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Liverani, Palestina: Modéstia dos recursos naturais e ASPECTOS

Mario. marginalidade no âmbito regional GEOGRÁGICOS


Para além da 01
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 27 “A Palestina é um país modesto e fascinante. 1
Modesto pelos recursos naturais e pela
marginalidade no âmbito regional.

OBSERVAÇÕES:
Liverani, Agricultura pluvial e imprevisível ASPECTOS
Mario. Para GEOGRÁGICOS
além da 01
bíblia:
história
antiga de
Israel.

Pg 28 “A agricultura, portanto, não é irrigada (exceto em 2


pequenos “oásis” em torno das fontes), mas pluvial,
ou seja, depende das incertas precipitações, a que
são prepostas divindades imprevisíveis – às vezes
dispensadoras e benévolas, às vezes punitivas. “

OBSERVAÇÕES: Comparar com as teorias de Eliade sobre a relação entre agricultura


imprevisível e divindades mais imprevisíveis ainda.
Liverani, Pequena extensão do país ASPECTOS
Mario. Para GEOGRÁGICOS
além da 01
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 28 “O país é pequeno: a Cisjordânia, a zona habitada 3
”de Dan a Be’ersheba”, tem a extensão de 200km
(norte-sul) por 80km (Leste-Oeste), a que se deve
acrescentar uma outra faixa de 40km na
Tranjordânia. Ao total são cerca de 20.000km. ”

OBSERVAÇÕES:
Liverani, A geografia do lugar não permite grandes ASPECTOS
Mario. Para assentamentos agrícolas, no entanto é GEOGRÁGICOS
além da adequada ao pastoreio transumante e 01
bíblia: agricultura familiar.
história
antiga de
Israel.
Pg 28-29 “Nem todo o território pode ser utilizado para as 4
culturas agrícolas. As únicas campinas aluviais
estão no médio vale do Jordão e na planície de
Yizre’el...todo o resto são colinas e montanhas,
outrora coberta de bosques, mas depois
desnudadas pela ação do homem e da cabra,
destinadas a uma erosão dificilmente contida pela
cansativa obra dos socalcos. Cenário adequado
para um pastoreio de transumante gado miúdo
(ovelhas e cabras) e para a agricultura de pequeno
formato, de dimensões de empresas familiares e de
vilas em miniatura. “
OBSERVAÇÕES:
Liverani, Escassez de metais. ASPECTOS
Mario. Para GEOGRÁGICOS
além da 01
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 30 “Os metais são na verdade muito escassos...não há 5
pedras semipreciosas...não há madeira nobre. “

OBSERVAÇÕES
Liverani, População baixa como indicador das ASPECTOS
Mario. Para dificuldades do meio ambiente GEOGRÁGICOS
além da 01
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 30 “Se o número de habitantes é válido indicador da 6
medida em que uma dada região oferece recursos
para a vida e o desenvolvimento para a vida e o
desenvolvimento de comunidades civis, as cifras
falam por si mesmas. Para o período do bronze
recente, quando o Egito e a Mesopotâmia podiam
contar com alguns milhões de habitantes, a
Palestina se quer chegava aos 250 mil habitantes.
No ápice do desenvolvimento, durante o segundo
período do ferro, poderá chegar a 400 mil pessoas.

OBSERVAÇÕES:
Liverani, Independente de não terem o meio propício, ASPECTOS
Mario. Para conseguiram a partir da união entre natureza e GEOGRÁGICOS
além da memória estabelecer-se por tanto tempo. 01
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 31 "Todavia, esse país tão modesto em recursos naturais e 7
densidade humana desempenhou um papel de primeira
importância nas vicissitudes históricas de grande parte do
mundo. Essa contradição se deve á extraordinária
capacidade que tiveram os habitantes do país de unir
entre si paisagem e memória e, portanto, de carregar sua
terra de valores simbólicos que depois uma sucessiva
história de dispersão e focalização, de afastamento e
retorno contribuiu para difundir amplamente também
fora dele."

OBSERVAÇÕES
Liverani, Capacidade dos habitantes desse país de ASPECTOS
Mario. Para colocar essa terra como prometida pela GEOGRÁGICOS
além da divindade na sua memória, delimitando-a como 01
bíblia: cenário de episódios de valor universais e
história eternos.
antiga de
Israel.
Pg 31 “Não somente a paisagem está fortemente 8
antropotizada em todos os seus detalhes – o que,
aliás, vale para todos os países de cultura antiga -,
não somente seus elementos constitutivos, até os
mais diminutos (um carvalho secular, um poço, uma
caverna, uma ruína antiga, um túmulo de
antepassados), tornam-se base de memória e
atestam a legitimação, mas o país todo, como
unidade decididamente cortada em relação ao
diferente que o circunda, é posto no centro de uma
história que é todo mental: como objeto de uma
promessa divina que faz dele patrimonio seletivo de
alguns grupos com exclusão de outros e como
lugar da presença física da divindade no mundo e,
portanto, cenário de episódios de valor universal e
eterno. As expressões correntes "Terra prometida"
e "Terra Santa" mostram como uma dada região
tenha podido tornar-se símbolo e valor sem nem
sequer a necessidade de dizer o nome da terra,
porque todos já sabem qual é, sem que haja
margem de equívoco."
OBSERVAÇÕES
Liverani, Composição geopolítica da Palestina e as A QUESTÃO
Mario. Para características topográficas e ecológicas. PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 32 “As características topográficas e ecológicas, em 9
seu cruzamento com o nível tecnológico do mundo
antigo, determinam em grande parte a composição
geopolítica da Palestina por longos milênios. A
dimensão típica das formações estatais antigas é
sempre condicionada pela relação entre fatores
espaciais, densidade demográfica, potencialidade
produtivas. Não se pode viver se não do que se
produz no lugar.
OBSERVAÇÕES

Liverani, Característica do estado cantonal e das cidades. A QUESTÃO


Mario. Para PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 32-33 “ É mais prudente usar o termo neutro e 10
meramente descritivo “estado cantonal” – ou então
o que se usava, “pequeno reino”, em contraposição
ao “grande reino” do soberano imperial. No centro
há, portanto, uma cidade cuja dimensão
correspondente aos recursos do território que ela é
capaz de drenar: na pobre Palestina as cidades do
período do bronze (c. 2800 – 1200) dificilmente
superariam os 3 ou 4 mil habitantes, e a situação
não muda muito no segundo período do ferro (c.
900 – 600), depois da crise do Ferro I, que as tinha
reduzido aos mínimos termos. Na cidade reside um
"rei" em seu palácio (que será um edifício de uns
mil metros quadrados) com uma roda de
dependentes diretos: artesãos, guardas,
servidores."
OBSERVAÇÕES: Anacronismo bíblico ao relatar as conquistas de Josué sobre grandes
reinos cananeus.
Liverani, Pequenez das vilas e sua relação com os transumantes A QUESTÃO
Mario. Para PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 33 " No território agrícola, a população está agrupada em 11
vilas, que vão de meia dúzia de casas a uns cinquentas,
no máximo. Os grupos transumantes estão ligados ás
vilas e são, de qualquer modo, de importância muito
modesta."

As sociedades onde a geografia possibilita o crescimento


populacional, levando-a a complexidade administrativa,
política e social, terão mais chance de crescimento em
todos os níveis, como é o exemplo da Mesopotâmia e do
Egito, o que infelizmente não ocorre na Palestina.
OBSERVAÇÕES:
Liverani, Marginalidade de assentamento, A QUESTÃO
Mario. Para socioeconômico e político PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 34 O terceiro ponto a ser levado em consideração é a 12
marginalidade da Palestina, marginalidade não
propriamente geográfica, mas antes de
assentamento, socioeconômica e política. As terras
agrícolas já são mais pobres do que as dos vales
aluviais do Nilo ou do Eufrates: solos fracos,
agricultura pluvial, produtividade na ordem de 1:3
ou 1:5 (com relação a produtividade tipo 1:10 no
Egito e na alta Mesopotâmia, e de 1:15 e mais na
baixa Mesopotâmia. Além disso essas terras, bem
como a maior parte da população, estão
concentradas quase que exclusivamente em
poucas zonas. “
OBSERVAÇÕES
Liverani, Diferenças entre a zona plana e a zona de A QUESTÃO
Mario. Para relevo. PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 34 “Estabelece-se também uma diversidade tipológica 13
entre a zona plana, com cidade-estado denso e
encastoados uns nos outros, e a zona de relevo,
com estados-cidade ralos, mais livre de se expandir
e também caracterizados por um componente
pastoril mais forte. “

OBSERVAÇÕES: O abandono as zonas menos favorecidas, favorece a marginalização


citadina e a autonomia pastoril.
Liverani, Interação entre agricultores e pastores. A QUESTÃO
Mario. Para PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 36 “A bem conhecida interação entre agricultura e 14
pastorícia é muito estreita e os próprios ritmos da
transumância procuram respeitar os “
encastoamentos com o uso agrícola do território.
Agricultores e pastores habitam as mesmas vilas,
unidade produtiva integrada, embora não
totalmente homogênea. “ (+ fazer uma ficha sobre o
domínio Egípcio)

OBSERVAÇÕES: Teoria de Alt.


Mito Mesopotâmio (agricultor) x Mito hebreu (pastor – Caim e Abel)

Liverani, Topografia das cidades Palestinas e a A QUESTÃO


Mario. Para importância do palácio real. PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 43 “ As cidades palestinas do bronze recente 15
mantiveram a norma da ordem urbanística e dos
muros periféricos construídos no bronze médio,
período de maior desenvolvimento da região. A
capital, cercada de muros, tinha como centro o
palácio real, residência do rei e de sua família, mas
também sede de administração, dos arquivos, de
depósito e de oficinas de artesãos especializados. “

OBSERVAÇÕES:

Liverani, Primogenitura deixa de ser o elemento central A QUESTÃO


Mario. Para na transmissão do poder. PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 44 “A transição da realeza segue as normas em uso 16
para a transmissão hereditária. Já se foi o tempo
em que ela era rigidamente fixada desde o
nascimento e não dava lugar a contendas; agora
(depois da metade do segundo milênio) prevalecem
as normas de que “ não há (distinção entre) o
primogênito e o segundo filho”, e que a herança irá
para quem tiver honrado os pais, a quem enfim tiver
merecido. ”

OBSERVAÇÕES: Essa mudança na primogenitura reflete na história dos patriarcas, e no


quinto mandamento que deve ter sido construído depois de estabelecido esse
pensamento.

Liverani, Localização central da Palestina na rota de A QUESTÃO


Mario. Para tráficos de caravanas entre grandes reinos. PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 47 “ A Palestina está no centro desses tráfegos, 17
atravessada por caravanas em parte dirigidas pelo
Egito aos “grandes reis” asiáticos (de Mitanni, da
Babilônia, de Khatti, da Assíria) e vice-versa. A
troca é em parte conduzida entre a corte e corte,
segundo as regras do “dom” de caráter diplomático
e cerimonial, mas em parte ainda maior segundo as
regras do mercado normal. ”

OBSERVAÇÕES: Se há importações de objetos, pode haver importações de costumes.

Liverani, Desequilíbrio entre a centralidade palacial e a A QUESTÃO


Mario. Para sua base territorial. PALATINA E SEUS
além da DESDOBRAMENT
bíblia: OS 02
história
antiga de
Israel.
Pg 47 Se se considera que o entesouramento e a 18
circulação de bens de prestigio estão
especialmente concentradas nos palácios e que ao
mesmo tempo o território agrícola está em fase de
redução e provavelmente em declínio demográfico
e produtivo, deve-se julgar que a vistosa cultura
“cananeia” do século XIV-XIII é o resultado de uma
crescente pressão socioeconômica exercida pelas
elites palatinas sobre a população agropastoril. Em
outras palavras a “centralidade” do palácio, embora
normal nesse tipo de formações socioeconômicas,
não corresponde a uma relação com sua base
territorial em estado de equilíbrio, mas num forte
desequilíbrio a longo prazo insustentável.
OBSERVAÇÕES: Um dos grandes fatores para a crise palatina.

Liverani, Tamanhos das vilas AS VILAS E AS


Mario. Para QUESTÕES DE
além da PARENTESCO 03
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 48 “ A vila é uma unidade estabelecida de modestas 19
dimensões, mas também uma unidade parental e
uma unidade de decisão. Sobre as dimensões, são
indicativas as listas de Alalakh, que consideravam
vilas (do ponto de vista administrativos) grupos de
casas de num mínimo duas/três a um máximo de
oitenta, com uma média de 25 casas (e cem
habitantes). Na Palestina esses dados devem ser
de modo realista diminuídos em um terço. “

OBSERVAÇÕES:

Liverani, Modos e instrumentos de interação local. Cada AS VILAS E AS


Mario. Para vila tem seu epônimo (identidade) e as relações QUESTÕES DE
além da com as outras vilas (alteridade) reflete as PARENTESCO 03
bíblia: relações “históricas” entre os epônimos no
história passado patriarcal
antiga de
Israel.
Pg 48 “ Mas procuremos configurar os modos e os 20
instrumentos da interação local. Quanto ao
parentesco, é claro que os mecanismos da troca
matrimonial, cruzados com os da subdivisão
hereditária, fazem que numa vila – por exemplo, 25
famílias nucleares – todos sejam parentes de todos.
Isso explica a tendência a considerar a unidade de
assentamento (vila) equivalente a uma unidade de
estirpe, e a chamar a vila pelo nome de um
epônimo. ”
OBSERVAÇÕES

Liverani, Dinâmica de funcionamento interno das vilas e AS VILAS E AS


Mario. Para o seu papel frente ao palácio. QUESTÕES DE
além da PARENTESCO 03
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 49 “ Dentro da vila reinam, então, os princípios de 21
parentesco, colegialidade, solidariedade (vê-se nas
listas de avalistas e nos procedimentos de
empréstimos) e responsabilidade coletiva (vê-se na
cumplicidade tácita que reina em caso de delitos
impunes). Embora pequena, as vilas são
verdadeiros organismos, que o palácio vê como
unidades de cômputo administrativos e como
células territoriais de responsabilidade jurídica,
mas que internamente são vistas e vividas como
grupos parentais ampliados que detém e utilizam
um território agropastoril. “

OBSERVAÇÕES

Liverani, Designação dos nômades nos textos do Bronze OS HABIRU E


Mario. Para Recente. OUTROS
além da NÔMADES 04
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 51 “Mas os textos do bronze recente mostram também 22
autênticos nômades “externos”, definidos com
termos não geográficos, mas coletivos, dir-se-ia
tribais; são os suteus dos textos acádicos e os
shasu dos textos egípcios...A presença deles é
vista como perigosa para quem deve atravessar
aqueles territórios. “

OBSERVAÇÕES

Liverani, Textos mostram nômades a partir da ótica OS HABIRU E


Mario. Para palatina. OUTROS
além da NÔMADES 04
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 52 “Os textos disponíveis (dos arquivos da época ou 23
das inscrições celebrarias egípcias), refletem todos
uma óptica palatina, vêem os nômades como seres
externos e indistinguíveis, e por isso usam termos
gerais e raramente nomes de tribos especificas. ”

OBSERVAÇÕES

Liverani, A crise no sistema palatino OS HABIRU E


Mario. Para Processo de endividamento dos camponeses, OUTROS
além da escravidão por dívidas e fuga de suas terras. NÔMADES 04
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg53 “O bronze recente é um período de fortes tensões 24
socioeconômicas, provocadas sobretudo pelo
processo de endividamento da população
camponesa e pela atitude muito dura e proposital
por parte do rei e da aristocracia palatina. As
dificuldades econômicas induzem os camponeses
“livres” a conseguir trigo em troca de penhores
materiais especialmente terras e depois de
garantias pessoais: mulheres e filhos se tornam
servos do credor, numa servidão teoricamente
temporária , salvo quando se torna permanente na
impossibilidade de pagamento do débito. O último
estádio, quando o devedor deve dar-se a si mesmo
como escravo, fecha o ciclo pela impossibilidade de
recuperação: o desesperado prefere por isso, em
muitos casos, pôr-se em fuga. ”
OBSERVAÇÕES:

Liverani, Origem dos Habiru. OS HABIRU E


Mario. Para OUTROS
além da NÔMADES 04
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 54 “Aos camponeses endividados não resta senão a 25
fuga, antes para estados vizinhos, mas depois (com
a difusão de tratados de recíproca busca e
restituição dos foragidos em estados confins) de
preferência para os espaços de difícil controle que
são as montanhas cobertas de bosques e as
estepes pré-desérticas, aqui os grupos de
refugiados podem se organizar e se unir de algum
modo com os clãs pastoris. Esses grupos de gente
afastados do próprio contexto social de origem de
refugiados em outras partes são definidos como
habiru.”
OBSERVAÇÕES: Comparar com história de Davi e sua fuga para montanhas com grupos
nômades.

Liverani, Características da crise do Bronze Recente AS INVASÕES DO


Mario. Para SEC XII E A CRISE
além da PALATINA 05
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 56 “A atitude dura dos reis cananeus em assunto 26
econômico produz, portanto, um notável
descontentamento da população de base
agropastoril em relação ao palácio. Se a essa
tendência de fundo se unem os danos causados
pela atitude indiferente do faraó com relação às
lutas locais e os sinais muito claros de recorrentes
carestias, de crise demográfica, de restrição das
zonas agrícolas estabelecidas e exploradas, tem-se
um quadro de grave dificuldade que contra
distingue a sociedade siro-palestina (mas sobretudo
Palestina) no fim do bronze recente. Esses
fermentos de crise se inserem como sinais
premonitórios na crise final do período do bronze,
um fenômeno de grande alcance, e que diz respeito
até de diferentes formas, a grande parte do
mediterrâneo oriental e a o O.P. De uma crise de tal
envergadura só se poderia ter saído mediante
reestruturação de alcance igualmente grande. ”

OBSERVAÇÕES: Uma crise multifatorial

Liverani, As três teorias sobre a etnogenia de Israel AS INVASÕES DO


Mario. Para SEC XII E A CRISE
além da PALATINA 05
bíblia:
história
antiga de
Israe
pg 59 “ (1) A teoria da conquista militar, compacta e 27
destrutiva, de direta inspiração bíblica, é ainda
afirmada em alguns ambientes tradicionalistas
(especialmente norte-americanas e israelitas), mas
é agora deixada à margem do debate. (2)
Prevalece hoje a ideia de uma ocupação
progressiva, nas duas variantes (mais
complementares do que exclusivas entre si) da
sedentarização de grupos pastoris já presentes na
área e da infiltração do adjacente pré-desértico. (3).
Enfim, a teoria (chamada sociológica) da revolta
camponesa, que privilegia totalmente o processo
por linhas internas sem contribuições externas. ”
OBSERVAÇÕES: As teorias sobre a origem de Israel

Liverani, A transição do período do Bronze recente para AS INVASÕES DO


Mario. Para o Ferro I foi marcado pelas inovações SEC XII E A CRISE
além da tecnológicas, pela continuidade e pela PALATINA 05
bíblia: complementariedade.
história
antiga de
Israel.
Pg60 “Se se confronta a sociedade Palestina do Bronze 28
recente com o do primeiro período do ferro, não se
pode deixar de constatar: (1) elementos de grande
inovação tecnológica e de assentamento, capazes
de marcar uma incisão profunda e de interesse de
todo o cenário do mediterrâneo e do O.P. (2)
elementos de continuidade, especialmente da
“cultura material” que excluem a possibilidade de
atribuir a substancia do novo cenário e imigrantes
sabe lá de onde (quando os verdadeiros imigrantes,
os filisteus, se manifestam com caracteres bem
coerentes com sua origem estranha); (3) elementos
de complementariedade na ocupação do território,
entre um novo horizonte agropastoril de vilas e o
preexistente horizonte agrourbano. “

“Se esse conjunto de fatores se coagulou num


“momento” (digamos um século) preciso, deve-se
isso com toda probabilidade (seguindo as
indicações historiográficas dos Annales) à soma de
programações temporais de diferentes alcances.
Há uma escansão sobre tempos longos que mostra
a recorrência de reorganização de assentamentos
em conjuntos, especialmente nas zonas semi-
áridas, pela diversa configuração das relações
entre grupos pastoris e comunidades urbanizadas,
com suas causas últimas que incluem as oscilações
climáticas.”

OBSERVAÇÕES: Interessante como os invasores mesmo tendo tecnologia superior


(ferro) aos “canaanitas” em menos de um século já estarão assimilados culturalmente.

Liverani, Mario. Para além Os eventos de média e AS INVASÕES DO SEC XII


da bíblia: história antiga curta duração E A CRISE PALATINA 05
de Israel. ocasionaram a crise
palatina
Pg 60 “A crise socioeconômica no 29
fim da idade do Bronze tem
uma história longa, de pelo
menos três séculos (1500-
1200). Igualmente longa
será a procura de uma nova
ordem (1200-900), mas em
meio a esses dois processos
sociopolíticos e
socioeconômicos de média
duração interpõe-se um
breve período de agitações
eventos que marca a queda
final da já periclitante
sociedade do bronze recente
e abre caminho a nova
ordem.”

OBSERVAÇÕES: As invasões do século XII foram a gota d’água para que o copo
transbordasse (curta duração), no entanto o copo já estava cheio havia um bom tempo
(média e longa duração).

Liverani, O cenário encontrado pelos invasores do século AS INVASÕES DO


Mario. XII e a sua importância para a crise palatina SEC XII E A CRISE
Para além da PALATINA 05
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 61 e 63 “Embora tenha esclarecido e ressaltado que que a 30
crise final do bronze recente tinha precisamente as
características de um processo por linhas internas,
temos de admitir, porém, que o abalo que
determinou o colapso veio de fora, por movimentos
de caráter migratório que, por sua vez, se enquadra
num particular estremecimento no processo de
mudança climática. ”

“Certamente, a crise socioeconômica de longa data,


a crise demográfica em curso, a indiferença da
população camponesa pela sorte dos palácios reais
e as recentes carestias foram outros tantos fatores
de fraqueza para o mundo siro-palestino diante dos
invasores. Todavia, esses últimos deviam ser
dotados de particular agressividade e
determinação, de armazenamento eficaz (longas
espadas de ferro) e de solidariedade social que
lhes permitiam vencer no plano militar cidades
fortificadas e institucionais políticas importantes.”
OBSERVAÇÕES:
Liverani, Mario. Para além A ocupação dos filisteus AS INVASÕES DO SEC XII
da bíblia: história antiga na Palestina e a síntese E A CRISE PALATINA 05
de Israel. que ocorreu entre as duas
culturas.
Pg 65 “Bloqueados na parte do 31
delta egípcio, os “povos do
mar” se estabeleceram em
grande número na costa
palestina. O povo mais
importante os Filisteus,
ocupou cinco cidades na
costa meridional da
Palestina...Meio século
depois da invasão, as
cidades ocupadas pelos
filisteus já estavam plena e
normalmente reinseridas no
cenário palestino. ”

“ Ocupadas e de novo
fundadas as cidades, os
filisteus ali instituíram reinos
com base nos modelos
anteriores, de raio cantonal
e com centro nos palácios
reais. As participações
externas são, porém,
visíveis, seja na onomástica.
Seja em algumas inscrições
do tipo Egeu(como as
tabuinhas encontradas em
DeirÁlla), seja em elementos
da cultura material: em
particular as cerâmicas.”

OBSERVAÇÕE

Liverani, Mario. Para além As consequências das AS INVASÕES DO SEC XII


da bíblia: história antiga invasões pelo mundo E A CRISE PALATINA 05
de Israel. antigo
Pg 65 “A invasão dos “povos do 32
mar” teve repercussões de
vários níveis no destino
histórico da Palestina. Em
primeiro lugar, mudou o
quadro político regional de
toda a parte do oriente
próximo que dá para o
mediterrâneo. As duas
grandes potencias – Egito e
Khatti – que dividiam a
soberania da faixa siro-
palestina desmoronaram
ambas. Embora em
diferentes medidas.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, Como as invasões colocaram fim ao domínio AS INVASÕES DO


Mario. egípcio sobre a Palestina. SEC XII E A CRISE
Para além da PALATINA 05
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 67 “É verdade que o desmoronamento do império hitita 33
não tem interesse direto para a Palestina, mas pôs
fim à contraposição Khatti/Egito que condicionara a
política do Oriente Próximo nos séculos anteriores.

“”A ruina do Egito foi menos dramática; o poder


central absorveu o choque a ponto de poder
celebrar triunfalmente a vitória sobre os invasores
(quer do Oeste, quer do Leste), bem como a paz e
a segurança interna recuperadas. Mas na realidade
a contenção dos líbios se deu sob a condição de
lhes deixar uma saída dentro do delta, onde, com
efeito, as tribos líbias se instalaram em grande
número bem além da linha de fortalezas que os
faraós do período raméssida tinham edificado. E
também a contenção dos “povos do mar” aconteceu
com a condição de os deixar se alojar em massa na
costa Palestina, desde que se mantivesse algum
controle sobre as possessões asiáticas. O império
construído por Tutmósis III deixou, de fato, de
funcionar (nos modos vistos no cap. 1, seção 4)
depois da grandiosa batalha que Ramsés III se
vangloria de ter vencido. ”

“...a Palestina se viu pela primeira vez, depois de


meio milhão, livre da soberania estrangeira e da
ameaça de intervenções externas: uma situação
que durará (como veremos) até a expansão
imperial neo-assíria e permitirá, portanto, um livre
desdobramento da dinâmica política interna. “
OBSERVAÇÕES

Liverani, uma crise multifatorial leva ao fim da hegemonia AS INVASÕES DO


Mario. palatina e de suas complexidades, SEC XII E A CRISE
Para além da transformando-a em pequenas vilas. PALATINA 05
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 68 - 69 Muitos palácios reais e cidades palestinas do 34
Bronze recente foram destruídas durante as
invasões ou depois delas...Por certo, as destruições
não estão “assinaladas”, o que deu e dá espaço a
diversas hipóteses: os povos do mar, as tribos
proto-israelitas (ou talvez outras provenientes do
exterior), intervenções egípcias, guerras locais,
revoltas de camponeses. Mas a causa de uma
única destruição não é tão importante quanto o
quadro em seu conjunto. “

“...ou seja, que o desenvolvimento palatino tenha


atingido um de seus ápices com o bronze recente,
para depois atingir seu mínimo com o primeiro
período do ferro: entre essas duas fases contíguas,
mas tão diversas, situa-se um verdadeiro colapso. “

“ Com os palácios desmoronaram também as


estruturas administrativas, artesanais e comerciais
que estavam fundadas neles e em funções deles.”

“ Sem seu núcleo palatino, as cidades se reduziram


em dimensão e complexidade administrativa. A
redução é obvia: basta tirar de uma cidade do
bronze recente o palácio real, as habitações dos
altos funcionários e da aristocracia militar, as
oficinas de artesãos, os arquivos e as escolas para
obtere uma grande vila semelhante as outras. “

OBSERVAÇÕES

Liverani, Como a junção entre os invasores, as tribos O CRESCIMENTO


Mario. pastoris e os habirus contribuíram para uma DO ELEMENTO
Para além da nova lógica antipalatina pautada na TRIBAL SOBRE A
bíblia: hospitalidade, reciprocidade e parentesco. CRISE PALATINA
história 06
antiga de
Israel.
Pg 69-70 “Se as invasões pelo mar deram a contribuição 35
decisiva para o colapso, foram os grupos pastoris,
que contribuíram mais para a configuração de uma
nova ordem. ”

“Um processo de nomadização - que a longo prazo


corresponde à progressiva redução de
assentamentos estáveis do Bronze antigo ao
Bronze médio e ao recente – no médio período
emerge também nas turbulências e na falta de
compromisso, tipo habiru que já assinalamos.
Naturalmente “bandos armados” e “tribos pastoris”
são realidades bem diferentes, mas tem em comum
caracteres de mobilidade e belicosidade, situação
extra urbana e atitude antipalatina.”

“A crise do palácio com suas relações hierárquicas,


serviu de contrapeso a consolidação da tribo, com
suas relações de nobreza. Em cada vila,
esmorecida a função de célula de cômputo para a
administração central, consolidou-se a de grupo
parental estável, coincide com a de uma unidade de
exploração territorial. As vilas vizinhas consideram-
se irmãs no âmbito de um agrupamento mais amplo
(que chamamos convencionalmente de tribo) no
qual subsistiam hábitos de troca matrimonial,
relações de hospitalidade (nos deslocamentos),
ação comum por necessidade de defesa,
coordenação para os percursos e os períodos de
transumância.”

OBSERVAÇÕES
Liverani, Aparição do modelo genealógico regendo a Elemento tribal
Mario. ideologia tribal. como alternativa
Para além da ao palácio em
bíblia: crise 07
história
antiga de
Israel.
Pg 70 - 71 “ É um traço característico do período do ferro que 36
todas as relações sociais sejam representadas
segundo um modelo genealógico. O nome da vila é
o do chefe de que todos os habitantes descendem
por ramos familiares. E todos os epônimos das vilas
serão considerados os filhos ou talvez os netos do
epônimo tribal. O modelo genealógico é claramente
artificial: as vilas e as famílias, são elas mesmos
aparentadas, não por descendência comum, mas
por uma secular prática de matrimônios cruzados –
portanto, por convergência e não por divergência.”

“ O fato é que a tribo, entendida como


agrupamentos de vila que decidem se considerar
aparentadas entre si por descendência comum,
assume uma dimensão territorial e demográfica
considerável, e é capaz de se propor aos seus
próprios membros, como válida alternativa política
ao palácio real. De resto o sentido de comunhão
parental, que para as tribos constituídas pela
reunião de vilas é uma conquista não imediata, é
porém, uma realidade de fato para aquelas tribos
de cameleiros nômades, que agora tomam formas
as margens mesmas da Palestina...resta também
para elas, aliás, a artificiosidade de ligações
genealógicas mais vastas e também de histórias ou
anedotas que fundamentam a aliança ou a
inimizade com outras tribos.”
OBSERVAÇÕES: a criação dos epônimos serve tanto como legitimação da terra no caso das doze
tribos de Israel, como fatos de identidade no caso dos patriarcas.

Liverani, Ascensão da assembleia citadina frente ao Elemento tribal


Mario. poder real ainda existente. como alternativa
Para além da ao palácio em
bíblia: crise 07
história
antiga de
Israel.
Pg 71 “Enfim, mesmo onde haja um ordenamento 37
palatino, o modelo da realeza deve se adaptar ao
transformado clima da época. O papel da
assembleia citadina que no bronze recente era
operante somente no caso de crise externa, torna-
se provavelmente prática normal.
OBSERVAÇÕES

Liverani, A retomada de atitudes paternalistas e pastoris Elemento tribal


Mario. esquecidas no Bronze recente como alternativa
Para além da ao palácio em
bíblia: crise 07
história
antiga de
Israel.
Pg 71 “Reaparece no período do ferro epítetos e atitudes 38
“paternalistas” e “pastoris” que o bronze recente
tinha cancelado totalmente. O fato é que a crise do
século XII foi superada precisamente, mediante
uma nova costura a contraposição entre o palácio e
o resto da população que tinha minado o sistema
sociopolítico do bronze recente, e a superação
aconteceu sob o signo de uma solidariedade de
estirpe capaz de sair do restrito Âmbito da vila ou
do grupo pastoril para chegar a incluir a própria
cidade.”
OBSERVAÇÕES: Lembrar das aulas de Galvão, na qual ele dizia que atitudes paternalistas
também foram adotadas na Mesopotâmia, reis que estavam constantemente perdoados as dívidas
que levavam a população à escravidão. Aqui, no nosso caso, a atitude paternalista chegou tarde
demais para evitar uma crise palatina por conta do excesso de escravos que fugiam e despovoavam
as cidades.
Liverani, A novo cenário proporciona mudanças A mudança
Mario. tecnológicas, modernizando as relações tecnológica 08
Para além da econômicas e comerciais.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 72 e 74 “ A passagem do Bronze recente para o primeiro 39
período do ferro é marcada por inovações
tecnológicas e culturais de extraordinária
importância. Trata-se em parte, de contribuições de
fora e, em parte de desenvolvimentos internos. Mas
em todo caso é justamente a ruptura das tradições
culturais, o surgimento de novos ambientes
sociopolíticos e de novas ordens econômicas que
facilitam a adoção de novas técnicas. E vice-versa,
a adoção das novas técnicas está em função da
realização da nova ordem territorial e social. ”

“O colapso das oficinas palatinas e do comercio de


longa distância favoreceu a decolagem da
metalurgia de ferro, que foi, aliás, progressiva. ”

“O alfabeto é, ao contrário, acessível a um ciclo


mais amplo de usuários; e não por acaso a escrita
alfabética, que logo depois da crise tem atestações
ainda limitadas..., expandir-se-á a seguir num
amplo raio, seguindo as diretrizes comerciais. ”

“É sabido que o dromedário e o camelo podem


transportar uma carga bem mais pesada do que a
do asno...Foi a utilização deles que abriram as
comunicações comerciais. ”

“ Algumas inovações técnicas decisivas devem ter


acontecido também para a navegação em alto-mar,
provavelmente um arranjo diferente entre quilha,
timão e velame, para permitir a navegação com
ventos de três quartos.”

“A exploração agrícola dos territórios montanhosos


(especialmente nos planaltos centrais da Palestina),
territórios que por todo o período do Bronze tinham
permanecidos como reservas de lenha e de pasto
estival, comportou operações de desmatamento e
de socalcos nas encostas. ”
OBSERVAÇÕES: A bíblia relata que enquanto os filisteus usavam armas de ferro, os israelitas
lutavam com madeira, pedra, ossada e armas de bronze
Liverani, Mesmo com todos os avanços que o período do A mudança
Mario. ferro proporcionou ao AOP, a Palestina continua tecnológica 08
Para além da a margem das rotas comercias.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg80 “ Mas se examinarmos a nova situação mais de 40
perto, damo-nos conta de que essa mudança de
horizonte teve também efeitos negativos. No bronze
recente, a navegação costeira devia
necessariamente atingir as costas palestinas (por
mais inadequadas que fossem) e as trilhas das
caravanas deviam necessariamente atravessar a
Cisjordânia, único corredor estabelecido entre Egito
e Síria, Com o período do ferro, porém, se a
palestina costeira participou de certo modo do
desenvolvimento do tráfego marítimo e a
Transjordânia do das caravanas, os antiplanos
centrais (fulcro da etnologia proto-israelita) ficaram
de fora de ambos, como uma espécie de “centro
vazio”, rodeado, mas não atravessado, pelos ricos
comboios, que preferiam seguir percursos
diferentes e mais convenientes. A inserção da
Palestina no cenário de “horizontes ampliados” foi,
portanto, bem menos direta do que a da Fenícia, de
um lado, e a dos estados do pre-deserto sírio e
jordânico, de outro. A marginalidade da Palestina
muda nas circunstancias, mas permanece na
substancia. ”
OBSERVAÇÕES
Liverani, A população agropastoril que se instala nos Os Proto-israelitas
Mario. altiplanos, unindo-se aos elementos tribais já 09
Para além da existentes, já pode ser definida como proto-
bíblia: israelitas.
história
antiga de
Israel.
Pg 81 “ O fenômeno dos assentamentos mais indicativo, 41
que fornece o cenário mais pertinente à “nova
sociedade”, é a ocupação dos altiplanos por parte
de uma população agropastoril que construiu
pequenas vilas nos outeiros. Os reconhecimentos
intensivos de arqueólogos israelenses nos últimos
decênios forneceram um quadro plausível e
razoavelmente diversificado, identificando mais de
250 sítios do Ferro I. A população que se fixou
nessas vilas – provavelmente resultante da fusão
de elementos tribais já existentes nas zonas, mas
fortalecidos por contribuições demográficas e
socioeconômicas de proveniência agrícola (a fuga
do controle palatino de que se falou nos caps. 1,
seção 10, e 2, seção 5) – pode ser definida como
“proto-israelita”. Se é verdade que convém reservar
a definição de “israelitas” aos membros do reino de
Israel, é igualmente verdade que o nome Israel
aparece desde o final do século XIII (estela de
Merenptah, cap. 1, seção 9), com referencia
justamente a esse novo conjunto étnico então já em
formação e identificável como tal.
OBSERVAÇÕES: Interessante como o Liveranni utiliza o termo proto-israelita para essa
população do Ferro I, deixando claro que embora a estela de Merenptah já comprove que o termo
“israelita” existia desde o Bronze Antigo, ela não representava os verdadeiros proto-israelitas.
Liverani, A ocupação em territórios que já eram A distribuição dos
Mario. ocupados durante o Bronze recente permite a Assentamentos 10
Para além da continuidade da cultura existente (Galileia), já
bíblia: as novas ocupações irão variar
história demograficamente de acordo com a
antiga de pluviosidade do terreno.
Israel.
Pg 81-82 “ A nova sociedade das vilas não é totalmente 42
homogênea por características e por ritmo
temporal. Pode-se distinguir uma maior
continuidade com a cultura “cananeia” do bronze
recente e nas zonas (Manassés e baixa Galileia)
que, sendo menos inacessíveis, já eram
parcialmente ocupadas no século XIII e uma
ocupação radicalmente nova em zonas (Efraim e
Benjamim, mas também a alta Galileia e depois
Negev) que ofereciam condições mais duras e
tinham ficado sem assentamentos estáveis por
alguns séculos. Pode-se distinguir um
assentamento mais denso em zonas com
pluviosidade adequada (planaltos centrais e
Galileia) e um mais ralo em zona mais árida (Judá
e, ainda mais, Negev). E se pode identificar uma
área em que novos assentamentos se constituem
precocemente (o planalto central) em relação Às
zonas em que o fenômeno se desenvolve com
certo atraso (Judá, Negev, baixa Galileia)
OBSERVAÇÕES: Interessante como a ocupação dos terrenos a partir da pluviosidade, isso é de
quão propício é o terreno para a agricultura e o pastoreio refletirá posteriormente com a riqueza
dos dois reinos: Judá e Israel.
Liverani, O período do Ferro I é marcada pela grande A distribuição dos
Mario. utilização dos outeiros e do crescimento Assentamentos 10
Para além da exponencial das vilas nos planaltos.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg. 82 “Mas no conjunto se trata de uma mudança 43
substancial unitária e sem dúvida vistosa, que levou
à plena utilização dos territórios nos outeiros,
invertendo a situação do Bronze Recente. Uma
confrontação recente dos sítios identificados mostra
para os planaltos centrais uma passagem dos 29
sítios do Bronze recente aos 254 do Ferro I (um
aumento de 9 vezes!). Modifica-se radicalmente a
relação demográfica entre os planaltos (em rápido
crescimento) e a costa (em ligeira regressão),
relação que é considerável em linhas muito gerais
como 1:2 no período do Bronze e como 1:1 no
período do Ferro. Ao contrário, o percentual da
população considerada “urbana” , ou seja, que
residia em centros superiores a cinco hectares, é
cerca da metade do total no período do Bronze, ao
passo que desce a um terço no período do Fero.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, Os assentamentos escavados mostram que a A distribuição dos
Mario. colonização não era feita por instituições Assentamentos 10
Para além da estatais e sim por grupos familiares ou de
bíblia: estirpes.
história
antiga de
Israel.
Pg 84 Há duas grandes evoluções de assentamentos (1) 44
nas zonas semiáridas com campos pastoris, de
transumância sazonal ou nos planaltos onde as
habitações são elípticas. (2) e assentamentos
sempre ovais, com casas do tipo com pilastras.

“”É um cenário de colonização “vinda de baixo” (ou


seja, não planificada por alguma instituição estatal
já existente), uma colonização por pequenos
grupos familiares ou de estirpe, em geral de
proveniência pastoril, que se implanta primeiro
(pode-se dizer “na primeira geração”) em forma um
tanto leves (tendas ou cabanas) que deixam
vestígios arqueologicamente notáveis somente
pelas modernas técnicas de escavação; depois (na
segunda e terceira geração) o assentamento se
estabiliza, torna-se mais robusto e contínuo,
embora utilizando formas de habitações que devem
algo, em sua disposição e em sua tipologia, a uma
origem extra urbana inspirada na modalidade típica
de transumantes.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, As formas de assentamentos em círculos ou A distribuição dos
Mario. ovais serviam como defesa, e o meio oco como Assentamentos 10
Para além da área para atividade familiar.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg. 84 “ A própria disposição das casas, colocadas em 45
círculo como as tendas nos acampamentos dos
nômandes, tende a formar uma linha contínua que,
de certo modo, assegura defesa (‘Ai, Be’er-
sheba’VII, Tel Masos II, ‘Izbet Sartah II-I). Foi
observado que a sequência de cômodos alongados
da primeira fase, ou dos cômodos de fundo das
“casas de pilastras” da segunda fase, constitui uma
espécie de muro com casamatas (embora com
função de moradia e não somente defensiva).
Excepcionalmente, tem-se em volta um muro
propriamente dito que cerca (mas já estamos no
século X). A forma oval das vilas é determinada em
muitos casos por sua situação no alto de um
outeiro, mas onde esse condicionamento
topográfico não existe é determinada por hábitos
culturais e com função de defesa, ou pelo menos
pelo desejo de fechar um espaço interno reservado
à atividade familiar. Forma-se assim a planta oval
que ficará como clássica, mesmo no Ferro II,
quando as pequenas cidades forem cercadas por
muros e com habitações dispostas em círculos
concêntricos, ocupando agora também o espaço
central (com uma estrada anular que separa o
bloco central do adjacente aos muros.”
OBSERVAÇÕES: Procurar referências na bíblia a respeito dessas formas de assentamento.
Liverani, As dimensões das vilas não fortificadas e a A distribuição dos
Mario. difícil identificação de fronteiras entre elas, Assentamentos 10
Para além da exceto dos centros cananeus.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg. 85 “A vila, em geral nos outeiros, não fortificada, mas 46
com sua típica disposição em anel, corresponde ao
“clã” (nas listas genealógicas os nomes dos clãs
são na realidade os nomes de vilas). Tem
extensões variáveis, em torno de meio hectare, no
máximo um hectare, e hospedam, portanto, de 100
a 150 pessoas. Mais difícil é a identificação
arqueológica de fronteiras entre diversas tribos, ao
passo que é evidente a fronteira entre o mundo
tribal e o restante mundo cananeu; ou seja, a
ausência de ossos (e, portanto, de uso alimentar)
de porco nas vilas dos planaltos, nitidamente
contrapostas à sua presença nos centros
“cananeus” da planície, fornece um importante
indicador “étnico”
OBSERVAÇÕES: Analisar a ideia do não comer carne de porco com Mircea Eliade, e averiguar
qual região e povo no Egito antigo, que também não fazia uso do porco.
Liverani, A complexidade da etnogenia israelita Os “proto-israelitas”
Mario. 11
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 88 “Os processos de “etnogenia” são sempre 47
complexos e, portanto, difíceis de ser delineado;
não é questão de decidir (com secas alternativas)
se um povo existia ou não, se seus membros
tinham ou não consciência disso, se as formas da
cultura material eram ou não exclusivas. Mas se
trata de compreender em termos históricos os
vários fatores e os vários percursos que levaram à
emergência de uma etnia, estabelecer suas
cordenadas espaciotemporais e os elementos que
a caracterizam. Uma identificação muito apressada
é tão inaceitável quanto uma negativa muito
rápida.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, As dificuldades de se trabalhar com as Os “proto-israelitas”
Mario. reelaborações tardias de dados, e como é 11
Para além da possível extrair informações culturais e
bíblia: políticas dos mitos israelitas.
história
antiga de
Israel.
Pg. 89 “Todavia, as deformações e as verdadeiras 48
invenções contidas nos textos de longa tradição
historiográfica têm motivações que condizem com
certos elementos da tradição e não com outros (de
caráter menos significativo em relação aos
problemas de elaboradores). Também a tipologia
das deformações e das invenções é em parte
indicativa: pode-se inventar uma história com
personagens e motivos literários ou fabulosos (e
disso se tem vários exemplos seguros), ao passo
que é difícil inventar um cenário social que não
tenha existido. Pode-se retrodatar (atribuindo-as a
personagens notáveis da história passada ou do
mito) leis que reportam escolhas “políticas”
controversas, ou direitos de propriedade (e também
dele temos exemplos seguros), mas ninguém teria
motivo pra inventar normas do direito
consuetudinário sobre assuntos neutros ou
politicamente irrelevantes. Enfim, as intervenções
de modificação de textos anteriores deixam
inevitavelmente vestígios ou sintomas de uma
operação difícil e raramente perfeita. Portanto, uma
seleção crítica dos materiais legais e
historiográficos posteriores consegue salvar alguns
elementos constitutivos do quadro que nos
interessa aqui. Vejamos por ordem os diversos
problemas da estrutura tribal do deslocamento de
cada uma das tribos, da existência de uma unidade
pan-tribal de conjunto, das normas
consuetudinárias.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, A estruturação da sociedade numa hierarquia de Os “proto-israelitas”


Mario. unidades familiares com suas importantes 11
Para além da genealogias fundantes, e seu débito ao
bíblia: nomadismo.
história
antiga de
Israel.
Pg. 90 “Em primeiro lugar, confia-se geralmente que possa 49
ser atribuída ao primeiro período do Ferro a
existência de “tribos” e a estruturação da sociedade
numa hierarquia de unidades familiares
decrescentes: “tribo”, “clã” ou “linhagem, “família
ampliada” “família nuclear. Vimos que a família
nuclear, que era a unidade produtiva básica,
corresponde arqueologicamente à casa (de
pilastras ou não) e que o clã, que era a unidade de
residência, corresponde a vila. A família ampliada
identifica-se arqueologicamente só se isolada; do
contrário, confunde-se dentro da vila, tratando-se
do resto de uma estrutura que administra a
transmissão de um patrimônio hereditário posto nos
espaços abertos do território agrícola. E já se viu
que seria difícil (ou impossível) circunscrever os
territórios de cada uma das tribos se não
tivéssemos a proposito as informações textuais.”

“Certamente, esse âmbito de informações,


especialmente se transmitidas na forma de
genealogias “fundantes”, presta-se a
extraordinárias falsificações: mas elas dizem
respeito mais facilmente aos casos específicos do
que a estrutura social total. Pode-se acrescentar ou
tirar uma tribo inteira, põe-se inserir uma filiação
fictícia para unir um clã a uma tribo ou uma casa a
um clã: sabe-se que as genealogias, por sua
própria função, são “plásticas” com referência ao
curso dos acontecimentos. A invenção de uma
estrutura social inteira é mais difícil e requer uma
infinidade de “correções” distribuídas por todo o
decurso da história. Foi observado, aliás, que a
terminologia tribal é muito tardia (exílica e pós
exílica), pelo menos para termos sebet e matteh.
Pessoalmente considero que a estrutura diminuída
(do clã/vila à casa) tenha escassos motivos para
ser falsificada, que o nível da tribo, tenha se
constituído com o progredir do tempo, muitas vezes
em conexão com fatos políticos (em parte
identificáveis), que, enfim, a sistematização das
tribos e a ideia da grande federação tribal deva
muito ao modelo do grande nomadismo como ele
se desenvolveu, sobretudo no século VI.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, A problemática partilha da terra pela narrativa A disposição das
Mario. bíblica tribos 12
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg. 91-92 “É evidente que existia (ou melhor, constituiu-se) 50
uma tribo de Judá na zona entre Jerusalém e
Hebron (Js15). Essa tribo foi o suporte tribal do
reino de Davi na metade do século X (cap. 4, seção
4), de modo que não é temerário julgar que a tribo
existisse pelo menos um século antes; mas é
também plausível o processo inverso, ou seja, que
a “tribo” de Judá tenha se auto identificado
definitivamente só depois da constituição do reino
de Davi. Já as outras tribos meridionais da lista
canônica (Simeão e Levi) são muito suspeitas; a
primeira porque tão precocemente desaparecida
que em Josué 19,9 seu território coincide com uma
parte do de Judá; e a segunda porque não-territorial
por definição e de bem tardio desenvolvimento
(cap.17.6). outros grupos tribais não-canônicos
(rebaixados a clã), como sobretudo os calebitas
(Js14,6-15, 15, 13-20 também a história de Otni’el
em (Jz 333,7-11) e os quenitas (Jz 1,1-21 sobre
todo o conjunto) complicam a questão da posse da
zona de Hebrom e da de Be’er-sheba’ com respeito
aos amalecitas, que parecem ocupá-la na época de
Saul e Davi, e fazem suspeitar de movimentos
escalonados no tempo.”

“”O quadro é, portanto, variado. Não por acaso a


situação das tribos principais corresponde muito
bem à distribuição das vilas “proto-israelitas” e
fornece uma confirmação cruzada avaliada como
positiva. Mas diversas outras tribos depois passam
a fazer parte da lista “canônica” são ou nitidamente
funcionais (mais que de estirpe), como Levi (mas
também Issacar, ou também os qenitas), ou de
origem e pertença duvidosas (como Dan), ou
desaparecidos tão cedo (Simeão) que somos
levados a duvidar se algum dia existiram.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, Como a cultura material e a estela de Merenptah Os “proto-israelitas”


Mario. inviabiliza a ideia de que os proto-israelitas já 11
Para além da tivessem uma auto identificação étnica geral.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 93-94 “É totalmente improvável que já no século XII os 51
grupos humanos que implantaram as novas vilas
tivessem uma auto-identificação étnica geral (ou
seja, que fossem realmente israelitas). De um lado,
as formas da cultura material são diferentes (jarras
collared rim nos planaltos centrais, mas um tipo
diferente na Galileia; vilas nas colinas dos
altiplanos, campos pastoris no Negev etc). De outro
lado, os primeiros testemunhos do termo “Israel”
parecem bem mais circunscritos do que no uso
seguinte e talvez indiquem o conjunto das tribos
somente dos planaltos centrais (Manassés-Efraim-
Benjamim). É verdade, aliás, que as etnias se
desenvolvem melhor em bases ecológicas e
culturalmente homogêneas, nesse sentido, a
cultura material das novas vilas, se não é indicio de
uma improvável consciência étnica, pode ser,
porém, um forte pressuposto de sucessivo
desenvolvimento nessa direção. Quanto a ações
militares comuns, em teorias possíveis, mesmo
rejeitando a ideia de uma liga formal, os episódios
mais antigos, como o relacionado com o “Canto de
Debora” (Jz5), mostram as tribos já bem
assentadas em seus territórios e não podem
remontar a mais além do fim do século XI – pondo-
se, portanto, em paralelo ou em ligeira antecipação
com relação a outros fermentos unificadores, como
os relativos a Siquém, ao reino de Saul, ao reino de
Davi.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, Informações legislativas confiáveis das Os “proto-israelitas”
Mario. sociedades proto-israelitas. e as normas
Para além da jurídicas 13
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 94-95 “Não falsificáveis, pela dificuldade e pela gratuidade 52
do empreendimento, são as informações relativas à
gestão básica do “direito de família”: procedimentos
matrimoniais, estratégias matrimoniais, proteção de
viúvas e órfãos dentro do clã ou da família ampliada
são todos hábitos inspirados por estratégias que se
ajustam bem a uma sociedade citadina com base
na estirpe, voltadas como são à tutela da
consistência do patrimônio familiar, à sua
transmissão por linhas internas, a subsistência
mediante o tempo do grupo e a subsistência
mínima possível de todos os membros do grupo.
Portanto, as disposições sobre o “levirato” –
segundo o qual o irmão de quem morre sem filhos
casa-se com a viúva para garantir uma
descendência em nome do morto (Dt25,5-10; a
história de Judá e Tamar em Gn 38 e a do livro de
Rute) – e sobre o “resgate” de propriedades
familiares vendidas nos casos de necessidade ou
de parentes escravizados (Lv 25,25.47-49; titular do
direito/dever de resgate é o go’el), embora
atestado em livros ou passagens tardias, refletem
hábitos tradicionais que podem remontar a períodos
muito antigos. A coesão interna é feita também de
fechamento em relação ao que é externo, um
“externo” que se situa diferentemente nos vários
níveis hierárquicos; portanto, as normas de
inaceitabilidade (no casamento e no comércio) dos
outros grupos tribais, as normas sobre a vingança
tribais são todos elementos que podem ter sido às
vezes falsificados nos casos específicos (a história
de Diná e Siquém em Gn 34), mas que podem ser
aceitos como autênticos em sua estrutura geral, e ,
de resto, muito persistente através do tempo.”

“ A gestão corrente do território “intermediário”


fundamenta-se nos procedimentos da hospitalidade
e na condução (sobretudo judiciária) dos “anciões”
(Jz 8,14; Dt 19,11-12; 21,1-8.18-21; 22,16-19; 25,8;
1Sm 30,26-31). Mas a gestão de situações de
gravidade particular pode exigir a escolha de um
líder “carismático” – na esperança de que, uma vez
passada a crise, ele volte a seu lugar (como fez o
exemplar Gideão, Jz 8,22-27) e não se aproveite do
prestígio adquirido para mudar os equilíbrios
internos da sociedade segmentar.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, O problemático decálogo e sua difícil datação. Os “proto-israelitas”
Mario. e as normas
Para além da jurídicas 13
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 95-96-97 “ Na narrativa bíblica, as doze tribos tomam posse 53
da “terra prometida”, uma vez que já estão dotadas
de uma “lei” transmitida por Yahweh a Moisés no
monte Sinai. Veremos mais à frente (cap. 18, seção
3) que o conjunto dos textos legislativos ligados à
figura de Moisés é na realidade não somente
estratificado no tempo, mas substancialmente tardio
e ligado ou à ideologia deuteronomista ou à
sacerdotal pós exílica. Um discurso à parte, porém,
deve ficar reservado a formulação mais concisa da
Lei, que a narrativa une mais diretamente à figura
de Moisés e à teofania do Sinai. Essa “lei” (tôrah,
Dt, 4,44; composta de “edot” advertências,
“huqqîm” deveres, “mispatim” juízos, 4,45), que se
imagina escrita em duas tábuas e que efetivamente
é muito sintética, é constituída pelos “dez
mandamentos”, dos quais se tem duas redações
entre si diferentes (Dt 5,6-21; Ex 20,1-17) por
variantes modestas, mas significativas. Há uma
moldura de estilo nitidamente deuteronomista, com
expressões e conceitos típicos daquela história
(como o amor a deus e a observância dos
preceitos). Mas o núcleo dos dez mandamentos
tem um cunho substancialmente moral, não
propriamente jurídico e muito menos cultual (como
grande parte da legislação tardia). O conteúdo
parece de difícil interpretação histórica, ou seja,
passível de vínculo a específicos traços culturais
(em sentido étnico ou em sentido epocal), e
portanto difícil de datas. Como estamos habituados
desde que éramos crianças a repetir como ladainha
os dez mandamentos, parece-nos que se trata de
normas obvias e universais: não matar, não furtar,
não prestar falso testemunho e assim por diante.
Como datar o decálogo? Parece empreendimento
desesperado, pode-se apenas pensar que o
primeiro mandamento, com a exclusividade
“monoteísta” do culto de Yahweh não possa ser
anterior a Josias (Cap. 8, seção 5) – o que na
opinião corrente tem o efeito de arrastar para baixo
a data de todo o conjunto”.
“ Há, porém, um mandamento, o quarto, que
suporta uma datação bem alta, em pleno segundo
milênio, e, portanto, uma existência já na época da
sociedade “tribal” pré-monarquica: datação alta que
poderia talvez se estender a todo o decálogo, se
lhe tirarmos apenas o prefácio monoteísta. O
mandamento em questão, “honrar pai e mãe”,
parece também ele um mandamento moral e
persistente, fora do tempo. Na realidade, o
mandamento continua estabelecendo uma conexão
entre respeito pelos genitores e posse da terra”.

“Ora, no período do bronze recente (séculos XV-


XIII), torna-se fórmula corrente nas transmissões
hereditárias (em geral de terras e casas) a cláusula
“honrar o pai e a mãe”. Antes, os herdeiros eram
identificados de maneira bem rígida desde o
nascimento, com o papel privilegiado do
primogênito, com base, portanto, numa hierarquia
familiar “dada” (desde o nascimento) e não com
base no comportamento. No Bronze Recente
afirma-se o princípio de que “não há maior nem
menor” e que a herança dos genitores irá para
quem a tiver honrado” “.

“Da análise do quarto mandamento resulta que o


decálogo contém materiais que remontam a idade
muito antiga (segunda metade do segundo milênio)
e podem ter sido reunidos já no período “mosaico”
para ser depois transmitidos e retomados – com
modestas variantes em relação aos mandamentos
“banais” mas com o acréscimo significativo do
mandamento monoteísta – nos maiores conjuntos
legislativos de Israel. Foi também sugerido que a
transmissão no tempo fosse garantida (em período
pré-exílico) por sua leitura pública em festividades
recorrentes. Observa-se que a formulação em geral
“apodíctica” dos mandamentos oferece um vistoso
contraste com a formulação predominantemente
“hipotética” da maior parte da legislação antigo-
oriental. Deriva ela dos procedimentos judiciários,
da solução do contencioso: se alguém cometeu tal
delito, a pena é esta, ou a compensação é aquela.
A forma “apodíctica” remete, porém, a um ambiente
de normas morais e comportamentais, a um estádio
lógico que procede o contencioso judiciário (ou dele
prescinde). É um outro motivo para considerar o
decálogo potencialmente muito antigo,
desvinculado de um funcionamento judiciário que
comportaria ligações históricas precisas”.
OBSERVAÇÕES: há exemplos materiais entre os sírios e os mesopotâmios. Vale também lembrar
que Abrão, Isaque, Jacó e José, deram sua benção ao caçula e não ao primogênito, o que demostra
que as histórias dos patriarcas remontam a uma idade bem antiga.

Liverani, A legislação pré-monarquica do “Código da Os “proto-israelitas”


Mario. Aliança” e seus empréstimos culturais. e as normas
Para além da jurídicas 13
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 98 “Entre vários textos legislativos, todos muito (ou 54
decididamente) tardios, o único que pode ter
conservado informações pertinentes à sociedade
israelita pré-monarquica é o chamado “código da
aliança” (Ex 21,1-23,19). Obviamente, também ele
atribuído a Moisés e até colocado depois do
decálogo, com o se fosse um desenvolvimento
direto, é de redação que a crítica atual considere
“eloísta” (ou seja, setentrional do século VIII), com
algumas evidentes integrações deuteronomistas. A
origem no reino do norte em período pré-exílico é
também indicada pela presença de altares difusos,
que serão vedados pela reforma de Josias e
censuradas pela corrente deuteronomista, e é
também confirmada pela alusão em Amós (2,8) na
norma (Ex22,25-26) de restituir antes do por-do-sol
o vestido tomado de empréstimo. As normas de
direito penal e civil descritas no código da aliança
condizem bem com uma sociedade de vila, com
uma economia agropastoril, com a considerável
ausência de toda instancia superior (régia ou
palatina ou do templo). O culto é exercido no
âmbito pessoal e “em qualquer lugar”, com altares
de terra e proibição de imagens de metais
preciosos”.

“algumas das normas enunciadas tem paralelos na


legislação mesopotâmicas do segundo milênio,
mesmo sobre pontos de tal modo particulares que
excluem coincidências casuais. Um exemplo é o
caso (Ex 21,28-32) do touro que chifra um outro
touro, ou uma pessoa livre, ou um escravo, com a
morte do touro “assassino”, mas com
responsabilidade do seu proprietário somente no
caso de a periculosidade do animal já lhe ter sido
notificada anteriormente – caso que se encontra
nas leis de Eshnunna e de Hammurapi. Ora, se é
verdade que as normas sociojurídicas são muito
estáveis mesmo por muito tempo, é digna de
observação porém, a forte concentração de
paralelos mesopotâmicos do segundo milênio
justamente no “código de alianças” em medida
muito superior aos outros textos legislativos
posteriores. Temos de lidar com uma coleção de
normas estritamente apoiada nas tradições
jurídicas do período do Bronze e que
razoavelmente podem ser atribuídas à primeira
sociedade israelita em vias de constituição”.

OBSERVAÇÕES

Liverani, A possibilidade do código da aliança ter sido Os “proto-israelitas”


Mario. feito através de reinvindicações sociais dos e as normas
Para além da antigos habirus (fugitivos da escravidão por jurídicas 13
bíblia: dívida) que após a crise palatina se fez presente
história na nova realidade tribal.
antiga de
Israel.
Pg 99-100 “Mas há algo mais indicativo do ponto de vista 55
socioeconômico. É a norma de que o “servo
hebreu” deva ser libertado no sétimo ano (Ex
21,2.5-6). Nessa passagem, o termo “hebreu” não
tem o valor étnico que assumira somente mais
tarde, mas tem o valor do habiru dos textos do
Bronze Recente: uma pessoa de status livre, que,
porém, por maiores dificuldades de ordem
econômica (na prática, por endividamento
irreversível), é obrigada a se dar em voluntária
escravidão para poder sobreviver...No período do
Bronze Médio, a libertação dos devedores
escravizados acontecia por decreto régio,
normalmente ligado (como numa espécie de
anistia) a entronização de um novo rei...outras
normas ainda dizem respeito ao problema da
escravidão por débitos: até se estabelece que entre
membros da mesma comunidade o empréstimo não
deva comportar juro (Ex 22,24), o que desmontaria
o problema ao nascer. Depois se mostra uma
particular atenção aos problemas dos
trabalhadores, sejam escravos, sejam residentes, e
se estabelece o repouso semanal. Semelhante
atenção se encontra também em outros corpora
legislativos, que registram o dever de assistência
ao escravo fugitivo (DT 23,16-17) e a libertação
semanal que culmina na grande remissão do
jubileu, a cada cinquenta ano, depois de sete vezes
sete = 49 anos (Lv 25,8-32). Como para os
paralelos antigo-orientais, é o peso quantitativo que
deve ser considerado: se no código deuteronomista
e mais tarde nos sacerdotais as normas “sociais”
são proporcionalmente poucas, perdidas num
conjunto de disposições de teor e objetivo bem
diferentes, o “código da aliança”, porém, as põe no
centro da atenção. Esse conjunto de disposições
sociais caracteriza-se, no plano formal, por uma
evidente dose de utopia, ressaltada pelo uso da
formula literária “por seis anos...mas no sétimo” e,
portanto, por um caráter de manifesto projeto mais
de que aplicabilidade prática. Mas no plano dos
conteúdos esse conjunto de disposições se
contrapões radicalmente –ponto por ponto- à
prática da sociedade do Bronze Recente, em que
estavam em uso o empréstimo a juros, a
escravidão por prazo indeterminado dos devedores
inadimplentes, a busca e a devolução dos escravos
fugitivos etc. As normas “sociais” israelitas
pretendem evidentemente pôr fim a essa prática,
reportando-se talvez a processos em uso até
poucos séculos antes, quando o status livre dos
devedores era tutelado e as tensões sociais eram
de quando em quando atenuadas pela intervenção
régia mediante éditos de remissão”.

“Portanto, os elementos de polêmica social, que


nos códigos posteriores (deuteronomistas e
sacerdotais) serão retomados com conotações
novas (étnicas e religiosas) e como respostas a
situações novas (a mescla étnica e pós-exílica), no
Código da Aliança, porém, se enquadram melhor –
como motivo originário – como respostas às
condições socioeconômicas do Bronze Recente. Se
na nascente sociedade israelita estavam presentes
essas reivindicações e esses projetos utópicos,
deve-se com toda verossimilhança credita-los ao
elemento habiru: os grupos de foragidos, que pela
elite sociopolítica das cidades cananeias estavam
submetidos a um tratamento implacável e que,
precisamente por isso, tinham sido obrigados à
fuga e a marginalização, procuraram introduzir na
nova sociedade que ia se constituindo normas
como proteção dos devedores e como salvaguarda
da liberdade deles.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, A geografia da nova sociedade ocupada pelos A nova sociedade


Mario. proto-israelitas e a simbiose cananaico-filisteia 14
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 100-101 “ A “nova sociedade” que até agora descrevemos é 56
a que ocupa os altiplanos do Norte (Galileia), do
centro (Manassés-Efraim-Benjamim), do Sul (Judá),
parte dos planaltos transjordânicos (Gilead) e zona
semiáridas do sul (Negev). Ficam excluídas as
terras agrícolas e mais fortemente urbanizadas da
costa (de Gaza no extremo sul à baía de Akko no
Norte), a zona das colinas adjacentes à costa
(Shefela), o vale de Yizreél (de Megido a Bet-
Shean) e o médio vale do Jordão, onde persistem
as estruturas socioeconômicas e políticas herdadas
do Bronze recente e que até mesmo a
historiográfica posterior se resigna em boa parte a
considerar “não conquistadas”.

“ Longe de entrar em crise pelo contato com as


tribos israelitas, as cidades filisteias procuraram,
antes, impor sua hegemonia sobre os estados
nascentes dos planaltos e sobretudo se expandir ao
norte ao longo da costa até o Carmelo e depois
para o interior ao longo da planície de Yizreél até
Bet-Sheán e o médio Jordão, expansão marcada
não só pelos dados bíblicos mas também pela
difusão da cerâmica filisteia. Tendo chegado como
núcleos bem armados e determinados, mas
numericamente reduzidos, os filisteus tiveram sem
dúvida de se adaptar ao ambiente “cananeu”
predominante na zona costeira. Embora
representando como imigrantes ( e visivelmente
estranhos pela língua e pela origem distante) um
elemento de novidade, eles acabaram por se fazer
portadores de trações fundamentais da cultura
urbana local, mantendo uma continuidade bem
maior (se comparada `”nova sociedade” dos
planaltos) em relação aos esquemas de
assentamento e às tradições culturais do Bronze
recente”.
OBSERVAÇÕES

Liverani, As grandes diferenças entre essa nova A nova sociedade


Mario. sociedade formada por estados étnicos e as 14
Para além da cidades-estados sobreviventes da crise palatina
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 106-107- “A distinção entre uma zona de assentamento tribal 57
108 nos altiplanos e nos planaltos do interior e uma
zona de persistente urbanização na costa e nos
grandes vales corresponde no plano institucional à
coexistência de dois tipos de formação política, que
podemos chamar de cidades-estados e estado
“étnico”.

“As cidades-estados são as herdeiras diretas dos


“pequenos reinos” do Bronze recente: mantém sua
dimensão, sua ordem institucional, sua relação com
o interior agrícola. Na pentápole filisteia, a
dimensão pode ser estimada em 400 a 800km para
os estados costeiros e 600 a 1.200 no interior”.

“Diferente é a configuração dos chamados “estados


étnicos”, que fundamentam sua identidade no
vínculo de estirpe mais que na residência territorial.
A extensão é muito maior (embora menos
facilmente definível) ...No tipo ideal e originário, o
Estado étnico tem pouca necessidade de um
suporte urbano e administrativo, encontrando sua
coesão na estrutura de estirpe e tribal da
sociedade, em sua configuração mais igualitária
que hierárquica. Portanto, se existe uma direção –
que não pode não existir – ela é mais ocasional
(por necessidade de guerra) do que estável, mais
carismática do que hereditária, baseada em
estruturas de estirpe mais que nas administrativas.
De resto, na forma mais típica, o Estado tribal não
tem taxação que possa sustentar uma classe
dirigente estável. Aliás, se a cidade-estado não
desenvolve uma solidariedade e uma consciência
comunitária que não sejam as ditadas pela
organização administrativa do território, já o estado
étnico desenvolve um forte sentido de pertença,
baseado na consciência (ou teoria) da comum
descendência, na existência de um deus “nacional”,
no mecanismo de inclusão/exclusão em que se
inspiram as normas da hospitalidade e do
casamento. Os filhos de Ammon ou os filhos de
Israel se preparam logo para se tornar amonitas e
israelitas, ao passo que os súditos dos reis de Tiro
ou de Ashdod continuam tais – e as definições do
tipo fenícios e filisteus lhe são atribuídas de fora e
incluem uma pluralidade de formações estatais
autônomas uma em relação a outra”.

“Com o progredir do tempo, os dois tipos tendem a


convergir, e sobretudo o tipo étnico deverá adotar
ordenamentos cada vez mais semelhantes aos dos
estados citadinos de velha tradição. Mas o sentido
de “etnia”, de pertença a um grupo humano definido
por descendência de estirpe permanece no tempo
para acabar em Estados “nacionais” nos limites em
que esse termo (tão onerado por conotações
modernas) pode ser aplicado a uma realidade
institucional como a da Palestina no período do
Ferro.”

“Quanto à identificação de um deus “nacional”. É


oportuno esclarecer bem desde já que se trata de
um longo processo. A adoção de Yahweh com deus
das tribos israelitas, desde a fase da etnogenia, é
uma evidente releitura historiográfica posterior.
Também o papel de Yahweh em episódios cruciais
como a batalha de Taanak parece suspeito. É
indicativo o fato de que nenhum dos patriarcas,
nenhum dos epônimos tribais, nenhum dos juízes e
nenhum dos reis da fase formativa tenha nome
javista. Esses nomes existiam (pensemos em
Josué e depois em Jônatan, filho de Saul), mas em
percentual modesto, não diferente e talvez inferior a
outros teóforos como Ba-al, El,Ánat, Sedeq,
Shalom e outros. Temos motivo para julgar que o
culto de yahweh tenha se tornado culto “nacional”
para o reino de Judá durante os anos 900 a 850 e
para o reino de Israel nos anos 850-800.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, O cenário palestino pós-crise palatina favorece O processo


Mario. o assentamento de diversas tribos. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 111 “O processo formativo de realidades políticas 58
propriamente definíveis como “israelitas” situa-se
num cenário caracterizado por fatores de grande
poder explicativo. O desmoronamento do sistema
regional do Bronze recente deixa todo o levante em
condição de autonomia e, portanto, de liberdade de
ação com respeito a interferências externas. A crise
da centralidade palatina permite reequilibrar (em
relação ao passado recente) o peso político-
institucional e socioeconômico dos componentes
agropastoris básicos. Os processos de inovação
tecnológica e de estabelecimento tribal comportam
uma compactação demográfica e uma ampliação
dos horizontes cognoscitivos, econômicos e
políticos tanto em sentido espacial como em
sentido sócia.”

“As tribos israelitas não são as únicas a se inserir


nesse cenário. Elas se encontram em contato com
outros povos em relação aos quais se sentem mais
ou menos afins, e são mais ou menos
complementares (ou competitivos) no plano
econômico, na exploração dos recursos. É
interessante observar que estranheza e
complementariedade prevalecem em relação às
permanentes (ou novas) cidade-estado, ao passo
que afinidade e concorrência prevalecem em
relação a outros povos de origem tribal e vocação
política “nacional”.”
OBSERVAÇÕES: É interessante notar, que as relações com as antigas cidades-estados são mais
amenas, e tende a ser estáveis no futuro, já o relacionamento com as tribos recém instaladas são
mais instáveis, isso se dá, pelo fato de ambas estarem em processo de fixação e exploração de
recursos. Ou seja, estritamente por motivos materiais é que surgiram as histórias dos epônimos.

Liverani, As tribos dos altiplanos: amonitas, moabitas, e O processo


Mario. edomitas. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 112 “As tribos dos altiplanos perseguem uma agregação 59
tribal-citadina primeiro reutilizando os preexistentes
estados “dimorfos” de Jerusalém e Siquém, depois,
de modo mais decidido, englobando zonas
agrourbanas na planície de Yizre´el e na costa.
Processos de agregação política análogos aos da
zona israelita e, grosso modo, com os mesmos
tempos e as mesmas modalidades desenvolveram-
se na Transjordânia por parte de grupos tribais que,
por motivações e pressupostos (de origem, de
religião) que em parte nos escapam, decidem se
diferenciar nitidamente dos “proto-israelitas” e
também entre si. A primeira agregação em ordem
de tempo parece a dos amonitas, a leste do médio
Jordão, à qual segue a dos moabitas, a leste do
mar Morto e, enfim, a dos edomitas, a leste da
Araba. Mais ao norte se agregam grupos tribais
aramaicos que dão vida primeiro ao pequenino
Estado de Geshur, a leste do lago de Tiberíades e
depois ao mais vasto de Soba, das fontes do
Jordão até a Beq´a libanesa. O impacto aramaico
sobre o cenário palestino é ainda modesto na fase
“formativa”: nada comparável ao que depois se
verificará no segundo período do ferro.”

OBSERVAÇÕES

Liverani, As tribos cameleiras do deserto: ismaelitas, O processo


Mario. midianitas e amalecitas. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 115 “O óbvio interesse dos novos Estados étnicos 60
(amonitas, moabistas, edomitas) pelas riquezas que
transitavam pela trilha das caravanas não pode nos
fazer esquecer que ela estava nas mãos firmes
das tribos cameleiras do deserto do interior:
ismaelitas, midianitas, amalecitas, cujo epicentro
não estava na Transjordânia, mas no Higiaz, e por
trás das quais se entrevêem* outros povos até o
extremo sul da península árabe – tribos vistas como
ao mesmo tempo muito vizinhas, mas muito hostis,
e com as quais não é possível nenhuma
acomodação que leve a uma consistência estável.
Os israelitas lhe reconhecem um parentesco
genético, embora distante, expresso por
genealogias, mas sobretudo por histórias de
afastamento destinadas a fundamentar a situação
deles bem para dentro do deserto, em zona externa
em relação à normal paisagem agropastoril
palestina.”

“Os ismaelitas ocupam grande parte do Higiaz


central, mas sobretudo o wadi Sirhan, agrande
depressão alongada que une a Arábia central ao
interior de Amman...Eles são destinados a grande
potência e notoriedade no período neo-assírio,
especialmente no século VII...Do ponto de vista
palestino, portanto, os ismaelitas são um conjunto
muito extenso de importantes tribos, situadas bem
no meio das trilhas das caravanas de proveniência
sul-arábica.”

“Os midianistas (XIII-XII) ocupam a parte


setentrional do Higiaz, o altiplano de al-Hisma,
chegando a oeste até o mar e ao norte até as
fronteiras com a atual Jordânia...os midianistas
tinham frequentes ocasiões para se deslocar para a
Palestina, porquanto especializados não somente
no comércio das caravanas, mas também em
catastróficas pilhagens de gado, graças à
mobilidade e à rapidez (assegurada pelo uso do
dromedário) que lhe permitiam chegar lá bem
dentro da Cisjordânia e logo retirar-se sem ser
perturbados. Como diz o início da história de
Gideão.”
“Os amalecitas, enfim, são os que penetram de
modo mais estável, na Cisjordânia meridional, onde
ocupam à força o Negev, a primeira fase de
assentamento do Ferro I no vale de Be´er-sheba
deve ser atribuída com toda probabilidade aos
amalecitas. Também eles, além de controlarem a
trilha das caravanas transversal entre Edom e
Gaza, último trecho do ramo “mediterrâneo” da
grande trilha das caravanas de distante origem sul-
arábica, laçam-se em despojos de gado e colheitas
nos altiplanos centrais, o que leva a violentos
conflitos com as tribos israelitas.”
OBSERVAÇÕES: os textos bíblicos sobre os ismaelitas e midianitas são tardios, século VII e VI.
Liverani, As cidades de Jerusalém e Siquém O processo
Mario. transformam-se em estados dimorfos (urbano- Formativo 15
Para além da tribal) até serem tomadas de vez por Saul e
bíblia: Abimeleque.
história
antiga de
Israel.
Pg 118-119- “Já vimos que nos planaltos centrais, devido a sua 61
120 conformação ambiental, não hospedavam uma
densa série de cidades-estado, mas se agregavam
em torno de duas únicas cidades palestinas:
Siquem, ao norte, e Jerusalém, ao sul...Nessa fase
“formativa”, que corresponde ao cenário
arqueológico mais avançado do Ferro I, a
insuficiência das duas cidades, contraposta ao
vigoroso crescimento do elemento tribal, deve ter
produzido uma relação que foi definida como de
“Estado dimorfos” (no sentido de urbano-
tribal)...Sob a pressão exercida pelo elemento tribal,
deve ter-se verificado uma progressiva virada de
uma situação em que o palácio real controlava mais
ou menos eficazmente todo o território até uma
situação em que o elemento tribal que assume a
liderança sobre os velhos palácios e os engloba
numa nova formação política. Um processo,
portanto, de evolução por linhas internas, bem
diferente do que aconteceu nas planícies, onde as
cidades-estado, pequenas, mas compactas,
entraram em colisão com o elemento tribal, que
lhes eram substancialmente estranhos.”

“Do ponto de vista das cidades-estado teve-se a


visão de uma crescente turbulência do elemento
pastoral e de uma crescente dificuldade de
controlar o território. Do ponto de vista dos grupos
pastoris, porém, teve-se a visão de uma crescente
tomada de consciência política, de uma crescente
realização de estruturas de poder autônomas, com
a cidade palatina que fica cada vez mais apagada
no fundo, até sua total anexação. Aliás, as histórias
de Jerusalém e de Siquém parecem ser totalmente
diferentes: a de Jerusalém se desenvolveu sob o
signo da estranheza e da anexação violenta; a de
Siquém, sob o signo da progressiva assimilação.”

“Nos séculos XI-X a cidade de Jerusalém teve de


assistir impotente à constituição do reino de Saul na
parte setentrional de seu território e do de Davi em
Hebron, na parte meridional.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, O conturbado norte, com o seu conflito O processo


Mario. histórico contra o rei de Hasor pondo um fim às Formativo 15
Para além da cidades-estado cananeias do norte.
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 121-122- “No norte, a situação inicial é complexa: em vez da 62
123 nítida distinção que caracteriza o centro-sul, entre
planície costeira e planaltos centrais, tem-se a
junção das zonas de planície onde se estabelece
uma densa rede de cidades-estado cananeias (com
presenças egípcias antes, filisteias depois) em
direção ao interior...Também a presença fenícia
(marcada pela típica cerâmica bicromática) bem
estabelecida na costa ao sul de Tiro.”

“As tribos pastoris que gravitam nesses centros


urbanos estão divididas: ao sul da planície de
Megido está a tribo de Manassés; ao norte, as
tribos galileias de Asher, Zebulon e Neftali.
Manassés cortada do núcleo de desenvolvimento
político Efraim-Benjamim, volta-se para o norte e se
une às tribos galileias numa série de episódios que
a cronologia bíblica atribui seja ao período de
conquista, seja ao dos juízes.”

“O primeiro episódio é o conflito em Meron entre a


cidade de Hasor (o principal de todos aqueles
reinos, Js 11,10) e outras cidade de zona contra a
liga tribal guiada por Josué (Js 1,1-14). O caráter
pan-israelita do conflito e a inflexível aplicação das
regras da guerra santa (com a morte de todos os
inimigos) indicam uma redação tardia. Também as
figuras dos dois chefes, de um lado Josué, de outro
Yabin, rei de Hasor, demostram uma fictícia
suplicação, voltada a atribuir a Josué a conclusão
setentrional da conquista.”

“O conflito historicamente mais plausível é, porém,


o segundo, a batalha em Ta´anak, perto de Megido,
que vê as milícias tribais da Galileia (Zabulon,
Issacar e Neftali) e centrais (Makir/Manassés,
Efraim e Benjamim) guiadas por Baraq e cercadas
pela profetisa Débora desceram de suas
montanhas para enfrentar os temidíssimos carros
de guerra das cidades cananeias, sob a hegemonia
de Habin, rei de Hasor, e guiadas pelo general
Sisera. O “cântico de Débora”, por todos
considerados um dos textos mais antigos da bíblia,
constitui o núcleo sobre o qual depois se construiu
o texto narrativo que o engloba. É um texto
importante para nos fazer entrever uma agregação
tribal que teoricamente compreende dez tribos, seis
das quais participam do empreendimento; as outras
quatro julgam não o fazê-los (e são, por isso,
ridicularizadas.).

“Observe-se que a coalizão de tribos é definida


como Israel (e na verdade coincide com o que será
depois o reino do norte) ou o povo de Yahweh; mas
se usa também o coletivo aldeões para indicar os
habitantes das vilas abertas contrapostas às
cidades com muros e portas dos cananeus e se fez
referência também aos foragidos que descem dos
montes (onde tinham se refugiado) para combater
contra os nobres, com clara alusão aos conflitos
socioeconômicos, à condição dos habiru e à vitória
considerada um ato de justiça.”
“O conflito, situável no fim do século XI, foi
provavelmente decisivo para o colapso do sistema
das cidades-estado cananeias do Norte. Com
efeito, encontramos a seguir na zona uma situação
diferente: de um lado, incursões dos nômades
cameleiros, de outro, a consolidação do predomínio
filisteu.”

“As incursões dos nômades cameleiros (midianitas)


enquadram-se bem num contexto de colapso
sociopolítico, com a população que habita nas
cavernas. A reação vem da coalizão das tribos
galileias com Nanassés (acredito que seja
Manassés), de onde vem o chefe Gideão.”

“De outro lado, o vazio de poder determinado pela


queda de Hasor, pelas incursões dos midianitas,
pela incapacidade das tribos galileias de se darem
uma estrutura mais compacta forneceu uma
ocasião para uma penetração dos filisteus ao longo
de todo o ale de Yizre´el até Bet-She´na, onde, com
efeito, ao vemos logo depois, no tempo de Saul,
assumir o papel de oposição à consolidação política
das tribos, consolidação que tinha sido
anteriormente desenvolvida por Hasor e pelas
outras cidades-estado cananeias. O corredor
agrourbano da planície de Yizre´el, se não era
bastante robusto para se tornar ele próprio uma
realidade política do tipo das cidades filisteias, era
suficiente, porém, para impedir a ligação entre
Manasses e a Galileia e, portanto, a coagulação
das tribos do norte segundo os mesmos ritmos das
do centro-sul.”

OBSERVAÇÕES: explicado acima os motivos pelo qual não há uma união tão forte das tribos do
norte, como ocorre com as do sul.
Liverani, O reino carismático de Saul O processo
Mario. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 123-124- “Na zona de fronteira entre as velhas cidades- 63
125 estado de Jerusalém e Siquém toma forma o
primeiro reino que a tradição desejará considerar
propriamente “israelita”: o de Saul e de sua
pequena descendência. A julgar pelas indiretas
conexões cronológicas entre a figura de Saul e
figuras ou eventos a ele vinculados, estamos por
volta do ano 1000. E estamos nos altiplanos
centrais, no território das tribos de Efraim e
Benjamim.”

“...o cenário do reino – eliminando generalizações


tardias como “e todo Israel” ou “de Dan até Be´er-
sheba” e semelhantes – está limitado ao território
de Efraim e Benjamim, onde se situam todas as
localidades que nas histórias de Saul são dotadas
de papéis institucionais ou, de qualquer modo,
significativos...As tribos de Efraim e Benjamim
constituem uma pequena unidade política, bipartida
e complementar: Efraim é o norte e o epicentro
cultual; Benjamim é o sul, e o epicentro político-
militar.”

“Com ambos os vizinhos o reino de Saul tem uma


relação ambígua. Há um sentido de algum
parentesco e colaboração intertribal, que se
concretiza em intervenções de Saul no Negev,
contra os nômades amalecitas, e no vale de Bet-
She´an, contra a penetração filisteia. Mas há
também episódios de violento contraste, ligado ao
caráter “ameaçador” dos benjaminitas”

“Já os vizinhos orientais e ocidentais são


claramente os outros: são estrangeiros com os
quais existe um conflito perene e demasiadamente
duro.”

“Os vizinhos ocidentais, os filisteus, constituíram


um obstáculo maior à consolidação política do novo
pequeno Estado dos altiplanos centrais. Herdeiros
da política das cidades-estado cananeias, os
filisteus pretendem exercer sobre os campos e os
territórios tribais um controle político e fiscal, já
atuante quando Saul assume o comando das duas
tribos...os primeiros conflitos com os filisteus se
desenvolvem na linha de fronteira, e Saul é capaz
de se gabar de algum sucesso surpreendente.
Depois, o cenário se desloca para o norte...Saul
tenta se opor, preocupado talvez com sua cabeça-
de-ponte de Yabesh, mas é derrotado na batalha de
Gilboa, em que encontra a morte.”

“O filho Ishba´al (nome baalista, como o do


sobrinho Meribba´al) sucede-o por poucos anos, so
a tutela de Abner, governando não somente sobre
Efraim e Benjamim, mas também sobre Gile´ad
(2Sm 2,8-10), num clima de incertas alianças e
francas traições. Mortos depois (e certamente não
de velhice) seja Abner (2Sm 3,26-32), seja Ishba´al
(2Sm 4,5-8), os “anciões de Israel” decidem aderir a
nova formação estatal que se constituíra
(paralelamente à de Saul), mais ao sul, no territóiro
da tribo de Judá, por obra de Davi.”

“Esses episódios serão depois reutilizados de


vários modos e em diferentes momentos. Em
primeiro lugar, será conferido a eles um horizonte
pan-israelita totalmente anormal e serão postos em
sequência ao reino de Davi (com o qual estivera
mais em paralelo) para constituir as duas primeiras
partes de uma história unitária do povo de
Israel...em segundo lugar, será estabelecido a
respeito um debate sobre as qualidades e os
defeitos da realeza, o que é tudo obviamente pós-
exílico.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, A formação do reino de Davi, entre realidade e O processo


Mario. mito. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg: 127-128- “Paralelamente ao surgimento de um reino no 64
129-130 território de Efraim-Benjamim, um análogo processo
se verifica no território de Judá, ao sul da cidade-
estado de Jerusalém. Esse processo está ligado à
figura de Davi. Pouco mais amplo que o reino de
Saul, o de Davi adquirirá, porém, na perspectiva do
tempo, uma relevância muito maior.”

“Também a história da progressiva ascensão de


Davi passa-se num território restrito, tudo em Judá:
ele é originário de Belém, onde está sua casa
paterna (1Sm 16); desloca-se para Soko para
guerrear às ordens de Saul contra os filisteus (1Sm
17); depois para Qe´ila, onde realiza por conta uma
revolta contra a presença filisteia (1Sm 23); enfim,
em Siklag, seu primeiro domínio, a ele concedido
pelos filisteus para o superar da hegemonia de Saul
(1Sm 27, 1-7).”

“O “chefe de bando” Davi mantém uma relação


ambígua com os filisteus que dominavam
nominalmente a zona: uma relação em parte de
submissão e colaboração (teria podido participar da
batalha de Gilboa por parte dos filisteus, se eles
nele confiassem plenamente, 1Sm 29), e em parte
de hostilidade que vai acabar depois na aberta
rebelião. Com a população “tribal” de Judá, Davi
põe em prática uma típica política de “chefe de
bando”, exigindo tributos em troca de proteção
(1Sm 25,4-8) e depois distribuindo parte do fruto
das rapinas feitas em prejuízo dos “estranhos”
amalecitas (1Sm 30,26-31)

“E a atividade de Davi, restrita à zona de Judá,


culmina (depois da derrota e da morte de Saul em
Gilboa) em sua eleição como “rei de Judá” em
Hebrom, então o principal centro da zona (2Sm 2,1-
4).”

“Segue-se o período em que Davi se torna “rei de


Judá e Israel”, a partir de dois eventos. O primeiro
se dá na morte de Ishba´al, quando os anciões de
Israel oferecem a Davi reinar também sobre o
território deles (2Sm 5,1-3). Apesar das tardias
leituras “pan-israelita”, só pode se tratar dos
anciões do ex-reino de Saul, e o reino unido não
pode senão compreender as três tribos de Judá,
Efraim e Benjamim. O segundo evento é a tomada
de Jerusalém (mediante um hábil golpe, 2Sm 5,6-
10), agora cercada e considerada cidade
“cananeia” ou, mais especificamente, “gebuseia”.”

“Em Jerusalém, Davi “importou” de Hebron o culto


de Yahweh, que veio se pôr lado a lado com as
divindades locais: foi observado que os filhos que
teve em Hebron têm nomes javistas, ao passo que
os nascidos em Jerusalém têm nomes compostos
com o teônimo Shalom.”

“No rastro da narrativa bíblica espalhou-se o hábito


de atribuir a Davi destruições e anexações de
lugares também fora da zona de Judá...essas
atribuições típicas da arqueologia “bíblica” devem
ser examinadas com atenção; mas não se exclui
que os cenários do wadi Yarqon e do Negev
possam estar vinculados à constituição do reino
dravídico.”

“O reino de Davi se estende nesse momento a


todos os altiplanos centro-meridionais, mas
continua sendo sempre uma modesta formação
política sob a hegemonia dos filisteus.”

OBSERVAÇÕES: procurar na bíblia a passagem que fala sobre uma estátua balística
ornamentando o palácio de Davi.

Liverani, Revisão histórica acerca da extensão, ascensão O processo


Mario. e sucessão do reino de Davi. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 131-132 “No plano internacional, Davi herdou a situação 65
anterior, com as duas frentes quentes, oriental e
ocidental. Na frente oriental, ao adversário
tradicional (os amonitas) se juntaram agora os
arameus de Soba (2Sm 8), para constituir um jogo
de três para o controle da terra de Gile´ad e de um
trecho estrategicamente essencial da grande trilha
de caravanas transjordânica. As tardias releituras
triunfalistas dessas guerras (“onde quer que
fosse...”) não conseguem debelar a impressão de
episódios sucessivos e sem um êxito definitivo,
relido depois à luz das guerras aramaicas de dois
séculos mais tarde. O mesmo se deve dizer das
guerras contra os filisteus, que continuaram como a
instituição política hegemônica em toda a Palestina.
Se é improvável que o reino de Davi tenha-se
estendido estavelmente em Gile´ad, temos menos
motivos ainda para considerar que algum dia tenha
incluído os altiplanos centro-setentrionais e a
Galileia. As mulheres de Davi provenientes de Yizre
´el e de Geshur fazem parte dos processos de troca
matrimoniais entre reinos vizinhos.”

“Grande parte da narrativa bíblica sobre Davi


ocupa-se da fase de ascensão e depois das lutas
pela sucessão, ambas de cor romanesca. É
preciso, porém, reconhecer que os episódios da
sucessão parecem muito mais suspeitos do que os
referentes à ascensão de Davi, pela diferente
tipologia da narrativa e de suas possíveis fontes.”

“No que diz respeito à ascensão, existem indícios


de derivação de um tipo de autobiografia
monumental (representada muito bem pela estátua
de Idrimi, Síria do século XV; ANET, p. 557-558),
em que o novo rei narra em tom fabuloso a sua
história: o menor de sete irmãos, a perseguição e o
refugio no deserto, o alistamento dos habirus, os
“sete anos” passados em Hebron e os “quarenta
anos” ao todo, a aclamação popular e a tutela
divina são todos elementos estilísticos que
pertencem a essa tipologia textual. Pode-se,
portanto, pensar que as notícias derivem de uma
inscrição apologética do próprio Davi e contenham
dados autênticos, embora formulados de modo
publicitário e fabulosamente colorido.”

“Já a longa e detalhada narrativa da sucessão de


Davi (2Sm 9-20; 1Rs 1-2) é muito suspeita; em sua
forma literária (ampla e romanesca) certamente não
pode remontar ao século X, e não se identificam
fontes atribuíveis ao período dos eventos
adequadas por tipologia a registrar esse tipo de
acontecimento. O que se pode aceitar é que Davi
conseguiu transmitir o trono a um de seus filhos,
dando origem a uma verdadeira dinastia. Dois
séculos depois ainda, uma inscrição real aramaica
encontrada em Tel Dan (c. 840) atesta que se
costumava definir com a estirpe de Davi” o reino de
Judá, contraposto ao reino do Norte.”

“No conjunto, é muito difícil aceitar que o reino de


Davi tenha-se estendido mais ao norte da zona de
Siquém. Somente as teorias pan-israelitas tardias,
quererão das valor às mirabolantes conquistas de
Ammon e de Aram, para compor a imagem (ou
melhor, o modelo utópico) de um “reino unificado”,
de dimensões tais a ponto de não encontrar lugar
no cenário ainda muito fragmentado do século X.
mesmo sendo compreensíveis, como veremos no
devido momento, as motivações que farão do reino
de Davi o modelo utópico de um reino de Israel
perfeito e unitário, deve-se reconhecer que a
realidade foi bem diferente da utopia, mas coerente
com as condições históricas do tempo em que se
situa.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, O reino de Salomão entre administração e O processo


Mario. lenda. Formativo 15
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg. 132-133- “A figura de Salomão está ainda mais submersa em 66
134 tardias reescritas de importantíssimo valor político e
religioso que lhe atribuem um reino mais que pan-
israelita e o empreendimento da construção do
templo. Se uma aceitação acrítica dessas reescritas
não é mais sustentável hoje, restam, todavia,
possíveis dois outros cenários. O primeiro é o de
um reino de extensão não maior do que o atribuído
a Davi e até em crise de poder. O cenário
alternativo é o de um reino ainda em expansão, que
chega a compreender todo o território tribal, do
Negev à Alta Galileia.”

“A extensão indicada pelas intervenções textuais


tardias vai do Eufrates à “torrente do Egito” (1Rs
5,1) e corresponde à satrapia persa do Além-
Eufrates – uma extensão jamais atingida por
nenhum reino local e que configura um verdadeiro
projeto imperial; portanto, nem sequer um modelo
para a unificação nacional, mas até o sonho de
poder competir com as grandes potencias. Em vez
disso, uma extensão simplesmente pan-israelita
baseia-se na lista dos “doze distritos de Salomão”
(1Rs 4,7-19).”

“O número doze é motivado pelo revezamento


mensal na sustentação das necessidades do
palácio real. A exclusão de Judá é motivada por sua
isenção das arrecadações fiscais, o que seria
compreensível na anacrônica óptica de separação
Judá/Israel, mas não num processo formativo como
é por nós ilustrado. Nem há vestígios do momento
em que a dinastia de Jerusalém teria estendido seu
controle político e administrativo ao norte, com uma
substancial duplicação de sua extensão. Parece
muito mais razoável pensar que se tenha querido
atribuir a Salomão um projeto efetivamente
formulado num momento em que o reino de Judá,
em posição hegemônica e isenta, tinha pensado
estender seu domínio aos territórios do norte: e
esse projeto pode ser somente o de Josias (século
VII).”

“A arqueologia ajuda a ressaltar o problema, mas


não a fornecer – no momento atual- uma solução
que seja por todos partilhada. Com efeito,
enfrentam-se aqui dois cenários. A cronologia
tradicional atribui a Salomão os edifícios palatinos
de Megido V A-IV e de Hasor X: esse cenário
corresponde ao reino pan-israelita, à paternidade
salomônica dos doze distritos e à credibilidade das
notícias sobre a construção de estábulos e
palácios, aos quais voltaremos. Não é fácil, porém,
aceitar que uma pequena e pobre cidadezinha,
situada na zona de assentamento mais ralo,
pudesse governar um reino que no Norte incluía
centros importantes como Hasor e Megido,
caracterizados por restos de arquitetura
monumental e por indicadores de notável
florescimento. Se se adota, contudo, a cronologia
baixa proposta por I. Finkelstein (e aqui seguida),
que atribui aos Omridas (885-853) os edifícios
públicos de Megido V A-IV B e Hasor X, então não
há nada de monumental que se possa atribuir a
Salomão, a cujo reino restaria um cenário modesto
e banal, de transição entre o Ferro I e o II,
compatível com o modelo redutivo de seu reino.”

“Na capital Jerusalém, Salomão herdou uma


estrutura administrativa que sob Davi tinha sido
assinalada sem nenhuma ênfase...essa estrutura
administrativa não é por si só impossível para
época; mas uma suspeita é legitima pela mecânica
correspondência dos funcionários de Salomão com
os de Davi, se os primeiros são normalmente filhos
dos segundos. É possível que de uma lista
autentica da época de Salomão tenha se tirada a
da época de Davi. E é possível que o reino
soldadesco (Davi) tenha sucedido um reino
administrativo (Salomão) com ênfase na corveia
(1Rs 5,27=28; 9,22) e na taxação (1Rs 5,2-8).”

“A fama de Salomão está ligada sobretudo à


construção do templo de Yahweh e do palácio real
(1Rs 6-9). Esses edifícios, nas dimensões referidas
pelo texto bíblico, superam muito o espaço
disponível na pequena Jerusalém que a
arqueologia permite atribuir ao século X (ou seja, só
a “cidade de Davi”), de projetos do período persa,
lançados para trás para o tempo de Salomão para
lhe conferir um valor de fundação. Mas deve ter
havido um motivo específico para atribuir a
construção do templo e do palácio justamente a
Salomão e não – como seria mais óbvio) ao
fundador da família, Davi.”

“A atividade construtora de Salomão, muito


celebrada pela construção do templo de Yahweh,
inclui também a construção de fortificações e
estrebarias em algumas cidades (1Rs 9,15-
19)...ora, a cronologia das portas monumentais da
cidade desceu para o século IX, para a dinastia
omrida de Samaria, e é muito duvidoso que possam
ser atribuídas ao período salomônico os edifícios
monumentais, um pouco anteriores, de Megido V A-
IV B. o período salomônico, enfim, está desprovido
de edifícios monumentais.”

“Muito suspeito parecem também os


empreendimentos comerciais. Os marítimos (1Rs
9,26-28; 10,11.12), em acordo com o rei de Tiro,
que teria fornecido as competências marinhescas,
assumem forma literária fabulosa e parecem pouco
plausíveis para um reino centralizado nos
altiplanos.”

“O período formativo dos reinos de Judá e de Israel


se encerra com um evento traumático: a expedição
do faraó Sheshonq através de toda a Palestina (c.
925). O evento é conhecido seja pela inscrição do
faraó sobre o templo de Karnak, com uma longa
lista das localidades atravessadas e conquistadas
ou eventualmente destruídas, seja pela breve
notícia no livro dos reis (1Rs 14,35-38_ sobre o
tributo pago por Roboão de Judá. A campanha teria
acontecido, portanto, depois da morte de Salomão,
com os reinos de Judá e Israel já separados.”

“Se posto num mapa, o itinerário desenha uma


espécie de grande S ao contrário, que evita tocar
sistematicamente os territórios de Judá e de Israel,
preferindo costeá-los...se essa interpretação está
correta, parece claro que os reinos de Judá e Israel
estavam então não somente separados (ou já
separados como quer o texto bíblico, ou jamais
unidos antes, como é também possível), mas
ambos muito pequenos; em particular, o reino de
Israel estava ainda separado das tribos galileias
pela permanência do corredor “cananeu” da baía de
Akko ao médio Jordão.”

“A expedição de Sheshonq foi (e ainda é) utilizada,


até de modo sistemático demais, para datar todas
as destruições de sítios palestinos atribuíveis,
grosso modo, a esse período.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, A consolidação do reino de Jeroboão O reino de Israel 16


Mario.
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 141-142- “A história (da divisão entre Roboão e Jeroboão) é 67
144-145 necessária para ligar o suposto “reino unido”
davidico-salomônico à realidade da persistente
separação dos dois centros de agregação política
em torno de Jerusalém e em torno de Siquén. E é
narrada de maneira muito colorida, no diálogo entre
o rei e o povo, o qual ressalta a contraposição entre
particularismo tribal e opressão régia...”.

“O reino de Joroboão (c. 930-910) não parece se


estender – pelo menos inicialmente – além da “casa
de José”, com um modesto apêndice em Gile´ad:
ele é originário de Efraim, sua capital é Tirsa, o
lugar de culto mais importante é Bet-El (1Rs 12,29,
a que uma glosa junta Dan para configurar um
domínio pan-israelita), o lugar de reunião da
assembleia popular é Siquén, a atividade
construção diz respeito a Siquén e Penu´el (outra
localidade da saga de Jacó), os profetas com quem
o rei está em contato gravitam em Shilo, as
atividades guerreiras se desenvolvem ao longo da
fronteira sul (Benjamim) contra Judá e da oeste
(Gibbeton) contra os filisteus”.

“A expedição de Sheshonq, porém, no quarto ano


do reino de Jeroboão, se pretendia revitalizar a
presença egípcia até a planície de Yizre´el e o
médio Jordão, falhou de modo clamoroso em seu
objetivo: as amplas destruições produziram o
colapso político daquelas zonas, pondo-as à mercê
da nova formação política de Israel, permitindo
finalmente o coágulo entre a “casa de José” e as
tribos galileias, que ocasionalmente remontava”.

“Depois da desastrosa e efêmera passagem de


Sheshonq, o perigo externo não era mais
constituído por filisteus e amonitas, mas agora
pelos arameus, que tinham se fortalecido, com
processo paralelo no tempo ao de Israel, no grande
reino de Damasco (Aram por excelência), que havia
englobado as formações aramaicas anteriores,
como a modesta Geshur e a efêmera Soba, pondo-
se atrás dos territórios israelitas na Galileia e em
Gile´ad. Na época de Baasa, o rei Bem-Hadad,
atendendo ao pedido de socorro por parte de Judá
(1Rs 15, 18-20), aproveitou-se das endêmicas
guerras entre Israel e Judá para invadir o extremo
norte (Dan e Neftali). O rei de Israel teve de mudar
de fronte às pressas, para enfrentar um perigo que
ia se revelando gravíssimo e podia por em
discussão a expansão setentrional do reino de
Israel, que fora reunido com tanta dificuldade”.

OBSERVAÇÕES
Liverani, A casa de Omri O Reino de Israel
Mario. 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 145-146- “O advento de Omri ao poder marca uma 68
147 reviravolta decisiva no sentido da decolagem
político-institucional e econômica do reino de Israel.
Omri reinou uma dezena de anos (885-874) e seu
filho Acab, vinte anos (874-853). Essa estabilidade
dinástica foi reconhecida a seguir com a
denominação “estirpe de Omri” para indicar Israel,
por parte dos assírios. Os trinta anos de
estabilidade e crescimento de Israel não são um
fato isolado, mas se situam de maneira congruente
no contexto do Levante. Na mesma fase se
estabilizaram e cresceram em dimensão e poder os
reinos aramaico de Damasco e de Hamat,
constituiu-se um reino unido de Tiro e Sídon e
tomou forma a leste do mar Morto o reino de Mo
´ab. Todo o “Mosaico” siro-palestino completou a
saída da instabilidade da fase formativa, para
adquirir sua fisionomia definitiva e um
dimensionamento para células mais amplas”.

“A realização principal de Omri foi a fundação da


nova capital em Samaria, que o texto bíblico (por
óbvio preconceito anti-samaritano) liquida num só
versículo (1Rs16,24)...Pela primeira vez não se
tratava de uma simples (e efêmera) residência real,
mas de um verdadeiro centro de direção do reino,
sede de uma administração, objeto de um
específico e ambicioso programa de construção,
que as escavações extensivas daquela localidade
recuperaram em grande parte”.

“Acab foi também o artífice da ampliação das


perspectivas políticas de Israel, das quais se falará
mais adiante. A rede de alianças matrimoniais e
comerciais e de guerras em escala regional
comportaram o surgimento (ou de qualquer modo a
exacerbação) de tensões sociais e religiosas; e a
posição anti-régia de alguns profetas acabou por
colorir de tintas foscas uma dinastia sob a qual o
reino de Israel se beneficiou de notável crescimento
econômico e cultural”.

“A política de Acab, depois de sua morte na batalha


em Ramot de Gile´ad (1Rs 22, 29-38), teve
prosseguimento com seus filhos Acazias (853-852;
1Rs 22, 52-54) e Yoram (852-841; 2Rs 3, 1-3),
sobre os quais o redator do livro dos Reis se cala
quase totalmente”.


OBSERVAÇÕES
Liverani, A dinastia de Yehu O Reino de Israel
Mario. 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg “A dinastia dos Omridas terminou num banho de 69
sangue, por obra do general Yehu, que agiu por
conta e com o apoio do rei de Damasco. Yehu
matou por suas próprias mãos Yoram e fez matar
Acazias de Judá, seu aliado na nova guerra por
Ramont de Gile´ad (2Rs 9, 22-29). Yehu, um militar,
fez-se partidário de um movimento integralista e
nacionalista contra os compromissos da política
religiosa e internacional dos Omridas. O seu apoio
ao culto de Yahweh (com a matança de sacerdotes
de Ba´al) deve-se unir ao apoio de Eliseu a
Damasco e, portanto, a uma posição antiomrida e
antifenícia. Como muitos integralistas, Yehu parece
levado por um ódio implacável que se traduz num
crescendo de crueldade que parece ir bem além
das “matanças normais” que muitas vezes marcam
as trocas dinásticas no antigo Oriente: Yoram é
atravessado pela espada e lançado num campo; a
mãe, a fenícia Izebel, lançada da janela e deixada
como pasto aos cães; enfim, toda a família real
(setenta “filhos” de Yoram) é exterminada por sua
ordem, e as cabeças empilhadas diante da porta do
palácio numa evidente chamada de co-reu que
envolve sem possibilidade de reflexão os
funcionários todos”.

“Ao lado das motivações religiosas (Javismo contra


baalismo) havia também estratégias políticas
diversas: a aliança com os fenícios de Tiro é
substituída pela aliança – ou melhor, a submissão –
com os arameus de Damasco; portanto, uma
tentativa de gravitação mediterrânea é substituída
por uma mais sólida entrada no cenário pastoral
dos Estados étnicos de origem tribal”.

“Mas também a dinastia de Yehu (841-814)


continuada com seus filhos Yoachaz, seu neto Yoaz
e seu bisneto Jeroboão II, garantiu ao país
estabilidade e crescimento econômico e não se
afastou muito da política anterior em escala
regional: alternância de alianças e guerras no norte
(contra Damasco) e a leste (contra Mo´ab),
hegemonia sobre o reino de Judá, mobilização
contra as primeiras intervenções assírias. E com
Jeroboão II Israel subtraiu-se à hegemonia
damascena e readquiriu um papel de grande
destaque”.

“Esse século de prosperidade para o reino de Israel


e de todo o levante entrou em crise por volta de
745, com a entronização de Tiglat-pileser III na
Assíria e a abertura de uma fase de pesada
intervenção assíria. As estratégias locais ficarão
fortemente condicionadas por ela. Em Israel, a
mudança é marcada de modo repentino (e por pura
coincidência) pelos dois breves reinos de Zacarias
e de Shallum, que parecem fazer voltar o país as
agitadas histórias de usurpações e de golpes do
período pré-omrida”.
OBSERVAÇÕES
Liverani, Guerras e alianças no sistema regional O Reino de Israel
Mario. 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 149 “Sob as dinastias de Omri e de Yehu, por quase um 70
século e meio, Israel se inseriu como protagonista
no sistema de aliança e de guerras da faixa siro-
palestina. A situação anterior, segundo a qual os
pequeninos Estados dos altiplanos centrais deviam
lutar contra os amonitas, de um lado, e contra os
filisteus, de outro, parece agora superada. Guerras
contra os filisteus, na localidade de Gibbeton,
atestadas na fase pré-omrida (1Rs 15,27; 16,15-17)
como coisas de pouca importância, vêm a cessar.
Evidentemente, a fronteira tinha se estabilizado e
as respectivas esferas não tinham mais pontos de
atrito”.

“Também numa escala mais ampla, diante das


primeiras ameaças de intervenção assíria, Samaria
e Damasco mudaram de políticas várias vezes.
Primeiro, julgaram oportuno fazer calar suas
rivalidades, para unir as forças na batalha de
Qarqar (853), que Salmanasar III pretende ter
vencido, mas que Acab e Hadad-ezer teriam podido
pretender com boas razões não ter perdido. O
empenho militar na batalha dá uma ideia das
relações de força entre Damasco, Hamat e Israel:
para Damasco, 20 mil soldados de infantaria, 1.200
carros, 1.200 cavaleiros; para Hamat,
respectivamente, 10 mil, 700, 700; para Israel, 10
mil soldados de infantaria e 2 mil carros. Dez anos
depois encontramos Yehu representado como
submisso e tributário no chamado (obelisco negro)
de Salmanassar III. Com a retirada da assíria, foi
Damasco que saiu em vantagem, desequilibrando
automaticamente as relações com Israel. Em 796,
quando Adad-nirani III se refez, vemos Yoas de
Israel pronto a lhe pagar tributo”.

“Nesse quadro de hegemonias regionais, se Israel


podia ambicionar um papel de primeiro plano, é
claro que o pequeno reino de Judá era apenas uma
espécie de vassalo seu. Na expedição pela
conquista de Ramot de Gile´ad, Acab estava
acompanhado pelo rei de Judá, Josafat; ainda no
período da revolta de Yehu, Yoram combatia em
Ramot Junto com o rei de Judá, Acazias; e na
expedição contra Mesha´de Mo´ab Yoram estava
acompanhado tanto pelo rei de Judá como pelo rei
de Edom, claramente como seus vassalos”.
OBSERVAÇÕES
Liverani, Mecanismos de decisão e profetismo O Reino de Israel
Mario. 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 154-155- “Como em todos os reinos do antigo Oriente, 71
156 também em Israel o processo de decisão,
concentrado na corte régia e na responsabilidade
pessoal do rei, utilizava dois canais paralelos para a
averiguação dos fatos, para a avaliação deles e
para o ajuste da estratégia a ser seguida; de um
lado havia o canal de informação e da consulta
humanas, do outro o da informação e da consulta
divinas. Segundo o canal humano, o rei consultava
os funcionários da corte, como “técnicos”, peritos
em administração ou na guerra, e consultava a
assembleia, porquanto expressão da vontade de
toda a comunidade. Havia dois organismos
colegiais, que os textos apresentam como
diferenciados por idade (“anciões” e “jovens”), mas
que os paralelos com a documentação antigo-
oriental fazem julgar tratar-se de dois organismos
de diferente amplitude.”

“A transmissão da mensagem divina podia


acontecer tanto por espontânea iniciativa do profeta
como por explícito pedido do rei. A função pública e
política dos profetas não é senão a parte
emergente da atividade deles voltada também para
casos cotidianos e pessoais”.
OBSERVAÇÕES
Liverani, Baalismo e Javismo O Reino de Israel
Mario. 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg158-159- “Na Samaria e em todo o Israel reina o pluralismo 72
160 religioso, que será mais tarde revisitado como luta
entre o deus popular e nacional Yahweh e o deus
estrangeiro e da corte Ba´al. Ba´al não tinha
necessidade de ser “importado” pela fenícia Izebel,
mulher de Acab; era o deus (ou melhor, a tipologia
divina) tradicional no país, junto com as divindades
femininas Astarte e Asherah. Isso sem querer negar
que os matrimônios dinásticos e as relações
internacionais possam ter contribuído para difundir
o culto de prestigiosas divindades estrangeiras. Por
volta de 860, também Bar-Hadad, de Damasco,
dedicou uma estátua a uma divindade típica de
Tiro, Melqart. Mas havia também numerosos outros
deuses que emergem quase ocasionalmente de um
texto como o bíblico, que em suas revisões
deuteronomistas e pós-exílica desejariam reduzir
tudo à alternativa entre Yahweh e Ba´al”.

“Na corte havia certamente profetas de ambas as


divindades, rivais entre si porque consultadas como
alternativa e confronto pelo rei, segundo os
processos usuais. Havia em Samaria templos
oficiais de uma e de outra...Havia também
modestos lugares de culto, de raio local e situados
fora da cidade: os lugares altos (bamot), providos
de estelas e de altares. Contra eles se lançam os
profetas javistas da época e se lançarão depois os
expoentes da corrente deuteronomistas em parte
de origem setentrional. As polêmicas javistas
insistem em elementos “imorais” no culto de Ba´al e
Astarte, culto ligado ao problema da fertilidade (da
terra, do gado e dos homens) e, que, portanto, se
realizava desde o período do Bronze, mediante
cerimonias de fundo sexual e com uso de bebidas
inebriantes”.

“O único período no qual parece prevalecer o


partido ou movimentado “Só Yahweh” (para usar a
expressão de Morton Smith) é o de 850-800,
marcados pelos nomes javistas de Yoram (por
influência das uniões matrimonias com Judá) e de
Yoachaz e Yoas, e sobretudo pelas depurações
antibaalistas de Yehu; mas essa posição jamais
teve bases sólidas em Israel, diferentemente de em
Judá”.

“No que diz respeito à elite, pode-se levar em


consideração os dados onomásticos. No limitado
mais autentico exemplo constituído pelos ostraka
da Samaria têm-se nomes baalistas contra nove
javistas. Quanto aos nomes de reis de Israel,
parecem atestar uma reviravolta em meados do
século IX: nenhum dos reis anteriores carrega
nomes javistas, que se tornam, porém, difundidos
depois dessa guinada. Paradoxalmente, são os
filhos de Acab e da fanática baalita Izebel os
primeiros reis de Israel a apresentar nomes
javistas! E é claro que o moabita Mesha,
justamente no período dos Omridas, reconhece
Yahweh como deus de Israel, contraparte do
Kemosh moabita”.

“É provável, portanto, que Yahweh fosse o deus


“nacional” já no século IX, mas que o culto levasse
em consideração a presença de outras divindades
(até oficialmente aceitas), que se desenvolvesse
em formas que o posterior rigorismo julgará
escandalosas e que tivesse com o culto e o
sacerdócio (profetas, inclusive) de Ba´al um conflito
que será acentuado, e muito, pelas releituras
posteriores”.
OBSERVAÇÕES: Fazer paralelo com a teoria de Eliade que explica as dificuldades de se
implantar o monoteísmo, sobretudo se estivermos falando de sociedades que já conhecem outras
divindades.
Liverani, A ascensão material do reino de Israel sob a O Reino de Israel
Mario. dinastia dos Amridas 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 164 “Houve, portanto, com toda a evidência, uma 73
política de construção no reino de Israel, iniciada
por Omri e depois levada adiante ainda com outras
intervenções até o período de Jeroboão II. O nível
técnico é muito alto, comparável ao dos maiores
centros do Levante na mesma época. E também o
nível artesanal, como resulta da cerâmica fina ou
dos marfins esculpidos, é de primeira ordem. O
estreito envolvimento cultural, comercial, político-
militar com Tiro e Damasco tinha levado Israel com
pleno direito a comunidade dos grandes reinos do
Levante no segundo período do Ferro. De resto, na
vigília da intervenção assíria todos os estados siro-
palestino atingem seu máximo desenvolvimento –
de Karkemish a Alepo, de Hamat a Damasco, de
Asdod a Gaza”.
OBSERVAÇÕES: Lembrar das observações feitas por Israel Filkeinstain sobre a Ascenção dos
Amridas.
Liverani, Administração e Economia de Israel O Reino de Israel
Mario. 16
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 164 “A narrativa do livro dos Reis não tem muito 74
interesse em fornecer notícias sobre a
administração e a economia do reino de Israel. Mas
um lote de uma centena de ostraka encontrados em
1910 numa dependência do palácio real da
Samaria fornece dados de primeira mão. Trata-se
de “bulas de acompanhamento” para provisões de
vinho e de óleo, provenientes das fazendas
palatinas e dirigidas ao palácio real. As bulas têm a
data dos anos do reinado de um rei de quem não
se cita o nome. Como o ano mais citado é o 17, as
bulas podem remontar aos reinos “longos” de acab
(improvável) ou de Yoachaz ou de Jeroboão II. As
fazendas palatinas estavam distribuídas pelo
território que circundava a capital, num raio de vinte
quilômetros. O afluxo de óleo e vinho, comparado
com o achado na Samaria do século IX de
abundante louça fina de mesa de tipo fenício, ajuda
a configurar uma corte régia marcada por bons
níveis de luxo. Adotou-se a tal propósito a denúncia
de luxo dos notáveis da Samaria, feita por Amós no
tempo de Jeroboão II”.

“O quadro é claramente partidário, violentamente


polêmico e tem origem no impacto de uma
economia palatina e de um pesado fisco sobre uma
sociedade de pequenos proprietários camponeses
e pastores não habituados a sustentar um grande
palácio real e desprovidos diante do novo
mercantilismo ambicioso e cruel, autentica antítese
da tradicional solidariedade de linhagem e de vila”.

“A difusão de processos socioeconômicos,


habituais, aliás, no antigo Oriente, emrge também
dos ciclos de Elias e de Eliseu, que até são valiosas
minas a respeito. Encontramos aí a aquisição régia
do patrimônio das famílias extintas (1Rs21), a
escravidão dos filhos do deedor (2Rs 4), a venda
dos filhos (canibalismo) em estado de assédio (2Rs
6)
OBSERVAÇÕES
Liverani, A “estirpe de Davi” O Reino de Judá 17
Mario.
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 169-170- “Por ocasião da morte de Salomão, o reino de 75
171-172 Jerusalém perdeu a adesão de Efraim e ficou
circunscrito ao território de Judá e de Benjamim,
esse último teatro de combates de fronteiras com
Israel. A lista de fortalezas construídas por Roboão
(2Cr 11,5-12) deve ser atribuída com toda
probabilidade à época de Ezequias. Roboão teve
também de sofrer as consequências da passagem
do exército egípcio se Sheshonq, dirigido ao norte:
pagou tributos com o recurso do tesouro do
templo...As guerras contra Israel continuaram sob
Abiyam (913-911) a Asa (911-870), e para evitar a
submissão de Israel, Asa se viu obrigado a solicitar
a intervenção militar de Bem-Hadad, rei de
Damasco”.

“Bem-Hadad exigiu um substancioso pagamento, e


penetrou no norte de Israel, devastando as terras
de Dan e Neftali, sem impedir, aliás, que entre
Israel e Judá se instaurasse uma relação
desequilibrada, uma espécie de vassalagem”.

“Vamos assim que Josafat (870-848) oferece ajuda


a Acab na guerra por Ramot de Gile´ad (1Rs 22) e
tenta sem sucesso algumas atividades comerciais
no mar vermelho. Vemos depois Yoram dar ajuda
ao homônimo rei de Israel na guerra contra Mo´ab,
junto com outro vassalo, o novo rei de Edom (2Rs
3), e esposar Atalia filha de Omri. Vemos, enfim,
Acazias prestar ajuda a Yoram na nova guerra por
Ramot de Gile´ad e cair na revolta de Yehu, na qual
acabará morto com toda a sua escolta. Atalia tendo
tomado conhecimento da notícia, completou a obra,
trucidando todos os herdeiros de Acazias
(extinguindo assim a “estirpe de Davi” e assumindo
o poder ela mesma. Enquanto o reino do norte,
portanto, refluía, sob a hegemonia damascena de
Haza´el, o do sul entrava numa fase de grave
instabilidade”.

“A “estirpe de Davi”, a que as tradições posteriores


atribuíram suma glória e continuidade dinástica
multissecular, foi vivendo por um século em
situação de subordinação (inicialmente em relação
ao Egito, depois em relação a Israel,
ocasionalmente em relação a Damasco),
dilapidando as suas modestas riquezas e acabando
num banho de sangue”.
OBSERVAÇÕES
Liverani, Economia e cultura material O Reino de Judá 17
Mario.
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 177-178 “Entre a situação do século X, com uma pequena 76
Jerusalém no território de Judá esparsamente
sitiado, e o vigoroso desenvolvimento que se terá
na segunda metade do século VIII, assiste-se, entre
a metade do século IX e a metade do século VIII, a
um desenvolvimento muito modesto, mais
semelhante a uma substancial estagnação do que
um verdadeiro crescimento. A população total de
Judá no século VIII foi estimada em cerca de 110
mil habitantes, metade da qual na Shefala”.

“Jerusalém ainda está circunscrita à “cidade de


Davi” (com o templo adjacente), em cerca de quatro
ou cinco hectares, cercada de muros. Alguns
achados (capitéis proto-eólicos) fazem pressupor
edifícios públicos dos séculos IX-VIII, infelizmente
destruídos. O desenvolvimento das construções na
capital (do que se consegue entender) e
eventualmente em outros sítios “régios” pode ter
sido comandada pela influência do reino do norte,
bem como pela influência aramaica, e ter recebido
por meio dela elementos sírios”.
OBSERVAÇÕES
Liverani, O javismo e o profetismo meridional O Reino de Judá 17
Mario.
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 180-181 “Se para o reino do norte, nos séculos IX-VIII, as 77
escassas notícias dos livros dos Reis são
ultimamente integradas pelos ciclos proféticos de
Elias e de Eliseu e pelo livro de Amós, já para o
reino de Judá não se tem nada do gênero. As
próprias notícias “históricas” dos livros dos Reis
sobre Judá são modestíssimas e -se olharmos bem
– quase que nulas quando não interferem nas
histórias de Israel”.

“O período em que tomou pé a posição “somente


Yahweh” é a primeira metade do século IX, no
tempo da atividade profética de Elias e sob os reis
Asa e Josafat (que, com efeito serão avaliados
positivamente pela historiografia deuteronomistas
por suas tentativas de eliminar os cultos
idolátricos); o primeiro nome javista de um rei de
Judá é o de Josafat, uma geração antes do análogo
fenômeno em Israel. Em Judá, além disso, a partir
de Josafat, o uso de nomes javistas é virtualmente
constante na dinastia real. Não há dúvida de que
Yahweh tivesse um templo de grande valor e
atração em Jerusalém, que a geração posterior fará
remontar (provavelmente com base em inscrições à
vista) a Salomão. O javismo da casa reinante não
implica a existência de uma única religião de
Estado: grande parte da população parecia
dedicada aos cultos agrários da fertilidade, como
bamot (santuários a céu aberto, nas colinas),
massebot (estelas de pedra) e aserot aserim
(troncos decorados?). Quanto mais os redatores
insistem na destruição desses lugares de culto por
parte do rei de Judá, tanto mais confirmam a
ineficácia de semelhantes ações para extirpar uma
religião enraizada. Além disso, é provável que na
gestão da vida pública se recorresse somente a
Yahweh. Indubitavelmente, os poucos profetas
lembrados como atuantes em Judá (Ahiya de Shilo
e Shemaýa na época de Roboão, Azarias no tempo
de Asa, Miqueias no tempo de Josafat), antes do
grande desenvolvimento do profetismo javista que
acontecerá na época da depressão assíria, já são
todos javistas e intervêm em particular para pôr
uma freio às lutas “fraticidas” entre Judá e Israel
(Rs12;24). “

OBSERVAÇÕES
Liverani, Os motivos que levaram a precoce solidificação O Reino de Judá 17
Mario. do javismo no Sul
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 182 “Voce-versa, o javismo é mais sólido 78
(precocemente) ao sul do que no norte,
provavelmente por dois motivos. O primeiro motivo
reside justamente na marginalidade de Judá,
menos exposta a influências diversas e toda
concentrada na capital em que o templo de Yahweh
faz o papel de polo de atração quase
monopolizador. O segundo motivo está na provável
origem meridional de Yahweh, que se sustenta com
base em vários indícios: sua primeira teofania está
ambientada em área medianita (Ex3), a
peregrinação ao Sinai (onde quer que seja
precisamente situada a montanha sagrada) dirige
também para o profundo sul ( Ex19), a mais antiga
menção no Cântico de Débora o diz proveniente de
Se´ir/Edom(Jz5), e não é nada improvável uma
primeira menção sua entre os Shasu já no século
XIII. Segundo a historiografia posterior, Yahweh é
assumido como divindade guia nas lutas das tribos,
não somente no sul, mas também no altiplano
central. É possível que a primeira forma tenha sido
a de Yahweh seba´ot , o “deus dos exércitos” das
traduções correntes, levado a batalha dentro de
uma arca móvel (1Sm4:4). Uma conexão originária
com Rsp sb, “Reshef, o combatente”, dotado de
arco e flechas com que (como o Apolo homérico)
difunde a peste, pode não deixar de ter valor”.

“Algumas inscrições sobre reboco de parede


incluem inovações do tipo “abençoo-te por Yahweh
da Samaria e pela sua Asherah”. Também em
Khirbet el-Qom um texto contém a invocação “seja
bendito Uriyahu por Yahweh e pela sua Asherah,
dos seus inimigos o salvou”. Emerge claramente
um culto que associa Yahweh e a sua paredra
Asherah, culto definível como “sincretismo”
somente se se pensa que o culto originário de Javé
fosse alheio a semelhantes relações (que serão
depois cuidadosamente censuradas pela reforma
deuteronomistas de Josias)”.
OBSERVAÇÕES
Liverani, Israel e Judá sob uma mesma ideologia O Reino de Judá 17
Mario.
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 182-183- “Embora diferentes em poder e papel internacional, 79
184 Israel e Judá são, no período entre o início do
século IX e o fim do século VIII, dois reinos que
partilham muitos aspectos de uma ideologia
religiosa e política comum, aliás, não somente a
eles dois, mas a todos os Estados do Levante. Os
princípios basilares dessa ideologia (deus nacional,
guerra santa, punição da infidelidade), que o texto
bíblico desejaria já plenamente constituída desde o
período da conquista e que as tendências
hipercríticas gostariam de atribuir a época bem
tardia, podem ter como data os séculos IX-VIII, com
base nas inscrições externas seguramente bem
datadas. As mais importantes são a estela de
Mesha e a inscrição de Zakir”.

“Na estela de Mesha, rei de Mo´ab (850), o deus


nacional moabita Kemosh desenvolve um papel
análogo ao do judeu/israelita Yahweh. É o deus
nacional que incita (evidentemente seguido de
consultas oraculares ou proféticas) o rei moabita à
guerra.” (fonte)

“Há nessa passagem o principio típico da “guerra


santa”, que comporta a destruição total e ritual do
inimigo vencido, processo que os israelitas
chamavam de herem. Também uma outra
passagem da estela de Mesha alude à prática de
herem.” (fontes)

“Mas a libertação da opressão pode vir somente da


ajuda do próprio deus nacional, como sabe muito
bem Zakir, rei de Hamat (780) que, assediado
dentro de Hadrak por uma colisão de dezesseis reis
liderada por Bem-Hadad, de Damasco, recebe de
seu deus (mediante os costumeiros profetas e
intérpretes de sinais divinos) a garantia de “não
temer” (típica do paradigma da guerra santa, seja
na Assíria, seja no Levante) e de confiar numa
libertação de que pode parecer milagrosa a uma
avaliação humana.”

“Toma forma, portanto, no decurso das disputas do


segundo período do Ferro e antes da intervenção
assíria, uma ideologia que reconhece a existência
de diversas divindades, mas confere a divindade
nacional ou dinástica (“fui eu que te fiz rei”) um
papel privilegiado, atribuindo à sua ajuda os méritos
das ações vencedoras e à sua vingança a
motivação das derrotas.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, O Impacto imperial
Mario. assírio (740-640) 18
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 80
OBSERVAÇÕES
Liverani, As fases de intervenção assíria no levante O Impacto imperial
Mario. assírio (740-640) 18
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 185-186- “O longo período de independência dos Estados do 81
187 Levante, iniciado por volta de 1150 (quando os
“povos do mar” tinham varrido o domínio hitita no
norte e o egípcio no sul), chegou a conclusão na
metade do século VIII, por obra da Assíria. Uma
primeira fase de intervenção assíria já se situa na
segunda metade do século IX. Depois que
Assurbanipal II (883-859) tinha compactado de
novo a Assíria dentro de suas fronteiras tradicionais
até o médio Eufrates, uma primeira fase de
expansão foi obra de Salmanassar III (858-824),
que desferiu uma série de campanhas contra
Damasco, Hamat e outros Estados siro-palestinos,
entre os quais Israel, com o célebre episódio da
batalha de Qarqar (853) de que tomou parte Acab
com o grande exército. Em 841, Yehu pagou tributo
a Salmanassar III, e ainda por volta de 800 Yoas
pagou tributo a Adad-nirani III. Em toda essa fase a
Assíria não fez nenhuma anexação direta, mas
submeteu grande parte dos estados sírios ao
repetido pagamento de tributo. Uma verdadeira
expansão territorial foi depois afrouxada e adiada
por uma reviravolta “feudal” no ordenamento do
império, em que alguns altos funcionários
assumiram um controle bem autônomo e pessoal
sobre grandes domínios. Na primeira metade do
século VIII as intervenções assírias além do
Eufrates se tornaram totalmente excepcionais.”

“Foi Tiglat-pileser III (744-727) que reabsorveu os


estímulos à divisão e retomou a política de coesão
interna e de expansão externa...sob os golpes de
uma eficiente e cruel máquina bélica foram
ANEXADOS Alepo, Patina, Hadrak, enfim Damasco
(732), que se tornara o Estado mais poderoso da
Síria. Depois dessas anexações, a Assíria acabou
tendo de enfrentar diretamente Israel.”
OBSERVAÇÕES

Liverani, A conquista de Israel pelos assírios O Impacto imperial


Mario. assírio (740-640) 18
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 187-188- “Em Israel durante a crise de 747, tinha subido ao 82
189 trono o usurpador Menahem (743-738), que tinha
se apressado a pagar tributo a Tiglat-pileser III em
troca de um reconhecimento como assalo (2Rs
15:19-20). Seu filho Peqahya (738-737) foi logo
morto por um outro usurpador, Peqah (737-732),
sob o qual se cumpriu o primeiro ato da tragédia.
Peqah, juntamente com o último rei de Damasco,
Resin, ameaçou a independia de Judá e assediou
Jerusalém. O rei de Judá, Acaz (736-716), foi em
ajuda de Tiglat-pileser, declarando-se seu servo. O
rei assírio, muito contente com a ocasião de poder
intervir, invadiu a aparte setentrional de Israel,
conquistando sem dificuldade toda a Galileia e todo
o Gile´ad (734-733).”

“Tiglat-pileser não tomou a Samaria, mas fez


eliminar Peqah por um enésimo golpe de estado,
cujo autor, Oséias, pode reinar (732-724) como
vassalo assírio (2Rs17:1-6) num território agora
limitado a Efraim e Manassés. No resto do território
se constituíram as províncias assírias de Dor,
Megido e Gile´ad. Pouco antes os assírios tinham
constituído também as províncias de Damasco,
Qarnayim, Hawran e também a de Gaza no
extremo sul; alguns anos depois a de Ashdod na
Filisteia setentrional. Um certo número de israelitas
foram deportados para a Assíria: a passagem dos
anais de Tiglat-pileser que dava sua relação
pormenorizada está em mau estado, mas o total de
13.520 deportados parece seguro.”

“Oséias reinou pagando tributo por alguns anos, até


que decidiu suspender o pagamento contando com
promessas de apoio do faraó egípcio (2Rs17:4).
Salmanassar V interveio, primeiro contra as cidades
da Fenícia centro-meridional, depois prosseguiu
contra Israel: aprisionou Oséias e assediou
Samaria, que capitulou em 721. Logo depois
Salmanassar morreu, de modo que a tomada de
Samaria é narrada (e exaltada) pelo sucessor, o
grande Sargon II, como acontecida em seu primeiro
ano de reinado.” (fonte)

“Foram deportados, portanto, 27.290 samaritanos,


substituídos por deportados de outras
proveniências. A destruição assíria esta
arqueologicamente documentada pelo extrato VI da
Samaria: a cidade assíria é a do extrato II. Às
províncias anteriores acrescentou-se a chamada
precisamente de Samaria. Um reino poderoso e
aguerrido estava, portanto, derrotado em poucos
anos, mas foi essa a sorte de todos os Estados da
zona, de modo que a rapidez da conquista é
somente sinal certo de uma enorme desproporção
entre o grande império e os pequeninos Estados do
Levante.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, A pressão sobre o Sul O Impacto imperial
Mario. assírio (740-640) 18
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 189-190- “Enquanto Israel desmoronava, o reino de Judá 83
191 (responsável por ter dado o primeiro pretexto para a
intervenção) continuava quase ileso, ainda que
certamente obrigado também ele a se dar conta de
uma situação drasticamente mudada. Acaz, tendo
isso a Damasco para prestar homenagem a Tiglat-
pileser e lhe entregar tributo, adotou em seu retorno
algumas modificações na ordem do templo de
Jerusalém (2Rs 16:10-18), abolindo especialmente
os símbolos da realeza, para tornar o culto coerente
com a nova submissão política e suas óbvias
implicações ideológicas.”

“O estímulo propulsivo assírio, que chegara ao


máximo nos quarenta anos (744-705) dos dois
grandes conquistadores Tiglat-pileser III e Sargon
II, não parou, mas certamente abrandou na primeira
metade do século Vii. O novo rei de Judá,
Ezequias, filho de Acaz (716-687), julgou poder
suspender o pagamento do tributo e até começou a
desenvolver uma política ativa, atacando gaza,
atando relações com o Egito e mais tarde também
com o caldeu Marduk-apal-iddina (2Rs20:12-13),
em evidente função antiassíria. Mais em concreto,
dotou Jerusalém de fortificações e sistema hídrico
capazes de resistir em caso de assédio e construiu
também a cidadela-satélite de Ramat Rahel e
várias fortalezas em defesa do país.”

“Obviamente seus vizinhos, ao se sentir


ameaçados, dirigiram-se ao imperador assírio em
busca de ajuda, provocando assim a intervenção
com forças de Senaquerib (704-681) em 701. A
expedição é narrada com diversos acentos e
detalhes pelo livro dos Reis (2Rs 18-19) e pelos
anais do rei assírio. Parece claro que Ezequias,
apoiado por um exército egípcio, tinha estendido
sua influencia sobre Eqron e ascalon, fomentando
revoltas contra os reis filoassírios locais, que foram
substituídos por outros antiassírios. A intervenção
de Senaquerib terminou de maneira favorável a ele,
mas não decisiva: os egípcios foram derrotados na
batalha campal de Elteqe, os reis filoassírios foram
restabelecidos nas cidades filisteias, a planície
judaica da Shefela foi devastada e depois entregue
às cidades filisteias filoassírias. A conquista de
Lakish é celebre pelo relevo assírio que a
representa e que corresponde bem a topografia
efetiva de Lakish III, com os restos do aterro
assírio. Das zonas conquistadas os assírios
declaram ter levado embora 200.150 deportados. A
própria Jerusalém foi tomada de assédio, mas não
capitulou e pôde, portanto, sair-se bem, pagando
um tributo, embora bem pesado. A versão assíria é
triunfalista.” (fonte)

“Na realidade, o que aconteceu foi que as defesas


da cidade foram bastante eficientes para prolongar
a resistência ate o momento em que os assírios
(como acontece em casos semelhantes) tiveram
que ir embora. O alívio pelo perigo evitado – com o
surgimento de uma epidemia entre os invasores e o
iminente retorno de um exército egípcio – foi tal que
acabou sendo atribuído à intervenção divina (2Rs
19:35).”

“Pelo resto do reinado de Ezequias e depois por


todo o longo reinado de seu filho Manassés (687-
6642), Judá ficou tributário da Assíria.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, Deportações cruzadas e provincialização O Impacto imperial
Mario. assírio (740-640) 18
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 191-192- “Observe-se que as deportações não se referem 84
193-194 somente à família real e a corte palatina, que por
acaso são tratadas à parte, mas também à
população comum agropastoril das vilas e das
pequenas cidades.”

“Na ideologia assíria essa fase destrutiva já tem por


si só um sentido, portanto punição de traições
pregressas ou de ímpia resistência ao deus Assur e
ao rei, seu braço armado. Mas adquire um sentido
mais completo se integrada pela fase de
reconstrução, da qual os reis assírios também
declararam se encarregar – coerentemente com o
princípio de que a conquista significa a ampliação
da ordem à custa da sedição e a afirmação da
justiça à custa da iniquidade. A hora da destruição é
substituída, portanto, pela da reconstrução, a
eliminação do palácio real e da elite local é
substituída pelo apetrechamento de um palácio
provincial assírio para hospedar o núcleo de
funcionários assírios, e com a deportação do povo
local para a Assíria ou para outras províncias
assírias se cruza e de outras províncias para a
recém-conquistada. o objetivo final é uma
assimilação linguística, cultural, política o mais
completa possível, de modo a transformar os
vencidos em assírios. A assimilação completa a
conquista, transformando um reino rebelde e
estranho numa nova província do cosmo
diretamente dependente do rei e do deus Assur.”

“Naturalmente, o que do ponto de vista imperial é


um processo de assimilação é, do ponto de vista
local, um processo de grave perda cultural. As
capitais (Samaria, Damasco, Hamat, e tantas
outras), vivíssimos centros já de decisão política e
de relações diplomáticas, de artesanato e de
comércio, de culto religioso, de produção literária e
de todas as expressões de uma cultura local e
original, tornaram-se simples terminais
administrativos da capital imperial, com a única
função de dirigir recursos humanos e materiais para
o centro. Mas a reestruturação foi levada adiante,
procurando destruir a individualidade cultural sem
fazer entrar em colapso, porém, economia e
demografia.”

“A nova sociedade devia ser mista, não entre


dominados e dominadores (estes eram poucos e
valorosos), mas entre dominados de diversas
origens.”

“Deportavam-se famílias inteiras, comunidades


homogêneas, justamente para manter alto o moral
e a vontade de vier e de trabalhar.”

“A assimilação religiosa não resultou de modo


algum na imposição da religião assíria, exceto no
âmbito de algumas cerimônias de Estado e de
algumas declarações de princípio. Resultou, porém,
num difuso e variegado sincretismo entre os
múltiplos cultos importados dos recém-chegados,
as persistências dos cultos “cananeus” e uma
revisão de javismo que pelo menos alguns dos
sobreviventes viram como o mais forte elemento de
auto identificação e até de ligação com o reino
(irmão e sobrevivente) de Judá. Mas certamente o
resultado deve ter soado inaceitável aos javistas
ortodoxos do sul (2Rs17:29-34), que justamente
então e precisamente por reação aos eventos e à
consequente condição do norte deram forma a uma
religião cada vez mais precisa e exclusiva.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, Crescimento e prosperidade do reino de Judá O Impacto imperial
Mario. após a conquista de Israel assírio (740-640) 18
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 195-196- “No sul, a tentativa de Ezequias de resistir à 85
197-198 pressão assíria estava baseada na disponibilidade
de um reino em rápido crescimento nos recursos
materiais e na consciência ideológica. É provável
que depois da conquista de Samaria alguns grupos
de israelitas do norte tenham encontrado refúgio
em Judá, contribuindo para o crescimento
demográfico, para a competência administrativa,
para a elaboração religiosa. Mas os maiores fatores
de crescimento devem ser identificados nas
estabilidade política (os dois longos reinos de
Ezequias e Manassés cobrem um total de 85 anos)
e na contiguidade com o império assírio, que antes
(na fase de agressão) estimulou a mobilização de
recursos humanos e morais, e depois (na fase de
coexistência) permitiu a inserção num cenário
ampliado.”

“A mobilização inicial traduziu-se nas grandes


intervenções urbanísticas de Ezequias em
Jerusalém e em outras partes. Na capital foi
construído um novo muro (com demolição de casas
privadas, deploradas por Is22:10) como proteção
dos novos bairros que rapidamente se constituíram
na “colina ocidental”: a cidade passou de cinco
hectares (em grande parte ocupada pelo templo e o
palácio) a sessenta, , e a população provável
passou de mil a 15 mil pessoas no espaço de uma
geração.”

“O desenvolvimento das edificações e dos


assentamentos, porém, foi mais longe, no tempo e
no espaço, para além das intervenções ditadas pela
iminência do assedio, continuando também no
período da “paz assíria”. Jerusalém domina
nitidamente a hierarquia dos assentamentos, com
seus setenta hectares, em relação aos dez de
Lakish e aos três, quatro das outras cidadezinhas.”

“As vilas agrícolas de Judá, quer na planície, quer


nos outeiros, cresceram em número e dimensão, e
a grande crise das devastações de Senaquerib
parece ter sido reabsorvida rapidamente. A
produção do vinho é especialmente atestada em
Gibe´on pelos sinais nas Ânforas de vinho; e um
particular desenvolvimento da produção de óleo de
oliva.”

“As campanhas de Judá atingiram, no século VIII, a


máxima densidade de habitação, no limite de sua
capacidade de sustentação; e paralelamente se
verificou uma expansão para as zonas semiáridas
adjacentes, que prosseguirá depois, no tempo de
Josias. No negev, não somente no wadi Be´er-
sheba, mas também em zonas decididamente
desérticas, começaram a surgir fortalezas como
proteção das fronteiras e como controle das vias
das caravanas.”
OBSERVAÇÕES
Liverani, As reformas de Ezequias (como movimento de O Impacto imperial
Mario. reação as imposições assírias) e o debate assírio (740-640) 18
Para além da profético
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg 199-200- “Também no plano ideológico a pressão assíria 86
provocou um movimento de reação, concentrado no
período de Ezequias, bem como influencias mais
gerais deslocadas no tempo sobre todo o período
que vai da intervenção de Tiglat-pileser III ao fim do
império. Quanto ao movimento de reação, Ezequias
foi o autor de reformas religiosas evidentemente
dedicadas a mobilizar recursos morais do país
diante do novo e grave perigo. A reforma (2Rs18:4)
é de tipo javista e leva à supressão dos lugares de
culto da religião agrária: os lugares altos (bamot),
as estelas (massebot), as árvores ou troncos
(aserot). Destruiu até uma serpente de bronze
atribuída à Moisés, mas que se tinha tornado objeto
de culto popular. É o primeiro rei de Judá a quem o
historiógrafo deuteronomista atribui a destruição
das bamot; sob todos os reis anteriores, mesmo os
considerados pios, tinham sempre dito que “os
bamot, porém não tinham desaparecido e que o
povo continuava a oferecer sacríficos e incenso
sobre as bamot”. A obra de Ezequias foi, portanto,
uma novidade acompanhada presumivelmente por
remanejamentos na ordem do templo para torná-lo
apropriado às inovações do culto: as reformas
marcaram um primeiro passo na transformação de
Yahweh de deus nacional em deus exclusivo. Pode-
se muito bem imaginar como a aceitação da
reforma possa ter sido difícil e doloroso para a
população habituada a seus cultos agrários. Com
efeito, passado o momento da mobilização
antiassíria, o sucessor de Ezequias, Manassés
(687-642), reintroduziu o pluralismo religioso,
reedificando os bamot e os outros símbolos dos
cultos de fertilidade.”

“A reforma de Ezequias não veio de repente, mas


foi um momento culminante de um processo posto
em movimento, seja por um normal
desenvolvimento da dialética interna, seja talvez
também pelo afluxo de sacerdotes e de levitas no
reino do norte, seja certamente pelo confronto com
a ideologia do grande império de que Judá era uma
pequena tessela periférica. A evolução interna é
documentada pelo surgimento, no fim do século VIII
– portanto, com alguns decênios de atraso em
relação ao norte -, de um profetismo que tem suas
raízes na tradicional atividade dos videntes da
corte, mas que adquire agora bem outra dignidade
ideológica e até literária. São seus expoentes
Oséias, Miquéias, o proto-Isaías, todos eles
testemunhas e protagonistas do clima ideológico e
dos debates que se seguiram aos eventos terríveis
da invasão assíria, da destruição de Samaria, da
ameaça sobre a própria Jerusalém; eventos que
punham em dúvida a relação de confiança entre o
povo, classe dirigente e divindade, relação que, ao
que parece, não estava de modo algum
funcionando de maneira correta.”

OBSERVAÇÕES

Liverani,
Mario.
Para além da
bíblia:
história
antiga de
Israel.
Pg
OBSERVAÇÕES

Liverani,
Mario.
Para além da
bíblia:
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Israel.
Pg
OBSERVAÇÕES
Liverani,
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Para além da
bíblia:
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Pg
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Liverani,
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Para além da
bíblia:
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Israel.
Pg
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Liverani,
Mario.
Para além da
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Pg
OBSERVAÇÕES

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