasari descreveu. A iconografía tradicio­
nal do triunfo á maneira antiga qxprimiu aqui o medo ele manel
ia tanto mais mórbida quanto a população não tinha conhecí
mento do que lhe era preparado:

Nada havia transpirado. Soube-se e viu-se ao mesmo tempo


Sobre um carro enorme, puxado por búfalos, todo negro, se mea
do de ossadas e de cruzes brancas, erguia-se uma Morte muito
grande, de alfanje na mão e rodeada de túmulos fechados. A
cada estação em que o cortejo se detinha para cantar, os ui mu
los se abriam e viam-se sair deles personagens cobertos por um
véu escuro sobre o qual estavam pintadas todas as partes do es­
queleto em branco sobre fundo negro... Todos esses mortos, ao
som de trombetas surdas e roucas, saiam de seus sepulcros e sen­
tavam-se sobre a beirada, cantando com uma voz triste e lango­
rosa aquela canção hoje tão famosa: "Dolor, pianto epenítenza
A líente e atrás do carro avançava um grande número de mortos
montados em certos cavalos escolhidos com cuidado entre os
mais magros e mais descarnados que puderam encontrar, e co­
bertos de mantas negras com cruzes brancas. Cada um tinha qua­
tro escudeiros, cobertos de mortalhas com tochas negras e, du­
rante toda a marcha, a procissão cantava em cadência e com voz
trêmula o salmo Miserere.™
.i •.

% . MAROT, Cl. CEuvrcs completes, coll. Garnier, 2 v., 1920: I, p. 533.


07. GUERRY, L. Le Them e..., p. 99.
08. VASARI. Vite scelte (ed A. M. Búzio). Turin: UTET, 1948. p. 278-270.
Aipii erad. Wciss citada em Ihid., p. 100 101.

I: II)
Vasal I nos dl/ (|ite ('‘,*,.1 macabra proí Issa»> que fez, esco
I, i " - "cm heu ,i ( Id.ii Ir de lerrot e de admlraçiV >" lim lo d o (.»■•*« >,
ela III.infle,sl.i .1 perturbadora U llll/açáo de (|lie era susceptível a
veis.io arcaizante do triun fo da M oite numa llalla de novo In< 111d-
ia e numa ( Idade em (|ife o dram ático episodio de Savonarola tl
tilia se encerrado menos de quinze anos antes. Além disso, na Ita
lla e em outras paites, desde o lim do século Is, continuava ou
le.tdqiilrla força a outra Iconografia do triun fo da Morte I 111 ( lu
0 me, perl(1de Herp.amo, um afresco sintético e, como tal, allanten
te pedagógico, de I tHS, reagrupa os principais elementos da leo
nografla da morte explorados na época: no plano inferior se de
•,envolve a danca macabra, meio larfmdola, meio procissão: em
baixo, o artista figurou um triunfo da Morte bastante raro que In
t lui a lenda dos três vivos e dos três cadáveres. Com efeito, poi
( lina de um túmulo, se erguem três esqueletos animados. <) do
cenlro ostenta coroa e manto reais, lile é ladeado por dois acoll
he 11111. arm.ulo dt Mechas, atira sobre três caçadores <ji ic procu
iam liin.li ( ><nii11» (< mi um au alntz. visa uma multidão do ricaçi >s
papi, iep, piin< ip< ., burgueses, etc. - que, de joelhos, em vao
■ ............. pn e|iit . a Implacável soberana. lista estende ampla
un 111• U' ■all' •■f ■ale st i >bandeirolas onde se lê: “liis c|ue chega a
11 *11• pli ni d' Iimi.ildade l u (|iiero a vós somente c não as vos
i iiqm m Hui In ui digna de portar uma coroa, pois c o m a n d o
......nu li' lumlio 1 Mgiui', anos tlepois, o frontispicio de uma edl
in Ia /■/.,//,./ ,/i7 hitlr ,/rl hru morlrc (\: lorença, 1/497) de Savo
........la ape i uta i Moite como uma aparição espectral, um lugu
1 ...........nela I .qiielelo vestido com uma túnica Mutuante, ela alia
■ i.i liando uma pai-,agem de desolação onde se estendem ca
II. 1\«u ' ai vi ire*. 11Kn(as (:< >m uma mão ela segura o alfanje, o nu
a Otilia nina bandeirola onde se lê: "Ego su m ”, isto é, T.u existo'",
Mas e a brueghel, o Velho, (|ue se deve a mais poderosa
evocai,.iode um Triunfo da /t lorie (por volta de IS62, Prado) nao
deriv ado da insplracuo petrar(|uiana. A moralidade é sempre aque
Ia das danças macabras e da lenda dos três mortos e dos três viv«»s
prazeres, riquezas e gloria não contam mais quando a vida se e\
tingue. Mas a demonstração e dada por uma alucinante e fervllhan
ti vI.s. k >de |K'sadek >, lila põe ênfase a<> mcsm<>tempe>s<)bre a ex
tensão da earnlfk ina e sobre horriveis detalhes extraídos do repei

0 '), Il.ul., |t. l o i ,


too. ( f, K(íSI-NI I I.L), 11, Do- m lu c IM lc b t..,, |>. I7S c \A, 12.

IDO
Inrlo de host il: ataúde sobre rodas, ratoeira gigante, pessoas vivas
amontoadas dentro de redes manejadas por morios. A composição
•< le a parlir da esquerda onde dois esqueletos balem o toque de
Uñados puxando as cordas de um sino fixado runfia árvore seca.
No terreo de urna torre em ruinas (que comporta um relógio), ca
da veres em sudarios brancos anunciam com trombclas o dia fatal.
I letl\ ámenle, eis que irrompe um exército de defuntos, ao pe de
urna lalésia enquanto aparece urna carreta repleta de crânios, con­
duzida por esqueletos e puxada por um cavalo magro. No centro
do quadro, o artista evocou o triunfo propriamente dito. A Morte,
■n\ algando urna montaría macilenta, ceifa com as duas mãos os vi
n r ,, ou os empurra para a ratoeira cuja armadilha está levantada.
V. \itlinas queriam fugir, mas inúmeros cadáveres lhes barraní o ca­
minho erguendo pedras tumulares. A Megera está rodeada de es
queletos armados que assediam pessoas que festejam e tocam mu
i> i \o lado da mesa abandonada, um jovem''cavaleiro desembaf
111H>u a espada e tenta uma resistência desesperada. () artista quls
•fu qii.imitativamente a prova da potência da morte - em sua rom
p 'dvuo, os defuntos sào muito mais numerosos que os vivos, f ,
liuitiu vista panorámica, ele evocou as mil maneiras de morrer: por
d oença (peste?): um imperador desfalece, um cardeal desmaiado e
f \ad< >para a cova por um cadáver, a carreta carregada de crânios»
leml ii i as carroças dos tempos de epidemia; por* afoganiento no
ni ii luí inso ou em lagos; pela guerra: armas, tochas e incêndios for­
mam uma linha sinuosa, mas quase contínua de uma ponta a ou-
H i d. i quadro; por acidente: um infeliz cai de um rochedo. O sen-
iim. nin da onipresença e da força irresistível da morte jamais tinha
.ido traduzido com tanta imaginação e amplitude.
A essa concentração do macabro no quadro de Brueghel
iqiie neste aspecto constitui quase uma suma) responde a prolife-
ia< ui ilas imagens da morte na iconografia dos séculos 15-16. Te­
mes ale dificuldade de escolha. Marchetarias italianas figuram em
•iusina vistas, clepsidras e crânios.101 Na iluminura de um livro de
limas, ,i morte ceifa metodicamente um prado verdejante e corta
■lumes, em torno dela, a paisagem, atravessada por um rio e fe-
■liada por uma colina, é suave, colorida, encantadora.102 Em ou-

101. IT.NENTI, A. IISenso..., p. 462 e pl. 3-4. Marchetarias de Giov. de Ve-


lona cm Siena (Monte Oliveto).
102. ‘IT.NENTI, A. La Vie..., p. 27 e pl. 6. Heures à 1'nsage de Rome (fim do
mi tilo XV início do XVI): B.N. ms. lat. 1354, f° 160 v .

MM
I d i, t'l.i ,i|) ,n u v o >r< sentai l,i ><>t>i i • iim lili nulo, mckiii íiiu Ic>um
dardo ro m o cetro m im a das i i i .k >s e uní i i.ml<> n.i o u li.i n n liiuai
do globo; ;io longe, avistam se m ontanhas o u n u c ld a d r dom ina
(I.i |)oi um.i f.',r.ui(le Igreja,l0< Mina edlyilo dos S r n n o r s de (»> il> i
un istia .i M orle Irro m pe nd o dentro de lim a t asa. Moni um ponía
pe, c li deiruba a mae que se upóla no m arido <> flllio , poi n a
ve | " i >i nía piolet ao ju n io da n iík \10' l'rec|('iente na époi a • i
linaiM'in do esqueleto ca rre ja n d o um atando sobre os om h io s
a<1111. • le i nli a no <|uarlo di* um d< lente; a II, ele al ><>rda um Iota o
Indi ilcnlt ' t lili l.lvro de Ka/ao alemao anónim o (da secunda un
ladi do M 'iu lo l >) com porta uma notável gravura <p k tem poi
li in.i <) fu r e m r <i M orte, Na realidade, trata se de um v e llio li es
1111< li Ileo ((liase nu <|iie pousa a lila o so l>re o o m in o de um |n v m
eleganR Mina serpente passa entre as pernas do velho, um sapo
ip il isliu.i .se de setis pes,"1" I Im seeulo nials tarde em |SSU um
artista de < ham bdry, (íaspard Masery, consagra duas lelas In le ill
ja d a s ao tema d o P in t o r r cia M orte, No p rim eiro painel d.i i
querdw, a Morte cadáver anim ado segurando uma lanterna e um
i o m passo Invertido Iranspóe nina porta. No da dirolla, o p lril' a
sentado, vestindo um glbáo, executa o retrato da M o rle ,1"’
I els aluda, misturados, rosarlos cujas contas figuram * i.1
t i l o s , jogos d r taró com tuna carta representando a Morle a ta
val........liando um rei, um cardeal, um conego e um ravalelio,"
Ulna i',iav uta <il>ii ( ohre opondo mima partida de xadrez um vi
lli'> d i e sen v e n m lo r,11" medaIlióos (alemães) em terracota n
pn ■ litando a m u iI m i e a Morle, um casal e a Morle, um saldo e
a M oile 111 I ,a . evocayoes e tantas outras que poderiam ,u n >

lu i I I I IIN 1I, A. I.ii Vie...i |>. .14 c pl. K. Ilen m à fustige de Home un
i.nli do <a oto XV): II.N. ms. Lu I U>(), f" 131 r,
lili WIUI11, | /</ Jtim e filie et ln mort..., p. 63 c pl, 38.
los I I NI'NTI, A. II Semo..., p, 16 <•pl, 23, |>. 43 <•pl. 4s. Ucspn .....
u ORAN I , S, Smltijhii thwii, llAlc, 1497, I 94 c 11.N. ms. Im. 9471, I |0o
I()(>. WIRI II, |. Iu lennefilie elht morí..., p. 17-20 c pl. 1.(1. MU I » lllll
S( 1N, |, ( . The Ahnler o ftb e llomehook, New York, 1972.
107, < I lAMIU'RY. Mualc des llcuux Ans,
HUI. WIR’I I I, |. /,/ tenue filie et /,/ morí..., p. 19.
109. ROSI'NI I I I ). II. P er millehllleeUche. , p, I r p. 13. Ii.it,i m <Ih mi',"
*|c i .irias d( Imi.illm .itrilniído .i ( .irlos VI (de I i .iih,.i ), I 192.
Ml) WIUI II, | I ttJen n e filie el In Morí , p, 12 e pl, 14: M.iiuc DKili l'Alio*
III llilil., |>. 211.
tentar constituem o ambiente que permite compreender a rica
prnducáo macabra de um I Iolbein: Pequeño Alfabeto (1520),
(o d íe le Alfabeto ( IS21), Sim ulacros da Morte (1538) e a célebre
Inlei rogaçào de- I lamlet na cena do cemitério: “Quanto tempo
pode um homem permanecer na terra antes de apodrecer?”

0 macabro e a violência
( )s exércitos de cadáveres que, no quadro de Brueghel,
•ombalem vi tollosamente contra os vivos remetem a urna situa­
ban de violência quase permanente na época. O macabro estava
ligado a peste. Mas estava ligado igualmente à guerra, horrível
1 Minpanlieira dos europeus desde o tempo das Grandes Compa­
ñía.r. até o final dos conflitos religiosos (1648). Ela certamente
nan provocou hecatombes. Mas esteve quase sempre presente
•'•ni .'¡cus cortejos constantemente renovados de soldados, de
lime Idades, de pilhagens, de colheitas arrasadas. Com rebeliões
■ lutas civis que repetiam ou prolongavam guerras estrangeiras,
•• contemporâneos tiveram o sentimento de que a violência ar­
mada nao os abandonava. Há quarenta anos, constata Eustache
I >i a liamps em 1.385, que o nosso vigário só canta o Requiem , “a
i i! ponto que dos outros ofícios ele nào sabe nada”, e isso vai
•••iillnuai: "Sem ter paz, teremos guerra, guerra”.112 Em outra,pas-
iiM m. ele constata, “Guerra dia a dia avança”.113 Dirige-se então
ii"s soberanos: “Príncipes, eu lamento toda guerra”,114 e protesta
•onti.i ,is más ações dos aventureiros: “Nào há quarto, arca, mes-
11o •bs liada / Que eles não rompam...”.115 Daí a solene advertên-
•la fazer guerra é pura da nação”.116 Christine de Pisan, aluna e
l|o ipula de Eustache Deschamps, com põe Lamentações sobre as
‘■ maus ( //>/.v. Na sua prisão de Beauvais (1432-1433), Jean
l<i gnlei maldiz, ele também, a guerra:1

1 I I >I'.S()I IAMPS, E. C E u v r e s I, balada XLVIII, p. 136.


I 13. Ibid., V, balada DCCCCLXXXII, p. 226.
I Ia Ibid., V, balada DCCCCXIV, p. 113.
I is Ibid., I, baladas I.XV e CV, p. 161 e 217. "
I U. Ibid.. I. balada I.XV, p. 161.

193
N.iu Im hiul.i •|•i*■ ,i gueu.i nfto nmlc
( iuerru c U>dn |trisito.
1K' ludo ( | U C I pogill
• H I C I I .I <|

I indo agarrar, e ca^íitlii."*

Melo século mais tarde ( l Í77-I 179), <> retórico |r,m M>*||
m l r u '.U iiumlia desolada dos combates entre francês» ■■ e Iu11
imiliilini . No seu Ihrurso t/o (kwo niindo, ele crlllta vlgonoa
nu nh* os legenles da coisa pública":

I*11|lt l|II'N, |IIIIllT( INI>.S...


«.Mi* dominai1,, «pu* esilnuilal.s o povo,
um i in iiiii.il. t|iir perseguís pessoas,
I iloiim ntals as .ilinas e os corpos...

mih la/c|s <pi*■peinabais o inundo


l'oi güeña Imunda e i ilmlnals assaltos?
Allral i.m lioi la/el grandes conl'usOcs
Ih nlio di- cení anos oslareis lodos podres!11"

1*1illa i um panorama uniformemente negro dos anos I ul


I() lH constituirla eerlainenle tim paradoxo insustentável i mil
Iilsli a leo, Portille deixaríamos passar em silêncio periodt is tlt •al
mi.ii Ia e de reciiperacao demográfica e deixaríamos na ,<mil na m
pacos menos vlsllados pela guerra que outros (luíanle rn io s p>
i lodos llalla dos anos I iS i I Í9Í; franca e Pspanlia do llm do
século I's e dos vinte primei rt >s anos do Iñ; Países Ha i\< >s da pi I
melra metaile do 16; Alemanha e de novo Italia da segunda nu
i,hI» d, i Ui, luglalei ra ellsabetana,
\ Kenast rii(„.i existiu. I Ia aproveitou se de todas as m gua
paia c p.uidli se e fa/er progredir as arles, as letras e as lei nf a 1
ih pena de, ela lambem* circular de um pais para outro <«nu
i is militan s Mas o emprego sem matl/es do lerino "Henasi cm, i
|, \a i ti ma slmplllli a», ao Inversa da anterior. P.le camufla a icvol
ia dos t 'oimimrn\ (IS 2I), a dos camponeses alenúes <I •’ i
I a das "comunas da <it liana” ( ISiK), a dos católicos ou dos
«amponeses Ingleses em 1*536, 1549 e 1569. Ple oiulla o apelo

I I /, Iviiuncs d it d v a v t c . d nulo cm ( 11AM1M0N, l! Uhloirr /Wl/yo ./„


\T M . I. |>. 24,\ 2.44.
I IM. ( lluulo cm lliiil., II. p. 11/

im
i' 1 meu enarlos |>:ir;i as guerras da li;ilia, o vaivém dos soldados
n i |n iiinsula, os saques de Roma ( 1527) e de Anvers (1576). Ele
•li ipir/.i sobretudo o aspecto mais trágico do século 16 e do pri-
uh Iim século 17: as lulas religiosas em que se juntaram persegui-
.......... los anabatistas (na Alemanha e nos Países-Baixos dos anos
l - Ml), Iuiias iconoclastas”, fogueiras de heréticos, conspirações
ui' 'iiilfi.is, massacres organizados (São Bartolomeu), batalhas
pl mc|ad.is c sedes de cidades em escala nacional (França 1562-
I" "ti ou européia (Guerra dos Trinta-Anos). A violência sádica
* ias a na ordem do dia: valdensès do Luberon sufocados por fu­
ñí 11 a em grutas, monges enterrados vivos pelos G u eux, católicos
iiigli s» s csiripatlos vivos com o coração e as vísceras arrancados,
ii iin as assadas em espetos (em Vivarais, por volta de 1579) na
Ia' i ia,a dos pais, etc. Trágica, porém sucinta amostra.
Konsard compara a França de então (1562) ao comercian-
ii igiedldo por um ladrão que não se contenta apenas em des-
p' '|a I * mas "Agride e atormenta-o, e com uma adaga tenta / Ti-
i ii lli' do corpo a alma por uma ferida; / Depois, vendo-o mor-
' • •o 11 de seus golpes, / E o deixa ser comido pelos mastins e
i - li ■ I ib o s "S é b a s tie n Castellion, dirigindo-se à França desola-
h polos conflitos religiosos, diz-lhe:

|l >eus| te golpeia com uma guerra tào horrível e tão detestável


«im eu nao sei se, desde que o mundo é mundo, houve outra
pior. Sao leus próprios filhos que te desolam e te afligem... en-
In iuatando-se e estrangulando-se uns aos outros sem nenhuma
misericórdia, com belas espadas nuas, pistolas e alabardas den­
tro de leu seio.1-"
■ \

Agrlppa d'Aubigné que, em criança, tinha sido testemu­


nha iIas execuções consecutivas na conjuração de Amboise, fi­
ou mau ado Ioda a vida pelos espetáculos de horror aos quais
i eiierias de religião o fizeram assistir. O quarto livro dos Trá-
i.o Intitulado /'erros e fogos relata massacres de protestantes.
■ IHarrias (primeiro livro dos Trágicos), ele lamenta “a Fran-
i di .iilada nao terra, mas cinza” e estigmatiza as maldades
da mldiiilesea:

I P t (,'oniiniuttion du discours des misèrcs de ce temps, Ed. Laumonier, Paris,


P)M 1919, V. p. 337.
I ’(), ( :a S1T.I I.ION, S. ConscUà la France désolée, s.l., 1562, p. 3.

inr>
i ii vi o negro soldado liilinln.u pelo nielo
i >■ , i nschrcs <l.i I i . i i k . i , 11 *i 11** iini.i tempestade,
l ev.indo linio o que pode, arras.il lodo o resto ,
I ,i, de mil i .isas resta um no logo,
So <.iinlt, .i, ,*.o morios, ou rostos horríveis,1'1

Ixspelaculos <|IK* .i A leiii.in li.i, |><>r mu ve/, leu em abmi


d.inel.i d in . inte .i (m ena dos Trinta Anos. A poesía de Agiipp i
d'Aublglie e nm bom e x e m p lo do vínculo mals ger.il entre \ lo
leuda mllllai e goslo do macabro. Sc, remontando no lu irlo do
•.et nlo 16, abrirmos no Museu de Belas Artes de Basiléia os • ,11
loes de d esen h o s de Urs ( ¡ral' (aproximadamente I )HS IS '.'i, n
(Joya s u g o , essa relaçdo aparece como urna evidencia < >mlv. s,
grav ador, .o pia f<mista, pintor e vitralisla, Urs ( iraf engajou se lo
<la\ la * orno soldado mercenario alemão. Suas pinturas e gu\ nú
i onsllluem mullas ve/,es a crónica e a sátira - do olido mllllai
do i|ii.d ela.s m au .un .i rudez desumana e as ilusões,1" I I,c. sao
repletas de homens de giieira e prostitutas que o artista gosia di
i i illl|m ui ai is |<lili i ),*.
l »i .lil.midl.mil de nos brutos Insensíveis, com eslandaiti
implann ni« ib* i los na m.lo direita, lança na indo esqueula, v •s
................. uma osle ni ai, do barroca c quase ridícula. Um liten en.i
..........Il i p ii i * .i ,.i i anegado de objetos saqueados, outro deisa
m • ipiui ii pi u um Ih uiim I diabo ehiírudo e obsceno. I lili ten •I
i1*i qin slm bolla os a/.ues da guerra, está suntuosamente vestí
do na p iii. <llr< lia do coipo, Mas na parte esquerda e um mis.
u< d malíi.iplllio I depi»ls vem o macabro: sol) urna ;irv<>re, doi ,
oldados lonveisam, um jovem e um velho; á esquerda lima
ni." i lev lana, c< un um pei|Ueno cào, quer fazer se notar, mas .. i
bie a aivoie uní es<|ueleto brande uma ampulheta encimada pm
um corvo. ( ) que significa (|ue os homens de armas enconli.u.io
mals certa mente a morle do que a v o l ú p i a ,<)utra cena: mu nu i
cenarlo aleuuio, muilo fanfarrão, sentado na ponía da m esa, dls
cute sol)ie <> seu st>ldo eom um recruladc>r, sentando na Otilia > s

171. I >'At MU< INIs A. l e i cil, A. (hmicr <• |. I'l.iil.ml, l’.in 1*1
.lio, I9M>¡ I, p, 97*.
I ( I. ANI >I' KS( )N, <'hr. Plrner, Krieger, Narren. Aingeioiillr . VS Iniiuiy, n
ron lh \ ( i ti í/,
(, ,S. Vcrlitg, HAlc, 1978, com reIcris idus bihlii *gi .tli<... A, ilie
ii.gflci uunmi.iiliis .i M'i’iiii ,%
<• cncoiiiiam nea.i olio.
17.t. Kcprmltg.U) i. millón cm WIIU II, | l o /enne /lile el lo morí p II

Ii Mi
i" inli l.u lt •e 111111segura um saco (de escuc los) estampado com as
um e da frança. hnire os dois personagens, distinguem-se um
........... serviu de intermediario, um artesão, um clérigo e um
i" <"'i l.mlc, Ao lado do recrutaclor está dm louco. Seu simétrico
um i s<|ueleio animado c|ue aplica um violento golpe de joelho
ni .i r.i.i.s do soldado, lile carrega um estandarte indicando que
" dlnl n lio do re i nao vale urna vida.
I ni varias ocasiões, Urs Graf evocou cenas de execução:
um i mulher Santa Bárbara - que um soldado decapita à beira
i um lago; urna vivandeira que passa indiferente, quase sorri-
l> ni' purlo de um militar enforcado numa árvore; um confede-
i id.. que se prepara para cortar a cabeça de um mercenário ale-
m i'■a|oelhado. À direita deste, um infeliz está exposto num pe-
........ i, enc|uanto clois supliciados pendem de uma árvore, es-
' uní., u corpo de um deles já meio devorado ou decomposto.
1 miu. desenho a bico de pena representa um ampio campo de
i .1 ilh i onde se enfrentam duas infantarias, cavalarias e artilha-
H . inimigas, ( )s mortos são numerosos: eles forram o chão, nus
■.......|iie |a foram saqueados) ao lado de tambores furados, armas
111. luidas e cavalos abatidos. Atingida por uma bomba, uma
. . .a qiH mu I ntretanto, à esquerda, um soldado, indiferente ao
i ■imh.ile, i» upa-se em beber pelo gargalo. À direita, dois milita-
n . ' itli if( ados can galhos de árvores já são atacados por aves de
. 11<in i antecipação das cenas de enforcamento que Callot, um
■■' 11 >mals larde, representará com realismo nas suas águas-for-
........... ir.agradas ás Misérias da guerra.
< >i |iic 11rs Graf quis dizer é ao mesmo tempo a loucura do
t ln li <du mercenário e a atração invencível por uma vicia de vio-
i in la . de aventuras. Hans Baldung Grien em 1503 e IXirer em
IIlii, u|, , lambem, traduziram em imagens impressionantes o cliá-
i .......nlie d Mercenário e a Morte. O primeiro coloca um soldado
.li . illiai triste diante de um cadáver zombeteiro apoiado numa
i ui. a |. lia de tíbias enfileiradas.124O segundo imagina uma conver-
. *va .. entre um militar de penacho e um defunto vestido com um
ni. lai li. i •i uja cabeça ainda ostenta cabelos abundantes e desorcle-
.. id.. I -.tf último apresenta uma ampulheta ao seu interlocutor.12S
Mm panorama, mesmo rápido, do macabro da época não
i •I. ila esquecer as tão numerosas evocações de martírios e de

IM llikl., pl. 38.


I Iliiil., pl. 45.

11)7
massai11•:i, <) traumatismo provocado |ir lo <s|>i tai 111«>*l.i \li n
i 1,1 leve nè< essli l.li Ir (Io explllllll so por "pru|eyoes lll »i i|,n li n.i i
So |MKlessrmos c< >nlal)lll/ai todas ;is exci ue< >es ilo santos e sait
ias (|iio foram pintadas, esculpldas ou gravadas n.i l urop.i . .. l
dental <■ central oniro I.SSo o 1650, chegaríamos a um tola! • i.u
roí odor que restituida, nosso sentido, a continuidade entre o go
lito, o maneldsmo o o barroco, Nosso museu de horrores Itgma
evidentemente com destaque <> cnicillxo do Isscnhelm, • i*n
< ilslo esverdeado e ja quase decomposto pela tortura, com sua
pele crlvuda de feridas, seus dedos torcidos de doi, seu i o s |m
mau ado pc>t uma atro/ agonia".u"
Mas as cenas de massacres associam IVoqücnlcmenio a vlo
lenda e ao sadismo um elemento (|iiantilativo: o maeabio •,< t•n
ua plural, Pensamos aqui no lema do M a rtírio dos de: m il . U i
Idos (ordenado por um rei persa) que seduziu prim Ipalun nn
IXirer, Nicolás Manuel Deulseh, Ponlormo, Pierino dei Vega lii
obra de 1)11 rei (ISOH), encomendada por l’rcderico, o ’ ibt> * "
uma paleta mullo iUa lealya delallies horríveis: Inocentes i u ,ia> .
san piei (pilados do alto do uma íalesia; outros sao abatidos a m .1
pi d« potieli i ui dei apilados, ou chicoteados ale a iiiom mu
i p> d 11 |u Io , ou crucificados. () quadro do Nicolás Minie I
I »i ui mh1 |>i•ti iuIi ii sei ainda mais cruel: os corpos salían nl*1
•Ia •IIlina i.io empalados ,si)|>re galhos de arvores sei as i q•i<I••
...... . •lamina lals obia , Introduzem a com posição extrema nu u
i* maut insta de \ulolne ciaron, o Masscurc dos T r liin irli*
i I ••>‘ • 111< 11mlrasi.i dei a pitayóes com uma luxuosa .11c|u« . •!<.
Illa i mal, ainda a Iodos os quadros o estampas cons.tgi ido i i
l>aai. tias, . ms uyóes diversas o mortandades coletivas qm mai
i at.tni as puertas de religião.
,‘io encontrantos ilillenidades de escc>111;i: autos de / i1, pil
nli, ao dos c <»njurados de Ambi)lso, massacre de Sao llarlolom- u
ti muías Infligidas aos monges neerlandeses e aos cali >!l< <o |ii)>l>
ses I ra Impí >ssivcl que tanta vic>leneia, juntando se ao i .peta* u
lo das pestes, nao levassem os ocidentais a representai, t" di
morte e da aplicacao da morte, l',m IS87, aparece em \m . i .

I .’(> IttUISCgM' I', |. t il l’ftniuir nutnidiuf, Ncudilttd, al, lile. <i • il.n l,
I p,
I' K iiiim bÍMOriitl i e s M iinciiiii ilr Vlcn.i.
I ,'H. M iim ii .1.' Hd.r. AlUs ilt- Iti-rn.i,
I 29. Nn I nlivic.
11...... m/>i Inmlur, um lealro das crueldades dos heréticos , que c
m ii1 !ni|'!• .■.lonanle coletânea de suplícios.1'" Alguns anos de-

I
tnii m ( n.iiorl.mo (¡allonlo, inspirando-se na obra anterior, pu-
<llt d •ui límii.i um D atado dos instrumentos de mentiría, ilustra-
i pM| |, mpesta, um dos melhores gravadores italianos do fim
• i ' ■uln K),1'1 Essa obra erudita era consagrada aos instrumen­
to* di i* Hlili.i ou troca empregados pelos pagãos contra os cris­
ta, o I l.i pioprla era tributária dos afrescos que os jesuítas da Ci-
•i l> I Irma tinham encomendado a Pomarancio, ao mesmo
li mpM |•11.i o seu Colégio dos Ingleses (por volta de 1582)132 e
|i n i i 11.i •|.i .'.auto bs te vão Redondo (por volta de 1585). No Co-
1 i ' uma sequência cie pinturas agora desaparecidas contava a
In . <n,i Ia Inglaterra por suplícios, desde Santo Edmundo criva­
do . 1* lá •lia , pelos dinamarqueses até Fisher e More morrendo
n>i ulalalso c (lampión estendido sobre o cavalete. Os trinta
.................. Santo liste vão retoma de maneira nova cenas da Le-
ih ff Ia ,loin\tda e retraça a história das perseguições romanas:
S ii•n * |<ir, uln numa fornalha, Corona esquartejado, Martine cli-
l.l. ei .'Ia p.»i unhas de ferro, Vitus, Modestus e Crescentia preci-
I n i.ln . in . liumbo derretido. Em certos afrescos, vemos três su-
I Ir I n li n . in diferentes planos.
i fu i e, portanto, um acaso se a morte está tão presente no
....... . <- uln l(> e com eço do 17 tanto nas tragédias francesas ins-
plll.l a . m Ncncca como na literatura inglesa contemporânea de
i ii .1" th i ilo s primeiros Stuarts; e tanto mais cjue elas integram
....... nn >tIv açuo maior da violência do tempo: a vingança. Esta, tão
i .. •‘Ml* no i urso das lutas entre armanhaques e burguinhões, foi
i. nu ada no século 16 pelos conflitos religiosos. Em plena Renas-
•ii. i . 11 permanece muito arraigada nas mentalidades. A maio-
H i 11 A'órelas de Mandello são histórias de vingança.
V. i ibias pictóricas, teatrais ou literárias respondem as des-
. ii.... de execuções de (|ue estão cheias as crônicas e gazetas
li •p... i llul/inga lembra, segundo Molinet, que os habitantes

I UI 1,1 l.niiu I SK7. bil. fr. 1588. Este esclarecimento e todos os deste § são
de MÀI.lí. b. LA rt religieux apres le condle de Trente. Paris: A. Colin,
iim .I ii '.
I p , l ( ) ‘) l 16.
I 11 i ,AI I ( >NIO, I! 7 nitrito degli instrument d i m artirio, Rome, 1591. Trad.
1,11111.1 . m I 59-1 e 1602 com um resumo do Teatro das crueldades dos heréticos.
I I ' I ti-, alíeseos estão conservados por gravuras de J. B. de Cavaleriis,
I .li i 11m exemplar na Bibl, da Sorbonne.

lí)í)
ilc Muir, i ompi.u.im Ihmii uno mu hundido para tri o pm/< i di
\r lo rsi |ll.II tejado "com o i |lie o P<)V() Ilion lll.lls ,il< gil do ipil
u' mu novo ,sanio llvesse rcssusrliado".1" Mollina lonl.i lamín ni
i|iir, di ti. init' o rativrlm dr Maximiliano da Áuslrla m i lli'Ugi ■■m
I iMM, tlvi'iam a cortesía dr Inslalai o ham o dr lortuia a vlsla d* >
l'ral prisioneiro, a llm dr dlslrai lo.1,1 lún seguida a 111il/.ln^a MI
<In I Vovelle desroble nos anais dr Augsburgo no serillo I , i
tur in. ao dr dnas riladas m im ad a s vivas r dr rim o padirs ion
donados a m on o dr lome mima jaula dr Ierro exposla ao pnhll
r o 1' As rx riiK o rs rom lorlnra estavam prrsrnlrs rom o onlras
lanías linóes dr moral: assim, levavam-sr as i nanias pata <pi< i i
gu.udussrm na mrmoria, l'rllx klallci reíala:

I ha ( riuilm )s<>, por ler violado uma muIIirr de selí'iiia ,un >, loi
i lutado vivo mm alíenles mi brasa. VI rom mciis olí ios a < ,p> s
,a lum,te.1 proelii/lila pela carne viva submetida a essrs allí m
iin I» a s a , elr lol i \ei litado poi' mestre Nicolás, raí lase o di la i
ia s Indo i . pi i ss,míenle para a clrcunsláni la. () ronde liad" ■i i
um In Minio loitr r vigoroso: sobre a ponte do Reno, hem p> Uo
di 11 lol 11o aiiani ado um mamllo; em seguida levaram .........
, idalal'io II- eslava rsiiemamente líaco e o saugui i.... ..Hit
il nmi lino 111«'iii■ di sua. m;io.s. lie nao podía manlei .■ , m p,
■ n i , "i lili ma mente I o| rnllm llera pilado; otilara m IIir mn.i *
I n ,1 alo e , I....... ipo, depi>ls sen cadáver lol |<igadi» ni mu I" ■
i I ni n ii miinlia pnisoal de sen suplicio, rom iVK'ii pal iln
gnuindi i pela m.Ii i 1

I lina ga/rin alema de Ib()3, consagrada a exci ik,.o » d<•. |, .i (


dl.iholli os malandros", dr apenas 14 e lS anos dr Idade, culpa
dos di l< i envenenado o pal c o lio (|iio rsiavam brbedus, i *n 11
irr< I',na asslsllr, loila a juvenlnde eslava reunida, in m ,oi ,id i
pelas .mloilil,ules, porque r hom para a juvenlnde Insliuli pui
lilis rxnnplos". Segur o relato do suplicio:

I H. I ll H/,IN<¡A, J. l.t Inclín.,, |>. 27, III, |>. 487.


I i i M< >1 INI I. |. ( Jnvnhjurt, Al. Buchón, IH2H, III, p. I ’
I IS, V< )VM I I', M l,i Morí ri /'On it/rm
I V), la )( ).S, I I, rhom is UHt/ Irlix Pl/tltrr, nr SitUniyrsrlilcblr i/o wr/n t'/nn, n
l.ilnl'imi/rrh, I cip/ip,, 1878, |> I').’ I '>V < ¡nulo cm |ANSM II, |. /,/ i m il
i,ilion rn . Ulrnuynr tirpuh l,i ftn </n Muyen Ir, , I VI, p. »0(.

:*()()
i, i uncí i mi .se por despir os dois rapazes, depois açoitaram-nos
dt tal modo que o sen sangue se espalhou com abundância
pelo ( luto. () carrasco introduziu em seguida ferros em brasa
i m suas lerldas, com o que eles soltaram tais urros que é im­
possível dai uma idéia. Km seguida, cortaram-lhes as duas
itrios A execução durou aproximadamente vinte minutos; ra-
p o cs c moças assistiam, assim como uma multidão de pessoas.
Iodos admiravam nesse suplício os justos julgamentos de Deús
< si Instruíam com esse exemplo.117

\ lllculiira logicamente fazia eco a essas trágicas cenas da


id i i oiidl.uu. Como prova, a descrição particularmente .sádica
!• . l i m a o Introduzida por Thomas Nashe no fim do seu Via-
Itinli ./ iihhlo ( I59i). A cena passa-se supostamente em Roma,
o....... li ilu que os ingleses de-então consideravam capaz de to-
io , o \|, | < e de todos os horrores. As medonhas invenções que
mí i n •lei .ao qualificadas pelo autor como “italianismos”:

<iuneçou-se por despir [o judeu Zadoch]; depois sobre uma es­


tai a de I erro hem pontuda é solidamente fincada no chão, inse-
ilu c o seu ânus, com a referida estaca correndo-lhe através do
. "ipu como um espeto; sob suas axilas dispuseram dois outros
piii'i . da mesma espécie; depois, ao redor dele, acendeu-se uma
•i.iiii I. fogueira festiva que lile assava as carnes sem queimá-las;
■ i medida que, sob o efeito do-calor ardente, sua pele se cobria
di bulhas, afastava-se um pouco o fogo e irrigava-se o paciente
■•mm uma mistura de água-forte, água de alumem e de mercúrio
'iiibllinudo que lhe devorava até a alma e revolvia áté a medula.
I >i pois, quando todo o seu traseiro foi assim irrigado e inflado,
a oii.nam no com chicotes ardentes fabricados com fios de ara-
lU' em brasa; np que se refere à cabeça, untaram-na de piche e
il< ati.io e, quando ela estava recoberta dessa maneira, atearam
I' r,' ■ I m suas partes pudendas amarraram fogos de artifício ruti-
I mli s de 111/. Com cintilantes tenazes arrancaram e lixaram toda
i na pele a partir do alto do ombro, como a partir dos cotove-
I" dos quadris, dos joelhos e dos tornozelos. Quanto ao seu
pi ili> e seu ventre, ralaram toda a superfície com pele de foca e,
i medida que se ralava, punham-se as carnes à mostra, e um dos
■ máseos que estava de pé ao lado lavava as feridas com AquaI

I i i ;lt,ulo cm Ibid.

201
titile e .ígiu rom i ln/.r. <l< loij.i I ev.inliiv.im |k *I;i metíale
imitas r dcpol.s i .ilv.iN.un poi baixo rom puntas acentúas romo
l.i/. o ¡illül.ilr rom .1 vlirlmi de mi .i Io |.i ((u .iih Io .1 ilclx.i nielo ahci
t¡i nos illas ferlailos, Arrancaram lile até o pulso raila nm ilc sctis
linios, l’iiN.n.mi lite os artellios delxmulo-os pendurados na pon
1.1 ile tima tira de pele. Para roneluir a cerimônia, abastecen se de
oleo um pequeno braseiro igual aqueles que as pessoas usam
para soprar leves bolhas de vidro e, começando pelos pés, quèl
ma ram o homem membro a yiembro até que o pé foi consumi
do e so enlao que ele morreu.IW

Poder-se-ia esperar que uma tal acumulação de detalhes


sángrenlos bastaria para o autor e os leitores. De jeito nenluim
Algumas paginas depois, a narrativa recai numa nova descrição
de suplicio, de modo que as últimas páginas do Viajante a zara
1 / 0 nada mais sao do que uma sequência de execuções refinadas

Depois desses impressionantes exemplos escolhidos, e inu


tll Inslsili longanu nte .obre a forte presença do macabro na lite
lattlta e mais pailli tilarmenle no teatro inglês na época de Misa
I'i ir 1 d* laliin I I !< Invade notadamente quatro peças menelo
nula iqul 1' iiut 1 simples .11ni >stras: A Tragédia do vingador ( I(>() ')
1 l o h u J i a do alrii (Ibl I), de C'yril Tourneur; A Duquesa </r
Ima In d. I<d111 V r| i,i< r ( l(d(i?) c* A Segunda Tragédia da noiva
< ....... luto 1 di •luii Io do sei ulo 17.1 O Vingador conserva ha nove
.............l i l i l í ' ' di sua noiv a m orta envenenada p o r um ve lh o du
qi" aia 'lile, un. 1 i on slsie em, por sua vez, derramar veneno si >
............ .. 11|iie i>dui |iie I>eija na escuridão pensando pousa 1 um
I" 11*i ''bu o insto de unia jovem. O Ateu é um fidalgo francés
•|iit mandiiii apedrejar seu irmão pára apoderar-se de seus bens
I »epi >ls de 1 eu.is de assassinatos, suicídios e violações (num ccml

MM. NA.SI Ili, Th. I.c Voyageur m alchanccux. trad. Ch. Cliassé. Paris: Aubici,
I9S4. p. 284 ÍM5. Agradeço ¡mensamente a André Rannou por ler me 1 I1.1
nuulo a atençao .sobre este texto e dc maneira mais geral por ter orientado mi
nlias leituras sobre a literatura inglesa dos séculos XV1-XVI1.
I V). II0W S O N , l’r. “I Iorror and tbe Macabre in Four Hlizabctlinn Trage
dirs" em ( 'ithicrs élisábéthains (editados pela Univ. de Monrpcllicr), 1970,
p, I I t tdVI•1.11 R, E. “Horror and Cruelty in tlic Works oí tlirec Eli/a
bit11.1n Novclists", em (é.ahicrs êlm ibithaiuu 1981, p. ,19 S2. ( I. também
MIsSSIAEN, I*. Théâtre ungíais. M oycn dçr a XVI s¡h it, Hruges, Desdo di
Ihouwcr, 1948: trad. dc /.</ IhigS/ic thi i’cnyym v t tedios de I <1 l i m i t o u 1

:»on
h iiii), o culpado vê aparecer o espectro de seu irmão, lítese mata
i> ni,nulo malar um sobrinho. A duquesa de Amalfi é uma viúva
■u|"-, limaos, mii dii(|ue e um cardeal, querem impedir de casar-
it m »\ámenle, Mas ela desposa sen intendente, Antonio. Ferdi-
........ i'iilouquece a irmá trazendo-lhe no escuro urna mão de ca­
li m i c dl/endo-lhe que é de Antonio. Faz também aparecer,
•'un i m estivessem mortos, as efígies artificiais de seus filhos e de
\nii 'iilo, I Jepois, manda até ela todos os loucos do hospício para
■ i i iii .ii seus cantos, suas danças e suas piruetas”. Enfim, man­
da i .luugula Ia. () último ato é uma carnificina geral. A Segunda
I './'•.■.//</ d a n o i v a expõe o amor louco do tirano Giovanni pela
i ilulu morta cujo corpo em início de decomposição ele manda
ninai Fie queria amá-la com o se ela não fosse um cadáver. Re-
Miimldi is em largos traços, esses argumentos, por mais brutais que
■|a111. dao apenas uma pálida idéia de todos os assassinatos, sui-
111li •■.. espectros, violações e incestos que foram o pão de cada
dl i d. i <irancl Guignol inglês no fim da Renascença. O macabro e
i violencia estavam em toda parte.110

;i.i<11ificações divergentes
No meio do caminho, acabamos nos esquecendo da men-
. iitem religiosa que, na época, deveria estar ligada à representa-
• 1.1 da morte, lí que ela está simplesmente ausente de um certo
numero dc obras principalmente literárias. Mas não forcemos, de­
liu I, esta afirmação. Mesmo nas representações arcaizantes do
tiiunlo da Morte, a pastoral cristã nem sempre está ausente. Em
duF manuscritos em iluminura dos Triunfos de Petrarca e em
■111.i■. sequências de gravuras consagradas ao mesmo assunto, o
111'' d.i Morte está rodeado de demônios gesticuladores que le-
.iiii o.s condenados e de anjos que retiram os eleitos.141 Em ou-I

I i(l. I .ii} l.c M assacre à Paris (trad. fr. Gallimard, 1972), Marlowe evoca com­
place lilemente as mil e uma maneiras de dar e receber a morte. O massacre é
0 do dia de São Bartolomeu. Sobre o sadismo na arte e na literatura manieris-
i.i i lí BOUSQUET, J. La Peinture..., p. 206-207 e 246-252.

1 1 1. Sucessivamente B.N. Florença. Fundo palatino E, 5, 6, n. 65, fim do séc.


XV; B.N. Paris. Fundo ital. ms. 545, 1466; British Museum, duas “seqüências”
do lim do séc. XV. Cf. GUERRY, L. Le Tbém e..., p. 205, 209, 220, 221.
lio m.imiM tilo liasímil*>, os <,i\ a los que piix,iv,im o lugulHf i.ii
io ioml);iiii fulminados (|iuiiuI*>, ti.i soqüÉncla consagrada ,10
T riunfo iln P lr h it/</</o, oles se encontram om face ilo (aíslo res
-*,ii.scltíulo.1,J N<> quadro <|iio l.oren/o Costa pintou om I IHH I i')o
para San <¡lacomo *lo U* >1*inlui, o oam >da M» >ilo o il* mil nade» p* n
nina grande leofania onclo Deus l'al impera entre María o o (ais
lo o rodeado por elipses concOntricas de anjos e de sanios Mein
.« lina *lo alfanje da Morte, uma criança nua, carregada por dols
an|os, simboliza sem duvida o vóo da alma depois da moile "
Mu rol, na D iplom ado di‘ M rssbv F /o rlttio n d Robcrlcl, assoe la urna
llv.io auténticamente crista ao triunfo italianízame da Morte l le
põe na boca dcsla ultima palavras em <|iie aflora mals tima ve/ o
conlcniftlus n in u d i. "A alma ó do alto e o corpo Inútil / N.n >e ou
lia coisa que uma baixa prisão / Km que definha a alma noble e
gentil", e ainda Sem mim, i|iie sou a Morte, / Ir nao podi
para a eterna vida",1"
IU .la * |iK- * miras figurações pelrari|uizantes do triunfo da
Molí* paieeem lolalmenle laicas, Nao fossem as convencionais
i tu,s Inani as com que sao estampados os tecidos negros, mu
"b s. i\ idoi me ni is avinado nao adivinharia que Se trata de Icono
i m I ii <i l'.ia < > mili o ensi ñámenlo que elas propõem e o da
" i i l p i i i * la da Implai avel deusa. A mesma liçào religiosamenle
i.' un . ■ ' spn . . a por i i-rli >s triunfos da Morte c|ue nao se ligam
i 1 11 ipil e i. . a m al, anie i mbora situado numa igreja, o triunfo de
1 ln "ii. na........ .11 mnía nenliuma referencia ã salvação, ( )s tres <s
qin lii" (um dos quais, no centro, c coroado) que dominam i
. "iiipi.ili i.» ao apenas Invencíveis assassinos que nenhum pie
•lili |ii ii lt i la api.ii ai l'odavia, os sermões e o culto podiam,
iqul, lia/ei ao.s fldls o comentario apropriado; o <|ue eia o ída
delio, com o ja sublinhamos, para a maioria das danças iii. k abia ,
Mas o i ■«‘lebre T r iu n fo J o M o r ir de Mrueghel nao incluí nem au|o
in'in demonios, nem paraíso nem inferno, A redenção e a res,sin
relçao csiao ausentes. Tudo se passa com o si* estivéssemos mci
guillados lora do universo cristão impressão <|iie da lambem "
sen lien cnscam cnto de Uelrni,
bis m >s enlai) c* >nlri >ntadi >s com a ambigú idade do mai a bu*
na cpoia do nosso estudo, sobreludo quando si* líala de Imagens

M.’ IVN. Ilmcigu. l ímelo Maglhbcdii, 1478. ( 1. Iliul,, |>. 20Y


M i. * I, lliiif, Iig. l) c p. 200 201.
I el, MAUOT. W t i r i r I, |>. Y t‘) VI I

20 >I
•ni palavias suscetíveis ele* ser Interpretadas cm dois sentidos
i' ■ii> l M in cliivlcla perigoso ( |ilerer fazer falar demais obras
•|in ' iam miles de ludo arlísticas e nào pretendiam forzosamente
...... . uma mensagem. I lans Baldung Grien, que se deleitou na
i pn .'•iiI.k .io de deliciosas raparigas nuas beijadas pela Moite, te-
H i -ildi i um antl cristão”, um predecessof de Nietzsche?145 É difícil
iiuni ii Mals que intenções deliberadamente subversivas, parece
pe i. 11\i I deleclar, num corpus macabro de dominante religiosa e
11u Uiill ,tule, a intrusão - que deve ter sido geralmente involilntá-
ii i di elementos dissidentes e discordantes que, em varias oca-
I'" u abaram por modificar e até inverter sua significação.
I imã primeira probabilidade é que a proliferação de textos
i hiiiiu.i n . reí i•rentes a esqueletos e a defuntos deu uma força nova
i mi ir i . i lencas pré-crislãs relativas ãs danças de defuntos nos ce-
miii iii »s, ai »s espectros e à “horda selvagem” dos humanos prema-
....... tu uh la lucidos - por acidente, enforcamento ou atos de guer-
i i i |ih correm após a morte, em particular durante o Advento.146
M i i "horda selvagem” era também o cortejo aéreo, no meio da
m 'Ui das leltieeiras conduzidas por Diana ou Herodíade. Num de
m n u ios quadros, Urs Graf amalgamou os dois elementos que
• *111111•ui na "horda”: espectros - supliciados ou afogados - e duas
i In Imladi , nuas que desencadeiam uma tempestade e vão coman-
i n i i a\ algada."' Lucas Cranach, o Velho, evocou igualmente a
I.....Ia selvagem" nos três quadros que por volta de 1530 consa-
•-1.111 ui lema da Melancolia, associando intimamente o aspecto
In Hi<m im i da "horda” aos folguedos eróticos do Venusberg.148
Olíanlo a IKirer, várias vezes ele figurou a Morte por um
........ ui velho: no Apocalipse, em O Cavalheiro, a Morte e o dia-
h*• * ui * Urasdotla Morte.1'" Esses velhotes monstruosos podem le-

I I ' < o muni cação de WIRTH, J. “Hans Baldung Grien et les dissidents stras-
limiiyoois, cm Croyants et scepúqnes au XVF siècle, Atos de um coloquio orga-
ni. ido cm Estrasburgo, 9-10 junho 1978, éd. Istra, Strasbourg, 1981, p. 136.
I M«, A i ".sc respeito, estou totalmente de acordo com WIRTH, J. La Jeu ne
filie a ¡a Moa..., p. 9, 21-26, 94-95.
Ii lliid., p. 95 e pl. 78.
I IH lliid., p. 97-98 e pl. 79 e 80. Cf. FRIEDLANDER, M. J.; ROSENBERG,
I, H. iiicits Cranach. Paris: Flammarion, 1978. p. 127-128.
I r> Ibld., p. 36-37 e pl. 17, 61, 83. Cf. BERNHEIMER, R. W tldM an in
tkn Aiid d lt. Ice, Ckmbndge: 1952; DUDLEY, E. e NOVAK, M. E. (ed.), The
U ihl dlan within. An image in Western Thought from the Renaissance to Roman-
liilstn, 1’ittsbuig: 1972.

205
gilí mámenle apaiecei como teetu ai ñas,oes do "homem selvagem"
eonltci Ido |mi ulitigas iradlcOes populares, I la hilante c1.1•. lloie.|,is
o, i'iillin lili, portlldoi de lodos os temores c|LK’ OHl.l Irispll.iva Uh
tifamente, o "homcm selvagem" pertence .10 mesmo lempo .m
mundo dos vivos e .10 universo di* ;ilc*in túmulo. Asslm, ,1 r\plo
..lo do macabro parece realmente ler provocado um rellorcsil
mcnlo l'olc lórleo cerl,musite Integrável c militas vc/.es Integrad* •
.10 discurso crlsláo dit época, mas iis ve/.es susceptível 1U•sepa
mi se dele e, ein lodo c aso, passível de lima dupla lellura
Voltando a l lis Oral', desia v e / lora das alualIzavcVs lolclo
1k as, rom o delxar cle Interrogar nos se >1>rc <> e<>nteúilo c 1Isl.k 1 1I*
aias obras? As cenas macabras que e*k* desenlia soldados eníoi
cados, cadáveres cobrindo o campo de batalha, defunto animad*»
i<»i ande >c <>m <*> |c>elho o mercenario prestes a alistar se ec >ni|nh
lam Min dúvlda unía lk/ao moral (a loucura do olido das armas),
mas sao va/las de- referências'cristãs. Quanto a sua Fiduciario (de
l’>’(i), ela nao p.issa de um pretexto para um espetác ulo de loilu
la halado com uma I>rutalldade calculada”. H sem prova dei Isiva
<|iii .*• supo*' que a \tilma seda o Cristo.1'0 Por sen dese|o de sa
<li lilí* > urna obia como essa lembra o Martirio ele ele. mil <.rlsldos
■f 1ti*■ilas Manin I I leulsi h e, mais feralmente, o gosto pela \li *
I' nda *|tii . impela sem |>mle>r n<>teatro francés e infles do llm do
i* ' ul" ln * luido do I ' I alamos aqui no universo do mórbido <>
ma* il >1•>tu <l* 1 aso nao Uan outra significação a lem cicle- me-ano
ll' ' de| 1 . Ii .<0I11I1 no seu estado puro, dessacrali/ado.
sla cMilla pista ja assinalada por diversos hislorladon *
■' ain ' AIb* •I•' I' -1h•11111'1 e lean Wirih1'- sera C|iie a licao crista d« >
niiO lino (o m ancillo morí) nao se- transformou num convite *1*
•tgnlfli a*, lo lina i sa (memento riñere)'? Será (|uc- a insistência so
bn o liana da morte prematura nao se le ría tornado as ve/,es unía
* siimul.il,.10 .10 erotismo, significando urna verdack-ira "furia *1*
vivei' ' I ...i lellura paganizante e sem dúvida convincente (|uun
d< 1 se nata das c)bras dos irmáos Heliam cuja irreliglàc>pe o* upott
na époc a ele Diuca as autoridades de Nuremberg e «pu c .111.1111
decididamente na pornografia, associada a imagem da morlc *
valorizada por ela. Quanto aos "leitos fúnebres" desenhados na
mesma época por outro artista ele Nuremberg, IVtcs floltica, •I*

I '><). Iliiil., p. 1.12 c p. 11S.


I d ( | iioiiul.iiiu iiic l , i V¡(\, , p t i l s.
112 WIKTII. |. /./ ¡cune filie el lo Morí . p. I ‘>H 107.

200
constituíam também, pelo viés de um;i surprcendenté iconogra-
li.i macabra, uma evidente provocação ao prazer.155
Mas será que se deve compreender da mesma maneira di­
versos quadros e desenhos de llans Baldung Grien? Este, nos
anos 1510 1520, se compraz em simbolizar a Vaidade por uma jo­
vem e bela mulher nua surpreendida pela Morte. Ele enriqueceu
esse esboço geral de variações diversas: o esqueleto ou o.cadá­
ver em via de decomposição aparece no espelho em que a infe­
liz se contempla. Às vezes, ele segura uma ampulheta; ou ainda
col oi a a mão sobre o flanco da vítima ou a puxa pela cabeleira,
ou a segura pelo braço, ou a beija na boca. Na mesma época, ou-
iros contemporâneos de Hans Baldung Grien tratam do mesmo
lema. Um desenho de Nicolás Manuel Deutsch em particular
aprésenla um cadáver levantando o vestido cie uma jovem.154 To­
das essas obras querem em princípio significar a fragilidade dos
bens deste mundo e potadamente da beleza e da juventude.
Será que se deve adivinhar uma lição paga oculta por trás
desses apólogos. É o que pensa J. Wirth apoiando-se num elíptico
mais (ardió de I lans Baldung Grien conseiyadò no museu do Pra­
do, I >c um lado - a radiosa vertente ântica - estão figuradas três
jovens beldades lendo uma partitura musical; do outro - a som­
bria vertente cristã - uma jovem é atraída por uma velha que por
sua vez e arrastada por um esqueleto segurando uma ampulheta.
<) artista foi ligado aos “libertinos’^de Estrasburgo. Mas “libertino”
iii » século 16 era entendido sobretudo no sentido de independen-
le em relação ãs ortodoxias religiosas. E Hans Baldung Grien se­
ita um "libertino”? Ele trabalhou para católicos, para protestantes
i para dissidentes. Ele parece ter sido motivado por “fidelidades
sucessivas". Boi sem dúvida um admirador da beleza feminina,
'.eu que por isso ele rejeitava o Cristianismo? Na alegoria do mu­
seu do Prado, no lado cristão, a lança da Morte está quebrada e
um c rifei fixo aparece no céu. Concordando com François G. Pari-
.1 t, eu creio enfim que as obras de Hans Baldung Grien, muitas
.Ias quais loram religiosas, “contêm múltiplos conceitos”, mas
. i im ergem para uma lição cristã que não é um álibi”.155
-------------------------- . ■!
153. Ibicl.., p. 135-145 e pl. 121-142.
154. Ibicl., p. 70.
I 'i5. ( soyants et sceptiques..., p. 129 de PARIZET, F. G. igualmente “Réflexions
.t propos dc Hans Baldung Grien” em Gazette des Beaux Arts, 1979, p. 1-8.
( Ipinião concordante no texto de acompanhamento do catálogo da exposição
I /,un Baldung Grien irn Kumtrriuseum Base/, Bâle, 1978, p. 27.

207
( ) casi i i Ir Ki insard p erm ití' l.ll vez e,si larecei o do artista ,ile
ma<> n.i m edida em que ele deixa i la lam ente percebei a coexistan
ila nao nei cssailamente e»icrenlo d entro de uma mesma olna
i |e diversos ills i insi is m )|)ie a m< >rle, com a ll<,ao crista dom in a nd o
porem as outras, Testemunha fiel de sua úpoca, Uonsanl e habita
d o pelo pensam ento da fuga do tempo: "Vos, carvalhos, herdeiros
d o slleiu lo dos bosques / liscutal os suspiros de m inha ultima
1 1 )/ I de meu lestamenk >sede os presentes lubeliaes,""" ,, "I i >gi t
e .l.nao estendidos sol) a lapide",1’ ele. I ’.le se deleita as ve/es <oiu
e\ oi aeócs de <adaver, "alim ento de vermes, / I )csprovklo de velas
e di nervos", "sombra sepulcral" que

N.111 t« ui mais espirito nem razáo Artéria, nem mais vela macia,
1 ir ah' nem Hgav-tu, Cabelos na taheña nao tem,11"

M e, io n io os convites para gozar ¡m ediatam ente a juven


lu d í > i ai . > te aha do s nos mais belos versos de Konsard e os
m a l. l.n e| . di in e m o rl/a t , esquece-se sem pre de que, cm leí
n i" d' quantidade, i •les c< m stltucm apenas um elem ento bastan
!• m odi ao no eon|unto de sen discurso sobre a morte, Mais im
p o ita n li eom • h ilo, e a i onsialaçao pessimista • e scm conclu
•un • ln ' I' mista de que a vida e curta ("Antes d o le m p o luas lém
p o i.i , llo rlra o " ,1 |a d o p ró x im o In vernó cu prevejo a tempesta
de"),'"" de que a M orte e "a única entre os im ortais / Q u e nao
quei leí te m p lo nem altares, / K c|iie nao se dobra a o ra lb e s nem
o l'e ie n d a s ""1 o m esm o tema d o afresco m acabro de Clusone,
K< ms.ird, p< >r i m iro lado, retom ou os temas medievais clássicos da
m c d lt.g a o sobre a m orlc. O U bi s iu it? está presente na sita obra

I lomci'n está mullo, Anacrconte,


l’iiularo, I lesíodo e Mionlw
I a.lo se preocupam inals cm saber
I >o hem mi do mal que rieles dizem."'1

I S(>. l.e seeoud livre des sonnetsfiour Ilélhie] I XXVI, éd. I*. I.aumomrr, ION
I91‘>: VI, p. 10.
1*57. I'ihr wntnebée des Amones, lbitl,, p. 0.
ISH. 'IMsihue Hvre des Odes, XXX: II, p. 303.
IV), I.es Amours, I livro: I, p. II,
l(i(). Amours di verses', IIhiI., j». H V
161. I es Uymnes, livro sc^ iiih Io IV, p, 17’ .
!(*.’, Ilion tic SinvilM, poro ilo mi tilo III iiniri ilc | l ’.
163. ihhlhue lime de\ Odes, XXV II, p 103

:»<>H
Sodios |>oi .u aso müi.s divinos «|Uc* Aquiles ou Ajax,
(. mu - Alexandre on Cesar q u e nao souberam
I >elendei sr da inorte, embora tivessem na guerra
Kcdu/klo sob suas maos quase toda a térra? K"

<) contemplas m nn di aflora também naquele H in o da mor-


h < ) talento renova então um tema que se poderia considerar
desgaslado:

() estar já morto nos seria um grande bem,


Se considerarmos que não somos nada mais
(.>ur urna torra animada e urna sombra viva,
Motivo de dor, de miséria e de estoivo,
I >v lato, e c|ue cm miseráveis males nós superamos
( ) resto, o desgraça, de todos os animais!
Nao por outra razão Homero nos iguala
A lollia de inverno que das árvores cai,
A tal ponto somos flacos e pobres operarios,
Kecebendo sem descanso males sobre males aos milhares.",s

l is estão sentenças que os Padres do deserto ou os mon-


......... cías dos séculos 11 e 12 nao teriam renegado. É bem ver­
dade que se poderia, destacando-as do contexto e aproximanclo-
i da lam entação tío desesperado de Du Bellay, juntá-las ao ar­
quivo de um pessimismo e de uma melancolia da Renascença que
al i.uidt maram ãs vezes do Cristianismo. Mas a obra de Ronsard
d* ve ser considerada no seu conjunto. O poeta cortamente conhe-
i . ii a tentação do paganismo ( “O verdadeiro tesouro do homem
• i verde juventude, / O resto de nossos anos não são mais que
111vein os" )1,1,1 e também a de transcender a morte pela celebrida-
d< " Mas, a meditação macabra reconcluziu-o finalmente aos ca­
minhos tradicionais da Igreja. Ao esqueleto “descarnado, desner-
id<i, di".musculado, despolpado”108 ele opôs a alma libertada
pi la ñu irle que “sobe ao céu, sua casa natal”.lb<CLá, “de todo mal

I (vi. íes Ilytünes, livro segundo: IV, p. 366.


165. Iliiil., p. 368.
166. Oerniers vers. Stances: VI, p. 5.
167. ( T. Quíitrième livre des Odes, IV: II, p. 315; C inquihne livre des Odes,
XXXII: II. p. 454-457.
I6M, Derniers vers. Soneto I: VI, p. 6.
I(i'). t'roisihne livre des Odes, XXV: II, p. 303.

20fl
hei lili, De sre nl( >em see iilo |c’l.i |vive Item Ir 11/ r ennlCMli |llii
(<> ele seu ctí ;Ul o r , I ).i( > o r< >nselll< >: "N.ii > sr|.mn >s <»*. | ion n*
d r Circe" .1 Ihn ele uní illa chegar .1 "ll.u a” eterna:

( !ai legarlos de* esperanza,


Pobreza, m u ir/, lornumio r pudenda,
( linio wrdadelros Millos r ell.scipulos d r Cristo,
<.>ur, vivo, nos entreabrió rssr caminho por escrito,
I mau ou m m sou sangue essa vía 1.10 sania.
Moliendo primeiro para nos tirar o medo.1,1

\i 1 Iciano ele’ nossa Ires|üenladh> a<>s morios r a Morir no


hit. |m da modernidade européia, impor sr rnlao a rvldrni la da
p> >ll\ ale in la dr 1im uiac al >r<>cu jas slgnilk agoe'.s divergentes sr 1.
>. I mi i. liahhlas 1 (|ual(|uc’r reduclonlsmo. Sun orlgcm mío drlva
din Idas l li provnn da rellexáo ascética dr monges Inlrlramrn
n collados paia o alrm r <pie* (|uerium conveneer-se r prisua
1lli oiilios d o ia ia lri nefasto elas ilusões deste mundo. I ssc dls
1 u 1si 1 es |i sl.isilro loi drpois difundido lora dos convenios pe la
piroii 10 i •pela lea un igra lia, i>u soja, por urna |>aslc nal do mes lo
I sia pies i» up« ni sr rom o aumento elo luxo r da rrrsrru lr aspl
1a 1 .10 aos lirn.s lerrenos de- uma civilização (jue, pelo menos no 1
nivel,s soi lais mals elevados, sala da indigencia e tendia para mu
jiialoi <onlt 11111. A Insistência se >brc <i macabro, na esleirá do e o n
lem/>lns m m tili . entrava, portanto, na lógica de- unía vasta rmpn
s.i ele * iilpabili/aeao orientada para a salvaran apos a morir
( he uiisiane ias conjunturais epidemias, carénelas e « res
rímenlo da violência favoreceram a reecpçfio e aumenlaram 1
audiência do memento m orí. A advertência da Igreja, eonsl.mh
mente repelida, parecen mals do <|ue nunca justificada pelos I11
h muñios da época. I'.nláo, é preciso insistir sobre o lato ele epn
.1 maioiia dos testemunhos escritos e iconográficos que possui
nú>s m )bre o macabro dos séculos la- 10 ira/ a indiscutível man a
da Igreja, mesmo se as vezes eles integram elementos fole lorie ou
pm ( lisiaos, l ies nao remetem a urna eoneepv'ao da vida r da
morir separada do ( alsilanismó. Ao eonlrarlo, convidam a peni
leíu la e ao ilesapeg<>das e<>lsas da ierra honrarlas, rlc|iie/as, I •<•
le/a e ,1111111 carnal Ihsa e, .10 que parece, a slgnjfle .g ao doml1

1 'o / 1'. Ilytnm 1 llvu» M'Kiiinlu \' I, |» t '


1 1 llmf, |. w.' HiH

¿10
ii.inU' das evocações c|ik*, durante mais de dois séculos, insisti-
i.nn M)hrc .t brevidade da vida e a decomposição dos corpos no
imiiulo. I cssc c lambem o sentido do itinerário complicado e
laniaslk (> <|uc* os visitantes eram convidados a percorrer no par-
t|iic dc homarzo (provincia de Viterbo), realizado segundo as in-
dli ações dc um principe Orsini na metade do século 16. Um per-
•ui no simbólico dentro de uma natureza selvagem levava a en-
<i mirar esculturas monstruosas e arquiteturas insólitas. No cami­
n h o , liam-se inscrições com o “Despreza os bens terrenos”, “A
0 nladcira volúpia é depois da morte”, “Senhor, guia meus pas-
•i etc. Esse itinerário iniciático terminava num pequeno tem­
plo precedido por um Cerbero de três cabeças e delimitado por
pndras lumularcs ostentando crânios e tíbias. Espantosa associa-
1 ao da arte dos jardins com as lições do contemplas m un d i , o
fo-iio pelo macabro e a atração pelo monstruoso.1723 7
1
Todavia, é bem verdade que, num clima de angúsdia e de
morbidez, a atração cio macabro corria o risco de desviar os ho-
mrns da época - e não deixou de acontecer - para duas dire-
1, 01"., afinal opostas tanto uma com o outra, à mensagem religio-
a Inicial. O primeiro desses caminhos sem saída era a compla-
•cuela pelos espetáculos de sofrimento e de morte. Partiu-se das
' nuil ¡caçoes, das flagelações, da Legenda, dourada e das evoca-
Mii", «.k* martírios e desembocou-se em cenas voluntariamente
mal .as de torturas, de execuções e de carnificinas. Da lição rno-
ul c religiosa, resvalou-se para o deleitamcnto sádico. O maca­
ón» acabou por ser exaltado por si mesmo.
A segunda evasão para fora dos caminhos indicados pela
IcieJa consistiu na inversão do memento mori em memento vive-
/c ja que a vida é tão breve, apressemo-nos em desfrutá-la; já
que o corpo morto será tão repulsivo, apressemo-nos em tirar
dele io d o o prazer possível, enquanto goza de boa saúde. Lem-
h ie m o s d o que acontecia durante as pestes:1? alguns se precipi-
l.nam para as igrejas; outros se entregavam avidamente às pio-
n ■ luxúrias. Esses testemunhos provam que o macabro podia
.ci recebido com o um convite ao erotismo. Daí a ambiguidade
do', quadros e das gravuras de Hans Baldung Grien. E se exis-

172. BATTISTI, E. L ’A ntirinascim ento, Milán, Feltrinelli, 1962, sobretudo


l>. I 26 133. Sobre a atração pelo monstruoso Cf. CÉARD, J. L a N ature et le
/HVt/ige. l.'insolite au XV I' siècle en Frunce. Genève: Droz, 1977.
173. C f DELUMEAU, J. L aP eu r..., p. 119-120.
It'iii dlH’ld.is legitimas sobre ¿is Inlenvóus d e s s e arllsla (i|lie
talve/ nao fossem inulto dllerentes cUi.s do um Nonsard), as nn s
mas lulo existem sobre . is ilos limaos Molían) r de l'lblnei I m
|<hLis as liponas e um todas as civiliza vbos, encontraram su lio
inens para Interpretar os espetáculos macabros uomo uma ln< l
l avilo pura aproveitar Intunsamenlu a vida. Malxos role nos , lam
padas supuli rais, lapas antigas ja llnliam assouiado u.s(|i|uluios
i unas du pra/ui carn al.1"'
I ni suma, nao uruio (|iiu su possa, globalmenle, sepaui m
nh'iiii ulo morí dos suuuli>s I i Id da concepção rollgli>sa <|tiu o un
■* ndion e da pruoi upai/ai>c lisia uom o alúm, Mas o vurdadu «pn
i liisisiniu la suliru <> mauabro eslava carregada du possíveis di s
i" u i sm . desvíos eleilvamonto se produziram na dln\ao lauto
di vImIuih la ionio do erotismo, oslando urna Ireqíicnlemenle ll
i' id i 10 i miu i N.li >se maneja sem pcrlgo a arma do ma< abro

I i ( l HAI l RUSAITIS, |, I c M nytn div /,'////</,t//////<*, p, W> .M7.


capítulo 4

um mundo
pecador

“época de pranto, de angustia e de


ton liento” (eustache deschamps)
Conduzido ao centro do palco por três forças provisoria-
iim mIc convergentes - a Igreja, a peste e a violência o maca­
bí o di >s séculos 14-ió, com todas as suas ambigüidades, mostrou-
< « orno urna característica notável da modernidade européia em
•• ii Início, pelo menos no plano da cultura dirigente. Ele será ain-
•l.i melhor compreendido se colocado dentro de uma vasta pai­
sagem (|uc justifica a orientação sintética adotada no presente es-
ludo uma paisagem geralmente muito sombria, ou pelo menos
pen chilla com o tal. s
Tratado com o um quadro, poderiamos intitulá-lo “Tudo vai
iii.il", formula de Eustache Deschamps, ou melhor “Tudo vai de
ni,il a pior", outra afirmação do mesmo poeta. Certamente que,
<iu iodas as épocas e em todos os lugares, existiram pessoas ra­
bugem.is que olharam com nostalgia para o {lassado e deprecia-
i.im d presente. Mas se durante certa etapa da história esse tópos
.< lorna predominante e se apresenta com o um componente im­
pórtame da mentalidade coletiva, então ele merece uma atenção
p.ulli ul.ir. Nosso propósito então agora é mostrar, por uma nova
.uupli.içao do círculo da pesquisa, que a difusão fora do meio
muh.isiico .i partir do século 14 dos anatemas contra o mundo e
<i homem foi inseparável de ura diagnóstico alarmante feito pe-
I* i onlemporâneos sobre sua própria época. O espetáculo des-
i.i ultima levou a um julgamento geralmente desalentado sobre a
ualure/a humana e a vida deste mundo. A aculturação culpabili-
atlora lornou-se, então, acreditável por uma situação angustian-
ir, lilas sr reforçaram redproeamenle, Imbricadas nina na Otilia
( )s clols capítulos a seguir vão esforçar-se para esclarecer rs s r en
ronlro Iiist«>rkc» que poderla nao trr ocorrido Incidindo sen
foco sobre o pessimismo da Renascença.
Quando o Romaneo de Fenivel (1310- I3M) afirma i|iie no
mundo corrompido ludo parece andar ao contrário ("os homens
sr (ornaram animais; andam de cabeça baixa"), ele* ainda peona
net r mima relativa Imprecisão, embora seja verdade que na sail
ia daqueles que "espancam 1'auvcl" estão expressos os protestos
daqueles setores fiéis ao espírito de São Luís contra a política de
Filipe, o Helo, l)a mesma maneira 'Pauler, num sermão, permanr
t e Imprei is»» ao constatar c|iie “hoje o amor ao próximo está real
mente extinto em todos os países cio mundo".1 li não saímos aln
da do lugiii comum com o poema que vamos ler, composto pelo
» N nvlensr austríaco Chrlstian de Lilienfekl (f antes de I.VCb, O
presente ao cpial ele faz alusão não está claramente datado r po
derla pertencera qualquer século:

Ne (|ul,serem saber por que o riso me abandonou


Poderíam compreender pela situação atual:
() cordeiro engendrou o lobo que vai entrar em fúria;
Todo o bem passou, o mal impera de maneira terrível,.,

O direito desapareceu, a lei desmoronou; ai de mim, poi que


Inaseli',,,

A febre da glutoneria é apreciada por todos...


Todo mundo se glorifica de ser gordo, ninguém de sua magnv.i.

A Ibrnicação não poupa ninguém, ó dor!-

Mas com os infortúnios da segunda metade do século I i


penúrias, pestes, Guerra dos Ciem Anos, lutas civis e revoltas dl
versas, Grande Cisma c avanço turco deixamos o dominio do
banal e do geral. Quem viu essas desgraças abatendo-se sobre a
cristandade experimentou o sentimento de entrar numa época dt
calamidades Inéditas, explicáveis apenas pelos excessos de uma
humanidade c de uma Igreja terrivelmente pecadoras, Tudo ugni

I. Luilci, Stowrtfi. II. I1 'Mi' >»i mnit |mm o Santo S,ummcntn).


SPIT/MUII l'U, 11 IWm, l.iuih* , |i, 00/ ooo.
t t pamela ciitur na nuilor desordem «• o desenlace clossa crlse pu
n 11 ijur deverla ser <> Julgamento final, I im vinculo global deve,
|mmanto, sdr estabelecido, pelo menos durante urna certa se-
•po iii i.i da dlaeronia, entre, de um lado, as expectativas e as
ipil r m ines escatológicas e, de outro, a consciência do pecado, o
li npnv.n do mundo, o horror de si mesmo e o sentimento agu-
dn da liugilldade das coisas.
<» teólogo champanhés Nicolás de Clamanges (1363-1437),
pni |Ha k o tempo reitor da Universidade de Paris, depois secre-
i tilii de bento XIII em Avignon, é um bom representante ele um
i (Indo e de um setor da Igreja que mergulham no pessimismo
m iidi i Muno todas as coisas pioram. Entre suas obras - lidas aqui
inmi i edli, .10 protestante do século 17 - figuram com efeito um
In * !'./.'( >sUi(h corrompido da Igreja , uma Deploràção sobre a ca-
I,unidade Introduzida na Igreja pêlo tão abom inável cisma, um
ii a a In Sobre os prelados sim oníacos, outro sobre o Anticristo ,
. n n ,/ m tmento, sua vida, seus costumes e suas obras d Só esse
■mim lado dos títulos já revela as'preocupações e os temores de
l ih olas de ( Ia manges. Mas na sua correspondência, as confissões
di Inquietação, e até de desânimo, nào são menos numerosas;
•11 11, a ( ierson sobre “o estado lamentável da Igreja”,4 a um se-
n i n In do rei sobre "a corrupção dós costumes tanto entre os lei­
go i nino entre os eclesiásticos”,5 a um escrivão do Parlamento
di Paih •.obre os vícios “quê Deus não castiga sempre com mes-
iii" llageln, mas que não cessa de punir com seus golpes: se a
. .............. se acalma um pouco, ele começa a afligir-nos ao mes-
i(i* * a mpo com a peste e as guerras estrangeiras”.0
Nli olas ele Clamanges opõe ao estado presente cia Igreja
....... idade dr ouro em que floresciam piedade, santidade e po-
Iiii i e os padres só tinham com o único tesouro as boas obras;
un iquele era rico e transbordante. Na época, nada de cálices
di i uiu <e de prata, bebia-se nos recipientes de argila ou de es-
i mim < > alto clero não tinha necessidade do aparato de cava­
lo » armaduras; nào desfilava precedido de uma multidão de

' 1 oiiMiltci lima edição holandesa (Elzevir, Leyde, 1613): N icolai de Clam an-
i i>/’iTii om nia que se divide em 2 partes com duas paginações separadas.
\ i ,u(.is e o De Antichristo... se encontram na segunda parte.
I ( 'artu u. 15. '
• < <i i tu a, 28.
fi i ana ii. v)0.
histriões, nem acompanhado por rapazes com cabeleiras ondu
laclas e afeminados, com roupas listradas como pele de mons
tros, com mangas arrastando no chão - espetáculo “quase bar
baroV Mas com o aumento da riqueza e a abundância das col
sas secundárias - já a sociedade de consumo! - vimos o luxo e
a insolência insinuar-se na Igreja, a religião esfriar, a virtude em-
palidecer, a disciplina relaxar, a caridade extenuar-se, a lumnl
dacle desaparecer, a pobreza e a sobriedade tornar-se objeto de
vergonha, a cobiça intensificar-se. Ninguém se contenta mais
com seus bens; já não se cobiça apenas o bem alheio: dá-se um
jeito para roubá-lo e para oprimir os inferiores. Assim se com ­
portam os pastores da Igreja cuja avidez ultrapassa a dos leigos.
Que exemplo para estes últimos!8
Ao ler essas acusações compreende-se por que os protes
tantes republicaram nas Provincias-Unidas as obras de Nicolás tic
Clamanges: que melhor testemunho, deviam eles pensar, sobre ¡1
corrupção de uma Igreja que a Reforma tinha tentado limpar!
Mas, nesse doloroso período do Grande Cisma, já não existem
mais almas santas? Nicolás responde, no capítulo XXV do seu De
corrn/Ho eeclesiae statu, que o desregramento na Igreja assumiu
lal dimensão que é melhor calar-se sobre aqueles que se compor
iam bem. "lúes são muito pouco numerosos e não fazem peso"
(/Hirro nimis in numero atque momento-sunt)?
Daí o c a s tig o próximo profetizado no D e Antichristo . .
Dirigindo-se aos príncipes, ã hierarquia eclesiástica e a todos os
cristãos, Nicolás de Clamanges anuncia as grandes desgraças que
se acumulam acima de suas cabeças. A pérfida raça cristã já abu
sou demais cia paciência celeste. Éla deve carregar agora um pe­
sado fardo cie punições e de flagelações. O “grande julgamento
está nas portas”. Uma prova é o avanço dos maometanos, exe
cutores da vingança divina. Os progressos dessa imensa mui ti
dão ávida de nosso sangue vão enfim vencer nossa revolta con­
tra Deus que nem as pestes repetidas, nem as guerras estrangei­
ras, nem os excessos de nossãs lutas internas tinham- consegui­
do abalar. Ademais - cúmulo do castigo - à ação dessa “besta
cruel” que é o turcò junta.-se a de “outra besta” que é a heresia,

7. D e Corrupto ecclesiae statu, cap. II, p. 5 da 1' parte da ed. de 1613.


8. Ibid., cap. III, p. 6.
9. Ibid., cap. XXV, p. 23.
10. Ibid., 2' parte do livro, p. 3 V 3'»H.
•1111' grassa notadamenic nu Alemanha" e nu liuliu, Sinistro tem
I". esse 11uc* se prepara. "Por uxla parle haverá furor, por toda
parle luto c violência, por todu paru* u Imagem da morte. Poliz
u atinente daquele que entregou a alma u Deus antes dessas tri
hulaçoes e dessas calamidades’’.
I listadle Deschamps (1346-1406), contemporâneo de NI
m|,is tlc Clamanges, poeta fecundo sem ser genial, é, na França
ilt < arlos VI traumatizada pela Guerra dos Cem Anos e pelo
' irande Cisma, a melhor testemunha de uma geração desanima­
da Pm sua obra confluí a maioria dos temas pessimistas que a
i ulluia ocidenlat então veiculava. É uma obra que merece aqui
uma atenção particular na medida em que constitui uma síntese
i iinbrla que não se deixa obscurecer pelas baladas amorosas de
um esc rilor afinal misógino.1- Vale a pena seguir através de seus
(turmas a passagem dos lugares-comuns separados de uma u n
uologln precisa para a amarga evocação de um, presente que lu
. liava demais à tristeza. Bem entendido, ele lamenta o desapau
i lun nto de um passado idílico, embora numa de suas bal idas lt
111i.i demonstrado espírito crítico a essè rfespeito. Pvoeaiitlo N» m
• 11.melón, ele reconhece que “muitos se comportaram mal Nu
a mpo passado.. ,”.B Mas essa não é a nota dominante numa ubi t
•m que abundam pelo contrário as referências a uma .......... di
••uro mal definida que lembra a de Nicolás de Clamanges l m iu
llonra havia no mundo” e “soberano conhecimento', "geueiusl
i ule, ... bravura e lealdade”.14 Houve um tempo em qtu a Igu
|,i estava “em grande altura”,-o povo não se assoberbava . pm
• .se.s dois lutava a N obreza.../ Um não tinha inveja tio outro" '
<k antigos “por seus grandes labores, / Reinos e terras eonquls
i 11.1111, P fundaram várias cidades grandes; / Já os presentes nau
laiao o c|ue eles fizeram”.16
Á época feliz de outrora se opõe o envelhecimento rápido
u.iu apenas da humanidade, mas da própria terra - uma eonvic
•ai • largamente difundida na cultura dirigente no início dos tem

I I. Alusão sem dúvida aos Hussitas.


12. Cf. DELUMEAU, J. LaP eur..., p. 335-336. Sobre o pessimismo da épo­
ca cf. notadamente. HUIZINGA, J. La D éclin..., p. 35-40.
13. DESCHAMPS, E. CEuvres..., II, balada CLXXXIX, p. 6-7.
14. Ibid., I, balada XII, p. 86-87.
15. Ibid., I, balada XCVI, p. 204-205.
16. Ibid., III, balad;\ CCCXLIII, p. 60-62.
pos modernos e que j;i encontramos no primeiro volume desta
obra.17 bastadle Dcschamps constata que as estações están suh
vertidas.18“O ar está quente quando devia estar Irlo". ( )s tilas sáo
curtos quando deviam ser longos. Além disso, as árvores agota
-são “raquíticas, nos prados só há espinhos". "As pessoas sao ele
baixa estatura” - como voltarão a afirmar no século 17 os apolo
gistas protestantes franceses-, “animais, aves, de pobre eomplel
ção,../ Peixes miúdos, semente seca e estéril / ... Vinhas pom o
valem como seu rendimento / Não dão elas bebidas a provei tá
veis. 7 O trigo que se colhe se estraga em casa / Ou no celeiro,
e pouco se aproveita”. A natureza é portanto atingida nas sua*
forças vivas; mas, sobretudo, os homens se comportam cada ve/
pior. Sobre esse tema, o poeta é inesgotável: “I loje só reinam l<»u
eos”.19 “Amor eu só vejo o amor de Renart”.20“Não há noticias de
virtudes”.21 “Já não se crê em mais nada”.226
2
5
4
3“A ninguém imp<irla 11
inferno ou o ■parafèo”.2* A exemplo dos pregadores, Eustadu
Deçchamps ataca as modas indecentes. Ele troveja contra aqtu
les que usam roupas tão curtas “que seus traseiros parecem d*
macacos” e contra as mulheres que “fazem aparecer os selos" "
Por toda parte, “reinam vícios e dissoluções / Pobres estão cita ­
dos, ricos são louvados / Maus vivem, bons são punidosV* S ó nc
vê “Invejas, maquinações desordenadas, / Ó d ios...”. Daí, cotilo
punições, as “mortes repentinas”, as chuvas, a neve, as tempesta
des, as geadas e as “guerras por toda parte”.20Nunca terminaria
mos de enumerar as queixas, reprovações, remorsos, e conílssi 11
de tristeza que se exprimem na obra de Eustache Descí ntm| >s \
sinalemos sem ordem a balada CLXXXV, “Deploraçáo dos malt
da França”, a balada CXCIÍI, “Ato de contrição de Paris", i liai i
da CCXLIII, “Sobre os infortúnios da Igreja”, a balada O I V, "l.a

17. DELUMEAU, J. La Peur..., p. 223-225.


18. DESCIHAMPS, E. CEuvm ..., V, balada MLXXXVIII, p. 394.395
19. Ibid., III, balada CCCXXXIX, p. 51-53.
20. Ibid., V, balada DCCCLVIII, p. 35.
21. Ibid., VI, balada MCCXI., p. 248.
22. Ibid., VI, balada MCLXVII, p. 109.
23. Ibid.
24. Ibid, V, balada MDCCCCLXXXV1II, p. 235.
25. Ibid., V, balada MV, p. 261.
26. Ibid, V, balada DCCCCXl.VI, p. 162 163.

: : ih
mi niiiikiu ilo |>.ii.s dr l'YíinyuV A mi Mil m.ilor r d.k I.i pela balada
• m | \\ , "Tristeza do lempo présenle"!

rpm a do pro ruó, ele angustia o de tormento,


lilsle/.i sobre tocios, plenos de dor amarga...
" ni alegría, pleno cios sete vícios mortais,
Va/lo de virtudes, altivos e orgulhosos,
I m (|tie cada um definha desolado,
i mu r o lempo perigoso..."

la 111ii* por toda parte só se vê “tristeza e luto”,20já que a


Igii 11 .1 tornou urna nova “Babilônia”30e caiu sob o domínio da
luí uMiu ia Tasto,'1 já que “tudo caminha ao contrarió cío bom
•ii n "i i i laro t|iic a historia humana se aproxima de seu fim.
lu i o lo I v.sclntmps freqüentemente exprimiu essa convicção,
lili i tullí na época - e que se mantera até a metade do século 17.
i i pinti liza na balada 1.11: “Vejo os sinais de que mudará o cur-
Hu I •<Me mundo que se aproxima do fím, / Que muito tempo
ni h punió nao permanecerá”.33 Na balada CXXVI, ele volta ao
h ni i h an o a pouco vai o século em declínio / Caridade falta
■ um nlaia o <>ulro, / Forque o mundo está bem próximo de seu
llm " n lempo do anticristo chegou, diz ele algures, porque “to­
da ei gravas" se vendem na Igreja.35 “Este é o tempo de tribula-
i i" ,* predito pelas Escritura?. Para a pergunta: “Como vai o
........ |u ho|e/\ a resposta! é simples: “Certamente não se pode ir
1 V.Mm, "o mundo é um velho que para seu fim avança”,3”

1 lliid., II, respectivamente p. 1, 10, 75, 93.


•M Ihiil. III, p. 131-132.
■‘i 11*1.1., V, halada DCCCLVIII, p. 34.
Ml Ihi.l., V. halada DCCCCXLII, p. 157-158.
'I Ihiil., V. halada DCCCCXLVUI,-. p. 165-167. Sobre o papel nefasto da
lua. . I I MÍI.ÜMEAU, J. L aP eu r..., p. 92-93.
\> Ihi.l , III, halada CCCEXII, p. 118-120.
*' Ihid., I, halada LII, p. 142-143.
VI Ihi.l., I, halada CXXVI, p. 247.
*■- Ihi.l., I, halada, GUI, p. 279.
Mi Ihi.l., I, halada CLXII, p. 292.
*' Ihi.l., IV, rondó DCXIX, p. 78.
ui Ihi.l, III, halada CCCLXV, p. 107.

*dl()
"A Igreja o tudo vai cm declínio: Por Isso se* pode percebei
Que o mundo se* aproxima dc seu flmV" lí o mesmo sentimento
(|iie exprime um Ilustre contemporâneo cie Eustache Deseliamps,
o duque Jean de herry, guando escolhia com o lema em sua ve
Ihice: "O tempo verá”"’ simultaneamente tempo de sua morte c
da morte do mundo.
Eustache teve eomo aluna e discípula Chrlstine de Pisan
c|ue, viúva aos 25 anos com três filhos, privada de seus protelo
res durante as guerras civis e obrigada a refugiar-se num claustro
durante uma década, foi, ela também, triste testemunha dos In-
Ibrlúnios e pecados de sua época, lím sua obra repercute o eco
dessas vicissitudes, em particular nas Lamentações sobrç as uuer
ras cieis, no Livro cie m utação d a 'fo rtu n a e numa carta datada de
fevereiro de 1403 e dirigida precisamente a Eustache Deschamps
lista carta cuja forma é demasiado rebuscada e sobrecarregada de
rlma*> equivocas não é uma obra-prima. Mas o que nos importa
e o tema tratado o "tudo vai mal” - sobre o qual Eustache Des
•liamps e Chrlstine só podiam estar de acordo:

<i mr-ittvl Que dura maravilha


I vei o lempo que ( lura
Mcitllia e nmim tuo cm curso
1 ui i Idade,'i, em i asidos, cm cortes
Me principe'., i orno regra comum,
I III gi lile III il )|V e comum,
Ni i i leu i e em toda corte
i le lustlca.

<ada um ,se esforça para ter,


Pm grande cobiça de ter,
Malícia fraudulenta e só cuida
Dc enganar, ninguém curda
I)c virtuosos benefícios adquirir...
|<)s mundanosl mais que céu apreciam terra fértil
Semeada de fezes e de inumclície.1"*401

.D. Ibid., I, balada DCCCCLXXXII, p. 226.


40. Cf. Ibid., I. p. 142.
41, PISAN. Olmstinc .le, Uúw irx pnftiifHtu cil. M. Roy, Paris, 1841, II,
p. 200- 207.
I ni M'indhimlc dlnui rulo e de espanUu se ressurge mals
i |h ijiit minen <> sentimento ela fragilidade lislea, moral e Intolec
um ! i |m homem, tal com o o exprime, entre muitos outros, o gran-
ili i iniltoi prosador e poeta - (pie loi Main Chartier (I3H5- *
i i Uii i Ir lambem contemporâneo do Grande Cisma e da Guer-
H i|iiii i m i Anos.

l i.ipll criatura humana


111'ii iJ.i para trabalho e apenas
I H1liagll curpo revestida
I .a i linea e tilo vi\
Mole, submissa, incerta
I I.ti límenle abatida.

leu pensar te desvirtua


leu louco senso te nega e mata
I .1 ii.io saber te leva.
N.i’nesle lao pobre
t,»ue os eeus nâo permitem
t.iiie possas viver saudável.

l'oi m.lis fortes e numerosas que tenham sido as queixas


di M Mii •m|tecle, elas nào levaram os contemporâneos a ter mais sa-
i l i l i ......... deraçâo. Mesmo se o Grande Cisma encontrou uma
0 dio a< * m i I 117, outras fraturas religiosas e outros abusos se se-
liuliiim mi continuaram, outras guerras explodiram, novos exér-
1 Ih is mu i t.s avançaram, de modo que o século 15 pareceu a mui-
im a i onlliuiaçâo de uma decadência e a acentuação cío “enve-
llu i imcnio" ila cristandade.
I vii■sentimento parece ter obsedado a Alemanha cío sécu-
i I’. » do Inicio do 16. Um obra anónima contemporánea do
•.i imli ( il.sma e intitulada A Reform a do Imperador Segismundo
t mi ítala gemendo: “Nosso império está doente, débil e fráco”. A
ih ii i di imlnanle do livro é que “o mundo está subvertido” e que
ii im lia ni.lis ordem”.'' Nicolás de Cues, apresentando ao Concí-
lli i di Hasllela em 1433 seu tratado sobre a Concordância católi-
ui ii uiiiula sombrios julgamentos sobre sua época e seu país.

I i inulo cnt CHAMPION, P. H istoire poétiqu e du X V si'ede, I, p. 137


I/ lif/iSriiiitT ou consolation des trois vertus...).
i i i l . /A l ÍRNT, H. Dans latien te de Dieu. Paris: Castermann, 1970. p. 33
r 31.

221
lile só vê ao M'ii redor "(It'MmK'.it) universal", "depravando total",
"ordem subvertida", "doença mortal" e "desvíos", 1)1/ aluda que
o mundo "desaba fin decadencia", "afunda" e "decaí", "declina"
e "se perverte”," lile "perdeu seu centro". Assim homens e eoltiilrt,
privados ck' estabilidade, empurrados por forcas centrífugas, dh
per.sam-.se no va/lo. No fim do século IS, o predador alsai laño
( íeller de Kaiser,sberg se quelxa, como tecla (ello vlnte e qualiu
anos antes Nicolás de Clamantes, de que "a crlstandade esta ai
ruinada de alto a baixo desde o papa alé o sacristão, desde o luí
pecador alé o pastor".IS
li l.tmbém o qué repelem Incansavelmente os I IJ, i apllu
los de -I Ncwc dos laucos (1494), obra, lembremos, redigida po|
um leigo; "As espadas do poder papal e imperial estão enlenu|a
das,.. A justiça esta cega; a justiça está morta".16 A coblva, ma< d»
Iodos os vícios, Incita os cristãos a trabalhar aos domingos a
festejar, Nos dias de festa, cm vez de rezar, "para matar o tempo
pratica se velocidade correndo de carro”1 iraduçato atuall/ada
de uma nolacào singularmente moderna, A blasfêmia trllinia e
essa constalacáo junta-se a múltiplas observações nesse .sentido
de pessoas da época.1’1 "Nao é de admirar, prevê Sebastlen Itranl,
se Deus, ante semelhantes ultrajes, fazia o mundo soeobr.ii i i
( eu poderla desabar ou voarem pedayos de tão grandes que sao
as bl.islemlas... () ultraje é tão grande que se estende poi Ioda
pitrk \' ft mi 1 itt(' se <jue a "degradava* >” da fé é cada cila mal mi
e que a Indúlgela Ia perdeu qualquer espécie de preco; n in g u ém
m ais ,i quer' Durante esse tempo, “o espírito diabólico dos ll

i l Ibid., p. VI. C l N ícotae Cúsete cardinal!s opera, cil. parisiense de P N i>


prndii/ida ciu Prancfort sur le Main, Minerva (I.M.IJ.11., 1062 cm t v, AtpU,
v. .V cap, XXIX XXXIII cio De Concordm tta catholíca. Tnul. lí, |. I invmi .
|. lí luo. Centro dc estudos da Renascença da Universidade de SlieiimtitU,
1977, p. 280-371.
•IS. (arado cm ZAHRNT, H. D am 1’a ttenie..., p. 33. Sobre ( ¡rile i . I I •\
Cl IIUIX, I . Un Réform atm r catholitjue à la fin da AV sit\/c: /can ( tf t h
Kaysersberg, Paris, 1876. RAPP, Fr. D ittionnahvdespirituallt¿ VI, p, I ' I I 'H,
Réfimnes et Rêfbrm ation h Strasbourg, Paris, Ophrys, 1074, pit»*iin, Ia \ila
(iei/eri de Wimphcling foi editada por O. I lerding, Municli, 10 /0 ,
-10, I1RANT, S. L i N efdesJbus. trad. M. l-Iorst. Strasbourg: ól, Nink hl* tu,
1077. p. 167-168.
47. Ibld., cap.XCV, p. 371.
48. DKLUMPAU; J. U Itu r.., p. 400 403.
40, hRÀNT, S. l.a N efd es/bus, cap. 1.XXX VII. p. 343 344. ‘
Iluei «Ir M,k mu'" arrasa o ( frlente r .i\ança m i direção da erlslan
11*l« l.ulii,i "<) Inimigo c.slií mis ponas. Mas rada um quer cspe
mi a morir dorm indo"." o futuro anuncia-,se sombrío: "Tenho
i•a iii11 nimio dr que amanhã as coisas estejam pió res e que nos-
«i luiiiio *.r torne ainda mais negro".'1 Sobrecarregado de loncos,
ni ui ipas, nem bússola, nem ampulheta,'52o barco da cristanda-
i i fu liando sobre as ondas ”,v "gira e balança e adema para
mu I idi i <) primeiro turbilhão pode vencer a resistência.5" Se o
pn ipiii i Irsiis < l isto nao subir ao mastro de vigia, logo mergullm-
■ un i n i. Irevas".'rt Sébastien Brant diz em algum lugar que até
ué mu * "o mastro foi arrancado; tudo foi levado. Nadar é irnpos-
•i« i I un mar encapelado; as ondas sao altas demais para serení
mu liadas l , sobretudo, o “maior facínora”57 - o anticristo -
inda igma un tom o da nave. “Ja venios o escorpião mexer-se”.5*
I L liiigi m Ni-us mensageiros em terra e propagou o erro através
lo pal')' "< )s lempos estão conclusos”.60 “O dia dó julgamento
apnislm.i se de nós”.61
Vislm, a um século de distancia, Sébastien Brant faz eco a
i ii i n lH i »c m liamps. Ambos falam a mesma linguagem, lançam
i «a ii inundo o mesmo olhar, prevêem o niesnio fim. Mas para
li- •L >i ,.111 apenas duas testemunhas, entre muitas outras, d e
um |H i.'iImiímuo coletivo que terá continuação. Lembremo-nos
i . i ■111\ias apresentadas a esse respeito por Lutero, Viret e Bul-
II ............. i« assinalamos num primeiro volume.62Todavia, em vis-
la da * norme audiência do Reformador, não é ocioso voltar ã
inmiii. .u i mullas vezes expressa por Lutero de que o fim do

10 II.I.L, cap. XCIX, p. 387-


'1 llilil., cap. 1.XXXVIII, p. 347.
1.'. Ihld., cap. CVlII, p. 434.
IV 11)1.1., cap. GUI, p. 410. •
vi. 11)1.1,, cap. CVIII, p. 438.
VI. lliitl., cap. XCIX, p. 394.
Vi, 11)1.1,, cap. CVIII, p. 437.
V, llii.l,. cap. CIII, p. 408.
IM, ll>l.l., p. 409.
V), Ibi.l,, p. 411.
(i0, Ihld., p. 412,
i,l Iliiil., p. «414. , .
(i/, 1)| .1 .UMEAW, J. La Peur..., p. 222-225,

<-<*-¿« >
mundo estava próximo."' I itn ella, ele declarou: I o ultimo •,lnal
do Apocalipse; ela vai romper-se”."" lile eslava com eleito per,sua
dido de que o anticristo, cujos extraordinários maleficios devem
preceder'o fim dos tempos, estava efetivamente em açao. Seu es
pírito era o papa e seu corpo o turco, este último "arrasandt >, ata
cando e perturbando a Igreja de Deus corporal mente”, o primei
ro atingindoi-a “espiritualmente”.6S Para Ligero, nenhuma dúvida
era possível: “O tempo de miséria” anunciado por Sao |o,io
“como não houve ñenhum desde que existem nações", era o sé
culo ló que o vivia.66 Nos seus momentos ele desánimo, Lulero
desejou o fim dos tempos. Na época em que sua filha Marguei‘1
te está (mortalmente) doente, ele escreve a um amigo em abril
de 1544: “Eu não me revoltaria contra o Senhor se ele a arraiu as
se deste tempo e deste século satânicos e desejaria que eu e os
meus também fôssemos arrancados rapidamente; porque eu de
sejo a chegada do dia que porá fim aos furores de Sata e dos
seus”.67 Em termos um pouco mais comedidos, Bucer declara em
1523 no seu Tratado do am or ao próximo: "... Em lugar de a pos
tolos, nós só temos falsos profetas, em lugar de educadores, so
sedutores... em lugar de príncipes e superiores piedosos,, so tl
ranos, lobos, ursos, leões, crianças fsic] e loucos”."8 Dentro do
mesmo espírito, I lema Estienne afirma na A pologiapam IhWnio
to ( 1%(>): "Nosso século c pior que todos os que precederam” ""
Na época, os mais zelosos católicos, por motivos inversos,
n.to raciocinam de outro modo: assim, Guillaume Budc no seu
/.V transita IIrllenisnn’ a d Christianismum (1535), obra Inquieta,
dirigida contra a Reforma e onde se lê principalmente que o
"trnnsburdumcnu* dos erros" vai aumentando a cada dia. "E couto
um dilúvio da antiga religião que inunda todas as partes c|o num
do 1 rlslâo e recobre pouco a pouco a diferença entre piedade e
Impiedade”, (íuillaume Biiclé qualifica seu século como “depra

(>3. ( )f. lunadamente LUTHF.R, M. CEuvres, X, p. 116 (Sentido sobre 0 eran


gtlhò do 2' Domingo do advento redigido em Wartburg).
64. LUTI llíR, M. Propos de taide, p. 275. Cf. também- ll)id., p. 2.18 2.VI,
65. Ibid., p. 109.
6 6 . Ib id .

67. I.UTHER, M. CEuvres, VIII, p. 188-189 (carta a j. Propst),


68. BUCER, M. Traitf de Pamour du prochain. trad., iiur. e notas por II
Strohl. Paris: PUF, 1949. p. 53.
69. ESTIENNE, H. Apologiepour H ém totr, 1566, p. III) 125.
’ i'ln i • Murcio a compreensão cía verdade, que mc* tornou não só
timo rom o Ierro, mas pesado com o chumbo". A scu ver, "a rell-
itliin c o desprezo de Deu.s sito colocados no mesmo plano... a
mina dos costumes, a derrota do Cristianismo, a desonra das be-
11 <ledas, a destruição das virtudes crescendo a cada dia e se es­
palhando como um incêndio de igrejas’’.70 Daí um sombrio pres­
tí mímenlo expresso numa forte Sentença que poderia ser de Lu
c n • ouanio a fnim, estou mais inclinado a pensar que o últifno
dia i omeçou a cair, e que o mundo já está em declínio, que ele
. .ia realmente velho e privado de sentido, que ele indica, pres-
uigla e anuncia seu fim próximo e sua queda”.71 É dessa manci-
n que um dos mais ilustres humanistas franceses caracterizava o
pii Nenie e encarava o futuro.
i >s julgamentos anteriores, escalonados de Nicolás de
• lamanges a Guillaume de Budé e a Henri Estienne, provém,
i in sua maioria, de pessoas da Igreja ou pelo menos de perso
M11idades animadas por uma profunda preocupaçào religiosa,
1'miIi m ós entào em larga medida estabelecer um vínculo na
i ......... enlre preocupações cristãs e julgamento severo sobre
um le m p o considerado infiel ao Evangelho. Essa relação en
" iilio u se naturalmente reforçada pelas guerras de religião
1111•', em escala européia, aumentaram o pessimismo dos i ris
i im*. m.ds engajados éspiritualmente ou mais atingidos pela oi
•li m publica. A cristandade vai de mal a pior: essa era também
i Mplnlan de Filipe II e de seus conselheiros nos Países-Baixos
ipu em 1560, proibiram as canções, farsas, baladas e comédias
....... ndo mais ou menos de religião. Antigamente, podia-se to-
Ie 1,1 las, mas agora não mais:

lí não estando antes o mundo tão corrompido, nem sendo


os erros tão grandes como no presente, deu-se mais atenção a es­
tes jogos, farsas, canções, refrãos, baladas e ditados, como con­
vem ao tempo presente em que as maléficas e danosas seitas, dia
.1 dia, pululam e crescem cada vez mais. 72

70. BUDÉ, G. D e Transita H ellenism i a d Christianismum. trad. M. Le Bcl.


Slicrbrooke: ed. Paulines 1973. p. 44, 66 e 93.
71. Ibid., p. 132.
72. Clitado em M UCHEM BI.ED, R. Culturepopulaire et culture des élites. Pa­
ris: Flammarion, 1978. p. 200.

22b
Um U'xlo ,i ser ucivmuntado Hs inúmeras .ilIrin.i^<>« •. <1.1
queles cjlic* upredltaram numa multiplicação dos blasfemos • ila >
bruxas na Europa do Início tios lempos motlemos. Para Agilp
pa d’Aubigne, a medida já eslá cheia e é hora de Deus llnaliiu n
te punir a humanidade pecadora:

Empestaí o ar, ó vinganças celestes,


De venenos, de peçonhas e de voláteis pestes!...
Vento, não purifiques mais o ar! Rompe, derruba, esmagai
Afoga em vez de irrigar! Sem aquecer, abrasa!
Nossos pecados estão no auge e, subindo até o céu,
Por-cima da medida derramam de todos os lados. 1

Exclam ações hiperbólicas pela pena vingadora de um


protestante perseguido? Sem dúvida. Mas elas não sao I,solada*
Outro reformado francês, Christophe de Gamón, num poema
publicado em 1609, julga que o mundo de sua época c "um ho
que cheio de leões, um vale imundo /... Onde tudo e tenelín»
so ”. Também “a morte próxima ameaça / O mundo que, ja \
lho, cueva para a terra sua face” e “Jaz doente de pecados, num
leito de langores”. Daí a profecia: “Ó mundo decrépllol Ò mun
do langoroso! K o fim, é o fim de ti”.7S Ter-se-á notado nesw ,
versos protestantes, como em Ditero, mas também como cm
Eustache Deschamps, Nicolás de Clamanges e Sébaslien IhaiUi 11
vínculo entre um sombrio diagnóstico moral sobre o presentí' 1
a crença num próximo fim cios tempos - uma relaçao que agia
nos dois sentidos. Reafirmaremos mais adiante que no fim d< >sú
culo l 6 e até os anos l660, a Inglaterra e a Escócia foram p.nii
cularmente atingidas pelas febres escatológicas. Nào é de mllill
rar por conseguinte sé aqui se insistiu pesadamente sobre ou ch
traordinários pecados de uma época abandonada ao Maligno t
que ultrapassava em baixeza moral todas as que luivlam píen
dido. Edwin Sandys,' Bispo de Londres, depois An chispo di
York, escrevia em 1583 ao Bispo de Chester:

7 3 . D p LU M E A U , J. LaP eur..., p. 3 8 5 -3 8 6 c 4 02-403.


74. D’AUBIGNÉ, A. Vengeances, Éd. A. Gainier c J. Pltutuid, l'.trl-i l'MJ
1933: aqui IV, p. 28.
75. La Sem aine (imitada da dc Du Barcas), p. 246, 249 c 301. ( I, I >111U l|S
Cl. G. La Conceptiva de l'histoirc cn fran cc au XVí uòc/e ( I ’U>() I(>I0) Pai tal
Nizet, 1977. p. 359- 361.
(.túmulo consuno, venerável limito, o ( ucn i r hm condições des­
te mundo | >('rdld<» ilc Impiedade, quantos triunfos Sutil obtém,
«pi.o >profunda e amplamente o vicio comanda, quilo numerosas
■ ln liadas sao as assembléias dos homens sem. Deus, quilo fra-
i as, quilo abaladas estilo a fé e a piedade - eu devia até dizer
que estas desapareceram completamente parece-me que che-
gamos agora à época derradeira e infortunada deste mundo que
>n• aproxima de sua destruição.’"

I Miomas Adams, “o Shakespeare da prosa entre os pu-


llliitio'»", 11 implementa em 1633 definindo sua época como o
|u iiilo de encontro “de todos os costumes viciosos das épocas
Mili lim es a maneira dos canais de uma cidade que confluem
p n i o escoto com um ’’. Outrora havia predominado ora urna
luí ma de perversidade, ora outra. Mas agpra, “com o tantas
i m*11 ■ i i mentes t|iie descem das montanhas, elas se juntam num
mili " t ué.o o formam uma só corrente de malícia nesta baixa e
•li ii.nleliii ép o caV 7
I illi,ipassemos agora o arquivo clerical. Os italianos con-
lenipiHdneiis de Mac|uiavel e de Guichardin emitiram sobre si
nu ..... . inri julgamento severo e explicaram por seus próprios pe-
i uh is ,is desgraças de seu país a partir de 1494. Assim, o venezia-
n*i « -in «l.i111<> Prluli avista no triunfo rápido de Carlos VIII a puni-
. .........crecida da sodomía italiana, particularmente disseminada
.........poles. " Mais moderadamente, o magistrado e contista Noél
lu I ill ( 1520-1591), que com inquietação vê crescer a civilização
iliI m i m , constata que o mundo tornou-se “mau rapaz” e que este
malvado .secillo” é “uma época ferrada”. Fazendo melancolica-
.... nlt referencia á época feliz de Francisco I, ele afirma que “as
i ii ui. as de hoje parecem anões em comparação com as antigas”,
.............. ... sem i homens compridos,' franzinos como sangue-su-

<> S A N D Y S , I.. T h e Sermons. É d . J . A y re, C a m b rid g e , 1 8 4 1 , p. 4 3 9 . Cita--


. |(« em B A I J „ Br, W . A Great Expectation. Eschatological Thought in Englisb
l'r<>U'\(tinlhm 1660. I.e y d e , B r il, 1 9 7 5 , p. '1 8 . S o b re as re la çõ es e n tr e esc a to lo -
|ii,tv d is u ir s o d c a m e a ç a , v e r m ais a d ia n te p. 587s.

.A t )A M S , T h . A Commentary ... upon the D ivine Second Epistle ... written


h S>, l ’cier 1 6 3 3 , p. 1 . 1 3 8 - 1 .1 3 9 . C ita d o e m Ib id ., p. 9 7 . S o b r e a e sc a to lo g ia
inglesa n o fim d o sé cu lo 1 6 , cf. H I L L , C h r . Antichrist in Seventeenth Century
I nvhiiir/, O x fo r d U niv. P ress, 1 9 7 1 , s o b re tu d o p. 1 - 4 1 .
' H, I I Vi/rii d i G irolam o Priuli, ed . A Se g re, v. I, p. 1 4 em M U R A T O R I, Itn-
lh iiruni m u n i scriptores, n o v a E d , v. X X I V , parte 3 .

227
gnu",'" Nas f llsftU itls {Jhul(glosas «I»• ItnulNtuau ( ISí>()), uduptildm
francés de Bandullo, encontra ,*u* Incidentemente uma u Insito, lan
10 milis Interessante quanto se apresenta como nina evidencia, ,u >s
nossos "séculos em que o pecado l’ol muís alnmdante"."" Mas, dols
anos anles, no prelado tío seu Teatro do m undo, ele tinlia denun
liado mais claramente "um século como este nosso, ia<> corroí vi
pido, depravado e mergulhado em toda espécie ile vicios e abo
minaçòes que parece propriamenté que é o retiro e o esgoto onde
todas as ¡mundícies dos outros séculos e épocas vieram deputai
e transvasar;81 a mesma comparação que aparece em Tilomas
Adams e que poderla bem lev sido um tópos. Nao é ocioso lem
brar que este livro de Boaistuau (multo mais ampliado que o sen
lircne discurso no sentido inverso Da excelencia do homem) lol
Hilo, Imitado, copiado (conheceu 60 ecliçôes em SO anos) e a os
olhos dos moralistas passou por um modelo do gênero, A sensi­
bilidade de urna época rcconhecéu-se nele.
l'llenne l’asquier, espectador entristecido das güeñas tlt
lellgl.a i, riu lien -.u.i correspondência de fórmulas alarmistas e tlt
|iilgamenlos srveios sobre sua época: "... Nao se anuncia outra
t olsa a nao sei logo, guerras, mortes e saques (1562)."J "Nílo es
iaiiitis mais no reinado, estamos no império, porque todas as col
nas sao plorando""' (I5MU), Montaigne nos Ensaios |ulga que a
boa • .lima do poso e "ln|urlosa”, "notadamente num século m í
mmpltlo t Igiioianle tom o este”."'' Thierry Coornhert, um Ireuls
11 qut tía estib an em I laarlem, estima em 1582 que "nossos
•lias sr ( oniam entre os plores"..8' Shakespeare descreve o nuitl»
di i -I- ten lempo como urna "piisáo”: “Urna famosa prlsao, com

HAII.., N , tlit. ( I\ut>res facétieuscs. E d . J . A sséz a t, P aris: 1H 7 4 . 11


*1»i« i >l>.
IHvpos rustiques, cap . II c V J; Contes et discours d'Eutrapel, ca p . I r X X II, r n
Cisco urs sur la corruption de notre temps.
HO. BOAISTUAU. Histoiresprodigieuses. Paris: Club franjáis du l¡vi< . I% l,
p. 9Í.
HI. D( 1AISTUAU. I.e Théátre du monde oh il est faict un am pie díscont \d o tul
seres humantes. Ed. de 1572 (B.N.): aviso ao leitor (sem pugiiuiçAo). Is| a
icmctle M. Sintonia, Gcnève, Droz, 1981.
82. PASQUIER, E. I.ettrespolitiques(1566-1594), Gcnèvc: Oro/, l%ft, |. Iii'i
83. Ibid., p. 394.
84. MONTAIGNE. Estáis, III. cap. 2, III, p. 28.
85. ( !CK )UN11ERT. T A 1’aurore des Ubertés modernes. Synode sur Ia l/beiii* de
consciente, Imr,, trad., c nottudej, I.cdcrc M. Er, Vulkhnli. Parlai ( Vil. Io
I». 65.
I•»• i tule diversos calabouços, s o lllá i i,»** e n li'i" , sendo .i Dina
in ih ,i ( i-.ii i é, a Inglaterra do Início d o sér i ilu I D, unia das plo-
i* ilhinilrt, II, 2), Um escritor espanhol, Martin González de
• i llnilgn, Ia/, lhe eco em 1600 declarando: "Chegou uma época
qm mis i onslderamos pior que no passado".""

ii sonho da época de ouro


V. eltacòes anteriores constituem apenas uma amostragem.
.. ..........a reselmo que se podería juntar tende a mostrar que a do-
iii Iii 1111• <Ia Renascença nào foi forçosamente o otimismo, como
i" lilimente se erê, mas antes o pessimismo, mesmo se a palavra
li.lo i da época.,r Os Fico de la Mirándola e os Guillauriie Postei
h n mi minoria. Entretanto, é verdade que o próprio termo “Renas-
i * ih i , na pena de escritores e artistas, significou ressurreição cios
•i mliei tinentos, das letras e do bom gosto, de modo que se falou
i h tl\ a mente de uma “nova época de ouro, particularmente na Itá­
lia i|i i século IS e na França e Alemanha do início do século 16.
1 i Ih iienllno Ciiovanni Rucellai declarava em 1457: “Pensamos que
no ni época desde 1400 tem mais razões de contentamento que
ih nlmiii.i outra desde que Florença foi fundada”.88E Marsílio Fici-
ii" ai leseentou um pouco mais tarde: “É indubitavelmente uma
.......... de ouro que trouxe de novo à luz as artes liberais antes
i(iiii'n destruídas: gramática, eloqüência, pintura, arquitetura, es-
i ulluia, nui.slea. F tudo em Florença”.89 Em 1518, Ultrich de Hut-
i•li i■m I.miava: “Ó século, ó estudos, é uma alegria viver”.90Rabe-

M(>. < atad o c in R E D O N D O , A . “M o n d e à íe n v e rs e t c o n s c ie n c e d e crise ch cz


< .nu i.tn" cm LIm age du monde renversé et ses représentatiom littém ires de la fin
dn A l 7 sih le au m ilieu duXVJT. P aris: V rin , 1 9 7 9 . p. 9 1 . E s ta frase se e n c o n ­
tra n o M em orial de la política necessária y ú til restauración de España, Vallado-
lid, 1600.

Il ' 1 'T .h V R F , L Le Probl'eme de l'incroyance. L a religión de Rabelais. P aris: A .


Mlclicl, 1 9 6 8 . p. 3 2 9 .

lis . R U t I I.I.A I, G . Z ibaldonequaresim ale, É d . P erosa, L o n d re s : 1 9 6 0 , p. 6 1 .


< ¡t.ulo c m C H A S T E L , A .; K L E I N , R . L'Age de l ’bumanisme. É d . des D en x
M o m ie s, p. 3 0 .

le», ( irado c m N Q R S T R Õ M , J . Moyen Age et Renaissance. P aris: 1 9 3 5 . p. 1 8 .

')(), ( arta a W . P irck lieim er, nov. 1 5 1 8 , c itad a e m C H A S T E L , A . L ’A ge... p. 3 0 .

221)
lal,s 11k' lez r i o fazendo <Utrgantua illzer: "bu ve|o os bandidos, i
carrascos, om aventureiros, os i .iv.ilativos do agora, muís (Ionios
<|ii(' o,s doutores e pregadores de nu*u lempo","1 Mas essas apir
liaçòos entusiastas drvem ser temporadas de várlas manchas, l'oi
um laclo, desde o século 16, os Italianos llveram o srnUmento de
que a época feliz i|tie tlnlia coincidido mais ou menos o un o go
verno ele Lorenzo, o Magnífico, tlnha sido um fracasso, Agota, era
alé possível esperar uma decadência da arle: assim pensava Vas
sari para quem, depois de Mlehelclngelo, nao podia haver dei li>
nlo, Por mitro lado, quando estudamos a utillzavao - mullo Im
porlanle •i|iie foi feita do tema da época ele ouro na Henast en
va,"' ficamos convencidos de c|ue ela foi na maioria das vo/< ■\i
villa e apresentada como um antídoto a um sombrío p ica ule
líssa constatado global incluí alé mesmo os numerosos panegtii
eos compostos por poetas-da corte afirmando a cada advento di
mu novo soberano que a época de ouro ia renascer sob seu iel
nado l'ssa ba|ula(,an estereotipada, ela também, exprimía o dese
|o amplamente disseminado de urna mudan va om relavan as dn
i as i ondlv* ><’s i la r|x n a,

o soiiho d.i época de ouro assumiu nifiltlplas formas A


m ili uta iiiegoti csse tempo bendito a um passado nao (hilado,
mistiiiando o paiatso terrestre da Biblia com o das Ah'ttinmr/me»
•li i nidio e Imaginando urna época de paz em que sobre a lef
ia litio Intvla ue 111 medo, ítem mal, ncm infelicidade. No curso
dii desenvolvimentos anteriores, notamos de passagem qm i a
' " l u de t lamanges, bustucho Deschamps, Noel ilu lall si apn
i-, iiam a esse mito bles nao estavam sozinhos. A Nuu <7ov h iu ,n
w//m sii se compreende por referência a um "outrora" illsiaiiU ,
i in (|iie prinelpes e ministros eram "repletos de Intcllgéiu la e il
eos de experiência. Nessa época, o escándalo e a veigonha •n
contravam punivelo e a paz se ampliava c reinava no mundo
blasmo coloca'na boca da .Loucura o elogio da época em qm mi
Ilomeas tinham um fínico guia, "o Instinto dn Natureza Na pu
sagem célebre cinc1 se 10 a seguir, a crítica chis "ciências" da < luí
<a e especialmente da gramática remete a um sistema di n I» n u
d a que a ultrapassa amplamente:

‘M. Piinlíipuel cup, VIH (ni. da Pifiado, p, J.¿7),


92. C|, LLíVIN, 11. / he Myth o flh e ( iolf/en Ajff ill tht lililí lio
Univ, Picas, 1969» pusslm, l!f, também THNENTI, A. II Srnw , p <0
‘M. DRANT. S, /,,/ N tfdts fout, cap. XI VI. p. 168.
Que nc*ivsnIcIik Ic' no llnlui chi gininãlli .1, |.i que então ¡1 língua
uia .1 1110,Mina paia todos o a palavra nu nuivIu para sc fazer com-
picendei? Que necessidade tia dlalóiU a, |a (|iie ruiu se travava ne­
nhuma lula entre opções rivais? O que fazer com a retórica, |íi
que 1M0 havia nenhum processo? Qual uso para a jurisprudência,
quando não tinham ainda começado os maus costumes, de onde
ifiu duvida nenhuma nasceram as boas. leis? Os homens eram
demasiado religiosos para dedicar uma curiosidade ím pia aos
mistérios da Natureza, para m edir os astros, seus movimentos,
n u , is Influências, escrutar o secreto mecanismo do mundo... Mas,
a medida que dim inuiu essa pureza da época de ouro, os maus
gênios de que falei inventaram as ciências. (Anteriorm ente Eras­
mo havia afirmado que elas fizeram “irrupção na humanidade
• um o rosto de seus flagelos " ) .91

Enunciado pela Loucura, esse discurso é evidentemente


mil.1»í1u », Mas, com parado a numerosos textos da época que
........... ..Iam com ele, ele exprime uma nostalgia coletiva susci-
ii 11 pni um triste presente. Marot está próximo de Erasmo no
1min In que consagra em 1525 ao “am or cio século antigo”, épo-
- h li ' ni que a afeição mútua ocupava o lugar de ciência e
di li I

1li >n bons velhos tempos reinava uma atmosfera de amor


Que sem grande aite e engenhos se desenvolvia
I 11l.l11, um ramalhete dado com am or profundo
I 1 1 1orno dar toda a redonda tena...
Agma se perdeu o que o amor ordenava:
.11 prantos fingidos, só mudanças nós temos.

( miro lamento melancólico sobre a época de ouro desapa-


111 Ida . o dc Dom Quixote. Desta vez, também é um louco que
I il 1 hlu r, um coração puro extraviado num universo endureci-
d o pc|o egoísmo. Amigamente, o teu e o meu não existiam e a
........ m dava para todos. No fim desta linha de pensamento, um
ii 1 baseia Rousseau. Dom Quixote lamenta-se assim:1

1' l I KASMli. liloge de ¡a Folie, cap. XXXII, trad. P. de Nolhac, Paris, Garnier,
IMS), p. 65-67.
•)*i. MAROT. (Fumes completes. Paris: Éd. Garnier, 1951, I, p. 438-439-

231
Naquela s.ml.i época iodas as coisas ria m comuns; paia altan
Car sou tad ln rtrli»sustente» nIntuem precisava ter outro trabalhe>do
t |iic erguer a mao c* pegado daquela* robustas azlnhelras, <|uc ll
beralmente convidavam com seu doce e .sazonado linio,,, lu d o
entilo era paz, tild o amizade, ludo concordia. A pesada rellia do
recurvo arado aínda nao tinha ousado abrir e visitar as piedosas
entranhas de nossa primeira nule; ja c|ue esta, sem ser forçada, ole
recia por todas as partes de seu seio fértil e espaçoso', ludo o que
pudesse fartar, sustentar e deleitar os filhos que entilo a possuíam,

r. o cavaleiro prossegue: naquele tempo bendito as mullte


tv,s n;i<> tinham necessidade de luxo na indumentaria. Todos se
exprimiam simplesmente, “sem artificiosos rodeios”. "Nao liavla
ainda a fraudo, o engano e a malícia mesclados com a verdade o
a ;simplic idade”.""
Podemos cortamente encontrar na mesma época de Corvan
les lexlt )s que vilo no sentido contrario. Um dos mais sigpifleallvos
luí esi mu pui lean Modín, que lem um capítulo inteiro do Mchulo
J 'i IlhUwUi <I" ed, PS(>()) consagrado a demolir a teoria dos séculos
•I) miiu, que loram na realidade “épocas de ferro”, líssa rofutíiçdo
<m n gia paivi vu net f'.s.irla sto autor porque “esse erro invelcradt),
• " i* o t i) , l,nii,iiii i,io profundas raízes que boje parece impossi
o l í s 11111.11 , |,i (|tie ele lem a sen favor “um número quase influí
I n d i . st gi ias" l consideração é o que nos importa aquí: Juan
ilnli,i i un,si léñela e desejo de ir contra uma idéia ja folla:

I h ,ii enl.lo e.v.cs lamosos séculos de ouro e de pratal Ac|til, i >•>


h* Hiwn-, viviam dispersos pelos campos e pelos bosques como
vcnludelios animais selvagens, e só possuíam para si aquilo que
pocllam conservar pela força e pelo crime: foi necessário mullo
tempo para conduzi-los pouco a pouco dessa vida selvagem e lu í
Inira para costumes civilizados e para uma sociedade bem organi­
zada tal como os encontramos atualmente” .,. Além disso, se "a lili
manldadc caminhasse para uma desagregação crescente1", c omo
gcralmenle se pensa, "nós já teñamos chegado a esse extremo di
vícios e desonestidade ao qual parece que chegamos outrora" 1

c TiRVANTRS, Don Qulebotte, tracl. de la Pldinde, 1%,'t, pune 1, cap, 11


p. 03-94.
07. IIODIN, J. ¿d. MESNARI), I’, i, V, i du Corpus tfnéml ties
fiiOH'ilis, Parí*: l'UU 19*51, p. 47H 'I.’1),
A crueldade c uos crimes tíos sécnlos anteriores, Jean 13o-
■Iim mesmo na época das Guerras de Religião opõe então “as
min le*." dr seus contemporâneos e a jusilla que impera nos Es-
i.nlm modc,rnos.,’HAlém disso, ele exalta as artes, letras e desco-
ln ii i i dr sen lempo, colocando ém lugar de destaque a bússola
i Imprensa que, por si so,.equivale a todas as invenções dos
milgini Por Inovadoras que pareçam essas palavras, é preciso
. mii lanío tempera-las. Jean Boclin só crê em progressos provisó-
ii" i da humanidade que sao seguidos de infalíveis recaídas. Por-
l'ii a natureza parece submetida à lei do eterno retomo, em que
i ida i . ilsa r objeto de uma revolução circular de modo que.o ví-
.............. le á virtude, a ignorancia à ciência, o mal à honestidade,
i •11•\as a< >erro...”.100Alguns anos mais tarde - em 1580 - , na sua
i h niKimnidiild dos feiticeiros, Jean Bodin pinta um quadro extre-
iii um nii sombrio ele sua época, que a crítica moderna tem difi-
Hh I HI. rm conciliar com o resto da produção de um escritor tão
|n tu traille. Pesia com o verdade, apesar das exceções, que a Re-
iii ni ni a sonhou apaixonadamente com um paraíso perdido
l< iia " qual uma dura atualidade o remetia inceSsantemente. Daí
i ........liante observação de'Eugenio Garin a propósito da Italia
i" linal ilo Quatrocentos: “Não é difícil encontrar reunidos esses
diil'i Irmas no fim do século 15, até num mesmo autor; de um
Pul........ . sinais do anticristo e do cataclisma iminente; de outro
lu í" a época de ouro”.101
\<» tema da época de ouro deve-se juntar o mito da Fonte
•11 |uventílele, ilustrado notadamente por um quadro de Lucas
* i ...... h, o Moço (1546; Berlin, Staatliche Museum), enquanto o
Iui ipi li i pal di >artista tinha pintado em 1530 urna Época de ouro,
li"|i un museu de Oslo.102 Mergulhando na agua benfazeja, en-
■mitramos juventude e saúde. O tempo é abolido e, com ele, a
. mi' r r .i morte. Em carretas, em cardólas," em liteiras, às vezes,

*)H. lhkl.
09, liado p. 430.
100. u a d .

10 1, ( ¡ARIN, E. “L’Attesa dell’etá nuova e la ‘renovado’” em L ’A ttesa d ell’e tá


mioi'ii titila spiritualitá d elld fin e d el M edievo, Convegni del Centro di Studi
Milla spiritualitá medievale, out. 1960, Todi, 1962, XIX, p. 16-19.
10. ’ , Sobre a crença na fonte da juventude nos meios dos alquimistas, cf. LE
I REVISAN, B. Le Livre de la philosophie naturelle des métaux. Paris: Tréda-
nicl, 1976. p. 63-75. ,

28: \
nos ombros ele* pessoas, enfermos, velhos c alegados san l« vados
ã fonte miraculosa. Despidos, mergulhados na água que regen*-'
ra, eles sacm curados, jovens, felizes, prontos para o amoi, pui t
a dança e os banquetes, l o sonho de Fausto sem a Interveiiy lu
do diabo. À esquprda do quadro, lado da velhice, a palsagein c
escarpada e inquietante; ã direita, lado da juventude, .1 nulun »
é risonha, as árvores ricas de folhagens e de frutos,
Sobre os Países de Cocanha - que Integram as ve/em a
Fonte da Juventude -,'fo i dito que eram as "ép o cas do o tilo tío»»
pobres”.103 Trata-se sempre de paraísos alimentares onde ......... ni
da é abundante e gratuita e de universos em que nao e pn 1 l m
trabalhar para viver. Além disso, segundo a maioria das ..........
que nos restam, ali se passa o tempo em festas permanentes e M
faz amor sem preocupação com moral. Kvidentemenie, os l'aim m
de Cocanha constituíram uma evasão para fora de uma * lvlll/i|
ção caracterizada geralmente pela penuria, por duras <«>ndl* 01 ■
de trabalho e pela exigente moral sexual das autoridad* . n ligio
sas. Foi no século 13 com A s Fábulas de Cocanha que o lema o
sumiu sua identidade. Mas - e isso é essencial para 1» n< mi » pío
pósito - foi nos séculos 16-17 que ele conheceu sua maloi dllii
são. Para esses dois séculos, foram assinaladas 12 variantes na
França, 22 na Alemanha, 33 na Itália e 40 em Flandres.""
À sua maneira, os Países de Cocanha eram utopias <* ob
jeto do presente livro não é enumerar estas últimas, nem an ill 1
Ias em detalhe, mas apenas lem brarem poucas palavras que * Ias
constituíram uma das especulações favoritas dos escriturem e
dos arquitetos - da Renascença. Da Utopia de More ( |4|(») a 1 f
dade do Sol de Campanellu (1623), á Nova Atlâutlda dr ha* ou
(1627) e ii Astrcia (1607-1628) de Ilonoré d’Urlé, passando pela
abadia de Télemo e o Estado de Eudem o de Raspar Stlblln ( IVi \ 1,

103. LF.VIN, H. The Myth... p. 55. Cf. também SCHMl'IT, |. < I ......
tianisme ct mythologié" cm D ictiontudre des mythologies, Paris: II. iiiiiimi Ihii,
1980. p. 1-9. Sobre os países da Cocanha como sonhos «pio «.«■11>.1>I>m«• l.i o 1
(idade cf. GRAR A. MiHt leggende e superstizioni del M edio Tro lliiln, I M'f *.
p. 235s.; COC!CHIARA, G. IIP a esed i Curaguaea llrism d l d l/ò/kloie, lliiltt,
1956, lunadamente p. 187. 1A/,RIU, j. "Rntrc Ic révc ct Ia léslgiiuilnni I um
pic populairc dons 1’Ancicnnc Polognc", cm Anuales J S i . initipi .ibill
1982, p. 146-153.
1()4. Contribuição «le COUTRAUD, Chántale para l a Morí des l\tys d( ifc»
cague (sob a dir. «le |. Dclnmcau). Paris: Ptibl. da Sorbonne, I1* i. p II II
Cí. também DRI.PKCII, R "Aspeéis des Pay» de C*nagite, Prngianmit pittll
une rcchcrchc", em I.'/mage du monde renoeiM1,,,, p. 3*i 48,
li Ve/ iiKld de Mlarcte ( meados cl<> século I*») ii "(llcluclc .solar"
llt Snlnnlo Donl (ISS2) o a Crlsticwópolls do luterano Valentín
v11' 11• ir ( luirlo ilo século 17), labirinto e caserna ao mesmo tem­
po i pimlução sobre papel ele "cidades radiosas” foi consideré
lt I 1 < Iditiles Irreais, paraísos artificiais, descrições (de maneira
i* ti o dt mundos constituidos segundo "principios diferentes da-
i|iH lt mi|tic ivtl.io em vigor no mundo real”, as Utopias deram tes-
i. mmi 11o » do divorcio cruelmente sentido por um ampia élite en-
ln 11 i-ij ih.it. t >c< da época c as realidades cotidianas.KK>A esse tí-
tul" * h ’i lililí,un vocação a figurar, como contra-provas, nutria
IiH mii i do pessimismo da Renascença. Como Platão e Horacio,
M> m uil din. < ampanclla c Bacon situam sua terra de bem-aven-
Ulliliti i num alfil ires longínquo, numa ilha perdida no centro de
mu MM'iino se nao sempre imaginário pelo menos dificilmente
i i io I para as pessoas da época - mares equatoriais,-Pacífico,
lli* iiio Indlio I uma maneira de dizer qué paz, harmonia e
iliiiiid 111« ia não csiao ao alcance da mão.
\ mesma geografia do impossível explica que certos.euro
P> ii ili Isaiulo se levar pela “miragem americana”,107 tenham atrl-
jiuidii is populações recentemente descobertas pelas grandes
..... ... da Renascença, virtudes há muito tempo perdidas por
II que, por sua vez, desapareceram também entre elas quan­
to d . com nossã civilização. Notou-se justamente que “a
rpm i di ouro da utopia está ligada à história dos grandes des-
tnluiiiii iiios marítimos; cada relatório de viagem enfeitado pela
immin n ii i agiu como um choque cultural restrito, provocando
uma i iimpai.gão, repondo em dúvida as estruturas sociais con-
|i mpiiiilin as".1"" () mito do “bom selvagem” e o elogio s o primi-

Mi ■ 'mliir <’iic assunto, permito-me remeterão meu Civilisation de la Renais-


■oin i ' ' •! , 1973), principalmente p. 299-305, 355-371. Cf. por outro lado,
/, i / '/>•/•/í i ,/ /,/ Renaissance (coll. de 1961), Bruxelles-Paris, PUB-PUF, 1963
• / , </(•//,> /,/ Renaissance (coll. de 1963), Bruxelles-Paris, PUB-PUF, 1965.
|IH» i í/ IU )YFR, R. ÜUtopic et les utopies. Paris: PUF, 1950.
Ui i I IINAR1), (!. f.es RéfugiéshuguenotsenAm érique (com uma introdução
nlm i "mii.i(j;cm americana”). Paris: Belles Lettres, 1925. Assinalo também o
....... I rHiiido de I.RSTRINGANT, Fr. “Millénarisme et âge d’or: Réforma-
1 1**ii . i >tipéricnccs coloniales au Brésil et en Floride (1555-1565)”, apresenta-

d•••ui líuiis (1982), colóquio Enmcinement de la Ré/orme (no prelo).


11ui M ItVIFK, |. Ilistoire de 1'Utopie. Paris: Gallimard, 1967. p. 376. C f
Mililu’in I INI.KY, M. “Utopianism Ancient and Modern”, em The C riticai'
'(/'/»// (Mélaup-s H. M arcase). Boston, 1967. p. 3-20.
tlvismo que mc desenvolvem no século K> exprimiram cs.s.i vls.tn
desmlstlllcadora do presente ocidental i|i»e não e partlculai .1
Montaigne. Sua apologia dos "< anlbals" Integra-se em (<>tl.i uiiui
corrente de pensamento, lista certamente nao foi majoritária nu
medida em que muitos europeus principalmente soldados, ad
ministradores e colonos - viram os povos de ultramar como bíu
baros a civilizar ou a explorar. Mas ela foi suficientemente Impoi
tante para não ser desprezada e sobretudo para que uma Itlstitil
ografia das mentalidades a situe em seu devido lugar dentro do
conjunto a que pertence.
Viajantes, geógrafos ou escritores da Renascença acredita
ram ter encontrado - ao longe - o país da época de ouro.1"" "< >s
habitantes de Cuba e das ilhas vizinhas... na maioria vivem num
século de ouro”116 (Pietro Bembo). “Os Tártaros... contíguos ao
reino de Catai... levam a vicia bem simples cia época dourada, iWU■
procurando as honrarias e as dignidades do mundo"1" (J. Mat <1 •
“Parece-me que o que vemos por experiência nessas nações |da
América! supera não apenas todas as pinturas com as quais .1
poesia embelezou a época dourada... mas também a concepção
e o próprio desejo da filosofia”11- (Montaigne). “'Iodos os selva
gens Ida Nova Prançai vivem em geral e por toda parte em m
Humidade..., a vida do antigo século de ouro, á qual os santos
apóstolos queriam levar”11' (Marc Lescarbot). Pierre-Martyi, 11u
vet, l.ery, Montaigne, Charron, etc., insistem sobre a nudez dos
"selvagens" uma nudez sem Impudor. Ademais, mesmo nos lu
gares em que o clima não permite essa feliz ausência de roupas,
o s povos vivem segundo o estado da natureza, bles nao conlie
cem o meu e o teu. Não cobiçam as riquezas. Vivem “em grnndi
familiaridade e amizade" uns com os outros. Não têm entre eh s
nem roubos nem processo. Se praticam a guerra, é com coiageim
se são canibais, é com o pleno consentimento dos prisioneiro*
cuidadosamente engordados para o banquete final. Os "selva
gens" não têm reis nem senhores “absolutos e soberanos" Sua10923

109. As exposições seguintes sao tributárias dc ATKINSC)N, ( ¡, Les NoiilWHM


horizons de la Renaissance fiançaise. Paris-Gcnéve: Pro/., I 933. p, 11' liai 1
346-358. Cf. também I.IÍVIN, H. The Myth..., p. 58-83.
110. BEMBO, P (pseud.?), LlIistoireduN ouveati Monde, I .yon, 1556, p, 11 M
111. MACER, J. I.es Trois Livres ... Histoire des ludes, Paris, I 555. p, 01
112. MONTAIGNE, l-'ssuis, I, cap. XXXI, I, p. 263.
113. I.ESCARBOT, M. H istoirede hi Nouvr/le Fsviuie, Paris, 160‘), p. '50 /<»(!,
lililí i ki "o de não Infringir n k‘l cl¡i inUUK'/.i" I sl;i por slnul pa-
i•11 tju -i.it se* (pelo monos lora do <lapada o da Islândia) à “bon-
dul* dos habitantes. Gom delto, suu nudo/ o x pilca-so por um
>Iiiim honovolonto o sua feliz ocjosldadc pola abundância de to-
«11. i i 11 lisas, Konsard, grande cantor da época de ouro (“E en-
i im Min ouvia ossa palavra Teu nem Meu”),1" reuniu a maioria
d> ' i lomas no seu Discurso contra Fortyna. Ele aqui interpela
\ lili galgnon, enviado ao Brasil por Coligny em 1555.com 600 co­
lono" r o critica por querer civilizar um povo
i
Inoeonlomenle selvagem e totalmente nu,
I i" nu do roupas quanto nu de malícia,
l.íiio n.to conhece os nomes de virtude nem de vício,
I 'i Sonado nem do Rei...
One ( om arado coitante não perturba a tena,
\ i|iial como o ar a cada um é comum...

^Ivel ícllz, gente sem sofrimento e sem cuidado


\Ivel alegremente: eu queria viver assim.liS

Porque no antigo mundo tudo se corrompeu: à dureza dp


liniiii ui respondem a parcimônia do solo e a inclemênciâ do céu.
Iitmbcm o contraste marcante entre os “bons selvagens” e os
m il- idos europeus permite aos primeiros dar lição aos segun-
I n ' i lllosolb nu” de Cuba e o “teólogo bárbaro” da Nicarágua
(• |u11\.1111 aos invasores sua sede de ouro e sua crueldade.116 Mas
i ii i n.to entendem essa linguagem. No curso do século 16, em
.i ui. <I. uma falsa civilização, eles destroem os paraísos terres-
in i i|iit’ Unham descoberto.
(,)uo tudo anda ao contrário no antigo mundo, é o que
|o usa também o Protestante Bernard Palissy, que publica em
i M uma obra sobre a qual Frank Lestringant acaba de chamar
I........mi a atenção, Receita verdadeira, pela qual todos os homens
. /. # I hiu\‘d poderão aprender a m ultiplicar e a aum entar seus te-
...... 11 Esse título exprime mal o conteúdo de um livro que

III. IU )NSA1U). CEuvres, V. p. 154 (IP Livre desPoèmes). Cf. também Ibid.,
p I s / 163 “Les Isles fortunes”).
I 15, Ibicl., V, p. 154.
I Id. ( T. ATKINSON, G. Les N ouveaux..., p. 15 e 163.
I I , < I. ,i bibliografia que figura no estudo de LESTRINGANT, Fr. citado
.iiuerlormemc.

2B7
evoca na realidade o "Jardim de relujólo" onde se poderla "lililí'
das Iniqi'iidades e malicias dos homens, para servir a Deus". lia
ta-se de urna retomada limitada do mito da época de ouro. I’a
lissy sonha em acolher “os cristáos exilados ñas épocas de pe ese
guição num lugar ameno c ‘montanhoso’, crivado de 'grotas' pro
tegendo dos fortes calores”. Nesse jardim circular, os animais evo
luiriam em liberdade; as sentenças da divina sabedoria seriam ex­
pressas em letras de folhas e ramagens.

m undo ao inverso, m undo perverso


Concomitante com a nostalgia da época de ouro, a predi
leção pelos temas - aparentados um com o outro - da loucura
e do “mundo invertido” constitui outra indicação sobre o pe.vd
mismo da Renascença. “É pelo fim da Idade Média, nota Micliel
Foucault, que a loucura e o louco tornam-se personagens Impor
tanles na sua ambiguidade... Na literatura’ erudita (com o nos
costumes populares), a loucura está em atividade no próprio
centro da razão e da verdade; ... a partir do século IS a face da
loucura obsedou a imaginação cio homem ocidental”."" Jean
i laude Margolln constata igualmente: “O século 16, mais que
qualquci outro em razão de Isual crise de valores e Isual crise
de <oiiM (em Ia - é <> século dos rituais invertidos ou do mun
do ao Inverso","" Aquilo que era - ou deveria ser.- impossível
torna se real, L.sso topos dos impossibilia não era desconhecido
da Anligüldade e da Idade Média clássica.120Mas a Renascença o
ve proliferar. De falo, a Loucura agora está presente' em toda
parle: nas cortes principescas (desde o século 14, ao que pare
ce) onde ela zomba dos grandes; nos jogos de cartas, notada

118. POUCAULT, M. Histoire d c lu fo lie à 1'âge classique. Paris: O.dlimaid,


1972. p. 24-26.
119. MARGOI.IN, J.-Cl. “Dcvins ct cliarlacans au temps dc Ia Rcn.ms.mu'"
nas publicaçftcs do Centro dc Pesquisas sobre n Renascença da Uuiv. dc IWU
Sorbonne, 1979, p. S2. Cf. também MARIjNLSSKN, R. II. "Boacli and
Bnic^bcl on luiman folly" cm Folie et détñlson à hi RenaUutnce (obra coletiva),
cd. da Univ. dc llriixcllcs. 1976, p. 42.
120. CURTIOS, L. R. lluropahche Utena nr und lateiniscbes MUitLdtiev, .’ <d ,
Reme, 19X4. p. lOh.

ÜMH
menlc uh tuiAs;1'1 nos desfiles de c,irnnv.il; 11,1.** lesliis do Asno,
il'Ki 11n mentes o justamente dos Loncos; na pintura di1 Bosch, de
Mhm’hIicI e de seus discípulos; ñas estampas representando o
mundo "Invertido” ou entilo Aristóteles, isto c, a Razão, cavalga­
da * i lili oteada por Phyllis, a prostituta; nos ensaios críticos cn-
iit ii.i |iials <>s milis célebres sito A Neme dos Loncos e o Elogio da
/ im/ i iihi, etc. No fim do percurso, eis ainda, entre outros, L'Os-
lihhile iIr' />(i:zi Incurabili 0 5 8 9 ) ele Tomaso Garzoni, o Dom
Muhn/i1 de Gervantes, La Hora de todos... de Quevedo (1628-
|n V» i, o ( ,'rUlcón de Baltazar Gracián (1651-1657): títulos que sao
iip» im i Itallzas sobre uní longo caminho dentro dos mundos in-
* nidii . da nascente modernidade européia.122
lodavla, a Loucura da Renascença, já se disse muitas ve-
i i i ambígua. Por seus aspectos folclóricos, de origens às ve­
ra . •Uníanles, ela era manifestação de saúde e não de melancolia.
\ ‘ li nías dos Loucos, dos Inocentes, cío Asno e os carnavais cons­
umiam momentos de libertação. A situação da multidão, a vacân-
■ii piu\ Isorla da razão normativa e cias instituições cotidianas, a
l" i mln-ilvldaile notadamente sexual e aliméntar, a algazarra e a
|o|i m la momentâneas, a licença concedida às palavras injurio-
i - i Inversão das hierarquias, a reutilização de rituais sagrados
l * 11 i Uns burlescos, as máscaras e travestis ofereciam uma "válvu­
la di segurança” pura instintos reprimidos o resto do ano.123 Era
0 qui ui ilava com perspicácia umá petição em favor da" festa dos
1 min i is dirigida a Faculdade de Teologia de Paris em 1444:

I v,.i d iversão 6 necessária, lê-se nesse texto surpreendente,


|ii n<|iic a loucura, que é nossa segunda natureza e parece ineren-
ii ao homem, pode assim exprimir-se pelo menos uma vez por
ano Tonéis de vinho explodem se de tempos em tempos nao se
libre a lampa para lhes dar um pouco de ar. Nós outròs, homens,
unios tonéis mal soldados que o vinho da sabedoria faria expio
m m . ______________ \ ,
I M. <ASTHLLI, E. “Quelques considérations sur le Niemand ... ct pernon
nc" cm Folie et déraison..., p. 112.
I , Sobre este tema podemos remeter, para abreviar, às duas obras já citadas:
Valle el flêm im i à la R cm m ance e Lim age du monde renversé cujos artigos con
têm as bibliografias apropriadas. Cf. também CHARTIER, R. e JULIA, l).
I i Monde à 1’envers” em LArc, n. 65, 1976, p. 43-53.
1.13. Sobre todos esses aspectos cf. sobretudo BERCÉ, Y.-M. Fête et révolte.
I’aiis: I tachone, 1976. Notadamente p. 13-53 e CARO BAROJA, J. Le Car-
n,ir,il, Paris: ( lallimard, 1979. Sobretudo a 2a parte.
ti Ir se cvsse vinho permanecesse mim estado de constante le in icib
taçíio sob o efeito tía piedade e tío tem or de Deus, Precisamos
dai-lhe ar para que ele nao se deteriore, I' por isso que iu »■. peí
m itimos certas loucuras alguns tlias a lim de poder retornai eivt
seguida com m aior zelo ao serviço de Deus . 1 '

Num espírito um pouco diferente, mas sempre com a


preocupação da “válvula de segurança”, o jurista Ciando de
Rubys escrevia no fim do século 16:

Às vezes, é conveniente tolerar que o povo se laça de louco p


se recupere, de medo que ao im por-lhe demasiado rigor, nao o
coloquemos em desespero. '-s 1

Esses “alegres e breves desregramentos” proporcionavam


um “tratamento” psíquico e social. Do mesmo modo eles extra
polavam um quaclró histórico determinado —neste caso, a Renas
cença - e'um grupo humano particular - aldeia perdida ou clda
de próspera.1*’ Mas, ao mesmo tempo, seja qual for sua ancora
gem no mais longo prazo, eles só são compreendidos, na sua es
pressão dos séculos 14-17, quando relacionados a uma civiliza
ção cristã, “O louco, escreve Yves-Marie Bercé, como o místico
ou a criança muito pequena, é alguém cuja cabeça vazia, alliela
ás solicitações do mundo, pode receber o sopro cio Espírito ,San­
to”.u7 O menino coroinha com sua mitra provisória e o louco com
sua coroa davam uma lição de humildade aos grancles e aos clon
tos.1-8'As festas dos Loucos, dos Inocentes e do Asno foram de
início eclesiásticas antes de serem expulsas para fora do sanlun

124. Citado em Patr., Lat., CCVII, col. 1.171 e mais recciuemciite ■ui
BAKHTINE, M. L’CEuvre de Frdnçois Rabelais ei la culture popúlem e un Aloyen
Age et sous la Renaissance. Paris: Gallimard, 1970. p. 83. Cf. também <iUII i
BERG, M. Le' Carnaval à la fin du M oyenAge et au début de la Renaissance Joto
la France du Ñ ordet de l'Est, tese de 3’ ciclo, Paris IV, 1974 c sua coiitiihulqlii
ao t. III des Fétes de la Renaissance, éd. CNRS, 1975', p. 547-554. < aínda lo
M ort despays de Cocagne (contribuição de Chr. Soland), p. 14-29.
125. RUBYS, Cl. de. H istoire gónérale de la ville de Lyon..., 1604, |>. i1»1) mi I
Citado por DAVIS, N. Z . Les Cultures du pe\iple. Ritucls, savoirs et réshuuu •i
auX V L siècle. Paris: Aubier, 1979. p. 150.
1 2 6 . C A R O B A R O JA , J . l e Carnaval, n o ta d a m e n tc p. 2 8 e 1 5 7 .

1 2 7 . BERCÉ, Y.-M. Fke etrévolte. |>. 3 6 .


128. CAR(1 BAROJA, j. l e ( am av al p. 320-325 a propósito do obispillo

E40
i Ih i . U
i | ;i do carnaval explodia iinles «lo silencio, do jc|um
t da nlsie/a da quaresma. Sabia se mullo bem que o Kei clac|Ue
|i días em (jue era permitido comer carne porcia seria logo ven
t Id" poi "Madame sardinha”.I"'
A propósito nao só dos mosteiros de jovens e das algaxar-
i 11, mas lambem das festas ruidosas que preenchiam o calenda-
du di 'ule dezembro até a quaresma, o s,estudos recentes mostra-
........ |in IIcenla nào é rebelião”.130 Essa fórmula de Nathalie Da
.......... be agora uma ampla aceitação. A “contra-ordem”, escre-
' t iu "i Marle Bercé, “ainda é uma ordem”.131 O Lord o f Misrulc
nao i mu lo rd o f Unruliness. O “ridículo” não é forçosamente
wibsvish'o" e a caricatura pode ser “pedagógica”. As brincador-
M dos biili «i\s reais nào punham em causa a instituição monár-
i|ii|i i A Inversão das mascaradas constituía uma “imagem sime
lili i da realidade, e por outro lado os ritos “permaneciam mul­
lo n|in m dessa inversão teórica”. Quanto aos tribunais de jovens
i i ilo, 1/-arras, exerciam “um papel.de salvaguarda do futuro da
1.......mldade pela proteção de suas virtualidades de fecundidadc
( ilt icno v ai, a« Nào se deve, portanto, separar festas folclóricas
i ii ii o de passagem.132 Podemos até pensar com K . Thomas q u e
l h illnal confirmavam as estruturas, as hierarquias em vigor e
« d 1111 sei ilações da época da sociedade pré-industrial. O burles
mi mi dei I,irado "legítimo” durante um período limitado e em
ni i lini . precisas e todos estavam de acordo para nào ultrapas-
t.ii ii nas barreiras do calendário além d'as quais recomeçava a
lilii IVii mal.
I . .a posição de evidência dó caráter “funcional” dos ritos
. iin n ale .» os (no sentido amplo) contradiz sensivelmente a tese
| lll hall Bakhtine que viu neles uma revolta da cultura popu-
ln imilla a cultura erudita, uma inversão das hierarquias, a
ui* ii" ui Ia provisória de uma verdade das profundezas insur-
Itliidn si * onlra os dogmas oficiais, uma breve vitória da carne
............ asc etismo, e a recusa, uma ou algumas ve^zes por ano,
1 1 11 •lina, d a s autoridades e das proibições religiosas. A libérela-

i "i lliiil,, lunadamente p. 32, 51, 132.


I 10, I >AVIS, N. Z. Les Cultures..-. p. 170 e mais geralmente para o que segue,
|i I 50.209.
I 11 IlEIK 1H, Y.-M. F ête... p. 36 e mais geralmente para o que segue, p. 28-
II I >AVIS, N. Z. fala de “regra ao inverso”.
I \», DAVIS, N. Z. Les Cultures... p. 168-173.

'M\
de exterior que cáraclerlzava ¡i le,si a popular era Inseparável, |ul
ga ele, ele uma liberdade Interior momentaneamente reeonquh»
tada. Uma concepção "positiva” - isto é, materialista do mnn
do triunfava, pelo espaço d e -algumas horas ou de- alguns días,
sobre-uma còerção espiritualista.1"
Demasiado sistemática, essa tese não é muito convliu'ente
Mas é bem verdade que as festas, nao se transforma rain por ve
zes em revoltas, que as autoridades civis sentiram cada vez mais
medo da violência anônima, que trabalharam para enquadrai i
controlar os ritos folclóricos fazendo designar pessoas abastad i
e respeitavelmente conhecidas como "abades dos loucos ' 1 1 i
verdade sobretudo que os homens de Igreja - católicos antes de
1520, católicos e protestantes depois - mostraram uma antipatia
crescente em relação a todas as manifestações burlescas e mes.
mo festivas. Nas algazarras, eles viram uma oposição a um novo
casamento de viúvos e viúvas, aceito pelo direito canônico; no
carnaval, nas festas de maio e nos fogos de São João, viram re*
surgências do paganismo e ocasiões de escândalo; nas lestas doM
Loucos, do Asno e dos Inocentes, uma inadmissível confusão tlt)
sagrado c do profano, que se repetia às vezes durante as pioi Is
soes de Corpus Christi,1" Lm 1580, um padre católico da boêmia,
Vavrinec Rvacocsky, publica uma... divertida meditando sohtv
doze filhos de Carnaval, ou patriarcas infernais... onde demoiiíí
ira que “os diabos, durante o carnaval, invertem com o podem a
natureza do homem, depois, apossando-se dele, o recompensai)!
com o Inferno.130
A Igreja, no início dos tempos modernos, moveu então um
combate cada vez mais vigoroso contra a loucura coletiva e pu
blica. Esse combate só foi.parcialmente coroado de suee.ss» > Ma
na época em qye começa o internamento de loucos, ele é ie\r13456

133. BAKHTINE, M. LXEuvre..., passim e lunadamente p. R7 l)(),


134. Cf. por exemplo o regulamento de 19 de janeiro de I 339 em Nlt t i|i|i
prevê a eleição dos quatro “abades dos loucos”: SIDRO, A. Ir ( itnhm tl th
N ice et ses fous. Nice, éd. Serre, 1979, p. 22-23. Mais geralmcnic (iUII 1IU I'
M. Le Carnaval..., passim.
135. CARO BAROJA, J. Le Carnaval, p. 3 2 1.
136. A tradução completa do título é 0 C arnaval ou livro que inlrodiit a ivi
dadeira piedade, cara a Deus, p or uma agradável m editação sobre dm e /l/boi
carnaval ou patriarcas infernais, e ensinando salutarm ente porque conven a w
dos evitar sua com panhia, Praguc, 1580. Dossier amnvclrnentc coniiiult iilltl
por M.-E. Ducrcux.
Indi h de mu diagnóstico peremplório: loucura é Igual pecado,
I i i i ei|unçào nao fol aceita sem reticência •mesmo no plano da
• tilinio dlrlgcnlc. No Elogio del Loucura de Erasmo, ela desempe­
nha diversos papéis e apresenta diversas faces. 1:1a significa no
hit» l*i lellcldadc e juventude. 1:1a é a feliz virtude das crianças.
I 11 • sinónimo de franqueza e de humildade.137 Todas çssas q u a ­
lidades remetem ao mesmo tempo às necessárias alegrias terre-
iM i ao simbolismo cristão das festas dos Loucos e dos Inocen-
li i l lo final, a Loucura se torna adesão ao mistério da salvação,
0 ah mdono da "sensatez do sensato e da prudência dos pruden-
1 piolándose nos profetas, no Evangelho e em Sào Paulo,
i i i ano afirma com este último que “a palavra da cruz é loucura
1111 i i >,s homens que passam”.,w Um século mais tarde, Dom Qui-
.1. - (presentado com o um lunático tomado por uma idéia fixa
m ils lambem com o um ser puro, generoso e leal, deslocado num
........ 1 1 que perdeu essas qualidades. Erasmo e Cervantes tenta
........... . > parcialmente, cada um à sua maneira, um verdadeiro
. logio da Loucura”, transferível por sua vez do plano simples
iio mi religioso para o da contestação social e política. Na Ingla
i ni i li i século 17, veremos radicais - Divàgaclorès, primeiros
• ui il eis, ele. - se apresentar com o loucos cie Cristo e lembrar
111* |i sus foi uma espécie cie excêntrico. Lilburne proclamará em
lniu •pie Deus “não escolhe muito os ricos nem os sensatos..,
iii.in os li unos, os simples de espírito, os homens e mulheres que
n i luíame,s e desprezíveis aos olhos do mundo”. Winstanley afir-
.............. nbem em 1649 que “a proclamação de uma lei justa virá
i Iimi polires, dos infames, cios desprezados e dos loucos cleste
mundo" M" Mas 'no Encom ium cie Erasmo existe outro aspecto,
in n <ni conformidade com o sentimento habitual das elites cia
. ......... a assimilação entre os defeitos humanos e as atitudes lou-
i <h mercadores, os gramáticos, os teólogos, os pregadores, os
iti n is, i is papas, ç s cardeais e os bispos sào geralmente lou-
I. i|iie Ignoram seu estado e que não vêem que seus compor-
i ......... tos absurdos os levam a eles e a humanidade à desgraça.
M ii, <l.i metade do livro de Erasmo é consagrado a essas conde­
nai ui , (|tie se juntam então às de Sébastien Brant.

IV . <T, lunadamente na ed.. Garnier, p. 23, 33, 73, 163.


IW
< ( I. lunadamente Ibid., p. 173-181 e 303 (n. 543).
I V), I ".i.is c ita ç õ e s e m H I L L , C h r. L í M onde h 1'envers. P a ris: P a y o t, 1 9 7 7 .
|i. ¿18 219.

24 d
I Non </<>s insensatos apareceu no período do i arnaval (fe­
vereiro de 11‘U) c o .nitor inseriu mu capítulo tic <ondeo.u..i*•
ties te último: "A Idéla tic <|tic o carnaval é fclto pura se dlveilli e
Invengo do diabo ou entao tía loucura.,, <) gorro e<>m slnlnlu>s
ira/ angustia e tlor, mas jamais repouso","" A obra de Nébastlen
Urant é talvez a Ilustração mals rtotável de um lato cultural lm
portante: a crescente adoção dos temas tía loucura e do mtindii
Invertido por alguns meios intelectuais, sobretudo a lgre|a, paia
Hns tle culpabili/ação, Para eles, loucura e subversão são Intel
cambiáveis. O mundo ao inverso é um mundo perverso."1 A-, allí
maçòes nesse sentido são inúmeras nos textos europeus entre o
fim do século 15 e a metade do século 17..O gratule moralista
<íeller tle Kaysersbcrg prega na catedral de Kstrasburgo sobre leis
tos da Nciu cios Insensatos. Na esteira de Branl, o humanista e Im
pressor Jodocus Matllus publica em 1501 um Stnltifercu' nonos ("tis
naves loucas1',) que retoma a ficção da frota que Brant tinha aban
donado desde seu primeiro capítulo. Hle lança assim ao mai di
mente seis navios, <) primeiro é o de liva, autor tio pet ado orl
glnnl, i ia|iianlo os outros representam os cinco senlldt>s e a*» b mi
linas i que eles nos arrastam."' Nu truc canção de 15.’..’, o lian
• is. a i ii i 11o unas Murner, Inimigo de I, útero, declara que tudt >c s l |
d» peinas paia o ar na crlstandadé: “Os pés estão em cima do
bitin o, i. i ano na líenle dos bois”. Os eclesiásticos afastam os
In is, as autoridades dormem."' Um dominicano italiano, (lim o
11io Mllnatl, nos albores do século 17, entrega ao público uivut
ulna Intitulada o M undo t>imdo de cabeça para b a i x o , A Inito
•ligao da tradução francesa declara sem ambigüldadc: "A Irjtch
•ao «In antoi e de mostrar por vivas raZòes que o pecado Inito
ilu/lti uma tal confusão no mundo, que se pode justamente dpi i
que todas as coisas andam ao contrário"."'’ Affinatl, depois >1. lu

M(). HRANT, S. í.ii N effies fouts, cap. 110, p. 458 c 462.


14 1. Meu propósito integra-se pelo viés da ciilpnbilixaçtto nas anitlln . , p>i
ias na obra coletiva Vi suges de In folie ( J $0 0 -1650) sob a dir. de A. Kt iIou.Im
A. Roclion, Public, da Sorbonne, Paris, 1981. '
14,’ . (il'RI.O, A. "Pntlius Asccnius Stu hijhiie N<tves (1501), a latín addtii
dti ni to S. lítanos N d rrcn sih iff (1494)", cm Fatie et dM ilson. .., p. 11') I ' ‘
14.1, PtAIU), I!. "Thoinas Murner contrc Lutbci" cm lblil,, p. 201,
144. hsse é o título «Ia trad, franc. dc 1610. Título italiano, II Mondo <d imvi
eio e SOMpni, Vcnisc, 1602. (!('. "I.c Monde rcnvcistí sens dcssiiK ilroaitit d* I ia
tilac, Aílinati em L lm n & e.,, p. 14T 152.
145. I e M onde ren vem1, p. I Ja-b.

:u i
iiiili i época de oí no, declara que i) |MHini i), (Irsele o pecado
•111(1111,11, iornou-so urna "felá metamorfose tío si mesmo”.I,r' Alo
mi iin ■i» mundo das esferas que, eom a permissão de Deus, se
|n i mili andar para irás. Adão agiu "como uma besta louca""’ e
ImiIiim ir* srus descendentes se comportam da mesma maneira.
MIhiiilI da urna prova decisiva lirada de sua experiencia de prc-
gitdoii Nos vemos todos os dias... que a audiência vai num sen-
Hi Im Mu <<mirarlo ao reto caminho, que se corre mais para ouvir
mu 'iiililmbanco, inri contador de anedotas, um .charlatão, que
•m I* ni i reme para as mãos ou pó para os dentes, ou veneno
pii i talos, do que um hábil pregador”.“*
L i Ilord </r todos... do diplomata Quevedo (que tinha esiu-
•lili!i i ie< il<>gla), com a ajuda da ficção, põe por sua vez em eviden-
•M i i•alld.nlr e a permanência do mundo invertido. Os hom ens’
mi •pii is.iin a Júpiter porque a fortuna concede seus beneficios aos
lililíis e a miseria aos virtuosos. Júpiter decreta então uma “hora”
di \i ida*li■<luíante a qual as situações serão invertidas. No fim da
|liihi •••ricos, agora humildes e sem recursos, estão arrependidos;
Ilitis os iinllgos pobres, que receberam riquezas e honradas, entre­
gam •• doravante ao orgulho e ao vício. Assim, aconteça o que
n imiri ri, o mundo permanece invertido com uma quantidade
louslanii' de loucura e de pecado.1*9 Mesma constatação amarga
ii" ' m i, ou do pregador jesuíta Baltazar Gracián.lso.O mundo aqui
i d. ••! dio como uma fachada enganadora onde tudo é mentira e
Miidil * oino uma cidade onde “tudo é ao inverso”: “Aqueles que
di o ilam m i cabeças pela sua sensatez e seu saber, estes estão por
........... lespic/ados, esquecidos ç humilhados; ao contrário, aque
li •|in deveríam ser pés, por causa da sua ignorância e inaplld.u»,
■ ' . i . piv.soas incapazes, sem ciência nem experiência, sáo eles
i po . om.iiulam".IMA partir daí, o autor generaliza:

146, Ibid., p. 63a.


14 ' lliiil., p. 10b.
I4H. Ibid., p. 84a c b.
I I1). RIAND f RE LA ROCHE, J. “La satire du ‘monde à 1’envers’ chcz Que
vedo" cm V Im age.. ., p. 35-71.
110, REDONDO, A. “Monde à 1’envers et conscience de crise dans le Críti­
niu dc Raltazar Graci;ín” em LIm age..., p. 83-97.
I ’>I. I in sapiência a A. Redondo, e utilizando suas traduções, remeto para a
rtl. do (.'rilicón que figura nas Obras completas de Gradan, Éd. Arturo dc
I luyo, Madrid: Aguilar, 1960. Aqui I, 6, p. 564a-b.
Tudo anela ao contrario.., a virtude <• perseguid,i, o virio,
exaltado, a verdade é i,iuida, a mentira, trilingüe, ... os livros es
tito sem doutores e os doutores sem livros, ... os |ovens se »•*
tiolam e os velhos reverdecem. ... Os animais ;igcm como lio
mem e o homem como animal, ... as movas choram o os velhos
riem; os leões balem e os cervos caçam; as galinhas cacare|mvt
e os galos se calam...IS-
&
Augustin Redondo, de quem tomei emprestadas essas ua
duções, põe em relação a importância do tema do “mundo Invoi
tido” na litèratura espanhola do fim do século 16 e da prlmeli.i
metade do 17 com a¿crise” que atinge então o mundo Ibérico.,M
Esse vínculo não deixa dúvidas. Mas é preciso ampliar a oh,sei
vação: o lugar considerável atribuído à loucura no discurso da
cultura escrita européia durante cerca de 150 anos remete a eilsr
de uma civilização,113
5
254 a uma atmosfera de inquietação, a um sen
timento, penetrante de culpabilidade.

Ó século do ferro enferrujado! exclama John Donne, Que um


[espírito mais avisarlo
l,he dé um nome pior que esse, se existir;
l'i .i a época do lérro, quando a justiça se vendia; agora
I a Injustiça que se vende, bem mais caro.1556 5
1

As Imagens do mundo ihvertido iluminam os textos, Tai1


lo elas iniiio eles conservam certamente uma carga de humor
que vem das lestas populares e dos ritos carnavalescos. A l.ouetl
i , i da Renascença faz rir e é por essa razão que yrtistas c esc rito
res acumulam detalhes Insólitos. Quanto mais eles "acrescenta
rem", maior sera o sucesso - é ulna constante do gênero, Mas a
lição também deveria fazer mais efeito.15,1 Porque, na época de
nosso estudo, a iconografia da loucura não é gratuita. Ela é citsl

152. Ibid., I, 6, p. 572b-573a e IÍI, 3, 864b.


153. Vbnage,.., p. 89-90.
154. Opinião concordante dc MARAVALL, J. A. l.a Cultura tlrl Harmno,
Barcelona,
155.1X)NNH, J. Satín- V¡ V, v. 35-38, citados cm JONES DAVII-S. M, I: IV.
times et tvbelles. VEmvaín dam Iasociéféélhabéth/tine, Parlai Aubier, I9H0. p t
156. O'. Cl 1ARTIER, R.: JUMA, D. “Lc Monde ii renver*” cm V A n , n. 61,
1976. p, 43-53 (com bibliografia).
n miento r t ondcnaçáo. Subsistem cliivkl.is sobre ,-1 Hxtmçào da
/'. ./»•/ (/c loucura (Museu elo Prado), <|ue lulvex nào seja uma
ubi i original ele Bosch, e sobre sua A Nape tios Loucos (Museu do
11mui»') <|ik* alguns propõem chamar O Concerto na Barca.'''
I ui io d o i aso, os dois temas remetem a divertimentos populares
diii I',ii n s baixos, Nesta regiào, os loucos eram representados
ii iin uma pedra na cabeça que era preciso extrair e é provável
i|tn poi ocasião das lestas, charlatâes e falsos cirurgiões simula-
i mi a operação. Por outro lado, o nome de Blauw e Schuit (A
n tv i i ni) qualificava desde o início do século 1,5 sociedades cie
I .... «i espalhadas por todo o país.158Mas ambos os quadros uti­
lizam o t õmlco para fins moralizantes: o cúmulo da loucura é
•|io •Ia se cuide por si; ora, este mundo invertido é porém a rea-
li'l n h ii aldlana. Quanto à Nave dos Loucos, mesmo que se eleva
llama Ia o Concerto na Barca, ela é evidentemente inspirada
I ii li i In io de Sébastien Brant, com esta conotação pejorativa aco-
pl.iih .1 musica que era clássica entre os rigoristas da época. O
• " " do pecado e dos indiferentes está a caminho da perdição.
SI» ui disso, essas obras de Bosch só se compreendem quando
i "I"' adas numa série: ao lado do Ja rd im cias delícias, da Carro-
teno ( dos Sete pecados capitais, composições que insistem
■......... num sobre a loucura do pecado e convidam a pensar so­
be ' is Uns últimos,150
I »a mesma maneira que os quadros de Bosch, diversas
oblas pintadas ou gravadas - de Brueghel, o Velho, são inspi-
ladas poi lem as "carnavalescos” ou ritos populares. Ele também,
II*1......... litios artistas dos Países-Baixos, representou -a operação
11 |" dias na cabeça. D u lle Griet (Margot enraivecida) liga-se às
«.linas da mulher rabugenta das fábulas e das farsas. As gravuras
........ IHs idas por adaptações do século 17) relativas à Peregrina-
11|t • p/e Mo/enheek evocam um costume local: uma vez por ano,
imlgns e parentes forçavam os epiléticos, as mulheres histéricas
. o di nieuies a transpor a ponte de Molenbeek, na periferia de
Um i l i'. A estampa intitulada Temperantia reproduz, entre ou-

I ' <T. ADEMAR, H. Corpus de la peinture des anciens Pays-Bas..., Bruxel-


I. . I%2, p. 20-32. MARIJNISSEN, R. H. “Bosch and Brueghel on human
I nllv cm Folie et déraison..., p. 46.
I oi. MARIJNISSEN, R. H. “Bosch and Brueghel...”, p. 4 l e 43.
IV), IbuL, p. 47.
160. Ihiil., p. 42.

‘M 7
Iras, uma ivn.i ele teatro popular: o louco com mi bastão <|iic,
sobre um tablado, da uma resposta Inesperada ou absurda a ou
tros alores,11,1 l'.nl'lm, a gravura Intitulada /I Festa tios i.oucos resil
tul ao mesmo tempo as lestas com esse nome e os desregra men
tos habituais tio carnaval.
Mas a significação geral dessas evocações e amarga, sobre
ludo no caso de Duollo ilriot (Museu Mayer Van den Mergli, An
veis) liste pesadelo, notavelmente pintado, com um evidente ,11)
tlfemlnlsmo, antecipa sobre aquilo que o mundo se t<>rnatia t asi •
fosse entregue â violência de viragos domjnadoras e liberadas,
I )e espada na mào, a megera Margot e suas seguidoras atacam os
homens aos quais obedeceram durante muito te m p o .S o b re tmi
fundo de Incêndio, a legiào demente se dirige para o inferno. Na
/■'ostd tios /.n u c o s , os balões carregados por personagens titubean'
les e desvairados simbolizam outras cabeças perturbadas, A gia
vura intitulada Toinftomntid, que comporta no seu ângulo supe
lior esquerdo um louco e dois atores, dá uma lição de modera
<10 a todos os que se entregam â luxúria, â cobiça, ao esbanja
mento nu ao contrário naufragam na avareza (rirom lum ul noi
i i iln/ihiH (/(■(////, j t o i /IuJ vt iuxuriosi dppareamus, m x o ra m tono
i lh' s»>hfltil ddt oiiscnrl <'.\'isldlUUS).M
Mais significativa ainda e a estampa consagrada a ih h
1•ada um 1 no alto da qual avistamos um louco olhando-se n<t es
p, II1.. *"* |i ia,.mdo com a dupla negaçào nemo non c reullllzaiulo
o tema europeu todos ninguém, Hrqeghel lança uma acusadlo
ao nn smo tempo Individual e coletiva: nós somos todos solida
iio, no anonimato do pecado, mas ninguém tem consciência de
sua 1i sponsabllldade. lilck (cada um) é o alquimista tentando la
bilt ,11 ouro, e o mercador no meio dos fardos de mercadorias, e
o soldado conquistador, é quem disputa uma peça de tecido mui
seu vizinho, A legenda ensina: “Cada um (Nomo non) so piocu
ra seu Interesse. Cada um em todos os seus empreendimentos so
procura a si mesmo. Cada um em todas as ocasiões aspira ao lu

161. Ibjd.
I(>2. Ibld,, p. 49.
I(>3, Ibld., III. 5, |>. 48-49.
I(>4, lliid.. |>. 4S c il. 10, p.
48-49. Cf. também cm Iliiil,, ( '.A.STII I 1. I
"Quelqiics toiuidérntions mu lc N iem anri..." c KI.KIN, R, "I cThénic «lu (*m
ci rimnie lnimaimtc" cm "Unumoflnu» c Hrnieneuticn" Calilci ilc /'AhhM tt
tlc/'¡loso/hl, I9(i.t,

: mh
im Mm pux.i pura <> seu lado e o outro para o dele. Todos so
ii m um desejo: possuir".1'" Mais feralmente, a loucura do peca
i Im i da o caos: é também a lição da Torre ele Bcibel, um tema que
lliiii gliel e «nitros em sua época cultivaram. Assim, a despeito de
•!i i illn s enigmáticos e controvertidos, BoSch e Brueghel pro-
I*•ti mi a iursina moral: a loucura, ou seja, os comportamentos co-
ii li nt, is dos homens, merece censura. Bosch, como pregador
#i milii miro e poderoso, chama loucura o apego aos bens terre-
tiii> Itiueghel, líilve/ mais humanista e mais indulgente, cleseja-
111 «pó n homem fosse razoável já que ele é dotado de raza o;
1111 •• nm privilégio que ele usa pouco.160
V. estampas do fim do século 16 e do inicio do 17 consa-
,.i id is ao "mundo invertido" sào sem dúvida, elas também, mais
.......i ili/nntes (|tie um primeiro contato com elas podería fazer su
pm 1 I i eilamente por prazer que elas acumulam os imposslbi -
//.i diM'itldos: barcos em cima de montanhas, hoinens cavando
ni........mar, filhos batendo nos pais, mulheres usando espadas e
Io min ir., a roca de fiar, cavalos ou asnos cavalgando camponc
piilm ■•. dando esmola aos ricos, o “bandido” montado num
i mi i I en«|uanlo o rei, de coroa na cabeça, vai a pé. Mas, por um
Itiiln, i v.as Inversões se pretendem absurdas. Elas fazem rir por
■I ........ .... absurdas e por ricochete repõem as coisas no lugar e,
pm mitro lado, podemos comenta-las por este “emblema” de
lililí i* velador das intenções pedagógicas que presidiam à con-
h i • n i dessas imagens humorísticas:

' » mt ii Hlo está invertido, eu não compreendo;


i ) Interno comanda, e o senhor lhe roga
i ) rico chora, o pobre ri;
A montanha está embaixo; a planície nas nuvens.
A lebre caça o cao
l o rato, o gato...'61'

lOV "N a n o non quaeritpassim sua commoda. Nem o non quaeritsese cunctis in
ir bus ay/ndis. Nem o non inhiat privatis undique lucris. H ic trahit, Ule trahití
i unrlis amor unus habendi est. ”
100, Adoto aqui totalmente a conclusão de MARJJNISSEN, R. H. “Bosch
.uní Brueghel...” em Folie et déraison..., p. 45 e 47.
I(»/. « T. (¡RANT.H. F. “Images et gravuresdu monde à renvers” em L ’Image...,
|i. I / M. ( 'í. também CHARTIF.R, R.; JULIA, D. “Le Monde à enverso”.
KiH. <litado c traduzido em Ibid., p. 2H.

241)
Knfim, várias estampas (menos populares talvez) mili/.mi o
tema do "mundo virado” como um elemento de pregação, lima
de 1576 tem por legenda: "Hipócrita e Tirano mantêm o mundo
ao contrario; Fé e caridade dormem, como testemunhas o lempi i
e nós todos”. De fato, vemos o globo terrestre submetido a urna
velha mulher que segura um rosario (a Hipocrisia) e a u.m solda
do que carrega uma pesada espada. I Jma outra estampa de Ib \ ■
mostra o mundo invertido rodeado por Demócrito cjue rl e I lera
dito que chora. Dentro do globo (ele cabeça para baixo), homens
lutam, barcos naufragam, etc. A legenda proclama:

Vejam este mundo revirado


Aos bens mundanos muito dedicado,
Que por um nada quer perecer
Sob a sombra de cego prazer.
E Satã que sempre vigia
Lhes promete bens aos montes
Sabendo que sob taf prazer
Se esconde um mortal arrependimento. 109

Permanecemos, assim, dentro de um discurso culpabili/ador,


Uma prova suplementar nos é fornecida pela utilizadlo
para fins polêmicos dos temas conjugados da loucura e do mun
do invertido: o adversário é um louco (perigoso), responsa\ * I
peloteaos em que mergulha a sociedade. Na época, como os d.
bates mais acalorados se desenvolviam sobre o terreno religioso,
católicos e protestantes se, acusavam mutuamente de demência
culpável. Thonras Murner, em 1522, intitula Q Grarulc Lom o In
tero seu agressivo panfleto, contra a Reforma. Nào é o própri< >Lu
tero que é assim designado, mas “a encarnação polivalenh d»
seus sectários imbecis, ávidos ou lúbricos”.119
67017O árgumento do ll
vro é o seguinte: um franciscano encontrou um louco gigantes*
co, montado num trenó puxado por onze cavalos e outros lou
cos. Essa imagem carnavalesca simboliza aqui a enormidad' d.
um pecado.17' Murner tenta exorcizar o Grande Louco assimilado

169. Ibid.êpl. II, p. 32-33.


170. PLARD, H. “Folie, subversión, hérésie: Ia polémiquc cleThomiis Minm i
contre Lutlier” em Folie et dêraison.,., p. 200 c mais gcralmcmç p, l‘) ’ .MUI
171. LEFÈBVRE, J. Les Fo/s et la fo lie, étude sur les gen res du eom it/iie el / . / 1 i Ai
tion litlém ire en A/leuiugne /u'tuhtut Li Reuiiissuiuc. Paris: 1968. o. Ti •! '
i imi possuído polo demônio, lisie resiste, mus conlcs.su carregar
di Mim de si nuls loucos do que o cavalo di' Trola chelo de gre
Mili na i aliena estavam os loncos eruditos e os pregadores que
i le i mijam a scdlváo, no bolso, aqueles que “lavam as mitos nó
ilinln lio i' nos bens alheios’’ alusão ã secularizado dos bens
•i |i tlil'illci is, eU'. Um purgante administrado ao Grande Louco
miiii lito pom o eleito quanto o exorcismo é o gigante morre im-
11» nili ule Segue se um enterro grotesco com querelas familiares
i ni im no da herança. Murner sentiu a chegada da Guerra dos
i impi ineses ( ISi i IS2S) e quis colocar seus contemporáneos em
iiiitii lo 11 mira os perigos sociais - as reviravoltas, portanto - que
i l‘>huma podia acarretar. Por outro lado, percebeu uma grave
i• i im desmantelamento cios sacramentos pelã Reforma. Sc
ii ■ i ' iini nto não é mais um sacramento, todos os repúdios são
I" inilildi is Se o moribundo não pode mais apoiar-se na extrema
um in e na Interccssào dos santos, eie morrerá na angústia, en-
iii |pu , sozinho, ao julgamento do Deus terrível. Denunciando,
iinii uma verve frequentemente obscena, tào graves perigos,
li.......... . decididamente, ele próprio, como um louco
in 11'lh' i'i de seus contemporâneos. Inversão dos papéis clássicos
iui •....... . os loucos tomam o sensato por um demente quando
• ih a nía protcgO-los contra a tempestade.
Do lado protestante, utilizou-se igualmente o tema do
niiiiidi i Inverliilo para fins acusatorios. Pierre Viret numa obra de
llliilo significativo, O M u n do no império... declara que “aqueles
, |i11 di vedam ensinar e guiar os outros vão de través, em recuo
............... enquanto os “imperadores” se transformaram em
pi"i idores".1* Agrippa d’Aubigné explorou ainda mais aquela
liiliiiula inundo inverso, mundo perverso”. Bem entendido, ele
i , i m , i aiólleos e os soberanos perseguidores dos Iluguenotes.
• i mu i no mundo inverso / o velho pai é açoitado pelo-filho per-
\i mu i" ( TniyJfjues, i, v. 235-236),17í do mesmo modo que os reis
•|in di veríam ser os pais do povo se tornaram “lobos sanguiná-
i Im (I, \, 197-198). “o sábio justiceiro é arrastado ao suplício”

I VIRliT, P, Le M onde à l ’em pire et le monde dém oniacle. Éd. de 1580, p, 4


i ( I. cd. 1561). Citado em CEARD, J. “Le Monde à lenvers diez d’Au-
lugiu4" cm LJtnage..., p. 117-127. Tiro igualmente deste autor as citações que
neguem.
I V./ rv Trafiques figuram no t. IV das (Euvrcs com plhes d’A. D ’AUBIGNÉ,
lid, li, Réauinc ct de Caussade. Paris: 1887,
(I, v, 233-23*»), ";ls íH'fiis de repouso silo áreas estrangeiras ,i••
cidades do meio são cidades fronteiras” (I, v. 22^ 22(0, () .*.<*» ir­
lo nada mais é “que uma história trágica, / Sáo farsas e Jogos Io
das as suas ações (dos tiranos)” (II, v, 206-207). <> cclro sagt uI. *
estão “na mão de uma mulher impotente” (Catarina de Médlt Is)
(I, v. 734), e o anticristo, ou seja, o papa, tornou-se “Deus na t« i
ra”: ele “dispensa o direito contra o direito”, “autoriza o vício",
“salva o condenado num instante”, “aloja no céu aos golpes um
regimento”, põe “o inferno no céu e o céu nos infernos",
(I, v. 1235-1244).
H também um mundo invertido aquele da l.iga csllgnuit!
zada pelos católicos moderados, autores da Sátira Mciii/icia

Vemos aqui “os pequenos se tornando grandes; os pobres, il


còs; os humildes, insolentes e orgulhosos; aqueles que ohedi
ciam, comandando; aqueles que tomavam emprestado, prallt iil •
usura; aqueles que julgavam, ser julgados; aqueles que aprisiona
vam, ser aprisionados; aqueles que estavam dé pé, estar senlti
dos. O casos maravilhosos! Ó grandes mistérios! Ô segredo* d o
profundo gabinete de Deus, desconhecidos dos Irágel.s inoiialsl
As alvas se transformaram em alabardas; os escrínios, em num
([líeles; os breviarios, em escudos; os escapularios, em <ourava*)
e os capuzes, em olmos e capacetes”.171

A exploração polêmica, no quadro dos conflitos rcllgl.... .


do tema da loucura - considerada sinônimo cie perversão - ch­
ela rece, portanto, de maneira exemplar sua anexação pela <uliu
ra dirigente. E deve-se destacar de passagem que os revolta loitil
rios ingleses do século 17 que se apresentam como "loucos
mas é para convencer o mundo da loucura e recoloc a Io no lu
gar - seguem inconscientemente a impulsão dada pelas ellu u
ligiosas que culpabilizam sua época graças aos temas ei>n|UFUo|
da loucura e do mundo invertido.114
775 Estamos longe, cm iod<»< asi •
não somente do desregramento popular das festas carnavales! as
- “a válvula de segurança” - , mas longe também do ca ral n "lun
cional” dos festejos divertidos que permitiam que a juvenúidi
exprimisse, que os ritos de passagem se efetuassem, que »> li m
po fluísse segundo um ritmo coerente. A loucura, com suas mui

174. Satín Ménippée. Ed. Cl». Rcad, Paris: 1876. p. 120-121,


175. Acrescento este esclarecimento ao livro de 1111,1., < lu, I r Moni/r <) /ímivm
H|'111 miiotnçòe.H qegatlvas, tornou su o argumento preferido de
tuii tliiu urso i oin predominância conservadora c moralizante,1" ()
uiuiitlii Invertido c .t destruição de um equilíbrio, cósmico, reli-
. ............ . social, Um editor de Thomas Cromwell, editando um
/h nit ,l\‘ for sedltlon depois da revolta da Peregrinação da Graça
d» I i Ui, declara de maneira reveladora:

Nilo seria uma coisa louça e inaudita que o pé dissesse eu que-


io usai um chapéu, assim como a cabeça. Que o joelho dissesse
<u quero ler olhos ou outro capricho, que cada ombro reclamas
se uma orelha, que os calcanhares quisessem ir na frente e os ar­
tel lios atrás.'"

I in outro registro, A Megera Dom ada de Shakespeare ex-


pi» i desordem doméstica que cria uma esposa indócil para .1
pi 1! o uci essa rio um rude treinamento para que a ordem normal
d 1. 1nls.is <• .1 hieraixjuia dos seres sejam restabelecidas. Por ai se
11 11 uno se operou a passagem da farsa e das algazarras para o
II ' urso <ulpabilixador. Mesmo nas festas, a loucura e o mundo
IIIn•ilido podiam constituir uma maneira de repor no lugar situa
01 de (lesordem, por exemplo, a cie um marido tolo e dócil de
ui iis ,1 uma esposa que usa calças. Mas a cultura humanista e ele
ii> .il ultrapassou esse nível clé banal regulação das condutas. Kla
1 Hlupolou c dramatizou a situação de loucura e de inversão:1ela
vIn ,11 o pecado.
I ela teve tendência a ver a loucura em ação por toda par-
h 1111111,1 sociedade enferma. Reveladoras nesse sentido são as
duas o! nas do Cônego italiano Tomaso Garzoni, Teatro d e ’ varii e
dnvrs! eervelli m ondani (1583) e Hospidale d e ’ p a z z i incurabili
1 I «MU), i |uc pretendem classificar todos os tipos de loucura por or­
dem crescente de malignidàde.178 O segundo desses livros conhe-
1n i um sucesso considerável - onze edições em 30 anos. Kle ins-

176. Cf. a esse respeito a excelente Tese de Estado de Mlle ROUCH, M. Les
C.ommunautés rumies de la cam pagne bolonaise et 1'image dupaysan dans / ’«•«<-
vrc de G iulo-Cesare Croce (1550-1609), 4 v. dat. Aix-en-Provence, 1982: I,
p. 263-264.
177. Citado por BERCÉ, Y.-M. “Fascination du monde renversé dans les
tmutiles du XVI siècle” em L Im age... p. 13. Cf. FLETCHER, A. Tudor Re-
bellions, Londres, 1968.
178. Cf. OSSOLA, C. “Métapliore et inventaire de Ia folie dans la littératurc
Uulicnnc du XV' siècle” cm Folie et dtlntlsoti,.., |>. 171-196.

^r>:i
pirón le s Locos ele Valencia do Lope de Vega o foi rapidamente Ira
duziclo em ingles (1600), em alemão (1618), om francés (1620) m il»
o título L Hospital des fots incurables ...1 ’ Mio c, portanto, rcvoladoi
de urna época que mediu a gravidade da loucura o julga noi cnni!
rio fazer o inventario de todos os seus aspectos. Sem duvida, ,t
cáótica enumeração de Garzoni tém tintas do humor quando se
trata dos quartos do Hospital onde vivem os “loucos engraça» !•■
e bufões”179
18018
2
3
4e os “loucos alegres, divertidos e amáveis"."" Mas os
incuráveis do hospício podem ser distribuidos globalmonlo cnlu'
duas grandes categorias: os que o sao pelo eleito da doença,
como os “loucos idiotas e grosseiros”,18- que serão sempre liu apa
zes de aprender o alfabeto; e os que se tornaram incuráveis p< lo
apego a uma paixão, potadamente a da “gloria do mundo",1"1 <>s
piores desses loucos culpados ( “a mais maldita especie de Inum
que se encontra no mundo”) são qualificados pelo autor como
“loucos endiabrados e desesperados”. Trata-se dos violen!» >s \ do
revoltados: “... Uma infinidade de inimigos de Deus c|ue vlnuw
em nosso tempo cometer toda espécie de rapinas, violencias, su
crilégios, homicídios e rebeliões que se poderiam imaginai. I li
sao dignos de mil patíbulos”.188Garzoni instala portanto nurvi mes
mo edifício - e essa concentração imaginaria lembra outros <i »nll
namentos da época - os brincalhões, os lunáticos c os vli i<>•.«•.
Km certo grau, eles sao todos perigosos. Como exprime em lei
mos hiperbólicos o prefácio da obra que a Loucura

parece mais disforme à vista que a serpente de Cadillo, mab ti lo


que a quimera, mais venenosa que o Dragáoslas I lespoldi
mais perigosa que o Monstro de Corebo, mais traidora que o Mi
notauro de Teseu, mais horrível de ver que uní Clérlon de ln « i
beças. Tendo vindo ao mundo só para vomitar como uiiu Midi i

179. Cf. FIORATO, A Ch. “La Folie universellc, spcctaclc l>»u l« *.q»u n In*
trument idéologique dans LH ospedale de T. Garzoni" em 1Vvivv ,/< I,i /.<//.
p. 131-145. Cf. também FUZIER, J. “L’Hópital des Fous: varluiliiii* i iimi
péennes sur un thème socio-littéraire de la fin de Ia Renaissaiu c", riu //,»»,
ge à J.L . Flecniakoska, Univ. Paul Valéry, Montpeuier, 1980, p. I '> ’ UM
180. GARZONI, T. I!H o s p it a l.p. 163s,
181. Ibid., p. 170s.
182. Ibid., p. 68s.
183. Ibid., p. 109s.
184. Ibid., p. 228-232.
n i liam.is de fícu veneno, o dever nic ol triga a de.serevê-la i.m
li'irlvel, que mó pelo olhar ela poe lodo mundo em alarme.'"

Mais adiante, (¡arzoni a vê (Involuntariamente) como um


i i|iii\aleiiie i Ia Morte das danças macabras, porque, como esta lil
tima i la nao se Importa nem com reis nem com imperadores,
m ni i *mu homens de guerra tanto quanto com homens cie letras.
I ui iiimai nau ha respeito que a retenha e que a impeça de atin-
iUi di In ule e de lado toda a raça cios homens”.180

IH i •! iteração do m onstruoso
existem tantos loucos sobre a terra, a tal ponto que a
uuiliri.ii 11|iir reina aqui é como uma antecipação da confusão d<>
lilli iin i lugar caótico por excelência - , nào é de-admirar se a
i .......Mural do universo parece ter perdido, ela própria, seu
In o11 ii nso. () pecado xlo homem estendeu-se à-Natureza que,
m m i permissão de Deus e para a instrução dos pecadores, pa
n 11 li iiiith Ia de uma “estranha loucura”. Ela se entrega a "mil
11|ii i in i íes ei mirarias umas às outras ou desiguais”. A diversidade
pi i\i’Hi se em "misturas” absurdas: a porca “pare” um porco com
lililí di homem, e eis um peixe com cabeça de leão que chora
lllliiiiinainente. Essas monstruosidades sâò todas ilustrações cio
|*i -i tilo Assim raciocina entre outros o dominicano Giacomo Af-
........ i - ui representativo nesse sentido de uma opinião ampla-
nn ule ,n ella em sua época.187
i portanto, no quadro de um julgamento pessimista glo-
h il mine um tempo de extrema malignidade que se deve colo-
ii i abundante literatura consagrada aos monstros e aos proel í-
|M i i i nlie o lim do século 15 e o início do 17.188 Sãnto Antonino

III*), Ibid., p, 2.
IIKi, Ibid., p. 3.
I H AITINATI, G. LeM onde renversé.. notadamente p. 105b, 116a, 203a.
' ii,uIn-, cm “Le Monde;renversé...” em L Im ag e..., p. 143-147.
IIIM. Rua tudo o que vem a seguir, a obra essencial de CÉARD, J. La N atiire
.7 /ci ¡>mUgcs... que vou utilizar muito nas páginas seguintes. Cf. também
MA I ( )RE, (.. “Monstre” au XVICsièclc. Etude lexicologique”, em Travauxdc
et dc liném ture, Strasbourg, 1980, XVIII, 1, p. 359-367.
ck* Klorcnça parece u*r sido o primeiro a Introduzir numa <‘riUii
ca universal Impressa em Veneza em M7 i M79 - uma expon!
ção especial sobre os monstros e as ruças monstruosas. r ?>*•»*
exemplo é depois abundantemente seguido, noladamenle por I I
lipe de Bérgamo no seu Supplementum cnm lcarnm ( I" ed, I PM)
e por Martmann Schedel na sua celebre Ctvnica de Nutvmherg
(1493). Começa-se a vasculhar o passado para encontrar prodl
gios esquecidos e, logo, começa-se a compor obras espe< ¡aliñen
te consagradas a casos aberrantes, como o livro de Joseph <¡ihu
petk, historiógrafo e astrólogo de Maximllian I, Prodigíoium os
tentorum et moristrorum quae ín saecidum M axlm ilianeinn ///«/
derunt, interpretado (1502). Vinte e um anos mals tarde, l.uleio
e Melfmcton publicam um livro intitulado Explicando de dols se
res abom ináveis , um Asno-Papa encontrado em Roma e um //< •
erro-Monge em Friberg em Misnie, (jue conhece um grande m i
cesso e dá lugar a duas traduções, uma inglesa e outra francesa,
esta última aprovada por Calvino.
l uí meados do século 16, redobra o interesse pelo,*, prodl
glo*. e o,s monstros. Km 1552, (honrad Wollfahrt, chamado l.ycox
lliene*,, publica pela primeira vez uma edição do Prodigiotiun li
het de lullus nbsequens, onde o catalogo de latos extraoidlnU
lio*, morí Ido*, na Roma antiga nao está mais perdido no meló d«
oiiu.e, ninas da*,sicas com as quais não linha grande relavan
//•/**/< */. /s de Plínio, o Moço, ou De viris ilusiribus. Km compensa
i ,i" ; na lolel.liiea ele esla anexado a duas obras, o De pl\>dlglls
de Poli loro Vergillo e o D e osien tis dejoaqulm I Camerarliis, pu
bilí adas lespecllvamente em 1531 c 1532 e que até enláo mío IK
nliain i llamado a atenção do público. Doravante, cls que se loi
nam conhecidas. Km c|uatro anos (1552-1555), Julius Obsequeits
e Pi illdi no Vergíllo são editados ou traduzidos cjuatro veze.s, e l a
mrruiius lies vez.es, Sobre sen impulso, Kycosthenes dá a puhll
eo em 1557 um Prodigio rum ac oslen ton/m chronicon , IVulo de
20 anos de trabalho, que ele dedica aos magistrados de Hastíela
Aquí, ele récensela com minúcia (e dizendo ler se Informado ñas
melhores fontes) "os prodigios e portentos acontecidos a margenl
i la i >rdem do movimento e da operação da natureza, lant< >ñus u
gloes superiores com o nas regiões inferiores do mundo, desde m
com eço ale a nossa época", Podemos reter ao menos quatro ele
memos nesta vasta antologia da desordem: a) esta se encontra de
tal modo disseminada que é necessária toda urna gama de sino
nlnios para designar os portento, prodigio, ostenta, mft^tiu/ii, slg
luí • itiKiisim <|iu* ela engendra. A tendência luimanlsia ã reduiv
il ttn iii 111.1, ,i litis, proveito dessa prollxldade; l>) o primeiro "pro-
iliiii" dti lilslorla, ai de nós!, é o da astuciosa serpente que sedu-
tii I v11 * ) on eclipses, qualificados de defectíones solis, sito por
MfcM l< iii la escándalos cósmicos que se manifestam em circuns-
i ui' ias im epelonals (por exemplo, quando da crucificação de Je-
h i i . il> n mundo está repleto de imundícies”, por isso os fenô-
i

iih ni 111 Insólitos devem ser interpretados como sinais da potência


l d i . i ilria de Deus em relação aos homens pecadores.181’
I m I'>()(), aparecem as Histórias prodigiosas de Boaistuau -
um In n i di >qual se pode dizer que criou um gênero. Ele obtém
iiiu illat,imente um vivo sucesso, atestado nâo só pelo número
i h m luavel de reedições com o pelas continuações com que
-i I i

Hn- •- viam de engrossá-lo até o fim do século l 6.190Traduzido


•ui ingles e em neerlandés, na França ele é até copiado, adap­
tad* * • abundantemente citado. A. Paré logo irá tirar dele um
Imiti número de suas narrativas. A obra de Boaistuau é seguido
ili i Ihi> tatus d e monstris do teólogo e pregador Arnaulcl Sorbln
i I ni i liadu/ldo em francês por Belleforest.191 e do livro de A.
I tu l/i itislros c prodígios (1573)- lvdesses mesmos assuntos que
u ........ lambem dois livros publicados em 1575, um de Loys le
M »i\ /». / \'l< tssitude ou Variedade das Coisas no Universo, outro
•D Ilisio Cornelias Gemina, D e Naturae divinis characterismis.
i i nlilmo eontém notadamente o inventário - com interpretá-
lo di iodos os prodígios ocorridos na Bélgica e regiões adja-
II ni. , di |S55 a 1574. Em contrapartida, no fim do século 16 e
oo. i.. .1.. I aparece, na esteira de Montaigne, uma reflexão crí-
ii i obre a nlonstruosidade considerada como tendo seu lugar
ni i K ín la da natureza. Os monstros cessam de pertencer ao nú-
i i u i i i dos prodígios em quatro obras notáveis de Weinrich
•i .''.i, Itlolan (1605), Liceti ( l 6l 6), Aldrovandi (publicada so-

I Id, Agradeço ¡mensamente a MARGOLIN, J.-Cl. por ter me comunicado


anl. . da publicação o texto de uma exposição feita por ele no Centro da Re­
lia.. oiça de Paris IV e intitulado “Sur quelques prodiges rapportés par Con-
i i. I I.ycosthènes”. Publicação em M onstres etprodiges au temps de la Renaissan-
. . ( - . u i ) a direção de M. T. Jones-Davies), Paris, JeanTouzet, 1980, p. 42-55.

I oo. ( T. SC d RÍNDA, R. “Die franzõsische Prodigien literatur in der zweitcn


I tilHic lies 16. Jahrhunderts” em M ünchner rom anistische Arbeiten, XVI, 1962.
I o |, P d le fo te s t, u tiliz a n d o S o r b in , B o a is tu a u , e tc ., e c o n tin u a n d o -o s p u b lic a
e m I 5 8 0 u m liv ro in titu la d o , H istórias prodigiosas extraídas de diversos autores
/¡puosos .

2f>7
mente em l(ví2).'"' Mas a esleirá das /lislorkis f>rotH^lo.sti\ |>i<i*»-
segue notaclamente na Alemanha, lila se encontra lambem na
França nos “pasquins” que, na mesma época, se mulllplU üin »I»
ano em ano. Conhecem-sc 57 dessas publicações de I a
1575, UlO de 1575 a 1600, 323 de 1600 a 1631 1 ' Pude se ra/n.i
velmente supor que o número de “historias prodigiosas" que di
fundiram aumentaram na mesma proporção. Assim, os hnmeiiü
da Renascença'se deleitaram nas descrições de seres monstruo*
sos, nas narrativas e catálogos d e ,fatos espantosos, b llnliam o
sentimento de que desde há pouco eles se tinham mulllplh ado
— exatamente com o os feiticeiros e os blasfemos, nao send< > h h
tuito o vínculo entre uns e- outros. Porque a feitiçaria paree eu, n>i
época, a prova mais patente de que o mundo eslava1invenido
Sobre essa convicção dos contemporáneos ele que ¡amala
a historia tinha produzido tantos monstros e prodígios, abundam
os testemunhos. O historiógrafo astrólogo de Maximiliano I, l<>
seph Grünpeck, afirma em 1508:

Nós lemos que no tempo de nossos ancestrais, apaivcoftlffl


muitos prodigios no céu e na tena, freqüentcmente ciialuitlM
monstruosas... Será que as épocas em que esses prodigios nu ii
reram podem comparar-se ao nosso tempo quanto a livqOi m h
dos eventos clesse género e ao espanto, que eles suscltami* IM
uní lato que ninguém pode contestar: é que seria difícil enniM
trar urna época em que tantos prodigios espantosos tenham <ii u
pado os mortais como fazem hoje.191

Lutero, redigindo um sermão do Advento, estende se ite*


se mesmo sentido: '

No espaço de dez ou doze anos, nós vimos e ouvimos i . iii Ih#


ventos e tantos mugidos - sem contar o (|ue virá depois •po19234

192. Respectivamente: WEINRICH, D e Ortu momtrorum <omnieni,nltn


1595; RIOLAN, J. D e monstro nato Lutetiae a. D. 1605; LI( I I I, K / V A/•*#<«
trorornm causis; natura et differentiis libri duo, 1616; ALDROVANI >1 V
, Monstrorum historia..., 1642.
193. SEGUIN, J. P. ¿'Inform ation en Frunce avant le pérlodiquc, *>/ minutii
imprim es entre 1529 et 1631. Paris: Maisonncuve, 1964. p, 14.
194. G RÜ N PE CK , J. Speculum naturalis, coe/estis etpropbaciicae idsloni* I I «i«
Nurembcrg 1508, cap. 1, f " ’ a iij ^ a iiij r", citado cm ( !b.AKI), |, Ia Naiun
mr i lisia arredilar <|ile* antes (lililí t*|>ik ;l lenha olivklo venios o
nucidos (¡t<> grandes c tilo numerosos, Porcino nosso tempo v i
de i mili so ve/, o sol e n lua perdendo o brilho, as estrelas caifi*
di i os homens se tornando angustiados, os grandes ventos e as
i),n i • mugindo... Tudo se acumula de uma ve/. Foi assim cjue vi-
míos i.imlieni cometas e, recentemente, muitas cruzes caíram do
i i Mi e, nesse* enlretempo, chegou também uma doença nova e
desronhcckla, a doença dos franceses.1''

I'. i i .i n Reformador,'são anúncios do fim próximo do mun­


do l»iv ,iiui*. mais tarde, Camerarius está certo de encontrar a
|i|iili Mém l.i do leitor ao evocar confusamente como uma evi-
||i m Ia "iik iiisiro.s horríveis”, “acontecimentos aterradores de cau-
» d.........iluvlda", eclipses, cometas e outros “espetáculos insóli-
i m . •«ji.id.i.s flamejantes, cruzes, la n ç a s -” que cada um pode
di i* l\ u no t éu.l% Para C. Peucer, genro de Melâncton, que pu-
lilii i ' ui 1'iSt os Comentários dos principais tipos de adivinha-
i m e ii ii i li.i dtivida possível: vemos nestes tempos eclipses “mais
In qiii nlf. e mais horríveis do que viram os antigos”.107*Em ISS7,
......Ih M |ean Pincclius, dedicando à duquesa Marie de Pomcr.i
"i i mu i In .i completa dos inúmeros sinais, miraculosos e assus
hui............. na Alemanha desde 1517 - ano da entrada em
11 itii ili•I,ulero - declara:

l'ru t xrendo a história das nações, jamais se verão tantos sinais


inii .H tilosos
como em nosso tempo. Tão logo uni se produz, já
ml nevem outro; o que prova realmente que Deus tem algum
guinde desígnio, e que nós estamos destinados a ver uma gran­
de angústia na Igreja cristã.1*''8*

A Alemanha da época foi sem dúvida o terreno favorito


Midi e multiplicaram os livros de horrores. Os pregadores lute-
........... It londeram com vigor a autenticidade dos fatos mais insó-

111V I l 1I I II£R, M. CEuvres, X, p. 116. (Sermón sur l'évangile du 2 dim anche


de l'Auent).
I'>(». i 'AMIÍRARIUS, J. De Ostentis. Ed. utilizada: 1552, citado em CEARD, J.
I,i Nannv.... p. 170.‘
I'*/, ITl K :ER, C. Les Devins, ou commentaires des principales sortes de divina-
nain, liad. Ir. de 1584, p. 574. Citado em Ibidl. p. 184.
I h'INCKLIUS, J. Wunderzeichen, WahrhaJJtíge Beschreibung und griindlich
Ven-eldmis schrtcklicher Wunderzeichen..., 1557, p. 2-3. Citado emJANSSEN, J.
la ( ivilisation en Allemagne depuis ¡afín du Mayen Age..., VT, 1902, p. 382-383.
Utos para levar os povos a penitência e fa/.é los entrar no relia
nho da Igreja evangélica. Um comentador do A/tocali/w lata rm
1589 “da torrente de1 prodigios que se espalha na Alemanha luí
50 ou 60 anos a luz brilhante do novo evangelho",1"' <> lian»»»,
Belleforest resume entào o sentimento comum: "A época presen
te é mais monstruosa do que natural”."00
Que se julgue sobretudo por tantos nascimentos "assusta
dores, mas verídicos” de que estão repletas as crónicas e ga/ehts
do século ló e que incitaram os contemporáneos1 a creí <|u* »•
mundo estava totalmente invertido: “Recém-nascidos com duns,
três cabeças ou mais; mulheres dando a luz pequenos leltOes ou
pequenos jumentos; crianças que nascem com um dente de ouro,
ou mesmo com calças largas, e o pescoço rodeado de um »oliti'1
alguns falando ç>u profetizando logo depois do nascimento.....
Um pregador de Hamburgo, em 1563, manda gravar "a Imagem
autêntica” de um bezerro nascido com duas cabeças, duas »nu
das e seis pés.19
102 Em 1575, uma folha solta de Arnhem dlvulg i
0
2
estranho nascimento de uma menino monstruoso "coberto »!»• pt
los grosseiros”, que começou a andar assim que nasceu e »micu
esconder-se debaixo da cama de sua mãe. Ele linha dois , lillu
na testa, pés de pavão e garras de pássaro. Em I5(>5, uma ga,-»
ta de Tubingen relata o nascimento espantoso aconlecldi» num al
deia vizinha, de um menino sem cabeça nem ossos, com mihi
orelha no ombro esquerdo e a boca no ombro direito. I »»l Idcit
tificado sem hesitar como uma criatura de Satã e entregue a»»» u
rasco que o cortou em pedaços e lançou estes ao logo Mas Inl
preciso uma quantidade anormal cie lenha e de pólvora du » i-
nhão para obter total combustão. Mais feliz que .i mu»' »l» . ■»
monstro, uma mulher da região de Clèves pôs no mundo, de um i
só vez, 65 crianças. Em 1610, um renomaclp médico .ikma»c •»
doutor Schenk, publicou um memorial em que relatava o un1», l
mento de “96 criaturas, monstruosas, desprovidas de m ,l»i

199. JANSSEN, J. U C m lhation .... V, p. 383-390 c VI. p. V/í».


200. BELI .EEORUST, lí. dc. lUuoircs prodigieuses,,., p. 31»V » ...
CÉARD.J. U Nfitiur.,,, p, 33S.
2 0 1 . Moina rcfcróncln claUiota 199.
202. E.sir mliwccltucnto c os seguintes cm jANSSEN, J. l.u f m /n n iton ^
VI, p. 377 3Ml.
303. S< 3 1ENK von (IRAElíNBERb, |. (i, Wuuder bm h ron m. uih»l<>n
uno hurten, W ituhr und MhtÉfhurten,, PraiicHm. 1610.
y iiiii . i iiu n anos antes, o pregador (ihrlstophe livnüus redigiu
.... giu'imi volume de umas 700 páginas sobre “ a existência, a ra-
fi|M i i significação das crianças-mon.stros". () próprio Deus as
M U i |i,iio i astlgar os desregramentos do» homens/m
\ i« l.ic ,e >entre monstros e prodígios de um lado, pecado
iln millo, Mmslltulu um lugar-comum das crônicas, muitos de
j^Mh iiiiion-, remontando, com o Santo Antonino, ao dilúvio ou á
(mu d» babel, A orgulhosa edificação desta última, com efeito,
|h i mino punição não somente a confusão das línguas como
1‘tMtU m ,i das espécies e, portanto, o aparecimento de seres es-
h iitlio'i i disformes.21" fazendo uso de comparações médicas,
| i mi o 1hi>< ( iemma estabelece cie maneira geral o vínculo entre
lil o a di ui un uai e desordem da natureza: da mesma maneira que
um mugue materno vicioso altera o sêmen paterno, assim tam-
i ........... . il <omelldo na terra imprime sua marca sobre o espírl-
in do inundo que, por sua vez, a reflete sobre os elementos e,
Miii melo deles, sobre os corpos humanos.206
i Jai i ia is espantemos então se os homens do século 16 as
ni i» i ii nu heresia com monstruoso. Lutero e seus amigos descrc
. mi I / e i r o s monges, porcos semelhanjtes a padres, gafanho
li........Iii ia is i <im capuzes monásticos. Se o rio Tibre um clia ex
|n liu um animal assustador com “cabeça cie jumento, peito e
ViMilu de mulher, pé de elefante na mão direita, escamas cie
I- i ■ nas peruas e cabeça de dragão no traseiro”, é que, segun-
I . i ui* n i I )eus queria significar sua grande cólera contra õ pa-
pid.i () lado católico respondeu com afirmações simétricas.
11ni ui. illi 11, .nitor de um poema que figura entre as peças limi­
te! !• i d o thictatus de monstris de Sorbin, declarava: “Antes que
iniu ,i época das heresias não se viam monstros desfigurar
i •. illa I Sorbin acrescentava: quando a França era piedosa,
* |.i u i o sabia o que eram monstros, agora parece que ela as-
mmlu a l.u c das solidões da África, produzindo a cada dia um
i n ii.no" Da mesma maneira, a Saxônia, “clesde que ela se

'(11. IKUNAUS, Chi'. D e Monstris. Von seltzamenW undergeburten, 1585.


Ml’). ( I, ( F.ARD, J.-L a N ature..., p. 71-75.
Min Ihiil,, p. 373. GEMMA, C. D e N aturae divinis characteris, X, p. 62-63.
mi I! ITHF.R, M. CEuvres, X, p. 116 (Sermón sur l ’é van gle da 2 dim anche
>te Inven t).
MIM, SORBIN. H istoiresprodigieuses. p. 628. Citado por CÉARD, J. La N a-
luir,,,. p, 271.
opôs ao Cristo pola fraude* tio p u lid o I,ulero, geme* sob ,i p io
liferaçáo de Inúmeros monstros” ,
Estes, assim como os prcklígios (|iie constituem apuihiN
uma variedade deles, são nào só punições, mas também aiulnt li m
de castigos maiores. Trata-se neste caso de uma evidênc ia cení
vezes repetida na época pelas pessoas mais qualificadas, l\ua o
cronista Nauclerus, que escreve no fim do século IS, os ^<>meia*«,
as espadas de fogo, os dragões no céu e as crianças com varia*
cabeças “mostram que a cólera de Deus ameaça os homens" M "
Lutero está persuadido de que o bezerro monge de ITelIu ig
“anuncia para a Alemanha uma imensa catástrofe* guerreira ou
ainda o último dia”.211 Ronsard assegura igualmente que gi mdi
desgraças são iminentes,

Porque vemos tantos raios nos céus


Tão sereno, porque tantos cometas,
Porque vemos tantos horríveis planetas
Ameaçar-nos: porque no meio do ar
Vemos tantas fortes chamas voar...-‘-

Mais adiante, ele volta sobre o mesmo tema, (.Hi.iudu


vê, escreve ele,
/
... Tantas seitas novas
... Tantos monstros disformes,
Os pés para cima, a cabeça para baixo,
Crianças nascidas moitas, cães, bezerros, cordeiros e galou
Com corpo duplo, três olhos e cinco orelhas,

com o não perceber nessas “estranhas maravilhas" o nndfli In da


miséria e cia guerra, “precursores certos da mudança"?1" 20913

209. C É A R D , J. La N ature..., p. 272.


210. N A U C LE R U S, J. Chronica. Ed. Colognc, 1579. |>. I . I I l l ' ' »liad
em Ibid., p. 77.
211. LU T H E R , M . Werke,,cd. Weimar, Briejwechicl, III (19.1 \), p, | > ,
do em Ibid., p. 81.
212. R O N SA R D . CEuvrescotnplHes, V, p. 157-163 ("I cs I I «•, Im i i u i h '.. i
213. Ibid., p. 392 (“Prognostiques sur les misóles di- uo.site lemps")

2<W
hnlcm os então perguntar com o Intelectuais da Renascen-
• i pin leí,un concillar osse temor cío luturo com a convicção, aliás
ft* qin nlt mente afirmada, do que sua época tinha visto a ressur-
*• i tu t «i llmeselmenlO das letras e das arles?-11 A resposta é que
tqiillo que parece contraditório para nós nao o era para cíes,
■ttmo piova esta passagem significativa do D e Transita... de
t lulllatime Mude:

"i > sollo miserável e catastrófica de nossa época,-que, entre-


laul", u’Nlaiirou de maneira prestigiosa a gloria das letras, mas
•|m< pelo cilmc* de alguns e os malfeitos de um grande número
•miiiei arregou-se de uma impiedade sinistra, e inexpiável!...
lu í" lol misturado e embaralhado, o mais alto com o mais
liiilvi i, o Interno com o céu, o melhor com o pior” - o tema clás-
|i Hilo mundo de cabeça para baixo ”... Assim como nesta épo
i ,i n estudo e o renome das letras atingiram seu apogeu, assim
i mil ii m o navio do Senhor se encontra em dificuldades nas tro
•as mal‘1espessas e na noite mais profunda. Mais ainda, o navio
di lun .poile está agora avariado pelos ultrajes e pode... ser le
■ iiln i naufragar, exposto como está aos ólhos de todos e inju
ilidli i |>elc i otilo.-11'

lulero, que Mudé combatia, exprimiu, entretanto, uma


I iiii m luMlunle semelhante à do humanista francés, mas acres-
M"ii■iihIm uma argumentação suplementar: já que a humanida-
di i lu gi ui a um “apogeu”,216 o dia do julgamento está próximo.
i............le todas as coisas: jamais se construiu e plantou tanto,
I n u il. - i luso fol láo grande. “Jamais se ouviu falar de uma ati-
liliidi i omerelal com o esta que hoje... abarca o mundo intei-
n i A . altes nao conheceram nada igual desde o nascimento de
i lisio <)s conhecimentos avançam a passo de gigante, de tal
iii*i*11* que "agora um rapaz de vinte anos sabe mais coisas do
qiu \hile doutores antes não souberam”.217 Assim, chegou-se a
.......... ipis le de ponto terminal. Mais ainda — e eis agora a ver-

’ 1 l i I, I llil.UM H AU , J. La Civilisation de la Renaissance, p. 96-98.


’ 11 IU M>1•„ i ¡. D e Transita..., p. 94 (modifique^ ligeiramente a tradução de
M, hebel).
MU I ,t iTt IlíR, M. CEuvres, X, p. 109 (Sermón sur Tévangile du 2? dim anche
de /'.mm 1522).
217. llild.

203
tente negativa da argum entava>: "Nau e .somente tuts coisa*
temporais que se chegou a um apogeu", porque “(amais maio
res erros, maiores pecados e maiores mentiras reinaram no
mundo”..218 A taça está cheia. Encontramos Igualmente na nina
de Loys le Roy, D a Vicissitude ou variedade das coisas no uul
verso, os dois sentimentos opostos: orgulho de ler nast Ido num
tempo de renovação e convicção de que dias ameaçadores ki
aproximam. O autor elogia com efeito “esta época em qu< \«
mos quase todas as antigas artes liberais e mccánit as restituid 12
0
com as línguas: depois de perdidas por cerca de mil e du/enlof
anos, e inventadas outras novas”.210 li ele regozija-se de que t)
Ocidente tenha “recobrado há duzentos anos a excelência dan
boas letras, e retomado o estudo das disciplinas". "" Mas alguilltll
páginas após esta declaração entusiasta, ele revela somhilan
perspectivas em forma cie apocalipse:

Eu prevejo grassando de todos os lados guerras Interna* e en


ternas: facções e heresias profanando tudo o que cnconll.uem dtf
divino e de humanó, lomes é pestes ameaçando os moitals a n|
dem da natureza, a regulação dos movimentos celestes, < a liu
monia dos elementos rompendo-se, de um lado a chegada d» dl
lúvios, de outro, odores excessivos, e tremores multo viólenlo* "

A Renascença, pensava Le Roy e muitos outros com *kt,


não durará uma primavera.
A respeito dos monstros e dos prodígios, o raclot lu lo dmi
pessoas — e notadamente da elite - da época foi cjelinltlv am» n
tc o seguinte: jamais se tinham visto tantas “coisas eslr.mh i
“milagres da natureza”. Ora, tais fatos são os signos p rccilM
res da cólera de Deus “para despertar nossos sentidos adormí
cidos no mel delicioso do mundanismo”,2222 3Mas os h(................
se dão conta disso. Deve-se temer então o pior: prodígios »' >a
sos monstruosos pressagiam “nosso desastre”. M R u l u i o m u ii I u Ii I

2 1 8 . Ibid.
219. LE ROY, L. De la vicissitude..., Éd. de 1576, f" 15B. <üi.ulo <m < I AHI • |
LaN ature..., p. 380.
220. LE ROY, J. D e la vicissitude..., f ” 96B. Citado cm Ibid.
221. LE ROY, J- De la vicissitude..., í " 1 1413. ( '¡tacto cm Ibid
222. SEGUIN, J. R. I.'Information en fm n ce..,. peça M9,
223. BELLEFOREST, Fr. dc. l/istoiivsprodidcitses. p. WC>,
i'lii ido p< >r um excesso ele* m aldíidc sobre ;i ierra, Mas será
| ik ii homem nslo foi sempre mau?

D m aldad e
i J( i l'iinsio de Marlowc, Mefistófeles afirma: "... Onde nós
• a iinn'i, ai está o inferno. K onde está o inferno nós devenios
Hi mpu » • d .u ‘ 1 A palavra “humanismo”, à qual sempre tivemos
ll liai lia •de dar uma coloração otimista, freqüentemente nos es-
I ilu d í' m ullas misas sobre a Renascença, que foi mais sensível á
i*i i. i da vida e mais severa sobre a humanidade do que geral-
ni' ni' i pensa. Ao D e Dignitate bominis, de Pico ele la Miran-
dula ■iia fácil opor múltiplos provérbios, então em uso e que
ii idii ' m urna amarga filosofía sem dúvida amplamente aceita:
i idi i'' i’ d nome de um homem”. “O homem bom é raro no
inundo <) homem c inimigo do homem ou de si mesmo".
lodo I...... u n e mentiroso”. “Um homem de boa fé é considera­
do o mal'» louco do mundo”. “Muito vale o homem que sabe en-
n iiiiii "Sob a pele do homem varios animais têm sombra”. “O
i...... r um inferno que nao pode mais pôr um limite-num pe-
qiii ii" prado". K aqui está a razão profunda dessa perversidade
f lp u ..i no discurso do mundo “inverso”: “O homem é um ho-
nii ui 11iN'crlIdo” (pelo pecado original, entende-se).225 Na Celesti-
n,i i l |UÚ), i la ípial se disse que era um vasto exem plum , o lamen-
i" di l'leberio após o suicidio de sua filha associa, como uma
. "ii' lusao geral da peça, anatema sobre o mundo e constatação
da onipresença do pecado:

I ii acrcdjtei desde minha tenra idade que tu mesmo [o mundo]


. leus acontecimentos fossem regidos por alguma lei. Mas eu pe-
i'l os pros e os contras das tuas felicidades e tu me pareces um
lábil lulo de erros, um teatro onde os homens giram em volta,
uma lagoa plena de lodo, uma terra plena de espinhos, uma alta
I|oii\sia, um campo pedregoso, um prado repleto de serpentes,

1U . ( lirado em JONES-DAVIS, M. T. Victimes et rebelles... p. 165.


} ' Ilirados recolhidos por LE ROUX t)E LINCY, M. Le Livre des prover-
bft Jhm çuis. 2 v., Paris: 1859, aqui, I, p. 252-257.

205
um juixllm pleno de 11<>I< mas sem linios, lima fonte de » Ulilil
dos, um rló de lágrimas, um occanó de miséria, um v.h!tn\-ii litil
til, um doce veneno, uma vá espera nça, uma la Isa alegila e uma
verdadeira dor. Ó mundo pleno de falsidades,.. Tu prometes mul­
to e não,cumpres nada... Tu nos furas um olho e nos ac ai'U Ia « i
cabeça para nos consolar.--"

Os amores de Calixto e Melibéiá eram evklehlemenU' lin


passíveis neste universo corrompido - o nosso sobre o <pntt
Maquiavel, fora de qualquer espírito cristào, emitiu o |iilgimu'illu
célebre que se conhece no capítulo XVII do Príncipe.

Pode-se dizer geralmente uma coisa de Iodos os homens 'i1"


eles são ingratos, instáveis, dissimulados, inimigos do perigo, io ­
dos de ganho; enquanto lhes fizeres bem, eles serão tolaluu nlr»
dedicados a ti,jte oferecem seu sangue, seus bens, sua \lila > >i u«
filhos, quando a necessidade ainda está no futuro; mas quando
esta se aproxima, eles se escondem... Os homens hesitam uit 111M A
em prejudicar a um home.m que se faz amar do que a ouln* qm
se faz temer... Pies esquecem antes a morte de seu pai do •pi> i
perda de seu patrimônio.-r

Essas acerbas sentenças devem ser comparadas ao t ailUI


VIII de um poema cjue Maquiavel náo terminou, o . lw/»> ,/e
ouro. IJm antigo homem transformado em porco el.....» eu
novo estado sublinhando por contraste todos os inforlunli o, Im
quezas e vícios áp sua antiga condição. Esse convite Lili l/adil
ao contemptus m un d i é manifestamente tributário de luda i ll
teratura anteriormente consagrada a esse tema;

Só o homem nasce despido de toda espécie de deles,i el» tnti.4


tem nem couro, nem espinhos, nem penas, nem l;\, nem edil
nem escama que lhe sirvam de escudo.
É chorando que ele começa a viver, e tâo liai« la»» *.........
sos sáo seus primeiros sons que causa pena só de vei *.» » *. i
minarmos a duração de sua vida, ela é sem duvida hem ........
comparada à de um ceivo, de uma gralha e ate d< um g m267

226. ROJAS, E dc. La ('destine. Éd. P. I Icugas. Paris: Auldci. I•>«»\ p 'i 11
227. MACHIAVEL, N . l.e lY m ee, d». XVII. erad, tioliory, Pki.uh |U t f
p. 3 3 9 -3 4 0 .
I'i iulcs cm conuim ¡i ambição, .1 luxuiia, as lagrimas e a avare­
za, vmlaijelra sarna desla existência a que dais tanta Importíln-
1la Nao existe nenhum animal cuja vida seja lito frágil, que seja
Iinvalido ile um tao grande desejo de viver, sujeito a mais temo­
res, a malfl calva.
Mui pono nito atormenta outro porco, um ceivo deixa outro
1eivo cm paz; só o homem é que massacra o homem, que o cru­
cifica e o despoja.
lulga se podes querer que eu volte a ser homem../-8

Maquiavel levou até o limite uma reflexão pessimista que


|i * 1 in unira, mas no estado fragmentário e com atenuações,
...... •si 1lios humanistas anteriores. Enea Silvio Piccolomini cle-
•111 1 no /V ( ) r h i . . . \ “Na verdade, da mesma maneira que o ho-
....... . |m iporelona muitos benefícios ao homem, assim também
11 io ' ••Mc ncnluim flagelo \pestis] que o homem não cause ao
h'inn ui " Mais categórico, Leone Battista Alberti afirma que “a
.......... 1 do homem é perversa, malvada, egoísta”. Paradoxal
MMuh , “animais selvagens, nascidos para ser grandemente fero-
■ 11vics dc qualquer freio, não causam mal uns aos outros,
ih o n.is crises de furor, Mas nós, os homens, que nascemos
P 11 1 mi ilnccis, benevolentes e sociáyeis, procuramos sempre
1 u i ic11li ,, Importunos e prejudiciais aos outros”.2A0Julgamen-
.............. a» esses levaram a perceber que, pela primeira vez na
lihlmla, Isin e, na Itália do século 15, tinha sido fundada uma
h Hila puramente laica do Estado e uma prática política sobre a
m n 1 ii it ui da maldade do homem.2MO estabelecimento lúcido
d. 1 lelaçao deve sem dúvida ter-se estendido cronologica-
Hiiiili ale a época de Maquiavel. Mas é bem verdade que no

' 'II lliiil., LA nedor, tradução de E. Barincou, Ibid., p. 91-92. Cf. notadamen-
i, MASSA, l‘. "Egilio da Viterbo, Machiavelli, Lutero e il pessimismo cristiano”
•ui Is hirió d¡ Filosofia, 1949 (Umanesimo e machiavellismo), p. 75-123.
111 X IVINEN, I,. Das B ild von Menscben inpolitischen Denken Niccolò M achia-
i.ll m, I Iclsinki 1951, notad amente p. 73-77-
' "> IMC ( Ol.OMINI, E. S. D e Ortu et auctoritate im perii rom ani. Éd. de
11,1111 Iiiii , 1658, p. 4 (texto acrescentado nesta edição ao da Bulle d’or de
< ImiIcs IV).
' ui AI.BKRTI, L. B. D elia Trancjuillitatedell’animo, em Opere volgari. Ed. A.
Miiimii 1 i, Elorença: 1843-1849. Aqui, i, p. 56, Mesma opinião no diálogo Fa­
nón el fortuna, trad. ital. B.N. (R. 24687), p. 26,
11, CURt C. La Política italiana del' 100, Elorcnçn: 1932. p. 163s.
tempo do secretário florentino, e prlnclpulmenle >^r.ts..i** ,i ele,
sua formulação emerge em plena lu z .''
Pietro Fomponazzi afirma no Do IniniorUtlIUiU' iiuinii
(1516): “A maioria dos homens, quando lazem o hem, o hi/tMTt
mais por medo da punição eterna do que na esperança da I»
licidade etern a...". Se eles fossem atraídos para a vlrtudi.......
pela nobreza desta última, “mesmo supondo a alma moital
eles se comportariam com retidão. Mas quase nunca e o i aso"
Além disso, "... a humana natureza está quase totalmente linei'
sa na matéria; ... o homem está tão afastado da intellgóiu kl
quanto um doente de umá pessoa sadia, uma criança de um
adulto, um louco de um sensato”.-- Estabelecendo o mesmo
diagnóstico, Guichardin tira daí conclusões práticas para uso
dos governantes: “Se os homens fossem bons ou sensato^,
aqueles q u e'o s. governam poderíam legitimamente usar m m
eles mais de doçura do que de severidade. Mas com o a maio
ria não é nem suficientemente boa nem suficientemente smsa
ta, é melhor confiar mais na severidade. Quem vê as coisas de
maneira diferente engana-se”.2*1
Foi Maquiavel quem mais claramente exprimiu a nec< •*id i
de de basear a ação política sobre a evidência da maldade n l u n
vardia humanas - razão pela qual a má fé será mais útil ao i Ituft
de listado do que a lealdade. O texto é bem conhecido; mas <i um •
não lembrá-lo num panorama do pessimismo da Rcnasccnçai'

Cada um entende perfeita mente que é muito louvável paia um


príncipe manter sua fé e viver em integridade, o nao com ailliiM
nhas e engodos. Entretanto, vemos por experiência em I1( )JHM A
época que esses príncipes se tornaram grandes e nao lev mam i 111
grande conta sua fé, e souberam com artimanhas enganai u PM
pírito dos homens, e ao fim eles superaram aqueles que *e hit
searam na lealdade... Depois, então, um príncipe deve saiu i Ia
zer bom uso do animal, ele deve escolher a raposa e <>I* i,» pui
que o leão não pode defender-se das redes, a rap<>sa, do-, lobo 234

232. A exposição que segue é inspirada por HAYDN, 11. The < onutn ÁVu.fA1
sanee, New York, Ch. Scribners Sons, 1950, notadameme p. d 1(1 11 ’
233. POMPONAZZI, P. De Immortalitate anitni, ir.ul. ingl. W. I I I l.u 111
verford College, 1938, p. 50-51.
234. GUICHARDIN, Fr. Pensées cr portnhis. trad. J. IWriraiul, Cm cm i
p. 14.
. |>ici 1*11* então sor raposa para conhecer as retios, c lefio para
*ati'nii metió aos lobos,., Por Isso o sábio senhor nflb pode eon-
«ei\ ai siia le si* essa observancia for eonlrária e as causas que o
l« ' iiain a prometer estiverem extintas. Então se os homens l'os-
u'iii lodos pessoas de bem, meu preceito seria nulo. Mas como
* I* -i sao maus e nflo a conservariam em relação a ti, tu também
ni" tens (|iie eonservá-la em relação a eles... Os negocios vão
un Ihm para quem melhor sabe se fazer de raposa.

'n'iiielli.mle llçào política assume toda a sua importancia


MUtlliilii -i sabe o (|iianto Maquiavel foi lido nos cursos da-Euro-
p i i i n Intimido Innocent Gentillet, escrevendo erri 1576 seu Dis-
i )||........ ... M(i</nhivel, nota que “podemos a justo título chamar”
•iin Ib ii i*, de "o Alcorão dos cortesãos, de tal modo eles os têm
•m *n indi estima, seguindo e observando seus ensinamentos e
(flti ini i . iifiii muís nem menos do que fazem os turcos com o Al-
11<• i" d. seu grande profeta Maomé”. Innocent Gentillet precisa
Mi"• nlltiiile que, na frança, desde a morte de Henrique II “até o
piem nti *i nome de Maquiavel foi e é celebrado e estimado, como
li * ni a * *i,iblo personagem dó mundo, e melhor entendido em ne-
t. i d* i *.iíul<>, e seus livpos considerados preciosos pelos corte-
Mi *•ti illam >*, e italianizados, como se fossem livros das Sibilas...”.-*'
\ un m i i *lisa poderia ser dita da Inglaterra da época.237
S ilmitrlna da justificação pela fé insistia sobre a perver­
tí id. human,i, mas desembocando no otimismo, porque a
...... i d!\ Ina penetrando nos corações corrompidos pode trans­
iu, ni i |i i** Mas essa abertura de luz não existe para Maquiavel.
i la ■ st*,ii iaIvez para Cornelius Agrippa (1486-1535), médico
di l iii’i,i de Saluda, depois historiógrafo de Carlos V, antes de
-i |ii i ni durante um ano sob a acusação de magia.238 Embora
i nuil* ii,t hulero, ele compartilha o seu fideísmo. Mas seu olhar
iibii *. homem é tão severo quanto o de Maquiavel. Todas as
........mi ia*, sociais, lê-se no seu D e V an itate..., apóiam-se na

•i . MA< I IIAVEL, N. LePrince, cap. XVIII, p. 341-342. Cf. RENAUDET,


\ Miithiiiiu'l. París: Gallimard, 1956. p. 267-272.
' Ki, <il’NTILLET, I. Discours contre M achiavel, éd. A. d’Andrca et P. D. Ste-
" ni, llórente: Casalini libri, 1974. p. 11 e 14.
' ' ' bibliografía a esse respeito em Ibid., p. XII-XIII.
1H < 1. <>que segue NAUERT Jr., <'b. ( ¡. Agrippa and the Crisis o f the Re-
lum ninr The Uuiv. of Illinois Press, Urbana, I9(>5, sobretudo p. 309-311.

2(U)
crueldade e na mentira. Os nobres só chegaram ao poder pela
guerra - outro nome do assassinato , pela prostituirão de suas
esposas e cie suas filhas entregues ao apetite sensual dos ino
na reas; ou pelas mais baixas bajulações e a mais abjeta servi
dào em relação aos grandes e poderosos. Ides só se mantem
oprimindo os inferiores, fraudando a coroa e vendendo sua lii
fluência à corte. Sua vida é uma acumulação de vícios, Mui
tos religiosos vêem na sua chamada vocação apenas um m elo
para levar uma vida ociosa, e ela os protege contra lotla Invftw
tigação sobre suas maldades e sua imoralidade. Os medi* o
são ignorantes e oharlatâes que fazem mais ipal do que beind"
As pessoas togadas, são viciosas: elas desnaturam as boas l< i t
se introduzem nos conselhos dos príncipes afastando os i onuo
lheiros titulares ou hereditarios.212 Os mercadores são trapa* * l
ros e usurarios.24í Essas acusações mordazes não provêm d* tl
gum sentimento dem ocrático de Cornelius Agrippa. IJ<>r<|ii« * li
reputa o povo supersticioso e cruel. Seu desprezo pela plebi n
leva ao esoterismo filosófico.2" Os monges cometem um peí a
do imperdoável quando em seus sermões eles expõem a um
vasto público debates de especialistas. Sobretudo não m devia
atacar Lutero em pregações públicas porque o levaram a em ie*
ver em língua vulgar e a contaminar n opinião com mi.i In ie
sia. Ele próprio, Cornelius Agrippa, não teme nada quanto dl
fundir seu pensamento e seu anticlericalismo por textor* >1*1
idioma vernáculo.2,s Quanto à chamada “lei” natural, pela qu tl
tantos homens regulam sua conduta, pode-se defini-la asnllll
“Não ter fome, não ter sede, não ter frio, não se esgotai *1* Ia
diga”, “recusar todas as obras de penitência”, dar-se "t omo Ir
licidade suprema a volúpia epicurista”.24026
15
0
4
9
3

239. NETTESHEÍM, C. AGRIPPA von. De Incerritudine et I 'anil,th u h nlté


rum declam ado invectiva, Cologne, 1331, cap. IXVIII I XXI o I XXX
240. Ibid., cap. LXII.
241. Ibid., cap. LXXXII-LXXXIII.
242. Ibid., cap. XCV.
243. Ibid., cap. LXXII.
244. Id ., D e O ccidtaphilosophih libri tres, C o lo g n e , 13 3 3 . l i v r o III, <ap I V
p. 345-346.
245. kl., De Beatissbfiae annae m onogam ia. ., 1534, I A6 " v .
246. Id., D e ... Vanitate, cap. XCI.
Av.lm reinam o egoísmo e a lei d o mais lorie.Jr Cornelius
Siui|i|ia nota que, de maneira significativa, quando os nobres
t ......... ... Imagens de animais sobre suas armaduras, eles esco-
IIm m .• mpre os predadores.2,H lí ele retoma por sim conta o an­
tigo |iio \'(vrblo: "() homem 6 o lobo do homem”. Mas o ditado
- Huípil to compreendia duas partes ao mesmo tempo antitéticas
i i uinpli'mentares: "Nasce teipsum: homo hom ini Deus. Homo
hommi lupus". '" A supressão da primeira proposição é prenhe
. I. i oiim'i |(’u'ih Ias e revela uma antropologia desabusada. Pro-
|mig nulo a reflexão cie Maquiavel e de Cornelius Agrippa, che­
ga a logicamente ao ditado citado por Thomas Nashe, “o ho-
Mi' ui i um demônio para o homem”2’0 e logo a Hobbes. Pouco
liltpoilii aqui que o autor do Levijatâ (16510 tenha confessado: “O
tli* d" < cu somos dois gêm eos”, fazendo alusão ao fato de que
■li u i * ii antes do tempo em razão do temor sentido por sua
... i |" Ia aproximação da Invencível Arm ada. Se Hobbes pode
ii «. ii i ligura "monstruosa” de um Estado todo poderoso, única
th iguuidu do Indivíduo, é porque ele tinha sido precedido
........ . amlnlio por Maquiavel e Agrippa. Como eles, ele viu no
i. ui. ui "um lobo para o homem” e só isso. Descrevendo sua
iMii.li' ao natural, ele a apresenta como um “desejo perpétuo e
■in In gua de conquistar poder após poder”.251 Ño estado pré
i il . ula u m é um concorrente para seu semelhante porque
■ hiiulumenlulmente igual a ele pelo corpo e pelo.espírito. Des-
i Igualdade de aptidões, nascem a desconfiança e a guerra. Daí
....... .. vildade de um Estado para garantir o direito à vida, “por-
............ jiianlo os homens viverem sem um poder comum que os
tu mu tilia tocios em respeito, eles estarão naquela condição que
i . huma guerra, e essa guerra é guerra de cada um contra cada
l'esslmismo laicizado duplicando e agravando o pessimis-
iii. i um isllnlano da época e que será conservado por Diderot (às
■. . a c, sobretudo, por Holbach.253

M/, IIiid., cap. LXXVIII.


MH. Iliid., cap. LXXX-LXXXI.
M9, <T. .i esse respeito, HAYDN, H. The Counter-Renaissance, p. 405-409.
' >o. ( I. JONES-DAVIES, M. T. Victim es et rebelles.. . p. 60.
' ’i 1, 11( )BBIíS, Th. Léviathan. trad. Fr. Tricaud, Paris: Sirey, 1971, cap. X, p. 96.
'. Ibid., cap. XIII, p. 124. Cf. CITATELE!', Fr. (sob a dir. de). H istoirc des
iiPoloyjrs, II, Paris: Hachette, 1978, p. 317-319,
' O. FAVRE, R. L i M on au sih íe d o l.iw iih n . p. 349-353.
capítulo 5

um homem
frágil

i , l' h;indada da razão


N,iu .1penas o homem é mau, mas sua inteligência tam-
In ni i *li peito cie certas aparências, é afinal impotente. Esta se
Hititd i ilii 111.ic..i<),■tào extremista quanto a primeira, foi proferida,
i 11 i imliem, em plena Renascença. Toda uma corrente de pensa
........ . •i li ' le o século 14 punha em causa a segurança intelectual
• Sil luirle,s e de Sào Tomás e combatia a vacuidacle do saber,
i i b im.ls e seus discípulos haviam conciliado universal e parti-
ul o -' >ia ello geral e realidades concretas, grupos e indivíduos.
1 11 um imlnallsmo de Guilherme de Occam saiu em guerra con­
tia ' i um eilualismo qué dava consistência aos “universais”. A
• o 'i, " Iranelscano inglês, ao contrário, negou qualquer realida-
• illlmando c|iie uma mesma coisa não pode existir ao mesmo
d mpii em v. irlos seres ou vários objetos. Os conceitos são ape-
li,i pillas ias Só existem os indivíduos: cognoscíveis por uma in-
llilt i" 'ir|a sensível, seja suprá-sensível. Essa crítica invalidava as
gi ui i.ill/açoes científicas (em contrapartida, ela privilegiava a ex-
pi ih ii, ia) e toda teologia racional. Ela fazia das noções de bem
Hiiium, de lei, de causa e de finalidade puras construções men-
i a • dava a religião apenas o apoio da fé.1
I Ias ia também elementos de ceticismo no D e docta igno-
hniihi de Nicolás de Cues, que julgava todo conhecimento hu-

I Snlirc o Occamismo cf. notadamente. RANDALL Jr., J. H. M a k in g o fM o -


./i in M intl New York, 1940, p. 101-102, e os artigos “Occam” e “Occamis-
nu ” >l< I! Vignaux no D ictionnaire de Théologie catholique. HAYDN, H. The
i ounter Renuissance, p. 88-89.
mano mais ou menos arbitrario c? comparava a relação da elêm la
com a verdade a mesma de um polígono com o círculo que IIm*
é circunscrito, sendo a adequação atingida so no Inlinllo, loia d o
alcance de nosso espírito. Para Nicolás de Cues, o iinico conlir
cimento seguro era o dos limites da razão.' Um novo passo i
frente na crítica do saber foi dado por Jean-Erançols PU de MI
rancióla, sobrinho do célebre autor do De Dignítutc bom luí s f )
seu Exam en vanitaiis doctrinad gentíum el eer/tatls ebrlsihuiae
disciplínete (1520) recorre a empréstimos de Scxtus I nt|>11ít in
que, Com Pírron, é o principal representante do ceticismo imtlgi ■
Ele destrói a validade do silogismo e do raciocínio indutivo, tio
mesmo tempo, ataca simultáneamente a metafísica, o concello de
causalidade e o conhecimento pelos sentidos. Ele expóe as Insil
peráveis dificuldades que encontra a filosofia para definir os It i
mos, conhecer os objetos e operar demonstrações córrelas, i 011
clui então que não se deve nem negar nem afirmar, mas suspen
der o julgamento. Como a razão não prova a religião, esta so
pode ser baseada numa revelação.3
O livro de Jean-François Pie remete a uma inqulelaçã........
letiva em certos meios intelectuais de sua época, Nao c poi a» aso
que a dúvida sobre o poder da razão aumenta no Início do sèi u
Io 16. Repor em causa as autoridades antigas ou modernas e a lt*
forma incipiente levava a uma reatualização pelo menos pau Ml
do ceticismo antigo. Essa interrogação sobre os limites do sabei
humano exprimiu no âmago da cultura da.Renascença um mal . >¡
tai- espiritual e um sentimento de desconforto intelectual'st u ii\t i
até mesmo dentro de um pensamento sobretudo otimista <ornii i)
de Erasmo. Vimos, com efeito, que no Elogio da Loucura, ele i ou
sidera as “ciências” como uma “invenção” de “gênios maus" qtiu
levaram a humanidade para longe cia época de ouro e. esllgmittl

2. NAUERT, Ch. G. A grippa..., p. 146 e 302. STADKEMANN. U Um oUif


des ausgehenden M ittelalters: Studien zur Geschichte der Weltunschatiimn OHH NI
colaus Ciisanus bis Sebastien Franck, Halle, 1920.
3 . NAUERT, Ch. G. Agrippa..., p. 148-149, IMBART l >I• IA I» MMU /.•
Origines de h. Réforme, II, Paris, 1909, p. 568-572. STROWNM. I w ..
ne, Paris, 1906, p. 124-130. VILLEY, P. Les Sotares et /Voolttlion dei m
M ontaigne, Paris, 2. ed. 1933: II, p. 154-155.
4. NAUERT, Ch. G. A grippa..., p. 140-141. GRKKNWt >OI>, II. II dn
‘sion du scepticisme pendam Ia Rcnaissance ct les premiéis apnliipKit n , hii
Rcvue de l'Ü nivenitf d'Ottawtt, XVII, 1947. POPKIN, K. II. lh e llh ha f f d
Sccpíicism (rom Ermmw lo D esoírles, Assei», 1960,
i i ' milihliliulr impla” c|iic* leva a ''escmlar o mecanismo secre
|n i Ih mundo" ' Nova apología da "doula Ignorância”.
I *i ni lo d.i corrente Intelectual que levou avante a critica tía
i Hni 11 um lugar Importante cabe a Cornelias Agrippa (que con»
||| m . mui iriia dificuldade essa depreciação da crítica com a
iH lli i da magia). Durante muito tempo, ele foi considerado so-
II p lu ilii Mimo um neoplatônico, mergulhado no esoterismo. So
rn ......... lile e que foram postos em destaque os elementos céti­
co pn ii ules em sua obra, em particular o D e incertitucline et va-
Me a it'iiUarum declam ado invectiva (1531).°
Di di o p rim e iro capítulo do livro, Cornelius Agrippa
d i hllii
,

\ m rdade possui uma tão vasta liberdade ¿ uma dimensão


i i" .impla, que nenhuma especulação científica, ñenhum julga-
ineiilu convincente dos sentidos, nenhuma argumentação lógi-
■ i, neiilmína prova evidente, nenhuma demonstração por sllo-
(fhnio, nenluim processo da razão humana podem apreender,
a lê pode conseguir.

i i mielitis Agrippa afirma ainda: “Todas as ciências sào


ip< o i . di i icios e opiniões dos homens” (cap. I). Nào apenas nós
ui. ipa/i ■ile f(amular premissas corretas e daí deduzir si-
I .mi Mi> •' validos, mas também somos enganados pelos nossos
"iid.i, lodo conhecimento certamente vem deles, mas -
Kl iiniiid" a i ríllca occamista - eles nào trazem certeza. Eles nao
o ' dpi ni nada da natureza profunda: eles sq liberam o superfi-
I tl • o individual, Toda ciência construída a parti! cie ciados con-
i ' ■ porlanlo, falaciosa, uma vez que a sensação não revela
i «< pt lin iploN gerais (cap. VII).
<i autor i lo D e . .. vanitate tem prazer em sublinhar as con-
n olí' mi . m ire as escolas e depreciar as grandes autoridades do
i - id., potadamente Aristóteles (cap. XLIV, LII e.CLIV). Ele ob-

i ! i.i'.mc, Floge (le la Folie, cap. XXXII, p. 65-67. Cf. anteriormente, p. 139.
o I'.ii.i nulo o que vem a seguir meu guia é NAUERT, Ch: G. A grippa..., so-
lm nulo p. 214-220, 293-300. Cf. também o livro de STADELMANN, R.
\,i>n (ieiu ..., jií citado. CASSIRER, E. Das Erkenntnisproblem in der P hilo-
..y/'/.- und W issenscbafi der Neuzeit (3 v., Berlin, 1906-1920) I, p. I6 2 e 181.
la i' ■‘, 1, 1 i. Agrippa d i Nettesheym e la direzione scettica delia filosofia d el Riñas-
. -"i, ni,'. I'min, 1906. HAYDN, H. The Counter-Renaissance, notadamente
P I4(i 147.

27b
serva que as viagens dos Ibéricos destruíram ;i,s opInUVs (Ion getí»
grafos anteriores (cap. XXVII). límite* a hipótese do c|iio r,sítelas o
planetas desconhecidos poderíam existir, o que Invalidarla a aw«
tronomia de seu tempo (cap. XXX-XXXI). Alean disso, i len« las o
artes fréqüentemente sào fontes de pecados, de males c de ht n
sias. A arquitetura é louvável em si, mas ela sobrecarrega as Igie
jas e constrói engenhos ele guerra (cap. XXVIII). A retórica, liu 01
ta em seus principios, vem em socorro da injustiça, da ma lo i di
heresia (cap. VI). A pintura inflama as paixóes o cultiva os ussilhrt
tps obscenos (cap. XXIV e XXV). Quanto às ciencias neutras
matemáticas e cosmografía - elas sào inúteis para a felicidad»
a salvação (cap'. XI e XXVIÍ). De qualquer maneira, a vida hum i
na é demasiado curta para dominar nem que seja urna únlc a <ICm
cia (cap. Do Desses argumentos acumulados resulta que < \l'.n
grande perigo para a razão em ignorar seus limites (cap. \< Vil»
CI). Só existe um dominio de certeza, o da fé, porque dlsponum
a esse respeito de uma revelaçãoscontida nas Escrituras,'
O D e ... uanitate de Cornelius Agrippa com toda e\ IdAm la
influenciou Montaigne" que se tornou, além disso, lamlllat do
Sextus Empiricys graças a urna nova tradução latina das nhlllf
deste último proporcionada por Henri Estienne em I5(>¿, Moni
taigne a descobriu em 1576, e marcou esse evento mandand.......
nhar uma medalha e reproduzir frases do grande cético nas pa
redes de sua casa." Mas outras tradições confluíram na i cíela»
Apologia de Raym ondSebond que constituí por si só um llvio ln
teiro dentro dos Ensaios. Nossos lembretes anteriores dos ti o<n
monásticos consagrados ao contemptus m nndi nos permitem sh
tuar melhor e compreender o rebaixamento e a condenação do
homem empreendida por Montaigne:

A mais calamitosa e frágil de todas as criaturas e o hoiiiciil »*


também a mais orgulhosa. Ele se sente e se vé alujado upil no
meio do lodo e do excremento do mundo, amanado < i.......lo
à pior, à mais morta e corrompida paite do universo, ,m ultimo

7. AGRIPPA, C. Opera, 2 v., Lvon (?), 1620-1630: II, |>. SS4 V>\ /*, t
nali peccato II, p. 491, De triplici ratione, cap. V.
8. Cf. VILLEY, P. Les Sources..., II, p. 166-170.
9. HAYDN, H. The Counter-Rcnaissance, p. 90, l;mi< .r. oihiun oht < I > |
ca consagradas crítica do conhecimento, citemos o Q notinihil i, mn >\< I i mi
cisco Sanche/, (1581) c o Tronic of hum ane ieurning dc I ttlkc <ítcvllh i lio M

270
, i iglu «In ivclnlo v •) lujilfi .iI.imI.iili i tia abultada celeste, com os
iiiilnialM tia pior eundlçtU) dos três,"1

•» homem é lama e objeção: "cheira a morte e a terra’’.'" lí


mitigue t li.i .1 passagem do Iiclesiastes: “Lodo e cinza, b que
lm |- ii.i ir glorificar?”," que tinha mandado gravar num arco de
III i hililii i|t i a Nos somos quase uma injuria a Deus: “Como pode
fe iiipi o nu alguma correspondência e semelhança com coisa tào
r|i 11 i Mino nos somos, sem uma extrema benevolência e perda
► ui i ■liv nni grandeza”.'1 Abjeçãò de fato, porque

Nos lemos di- nossa parte a inconstância, a irresólução, a in-


i i'llt ,-.r sobre as quais Montaigne volta constantemente - (e
111nl.i i ,i dor, a superstição, a solicitude das coisas por vir, ou até
d< pois i Ia nossa vida, a ambição, a avareza, o ciúme, a inveja, os
ipi iii•s desregrados, furiosos e indomáveis, a guerra, a mentira,
i drsli'tiklade, a difamação e a curiosidade”."

I ■'i.i ll .i.i tle pecados capitais é mais elaborada que a do


■h i-11 m'leñarlo e as condenações anteriores poderíam ter sido
(tu dii nlas, alguns séculos antes, por Pierre Damien ou pelo Cardeal
I tiltili
i i a i exl.sie superioridade do homem. “Nós não estamos nem
tli mi i in tu alnilxo tio resto”.1- “Não há animal no mundo exposto
a i ml 11 nlrnsas como o homem”.16 Inversamente, os animais não
. !•i i*ii ipa/i ■•. <le ser... instruídos à nossa moda”17 e “se existem al-
tyliu animais menos favorecidos (em beleza) do que nós, existem
(Uni............ . grande número, que sào mais”.18 “Quanto à fidelida-
•I. nao ha animal no mundo tào traidor quanto o homem”.19

lu / 1 .,/m, II, cap. XII: II, p. 81. O estágio sublunar da corrupção segundo a
■mu i pipo aristotélica e ptolomaica.
II lltid., p. 201.
I 1 Ibld.. p. 136.
I t lliid,, p. 164.
M, lltid., p. 121.
I’, lltid., p. 89.
16. Ibld., p. 93.
I ' lltid,, p, 94.
|M, lltid., p. I 17.
I»), Ibld., p. 109.

¿77
Os sentidos dos ;mlm;tls são frcqOenlemenle litáis aguçit
dos que os nossos,-’" os quais nos enganam constantemente c
“nos quais repousa o grande fundamento di1 nossa ignoram ia '1
e de nossas "fantasias”" errôneas. Na esteira do pirronismo, dt
Jean-François Pie e de Cornelias Agrippa, Montaigne entra pot
sua vez na crítica da sensação:

Quanto ao erro e à incerteza da operação.clos .sentidos, nula


um pode fornecer quantos exemplos c|uiser, de t:U> comino qin
são os erros e enganos que eles cómeteme'

Daí a impossibilidade da ciência, cujo prodigioso surto n


autor dos Ensaios não previu de forma nenhuma, “lí provável
que este grande corpo que chamamos mundo seja coisa bem di
ferente do que julgamos”.-1 Nosso espírito não pode chegai nu
conhecimento do mundo dos planetas, “nem imaginar sua luitll
ral conduta”.2'5Mas a ciência não é menos impotente para pene
trar os mistérios cie nosso ambiente próximo. “Nossa condi-lo
significa que o conhecimento daquilo que temos entre as nianu
esteja tão longe de nós, e tão acima das nuvens, quanto o o min
cimento dos astros”.J” Ignoramos igualmente nosso próprio mi
po. Porque “se a alma soubesse algo, ela saberiá primei ia mcilU
sobre si mesma; e se soubesse algo fora dela, seria seu prôpito
corpo e seu envelope antes de qualquer outra coisa”. I)aí dei t h
re que “a humana ciência só se pode manter por razão InseiiNtt'
ta, louca e fora de si”:28afirmações que levam a matizar os julga
méritos precipitados sobre a modernidade de Montaigne. I )e ma
neira mais geral, nosso espírito é incapaz de atingir a vi rd uli
Porque “é uni instrumento vagabundo, perigoso e temerário"/' A

20. Ibid., p. 243 e 251.


21. Ibid., p. 240.
22. Ibid., p. 244.
23. Ibid., p. 246.
24. Ibid., p. 223.
25. Ibid., p. 180.
26. Ibid., p. 183.
27. Ibid., p. 210.
28. Ibid., p. 245.
29. Ibid., p. 207.

27H
"Vi (m t|i nosso |ulgamento'' não ó mals ¡iplii para a vc*rdade do
i|ii» mi iilliti*. i|,i coruja (para o) esplendor do sol".'" A “filosofía
IH " p i . i de urna poesía .sorisiicada,MI e os sistemas de pensa
Hit n i" «i i oniradl/.cm ." I'.ntáo, o salmo XCIV (9,3) tem razáo em
i illlim ili "(> Senhor conhece os pensamentos dos homens, e subê
»|lit i li i sao Vitos".-" A imperfeição da inteligência humana proí
bt llu rn i.io <|iial<|uer acesso a um conhecimento firme,
Mi mlalgne, com urna penetrante lucidez, pôs em destaque
iif Im m ipn .i l lénela, a legislação e a moral comportam de reía
L im , i li mm aspecto, ele forneceu elementos ao pensamento mo­
lí- 11im niii'i si'm ele próprio penetrar nele. Porque ele dotou esse
I» I im *- -11 , onolaçòes negativas, dentro daquele mesmo espíri­
tu *I**< aiiion *. de tratados sobre o desprezo do mundo. “Nao
MM* ni uliuma constante de inteligência, nem de nosso ser,
tu ni di •■' ihjeii)s. h nós, nosso julgamento e todas as coisas mor
i ii i i-1 i*M oando e fluindo incessantemente.”34 Montaigne nao
lili - |iu n i que <> contingente, o p assag eiro - portanto, o tempo
i i! |ni-Irv.em ser portadores de valores auténticos, Relativo sig
nilli n i paia ele variação, inconstancia, instabilidade, vaidade e
lt iqiu a que ele descobria primeiro em si mèsmo: “Em jejum eu
im í i I i i I m diferente de após a refeição; se a saude me sorri e a
i,, imlia - .la i Iara, eis aqui um homem honrado; se eu tiver um
- il-i ipn me pressiona o artelho, me torno carrancudo, desagra
•le - I e In.u e.ssivel".-" “Cada um, acrescenta ele, diría mais ou
ni- n u . a mesma coisa se observasse a si próprio com o eu”. Le-
im - iluda im cap. I do segundo livro dos Ensaios : “iNósl muda-
ini - - - mu i ,i(|iiele animal que assume a cor do lugar onde o dei-
........ e uni» i oscilação e inconstancia”.* Daí decorre não so-
iti' ni, a Inconsistência fundamental’clo homem (estando “sem-
|m ti" meló entre o ser e o morrer”, ele não pode ter “nenhu-
iii i - i iiuunlcai/áo com o ser”),37 mas também a impossibilidade

»0, lliiil., |>. 199.


U. 11)1(1., p. 181.
W. lliid., p. 139-143. .
u , Ibid., p. 145.
H. ILiil., p. 256.
i’., lliid., p. 215-216.
Mi. Ibid.. II, cap. 1; I, p. 402-403.
l , lliid., II, cap. XII: II, p. 256.

271)
de q u a lq ue r legislação coerente e universal, "I lina verdade sepii
rada p o r esta m ontanha e m entira para o m un do que esta do oin
tro la d o ".38 A verdade deveria le r "uma apáremela Igual e u iilvei
■sal” .39 Ora, “ nao ha nada mais sujeito a continua agitação d.- i pi•
as leis” .40 “Nós nos escondem os para ter prazer com nossas mm
lheres, os ín d io s o fazem em p ú b lic o ” ."
Marcar, com o fizem os diversas vezes nos d cscnvo lvlm i u
tos anteriores, a consonância entre certos traços do pesslm lsiliu
de M ontaigne e as exortações monásticas ao desprezo do mundo
leva a recòlócar qs E H sa io sd e n tro da história crista, C onto a Jgn
ja, M ontaigne julga que o p rim e iro e princip al pecado d (> ........ ",
é a “presunção” - isto é, o o rg u lh o - , “ nossa doença mais im U lI
ral e o rig in a l”42 pela qual nós tentam os esquecer e mascarni fUWt|
sa miséria. Certamente que seu ceticism o deve m ulto ao ciin Iim
m ento dos pirronianos, mas revisto e co rrig id o p o r Sao l'a tilo M
Santó Agostinho.' Ide co nclui então que a salvação reside no "ic
conhecim ento da fraqueza de nosso ju lg a m e n to "'3 e ao mcnmiê
tem po na h um ild e aceitação da Revelação que

Deus nos concedeu gratuitamente, por melo das "ii-.i. mimlo t


que ele escolheu do povo simples e ignorante, para nos Im imli
sobre seus admiráveis segredos. Nossa fé,não e conquista noMil,
é um puro présente da liberalidade dè outrem. Não e p* I" ,li
curso 1= razãol ou pelo nosso entendimento que nos io< cheniof
nossa religião, é por autoridade e mandamento alheio, A li u,|||| -
za de nosso julgamento nessç caso nos ajuda mais do qm i |o|
ça,'e nossa cegueira mais que a clarividência. I nui . poi mu ,
médio de nossa ignorância do que de nossa ciência qit......... .
sábios desse divino saber”."

Essa declaração ficleísta acrescenta-se a intím en », <*1* igli • m


teriores ou contemporâneos da “douta ignorância". Como • umo

38. Ibid., p. 231.


39. Ibid., p. 230.
40. Ibid., p. 230-231.
41. Ibid., p. 234.
42. Ibid., p. 81 e 124.
43. Ibid.. p. 127.
44. Ibid., p. 137-138.

2H0
m i ■ t tiilm ir.ii dl.m ie de tantas Interpretações aberrantes dadas so
| m» " 1't ii‘i.im entó religioso de Montaigne? Lembremos os julga
mt. • ,i| iM f.Mados de Sainte-Beuve: "A religião não o atingiu nem
mi 11 | ii nii m i nem sec|iier o m o d ifico u ” , “ lile está no m eio da huma-
Hldtuli Hilo u lsia ". Na A [ x > k i a . .. "tu d o é controlado, calculado,
Ii i i I um .. d l/e m lo <■> contrário em aparência daquilq que o mestre
Mim 1111 1 1 iirilgi * mesmo e que ele insinua” .1'' Sainte-Beuve fala tam­
il. m l. - i i i . pagan Kabelais” 10- outra apreciação sumária ã qual Lu-
t ji ii 11 In i r le / jtjsilça. A opiniã o cie Sainte-Beuve sobre Montaigne
p)ll ildi i lepellda até nossos dias.47 G ide a tinha feito sua18e a reen-
I m ili um is sob a pena de Mugo Friedrich, u m dos mais im portan-
|i • 1 1nin uiaiisi.is de M ontaigne do ú ltim o m eio-século.19 Para ele, a
m ui* IIi mea enlie o desejo dé rebaixam ento cio hom em tão marcan-
|p 11*1* lUhtilos e íis teses da teologia cristã (de amigamente) é ape­
n o mipi di. 1.11 M ontaigne só utiliza o Cristianismo para rejeitá-lo
i*, i gulda l ie e um verdadeiro “cético” para qtiem a religião e
ii|H n i'* m orliil e humana".
I pir. iM i lem brar aqui que M ontaigne, tradutor, a pedido tlc
ii p il d i T hcalo^ ici n a t u r a lis redigida p o r um catalão do século
I 11 I i \ ' i, M msiderou "belas as imaginações deste autor, a contex-
uii i d* .ti.i obra bem articulada, e s e u escopo pleno de piedade” .

i lu, esle úllimo era por razões humanas e naturais estabelecer


* willU ar contra os ateístas todos os artigos da religião cristã: no
i|iir, pura dizer a verdade, eu o considero tão firme e tão feliz
ijiii nao penso que seja possível fazer melhor nesse assunto, e
* n io (|iir ninguém o igualou.^

/Vi'ilm M ontaigne, retom ando p o r sua conta as intenções


t|n .1* igéilt ,r. de Kaym ond §ebond, traduzindo, com entando e de-
I ni li tu li i ,i i »l)ra deste teólogo catalão - apesar de separar-se dele
• *l*n * rilnN pontos - adotou o m esm o objetivo que Pascal mais

IV SAINTE-BEUVE, Port-Royal, ed. M. Leroy, Paris, Pléiade, 3 v., I, 1972,


I* H\<>, 84 I a 833.
Iti. 11)1(1., [). 843.
l I'nr exemplo por CONCHE, M. M ontaigne. París: Seghers, 1966.
III GIME, A. Essai sur M ontaigne, Paris, 1929.
I'» EldEDRICH, H. M ontaigne, ed. fr. 1968, Paris, Gallimard, notadamente
p 104 133. Livro publicado em 1949; 2. cd. 1967.
31), MONTAIGNE, Essais, II, cap. XII: II. p. 123.
(.tule nos Et'IISiWlgt’lloS. I lili e oilll'O cjulNCTillVI Combatei' O "exo l.l
vel aloísm< i".'’1 () autor dos Distilos mío podía prever <pu* seus es
i ritos si* tornariam o llvro ele* cabeceira dos libertinos no pnsso * |iu*

rli* (|ui,rl;i rom todo .1 evidência por cjut: actisjí lo de* duplklda
tic? demonstrar a necessidade da Hevelavilo e da graça, Nel .1
uma longa tradição paulina e agostlnlana, que ele agrava por urna
Impiedosa crítica pirroniana do saber, Montaigne apresenta

"o homem nu e vazio" a Um de que "reconhecendo sua Iraque


/.a natural", ele se torne "apto a receber tio alto alguma liara es
tranha, desprovida de humana ciência e tanto mais apta a alojai
em si a divina, aniquilando seu julgamento para dar mais lugai it
lê, Quanto mais nos remetemos e nos entregamos a Deus, e ie
nunclamos a nds, mais nós valemos’’.''

bis ai uma sentença co nfo rm e à mais constante fllosnliu


u ls i.i. 011 ale a experiencia mística, lí bem verdade que a preo
1 u p a r.lo da s a lv a rlo parece ausente dos E n s a io s , lí vcrtlatle iam
bem que existe uma delasagem entro o “d iz e r1’ religioso de Mon
lalgue i seu "la /e r ” epleurlsta. () (jue explica a aeusacao de dtl
plh Idade form ulada pelos autores da L ó g ic a de bori l(<>\ ,il
1 \ 11 unIliI e Nl( nle) e .1 t onvlcçao dos libertinos de que ele lest
i|iii • 111111ll.il seus verdadeiros sentim entos. Mas p or que rei usai
• pitiltpK 1 enulradlyíto d e n tro de urha mesma p e rs on alida d e 1 l
paia i|iie serve esse reduclonism o em pobrecetlor?
1'asi al, mesmo temendo a moral de Montaigne e lamentan
do o sen "tolo projeto" de pintar-se, foi mais justo ao idenll|j«ai no
iiiiloi dos Ensaios "um luimllde discípulo da Igreja pela le" I ssi
eia lambem o sentimento de Mademoiscllc de Gournay, IIIha espl
ritual de Montaigne e alma devota que, prefaciando a edlçilo d<
pió*) dos Ensaios , escreveu: "líu agradeço a Deus por escorai sua
lgre|a com um lao vigoroso pilar humano". Quem ainda duvidai
da religião de Montaigne deve remeler-se aos capítulos que efe
consagrou respectivamente íts "preces" (l; I.VI) e ao "arrependí
mento" (III; II). 1,0 se aí um comovente elogio do Padre Nosso Dtl
única prece de que me sirvo em toda parte") e um questlonaMivil»512

5 1 , T b it l. . p , 6 7 .

52. Ihid.. p. 145.


5.1. I'AS< :AI „ lin tM b n dvtc M . dr Sitcy (cm ( E uvm m n/dhts, <-.l I Snnw l l
Ollcmloy, l‘).U, p ,40).
it 1 1Im Ui Ui >pc.su r pr< >v<>cad< >pcl< >s "e.itan »s“ , .10 t|iiul se t >pòe o ver*
iliiil» Iim uiivpendlm ento motivado pelo "respeito de Deus", Esta-
ni.i i Innge aqpl do Montaigne mais eomumente aceito hoje.*"1
1'ui sinal, nào é revelador que ele tenlni sido amigo de Pier-
1 1 li.mon ( I vi I- 1603)? liste, advogado, depois padre e pregador,
i' iimilu 1' coordenou no seu tratado consagrado à Sabedotia
1 111<11 1 os argumentos dos Ensaios sobre a miséria e a fraqueza do
Iimiiu m 1'lerre Charron define o espírito humano como “um fun­
di* di 1 a urldao pleno de cavidades e de calabouços, um labirin-
1" mu abismo confuso e bem retorcido”.55 Em outra passagem, e
M1I1 11 leve ( 01110 um “utensílio vagabundo, mutável, variado, con-
|ioiiihi I, um Instrumento de chumbo e de cera” que “dobra,
lllmtgii .1 , acomoda-se a tudo”,56 “vai sempre, a torto e a direito,
tsul......... .1 mentira como com a verdade”57 e justifica tudo: o que
4 il 11imlnUvel num lugar é piedade... em outro”.58“Nào existe ra-
1.1 tpn 11.o» lenha um contrário”.59 “Os erros se recebem em nos-
1 1 lima pela mesma via e conduto que a verdade” e nós nào pos-
miuim , 1 1lin ios seguros para escolher entre os primeiros e a se-
11111d 1 \ sabedoria e a loucura são muito vizinhas. Só há uma
ni' 11 volta i le uma para a outra... A melancolia é própria de am-
ii 11 ' \ essas considerações desencantadas, Pierre Charron acres-
•illa luna condenação da curiosidade intelectual e da pesquisa:
\ 1 Imsi as d o espírito humano sào sem termo, sem forma: seu ali-
............. 1lúvlda, ambigüidacle; é um movimento perpétuo, sem pa-

' 1 l' imc os autores que reabilitaram a religião de Montaigne citemos nota-
.1 miriiic: STRÒWSKI, F. M ontaigne\ 1906; PI.ATTARD. J. M ontaigne et son
0 ni|i'., 19.16; DRFANO, M. L a Pensée religieuse de M ontaigne, 1936 e “L.’Au-
l',n iilnisme tlans 1’Apologie de Raymond Sebond” em Bibüothèque d ’h um anis-
"i, ei Renaissance, 1962, p. 359-575; CITOLEUX, M. Le Vrai M ontaigne,
iheeloyjcn et sote/at, Paris, 1937; SCLAFERT, Cl. L’A me religieuse de M ontaig-
ih\ 19 >1. bibliografias recentes em BROWN, Fr. S. Religión an d P olitical
1 ninei 1'i/iis/n iti the Essais o f M ontaigne. Genève: Droz, 1963 e CROQUET-
I I*, II. Pascal et M ontaigne. Etude des réminiscences des Essais dans Pceuvre de
l\tual Genève: Droz, 1974.
•i < IIARRON, P. D e la Sagesse em Choix de moralistes jrançais, ed. J. Bu-
i liou, Paris, 1836, livro I, cap. XIV,'-p. 40.
iii lbld., p. 41.
’i \ Iblil., p. 42.
’*M. Ibld. . ,
V). Ibld,
(i(l. Ibid., p. 4,3.

2 h: j
rada e sem objetivo; o mundo e urna escola de InqulNlçào.... Dat,
cluas importantes conclusões: a) c preciso "frear" e ‘'amarrai" os
homens de “religiões, leis, costumes, ciencias, preceitos, ameaça*,
promessas mortais e imortais”;02 b) mais vale a atonía Inleln mal
que o excesso de espírito. “Os povos mais mediocremente « splil
tuais, vivem em maior repouso que os engenhosos" <■ (.liaimii
opõe aqui os suíços aos florentinos. “O refinamento dos espírito»»
nào é apaziguamento”:6 23 nova justificação da "douta ignorancia",
16
Um rápido olhar de conjunto sobre as tomadas de |><••.i< ti i
pessimistas que acabamos de enumerar revela evidentes conlll
sõés, Nossos céticos põem em pé de igualdade todas as dl •Ipil
nas: a arquitetura e a astronomia, a retórica e as malematli as Me*
amalgamam ciência e filosofia, julgamento moral e crítica do >••
nhecimento. O homem é rebaixado ao mesmo lempo con........
gulhoso e como incapaz de atingir a verdade, E esta ultima nao
é o objeto de distinções que marcariam graus. O nível <lenlílli o
nào é separado do nível metafísico. Enfim, tudo o que e lempo
ral e fugidio é automaticamente afetado de conotações negativa»»,
Destacar essas características de uma corrente de p» n o
mento da Renascença nào é fazer um julgamento sobre ela, ma*
apenas constatar que no seu equipamento mental Jean I iauu<H
Pic, Côrnelius Agrippa, Montaigne e Chárron nào possuíam aln
da os instrumentos que lhes dariam acesso ao universo da »lui
cia moderna. Nào há dúvida de que suas críticas conjuntas a ii»i||
mismo tomista e humanista operaram limpeza salutar, ,‘aia Iu •>ti
lidade às generalizações levou a valorizar o concreto e a • sj»»
riência. Mas eles próprios nào entreviram o partido que a t Iria la
iria logo tirar dessa lição de humildade. Foi somente com <«l« »i
dano Bruno,64 apologista da razão - mas também com Jean lio
din e Louis Le Roy6S - que a noção de relativo que se luim na

61. Ibid., p. 41.


62. Ibid., p. 44.
63. Ibid.
64. Sobre G.-Bruno cf. notadamente HOROWITZ, I. I.. The l\'en,lto,nht l'bf
lósàphy.of G iordanóBruno. New York: Coleman-Ross, VMUflMI II
La Conception de la nature cbez Giordano Bruno. Paris: Vrin, 1% ‘
63. Remetemos aqui sobretudo a República. Darmstadt, Si icmi.i A il,a, 1'Mil
v. 1, p. 663-664, e h introdução do seu Tbéâtre de la iirtture unireiwlle, u ni
fr. de 1597; c também a LE ROY, L De la uicisütude ou rai ii,nl dr\, /muM
lunivers, 1575.
• «!• ••t autores que acabamos di' citar .uu|iiirlii qualidades
|i i lil\ 11'• l Ki assume então uma dimensão cósmica: o homem
piinlii •i >m o dc.slocamento do observador; movimento, tempo e
|mmm ii.ii i sai) Imulilveis; dois objetos não são jamais idênticos -
Wlh.l Use i ui amista a terra não passa de um-ponto dentro de
Um im hciso sem limite e que não tem a perfeição circular cjue
*1 11» n*i.i\ a Multo logo se descobrirá que só existe ciência do re-
lilllVM M im para muitos predecessores de Giordano Bruno e no-
|(l»l inn nli para Montaigne, a crítica do conhecimento e a insis-
la iol m* o relativo tinham sobretudo por função introduzir ao
||ili I ni" * provar a necessidade da Revelação.,
V imI i i i , não devemos considerar como marginal ao século
lu i humilhação do homem empreendida com grandes reforços
•K iiigiimeiitos céticos. Quantitativamente falando, ela foi pro-
V i>* lim ule ale mais importante que a valorização otimista so-
i i i qual on historiadores da Renascença tinham mais partícu­
la.....nu Insistido até aqui. Porque, ao laclo de outros com po­
ta nu i, lonlluíram as duas correntes agostinianas da época: a
11M p< tiiumeceu católica (com Charron, por exemplo) e a que
(ipli oi pelo Protestantismo. Na época, não foi a apologia da rar
0iUi *pn |iieil<>minou.
li ndo em conta suas audiências, Lutero e Calvino mere-
...........p i e o s escutemos sobre esse assunto. Ambos pensam fun-
ifinit iilitlmenle a mesma coisa,' a saber, que resta ao homem
i "i i "i 11pido uma certa “luz natural”, vestígio de seu antigo es-
pli iidm antes da (|iieda. “Que três e dois são cinco isso é total-
illi nli i lato na luz da natureza” escreve Lutero que precisa: “A
Itl da la/ao se acende à luz divina..„ Ela é um fragmento e um
I s u iiiv da verdadeira luz, na qual ela reconhece e glorifica
! i"- i' poi c|iiem foi acesa”.66 Calvino levou mais longe o elo-
iC' 1 ó i Inteligência humana e deixa para ciência todas as suas
i li 1111 •m Diremos que aqueles que inventaram a medicina fo-
i 1111 Insensatos? Pensaremos das outras disciplinas que são lou-
i i ».*'" Allrmaçòes que podemos aproximar desta outra, situa-
m i

11 M" I" lisio da Instituição cristã : Aqueles que sãò enten­


dí» Iom e peritos em ciência, ou que de alguma maneira a expe-
i Iiih nl.ii.im, são auxiliados por esse meio e avançados para

mm I 11TI IKR, M. CEuvres, X, p. 399 (Evangelho da grande missa do d ia de N a-


l,it) ir imito redigido em Wartburg.
m ' ( 'A I V 1 N , J. lUnstitution chrétienne, II, II, 14: II, p. 37.
compreender mais de perto os segredos de Deus","" <>•; dois Me
formadores estilo, portanto, em nítido recuo em relação a A grlp
pa e a Montaigne nas suas análises das variações, fraquezas e
enfermidades do espírito humano.
Em compensação, eles preteqdem provar c|iie este ültlmo
enfraquece quando se mete em metafísica e religião. Irremedla
velmente atingida, nossa razão “jamais pode nem aproximai',
nem tender, nem mostrar seu objetivo para esta verdade .1 sei
ouvida que é o verdadeiro Deus, que quer estar conosco",w No
nível filosófico e religioso, Lutero e Calvino repudiam o ollm ls
mo tomista e opõem termo a termo luz sobrenatural e luz nalll
ral. Sem a graça e a iluminação da fé, concedidas gratultamvnle,
o homem só pode viver errante, perder-se em contradições, L a
jar ídolos. Calvino insiste longamente sobre a impossibilidade de
compreender a predestinação: “Se alguém se enfia e se introme
te com demasiada confiança e ousadia” neste “labirinto", nflo
“encontrará nenhuma saída”.6 707
9
6
8 1
Oposta assim à “luz sobrenatural”, a “luz natural" e a s s o
ciada por Lutero a conotações negativas: “carne”, "aparêiulit ,
“mtindo”, “pecado”, “vergonha”, “presunção”, "livre arbítrio", '
etc. Daí, duas consequências. Primeiro, a convicção de que a ia
záo humana é incapaz, de promulgar uma moral correta I Ia
pode declarar, explica Lutero, que se deve fazer o bem e evitar
o mal, mas "não chega a dizer quais são as coisas boas e a*<» ol»
sas más”, no que ela é igual ao viajante que quer ir a Poma, ma*
ignora o caminho certo.72 Calvino, um pouco mais matizado, ad
mite que “a razão pela qual o homem discerne entre o bem « o
mal... não pode ser inteiramente destruída”. Mas ela foi toda\i i
de tal modo “debilitada” e “corrompida” pelo pecado original
que “só aparece ruína desfigurada”.73 Como então admirai ••
dos erros e variações das leis e justiças humanas denum Lulaií
mais tarde por Montaigne? Mas sobretudo - a segunda da,*........

68. Ibid., I, V, 2: II, p. 18.


69. Ibid., II, II, 18: II, p. 40.
70. hbid., II, XXI, 1: III, p. 394.
71. LUTHER, M. CEuvres, potadamente IX, p. 250, 269; X, p. 189, 'vi, li f
72. Ibid., X, p. 339 (.Evangelho da grande missa de N atal).
73. CALVIN,.!. Línstitution..., II. II, 12: II, p. 33,
i ................ anunciadas anteriormente I,ulero, Impelido por
. ii ••iiu im I.im u o , cal com viole ncia sobre a razão m ediante gc
li» i i I i / iiio c n perem ptória,s e apóstrofes vingadoras. "O hom em
I * ui i giaçal, escreve ele, não passa de um m en tiro so e um ser
Im illl i le m o d o (|uc ele só p o d e usar essa luz natural contra
I li ii i ' Mein disso, por que vangloriar-se dessa “luz natural”,
11» ui * •itimm ilos |udeus e dos pagaos, dos demônios e dos con­
di ii i•11<• a danação? listes a possuem até “mais clara” do que
ic ui, a llm de serem ainda mais atormentados por ela”.75 O ho-
|ttt ui pata chegar a Deus, nao pode, portanto, duvidar demais
............. .. io que, nos seus sermões, Lutero qualifica várias ve-
#n di "prostituía"''' e de “bela meretriz”.77 A natureza, quando
•11 lilla i mitra o lispírito com ò auxílio da “bela razão”, é cha-'
ni ida pin ele de "ranhenta e merdenta”.78Atacando os anabatis-
II • ii»i ulnglianos que, em nome da racionalidade e das apa
Min i d, negavam a presença real, Lutero no último sermão que
|M•Hii 11ii Ion i‘iii Wittenberg, exortava nestes termos cada um de
m ii ' miN'Inles e um texto célebre:

i ulil.i milito ele manter a razão sob controle, e não siga sous
I» lio pensamentos: jogue-lhe merda na cara, para que ela fique
!< la A ra/ao está sufocada e deve ser afogada no batismo, e a
luiii i sabedoria não pode prejudicá-la, contanto que ela ouça o
I IIIH» ile I >eus que diz: “Tomai, isto é o meu corpo que c dado
paia vos",.. Quando eu tenho essas palavras, eu calco nos pés a
iii/áo com sua sabedoria. Maldita puta, tu queres me seduzir, a
llm de que eu me prostitua ao diabo? Desse modo, a razão é pu­
nir .nl.i e libertada pela palavra do Filho de Deus.7"

I ',i,i claro de novo que Lutero, aqui, só ataca a razão na


ui- ilida ciu que ela luta contra o Evangelho, Mas, ao fazê-lo, ele
hlinbi ui n.lo trabalhou para aquela grande desvalorização do ho-I

I I I.ITII I R, M. CEuvres, X, p. 365.


'1, lliiil., X, p. 351.
ii lltiil., III, p. 24.3 (D a vida conjugal).
Iliiil., IX, p. 345 (S am ãop ara o 2' domingo depois da epifan ía (1546).
n lliiil., X, p. 189 (Sobre a epístola do 4" domingo do advento, redigido em
Wiutbgrg),
7*>. Ibid.. IX, p. 347.

2H7
mem pura .1 <|u. 11 contribuiram .siic,t,M.Hlvuiiu,ntc" no século Ib M.i
qukivcl e ( iukiuii'clln, Agrlpj>a o Montaigne? lima desvalorl/avíto
presente também na literatura contemporánea a l'.llsabele e mm
primeiros Stuarls e ligada a convlcydo tao clifunclicla üe qile uní
mundo eslava prestes a acabar:

"Nao se pode exagerar, escreve 11, l laydn, o pessimismo pupn


lai durante </s últimos anos do reinado de lllsabele e 1n piliiu 1
ros (ii)os de seus sucessores", A despello do ñolas oilmhi.iM, a
bem verdade (|iie o Inglés médl<>e nao <lesprovklo de es| ili llo do
Um do século l() nao Unha esperança nílo so tic um eonhei lint n
lo seguro, mas da própria sobrevivência do sen universo"""

líntreianto, c a época que produziu I’rancls Hacon, o «pmí


Insl.siia. sobre <* "falso espelho" do conhecimento humano u n«t
enganos tía s e n s a to , ao mesmo tempo em c|ue lazla .1 api »!•igla
da experiência e dirigia a seus contemporâneos uma mensagem
de esperança ("balemos agora da lísperanya,, Mas, na epn
ea de .Shakespeare, de Spenser, de Sidney ou de Donne, « a lll
quietude que prevalece com a melancolía em lace da Inga do
l* mpo e da bele/a que passa: “O homem, éscreve Cliapman, (
urna locha 1 arregada no vento: em resumo, ele é apenan o >ni
nía 1 1le uma sombra",
lies lemas se |unlam a este último ñas obras pessIiuNlan
>la llleraluia ellsabelana: a) a crítica do conhecimento; b) a giavl
•la•b 1lit peí atlo; e) o pressentimento cía ruina tl<>mundo, ( •t|iii
0 u t nnheelmenlo, pergunta o jurisconsulto, diplómala t pítela
|tdin I >avlc,s ( IS69-1626)?;

<) (|ue ['Mx.lemos conhecer? lím <pie* pode ¡iluar nosso dbtnial
Imilla
l'!ru|Uíinlo o litro obstruí as junólas de nosso espirito?
Como saber as diversas maneiras de ser das colsas,
l lina ve/ que somos cegos desde o ella de nosso na.ni Imenli n1'

HO. IIAYDN, 11. The Coimtn'-Reuíth^mcr, p, 2/,’,. C!l, runln m p I •• • ifl»


HI. IVACON, l'r. The New Oyanon <»u¡ irl.iinl WHthw, ed. I. I W I m mi
New York, l.ibcrnl Aun Press, 1960, p, 91 (1, Xt lll).
H2. DAVII'.S, |, lW m ,v . I M I l \ cd. ( 1 Howurd, New York, l'Mi 1 inda
em IIAYI >N, 11, The ( btoiler-H o m ImiIHiy, p. 11,1.
I MI l'Nltl fO lK ’IUSÍU) ck*«SCnc¡Ult¡ul;i:

i u n i que mlnha alma tem'poder de Unió eonhocef


i niieiiinlo, ela é cega e ignorante de ludo;
i M Hi t|iie sou um dos pequenos reis da Natureza,
I * -li uivo todavía das coisas mais baixas e mais infames

I ii ii l que mlnha vida é só dor e instante.


I n .i i que meus sentidos me iludem sobre cada coisa.
IIiiii ii iih luir, cu me conheço como um homem,
\i i 11ii".Hit>lempo orgulhoso e miserável.”1

Iniii i representativo de uma geração inquieta é John Don-


iH i l i 1 Ih JI). um dos melhores escritores do seu tempo, toma-
•Ih .Ii lima Insaciável curiosidade e urna intensa espiritualidade.
• .........Ii i do ( :al< )licismo para o Anglicanismo, ele evoluiu para o
Ii.Ihhiiiii • encontrou na justificação pela fé uma solução para
ttlii iiigusil.is, Mas essa solução comportava um sombrio julga-
IMiiiii' ml ice o homem pecador:

l Mi '..ipi >, escreve ele, é um saco de veneno e uma aranha, uma


1111|.i 11•i de veneno, entretanto, nem o sapo nem a aranha não po-
ili ui envenenar-se a si mesmos. O homem em compensação tem
iiliiii ienerva de veneno —o pecado original —situada num canto
Im i iivel, não sabemos, onde; e ele não pode impedir que ela en-
11 nene a de mesmo e a todas as suas ações. Nós somos de tal
imHli i Im apazes de uni movimento [para o bem] sem a graça, que
nu iiiu i quando uma primeira graça nosé dada, nós não podemos
iillll/,l Ia para Ir mais adiante se ela não for continuada.”'

i huiM síntese espantosa, John Donne amalgamou as desco-


I-i ui i .in mnmlcas de seu tempo com o pessimismo de Maquiavel
►*|i Mnnülgnc, c fundiu tudo num panorama de fim do mundo:

\ ma a filosofia repõe tudo em questão,


1 ' ' In nenio fogo está totalmente extinto,
•i Hil está perdido, e a ten'á também,

a i ll>|.l., v. 173-180.
mi I M)NNK, J. Works, ed. H . Alford, Londres, 1839: V , p. 577. Citado em
llilil,, p, 113-114.

281)
l\ nenhum homem Inteligente |mhU* dizer otulc prontia In,
Os homens conlessíim sem dificuldade qwu este mundo panou,
Quando nos planetas e no firmamento
liles procuram tantas novidades, liles veem <|iic este
Explodiu em seus átomos.
Tudo está em pedaços, todá coerência se Ibl.
Toda lei justa, toda hierarquia;
Príncipe, súdito, pai, filho: tantas noções esquecidas

Um mundo desabava. John Dorme nào entrevia .iqm I»


que o substituida.86

o destino
Seria o homem mau? Ele é frágil, certamente: è o qm • n
sinam com insistência no início dos tempos modernos os lUIltttfj
rosos textos e imagens consagrados ao tema da EorUinn " Nujnf
cio do Retorno de Ulisses ( 1641) de Monteverdi, a Eortuna, " I* m
po e o Amor cantam juntos: “Tornemos o homem frágil"

85. DONNE, J. The Complete English Poems, ed. A. J. Smith, I mulrc», I'*' I
( The First Anniversary), v. 205-215, p. 276.
86. Sobre o pessimismo da Inglaterra na época de Elisabcth c dou pilmHlm
Stuarts cf. o fascículo mimeografado editado pela Univ, de I.illr III ■«>I. , ,|i
rcção de PLAISANT, M. La Mort, le fantastique, le sur/uitmvl du A l 7 dh A f
1’époque rnmitntique, 1980 (colóquio de março 1979).
87- A esse respeito ver notadamente WARTBURG, A. "/,u den W.uulliut
gen des Fortuna Symbols in der bildenden Kunst der Rcnaissam d , mii
Kunstwissensch. Beitrage, A . Schmarsow gewidmet, Leipzig, 190/, p I ."•«
DOREN, A. “Fortuna im Mittelalter und in dor Rcnaissancc", <in Oo MUKM
der BibtiotheKW arburg, 1 9 2 2 -1 9 2 3 ,1, p. 72-144. PATO I, 11. K I In Im
dition of the Goddess Fortuna in Román Litcraturc and in lhe ii.iiiuilnn.il
Period”, em Sm ith College. Studies in M o d em Languaga, v. III, n V alull
1922, p. 131-187; “The Tradition of the Goddess Fortuna in Mcdu > ,1 Phl
losophy and Literature”, em Ibid., v. III, n. 4, julho 192.’ , p I '9 m . l . ,
tuna in Old French Literature”, em Ibid., v. IV, n. 4, julho |9,' t, p | | t
CASSIRER, E. In divid u u m u n d Kosmos in der Philosophie der AVn.,/<MMn»
Leipzig: Teubner, 1926. VAN MARLE, R. Iconograpbie de l.ir t pru/Mh Ihu
xelles: 1932, II, p. 181-202. PANOFSKY, H. lluais d'ieontdogie Pan-, 0 ,1
limard, 1967. PICKERING, F. P. Literatur u n d Darsiellende Knn\i in Mil
telalter. Berlin: 1966. A esta documciuaçãQ dc base ac rescentam m1 a* i,|iMI
c artigos que serão citados no curso da exposição sobre a l oituna,

200
I'iiiil I ( !ti.s,slivr, a mutação ilti UtMia.scença c*m relação ã
'I* «lili tonslsil.i na passagem da confiança cm Deus para a
i .ii.ii im i nn homem.H MMas [i. Clarín leve razão de corrigir essa
«in m u in demasiado categórica mostrando qbe o símbolo de
WIMiiPlcti srm <luvició nao ó o que caracteriza melhor a Kenas-
i ♦ 11 i I na ll lilla desse julgamento matizado que se situam os
d» m *'l\ Imenlos que se lerão a seguir. Sob nova luz, eles se es-
i un pata por em destaque uma ampla inquietação coletiva -
|ft I* •im ia is ni •nivel da cultura dirigente - sobre o destino do ho­
to» m i uma Interrogação angustiada sobre a liberdade.
•liegos e romanos temeram e honraram a Fortuna (Tyché
(ni i " primeiros, l'ortuna pannos segundos).'Ela era urna deu-
«i iMMHihhinte e temível, senhora dos destinos, muito logo asso-
11••11 malí igh ámenle ã roda e à esfera. Sua evocação tinha se
ktm hIii mu lugar comum entre os escritores; e as grandes famí-
lli |n|ga\iiin eoneiliar-se acrescentando o nome dela aos seus
ih • lltirld, l'ortuna Torquatiana, etc.). Muito logicamente,
M 11a111• i da Igreja, que combatiam o paganismo, procuraram
ili imii a i ifiu/a no poder exorbitante da Fortuna. Lactáncio de
II m -a l ia nao existe”.90Porque ele nao via como manter o aea-
III di litio de mu mundo criado por uní Deus que é todo razão.
Hilo Ngic.ilnlio ironizou: se a Fortuna é aquilo que se diz déla,
IüIm 1 In-ililvel c mutável por definição, para que lhe prestar um
|»i^lli • 1 i la riMlUlacle*, o que parece acontecer por acidente acon-
|< i • •ja pelo designio oculto de Deus, seja por nossa livre esco­
lha » niie 11 bem e o mal.92 _
■io leronimo, por sua vez, rejeitou a Fortuna e declarou:
i ha i. iletklo longa mente, parece-me, contrariamente à falsa
i ini 1.1 de alguns, que nao é o acaso que gera todas as coisas, e
|iu i .........islanle Fortuna não se diverfe com destinos humanos:

un ( ASSIRKR, E. Individuum..., p. 80.


ll'l i ¡ARIN , E. Mayen Age ct Renaissance. Paris: Gallimard, 1969. p. 164.
'Mi I ,n., V I, col. 4 3 7 -4 4 0 (D eFalsa sapientiaphilosophorum , III, 2 8 -2 9).
'• I i it,1Je I deu, IV, 18: ed. de Combés das CEuvres de Santo Agostinho, 33,
|i. 1M3 ‘SHS.
'i ' I ni Ncqüéncia a PATCH, H . R. “T h e Tradition ... in medieval philo-
n|i|iv", idilio aqui dois textos de Santo Agostinho: D e Libero arbitrio, III, 2
1l\m l,u ., X X X II, col. 1273) e Quaest. in Hept. I, 91 (Patr. Lat., X X X IV ,
m l. V I ) ,

21)1
ludo acontecí; cnu função de decisões divinas","' SliMlllnde mui*
plementar entre os tres Padres da Igre|a; se, entre outras passa
gens, eles parecem manter a realidade da Portuna, e para i lassili
cá-la entre as forças do mal,"1 Sao Tomás de Aquino adotou mal*
tarde o ponto de vista geral de seus grandes preder essores e lie
gou, ele também, a possibilidade filosófica do acaso, ( amientan*
do a Física de Aristóteles, ele declarou: "... Quando se remete hR
acontecimentos sobrevínolos por acaso e acidentalmenle Mu r\
independentemente da intenção das causas inferiores a alguitt i
causa superior que os induziu, com referencia a essa causa elu|
não podem ser chamados fortuitos e ocasionais, Essa causa supe-
rior não pode então ser chamada Fortuna’’."'
1 Não nos espantemos se Calvino saiu em guerra et intuí a
crença na Fortuna. Ele tinha uma. idéia multo elevada da ....... |
déncia para poder dar lugar ao acaso. Os que afirmam a eshien
cia deste último, diz ele, são “apóstatas” que se revoltam » nnlui
Deus. São nossas “idolatrias monstruosas” e nossa "naiimva tu
diñada ao erro” que nos cegam, ao passo que “o regime .das •<«i
sas humanas revela tão claramente a providência de I )eus 1*
“mestre cantor” luterano Hans Sachs opina no mesmo sentido
Descrevendo a Fortuna com um freio na boca seguro pul un IR
mão celeste, ele declara que felicidades e infelicidades \< m pi i
ordem de D eu se em virtude de sua eterna pré-ciOncia. T u d i 1 m 1
acontece para o nosso bem.9 679
5
4
9
3 8Adversario do Protesta mismo, 1 mil
laume Budé chega, entretanto, às mesmas conclusões At usai a
Fortuna é atacar a Deus. Os homens não devem deixai s e pul 111
bar ou irritar pelos acontecimentos, mas ao contrário p e m liu|
que estes são cumpridos “pelas Parcas celestes que estão pm ,is
sim dizer a seiviço da Providência de uma maneira certa e sei m >
ta... Nada se faz, nem se fará, nem se fez sem a alta direi u» cl«l
quele que já foi desde o início o autor das causas de todo tlpn |
que é para sempre o juiz da rotação do céu”.w Mas se quis» u m

93. Opera, III, 461 (Patr. Lat., XXIII, col. 1083).


94. Cf.'LACTANCE, D e vera re/igionc, III, 29 (Patr. /,//.. VI, <>>l tio uni
Augustin, C ité de D ieu, IV, 18, ver nota 91. Saint Jérònw?, Oprtu, XV, 7»H
(Patr. Lat., XXIV, col. 639).
95. Cómmentariaphysicorum Aristotelis (Opem, cd. de I,con XIII, IX. p lli.t l M11
96. CALVIN. Institution..., I, V, 11 (Contra a “Fortuna’’): I, p 1
97. Cf. DOREN, A. “Fortuna...”, p. 104. n. 70.
98. BUDE, ( í. De Transita hellenhtniadchristiunhnium (trad. F. 1 1 ImI), p I d
c 249-250.
ilhiHtt nu lino ill/rr cjlic* ;i Fortiihu existe, entilo clcve-.se eselure-
• 1111 * . i '( aprlchosa" e essa "desequlllbráda” tem c