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A REVISTA DE PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV N°1 JAN/JUL DE 2006

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www.unifev.edu.br/mosaico
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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

Expediente
Conselho Editorial Interno
Profº M.Sc. Rogério Rocha Mattaruco
Profº M.Sc. Rogério Rodrigues de Souza
Profª M.Sc. Ana Maria Mateus Martins

Conselho Executivo
Médico Veterinário Celso Luiz Alvez dos Santos
Presidente da FEV
Prof. Dr. Marcelo Ferreira Lourenço
Reitora da UNIFEV
Prof. Dr. Marcelo Casali Casseb
Pró-Reitor Acadêmico da UNIFEV
Prof. Dr. Luís Paulo Barboun Scott
Coordenador de Pesquisa UNIFEV

Produção
Revisão de texto : Prof. Dr. Valdomiro Ribeiro
Malta; Prof. M.Sc. Edson Roberto Bogas
Garcia; Prof. Paulo Rogério Ferrarezi.

Projeto Gráfico: Profa. M. Sc. Fátima Santos


Diagramação: Franciele Alves Bertol

Impressão Gráfica UNIFEV


Capa papel couchet 240 gramas;
Miolo em papel couchet 90 gramas.

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...Nesta
Sumário

Expediente ......................................... 3

Edição:
Apresentação ...................................... 5

O uso de SIG na distribuição dos dados


imobiliários,utilizando o censo do IBGE
de 2000 no município de Votuporanga-
sp.................................................... 9

Contextualizando o Ensino de Física com


a Radioastronomia .......................... 15

Controle de Temperatura em Estufas de


Secagem de Madeira ........................ 21

Espetacularização e exclusão urbana na


cidade de São Paulo: ........................ 27

a OUFL, o Instituto Tomie Ohtake e o


Largo da Batata ............................... 27

“Práticas Investigativas em Educação


Química”: relato de uma experiência na
disciplina de Didática ...................... 35

Tempo de Tunelamento Quântico ........ 43

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Apresentação

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APRESENTAÇÃO

Você está recebendo o número 01 da Revista Mosaico – Exatas e isto merece uma grande
comemoração.
Neste ano o Centro Universitário de Votuporanga resolveu dividir a Revista Mosaico, que era
multidisciplinar, e lançar quatro revistas temáticas: Exatas, Saúde, Humanas e Trabalhos de Conclusão de
Curso.
A revista Mosaico – Exatas tem a finalidade de promover as pesquisas acadêmicas sobre aspectos
teóricos, empíricos e práticos da área, cujos resultados possam contribuir para o seu desenvolvimento.
Serão publicados artigos nas áreas de Física, Informática, Matemática e Química, a fim de que
sirva de fonte de consulta e referência bibliográfica.
Com isso, o Centro Universitário de Votuporanga busca fortalecer ainda mais o meio acadêmico e
a sociedade, bem como disseminar as contribuições em benefício da sociedade em que se insere.
Esperamos que este seja mais um canal de relacionamento entre os pesquisadores, educadores e
a comunidade local e regional e aguardamos as opiniões de nossos leitores.
Agradecemos aos organizadores e autores pela colaboração em mais uma etapa vencida.

Profa. M. Sc. Mariângela Cazetta


Coord. do Curso de Licenciatura em Matemática da Unifev.

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O uso de SIG na distribuição dos dados imobiliários,utilizando o censo do IBGE de 2000 no município de
Votuporanga-sp
Edmílson Martinho Volpi
Gustavo de Souza Fava
Paulo Belotti Lacerda

Resumo
Este projeto teve como objetivo espacializar os dados dos setores censitários no município de Votuporanga-
SP colhidas no Censo do IBGE de 2000, criando mapas temáticos, contendo as informações de cada setor
censitário. Priorizaram-se os dados de condição imobiliária em todos os setores censitários urbanos do município.
Como consequência, foram gerados vários mapas temáticos. Para a realização deste trabalho, o uso do SIG foi
muito importante. Através dos processos de Cartografia Temática, todos os dados foram espacializados,
mostrando a realidade de cada região censitária. A importância deste artigo consiste em visualizar
espacialmente as informações censitárias de cada setor, e contribuir para o planejamento municipal, para a
solução de problemas de ordem imobiliária, e para a ocupação do espaço urbano.
.
Palavras-chave: SIG. Geoprocessamento. Espaço. Planejamento.

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1. Introdução em busca de solos férteis, tornou-se importante atividade


econômica no processo de ocupação da Região de Votuporanga.
Os dados do IBGE são muito importante para o (...) O binômio café-ferrovia impulsionou a incorporação da
região à economia de mercado, provocando grandes
planejamento das administrações municipais. Com
transformações na organização e no processo produtivo, ao
eles é possível, para a administração pública, observar deslocarem, geograficamente, agrupamentos humanos para
suas falhas e acertos, levando a que se mantenham esses novos espaços. O espaço passa a ser concebido como um
os bons resultados e também que se corrijam os produto das relações sociais engendradas.
problemas e façam, conseqüentemente, melhorias no A indústria moveleira que surgiu timidamente, na década de
seu Índice de desenvolvimento humano. A intenção 1960, ganhou impulso no final de 1980, transformou-se em
deste trabalho foi dividir o espaço da cidade nos setores polo moveleiro em 1993, conquistando expressividade no
censitários do IBGE, mostrando principalmente a mercado nacional ao investir em tecnologia de acabamento,
realidade econômica e social do município. Essa é uma planejamento, gerenciamento e marketing. Assim, a Região de
Votuporanga, cujo espaço era identificado pela geometria dos
das principais funções do Sistema de Informações
cafezais, num curto espaço de tempo, teve a paisagem urbana
Geográficas e do Geoprocessamento, conforme cita substituída pelo parque moveleiro, contrastando, assim, a
Meneguette, 1999. certidão agrícola do município (PEICHOTO, 2001).
Geoprocessamento é a tecnologia de coleta, tratamento, Com a fixação da indústria de móveis, houve
manipulação e apresentação, de informações espaciais e de mudanças no urbano votuporanguense, logo após a
desenvolvimento de sistemas. Essas atividades são executadas
criação dos distritos industriais 1, 2, 3, 4 e 5, conforme
por sistemas chamados de Sistemas de Informação Geográfica
(SIG). Estes são destinadas ao processamento de dados afirma Rodrigues (1995, p. 158): “o desenho urbano de
georeferenciados desde a sua coleta até a geração de produtos Votuporanga está orientado, desde os anos 1980,
como mapas, relatórios e arquivos digitais, oferecendo recursos especialmente pela lógica de reprodução do capital
para armazenamento, gerenciamento, manipulação e análise industrial.” Tamanhas foram as mudanças que o
dos dados.(MENEGUETTE, 1999) Censo de 2000 mostra esses dados na condição
imobiliária, interesse da pesquisa.
Essa citação é um dos fatos que serão analisados
neste trabalho. O SIG é um dos importantes recursos 2. Divisão censitária
que uma Administração Municipal deve ter em mãos
para a realização de um bom trabalho, localizando de Para realização do trabalho, foi conseguido,
de uma maneira mais simples o erro, no local exato. através do IBGE, todos os limites das regiões
Votuporanga é uma cidade localizada a Noroeste censitárias. Após demarcação das fronteiras, foram
do Estado de São Paulo e no último censo realizado, analisados todos os dados, de cada região censitária
conta com uma população de cerca de 81 mil do município. Uma das dificuldades encontradas pela
habitantes, com uma área urbana de 22 km². Como administração municipal é que a divisão do IBGE não
ensina Peichoto (2001, p. 183 e 195), o fator principal corresponde à divisão dos bairros, tornando-se uma
de desenvolvimento do município, tornando-se um pólo análise de cada bairro mais difícil. Como, no
regional, foi o café e depois a indústria moveleira a município de Votuporanga a divisão de bairros é feita
qual, atualmente, impulsiona o parque industrial a partir de um loteamento criado, há áreas com
votuporanguense. pequena extensão territorial, alguns com cerca de
uma quadra, inviabilizando a criação de um setor
O processo de ocupação e incorporação da Região de Votuporanga censitário, dificultando assim o trabalho do órgão.
teve como pano de fundo o deslocamento do capitalismo no Devido a esses fatores é que o IBGE faz a sua divisão
espaço geográfico, que passou a impor uma dinâmica a forma espacial com setores censitários diferentes da divisião
de produzir e organizar o espaço regional. (...) O café, seguindo de bairros do município.
seu processo de expansão sobre o Planalto Ocidental Paulista,
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3. Condição imobiliária configura como uma das áreas mais populosas do


município (..) ”.
3.1. Domicílios Alugados Há outra região de destaque próxima ao 5.º
Distrito Industrial, no setor censitário 55 e 22, que
Para o IBGE, em suas normas de realização do correspondem ao bairro Loteamento Campo Limpo,
censo do ano de 2000, um imóvel é alugado quando Chácara Aviação, setor Sul da Vila Laureano, bairros
pago por um ou mais de seus moradores. Considera tipicamente operários, Jardim dos Pinheiros e Parque
alugado também quando é pago pelo empregador (de Residencial Friozi. Estes dois últimos são residenciais
qualquer um dos moradores) como parte integrante novos, ocupados pela população no final da década de
do salário, uma parcela em dinheiro para pagamento 1990 e ínicio da década de 2000.
do aluguel. Na situação de domicílios alugados nos Indo para região central da cidade, nos setores
setores do município, predominam os setores 59 onde censitários 2, 3, 4, 15 e 42, encontramos os bairros do
ficam os Bairros Jardim Nossa Senhora da Aparecida, Patrimônio Velho, Vila Budin, Vila São João Batista,
Loteamento Jardim Morini, Parque Rio Vermelho, Vila Hercília, parte Oeste do Bairro do Café, Vila Lupo,
Bairro Nova Boa Vista, setor Oeste do Parque Brasília Vila São Vicente e Vila Marin. Essas áreas são muito
e parte norte da Vila Dutra. Já no Setor 34 destaca-se próximas do centro da cidade, onde parte da população
a parte oeste do Bairro Pozzobon. Analisando os mapas, com um melhor poder aquisitivo reside. É o local onde
nota-se que nesses setores seus bairros estão mais os aluguéis são maiores do que os valores próximos
próximos das zonas industriais do 1.º, 2.º 3.º e 4.º ao setor industrial, pois são casas de melhor
Distritos Industriais, levando à conclusão que são acabamento, maiores e mais próximas ao setor central
da cidade.
Por fim, há o setor 14, correspondente aos bairros
Jardim Yolanda e o setor leste do Vale do Sol e, ainda,
o setor central do Parque São Pedro. È mais afastado
da região central da cidade, mas com casas maiores,
de melhor tipologia, com aluguel de valor elevado, mas
também com alto índice de domicílios alugados.

3.2. Domicílios Cedidos Por Empregador


Nesse item destaca-se mais uma vez a
proximidade das casas cedidas pelos patrões do setor
Fig 1. Divisão dos Setores Censitários do município de Votuporanga industrial, distritos 1, 2, 3 e 4. O setor onde acontece
mais essa situação é o setor 61, no Parque das Nações
bairros mais próximos ao local de trabalho dos com 28 residências cedidas, no setor norte da cidade,
operários, que optam por alugar nessas regiões com seguidas pelos setores 59, 58 e 34, todas próximas do
um acesso melhor ao trabalho. Rodrigues (2005, p. 159) Distrito Industrial, comprovando Rodrigues (2005).
cita que (...) “o grande vazio urbano da área norte do Esse número é alto no setor industrial da cidade devido
município de Votuporanga foi sendo ocupado, desde o à grande parte das empresas terem zeladores, que
final dos anos 1970, pela população operária, de modo moram na própria empresa, com o intuito de vigiá-la,
a se constituir, lentamente, naquela porção da cidade, não deixando-a abandonada no período noturno e nos
em uma importante aglomeração residencial das finais de semana. Ha também o fato de o empregador
camadas populares. Também comenta, p. 156, alugar essas residências para os empregados,
mostrando que que “(...) no município de Votuporanga, geralmente, pessoas de alto cargo e funcionários de
a zona norte (especialmente o bairro Pozzobon) se confiança.

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Um fato interessante é o do setor censitário 51, Situado na zona 67, com cerca de 295
pertecente ao bairro da Estação e do São João, no setor residências quitadas, o Pró-Povo é o bairro onde
sul da cidade, inverso do setor industrial, onde alguns existem os menores índices observados pelo IBGE:
funcionários aposentados da empresa FEPASA moram -a menor renda por chefe de família;
em casas ao lado da linha férrea e da estação -os menores índices sanitários (como coleta de
ferroviária feitas pela empresa para funcionários. Hoje lixo, esgoto, domicílios sem banheiros);
a concessão do sistema ferroviário pertence à empresa - e os menores índices educacionais.
FERROBAN. Os dados acima justificam-se pela ocupação
Para o IBGE o domicílio é cedido pelo empregador irregular do local na década de 1980.
quando de qualquer um dos moradores, (particular ou Em 2001 a prefeitura regularizou o bairro e a
público) ainda que mediante uma taxa de ocupação partir de então pode fazer parte da divisão de recursos
ou conservação (condomínio, gás, luz, etc.) Inclui-se, na aplicação dos investimentos do município.
neste caso, o domicílio cujo aluguel era pago Já o Bairro São João, correspondente ao setor
diretamente pelo empregador de um dos moradores 48, situado próximo ao Campus Sul da UNIFEV, se
assemelha muito às informações do Bairro Pró-Povo,
ficando na segunda colocação, com 287 residências
quitadas. As localizações que contêm mais casas
quitadas são os lugares em que foram construídos
conjuntos populares no passado, como é o caso desses
dois bairros.

Fig. 2 - Divisão com domicílios alugados no município.

do domicílio.

3.3. Domicílios Próprios


O domicílio é próprio quando ele é de propriedade
total ou parcial de um ou mais moradores e é
integralmente pago. No município esse dado é bem
distribuído, dando destaque às áreas periféricas da Fig.3 - Domicílios cedido pelo empregador
cidade. 4. Conclusão
Os setores com o maior número de residências
Os dados do IBGE, distribuídos pelos setores
correspondem aos bairros mais pobres da cidade:
censitários, mostram de forma precisa o
Bairro Pró-Povo e Bairro São João.
comportamento das informações utilizadas como

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subsídio para o planejamento urbano. Este trabalho


mostrou apenas a distribuição espacial de uma das PLANO DIRETOR MUNICIPAL. (PDM). Votuporanga:
estatísticas levantadas no Censo 200 pelo IBGE para o Secretaria de Planejamento, 1995.
Município de Votuporanga, que é a Condição
Imobiliária. Existem ainda várias outras estatísticas
de podem e devem ser espacializadas para uma melhor MENGEGUETTE, Arlete A. C. et alli Metodologia de
compreensão espacial da realidade da cidade. Elaboração de Mapas de Propósito Especial: Um estudo
Analisando apenas a distribuição espacial da de caso para o centro urbano de Presidente Prudente.
Condição Imobiliária do Censo 2000 para Votuporanga, Revista Brasileira de Cartografia, Rio de Janeiro, v. 51, p. 16-
pode-se detectar quais as regiões carentes de infra- 23, 1999
estrutura imobiliária, contribuindo assim, como
subsídio para as ações de planejamento e de políticas PEICHOTO, Evanir Regina Moro. Do sonho pioneiro à
de habitação da administração municipal. incorporação capitalista: reflexões sobre a trajetória do
Pode-se observar também que, enquanto existe café no município de Votuporanga - 1940 a 1980.
um centro com excelentes condições financeiras no Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia. Programa
município, existe também, em grande parte desses de Pós-Graduação em Geografia, 2001. (Dissertação de
dados, uma periferia muito pobre, que precisa de uma Mestrado)
ação mais contundente do poder público, como
confirmado por Lacerda, et alli, 2005 , p. 8.
RODRIGUES, M. Introdução ao Geoprocessamento. In:
5. Bibliografia
Escola Politécnica da USP. Geoprocessamento. São
Paulo: EDUSP, 1990.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Banco
de Dados do Censo de 2000, Rio de Janeiro, 2002.
RODRIGUES, Fabíola. Por onde vão as “Brisas Suaves”
do Sertão Paulista? População e Estruturação Urbana
na Constituição da Cidade (IM)Possível - Votuporanga,
Um Estudo de Caso. Campinas: Universidade Estadual de
Campinas. Programa de Pós-Graduação em Demografia,
2005. (Dissertação de Mestrado)

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço, Técnica e Tempo.


Razão e Emoção. 2.ed. São Paulo. HUCITEC. 1994.

VOLPI, Edmilson M. Padrões para aquisição de Softwares


SIG por Administrações Públicas Municipais. São Carlos,
Universidade Federal de São Carlos. Programa de Pós-
Graduação em Engenharia Urbana, 2000, (Dissertação de
Mestrado)
Fig. 4 - Domicílios próprios

LACERDA, Paulo B. et alli.. O uso da maquete no ensino


da geografia urbana e sua importância na percepção
espacial. Dourados-MS: ENPEG, 2005.

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Contextualizando o Ensino de Física com a Radioastronomia


Ivan Carlos André
Aluno do Centro Universitário de Votuporanga
Michael Jones da Silva
Aluno do Centro Universitário de Votuporanga
Prof. Dr. Paulo Batista Ramos
Professor do curso de Física do Centro Universitário de Votuporanga
Prof. M.Sc. Rogério Rodrigues de Souza
Professor do curso de Física do Centro Universitário de Votuporanga

Resumo

Neste texto apresentamos a descoberta da radioastronomia e a sua contribuição para a cosmologia


moderna. Enfatizamos que a radioastronomia envolve a aplicação direta dos conhecimentos de Física e, dessa
forma, pode auxiliar na contextualização do ensino e do aprendizado da disciplina.
Primeiramente, abordamos os conceitos básicos relacionados às ondas eletromagnéticas como forma
de introdução às ondas de rádio. Em seguida, apresentamos a descoberta da radioastronomia a partir da
detecção das ondas de rádio vindas de fontes extraterrestres, bem como os processos físicos responsáveis por
essas radiações. Comentamos também a estreita relação da radioastronomia com a cosmologia. Para finalizar,
apresentamos nossas conclusões, salientando que a radioastronomia pode ser utilizada no ensino de Física,
bem como recomendamos fortemente as referências bibliográficas para um maior aprofundamento do assunto
abordado.

Palavras-chave: Comprimento de Onda. Espectro Eletromagnético. Radioastronomia. Emissão da Galáxia.


Radiação Cósmica de Fundo em Microondas (RCFM).

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Introdução

Os nossos olhos são habilitados a enxergar


somente a luz visível que é apenas um dos tipos de
radiações eletromagnéticas existentes. Em 1862 o
físico James Clerk Maxwell demonstrou teoricamente
que a luz é uma onda eletromagnética, isto é, composta
por campos elétricos e magnéticos que oscilam pelo A
espaço, como mostra a figura 1. Fig. 2- Espectro Eletromagnético pequena
FONTE: adaptada de Magalhães, A. M (2006) parcela
deste
espectro na qual os nossos olhos são sensíveis é
chamada visível. Assim, a radiação infravermelha,
devido ao aquecimento de um carro sob o sol, aos raios-
x utilizados em um exame médico, às ondas de rádio
geradas pelo funcionamento de uma antena de uma
emissora de TV, são radiações invisíveis para nós.
Cada uma das faixas do espectro
eletromagnético fornece diferentes informações. Por
exemplo, utilizando a lei de Wien e a espectroscopia
podemos obter a energia, a temperatura e a
composição química da fonte emissora. As radiações
Figura 1 – Representação das ondas eletromagnéticas.
mais energéticas possuem os menores comprimentos
FONTE: adaptada de Mesquita, A. F (2006). de onda e as menos energéticas possuem, por
Na figura 1 também está representado o conceito conseguinte, os maiores comprimentos de onda. As
de comprimento de onda (l) que, nesse caso, é a energias dessas radiações em termos da freqüência
distância consecutiva entre dois máximos da onda. O e do comprimento de onda são dadas pelas relações:
comprimento de onda está intimamente relacionado onde h é a constante de Planck cujo valor é
com a freqüência (f) através da expressão: l ´ f = c, isto aproximadamente 6,63´10-34 J.s.
é, o produto do comprimento de onda pela freqüência Quando estamos interessados em fazer
é igual à velocidade da luz no vácuo (aproximadamente observações das radiações vindas de fora do nosso
300000 km/s, cerca sete voltas e meia em torno do planeta, a partir do solo, há uma complicação: a
equador da Terra em 1 segundo). atmosfera. A atmosfera funciona como um
Sabemos também que a luz visível é somente selecionador de radiações e também como emissor e
uma pequena parcela das radiações eletromagnéticas pode afetar sensivelmente as observações. É possível
existentes. As radiações eletromagnéticas possuem enxergar o brilho das estrelas, pois a atmosfera é
várias denominações de acordo com o comprimento transparente para as radiações que são emitidas por
de onda ou freqüência: raios cósmicos, raios gama, esses objetos na faixa visível do espectro. Quando a
raios-x, ultravioleta, visível, infravermelho, atmosfera é transparente para uma faixa de radiações,
microondas e ondas e rádio. Ao conjunto dessas denomina-se essa faixa por “janela”. Assim, temos a
denominações chamamos de espectro eletromagnético chamada janela do visível ou janela óptica. No
como mostrado na figura 2. entanto, a atmosfera é opaca para freqüências maiores
que o ultravioleta, para freqüências entre o
infravermelho e as microondas, e à maior parte das

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ondas de rádio muito longas e, portanto, não há janelas


para essas radiações. Até a década de 1930 não se Na sua investigação preliminar, ele eliminou
sabia se ondas de rádio vindas de fontes do espaço as suspeitas de que fontes locais seriam a origem de
poderiam atravessar a atmosfera, isto é, se havia uma tais sinais e em seguida passou a considerar que a
janela para uma parte das ondas de rádio. É sobre essa fonte seria o Sol. No entanto, um detalhe a respeito
descoberta que trataremos a seguir. desse sinal o levou à descoberta: o pico dessa radiação
se adiantava cerca de 4 minutos a cada dia. Graças
ao seu conhecimento de astronomia, ele sabia da
A descoberta de Karl Jansky diferença de aproximadamente 4 minutos entre o dia
solar e o dia sideral.
A principal região do espectro eletromagnético
explorada pela astronomia até a década de 1930 foi a A diferença entre o dia Solar e o dia Sideral
janela óptica. Até então a única forma de se observar
o céu, a partir do solo, era com os olhos nus ou com o
uso de telescópios ópticos. No entanto, havia uma outra O dia solar é o tempo no qual a Terra demora
janela do espectro eletromagnético descoberta para completar uma volta ao redor dela mesma em
somente em 1932: a janela de rádio. A janela de rádio relação ao Sol. Esse tempo, como sabemos é, em
corresponde à faixa do espectro em freqüência de média, 24 horas. No entanto, o período de rotação da
aproximadamente 5 MHz até 300 GHz (ou em Terra em relação a uma estrela (ou a um ponto
comprimentos de onda de aproximadamente 60 metros distante do céu) é diferente. Suponha que um
até 1 milímetro). A descoberta da janela de rádio foi o observador na superfície da Terra registre a posição
início da radioastronomia e foi mais um exemplo na do Sol logo ao nascer numa linha vertical (meridiano
ciência de acontecimentos inesperados, como foram local). Após uma volta completa, no outro dia, é
nas descobertas dos raios-x, do efeito fotoelétrico, dos verificado que o Sol não se encontra na mesma posição
pulsares, da radiação cósmica de fundo, entre outros. anterior e que é necessário um tempo adicional para
Um engenheiro chamado Karl Jansky trabalhava ele assumir essa posição com relação ao meridiano
para os laboratórios da empresa Bell Telephone na local. A diferença é devida ao movimento de translação
construção de uma antena capaz de minimizar o ruído da Terra em torno do Sol, isto é, quando a Terra realiza
produzido por tempestades em linhas de transmissão. o seu movimento de rotação ela também se desloca
Para isto, ele construiu uma antena sintonizada em da posição da sua órbita em torno do Sol. O Sol para o
comprimentos de onda de 14,6 metros (ou freqüências observador assumirá aquela posição em um tempo
de 20,5 MHz). Os primeiros registros captados por sua posterior correspondente ao tempo que a Terra levou
antena mostraram que além dos sinais provocados por para percorrer o movimento de translação. Sabe-se
tempestades havia um sinal de origem desconhecida, que a Terra realiza o seu movimento de translação
como mostra a figura 3. completo em 365 dias. Assim, a Terra completa uma
volta em 1/365 do movimento de translação e fornece
o tempo de aproximadamente 3 minutos e 56 segundos
(1/365 × 24 × 60 × 60). Esse é o tempo necessário para
o observador registrar o Sol no mesmo meridiano local.
Essa característica o levou a concluir que o sinal
seria originado de uma fonte bem mais distante que o
Sol que, posteriormente, ele identificou como a Via
Láctea. A partir dessa descoberta, um rápido
Fig. 3 – Registro obtido por Jansky em 24 de fevereiro de 1932. desenvolvimento da astronomia na faixa de rádio se
FONTE: (Kraus, 1966) p.7.

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procedeu dando origem a um novo ramo da astronomia ulitizadas para descontar do sinal da RCFM, visto que,
conhecido como radioastronomia. esse sinal está incluso na radiação recebida e é
impossível de separá-lo.

A janela de Rádio Conclusão


Existem várias fontes extraterrestres emissoras A radioastronomia, desde a sua descoberta
nas freqüências de rádio e microondas e que fornecem inesperada, tem contribuído grandemente para o
um imenso campo de pesquisa atualmente. Entre elas, entendimento do nosso universo e principalmente na
podemos citar a emissão da Galáxia e a Radiação área da cosmologia. Na cosmologia moderna, o desafio
Cósmica de Fundo em Microondas (RCFM). maior é obter um sinal extremamente limpo da RCFM
A emissão da Galáxia é composta por três tipos: e para isso é necessário conhecer precisamente os
síncrotron, livre-livre e emissão térmica devido à fatores contaminantes dessa radiação para, então,
poeira interestelar. Essa composição é chamada de descontá-los do sinal da RCFM.
emissão Galáctica em radiofreqüência. A emissão da O estudo da radioastronomia fornece um vasto
poeira provém da radiação térmica dos grãos de cenário de aplicações de conceitos físicos que são
diferentes tamanhos e composições químicas que abordados nos cursos de graduação em Física, como
estão distribuídos por todo meio interestelar. A por exemplo: comprimento de onda, freqüência,
síncrotron se origina de elétrons relativísticos girando radiação de corpo negro, radiação síncrotron entre
em torno de linhas do campo magnético da Galáxia e outros. Desta forma vem contribuir grandemente para
a livre-livre provém do Bremsstrahlung térmico de a contextualização do ensino de Física bem como ser
elétrons quentes (temperaturas de T4 K) produzidos um agente motivacional para futuras pesquisas nesta
nas nuvens de hidrogênio ionizado.Estudo dessas área.
emissões permite estimar parâmetros que descrevem
a dinâmica e a estrutura da Galáxia como, por
exemplo, o campo magnético da Galáxia e a densidade Referências bibliográficas
de elétrons do meio interestelar.
A RCFM é a radiação que foi emitida quinhentos
mil anos após o Big Bang (que é a teoria a respeito de Caldwell, R. R.; Kamionkowski, M. Ecos do Big Bang.
como o universo foi formado). De acordo com a Scientific American Brasil, Edição Especial, n. 7, p. 92 –
intensidade da radiação, é possível associar uma 98, Dez. 2002.
temperatura (utilizando o modelo de corpo negro). Em
Charles, L. B.; Hinshaw, G. F.; Page, L. Uma nova cartografia.
média, a temperatura da RCFM é de 2,73 K. Pela teoria
Scientific American Brasil, Edição Especial, n. 7, p. 70 –
do Big Bang, pequenas variações de densidade de
71, Dez. 2002.
matéria, logo após o universo ter surgido, provocaram
pequeníssimas variações na RCFM que se traduzem Hewitt, P. G. Física Conceitual. 9a. ed. Porto Alegre: Bookman,
em variações de temperatura da ordem de 10-5 K em 2002.
torno da sua temperatura média. Para observar Kraus, J. D. Radioastronomy. São Paulo: McGraw-Hill, 1966.
variações de temperatura dessa ordem, é necessário Magalhães, A. M. Radiação Eletromagnética. [online].
eliminar quaisquer possíveis fontes contaminadoras. <http://www.astro.iag.usp.br/~mario/aga291/aulas/luz.html>.
A nossa Galáxia é uma delas. Portanto, é necessário Abril, 2006.
conhecer precisamente a contaminação dessas fontes
Mesquita, A. F. A Natureza da Luz e o Princípio da
para eliminá-la do sinal da RCFM. Nesse sentido, a
Superposição. [online]. <http://www.ecientificocultural.com/
radioastronomia tem um importante papel de fornecer
ECC2/artigos/polar03.htm>. Abril, 2006.
medidas exatas da emissão da Galáxia e que serão
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Nussenzveig, H. M. Curso de Física Básica. v. 3. São Paulo:


Edgar Bluncher, 1997.
Souza, R. R. Um Mapa da Emissão Galáctica em 408 MHz.
São José dos Campos. 122p. (INPE – 9560 – TDI/835).
Dissertação (Mestrado em Astrofísica) – Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais, 2000.

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Controle de Temperatura em Estufas de Secagem de Madeira

Prof Neimar Francisco de Souza


Aluno do curso de Engenharia de Computação da UNIFEV
Prof Rogério Rocha Matarucco
Professor Mestre do Curso de Engenharia de Computação da UNIFEV
Prof Denise Marin Rodrigues
Professora Mestre do Curso de Engenharia de Computação da UNIFEV

Resumo
Com a acirrada competição no mercado, a crescente exigência dos consumidores e a real oportunidade
de exportação, as indústrias moveleiras estão cada vez mais preocupadas com a qualidade de seus produtos.
Em se tratando de móveis confeccionados em madeira, a matéria-prima básica, a madeira, necessita de
cuidados especiais quanto à secagem. Devido à escassez e à dificuldade cada vez maior de sua extração, a
madeira chega aos centros industriais com um alto índice de umidade, condição proibitiva para a confecção de
um móvel de qualidade. Sendo assim é necessária a sua secagem, que pode ser por um processo natural ou
através do uso de estufas de secagem. O primeiro processo demanda muito tempo, sendo o segundo o meio
mais viável para a diminuição dessa umidade. Entretanto, após várias pesquisas em indústrias moveleiras da
região de Votuporanga (SP), verificou-se que a maioria das estufas de secagem de madeira não possui um
controle que garanta a homogeneidade da temperatura em seu interior. Este trabalho apresenta um estudo
para o desenvolvimento de um controle automático dessa homogeneidade de temperatura.

Palavras-chave: Estufas de Secagem. Controle de Temperatura. Automação Industrial.

Introdução
A madeira, matéria-prima extraída da natureza, há tempos é um produto fundamental em nosso cotidiano.

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Dentre as suas principais aplicações estão a metros cúbicos de madeira, a temperatura em seu
construção civil e a indústria moveleira. Quando interior não é homogênea, o que pode comprometer a
extraída, a madeira apresenta um alto grau de qualidade da matéria-prima durante o processo de
umidade que, tanto para a construção civil, quanto secagem.
para a indústria moveleira representa um grande Este trabalho aborda o controle de temperatura
problema a ser solucionado. Se ela for aplicada no interior da câmara da estufa para averiguar a
diretamente nessas condições, com o passar do tempo, homogeneidade dessa temperatura em todos os pontos.
através de um processo natural de secagem, ela pode Para este trabalho foram realizadas medições em
sofrer empenamentos e até rachaduras, estufas existentes em indústrias moveleiras da região
comprometendo assim a qualidade do produto ou do de Votuporanga (SP).
serviço realizado. A secagem da madeira antes de sua
utilização pode se dar por meio natural, processo que A Madeira e sua Secagem
demanda longo tempo e condições climáticas A madeira originada do reino vegetal apresenta
favoráveis, ou por meio de estufas apropriadas para comportamentos diferenciados. Para a sua utilização,
esse fim. Atualmente, as indústrias moveleiras estão ela não deve conter umidade em excesso. Ela está
bastante motivadas para a instalação de estufas de sujeita a variações na qualidade se a retirada dessa
secagem da madeira em seus processos fabris. Essas umidade se der em um nível abaixo do ponto de
estufas necessitam possuir um rigoroso controle de saturação das fibras. A madeira possui substâncias
temperatura interna, pois o processo de secagem porosas e tende a absorver a umidade do ambiente ou
depende de vários fatores dentre os quais a espécie soltar parte da umidade que contém, até que possua
da madeira e o grau de umidade em que ela se um equilíbrio entre sua umidade interna e a do meio
encontra. ambiente, não havendo mais troca dessa umidade
As estufas existentes no mercado atualmente entre ambos. Esse estado de equilíbrio é denominado
possuem apenas um sensor localizado no interior “Equilíbrio Higroscópico”. Por esse motivo, a secagem
deveria ser um processo que ocorresse naturalmente,
procurando alcançar o equilíbrio higroscópico com o
meio ambiente.
Atualmente o moderno sistema de fabricação de
produtos acabados ou semi-acabados é terceirizado.
As empresas fornecem peças prontas para serem
montadas em uma outra região com características
climáticas diferentes. Sendo assim, a madeira pode
sofrer variações em sua estrutura, quando tende a
alcançar o equilíbrio higroscópico com o clima do novo
ambiente. Essas variações podem comprometer a
qualidade do produtor final e são, portanto,
inaceitáveis nas indústrias. Portanto, o processo de
secagem natural da madeira não é suficiente para
manter um processo de estabilização para o bloqueio
da higroscopicidade da madeira (Kalmac, 1999). A
FIGURA 1 – Diagrama de Blocos do Sistema Proposto
solução é o uso de estufas apropriadas para a secagem
do produto. O processo de secagem nelas deve ser
delas, o qual faz a leitura da temperatura interna. uniforme, evitando eventuais problemas como
Devido às suas dimensões, que chegam a abrigar três empenamentos ou rachaduras na madeira. Essa

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uniformidade não é conseguida no processo natural, câmara envolvendo a madeira presente e levando à
pois variações repentinas nas condições climáticas perda de sua umidade. A umidade do produto é medida
são constantes. através de sondas fixas à madeira.
O processo de secagem em estufas resume-se O gerenciamento desses processos é feito
no aquecimento do ar no interior delas que, em contato eletronicamente, em tempo real, por meio de
com a madeira, fornecem calor a esta, permitindo com microcontroladores em uma central de controle. Cada
que o produto libere a umidade contida em seu interior. tipo de madeira necessita de uma programação
Como em todo volume interior da câmara existe específica devido às suas características.
madeira a ser secada, a temperatura interna deve ser
homogênea, pois, se isso não ocorrer, a qualidade da Automação Industrial
madeira que se encontra em um determinado ponto
da câmara será diferente de outra, localizada em um
ponto diferente. Entende-se por automação qualquer sistema, apoiado em
A câmara de secagem, pela sua dimensão, computadores, que substitua o trabalho humano e que vise a
permite uma circulação de ar entre as pilhas de soluções rá
madeiras. Essa câmara possui portas e paredes com
isolantes térmicos que evitam a troca de calor com o pidas e econômicas das indústrias e dos serviços. Não se podem
meio externo. confundir os conceitos de automação com mecanização, uma
O sistema de aquecimento é composto por vez que a segunda consiste no uso de máquinas para realizar
“serpentinas” de tubos metálicos pelos quais circulam um trabalho, substituindo, assim, o esforço físico do homem,
valor de água da fonte para o interior da câmara. Para ao passo que a automação possibilita fazer um trabalho por
regular a temperatura interna, o sistema é composto meio de máquinas controladas automaticamente, capazes de
se regularem com uma simples reprogramação (MORAES e
de válvulas elétricas que permitem o fluxo de vapor
CASTRUCCI, 2001).
no interior dos tubos somente quando necessário.
Apenas um sensor faz a leitura da temperatura interna De acordo com dados fornecidos pela Agência de
da câmara de forma contínua. Desenvolvimento do Paraná (ADTP, 2003), a
A renovação do ar é feita via dutos de exaustão automação ganhou impulso no início dos anos 90,
dispostos simetricamente em relação ao sistema de sendo vista pelos economistas dirigentes de empresas
ventilação. Os dutos localizados a montante dos como um meio de consolidação do parque industrial
ventiladores aspiram o ar fresco do exterior e as que brasileiro, gerando alta competitividade. O
estão a jusante retiram o ar úmido de dentro da desempenho das empresas de automação, nos últimos
câmara. A abertura desses dutos é controlada por um três anos, cresceu de 15 a 20%. Projeções da
motor, comandado por uma unidade de controle, que Associação Brasileira da Indústria Eletrônica, que
recebe informação através de sondas as quais medem trabalha com automação, indicam que o setor cresceu
a umidade relativa do ar no interior da câmara. 20%. A indústria automobilística brasileira é indicada,
O aumento da umidade relativa do ar freqüentemente, como exemplo de automação, em que
internamente à câmara, quando necessário, é obtido 28% dos processos são automatizados.
através de aspersão de água em seu no interior A automação é a combinação de diversos
realizada por meio de uma eletro-válvula. mecanismos, como máquinas e sistemas. Existe uma
A ventilação da câmara é feita por uma série de infinidade de equipamentos utilizados em um processo
ventiladores colocados no teto, que permitem a automatizado, com as mais diversas finalidades: a) os
circulção do ar por meio de um duto (teto falso). O ar, atuadores são elementos usados para executar as
em contato com os tubos com vapor, tem sua instruções de controle; b) os solenóides são dispositivos
temperatura aumentada e circulam pelo interior da que, alimentados eletricamente, produzem um

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movimento de translação (deslocamento); c) os relés


são dispositivos eletromecânicos que ao serem passarem por um conversor analógico/digital (A/D), a
alimentados eletricamente geram uma ação um microcontrolador que as interpretará e enviará a
mecânica, ou chaveamento de um sinal elétrico; d) um computador por meio da porta serial. No software
os sensores são dispositivos destinados à detecção de desenvolvido para esse sistema, o usuário informará
presença, de temperatura, de velocidade, de pressão, a temperatura desejada no interior da estufa e, a
entre outros, cujo sinal de saída pode ser um simples partir daí, serão feitas comparações contínuas dessa
contato, uma chave ou um número binário; e) os temperatura informada com aquela fornecida pelos
transdutores são dispositivos que convertem uma sensores. Havendo diferenças em algum dos pontos,
variável física em uma variável elétrica. os dispositivos de controle serão acionados via porta
Um outro dispositivo fundamental em um paralela do computador. Todas as informações serão
processo de automação é o microcontrolador, que se armazenadas em um banco de dados possibilitando a
caracteriza por um microprocessador com funções geração de gráficos e relatórios. A figura 1 mostra o
específicas. O microcontrolador corresponde a um diagrama de bloco do sistema proposto.
microprocessador e seus periféricos típicos, todos Controlador de
juntos em um só chip (Nicolosi, 2004). Temperatura
Para completar um sistema de automação
industrial são necessários conversores analógico/
digital (A/D) e conversores digital/analógico (D/A). A
Resultados
saída elétrica analógica de um transdutor serve como Testes realizados com o sistema proposto em
entrada analógica de um conversor analógico/digital. maquete no laboratório de hardware do Centro
Esse conversor converte essa entrada analógica em Universitário de Votuporanga mostraram que o
uma saída digital, que consiste em um número de bits sistema alcançou os objetivos almejados, realizando
que representa o valor da entrada analógica. a leitura de temperaturas em três pontos distintos,
A saída digital de um computador está conectada comparando essas leituras com um determinado dado
em um conversor digital/analógico, que a converte fornecido e gerando sinais para o acionamento de
para uma tensão ou corrente analógica proporcional dispositivos para o controle dessa temperatura em
(Tocci, Widmer, 2004). pontos onde elas divergiam.

Conclusões
Sistema Proposto As estufas existentes no mercado, apesar da alta
O sistema proposto neste trabalho trata-se do tecnológica empregada, carecem de um controle de
desenvolvimento de um controle da temperatura temperatura em pontos diferentes no interior da
interna à câmara em estufas de secagem de madeira, câmara de secagem.
objetivando a obtenção de uma homogeneidade dessa O sistema proposto, apesar de monitorar a
temperatura no interior da câmara. temperatura em apenas três pontos, mostrou que é
A implementação deste sistema consta de três possível e útil esse monitoramente em diversos pontos
sensores de temperatura dispostos na parte interna no interior da câmara.
da câmara de secagem, localizados um na parte Estudos futuros podem complementar o sistema
inferior, outro em um ponto intermediário e um proposto incorporando, ainda, dispositivos físicos de
terceiro na parte superior, que farão a leitura da aquecimento e resfriamento para completar o processo
temperatura de forma contínua. As respectivas de homogeneização da temperatura interna da
leituras destes sensores serão enviadas, após câmara de secagem.

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Referências Bibliográficas
ADTP – Agência de Desenvolvimento Tiete Paraná.
Automação Industrial Brasileira. Disponível em: <http: /
www.adtp.org.br> Acesso em: 20/ junho/ 2003.

KALMAC. Manual para Secagem Artificial da Madeira.


São Paulo, 1999.

MORAES, C. C.; CASTRUCCI, P.L. Engenharia de


Automação Industrial. Rio de Janeiro: LTC, 2001.

NICOLOSI, D. E. C. Microcontrolador 8051 Detalhado. 5.


ed. São Paulo: Érica, 2004.

TOCCI, R. J.; WIDMER, N. S. Sistemas Digitais Princípios


e Aplicações. 8. ed. São Paulo: Pearson, 2004.

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Espetacularização e exclusão urbana na cidade de São Paulo:


a OUFL?, o Instituto Tomie Ohtake e o Largo da Batata

Prof. M. Sc. Evandro Fiorin


Mestre em Arquitetura e Urbanismo e Doutorando em Projeto, Espaço e Cultura FAU-USP
Professor do curso de Comunicação Social, Arquitetura e Urbanismo da UNIFEV
resumo

Este trabalho pretende verificar os impactos sociais e estéticos na conformação da renovação urbana
que vem sendo implementada no prolongamento da Avenida Faria Lima - partindo do Largo da Batata, até a
Avenida Pedroso de Morais - na cidade de São Paulo. Com este propósito tentaremos apontar traços que
caracterizem processos de exclusão social e espetacularização urbana, na construção do espaço da cidade. O
novo Complexo Empresarial e Cultural Faria Lima / Instituto Tomie Ohtake (projeto do arquiteto Ruy Ohtake),
a requalificação paisagística do entorno da região e ao longo da via (projeto Belezura da Prefeitura Municipal
de São Paulo) e os novos projetos para remodelação do Largo da Batata serão nossos objetos de estudo para
procurar explicitar como a arquitetura, o paisagismo e o urbanismo contemporâneos derivam mais dos
interesses ditados pela imagem, pela mídia e pelo mercado, do que pelo compromisso social que deve permear
a construção do ambiente urbano.

Palavras Chave: operações urbanas. Espetacularização urbana. Exclusão urbana.

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os bairros jardins e, associado a eles, o Jockey Club.


Na cidade de São Paulo existe uma tendência Naquelas décadas, o Bairro de Pinheiros foi urbanizado
das classes sociais mais elevadas procurarem se e grandes obras públicas foram necessárias para fazer
identificar com determinados espaços da cidade. Elas a travessia do rio. Desenvolveram-se novos bairros:
tomam para si territórios urbanos que refletem seu City Butantã, Alto de Pinheiros e Morumbi. Daí por
estilo social para conviver com seus pares ou coibir a diante, surgiriam as vias marginais, as novas pontes
apropriação de parcelas de território por toda a sobre o rio, até o aparecimento de um novo tipo de
sociedade. São Paulo se delineia em zonas invisíveis, ocupação na região do vetor sudoeste, caracterizada
estratificadas pela concentração de renda, pelo agora como novo pólo do setor terciário, em virtude da
preconceito social e por medidas protecionistas, expansão da Avenida Faria Lima.
historicamente impostas pelas leis de zoneamento. Nessa medida, VILLAÇA (1994) sugere que a
segregação espacial na cidade de São Paulo promovida
“Há duas dimensões do preconceito em São Paulo: primeiro, a pelas classes sociais ou por atividades econômicas
expressão muito clara de um muro de Berlim invisível, que não específicas serve para enfatizar uma excessiva
é físico, mas claramente configurado: é como se fosse uma fatia concentração de investimentos e a manutenção de
de pizza que começa no centro e vai alargando, em “V”, pela determinadas áreas de interesse especulativo em
Paulista, Jardins, Faria Lima, atravessa a Marginal de Pinheiros uma mesma região como, por exemplo, o vetor
e chega ao Morumbi.” (...) “Essa região concentrou,
sudoeste.1
historicamente, os poucos investimentos em urbanismo que se
fizeram em São Paulo em equipamentos culturais. Ali estão os Segundo o arquiteto Sérgio Zaratin, esta
melhores parques, os teatros, até recentemente todos os cinemas excessiva concentração de investimentos em uma
da cidade, as pessoas de maior renda, as melhores oportunidades mesma área da cidade sempre esteve ligada aos
de consumo.” (...) “Em São Paulo, a falta de comunicação entre interesses da iniciativa privada, que caminharam lado
classes é muito mais radical do que no resto do Brasil. Até a lado com as intervenções do poder público. Ele explica
porque nunca houve aqui um espaço real de sociabilização e que na passagem do século XIX, a implantação do
coesão, de encontros, de heterogeneidade. O projeto Instituto do Butantã coincidiu com as obras da Light
segregacionista de São Paulo nunca foi rompido.”1 de retificação do Rio Pinheiros e saneamento das suas
Nessa medida, VILLAÇA (1994) sugere que a margens. Em seguida apareceu o núcleo de Pinheiros
segregação espacial na cidade de São Paulo promovida e, mais tarde, nas décadas de 20, 30 e 40 nasceram
pelas classes sociais ou por atividades econômicas os bairros jardins e, associado a eles, o Jockey Club.
específicas serve para enfatizar uma excessiva Naquelas décadas, o Bairro de Pinheiros foi urbanizado
concentração de investimentos e a manutenção de e grandes obras públicas foram necessárias para fazer
determinadas áreas de interesse especulativo em a travessia do rio. Desenvolveram-se novos bairros:
uma mesma região como, por exemplo, o vetor City Butantã, Alto de Pinheiros e Morumbi. Daí por
sudoeste.2 diante, surgiriam as vias marginais, as novas pontes
Segundo o arquiteto Sérgio Zaratin, essa sobre o rio, até o aparecimento de um novo tipo de
excessiva concentração de investimentos em uma ocupação na região do vetor sudoeste, caracterizada
mesma área da cidade sempre esteve ligada aos agora como novo pólo do setor terciário, em virtude da
interesses da iniciativa privada, que caminharam lado expansão da Avenida Faria Lima.
a lado com as intervenções do poder público. Ele explica De acordo com dados publicados por DUARTE
que na passagem do século XIX a implantação do (1993), a concentração destes investimentos do poder
Instituto do Butantã coincidiu com as obras da Light público no vetor sudoeste se mantém até hoje e são
de retificação do Rio Pinheiros e saneamento das suas bem maiores que os gastos desprendidos pela iniciativa
margens. Em seguida apareceu o núcleo de Pinheiros privada, porque estes são, em geral, mais pontuais.
e, mais tarde, nas décadas de 20, 30 e 40 nasceram Enquanto o poder público investe na construção da

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infra-estrutura, tal como a futura linha do metrô de investimentos da OUFL previa, desde 1995, a
Paulista-Pinheiros, até então orçada em US$ 850 construção de habitações de interesse social com a
milhões, e o prolongamento da Avenida Faria Lima retirada das favelas da Rua Coliseu, da Avenida
(US$ 100 milhões)2, a iniciativa privada se beneficia Engenheiro Luís Carlos Berrini e da Avenida das
de tais intervenções para alavancar o mercado Nações Unidas, além da construção de lojas,
imobiliário. estacionamento coletivo e demais melhoramentos do
Assim, a Lei número 11.732, de 14 de março de transporte coletivo no Largo da Batata. No entanto, o
1995, que estabelece o programa de melhorias para a que realmente aconteceu foi a expulsão dos moradores
área de influência definida em função da interligação favelados para 25 quilômetros de distância do lugar
da Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Avenida onde moravam, como constatou o trabalho de FIX
Pedroso de Morais e com as Avenidas Presidente (2001). E, em contrapartida, o crescente processo de
Juscelino Kubitschek, Helio Pellegrino, dos espetacularização da paisagem urbana foi substituindo
Bandeirantes, Engenheiro Luís Carlos Berrini e Cidade a favela pelos megaprojetos do capital financeiro,
Jardim, parece ter uma importância cabal no processo construídos ao longo do Rio Pinheiros.
de arrendamento e entrincheiramento do vetor Quanto ao Largo da Batata, de acordo com dados
sudoeste da cidade de São Paulo – vinculado aos de 1995-2000, divulgados pelo TCLP - Cadastro
interesses das classes dominantes e da iniciativa Territorial, Predial, Conservação e Limpeza, da
privada. A conhecida Operação Urbana Faria Lima Secretaria de Finanças da Prefeitura do Município de
(OUFL) foi apresentada pela primeira vez, pela São Paulo, “a área construída perdida em decorrência
iniciativa privada durante a gestão do prefeito Jânio da desapropriação de terrenos para a extensão da
Quadros. Posteriormente, foi parcialmente incluída no Avenida Faria Lima não foi reposta.” 4
Plano Diretor de 1991, elaborado pelo governo da Além disso, no largo nada foi realizado e a
prefeita Luiza Erundina. No entanto, saiu do papel e deterioração ambiental do espaço e a precariedade
tomou seu verdadeiro vulto – o especulativo – na gestão física foram agravadas por conseqüência do
Paulo Maluf. prolongamento da Avenida Faria Lima que se ligou à
Uma Operação Urbana consiste na execução de Avenida Pedroso de Morais.5
um plano de renovação urbana promovido em parceria Por outro lado, a extensão desta Nova Faria Lima,
entre o poder público e a iniciativa privada. Nesse no bairro de Pinheiros, faria surgir uma nova Avenida
sentido, tais operações só podem acontecer, Pedroso de Morais. Antes com baixo tráfego, esta
obviamente, em locais da cidade onde há grande avenida com 2,8 km se transformou em um pólo de
interesse do mercado imobiliário. Estes locais, por sua atração empresarial e cultural. Somado ao antigo
vez, rendem mais lucros aos interesses dos Shopping Ática, projeto dos arquitetos Paulo Bruna e
investidores que aos habitantes daquela parcela da Roberto Cerqueira César (hoje Fnac), surge o Ohtake
cidade.3 Cultural – pensado em projeto no mesmo ano em que
Na Operação Urbana Faria Lima, as pretensas foi anunciada a OUFL e premiado na IX Bienal
condições de “melhoria social”, contidas no artigo 32 Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em
da Lei de número 10.257/01, que regulamenta as 2001.6 Assim, esta nova avenida passou a permitir,
operações urbanas, não puderam ser verificadas. Isto em seu zoneamento, além de atividades comerciais e
porque o programa de investimentos que incluía, além residenciais, a construção de prédios de escritórios,
de obras viárias, um novo terminal de ônibus no Largo bares que geram uma agitada vida noturna, além de
da Batata e a construção de habitação de interesse grandes complexos culturais.
social destinada à população favelada existente no Neste contexto urbano, estamos sujeitos a um
perímetro e em seu entorno, de fato não foram jogo de potentes mediadores, onde a cultura se filiou
realizadas. Cabe, neste caso, ressaltar que o programa à indústria do espetáculo e aos meios de comunicação;

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e estes servem aos interesses do mundo da deve atrair o público, não deve mimetizar-se na
administração e das finanças. Como sugerem paisagem e passar despercebido. Para justificar sua
OCKMAN & ADAMS (2000), o espírito dos nossos tempos intenção de fazer com que o edifício se sobressaia no
é revelado pela hibridização da cultura e dos negócios.7 entorno cita exemplos como: a pirâmide do Louvre, de
Desse modo, de acordo com HENRIQUES (1998), quando I. M. Pei, o Museu Guggenheim de Bilbao, de Frank O.
uma empresa passa a investir na promoção cultural, Gehry e o MAC de Niterói, de Oscar Niemeyer.
tem um retorno garantido, porque obtém “...frutos deste Entretanto, sabemos que o edifício criado por Frank
investimento, frutos de imagem...8 O. Gehry para Bilbao foi concebido como um “objeto
O conjunto recém terminado projetado pelo público de consumo midiático”.10 E que, por isso, de
arquiteto Ruy Ohtake no encontro dos bairros: Alto de acordo com RAJCHMAN (2000), devemos tê-lo como o
Pinheiros (habitado por população de renda elevada), edifício mais publicizado em toda a história da
Vila Madalena (bairro pobre que passou a concentrar arquitetura. Nesse sentido, lá se trata de uma
ateliês e badalada vida noturna) e Pinheiros abriga o tentativa cultural embalada por um espetáculo urbano,
Edifício Pedroso de Morais (seis pavimentos de na tentativa de capturar o comércio global em uma
escritórios apoiados por pilares metálicos de cor cidade esquecida pelos turistas e lembrada apenas
violeta, popularmente chamados de carambolas); quando o grupo separatista basco ETA assume a autoria
Edifício Faria Lima (torre de 22 andares também de um novo atentado à bomba.
destinada a escritórios); Instituto Tomie Ohtake (4.200 Se Ohtake assume com convicção que “...o
metros quadrados destinados a um centro cultural que Ohtake Cultural é importante para a renovação do entorno
conta com um teatro e um auditório) e uma Igreja como referência do contemporâneo”, qual o papel da
Presbiteriana. Este empreendimento que justapõe a arquitetura nesses processos de renovação urbana?
cultura e as finanças é de propriedade do grupo Na medida em que toma como referência o
farmacêutico Aché, um cliente antigo do referido Guggenheim Bilbao, somente está avaliando a frágil
arquiteto. noção da arquitetura atual que dimensiona
Desde a década de 1960, Ruy Ohtake é o espetáculos estéticos para atrair a atenção da mídia,
arquiteto deste grupo farmacêutico. No entanto, se, ou reforçar a exclusão urbana e a expulsão de
no início, tinha como característica marcante uma moradores pobres de uma determinada região, em
arquitetura brutalista, nas ampliações mais recentes favor da gentrificação espacial. Nesta tentativa de
dos laboratórios do grupo Aché, o arquiteto passou a renovação, Ohtake incentiva uma arquitetura de
utilizar as cortinas de vidro multicolorido poder sedutor e imagético, midiatizada pela autoria
(principalmente cor-de-rosa), característica marcante para servir à cultura de mercado.
da torre do novo Complexo Cultural de Pinheiros. Esta Como incita WENDERS (1991), se mostrar foi
mudança, segundo o arquiteto, seria para evitar a noutra época a missão primeira das imagens, o seu
monotonia de um tom único. No entanto, o apelo às fim parece ser cada vez mais vender. Como as imagens,
empenas de vidro em tom cor-de-rosa, tanto no nossas cidades são cada vez mais alienadas e
laboratório, quanto nos tons avermelhados da torre da alienantes. As cidades, tal como as imagens, nos
Faria Lima, nos parece mais uma alusão à cor da logo constrangem a viver cada vez mais uma experiência
das embalagens de medicamentos do laboratório de segunda mão, orientada para o comércio e para o
farmacêutico que os financia. Mesmo porque, consumo visual. Esta dimensão visual de sedução
SERAPIÃO (2004) define que o arquiteto Ohtake cada substitui o espaço urbano habitado pelo cidadão comum
vez mais se afasta dos pontos de vista formal e que, por conseguinte, passa a ser ocupado por bancos,
ideológico da arquitetura de Oscar Niemeyer (a antiga hotéis e pela indústria do consumo e do espetáculo.
referência) e da escola paulista.9 Em todas as partes, é a sedução que separa as
Para Ohtake, um edifício como este de Pinheiros coisas das suas verdades, descreve BAUDRILLARD

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(2003). O apelo à imagem sedutora desta nova de mídia para mobilizar a opinião pública a difundir
arquitetura colorida e ensaiada também separa o uma aceleração do processo de renovação e
sentido da construção de uma arquitetura de caráter especulação imobiliária do lugar, do que uma tentativa
público, pela qual primavam os edifícios de um ideário de construção de um espaço eminentemente
moderno. Se nesta passagem, a cultura pôde ser democrático?
mercantilizada e a volatilidade da moda mobilizada, a Apesar da ata de julgamento do Concurso Público
capacidade de produção de imagens associadas aos Nacional para Reconversão do Largo da Batata garantir
padrões de consumo se tornaram a tônica da que o referido concurso deveria servir para a
arquitetura e dos processos de embelezamento urbano contratação imediata e não ser apenas um concurso
para atrair negócios.11 de idéias” – nestes o processo de agenciamento urge
No caso do bairro de Pinheiros, o complexo dar visibilidade à intervenção e captar novos recursos
cultural Tomie Ohtake marca uma possível financeiros para viabilizar megaprojetos milionários
transformação do bairro, porque desde a abertura da elaborados por grandes arquitetos de renome –,
nova Faria Lima há uma expectativa de modificação felizmente, a proposta vencedora ainda não saiu do
do perfil do local.12 O único entrave dentro deste papel.
processo de renovação urbana, ditada pela imagem O projeto vencedor, premiado em 2002,
renovada da arquitetura autoral, pela mídia impressa, coordenado pelo arquiteto Tito Lívio Frascino, previa,
pelo mercado imobiliário e pelo poder público, seria, além das recomendações contidas no edital do referido
ainda, o Largo da Batata. concurso, indicadores que só fazem referendar a tônica
Deste modo, será com o intuito de reconstituir o da produção arquitetônica e urbanística
Largo da Batata como um lugar privilegiado de contemporânea, aqui lida como sendo mediada para o
articulação de espaços e fluxos, de intercâmbio de bens consumo visual. Desta maneira, para “espetacularizar
e produção de significados, no coração do Bairro de a experiência urbana”, “seduzir os cidadãos” e
Pinheiros – um núcleo histórico que apresenta aumentar a “oferta cultural”, os arquitetos do projeto
conflitos de crescimento desordenado –, que o Instituto vencedor propõem a “promoção da arquitetura como
de Arquitetos do Brasil e a Prefeitura do Município de personagem focal da operação.” Sugerem, portanto a:
São Paulo, na gestão Marta Suplicy, no ano de 2001,
lançaram o Concurso Público Nacional para “.criação de elemento simbólico-expressivo agregado ao
empreendimento e à arquitetura como marco de requalificação
Reconversão do Largo da Batata.
promovida pelo poder público, representado pelo pilar
De acordo com o termo de referência desse multifacetado que suporta a cobertura da praça.”
concurso, o Largo da Batata, desde 1970, tem como
características as funções de entroncamento viário, Nesse sentido, este novo projeto, “...ao contrário
terminal de ônibus e um lugar de grande circulação de estimular qualquer tipo de ação efetivamente
de pedestres. O uso de passagem originou um intenso construtora de cidadania,13 propõe a criação de calçadas
comércio informal contribuindo para o comerciais, torres de escritórios com 22 pavimentos
congestionamento e para a deterioração do espaço e um centro de eventos e cultura. Este último, segundo
urbano. Nesse sentido, o termo reconversão, lido no reza o projeto, deverá ser o catalizador da renovação
título do concurso, deve ser entendido como forma de pretendida para o local, tal como sugeriu o arquiteto
recuperação do lugar público ou como forma de assepsia Ruy Ohtake ao falar sobre o seu projeto cultural
urbana? Banindo o comércio informal que dá vida ao financiado pela Aché, mencionando sobre a grande
lugar e construindo uma paisagem atraente para expectativa na construção da nova proposta de Tito
emoldurar os edifícios de escritórios vizinhos ao Lívio.
“degenerado” Largo da Batata e ao próprio novo Ohtake Na proposta projetual vencedora para a
Cultural, este concurso não serviria mais como forma reconversão do Largo da Batata, nada foge ao que

31
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

sugere ARANTES (2002) sobre a necessidade de


valorização patrimonial das empresas nas cidades ARANTES, O. B. F. Cultura e Transformação Urbana. In:
atuais: “rentabilidade e patrimônio arquitetônico-cultural PALLAMIN, V. M (org). Cidade e Cultura: esfera pública e
se dão as mãos, nesse processo de revalorização urbana.” transformação urbana. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.
Reafirmando o que já dissemos, a chave para alavancar
este entroncamento degenerado pelo comércio
informal, para servir ao uso do mercado imobiliário e BAUDRILLARD, J. Criar Polvo. Revista Quaderns, n. 236, p.
aos interesses das grandes corporações, será a cultura. 10-12, jan., 2003.
Assim, a “última guinada urbanística” tem forte
impacto e apelo cultural, de maneira a construir belos COMPANS, R. O Paradigma das Global Cities nas Estratégias
cenários citadinos repletos de elementos simbólicos, de desenvolvimento local. Revista Brasileira de Estudos
grandes fachadas e gentrificações permanentes.14 Urbanos e Regionais, n. 01, p. 91-114. maio, 1999.
Desta forma, o Largo da Batata deve ser
reconvertido para quem? Porque, como descreve
CRAWFORD (2001), as justaposições, combinações, CRAWFORD, M. Desdibujando las Fronteras: Espacio
encontros de pessoas, lugares, atividades diversas e Público y Vida Privada. Revista Quaderns, n. 228, p. 14-22,
inusitadas podem criar uma nova condição de fluidez jan., 2001.
social.15 Assim, talvez, esta heterogenidade social,
presente no largo, possa começar a romper as barreiras DUARTE, L. C. Os Mega Projetos ao longo do Rio Pinheiros.
invisíveis dispostas desde muito tempo na cidade de Folha de São Paulo, São Paulo, 04 abr. 2003.
São Paulo.
O Largo da Batata, circunscrito por entre os
edifícios de escritórios da Nova Faria Lima, pela EISENMAN, P. The Specter of Spectacle. Revista Casabella,
arquitetura construída sob a imagem da cultura de n. 673/674, p. 169-170, dez./ jan., 2000.
mercado emergente, que vem surgindo na Avenida
Pedroso de Morais, pelos canteiros centrais pontuados FARIAS, A. (curadoria). Edifício da Arte: espaços recentes
por vegetação difundidos pelo projeto Belezura (da de exposições construídos ou renovados. A recente Trajetória
recém derrotada prefeita petista), que vão desde o da Arte Brasileira – 2. São Paulo: Petrobrás / Instituto Tomie
Shopping Iguatemi (reduto da classe mais abastada Ohtake, 2002.
da cidade de São Paulo), até o Instituo Tomie Ohtake,
e pela nova passagem subterrânea construída sob a
FIORIN, E. São Paulo – As Marginais do Rio Pinheiros e os
Avenida Faria Lima, pode surgir como um terreno de
Megaprojetos Arquitetônicos do Capital Financeiro: Tempos
intersecção de identidades, servindo para uma ação
de Globalização. São Carlos, São Paulo: dissertação de
democrática da efetiva mistura de classes. Talvez, só
mestrado apresentada à EESC-USP, 2003.
sua permanência intocada garantirá formas de
sociabilidade que diminuam a exclusão urbana,
mesmo sob o rico pano de fundo da espetacularização FIX, M. Parceiros da Exclusão duas histórias da construção
criada pela imagem da arquitetura recente difundida de uma “nova cidade”. São Paulo: Boitempo, 2001.
pela cultura de mercado.
Referências Bibliográficas: HENRIQUES, M. B. Cultura é Negócio. In: Arte Pública:
trabalhos apresentados nos seminários de Arte Pública
ALMEIDA, J. C. R. (coord). Termo de Referência do Concurso
realizados pelo SESC e pelo USIS. São Paulo, SESC, 1998.
Público Nacional para Reconversão do Largo da Batata. São
Paulo: PMSP/ SEMPLA/ EMURB / IAB, 2001.

32
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

INSTITUTO Tomie Ohtake surge com grande festa. O Estado


de São Paulo, São Paulo, 27 nov. 2000, Caderno 2. Urbano no Brasil. III - Seminário de História da Cidade e do
Urbanismo. São Carlos, São Paulo: EESC-SAP, 1994. mimeo
NAZAWA, E. Levantamento Concurso Largo da Batata.
Bauru, São Paulo: Trabalho Final de Graduação apresentado WENDERS, W. A Paisagem Urbana. Tradução de Maurício
à FAAC-UNESP, 2002. Santana Dias. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, p. 181-189. Intervenção feita em inglês em um
OCKMAN, J.; ADAMS, N. Forme dello Spettacolo / Editorial/ colóquio de arquitetos japoneses realizado em Tóquio, em
12 de outubro de 1991, publicado em: La Verité des images,
. Revista Casabella, n. 673/674, p. 04-08, dez./ jan., 2000.
Paris: L’ Arché, 1992.

RAJCKMAN, J. Effeto Bilbao / Editorial/. Revista Casabella,


n. 673-674, p. 10-11, dez./ jan. 2000. Notas de Rodapé
1

ROLNIK, R. A Cidade e a Lei: legislação, política urbana e VILLAÇA, F.


territórios na cidade de São Paulo. São Paulo: Studio Nobel / Uma contribuição à História do Planejamento Urbano no Brasil
Fapesp, 1997. . III - Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. São
Carlos, São Paulo, EESC-SAP, 1994, p. 07. mimeo
_________. As Barreiras de São Paulo. Revista da Folha, n. “O rico vetor sudoeste é a área mais regulada da cidade do
468, 2001. ponto de vista da legislação urbana. Na lei de zoneamento
em vigor a porção sudoeste do mapa é dividida em dezenas
de microzonas, concentrando, numa pequena área da cidade,
SÁNCHEZ, F. Políticas Urbanas de Renovação: uma leitura a maior parte de suas categorias e subcategorias. No restante
crítica dos modelos emergentes. Revista Brasileira de de seu território, espalham-se pequenas manchas de zonas
Estudos Urbanos e Regionais, n. 01, p. 115-132, maio, 1999. industriais (Z6 e Z7 no zoneamento) e de áreas de potencial
de edificabilidade mais alto e concentrado, que permitem mais
SÃO PAULO Vira um Canteiro de Obras da Cultura. O Estado facilmente a construção de torres de ap
de São Paulo, São Paulo, 03 abr. 2001, Caderno 2. artamentos e escritórios e usos mais diversificados (a Z3 no
zoneamento), em um mar de Z2 que, de acordo com a atual
SEGRE, R. Ruy Ohtake. Contemporaneidade da Arquitetura lei de zoneamento, inclui tudo “que foi deixado para trás” – e
Brasileira. São Paulo: ABCP, 1999. corresponde a 70% da cidade.”
2

SERAPIÃO, F. Conjunto recusa mimetização e desafia lógica Cf. ROLNIK, R.


de mercado. Revista ProjetoDesign, n. 295, p. 46-59, A Cidade e a Lei: legislação, política urbana e territórios na
setembro, 2004. cidade de São Paulo. São Paulo, Studio Nobel / Fapesp, 1997,
p. 186.
3
SURGE a Nova Pedroso de Morais. Jornal da Tarde, São
Paulo, 12 fev. 2001. DUARTE, L. C. Os Mega Projetos ao longo do Rio Pinheiros.
Folha de São Paulo, São Paulo, 04 abr. 2003, p. 4.
VILLAÇA, F. Uma contribuição à História do Planejamento

33
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

4 14

FIORIN, E. SÁNCHEZ, F. Políticas Urbanas de Renovação: uma leitura


São Paulo – As Marginais do Rio Pinheiros e os Megaprojetos crítica dos modelos emergentes. Revista Brasileira de
Arquitetônicos do Capital Financeiro: Tempos de Globalização Estudos Urbanos e Regionais, Campinas, São Paulo, n. 01,
maio, 1999, p. 125.
. São Carlos, dissertação de mestrado apresentada à EESC-
15
USP, 2003, p. 51.
5 ARANTES, O. B. F. Cultura e Transformação Urbana.
ALMEIDA, J. C. R. (coord). Termo de Referência do Concurso In: PALLAMIN, V. M (org).
Público Nacional para Reconversão do Largo da Batata. São Cidade e Cultura: esfera pública e transformação urbana. São
Paulo, PMSP/ SEMPLA/ EMURB / IAB, 2001, p. 04. Paulo, Estação Liberdade, 2002, p. 69.
6 16

Ibid., p. 04. CRAWFORD, M. Desdibujando las Fronteras: Espacio


7 Público y Vida Privada.
Revista Quaderns
EDIFÍCIO da Arte: Espaços Recentes de Exposições
, Barcelona, n. 228, jan., 2001, p. 22.
Construídos ou Renovados. São Paulo, Instituto Tomie Ohtake
/ Petrobrás, 2002, p. 47.
8

OCKMAN, J.; ADAMS, N. Forme dello Spettacolo.


Revista Casabella, Milano, n. 673/674, dez./ jan., 200, p. 04.
9

HENRIQUES, M. B. Cultura é Negócio. In:


Arte Pública: trabalhos apresentados nos seminários de Arte
Pública realizados pelo SESC e pelo USIS. São Paulo, SESC,
1998, p. 266.
10

SERAPIÃO, F. Conjunto recusa mimetização e desafia lógica


de mercado. Revista ProjetoDesign, São Paulo, n. 295,
setembro, 2004, p. 58.
11

EISENMAN, P. The Specter of Spectacle. Revista Casabella,


Milano, n. 673/674, dez/jan, 2000, p. 169.
12

COMPANS, R. O Paradigma das Global Cities nas Estratégias


de desenvolvimento local. Revista Brasileira de Estudos
Urbanos e Regionais, Campinas, São Paulo, n. 01, maio,
1999, p. 97.
13

OHTAKE, R. apud SERAPIÃO, F. Op. Cit., 2004, p. 49.

34
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

“Práticas Investigativas em Educação Química”:


relato de uma experiência na disciplina de Didática

Iara Suzana Tiggemann


Mestre em Educação UFRGS
Professora da UNIFEV e do IMES-FAFICA

Resumo
O artigo descreve uma experiência que buscou conciliar ensino e pesquisa no Curso de Licenciatura de
Química da UNIFEV. Trata-se do programa “Práticas Investigativas em Educação Química”, desenvolvido no
ano de 2004 junto à disciplina de Didática. O artigo apresenta os objetivos da proposta, o seu desenvolvimento,
algumas dificuldades e resultados alcançados.

Palavras-chave: Educação. Química. Didática. Práticas investigativas.

35
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

como objetivo conhecer concepções sobre essa área


do conhecimento. O relatório final (Alves, A. P. et all,
Educação Química: primeiras aproximações 2003) evidenciou o interesse dos alunos em realizar
O programa “Práticas Investigativas em atividades como a que foi proposta, ao mesmo tempo
Educação Química” foi desenvolvido pensando nos em que dimensionou as dificuldades para sua
graduandos de Química da UNIFEV: uma clientela que execução1.
busca a Licenciatura, mas nem sempre almeja a Um dos problemas enfrentados pelos alunos
docência. Considerando esta particularidade, residiu na falta de planejamento: a ausência de um
elegemos a realidade educacional como campo de projeto que definisse com clareza o trabalho a ser
análise, uma vez que compreendemos que a realizado dificultou o desenvolvimento da pesquisa,
aproximação à escola de Ensino Médio pode suscitar o sobretudo, no que se referiu à análise e sistematização
interesse pelo exercício do magistério. Assim, por das informações obtidas. Como afirma Alves, “quanto
meio de interação entre pesquisa e ensino, teoria e menos experiente for o pesquisador, mais ele
prática, conhecimentos específicos e rudimentos precisará de estrutura, sob pena de se perder num
pedagógicos, buscamos aguçar o pensamento reflexivo emaranhado de dados dos quais não conseguirá extrair
dos alunos, no tocante às questões relacionadas à qualquer significado” (1991, p. 56).
educação de um modo geral, e ao ensino de Química, Além desse fator, por constituir-se numa
de modo específico. atividade não prevista no Plano de Ensino da disciplina
A idéia de desenvolver um trabalho de pesquisa de Didática, não foi possível o desenvolvimento de
no curso de licenciatura em Química amadureceu com leituras pertinentes às questões metodológicas, e a
a atividade realizada com alunos que cursavam a insuficiência de conhecimentos de cunho técnico
segunda série no ano de 2003. Nesse ano, um grupo desencadeou um trabalho um tanto precário. Nesse
constituído por 11 alunos (50% da turma) reagiu a uma sentido, é preciso dar a mão à palmatória e corroborar
provocação realizada em aula, após o estudo de um com Alves quando expressa que
artigo que discute o ensino de química nas escolas de
ensino médio (Santos & Schnetzler, 1996).
Apresentando inúmeros problemas na área de conduzir um estudo qualitativo, com o rigor necessário à
Educação Química, o texto, fruto de uma pesquisa de produção de conhecimento relevante é bem mais difícil do que
Mestrado, chega a seguinte conclusão: possa parecer. O crescente prestígio das abordagens qualitativas
não tem sido, na prática, acompanhado pela utilização
adequada de metodologias que permitam lidar de maneira
competente com o problema proposto (...) o que faz com que
o ensino de Química atual não atende nem aos objetivos da muitos estudos ditos qualitativos não passem de relatos
formação da cidadania nem a outro objetivo educacional: sua impressionistas e superficiais que pouco contribuem para a
desestruturação é tal (...) que ele não serve para nada. (1996, p. construção do conhecimento e/ou a mudança de práticas
33). correntes (1991, p. 54).
Essa afirmação gerou discordância e resistência
por parte de alguns alunos e resignação e conivência
O grande mérito da atividade realizada foi aguçar
da parte de outros. No calor do debate, surgiu a
o interesse pela investigação científica, numa área
seguinte questão, que veio configurar-se mais tarde
fecunda de estudos - a Educação Química.
como um problema de pesquisa: “Qual, afinal, é a
imagem que os alunos têm da Química?” Produzindo reações
Deste desafio, construiu-se uma prática Pensando na formação docente, entendemos que
investigativa intitulada “Idéias e imagens sobre a a prática de pesquisa é uma modalidade que pode
Química: representações de alunos da UNIFEV”, que teve propiciar uma vivência concreta das ações que
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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

constituem o trabalho do educador – planejamento, desenvolvimento e avaliação de atividades de


execução, avaliação. Num processo de ação-reflexão- pesquisa; promover o trabalho em equipe entre os
ação permanente, esses elementos estão imbricados acadêmicos e a interação com os sujeitos de pesquisa
e podem ser experimentados e desenvolvidos com a (alunos e professores de Ensino Médio, acadêmicos de
prática investigativa. Licenciatura em Química, etc);
Coêlho (1995, p. 40), ao repensar a formação „ desenvolver uma postura crítica,
de professores nos cursos de Licenciatura, argumenta responsável e ética no desenvolvimento da pesquisa
que e em relação aos resultados obtidos.
O programa uma vez inserido nas disciplinas de
Didática (I e II) concorreu durante os dois semestres
não basta formar os professores como técnicos e especialistas com os conteúdos curriculares específicos, tendo
no ensino de determinada disciplina ou conteúdo e nas questões envolvido todos os alunos do 3o e 4o períodos da
de ensino, didático-metodológicas, curriculares e de avaliação, Licenciatura. As pesquisas, de caráter qualitativo,
ou seja, docentes capazes de transmitir os conhecimentos e as foram desenvolvidas considerando três grandes
descobertas das ciências, das letras e da filosofia (...) O domínio etapas: (a) período exploratório, (b) investigação
dos conteúdos, o desenvolvimento da capacidade de selecioná- focalizada e (c) análise final e elaboração do relatório
los, ordená-los e hierarquizá-los, a aprendizagem dos métodos (Alves, 1991).
e técnicas para sua transmissão aos alunos e o estudo da
No “período exploratório” foram desenvolvidas as
organização da escola, do processo de ensino-aprendizagem, da
psicologia da criança e do adolescente, por si só, não garantem seguintes atividades:
uma adequada compreensão do que ocorre na escola e 12. Organização de grupos de 4 a 5 elementos
principalmente não propiciam condições para sua para selecionar um tema relacionado à educação e
transformação. merecedor de estudos.
13. Reflexão acerca da operacionalização da
pesquisa e da relevância do tema.
14. Construção do projeto propriamente dito:
Partilhando dessa perspectiva de análise, no ano
delimitação do problema de pesquisa;
de 2004 foram incluídas atividades de pesquisa nas
disciplinas Didática I e Didática II, no curso de „ apresentação de justificativa pertinente;
Licenciatura em Química. Construiu-se o programa „ elaboração dos objetivos da pesquisa;
guarda-chuva denominado “Práticas Investigativas em „ seleção das atividades de pesquisa;
Educação Química”, que teve como objetivos: „ elaboração de cronograma de atividades.
„ despertar os acadêmicos para as questões Na “investigação focalizada” estavam previstas
educacionais, suscitando o interesse pela prática de as atividades abaixo-relacionadas:
pesquisa e docência na área de Educação Química; „ Levantamento bibliográfico.
„ propiciar o conhecimento da realidade „ Pesquisa bibliográfica (revisão de
educacional, no que diz respeito ao ensino de Química literatura) do tema escolhido.
de um modo particular, e ao Ensino Médio de um modo
„ Estudo de textos referentes às técnicas de
geral, por meio de contato direto com essas instâncias
pesquisa.
e por intermédio de bibliografia específica;
„ proporcionar o aprendizado de construção Pesquisa de campo:
de projeto de pesquisa, bem como, promover o
conhecimento de métodos de pesquisa empregados na
área das Ciências Humanas;
„ desenvolver capacidades de planejamento,

37
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

Elaboração de instrumento(s) de coleta de pouca tradição em pesquisa educacional.


dados (entrevista, questionário, roteiro de Devido à falta de tempo para a realização das
pesquisas, a inexperiência dos alunos, a falta de
observação, etc ...). oportunidades em reunir os grupos em horário diverso
„ Aplicação do instrumento de coleta de dados. às aulas, dentre outros aspectos citados pelos próprios
alunos na avaliação do processo de investigação, nem
„ Tabulação dos dados obtidos e/ou criação de todos os grupos conseguiram cumprir com seus
categorias de análise. cronogramas e concluir satisfatoriamente os seus
trabalhos.
„ Análise dos dados obtidos. No entanto, apesar das dificuldades – expressas
por 82% dos alunos – a iniciativa foi considerada
„ Articulação/confronto dos resultados obtidos
positiva. 50% dos participantes entenderam que a
com as informações da pesquisa bibliográfica realizada. realização do trabalho foi importante na sua formação
„ E, finalmente, na última etapa do projeto: como futuros educadores; 43% expressaram que a
iniciativa conseguiu conciliar teoria e prática. Um
„ Produção de relatório final da pesquisa. outro dado importante refere-se ao entendimento que
a pesquisa pode contribuir para a melhoria do ensino
„ Divulgação e discussão dos resultados. de Química nas escolas de Ensino Médio na opinião
de 97% dos acadêmicos envolvidos.
O processo e o produto Com o desenvolvimento da pesquisa, 79% dos
No primeiro semestre de 2004, foram participantes entendem que modificaram seu
construídos um total de oito projetos de pesquisa, quais comportamento como acadêmicos. Na opinião dos
sejam: “O ensino de Química e a reciclagem de lixo”; participantes, a principal mudança refere-se à maior
“O conhecimento de normas de segurança em freqüência à biblioteca (18% das respostas); maior
laboratórios por parte dos alunos de Licenciatura em interação com colegas e/ou professora (18%); maior
Química”; “A falta de profissionais licenciados em interesse sobre as questões relacionadas à educação
Química nas Escolas de Ensino Médio”; (13%); maior envolvimento com a disciplina de
“Conhecimentos Básicos de Química e suas aplicações Didática (9%).
no cotidiano”; “Concepção dos cidadãos sobre o ensino Nas respostas dos alunos também ficam claras
da Química”; “O ensino de Química e a dificuldade de aprendizagens significativas realizadas no decorrer do
aprendizagem dos alunos”; “Jogo: um mecanismo para trabalho. Em relação ao conteúdo, alguns depoimentos
se aprender Química”; “O Ensino da Química e a evidenciam o aprofundamento das temáticas:
prevenção da poluição”. Dos oito projetos, sete foram
desenvolvidos. As conclusões preliminares foram
apresentados na Semana da Química da UNIFEV (16 a Pude notar que o ensino de Química é mal visto, que estão se
19 de novembro de 2004), ocasião em que os fazendo ações para mudar tal visão, que os professores estão
participantes do evento puderam conhecer as buscando vários recursos para tornar essa disciplina mais
pesquisas realizadas nessa área educacional. interessante. Porém, ainda me defronto com pessoas que não
gostam da Química, principalmente pelo fato de não
Ao final de cada etapa do programa, foi utilizado
compreendê-la. (Rafael – “Concepção dos cidadãos sobre o
um instrumento de auto-avaliação e avaliação do ensino da Química”).
processo de investigação. Os dados desses
instrumentos foram parcialmente estudados e
possibilitam algumas reflexões acerca da experiência
realizada junto à disciplina de Didática num curso de Ou ainda:

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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

questionário, aprendi que questionário e entrevista


são diferentes. Isso fora a experiência que será única
É através do jogo que o aluno consegue quebrar obstáculos, porque às vezes os resultados de uma pesquisa podem
desde que o professor saiba aplicá-lo em sala de aula para que nos surpreender. (Vanessa – “Jogo: um mecanismo
não aconteça rivalidade entre os alunos e com isso poderá causar para aprender Química”)
um efeito contrário. Que também o jogo é um ótimo recurso,
pois com ele o aluno se esforça para atingir um objetivo, mas
brincando. (Antônio Carlos – “Jogo: um mecanismo para Além disso, os alunos evidenciaram
aprender Química”) preocupação com o ensino, e nesse sentido, os
depoimentos dos alunos mostram uma nova
articulação com a docência:
Podemos através desta pesquisa detectar os
vários problemas que causam a falta de professores
de Química: baixos salários, salas super-lotadas, áreas
Adquiri uma consciência mais atenta ao que é feito com relação
mais atrativas, poucas horas-aula por semana, falta
à preservação do meio ambiente, por notar o que tem sido feito
de apoio governamental. (Jesus Leonardo “A falta de nesse sentido pelas escolas através dos professores e o interesse
professores licenciados em Química no Ensino Médio”) dos alunos, bem como o importante papel que a Química
Em relação às etapas de um projeto de pesquisa desenvolve nesse sentido. (Agnaldo – “O ensino de Química e a
e aos métodos empregados em Ciências Humanas reciclagem de lixo”)
os alunos também registraram a aquisição de novas
aprendizagens. Com o projeto aprendi a compreender a importância de se
preocupar com a maneira de ensinar determinada disciplina,
porque o que se aprende bem aprendido no Ensino Médio (que
depende muito do professor) poderá ajudar muito o educando a
Consegui aprender a importância do planejamento para que
escolher a profissão a seguir (Ligie – “Concepção dos cidadãos
um trabalho seja de qualidade. E mesmo planejando, é difícil a
sobre o ensino da Química”)
realização – dados teóricos, pesquisa de campo, organização.
(Rodrigo – “O ensino de Química e a reciclagem de lixo”)

Importante observar como os alunos se colocam


Tive conhecimentos muito bons, como analisar e pesquisar em no lugar de professores e o quanto as temáticas
vários livros, tive também conhecimento sobre o assunto. desenvolvidas em suas pesquisas refletem na forma
Realizamos questionário para avaliar os alunos do curso de
de se posicionarem sobre o ensino:
Química. (Ana Claudia – “O conhecimento de normas de
segurança em laboratórios por parte dos alunos de Licenciatura
em Química”)
Tentamos estudar as dificuldades que os alunos se deparam ao
começar estudar Química. Às vezes não sabem pra quê e porque
No desenvolvimento do trabalho aprendi muito sobre está estudando aquela matéria. Pra que vai (sic) servir aqueles
metodologia. Durante a pesquisa e as correções pude aprimorar conhecimentos transmitidos em aula. Serviu pra eu ver como
a organização do texto. (...) Foi uma rica experiência que com vou ser recebida em uma sala de aula quando vou dizer que sou
certeza muito acrescentou ao nosso cotidiano quando professora de Química. Muitos irão olhar assustados, pois nem
exercemos a profissão de professor (Alcides – “Conhecimentos sabem o que é, mas já detestam, e outros terão a curiosidade de
básicos de Química e suas aplicações no cotidiano”) saber sobre determinados conteúdos. (Flávia – “O ensino de
Química e a dificuldade de aprendizagem dos alunos”)
Essa pesquisa foi muito interessante. Primeiro
porque aprendi a fazer uma pesquisa, porque essa é
minha primeira pesquisa. Também aprendi com as Os conhecimentos por mim adquiridos com a
bibliografias, aprendi a elaborar entrevistas, elaborar pesquisa exploraram uma área que há bem pouco
39
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

tempo nem pensava em seguir que é ser professor.


Hoje já penso com carinho nesta possibilidade e talvez que os alunos se envolvessem com a realidade
daqui a dois ou três anos já esteja dando uma aulinha educacional, a partir de um tema escolhido para
por aí. (Edson – “A falta de professores licenciados em estudo. Corroboramos com Aragão e Schnetzler (1995)
Química no Ensino Médio” ) que entendem que pesquisar sobre o ensino pode
Nessa perspectiva vale lembrar Fiorentine contribuir para desmistificar a visão muito simplista
(2004) quando afirma que o aluno durante o processo em torno da atividade docente, como se para ensinar
investigativo aprofunda seus estudos em torno de bastasse uma dose de conteúdo específico e uma poção
temas de seu interesse, que atendam suas de técnicas pedagógicas.
perspectivas e possibilidades. Mas ao investigar, o Entendemos também que o engajamento mais
mais importante não é o que se aprende e, sim, “o crítico e reflexivo em torno das questões educacionais
espaço que se abre para as experiências deve incidir não só sobre a formação dos licenciandos,
autenticamente formativas” (p. 246). Na visão deste mas a médio e longo prazo pode refletir na melhoria
autor: da qualidade do ensino da Química no Ensino Médio.
Considerando que os professores reproduzem em
sua sala de aula o mesmo tipo de prática vivenciada
O futuro professor que participa de projetos investigativos pode ao longo de sua formação (Cunha, 1997; Tardif, 2002)
ser visto como principal protagonista de seu próprio movimento
esperamos que experiências similares sejam
histórico de vir a ser professor cuja formação profissional inicia
antes de seu ingresso na licenciatura – pois, enquanto estudante
construídas e que possam ser desenvolvidas atitudes
da escola básica, experienciou e internalizou modos de produzir que privilegiem o questionamento, a discussão, o
e viver a prática educativa – e continuará a desenvolver-se após diálogo aberto e construtivo, a reflexão, a análise
concluí-la, tendo a própria prática como campo de reflexão e de crítica da realidade, o discernimento entre fatos e
produção de conhecimentos. Ou seja, o licenciando é visto como evidências, a procura de soluções para os problemas e
um sujeito que é passado, presente e apresenta um a criação de alternativas, ultrapassando, assim, a
multiciplicidade de futuros possíveis (Fiorentini, 2004, p. 246). mera recepção passiva dos conhecimentos tão
arraigada em nossa tradição escolar.
m sendo, o aluno-pesquisador constitui-se ao
mesmo tempo como “produto e produtor da história e Referências Bibliográficas
de seu processo intelectual e humano” (ib, 2004, p.
246). Os conhecimentos apreendidos não dizem
respeito a uma realidade exterior: ao falar do ensino, ALVES, A. P; BÉRGAMO, D. J; CABRAL, F. B.; CAMARGO,
da educação, está se posicionando, falando também L. C; DINIZ, D. ; PUPIM, M; SILVA, J. ; SILVA, M. L. ;
de si como futuro professor. TEODORO, E. R. ; TESSARI, V. A; TIGGEMANN, I. S. “Idéias
e imagens sobre a Química: representações de alunos da
UNIFEV”. Votuporanga – SP, novembro 2003. (digitado)
Considerações finais: o efeito em cadeia
Apesar das dificuldades encontradas no decorrer ALVES, Alda Judith. O planejamento de pesquisas qualitativas
do processo, relacionadas, sobretudo à reduzida carga em educação. Caderno de pesquisa. São Paulo (77), maio/
horária da disciplina de Didática (duas horas/aula 1991.
semanais), entende-se que a iniciativa atingiu alguns
de seus principais objetivos.
De modo especial, destacamos que a ARAGÃO, Roseli M. R.; SCHNETZLER, Roseli Pacheco.
experiência de integrar ensino e pesquisa possibilitou Importância, sentido e contribuições de pesquisas para o
ensino de Química. Química Nova na Escola. N. 1, maio

40
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

1995.

COÊLHO, Ildeu Moreira. Questões para pensar a formação


de professores. Anais Prolicen. I Encontro de
Licenciaturas. Universidade Federal de Santa Maria, Santa
Maria –RS, 1995.

CUNHA, Maria Isabel da Cunha. O bom professor e sua


prática. 6 ed. São Paulo : Papirus, 1997

FIORENTINI, Dario. A Didática e a Prática de Ensino mediadas


pela investigação sobre a prática. ROMANOWSKI, Joana P;
Martins, Pura L. O. ; JUNQUEIRA, Sérgio A. (Orgs.)
Conhecimento local e conhecimento universal: pesquisa,
didática e ação docente. Vol. 1. Curitiba: Champagnat, 2004.

SCHNETZLER, Roseli Pacheco; SANTOS, Wildson Luiz.


“Função social: o que significa ensino de Química para formar
o cidadão?” Química Nova na escola. N. 4. Nov, 1996.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação


profissional. Petrópolis-RJ : Vozes, 2002.

41
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

42
Evolução do tempo
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

a (10-
1
10m)

T0(10-1-
1,155
5 s)

Tempo de Tunelamento Quântico

Angelo Rober Pulici


Mestre em Biofísica pela UNESP
Especialista em Astrofísica pelo IAG-USP
Professor de Física na UNIFEV

Resumo:
Neste trabalho é analisada a transposição de barreiras com energias inferiores à barreira de potencial
e são estudados sistemas de dois estados na presença de perturbação, observando a oscilação de um estado
para outro com freqüência proporcional à perturbação. Em um poço duplo simétrico ou assimétrico, quando os
níveis de energia em cada poço eram iguais, ou seja, estão situados na mesma profundidade, caracterizando
um sistema ressonante, verifica-se que a probabilidade de tunelamento é máxima. Nesses sistemas a
probabilidade de transição possibilita determinar o tempo de tunelamento característico.

Palavras-chave: Efeito Túnel. Tunelamento Quântico. Física Quântica.

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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

Introdução diferença entre os dois níveis de energia mais


Uma partícula de massa M e energia total E, próximos. Verifica-se em situações de ressonância
incidente sobre uma barreira de potencial de altura que uma perturbação entre dois estados de energia
U ° > E largura L finita, tem na realidade certa produz, no sistema, uma oscilação de um estado para
probabilidade de penetrar na barreira e surgir do outro outro com freqüência proporcional à perturbação (por
lado. Esse fenômeno puramente quântico é exemplo, na amônia, no benzeno e no íon) H +2.
denominado efeito túnel, que consiste na propriedade
da partícula transpor barreiras de potencial,
penetrando em regiões classicamente proibidas,
conforme visto na figura 1.
Barreira de potencial
Na barreira de potencial, a razão entre o fluxo
de probabilidade transmitido através da barreira para
a região x > L e o fluxo de probabilidade incidente sobre
a barreira é o coeficiente de transmissão que é
descrita pela equação (1):

(1)

Onde: k é o parâmetro da região dentro da


barreira, e é dado pela expressão (2):

(2)
Figura 1: Uma função de onda para uma partícula tunelando através da
barreira de potencial com Se os expoentes forem muito grandes, com
Observa-se, na figura 1, que a função de onda kL>>1, a equação (1) se reduz a:
é exponencial dentro da barreira e senoidal fora
(3 )
dela. As funções devem se unir suavemente nas
fronteiras x = 0 e x = L, e a função de onda e suas
derivadas devem ser contínuas. O coeficiente de transmissão é praticamente
O processo de tunelamento é importante no
nulo no limite clássico, porque nesse limite a
movimento de prótons em ligações de hidrogênio, na
transferência de elétrons em proteínas, na grandeza , que é a opacidade da barreira é
fotossíntese de bactérias, na inversão intramolecular muito elevada.
da amônia, no diodo túnel e possivelmente em Historicamente, a primeira aplicação da teoria
sinapses de neurônios. quântica de penetração de barreiras por partículas foi
Um aspecto relevante a ser discutido é o
fenômeno da ressonância nas transições quânticas devido à emissão de partículas no decaimento de
em sistemas unidimensionais, como o poço duplo núcleos radioativos. Em torno de 1910, Rutherford e
quadrado simétrico e assimétrico, na presença de uma outros realizaram experiências de espalhamento com
perturbação com dois estados discretos acoplados, em o núcleo de urânio 238 U, pesquisando a energia
que o tempo de tunelamento está relacionado com a potencial de uma partícula a certa distância do
44
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

centro do núcleo. Em 1928, Gamow, Condon e Gurney


Esse tempo de tunelamento pode ser obtido por
consideraram a emissão de partículas como um
problema quântico de penetração de barreiras. A meio da fórmula de Rabi (4), que fornece a
equação (3) foi utilizada no calculo do coeficiente de probabilidade de transição do sistema entre o estado
transmissão , pois o expoente kL é tão grande que anterior e o estado posterior durante um
a exponencial domina totalmente o comportamento tempo, ou seja: (4)
de , e foi suficiente aplicar: .
A penetração de barreiras por átomos ocorre na
inversão periódica da molécula de amônia NH 3, em
que o átomo de nitrogênio oscila lentamente, através Sendo a perturbação entre dois estados
do plano dos átomos de hidrogênio. A freqüência de com níveis de energia idênticos (E1=E2) caracterizando
oscilação é aproximadamente igual a 23,8 GH z quando um sistema ressonante e produzindo uma oscilação
a molécula está no seu estado fundamental. de um estado para outro com freqüência proporcional
O diodo túnel é um componente semicondutor à perturbação.
utilizado em circuitos eletrônicos rápidos, onde se nota Um fato proposto por Landau, quando dois
a penetração de barreiras por elétrons, operando com níveis de mesma energia, ou seja, localizados na
freqüências superiores a 100 GH z . mesma profundidade do poço duplo, e cada nível situado
Como o coeficiente de transmissão dado pela em cada um dos poços, verifica-se a ocorrência de um
desdobramento gerando dois novos níveis (E+ e E- ). O
equação (1) possui dependência da massa, podem ser
tunelamento torna-se mais propício quanto maior for
analisados dois casos específicos, um para o elétron e
outro para o próton com a mesma energia incidente E a abertura (E+ - E-) dessa duplicação; sendo que ela é
mais evidente para níveis duplicados mais elevados,
= 1 eV passando por uma barreira de potencial U0= 2
ou seja, mais próximos do topo da barreira de potencial.
eV e largura L = 10 -10 m.
Esse desdobramento é produzido por funções de onda
Resultando para o elétron um coeficiente de
que podem ser aproximadas por meio de uma
transmissão = 0,777 e para o próton, um valor muito
combinação linear simétrica e anti-simétrica das
pequeno, = 3,6 x 10-19. autofunções originais. Assim, o potencial biestável
pode ser formado por intermédio da junção de dois poços
simples, sendo que a distribuição de energia é cada
Tempo de Tunelamento vez mais relevante à medida que os poços são
O tempo de tunelamento foi calculado para o aproximados. Para obter a probabilidade de transição
potencial de poço duplo quadrado unidimensional em função do tempo P12 (t) é necessário saber qual é o
simétrico e assimétrico, conforme descrito na figura valor da perturbação W12, que é calculada através das
2. expressões (5) e (6), efetuando a diferença entre E+ e
E-, que são valores já conhecidos.
E+ = Em + W 12 (5)
E - = E m - W 12 (6)
Observa-se que P12 (t) oscila com uma
freqüência igual a (E + = E -) l h, que é conhecida como
a freqüência de Bohr do sistema. A probabilidade P12
(t) varia entre zero e um valor máximo igual a

Figura 2: Poço duplo quadrado unidimensional simétrico e assimétrico. que se torna igual a 1,
45
A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

quando os estados e têm a mesma energia assimétrico ressonante e o tempo de tunelamento.


não perturbada , e a freqüência de Bohr Mantendo a largura e a distância entre os poços
é igual a . Nesta condição, a fórmula constantes, nota-se uma diminuição no tempo de
de Rabi (7) se reduz a: transição quando a profundidade do poço decresce,
(7) tornando o tunelamento favorável.
Verifica-se para energias muito menores em
relação à barreira que a ocorrência de tunelamento é
E o tempo de tunelamento pode ser pequena; mas, quando ela estiver próxima do topo da
determinado pela equação (8) descrita a seguir: barreira, a possibilidade de tunelamento é grande,
sendo evidente que o elétron pode penetrar na barreira
com relativa facilidade.
No poço duplo assimétrico, a transição entre os
(8) estados inicial e final depende se o caso é ou não
ressonante. No caso ressonante, que corresponde ao
Resultados numéricos estado excitado, há correspondência dos níveis de
Considerou-se um sistema composto de um energia, propiciando a oscilação da partícula entre os
elétron sujeito a um potencial de poço duplo quadrado poços; no caso não ressonante tal fato não ocorre e o
unidimensional simétrico e assimétrico para tunelamento é desfavorecido. Observa-se que o estado
determinação dois níveis de energia e do tempo de fundamental está localizado apenas no lado com maior
tunelamento, assumindo sempre energias inferiores profundidade do poço duplo assimétrico e, devido à
que a barreira. Utilizou-se, inicialmente, para a assimetria, não possui correspondente no poço de
largura dos poços e a distância entre eles, profundidade menor, portanto, essa situação não
respectivamente, os valores de 1 x ,e2x . permite o tunelamento.
Mantendo a profundidade e a largura do poço duplo
Os valores obtidos são apresentados nas tabelas (3) e
constantes e variando a distância entre os poços, pode-
(4).
se aumentar ou diminuir a largura da barreira;
conseqüentemente, o tunelamento pode ser alterado.
Tempo de Tunelamento no Poço Simétrico
Foi atribuído para o poço duplo simétrico uma largura
U0 (e V) 50,000 100,000 300,000 de 1 x 10-10 m e uma profundidade de 50 eV. Na tabela
T 0 (10-
15s)
1,555 6,014 413,800 (5) tem-se a relação entre o tempo de tunelamento T0
T1 (10-
- 0,291 16,550
e a distância d entre os poços; sendo T0 o tempo de
15s)
T2 (10-
tunelamento para o estado fundamental. Tabela 5: O
- - 0,829
15s)
Tabela 5 : O tempo de tunelamento T0 em função da
distância d no poço duplo simétrico.
Tabela 3: Relação entre o potencial no poço
Através dos dados obtidos da tabela (5) pode-se
simétrico e o tempo de tunelamento.
concluir que se o valor do parâmetro d diminui.
Mantendo os demais parâmetros fixos, a largura da
Tempo de Tunelamento no Poço Assimétrico barreira diminui. Nessas condições, a diferença entre
Ressonante
E+ e E- aumenta levando a um tempo de tunelamento
Potenciais U0 e U 1 (e
V)
50,000 e 130,618 T0 menor. Portanto, a passagem de uma partícula pela
barreira nessa ocasião é mais rápida e o tunelamento
Tempo (10-16 s) 8,497
mais efetivo. Quando d for muito grande (d >> 0),
verifica-se no poço duplo simétrico que E+ é igual a E-
que por sua vez ambos são iguais a E no poço simples,
Tabela 4: Relação entre o potencial no poço

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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

devido à ocorrência do afastamento dos poços. e E- diminui, desfavorecendo o tunelamento. Portanto,


Agora, mantendo inalteradas a profundidade e a níveis menos profundos conduzem a tempos de
distância entre os poços e variando a largura deles, tunelamentos menores.
pode-se aumentar ou diminuir a largura da barreira; Outro parâmetro analisado foi a profundidade do
conseqüentemente, o tunelamento, nesse caso, poço duplo simétrico indicado pelo valor de U 0 .
também pode ser alterado. Alterando seu valor, com os demais parâmetros
Foi estabelecido para o poço duplo simétrico uma permanecendo fixos, o tunelamento, também, é
profundidade de 50 eV e uma distância entre os poços modificado. Foi utilizado para a distância entre os
igual a 2 x 10-10 m. Na tabela (6) tem-se a relação entre poços o valor de 2 x 10-10 m e para largura dos poços o
o tempo de tunelamento T0 e a largura a do poço duplo valor de 1 x 10-10 m . Na tabela (3) tem-se a relação
simétrico. entre o tempo de tunelamento T 0 , T 1 e T 2 com o
potencial U0 do poço duplo simétrico, sendo T0 o tempo
de tunelamento devido à duplicação do estado
Evolução do tempo de tunelamento em função da fundamental, T1 o tempo de tunelamento devido à
distância (d) duplicação do primeiro estado excitado e T2 o tempo
de tunelamento devido à duplicação do segundo estado
d (10-10 excitado, quando estes dois últimos existirem. Por
1,5 2 2,5 meio dos dados que a tabela (3) apresenta, pode-se
m)
concluir que, ao aumentar o potencial U0, isto é, a
profundidade da barreira do poço simétrico, verifica-
T0 (10-15 se que o tunelamento no estado fundamental torna-
0,293 1,155 4,421
s) se menos favorável. Agora, quanto maior for o nível de
energia E n e considerando E n < V 0 , nota-se um
acréscimo da probabilidade de transição de um poço
para o outro. Então, no primeiro estado excitado uma
Tabela 6: O tempo de tunelamento T0 em função partícula efetua o tunelamento com maior rapidez do
da largura a no poço duplo simétrico. que estando no estado fundamental, para um mesmo
potencial U0.
Por intermédio dos dados fornecidos pela tabela Essas observações estão de acordo com o
(6), pode-se concluir que se o valor do parâmetro a esperado, no que diz respeito à transposição de um
aumenta, mantendo os demais parâmetros poço para outro. Uma partícula que está mais próxima
inalterados, a partícula atravessa a barreira em um do topo da barreira tem probabilidade maior de
tempo menor; ou seja, o tunelamento é favorecido. Isso tunelamento.
ocorre, pois, efetivamente, o aumento de a implica
que a largura da barreira diminui. Um aspecto Conclusão
interessante que pode ser notado é quando o valor do A análise realizada da dependência dos níveis
parâmetro a cresce: ocorre um incremento de novos de energia com os parâmetros geométricos do poço
níveis de energia no poço duplo simétrico e, também, duplo simétrico possibilitou verificar que a diminuição
surge uma diminuição no valor dos níveis de energia da largura da barreira favorece o tunelamento. Notou-
existentes. O fato dos níveis de energia baixarem se que, se o valor da distância entre os dois poços (d)
quando se aumenta o valor do parâmetro , mantendo diminuir, mantendo os demais parâmetros constantes
a largura da barreira constante e deixando os poços (a e U0), a diferença entre E+ e E- sofre um aumento
mais largos e distantes, indica que os autovalores da levando a um tempo de tunelamento T0 menor. Logo,
energia tendem a ser menores e a diferença entre E+ a passagem de uma partícula pela barreira nessa

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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

condição é mais rápida, ou seja, o tunelamento é mais propício.


efetivo. Quando o valor do parâmetro a aumenta, Não foram identificadas, nesta pesquisa,
mantendo os demais parâmetros inalterados, a velocidades superluminais no tunelamento de
partícula atravessa a barreira em um tempo menor; elétrons, mas certos trabalhos apontam para essa
ou seja, o tunelamento é favorecido. Ainda sobre o possibilidade, porém sem violar a Teoria Geral da
aumento do valor do parâmetro a, pôde ser visto o Relatividade de Albert Eisntein. Nos últimos anos, o
aparecimento de novos níveis de energia no poço duplo movimento ondulatório superluminal foi predito
simétrico, assim, como a diminuição dos autovalores teoricamente e verificado experimentalmente, e
de energia já existentes, aproximando os níveis do velocidades de grupo superluminais foram observadas
fundo do poço. A elevação da profundidade da barreira na propagação de ondas eletromagnéticas em meios
de potencial U 0 proporcionou dificuldade no dispersivos, no tunelamento de elétrons e de
tunelamento. Contudo, quanto maior for o nível de microondas. Um exemplo desse fato é o tunelamento
energia, desde que ainda menor que a altura da de microondas efetuado por Gunter Nimtz em 1994. A
barreira de potencial, percebeu-se um acréscimo na frente de onda nunca pode ultrapassar a velocidade
probabilidade de transição de um poço para o outro. da luz (c), mas é possível ocorrer uma reformatação de
Então, conclui-se que no primeiro estado excitado, uma pulso da onda, de maneira que a velocidade de grupo
partícula tem a capacidade de efetuar o tunelamento (do “centro de massa” do pacote) ou do sinal (inicio da
com maior rapidez do que estando no estado parte principal do pacote) ultrapasse a velocidade da
fundamental, para um mesmo potencial luz.
U0considerado.
Na aproximação de dois poços simples formando
um poço duplo, observou-se que para um determinado Bibliografia
valor da barreira de potencial, cada autovalor da Cohen-Tannoudji C., Quantum Mechanics, Wiley
energia no poço simples gerou dois autovalores da Interscience, New York (1977).
energia distintos no poço duplo simétrico, cujo valor
médio obtido foi próximo daquele encontrado no poço
simples. Greiner W., An Introdution Quantum Mechanics, Springer-
Notou-se no poço duplo ressonante a ocorrência Verlag, Berlin (1994).
de um desdobramento dos níveis de energia,
duplicando-os em relação aos do poço simples, sendo Landau L. D. e Lifshitz E. M., Quantum Mechanics,
a diferença de energia cada vez mais acentuada à Nonrelativistic Theory, Pergamon Press, Oxford (1965).
medida que os poços aproximam-se entre si. Esse
efeito reforça a idéia de que o potencial biestável pode
ser formado através da junção de dois poços simples. Eisberg R. e Resnick R., Física Quântica, Editora Campus,
Para o poço duplo assimétrico essa aproximação é Rio de Janeiro (1979).
menos efetiva que para o poço simétrico. Isso pode
ser comprovado através da média das energias obtidas Gasiorowicz S., Física Quântica, Editora Guanabara Dois,
entre dois níveis próximos para o poço duplo Rio de janeiro (1979).
assimétrico, que não corresponde ao valor do nível de
energia do poço simples.
Foi possível perceber que quando os níveis de Feynman R. P., Leighton R. B. e Sands M., The Feynman
energia estiverem mais próximo do topo da barreira, Lectures on Physics, Vol. 3: Quantum Mechanics, Addison-
maior é a abertura entre os níveis duplicados e Wesley, Mass. (1965).
conclui-se que nessa situação o tunelamento é mais

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A REVISTA PESQUISAS EXATAS DA UNIFEV Nº 1 JAN/JUL 2006

Atkins P. W. e Friedman R. S., Molecuar Quantum Steinberg, A.M.; Kwiat, P.G. e Chiao, R.Y., Measurement of
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Instruções aos Autores Os trabalhos para publicação deverão atender às


seguintes normas:
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