Você está na página 1de 10

A intolerância religiosa como tentáculo do racismo e

preconceito contra a cultura de matriz africana


JANDER FERNANDES MARTINS*
VITÓRIA DUARTE WINGERT**

Resumo: O presente artigo versa sobre intolerância religiosa, especialmente,


para com as de matriz africana e afro-brasileira. Tal empreendimento é oriundo
de uma pesquisa realizada em uma Rede Municipal de Ensino acerca da Lei
10.639/03. Com a realização de entrevistas semiestruturadas reflexivas com
docentes alguns percalços, resistências e desafios foram mencionados. Dentre
esses, a questão da receptividade escolar (professores, alunos e comunidade)
para com o tema da religião de matriz africana. As reflexões que aqui se chegou
são reveladoras da intolerância religiosa, e esta, enquanto um tentáculo do
racismo e do preconceito de cor.
Palavras-chave: Lei 10.639/2003; Ensino de História; Educação Étnico-Racial;
Religião Africana.
Religious intolerance as tentacle of racism and prejudice against african
origins culture
Abstract: This article deals with religious intolerance, especially with those of
African and Afro-Brazilian origin. This venture comes from a survey conducted
in a Municipal Teaching Network about Law 10.639 / 03. With the realization
of reflexive semi-structured interviews with teachers some mishaps, resistances
and challenges were mentioned. Among these, the question of school receptivity
(teachers, students and community) to the theme of the religion of African
matrix. The reflections that have been reached here are revealing of religious
intolerance, and this, as a tentacle of racism and color prejudice.
Key words: Law 10.639/2003; History Teaching; Ethnic-Racial Education;
African Religion.

*
JANDER FERNANDES MARTINS é Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Processos
e Manifestações Culturais – FEEVALE.

**
VITÓRIA DUARTE WINGERT é mestranda do PPG de Processos e Manifestações 78
Culturais da Universidade Feevale.
Para começo de diálogo... às manifestações culturais religiosas de
O presente artigo é produto de uma matriz africana e afro-brasileira.
pesquisa realizada em uma Rede Como sugerido no título desse trabalho,
Municipal de Ensino com professores busca-se apresentar, outro tentáculo do
responsáveis pelo ensino do racismo e do preconceito contra a
Componente Curricular de História entre cultura africana, a questão religiosa.
6º ano e 9º ano da Educação Básica. A Utilizou-se este termo como uma
mesma objetivava perscrutar as analogia, uma forma alegórica, para
percepções e as dificuldades encontradas frisar o fato do racismo na escola não se
por esses docentes acerca da efetivação restringir, exclusivamente, à questão da
da Lei 10,639/03, a qual trata da cor da pele, tipo de cabelo, lábios e nariz.
obrigatoriedade do ensino da história e Mas também à uma esfera mais velada,
cultura africana e afro-brasileira. pouco discutida e, quando se discute, é
Metodologicamente, realizou-se em sua maioria diálogos e discussões
“entrevistas semiestruturadas tangenciais, a saber: a questão da
reflexivas”. (SZYMANSKI, 2002) receptividade escolar (professores,
O locus da pesquisa, foi em uma cidade alunos e comunidade) para com o tema
metropolitana do Rio Grande do Sul. da religião de matriz africana 1 .
Historicamente, é uma região de (BAKKE, 2011).
colonização germânica nos últimos 150 Estudos que tratam deste tema,
anos apenas e constituída por uma majoritariamente, buscam evidenciar
população autodeclarada branca e que estratégias de promoção de teor
tem como aspectos culturais, o afirmativo. Valorizando e esclarecendo
predomínio das crenças de origem sobre o que vem a ser uma religião
protestante e católico. (LANG, 2008) africana, quais seus ritos, a natureza de
Logo, em tal contexto sociocultural, suas crenças, etc. No entanto, estudos
indagar e pesquisar sobre a Lei sobre a questão da intolerância religiosa
10.639/03 e suas temáticas correlatas ainda estão em um nível de abordagem
contribuem significativamente para a escassa e inicial. Paradoxalmente, o
compreensão da mesma. Especialmente, volume de situações que podem ser lidas,
ouvidas e vistas sobre preconceitos,

1
Como sugerido, por um dos avaliadores do presente trabalho. É imprescindível lembrar que: “Segundo o
intelectual baiano Manoel Querino (1853-1923) quem colonizou o Brasil foram os africanos”. É “uma” das
perspectivas possíveis. Além disso, cabe destacar que, no estado do Rio Grande do Sul, primeiramente,
havia a presença de indígenas e, com o início da colonização da região sul, as populações negras firmaram
presença também, apesar do regime escravocrata. Para mais, conferir Associativismo Negro no Rio Grande
do Sul (MAGALHÃES, 2017) e Moreira; Mugge (2014).
79
discriminação e práticas de intolerância Seus adeptos, frequentadores e
para com as religiões de matriz africana simpatizantes declarados também o são.
e seus adeptos, frequentadores e (ORO, 2015)
simpatizantes são recorrentes e
preocupantes2. Jacques D’adesky (2009, p. 51 grifos
nossos) subsidia o exposto nestes
Desse modo, considera-se pertinente termos:
abrir espaço para discussão sobre essa
[...] A relação do negro com a
temática que permeia as relações
sociedade colonial será marcada, no
escolares em suas expressões didáticas, plano religioso, pela conversão
pedagógicas e relacionais. Visto que, obrigatória à religião do senhor e
parte-se da perspectiva que a por um passado de perseguições
“intolerância religiosa para com as àqueles que tentaram permanecer
religiões de matriz africana e afro- fieis às práticas de seus ancestrais.
brasileira são frutos do racismo contra a
cultura e população negra”. Desde sua chegada compulsória, no novo
continente, a história do negro é marcada
A escravidão como gênese da pela “ruptura total” com o contexto de
intolerância religiosa brasileira onde provêm. Chegado a esta nova
realidade, não só sua mão-de-obra e
Não bastassem, temporalmente, três
força produtiva foi lhe expropriado. A
séculos de exploração real e concreta de
exploração e opressão também se deram
homens e mulheres negras/os e indígenas
na religiosidade. Nessa nova terra,
com sua valoração a partir de seus
apresentou-se um novo quadro
atributos físicos (vigor e força braçal), de
simbólico religioso, muito diferente
um lado. E do outro, alguns homens e
daquele em que estavam inseridos e lhes
mulheres negras e indígenas com suas
constituíam no continente africano.
aptidões, sexualmente, dignas dos
(D’ADESKY, 2009, p.51)
caprichos e galanteios dos senhores de
engenho. Esses quase trezentos anos, A questão da religião africana e afro-
fruto de uma dita “relação harmoniosa”, brasileira ainda é uma questão que
foi superada em sua dimensão merece mais foco e estudos.
escravocrata. No entanto, como se sabe, Principalmente, em contextos de origem
permaneceu e perdurou o racismo, o germânica (majoritariamente, de ordem
preconceito e a discriminação racial e protestante e alguns permeados pelo
étnica, enquanto resquícios desse modo catolicismo popular e oficial). Um
perverso de exploração sociocultural. elemento justificável para isso seria a
(BARROS, 2009; D’ADESKY, 2009; desmistificação e desconstrução do
FREYRE, 2006) imaginário coletivo e religioso. Isso
Academicamente, percebe-se ser recente porque, teologicamente, é instituído e
a ampliação de estudos e pesquisas cristalizado nas crenças e interpretações,
focadas na questão da intolerância hegemônicas no Brasil, a associação do
religiosa, especialmente, as religiões de candomblé, da umbanda e dos
espiritualismos à cultos de natureza
matriz africana, afro-brasileira (e até
indígenas). Não apenas seu conjunto de demoníaca. (ANSELMO, 2015;
pressupostos cosmológicos são atacados. D’ADESKY, 2009; ORTIZ, 2011)

2
Citamos os trabalhos dos quais nos valemos Oro (2008; 2015), Quintana (2012; 2013a;
para a realização da pesquisa e desse artigo: Silva 2013b), Santos (2005), Santos & Filho (2009),
(2015), Mariano (2015), Oliveira (2007; 2008), Souza (2008).

80
Constatações estas que, transparecem e tenta abordar a temática étnico-racial
explicitam intolerância religiosa, mas (Lei 10.639/03 - 11.645/08), percebe-se
que também conotam racismo e na fala o sentimento de perplexidade
preconceito. Não é por acaso que ainda diante da intolerância religiosa por parte
se ouve frases e termos pejorativos, tais dos alunos. Intolerância essa, arraigada
como: “preto batuqueiro”, “negro de desconhecimentos, imaginários,
macumbeiro”. Tais “insultos” conotam e preconceitos e estereótipos sobre a
denotam não apenas racismo e cultura e religião africana. (SILVA,
preconceito racial, trata-se de um ato 2015; MARIANO, 2015; ORO, 2015)
discursivo totalmente carregado de Lamentavelmente, tal fala não é situação
intolerância religiosa. (ANSELMO, isolada no ambiente escolar. Dentre os
2015; CANDAU, 2009; D’ADESKY, poucos estudos concluídos e publicados
2009) até este momento, a Tese de
Tal entendimento encontra respaldo na Doutoramento de Eliane Anselmo
concretude do tecido social, em especial, (2015) é um desses. Em um de seus
no ambiente escolar. Ao questionar capítulos, aborda-se esta questão com
professores de História sobre a questão dados estatísticos. A autora apresenta
dos conteúdos de história e cultura dados referentes a região do Vale do Rio
africana e afro-brasileira, relatam dos Sinos 3 (pesquisa concentrada nas
vivências (professor-aluno-comunidade cidades de São Leopoldo e de Novo
escolar) de natureza complexa e Hamburgo) e como nessas localidades,
intolerante: os frequentadores e adeptos de religiões
[...] do africano tem essa coisa de africanas e afro-brasileiras (candomblé e
quando fala em África, é a África umbanda) são, majoritariamente,
demonizada né...os exus, os mitos autodeclaradas brancas. Comprovando
africanos. -ah professora, isso é ser um equívoco a noção de que “todo
coisa do demônio! [...] Então, tem preto é macumbeiro e batuqueiro”.
aluno que não aceita ler um mito de (ANSELMO, 2015, pp. 85-86).
Exú, porque ele vem lá de casa que Questionar e refletir sobre os dados
Exú é coisa de demônio. Então, é oficiais socializados nos diversos meios
muito forte [...] eles dançam funk, de informação com essa “etnografia”,
escutam funk que é uma raiz de são provas cabais da necessidade de se
música africana, mas eles, por
ter um crivo racional ao se analisar dados
exemplo, acham horrível a batida
de um batuque e dizem que é coisa dessa natureza.
do demônio [...] (PROFESSOR 1, Abaixo segue o quadro estatístico
grifos do autor) elaborado pela pesquisadora, tomando
Ao transcrever as situações vividas em como contexto as cidades de Novo
sala de aula por esse professor, o qual Hamburgo e São Leopoldo:

3
Região metropolitana de Porto Alegre, e é imigração alemã, a qual fundou em 1824 a
formada pelos municípios de São Leopoldo, “colônia de São Leopoldo”. Na questão de
Novo Hamburgo, Campo Bom, Ivoti, Estância estudos sobre imigração e escravidão, este local
Velha, Sapiranga, Araricá, Dois Irmãos, Canoas, já foi contexto e objeto de pesquisa de vários
Nova Santa Rita, Esteio, e Sapucaia do Sul. autores, dentre estes, destaca-se Lucio Kreutz,
Historicamente, esta região é relacionada à Miquéias Mugge, Martin Dreher, Paulo Moreira.
81
Tabela 1 - Demonstrativo religião em Novo Hamburgo (2010)
Religião Branco Preto Pardo Amarelo Indígena
Católica Apostólica Romana 137.987 4.662 8.464 270 60
Evangélica 61.857 2.477 4.785 120 85
Evangélica Pentecostal 24.613 1070 2.589 08 45
Espírita 3.260 45 66 00 09
Umbanda e Candomblé 858 59 40 00 00
Umbanda 727 51 29 00 00
Candomblé 81 00 00 00 00
Outras Afrodescendentes 51 08 11 00 00
Sem Religião 6.546 285 715 10 00
Não Determinada e Múltiplo Pertencimento 833 50 00 00 00
Fonte: Anselmo (2015, p. 85)

Conforme constatou a pesquisadora, o número de frequentadores nas “religiões ditas


afros” tem mais brancos do que pretos e pardos. Esta mesma indicação ocorre na outra
cidade:

Tabela 2 - Demonstrativo religião em São Leopoldo (2010)


Religião Branco Preto Pardo Amarelo Indígena4
Católica Apostólica Romana 122.699 6556 11.460 326 75
Evangélica 42.799 2.611 5.153 225 45
Evangélica Pentecostal 20.671 1.690 3.547 206 18
Espírita 5.071 162 268 000 00
Umbanda e Candomblé 1.768 371 335 00 00
Umbanda 1575 371 308 00 00
Candomblé 31 00 10 00 00
Outras Afrodescendentes 162 00 17 00 00
Sem Religião 8174 474 993 63 39
Não Determinada e Múltiplo Pertencimento 102 22 91 00 00

Fonte: Anselmo (2015, p. 85)

Como se vê, os dados da autora propõem frequentadores brancos do que negros


reflexões acerca da distinção existente em uma religião considerada de negros,
entre imaginário religioso e social e os em uma região germânica. Por quê ainda
dados concretos. Se há mais persiste esse imaginário em uma

4
No que diz respeito aos indígenas, a autora ainda menciona que entre esse grupo étnico, “[...] há, também,
evangélicos não denominados e testemunhas de Jeová [...]” (ANSELMO, 2015, p. 86).

82
população majoritariamente branca, passam mais tempo na casa deles e
creditar a essas religiões a presença de isso a escola querendo quebrar é
negros? uma resposta plausível, parece- muito complicado. (PROFESSOR
nos viável a partir de Jacques D’adesky 2, grifos nossos)
(2009), o qual irá dizer que existe ainda
uma “raça simbólica” e com ela, todo um Retomando a interlocução com o
aparato imaginário, dentre os quais, a professor 1, ele ainda relata estratégias
“demonização das religiões de matrizes didáticas, a qual buscou utilizar em sala
africanas” (PROFESSOR 1) seria um de aula com o objetivo de superar estas
dos casos. dificuldades e resistências dos alunos,
para com a questão de religião:
Analisando os dados acima, indagamo-
nos de o porquê esses não chegam ao [...] veio essa semana um pastor
conhecimento dos docentes na escola? luterano, que a gente foi na igreja, e
Porque não fazem parte das discussões como algumas turmas não
escolares na sala de aula? conseguiram ir [...] daí ele veio aqui.
Daí uma das perguntas que eu fiz
Essas reflexões nos emergiram a partir pra ele foi referente a cultura
do seguinte relato: africana, as questões das religiões
africanas, porque aqui na escola eu
[...] isso eu trabalhei com eles muito sei que tem alunos que são de
na disciplina de ética e cidadania e matrizes africanas. Só que esses
de História também [...] como a alunos quase nunca falam que são,
gente acaba, tornando normal uma porque os outros hostilizam eles.
coisa que na verdade é puro [...] eu aproveitei e fiz a
preconceito! E essa coisa do racismo pergunta...incrível, foi a resposta do
[...] é muito forte porque são muito padre, ele falou assim: - “ahh! tem
racistas, muito preconceituosos, algumas manifestações que são
muito homofóbicos [...] culturais, mas o resto mesmo são
(PROFESSOR 1, grifos nossos) do diabo! (PROFESSOR1, grifos
Um relato surpreendente e revelador de nossos)
um dos contextos escolares campo-
bonense acerca da Lei 10.639/03. Outra Com este relato, fica evidente que,
constatação reveladora, é o fato de ser embora possa ser exceção à regra, neste
tratado esses temas em “outra contexto específico, a intolerância
disciplina”, a de “Ética e Cidadania” e religiosa e o desconhecimento sobre o
não na Disciplina de História, como legado africano e afro-brasileiro (já que,
prescreve a Legislação. religião africana não seria cultura!) é
preocupante. Além do racismo e
A fala do professor 2 também é preconceito racial, descortina-se um
elucidativa. O mesmo relata a resistência terceiro elemento discriminador,
dos alunos ao tentar abordar em sala de assentado na intolerância religiosa.
aula tais questões. Mais ainda, para esse (QUINTANA, 2012; 2013a; 2013b)
professor a gênese sociocultural em que
se produz tais discursos e mentalidades é Destacamos que, diferentemente, desta
a família: situação singular ocorrida, há outras
a gente tenta quebrar[preconceito] situações que, ao contrário destas,
mas é só a escola, porque daí na rua, buscam valorizar e promover a
os pais falam bobagem a maioria tolerância e o estabelecimento de uma
das vezes preconceituosas e isso é relação no mínimo respeitosa. Exemplo
difícil [desconstruir]. Porque eles disso, cita-se Ana Gualberto (2008,

83
grifos nossos) ao pesquisar em escolas da “manifestação religiosa” primitiva,
Bahia sobre a questão da Lei 10.639/08: inferiorizada, demoníaca?
A resposta para estas perguntas é Embora não seja essa a questão cerne
óbvia, ela é negativa. Ainda hoje, desse trabalho, fazê-la é no mínimo
professores têm enfrentando indispensável, se temos o objetivo de
problemas para falar do papel da contribuir para romper com os
Igreja na constituição do mundo preconceitos, estereótipos e
ocidental. Cruzadas, inquisição,
intolerâncias. Respondê-la, também não
escravização de negros e indígenas
são assuntos delicados em sala de
é tarefa fácil e simples, pois envolve
aula. A resistência não se dá apenas desconstruir meio milênio de
por católicos, na defesa da estigmatização, demonização,
instituição eclesial católica, como inferiorização religiosa.
pode parecer óbvio. Os adeptos das
religiões neo-pentecostais
No entanto, com vistas a romper e
manifestam-se de forma bem erradicar essas formas equivocadas de
enfática na condenação da religião compreender e tratar a “manifestação
católica. Agora vamos pensar em religiosa do Outro”, um primeiro passo
como é encarada qualquer já foi dado, que foi o movimento de
afirmação positiva sobre uma denunciar tais práticas. Depois, com o
religião apontada desde a advento da Lei 10.639/03, foi o
constituição do Brasil como movimento de ações afirmativas
sinônimo do mal, de um povo buscando valorizar e promover
inferior e primitivo. É fácil pensar positivamente as manifestações
na recepção deste assunto na maioria
religiosas de matriz africana. Qual seria
das salas de aulas.
o próximo passo?
Outra questão ainda mais complexa
é pensar que dentro destas salas
As práticas de intolerância religiosa são,
de aulas, além dos alunos temporal e historicamente, seculares no
católicos, protestantes e Ocidente. Com o colonialismo e a
neopentecostais, existem alunos escravidão, a “perseguição religiosa”
que são de religião de matriz ganhou relevo, Dolores Lima (2008,
africana. Estas crianças se sentem negritos do autor) assevera:
inseridas nesta escola? É possível
que ela assuma sua identidade A perseguição religiosa atingiu
religiosa, use seus adereços? É níveis nunca vistos antes na História
possível que uma criança durante o século XX. Contudo,
muçulmana assuma sua religião sem anterior a isso, apesar de não ter
ser chamada de terrorista e Bin característica claras de perseguição
Laden? religiosa expressamente
estabelecida, a escravidão
Seguindo a linha de reflexão da autora, estabelecia parâmetros de
poderíamos acrescentar a seguinte inferioridade aos negros pela sua cor
indagação: como uma “crença” que só de pele e por adotar práticas
se manifestou, historicamente, no Novo religiosas ditas pagãs conforme a
Mundo, por meio de seus adeptos devido Bula Romano Pontifex, de 08 de
janeiro de 1454, do Papa Nicolau
ao processo escravizador, de cativeiro e
V.
de tráfico sofrido, pode ser abordada em
sala de aula, sem enfrentamento de De acordo, com a autora, o preconceito e
barreiras, preconceitos e resistências se a discriminação religiosa têm sua raiz e
esta sempre foi entendida e tratada como herança nos séculos passados. Não por

84
acaso, muitos apresentam um Além disso, para o autor, outro
comportamento e entendimento sobre pressuposto que contribui para a
relações inter-religiosas ditas perpetuação desses comportamentos está
harmoniosas, porém quando se trata das no “silenciamento dos professores”, pois
de matriz africana, se percebem (e até pela “indiferença de educadores, diante
demonstram) um comportamento e da experiência de adeptos juvenis, que
entendimento equivocado e receoso, vivem com medo de dizer o nome da
demonstrando uma verdadeira religião a que pertencem” (SANTOS,
afrotheofobia. (LIMA, 2008) 2005, p. 1)
No mesmo sentido, Erisvaldo P. dos Como enfrentar tal “legado negativo” e
Santos (2005, p. 1-5) chama a atenção discuti-lo de forma que sua condução e
para fato de haver uma “hegemonia das resultado final em uma aula (de História,
religiões de matriz judaico-cristã”, as Sociologia, Filosofia, Ensino Religioso,
quais acabam por praticar, além da Ética...) seja contrária a tudo isso que é
“discriminação racial”, “a satanização de denunciado pelos autores acima? Qual a
entidades espirituais”, acarretando em saída, estratégica e pedagógica para o
uma “invisibilidade das religiões de que vivencia o professor 1?
matriz africana”, que atingem na prática,
até as “políticas educacionais”. Mais Produzir e sistematizar estratégias
ainda, devido a grande “bancada múltiplas que valorizem a pluralidade e
evangélica” eleita no congresso político o multiculturalismo, como delegam os
brasileiro. Documentos Oficiais (SECAD, 2008)
auxiliam nesse processo, porém como se
Nas palavras do autor: percebe não é o suficiente. Situação essa
denunciada e problematizada por vários
O conhecimento dos fundamentos
religiosos como códigos sócio- pesquisadores5.
culturais e parte das referências Por fim, constata-se que este preconceito
identitárias dos afrodescendentes, e intolerância com a religião de matriz
possibilita a compreensão de que
africana pode ser tratada como racismo.
não há nem um absurdo nas religiões
de matriz africana no Brasil. Em Isto é, defende-se o entendimento de essa
verdade, o que existe mesmo na intolerância ser um tentáculo do
sociedade brasileira, e de sobra, é racismo, o qual impregnou-se nos
eurocentrismo e etnocentrismo. É aí ambientes escolares e com suas
que se produz um entendimento de “ventosas” se prendem e enraízam-se,
que a religião certa é aquela que os afetiva e psicologicamente, em cada
europeus nos trouxeram, cuja matriz indivíduo, promovendo essa postura com
é judaico-cristã. As outras religiões, tom de inferiorização, desrespeito,
não são propriamente religiões, mas segregação. De modo a “demonizar!”
seitas, expressões de religiosidade, essas manifestações culturais africanas e
crendices, magias e superstições.
afro-brasileiras (BARROS, 2009;
Para esse tipo de entendimento, a
única religião que tem uma PROFESSOR 1).
mensagem boa para vida é o Constatando isso, é possível ver que se
cristianismo, porque promete a vida trata de um “racismo simbólico” e,
eterna. (SANTOS, 2005, p. 14)
possivelmente, por pertencer a esta
5
Dentre eles cita-se Eliane Anselmo (2015),
Vera Candau (2013), Jacques D’adesky (2009),
Dolores Lima (2008).

85
esfera torna-se difícil de identificar Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1997a. Vol.
práticas preconceituosas e intolerantes 10, 164p.
na escola. Daí a necessidade de se BRASIL. Ministério da Educação. Lei nº 10.639,
realizar mais pesquisas sobre esse tema de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de
na escola, interagindo com os 20 de dezembro de 1996, que estabelece as
diretrizes e bases da educação nacional, para
profissionais da educação, com os alunos incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a
e com a comunidade escolar. obrigatoriedade da temática “História e Cultura
Afro-Brasileira”, e dá outras providências.
O relato dos professores participantes Diário Oficial [da] República Federativa do
dessa pesquisa, em nível de Mestrado, é Brasil. Brasília, DF, 9 jan. 2003. Disponível em:
revelador, pois passados 14 anos desde a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/
implantação da Lei 10.639/03 (BRASIL, L10.639.htm.
2003), percebe-se haverem ainda BRASIL. Ministério da Educação. História da
resistências, preconceitos, discriminação Educação do Negro e outras histórias. (Org.):
caracterizando um comportamento Jeruse Romão. Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade. –
intolerante. Assim os desafios para sua
Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de
efetivação real em sala de aula são Educação Continuada, Alfabetização e
extremos. Para isso, sistematizar Diversidade, 2005.
pesquisas, momentos de partilhas,
BRASIL. Ministério da Educação. Orientações
diálogos e acima de tudo, ouvir esses e ações para Educação das Relações Étnico-
sujeitos protagonistas e produtores de raciais. Brasília: SECAD, 2006.
cultura escolar são imprescindíveis para
CANDAU, V. M. Multiculturalismo e educação:
se romper e erradicar, tanto esse desafios para a prática pedagógica. IN:
“tentáculo” (a intolerância religiosa), MOREIRA, Antonio Flávio; CANDAU Vera
quanto o próprio racismo que, Maria. Multiculturalismo: diferenças culturais
infelizmente, ainda se encontra nas e práticas pedagógicas. 10ª ed. – Petrópolis, RJ:
Vozes, 2013.
entranhas do ambiente escolar (BRASIL,
1997a; 2005; 2006). D’ADESKY, J. Pluralismo Étnico e
Multiculturalismo: racismos e anti-racismos no
Brasil. 1ª Ed. 2ª reimp. Rio de Janeiro: Pallas,
2009.
Referências
FREYRE, G. Casa-Grande & Senzala: a
ANSELMO, E. R. M. Das Práticas Políticas e formação da família brasileira sob o regime
Jurídicas na Formação de Professores para a patriarcal. Apresentação de Fernando Henrique
Educação Étnico-Racial. Tese de Doutorado Cardoso. 51ª Ed. rev. São Paulo: Global, 2006.
em Educação. FACED - Porto Alegre: UFRGS,
2015. GUALBERTO, A. Considerações sobre a Lei
10639. IN: Intolerância Religiosa, Tempo e
BAKKE, R. R. B. Na escola com os orixás: o Presença Digital. ano 3, n. 13, 2008. Disponível
ensino das religiões afro-brasileiras na em:
aplicação da Lei 10.639. Universidade de São http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.as
Paulo - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências p?cod_artigo=258&cod_boletim=14&tipo=Arti
Humanas - Departamento de Antropologia - go. Acessado em: 02/01/2017.
Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social, 2011. (Tese de Doutorado) LIMA, D. A intolerância religiosa e a
cosmovisão africana de mundo. IN: Intolerância
BARROS, J. D. A construção social da cor: Religiosa, ano 3, n. 13, 2008. Tempo e Presença
diferença e desigualdade na formação da Digital, 2008. Disponível em:
sociedade brasileira. Petrópolis, RJ: Vozes, http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.as
2009. p?cod_artigo=257&cod_boletim=14&tipo=Arti
go. Acessado em: 02/01/2017.
BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros
Curriculares Nacionais: pluralidade cultura, MADUREIRA, A. F. do A.; BRANCO, A. M. C.
orientação sexual/ Secretaria de Educação U. de A. As raízes histórico-culturais e afetivas

86
do preconceito e a construção de uma cultura SILVA, V. G. da. (org.) Intolerância Religiosa:
democrática na escola. IN: BRANCO, Angela impactos do Neopentecostalismo no Campo
Maria Cristina Uchoa de Abreu; OLIVEIRA, Religioso Afro-brasileiro. 1ª ed. 1ª reimp. São
Maria Cláudia Santos Lopes de (org.) Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
Diversidade e cultura da paz na escola: 2015.
contribuições da perspectiva sociocultural.
SZYMANSKI, H. Entrevista reflexiva: um olhar
Porto Alegre: Mediação, 2012.
psicológico sobre a entrevista em pesquisa. In:
MAGALHÃES, M. L. Associativismo Negro SZYMANSKI, Heloisa (org.). A entrevista na
no Rio Grande do Sul. 01. ed. São Leopoldo: pesquisa em educação: a prática reflexiva.
Trajetos Editorial, 2017. v. 01. 226p Brasília: Plano Editora, 2002.
MARIANO, R. Pentecostais em ação: a OLIVEIRA, A. M. de. Multiculturalismo,
demonização dos cultos afro-brasileiros. IN: Pluralismo e Tolerância e/ou Intolerância
SILVA, V. G. da. (Org.) Intolerância Religiosa: Religiosa: a perspectiva dos espíritas kardecistas
impactos do Neopentecostalismo no Campo em Pernambuco em relação aos adeptos das
Religioso Afro-brasileiro. 1ª ed. 1ª reimp. São religiões afro-brasileiros. Anais... VI Congresso
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Português de Sociologia: Mundos sociais:
2015. saberes e práticas, Universidade Nova Lisboa,
2008.
MOREIRA, P. R. S.; MUGGE, M. H. Histórias
de escravos e senhores em uma região de OLIVEIRA, A. M. de. Preconceito, Estigma e
imigração europeia. 2. ed. São Leopoldo - RS: Intolerância Religiosa: a prática da tolerância em
Oikos, 2014. v. 1. 138p sociedades plurais e em Estados multiculturais.
Estudos de Sociologia. Rev. do Progr. de Pós-
QUINTANA, E. No terreiro também se educa:
Graduação em Sociologia da UFPE, v. 13, n. I, p.
relação candomblé-escola na perspectiva de
239-264 (2007).
candomblecistas. Tese (Doutorado em
Educação) – Universidade Federal Fluminense, ORO, A. P. As Religiões Afro-Brasileiras do Rio
Niterói, 2012. Grande Do Sul. Debates Do Ner, Porto Alegre,
Ano 9, N. 13 P. 9-23, Jan./Jun. 2008.
QUINTANA, E. A relação escola-terreiro na
perspectiva de famílias candomblecistas. Anais... ORO, A. P. Intolerância Religiosa Iurdiana e
36ª Reunião Nacional da ANPEd – 29 de reações Afro no Rio Grande do Sul. IN: SILVA,
setembro a 02 de outubro de 2013a , Goiânia- V. G. da. (Org.) Intolerância Religiosa:
GO. impactos do Neopentecostalismo no Campo
Religioso Afro-brasileiro. 1ª ed. 1ª reimp. São
QUINTANA, E. Intolerância religiosa na escola:
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
O que professoras filhas de santo tem a dizer
2015.
sobre esta forma de violência. ITABAIANA:
GEPIADDE, Ano 07, Volume 14 | jul./dez. de ORTIZ, R. A morte branca do feiticeiro negro.
2013b. Umbanda e sociedade brasileira. São Paulo –
Brasil. Ed. Brasiliense, 1991.
SANTOS, I. dos; FILHO, A. E. (Org.)
Intolerância Religiosa X Democracia. Rio de WEDDERBURN, C. M. O Racismo através da
Janeiro: CEAP, 2009. História: da Antiguidade à Modernidade. 2007.
Disponível em:
SANTOS, E. P. do. A educação e as religiões de
<http://www.ipeafro.org.br/10_afro_em_
matriz africana: motivos da intolerância.
foco/index.htm>. Acesso em: 18/07/17.
Caxambu: ANPED, 2005.
SILVA, V. G. da. Prefacio ou Noticias de uma
Guerra Nada Particular: os ataques Recebido em 2018-12-10
Neopentecostais às religiões Afro-brasileiras e Publicado em 2019-03-12
aos Símbolos da Herança Africana no Brasil. IN:

87