Você está na página 1de 3

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

PRÓ-REITORIA DE EXTENSÃO
PRÓ-REITORIA DE EXTENSÃO – PR5
PROFOS – PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE SERVIDORES
Curso de Formação em Gênero, Diversidade Sexual e Direitos Humanos

Nome do Aluno(a): RENATA DE SOUZA SILVA


Nome do Tutor(a): AMAURI
Tema de seu trabalho Final : Racismo e violência contra as mulheres negras
ANALISE DA MÚSICA E SUA CORRELAÇÃO COM TEMA RACISMO E
VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS

Mulheres Negras ( Yzalú) Ensinaram que as negras saem do mercado


com produtos embaixo da saia
Enquanto o couro do chicote cortava a carne Não quero um pote de manteiga ou de xampu
A dor metabolizada fortificava o caráter Quero frear o maquinário que me dá rodo e
A colônia produziu muito mais que cativos uru
Fez heroínas que pra não gerar escravos, Fazer o meu povo entender que é inadmissível
matavam os filhos Se contentar com as bolsas estudantis do
Não fomos vencidas pela anulação social péssimo ensino
Sobrevivemos à ausência na novela, e no Cansei de ver a minha gente nas estatísticas
comercial Das mães solteiras, detentas, diaristas
O sistema pode até me transformar em O aço das novas correntes não aprisiona minha
empregada, mas não pode me fazer raciocinar mente
como criada. Não me compra e não me faz mostrar os
Enquanto mulheres convencionais lutam dentes
contra o machismo, as negras duelam pra Mulher negra não se acostume com termo
vencer o machismo, o preconceito, o racismo depreciativo
Lutam pra reverter o processo de aniquilação Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino
Que encarcera afrodescendentes em cubículos Nossos traços faciais são como letras de um
na prisão. Não existe lei Maria da penha que documento
nos proteja, da violência de nos submeter aos Que mantém vivo o maior crime de todos os
cargos de limpeza. tempos
De ler nos banheiros das faculdades hitleristas Fique de pé pelos que no mar foram jogados
Fora macacos cotistas, pelo processo Pelos corpos que nos pelourinhos foram
branqueador não sou a beleza padrão descarnados
Mas na lei dos justos sou a personificação da Não deixe que te façam pensar que o nosso
determinação. papel na pátria
Navios negreiros e apelidos dados pelo É atrair gringo turista interpretando mulata
escravizador Podem pagar menos pelos mesmos serviços
Falharam na missão de me dar complexo de Atacar nossas religiões, acusar de feitiços
inferior Menosprezar a nossa contribuição para a
Não sou a subalterna que o senhorio crê que cultura brasileira
construiu. Meu lugar não é nos calvários do Mas não podem arrancar o orgulho de nossa
Brasil, Se um dia eu tiver que me alistar no pele negra
tráfico do morro Mulheres negras são como mantas kevlar
É porque a lei áurea não passa de um texto Preparadas pela vida para suportar
morto, Não precisa se esconder, segurança O racismo, os tiros, o eurocentrismo
Sei que cê tá me seguindo, pela minha feição, Abalam mais não deixam nossos neurônios
a minha trança cativos
Sei que no seu curso de protetor de dono praia
A partir da percepção que para ser analisar o construto das relações sociais, se faz
necessário o entendimento de que há uma interlocução direta entre gênero e raça/etnia,
principalmente em relação aos antagonismos que lhes dão origem.
A incorporação desta interseccionalidade destas categorias se faz mais que eminente
para se apreender sobre as violências cometidas contra mulheres negras, tendo em vista que
estas estão em um contexto de maior risco social, visto que o Brasil na sua construção
sociohistórica sempre utilizou de violência para adequar ou até mesmo exterminar as
populações que não estivessem dentro dos padrões coloniais pré-estabelecidos. (LARRAT,
2015)
Considerando a amplitude desta concepção, há de se analisar que a partir das
discussões advindas de estudos feministas principalmente os ligados ao feminismo de
segunda onda, a questão de gênero passou a ser pensar atrelada a construção social, histórica e
cultural dos indivíduos e não somente a questão sexual, possibilitando assim a intersecção da
questão de gênero com outras categorias de análise social tais como: raça/etnia, classe, sem
sobrepor uma a outra, mas a partir de uma olhar transversal que incide sobre estas. (BIROLI;
MIGUEL, 2015)
Portanto, esta relação entre as categorias mencionadas anteriormente, deve ser
entendida como uma forma teórico-metodológica de análise, que permite desvelar as
interações entre relações de poder e marcadores de determinantes sociais tais como gênero e
raça, que incidem diretamente sobre as praticas racistas e sexistas. (BUSIN, 2015)
Segundo Lopez (2010) esse aspecto de intersecção que foi tomado para correlacionar
estas categorias, muito esta relacionado com a maneira pela qual as feministas negras
americanas e latino-americanas, viam os sistemas de opressão aos quais estavam inseridas, de
maneira a apreender que não estavam somente sendo atingidas por violências e
discriminações baseadas em gênero, mas também de raça, que se entrelaçavam e
intensificavam que não havia como entender analiticamente as questões de suas lutas sem
correlacionar estas categorias de forma imbricada.
Neste sentido, levar em conta estas categorias analíticas como forma de compreender
a violência cometida contra indivíduos apartados do modelo sexista racial dominante,
significa romper com o essencialismo que permeia a definição de papéis atribuídos aos
homens e as mulheres que tanto define a organização da sociedade capitalista, como também
com a definição de raça construída no século XIX, baseado no modelo europeu, de que
haveria uma diferenciação entre as raças, e que esta determinaria o perfil moral, estético e
social dos seres humanos, colocando assim uma sobreposição entre a raça, que não poderiam
se misturar com a dita raça pura européia para não ocasionar o degradamento da evolução
humana. (MOUTINHO, 2014; SCHWARCZ, 1993)
Considerando os pontos levantados anteriormente a forma interseccional que as
categorias gênero e raça se posicionam, nos trazem um vislumbre sobre as violências
cometidas com base nestes marcadores, pode-se afirmar que a violência de gênero atrelada à
questão da racial, ocorre com a finalidade de fortalecer o modelo de gênero e raça vigente na
sociedade.  Sendo assim, todas as vezes que os indivíduos sociais mantenedores do status
social desigual, notam que o padrão vigente está ameaçado, lançam mão do ferramental da
violência, para a manutenção deste, visando à continuidade de estereótipos ditos corretos
moral e socialmente.
Deste modo, o entendimento da violência baseada na questão de gênero e sua
correlação direta com a questão racial, trás um olhar sobre temática da violência cometida
contra mulheres negras, principalmente por este recorte populacional possuir em seu escopo
duas categorias de análise, que incidem diretamente nos processos estigmatizadores dos
mesmos. (HEILBORN et al, 2011)
Conseqüentemente, a negação da sociedade para com as mulheres em especial as
negra, está intimamente ligada à subalternização do gênero feminino em relação à dominação
masculina racista, fazendo com que assim também sobre estas sejam perpetradas as ações
dominadoras, que muita das vezes se utiliza do ferramental da violência, para lhes atribuir
lugares marginalizados.
Analisando a letra da musica de Yzalu, podemos apreender que a trajetória de luta da
mulher negra por reconhecimento social e combate violência vem se calcificando ao longo,
desde os primórdios escravagistas, que transformavam as mulheres negras em meros objetos
sexuais para satisfação dos colonizadores.
A cada estrofe é apresentada os lugares que até hoje querem encaixar a mulher negra,
lugares subalternos onde esta não tenha voz e nem lugar, que ature todo o tipo de violência,
sem reclamar, aceitando ainda hoje ser açoitada não de maneira ficcional, mas sim real,
coisificando sua existência humana, como mera atendente dos prazeres carnais do
colonialismo.