Você está na página 1de 47

CONSERVAÇÃO PREVENTIVA

PARA ACERVOS MUSEOLÓGICOS


Sumário

Apresentação........................................................................................................... 4

Natureza material dos acervos.................................................................................. 5

Materiais inorgânicos: metais...................................................................................8

Técnicas construtivas dos objetos em metal...................................................10

Propriedades gerais dos metais........................................................................11

Suscetibilidade dos metais aos agentes de degradação.................................12

Cuidados e medidas de conservação para os metais......................................14

Materiais inorgânicos: cerâmica.............................................................................15

Técnicas construtivas dos objetos em cerâmica.............................................16

Propriedades gerais das cerâmicas..................................................................17

Suscetibilidade das cerâmicas aos agentes de degradação...........................18

Cuidados e medidas de conservação para as cerâmicas................................19

Materiais inorgânicos: rochas e artefatos líticos...................................................20

Técnicas construtivas de objetos líticos...........................................................21

Propriedades gerais das rochas e dos objetos líticos......................................21

Suscetibilidade das rochas e objetos líticos aos agentes de degradação......22

Cuidados e medidas de conservação para as rochas e objetos líticos...........24

Materiais inorgânicos: vidros..................................................................................24

Técnicas construtivas de objetos em vidro.......................................................25

Propriedades gerais do vidro.............................................................................25

Suscetibilidade do vidro aos agentes de degradação......................................26

Cuidados e medidas de conservação para os vidros.......................................28


Materiais orgânicos: madeira..................................................................................29

Técnicas construtivas de objetos em madeira.................................................29

Suscetibilidade de objetos em madeira aos agentes de degradação.............31

Cuidados e medidas de conservação para os objetos em madeira................33

Materiais orgânicos: suporte em papel...................................................................34

Técnicas construtivas para bens em suporte de papel....................................35

Propriedades gerais dos bens em suporte de papel........................................36

Suscetibilidade de bens em suporte de papel aos agentes de degradação...37

Cuidados e medidas de conservação para os bens em suporte de papel......39

Materiais orgânicos: suporte em tecido.................................................................40

Técnicas construtivas para bens em suporte de tecido...................................40

Propriedades gerais dos bens em suporte de tecido.......................................42

Suscetibilidade de bens em suporte de tecido aos agentes de degradação..42

Cuidados e medidas de conservação para os bens em suporte de tecido.....45

Encerramento do Módulo 2..................................................................................... 47

3
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Apresentação
Olá!

Iniciamos agora o Módulo 2.

Veremos a constituição física dos acervos museológicos, compreendendo alguns


dos materiais existentes nos acervos, detalhando as principais características e
vulnerabilidade.

Vamos lá?

As referências bibliográficas deste curso estão disponíveis na plataforma.

4
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Natureza material dos acervos


Os acervos museológicos são formados por uma diversidade de objetos e materiais
adquiridos ao longo do tempo devido à sua importância histórica, artística ou cultural
para determinada comunidade ou grupo social.

Desta forma, os museus geralmente preservam bens que são constituídos por uma
diversidade de materiais (orgânicos e inorgânicos), incorporados às suas coleções a
partir de critérios estabelecidos por sua política de aquisição, em consonância com
sua missão institucional.

As coleções são formadas por uma heterogeneidade de objetos formados por uma
gama de materiais distintos. Mesmo nas coleções especializadas, como bibliotecas,
museus de imagem e som, etnográficos, dentre outros, há uma grande diversidade de
materiais que interagem entre si e com meio ambiente onde estão acondicionados.

A identificação destes materiais que compõem as coleções, suas vulnerabilidades


aos agentes de degradação extrínsecos e intrínsecos, seu comportamento durante o
envelhecimento é que guiarão o planejamento das ações a serem propostas para a
sua conservação.

Vale salientar que cada material tem comportamento específico diante dos mesmos
agentes de degradação. Um ponto que deve ser levado em consideração é o histórico
de cada bem, ou seja, seu uso anterior à sua entrada na instituição museológica, uma
vez que esses usos influenciarão a velocidade do processo de degradação.

Para facilitar a aprendizagem deste tema, abordaremos alguns materiais presentes


nos acervos, apresentando suas principais características e, na sequência, sua vul-
nerabilidade aos agentes de degradação (forças físicas, fatores ambientais, fatores
químicos, fatores biológicos, fatores humanos).

De maneira geral, podemos classificar os objetos em dois grandes grupos de materiais


levando em consideração sua composição química: materiais orgânicos e materiais
inorgânicos.

5
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Casaco de veludo Worth Vaso em metal. Acervo Casa


do século XIX/XX. Acervo Geyer/Ibram
Museu Casa da Hera/
Ibram

MATERIAIS PRESENTES EM ACERVOS

INORGÂNICOS ORGÂNICOS

Não possuem carbono em sua estrutura Composição química básica - cadeias de


química carbono

§§ Não são sensíveis à luz (com exceção §§ Sensíveis à luz e a temperaturas elevadas;
das emulsões fotossensíveis, como os
§§ Sujeito ao ataque de micro-organismos e
cloretos de prata);
insetos;
§§ Não são suscetíveis ao ataque de micro- §§ São higroscópicos, trocando vapor
organismos e não trocam vapor d’água
d’água com o ambiente.
com o ambiente, mas são afetados pelas
altas temperaturas.

Classificação geral dos materiais nos acervos

6
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Para auxiliar no reconhecimento e identificação destes materiais, o conservador-


restaurador ou profissional responsável pela conservação dos bens na instituição
poderá realizar uma análise/diagnóstico de cada item, com a utilização de luz visível.

Vamos aprender um pouco desse método?

Análise Visual

Exames organolépticos com auxílio de lupa de cabeça ou lupa binocular. Por meio
desta análise é possível ver detalhes do material, ajudando a esclarecer dúvidas sobre
o tipo de suporte e a técnica construtiva utilizada. Separar em grandes grupos, como
têxteis, documentos planos em papel, metais, madeira, cerâmica, vidros, entre outros.

Caso seja necessário e tenha na instituição um conservador-restaurador, é possível,


dentro de cada grupo separado anteriormente, classificar estes objetos em subgrupos,
observando características como dureza, técnica construtiva, cor, forma, cheiro,
textura, entre outros.

Pesquisa histórica

O registro em forma de inventário é a primeira ação para preservação de um objeto


dentro de uma instituição museológica. Este registro, ou inventário, serve como uma
fonte de referência primária sobre ele, localizando-o dentro da instituição.

A pesquisa no acervo documental da instituição deve ser realizada a fim de localizar


informações sistematizadas na documentação museológica (fichas catalográficas,
dossiês etc.). Os dados encontrados poderão ser comparados com os resultados da
análise visual.

Análises formal e estilística

Neste tipo de análise avaliamos características formais e estilísticas dos objetos, re-
lacionando-as a determinados períodos e estilos da História da Arte e do Design,
assim como a data de fabricação ou criação do objeto.

Ainda é possível levantar dados relacionados ao tipo de processo de fabricação utili-


zado, identificando marcas deixadas pelo processamento no objeto ou pela tecnolo-
gia construtiva empregada, número de patente e marca do fabricante.

A partir de agora, veremos detalhes sobre alguns materiais que foram destacados
para ilustrar a natureza material dos acervos.

7
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Materiais inorgânicos:

§§ Metais;
§§ Cerâmicas;
§§ Rochas e artefatos líticos;
§§ Vidros.
Materiais orgânicos:

§§ Suporte em madeira;
§§ Suporte em papel;
§§ Suporte em tecido.

Materiais inorgânicos: metais


De maneira geral, os metais são obtidos a partir de rochas e estão associados a outros
materiais ou elementos. Assim sendo, é necessário separá-los, o que ocorre por meio
de técnicas da siderurgia, como a eletrólise, ou, ainda, por meio de reação química
com outras substâncias. Desta forma, extraem-se o metal e seus subprodutos, como
a hematita, da qual é obtido o ferro, e a galena, que dá origem ao chumbo.

São raros os metais que se encontram de forma pura na natureza. Em sua constitui-
ção química, apresentam dificuldade em associar-se a outros elementos, como é o
caso do ouro, platina, paládio, cobre e prata. Eles também são menos suscetíveis à
oxidação, sendo conhecidos como metais nobres.

Sinos da região de Turíbulo (objeto religioso utilizado na incensação).


missões/RS. Acervo Museu Acervo Museu Arte Sacra de Paraty/Ibram
das Missões/Ibram

8
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Os metais que mais compõem os acervos de museus são constituídos a partir de


ligas (misturas sólidas de dois ou mais minerais metálicos) fundidas em altas tem-
peraturas que têm por objetivo acrescentar propriedades a estes materiais. Os mais
comuns são: ouro, prata, estanho, chumbo, ferro, bronze (liga de cobre e estanho) e
latão (liga de cobre e zinco).

Em alguns museus com coleções arqueológicas é comum que existam metais


provenientes de escavações. Estes metais são muito mais instáveis do que os demais,
principalmente o ferro.

O principal agente de degradação dos metais é a corrosão, principalmente favorecida


pela presença de altos índices de umidade relativa, sais solúveis, emissões de vapo-
res ácidos voláteis; estes geralmente atingem o bem pela sua presença em materiais
usados na limpeza interna da instituição.

Magnésio e suas ligas Zinco Puro


Zinco e suas ligas
Alumínio e suas ligas
Cádmio
Aço Leve
Ferro fundido
Aço Inoxidável, 13% Cr, tipo 410 (ativo)
Solda estanho-chumbo, 50/50
Aço inoxidável, 18/18, tipo 304 (ativo)
Aço inoxidável, 18/18/3 Mo, tipo 316 (ativo)
Chumbo
Estanho
LATÕES Comparável com
Bronze Latão DZR - Zn Fixo
Bronze-alumínio
Cobre
Ligas de cobre-níquel
Monel
Titánio e suas ligas
Aço Inoxidável
Aço inoxidável, 18/8, tipo 304 (passivo)
EV220B SS
Aço inoxidável, 18/8/3, Mo, tipo 316 (passivo)
Prata
Ouro
Platina

Esquema apresentando a reatividade dos metais,


demonstrando quais são mais suscetíveis a oxidação.
Fonte: http://www.vaportec.com.br/ind /2015/04/16/suscetibilidade-corrosao-de-metais/

9
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Técnicas construtivas dos objetos em metal

Um fator importante que influenciará na conservação do metal é a técnica de confor-


mação1 utilizada, pois poderá promover degradações específicas, como o ferro, que
tem maior resistência à corrosão se for fundido e menor resistência à tensão.

A seguir, abordaremos de maneira simplificada algumas das técnicas mais comuns


de conformação dos objetos presentes nos acervos.

Forjamento

Conformação do material com aplicação de força mecânica, como marteladas ou


compressão sobre o metal quente.

Laminação

Conformação do material em lâminas através da compressão deste entre rolos até


chegar à espessura final desejada.

Extrusão

Processo de produção para peças longas e retas, por meio do qual o metal é forçado
a passar através de uma matriz, adquirindo, assim, a forma predeterminada.

Trefilação

Conformação do metal onde o material é puxado contra uma matriz (chamada fieira)
por meio de uma força de tração aplicada do lado de saída da matriz.

Fundição

Conformação através do preenchimento de um molde com o metal em estado líquido.

Soldagem

Processo de produção de um objeto metálico por meio da solda de uma ou mais


partes. O processo é formado pela aplicação de uma energia e um material de adição
(um metal ou uma liga) que se funde às partes, unindo-as.

Quanto às técnicas de montagem, um objeto pode ter utilizado as seguintes técnicas:


soldagem, fixação com parafusos, encaixes ou pressão. As técnicas de ornamentação
podem ser filigrana, gravação, relevo, cinzelados, recortes, repuxado.
1
Processo mecânico onde se obtém peças através da compressão de metais sólidos em moldes.

10
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Propriedades gerais dos metais

Os metais apresentam boa condutividade térmica e elétrica, são sólidos em tempe-


ratura ambiente, apresentando altos pontos de fusão e ebulição, boa ductilidade e
resistência à tração. Metais como ouro, prata e cobre apresentam maior plasticidade
e resistência à corrosão.

A dureza, que é a propriedade de resistência ao risco, varia. O cobre, o estanho e o


chumbo são os metais mais macios, e o aço e o ferro, os mais duros. Todos apre-
sentam variação de volume diante do aumento de temperatura, o que denominamos
dilatação térmica.

Os metais são altamente reativos, principalmente na presença de oxigênio, ozônio,


sais e cloretos, álcalis e altos índices de umidade relativa, o que os levam a retornar
ao seu estado mais estável, que é o mineral (o processo de oxidação reduz o metal
para a sua forma de minério).

Como a maioria dos metais é encontrada em forma de liga, cada elemento apresenta
um grau diferente de suscetibilidade à oxidação, que pode ocorrer de forma seletiva.
De forma simplificada, a corrosão é um processo que tem início com a exposição dos
metais ao oxigênio e à umidade presente no ar, iniciando a oxidação. Este processo
pode ser acelerado diante de temperaturas elevadas ou sais e cloretos provenientes
da brisa marítima nas regiões litorâneas.

Outros indícios de corrosão são as mudanças de cor e textura, com a formação de pós,
crostas e escamações. O cobre e as ligas são resistentes à corrosão, porém, quando
em contato com elevado índice de poluição atmosférica decorrente de produtos de
combustão ou quando expostos à ação do oxigênio e da umidade sofrem reação,
originando diferentes produtos de corrosão que são identificados pela coloração que
apresentam, como a formação de azinhavre, camada verde originada a partir de uma
mistura tóxica de hidróxido de cobre e carbonato de cobre, resultantes da exposição
deste metal à umidade.

11
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Suscetibilidade dos metais aos agentes de degradação


Fatores físicos

Os metais são pouco resistentes ao risco e possuem baixa dureza; logo, deve-se tomar
muito cuidado com seu manuseio e armazenagem, principalmente com as peças em
chumbo, que são mais fáceis de riscar. As peças em metal podem apresentar perdas
por fadiga ou stress mecânico do metal, causado pela movimentação repetitiva de
uma parte dele como tentativas de desamassar hastes ou outra parte do objeto,
levando à sua ruptura.

Fatores ambientais

Os metais não apresentam suscetibilidade à ação da luz, mas, se apresentarem pá-


tina, que, no caso dos metais, é uma camada de oxidação que se desenvolve na su-
perfície do objeto, quando exposto à ação das intempéries ou à presença de pinturas
superficiais, deverão receber cuidado especial, uma vez que os pigmentos e agluti-
nantes são suscetíveis à fotoxidação. Temperaturas elevadas causam a dilatação
térmica dos metais. A umidade relativa é o principal fator de degradação para os
metais. Altos índices facilitam a corrosão.

Fatores químicos

Como são materiais muito reativos, os metais podem ter o processo de oxidação ini-
ciado dentro das próprias instituições. Durante a armazenagem, deve-se tomar cui-
dado para evitar o contato de objetos em metal com diferentes potenciais elétricos,
a fim de se evitar a corrosão galvânica2 (que pode ocorrer em ambientes com altos
índices de umidade relativa), por exemplo, zinco e cobre, placas de aço fixadas com
parafusos de ferro. O controle dos índices de umidade relativa e a realização de ins-
peções constantes ajudam na prevenção desse tipo de degradação.

Alguns tipos de madeira utilizados na confecção de armários, estantes e prateleiras


podem emitir vapores orgânicos ácidos dentro dos locais de guarda, como o ácido
acético. Obras e objetos com suporte em bronze podem ser corroídos pela ação do
ácido acético liberado por estas madeiras.
2
A corrosão galvânica é um processo eletroquímico que ocorre quando metais de potenciais elétricos diferentes (mais
nobres e menos nobres) entram em contato físico em um meio eletrolítico (líquido) permitindo que haja a corrosão do
que possui menor potencial. Um exemplo clássico da corrosão galvânica foi o da Estátua da Liberdade. Em meados dos
anos 1980, especialistas detectaram um processo de corrosão entre chapas de revestimento externo, feitas de cobre, e a
estrutura de suporte interior, em ferro forjado. O trabalho de restauração da estátua necessitou da desmontagem integral
e da substituição do isolamento original por elementos de teflon.

12
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Essa corrosão pode se apresentar de forma uniforme na superfície, ou localizada nas


áreas de maior contato. O chumbo pode ser totalmente degradado, transformando-
se em carbonato básico de chumbo, sob a ação desse ácido.

As espumas e os filmes plásticos utilizados nas áreas de acondicionamento devem


ser livres de pigmentos, plastificantes em excesso, e nunca utilizar materiais à base
de policloreto de vinila (conhecidos como vinil, PVC ou com o número 3 gravado no
fundo das embalagens, de acordo com a norma ISO 14062).

Esses materiais liberam os plastificantes diante de altos índices de umidade relativa e


ácido clorídrico durante seu envelhecimento. Este ácido corrói não só os metais, mas
outros objetos de origem orgânica.

Em instituições localizadas em grandes centros urbanos, locais de alta circulação


de veículos ou regiões industriais, onde há grande concentração de poluentes no ar,
como gás carbônico, dióxido de enxofre e nitrogênio, os processos de corrosão são
acelerados e, se combinados com a umidade relativa elevada, transformam-se em
ácido sulfúrico e ácido nítrico, agindo como catalisadores nos processos de corrosão.

Fatores biológicos

A corrosão microbiológica ocorre quando há a formação de um biofilme sobre a


superfície do metal onde podem se desenvolver fungos aeróbicos ou anaeróbicos.
Estes são capazes de iniciar, facilitar ou acelerar o processo de corrosão, por meio de
seus metabólitos ativos ou provenientes de seu metabolismo como ácidos orgânicos
e inorgânicos, dióxido de carbono, gás sulfídrico, entre outros.

Fatores humanos

O manuseio e as intervenções inadequadas são as principais causas de deterioração


dos metais, no âmbito dos fatores humanos. Alguns metais podem apresentar uma
pátina superficial formada por óxidos, que, em metais como bronze e cobre, apresentam
cores diferentes. Essa camada pode agir como camada de passivação, protegendo
o metal. Muitas vezes, essas peças passam por limpezas de formas abrasivas ou
químicas desnecessárias, que causam danos a elas e, não raro, deixam resíduos dos
produtos utilizados nas reentrâncias das peças.

Objetos que apresentam banho dourado ou prateado podem perder esse revestimento
após limpezas sucessivas com produtos abrasivos, como limpadores de metais e
saponáceos cremosos.

13
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Algumas peças com gravações também podem perder essas informações com o
tempo.

Tentativas de desamassar ou reaprumar partes de um objeto metálico podem causar


a ruptura dele por stress mecânico.

Manuseio de peças sem luvas ou com luvas de látex pode causar manchas nas su-
perfícies. Deve-se manusear essas peças apenas com luvas de tecido, como algodão.

Cuidados e medidas de conservação para os metais

§§ É importante que a elaboração do Programa de Acervo, do Plano Museológico


da instituição, conte com a participação de conservadores-restauradores e ou-
tros profissionais habilitados para definir critérios de conservação, tais como:
organização e acondicionamento dos bens a partir da sua composição mate-
rial, incluindo os suportes que o protegerão (armários, caixas, estantes etc.),
controle da umidade relativa e de temperatura, dentre outros, de modo a facili-
tar o monitoramento do estado de conservação das coleções;
§§ Não utilize nenhum tipo de produto abrasivo ou de limpeza em objetos metá-
licos sem o conhecimento e a avaliação do conservador-restaurador, que é o
profissional que terá condições técnicas para avaliar as interações em curto,
médio e longo prazos destes materiais;
§§ Não utilize soluções caseiras para limpeza (como limão, vinagre, misturas de
produtos de limpeza) ou “receitas” encontradas na internet para remover óxi-
dos das peças. Em caso de corrosão ativa, consulte o conservador-restaura-
dor, que deverá propor e executar ações de tratamento para os objetos;
§§ Não aplique ceras, lacas, pastas ou vernizes sobre as peças metálicas. Isto irá
prejudicar ainda mais os objetos, uma vez que, com o tempo, estas substân-
cias oxidam, gerando ligações cruzadas que tornam a sua remoção posterior
complexa, exigindo solventes fortes e/ou meios abrasivos que irão danificar o
suporte metálico;
§§ Evite utilizar caixas de papelão e filmes de PVC para guardar estes objetos. Am-
bos os materiais liberam voláteis ácidos que podem iniciar ou acelerar proces-
sos de corrosão, principalmente para metais como chumbo, estanho e cobre;

14
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

§§ Envolva as peças em papel de seda neutro para o seu acondicionamento. Ela-


bore embalagens sob medida, com espuma de polietileno expandido (célula
fechada) de baixa densidade, a fim de evitar quedas ou manuseio direto das
peças, principalmente para objetos que são formados por mais de uma peça,
evitando sua dissociação;
§§ Higienize as peças de estanho, chumbo e cobre com cuidado, utilizando luvas
e flanelas macias, a fim de evitar riscá-las;
§§ Observe sempre as peças em chumbo acondicionadas nas reservas, a fim de
identificar a presença de um pó branco (carbonato básico de chumbo), sinal da
degradação do metal. Caso positivo, contate o conservador-restaurador res-
ponsável para intervir no objeto e no local de guarda;
§§ Mantenha os objetos em metal, de preferência, em local separado de peças e
coleções etnográficas ou de materiais poliméricos. Os compostos de enxofre
liberados durante a degradação de cabelos, lã, plumas, borracha vulcanizada e
fibra de rayon podem causar corrosão nas peças de prata e cobre;
§§ Monitore as peças em aço e ferro constantemente, identificando pontos de fer-
rugem ou gotas. Devido à sua alta reatividade, podem oxidar facilmente dian-
te de condições de umidade relativa elevada. Procure manter estas peças em
condições de umidade relativa baixa. O mais indicado é a confecção de emba-
lagens de conservação passiva, em que são utilizados materiais que retiram o
excesso de umidade em seu interior.

Materiais inorgânicos: cerâmica


O homem já dominava a técnica de produção de artefatos líticos (em pedra lascada
e polida) desde uma época muito remota, quando a produção de utensílios em argi-
la passou a existir e a ser muito recorrente em várias regiões do planeta. Presente
nas mais diversas culturas e com uma grande variedade de materiais e processos
de manufatura, as peças são elaboradas a partir da manipulação de matéria-prima
basicamente composta por argila mineral, por vezes incrementadas de material or-
gânico (conchas ou vegetal), podendo ser cozidas ou não, com diferentes técnicas de
queima e elaboração de acabamentos de superfície.

15
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

As cerâmicas dos povos antigos são um dos objetos de estudos para arqueólogos,
que, analisando as características estilísticas, as técnicas construtivas e o material
utilizado, conseguem identificar o período e os povos que as produziram.

Urnas pré-históricas marajoara.


Acervo Histórico Nacional/Ibram

Técnicas construtivas dos objetos em cerâmica

Os objetos em cerâmica são elaborados a partir da manipulação e do beneficiamento


de uma pasta argilosa. Essa pasta é heterogênea e composta por elementos como
sílica, alumínio, metais e outros componentes em quantidades variadas. Essa
mistura promove uma grande diversidade de propriedades físicas e químicas devido
à sua composição, natureza e quantidade de impurezas contidas na pasta, além da
temperatura atingida na queima e do tempo de cozimento das peças.

Algumas cerâmicas presentes nos acervos podem não ter passado pelo processo de
cozimento, o que as tornam mais sensíveis à degradação que as cozidas.

Os processos de produção das cerâmicas mais comuns são:

§§ Terracota (opaca ou envernizada);


§§ Faiança ou prolífera (esmaltada);
§§ Grés (que recebe ambos os revestimentos acima citados);
§§ Produtos de olaria e de uso caseiro;
§§ Porcelana (translúcida, biscuit, vitrificada, caolínica ou dura).

16
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Urna pré-histórica marajoara.


Acervo Histórico Nacional/Ibram

Propriedades gerais das cerâmicas

As cerâmicas cozidas a altas temperaturas e de massa clara são mais resistentes à


ação das intempéries que as demais e quanto maior a sua dureza. Não apresentam
sensibilidade à luz. São pouco resistentes a impactos, podendo ocorrer abrasões,
fissuras ou quebras diante de quedas ou exposição à pressão externa muito forte.
Características como porosidade e o diâmetro dos poros também são decisivas para
a maior ou menor vulnerabilidade à degradação.

A argila caracteriza-se pela afinidade com a água e pela capacidade de trocas iônicas
com o meio. Estas características podem provocar degradações com exsudação de
cristais de sais a partir de sua exposição à umidade elevada do ambiente em que se
encontra exposta ou acondicionada.

17
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Suscetibilidade das cerâmicas aos agentes de degradação


Fatores físicos

As cerâmicas são pouco resistentes a impacto, principalmente as não cozidas. Nas


cerâmicas mais porosas, tornam-se mais friáveis e frágeis fisicamente. Cerâmicas
vitrificadas tendem a craquelar diante de condições ambientais adversas.

Fatores ambientais

Cerâmicas são estáveis diante da ação da luz. Porém, objetos que possuem pátinas,
policromia, esmaltes, resinas e/ou acabamentos vitrificados são instáveis diante da
ação da luz, causando o esmaecimento das cores. Temperaturas elevadas podem
causar a dilatação térmica dos objetos.

Um dos principais agentes de degradação é a umidade relativa. Grandes flutuações


causam a migração de sais solúveis, que podem se cristalizar na superfície da peça
em períodos de umidade relativa mais baixa, ainda dentro dos poros, e provocar o
colapso do suporte. Este problema é mais grave nas cerâmicas não vitrificadas e nas
não cozidas.

Cerâmicas provenientes de regiões litorâneas ou de escavações arqueológicas têm


níveis mais altos de sais e degradam-se mais rapidamente. As cerâmicas vitrifica-
das e as esmaltadas, sob a ação das flutuações de umidade relativa, que causam a
migração dos sais para a superfície num processo de cristalização e dissolução dos
sais, têm seu suporte fragilizado, levando à descamação e ao desprendimento das
camadas de revestimento.

Fatores químicos

O principal problema das cerâmicas está relacionado ao contato com água, ácidos e
outras substâncias que podem provocar exsudação de cristais de sais, ou seja, a mi-
gração destes para a superfície do objeto. A contaminação por sais solúveis ocasiona
a ruptura e a perda da coesão física do suporte. A poluição atmosférica e o dióxido de
carbono provocam manchas e abrasões na camada superficial do objeto.

Fatores biológicos

Em ambientes de umidade excessiva, as cerâmicas podem ser infestadas por fun-


gos, algas, liquens ou outros micro-organismos. As peças provenientes de sítios ar-
queológicos podem chegar às reservas já contaminadas com resíduos orgânicos. O

18
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

metabolismo destes micro-organismos e o desenvolvimento das hifas nos poros das


peças podem levar à lixiviação3 do suporte.

Fatores humanos

O mal acondicionamento, com a exposição das peças a situações de risco, como


estantes mal apoiadas ou em áreas com fortes correntes de ar, pode levar à queda e
esfacelamento do objeto.

Locais de guarda ou exposição onde há presença de vibrações constantes (tráfego


intenso de veículos nas proximidades, por exemplo) também são um risco às peças.
Manuseio inadequado dos objetos, segurando-os em partes frágeis, pode provocar
danos irreversíveis.

Realização de intervenções inadequadas, como reparos, colagem de peças de manei-


ra descuidadas, deixando desníveis ou excesso de cola nas bordas.

Limpezas com uso de materiais abrasivos, saponáceos ou outros produtos líquidos


podem danificar as peças, abrasionando-as, manchando-as ou reagindo quimica-
mente com eles.

Cuidados e medidas de conservação para as cerâmicas

§§ Realize a limpeza com microaspirador ou trinchas macias, pincéis redondos ou


chatos de numeração variada de acordo com o tamanho, detalhes e necessida-
des da peça. Não utilize líquidos, produtos de limpeza ou panos úmidos, pois o
contato com a água gera desgaste da superfície do material em cerâmica;
§§ Garanta que a mesa que receberá a peça esteja estável, limpa e forrada com
uma manta macia (espuma de polietileno expandido com 5 mm de espessura),
e sobreposta a esta papel seda ou TNT. Ao acondicionar peças cerâmicas em
estantes ou armários, observe sempre se os objetos ficarão estáveis, a fim de
não ocorrerem queda das peças, escorregamentos ou outros acidentes que
causem danos a elas;
§§ Manuseie os objetos frágeis ou muito delicados o mínimo possível;

3
Ato de extrair de substâncias, cinzas ou resíduos, algum sal ou princípios solúveis através da passagem de uma solução
por uma substância porosa. Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.
priberam.org/lixivia%C3%A7%C3%A3o [consultado em 04-04-2019].

19
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

§§ Não lave peças de cerâmicas, mesmo as cozidas. Este procedimento poderá


causar danos aos objetos. Caso seja necessário, consulte sempre um conser-
vador-restaurador, que poderá indicar ou realizar o processo mais adequado
de limpeza;
§§ Elabore embalagens ou suportes específicos para acondicionar ou expor pe-
ças de grandes dimensões, como urnas funerárias, vasos ritualísticos, dentre
outros.

Materiais inorgânicos: rochas e artefatos líticos


O termo artefato, em arqueologia, significa qualquer objeto produzido pelo homem no
passado. Grande parte dos artefatos arqueológicos são líticos, os quais têm como
fonte primária as rochas.

Essas rochas são cortadas, entalhadas e polidas, a fim de darem forma aos instru-
mentos que ajudaram os homens pré-históricos a sobreviver em seu cotidiano: ma-
chadinhas, facas, raspadores, buris, furadores, flechas, lanças, moedores, percutores,
entre outros. Estes objetos foram produzidos por várias culturas e povos e são cons-
tituídos por uma grande diversidade de rochas.

Ainda podemos encontrar obras de arte e artesanato elaborados em rochas. Neste


caso, as rochas mais utilizadas são: mármore, granito, pedra-sabão, arenito, quartzo,
jade, alabastro, ardósia, calcário, entre outras.

Ferramentas líticas pré-históricas. Acervo Busto de figura oriental.


de Arqueologia de Itaipu/Ibram Acervo Museu do Açude/
Ibram

20
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Técnicas construtivas de objetos líticos

Os artefatos líticos passavam por processos diferenciados de tratamento. De maneira


geral, artefatos como pontas de flechas, facas e lanças eram obtidos lascando as
rochas de quartzo e sílex com a utilização de pedras de dureza maior. Machadinhas,
machados, mão-de-pilão e almofarizes eram obtidos a partir do polimento de rochas
menos duras, como diabásio, basalto e gnaisses.

Já nas coleções de arte e artesanato são utilizadas rochas mais macias, que permitem
seu entalhe. São cortados blocos da rocha, que são desbastados aos poucos, até
obterem a forma desejada. Os objetos podem ser em bloco único ou formados por
mais de um bloco, unidos entre si por meio de encaixes, pinos e colagens. Ao final,
podem receber polimentos, pinturas, pátinas, gravações ou incrustações.

Propriedades gerais das rochas e dos objetos líticos

São materiais sólidos, com densidade e dureza variadas, indo da mais macia, pedra-
sabão, às mais duras, como o quartzo. As rochas também apresentam porosidade
variada. Quanto mais porosa, maior a capacidade de ser permeada por vapor de água
presente no ambiente, também maior a capacidade de migração de sais para os
objetos provenientes de sítios arqueológicos.

Contrariando o senso comum, as rochas e os minerais não são estáveis e inertes.


Alguns minerais apresentam características químicas que os tornam muitos suscetí-
veis quimicamente à ação de ácidos, poluentes e contaminantes e outros elementos,
como no caso do calcário. Minerais como pirita e marcassita sofrem degradação se-
vera, tendendo ao esfacelamento diante de altos índices de umidade relativa.

Segundo Azevedo (2013), elas são estáveis apenas em seu local de formação, e, logo
após a sua retirada, iniciam seu processo de degradação. Porém, sua velocidade de
degradação é diferente, sendo considerada uma escala geológica de tempo. Desta
forma, quase não se percebem as alterações ocorridas.

21
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Acervo Museu de Arqueologia de Itaipu/Ibram

Suscetibilidade das rochas e objetos líticos aos agentes de degradação

Fatores físicos

Algumas rochas são pouco resistentes a impactos, podendo despedaçar-se ao caírem


ou receberem algum impacto por manuseio ou acondicionamento inadequado, por
exemplo. São maus condutores de energia. Algumas rochas de coleções mineralógicas
são muito sensíveis à abrasão e ao risco.

Fatores ambientais

A luz visível é prejudicial a alguns minerais, como o realgar de cor vermelha, que se
foto-oxida para ouropigmento quando exposto (PARSONS, 1922). Temperaturas ele-
vadas podem causar a dilatação térmica das rochas e também funcionar como cata-
lisador, acelerando a velocidade das reações químicas de degradação.

22
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Em ambientes museológicos, a umidade relativa é responsável por quatro tipos de


danos específicos nas rochas, minerais, fósseis e artefatos líticos: corrosão, mudan-
ças de fase, desidratação e quebras resultantes das tensões causadas nos proces-
sos de adsorção e dessorção da umidade.

Muitos minerais, rochas e artefatos líticos são sensíveis a variações climáticas, prin-
cipalmente a altos índices de umidade relativa. Como exemplo, podemos citar a rea-
ção da água com a pirita, que é um mineral presente na pedra-sabão, produzindo
ácido sulfúrico e gerando uma reação autocatalítica que causará a perda de material
e lixiviação superficial de objetos em pedra-sabão.

Fatores químicos

Um dos minerais mais instáveis presentes nos acervos é a pirita. Sua degradação
ocorre quando há contato com o oxigênio, transformando-se em sulfato de ferro e
dióxido de enxofre, gerando o que conhecemos como ferrugem, que vai aos poucos
deteriorando o material em volta.

Em ambientes com níveis elevados de umidade, há a formação de ácido sulfúrico que


se volatiliza e espalha no ambiente, reagindo com outros objetos nas imediações.
Os sinais visíveis da sua degradação é a presença de eflorescências amarelas ou
brancas, cheiro de ácido e aspecto de queima nas imediações do local de guarda do
objeto. A pirita também está presente nas rochas sedimentares que abrigam fósseis.
Índices de umidade relativa acima de 60% dão início a esta reação.

Fatores biológicos

Micro-organismos podem se desenvolver sobre as superfícies de rochas, minerais,


fósseis e artefatos líticos. Muitas vezes, nos caso das peças provenientes de sítios
arqueológicos, estes objetos podem estar infestados por fungo, liquens ou algas. Es-
tes micro-organismos podem lixiviar as peças com a ação dos metabolitos prove-
nientes de seu metabolismo, como ácidos orgânicos e inorgânicos, dióxido de carbo-
no, gás sulfrídico, entre outros.

Fatores humanos

Manuseio inadequado sem luvas pode impregnar as rochas com gordura das mãos
e gerar um biofilme propício para o desenvolvimento de micro-organismo. Em ma-
teriais porosos, a realização de limpezas utilizando limpadores líquidos pode causar

23
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

manchas e absorção do produto pela peça, podendo reagir quimicamente e causar


perda de suporte. Limpezas com material abrasivo podem causar perda de suporte e
abrasões profundas.

Cuidados e medidas de conservação para as rochas e objetos líticos

§§ Mantenha condições climáticas estáveis, pois esta é a principal medida de


conservação para as rochas e os artefatos líticos. As variações bruscas de
temperatura podem ser tão prejudiciais a estes objetos quanto baixos ou altos
índices de umidade relativa. Não há um padrão a ser seguido, pois as necessi-
dades são variadas, mas a umidade relativa pode ser mantida em torno de 50%,
variando para mais ou menos 5%;
§§ Utilize embalagens específicas para materiais mais sensíveis, como a pirita ou
a marcassita. Eles podem ser guardados utilizando um tampão como sílica gel,
a fim de remover o excesso de umidade. Para isto, consulte um conservador-
-restaurador para elaborar uma embalagem de conservação passiva adequada
para estas peças;
§§ Não utilize materiais à base de PVC ou papelão comum para embalar as pe-
ças nas reservas nem acondicioná-las em mobiliário fechado elaborado em
madeira devido à emissão de vapores voláteis ácidos que podem degradar as
rochas, como já foi visto anteriormente.

Materiais inorgânicos: vidros


O vidro é um material sólido, heterogêneo e inorgânico obtido pelo aquecimento a al-
tas temperaturas de componentes minerais. Sua composição química contém sílica,
sódio, cálcio, magnésio, alumina, potássio e chumbo.

Nos vidros antigos ainda pode se encontrar chumbo, arsênico, selênio, barrilha e ou-
tros elementos químicos. É um material transparente, podendo ser colorido, frágil e
não resiste a impactos. Isolante térmico de baixa dilatação e condutividade térmica.
Pode ser produzido em chapas planas ou em formato de vasos, garrafas, copos, taças
ou objetos diversos.

24
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Técnicas construtivas de objetos em vidro


A fabricação do vidro pode ser dividida em industrializados ou processo manual, por
meio do método tradicional: soprado.

Os vidros industrializados são produzidos em formas de chapa, por meio do processo


de extrusão.

A técnica do vidro soprado consiste em soprar, através de uma vareta metálica, uma
pequena quantidade de vidro líquido. Ao mesmo tempo em que sopra, gira-se em ve-
locidade constante a vareta para que a massa seja distribuída uniformemente. Com o
vidro ainda quente, é possível aplicar outras técnicas complementares utilizando fer-
ramentas como torquês ou alicates. Este processo produz algumas irregularidades,
como bolhas que criam pontos de tensão nas peças, mas, por meio deste processo se
produz peças únicas, como vasos, garrafas, copos, taças, jarras, entre outros.

Pinhas de cristal e vidro (da coleção de 200 peças). Acervo Casa Geyer/Ibram

Propriedades gerais do vidro


A exposição excessiva à luz pode acelerar a descamação e a opacidade da superfície
devido à exsudação (weeping) de componentes como cálcio, potássio e sódio pre-
sentes na composição do vidro, lixiviados quando em contato com alta umidade.

Devido à sua composição química, formam óxidos alcalinos, sulfatos, nitratos e car-
bonatos, quando submetidos à umidade elevada. Estes elementos ocasionam troca
iônica com o meio, gerando a deposição de cristais alcalinos na superfície. A exsuda-
ção destes elementos, associada aos poluentes, causam opacidade ao vidro.

25
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Suscetibilidade do vidro aos agentes de degradação

Fatores físicos

Durante o processo de produção, o vidro adquire pequenas imperfeições na super-


fície que agem como pontos de tensão. Estes pontos desencadeiam imperfeições
mais profundas e que, ao longo dos anos, tornam o vidro mais frágil. Estes pontos
de tensão são característicos do processo de produção (defeito) e são um fator de
degradação intrínseco do material.

Fatores ambientais

Estável, o vidro geralmente é frágil a choques físicos e térmicos. Sua estabilidade é


totalmente comprometida por mudanças bruscas de temperatura ou impactos mecâ-
nicos, que podem provocar desde pequenas trincas até a perda total do objeto.

O vidro pode se degradar ou apresentar manchas em contato com elevado índice


de umidade relativa. Este fenômeno, conhecido como exsudação do vidro, é mais
comum em vidros antigos, devido aos materiais utilizados na sua composição. Man-
chas também podem ser provocadas pelo contato com o flúor, e a ação do ácido
fluorídrico é capaz de derreter o vidro.

Feitos a partir do dióxido de silício, com fundentes como óxido de sódio, cálcio e po-
tássio, estes vidros, quando em contato com umidade relativa superior a 40%, con-
vertem-se em hidróxidos solúveis que reagem com o dióxido de carbono presente no
ar. Variações bruscas de umidade também podem ocasionar crestamento4, que se
caracteriza pelo surgimento de pequenas rachaduras na superfície e desvitrificação
caracterizada pela opacidade do vidro.

Alguns minerais presentes em sua composição (dióxido de manganês, por exemplo)


podem sofrer foto-oxidação, deixando de ser incolor e adquirindo um tom de rosa. A
exposição de vidros incolores à radiação também pode causar alteração de cores ou
o surgimento de cores nos vidros transparentes.

4
Degradação caracterizada pelo desenvolvimento de rachaduras ou uma rede de microfissuras que promove a opacidade
do vidro.

26
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Fatores químicos

Os vidros são formados a partir da fusão de vários minerais a altas temperaturas.


Esta mistura pode conter elementos (sílica, sais de sódio, potássio, chumbo, cálcio,
entre outros) que podem aumentar ou diminuir a suscetibilidade à degradação deles.

Estes minerais, na presença de taxas de UR (Umidade Relativa) elevadas, reagem


quimicamente e transformam-se em óxidos, sulfatos e nitratos que podem migrar
para a superfície da peça, causando a eflorescência e também a subflorescência, que
cristaliza os sais nos poros abaixo da superfície, resultando na ruptura de sua cama-
da superficial

Por exemplo, vidros que possuem maior quantidade de chumbo em sua formulação
tornam-se mais resistentes, não sofrendo exsudação e crestamento.

Adesivos utilizados em caixas de papelão podem liberar formaldeído, que se oxida


diante do vapor de água e da ação da radiação ultravioleta, formando o ácido fórmi-
co, que reage com o sódio presente na composição do vidro, tendo como resultado
a formação de um pó branco (formiato de sódio) na superfície ou nas proximidades
do vidro. Além das colas, o formaldeído também pode ser emitido por compensado,
aglomerados, MDFs, serragem, fumaça de cigarro e objetos fabricados com resina de
fenol-formaldeído.

Fatores biológicos

Os vidros têm a tendência de condensar em suas superfícies o vapor de água presen-


te no ar em locais com altos índices de UR (Umidade Relativa). Aliado a impurezas,
contaminantes, gordura e elementos proteicos provenientes do manuseio sem luva
das peças, pode gerar um biofilme na superfície propício ao desenvolvimento de mi-
cro-organismos. A atividade metabólica destes micro-organismos produz ácidos ou
álcalis que reagem com os elementos constituintes do vidro, causando sua degrada-
ção.

Fatores humanos

Danos geralmente ocorrem devido ao manuseio inadequado ou descuidado durante


o transporte, o acondicionamento e as atividades de limpeza do acervo ou do mu-
seu. Ocorrem também quando bens culturais se encontram em péssima localização,
como no caso de proximidades de cortinas e janelas por onde passam fortes corren-

27
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

tes de ar. Os danos podem também acontecer quando o bem se encontra exposto em
suporte frágil. Isso deve ser evitado principalmente nas situações em que há grande
fluxo de pessoas, pois elas podem acidentalmente esbarrar nos bens culturais ou nos
suportes.

Utilização de produtos abrasivos de limpeza pode causar danos, como abrasões e


manchas. Além disso, dependendo da força aplicada e da fragilidade do objeto, pode
ocasionar a ruptura parcial ou total dele.

Líquidos específicos para vidros (produtos comerciais), que contêm amônia em sua
composição, reagem quimicamente com vidros antigos e podem provocar cresta-
mento.

Cuidados e medidas de conservação para os vidros

§§ Mantenha as flutuações dos níveis de umidade relativa dentro de um intervalo


menor de oscilação. Esta é uma medida importante não apenas para a conser-
vação dos vidros, como também para os demais materiais. Preserve a umidade
em torno de 50%, com uma margem de até 5% para mais ou para menos;
§§ Acondicione objetos mais sensíveis e/ou arqueológicos em embalagens indi-
viduais com tampões de sílica gel, a fim de manter a umidade em níveis de
acordo com a necessidade da peça;
§§ Utilize embalagens com atmosfera anóxia com pressão positiva, evitando o
contato com oxigênio e índices inadequados de UR. Esta é uma alternativa para
a conservação de materiais muito fragilizados;
§§ Organize previamente o local onde as peças de vidro serão colocadas para a
limpeza. A mesa deverá ser estável, forrada com uma manta macia (espuma
de polietileno expandido com 5 mm de espessura), e, sobreposta a esta, papel
seda ou TNT;
§§ Manuseie o mínimo possível os objetos frágeis ou muito delicados. A limpeza
deve se restringir à utilização de uma trincha macia ou de microaspirador. Não
utilizar líquidos ou produtos de limpeza;
§§ Garanta que, ao acondicionar peças de vidro em estantes ou armários, os ob-
jetos fiquem estáveis, a fim de não ocorrerem quedas, escorregamentos, ou
outros acidentes que causem danos aos objetos;

28
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

§§ Não lave peças de vidro. Este procedimento poderá causar danos aos objetos.
Caso seja necessário, consulte sempre um conservador-restaurador, que po-
derá indicar ou realizar o processo de maneira mais adequada;
§§ Não utilize caixas de papelão para acondicionar vidros. Sempre que possível,
evite a utilização de materiais que emanem produtos voláteis, como fenol-for-
maldeído (estantes e prateleiras em MDF, compensado ou aglomerados). Não
guarde nas proximidades de objetos em baquelite ou melanina;
§§ Nunca sobreponha embalagens com peças em vidro nos armários ou nas es-
tantes;
§§ Elabore embalagens em espuma de polietileno de célula fechada sob medida
para as peças, sempre que possível. Isso evita o contato direto com o objeto e
também a dissociação nos casos em que o objeto é formado por mais de uma
peça.

Materiais orgânicos: madeira


Por apresentar alta resistência mecânica e facilidade de obtenção, a madeira vem
sendo amplamente utilizada, desde a pré-história até os dias atuais, com diversos
fins.

Porém, esse material apresenta algumas características que permitem transforma-


ções químicas e estruturas favoráveis aos mecanismos de degradação.

Técnicas construtivas de objetos em madeira

De maneira geral, os objetos que têm a madeira como suporte são elaborados a partir
do seu entalhe, torneamento e montagem por encaixes e/ou colagem quando a peça
é constituída por um ou mais blocos.

29
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Busto em madeira. Acervo das Missões/Ibram

Oratório com divino em madeira. Acervo Museu do Ouro/Ibram

30
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Instrumento musical Ilú. Acervo Museu da Abolição/Ibram

Suscetibilidade de objetos em madeira aos agentes de degradação

Fatores ambientais

Por ser um material higroscópico, todas as peças de madeira estão sujeitas à movi-
mentação mecânica, que acaba por ocasionar alterações em sua estrutura. As varia-
ções volumétricas e dimensionais provocadas pelo ganho e pela perda de umidade
provocam danos ao suporte, que vão do surgimento de fissuras e rachaduras à sepa-
ração dos blocos.

Segundo Rosado (2004), a separação dos blocos ocorre devido à anisotropia da ma-
deira, em que a tensão mecânica é potencializada nas áreas de união, sobretudo
quando os blocos possuem fibras em sentidos opostos, apresentando, consequente-
mente, contração e dilatação em direções distintas.

A camada pictórica também é afetada, passando a apresentar desprendimentos e


craquelês.

Rosado (2004) afirma que a brusca queda de umidade relativa do ambiente provoca
a contração do suporte, deslocando total ou parcialmente a base de preparação e a
camada pictórica. Já a dilatação do suporte provocada pela absorção de umidade do
ambiente imprime à camada pictórica uma força de tração que resulta na formação
de craquelês.

31
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Os raios UV, emitidos pela luz natural e por alguns tipos de lâmpadas, atuam princi-
palmente sobre a lignina, provocando alterações na cor da madeira.

Essas alterações na coloração da madeira também podem ser provocadas pela ação
dos poluentes encontrados na atmosfera, porém com um agravante: a alteração da
textura, principalmente se combinada a outros fatores de degradação, como a umi-
dade, provocando empenamento, fissuras superficiais e desprendimento das fibras.

O aumento da temperatura provoca transformações químicas e estruturais, e eleva-


dos níveis de umidade facilitam a ação dos agentes biológicos causadores da dete-
rioração da madeira, como os fungos e os insetos xilófagos (isópteros e coleópteros).
O ataque de insetos xilófagos é o fator de degradação mais comum, e, geralmente,
eles são responsáveis pelos maiores danos causados à madeira.

Fatores químicos

Por ser composta por celulose, a madeira está suscetível aos mesmos fatores de de-
gradação do papel e do tecido, como a hidrólise, que provoca a redução da resistência
mecânica do material; entretanto, esta dá-se em menor escala que nos demais mate-
riais devido à estrutura fibrosa da celulose, que é interligada pela lignina.

Fatores biológicos

A infestação por cupins, além de ser o mais comum, é também o que traz mais prejuízos
aos objetos em madeira, pois eles se alimentam da celulose que compõe o material.
Geralmente encontrados em regiões de clima quente, os cupins de madeira seca se
instalam e constroem suas colônias em madeiras com baixo teor de umidade.

Já os cupins de madeira úmida infestam a madeira com alto teor de umidade e início
de apodrecimento, e seu ataque pode se estender a peças ainda não atacadas. Carac-
terizados como o tipo mais destrutivo, os cupins de solo são geralmente encontrados
em regiões de clima temperado e tropical. Como seu corpo não é revestido de quitina,
necessita de elevada umidade relativa para sua sobrevivência e desenvolvimento.

Dentre os vários tipos de fungos existentes na natureza, os principais responsáveis


pela deterioração de madeiras são os fungos apodrecedores, os manchadores e
os emboloradores, que necessitam de condições ambientais, como temperatura e
umidade ideais para seu desenvolvimento e proliferação. Os fungos apodrecedores
são responsáveis por diferentes tipos de podridão na madeira, dentre os quais os
principais são a podridão branca, podridão parda e podridão mole.

32
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Na podridão branca, o fungo destrói a celulose, a hemicelulose e a lignina da madeira,


fazendo com que ela perca progressivamente peso e resistência física e mecânica. A
madeira afetada perde sua cor natural, tornando-se esbranquiçada devido à destrui-
ção dos pigmentos e às linhas escurecidas na região afetada.

Já na podridão parda, o fungo age da mesma maneira que na podridão branca, des-
truindo a celulose e a hemicelulose, porém deixando a lignina praticamente intacta. A
peça atacada apresenta coloração parda, como se estivesse sido levemente queima-
da, além de rachaduras perpendiculares e ao longo das fibras, podendo ser facilmente
rompida.

Mais resistente à utilização de preservativos na madeira, o fungo responsável pela


podridão mole ataca a madeira de forma superficial, criando condições para o ataque
de outros fungos. A madeira úmida, quando atacada, apresenta-se amolecida e,
quando seca, apresenta-se escurecida, podendo ser confundida com a podridão
parda.

Fatores humanos

Danos geralmente ocorrem devido ao manuseio inadequado ou descuidado durante


as atividades de limpeza do objeto ou do museu, transporte e acondicionamento.

Utilização de produtos abrasivos de limpeza pode causar danos como abrasões e


manchas. Além disso, dependendo da força aplicada e da fragilidade do objeto, pode
causar a ruptura parcial ou total dele.

Cuidados e medidas de conservação para os objetos em madeira


§§ Organize previamente o local onde as peças de madeira serão colocadas para
a higienização. A mesa deverá ser estável, forrada com uma manta macia (es-
puma de polietileno expandido com 5 mm de espessura), e sobreposta a esta
papel seda ou TNT. Utilize uma trincha macia para a remoção de sujidades e
particulados. Nunca utilize espanador para evitar que os particulados se espa-
lhem pelo ar, voltando, em seguida, a se depositar na superfície do objeto;
§§ Evite o acondicionamento dos objetos em madeira em locais com flutuações
de umidade e temperatura, que provocam movimentação da madeira e, conse-
quentemente, o surgimento de fissuras e craquelês em caso de objetos pinta-
dos ou policromados;

33
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

§§ Realize verificações periódicas nos objetos, a fim de identificar possíveis ata-


ques de insetos xilófagos, coleópteros ou desenvolvimento de colônias de mi-
cro-organismos. Caso haja algum tipo de infestação, o objeto deverá ser reti-
rado do seu local expositivo ou de guarda e desinfestado.

Materiais orgânicos: suporte em papel


Segundo alguns autores, a origem do papel data do ano 105 a.C., e acredita-se que
seu inventor foi Ts’aiLun, um alto funcionário da corte do imperador Chien-Ch’u, da
dinastia Han, que produziu uma substância composta por fibras da casca da amo-
reira, restos de roupas e cânhamo. Esta mistura produzia uma pasta que, colocada
sobre uma peneira e exposta ao sol, formava, após a secagem, uma folha de papel.
Esta afirmação provém de achados arqueológicos encontrados nos arredores da ci-
dade de Hulam, na China.

O princípio básico da fabricação do papel foi mantido em segredo pelos chineses


durante quase 600 anos. Entretanto, com a captura de artesãos chineses pelos árabes
ocorre a transferência deste conhecimento, cuja manufatura artesanal acompanhou
a expansão muçulmana ao longo da costa norte da África até a Península Ibérica.

Apenas a partir do ano 1150, quando a fabricação de papel instalou-se em Fabriano,


na Itália, é que sua produção disseminou-se por toda Europa. Fibras de linho e algodão
foram utilizados como matéria-prima na produção do papel até o início do século XIX,
conferindo ao papel excelente textura e alta durabilidade, características superiores
às da celulose.

Os acervos em papel presentes nos museus e nas instituições culturais sãos cons-
tituídos por uma grande diversidade de técnicas pictóricas aplicadas sobre papel;
desta forma, torna-se fundamental ter conhecimento das várias técnicas utilizadas
por artistas a fim de propor a melhor forma de acondicionamento destas obras. As
técnicas mais comuns são: grafite, fusain, nanquim, pastel seco, pastel oleoso, aqua-
rela, guache e gravura.

34
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Técnicas construtivas para bens em suporte de papel


O papel é um material constituído de uma pasta de fibras de celulose, cargas minerais
e outros produtos. A matéria-prima básica do papel é a celulose, um composto natural
existente nos vegetais, de onde é extraída.

A pasta mais antiga e durável para a produção do papel é a de trapos. Os trapos eram
submetidos a um processo de maceração ou de fermentação. O processo durava de
cinco a 30 dias com esta mistura imersa em água. Para a obtenção de um bom papel,
era imprescindível a fermentação dos trapos. Posteriormente, desenvolveu-se uma
máquina mecânica para decompor as fibras de trapos, acelerando o processo de pro-
dução.

Gravura Três gaivotas e respiradouros. Acervo Museu Lasar Segall/Ibram

O papel é obtido a partir de uma pasta-base chamada de Polpa, produto constituí-


do de fibras de celulose, obtido por processos mecânicos ou químicos, destinado
à fabricação do papel. A polpa pode ser obtida a partir dos seguintes processos de
produção: pasta mecânica (proveniente do séc. XIX), pasta termomecânica, pasta se-
miquímica, pasta química ou processos mistos combinados.

Pasta mecânica

A pasta mecânica é obtida, principalmente, a partir de madeiras moles, e a única


“modificação química” que ocorre durante o processo é a hidratação das fibras. Os
papéis resultantes desta polpa são altamente impuros, ácidos e de baixa qualidade.
Foram e ainda são utilizados para produção de papel para jornal, papel de impressão
de livros, catálogos, revistas, papelão etc.

35
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Pasta termomecânica

Pasta termomecânica é obtida em um processo no qual a madeira é previamente


tratada num processo de vaporização a temperaturas de até 130 °C. A madeira amo-
lecida é posteriormente desfibrada pelo processo anterior da pasta mecânica. Tam-
bém são papéis de qualidade inferior, mas as fibras são mais longas que as da pasta
mecânica, produzindo papéis um pouco mais resistentes.

Pasta semiquímica

Pasta semiquímica: obtida mediante tratamentos químicos (processo desenvolvido a


partir de 1925). Os produtos químicos utilizados poderiam ser: soda a frio – impreg-
nação de cavacos de madeira com solução de NaOH, seguida da separação mecânica
das fibras em desfibrador mecânico. Sulfito neutro – processo mais difundido. Os
cavacos de madeira são tratados com um licor à base de sulfito de sódio (Na2SO3) ou
sulfito de amônio (NH4)2SO3, carbonato de sódio (Na2CO3) e bicarbonato de sódio
(NaHCO3). O processo de produção de pasta semiquímica reduzia a quantidade de
lignina na mistura e, desta forma, produzia papéis menos ácidos.

Pasta química

Mais recente, a pasta química é obtida mediante tratamento químico que elimina
grande parte de componentes não celulósicos, como lignina, hemiceluloses e extrati-
vos, não sendo necessário tratamento mecânico para separação das fibras. Imersão
dos cavacos em um licor que combina NaOH e Na2S, entre outros ingredientes. A so-
lução promove a solubilização na água de tudo o que não é celulose, como a lignina.
As hemiceluloses são também reduzidas a compostos mais simples; desta forma,
produz papéis mais puros e com muito menos acidez, aumentando sua durabilidade.

Propriedades gerais dos bens em suporte de papel


Por serem compostos por celulose, os papéis são degradados por incidência direta
ou indireta da iluminação natural ou artificial a partir da intensidade, da proporção de
raios UV e do tempo de exposição à luz.

Um elemento químico importante na composição dos papéis é a Hemicelulose, que


são polissacarídeos formados por macromoléculas que ajudam a compor a parede
celular das células vegetais. Sua proporção varia de acordo com o tipo de madeira.
Também são reativos e podem sofrer reações de oxidação e degradação.

36
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Suscetibilidade de bens em suporte de papel aos agentes de degradação

Fatores físicos

Os papéis, de maneira geral, possuem pouca resistência mecânica. Rasgam-se fa-


cilmente se manuseados incorretamente. Deformam-se com facilidade quando são
empilhados em grandes volumes, principalmente se for na vertical. Quando oxidados,
tornam-se quebradiços e muito mais frágeis, quebrando-se durando o manuseio.

Alguns papéis produzidos com pasta mecânica e química apresentam baixa quali-
dade, e isto é o que se chama de causa de degradação intrínseca do papel, como a
presença de resíduos do processo de produção, como lignina, cargas, vestígios de
partículas de ferro, entre outros. Estes resíduos reagem com a lignina ácida degra-
dando as moléculas da celulose, enfraquecendo a estrutura do papel e tornando-o
quebradiço, não resistindo a uma dobra.

Fatores ambientais

Degradação do papel associada à umidade e à temperatura é muito comum, inde-


pendentes do tipo de fibra. A higroscopicidade, característica comum ao papel, asso-
ciada à umidade, provoca dilatações e contrações bruscas que levam ao rompimento
da estrutura do papel. Além destas constantes movimentações, o papel também está
sujeito à ação de agentes biológicos como fungos, bactérias e insetos, favorecidos
pela variação de umidade e temperatura que proporcionam um ambiente adequado à
sua disseminação.

A fotodegradação, provocada pela ação da luz, seja natural, seja artificial, é responsá-
vel pelo rompimento da estrutura da fibra do papel, provocando o envelhecimento pre-
coce ou acelerado dele. Este envelhecimento apresenta-se de duas formas distintas.

A primeira é uma ação clareadora que causa o desbotamento ou o escurecimento,


e a segunda apresenta-se como uma acelerada degradação da lignina, presente em
papéis constituídos de fibra de madeira, tornando-a progressivamente escura.

Levando em consideração que a luz natural emite os três tipos de radiação, as lâm-
padas comuns emitem grande quantidade de calor e as fluorescentes são ricas em
radiação ultravioleta, a fotodegradação torna-se quase inevitável, devendo-se evitar
a incidência direta destas radiações como forma de proteção. A poluição atmosférica
traz grande contribuição para a deterioração deste tipo de material. O depósito e o

37
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

acúmulo de poeiras e resíduos de gases tóxicos emitidos por automóveis e indústrias


provocam reações químicas que aceleram a degradação.

Fatores químicos

Materiais particulados transportados pelo ar e micro-organismos ao se depositarem


na superfície do papel são absorvidos por meio de ligações químicas, provocando
uma ação extremamente destrutiva que vai além das sujidades e das abrasões su-
perficiais, atuando no interior das fibras, tornando-as frágeis e quebradiças.

Outra ação devastadora é provocada pelo dióxido de enxofre, que, lançado na


atmosfera pela queima de combustíveis, combinado com o oxigênio, transforma-se
em trióxido de enxofre, que ao entrar em contato com a água, seja do ar, seja do papel,
origina o ácido sulfúrico, que, além de provocar manchas e escurecimento do papel,
compromete a resistência dele.

Fatores biológicos

O papel é extremamente vulnerável à ação de micro-organismos, uma vez que a ce-


lulose é seu principal constituinte. Esta ação é evidenciada pelo aparecimento de
marcas variadas resultantes da degradação da celulose e da cola, alterando as ca-
racterísticas físicas e químicas do suporte, que passa a apresentar um aspecto frag-
mentado.

No caso específico do algodão, se exposto a uma prolongada ação da umidade, so-


bretudo se combinada a uma temperatura em torno de 25 a 30°C, favorece o desen-
volvimento de micro-organismos e bolores que provocam o amarelecimento e o en-
fraquecimento da resistência de suas fibras.

O mofo e as bactérias desintegram a celulose. Essa decomposição é parecida com a


da oxidação; o suporte em papel perde a consistência e a elasticidade, ficando que-
bradiço, e se desfaz.

Fatores humanos

Utilização de caneta, grafite ou dobras para fazer marcação ou anotações nas páginas
dos documentos é um erro muito comum e causa danos difíceis de serem revertidos.

38
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

A utilização de grampos, clipes metálicos ou de PVC provoca danos graves ao papel.


Os metálicos entram em processo de corrosão, causando manchas e perda de supor-
te. Os em PVC degradam-se, exsuldando plastificantes e ácido clorídrico, promoven-
do, inicialmente, manchas e perda de suporte.

O manuseio de documentos sem luvas pode causar manchas ou deixar resíduos de


gordura no material.

Comer ou fumar em áreas de guarda ou ao manusear os acervos pode causar a quei-


ma ou atrair insetos e roedores.

Mau acondicionamento, como enrolar documentos ou gravuras de grandes formatos,


causa deformações e perdas de suporte irreversíveis.

Cuidados e medidas de conservação para os bens em suporte de papel

§§ Atente-se ao principal cuidado para a conservação de objetos com suporte em


papel, mantendo o controle das condições climáticas do espaço de guarda e
exposição. Como vimos anteriormente, todos os materiais orgânicos são sus-
cetíveis à degradação diante de flutuações bruscas de iluminação, ventilação,
níveis de poluentes e contaminantes, assim como de temperatura e da umida-
de relativa do ar. A temperatura ideal deve estar entre 20° e 22° C e a umidade
relativa, entre 45% e 55%;
§§ Evite iluminação intensa diretamente sobre a obra durante exposições ou ou-
tras atividades com documentos e obras sobre papel. Controle e restrinja os
índices de iluminância para ficar em torno de 70 lux;
§§ Utilize filtros nos sistemas de ar-condicionado e seus dutos e barreiras para
evitar a entrada de material particulado e poluentes no interior dos locais de
exposição e guarda;
§§ Acondicione os documentos planos em envelopes de acondicionamento ela-
borados em papel com reserva alcalina, próprios para preservação, sempre que
possível. Guarde-os em mapotecas e na horizontal, evitando deformações;
§§ Utilize uma placa de apoio, evitando que ocorram danos ao transportar obras
de grandes dimensões;

39
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

§§ Acondicione gravuras e fotografias em montagens com passe-partout com


janelas protegidas por filmes de poliéster (caso não estejam em molduras),
sempre que possível. Em seguida, acondicione-as em envelopes alcalinos e
guarde-as em mapotecas.

Materiais orgânicos: suporte em tecido


A fiação e a tecelagem são uma das mais antigas formas de trabalho humano, e sua
evolução está diretamente relacionada à evolução das sociedades. Fragmentos têx-
teis datados de aproximadamente 10.000 anos foram encontrados em escavações
arqueológicas.

O linho, o cânhamo e o algodão documentam a passagem das culturas humanas do


estado nômade para o estado sedentário e agricultor, onde o homem passa a cultivar,
plantar e colher vegetação capaz de ser transformada em fibras fiáveis, fazendo surgir
os tecidos de fibras vegetais nas planícies férteis do Nilo e da Índia, além das fibras de
origem animal, como a lã e a seda. Porém, por serem frágeis e facilmente putrescíveis,
poucos são os objetos têxteis pré-históricos encontrados.

O tecido é um corpo têxtil laminar flexível produzido pelo cruzamento de dois sistemas
de fios, um longitudinal, disposto paralelamente e à mesma distância, denominado
urdidura, e outro transversal, que se entrelaça à urdidura, chamado trama.

Os acervos têxteis não incluem apenas vestimentas, mas também tapeçarias, alfaias,
coberturas de estofados, bordados e uma ampla variedade resultante do uso de
tecidos.

Técnicas construtivas para bens em suporte de tecido

Tipos de tecidos disponíveis: planos, malha e não tecido. Tecido plano é o maior
grupo, formado pelos tecidos comuns, que utilizamos no dia a dia, e constituinte da
maior parte de nossos acervos têxteis. São obtidos através do entrelaçamento de
dois conjuntos de fios que se cruzam em ângulo reto. Os fios principais são a urdidura
ou urdume, sentido vertical do comprimento. Os fios dispostos no sentido horizontal
são chamados de fios de trama.

40
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Os fios são formados a partir do beneficiamento das fibras, que podem ter origem
mineral, animal ou vegetal. A maioria das fibras têxteis, com exceção da seda, não
passa de alguns centímetros de longitude. Estes fios passam pelo processo de fila-
gem, onde se tornam um fio uniforme e contínuo.

Um elemento importante na sua confecção é a torção: as fibras são unidas através de


um processo de torção que tem por finalidade evitar que as fibras se separem ou des-
lizem umas sobre as outras. Eles podem apresentar torção em Z ou em S. A direção
Z é obtida pela torção em sentido anti-horário das fibras; a em S, em sentido horário.

Outro ponto importante é a definição da estrutura ou do padrão de ligamento dos


tecidos planos. Trata-se do entrelaçamento dos fios por meio do qual o tecido é for-
mado. Há três tipos básicos: tafetá, sarja e cetim. O tafetá é o padrão mais simples.
Caracteriza-se pela passagem alternada dos fios da trama sobre a urdidura.

O padrão sarja caracteriza-se pela passagem dos fios da trama sobre a urdidura
seguindo o padrão um não e dois sim sobre os fios da urdidura. Em cada nova
passagem, a trama avança uma unidade para a direita ou para a esquerda, formando
uma estria em diagonal.

O cetim caracteriza-se por cada fio da urdidura passar sobre quatro a oito fios da
trama, numa disposição em zigue-zague.

Espiguilha ou espinha de peixe é uma variante da estrutura sarja em que as estrias em


diagonal apresentam-se em duas direções, formando um desenho em zigue-zague.

A malha é constituída por um elemento fundamental, que é a laçada. Ela é formada por
cabeça, duas pernas e dois pés. Sua estrutura é formada por carreiras e colunas. O
entrelaçamento das carreiras e colunas dá origem ao tecido, semelhante ao processo
de tricô.

O não tecido (ou TNT, de acordo com a norma NBR 13370) é formado por fibras curtas
(véu) orientadas ou não, e caracteriza-se por não apresentar estrutura específica. É
produzido pelos processos: mecânico (fricção) e/ou químico (adesão) e/ou térmico
(coesão), ou a combinação destes.

41
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Casaco de veludo Worth do século XIX/XX.


Acervo Museu Casa da Hera/Ibram

Propriedades gerais dos bens em suporte de tecido

Assim como os papéis, os tecidos sofrem degradações provocadas pela incidência


direta ou indireta da iluminação natural ou artificial a partir da intensidade, da
proporção de raios UV e do tempo de exposição à luz.

A celulose presente na composição do tecido é bastante estável; entretanto, em


condições de alcalinidade ou acidez, sofre hidrólise, ou seja, os polímeros de celulose,
no processo de degradação, reduzem seu tamanho, formando moléculas menores.
Esta redução de tamanho das cadeias de celulose ocasiona menor resistência
mecânica do material.

Suscetibilidade de bens em suporte de tecido aos agentes de degradação


Fatores físicos

Atrás dos quadros podem se formar bolsas climáticas. Entre a parede e o suporte têx-
til, condicionado pela espessura do bastidor, há um pequeno espaço, com uma tem-
peratura e UR do ar diferentes do ar da sala onde a pintura está exposta. Isso pode

42
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

variar de acordo com o tipo de parede. Atrás do quadro a temperatura é mais baixa
e a umidade mais alta; com isso, podem se formar craquelados, desprendimento da
camada pictórica e deformações.

Os tecidos históricos podem apresentar pouca resistência à tração; desta forma,


mantê-los na posição vertical, pendurados ou tensionados, pode levar à ruptura das
bordas e dos locais de fixação.

Mais do que um problema estético, a poeira e o depósito de particulados provenientes


da poluição atmosférica ocasionam reações químicas que afetam diretamente a es-
trutura dos têxteis. Facilmente absorvida por estes materiais, a poeira, muitas vezes
ácida, retém umidade e, em alguns casos, provoca cortes na fibra.

Fatores ambientais

Por possuírem matéria-prima de natureza orgânica, os tecidos produzidos com fibras


animais ou vegetais são extremamente frágeis e deterioram-se com facilidade, sendo
este processo acelerado pelas condições ambientais às quais o têxtil é submetido. A
umidade relativa é um dos principais agentes de degradação dos têxteis, pois desen-
cadeia os processos de degradação física, química e biológica.

Elevados níveis de umidade relativa causam o aumento de volume das fibras, além
de provocar degradações que vão de manchas ao apodrecimento das fibras. Baixos
níveis de umidade causam a perda de volume das fibras, contraindo-as, e este movi-
mento constante causa o rompimento por stress do material, aliado à deposição de
particulados que podem causar mais atrito entre as fibras, ajudando a rompê-las.

Já as radiações infravermelha e ultravioleta provocam o enfraquecimento das fibras


e alterações das cores, deixando os têxteis desbotados e fragilizados, podendo sofrer
rupturas com facilidade.

Altos índices de umidade relativa também são responsáveis pela oxidação de ele-
mentos metálicos, como fios, cravos de tapeçarias e bordados metálicos presentes
nas peças. A corrosão prejudica não apenas os elementos metálicos, mas também
toda a fibra em suas proximidades, manchando a área e também as corroendo.

Níveis de umidade relativa abaixo de 30% causam a perda de umidade da peça, tor-
nando as fibras ressecadas e quebradiças. Se ficarem expostas constantemente a
níveis baixos, suas fibras ficam tão ressecadas que podem se tornar pó a menor ma-
nipulação delas.

43
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

As flutuações bruscas e constantes dos níveis de umidade no ar do ambiente são ex-


tremamente perigosas para os materiais orgânicos, uma vez que expõem as peças a
constantes movimentos de adsorção/desorção, expandindo e retraindo o seu volume
normal, levando à ruptura das fibras.

Temperaturas elevadas facilitam o desenvolvimento de larvas de insetos, que podem


ser depositadas nas fibras, germinação e proliferação de micro-organismos, acelera
a velocidade das reações químicas de degradação, descoloração e rigidez das fibras.
Bruscas flutuações de temperatura podem causar condensação do vapor de água
sobre os tecidos, oxidando fios metálicos, além de causar manchas de umidade.

As fibras sintéticas como as poliamida (nylon), acrílico, elastano (lycra) e poliéster,


entre outras, reagem às condições ambientais de maneira mais lenta, devido à sua
natureza polimérica.

Fatores químicos

A decomposição de fibras naturais, como a lã, gera produtos voláteis, como o enxofre,
que, em combinação com altos índices de umidade no ar, torna-se ácido sulfúrico,
que pode provocar corrosão dos fios metálicos, desgastes das fibras e descoloração
das peças.

Tecidos sintéticos à base de acetato de celulose, como o rayon, degradam-se em


condições favoráveis, liberando vapores de ácido acético. Este ácido, além de fun-
cionar como catalisador do processo de degradação do rayon, pode degradar outros
objetos têxteis nas proximidades.

Fatores biológicos

Em condições inadequadas – tais como umidade relativa acima de 60%, baixa ven-
tilação e temperaturas elevadas – a conservação de têxteis torna-se vulnerável à
infestação por fungos. As atividades metabólicas destes micro-organismos geram
produtos ácidos e/ou alcalinos que degradam as fibras. Manchas também podem ser
causadas pela ação de fungos e bactérias.

Fatores humanos

O mau acondicionamento e manuseio são causas de degradação provocadas pelo


fator humano. A guarda de tecidos planos longos dobrados forma vincos que, muitas
vezes, não são possíveis de remover. Estes vincos também fragilizam o local, geral-
mente, partindo as linhas da trama do tecido.

44
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Manusear as peças sem luvas pode contaminá-las com a gordura ou as sujidades


presentes nas mãos, gerando um biofilme no qual podem se desenvolver micro-or-
ganismos.

Manuseio das peças pelas extremidades, bordados ou partes frágeis leva à perda
ou rasgo destes locais. Acondicionamento de vestes em cabides plásticos comuns,
sem áreas acolchoadas, causa desgastes e ruptura dos fios da trama (inicialmente) e
costuras das vestes. O uso de cabides de metal é ainda mais prejudicial, pois, além de
romper os fios, ainda pode causar manchas e degradações provenientes da oxidação
deles.

O uso inadequado de etiquetas adesivas, alfinetes ou grampos para identificação das


peças pode causar danos aos tecidos, assim como pontos de oxidação.

Cuidados e medidas de conservação para os bens em suporte de tecido

§§ Nunca lave tecidos históricos nem utilize produtos de limpeza comerciais ou


os envie para lavanderias. Caso seja necessário, procure um conservador-res-
taurador com formação e experiência com materiais têxteis, a fim de indicar a
melhor forma de tratar a peça;
§§ Limpe as peças apenas de forma mecânica, com a utilização de trinchas ma-
cias, com a peça na horizontal e apoiada sobre uma base plana e estável. Caso
seja necessário, pode ser utilizado um aspirador de baixa pressão. Não o utilize
diretamente sobre a peça, cobrindo-a com um tecido fino;
§§ Não utilize fungicidas ou cupincidas diretamente nos tecidos, pois pode man-
chá-los ou reagir quimicamente com corantes ou outros materiais. Caso seja
necessária a desinfestação das peças, utilize tratamento por atmosfera anóxia
para cupins ou micro-organismos aeróbicos;
§§ Nunca utilize tubos de PVC para enrolar peças de grandes dimensões. Estes
tubos têm vida útil de, no máximo, dez anos, em que começam a degradar rapi-
damente, liberando ácido clorídrico, o que pode vir a levar à perda total da peça
enrolada a ele. Para este fim, utilize materiais mais estáveis, como a espuma
de polietileno;

45
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

§§ Acondicione as peças têxteis na horizontal, evitando dobrá-las. Forre antecipa-


damente o local com um tecido de algodão, ou TNT branco, e cubra a peça com
o mesmo tipo de tecido;
§§ Caso seja necessário acondicionar mais de uma peça no mesmo espaço (umas
sobre as outras), deixe as mais pesadas embaixo e as mais leves em cima,
sempre embaladas individualmente com algodão, TNT ou perlon. Evite acon-
dicionar tecidos de cores escuras com tecidos de cores claras;
§§ Prepare suportes acolchoados simulando os contornos das peças, a fim de
melhor sustentá-los sem causar danos à sua estrutura em caso de exposição
de peças e objetos (sapatos, chapéus, luvas, toucas etc.);
§§ Mantenha índices de iluminação em níveis baixos, em torno de 50 lux, e evite
as flutuações bruscas, mantendo índices de umidade relativa em torno de 55%
(5% para mais; 5% para menos) e temperatura entre 18º e 22ºC.

46
Módulo 2 – Constituição física dos acervos e
principais agentes de deterioração

Encerramento do Módulo 2
Encerramos o Módulo 2, que foi bastante denso, mas muito importante para os pró-
ximos passos. Conhecer a constituição física dos bens que compõem as coleções
de museus, descobrindo um pouco mais de suas formas de produção e suas princi-
pais fragilidades, será primordial para estudarmos o próximo módulo, que tratará do
diagnóstico das condições ambientais e sua relação com os principais agentes de
deterioração.

Vamos continuar?

47