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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

A MEMÓRIA E SUAS REPERCUSSÕES NO


ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

Autor: Juliana Oliveira Gomes

Professor Orientador: Profa Dra Neide Cordeiro de Magalhães

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Profa Dra Neide Cordeiro de Magalhães
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A MEMÓRIA E SUAS REPERCUSSÕES NO
ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

O envelhecimento populacional é um desafio para o mundo atual e tem estimulado


diversos estudos e investigações nas diversas áreas do conhecimento. Uma das
principais queixas percebidas para esta faixa etária se relaciona à memória, por trazer
drásticas repercussões na vida do indivíduo, na família, grupos sociais, etc. Por isso,
surge a importância de estudos sobre o que ocorre no processo de envelhecimento,
principalmente sobre o envelhecimento saudável, uma vez que a maioria dos estudos
enfatiza a prevalência de doenças, dentre elas, a demência, quando se relaciona a idade
à psicologia cognitiva. Em relação à repercussão da idade sobre o desempenho
cognitivo, observou-se que o tipo de memória mais afetado pela idade é a memória de
curto prazo, principalmente a memória de trabalho, devido possivelmente à menor
capacidade de armazenamento. Ainda hoje existem várias tentativas de explicar a
memória em termos de seus sistemas e relacionar cada um deles ao envelhecimento
patológico e saudável. A teoria do processamento da informação é um modelo que mais
tem contribuído esta questão. A baixa velocidade no processamento observada no
envelhecer é resultado, dentre outros fatores do declínio físico do sistema nervoso. O
objetivo do presente trabalho foi (1) fazer um levantamento teórico sobre a memória e
relacionando-a o envelhecimento; e (2) desmistificar que o envelhecimento é uma fase
de vida exclusivamente ligada a declínios e perdas, mostrando quais as áreas realmente
afetadas e citando quais campos ainda são susceptíveis a otimização.

Palavras-chave: memória, envelhecimento saudável, processamento de informação.

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INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional global é um verdadeiro desafio para o

mundo atual (Albuquerque, 2005). Este fenômeno vem elevando a média de idade na

população humana (Abreu, 2000) e afeta tanto países ricos quanto países pobres

(Albuquerque, 2005). Por esta razão, o envelhecimento tem estimulado diversos estudos

e investigações nas áreas sociais e da saúde (Dibo, 2004) principalmente sobre as

alterações anatômicas, funcionais e cognitivas decorrentes deste processo.

Em relação às alterações cognitivas no processo de envelhecimento, uma

das principais queixas dos idosos têm sido em relação a dificuldades na memória

(Parente, 2006; Ham, 2001). Por esta razão, a manutenção da memória se torna uma

preocupação de alta prioridade para os estudiosos, porque ela se relaciona com todas as

atividades do cotidiano, e ajuda a manter o idoso ativo e independente (Lasca, 2003).

Sobre a memória, tomando em consideração algumas idéias do senso

comum, são diversos os conceitos relativos à forma pela qual as pessoas recorrem às

experiências passadas a fim de usar as informações que são tomadas como relevantes no

presente (Lasca, 2003). Porém, definindo-a cientificamente, como um processo, a

memória se refere “aos mecanismos dinâmicos associados à retenção e à recuperação da

informação sobre a experiência passada” (Crowder, 1976, apud Sternberg, 2000) ou “à

capacidade de armazenamento de todas as formas de conhecimento adquirido e de

relacioná-las a informações já previamente guardadas, podendo ser daí retiradas novas

conclusões” (Hamilton, 2002). Dessa forma, pode-se considerar que a memória é mais

do que simplesmente a evocação de informações, mas um processo que envolve

também aquisição, gravação, conservação e evocação (Lent, 2001), possuindo também a

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capacidade de modificar o comportamento em função de experiências anteriores

(Abreu, 2000).

Atualmente várias áreas do conhecimento procuram estudar a memória,

devido a sua alta integração com o cotidiano das pessoas (Yassuda, 2002). Por meio

dela, o ser humano tem a capacidade de aprender novas informações durante todo o seu

desenvolvimento, resolver problemas simples e complexos e relacionar-se com outros

(Dibo, 2004). A memória, assim como os outros processos mentais superiores, como a

inteligência e a atenção, são funções que possibilitam ao homem a formulação de

estratégias de adaptação ao meio em que vive (Flavell, 1999).

O envelhecimento é um fenômeno de crescente interesse entre

pesquisadores devido à longevidade e conseqüente alteração da estrutura etária

observada globalmente desde a década de 70, principalmente nos paises latino-

americanos, resultado da crescente redução das taxas de mortalidade e de fecundidade

(Dibo, 2004). Infelizmente, é alta a incidência de doenças relacionadas à ausência da

capacidade de evocação de determinadas informações devido a doenças degenerativas

do cérebro, especialmente nesta faixa etária (Vieira e Koenig, 2002; Flavel, 1999).

Os transtornos cognitivos trazem drásticas repercussões na vida cotidiana do

indivíduo, família, grupos sociais, etc (Dibo, 2004), e por esta razão, surge a

importância de estudos sobre o que ocorre com a memória no processo de

envelhecimento.

De acordo com Doron & Parot (2001), em todos os indivíduos, embora de

maneira bastante desigual, há uma diminuição das performances e das capacidades

funcionais para eles, os problemas de memória são um “efeito normal da idade” sobre

as diferentes funções psicológicas e orgânicas.

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Por sua vez, para Maria Alice Parente e colaboradores (2006), esta fase do

desenvolvimento é percebida como um processo de transformações, assim como em

quaisquer outras etapas da vida, “um processo adaptativo multifatorial”.

Presentemente, ainda existe um enorme desconhecimento sobre o que

significa um envelhecimento cognitivo normal (Smethurst, 2005). De um lado, alguns

autores apresentam o envelhecimento cerebral normal acompanhado de alterações

mentais que se confundem às de uma demência incipiente, tornando difícil uma

diferenciação (Damasceno, 2001). Por outro lado, outros autores conceituam a velhice

normal como aquela em que ocorrem limitações funcionais típicas e inevitáveis do

envelhecimento, mas que ocorreriam em intensidade leve, capaz de acarretar apenas

mudanças parciais nas atividades da vida diária (Neri, 1993 apud Parente, 2006). Em

relação ao envelhecimento cerebral patológico, por sua vez, os diversos autores entram

em consenso sobre suas diversas manifestações, das quais as mais comuns são as

síndromes demenciais com distúrbios de memória (Flavel, 1999).

Entretanto, é um erro pensar no envelhecimento como um período do

desenvolvimento caracterizado somente por declínios e perdas competências (Parente,

2006). Este tipo de crença estigmatiza o envelhecer, colocando-o como um sinônimo de

doença, como um estágio absoluto de perda de aptidões e deterioração dos tecidos, ou

ainda como um “processo de morte” (Groisman, 2002).

Partindo de uma visão de continuidade, tentando desvincular a velhice como

doença, Falkenstein & Sommer (2006) apresentam o envelhecimento como

simplesmente mais uma fase do desenvolvimento humano, com suas devidas

peculiaridades, possuindo disposição a perdas e também ao fortalecimento de

capacidades. Dentro dessa mesma ótica, Anita Neri (2001b) afirma ainda que as

incapacidades para o desempenho de algumas atividades instrumentais de vida diária no

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idoso não significam necessariamente impedimento para a continuidade do

funcionamento cognitivo e emocional. As capacidades funcionais nos idosos podem e

devem ser otimizadas, compensando os prejuízos e mantendo um equilíbrio entre

ganhos e perdas.

De fato, mudanças em algumas capacidades fisiológicas que acompanham o

envelhecimento podem afetar tanto negativa quanto positivamente, direta e

indiretamente o desempenho de memória, assim como diversos outros fatores

particulares a cada indivíduo, como seu estilo de vida, suas crenças, o uso ou não de

estratégias para melhorar o desempenho na realização de atividades, etc (Sugar e

McDowd, 1992, apud Abreu, 2000). Entretanto, durante o processo de envelhecimento,

é possível se observar algumas mudanças no desempenho de algumas habilidades sem

haver grandes prejuízos à vida cotidiana do indivíduo ou de seus familiares (Vieira e

Koenig, 2002). O ser humano dispõe não somente de processos físicos e químicos, mas

é um ser ativo no seu contexto ambiental e cultural, o que também pode afetar no

desempenho da memória, tanto negativamente quanto positivamente, ao longo dos anos.

Segundo Neri (1995 apud Lasca, 2003) o envelhecimento comporta ganhos e perdas, e é

determinado por uma grande gama de variáveis, em interação.

Segundo Falkenstein & Sommer (2006), “as deficiências relacionadas à

idade aparecem apenas em determinadas ocupações”. Pesquisas recentes mostram que

com o avanço da idade, algumas capacidades cognitivas podem ser fortalecidas

(Falkenstein & Sommer, 2006) e que com o tempo, o Sistema Nervoso Central pode

aprender a ativar diferentes áreas cerebrais, fenômeno conhecido como plasticidade.

Dessa forma, o homem deve se dispor não somente do conhecimento de conteúdo, mas

de estratégias que possam o auxiliar tanto na gravação de dados quanto na evocação de

informações (Sternberg, 2000).

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Investigar a memória, todavia, não implica somente o ato de receber

estímulos e guardá-los, mas todo o processo desde a percepção dos estímulos pelo

organismo, à seleção do que é relevante, até o guardar a informação por um período de

tempo (seja ele curto ou longo) e evocá-la tempos depois de acontecido (Squire e

Kandel, 2003). A memória se envolve diretamente e está constantemente presente em

todas as atividades do ser humano, sendo necessária para todas as ocasiões, desde a

realização de uma tarefa complicada, até atividades do cotidiano, como uma simples

conversa (Lasca, 2003). Além disso, depende também da atenção, que por sua vez é

influenciada pela motivação, de onde o ser humano extrai o prazer em fazer

determinada ação, tomar determinada atitude, etc (Abreu, 2000). Dessa forma, a

qualidade de vida neste estudo não é vista somente como um fim ou objetivo a ser

alcançado pelo idoso, mas também como um instrumento, ou meio, para a melhoria de

suas habilidades cognitivas.

Trabalhar com o construto “memória”, ligando-o à qualidade de vida,

favorece vários outros aspectos direta e indiretamente ligados à saúde, como a

motivação, auto-estima, o contato social, dentre tantos outros, através da montagem de

estratégias contra a ansiedade, contra o “antecipar problemas”; e de estratégias para

organização da vida diária, com o estabelecimento de rotinas e rituais agradáveis;

treinamento de novos hábitos, mais saudáveis, etc (Flavel, 1999).

O crescimento da proporção de idosos tem sido um desafio para o mundo e

para as autoridades, pois consomem altos custos do setor de saúde, demandam mais

serviços e conseqüentemente custam mais para o estado por não ser uma população

ativa (Albuquerque, 2005). Portanto é indispensável investimento na prevenção de

declínio de transtornos cognitivo, doenças crônicas e demências, com o objetivo de

manter o idoso, pelo máximo de tempo possível, com autonomia e qualidade de vida

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(Dibo, 2004). O entendimento das diversas alterações relacionadas ao processo de

envelhecimento deverá contribuir para uma melhora na qualidade de vida, que, por sua

vez, afeta positivamente as habilidades cognitivas, fechando o ciclo.

O objetivo do presente trabalho é fazer um levantamento teórico sobre a

memória e relacioná-la à uma fase específica do desenvolvimento, que é o

envelhecimento; mostrar e desmistificar que o envelhecimento é uma fase de vida

exclusivamente ligada a declínios e perdas, explicitar quais os campos ainda são

susceptíveis a crescimento e mostrar como a qualidade de vida pode se tornar também

um meio (e não somente um fim) para uma memória mais favorável.

No primeiro capítulo será realizado um breve levantamento histórico sobre o

estudo do envelhecimento humano, destacando perspectiva Life-span, de orientação

dialética. Serão apresentadas as relevâncias na abordagem do tema, principalmente nos

estudos sobre a memória, queixa principal observada em idades mais avançadas.

O segundo capítulo constará das perspectivas históricas sobre a memória e a

evolução da construção dos modelos de representação utilizados para seu estudo.

O próximo capítulo pretenderá mostrar o modelo de memória mais aceito

dentre a comunidade cientifica, mostrando por fim qual a relação entre a memória e o

envelhecimento, quais os reais declínios no envelhecimento normal e os mais evidentes

no patológico.

No quarto capítulo será apresentada a abordagem do processamento de

informação, uma das áreas da psicologia cognitiva que mais tem contribuído à questão

do envelhecimento.

O último capítulo constará da apresentação das considerações finais acerca

do envolvimento entre estes conceitos e os desafios que ainda restam à Psicologia como

promotora de saúde.

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CAPÍTULO I

Contextos e perspectivas sobre o envelhecimento e a

teoria de Life-Span

O estudo do envelhecimento humano é tido por Neri (1995 apud Lasca,

2003) como um estudo “milenar”, embora a preocupação com a população envelhecida

seja uma conquista do homem contemporâneo. Na antiguidade greco-romana, o idoso

era prestigiado por sua sabedoria e experiência de vida, mas não ocupavam cargos altos

ou de confiança às autoridades, constituídas por jovens. Até a Revolução Industrial, a

expectativa de vida da população era baixa e o envelhecimento não ganhava muito

destaque (Dibo, 2004).

O século XX foi marcado por grandes avanços na ciência e tecnologia, o

que resultou numa crescente e ainda atual mudança demográfica global (Albuquerque,

2005). Com a revolução da ciência e o aumento da possibilidade de cura de diversas

doenças, principalmente em crianças, aliada ao crescente avanço tecnológico

influenciando não só a medicina, mas o dia-a-dia da população, o ser humano passou a

perceber uma crescente diminuição da mortalidade e uma súbita redução nas taxas de

fecundidade, o que, com o desenvolver dos anos, passando a gerar um conseqüente

aumento da expectativa de vida. Essa transição afetou diretamente e afeta ainda hoje a

estrutura etária da população (Dibo, 2004).

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O avanço das tecnologias científicas e medicinais e a conseqüente queda na

mortalidade infantil influenciaram também o foco de atenção de pesquisadores e

estudiosos do desenvolvimento, direcionando-o à infância e adolescência (Dibo, 2004).

O foco das pesquisas consistia na comparação e relação do ser humano com

quaisquer outros organismos vivos, a partir do ponto de vista científico/biológico,

destacando-se como modelo explicativo, a metáfora do “crescimento, culminância e

contração” (Albuquerque, 2005). Neste ponto de vista, o centro de atenção das

pesquisas em desenvolvimento se dava na fase de Crescimento, na qual o organismo

adquiriria todas as capacidades e habilidades necessárias para se adaptar ao meio e

atingir o ápice do seu desenvolvimento, isto é, a Culminância, fase caracterizada pela

capacidade de reprodução e perpetuação da espécie. A partir do momento em que o

organismo começa a perder essa capacidade, entra num estágio de Contração, no qual

estaria situado o envelhecimento: o organismo, sem mais capacidade de se adaptar ao

meio, somente pode esperar pela morte (Neri, 2001b)

Em 1922, Stanley Hall retomou os estudos da senescência, estudando-a a

partir do referencial de conhecimento que se tinha sobre a infância, instigando o

interesse de outros pesquisadores por esta faixa etária (Dibo, 2004). Mesmo assim não

tardou para que houvesse um novo desinteresse pela área, devido às imprudências

realizadas durante as pesquisas e os experimentos, o que acarretou em uma série de

resultados equivocados e pessimistas em relação à velhice, muitas vezes,

precipitadamente utilizadas até hoje (Neri, 2001).

Somente na década de 1950, com Erikson, o envelhecimento voltou a ser

foco de estudos científicos, dessa vez estruturados e bem planejados (Papalia e Olds,

2001). A sua Teoria de Clico de Vida representou basicamente dois avanços no estudo

do desenvolvimento: primeiramente por contemplar a vida humana em toda a sua

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extensão e em segundo lugar por abandonar a metáfora clássica biológica de

crescimento, culminância e contração (Neri, 2001).

Erikson tomou o desenvolvimento humano dividindo-o em ciclos, estágios,

baseados na idade cronológica. Contudo, mesmo representando tantos avanços , essa

metodologia possui diversas limitações experimentais, uma vez que não considera as

influências sociais, culturais e individuais do sujeito frente aos estágios (Papalia e Olds,

2001). A idade cronológica deve ser vista apenas como um indicador do processo de

envelhecimento e não deve ser colocado com o uma variável causal. (Lasca, 2003).

Dessa forma, uma maneira mais completa de enxergar o desenvolvimento seria

tomando-o como um processo contínuo (Neri, 2001). É exatamente esta a proposta da

noção do Curso da Vida ou Life-span, o referencial teórico proposto para este trabalho.

A noção do curso da vida, inicialmente desenvolvida na década de 1930,

tomou destaque e se firmou na década de 1970, com os estudos de Margaret Baltes e

Paul Baltes (Dibo, 2004). Esta teoria considera envelhecimento e desenvolvimento

como sendo eventos correlatos, partes de um processo contínuo, que se influencia pelo

contexto em que cada indivíduo está inserido (Neri, 2001b).

A principal contribuição da teoria life-span aos estudos psicológicos e

sociológicos sobre a vida adulta e a velhice foi mostrar que nem crescimento nem

decadência são processos unilineares (Neri, 2001b). A teoria contribuiu ainda para

começar a se observar o desenvolvimento humano como um fenômeno complexo e

contextualizado que exige adaptação e onde todos os períodos da vida dependem uns

dos outros. (Haase, 2005 apud Macêdo, 2006). Além disso, os critérios adotados para

definir o momento do início dos eventos marcadores dos vários períodos do ciclo vital

dependem também de parâmetros sociais e não só o critério cronológico. Esse

paradigma não adota o critério de estágios como princípio organizador do

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desenvolvimento e o critério cronológico funciona apenas como um ponto de referência

(Neri, 2001).

Segundo esta perspectiva, o desenvolvimento humano não é algo estático,

imutável, mas varia de indivíduo para indivíduo e de geração para geração (Neri,

2001b). Cada sujeito recebe influências distintas ao longo da vida, que podem estar

ligadas à idade cronológica; a fatores genéticos; biológicos; ambientais; sociais;

individuais, relacionadas a emprego, família, ciclo de amigos, etc (Dibo, 2004).

Os determinantes genético-biológicos têm um curso de ocorrência esperado

e por isso são chamados de determinantes normativos graduados por idade. As

influências socioculturais, por sua vez não possuem um curso esperado, mas, para os

indivíduos que nasceram no mesmo período, isto é, pertencentes a uma mesma coorte, é

esperado que eles compartilhem as mesmas experiências socioculturais. Estes são os

determinantes normativos graduados por história (Neri, 2001b). O conceito de coorte

histórica é muito importante para a perspectiva life-span. Um grupo de sujeitos com

uma mesma faixa etária, isto é, dentro de uma mesma geração, recebe as mesmas

influências relativas a fatores políticos e econômicos, como guerras, crises, etc. Ou seja,

estão sujeitos às mesmas coortes históricas, que influenciam em seu desenvolvimento

(Dibo, 2004; Neri, 2001; Neri, 2001b).

A perspectiva do curso da vida enfatiza a heterogeneidade no processo do

envelhecimento. Os seres humanos não se desenvolvem chegam ao apogeu ou perdem

todas as suas capacidades e competências ao mesmo tempo, nem da mesma maneira

(Neri, 2001b). Segundo este modelo é importante ainda distinguir entre o

envelhecimento normal ótimo e patológico devido à bifurcação existente entre a

normalidade e a patologia responsáveis pela heterogeneidade (Macêdo, 2006).

Entretanto, é de extrema relevância ressaltar que (1) não é o envelhecimento

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propriamente dito que causa desses diferentes tipos de velhice e (2) não se tratam de

estágios, mas de “estados”, cuja diferença é tênue (Neri, 2001b).

De acordo com Neri (2001), no envelhecimento normal, as alterações típicas

e inevitáveis destacam-se pela ausência de patologias biológicas ou psicológicas. O

envelhecimento patológico se refere à disfuncionalidade e descontinuidade, sendo o

idoso acompanhado por doenças, geralmente crônicas e degenerativas. O

envelhecimento ótimo se refere ao baixo risco de doenças, com uma boa manutenção da

atividade física e mental.

A teoria de life-span indica o desenvolvimento como sendo multidirecional

e multifatorial; coloca o ser humano numa posição ativa, de constante busca por

equilíbrio entre os ganhos e as perdas ao longo dos anos, podendo atingir, assim, um

nível de adaptação constante frente ao meio (Neri, 1995 apud Lasca, 2003).

Diferentemente das aborgagens descritas até aqui, a teoria do curso da vida se

caracteriza por uma visão mais otimista sobre o envelhecimento (Macêdo, 2006).

O diferencial desta abordagem frente às outras apresentadas está no fato de

que os diversos fatores que influenciam no envelhecimento (seja ele normal, patológico

ou ótimo) se inter-relacionam. De acordo com essa perspectiva, durante a vida adulta e

na velhice, o potencial para o desenvolvimento fica preservado e a sua ativação depende

dos recursos do organismo e das influências do meio (Neri, 2001b), ou seja, o idoso

pode não só identificar seus limites mas também promover a compensação das perdas e

a ativação de seu potencial para um máximo desempenho (Neri, 2001). Segundo Baltes

(1997, apud Macêdo, 2006; Neri, 2001) existe um grande potencial para

desenvolvimento de habilidades no idoso, e o que deve ser feito é uma correta seleção

dessas habilidades e a otimização das mesmas, em compensação às habilidades que

sofrem declínio.

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Na velhice fica resguardado o potencial de desenvolvimento, dentro dos

limites da capacidade de mudar e adaptar-se ao meio (Neri, 2001). Mesmo assim, a

visão que se tem comumente acerca o envelhecimento é regada de perspectivas

negativas e disfuncionais, caracterizando-o e estereotipando-o como uma fase exclusiva

de declínios e perdas (Macêdo, 2006). Paschoal (2000, apud Macêdo, 2006) ressalta

ainda que estes estereótipos e generalizações negativas afetam não somente os estudos

relativos a velhice, mas os indivíduos em si.

A relação entre o envelhecimento humano e as habilidades mnêmicas tem

recebido grande atenção de geriatras, neurologistas e psicólogos, por ser a memória uma

das mais importantes funções cognitivas (Yassuda, 2002). Em particular, como

resultado dessa visão negativista sobre o envelhecimento, são muito freqüentes queixas

relacionadas à atenção (Guerreiro e Caldas, 2001 apud Hamilton, 2002) e,

principalmente, à memória (Yassuda, 2002) em detrimento da percepção das

habilidades que são mantidas e também das adquiridas (Albuquerque, 2005).

As perspectivas em relação a memória e seus diferentes domínios e a

relação entre estabilidade e declínio nesta fase do desenvolvimento em particular, será

explicitada a seguir.

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CAPÍTULO II

Contextos históricos e perspectivas dos estudos da memória na psicologia

Os estudos sobre Memória não são recentes. Na Filosofia, a memória foi

assunto de discussão desde os pré-socráticos, sendo, porém, abordada de forma mais

sistemática por Platão e Aristóteles. O conceito chegou a ganhar certo destaque e

importância com o pensamento de Santo Agostinho de que somente pela memória se

chegaria à verdade, e assim, à felicidade. Contudo, somente com o desenvolvimento da

era vitoriana ele voltou a ter destaque conceitual e experimental, com Herman

Ebbinghaus, em 1825. Este autor desenvolveu uma investigação extremamente

sistemática sobre o tema. Posteriormente, William James (1890) sugeriu que a memória

não se trata de um sistema unitário (Lasca, 2003; Schultz e Schultz, 2002).

Com o surgimento da Psicologia Cognitiva, em meados da década de 1950,

investigadores passaram a ter como meta o estudo das estruturas mentais e do

funcionamento dos processos mentais superiores, dentre eles, a memória (Schultz e

Schultz, 2002). Este conceito passou a se constituir, então, um dos campos de

investigação mais ativos na Psicologia (Lasca, 2003).

A partir do final da década de 1950, um novo paradigma passou a desafiar

os enfoques behavioristas que dominavam a Psicologia até então, substituindo-os por

teorias que passaram a conceber o pensamento como uma atividade de Processamento

de Informação (Abreu, 2000; Schultz e Schultz, 2002). Esta foi a origem da “revolução

cognitiva” ou cognitivismo: opondo ao ponto de vista behaviorista, teorias provenientes

dos campos da inteligência artificial e do processamento da informação passaram a ver

computadores como artefatos capazes de exibir e representar estados mentais, tomando-

os como modelos de cognição humana (Schultz e Schultz, 2002).

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O cognitivismo atribui aos comportamentos observáveis um valor de signos,

cujo estudo permitiria a inferência das estruturas subjacentes dos processos mentais

superiores, que seriam o verdadeiro objeto de estudo da psicologia. Estabelecendo uma

aliança com a Informática, essas estruturas-base seriam descritas em termos de

algoritmos, autômatos ou heurísticas que, quando acionadas, gerariam o

comportamento, visto como o produto das regras de funcionamento do sujeito. (Doron

& Parot, 2001).

A partir de então, pesquisadores partiram em busca da construção de um

modelo explicativo para a memória. Através da utilização de modelos, poder-se-ia obter

uma visão mais inteligível do construto a ser estudado (Schultz e Schultz, 2002).

Historicamente, em meados dos anos 60, tem-se um primeiro modelo,

proposto por Nancy Waugh e Donald Norman, distinguindo duas estruturas básicas:

Memória Primária (estrutura mnêmica que mantém informações temporárias,

comumente em uso) e Memória Secundária (estrutura que mantém permanente as

informações por um período de tempo mais longo). No final desta mesma década,

Richard Atkinson e Richard Shiffrin conceituaram a memória de uma forma alternativa,

dividindo-a em três Níveis de Armazenamento: (1) Armazenamento Sensorial – de

estoque relativamente limitado, por um período breve de tempo, (2) Armazenamento de

Curto Prazo – com período de tempo um pouco maior, mas ainda com capacidade

limitada de estoque – e (3) Armazenamento de Longo Prazo – com capacidade grande

de estoque de informações por um longo, e talvez infinito, período de tempo (Sternberg,

2000). Atualmente, psicólogos cognitivos descrevem estas estruturas como “Memória

Sensorial”, “Memória de Curto Prazo” e “Memória de Longo Prazo” (Lasca, 2003).

A Memória de Curto Prazo é, de acordo com Sternberg (2000) a

constantemente mais ativada e utilizada “face” da memória; entretanto, é na de Longo

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Prazo que o ser humano mantém informações necessárias ao dia-a-dia, como nomes de

pessoas, onde foram guardados objetos, assim por diante.

Em meados de 1970, Endel Tulving, baseado na hipótese de que poderiam

existir sistemas diferenciados para organizar e armazenar a informação de acordo com a

existência ou não de um referencial de tempo, propôs a distinção entre Memória

Semântica e Memória Episódica, sendo, respectivamente, “o conhecimento da vida

geral, incluindo memória para fatos, que não são evocados dentro de um contexto

temporal” e “eventos ou episódios evocados de acordo com um tempo e local” (Tulving,

1972 apud Sternberg 2000).

A proposta de Tulving é, hoje, apoiada pela Neurologia e Neuropsicologia

através dos resultados de estudos com pacientes amnésicos, bem como diversas

pesquisas cognitivas (Sternberg, 2000). Todavia, o próprio autor afirma que “não é

óbvio que memória semântica e episódica sejam dois sistemas distintos” (Tulving, 1984

apud Sternberg 2000).

Ainda na década de 70, surgiu um modelo mais radical, proposto por Fergus

Craik e Robert Lockhart, no qual a memória não compreenderia um número específico

de estruturas separadas, como até então apresentadas, mas um número infinito de

“Níveis de Tratamento” (Levels of Processing). Ou seja, o armazenamento das

informações captadas seria disposto ao longo de uma dimensão contínua, em função da

profundidade da codificação, isto é, quanto mais superficial a codificação, mais

rapidamente a informação poderia ser esquecida e quanto mais profundo o nível de

tratamento utilizado, mais alta a probabilidade de que o item possa ser recuperado

(Lasca, 2003; Flavel, 1999).

Em meados dos anos 90, Alan Baddeley, juntamente com outros psicólogos

cognitivos, considerando o modelo das três estruturas de armazenamento de uma

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maneira diferente, lançaram uma outra perspectiva alternativa relacionada à memória,

contudo não tão radical quanto a de Níveis de Tratamento, mas cujo aspecto-chave é o

conceito de “Memória de Trabalho”, definida como parte da Memória de Curto Prazo

(MCP), sem contudo substituí-la, abrangendo também a Memória de Longo Prazo

(MLP) (Sternberg, 2000; Flavel, 1999).

A Memória de Trabalho, de acordo com Baddeley (apud Sternberg, 2000),

comporta a parte da memória ativada mais recentemente na memória de longa duração,

transferindo estes elementos para dentro e/ou para fora de um breve e temporário

armazenamento de memória.

No fim dos anos 1990, Baddeley re-apresentou o Modelo de Níveis de

Tratamento, colocando-o mais como uma extensão do Modelo de Memória de Trabalho

que uma substituta a ela, sugerindo um modelo interativo (Sternberg, 2000). Neste novo

modelo, não seriam enfatizadas somente as estruturas de armazenamento, como no

Modelo das Três Estruturas, mas sim as informações, podendo estas serem, inclusive,

disponíveis para reformatação e reintegração.

Esta nova perspectiva é aceita e utilizada até hoje. Nela, a memória é

considerada um sistema tão complexo que se decompõe em outros sistemas, cada um

com seus aspectos singulares, mas não totalmente independentes, estando em constante

interação (Lasca, 2003). Este assunto será discutido no próximo capítulo, abordando

quais são os diferentes fatores da memória hoje estudados e como eles se repercutem no

envelhecimento.

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CAPÍTULO III

Os diferentes fatores da memória e sua repercussão no envelhecimento

A Psicologia do envelhecimento, com base nos estudos cognitivos,

especifica a memória dividindo-a basicamente em dois grandes grupos: o primeiro deles

armazena informações em pequena quantidade e por tempo relativamente curto; o outro

grupo possui capacidade de armazenamento grande, e pode guardar as informações por

um longo período de tempo. Cada um desses grupos se subdivide em outros sub-

sistemas, relativamente independentes, mas que podem interagir entre si, dando à

memória a impressão de ser um construto único.

Memória de Curta Duração ou Primária

Este tipo de memória é utilizado quando é preciso conservar informações

por um período de tempo breve (Alvarez, 2002 apud Dibo, 2004), mantendo-as de uma

forma altamente acessível, de fácil e hábil evocação (Vieira e Koenig, 2002).

a) Memória operacional ou memória de trabalho

Memória operacional é um conceito hipotético que se refere ao

arquivamento temporário da informação, conceituada como um dispositivo

multicomponente responsável por armazenar, manter e manipular a informação

enquanto o sujeito está engajado em outros processos ou tarefas cognitivas (Baddeley,

1992, apud Abreu, 2000). Isto é, que envolve o armazenamento e manipulação de

informações práticas, como fazer cálculos matemáticos ou lembrar produtos a serem

adquiridos durante uma compra no supermercado (Vieira e Koenig, 2002).

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Este subsistema de memória possui três componentes: o executivo central,

que regula o fluxo de informação, a alça visuo-espacial, que funciona como um sistema

de apoio para o processamento e arquivamento de informação, e a alça fonológica, um

sistema de apoio exclusivo para o arquivamento temporário verbal (Abreu, 2000). O

componente da memória que teoricamente regularia o fluxo de informação na memória

operacional e está altamente ligado ao estudo do envelhecimento é o Executivo Central.

O Executivo Central possui capacidade limitada e tem a função de

proporcionar a conexão entre os sistemas de apoio e a memória de longa duração, atuar

na evocação da informação de outros sistemas de memória incluindo os de memória de

longa duração, sendo ainda o responsável pela seleção de estratégias e planos

(Baddeley, 1992, apud Abreu, 2000). O executivo central teria ainda a papel de

supervisionar informações a serem codificadas, armazenadas e evocadas,

concomitantemente ao seu ingresso no sistema. Uma vez que sua capacidade é limitada,

a eficiência no seu funcionamento é comprometida pelo aumento da demanda (por

exemplo, quando do desempenho de tarefas duplas) (Abreu, 200).

Embora o modelo de memória operacional não seja o único a apresentar

uma explicação satisfatória para as alterações de memória no envelhecimento normal e

patológico, ele tem fornecido, até agora, uma estrutura conveniente e frutífera para a

investigação da natureza do envelhecimento cognitivo (Lasca, 2003).

21
Memória de Longa Duração ou Secundária

Este tipo de memória envolve a capacidade de reter informações por um

longo período de tempo, mantendo-as acessíveis sempre que o organismo achar

necessário (Alvarez, 2002 apud Dibo 2004); e é estruturada por dois mecanismos:

codificação – modo como o evento é classificado para que ocorra armazenamento

organizado – e recuperação (evocação do que foi codificado) (Lasca, 2003).

a) Memória Explícita ou declarativa

Este tipo de memória de longa duração, ou longo prazo, refere-se à

lembrança consciente de experiências prévias, que requer evocação intencional da

informação armazenada (Graf e Schacter, 1985; Schacter, 1987, apud Abreu, 2000).

Evidências experimentais parecem permitir uma subdivisão da memória

declarativa. A lembrança consciente de uma situação em que a aprendizagem sobre um

determinado item ocorreu parece diferir da sensação de familiaridade perante um

determinado item de informação, sem no entanto, haver lembrança do episódio

específico em que essa informação foi adquirida (Dibo, 2004).

Dessa forma, a memória explicita foi subdividida teoricamente em Memória

Episódica, relacionada com lembrança de coisas específicas associadas a um tempo e

lugar específicos - recordação do que se fez em um dia particular ou lembrar quando

tomar uma medicação e Memória Semântica, envolvendo a memória para conhecimento

factual e conhecimento de mundo - recordar, por exemplo, quais medicamentos são

tomados no caso de determinadas doenças ou que vacinas previnem doenças (Schaie e

Willis, 1996, apud Abreu, 2000), o significado de palavras, conceitos e símbolos, assim

como as regras para manipular informações (Alvarez, 2002, apud Dibo, 2004).

22
b) Memória Implícita ou não-declarativa

A memória implícita ou processual envolve a expressão de uma informação

sem consciência de sua aquisição no espaço e no tempo. De acordo com Schacter (1987,

apud Abreu, 2000), “é revelada quando a experiência prévia facilita o desempenho

numa tarefa que não requer a evocação consciente ou intencional daquela experiência”,

isto é requer uso de uma experiência prévia, para aprendizagem ou condicionamento

(Dibo, 2004).

Repercussões do envelhecimento sobre os diferentes fatores da memória

A memória no envelhecimento normal sofre um delicado declínio, algumas

vezes devido a fatores biológicos naturais ou devido a patologias comumente

encontradas em indivíduos nesta faixa etária (Albuquerque, 2005).

Um fator de forte influência é a alta freqüência de estereótipos que

circundam o cotidiano do idoso. Estes fatores acabam influenciando na memória por

causarem declínio da atenção e a perda de auto-estima, autoconfiança e

motivação(Abreu, 2002).

A metamemória, isto é, a auto-avaliação da capacidade de memória é um

fator prejudicado por este estereótipo relativo ao envelhecimento. O idoso já se prepara

pra ir aos poucos perdendo suas capacidades, mesmo que isso não chegue a acontecer, o

que afeta a auto-estima e motivação do indivíduo, levando-o a reais declínios. Essa

auto-imagem distorcida também leva a traços depressogênicos, que se relaciona

negativamente com todos os processos cognitivos, principalmente a atenção e a

memória (Guerreiro e Caldas, 2001 apud Hamilton, 2002).

Do ponto de vista metodológico, dois tipos de abordagem vêm sendo

empregadas para investigar as alterações da memória no envelhecimento: a diferencial e

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a experimental. A abordagem diferencial envolve análise de medidas de desempenho

em testes cognitivos e a correlação estatística com a idade dos sujeitos. A abordagem

experimental, por outro lado, envolve submeter sujeitos de diferentes idades a testes

específicos e comparando diretamente o desempenho dos grupos (Abreu, 2000). O

referencial deste trabalho se liga à abordagem diferencial, comparando o desempenho

de adultos jovens e adultos idosos.

De uma maneira geral, quando o raciocínio é empregado para solucionar um

problema não familiar ou problemas estruturalmente complexos que exigem dos sujeitos

distinguir entre informação relevantes ou elementos redundantes, as pessoas idosas

tendem a desempenhar pior (Lezak, 1995, apud Abreu, 2000).

Pessoas em idades mais avançadas têm se mostrado com desempenho baixo

também nas situações em que se exigem manipulação de informações durante a

realização de tarefas complexas, principalmente as que envolvem duas ou mais

atividades que precisam ser realizadas ao mesmo tempo, como, por exemplo, ficar

guardando um número de telefone enquanto procura-se um lápis e um papel para anotá-

lo (Abreu, 2000).

A formação e abstração de novos conceitos também são tarefas que parecem

sofrer com a idade, já que as pessoas idosas parecem tender a pensar em termos mais

concretos e a flexibilidade mental necessária às novas abstrações parece diminuir com a

idade. Em pessoas idosas saudáveis, problemas como a formação de novos conceitos e

flexibilidade mental podem não se tornar pronunciados, podendo surgir simplesmente

como uma dificuldade de adaptar-se a novas situações (Lezak,1995 apud Abreu, 2000).

Por outro lado, as habilidades cristalizadas, ou seja, bem praticadas e

familiares; condicionadas ou utilizadas com maior freqüência, como o vocabulário, por

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exemplo, ou a memória autobiográfica, pode não só se manter intactas como também

atingir crescimento com a idade (Birren e Schoroots, 1996, apud Abreu, 2000).

a) Em relação à memória de curta duração

Em relação à repercussão da idade sobre o desempenho cognitivo, tem-se

observado que o tipo de memória mais afetado pela idade é a memória de curto prazo,

principalmente a memória de trabalho (Abreu, 2000). Os idosos parecem apresentar pior

desempenho em tarefas que exijam o uso da memória operacional, mais especificamente

o executivo central, que sofre influência de problemas atencionais e de fatores

emocionais – como medo de fracasso, ansiedade, etc (Vieira e Koenig, 2002).

Alguns autores alegam que a relação entre a memória de trabalho e o

envelhecimento cognitivo está na redução dos recursos de processamento, e a falha dos

mecanismos de inibição de informações supérfluas (Salthouse, 1991 apud Parente e

cols, 2006). Ou seja, se a seleção de estímulos relevantes e descarte de informações

desnecessárias se encontra prejudicada, o processamento das informações fica mais

lento e deficitário, sem a ajuda do mecanismo de filtragem de informações relevantes

(Vieira e Koenig, 2002).

A idade parece ter pouco efeito sobre os outros componentes da memória de

trabalho (Parente e cols, 2006). Para Guerreiro e Caldas, (2001 apud Hamilton, 2002), a

memória operacional pode sofrer declínio por conta da menor capacidade de

armazenamento, ou devido a uma ineficiência na manutenção da informação. Outra

hipótese está na não utilização de estratégias externas e internas de auxílio na

codificação e evocação, o que leva a uma atividade de baixa eficiência.

25
b) Em relação à memória de longa duração

Em relação à memória secundária, os processos de codificação e evocação

apresentam-se pouco afetados, mas de forma perceptível. Na codificação, a

classificação do evento para a memorização se dá de forma indigente, sem um

tratamento semântico. Conseqüentemente, não há discriminação do material e ser

evocado, e assim, o resgate de informações passa a ser também comprometido

(Guerreiro e Caldas, 2001 apud Hamilton, 2002).

A memória explícita e seus componentes parecem ser mais afetados tanto

pelo envelhecimento normal (ou seja, sem relação direta com distúrbios demenciais)

quanto pelo acompanhado de patologias neurológicas. Em contrapartida, alguns estudos

demonstram não haver declínios significativos nas capacidades de memorização

implícitas (Parente e cols, 2006), como por exemplo, as habilidades motoras (Alvarez,

2002 apud Dibo, 2004).

A memória episódica tente a piorar com a idade, relacionando-se com as

dificuldades de atuação no ambientem (Vieira e Koenig, 2002). Aparentemente as

falhas estão vinculadas a dificuldades na codificação e recuperação, e não somente no

armazenamento (Parente e cols, 2006). A memória episódica é também afetada no

envelhecimento patológico, principalmente nas demências (Dibo, 2004).

A memória semântica raramente sofre declínio, talvez pela alta carga

emocional em que as situações foram armazenadas no passado (Vieira e Koenig, 2002).

Para alguns autores ela pode até mesmo ser aprimorada, uma vez que se relaciona a

vocabulário e a conhecimento de mundo (Dibo, 2004). Outro aspecto da memória que

pelo mesmo motivo não sofre perdas, e pode até mesmo se aprimorar, refere-se à

memória autobiográfica (Hamilton, 2002).

26
Em relação à prospecção de tarefas para o futuro, isto é, em relação à

lembrança da intenção de realizar determinada ação, as pessoas em idade mais avançada

parecem observar dificuldades. No entanto, Segundo Parente e colaboradores (2006), o

declínio dessas habilidades pode ser amenizado com o uso de estratégias, que são

utilizadas em reabilitação cognitiva. Essas estratégias podem ser externas (como

agendas, anotações, bilhetes) ou internas (como a associação ou o emparelhamento de

informações parecidas).

Por fim, faz-se importante ressaltar que mesmo sendo passíveis de

dissociação para conceituação e estudo, os sistemas de memória atuam interativamente

no processamento cognitivo normal (Abreu, 2000). Ainda existem hoje várias tentativas

de explicar a memória em termos de seus sistemas (Lasca, 2003) e relacionar cada um

deles ao envelhecimento patológico e saudável (Yassuda, 2002). Algumas se baseiam

nos modelos já descritos e apresentados, e outras na teoria do processamento da

informação, apresentada a seguir.

27
CAPÍTULO IV

A Abordagem do Processamento de Informação

A teoria do processamento de informação é uma das áreas da psicologia que

mais tem contribuído com a questão do envelhecimento (Parente e cols, 2006) e tem

como base uma analogia entre a memória e o computador (Neri, 2001 apud Lasca,

2003). A abordagem de processamento da informação se preocupa em conhecer os

mecanismos da cognição humana, dentre eles, a memória, e como elas podem ser

afetadas pelo envelhecimento (Parente e cols, 2006).

De acordo com essa teoria, a memória seria composta por estruturas e

processos que juntos seriam os responsáveis pela passagem de informações no sistema

nervoso, sendo eles comparáveis, respectivamente, ao hardware e aos softwares

(Yassuda, 2002). Assim como no computador, postula-se que a memória humana tenha

um processador principal (o executivo central), estruturas de arquivamento,

componentes de extração de informações (Yassuda, 2002) e também subsídios para

tratamento, ou manipulação, das informações recebidas e mantidas (Sternberg, 2000).

Ao longo dos anos, os resultados de pesquisas neuropsicológicas foram

enfraquecendo a hipótese inicial da semelhança estrutural ou funcional entre o Sistema

Nervoso Central e o computador (Lasca, 2003), o que levou o cognitivismo a abandonar

progressivamente os modelos da informática em beneficio dos modelos de rede, de

inspiração conexionista, especialmente no que tange a memória (Sternberg, 2000).

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Modelos conexionistas: distribuição serial e em paralelo

As informações recebidas pelo organismo através dos órgãos dos sentidos

podem ser manipuladas de duas maneiras: em série, ou de forma paralela. O Tratamento

em Série (ou serial) refere-se às operações que são feitas uma após a outra, isto é, uma

sucessiva à outra. O Tratamento em Paralelo das informações refere-se à manipulação

simultânea de múltiplas operações (Sternberg, 2000).

Resultados de estudos psicobiológicos e pesquisas cognitivas parecem

indicar que grande parte da cognição humana envolve um tratamento em paralelo, no

qual são permitidas múltiplas operações simultaneamente (Doron & Parot, 2001). O

tratamento em série no cérebro humano poderia resultar em um desempenho

demasiadamente lento para dominar a quantidade de informações que este órgão

manipula (Abreu, 2000). Além disso, os seres humanos parecem ser capazes de

manipular até mesmo informações incompletas e distorcidas (degradadas), o que não

ocorre na máquina (Sternberg, 2000).

Na década de 1970 Shallice e Warrigton (apud Lasca, 2003) sugeriram que

o funcionamento dos processos cognitivos não seria serial, mas em paralelo.

Presentemente, muitos psicólogos cognitivos, como James Mcclelland e David

Rumelhart, estão explorando os limites dos modelos paralelos, freqüentemente

denominados Processamento Distribuído em Paralelo (PDP), ou Modelos

Conexionistas (Sternberg, 2000).

A idéia principal destes modelos envolve a noção de “redes de memória”,

conceituadas por Sternberg (2000) como “um conjunto de elementos ou conceitos

interconectados”. Os elementos (ou conceitos) são chamados “nós da rede”, ou nódulos.

Cada nódulo é conectado a muitos outros nós, isto é, cada conceito é interligado a

inúmeros outros conceitos. Esse padrão de nós interconectados, ou conceitos

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interligados, permite a pessoa organizar o conhecimento nas conexões entre os vários

nós, ou seja, reflete a capacidade do ser humano em manter e tratar diferentes

informações simultaneamente, de maneira eficaz, através de uma rede distribuída por

meio de números incalculáveis de locais no cérebro.

Através dos modelos conexionistas, as diversas noções contemporâneas

sobre memória puderam ser integradas (Lasca, 2003). Vários pesquisadores propuseram

modelos a partir do processamento distribuído em paralelo, tendo como destaque o

trabalho de McClelland e Rumelhart (1985, apud Sternberg, 2000) que utilizaram os

processos fisiológicos cerebrais como uma metáfora para compreender a cognição.

Traçando um paralelo, estes autores compararam o cérebro humano como o

computador e o sistema nervoso com o seu sistema operacional básico, cuja função é a

manipulação das informações recebidas através dos mecanismos de input (entrada de

informações, isto é, através dos órgãos dos sentidos) (Sternberg, 2000). A função

primordial do sistema nervoso é a difusão (transmissão) e a manipulação (tratamento)

das informações oriundas do ambiente e que são necessárias à sobrevivência da espécie

(Doron e Parot, 2001).

Primordialmente há dois tipos de comunicação: intraneuronal – dentro de

cada neurônio; basicamente eletroquímica –e interneuronal – entre neurônios, realizadas

por meio das sinapses (Sternberg, 2000). Com referência à Neuroquímica, considera-se

que a memória se envolva ativamente com a transmissão das informações entre as

células neurais, constituindo-se na modificação na forma e na função das sinapses

envolvidas (Lent, 2001).

A informação recebida, ou seja, a estimulação, leva o organismo a liberar

neurotransmissores que fazem com que um neurônio específico necessário à

transmissão dessa informação seja ativado. Para que não sejam desencadeadas

30
transmissões sinápticas sem necessidade, o neurônio não se ativa com qualquer tipo de

estimulação, há um nível de ativação pré-determinado para cada neurônio, para que ele

inicie sua função (Lent, 2001). Da mesma forma, os estímulos externos percebidos

pelos órgãos dos sentidos não se consolidam diretamente na memória. São necessários

níveis pré-determinados de emoção, atenção e motivação, por exemplo, para que uma

informação se consolide na memória de trabalho, na memória de curto prazo, ou ainda

na memória de longo prazo. Isso impede que toda e qualquer informação que chegue ao

organismo seja considerada, evitando sobrecarga (Sternberg, 2000; Lent, 2001)

De acordo com McClelland (apud Sternberg, 2000), a rede compreenderia

em unidades individuais semelhantes aos neurônios que podem transmitir sinais

ativadores das demais unidades na rede, isto é, ativarem outros neurônios. Ao mesmo

tempo, as unidades podem também transmitir sinais inibidores às demais unidades, ou

seja, não ativando outros neurônios. Quando o organismo recebe uma nova informação,

a ativação que a unidade gera pode fortalecer ou enfraquecer as conexões entre as

unidades seguintes. Ou seja, manter a informação ou descartá-la.

Através dos modelos conexionistas, pode-se explicitar melhor como os seres

humanos são capazes de manipular uma quantidade muito grande de operações

cognitivas ao mesmo tempo. Pelo modelo de distribuição em paralelo, tem-se uma

explicação melhor sobre a rapidez, a exatidão e a eficácia do processamento da

informação (Sternberg, 2000).

Entretanto, o problema da existência de um tratamento em série ou em

paralelo não está resolvido (Doron & Parot, 2001). À primeira vista, pode-se pensar que

o tratamento em série demanda mais tempo na evocação de informações, enquanto o

tratamento em paralelo seria o mais parecido com o funcionamento do cérebro, por se

envolver com a capacidade de raciocinar sob várias situações ao mesmo tempo. No

31
entanto, sabe-se que a memória de curto prazo, por exemplo, armazena informações ou

eventos de forma serial, para que seja possível uma evocação mais imediata (Vieira e

Koenig, 2002). Portanto, dependendo da varredura que o cérebro demanda à memória, o

tratamento em paralelo da informação pode demandar mais tempo (Sternberg, 2000).

Basicamente, se uma tarefa envolve uma única categoria de informações,

pode ser mais rápido e funcional ao cérebro trabalhar de modo serial. E em caso de mais

de uma categoria, cabe o tratamento em paralelo (Sternberg, 2000). Para Tulving, (1995

apud Lasca 2003), a codificação da informação nos sistemas de memória dar-se-ia de

forma serial, o processamento de armazenamento seria paralelo e o processo de

evocação seria independente.

Repercussões do processamento de informação no envelhecimento

Ao longo do desenvolvimento, o que se observa inicialmente é um aumento

na velocidade de processamento, uma vez que o organismo adquire mais recursos para

tal. Com o avançar da idade, porém, este quadro vai se modificando e a velocidade de

processamento passa a cair (Squire e Kandel, 2003). A baixa velocidade no

processamento é resultado do declínio físico do sistema nervoso, com a redução no

número de interconexões entre neurônios e à menor eficiência dos neurotransmissores

(Dibo, 2004). Entretanto, as alterações no desenvolvimento envolvem mais do que a

simples mudança na velocidade do processamento. Da psicologia cognitiva derivam

diferentes abordagens teóricas que tentam explicar os efeitos do envelhecimento sobre a

memória, em relação ao processamento de informação (Lasca, 2003).

De acordo com Craik e Lockhart, (1972, apud Lasca, 2003) os déficits de

memória no envelhecimento se referem à déficits na codificação. Com o avançar da

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idade a codificação passa a se tornar superficial e conseqüentemente insuficiente para

assegurar recordação.

Mary e Kliegl (1993 apud Squire e Kandel, 2003) sugerem que um fator que

contribui para o declínio relacionado com a idade na tarefa, ou seja, se ela exige

transformações múltiplas simultâneas ou seqüenciais. Com a idade, o mecanismo de

inibição do processamento de informações irrelevantes se torna ineficiente,

sobrecarregando a memória, impedindo que a informação alvo seja recordada (Lasca,

2003). Por esta razão, o organismo vai perdendo gradativamente a capacidade de

realizar tarefas simultaneamente, isto é, vai perdendo capacidade de organização em

paralelo (Abreu, 2000).

Em 1985, Salthouse teorizou que com o envelhecimento, existiria uma

diminuição na capacidade da memória pela diminuição do número de nódulos nas redes,

causando diminuição na rapidez do processamento e conseqüente déficit. Assim, as

pessoas idosas podem encaixar informações em redes preexistentes de conhecimento,

mas têm dificuldade na construção de novas associações para formar novos esquemas.

(Lasca, 2003).

Hasher e Zacks (1988) propuseram que o envelhecimento causa um

decréscimo em habilidades ligadas ao processo de atenção, como a de inibir

informações irrelevantes. Mais recentemente, algumas pesquisas apontam que o aspecto

diferencial mais relevante encontra-se no tipo de processamento exigido e nos fatores

que influenciariam o processamento da informação, como as características da pessoa;

fatores associados à aprendizagem ou codificação da informação; e ainda às

características do material a ser aprendido (Abreu, 2000).

Segundo Falkenstein & Sommer (2006), o real motivo para o atraso

cognitivo em idosos reside no tempo necessário para os preparativos da resposta

33
motora. As pessoas mais velhas são suscetíveis a estímulos de distração tanto quanto os

mais jovens, mas apesar disso, cometem apenas metade da quantidade de erros, se não

forem considerados os tempos de resposta. O cérebro do idoso parece se preparar mais

para a execução de uma tarefa, despendendo mais esforço para chegar ao resultado,

como se quisesse compensar o limiar mais alto da resposta com uma resposta sem

equívocos e sem erros.

Por outro lado, alguns pesquisadores argumentam que muitas das diferenças

de idade observadas são devidas a fatores não cognitivos, entre eles o grau de

escolaridade, nível socioeconômico (Magaziner e col., 1987, apud Abreu, 2000), baixa

motivação, problemas sensoriais, ansiedade, fadiga e a depressão (Lasca, 2003). A partir

dessa ótica, o constante envolvimento em atividades intelectuais (treinamento) pode

alterar a velocidade das mudanças observadas ao longo do envelhecimento. Além das

variáveis educacionais, adultos jovens e idosos podem diferir em estilo de vida e

personalidade que podem afetar o desempenho de memória (Schaie e Willis, 1996, apud

Abreu, 2000).

34
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A antiga crença popular de que o envelhecimento resulta inexoravelmente

numa redução do desempenho da memória vem sendo não só amplamente discutida

como também submetida à investigação experimental. Enquanto alguns estudos relatam

uma acentuação das dificuldades de memória ao longo da idade, outros descrevem

ausência de prejuízos em idosos. Esse tipo de controvérsia pode estar relacionado tanto

a diferenças reais individuais entre os idosos, à natureza dos testes empregados, ou

ainda à forma de avaliação e discussão dos resultados obtidos.

Mesmo com toda essa dicotomia, pesquisadores parecem chegar a uma

mesma conclusão ao observar que as falhas de memória podem ser decorrentes de

dificuldades outras do que simplesmente guardar a informação e depois buscá-la. As

funções cognitivas se envolvem também com outras funções superiores, como a

atenção, a motivação, a criatividade; e recebem influências diversas do ambiente, da

carga emocional envolvida, da ansiedade, do humor, do estilo de vida, etc.

No idoso há uma tendência constante de se associar a memória com perdas e

declínios, tanto por uma questão social e cultural quanto por uma pré-concepção relativa

ao assunto, devido às constantes queixas dos idosos em relação à “falta de memória” no

cotidiano. Contudo, foi possível apontar neste trabalho que nem todas as interfaces da

memória são prejudicadas com o envelhecimento.

A memória de curta duração apresenta alguma alteração, sendo a memória

de trabalho, ou operacional, a mais afetada. No geral, o desempenho de funções que

independem deste fator específico da memória não parecem estar alteradas no

envelhecimento. A memória de procedimento, por exemplo, se mantém intacta; e a

35
recordação de fatos pessoais, histórias familiares ou relativas a eventos sociais

costumam ser lembrados.

Em relação à memória de longa duração, a memória semântica parece

bastante mantida, enquanto a memória episódica, vinculada á memória explicita, é a que

se mostra mais vulnerável aos efeitos da idade, juntamente com a memória dirigida para

os fatos do futuro, a memória prospectiva, ou “memória de agenda”.

Assim sendo, pôde-se perceber que apenas alguns fatores da memória

sofrem declínios, enquanto outros se mantém estáveis, existindo ainda alguns aspectos

que se aprimoram com o tempo. O vocabulário, por exemplo, que se envolve em todos

os processos da memória, não só tende a se manter como pode se aprimorar com o

envelhecimento.

A visão negativista é fruto de teorias antigas que viam a memória como um

construto único que com o passar dos anos tenderia a se perder. Em resultado disso,

várias crenças distorcidas foram geradas frente à capacidade mnemônica dos idosos,

inclusive dentro da própria faixa etária, que subestima suas capacidades.

Uma visão pessimista como esta, ao se relacionar com processo de

envelhecimento, torna-se algo extremamente prejudicial que acarreta em diversos

problemas. Primeiramente porque a memória não é um construto único e nem todas as

suas faces se envolvem com perdas de capacidades funcionais.

Em segundo lugar, essa visão contribui para que os déficits de memória

sejam acrescidos. Por se tratar de uma crença pessimista, ela faz com que o nível de

ansiedade do indivíduo aumente, abalando a sua autoconfiança e a motivação e gerando

um ciclo vicioso. Em outras palavras, a queda na motivação influencia negativamente as

funções mentais superiores, como a atenção e a memória, assim como a perda de

atenção e de memória gera uma queda na motivação. Assim sucessivamente.

36
Desse modo, os idosos, sentindo-se ativos, passam a ter uma melhor pré-

concepção de sua memória e tornam-se menos ansiosos em relação à manutenção de

suas capacidades funcionais. Assim, quando algumas falhas se apresentam, elas podem

representar para o sujeito uma incapacidade de agir no seu ambiente. Por esta razão, é

importante, e também indispensável, não só a prevenção e reabilitação de déficits, mas a

estimulação e otimização das faces da memória que são mantidas saudáveis, como é

proposto pela teoria de Life-span.

A teoria de Life-span, ou curso da vida, contradiz a opinião generalizada, e

por muitos enraizada, de que ao envelhecer, todo ser humano, invariavelmente,

desenvolve deficiências. A seleção e otimização das capacidades em bom nível

compensam as perdas ocasionadas com o envelhecimento. Isso aumenta a

funcionalidade do idoso, além de trabalhar com a auto-estima, motivação e os outros

tanto fatores a eles relacionados. Por esta razão, é importante manter uma qualidade de

vida, para melhoria da motivação, quebrando o ciclo vicioso de perdas.

Essa teoria ajuda a desconsiderar outro mito muito comum acerca

envelhecimento, o qual gira em torno da idéia de que na velhice já é tarde para a adoção

de um estilo de vida saudável. Entretanto, pode-se pensar naqueles que se preparam

para o envelhecimento e procuram se adaptar às mudanças planejando e muitas vezes

conseguindo se ajustar melhor às condições de vida quando em idade mais avançada.

Os programas de promoção de saúde, de acordo com as pesquisas atuais,

têm observado essas questões. As novas gerações estão começando a pensar em termos

de prevenção de doenças e investindo numa boa qualidade de vida durante a juventude,

refletindo as suas conseqüências na velhice. A qualidade de vida influencia

reciprocamente na memória, através do treinamento e da prática, de acordo com a

motivação e a sua influência na atenção.

37
De acordo com diversas pesquisas envolvendo plasticidade neuronal, por

exemplo, tornou-se claro que a reestruturação neural pode compensar eventuais déficits

de rendimento. Porém, aparentemente nem todas as pessoas em idade avançada

apresentam essa capacidade, talvez um fator plausível para que se continue investigando

a influência da qualidade de vida sobre o envelhecimento como um todo, em especial,

relacionando-se à memória.

A memória é o processo mental mais amplamente estudado porque

geralmente se concentram nela as queixas principais dos idosos. No entanto, a ênfase

dos estudos se encontra na prevalência de demência, uma vez que algumas falhas

consideradas sinais de dificuldade cognitiva podem mascarar alguns tipos de doenças.

Muitos estudos não apontam resultados significativos quando se trata de

envelhecimento saudável.

Ao mesmo tempo, a maioria das atividades direcionadas a idosos está

restrita a Universidades da Terceira Idade e outros programas realizados nas

comunidades, sendo que as pesquisas se relacionam com idosos institucionalizados ou

que já apresentam alguns indícios de processos demenciais o que acarreta em resultados

limitados e de difícil generalização.

Para promoção de envelhecimento saudável é imprescindível que as

pesquisas sejam realizadas com mais freqüência envolvendo pessoas que apresentam

envelhecimento saudável. Por esta razão, para futuras pesquisas é importante que o

cotidiano dos idosos saudáveis seja colocado em destaque.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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