Você está na página 1de 4

Elisa Andrade *

Ao abordar pela primeira vez na Imprensa Portuguesa,


algumas questões relativas à condição feminina em Áfrfca, Assim, não é de admirar que a maior
vamos fazê-Io da maneira mais global possível. Mesmo se parte dos raros estudos feitos sobre ou
abordando questões relativas à mulher
corrermos o risco de generalização. Algumas razões para em África estejam marcados por uma
nós .fundamentais, nos levam a optar por tal método. O certa visão eurocêntrica e se orientem pe-
que de um modo geral temos lido nas publicações portu- lo que acham de mais exótico: a excisão
do clitóris e/ou a infibulação, a poliga-
guesas sobre as mulheres africanas, é do domínio da antro- mia, o dote (ou o preço da noiva), o
pologia ou da etnologia -quando não da simples etnogra- casamento precoce das jovens, os ritos
de iniciação. ..
fia -com toda a carga de reservas e preconceitos, por ve- Embora não neguemos a importância
zes bem fundados, que essas disciplinas das Ciências Hu- da análise e mesmo denúncia de tais prá-
manas e Sociais ainda transportam com elas, dado a sua ticas no que têm de mutilador, de inibi-
dor, de inferiorizante das mulheres,
conotaçãó com a implantação colonial. Isso, apesar das pensamos que não se deve igualmente
mudanr;'as fundamentais introduzidas sQbretudo desde os perder de vista que elas são seres sociais,
ocupando determinadas posições no seio
anos 60. da família e no âmbito da produção, o
Não se pode ~fectivamente esquecer que a constituição que determina fundamentalmente a sua
dessas disciplinas foi impulsionada pela necessidade senti- posição na sociedade étnica ou global. E
a sociedade global se encontra por sua
da nos países colonialistas, de melhor conhecer os povos vez inserida dentro de um contexto de
ditos e.yóticos (do dito Terceiro Mundo) para uma melhor relações planetárias, em situação de do-
minação.
racionalização da sua e.yploração colonial.
Não podemos tão pouco descurar o facto de a antropo-
o impacto da dominação
logia e a etnologia se ori~ntarem essencialmente para estu-
cnlnnial
dos micro-sociais, por vezes sem referência alguma à so-
ciedade ,global e para, frequentemente, e.ytrapolar, por vezes
Ainda que não tenhamos de modo al-
abusivamente, observações .feitas ao nível micro-social ou gum a intenção de proceder a um qual-
micro-regional, sem terem em conta a diversidade de situa- quer processo das colonizações no qua-
dro deste artigo, não podemos contudo
çÕes e.Yistentes mesmo no seio de um dado grupo étnico, deixar de nos referirmos a tal aconteci-
mormente ao nível de um país, que no caso concreto do mento que alterou, por vezes profunda-
continen.te africano são quase todos caracterizados pela sua * Elisa Andrade, Caboverdiana, econo-
plurietnicidade . mista e historiadora, consultora da
UNESCO para questões relativas à
condição feminina em África.

TERRA SOLIDÁRIA. N.o 5 .JAN./FEV. 87 CAOERNO E -


mente, a estrutura e as relações sócio- peia. Essas influências exteriores intro- Com a introdução das. culturas espe-
-culturais e de produção vigentes nas so- duziram distorções, por vezes arbitrarie- culativas (borracha, amendoim, cacau,
ciedades africanas que, na sua larga maio- dades, na regulamentação das questões algodão, sisal, etc.), muitas vezes em
ria, já não eram'igualitárias e nas quais as africanas, nomeadamente familiares: «a detrimento das produções de subsistên-
as mulheres se encontravam em situação descendência patrilinear passou a substi- cia, que foram monopolizadas pelos ho-
de subordinação em relação aos homens. tuir, apouco e pouco, a matrilinear; o mens, esses passaram a ser os únicos in-
Em graus mais ou menos diversos, o casamento religioso apareceu terlocutores dos colonos. A produção
impacto da dominação colonial não se sobrepondo-se ao consuetudinário; em agrícola da mulher, essencialmente vira-
traduziu somente pela exploração econó- certas sociedades as mulheres perderam da para a subsistência da família, porque
mica, mas também pela imposição d~ o direito patrimonial que detinham e à margem do circuito monetário, passou
modelos e valores próprios da civilização perderam por vezes o controle do fruto do a não ser considerada como tendo ex-
seu trabalho em benefício do marido. pressão económica o que levou a perder
europeia.
A implantação do modo capitalista de Perderam também, por vezes, o direito de parte da sua independência ou autono-
produção, provocou alterações profundas ; herdar , que passou para os irmãos (se mia.
solteiras), para o irmão do marido (se As administrações coloniais que, de
nos modos de produção anteriores, acen-
casadas) ou ao filho mais velho delas. Lá um modo geral , desmantelaram os Impé-
tuando as clivagens sociais já existentes
onde havia liberdade sexual dos jovens rios e Reinos existentes em África,
ou criando-as onde não se tinham ainda
antes do casamento (tolerada nos Balanta- sobretudo a francesa e portuguesa, passa-
constituído.
Da imposição dos valores europeus -Bassa e institucionalizada nos Bijagós da raro a apoiar-se nos chefados (cujos che-
realçamos a influência das religiões cris- Guiné-Bissau), tentaram reprimi-Ia em fes escolhiam ou pactuavam com eles)
tãs e a introdução do sistema jurídico nome da moral cristã. (1»,. e destituíram as mulheres qpe segundo os
germânico ou greco-Iatino que muitas Se antes da colonização o dote era usos e costumes exerciam directa ou in-
sobretudo simbólico, com o desenvolvi- directamente uma autoridade política. As
vezes anularam, outras sobrepuseram-se
às leis consuetudinárias que regiam a vi- mento das relações capitalistas de produ- mulheres só puderam conservar o «poder
da das diferente~sociedades étnicas. Não ção e a progressiva monetarização da oculto» que tradicionalmente a «gente fe-
podemos tão pouco ignorar os valores economia, a mulher tomou-se, pura e minina» utiliza em todas as sociedades
veiculados pela penetração arabo- simplesmente, em várias sociedadesétni- humanas. Só com o evento das indepen-
-islâmica anterior à colonização euro- cas, objecto de compra e venda. dências nacionais, particularmente nos

AS MULHERES: PILARES DAS SOCIEDADES AFRJCANAS -CADERNO E


2
Moçambiqlle

países que foram palco de uma luta de ca, cardagem do algodão ou das lãs,
libertação nacional, as mulheres recome- À.~ mlllhere~ no mundo rural tingidura dos panos, etc. ..
çaram a participar abertamente, se bem A todas essas tarefas se vêm juntar
que modestaménte, no exercício do po- ainda os trabalhos domésticos: ir buscar
der. Assim, podemos dizer que, de um Apesar das alterações introduzidas".as a água e a lenha (por vezes a distâncias
modo geral, as mulheres africanas vivem mulheres detêm ainda no mundo rural I superiores a 5 Km. da "morança»), pre-
-salvo algumas mudanças fundamen- uma posição geralmente preponderante, parar as refeições, ocupar-se das crian-
tais obtidas pela sua participação nas lu- no que diz respeito à produção de subsis- ças, etc...
tas de libertação nacional -os efeitos tência e em todas as actividades destina- Nas sociedades fortemente tocadas pe-
conjugados dos valores (positivos e ne- das à preparação dos alimentos para a las migrações sobretudo masculinas (sa-
gativos) das sociedades étnicas e dos ad- família e para o pequeno comércio. sonais, ou de longa duração) não só se
quiridos ou impostos com as penetrações Considera-se que, de um modo geral, ela agrava o peso do trabalho produtivo tra-
estrangeiras. participa entre 60 a 80% na exploração dicional das mulheres, mas ainda se ini-
Consoante os grupos étnicos sejam de das pequenas propriedades familiares; os ciam em actividades que anteriorm~nte
patrilinhagem ou de matrilinhagem, islâ- homens só ajudam nos trabalhos mais eram exclusivas dos homens.
micas ou não, as mulheres gozam de penosos de desbravamento dos terrenos Quanto ao sector comercial, se elas
maior ou menor autonomia no seio da de cultivo e no corte de matas. Mas é a dominam de um modo geral o comércio
família, dispõem com maior ou menor ela que, ao longo do ano, compete asse- de retalho, em contrapartida estão geral-
gr~u de independência do produto do seu gurar as outras tarefas agricolas como ! mente ausentes do comércio em grosso.
trabalho e participam mais ou menos na amanhar as terras, mondar , lavrar e pro- Nalguns países, sobretudo da África
vida das sociedades. ceder à colheita onde é ajudada pelas Ocidental, nomeadamente no Benin, Ga-
Encontrando-se por outro lado frag- crianças e, por vezes, pelos homens. É bão, Nigéria, existem grupos de mulhe-
mentadas entre as diferentes camadas ou ainda a mulher que se ocupa da criação res "les femmes d'affaires» (mulheres de
classes sociais, as africanas, embora do gado miúdo e em geral da ordenha negócios) que possuem cabeleireiros, ca-
tenham como d~ominador comum a sua das vacas nos grupos de pastores ou cria- sas de modas, restaurantes, lojas de teci-
subordinação na sociedade, vivem dife- dores de gado. Em várias sociedades é dos artesanais africanos, por vezes ma-
rentemente a sua condição segundo se ainda a ela que compete assegurar um ternidades ou casas de saúde, onde em-
encontram nas zonas rurais ou urbanas. certo tipo de produção artesanal: cerâmi- , pregam enfermeiras qualificadas. As que

T"DDA ~rn mÁRTA N° ~ .JAN./FEV. 87 CADERNO E- 3


conseguem amealhar capital suficiente, ção cultural obriga a mulher a ajoelhar-se positivos: proporcionou-lhes a ocasião de
investem nos serviços de táxis, ou na para acolher o homem quando chega a constatarem na prática as suas potenciali-
construção imobiliária. casa. No momento das refeições ela de- dades em temlOS de coragem, abnega-
ve servi-Io, em primeiro lugar , dar- ção, persistência e espírito de responsa-
Em meio urbano -lhe os melhores pedaços, indo depois bilidade, de crerem na sua própria capa-
pari outro lado, comer com as crianças o cidade de conceber, organizar e dirigir ,
que resta. Quer por vezes a tradição que pemlitindo-lhes finalmente destruir o
No meio urbano, quando as mulheres
a mulher não fale à frente do homem e mito milenarmente interiorizado da sua
não trabalham, estão como é óbvio na
quando a ele se dirigir, tratá-lo por suposta inferioridade em relação ao ho-
completa dependência do marido. Se
«mestre" ou «senhor" .Tudo isto, con- mem. Por outro tado, alguns homens pu-
pertencem às classes ou camadas mais
clui a autora, suscita na mulher um senti- deram tomar consciência do facto de as
favorecidas, podem dispôr de uma ou
mento misto de temor, respeito e submis- mulheres não poderem ser reduzidas à
mais empregadas domésticas (muitas ve-
são em relação ao homem, difícil de ser dimensão tradicional de mulher/esposa
zes em situação de quase servidão) e l'n-
quebrado, sobretudo nas sociedades isla- /mãe/objecto de prazer sexual. Passaram
tão se vêem, na verdadeira acepção do
mizadas. a vê-la cidadã responsável e companheira
term9, reduzidas à função exclusiva de
de todas as vissicitudes da luta.
mulher/esposa/mãe/objecto de ostenta-
E indubitável que a sua participação
ção e de prazer sexual. A mulher e a luta de libertação nesse processo abre novas possibilidades
Menos contempladas que os homens de transfomlação qualitativa da condição
em termos de formação quando traba- feminina em África. Mas, partindo de
Iham (no sector público ou privado) elas - Quanto à situação das mulheres nos
uma base educacional inferior em relação
estão concentradas nas profissões tradi- países que fizeram uma luta de libertaÇão
ao homem, as mulheres enfrentam nesses
cionalmente femininas: ensino, saúde, nacional armada (Angola, Guiné, Mo- , , .,
palses recem-mdependentes de Africa,
empregos de escritório (sobretudo subal- çambique, Zimbabwé) ou não (.tabo
certas dificuldades quanto à sua inserção
terno), empregadas domésticas, etc. Se Verde e São Tomé e Princípe), parece
tanto ao nível do trabalho quanto ao ní-
trabalham nalgumas indústrias manufa- que, apesar de certas aquisições funda-
mentais -em termos de promoção - vel político.
ctureiras essas são geralmente alimenta- Apesar de os partidos e governos te-
res ou de vestuário. que as mulheres asseguraram pela sua
participação nessas lutas, a realização de rem geralmente proclamado a igualdade
A divisão sexual do trabalho continua de direitos e deveres para homens e
a confinar as mulheres nas tarefas consi- facto da igualdade de direitos e de opor-
mulheres, a sua realização efectiva en-
deradas inferiores ou de menos responsa- tunidades entre homens e mulheres,
frenta uma dupla resistência: por parte
bilidade. Assim, o seu salário é, na mai- constitui ainda um objectivo longínquo.
ainda da maioria dos homens que não
or parte das vezes, um complemento ao Nos países que fizeram a luta armada,
querem aceitar a ideia dessa igualdade de
rendimento do marido. Como bem disse as mulheres, em maior ou menor escala,
facto e por parte também da maioria das
com muita justeza e com dimensão uni- participaram militarmente, mesmo se o
mulheres ainda profundamente marcadas
versalizante, Maria de Lurdes Pintassil- acesso a escalões elevados da hierarquia
pela ideia da sua suposta inferioridade
go, «a inserção da mulher no mundo do militar Ihes foi vedado.
em relação ao homem. Essas atitudes
trabalho remunerado em vez de represen- Nas zonas libertadas, não só ajudaram
têm como suporte certos usos e costumes
tar o caminho da autonomia em relação a manter o funcionamento da vida quoti-
arreigados na mentalidade dos povos e
às estruturas familiares acaba por vir re- Jiana das populações (saúde, ensino,
transmitidas de geração em geração. E
forçar paradoxalmente essas mesmas es- produção agrícola, preparação dos ali-
mentos, etc. ..) como participaram na sua mudá-los, exige tempo, educação pro-
truturas no que elas têm de vinculador da funda e sistemática dos homens e das
mulher a tarefas bem definidas e consi- defesa e segurança, integrando nomeada-
mulheres desde o berço; o que pressupõe
deradas inferiores.» Assim, ,'o que não mente as milícias populares ou-
também a transfomlação das condições
era senão desigualdade entre dois seres constituindo corpos de milícias femini-
de existência das populações africanas.
humanos na vida familiar converte-se, no nas.
Contudo, perante a crise que afecta
mundo violento do mercado do trabalho, Quanto à sua participação política,
muitos países em África e paira sobre os
em institucionalização maciça e legaliza- apesar de estarem largamente representa-
outros -aumento constante da dívida ex-
da da injustiça e da discriminação (2).» das ao nível das bases, só algumas
terna, carência alimentar e por vezes fo-
Efectivamente, na maior parte dos paí- conseguiram subir na hierarquia dos
me, deterioração dos temlOS de troca -e
ses africanos existem leis pseudo- partidos chegando por vezes ao nível do dada a posição fundamental da mulher na
-protectoras que impedem as mulheres de Bureau Político ou do Comité Central.
agricultura de subsistência urge, pensa-
trabalhar de noite no sector industrial , de Onde não houve luta armada, como mos, encontrar fomlas cada vez mais
trabalhar na agricultura "moderna» e de. foram os casos de São Tomé e Princípe e justas e eficazes da sua emancipação.
um modo geral nas minas. de Cabo Verde, as mulheres participa-
Por outro lado, são discriminadas em ram, mesmo se modestamente, nas dife-
relação ao homem quanto às prestações rentes formas de luta clandestina, nos
sociais acordadas aos trabalhadores, não seus países de origem ou nos países de NOTAS
recebem subsídios de habitação e de fé- imigração, nomeadamente em Portugal.
rias (apesar de haver um número elevado Noutras comunidades de imigração elas (I) Andrade, ELISA, «Para urna metodologia de
de mulheres chefes de família), não têm apoiaram, de maneiras diversas, os parti- investigação sobre a condição feminina em
acesso directo aos créditos, etc... É fre- dos em luta (MLSTP, PAIGC). No caso África», Paris, Agosto de 1986 (Texto para
quente as mulheres assalariadastrabalha- concreto de Cabo Verde algumas mulhe- publicação)
(2) Maria de Lurdes PINTASSILGO, Os novos
rem como eventuais, renovando os con- res participaram na luta armada travada
feminismos, Moraes Ed, Lisboa, 1981, p. 15
tratos todos os.meses durante anos, sem na Guiné-Bissau. (3) Mere KISEKKA, «Les indicateurs du role
nunca serem titularizadas. O engajamento dessas mulheres nas nouveau des fernmes dans le développement» ,
Segundo nos conta Mere Kisekka (3) lutas de libertação nacional teve, UNESCO, Études Socio-économiques, 3-Paris
em muitas sociedades africanas, a tradi- quanto a nós, dois aspectos altamente 1984. pp 41-62

,1 AI\ MTJT HF.RP..<\. pn .ARP..I\ OA.<\ .<\~TpnAOR.<\ APRICANAS -CADERNO E

Você também pode gostar